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carnavalhame

3º edição


“Bem vindos à orgia niilista”

Foi num dia qualquer da segunda quinzena de novembro de 2016 que surgiu a ideia de fazer uma coletânea alternativa aos gingados carnavalescos. Parecia ser coisa muito simples e efêmera: reunir alguns escritores com a mesma vibração de pensamento e pintar as serpentinas de cinza. Mas o que aparentava ser apenas um doce diferente em promoção, chega a sua terceira edição com o corpo de um projeto sem abismos. Solidão, Reação, e Presença são as experiências da edição 2019 apresentadas sob a forma de 28 algarismos de diferentes sertões, sudestes e portos e ainda, com novidades pontuais: um EP autoral com canções compostas especialmente para o projeto. Nessa ânsia de realizar encontramos ainda, espaço para materializar toda essa produção em festas realizadas em três regiões diferentes - São Paulo, Piauí e Pernambuco. Com o ano batendo na porta e a rua batendo nos pés, deixamos aqui um punhado de confetes desbotados e o convite para nos acompanhar: https://medium.com/@carnavalhame https://www.facebook.com/Carnavalhame/ Que vocês apreciem esta celebração. A equipe


caio augusto ribeiro 01 bárbara lia 04 bianca garcia 06 casé lontra marques 08 camila assad quintanilha 10 alexandre guarnieri 13 gabriel gorini 15 mateus novaes 17 leandro rodrigues 21 nuno rau 23 andré ricardo aguiar 38 maíra vasconcelos 40 lisa alves 45 renata flávia 48 marcelo labes 50 mafalda sofia gomes 53 maílson furtado 57 natasha felix 60 diego petrarca 64 fávia péret 66 júnior baladeira 73 malu siqueira 75 letícia brito 77 rafaella rímoli 81 mariana ianelli 84 daniel do assaré 86 luna vitrolira 89 david biriguy 91


solidĂŁo


caio augusto ribeiro É autor dos livros Porão da Alma (clube de autores, 2015), Colecionador de Tempestades (Carlini & Caniato, 2017) e Manifesto da Manifesta (Carlini & Caniato, 2018). Dirigiu o vídeo-arte Réquiem Para Flores (2017). Trabalha com teatro desde 2009 e atualmente flerta com a performance. Fundador do coletivo Coma a Fronteira, grupo de intervenções urbanas e processos criativos para teatro (mas não só isso). É acadêmico de Ciências Sociais pela UFMT. 1


Sólidos aforismos: estudos sobre solidão: I. O círculo completa a solidão

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II.

VI.

Partir a solidão no meio

Nossa solidão Uma área vazia nos une como sombra hospeda sempre mas não melhora em nada a possibilidade de coisas a nossa falta de companhia. Uma área cheia VII. hospeda sempre a solidão das coisas. A solidão dobra o tempo e o quebra no contorno de XI. uma Só lida solidão: Sórdida sede de sentir e ver Vasto espaço os vastos vícios raso e de quem tenta dormir. sem alguém: rasgue-se VIII. em cem.

Dar as duas metades Suas solitárias companhias Dar a suas companhias duas solitárias metades III. O gosto sólido de esqueleto de nuvem jovem linda e só/lida Solidão IV. Solidão-te Solidoam V. A materialidade sem peso deste apanhado de faltas/ falhas doa uma fome de lados Fuzilados: esses vagos espaços que ninguém com/segue preencher.

X.

- que lindo

XII.

disse quem viu de longe a volta que tenta tocar a dor mas pela distância obscena não consegue, mas volta e exclama:

Pesa essa lentidão o lábio tenta beijar o horizonte a boca, não.

- que lindo a tua solidão. IX. Solidão oceânica que traz uma constante falta de sede. - é preciso beber até o sal dos dedos.

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bárbara lia Paranaense nascida em Assaí, há três décadas vive em Curitiba com três filhos e dois netos. Tem 14 livros publicados, entre eles: “Solidão Calcinada”, “As filhas de Manuela” “Não o convidei ao meu corpo”, “Forasteira”, “O sorriso de Leonardo”, “A última chuva”, “O sal das rosas”. Participou das Antologias, como “Amar – Verbo Atemporal” (Rocco), “Fantasma Civil” (Bienal de Curitiba – 2013), “Arqueologia da Palavra - Anatomia da Língua” (LiteratasMaputo), “Blasfêmeas – Mulheres de Palavra” (Casa Verde), “Antologia Relevo – 5 anos” (Jornal Relevo), e várias outras pela participação de alguns prêmios literários. Em 2018 criou o selo editorial Psappha que estreou com a edição de “Dom Lácio”, romance de sua autoria e fechou 2018 com a edição da delicada Antologia – Treze Mulheres e Um Verão. 4


soledad

Vi em um filme de Bruno Barreto Elizabeth Bishop e Robert Lowell A passear pelo Central Park entre Risos e passos lerdos de poetas Ela disse ao seu amigo: eu devo ser A mulher mais solitária do mundo Isto deve constar no meu epitáfio Elizabeth, eu te apresento minha vida: Longas noites nesta cama desabitada Manhãs tomando café com pássaros Tétrico corredor de sombra única Um prato e um copo à mesa do jantar Mesa redonda, cadeira fria e escura... Horrível trono de rainha viúva

Minha solidão é de extremada textura De quem vive a arranhar a carnadura Da odiosa palavra - Não Posto que, diferente de ti, eu nunca vi O luar de Ouro Preto ao lado do amor Nem recebi - de mão beijada Uma casa serrana diante do infinito Nem ninguém atravessou o oceano Para morrer ancorado em meu corpo Dito isto, fica combinado então: Mudarei meu nome para – Soledad Nem sempre fui Bárbara na vida Com certeza sempre fui solidão

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bianca garcia É diretora editorial da Macabéa Edições, graduada em Letras pela resistente UERJ e escritora nas horas em que a palavra permite transcender as linhas do papel. Acredita que o útero é o punho erguido das mulheres na escrita. 6


avesso

escrevo tragédia de mim para não me derramar derreter ou destilar. eu não liberto leves suspiros tornados oprimidos. a arte existe porque a vida é uma bigorna de duas toneladas transborda como hemorragia e nela a arte paira. a dor que vem de dentro não estanca por nada faz pressão contra o peito firme é a estaca. eu grito contra o vento porque o ar é rarefeito, o teto é comprimido de tarja preta, e a montanha, à noite, assusta, então falo e vejo a montanha de dia quando finjo espasmos de alegria. mas minh’alma não cabe em mim, e pede, por espasmos, para sair... carrega o peso do fardo dos outros, pois insistem abandonar pelo caminho dotes de Angústia a mim não pertencidos. as lágrimas não dão conta tempestade para não falar de sofrimento poesia não é para-raio.

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casé lontra marques Nasceu em 1985, em Volta Redonda (RJ). Mora em Vitória (ES). Publicou “Desde o medo já é tarde”, entre outros livros. 8


não deixará de doer

O mundo não deixará de doer tão cedo; todavia, a angústia — quando retorcida, quando deformada — adquire um gosto (ingovernável) de vida e vaza; e vaza: por todos os povos, com seus mitos ou armas: por todos os poros — como esses vícios que são asas.

