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SETE - feminino de luas e marĂŠs

2016

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SETE - feminino de luas e marés

SETE feminino de luas e marés Coordenação:

Deolinda Costa Nunes

Produção Gráfica:

Carloz Torres (Editora Essencial)

Capa:

Aline Monteiro Teixeira

Revisão:

Samantha de Souza

Dados ISBN

Copyright © 2016 Deolindabea

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Direitos da edição impressa adquiridos pela EDITORA ESSENCIAL CNPJ: 14.001.349/0001−52 Fone: (11) 98763.5313 / (11) 3459.5255 email: editoraessencialsp@gmail.com


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Pensei o quanto desconfortável é ser trancado do lado de fora, e pensei o quanto pior, talvez, ser trancado no lado de dentro”

Virginia Woolf

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SETE - feminino de luas e marés

Sumário

Adriane Garcia

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Alice Ruiz 20 Aline de Mello Brandão

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Alzira Rufino 35 Ana Carolina Nunes

42

Ana Meireles 52 Arlene Lopes 63 Cláudia Gonçalves 73 Deolinda Nunes 81 Dôra Leal 89 Gisele Ribeiro

98

Inês Santos 106 Jandira Zanchi 112 Janete Manacá 120 Juliana Costa 128 4

Letícia Eça 137


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Liria Porto 145 Livia Natália 151 Maria Helena Latini

158

Maria Lúcia Lopez

166

Norma de Souza Lopes

184

Penélope Martins 192 Roseana Murray 200 Samantha Souza 208 Socorro Lira 222 Maria Sueli Fonseca Gonçalves

175

Telma Cunha 230 Vaneri de Oliveira

240

Vivian Schiesinger

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Wanda Monteiro 257

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APRESENTAÇÃO

Na ciranda mãos se encontram. A roda desliza entre sons, passos, tempo. SETE feminino de luas e marés é uma ciranda poética. As autoras, 30 mulheres, aparecem na Antologia em ordem alfabética. Por ser roda, SETE é movimento, o final pode ser o começo e o meio apenas um jeito de recomeçar. SETE feminino de luas e marés não será comercializado. Faz parte de um projeto que divulgará a antologia em espaços e movimentos culturais se somando a outras vozes, leituras, olhares.

setefemininodeluasemares@gmail.com

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Agradecimentos a todos que aceitaram o convite e fazem parte dessa antologia. Agradecimentos a todos que, de alguma forma, entrarĂŁo na ciranda, expandindo a poesia para alĂŠm das prateleiras.

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PREFÁCIO - Imagino... - Não, não pode imaginar, porque não é mulher. (Madame Bovary)

Sete feminino de luas e marés O silêncio inscrito placenta, voz e vida. Nas páginas semoventes deste livro, luas migrantes dentro do sangue, marés tecendo a pedra, arado o mundo na terra da palavra, escavada a língua - abismo, sepulcro e útero, olho d’água - neste SETE,pulsa a poesia. A palavra, não somente como pólen, a palavra como ato político, o poema. Familiar e estranho, transformá-lo, transbordar o mundo, a palavra escrita corpo, dor, lágrima, riscos, movências, amor. O corpo escrito memória, superfície de silêncios, estilhaços, a poesia lançada pensamento, subversão. A palavra precária, nômade, novas terras inventadas, resistências, a cartografia de um feminino que dissolve fronteiras, a casa, a prisão, a lei ancestral, o doméstico espaço dos muros, o interdito da palavra, o que o poema disse, as impossibilidades. Erguida a taça, um brinde à lua no céu da boca. A palavra voa, liberta. Por um instante, meus olhos conseguem, enfim, imaginar. Ela crescente, acesa de vida, a poesia deste livro. 8

Lisboa, sol de setembro, 2016.

Daniel da Rocha Leite


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(Quem termina, começa)

Um salto para outra margem

“A língua deve atingir desvios femininos, animais, moleculares, e todo o desvio é um devir mortal. Não há linha reta, nem nas coisas nem na linguagem. A sintaxe é o conjunto dos desvios necessários, criados, de cada vez, para revelar a vida nas coisas.”

Deleuze - A literatura e a vida

As luas e suas marés é o que rege o destino da palavra poética das autoras que assinam este livro. Mulheres que no seu fazer poético, promovem a conciliação do poema e do ato na comunhão entre a palavra concebida com a palavra viva. Livres porque donas de si e de seu verbo, rebelam-se contra a opressão e os domínios conceituais pré-concebidos sob a égide da primazia do masculino. Descobrem-se acima das codificações e das classificações e adotam para si universalidade do humano sem abdicar da singularidade sobre-humana de gestar a poesia e parir o poema encarnado em imagens, vivo na palavra. No solitário ato da escrita e diante da ausência de imagens de mundo que veem e

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sentem, confrontam-se consigo mesmas para criar essas imagens, configurando-as em poemas. O poema é um lugar na iminência da descoberta. Um lugar onde o leitor encontrará não o significado da imagem, mas sim a significância de sua busca. No corpo dessa escritura, decerto, o leitor buscará um ninho, um ponto de inserção ou intercessão, um ventre-centro-fixo vibrante onde signos nascem e renascem para além desse ventre, reverberando uma linguagem erguida. As imagens, frame a frame, uma película, um sempre-feixe-de-sentidos, colados à luz da percepção das autoras, faz-se poesia. Uma poesia que se rebela à explicação, mas que se entrega ao destino de um novo feixe de sentidos do leitor. A leitura, uma vereda e a oferta da aventura na recriação de novas imagens. A escrita, sua dança e seu ritmo, cujas concepções se deram no tempo mítico e na comunhão mística e mágica do ato poético de cada autora nas terras férteis de seu imaginário. Um livro de poetas e, não por acaso, mulheres. Elas, buscando na subjetividade perdida, um chão de possibilidades a nos salvar para longe da objetividade que a realidade nos impõe. Elas, comovendo-se com o mundo, enxergando nos invisíveis do cotidiano o íntimo absurdo do humano e a impermanência do tudo que se move e vive para além do humano. Elas, antevendo caminhos e desenhando paisagens, abismos e riscos na senda das palavras. Elas que dão luz às palavras para que nos salvem da lucidez e de seu confinamento e nos tragam a agudeza e o efeito


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loucura – o gozo de sua liberdade. Num parto ao verbo na forma do sagrado. Elas, consagrando a fertilidade do verbo, no ato da escrita, no seu dizer poético. A poesia que não comporta explicação porquanto concebida em ato e parto entregando-se à compreensão em si mesma e por si mesma. A poética, líquida e orgânica, dessas escritoras, em comunhão nessa praia feita de palavras em poesia, pretende levar o leitor ao espanto de morrer e desmorrer no salto-mortal para dentro de si e num sopro renascer para fora de si – numa outra margem. Este livro de poemas, um convite ao leitor para experimentar o salto, na vertigem de seguir e prosseguir no rito de passagem para essa outra margem, onde, liquefeito, correrá nas águas do sagrado feminino regido por luas e marés.

Inverno de 2016, Ao pé da serra, Itacoatiara, Niterói, Rio de Janeiro

Wanda Monteiro  

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Adriane Garcia, escritora, de Belo Horizonte-MG. Têm publicados três livros: Fábulas para adulto perder o sono, Prêmio Paraná de Literatura 2013; O nome do mundo, editora Armazém da Cultura, 2014; Só, com peixes, editora Confraria do Vento, 2015. Publicou nas revistas Germina, Mallarmargens, Diversos Afins, Incomunidade, Vox, Vida Secreta, Cult. Participa no site Escritoras Suicidas.

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Tremer A série I Uma semente que nunca Arrebentará a casca Bomba inócua Mina terrestre inoperante Guardando o aborto das flores Frio é feito pra se encolher. Adriane Garcia

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II Nos primeiros dias não Dormi Depois passei a Hibernar (Encolhimentos de cobertor) Demônios fingindo que eram Você Se aproveitavam dos espaços nos sonhos. Adriane Garcia

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III Subo até esta última folha Verde broto a mais tenra a mais perto Do Sol Subo ao meu gigante esperado De um sonho antigo Subo Esta queda será enorme Subo Será a maior queda de todas Subo por algum imperativo Que sempre quis estraçalhar-me.

Adriane Garcia

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IV Agora de sentir frio eu quero Aprender as variações do branco Acostumar-me com cem nomes para gelo A ponto de não estranhar Minha própria temperatura Quando eu novamente Morrer. Adriane Garcia  

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V De imaginar sua ausência A noite tornou-se polar O frio das lâminas que cortam Os cordões umbilicais. Adriane Garcia

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VI Depois que você morreu Eu decepei o jardim Fechei as cortinas E vim morrer de frio Se havia vida lá fora Não vi. Adriane Garcia  

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VII Esqueci tudo o que eu sabia E passei a apregoar as boas-novas Achava-me discípula da Verdade Quando na verdade Não passava de uma Discípula da esperança Na minha terra se dizia que Eu cantara de galo: O cano frio do metal a Dois centímetros da nuca Eu nem senti. Adriane Garcia

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Alice Ruiz é poeta e tradutora. Começou a escrever

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na adolescência, tendo várias publicações poéticas em jornais e revistas nessa fase. Seu primeiro livro surgiu em 1980, vieram muitos outros depois. Compõe letras desde os 26 anos, tem diversas canções gravadas por parceiros e intérpretes da música popular brasileira. Antes de publicar seu primeiro livro já havia escrito textos feministas no início dos anos 1970. Recebeu o prêmio Jabuti de poesia em 1989 e outro em 2009. Tem poemas traduzidos e publicados em antologias nos EUA, Bélgica, México, Argentina, Espanha e Irlanda. É haikaista. Curitibana, vive em São Paulo. É avó, mas não abre mão da alma de menina.


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I Lembra Lembra o tempo em que você sentia e sentir era a forma mais sábia de saber E você nem sabia? Alice Ruiz

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II Saudação da saudade Minha saudade saúda tua ida mesmo sabendo que uma vinda só é possível noutra vida. Aqui, no reino do escuro e do silêncio minha saudade absurda e muda procura às cegas te trazer à luz. Ali, onde nem mesmo você sabe mais talvez, enfim nos espere o esquecimento.

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Aí, ainda assim minha saudade te saúda e se despede de mim. Alice Ruiz  


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III É duro ter coração mole Por favor não me aperte tanto assim tenha cuidado, pega leve olha onde pisa isso é meu coração meu ganha-pão instrumento de trabalho, meio de vida, profissão meu arroz com feijão meu passaporte para qualquer parte para qualquer arte não machuque esse meu coração preciso dele para me levar a Marte sem sair do chão não me aperte não machuque tome cuidado eu vivo disso poesia, sonhos e outras canções sem emoção morro de fome sinto muito mas não há nada que eu possa fazer sem coração.  

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Alice Ruiz


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IV Se

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Se por acaso a gente se cruzasse ia ser um caso sério você ia rir até amanhecer eu ia ir até acontecer de dia um improviso de noite uma farra a gente ia viver com garra eu ia tirar de ouvido todos os sentidos ia ser tão divertido tocar um solo em dueto ia ser um riso ia ser um gozo ia ser todo dia a mesma folia até deixar de ser poesia e virar tédio e nem o meu melhor vestido era remédio daí vá ficando por aí eu vou ficando por aqui evitando desviando sempre pensando se por acaso a gente se cruzasse...  

Alice Ruiz


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V Noite e dia Não me agradam essas coisas que despertam barulho, susto, água fria tudo na minha cara mais nenhum sonho por perto. Não me agradam essas coisas que adormecem vazio, escuro, calmaria tudo que lembra morte quando nada mais dá certo. Não me agradam essas coisas sem poesia uma noite só noite um dia só dia. Alice Ruiz

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VI ainda me viro e me vejo pronta a te chamar a te contar que aprendi hoje coisas que você soube ainda te vejo em cada bicho em cada pensamento me surpreendo olhando com teus olhos de pesquisa e o que vejo vira beleza ainda te sinto em tudo que permanece como se tua pressa de vida que se extingue ficasse um pouco em tudo ainda Alice Ruiz   26


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VII Por uma sĂł fresta entra toda vida que o sol empresta Alice Ruiz

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Aline de Mello Brandão nasceu em Belém do Pará, é médica, escritora, poeta, professora universitária. Cantiga Geral de Amor, Viola D’Água, A Saga de Sumano: uma história amazônica, As Mãos do Tempo, Abaúna e outros poemas são obras publicadas pela autora. Também é Membro Titular da Academia Brasileira de Neurologia e Professora Adjunto IV de Neurologia da UFPA, atualmente aposentada.

