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Entrevista com Marie Salles e Karla Monteiro Por Carolina Bassi e Rosane Muniz É muito importante a criação de um espaço maior para dar voz aos trabalhos de bastidores na criação de trajes de cena. Com a intenção de registrar um processo cheio de detalhes e refletir sobre o processo criativo para a linguagem televisiva, decidimos realizar uma viagem pela criação de figurinos para a novela Cordel Encantado com a ajuda das duas figurinistas. Boa aventura! Vocês são amigas há mais de vinte anos. Mesmo assim, é mais fácil criar individualmente ou funciona bem em parceria? Nós nos conhecemos trabalhando com figurino. Trabalhamos juntas algumas vezes e acompanhamos uma o trabalho da outra ao longo desse tempo todo. A parceria vem de uma amizade, de uma conhecer a outra e do respeito que dividir um trabalho exige, afinal, uma parceria funciona quando combina uma série de fatores, mas o principal é a amizade que vem junto, com uma frase que aprendemos no cinema: ”Vale o que está combinado!”. Dividir um trabalho traz certo conforto, principalmente como nesse trabalho, quando a escolha é nossa. No caso do Cordel, que tinha um universo amplo para criação, foi mais fácil junto. Mas não existe uma receita de bolo, depende do trabalho (do texto, dos diretores, do tempo etc.). A novela ficou quase seis meses no ar e vocês tiveram somente um mês de pesquisa para a definição dos trajes e a escolha dos estilos de Cordel (Seráfia do Norte, Brogodó, Cangaço e Seráfia do Sul). Contem um pouco sobre essa fase do trabalho e quanto tempo vocês julgam ser necessário para a pesquisa antes da execução dos figurinos de uma obra, além de como esse tempo se modifica de acordo com o gênero do trabalho (novela, minissérie, filme de longa-metragem etc.).


Esse mês de pesquisa foi intenso. O nosso fio condutor foi o texto, muito bem-escrito. Lemos e relemos para organizar esses trinta dias que tínhamos pela frente para fazer a pesquisa e a proposta do figurino. O segundo passo, após o entendimento da sinopse e dos primeiros capítulos, foi começarmos com uma boa pesquisa da indumentária de 1890 e 1900 para termos a liberdade de criar, sabendo exatamente o que acontecia com os trajes dessa época. O nosso pensamento era de que, até para criar um mundo imaginário, precisaríamos saber onde estávamos revertendo a ordem, onde era acerto e onde era erro de fidelidade à época. Sabendo exatamente onde e como, íamos “brincar“. Para descobrir como fazer essa grande brincadeira de misturar o cangaço com a realeza, precisamos ter o embasamento real para depois acrescentar as loucuras. Para Seráfia do Norte, a família Romanov, com sua rica indumentária, foi um bom ponto de partida, pela quantidade de material encontrado e pela qualidade das roupas que eles usaram nessa época da nossa pesquisa. Reis, rainhas e até o Mateus, filho da Marie, desenhou um rei de capa vermelha porque queria ajudar. Tivemos dificuldade em achar material fotográfico que nos desse informação sobre o sertão nessa época. A maioria das fotos brasileiras que nós encontramos do período entre 1890 e 1900 eram fotos de família, fotos “posadas”, mas precisávamos de material para criar o povo de Brogodó. Em um site australiano, com uma paisagem parecida com o que acreditávamos que era nossa cidade imaginária, achamos fotos ótimas datadas dessa época. Essa busca na internet foi muito presente nessa e em outras partes da pesquisa. Para o cangaço, encontramos os boiadeiros nordestinos com seus gibões de couro, couro de bode, trabalhado para enfrentar a vegetação do cerrado, e também um bom material de pesquisa sobre Lampião que, na verdade, atuou durante as décadas de 1920 e 1930 e era chamado de Rei do Cangaço. E nós tínhamos um “Rei do Cangaço”. Terminada a primeira fase da pesquisa, partimos para a escolha das paletas de cada "mundo" que fazia parte desse nosso universo. Seráfia do