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camila assad quintanilha Nasceu em 1988 em Presidente Prudente. É escritora e tradutora. Publicou Cumulonimbus (Quintal Edições, 2017). Foi contemplada pelo ProAC/SP com a obra Desterro, a ser lançada em 2019. Foi aluna do Curso Livre de Preparação de Escritores (CLIPE), na Casa das Rosas, em São Paulo. Já participou de diversas antologias poéticas e tem poemas publicados em diversas mídias literárias no Brasil e em Portugal. É adepta do “bloco do eu sozinho” e gosta de passar os carnavais no meio dos livros. 10


ignore a solidão das minhas coxas nas noites perpétuas procurando frenéticas pelas tuas, apenas por estarem acostumadas com o número quatro já não tenho forças para me ausentar do meu corpo pequeno, faço tremer a cama a casa toda & a própria noite prateada, em que tento esquecer as coisas palpáveis: a banana com granola os blocos na avenida os planetas com anéis o aumento do gás; mas as coxas gritando teu nome no breu me lembram o quanto eu tenho fracassado

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Eu moro nos atrasos e por isso ninguém nunca me encontra Eu me exilo no bolso rasgado do teu terno azul - aquele reservado para os velórios dos parentes distantes Eu sou minúscula solitária por vezes invisível Eu moro na poeira oculta dos idiomas extintos Eu submerjo das águas da fonte central da cidadela de três mil membros - dissipada há mais de meio século Quando fito o espelho nem me percebo sou maleável, sou um elástico de cabelo desses que se perde um por dia por aí.

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alexandre guarnieri (Carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Integra o corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens. Lançou Casa das Máquinas (Editora da Palavra, 2011), Corpo de Festim, livro ganhador do 57º Jabuti, 2ª Edição pela Penalux e Gravidade Zero (Penalux, 2016). Em 2016, publicou pela Editora Patuá a antologia Escriptonita (poemas tematizando super-heróis), do qual foi um dos organizadores. O sal do leviatã (2019), seu livro mais recente, está no prelo. 13


... até cair

Garis varrem sambando o que as gringas deixaram cair durante o último desfile ( No cemitério de fantasias reciclarão ainda a melancolia da quarta-feira de cinzas ) Esse ano, na avenida, a favorita sequer foi vice ... ...

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gabriel gorini Nasceu em 1993. Editou a revista USINA. Publicou marimbondo (Garupa, 2017) e lanรงou o ep dorvatro (2018). 15


a fruta sem-nome (o brilho do sol) para cafi aqui a quimera, mera flor do êxodo, o doce oceano da dúvida, vida. ali o ali mento todo, o doido doído do ódio, o dia adiado do amor. a morte súbita e tão cruel do medo, o corte abrupto e tão fiel ao peso. e só os ossos sossegam, amargam e somem, somente: terríveis iscas à sombra, rasteiras iras austeras. era sim, manhã, assim improvável como uma vida que acaba como um corpo que desaba como um poema que termina

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mateus novaes Poeta, não graduado, 37 anos, 2 filhos, 1 Gato, 1 companheira, 1 banda (krias de kafka). Sobrevive de trabalhos mal remunerados. Não possui conta em banco. Lançou pela editora Patuá o livro “desistência” em 2012. Tem meia dúzia de poemas publicados por aí. Reza a lenda que quando toma um porre grita aos amigos que esta escrevendo um novo livro intitulado “um frio de hospício na espinha”. Quem garante? 17


nunca sob o sol

É a imensidão que isola. Contas atrasadas não apagam as estrelas. Tardios, elas e eu, habitamos a mesma mentira de uma luz sem matéria. Meu corpo desacompanhado apenas alinhado a outros reflexos que também suspiram quando o queixo desiste do peito e vemos Vênus e tantas outras mortas penduradas no infinito. Sustento um brilho mentiroso nos meus olhos aquilo que não volta perdido no eco de algum sorriso que não ouço mais pela cidade. Preso no espelho daquele bar No lado oposto daqui escuro nunca sob o sol me consolo

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thais arruda


leandro rodrigues Nasceu (1976) em Osasco, SP. É Poeta e Professor de Literatura. Já lançou 2 livros de poesia: Aprendizagem Cinza (Ed.Patuá, 2016) e Faz Sol Mas Eu Grito (Ed. Patuá, 2018). Participou da antologia Hiperconexões 3 (Ed. Patuá, 2017). Publica constantemente poemas em vários sites e revistas de literatura do Brasil, Portugal, Espanha e Estados Unidos. 21


estandarte dos desvalidos

Entre a carne e a cabeça decepada A simetria da solidão Um bloco de exilados atravessa o centro Comungam elegias em seus estandartes De versos quebrados Rasgam os trapos, as mortalhas no avesso Fantasias para um novo dia Os ratos os seguem Deitam-se nos vãos da prematura veia rasgada Fetos deformados se juntam nas cores do meio-dia. Passistas amputados monitoram as migalhas Um mestre-sala acorrentado tenta cortar os pulsos Da bateria tambores de pólvora revestem cicatrizes abertas No destaque os meninos da Candelária acenam Na comissão de frente os massacrados de Carajás flutuam sobre o asfalto No centro uma ala estranha de farda e imponência a tudo observa Presta-se continência ao silêncio – autópsia camuflada No enredo: o banzo ancestral da solidão encarnada (cor de sangue).

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nuno rau Nuno Rau é carioca, arquiteto e professor de história da arte, mestre e doutorando em história da arquitetura; tem poemas publicados em diversas revistas e sites e nas antologias ‘Desvio para o vermelho (13 poetas brasileiros contemporâneos)’, pelo CCSP | Centro Cultural São Paulo, ‘Escriptonita: pop/oesia, mitologia-remix & super-heróis de gibi’, que co-organizou, e ‘29 de Abril: o verso da violência’. Autor do livro ‘Mecânica aplicada’ (Ed. Patuá, 2017), finalista do 60º Prêmio Jabuti e do 3º Prêmio Rio de Literatura. É um dos editores da revista eletrônica Mallarmargens. 23


E.S.G.R. SOLIDÃO enredo de 2019: momo é o mais solitário entre os reis, mas

ala 1. os blocos do eu sozinho

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ala 2. do oriente ao ocidente

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ala 3. a solidĂŁo ĂŠ uma escrita intempestiva

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ala 4. os deuses foram despejados

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ala 5. Abaporu se acerca do poeta

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* sa mplers de ca nção de sÊrgio sa mpa io na ala 3 * sa mpler de poema de ruy guerra na ala 4 * sa mpler do ma nifesto pa u-brasil na ala 5

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thais arruda


reação 37


andré ricardo aguiar Escritor paraibano radicado em SC. Autor de livros infantis como O rato que roeu o rei (Rocco), Chá de sumiço e outros poemas assombrados (Autentica). Tem livros publicados pela Patuá: A idade das chuvas (poemas) e Fábulas portáteis (contos). É um dos idealizadores do selo Fresta Editorial. Tem livros inéditos ainda sem data para publicar. 38


com quatro pedras

Eu reajo mal Se o cão me fizer festinhas na cabeça A apartamentos em que não cabem A minha angústia A formas de gratidão Que se espalham como raízes A semáforos que piscam o olho Por uma cumplicidade urbana A corações que, juntos, elaboram Um açucarado outdoor A poemas que estão infectados com o ego do autor Eu reajo mal Eu reagi aqui.

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maíra vasconcelos Maíra Mateus de Vasconcelos, jornalista e escritora, publicou seu primeiro livro de poemas, Um quarto que fala, pela Urutau, ano passado. Escreve semanalmente, desde 2014, crônicas poéticas para o Jornal GGN, editado por Luis Nassif e Lourdes Nassif. 40


Não há mais que o silêncio essa alternância de súbitos hiatos desenhando ora o passado ora o presente em curvas descritivas do tempo entendido se estamos em solidão Não há mais que o silêncio essa visão de mundo, lúcida e pouco aconchegante, onde pés não querem pisar onde máquinas e carros levantam poeiras e nós escorregamos cheios de pó de hora em hora pela vida Não há mais que o silêncio essa tentação claro-escuro de se viver menos os cansaços e manter as pernas descansadas em ilusões Não há mais que o silêncio e assim o vestido não voa não passa um vento na quietude absoluta em todo silêncio sempre morremos um pouco para estar com o tempo e suas frações contidas de vida densamente diversa no corpo que é um só e carrega um punhado de coisas para tentar esquecer o gosto da terra.