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Contando as horas Contando as horas, me esqueço que o tempo quer passar. Nas minhas contas, não meço em qual segundo contado meu tempo irá repousar. E vou, distraidamente, reescrevendo os minutos, poetizando a memória, ponteiros absolutos vão pontilhando essa história em que das horas me esqueço e no papel estremeço o fluxo temporário. Vou nas letras viajando, navegando sem horário nas horas que vou te dando num tempo sem calendário. Aline de Mello Brandão

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Quatro cantos cardeais

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Água O desenredo filtrado Na corredeira do verso Inventa um rio reverso Arisco, feminizado. Cantar encachoeirado Arrochando a quietude Correnteza dolorida Fluida fímbria, fio de vida Fogo Estreito abraço entrançado Selvagem enlace lascivo Latejo inciso aguçado Urgente indócil instintivo Incêndio incenso fumaça Fissura fibra fundura Alucinante ameaça Ardor intenso loucura Terra Barro noturno pisado Folhantefrutiflorido Lentamente percorrido Horizonte extravasado Alcance pedaço chão Gesto caminho suor Reverdecente canção Ar Arisco fêmur do vento


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Auréola de itororós Raros tons de claridade Escorrendo arabescos Auroras de uirapurús Em viagens matinais Vaporosas viravoltas Voos cantos cardeais Aline de Mello Brandão

Tesouros Tesouros - não julgo tê-los tenho talvez um punhado do vivido e do sonhado e vivo para aquecê-los. Aline de Mello Brandão

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Um passarinho que canta Na árvore plantada do verão pousa leve a ave junto ao fruto canta muito linda e alegremente faz que a gente esqueça a dor do mundo bem te via vir ao meu encontro afagar-me a face tão cansada cantar a modinha mais serena entoando em canto: bem te quero. Aline de Mello Brandão

Saltimbancos Os saltimbancos na praça faziam grande algazarra cuspindo fogo e fumaça. A meninada sorria inaugurando a fanfarra, distribuindo alegria. Aline de Mello Brandão 32


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Sul e Norte Há poesia do norte há poesia sulista e motes de toda sorte na criação do artista Há poeta repentista e criação intimista, vagarosa de compor. Há versos feitos de amor e também de alegria. No sul do norte da dor, na luz acesa do dia há invento e cantoria tudo sem tirar nem por! Aline de Mello Brandão

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Poesia brasileira Vive crescente anuncia propaga invade inebria renova alcança irradia tudo de novo alumia ela garante o seu dia relê escreve sentencia nasce renasce alquimia brilha rebrilha utopia dádiva dança alforria sopra enternece assovia é brasileira poesia é fina flor cantoria

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Aline de Mello Brandão


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Alzira Rufino começou a escrever poesia aos 9 anos de idade. Recebeu seu primeiro prêmio aos 13 anos. Optou por atuar como profissional de saúde, no entanto, nunca parou de escrever. Foi a primeira colocada no Concurso de Poesia do Hospital Santa Casa de Santos. Integrante da Casa do Poeta Vicentino, recebeu Diploma de Mérito. Segunda colocada no Concurso de Poesias, promovido pelo Miramar Praia Shopping na cidade de Santos, SP. Obra individual - Livros publicados: Mulher Negra Tem História (1987), Eu Mulher Negra Resisto (1988), Muriquinho Pininho (1989), O poder muda de mãos, não de cor (2000), Qual o quê (2004), Editora de Revista Eparrei, e outras publicações de 1985 a 2016 produzidas pela Casa de Cultura da Mulher Negra, da qual é fundadora e atual presidenta.

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Reflexos Apropriar-se do meu DNA Acordo, durmo. Escovo os dentes. Apropriar-se dos manuscritos de ontem. Fazer releituras Apropriando- me da realidade dos rebanhos Leituras em determinados momentos com a ferramenta possível. Horizontalizo. Me refaço no meu espelho diário. Aproprio-me dos fenômenos que mudam o destino , com olhos e face de produção caseira. Aproprio-me da minha identidade, metas que aguardam mudanças não só para diversão. Aproprio-me da humanidade que me surpreende. Aproprio-me do calor do útero finalizando a produção. Aproprio-me do fazer e refazer as malas Aproprio-me da liberdade de me dar voz de prisão e ordem de recolher para o meu cérebro e sentidos. Apropriar-se do aceitar esse corpo carrasco que no suor do meu corpo transpira pensamentos. Alzira Rufino   36


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Consciente Recito porque não declamo Expiro importado, vencido. Conteúdo arcaico da palavra deteriorada. Tenho choque alérgico. Sou medicada com gotas genéricas em palavras. Sem rótulo. Transfusão, urgente! A máquina ligada registra meu cérebro Vomito o asco das palavras Reclamo, mas não recito Fecha-se o quadro. Apago! Alzira Rufino

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Mulheres Mulheres Mundo Propriedade Proprietários Poder Ferros marcados Véus, burcas. Negras mulheres! Nos rios Nos ventos Nos mares O fogo da liberdade Livres Entre os adés e os ojás. Alzira Rufino

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Diálogo Nos tragam água Não a esse ácido indiferente Pensamos no pó de nossos Deuses africanos Estamos preparadas para os punhais que embalam em algodão Para não sentirmos o corte Impositivo Autoritário Sentimos a dor Não do corte, mas do movimento dele. Sutil, sorridente. Alzira Rufino

Na luta Arrumo o coque, calço a chinela. Xale nas costas, saia rodada, navalha no seio. E vou à luta! Alzira Rufino 39


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Pai evadido Lavam-se os botecos, a mulher grávida amarela transita. Uma criança pede doce Observo uma frase tatuada na sua barriga: - Faça do amor o seu maior presente. Alzira Rufino

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Cuida de mim, anjo azul A vida O recomeço Querer ser como um passarinho? Cortam-te as asas, não te deixam voar. Medo que machuca Coração em divisão. Ter por querer Consciência em gênero Sou negra! Longe... Esquecer o egoísmo, a exclusão. No cérebro o racismo dizendo Que volta depois, que volta depois.. Mulher Negra, sempre no refazer a vida. Toma juízo! Toma cuidado! Querem os seus sonhos inteiros, Essa história de inclusão? -Sabor de vitrine. No grito: -Cuida de mim, anjo azul!! Anjo azul... Dá uma porrada no outro dia, Não incineres as minhas lembranças, nem a minha consciência ancestral. Alzira Rufino  

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Ana Carolinna Nunes, geminiana, nascida em São Paulo. Começou a ler e escrever aos seis anos. Cedo ainda, percebeu o quanto as palavras crescem nas letras e se expandem pra além delas. Sente a poesia como uma essência sem fronteiras, sem métrica, sem hora certa. Atualmente, mora em Minas Gerais, cursa Geografia na Universidade Federal de Viçosa. Participa de oficinas de poesia na universidade onde estuda. Dos seus passos, busca algum caminho. 42


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I Peregrinação interna dentro do raque há uma língua solta a deliciar-se com o vento das estradas há pulsos rentes às araucárias anoitecidas e os braços determinam a direção dos ventos basta teu olhar vítreo pra toda Terra modificar seu magnetismo todos os elementos pendem da mesma teia está tudo conectado a liberdade recém saída do forno queima a ponta dos dedos até criar calos e apontar melhor manejo toda boca anseia pelo desenho dos remos o que deságua, o que une, o que espalha toda alma se vale pelo dinamismo fluvial.

Ana Carolinna Nunes  

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II um pedaço intacto da ilusão atômica adormeceu nos meus braços com sua miragem respiratória como o dia, a promessa vivente em teus olhos que já estavam a fechar seis horas da tarde numa cidade grande um verme alojado na alma febril sugando a expressão intrínseca. karma são as avenidas, a colisão de carnes vivas e os narcóticos ao pé da cama a expiação dessa minha existência é a indiferença que arde entre a própria comoção um eco contrário queima pra fora e por dentro emudece a lâmina externa luta contra o padecimento violência obstérica as ideias segregacionistas e o olho enfiado no eu-lírico único de si 44


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o que não alcança a calçada, dorme em posição fetal no calor de janeiro molha a si mesmo com cílios secos e nunca sabe o significado daquele telefonema. Ana Carolinna Nunes

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III

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eu dividiria com você meu único cigarro de palha o último copo d’água a cama, o cobertor, o travesseiro meu refúgio inteiro eu dividiria minha vida e assim ela se multiplicaria como alguns meses de intercâmbio que fizeste ao meu mundo eu dividiria com você a muda de alecrim a poesia brotando na calçada a chuva fina que faz reacender uma esperança urbana e necessária meus dramas, minhas crônicas eu dividiria meus espasmos e o que quiser da minha alma vagante eu dividiria, divido e dividirei as dívidas filosóficas e saldos emocionais porque tudo que alegremente pousa na minha janela tem formato da sua letra inicial e sorri em gratidão pelo encontro de dois fluxos de águas lacrimais, espirituais e cotidianas eu divido contigo o que tenho pois transbordo artefatos simbólicos de chama viva ao teu caminho de pedras e rosas. Obrigada


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 IV

Reza a ela Querida Lilith orei ontem à noite por agressividade afinco força Querida Lilith pensei tocar os dez dedos do mundo sobre um piano mudo e a vida chovia relampejava incessante devaneei tanta realidade submersa, querida Lilith, os marcos históricos pré dispostos a virem existir no corpo da forte Luxemburgo rosa que mora no mundo inteiro iniciou-se algo sufocado pedindo por continuidade Querida Lilith ensine-nos a lutar de dentro pra fora a revolução!

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ensine-nos a criar a tecer nos ensine a atravessar o mar a libertar Evas a nos libertar Querida Lilith ensine-nos a expandir a sermos nós e não eles. Ana Carolinna Nunes  

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V quantos rabiscos cabem na sua intuição? minha quinta-feira está tão vazia e isso definitivamente não diz a respeito dos meus compromissos minha quinta-feira está tão vazia e isso definitivamente não me dá tempo de pensar na auto reconstituição penso no truco do próximo domingo e em eventos acadêmicos que participarei penso na escuridão advinda das ideias de claridade e na vontade incessante de dormir bem pois tenho sonhado com você e rodoviárias com você e aeroportos com você, músicas e lojas sonho com você no instante que te desconheço minha quinta-feira está tão vazia e isso definitivamente não me dá direito de uma nova contradição.

Ana Carolinna Nunes

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VI na época em que você comprava tomates na mercearia ao lado, eu buscava por autoconhecimento nas janelas de todos os carros buscava o reflexo de cores inimagináveis no céu e anotava com caneta esferográfica no pulso o número de tons que coloriam seus olhos e isso sempre mudava na época em que você comprava tomates na mercearia ao lado,nós deslizávamos pela rua Teerã e confabulávamos ideias conspiratórias sobre donos de redes de televisão e vida secreta dos mocinhos de filme de velho oeste outubro tem se alongado por muito tempo e se as senhoras que nos observam das janelas já não usam o mesmo vestido isso certamente significa algo. Ana Carolinna Nunes

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VII ela não tem pressa de vir ao mundo aliás está dentro de mim há tanto tempo ela brinca em minhas veias,morde meu estômago a todos os balbucios do coração de lá pra cá feito criança atrás de pipa ela não pode ter pressa de vir ao mundo físico pois sua existência luz antecede e transcende toda essa concretude ela e eu somos quase uma mesmo dentro de mim, ela é minha criadora meu ancestral, grande raiz onipresente pois apesar de alojar-se em meu templo habita também mil arestas de almas outras ela é junção e anda bem viva vindo ao mundo nove mil setecentas e trinta e três vezes por hora ela é derramada na construção de moradas de armas, de plantação de rosas e morangos ela se senta em comícios e corre no parque pela manhã ela não tem pressa de vir ao mundo fluidez ela poesia sempre vem pois é dela que a vida é constituída Ana Carolinna Nunes

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Ana Meireles é filha de Lázaro e Leila Meireles,

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nasceu em Icoaraci, Distrito de Belém do Pará. Cursou Psicologia pela Universidade Federal do ParáUFPA e Especialização em Psicologia Jurídica pela Universidade da Amazônia-Unama. É servidora pública e dedica seu tempo livre à escrita. Fez participação em volumes de Antologias: Antologia Literalidade, Cantos & Contos (Organizados por Abílio Pacheco &Deurilene Sousa); Antologia Poesia do Brasil Vol.21 (Coordenadores Ademir Bacca& Cláudia Gonçalves); Antologia Seleta e Verseja Brasil (Organizada por Míriam Salles). Recebeu premiação em concurso literário promovido pela Editora LiteraCidade, de Belém/Pa com o poema De argamassa publicado em PDF na revista Exfluências


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(Brasil/Portugal); e recebeu também menção honrosa pela Academia Paraense de Letras com o poema Belém - Cidade Menina. É autora dos livros Escritos ao Vento e Tempo meu (este último pertencente ao Projeto Sementes Líricas), ambos publicados pela Editora acima citada; além de Entreversos, que faz parte do Projeto Tocaiunas coordenado pelos poetas Airton Souza e Eliane Soares e publicado pela Editora Cromos da supracitada cidade.  