Norte começava solar e alegre com o nascimento da princesa, que determinou o fim de uma guerra entre reinos e ganhou as cores do nosso verão, os dourados, os tons de amarelo e cáquis. Seráfia do Sul, lunar e soturna dos rebeldes revoltosos, ganhou os tons de azul-escuro, preto, prata e cinza. Depois, a paleta de Brogodó, uma cidade que apareceu no meio de uma terra vermelha, ganhou os tons da terra e do sertão, os tons do algodão cru, dos vermelhos e verdes. Seja pelo volume de trabalho ou pelo nosso método, consideramos organização como fundamental para a realização. Por esse motivo, fica mais fácil contar o nosso passo a passo no Cordel. Primeira parte da pesquisa feita, paletas escolhidas. Voltamos ao texto para outro estudo das personagens. Para buscar as particularidades de cada um e começar a brincadeira de fazer esses personagens terem vida. Sentimos falta de um molho, de um “quê”. Uma loucura ou uma mistura? A Marie abriu seus estudos de moda, muita revista Vogue antiga e contemporânea, além de filmes, desenhos animados, internet, fotos, álbuns, moda, livros de fotografia, pintores... muita informação... Nasceu daí a primeira proposta feita em pranchas para apresentação e um material enorme que usamos durante toda a novela para consulta a cada novo bloco de capítulos. Como dissemos no início, o primeiro mês foi de muito trabalho, e talvez o ideal seja um pouquinho mais de tempo, mas é difícil avaliar ou supor quanto tempo seja necessário para a criação de um trabalho depois de ele ter sido feito. E, na verdade, seguimos um cronograma proposto pela produção ao início de cada trabalho. De novo, a organização é fundamental para a realização. Mesmo que o fio condutor tenha sido os anos de 1890 e 1900, a linguagem de Cordel Encantado era de fábula, mantendo um tom que não era nem realista, nem naturalista, o que traz maior liberdade

criativa. Onde

estão as

trabalhos fantásticos ou nos realistas?

maiores dificuldades:

nos


Durante a novela, brincávamos dizendo que o figurino era de época com uma "pegada" contemporânea. Tem uma brincadeira entre nós duas, coisa de gente que se conhece há muito tempo, sobre o que tem na cabeça de cada uma: Marie mais para o fantástico e Karla mais para o realista. No Cordel, essas cabeças viraram uma só. Talvez esse seja o tal “quê” a mais, essa mistura de pensamentos e desejos. O melhor é trocar a palavra dificuldade por desafio. E o maior desafio no figurino é sempre o que não está dentro das nossas “cabeças”. Os trajes criados para a rainha Helena, por exemplo, eram uma mistura entre o medieval e o futurista. Quais são os limites do respeito à influência da realidade histórica sobre o resultado final do figurino e até quando deixar que as simbologias interfiram nesse mesmo resultado? O figurino faz parte de um todo. Dependemos, para a realização do trabalho, da visão/encomenda dos diretores. No caso do Cordel: do diretor de núcleo Ricardo Waddington e da diretora-geral Amora Mautner. São os diretores que dão o tom, realista ou não. Um trabalho, seja ele novela, minissérie, filme, seja peça teatral, é feito a partir de um olhar da direção. A Amora Mautner fez um trabalho de paleta para chegar às cores que queria usar na novela, criando um look, uma estética como conceito. A fotografia, a imagem, além da direção de arte e do figurino foram escolhas e preocupações de Mautner e Ricardo Waddington para dar o diferencial a esse trabalho. Em entrevista, Marie disse que "o conceito do figurino da novela é muito específico”. Dá para explicar um pouco sobre o que seria esse conceito em relação aos trajes de cena? Essa frase solta realmente precisa de uma explicação. O conceito do figurino era específico porque era o de um "não realismo crível". Uma história inventada, com personagens bem desenhados pelas autoras e com quatro núcleos muito diferentes entre si, que se misturavam e