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Existe um coração racional? Demos a esta situação o nome de acorde, como os acordes musicais. Para tocar é preciso ir em busca do ritmo que são como as batidas. O problema da racionalidade posta aonde não se deve é o mesmo que interfere na não-feitura da música. Em outras palavras, o coração depende da dança e o movimento mais intuitivamente bem feito é aquele que escuta a música. - Dancem para nós, dizem. Se poderia afirmar, então, que poetas escutam este clamor e assim iniciam a escolha das palavras.

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thais arruda


lisa alves (Araxá, 1981). É autora de Arame Farpado (2ª. Edição, 2018, Penalux). Faz parte do conselho editorial da revista Mallarmargens, é co-editora da Liberoamerica (Espanha) e resenha livros para a revista Incomunidade (Portugal). Tem textos publicados em diversas revistas, jornais e páginas literárias no Brasil, Espanha, Inglaterra, Moçambique e Portugal. Tem poemas e contos publicados em doze antologias lançadas no Brasil, Argentina, Chile, Espanha e País Basco. 45


quero que você o abrace e se exploda

– Você está lendo Plath? – Estou e se bobear meto minha cabeça no forno também. Eu só conseguia olhar para capa de “Ariel” com respingos de chuva e para o tênis de lona vermelha que batia contra a poça d`água como se tivesse manipulando um pedal de um bumbo. – Você toca bateria? – Como você sabe? Pera aí, você me conhece? Que merda! Olha só: eu estou em um péssimo dia, ok? – Não. Eu não te conheço. Só cogitei a possibilidade por causa dos movimentos dos pés. Já namorei uma baterista e ela não parava de bater os pés e... – Você parou para falar comigo por algum motivo? – Na verdade aqui é um ponto de ônibus. – Então você gostou do meu livro da Plath? – Eu não gosto da Plath e nem da Sexton. Eram duas imbecis. – Como assim? Você é maluca? Plath foi uma... – Imbecil. – E a Sexton... – Outra imbecil. – Mas e a obra delas? Se formos investigar a vida de todos os autores e autoras não vamos ler ninguém e ... – Duas infantilóides mimadas. Ficavam tramando quem se mataria primeiro. – Então você também não curte a Ana Cristina César? – Também não curto. – O que você curte, afinal? – Gente que não me dá trabalho. Odeio suicidas. – Como assim “gente que não me dá trabalho”? Quem é você, afinal de contas? – Fui enviada aqui para evitar que você cometa a mesma imbecilidade delas? – Ah tá: você quer me convencer que é um ser especial e foi enviada para atrapalhar os planos de uma suicida? – Especial não, mas um ser bem útil. E não quero convencê-la de absolutamente nada. Eu fui tirada de casa pra isso e confesso que prefiro mil vezes voltar para o meu apartamento e terminar de assistir “The Handmaid’s Tale”. – É ótima essa série. Eu já terminei. Já leu o livro? – Sim. Sempre leio antes de assistir uma adaptação. – Qual teu nome mesmo? – Angela.

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– Prazer, meu nome é.... – Ana. – Como sabe meu nome? – Teu irmão me contou. – Como assim? – Sou amiga do João. Nos conhecemos em um evento “inusitado” e ele me pediu de forma um tanto desesperada para descer até aqui e falar contigo. Eu moro aqui perto. – Como ele sabia que eu estava aqui? – Você deu check-in do local, idiota! – É assim que você vai me ajudar? Dispenso. – Se você quer mesmo se matar deveria fazer isso de forma mais discreta ou pelo menos mais louvável. – Ah então você veio me dar dicas de como me matar discretamente e louvavelmente? – Se você quer mesmo se matar, ninguém nesse mundo vai impedir. Mas também não precisa fazer algo tão chocante quanto a Plath e a Sexton. É muita covardia com quem se importa contigo. Teu irmão pode surtar. E você sabe que ele é propenso a isso. – O que você sugere, então? – Uma missão. – Uma missão? – Sim. Já que você está decidida a se matar, minha sugestão é que faça isso pelo menos lutando por uma causa. – O João está ciente desta tua proposta? – Óbvio que não. – Eu não tenho “causas” para lutar a favor. – Por isso é tão vazia. Você se dá muita importância e quando percebe que não é tão importante assim entra em crise. – Pode ser. Qual seria a missão? – Quero que mate esse cara. – Esse lixo escroto? É isso que você chama de louvável? Bem que eu adoraria e o Brasil inteiro também. Mas como faço isso? – Quero que você o abrace e se exploda. – Mas isso não é nem um pouco discreto. – Não é, mas pelo menos é mais glorioso que enfiar a cabeça no forno. – Não sei. Não tem uma alternativa de acabarmos com ele sem precisar matá-lo? – Comentário bem incoerente para uma suicida. – Quem falou em suicídio foi você. – Estamos tentando enganar quem mesmo? – Não existe “estamos”, ok? Existe você supondo. Apenas isso. – Tudo bem, Ana! Existe sim uma alternativa: temos uma organização política autogestionária que luta de forma menos violenta contra pessoas como ele. Mas é um trabalho lento, exige tempo e comprometimento. E não temos tempo para dar atenção para suas crises. – Temos? Vocês são muitos? – Não quanto gostaríamos. – Eu topo! Estou precisando de algo assim. – Então, nada de “cabeça no forno”? – Nada de “cabeça no forno”. Prometo! – Ok, Ana! Bem-vinda ao mundo real. 47


renata flรกvia Nasceu em mil novecentos e oitenta em nove na zona sul de Teresina, tem o livro Mar Grave (2018) publicado pela Editora Moinhos. Formada em histรณria. Mora em uma biblioteca nos horรกrios comerciais. 48


dentre teus galhos uma polpa mole se esconde danças aos olhos do vento não te preocupas com teu ponto fraco que desvendo roça cada pedaço do teu sonho no meu medo humano e ri com ternura na banheira és muito além do que compreendo uma simplicidade inatingível no teu ventre descortinou meu mundo já te amo e já temo

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marcelo labes Nasceu em Blumenau-SC, em 1984, e hoje reside na capital do estado. É autor de Falações [EdiFurb, 2008], Porque sim não é resposta [Antítese, Hemisfério Sul, 2015], O filho da empregada [Antítese, Hemisfério Sul, 2016], Trapaça [Oito e Meio, 2016], Enclave [Patuá, 2018], O poeta periférico [Edição do autor, 2018] e Paraízo-Paraguay [Caiaponte Edições - no prelo]. Integrou a mostra Poesia Agora (edição carioca), em 2017. Tem poemas publicados em InComunidade, Mallarmagens, Literatura & Fechadura, Livre Opinião - Ideias em Debate, Ruído Manifesto, Enfermaria 6, Revista Lavoura e Revista Vício Velho. Edita a revista eletrônica ‘O poema do poeta’, onde publica originais manuscritos, esboços e rabiscos de poetas e ficcionistas. É editor na Caiaponte Edições. 50


i. Se na Química com dois ou mais elementos se na Física com dois ou mais movimentos se na Lírica com ritmo rima e expansão se na Música soante dissonante da canção se por todos lados passa algo por que aqui esse silêncio? ii. Se depois de Berlim ou Hiroshima Se depois de Cuba ou da Hungria de 56 quando Camus fez que não a Sartre e este não se enxergou no espelho (Mariátegui! Mariátegui!) : nalgum momento o erro o erro o erro o erro o /error iii. Vandré enlouqueceu na tortura dum porão sujo duma ditadura (mais uma) latino-americana Vandré e sua canção de luta. Geraldo, canções são para cantar; lutas, para lutar : disso eu sei que tu sabias, mas os meninos e as meninas... iv. Ingredientes: - uma garrafa de vidro - combustível líquido - pedaço de tecido