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Contra o tempo

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Contra o tempo tive que correr. Guardei as botas num lugar da casa e deixei a enxada junto ao portão. O fogo aceso na cozinha cozia o grão de bico e o feijão. Nas xícaras deixadas sobre a mesa o café que esfriara. O tempo não demorava a passar. As roupas todas haviam sido lavadas e o varal era somente um fio de nylon vazio tênue divisória de dois mundos preenchido de nada e tudo. A chuva chegou e caiu, e o chão do quintal encharcou. As plantas com as folhas molhadas ficaram e pareciam sorrir como se quisessem chorar. Dei-lhes a costa para ver no espelho de água o meu rosto. E logo um frio senti vir por detrás do pescoço e minha pele inteira arrepiou-se. O inverno se anunciava! E, por entre meus ossos porosos rangia a fenda de uma saudade que dobrava os meus sonhos risonhos em lençóis de pesar e piedade. Como se fosse a chuva


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que caía no quintal lá fora e despencasse pra dentro do peito molhasse de pranto as lembranças quentes esfriando o meu coração. Ana Meireles  

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A felicidade é da vida A vida corrida em demasia tira da sua substância a ternura , a alegria. Buscar dela extrair forma insana de magia é coisa de rebulir... a cantiga, a fantasia. Correm as horas e o encanto não se apressa conta dos minutos a parte de faz de conta e tudo mais do que se conta. não se parte e nem tropeça. Assim é a felicidade apartada da dor: é ilusão de precisão que incorre fazer sofrer quem espera pra sempre lhe ter. Não existe vida sem ausência de dor nem mesmo se se tem a dádiva de um grande Amor a dor quando envolve queima bem de fininho e todos já experimentaram não escapa nem o dedo mindinho. Por isso, seja feliz com a dor que tem. Se possível: sorria até sem nenhum vintém ame sem nada esperar qualquer expectativa faz o coração pesar e contemple o céu como se estivesse a cismar a felicidade é da vida: esta que a todos pariu. 56

Ana Meireles  


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Poema bem-escrito Meu poema “bem escrito” eu logo deletei. mandei para o fundo do mar para ao fundo aprofundar. Em águas abissais, poderia ele dialogar com o segredo dos seres entre conselhos animais. A ouvir estranhos sussurros com ouvidos intra-mundos e a imaginação a fantasiar. Só assim poderia renascer como se estivesse a caminhar no chão duro da dor. Ana Meireles  

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A senha é sorrir

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A senha é sorrir... Pode ser um meio sorriso um sorriso disfarçado, discrepante, de soslaio. Um sorriso de boca Murchada! Ressecada! Mal beijada! Um sorriso divino, emoldurado! Emendado à parede da emoção. Sorriso desenhado, de contorno dissimulado! Sorriso apaixonado pintado de batom, e escancarado! Sorriso de deboche esconderijo da língua felina. Sorriso em meio à dor sorriso de amor traidor. Sorriso pueril de pureza! Sorriso que esconde a palavra, que é sorriso mal disfarçado tece em farsa de alegria a face indômita da tristeza.  

Ana Meireles


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Com alma de artista Não sou capciosa Não sou capitalista Mas sou indecorosa Com alma de artista. Tenho fama de cheirar Lama... E sorrir meio malabarista Não tenho culpa se nenhuma cor Adere ao meu pudor Sou sem nenhum pudor! Rasgo a roupa do corpo Com a palavra E minha cara dou a bofetada Tenho alma de artista, sim! Mas nenhum papel me Ultrapassa Danço, canto, escrevo e finjo E o meu drama é ser Distinto Sozinho me pinto E encarno as máscaras Vivo no vão de uma piada Na intrepidez de uma Palavra E a vida é quem me diz O que a mim, comigo extravasa.

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Não sou uma cópia pirata Mas é o capitalismo O vilão que me maltrata.

Ana Meireles

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Em cena No plano alto do teu salto desequilibrei-me do palco. Mudei a cena do ato pra não cair no cadafalso. Refiz de novo o espetáculo. Convergi a vida de fora de mim, para uma noite de carmim. Vesti de escarlate o meu traço para esconder o embaraço. O meu corpo - cobri de pedaços. Estava em cena um outro ato. Que a música embalou como um contrato. Abri as portas de vão em vão. E escolhi a melhor condição: Fotografar sem nada pensar. E sorrir, como se fosse engolfar. Tudo levado a termo e efeito. Burilamento quase perfeito. Luzes, cores, refletores. Fugiu de mim todos os pudores. Ficou em mim todos os amores.

Ana Meireles

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Ponto infinito Quando me guardo, sou concha fechada Quando me solto, sou porta aberta. Algumas vezes sou vento preso no tempo de uso. Fechadura arcaica de um único furo. E em todas as condições: Fechada feito concha Aberta como porta Sou plena em meu porte: No verão aqueço-me e me abro pra sorte No inverno enrijeço-me e me espanto de morte Na primavera tenho cheiro de perfumes florais E no outono sou folhas que caem e me deixam completamente nua. E só o que espero: sisuda, calada e confusa é que venha o sol, o vento, a água da chuva e eu pise o chão da terra sem medo de erosão. Sou um ponto infinito, no curso das quatro estações.

Ana Meireles

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Arlene Lopes é baiana, de Jacobina-Ba. Por 26 anos, morou no Sul do Brasil. Desde 2003, em Porto Alegre - RS. Em setembro 2016, voltou para a Bahia e reside na Cidade de Rio de Contas, Chapada Diamantina. Designer de interiores por formação, optou pela caminhada na produção de conteúdos culturais. Primeiramente na escrita poética, com textos em teatro e publicações de poemas em iniciativas coletivas de escritores brasileiros, conteúdos em blogs e revistas. A partir da parceria com músico e compositor gaúcho, Santiago Neto, passou a atuar como letrista em suas novas canções, refazendo o repertório do artista. É compositora filiada a UBC (União Brasileira de Compositores) e produtora executiva de projetos culturais.

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Cimento Fresco Deslizou suavemente feito folha de outono coração em silêncio pálpebras cerradas sono sem sonhos aterrissou em meus braços a chaleira ainda estava no fogo quando a morte entrou na cozinha no dia seguinte no cimento ainda fresco escrevi o nome da minha mãe Arlene Lopes  

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Dos equívocos Um vivente que possuía muitas coisas e carregava nos ombros o peso dos equívocos debruçou-se no corredor da agonia remoeu palavras ruínas e mágoas circulares carcomeram seu coração andou sobre pedregulhos pontiagudos feriu os calcanhares embriagados de posses certa vez encontrou uma mulher-poema que na dor do caminho o presenteou com sorrisos de larga profundidade e versos em forma de beijos duas vezes ao dia então ele indagou: como sorri se não tem posses? ela ofereceu-lhe o terceiro sorriso do dia - tenho o existir.

Arlene Lopes   65


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Papai e mamãe Papai era comerciante de todo tipo de coisa por isso cuidava bem da aparência mamãe costurava e também trabalhava na cooperativa de sisal mas sempre arrumava tempo para pintar as unhas Mamãe pariu sete filhos os sobreviventes papai levou embora fui a primeira papai desatento e aquariano não percebeu minhas lágrimas nem o choro de mamãe Papai comprou um carro novo mamãe adotou um menino e passou a fazer somente o que queria Num dia de julho, papai sangrou muito, durou pouco não nos viu crescer

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SETE - feminino de luas e marés

mamãe viu o menino se tornar adulto mas não esperou o café ficar pronto repousou nos meus braços o seu último suspiro Eu, com o tormento de quem sobrevive me senti a morte em pessoa Arlene Lopes

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Cinzas Ando vestida de silêncio penumbra a fadiga roendo minhas tripas secando minha juventude meu sorriso verde musgo sem força, sem vida, sem sorte túmulo em desuso ando vestida de morte a alma em chagas soterrada pelas cinzas inexistência numa quarta-feira arruinada Arlene Lopes

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Liberdade A menina escorregou da mãe livre andou em direção à porta o pai trancou a porta e disse: eu te amo e nunca te deixarei quatro anos depois ele abriu a porta a casa do pai desapareceu a mãe não trancou a porta livre a menina correu descalça perdeu a casa da mãe o pai trancou a porta e repetiu: eu te amo e nunca te deixarei. dez anos depois ele esqueceu de se despedir e de trancar a porta livre a menina escorreu treze anos depois deu de cara com um homem que disse: eu te amo e nunca te deixarei trancou a porta e plantou uma pedra no peito da menina um dia ele quis comprar alface abriu a porta ela foi embora 69


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livre um mês depois tropeçou num homem que a abraçou e disse: eu te amo e nunca te deixarei a menina arrancou o peito e jogou fora quebrou a maçaneta com a pedra deixou a porta aberta para que o sangue escorresse ele repetiu, enquanto se distanciava: eu te amo e nunca te deixarei Ela nunca mais ela viu um gato azul Livre Arlene Lopes

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Extrações arrancaram-lhe da mãe arrancaram-lhe a mãe arrancaram-lhe as unhas dos dedos do pés que topavam com as pedras sem nenhum obstáculo arrancaram-lhe os dentes de leite e as amígdalas Quando o pai foi arrancado, também arrancaram-lhe a irmã os plantaram numa cova dupla , os cobriram com terra infértil os regaram com água salobra nunca brotaram arrancaram-lhe a cama, as roupas a casa, as lágrimas Arrancaram-lhe um filho, o útero, a avó, o peito, os sisos e o juízo escreveu para repelir seu desejo de morte matou todas as recordações Arlene Lopes  

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Ínfimo O primeiro homem que Nina amou não esperou o amor desgastar não envelheceu perfurou não disse adeus caiu no buraco a plateia necrófaga aplaudiu Nina doeu não coube no buraco onde estava a irmã O último amor de Nina se exibia para a plateia andando em cima do muro com muletas adormecidas Caco tombou a plateia vaiou Nina acostumada com as coisas que quebram ignorou deixou outra juntar o que sobrou de caco Nina conheceu um grande bípede de linguagem articulada a plateia não vaiou nem aplaudiu suas tantas mentiras Nina tranquilamente o despiu era ínfimo. 72

Arlene Lopes


SETE - feminino de luas e marés

Cláudia Gonçalves, Porto Alegre - RS. É poeta, produtora e ativista cultural. Coordenadora de Publicações do Proyecto Cultural Sur/Brasil, Coordenadora do Projeto Poeta, mostra tua cara na escola, assessora de coordenação do Congresso Brasileiro de Poesia; membro da Casa do Poeta Rio-Grandense e da Casa do Poeta Camaquense. Ministra workshop de minilivros em bienais, feiras, escolas, ONGs e centros culturais, além de compor o movimento Poetas Pela Paz e Justiça Social. Tem poemas publicados em vários sites jornais, revistas, e-books, entre outros. Muitos de seus poemas já foram traduzidos para o inglês, o italiano o espanhol e o francês. Em sua trajetória poética, já participou de mais de quarenta antologias, entre as quais, duas em Portugal, duas em Moçambique, uma na Argentina, duas no Chile e uma na Colômbia. Em 2015 lançou o livro Cerne.

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relato não me atenho à seta para encurtar em reta gosto da curva que re tarda a chegada [o que dilacera é a partida] __ o branco do não dito no silenciar da parte ida Cláudia Gonçalves

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constatação às vezes para romper o eixo do elo há que mergulhar em abismos [na vileza das vértebras] musgos tramam entre-juntas Cláudia Gonçalves  

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SETE - feminino de luas e marés

opaco empacotada na ausência a intimidade do ninho o que rói _____ é vago imagem desfocada _____diluída na tempestade dos dias Cláudia Gonçalves

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inaudito na janela de ontem [impresso] um riso de cor ativo ilustrando o verbo nunca proferido Clåudia Gonçalves

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resposta na juntura das cartas que não escrevi um sequioso silêncio re vira a dor_ mecidas palavras Cláudia Gonçalves

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SETE - feminino de luas e marĂŠs

depurado foi ali num canto do horto cerzir um verso com a sobra do sal que gotejava da face Clåudia Gonçalves

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ampulheta distante ____ nem percebia cada grão que caía extraía do tempo o tempo que o tempo tinha Cláudia Gonçalves

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Deolinda Nunes nasceu num dia de garoa, inverno paulistano. Professora de Educação Infantil, apaixonada pelo universo infantil e toda sua poética. Mãe da Ana e do Pedro. Na lida, a cada dia, renova as esperanças, o amor pela vida. Três coletâneas poéticas publicadas: Encontrar-te, Além da Palma da Mão e Olho D’Água, pela editora CBJE.