conviviam ao longo da novela. Esses quatro núcleos, além de “conversar” entre si, tinham que ter uma unidade entre figurino, fotografia, produção de arte e cenografia. Essa era uma grande preocupação da direção e de todos os envolvidos. Como fazer uma fábula de época com molho contemporâneo? Pensamos em cada um dos personagens em separado: qual seria o tal "molho" de cada um? Por exemplo, a farda do Rei Augusto foi bordada com alumínio em vez de linha. Outro exemplo foi o figurino do Rei do Cangaço. As roupas dos vaqueiros nordestinos são com recortes de couro sobre couro aplicados formando desenhos; esses desenhos foram a inspiração para o bordado usado no gibão e no chapéu, mas fizemos com alumínio sobre couro

usando uma técnica chamada de marchetaria

– elementos

parecidos, usados de forma diferente, para mostrar o poder dos reis. Uma espécie de contraponto entre mundos. Assim começamos a desenhar os personagens e suas nuances e particularidades, seguindo essa tal encomenda de um conceito novo, dessa mistura possível entre o contemporâneo e a época para criar um estilo. Para a criação dos figurinos de Cordel Encantado vocês se pautaram no que foi dado pelo texto de Thelma Guedes e Duca Rachid e informado pela concepção da direção ou esse trabalho passou também pela análise das escolhas interpretativas dos atores e pelos ensaios? A forma como se deu esse processo é um formato típico de trabalho nas outras novelas em que atuaram como figurinista ou foi um caso à parte? Os atores fazem parte do trabalho da figurinista. Figurino é orgânico, mutável, não é como uma pintura ou uma instalação. Depois da encomenda

feita,

muito

estudo,

estudo

esse

que

não

acaba

na

apresentação das pranchas (propostas) de figurino. A partir desse momento, temos que saber quem vai vestir e se transformar em cada personagem e estudar o corpo de cada um, conversar com os atores e começar a produção das ideias. Só então temos as provas de roupa com


os atores e com a direção, dois momentos mágicos nos quais a brincadeira vira coisa séria. Os ajustes, grandes ou pequenos, acontecem nesses momentos. A forma como isso acontece é uma grande mistura de métodos de cada profissional envolvido. Nessa novela, como começamos do zero, com formas ousadas para nós e para toda a equipe de figurino (assistentes, contramestres,

alfaiates,

chapeleiros,

costureiras,

aderecistas,

bordadeiras...) e com pouco tempo entre a primeira prova de roupa e o começo das gravações na França, foi bem emocionante. A pesquisa foi individual e vocês fizeram pranchas de cada um dos 55 personagens. Qual a importância do desenvolvimento de croquis para o trabalho do figurinista? Trabalhamos com imagem, o desenvolvimento de croquis faz parte disso. É um comunicador entre as partes. Desenhar é como escrever, ninguém precisa ter uma letra perfeita, mas precisa se fazer entender, tanto com direção e atores quanto com os alfaiates e costureiras. Imagina "contar" como é uma roupa... não dá certo. Melhor "mostrar" como é uma roupa. Às vezes, um croqui não é suficiente, e mostramos junto uma referência, uma foto, outra imagem. Mas começa com o croqui. Em Seráfia do Sul foi dado um destaque às cores prata, azulmarinho e preto. A rainha Helena, por exemplo, usava acessórios grandes, feitos de prata e pedra no seu estado bruto, além de tecidos de decoração, como tapeçaria e veludo, o que reforçava o ar pesado da personagem. Segundo a atriz Mariana Lima, eram trajes difíceis de vestir, mas que davam o porte que ela precisava para compor a personagem. Fale um pouco mais sobre essa relação com os atores e as escolhas para esse estilo de Cordel. No mundo contemporâneo, estamos acostumados com o conforto do jeans e da camiseta até em figurinos. Fazer um trabalho de determinada época, distante da nossa, é diferente e às vezes complicado, tanto para quem faz