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- coragem & desilusão Instruções (1): Despeje o combustível no interior da garrafa. Meta o tecido dentro da garrafa de modo a fechar a boca da mesma, cuidando para deixar uma sobra de tecido para o lado de fora. Instruções (2): Acenda o tecido com um isqueiro. Escolha seu alvo de preferência. Atire a garrafa com o combustível. Sorria. v. Soledad Barret Viedma era poeta Soledad Barret Viedma era paraguaia Soledad Barret Viedma estava grávida Soledad Barret Viedma morreu no Recife Soledad Barret Viedma foi estuprada esbofeteada e tomou quatro tiros na cabeça. Não há poesia que reviva Soledad Barret Viedma. vi. O país está em chamas e não foram os militares que começaram O país está em chamas e não foi Sarney que começou O país está em chamas e não foi Collor, Itamar, Fernando Henrique ou Lula O país estava em chamas antes do golpe O país continua em chamas depois do golpe O país finalmente tem oportunidade de afundar e apagar as chamas / fazer ferver o mar vii. Glauber tinha razão, mas não tinha. Razão tinha Joãosinho Trinta. Glauber tinha razão e sabia que esse país ainda tem muito pra queimar.

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mafalda sofia gomes (Porto, 1992). Estudou Línguas, Literaturas e Culturas (Português/Alemão) na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em mestrado, especializou-se em germanística medieval. Encontra-se a escrever a tese de doutoramento sobre construções de maternidade na literatura alemã dos séculos XII e XIII. Contribuiu com poemas para diferentes antologias (Curupira, A Sul de Nenhum Norte, Guetto, Tlön, Liberoamericanas: 80 poetas contemporâneas, Gazeta de Poesia Inédita e Escamandro). Co-editou o nº5 do zine MAIS PORNÔ, PFVR, especial poesia de Portugal. É editora da plataforma online A Bacana. 53


o que diria Hildegard von Bingen? A propósito da extinção das casas religiosas femininas em Portugal

Vertical como a cruz de nosso senhor vago muito como uma virgem aromática sem sinais ou estigmas de putrefação passeio-me do coro ao dormitório vou da torre à sacristia na cozinha danço sozinha bebo o vinho das galhetas limpo os pés aos manistérgios temo ter perdido de vista a sagrada falangeta de nosso senhor o meu flanco é o arco da fortuna em que correm o tempo e a água crua daquelas que se lavam para morrer mas não sei se é hora de pôr a água a ferver se hei-de colher já as mil pétalas de rosas de santa teresinha quem perfumará as águas do meu cadáver? de que cor bordo a minha mortalha? tenho a hagiografia para me inspirar o santo exemplo e há dias em que tenho tanta coragem que subo as escadas e vou mesmo a sério para experimentar o martírio

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mas de que serve o sacrifício sem objeto? tantos livros de horas tantos livros para ler mas não tenho quem receba as minhas cartas como estou aborrecida aliso os cortinados muito nua e dou muitos saltos na laje fria porque acredito no mistério da levitação é então que de braços muito abertos debruço-me nos parapeitos a ver quantas galinhas me roubaram e vejo que as galinhas comem os próprios ovos e eu como as galinhas porque não tenho flexibilidade para comer os meus próprios ovos os meus ovos quebraram-se nas ogivas os meus ovos quebraram-se ninguém nunca ficou para ver os meus ovos estrelados e eu própria nunca me vi aliviada por pôr ovo nenhum confirmo que algumas galinhas são canibais e bicam a cloaca das suas irmãs viciadas no sangue e no prolapso mas eu não eu não matei as minhas irmãs

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era claro que não voavam e que não tenho vícios de alturas mas teria comido os meus próprios ovos os ovos brancos das minhas irmãs não me chegaram a perguntar nada vou dormindo longas sestas faço-me leve e abro-me muito para soprarem para dentro de mim como se eu fosse o olifante de Rolando um apito agudo para chamar os cães sonho que sou uma santa voadora e plano alto muito plena dos mil gozos mas não há fantasmas no convento não há aragens no convento quando acordo vou muito direita ver se a chama ainda está acesa porque guardo a eternidade nos seus pavios resisto como fenómeno perpendicular ao céu que agita a máquina e os ventos em que nem deus manda mensageiros manda pôr ovos ou diz quando morrer.

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maílson furtado É escritor, ator, diretor, produtor cultural e cirurgião-dentista. Com seu livro à cidade foi vencedor nas categorias de livro do ano e de poesia no Prêmio Jabuti 2018. Em Varjota, zona norte do Ceará, é produtor cultural da Casa de Arte CriAr, e desenvolve trabalhos como ator, diretor e dramaturgo e, atualmente, lidera a CIA teatral Criando Arte. 57


[da janela de um ônibus]

quantos restos pedaços bagaços de vida ficaram por aquela esquina? quantos olhares pras pernas a mostra? quantos desejos? quantos pecados? quantxs?! quantas vidas dobraram a esquina e ninguém mais sabe nada? subiram rua acima aranharam asfalto acima e foram até onde minha vista pode deixaram pneus deixaram buzinas (e com quantos pneus se faz uma rodovia? se faz n avos de desejos?) me fiz de tantos. deixei-me em tantos até em mim deixei desejo incrustado a cinco braços de chão na penúltima esquina da biblioteca do waldir leopércio (por onde ofertei beijos

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por onde encontrei leminski por onde me atropelo em lembrar) deixei-me todo em cada mergulho no acaraú hoje talvez esteja pra lá da polinésia francesa ou talvez virado gelo virado esgoto virado conservante enlatado virado mijo virado outro desejo tudo isso no rio e chamam de rio tudo o que ficou o rio é um risquinho no mapa pintado de azul quase marinho mas do mar é um primo distante na foto fica meio turvo - cor de rio que deixa verde as margens deixa vermelho o sangue da vaca (que ainda é viva) que dá leite que tá numa caixinha azul azul como se vê a gente da lua que de lá tudo sabe das esquinas que não tem

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natasha felix (1996) Nasceu em Santos. Vive em São Paulo e cursa Letras pela Universidade de São Paulo. É escritora, redatora e educadora. Seu livro de estreia, Use o Alicate Agora (ed. Macondo) foi lançado em 2018 e a segunda tiragem pode ser adquirida no site oficial da editora. Tem textos publicados em revistas digitais e físicas. 60


o chão da festa longe dos pés

1. no meio do tumulto a mulher com sua imensa cabeça de cavalo prepara-se para o salto como se alguém aguardasse do outro lado. ali o cavalo dança. ali seu rosto é quente e sem saída. a praça cheia de corpos amarelos responde às perguntas não sei o que esperam de mim, mesmo assim me ofereço. vontade de achar um alvo para o coice: arranjar finalidade para a força. qualquer que fosse. algo que valha a pena esse pedaço de noite. 2. a cara debaixo do cavalo em março se move pelo cheiro das coisas e arrebenta na rua Riachuelo pedindo mais. 3. a mulher agarra sua imensa cabeça de cavalo olha para os lados sem piedade arranca pelo pescoço a cabeça de cavalo a imensa cabeça de cavalo a mulher ri imprudente nem relinchar pode morre um pouco porque deve deixa a vontade correr porque sem mistério lambe quem arrisca se aproximar. diz que sim a mulher diz que sim.