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I carta à vida percorre-me com lendas adentra o noturno de minh’alma entardecida tingi-me em sal(do) sem fim de saudade naufrágios: sobrevivo! ouço as histórias de mapas reconstituídos na sola dos mergulhos e na fissura das asas pressinto-te num risco de relâmpago e sigo como quem não quer esquecer o tempo de ser 82

em dias de exilio sinto tua falta


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II matéria-prima nosso jeito de errar o corte do pão nos aproxima em equívocos nosso olhar fragmentado possui a mesma origem: grilhões timbrados em ferrugem a liberdade rasa não impede querer ver o fundo que cabe em nosso peito: peso e leveza no mesmo avesso arte transforma Cláudia Gonçalves

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III insônia um dia irei lembrar das palavras que calo (tudo cabe no silêncio) irei lembrar do sono que não tenho (nem tudo cabe no esquecimento) - um dia irei lembrar o leito do rio acena memória dos peixes de fogo cascalhos de cinzas no correr do rio o ar nos convence que em cada gota em movimento as lembranças seguem acordadas

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Cláudia Gonçalves  


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IV entalhe o dia nasce no entalhe suado das mãos que persistem ao ranger cortante de densas horas e se estende na soleira feito gato se espreguiçando sobe no telhado como quem busca alguma razão para crer no amanhã e de cima frente ao sol o dia prossegue secando lágrimas adormecidas Cláudia Gonçalves

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V tempo óleo de linhaça na tinta unge a tela nas células a música unge a alma suor unge as janelas do tempo o inverno passado transpirou inquietações interrogações escorriam pelas artérias da parede contornando as vidraças dos olhos em chuva tempo? inimigo e aliado lembro-me bem do cheiro da tua ausência ainda esquecida na gaveta Cláudia Gonçalves  

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VI limão ou cidreira? voltar ou seguir? nem sempre sabemos qual infusão qual fusão a alma pede em despenhadeiro segundos se arrastam a dúvida sobrevoa Cláudia Gonçalves

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VII sementes de sol da rotina da cidade somos o óbvio em desalinho entranhas entrelinhas da dor somos o fundo do tacho do doce que desandou desassossego reviravolta do sonho de liberdade somos o princípio que habita as sementes de sol: - resistência Cláudia Gonçalves 88


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Dôra Leal – Nasceu em 23 de maio de 1951, em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde foi registrada Maria Auxiliadora Vale Leal. Aos 9 anos de idade começou a escrever poesias. Não guardou os escritos dessa época. Eram singelos e dedicados à família. Na adolescência retomou à escrita. Como encantava-se muito com as pessoas, passou a escrever sobre a diversidade que elas continham. Entre uma poesia e outra, dedicou-se totalmente à leitura. Não havia nada que a divertisse mais que os livros. Através deles, criou um mundo de sonhos e magia. Quando começou a publicar em sites na internet, assinava seus poemas como Dôra Leal ou como Vestida de Água, pseudônimo que utilizou durante vários anos. Sempre utilizou de transparência sobre os sentimentos, já que os considera espelho da alma. Dôra Leal não permite que sua sensibilidade a sufoque. Antes disso, cria poemas. Dessa forma vai seguindo em busca de seu poema maior

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Biografia do Eu

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Escorreram-me entre os dedos algumas loucuras. Poucas, confesso, porque muitas, eu vivi. Entre os pés no chão e a cabeça nas nuvens, tracei uma rota. Não tão torta e não tão reta. As sinuosidades é que abasteceram meus sonhos. Dei-lhes a música, a poesia e a visão luminosa. Tropecei em meus próprios novelos. Enredos que me foram impostos à mercê de minha não aceitação. Lambi estrelas, empanturrei-me de nuvens. E coloquei-me a sós com a Lua. Contei-lhe meu trajeto, minha persistência e algumas incoerências. De alma nua, rasguei meu verbo. Todas as conjugações, todas as insubordinações.. Com as pontas dos dedos, apontei minhas dimensões. Enquanto o mundo desenhava seus limites, preocupei-me em quebrar os meus. Águas, sóis, luares, estradas. Linhas, letras, ângulos, patamares. Escalei topos, deslizei versos. E o tempo encarregou-se de me fornecer experiência. Rendo-me a essa experiência estranha. Estranha porque é feita de sombras e clarões. Flashes em surdina, livres de pressão. Experiência pura. Química da razão. No momento, meus olhos são verdes.


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 Sobre Saltos É assim que o mar faz ondas. Finge tranquilidade e comete arrebentações. Hoje, estou como um mar. Lá nas profundezas escondo minha alma Visto-a de algas de rendas de saias de conchas e levo navegantes de um para outro cais. Amanhã, quem sabe, serei um céu e asas tentarão me atingir. Algumas sábias, outras coloridas. Nenhuma sem bússola. E uma ou outra, desavisada, passará por mim, sem sequer um aceno. Não saberá que aqui é seu lar. E nem saberá que tingi de azul o firmamento, sem motivo algum. Talvez, para eu mesma me fartar. E me certificarei que ontem, nem mar e nem céu eu fui. Simples demais. Límpido demais. Ontem não havia melodias nem brilhos espaciais. Não havia blocos suspensos nem a sinfonia do mais. (mais fé, mais amor, mais riso). Ontem, os amigos eram vizinhos

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SETE - feminino de luas e marés

inatingíveis demais. Marcianos de outra dimensão. Escureceu. Eu, mar. Eu, céu. Eu, sombra. Descalça salto nuvens. Deslizo, com galhardia, pelo universo dos meus quintais. Dôra Leal

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Sem aviso Um dia, sem aviso, a água secou. Trincou o solo e afugentou os bichos Foi como uma dor nem percebida As mãos acenaram para o nada E o nada era tão abstrato quanto a vida. Um dia, sem aviso, o rio não encontrou o mar Então os peixes não puderam mais admirar a imensidão Os olhos só enxergavam o nada E o nada era tão absurdo como a morte. Um dia, sem aviso, o céu despencou E escancarou a boca que já não sorria E lacrimejou os olhos que estavam cegos E o nada, então, empipocou a pele E saudou a esperança Esse sentimento tão abstrato quanto a vida. (A vida é, com certeza, abstrata demais).

Dôra Leal

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Noite branca Não era apenas uma noite branca. Era uma luz confusa direcionando a lua. E ela, enamorada do infinito, pensava a vida como se folheasse um livro. Tudo dentro da margem. Tudo em monólogos curtos. Amou além do que seria lenda. Supriu o corpo saciando-se do hermético. Fez mais que uma viagem. Fez um passeio de postal. Selado, sem remetente, sem contorno, sem confidente. Ela não se deteve nos penhascos. Nem ficou a ouvir notícias. Buscou nas letras o que era sina, descobriu que o fato não lhe cabia. E viu-se em folhetins nem manuseados. Pintura tosca, olhos marejados. Sorriu de si mesma, sem medo do ridículo. E a noite branca, em sons de guizos, mostrou-lhe os dentes. Dentes alvos, como lírios... Fechou a prosa, desfez a cama. Enroscou-se nua na nuvem gélida E iluminou-se, inteira, daquela luz confusa. Dôra Leal 94


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Consequência Leio em mim duas palavras únicas Sílaba por sílaba traduzo suas essências Nas pontas unifico céu e chão No meio, nada mais que silêncio. Ao dividi-las ao meio, Separo o esquecimento da lembrança Metade é a fuga do meu próprio medo Metade é a imagem do atrevimento. E sigo na divisão sem muito método Em cada pedaço crio um verso Como se esparramasse riso e pranto Em meio às reticências que desconheço. E rubro as faces ao vê-las tão expostas Tento refazê-las cosendo apreços Dou-lhes nova pele e assim, renovadas, Tatuo-as em mim – sou sentimento. Dôra Leal

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Aves migratórias Sóis, luas, estrelas Caminhos, nuvens densas Montanhas, rios, mares Ares, pares, nós A sós, criando sonhos. Sobreviventes das tempestades! Luz, imensidão, sempre emoção Brincam de faca e corte E migram ao coração... Dôra Leal  

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Inequação Venho cultivando flores. Dando-lhes sombra, água e conversas Trocamos afetos, por que não? Eu, com minha persistência Elas, com suas manhas. Agora exponho meus canteiros Aos olhos do público são normais Mas meus olhos os veem como oásis, como cânticos, como estandartes. Como o amor é diversificado! Amo o belo, o feio e o passável. Odeio a violência, o oportunismo e a falsidade. Sou antenada, distraída e inquieta. Viajo em ondas de frequências desordenadas E aterrisso onde a poeira faz sua morada. Sou assim, cheia de incógnitas não decifradas. Dôra Leal  

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Giselle Ribeiro nasceu no dia 25 de outubro de 1967, no Norte do Brasil, em Capanema, uma cidadezinha que já fabricava cimento e poeta. Na infância, mudou para Belém e fez os olhos abrirem mais para medir e sentir o tamanho da capital em que vive até hoje. E se a cidade cresce, os olhos acompanham a medida dos tempos, porque, depois da infância, tornou-se professora de Teoria Literária na Universidade Federal do Pará e aprendeu a tecer poemas com as linhas de bordar a realidade. E foi preciso abrir muito mais os olhos.

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SETE - feminino de luas e marés

Acertaremos nossos relógios Vim perturbar o universo ferir a camada de ozônio, devolver o marinheiro ao porto, o datilógrafo à maquina... Posso ver nessa hora: aqui água não há para bater em duras pedras cumpro eu essa missão. Com o poder multiforme da palavra avanço contra a pedra. Giselle Ribeiro

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Legado Muito cedo minha mãe me levou ao oculista depois de algumas perguntas, ditas anamnese, ele se pôs a olhar nos meus olhos... Acho que assim ele viu as imagens escondidas que eu colecionava. Por isso, talvez, me receitou: lentes de metáfora. Desde então vejo os homens e suas sombras, ouço as vozes das coisas e sinto o pulso do poema rompendo a inexistência

Giselle Ribeiro

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SETE - feminino de luas e marés

Para ouvir com os olhos Na porta da loja fechada, um homem jogado fora. A família diz ignorar o paradeiro dele. O dono da loja viajou, foi comprar novos manequins em outro continente. E a pátria? A pátria quer limpar a paisagem dizendo manter o homem jogado fora deitado eternamente em berço esplêndido. Essa maldita pátria que não me convence da morte presa, amarrada, sobrevivente dos pés do homem jogado fora.

Giselle Ribeiro

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SETE - feminino de luas e marĂŠs

Princesa sem dons para tamanha felicidade Era uma princesa com uma coroa de medos presa nos cabelos. Um dia chamou todos os joalheiros do castelo para um conselho receber. E o joalheiro mais astuto foi desfazendo cada fio de medo da coroa da princesa: medo de viajar sozinha, do mar, ela tambĂŠm tinha muito medo, medo de comer peixe com espinha... Mas joalheiro nenhum sabia o que fazer da coroa e da cabeleira daquela desmedida princesa. Foi quando a rainha, mĂŁe da princesa medrosa, comprou a tesoura mais afiada, toda de ouro e prata para os cabelos da princesa cortar.

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Nesse dia, a rainha esqueceu que cabelos e medos crescem novamente... Giselle Ribeiro


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Madame Homero Dei à ela uma cadeira de balanço, uma roda de crianças e um tabuleiro de Grimm e Perrault... E ela me deu sua moeda mais valiosa. Ergueu os braços como se fosse voar, fez gestos largos como se fosse me abraçar e do seu coração embrasado fez soprar histórias para ninar e acordar. E foi assim que ela entrou na minha casa com sua numerosa família e todos os dias e noites faz nascer em mim a Mulher-Sol e o Homem-Lua.

Giselle Ribeiro 

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SETE - feminino de luas e marés

Retrato Ele tem os olhos perdidos num futuro que eu não me acho. Um dia eu alcanço as suas mãos, outro dia elas não me atendem. E quando eu morro de saudade ele compra flores pro meu corpo enfeitar. E me beija a boca. E me beija a boca. E me tira o fôlego. E me beija a boca. Rouba meu batom deixando em meus lábios o mesmo tom pálido dos que, por amor, se suicidaram.

Giselle Ribeiro

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SETE - feminino de luas e marés

Realidade veloz Da periferia ao centro da cidade a menina alucinada com as luzes verdes e vermelhas da vitrine pergunta ao vendedor: Então é isso que chamam de Halley, moço? Não criança, isso que você está vendo é o Papai Noel. o Halley só aparece a cada setenta e seis anos. E o Papai Noel, moço?

Giselle Ribeiro  

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Inês Santos nasceu e mora em São Paulo, capital.