quanto para quem usa. A roupa de épocas passadas sempre tem um peso diferente e nem tanto conforto. Espartilhos apertam, anáguas são pesadas, o couro de bode tem um cheiro muito característico e meio desagradável. Mas isso tudo tem o "peso" necessário à construção de cada época e de cada personagem. Durante as provas de roupa com os atores, tentamos sempre avaliar como melhorar o desconforto da roupa sem perder o desenho. Infelizmente, nem sempre é possível. Um exemplo foi o que enfrentamos com os trajes da primeira viagem (início das gravações) com a temperatura na França abaixo de zero e com esses mesmos figurinos na continuação das cenas, no Brasil, em janeiro. Que tal? A solução encontrada foi forrar as roupas com lã para a ida e tirar o forro na volta. Mas a farda branca do Rei Augusto (Carmo Dellavechia) era de uma lã linda, com o tom certo, e não conseguimos essa mesma beleza em outro tecido. A farda foi forrada para aguentar o frio de Chambord, e, mesmo tirando esse artifício, continuava sendo uma lã, nada confortável para o verão do Brasil. A segunda viagem da novela, para gravar cenas do primeiro capítulo, foi no

Canindé

de

São

Francisco,

Alagoas,

com

alguns

dos

nossos

personagens reclamando muito do calor brasileiro. As roupas tinham que ser,

pelo

menos

na

aparência,

condizentes

com

as

falas

desses

personagens. E realmente é difícil usar cores escuras e espartilho com a temperatura no Xingó em fevereiro... Mas o resultado tem mais força do que o que se passa nos bastidores. E tanto a viagem para a França, com muito frio, quanto a viagem para Alagoas resultaram em imagens lindas. Como Brogodó era uma cidade perdida no meio do sertão, vocês imaginaram que as pessoas faziam suas próprias roupas à mão e optaram por usar tons claros e materiais naturais, como a juta e o algodão, com aplicações de madeira, sementes, palha e coco, tudo realizado com muito crochê e patchwork. Pelo caráter artesanal, esse foi o estilo que deu mais trabalho na execução dos trajes? Expliquem um pouco mais sobre as opções para os brogodenses.


Depois da criação feita, ela fica impregnada, apesar da dificuldade. Difícil de abrir mão do que está na cabeça. O mundo "brogodense", ou "brogodonense", como falavam Patácio e Ternurinha, começou a fazer parte da vida da gente. Da vida da gente e da vida de uma equipe de tingimento e oito bordadeiras. Brogodó tinha um colorido próprio e muito trabalho artesanal. A Marie foi para Fortaleza no começo da produção e trouxe muito material. Depois tínhamos vários fornecedores de toalhas bordadas,

renda

de

filé,

renda

irlandesa,

renda

de

bilro,

renda

renascença... renda que era só o início do trabalho, pois as toalhas de mesa viraram saias e vestidos que eram tingidos e bordados. Brogodó foi feito à mão, aliás, feito a muitas mãos. E virou um verbo usado no figurino. Várias vezes nós tínhamos que “brogodar” um chapéu, uma saia para a entrada de algum personagem novo ou mesmo para algum evento. O baile de apresentação da família real na prefeitura foi um desses momentos. Se em Brogodó não existia seda nem tecidos que não fossem de algodão, como fazer? Brogodar foi a solução. Usamos tecidos de rede, fralda, tecidos de decoração, tingimos, bordamos com sementes nacionais e fizemos arranjos de cabelo e enfeites de flores de tecido. Foi bem difícil no início, mas valeu a pena brogodar. Alguns dos trajes para o Cangaço foram realizados em couro, com inspiração nos guerreiros, com aplicações de tachas e placas de prata. Também havia a vilã Úrsula, inspirada na madrasta de A Branca de Neve, um dos mais de quarenta filmes que vocês viram na fase de pesquisa. Ao mesmo tempo, ela era "quase uma Lady Gaga", como disseram em entrevista. Como se deu o processo de junção de referências e concepção de cada estilo e quais as ideias interessantes nesse estilo do Cordel? Pesquisa de época feita, partimos para pesquisar tudo o que tinha a ver com fábulas e a particularidade de cada personagem. Pensando na Úrsula, que por sua vez só pensava em casar com o rei, vimos a madrasta da Branca de Neve, vários editorias, os desfiles do Gucci e do Lanvin (as