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thais arruda


diego petrarca Nasceu em Porto Alegre em 20 de março de 1980. Mestre em Teoria Literária - Escrita Criativa. Publicou os livros: Nova Música Nossa (crônicas) 1998, Mesmo (poesia) 2003, Banda (poesia) 2002, Via Cinemascope (poesia), 2004. Cada Coisa (Multifoco -poesia) 2012, Vento & Avenca (Athy -haicais) 2012, Hai-Cábulos, (edições Dulcinéia Catadora) com Andréia Laimer (2012) e Tudo Figura, (2014), - selecionado pelo Plano de Edições do Instituto Estadual do Livro (indicado ao prêmio AGES poesia 2015) e Carnaval Subjetivo (Bestiário – 2018). Premiado em concursos literários. Integrou 15 antologias, publicou textos e poemas em jornais e revistas. Trabalha em projetos de literatura e jornalismo literário. É professor de literatura do Estado do RS e ministra oficinas literárias em órgãos de cultura em Porto Alegre. 64


reativo

Não invento motivo quando bate um vento enviesado não hesito:prendo o grito não sou vingativo:mas reativo não pode haver desculpa ao inimigo que às vezes a gente até alimenta encostado no umbigo quando a verdade não compensa quando a cidade é violência quando quem fala não pensa quando falta uma presença quando a liberdade é uma sentença disparo um desprezo imperativo definitivamente reativo extinguindo o insuportável execrando o intolerável absolutamente implacável ao que fere a garganta e arranha a retina aos robozinhos da economia eu soletro a minha lira ejaculo a minha ira em nome das novas possibilidades que se abrem avessas à moral que rege e que me rangem os dentes só depois eu paro respiro fundo e deixo meu coração seguir o que restou de futuro mas antes de eu ser extinto não minto: me deixo ser instinto

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fávia péret (1978, Ouro Preto) Mestre em Teoria da Literatura pela UFMG, Flávia Péret é escritora, artista da palavra e professora de escrita e de literatura. Atualmente, realiza doutorado na Faculdade de Educação da UFMG sobre escrita e resistência. Em 2018, rececebeu o prêmio Jean-Jacques Rousseau, pela Akademie Schloss Solitude (Alemanha) pelo seu trabalho e pesquisa com a literatura. Em 2009, foi vencedora do prêmio Memória do Jornalismo Brasileiro, promovido pelo Jornal Folha de S.Paulo, com a pesquisa História da Imprensa Gay no Brasil – entre a militância e o consumo. Já publicou os livros: Imprensa Gay no Brasil (2011), 10 Poemas de Amor e de Susto (2013), Outra Noite (2014) Escrita infinita (2014), Novelinha (2016) e Uma Mulher (2017) e Os Patos (2018). Em 2019, irá publicar o livro Mulher-Bomba, pela editora Urutau. 66


a sede infinita

Compaixão! É Isso que você precisa ter para ler essa história que começa aqui. Eu vou contar uma história curta e cheia de buracos_____________. Porque eu não sei escrever aquela coisa dois pontos travessão ponto e vírgula e parágrafos. não sei fazer o tal começo-meio-fim. É tudo muito algébrico para minha cabeça que pensa as coisas sem pontos, só uns cortes bruscos, porque o ponto é uma pausa e eu não sei pensar pausadamente, eu sempre quis escrever essa história. A história de uma mulher chamada S. mas tinha uns pudores, umas vergonhas. Escrever sem dó, sem medo ou pena da coisa escrita, porque no fundo os textos falam quase todos da mesma coisa: desse bicho homem tão imbecil tão lindo e tão frágil que não sabe o que fazer com sua própria bestialidade e com suas fraquezas e tenta ser menos osso menos pedra. Tenta fulminar a morte, arrastando-se numa vida de sequências muito loucas e arrastadas ou muito ligeiras e desfocadas. Mas têm outros textos que são os textos que não me interessam porque falam de uns homens bons e de umas moças limpinhas. Porque as mulheres não são limpas, nunca acreditei nisso mas tudo é tão bonito também, e tudo fica mais bonito dependendo do modo como olhamos para aquilo. o urubu acha bonito a carcaça do bicho morto que ele devora com prazer. Então, prestem bastante atenção nas coisas que vou contar porque vocês podem até achar S. um serzinho digno e de uma beleza complexa, porque não nega a sujeira nem o feio que é o bonito que ela tem. (Mas agora eu estou com sono e vou parar. Depois reclamo das noites insones. A ossatura tensa de tanta enxadada. Uma vez li que escrever é igual a pegar na enxada. Se a pessoa não tem uma boa reserva de energia, músculos fortes, não consegue mais que umas poucas enxadadas, algumas páginas. E eu tenho uns bracinhos fracos, ainda estou me acostumando com isso de pegar a enxada, revolver a canga bruta, avermelhada de ferro, empedrada mesmo. Nem sinal de terra fofa-fértil-úmida, quer dizer tenho uns terrenos quase férteis, dificílimos, sombreados quase sempre troncos retorcidos que atravessam minha noite meus sonhos e uma solidão calcária que me sapeca feito fogo por dentro do corpo visível que ninguém vê. Outro dia eu não dormi, fiquei crispada feito musgo na madrugada a noite inteira. Até aquela hora que ó último cachorro desiste de latir e o ar vai ficando limpo e mais leve e o azul escuro da noite começa a se transforma no azul clarinho do dia. Lá fora tudo quieto,as vidraças abertas e aqui dentro os farelos) A história de S. não tem nenhum outro personagem, nem espaços assim demarcados com uma linha ou um desenho feito de giz de cera numa folha branca ou um palco, um poço também é um espaço, ou uma corda estendida entre as duas margens de um rio. O

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tempo é o tempo da escrita, para, e começa quando começa. S. tem um rosto bipartido. Uma face que às vezes grita no feminino agudo, outra no masculino rouco. É como se ela tivesse perdido a forma mulher, mas só da cabeça para cima, embaixo continua tudo lá: os peitos e o útero os ovários e o clitóris. tudo certinho. Só que em cima tem umas coisas secas aniquilando os is femininos. S. é muitas. É fera, unicórnio enjaulado, jade. É Santiago perdido em apartamentos imundos. Ela é tão antiga, tem costas de lagarto. Com uma faca é possível tirar seu couro e ficar vendo aquela coisa brilhando dentro dela, vermelho branco mogno verniz gritante. S. pensa umas coisas assim vastas, roxas e empoeiradas, não é mais menina. É mulher com oco de homem e carcaça de lagarto. S. é diversa (o), fala uma língua chorosa, cheia de nhãs e ais e suspiros e dores, tem um bicho fugidio no pulso, um bicho acuado e feroz. Mas S. também tem umas audácias. Um dia ela leu um negócio muito bonito, falava de margens, que um rio tem duas margens, mas dependendo pode ter três margens. É só saber olhar, como o feio bonito. Ela pensou que se uma mulher ficar parada olhando o rio pode virar rio, virar margem. Mas tem que concentrar porque é igual ver estrela cadente no céu, tem que ficar ali parada com o pescoço para cima, olhando, olhando. S. não é mais mulher, mas quis ser margem para ficar assim inundada toda nas beiradas, uma água morna, lodosa, remexida de sol, vento, pés de mulher afundando o pé na lama do fundo do rio, despregando o barro. É gostoso enfiar o pé naquela lama quente e fria, os dedos assim escondidos lá no comecinho do fundo da terra e da água. S. roçando o plexo toda molhada por dentro e por fora, acelerada de paz, nos cantos e dentro, água viva. S. tem momentos assim eclipses palavras como sublime. coração fazendo tum-tum-tum. A pele inteira brilhando por dentro. Mas na maioria das vezes, S. fica triste e pensa: vocês vão engolir o que de grotesco sair de mim? Nada de bandeirolas, purpurinas, serpentinas para os olhos dos cordeirinhos, prosa porca mesmo sem sangue. E esse rosto bipartido? É um rosto procurando indenidade? Eu aprendi há muito tempo quando me deram esse nome S. pedras escarlates, aprendi a chupar chuuuu. O chocalho no pescoço do bicho avisa. Bicho felino. Não gosto dos gatos, não gosto quando me olham nos olhos, fico engruvinhada toda. Um arrepio. Não gosto, prefiro os lagartos, bichos antigos, acetinados. Você está com medo? Muito. Eu vou te dar um beijo e soprar seu rosto. Vou te mostrar coisas bonitas, outras coisas. Eu to ficando com dó de você, em partes. Piedade é pouco. Veja o que escrevi para você: nhá flá-bo qu’esss bai titã que’n ta bai. Não precisa entender, porque você é feita daquilo que não entende e nunca vai entender. Não adianta escrever não adianta esquecer ou lembrar, palavra ou lágrima buraco ou vazio espaço, sublime. Não fica passiva assim não, sua boba, igual mocinha sendo devastada, a sua história é só uma história cheia de buracos. O buraco foi feito para espiar o de dentro porque o de fora todo mundo vê. Vê que uma linha é feita de palavras e que palavra pesca palavra numa sucessão de brancos e pretos, vê os fonemas, as letrinhas todas lá, os hiatos e os encontros vocálicos. Mas tudo isso é muito pouco, a espessura da