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É educadora, professora aposentada, psicopedagoga e poeta. Diletante e apaixonada por diferentes artes, fez cursos alternativos de Cinema, literatura infantojuvenil, oficinas literárias, etc. Escreve poemas desde 2012 e publica-os no Facebook. Já foi publicada também nas páginas: Projeto Tempestade Urbana, Boca a Penas e no The São Paulo Times, e nas revistas impressas Ramo – revista brasileira de poesia, Poesia em São Miguel, Hoje, 2015 – Casa Amarela Espaço Cultural, e na Plural – Revista Artesanal – 1900 – Flores do mal, e na La Barca, ambas da Scenarium.


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Sinfonia de uma tempestade Chove lá fora A chuva é sonora Molhando a terra E tudo sobre ela É tocante aqui dentro O sonoro lamento Do interdito do vento Zunindo na janela Que mais parece Uma potestade Querendo impor Sua força e vontade. Inês Santos  

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Momentos e tempos Já é madrugada Vejo a lua no céu Uma metade Deitada.

Inês Santos  

Em busca do cais Por sobre o mar O infinito descansa O olhar. Inês Santos   108


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Ouça Cansada ou não A vida segue Tocada Por ventos Tempestades Pequenas Felicidades Do passado No presente Saudade Não (in)vente.

Inês Santos

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Dúvidas?

Para colocar Um ponto final Numa questão Apague o anzol Da interrogação (Encontre, pense Converse, responda Faça a pergunta). Inês Santos

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Instinto ou pulsão Sempre Corro Da morte Apesar De sabê-la Na direção Da vida. Inês Santos

Cosmogonia também é escrever poesia Na união de versos a origem de um : Universo! Inês Santos 111


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Jandira Zanchi é poeta e ficcionista, autora de Gueixa (Editora Patuá, 2013), Balão de Ensaio (Editora Protexto, 2007) e o livro virtual A Janela dos Ventos (Emooby, 2012). Tem lançamento para breve de Área de Corte pela Editora Patuá. Integra o conselho editorial de Mallarmargens - revista de literatura e arte contemporânea.

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atemporal nenhum céu vai conter esse amor... nublado dessas arestas/madrigais inverossímeis esculpido na arte do silêncio (emaranhado do fulgor da fuga) é só lamento lucidez (lacre de luz) e vértice de sombra (mas, ainda assim, ele é você eterno menino açoitado nos fractais desses tempos descontínuos costurados de semi humanos de serestas sofríveis ) espaço alongado de toda virtude vazada e virgem em danças, complexas e incompreensíveis, fuligem das formas/formidáveis facínoras deslocadas para o além do ser o meta tempo atemporal de nossos sonhos. Jandira Zanchi  

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dígitos prevejo noites antes que se consumam os dias já que esferas e/ou estrelas giram tão rápido nessas nuances... cardeais são esses pontos e seus transtornos ao norte navego em mares/maremotos umas marés desses teus olhos ascendidos meus sonhos - soníferos salgados beijos de palavras que colhi, apressada, quase transtornada nesses veios velas enfurnadas que acenam e se despedem alheias ao além aos fatos aos requebrados prantos marejadas de umas águas salmouras cientes calientes cravejadas de rosários rosas líquidas de paixão (nas crescentes/coerentes cravejadas sendas dessa tarde que ímpia se levanta rasgada de todos os seus mantos) enquanto timidamente tua voz anuncia os 6 ou 7 dígitos de uma senha decodificada e, ainda, cravada de todo o seu esperanto. 114

Jandira Zanchi  


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evora o círculo, tão lento, do fogo e sua face fácil quase sonora, dançante amante, acendida aos pés e aos ventos de um encanto evora evocada, por você em todos as grisalhas fendas do dia nevascas de sonhos e anseios navegados na flor, quase limbo de almas acendidas/afagadas acordadas do dia/meia noite levante no sol e no anoitecer. Jandira Zanchi  

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marafonas isento só o dia desfeito de seus alecrins - meia lua - mendicâncias de marasmos e marafonas, esses minúsculos poentes de pó varrido ao léu largo da vida avulsos de avisos e avistamentos cedilhados das nobres nigérias desses fardos encrespam –se dos ritos rasgados das tardes insones incongruentes espasmos espalhados pelo cárcere azul albergue de TI as folhas quase pálidas frisadas em suas mantas, ainda marias, aterrado na luz o maiúsculo marasmo de si quase... em mim. Jandira Zanchi  

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transfigurados das extrema unções que a vida nos fornece nenhum esperanto encolhe melhor a estreita raiz de nossos amores do que o fado do fardo carregado por entres umas estrelas virgens e vomitadas de seu centro algoz agoniado manto que tremula como corregedor da valentia- sem sina/opaca opala desses dias transitivos transfigurados ... nunca esclarecidos tombados como mártires, espada e espadachim largo céu cenário camuflado enviesado, meu pranto floreia de marginais e transversais a clara noite sem estrelas bate a maré sua fúria de sertões sertanejos salubres saciados amaciados amantes sem alcova embrutecidos dos ventos, inóspitos, guerreiros furtivos e bastados ao bento ser que verga - vagabundo – as fagulhas de um fogo sagrado acontecido no beiral da vida/sacerdócio enfim, arrastado pelas colméias da virtude até as dunas – dantescas – dos desencontros.  

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fatigados sonetos se despedem de seus soníferos sonhos amarfanhado é o dia dessa lua cetim crepom dos teu olhos altos ao léu lançados, fartos e fadigados, se curvam esses cânticos crespos das cinzas cruas escorridas e sem som, salmouras de água doce aos céus, lume/lusíada lanço um dardo... estilhaço.. me volta um cenário de pompa e virtude venâncios venezianos nas sombras quase tintas da noite vasculham palcos e arrombam sedutoras falas de cetins e rosas adormeço, ainda, no leito da lua em sua fatigada face quase crua alheia ao sol e despida de rendas (aquela por onde infantes e fardos se debatem entrecruzados nas anáguas malhas dessas memórias/ matizes meretrizes de tuas parcas e falidas falas) feroz é o valente acorde do vento e sua ventania calma de ardis e artimanhas arteiras fontes de cruz e calor. 118

Jandira Zanchi


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dízimo coerente o dia nessa agonia sem estilo.. fibroso, rasgado, lado a lado, pelas serpentes dos desejantes, furibundos anéis mestiços de muito pouco viço me escondo nos ares do veneno de abril enquanto marcham, pelas descendências de Apolo, o jugo e o jumento cimentado da servidão ferina, faleço antes que se perfumem os novos calores do mesmo homem vértice vertebrado varrido das virtudes de algum altar único desses dias orados sem muito sumo pálpebras vermelhas do amor ciscos derramados com tanto furor que se calaram até mesmo as nadadas frações da memória esse arquivo de pouca estima interrogado do deus marginal ciente da invalidez de seus contornos pois era amor na cauda vibrante de tuas notas ainda que tenha sido pálido o ângulo dourado derrotado dízimo de meus sonhos. Jandira Zanchi 119


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Janete Manacá, nascida em São Martinho, povoado rural ao norte do Paraná. Veio ao mundo pelas mãos de uma parteira. Seu pai era músico e sua mãe uma guerreira. Bacharel em Serviço Social, Comunicação: Rádio e TV e Filosofia, pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Há 35 anos construiu o ninho e regou seus sonhos na calorosa cidade de Cuiabá/MT. No percurso dessa existência é aprendiz na arte de tecer palavras, com elas compõe versos que a sustentam na travessia do caos. 120


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O milagre da vida Eu vim do pântano dos aflitos Em meio a olhares corajosos De quem vence os próprios limites Cheguei chorando para me certificar De quantos colos estavam a me esperar Depois de nove meses de desafios Haviam mãos de mulheres guerreiras Cuja fé vence qualquer barreira Eram minhas doces e ancestrais benzedeiras Com as mãos em feitio de oração Agradeciam o milagre de mais uma vida Que renascia na dureza daquele chão Choros e cantos misturavam-se naquele instante E o seio materno a jorrar o leite além do pranto Na certeza de mais um dia de efêmera felicidade Mulheres marcadas pela impiedade do passar do tempo Rompem o sagrado e divino momento E erguem os olhos ao firmamento em gratidão É a vida emocionada que pede passagem É a flor que se rompe à espera de liberdade E recebe boas vindas patuá, benzimento e afetividade 121


SETE - feminino de luas e marés

Nas águas do antigo lar Jorram das minhas artérias Águas doces e salgadas Em harmonia com o tempo Vou tecendo novos caminhos Com fios de esperança em movimento E a alma a repousar em silêncio Quando a saudade derrubar meu pranto Volto à roda para bordar meu manto Expulsar desencantos e me purificar E quando meu corpo não mais se sustentar Com os pés sangrando de tanto bailar Libertem minhas asas para eu poder voar E quando a escuridão chegar No útero de Gaia quero repousar Renascer enfim, nas águas do antigo lar Janete Manacá   122


SETE - feminino de luas e marés

Infância Da infância rendas, babados, cachos e laços Flores nos jardins e a eternidade dominical Brincadeiras inocentes, abraços, contentamentos Da infância o cheiro saudoso Pudim de leite, geleia de amora silvestre O jasmim e a camélia contemplados do quintal Da infância a missa comprida O sono e o sermão em latim Cálice dourado, pão, vinho e canto desafinado Da infância a sonoridade esperada A praça da igreja o toque dos sinos e a meninada Novidade no povoado no alto falante é anunciada Da infância as rodas alegres o passa anel O chá de funcho a bolachinha de mel O circo o palhaço a arquibancada e o céu Janete Manacá

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SETE - feminino de luas e marés

Poesia em dias nublados Com o corpo diluindo em sangue a voz em greve de silêncio a face desfigurada e ausente decretaram o fim da vida neste continente Destruíram minha morada expulsaram-me da fria calçada invadiram minha inspiração e à poesia decretaram voz de prisão Algemaram a esperança que restava com a condução coercitiva da minh’alma açoitaram até minha intuição e minha mente perambula em confusão A imensidão reduziu-se em prantos meu corpo nu exposto em carne viva desfaz-se a cada dia insandecido no absurdo da gentil e nobre hipocrisia Minhas dores são chagas necrosadas a invadir meu peito frio e silente que respira agônico e sofregamente a espera do suspiro final que põe fim ao sofrimento

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Do meu ventre vertem estrelas opacas invisíveis na escuridão da indiferença a repousar os instantes finais sob a honra da glória nefasta dos imortais Janete Manacá


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O encontro marcado Luminárias celebrativas Desejos de embriagar Agradável é o aroma no ar Noite convidativa Sinfonia natural Mistérios a rondar Coração incendiado Olhar estelar Flores coloridas, detalhes Tecendo poemas visuais Alma contemplativa Tempo de despertar Tudo em ti é inspiração É paz, leveza e canção O instante é propício Ao encontro marcado O corpo em ritmo cadenciado À dança das sensações, o amor aflorado Janete Manacá  

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Trago dentro de mim Trago dentro de mim O último sonho dos mortais A espada afiada para decepar os ais E a libertação dos sofrimentos nos cais Trago dentro de mim A sabedoria da raiz ancestral A força e a justiça para acessar portais O vinho sagrado que transmuta todo mau Trago dentro de mim Os cantos afros de templos milenares O ritmo contagiante dos tambores A beleza na alquimia das cores Trago dentro de mim O poder magístico da transformação A pureza do sangue derramado neste chão Nas lutas injustas que tombaram meus irmãos Trago dentro de mim As lágrimas causadas pelo preconceito O leite negado aos próprios filhos As cicatrizes na alma de correntes desumanas

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Janete Manacá


SETE - feminino de luas e marés

Filha do ventre da terra Filha do ventre da terra Deusa e gentil primavera Revestida de tons matinais Arco-íris de reinvenções e sinais Fértil imaginação Menina, sonho e ilusão Caminhante que transborda emoção A margarida da canção Loucura de mente parida Multidão, deserta e florida A consciência revelada e prometida O líquido da fonte da vida Serenidade e melódica manhã Metafísica, beleza e felicidade A juventude, o meio dia e a tarde A perfeição o encontro e a eternidade Maria dos continentes Dócil, alegre e valente Aquela que rompe correntes E hoje repousa no solo feito semente Janete Manacá 127


SETE - feminino de luas e marés

Juliana Costa nasceu em 02 de fevereiro de 1990, na cidade de João Monlevade, MG. Desde 2014 publica anualmente na antologia paulista Cadernos Negros e é colunista satírica do Blog Ecos da Periferia, onde escreve a coletânea de textos intitulada O Castelo Acadêmico. Cursou graduação em Letras – Literaturas, na Universidade Federal de Viçosa, atualmente é mestranda em Estudos Literários na Universidade Federal de Juiz de Fora, cidade na qual reside no momento. 128