ombreiras e as bijouxs grandes com pedras grandes), e na internet, uma imagem de um retratista americano chamado John White Alexander que se chama Black and red, de 1896. Para a rainha Cristina, pensamos nas fadas e ninfas com seus vestidos esvoaçantes, linha império misturado com joias aplicadas às roupas, como usava Alexandra Feodorovna, czarina russa, e a rainha Victoria da Espanha. O reino de Seráfia do Sul era um reino sombrio, que estava em guerra com Seráfia do Norte há muitas gerações, então, boa parte da sua pesquisa foi na Idade Média, com pintores dessa época, além de termos visto a trilogia do filme Star wars. Brogodó tem uma silhueta mais próxima à época retratada, lembrando que a época era bem esticada, de 1890

a

1910,

costura aparente.

optamos Com

por

abrasileirar

Ternurinha,

por

a

época

exemplo,

e a

fazer pesquisa

uma foi

direcionada para álbuns de família, imagens encontradas em livros de fotografia nacionais e o filme Out of Africa, de Sidney Pollack. Assim como a personagem da Meryl Streep, nossa Ternurinha foi toda confeccionada com tecidos naturais. Acrescentamos aplicações de toalhas de mesa, bordados tipo richelieu, comprados em Fortaleza, e sementes e madeiras tingidos e misturados com paetê fosco. Para cada personagem, uma individualidade dentro de um todo. Uma mistura de referências e pesquisas variadas para criar esse tal estilo Cordel de vestir. Enquanto Seráfia do Sul usava cores lunares, Seráfia do Norte veio com as cores solares, com exceção dos vilões, que usavam tons escuros. Mesmo assim, as cores não foram tão estigmatizadas, tendo várias nuances e problemas a serem resolvidos, como a busca pelo tom certo de ouro. Outras questões tiveram que ser pensadas, como encontrar o material certo para a dragona do Rei Augusto, ter que refazer semanalmente alguns figurinos porque os metais não aderiam às roupas... Enfim, quais foram as maiores dificuldades com os trajes de Cordel?


Como começamos a pensar nos figurinos de cada personagem, não pensamos nas dificuldades, e sim em realizar um conceito que tinha a ver com as personagens e esse ambiente que as autoras queriam. Como já falamos, as fardas do Rei Augusto, Baldini e Petrus foram uma dificuldade por causa do bordado em metal. Primeiro, achar um metal maleável. Segundo, achar o banho certo do metal. E o mais complicado para o dia a dia: achar o mecanismo de costura, como colocar e recolocar para lavagem e manutenção. Todas as roupas de todos os reinos e de Brogodó eram enriquecidas com bordados. As roupas de Brogodó, antes do bordado, eram tingidas, para termos controle da paleta de cor. A maioria das peças de figurino da rainha Cristina era tingida com um método chamado shibori, uma técnica vietnamita milenar. As do núcleo do Cangaço eram feitas em couro com placas de metal recostadas. Outras eram pirografadas. Enfim, em cada núcleo, um desafio diferente, tanto na concepção quanto na execução. As

peças

de

todos

os

personagens

da

história

sofreram

intervenções e passaram pelas mãos de bordadeiras ou foram tingidas ou envelhecidas, e soubemos que houve uma comoção por parte de toda a equipe da área do figurino, como, por exemplo, para a expectativa quanto ao traje de noiva todo bordado da princesa Carlota. É comum acontecer todo esse envolvimento ou esse trabalho foi um caso especial e necessitou de mais integração entre todas as funções? Fizemos esse trabalho com muita dedicação, com muito amor. A equipe envolvida fez com esse mesmo sentimento, sentimento e intenção, essencial para o resultado desse trabalho. Isso faz toda a diferença. Nós não nos cansamos de agradecer a dedicação de todos os profissionais que compraram essa "briga" com a gente, com muita garra e vontade de acertar. E isso foi durante todos os meses de trabalho, durante todos os dias, desde a pesquisa até o último dia de gravações da novela.