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palavra é pouco. É no buraco que se escuta o timbre, entende? É no buraco que a palavra grita pra gente as coisas que ela precisa dizer. Sem o buraco a palavra fica assim só um desenho. O buraco é a ponte. Assento-me na cadeira de vime no final da tarde para escutar as ladainhas que S. me impõe ao ouvido. Às vezes ela fala muito, como se tivesse o próprio texto atravessado na garganta. Uma voz nervosa e cheia de pedidos. Escuta, escuta. Nessas horas a luz é fresca e o cheiro de carne frita vai entrando pela sala. Fiquei confusa aquele dia, toda aquela história dos buracos. Não entendi nada. Você continua duvidosa da importância dos seus buracos, criatura. Porque ao invés de escrever sobre meus buracos, você não conta uma história assim mais feijão com arroz para todo mundo gostar de mim! Não posso. No soy luz, sou oscura. Não posso. Não sei escrever feijão com arroz, mas sei escrever sarapatel. Coloco todos os seus miúdos dentro da panela refogo com cebola, frito, te afogo um pouquinho ali no óleo quente, na pimenta, no dendê. Comida de macho. Você também não é homem? Eu não. Só repito o que esse povo fala. Esse povo fala muita merda. Mas você é etérea, não se preocupe. Eu te frito, te como, furo seus olhinhos arregalados e você continua selvagem, antiga, açoitando meus demônios, uma dama. Você que é errada nos meios, tem uns contornos fracos, mas um coração pungente. Tão bom ficar olhando para você assim. Eu gosto quando você chora. Seus olhos vão ficando inundados igual aquele dia, olhos de fogo. Vamos rir. Vamos rir. Abre a boca para mostrar os dentes, com os braços para cima. Eu vi você dançando aquele dia, antes, quando você era mulher. Sua fala feminina está esturricando no asfalto e você nem percebe. Os homens chegam e te saqueiam toda e você permite, eles te comem com manteiga. Então é aqui que eu furo seus olhos para entrar claridade, revelo toda sua sordidez e te salvo. Um dia você escreveu uma coisa tão bonita que me comoveu. Antes você era diferente. Antes você tinha seus desejos. Agora eu te olho e vejo um monte de tripas, só porcarias dentro de você. Antigamente você rezava para Nossa Senhora, cantava todas aquelas músicas, o ramalhete de florzinhas na mão, mas era tudo igual. Depois, você quis matar o deuzinho bondoso que vivia dentro de você, que te limpava, esfregava suas tripas e você ficava um brilho. Tudo mentira. Você é etérea, mas não é feita de tempo. Os vincos se anunciam. Vejo tormentas sob seus olhos, travada, cortada, seca. Tenha calma agora. Meus olhos não se fecham nunca, comidos pelas mil noites que velei seus amores inúteis. Um por um, depois todos. Sempre inapta para o amor. Você se alimentava das sobras, esgoto do mundo. A língua cansada, ferida, seu sexo cocho, histérico. Esperei muito, seu corpo-meu-corpo, dentes e nervos, morri nesta espera, nessa secura. Não culpe o amor. Culpado. Você. Você é uma boba. Não culpe o amor. Estou rindo muito de você. Você sempre morreu um pouco no amor. Veja o que restou de ti depois que começou a matar suas doçuras. Você matou seu amor descabido pelos homens e matou seu deus o que te sobrou? A vida. Um rosto aleijado. A vida. A solidão. A vida. Você não entende nada. Eu agora vou rir de você. Você não entende nada. Nunca estive inteira nos amores descabidos. Vivi sempre exilada de mim. Estamos sempre partidas. Nossa natureza é bipartida, tripartida, multipartida.

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Partido não é aleijado. Onde foram parar suas sandálias verdes? Estão no armário. Seus cadernos com versos, seus amores abismos, sua poesia transbordava um amor tão fundo. Muito arriscado viver o tempo todo assim, escrevendo. Eu achava bonito. Eu achava cansativo. Agora te destruo. Você já morreu tantas vezes aqui, neste quarto sem janelas, na minha língua, entre meus dedos, nos apartamentos vazios do centro da cidade, na cama dos desconhecidos, morreu até li, na beira daquele rio. O nó que amarra tuas partes é mais firme do que você pensa. Eu queria saber falar com você, mas existem umas zonas cinzas, territórios dentro das palavras que quando a gente vai entrando no fundo do fundo delas, elas vão ficando ocas. Uma coisa partida continua existindo? Sim, afastada, distante. Esse existir chamamos de que? Milagre. Dádiva. Segunda chance. Já a amputação é a parte putrefata que não existe mais em nenhum ponto. Você pode até ter um feminino partido, dói, mas tem uma beleza nisso. Um feminino amputado é um flagelo, é um castigo. Eu acho as pessoas tão sós. Elas ficam lá abandonadas. Amando errado, escutando aquelas músicas tristes, com suas noites cheias de espaços em vão. As pessoas me comovem. Só isso. Gosto quando as pessoas me pedem para ficar calada. No começo pensava, fico aqui parada feito mula, bicho que nasceu à revelia, bizarrice da natureza. Me sinto tão mula no mundo, uns relinchos dentro de mim. Depois fui descobrindo que só meu corpo estava ali, naquelas camas, nada mais. E os meus impulsos elétricos, os nervos, os músculos da minha barriga contraída, os músculos da coxa aberta. Eu gosto de escutar as histórias que as pessoas contam depois do sexo. Tantos lamentos e eu mula-sozinha- me junto a esse grande cortejo de choros e dores, mar de solidões dentro de mim. Decretaram muito cedo seu destino: amor sem contas. Depois os apertos, forçando em você as fugas: vai e volta, vai e volta, vai e volta. Uma mulher que anda em círculos. Agora para. No instante exato que a corda do balanço desenha no ar uma pausa. É aqui. Nesta tarde de sol a pino, todas as suas aflições pulsando entre seu pescoço e seu estômago. Você está fixada no grotesco, filhinha. Urdida de estrume e pelos, um mingau de sujeiras. Te falta é esterco. Te falta é fundura porque essa dor nas beiradas é só uma mulher pedindo ajuda. Quando você vai gritar socorro? Eu te vejo. Vejo quando você dança em transe. Os braços para cima. Lembra que sua mãe corria no quintal para pegar umas folhinhas de bálsamo, lavava e te dava para mastigar, aliviava suas feridas. Mas agora você não tem mais mãe. E eram tantas feridas, na boca, por dentro dos seus olhos grandes. Você era uma menina de oito anos e já sapecava nos ocos. Você quer que eu te diga umas palavras sossegadas para você olhar de mansinho para as coisas. Te chamo no alto do alto da noite para afagar seus cabelos, suas dores são fios finos, longos e castanhos. Te deito no mormaço da madrugada. Você diz: não durmo nunca, enquanto folhas secas tintilam pela rua. Tantas de fazem. Substância bruta e leitosa, espasmos, choros, vida-morte-vida, intervalo, trilha inexata, cortes, ancas, velha

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adocicada, presa, livre, nômade. Pequenos alvoroços tingem com listas fundas seu coração, fazem-te gravura e assim te vejo impressa, manchas. Você têm bondades no meio e cólera nos fundos. E isso tem cura? Não. Isso é você. Canteiro de ódios e alegrias. Tem coisa na gente que não tem cura. Aceita suas raivas, seus medos e suas roseiras, petúnias, begônias, gardênias, crisântemos, suas ervas daninhas, raras e perfumadas. Vasculha esse mato. Faz tempo que meus olhos viram isso, um traço que te arranca do chão e é tudo simples: amar a nossa falta mesma de amor e na secura nossa amar a água implícita e o beijo tácito e a sede infinita.