SETE - feminino de luas e marés

O segredo Mãe, eu quero ir brincar Filho, não vá, fique aqui, bicho fardado pode lhe pegar Mãe, preciso ir pra Escola Filho, cuidado ao sair, vá e volte com o mesmo pé Não quero a comoção como esmola Caso algo lhe ocorra, vivo tendo fé Uma fé que não é a prova de balas, meu menino. Mãe, ouço sirenes lá no início da favela Filho, espero que esta noite não tenha corpo e não tenha vela Mãe, ouço disparos Filho, espero que seja dos corações, pulsando vida diante do medo Mãe, eu tenho um grande segredo Filho, me diga, caso assim quiser Eu vou ser presidente quando crescer Filho, o futuro a Deus pertence ... Mãe, Deus é a prova de balas? Filho... acredito... que seja! Mãe, eu mudei de segredo Quando eu crescer eu quero ser um Deus preto. Juliana Costa   129


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Desninando Criança preta não dorme O bicho papão vem fardado amedrontar-lhes o coração Antes o medo era da fome Agora o que o deixa preocupado é o sangue irremovível dos asfaltos desta nação Criança preta não tem medo de careta Nem tem medo de assombração ou do próprio capeta Tem medo do governo que a sua desgraça assina a caneta Aprendem enganosamente que não podem ser gente de caderneta Experimentam antes de serem adultos a irracional baioneta Criança preta morrendo Não vira notícia e nem poesia Não rima com nada, não soa bonito Criança preta morrendo significa grande lucro Menos um que vai de qualquer jeito para o sepulcro E a vida continua Mães, vós e tias Carregando na alma todas estas lágrimas invisíveis E da música de ninar só lhes restam um verso: “ Dorme filhinho, Dorme filhinho...” e aquela vontade sofrida de desninar o filho da terra rompendo do peito a dor em forma de cratera. 130

Juliana Costa  


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Dose negra à Juliana Rosa , amiga e irmã. Uma dose negra na garganta só para começar o dia vamos parar de hipocrisia pois todo dia a resistência vem violenta como poesia Juliana Costa

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Silêncio Consigo ler os silêncios com a perspicácia de quem lê o percurso dos rios. A vida a brincar conosco fazendo de nós mesmos um profundo poço em que jogamos palavras em forma de desejo Pois o mundo inteiro roda em nosso peito E o silêncio é uma faísca que promove indizíveis incêndios de indiferença comodismo e absoluta crença de que a vida só a nós pertence e o ego sempre vence quando não rompemos com todas as prisões manifestadas em oportunistas opiniões daqueles que inventam, mas do vivenciam a única oportunidade que temos de ser positivamente humanos Saibam que meu silêncio é diferente Ele arrancará todos os dentes Daqueles que falsamente sorriem. Juliana Costa 132


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Benzedeira á benzedeira Dona Madalena (Viçosa- MG ) É bom saber O que não conseguimos ver Tem gente que trama pelas costas Tem gente que desfere venenosas palavras Pois para si não encontra respostas E por isto deseja o ruim Para toda gente que sorri Madalena, a benzedeira Lê a alma e seus conflitos E ensina que alma também tem que ser guerreira Livra-nos dos aflitos Reza, pensa e aconselha Mesmo que o mundo seja uma peleja É necessário que amanhã o nosso olhar floresça Juliana Costa

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Luto Brancura impondo moralidades e padrões na simbologia do ódio que sufocam milhões de corações Cuidemos dos nossos Cuidemos daqueles que uma sociedade inteira coloca a parte Cuidemos com abraços e não só com os olhos Cuidemos antes que seja tarde Luto, palavra que dói Quando sinto tristeza ou quando sou fortaleza. Luto contra as possibilidades de luto E mesmo assim escuto: Que somos vitimistas demais Que somos exagerados demais Enquanto eles são desumanos demais. Meu luto é branco Não fiquem com espanto Pois a morte jamais foi negra A tristeza não é preta Branca são as navalhas que ceifam Que fragilizam a nossa mente e espírito em nome de Deus ou santo manuscrito Luto e irei lutar mais Juliana Costa 134


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Se Papai Noel fosse negro Se Papai Noel fosse negro seu trenó seria perseguido pela polícia Se reclamasse o chamariam de vitimista Enquanto alisam sua barba com o ferro indizível de suas ideologias “Natal tempo de paz” A Deus ora o capataz Enquanto as ideias na cabeça festejam a sentença branca dada ao corpo negro cintilantes balas cortando a preta noite da favela Ai meu Deus! Se Papai Noel fosse negro o pintariam de branco colocariam olhos azuis, o fariam como Cristo. A imagem difundida do íntegro A sociedade nos amaldiçoa com rezas e ladainhas Que negras não podem ser princesas ou rainhas Que negros não podem ser doutores ou bons homens Que a paz é branca, negra é a treva Que o bom sempre é o branco, incontestavelmente. Querem nos convencer que braçal é o nosso trabalho Que no pensar somos inferiores E que jamais poderemos ser professores E se servos de madames e senhores Mas não, Papai Noel não é negro Aliás Papai Noel nem existe 135


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e mesmo assim cultuá-lo insiste A democracia racial não existe Mas discuti-la ninguém insiste e nem nela persiste. Talvez esta noite seja feliz Pois quem mata estará festejando E nenhuma alma covardemente sentenciada Polícia de folga, menos um medo nas ruas, nenhuma alma calada. Juliana Costa

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Letícia Ferreira Eça nasceu em junho de 1997, São Paulo. Atualmente, cursa Construção de Edifícios, na Faculdade de Tecnologia Victor Civita, e também Ciência da Computação, na Universidade Cidade de São Paulo. Gosta de cachoeiras, parques e flores caídas ao chão. Seus dias de inverno são aquecidos por seus amores, por poesia, por música. Anseia levar vida onde não tem e conhecer mais a Jesus, seu Deus, que mostra diariamente o que é amor e como amar.

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I Colisão de dois mundos ou mais A nossa brisa nostálgica que nos traz uma quase paz Será roubada. E a abstinência por abismos despenca outra vez em obstinações. Em trapaças banalizadas (com outrem) so, please Live the consequence and be the chaos, again. Porque nos fizeram furacão e agora N o s confrontamos em nosso sopro Letícia Ferreira Eça

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II Fale comigo Então vamos falar sobre natureza morta! Da qual pintores em preto e branco reinventaram. desgastaram traduziram Podemos debater sobre bebida russa sobre a guerra por água e até sobre a peça quebrada do nosso carro. converse comigo você trouxe o copo d’água que pedi? está me ouvindo? O som do incerto veio novamente essa manhã Ele me arrasta! E me arranca os olhos e me lincha a pele e os órgãos e por não saber como terminar poesias Eu te peço que fale comigo. Letícia Ferreira Eça

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III Folhutopia O manguezal suga o rio seu sangue suga os barcos que passam gaivotas sugam um pedaço do céu Mas as folhas mesmo na distância do seu lar emergem tranquilas no rio como folhas adotadas felicitam-se com a própria sorte folhas rentes mais ao rio do que às suas mães árvores folhas mortas. mais vivas que nunca, adaptam-se, mudam de cor e recomeçam suas histórias Em todo seu esplendor e simplicidade as folhas são invejadas por todos do reino que as veem e sentem 140

Letícia Ferreira Eça


SETE - feminino de luas e marés

IV Rezando pelas ondas sozinha Entre uma onda e outra eu rezei mas ao invés de paz, recebi medo e repúdio. Entre uma onda e outra eu rezei E, meu corpo, fosse o conjunto de todas as palavras inventadas, perdidas, extintas, era perturbado. Na estaca ou cruz, pesava no prego amargo. Era poema com todas as letras do mundo. Minha reza foi sincera entre as ondas. mas entre uma onda e outra, foi que me perdi no profundo. Letícia Ferreira Eça  

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SETE - feminino de luas e marés

V Almejo quebrantamento e a dor pela dor do outro Almejo compaixão, empatia Choro Almejo poesia vívida Palavra que toca A ferida e cura Almejo o amor Que lança fora todo o medo almejo o amor que tudo sofre e não procura os próprios interesses almejo o amor que faz coração voltar a bater e traz as pessoas de volta à vida Letícia Ferreira Eça

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VI saia da sua fossa e venha para o meu colo. venha direto para o nosso aconchego saia do seu conforto e vem pro nosso santuário. acorde logo, que a lei da vida age sobre nós somos templo da esperança pros mundos sem forma, pros engasgados nos próprios choros pros que tossem pela metade e dizemos em nossas orações, e que assim seja: nos conduza, oh Deus em nós sobre-viva o amor a fé e a esperança amém.  

Letícia Ferreira Eça

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VII eu invento crises invento flores uma reza e uma atmosfera nociva. Eu invento um intento um sossego e até um lugar na lua, na quitanda, na praça numa noite de quinta invento uma insônia invento uma nostalgia um pronome de tratamento Letícia Ferreira Eça

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Líria Porto é mineira de Araguari, professora e poeta. Tem dois livros editados em Portugal (Borboleta desfolhada e De lua) e dois no Brasil (Asa de passarinho e Garimpo - finalista do prêmio Jabuti 2015). É também autora do blog Tanto mar, participa de vários sites, jornais e revistas na internet, entre eles Escritoras Suicidas, Germina Literatura, Zunái, Blocos Online, Considerações do poema, Poesia Perfeita e Mallarmargens. Reside em Araxá, interior de Minas Gerais. 145


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degelo eu já era uma mocinha fazia xixi na cama o tal cheiro d’amoníaco me matava de vergonha mas fechar a torneirinha na melhor hora do sonho como? (eu tinha vontade líquida e alma muito tristonha) Líria Porto

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SETE - feminino de luas e marés

pré-menstrual barulho de chuva arrulho de água e serra mato seco se enverdece primavera insinua-se lua surta no cais Líria Porto

labelladonna os olhos são noites o cheiro manhãs são tardes seu colo seu sexo agoras os seios auroras e o tempo advoga a seu favor Líria Porto 147


SETE - feminino de luas e marés

prenhez esta doida de sentires e de pedras de nublares de viveres e de luas de sonhares de tornados de dilúvios esta insana das noites seculares dos falares dos silêncios dos transtornos das tempestades desaguares e de lama esta louca dos amores impossíveis das demências dos pulsares dos entornos das claridades dos escuros e dos vãos esta mulher como tant(r)as habita-me

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SETE - feminino de luas e marés

devoção olho minhas mãos as manchas a pele ressecada lembro-me daquele menino – o zezé passava os dedos pelo meu corpo e ficava admirado és tão lisa pareces capa de revista santa de reza Líria Porto

desmerecimento à mulher que se disputa o céu a terra a florada à mulher que se diz puta nada? Líria Porto

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matrioskas as bisavós das avós a mãe da mãe depois nós as filhas netas bisnetas as crias destas daquelas e assim uma após outra pelos séculos dos séculos Líria Porto

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Lívia Natália é baiana, de Salvador, poeta e contista. Escreveu o livro de poemas Água Negra, 2010 (Prêmio Banco Capital de Poesia) e Correntezas e outros Estudos Marinhos, 2015. Doutora em Teoria da Literatura e professora do curso de Letras da Universidade Federal da Bahia. 

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Freudiana No mais fundo dos homens que amo há meu pai, com sua carne de maresias. Ele se desenha na pele dos meus homens como o mar inscreve, no peixe, as escamas. (Todo corpo em que derivo absorta tem algo de sua voz pedregosa.) Nas peles negras em que me banho flutua sua existência de maré: prenhe de naufrágios. Aos pés destes timoneiros delicados que pensam singrar minhas águas sou a kianda-sereia, um coral espelhado, sou a ostra que se desmora em silêncio. Sou a água eternamente translúcida. Precipício denso de onde estes peixes bebem - apenas - um silêncio delicado Lívia Natália

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As mãos de minha mãe As mãos de minha mãe são imensas e seguram seu corpo minúsculo como as chagas de cristo lhes se sustentam a santidade. Nos dedos vincados de veias grossas, na curva que se enruga no mais preto das dobras as mãos de minha mãe perfazem os caminhos de meu mundo. Se os búzios cantam nas palmas singradas de rotas negras é para predizer maresias e ondas dolentes em meu caminho. As mãos de minha mãe, cada vez mais idosas, guardam, em suas linhas, o segredo de nosso destino, elas se cruzam no ventre da espera, e nasce sempre feliz, sempre feminino. Lívia Natália  

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Orisadidê Arranca as percatas de seu cavalo e nele galopa com os pés no chão. Solta um grito que se espeta no alto e, repetido, saúda a terra com a majestade de sua presença. Dança sem a calma das horas, pois seus braços se erguem para fora do tempo. Caminha com sua carne de mito e, quando vai, não parte. Apenas se banha em seu próprio mistério. Lívia Natália

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O caso do vestido De tempo e traça meu vestido me guarda. Adélia Prado Meu corpo não respeita as estações. Chove grosso em cada dobra da cidade E eu trago comigo um vestido de verão intempestivo. Meu corpo não cede e, vivo, arde no ligeiro das rendas, nas maresias que lambem o ar. Meu corpo não cede. E o vestido que me desveste neste calor temporão é todo bordado na minha pele: por dentro. Lívia Natália

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Meu caro amigo Esta Nereide que te prende nas tramas dos seus lençóis, te devorou. Ela te guarda no delgado de suas entranhas, e virastes navio submerso no negrume imenso. numa água violenta, mas sem procelas, só suas mãos dançando Sobre o mar de fios grossos. Onde estás tudo é bruto, bichos ocultos bebem de sua sombra. A vida me atravessa e não posso te contar: que emagreci e cortei os cabelos, (eles agora crescem dobrando-se em cachos, como os teus, miúdos). Que estou mais forte. Que quase sei lutar. Que esta semana me achei grávida de um rebate falso. Que tenho chorado. E sou mesmo igual a ti: puro silêncio. Enquanto esta Nereide penteia, com as mãos, os teus cabelos, Vou desaprendendo a cantar, achando o mundo menos belo, e todos os naufrágios que fiz de mim, pra te encontrar lambem as fanjas das ondas por puro medo do profundo que há no mar.