O vestido de noiva da Carlota foi uma comoção na costura, uma choradeira. Começou com as costureiras e contagiou até quem estava só passando para ver a prova de roupa. O vestido tinha oito metros de cauda bordada. Lindo! De ver e de fazer! E lindo de ver as bordadeiras se divertindo com tanto trabalho, curtindo cada pedacinho do vestido que ficava pronto. Difícil não se emocionar quando se vê um trabalho contagiar as pessoas do jeito que aconteceu no Cordel. Como vocês chegaram à técnica vietnamita milenar, shibori, para as roupas da rainha Cristina, que tinham uma inspiração no “universo de fadas”? A imagem da fada, dos tecidos misteriosos e leves ficava povoando as nossas

cabeças.

Procurando

esse

mistério

impresso

em

tecidos,

lembramos do trabalho de Cristina Ache, atriz, artesã e nossa amiga, que viajou com o grupo de teatro francês Théâtre du Soleil para a China e lá conheceu um mestre do shibori, essa técnica vietnamita de pintura na seda, com quem fez um curso. Cristina veio com os desenhos do que ela tinha pronto, e pensamos juntas sobre o que fazer em seda para a rainha ninfa, com as cores de Seráfia do Norte. Essa técnica de pintura é leve e suave, como precisávamos para confeccionar o figurino. Meio "quem procura acha". E a gente procurou muito! Tanto os trajes quanto os acessórios foram produzidos na Central Globo de Produção, inclusive com o reaproveitamento de tecidos do acervo da emissora. Quem decide o que se pode transformar e o quanto se pode aproveitar dos figurinos desse acervo? É possível a intervenção nas criações de outros figurinistas? Só usamos ou reformamos o que era possível, principalmente roupas de figuração de outros trabalhos feitos na TV Globo. Peças especiais desenhadas

por

reaproveitamento.

outros

figurinistas

não

entraram

nessa

lista

de


E quanto aos tecidos novos, há opções disponíveis na Rede Globo para a execução de figurinos ou vocês possuem a liberdade de escolher e pedir para comprar? E em qual ordem se dá no processo: vocês conferem o que há no acervo para criar em cima do que há disponível ou criam primeiro e depois conferem o que existe no acervo e que pode ajudar para realizar as criações? Depois do conceito pronto e o desenho de cada personagem para ser despachado na costura, começamos a fazer uma nova pesquisa. Dessa vez, pesquisa de fornecedores e/ou lojas de tecido, armarinhos e todo o material necessário para a confecção. Ao mesmo tempo, fazemos visitas diárias ao acervo para garimparmos roupas, tecidos e acessórios que se adaptem ao conceito proposto. Não existe uma ordem exata. Nós conhecemos o acervo de outros trabalhos e temos uma ideia do que existe e do que não existe por lá. Em uma novela, um meio que exige um sistema de produção tão frenético, quanto tempo há de adequação para o figurino desde a primeira prova até ele estar finalizado para a gravação? Há novelas em que o tempo de preparação é mais dilatado, por um interesse em melhor acabamento, ou há um padrão a ser seguido para esse tempo de preparação? E se há uma variação nesse tempo, quem decide o cronograma de trabalho, desde a pesquisa e as primeiras execuções até o figurino finalizado? Nós seguimos um cronograma passado no início de cada trabalho, que pode ser alterado por fatores que independem da nossa vontade. No site da Globo havia um destaque dizendo que vocês falaram que as saias longas de Açucena e as ombreiras de Úrsula vieram para ficar. Mesmo em uma novela ambientada em outra época e com inspiração no fantástico, vocês acham que a novela influencia a moda atual?