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presenรงa 72


júnior baladeira Artista do Interior de Pernambuco que desenvolve seu trabalho nas linguagens da música e literatura com experiências no Rap e na poesia de cordel. Como escritor começou ainda na adolescência produzindo poesias e compondo algumas letras simples. No ano de 2010 Lançou sua primeira obra, o livro de poesias “Versos Alados” que Foi publicado de maneira independente, nesse mesmo tempo lançou também dois livretos de cordel. Na música, Júnior Começou no ano de 2005 fazendo seus primeiros RAP´s, mas só em 2010 conseguiu gravar seu primeiro trabalho e imprimir o estilo que lhe definiria ao mesclar o ritmo americano aos elementos da cultura popular nordestina. Após lançar as primeiras obras o artista passou a atuar em eventos tanto de literatura com a declamação de poemas, como eventos musicais com seu trabalho, não foram raros os momentos onde suas performances fundiram as duas linguagens dando ainda mais riqueza as suas apresentações. Além do primeiro trabalho musical, Júnior Baladeira Lançou outros discos em 2012, “A Insistência Poética dos Diferentes” e em 2016 “A Derrocada”. Nos seus trabalhos musicais Ele traz diversos experimentos desde a declamação de poesias de Cordel ao som de ritmos Fundidos ao Rap até mesmo pinceladas de métricas da Literatura popular transitando em samples de Ritmos como o Aboio, o Maracatu, A Ciranda, O Coco e Outros, Nas suas performances ao vivo põe o público muitas vezes a ariscar passos de Coco e bailar rodas de Ciranda, promovendo uma interação muito sadia entre artista e plateia. Suas letras trazem a descrição de dezenas de elementos vivos da cultura Nordestina, Folguedos, vivências e mestres da região, Traz em outros trabalhos também temáticas universais como a filosofia, as relações humanas e sociedade atual. 73


Brinquei vivo e livre nos dias tĂŁo meus Vagando sem dono e sem ter propriedade Bebi nas folias e em becos da cidade E eu nesse altar tinha o lugar do deus. Quando vi cair a mĂĄscara do adeus Voltei ser mortal e me recriminar Respirei profundo e logo quis bradar Rasgando a persona fugaz da rotina Voltando a abrir nossa doce cortina Como deuses loucos em busca de um altar!

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malu siqueira Atriz, compositora, produtora cultural, poeta, intérprete, integrante do Grupo Atimanha (núcleo de estudos teatrais do SESC Bodocó) e CIA M.E.D.U.S.A, está escrevendo seu primeiro livro. 21 anos, de Bodocó-PE. 75


As serpentinas nascem em meu peito longínquo Como ervas cannabis Soam efeitos Intrépidas, cálidas, palpáveis. Ora, se ando em marcha fazendo reverência à cruz do cristo que nem foi santificado Cruzo também o sinal vermelho e a bomba de gás se desfaz em purpurina Hetero Homogênea. No encalço do frevo das sombrinhas diárias difuso o freio no passo em falso Sensatez é estar no bloco dos loucos fantasiados de ninguém. Deixem os confetes flutuantes desafiarem a gravidade pairando no ar como poeira no instante segundo. Que carnaval é ser bicho saído da jaula pronto para morrer depois.

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letícia brito Poeta, dedica-se à poesia falada (spoken word/poetry slam) e às micro revoluções políticosociais onde a poesia incinera, afaga, afeta e transforma. Lançou o livro Senário, com produção independente, o livreto “Da lama ao slam” e o disco de spoken “Senário ou Paralelepípedo Poético Para Quebrar Vidraças Literárias”. Integra também as antologias “on dystopia”, organizada por Porsha e “on sisterhood”, organizada por Melissa Lozada, com poemas em português e inglês. Como produtora da cena carioca de slam e sarau já fez: Mulherau, Pizzarau, Batalha da Pizza, Tagarela e atualmente integra a produção e realização do Slam das Minas RJ. Em 2017, representou o Brasil no Rio Poetry Slam que reuniu 12 poetas competidores de diferentes países e que acontece na Festa Literária das Periferias (Flup). Em 2018 integrou a banca avaliadora do Flup Poesia Preta, realizou oficina para os professores da Rede SESC nacional de ensino na Escola SESC de Ensino Médio, realizou oficina de literatura no Com(A)rtes na Educação do Sesc Nacional e participou do circuito SESC Arte da Palavra no segundo semestre onde visitou 5 estados brasileiros, (8 cidades Salvador/Bahia, Belo Horizonte/Minas Gerais, Belém/Pará, São Luís/Maranhão, Arcoverde, Belo Jardim, Pesqueira e Buíque/Pernambuco), 5 escolas, sendo uma do Sesc e uma na aldeia Xukuru, 3 teatros do Sesc, dois palcos em praça pública, uma biblioteca popular e uma colônia penal feminina, onde fez apresentações artísticas e trocas culturais sobre poesia e oralidades. Em 2019 pretende seguir usando sua poesia em oposição ao fascismo. 77


intervenção de emergência

Eu ando vendendo glitter que é pra ajudar as pessoas a acreditarem no seu brilho próprio Eu ando vendendo glitter mas o biodegradável tá pela hora da morte E o brilho agradável do dourado holográfico na pele faz um bem danado à autoestima e atrapalha um pouco nos métodos contraceptivos, afinal é carnaval e o seu copo plástico também mata tartarugas marinhas, aliás, você vestido de tartaruga ninja com o copo plástico na mão recriminando meu glitter mata menos tartarugas marinhas que a polícia mata pretos, e ainda assim você não pode ocupar seu lugar de fala, nem dos pretos, nem das tartarugas, nem dos ninjas. Eu ando vendendo cachaça que é pra poder brilhar a cada vez que provo a dosagem no liquidificador e penso que uma lasca de gengibre a mais equivale a uma vírgula bem colocada num poema, pense... Eu ando vendendo cachaça porque glitter dá uma trabalheira pra tirar com hidratante, óleo de coco e condicionador e o povo já voltou a trabalhar e um brilhinho na sombrancelha já justifica o olhar recriminatório do patrão que é um mala e tava em Teresópolis pra fugir do carnaval. Eu ando bebendo cachaça porque eu vendo muito mal, afinal quem mandou inventar de vender coisas, logo eu que sou contra o capital e sou contra intervenções sejam elas militares ou federais, civis ou estaduais, do estado ou ao meu corpo. Eu ando bebendo cachaça demais porque o estado está intervindo demais e só a cachaça liberta os exus das esquinas da cidade de São Sebastião que laica mas não morde e assopra vela pra todos os santos sejam eles “merlicianos”, ou “framenguistas”, afinal ainda tem um final de semana pra fingir que é carnaval. Eu ando vendendo coisas (inclusive livretos) que é pra conseguir pagar boletos e ter um nome limpo de poeta na praça seja esse nome ou o social que nunca escolho porque na verdade eu queria mesmo era não ter que vender mas distribuir poemas escritos mas infelizmente o pessoal ainda não aprendeu a ler então só nos resta pedir um abraço. Eu ando aceitando abraços.