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Lívia Natália  


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Sina Todo mês eu sangro. Diversa de mim, atravesso águas brutas, oceanos que me povoam bravios. Expulso o que em mim excede e, do que sobra, algo se move lívido pulsando nas sendas de meu ventre. Quando sangro, o animal onde moro troca de pele por dentro, expurgando entranhas. Todo mês eu sangro. Todo mês eu singro este mar, em que me banho. Lívia Natália  

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Carpideira ...chore-me uma enxurrada, eu já chorei rios por você... Mel Adún Derramei duas ou três lágrimas por você, apenas por que não irei ao seu enterro e, portanto, estarás coberto pela impossibilidade das flores. Chorei para lhe dar algum luto, posto que não visto preto, nem vou a cemitérios: minha religião! (Dentre outras interdições que me dão vida, minha religião me impede de sofrer à toa, de ir a enterros, e de vestir-me de preto.) Portanto, querido, pranteando agora pela sua morte, já te enfeito, te encomendo a alma e me despeço de ti, para no meu logo, logo recompor as cores de minha face, e o vermelho que me aviva os lábios. Já chorei rios por você, neste meu terrível destino feminino. E estas últimas lágrimas já nem engrossam a tempestade, apenas enfeitam a terra onde te plantarei profundo. Virá o seu enterro e não gastarei dinheiro algum no seu caixão. A cova de meu abandono, meu amor, te abriga todo, como o colo de uma mãe. Ali todo estarás deitado, longe da minha piedade, no único berço que merece isto que já se perdeu: O esquecimento. 158 Lívia Natália


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Maria Helena Latini publicou Roteiros de Vida, Ed. Achiamé, 1991; Ângela e Antônio - 1ª edição – Ed. Blocos, 1992; Fio de Prumo, Editora 7 Letras, 2006; Ângela e Antônio - 2ª edição ampliada e revista – Ed. Nitpress; Duas Mulheres Entardecendo, em diálogo de textos com Wanda Monteiro, Tempo Editora, 2014. Participou das antologias Água Escondida, Niterói, 1994; Urbana – Edição Histórica, Rio deJaneiro, 2001; Poesia Sempre, Biblioteca Nacional, 2006; Communità Italiana, 2006; Antologia dos Poetas Vivos, 2009, Um Brinde à Poesia, 2014 e Entretextos, 2015, entre outras. Alguns de seus textos foram selecionados para espetáculos teatrais. Para teatro, escreveu roteiro para Afropoemas (com textos dos poetas Adão Ventura, Solano Trindade, Salgado Maranhão, Carlos Orfeu, Conceição Evaristo, Maria da Paixão de Jesus e Cristiane Sobral), O que é Poesia? (infanto juvenil) 159 e Histórias do Mar.


SETE - feminino de luas e marés

Poema branco Bom é esse silêncio que me veste e me despe, que me alimenta e me faz dormir. Zeloso, faz para mim uma mesa em toalha de linho. Prepara-me um banho com pétalas de jasmins, ervas aromáticas, água tépida e meia-luz. Entendo-me bem com ele. Esse amigo, remanso e refluxo. Branco, branquíssimo; pacífico: Santo. (Eu tenho uma casa guardada no Silêncio.) 160

Maria Helena Latini


SETE - feminino de luas e marés

Duro Há o silêncio pacífico e um outro, invisível enxame de vespas: quando o ar é pesado e o rosto vira, ao receber surdas bofetadas com luvas de pelica. Maria Helena Latini

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SETE - feminino de luas e marés

A palavra A palavra é feita de som e sopro. Vestida de sentidos, recolhe em si o silêncio. Maria Helena Latini  

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Seringueira O tempo era lento Resina no lento talhar de marcas cortes e seivas facas dores risos cheiros no lento gotejar de cada dia Perda dói como qualquer outra dor: sem remédio ou alarde. Sentimento de roupa esfregada, torcida e batida três vezes no tanque. Maria Helena Latini

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SETE - feminino de luas e marés

Certas perdas É verdade. É possível perder o que nunca se teve. A ilusão é um nada fantasiado, mas ocupa espaço. Maria Helena Latini

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SETE - feminino de luas e marés

Tempero Aproveitei que estava cortando cebola, dei pra chorar por tudo. A faca implacável separando rodelas que se dividiam, dividiam: A mãe, o pai, o avô. A casa, o que se perdeu e o quase. No jantar, ninguém notou; mas comeu carne temperada com cebola e lágrima.

Maria Helena Latini

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Maria

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Lucia

Lopez

nasceu em Catende, Pernambuco. É autora de 8 livros de poesia. Um deles, Acendedora de Estrelas, rendeu-lhe um convite para participar de uma coletânea de poetas brasileiros na Croácia, onde aparece ao lado de nomes como Mario Quintana, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, entre outros. Membro da Academia de Letras de Campos do Jordão e da Academia de Letras de Professores da Cidade de São Paulo. Artista plástica, terapeuta holística. Ainda em Catende, antes de morar em São Paulo, foi radialista e trabalhou no Teatro. É mãe, avó, acredita na transformação da humanidade porque acredita no amor.


SETE - feminino de luas e marés

Retirante Seria Maria das Mortes, se não fugisse da seca, se não resistisse à desolação. Se não tivesse imigrado, qual bezerro assustado, acuado, se fartando de lágrimas, chorava Maria, o galo cantava, os ipês floriam. Seria Maria da Esperança, se não tivesse as marcas da fome, da sede, da solidão, se não tivesse a lembrança de Maria criança, sem afeto, sem teto, sem sonhos e sem pão Fugia da seca do jeito que podia, num jumento esquelético. Trazia uma trouxa de trapos encardidos. Deixara a gamela, a trempe, as panelas de barro no chão. Deixara a lembrança do lírio do brejo, seguiu seu destino, no fim da estrada parou pra escutar, o canto derradeiro do azulão. Chorava Maria a sua ilusão, a juriti cantava, e a cigarra vadia saudava o verão. Seria Maria das Águas possuidora de um poço de lágrimas. Pensava baixinho, nos açudes, nos rios, pensava baixinho pra não agourar. 167


SETE - feminino de luas e marés

Havia ausências de pão, de carinho, chorava Maria com um filho no ventre - Predestinação Enquanto a terra queimava, o gado morria as andorinhas imigravam, Maria gemia, Maria paria. Maria Lucia Lopez

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SETE - feminino de luas e marĂŠs

Meu nordestinado destino Vivo brigando com o destino por ter nascido no nordeste e nĂŁo morar no nordeste, mas o nordeste mora em mim. Meu pai tangia o gado, um vaqueiro destemido, dono de muita alegria vivia em cantoria. Enquanto tangia o gado, o destino me tangia. Maria Lucia Lopez

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SETE - feminino de luas e marés

Afrodite diria Sentindo a calma da minha rua, imitei uma deusa nua, que enfeitava o corredor de manjericão. Pensei no belo, que meus olhos já viram e nas caricias que minhas mãos sentiram, colhendo girassóis... Não houve tempo para fechar a porta foi deixado a mostra, nossos corpos nus. Não houve tempo para sentir que o passado fora de manhã. Se os afetos forem congelados, O que será dos meus carinhos, Sem os teus agrados? Maria Lucia Lopez  

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SETE - feminino de luas e marés

Eis-me mulher Vestidos de luz, pássaros azuis bonecos de argila, cigarras vadias, moram na minha cabeça Trago no peito vendavais de paixões seduções e carinhos desfeitos Vinda das matas, cultivo a crença nos mitos, lendas e fadas Pra onde foi minha irmã coragem, que me levava além, numa carroça cansada onde bois sonolentos se arrastavam no chão, cuja carroça gemia, rangia, no compasso do meu coração?

Maria Lucia Lopez

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Há Em Mim Tantas Marias Há em mim tantas Marias que já nem sei o que fazer! Entre tantas Marias, há uma fagueira, outra Maria guerreira. Há uma Maria incoerente, que nunca sabe o que quer. Há uma carente outra dengosa, há a Maria mulher. Há uma que vela um irmão perdido, outra que chora um amor traído. Há a Maria veleiro de Corpo tão solto que fracos ventos tangia Há a Maria que só sabe amar, rezar não sabia... Há em mim tantas Marias - manias de paixões sem fim, que já nem sei o que fazer de mim. Maria Lucia Lopez  

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SETE - feminino de luas e marés

O corpo da lua A lua nova surgia de mansinho e a esperança E a esperança renascia. E num canto do rio Sobre um lajedo, um jasmim adormecia. Um lírio feito de brisa namorava orquídeas. A noite seguia cerrada, sendo o palco de aves, que cantavam o seu noturno A lua exibia seu pandeiro de prata, refletido seu Corpo, retocando seus raios, numa imensa cascata E cigarras cantavam, cantavam. Maria Lucia Lopez

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SETE - feminino de luas e marés

Alguém falou de amor Alguém falou de amor E um novo brilho alumiado Tomou conta dos viadutos e passarelas Da cidade. E versos livres acordaram Recantos amanhecidos e arco íris Que adormeceram encabulados. Alguém falou de amor E numa exata precisão O asfalto revestiu se de azul pavão E os cascalhos de verde clareado E os sonhos adormecidos nas cinzas Do desencanto foram novamente Despertados. E as paixões caídas Foram lentamente reerguidas. Alguém falou de amor. Maria Lucia Lopez  

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SETE - feminino de luas e marés

Maria Sueli Fonseca Gonçalves - Professora, formada pela Universidade de São Paulo (USP), Faculdade de Ciências Humanas e Letras. Nasceu em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo. Casada e feliz, tem três filhas e uma netinha. É conhecida como Suelizinha, porque é pequena, e talvez ainda porque, por dentro, seja menina. Desde cedo, foi envolvida pela Poesia, como se um furacão, de repente, a surpreendesse e a arrebatasse , mas, paradoxalmente, em vez de assustála ou feri-la, apenas a suspendesse e a libertasse para alçar voos. Num desses voos, ávida por oferecer aos alunos a oportunidade de também eles se entregarem à Poesia, 175


SETE - feminino de luas e marés

à Literatura, à Arte e ao Sonho, idealizou a Academia Estudantil de Letras (AEL), projeto da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME), que nasceu em 2005, com os seus alunos e ela, à sombra dos eucaliptos da EMEF Padre Antônio Vieira, no Jardim Nordeste. Da escola para a Diretoria Regional de Educação da Penha e desta para a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, o Projeto foi crescendo e, hoje, em fase de plena expansão, já é desenvolvido em mais de 100 escolas da Rede Municipal de Ensino. Crianças e jovens ocupam, com orgulho e competência, as cadeiras literárias dos autores que escolhem. Realizam seminários, saídas culturais, participam de eventos, representam no palco obras primas e primorosas da Literatura, mergulham nos livros por livre vontade e prazer, escrevem em prosa e em verso e vislumbram para si uma realidade melhor, possível e palpável. Membro vitalício da Academia de Letras dos Professores da Cidade de São Paulo (ALP) outro de seus voos – , foi honrosamente agraciada como membro da Academia de Letras de Campos do Jordão (SP ). Considera a Academia Estudantil de Letras (AEL) e a Academia de Letras dos Professores (ALP) a sua POESIA e revela que a EDUCAÇÃO é o seu LIVRO.

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Metamorfose Na noite, uma luz, o amor... O eco suave de um caminhar a dois... Na rua, dois rostos enamorados, Que se fitam suavemente, ternamente, de repente... A gente se cala e se embala Na doçura que a noite exala... No amor, uma luz: a noite! Maria Sueli Fonseca Gonçalves

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Desencontro

Eu fui... Você veio... No meio, Um pranto. No canto, Uma lágrima.