A saia longa estava nas coleções de verão do ano passado e do inverno deste ano, mas a nossa personagem usava porque era o comprimento correto da época retratada. As ombreiras são releituras das coleções de alta-costura, de editorias de moda e de muito trabalho. De qualquer forma, foi divertido ver revistas com editoriais inspirados na Açucena, na moda de Brogodó, e ver que, de alguma forma, o “estilo Cordel” inspirou estilistas e figurinistas. Até hoje recebemos e-mails pedindo uma ou outra dica de como fazer uma saia ou blusa com o estilo das nossas personagens brogodenses. Deve ser porque as pessoas gostaram do que a gente gostou tanto de fazer ou porque gostaram e se identificaram com as personagens e com a história. Dada a perfeita integração entre os figurinos e a cenografia, como foi a relação de trabalho de vocês com a cenografia de João Irênio e equipe e com a produção de arte de Ana Maria de Magalhães? A união entre as partes foi uma preocupação da direção desde o início. Era uma espécie de "bate-bola" constante. De mostrar para a produção de arte e cenografia o passo a passo do nosso trabalho e ver o que estava sendo feito e/ou pensado. Desde as pranchas, assim como cada peça que ficava pronta ou cada nova ideia que surgia. Trabalho de equipe. Ana Maria de Magalhães é muito exigente e conhecedora da época. Foi uma pessoa fundamental nesse conceito criado pela direção de fazer uma época sem época. Entre o que era e o que não era de época, buscávamos o olhar da Ana. Principalmente em alguns momentos, a época era mais importante que o contemporâneo, e não podíamos errar. Como se dá o seu trabalho de figurinista em relação ao trabalho criado por Ale de Souza e Gilvete Santos, responsáveis pela caracterização? É um processo paralelo? Ou o trabalho

do

figurinista vem antes e influencia ou determina a estética geral de cada personagem?


Quando pensamos em figurino, pensamos no todo. Toda a pesquisa foi feita de maneira ampla. Toda pesquisa é feita para o figurino e caracterização e fica disponível para todos. Durante a confecção das pranchas, chamamos os caracterizadores para acharmos juntos a cara de cada personagem. É sabido que Cordel Encantado foi a primeira novela gravada com a tecnologia de câmera registrando em 24 quadros, o que gera às imagens uma textura bem próxima à cinematográfica. O que vocês, como figurinistas, acharam dessa textura, ou qualidade, associada a um trabalho televisivo para novela? Fazer parte de um trabalho de qualidade é sempre bom. O processo criativo de vocês muda de acordo com o gênero do trabalho – novela, minissérie, peça teatral, filme de longa, média ou curta-metragem? Não, o método é o mesmo e se adapta a cada trabalho, a cada encomenda. O nosso método é muito parecido, talvez seja esse o segredo da nossa parceria ter dado tão certo. E ambas temos rigorosidade no acabamento. A qualidade é o resultado disso. Há algum tipo ou estilo de trabalho que vocês prefiram realizar? O melhor para a criação de um bom figurino é um bom texto com personagens e histórias bem traçadas e uma boa encomenda. Os que vêm com desafios maiores dão mais prazer, mas desafio não tem estilo próprio. Vocês manifestaram o desejo de escrever um livro com os figurinos de Cordel. Teremos a oportunidade de conferir esse trabalho? Os livros escritos e de fotografia foram muito importantes na nossa formação profissional e na criação e execução do Cordel. Temos o desejo


de transformar as imagens de Cordel Encantado em imagens impressas para que outras pessoas possam consultar e se divertir de novo com a novela. Mas, por enquanto, esse 茅 s贸 um desejo.

Entrevista com Marie Salles e Karla Monteiro  

Entrevista por Carolina Bassi e Rosane Muniz, sobre o processo de criação dos figurinos da telenovela "Cordel Encantado", exibida pela TV Gl...

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