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ENTREVISTA quando Juracy Magalhães chegou à Bahia como tenente aos 27 anos – ele foi discípulo de Juraci Magalhães, foi discípulo de Edgar Santos, um homem poderoso na Bahia que fundou a Universidade federal e se encostou naquilo que foi o grande veículo de sucesso de Antonio Carlos: a comunicação. Ele se encostou nos diários e emissoras associadas que eram de Assis Chateaubriand e comandada na Bahia por Odorico Tavares. A partir daí, em cima da comunicação, Antonio Carlos fez o poderio dele. Ele era o maior informante que eu conheci até hoje para um jornalista político – eu tinha com ele um trânsito de ser informado, mas também devia informações a ele. Durante a ditadura militar, ele conseguiu trânsito livre com todos os generais possíveis e imagináveis. Então aconteceu essa mudança na Bahia que terminou tendo reflexo no interior na medida em que a Bahia se democratizou e os municípios passaram a ter mais liberdade para tomar posições. Eu acho que o municipalismo é a grande força que vai crescer na Bahia ainda. Não cresceu ates porque Antonio Carlos não deixava. Ele comandava 80% dos prefeitos, comandava a UPB, comandava os cabos eleitorais, comandava as Câmaras de Vereadores e comandava os prefeitos. Agora não! Agora começa a haver uma dispersão e eu acho que é um momento para o ressurgimento forte do municipalismo no estado. Que atitudes de gestão municipal podem contribuir para o municipalismo? Em primeiro lugar, acabar com essa história de pular de galho em galho como acontecia no passado. Não aderir. A adesão é um dos grandes males da política em qualquer estado que aconteça. Essa história de se eleger Jaques Wagner e o cidadão que tenha sido eleito pelo PDT (estou dando um exemplo), que não esteja com Wagner, passar de imediato para o lado de Wagner para viver à sombra do

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governo, à sombra do poderio do governo estadual, é um grande equívoco. O que importa é que os municípios se organizem para reivindicar em conjunto, em defesa dos seus interesses, do interesse dos seu munícipes e com isso façam uma força para pressionar também a União em função de verbas federais dirigidas a obras importantes, subsidio de infraestrutura do interior. Enquanto houver adesismo de prefeito e de lideranças políticas, a Bahia sempre será um estado menor, enfim, um estado entregue a interesses de político, o que termina levando a corrupção. Um campo fertilíssimo para a corrupção está nesse processo de adesão, porque os governadores pagam e o governo federal fecha os olhos. Se houver uma união dos prefeitos nessa forma de independência, e verificar que seu objetivo é sempre o seu município e não o governo do estado, então, o municipalismo terá chance. Fora daí vai ficar nessa geléia geral que nós assistimos até hoje. Antigamente, todos os prefeitos faziam fila para tirar fotografia abraçados com Antonio Carlos e ele sempre estava disponível. E mais: Antonio Carlos convidava os prefeitos do municípios mais importantes para almoçar em Ondina com ele, e os prefeitos ficavam felizes. Ele costumava me dizer assim: “Samuel, eles nunca foram em Ondina, e eu trago para almoçar comigo em Ondina... Tiro fotografia com eles e eles levam essa foto.... ficam meus para a vida toda”. As Parcerias Público-Privadas, que são uma tendência na governança atual, são mesmo a melhor opção para resolver atribuições que seriam de responsabilidade da gestão pública? A PPP é uma novidade na administração pública da Bahia. Diria que essa novidade se expande também para outras unidades federativas, mas na Bahia, pelo menos uma iniciativa foi realizada com êxito (ao que parece, porque é recente), que foi a construção

do recentemente inaugurado Hospital do Subúrbio. O secretário de Saúde Jorge Solla, responsável pelo Hospital do Subúrbio, me informou que alguns estados se interessaram pela experiência da Bahia e solicitaram o projeto que deu idéia a isso para poder implantar também em seus estados. É claro que como o serviço público não pode bancar tudo que a população necessita, as carências dos seus habitantes, é muito natural que haja uma sequência positiva envolvendo essas PPPs, que não deixam de ser uma novidade na administração pública do país. Como o estado não dispõe de recursos suficientes para isso, e como as exigências da população crescem a cada momento, espera-se que este tipo de parceria ganhe cada vez mais densidade e tenha sucesso na medida em que possa beneficiar o lado, o público; e o seu parceiro, o privado. Como você avalia a gestão do presidente Lula no apoio ao desenvolvimento dos municípios? O presidente Lula apenas dá sequencia, no meu entendimento, a um processo iniciado lá na primeira metade dos anos 90, quando o Plano Real pôde domar, até aqui definitivamente, o processo inflacionário que impedia que o Brasil projetasse suas metas para o futuro. Com o desenvolvimento sustentado da economia, posto em prática pelo ministro Antonio Malan durante o governo Fernando Henrique, o governo Lula teve a sensatez de não mudar praticamente nada do que já vinha acontecendo. Isso permitiu que, pela primeira vez o Brasil experimentasse um processo continuado de política e de política econômica por dezesseis anos: os dois períodos de Fernando Henrique e os dois períodos de Lula. A política macro econômica pôde assim experimentar um avanço porque estava certa nos seus princípios básicos. O que diferenciou foi a política social entre um governo e outro, favorecendo ao governo Lula. O governo Lula conseguiu trans-

Caro Gestor - edicao 03  

Revista e Portal da Gestao Publica

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