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thais arruda


rafaella rímoli Poeta, autora dos livros de poemas O Haver Flor (Editora Coruja) e Contínuo Instante (em processo de publicação pela Editora Patuá). Criadora e mediadora do Poéticas Coloridas – Vivências Artísticas de Autoencontro e professora particular de poesia. Formou-se em licenciatura em Letras pela UNAERP, também trabalha com ilustração e pintura e já trabalhou com mediação em exposição de arte contemporânea e canto. Premiações: Literário Paulo Freire (2012); Escritores in Progress Bienal do Livro de São Paulo (2012); Literário Darcy Ribeiro (2014); Prêmio Cataratas de Contos e Poesias de Foz do Iguaçu e Prêmio Cidadão de Poesia de Limeira (2017). 81


Hoje quebrei um prato na cozinha. Colhi os cacos como se não recolhesse. A queda ecoa pedaços únicos de

um

mosaico

inverso

cujo des mon te é

o

fim.

(por fim entende-se agora)

O

carnaval

é um

prato quebrado na

Desço

esquina.

as escadas dançando o A pele inunda

reflexo do o

sol. instante

(nessa praia deserta de mil vozes)

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Estamos

oceanos raros,

marĂŠ baixa, escuta surda

nas palmas das mĂŁos.

Agachados amamos

os joelhos,

colhend mosaicos

o

i

disrupitiv

o

de confetes no

chĂŁo.

83

m

e

n

sos s


mariana ianelli Nasceu em São Paulo em 1979. É autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005), Almádena (2007), Treva alvorada (2010), O amor e depois (2012) e Tempo de voltar (2016). Tem dois livros de crônicas: Breves anotações sobre um tigre (2013) e Entre imagens para guardar (2017). Estreou na literatura infantil em 2018 com o livro Bichos da noite. Recebeu o prêmio Fundação Bunge de Literatura (antigo Moinho Santista) na categoria Juventude, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e foi quatro vezes finalista do Jabuti. Escreve quinzenalmente aos sábados na revista digital de crônicas Rubem. 84


fazer fogo Que sei eu da tua vida feita de milhões de instantes? Das tuas monstruosidades, tuas taras, teus dramas? Que sei eu dos teus contrabandos no caminho até agora? Se nem sei teu nome e as palavras de um pós-guerra São como pedras que precisamos atritar para dar fogo... Não é mau que o cenário seja pobre e antes uma questão De sobrevivência fazer fogo: isso aproxima estranhos, dispensa Cerimônia, protela a discórdia e nos chama a certos gestos De linguagem universal, rosto de dor, corpo com sono, sede, Medo, fome, e então se tocam a tua loucura, a minha sanha, O meu desejo e o teu desejo, acordados, então queimamos, E queimamos bem, como se assim fizéssemos juntos a vida toda.

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daniel do assaré Daniel Gonçalves da Silva filho de Valdemiro Paulino da Silva e Maria Gonçalves da Silva nascido na data de 15 de junho de 1986 no sítio serra de santana pertencente a Assaré. Neto do poeta Patativa do Assaré e do agricultor Antonio Grande. trabalho como radialista, e poeta/cordelista. 86


vida carnavalesca

feito bebida servida em copos americanos eu vi meus felizes anos secarem como a bebida numa festa colorida fui contra meus ancestrais meus erros não são leais vivi, brinquei sem pudor dormi como um pecador e acordei tarde demais vivi sem cobrar valores decências e bons costumes deletei-me nos perfumes da festa dos pecadores muitas camas mil amores muitas musas poucas damas o tempo fazia tramas e enquanto o tempo tramava a minha vida eu passava dormindo por muitas camas perdi minha sensatez nos sabores dos licores troquei pétalas de flores por farra luxo e nudez quando vi perdi a vez estava na desventura velho não tem aventura mas jovem não tem noção quem semeia perdição colhe noites de amargura minha vida eu cessarei cansado sem ser amado esse é o preço cobrado

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de quem goza como um rei o tempo tem sua lei eu to pagando meu preço virei o mundo ao avesso minha vida foi um trago é alto o preço que pago porém eu sei que mereço eu era um simples menino na noite de Carnaval troquei a minha moral pra ser como um libertino no tratado do destino deixei minha assinatura mas antes da sepultura contarei sobre meus fatos pra ninguem ter os meus atos e pagar na desventura eu gostei do carnaval e dele fiz minha vida a farra luxo a bebida virou coisa habitual quando vi não era igual ao jovem de poucos anos tinha afundado meus planos com frutos desconecidos e vi meus sonhos perdidos na fonte dos desenganos

voei como um passarinho pensando ter liberdade e quando senti saudade eu quis voltar pro meu ninho voltei mas tava sozinho e o tempo foi a escola hoje nada me consola hoje sei que eu nao voava na verdade eu só estava em uma grande gaiola só eu faço esse relato porém sei que muito em breve o jovem que hoje se atreve narrará também o fato de penar pelo maltrato de sentar no tribunal e ter sentença penal da velhice sem guarida depois de fazer da vida um mundo de carnaval

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luna vitrolira Poeta declamadora, mestranda em Teoria da Literatura, cantora, atriz, performer, arte educadora, professora de literatura brasileira, pesquisadora da literatura oral, produtora e idealizadora dos projetos de circulação nacional Estados em Poesia, De Repente uma Glosa e Mulheres de Repente. Natural de Recife/PE, 26 anos. 89


extra extra

algumas pessoas se fantasiam de sinhá para ter suas mucamas enquanto sabemos

muito além do ornamento

matar se tornou um hábito difícil de reverter pra quem se acostumou a comprar a-bater a vender protegido pela conivência quantas fianças pagam uma vida sufocada à gerações até a morte com os pés amarrados e a cara no chão

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david biriguy David Henrique Nunes de Lima (1995) é poeta, músico, produtor cultural e coordena a editora Lara Cartonera. Mora em Belo Jardim/PE e estuda Comunicação Social na UFPE em Caruaru/PE. Publicou os livros “Útero de retratos mundanos” (2013), “Poemas sem cabrestos” (2014) e “Correspondências ao acaso” (2018), além de participar de várias antologias locais e nacionais. Na música, lançou o EP homônimo Desencontrários (2015), e o EP Escombros (2016) com a banda Virgulados, da qual é integrante e fundador. Atualmente se dedica a encontrar caminhos para expandir a produção cultural no Agreste pernambucano. 91


É por que teus antepassados tem nas mãos o sangue dos meus você pode achar que isso não seja nada mas a nossa ancestralidade diz tanto sobre nós se soubéssemos talvez não estaríamos caindo tanto em busca de um porto de um lugar ao sol tem tanta coisa nas entrelinhas nas páginas ocultas da história nas palavras não ditas nas estruturas violentas que nos criam e nos transformam em monstros legitimados por que em algum momento a força dominou a inteligência mas isso não vai acontecer mais por que o pensamento é uma nuvem carregada e ninguém será capaz de destruir

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thais arruda


lua: organização geral, capa, ilustrações e projeto gráfico ithalo furtado: organização geral, curadoria, social media e conteúdo júlia koller: curadoria e organização do evento em São Paulo malu siqueira: curadoria e organização do evento em Pernambuco ster farache: design thiago hita: produção musical

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Carnavalhame - 3ª. Edição  

O Manifesto lítero-musical chega a sua 3ª Edição trazendo 28 vozes de estilos e lugares diversos, do poema livre ao visual, do sertão de Per...

Carnavalhame - 3ª. Edição  

O Manifesto lítero-musical chega a sua 3ª Edição trazendo 28 vozes de estilos e lugares diversos, do poema livre ao visual, do sertão de Per...

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