No fim, Um sorriso.

(Que lástima!)

Maria Sueli Fonseca Gonçalves

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Duelo Amoroso Ela chega de mansinho como um calafrio discreto.. Percorre o teu corpo inteiro e se instala por perto... Depois... murmura palavras ininteligíveis ao teu ouvido.. E elas - as palavras saltitam como crianças arteiras que se empurram para disputar um lugar... Todas elas se alojam no teu coração... (por ordem de chegada, de forma desorganizada) Então, já não adianta mais nada: Ela te arrebata, te prende, te cega e te vicia... E, em todas as vezes, quem vence é a Poesia... Maria Sueli Fonseca Gonçalves

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Meu Livro Já se passaram dias Já se passaram meses Já se passaram anos Talvez a longa gestação tenha uma razão: Estou gerando um livro com o desvelo de uma mãe de filho que aconchega, admira e acarinha o ventre Maria Sueli Fonseca Gonçalves  

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Milagre O amor é para a vida toda E até para depois de toda vida O encanto se disfarça de pessoa A pessoa se disfarça de encanto O milagre é processado: Não há tempo, não há lógica, Não há meios, não há métodos, Não há fases, não há frases... Só há o primeiro capítulo Só há o primeiro verso E o livro inacabado de uma vida inteira Maria Sueli Fonseca Gonçalves  

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Outra primavera Nessa, não haverá apenas risos, pássaros e flores... Nessa, não haverá apenas encanto, magia e esperança... Nessa, não haverá apenas suspiros, desejos e sonhos... Nessa, não haverá apenas promessas, olhares e espera... Vai ser diferente essa primavera! Maria Sueli Fonseca Gonçalves

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Você nos meus olhos Andei por aí de olhos arregalados E de coração aberto para o amor Colhi flores imaginárias e fiz um buquê Construí castelos no ar E um dia encontrei você... Você andava de olhos fechados E de coração fechado para o amor Colhendo restos de ilusão Destruindo os seus próprios castelos E um dia você me encontrou... Prendemo-nos como dois elos... Andamos por caminhos diversos Você, eu e os meus versos... Andamos por caminhos trocados, Andamos por caminhos incertos: Você, de olhos semi-fechados... Eu, de olhos semi-abertos... Maria Sueli Fonseca Gonçalves

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Norma de Souza Lopes, 45 anos, nasceu e vive na cidade de Belo Horizonte. Filha de mãe gari e pai pedreiro, é poeta e professora. Faz da poesia essa costura cotidiana com a qual tece os afetos e a memória. Publicou seu primeiro livro, Borda, em 2014, pela Editora Patuá. Participou das antologias 29 de abril Versos da Violência e Sobre lagartas e borboletas. Publica regularmente nas Revistas Escritoras Suicidas, Germina Literatura e Mallarmagens. Publica no blog Norma Din (http:// normadaeducacao.blogspot.com.br). 184


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da vida não fosse esse péssimo hábito certamente inventado por barbados de pensar que para mulher perdida só os homens são lugar eu bem que queria ser mulher da vida Norma de Souza Lopes

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concessão ouça o chamado da loba é igual para todos os homens possua cada orifício com amor ou com violência mas que não se ouça nem um gemido que não seja permitido nem um gemido que não seja permitido Norma de Souza Lopes

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deusa de festim ando cansada de ser mater dolorosa uma miríade de deusas da fertilidade só para gente padecer no paraíso que falta me faz uma deusa de festim na próxima maternidade juro que perco o juízo e trato de parir um tamborim Norma de Souza Lopes  

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marias sob o silêncio marias suspeitam toda guerra é inútil e a melhor parte que lhes cabe é ser as guardiãs dos vínculos marias não atirariam pedras elas saberiam da subserviência das madalenas a lascívia dos homens há aquelas que nasceram ou cresceram contaminadas pela essência dos tiranos assopremos em seus ouvidos até possam se viram do avesso e lembrar seu mais antigo nome _ maria, maria! Norma de Souza Lopes 

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todas as mãe são solteiras todas as mãe são solteiras disse margarethmead ou outra margareth com a qual sempre concordei a propósito estou para dizer mesmo sem ser mãe somos sempre tão sós nós, as mulheres mesmo acompanhadas sempre somos muito sós a solidão é este vácuo, intervalo quaresma sem cortar cabelo resguardo, presença intermitente companheira, essa sim, inseparável Norma de Souza Lopes

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Lamento Se me pedisse: _ Canta! Para ti eu emitiria um som que marcasse meu tempo em sua alma Se me pedisse: _ Canta! Para ti eu soaria uma melodia que imprimisse meu rosto em seu corpo Se me pedisse: _ Canta! Para ti eu reverberaria notas que invadissem seus caminhos, sua casa, sua vida Mas você não pede e eu fico muda e essa música que é a força do tempo, do semblante e do espaço fica presa em minha garganta Prefere deixar-me aqui, condenada à poesia grito surdo e solitário cárcere gutural de mim Norma de Souza Lopes  

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inexorável chega um dia que resta a uma mulher amputar a vontade gangrenosa de ser tudo e todos no mundo chega um dia que resta a uma mulher ir parindo a si mesma vagarosamente até pôr-se completamente ao avesso chega um dia que resta a uma mulher mastigar suas memórias como uma cadela à sua placenta chega um dia que resta a uma mulher renunciar aos companheiros de viagem raposas que devoram seu o ventre chega um dia que resta a uma mulher aceitar a triste tarefa de ser assopradora de ossos Norma de Souza Lopes

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Penélope Martins, nascida em 1973, é bacharel em

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Direito, pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, pós-graduada em Direitos Humanos pela PUC de Campinas. Cursou disciplinas no curso de Mestrado em Filosofia, no IFCH - Unicamp, em 2005, na mesma época em que iniciou seus trabalhos como narradora de histórias. Mais tarde, somou sua experiência como narradora à performance, interpretando poemas com uso da voz e do corpo. Penélope é escritora, tem livros destinados à infância, publicados pela editora Folia das Letras, Bolacha Maria, Cortez, Dimensão e outros ainda em pré-lançamento. Como crítica de literatura, mantém um blog autoral que faz circular conteúdos literários, o Toda Hora Tem História, e mantém coluna semanal no Jornal ABCD Maior, desde 2011, com indicação e reflexão de leitura.


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I reaproveite os nossos restos para dizer que fizemos poesia naqueles dias em que vivíamos sob um teto esfarelado de papel. apanhe sua agulha para costurar as sobras do amor que lhe faltou. coma tudo. coma tudo. deite numa esteira de palha para digerir nossas mazelas, mas projete na parede oca minha farta descompostura serpenteando múltiplos gozos. faça de mim algo sublime de tão inútil. feche os olhos e sonhe a linha da tua vida na palma de uma mão estendida por trocados. a escuridão de nossa memória resistirá. a solidão que nos habita resistirá.

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nossos punhos marcados pelas palavras ditas. nossos pĂŠs acorrentados em geleiras. PenĂŠlope Martins

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II seus músculos fartos seus ossos largos seus lábios fechados determinação belicosa virilidade incontestável na aptidão de dominar, sem ‘gracias’, no grifo nosso, que não nos servem de nada, pois é debaixo da saia na linha da cintura fina de uma coluna desdobrável que se diz sim para ancorar filhos, para chorar pais, para arrebentar nossas gerações. Penélope Martins

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III liste as três coisas que eu não gosto em você. liste e risque que eu já fiz esquecer. Penélope Martins

IV um corpo não é um rótulo um corpo não é um invólucro um corpo não é andor um corpo não é furor um corpo não tem nexo um corpo não é se não o reflexo (in)verso esse corpo que não é mais meu corpo seu. Penélope Martins 196


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V ergo-me no vazio rapto o brilho de uma estrela no céu azul negro, admirando o mundo, sou versátil, sou ágil, tenho estado a ponto de me libertar do que não sou num único salto, ou muitos, como se fez (faz) necessário. findo aqui minhas lembranças sigo rumo sem bússola, só a tua rosa dos ventos que segregam cartas de amor. entrego-me à sorte de quem se entrega. quem teme a dor íntima e dilacerante? o coração ama sem saber o que é o amor. nunca se revela uma miserável verdade. na retina os cristais plásticos de consternação cintilam esperança. padeço ser livre o guerreiro que não carece ser chamado, aquele que enverga o arco aquele que faz saltar a flecha e sorve um gole de fracasso por dia, perdido nas batalhas perdidas, no tudo que não tem, nem teve, terá. ao fim, a perda é mais genuína. no vazio do campo morto, celebram-se vivos. Penélope Martins  

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VI naquele dia era mais fácil não pensar seu nome, rasgar lembranças no desprezo simples apressado. mas eu andava a esmo pela cidade - fazia um puta frio daqueles que não cabe pensar - e sua janela estava aberta pra rua. você sabe que sou eu quem não ultrapassa o sinal, não pega multa de trânsito por excessos na falta de transgredir sou meticulosa com regras sociais, sento de pernas cruzadas, tomo banho todos os dias. mas era segunda, e eu na contramão da cidade cinza. no mais, faltavam cigarros na bolsa e lembrei que nós fumávamos a mesma marca.

Penélope Martins

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VII mulherzinha. atrevida que só ela, anda do lado de fora do passeio à toa, sem medir valor do passo a passo que firma a pedra no chão. e o sangue verte sua coragem de pássaro. voa além da sombra do medo. não diz ai. parideira de mundo que é. Penélope Martins

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Roseana Murray - Nascida num dia quente de

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dezembro, em 1950. Filha de imigrantes poloneses, Lejbus Kligerman e Bertha Gutman Kligerman. Gosta de mato e silêncio. Durante muitos anos viveu em Visconde de Mauá-RJ, mas trocou Mauá por Saquarema em 2002, já que uma cirurgia na coluna tornou a montanha quase intransponível por um tempo. Mãe de dois filhos.Tem muitos livros publicados (uns 100 livros) e leitores de todas as idades, aliás, não acredita em idade, mas sim em experiências vividas. Fica muito feliz quando pensa que um poema que escreveu em sua escrivaninha chega a lugares tão distantes.


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Rosto Lavo meu rosto com as pedras secas de um enigma no oco das minhas mãos meu rosto se reconhece como uma fruta perdida descansa um minuto na lembrança das suas raízes quantos milênios escorrem nesse gesto gasto de escrever o rosto todas as manhãs? em cada olho dorme um mistério como um grito longínquo Roseana Murray

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Natureza viva A natureza me avassala gaviĂľes selvagens cavalos e rios invadem meus olhos minhas veias meus alados precipĂ­cios dentro de mim a montanha Roseana Murray

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Segredo No profundíssimo oceano a água escreve estranhos peixes sem olhos em cada segundo um mistério se equilibra como um peixe cego caminhar sobre a tênue linha como quem andasse entre as paredes de um segredo Viver é apenas isso: um passo atrás do outro e lógica nenhuma o tempo suspenso entre dois abismos dor e alumbramento as estradas sonoras são as que levam para dentro Roseana Murray   203


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Nudez Na curva do ombro onde o tempo deposita gota a gota seu peso um beijo como um pĂĄssaro pousado Roseana Murray

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Escrita Com seus labirintos vazios o que dói é a vida o destino desarrumando as esquinas um mistério atravessa nossos olhos distraídos como um barco que invisível cruzasse as montanhas o que dói é a vida e sua indecifrável escrita Roseana Murray

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Escrita Com seus labirintos vazios o que dói é a vida o destino desarrumando as esquinas um mistério atravessa nossos olhos distraídos como um barco que invisível cruzasse as montanhas o que dói é a vida e sua indecifrável escrita Roseana Murray

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Gente A solidão e a incomensurável noite que dorme nas coisas o silencioso veludo das pedras a camada de enigma que envolve cada vida às vezes acontece que me canso de ser gente andar pelas ruas tão de carne e osso vestida ah ser um bicho verdadeiro comer paredes morar no vento  Roseana Murray

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Samantha de Sousa, professora mestra em

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Literatura, nasceu em Caxias-MA, mas viveu em Paragominas-PA durante a maior parte de sua vida. Ainda criança, entre os livros antigos de seu pai, começou a criar laços fortes com a Literatura. Durante a adolescência, quando a depressão começou a se mostrar, a poeta encontra na escrita um ponto de fuga e de encontro consigo mesma. Ao longo do tempo, a doença se tornou mais grave e a poesia mais pulsante, até chegar a um ponto de equilíbrio, no qual a literatura funciona como uma terapia. Sua poesia é marcada por imagens fortes e paradoxais, explora os temas da loucura, do cotidiano


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e dos dilemas da vida. A poeta encontra inspiração em Sylvia Plath, Anne Sexton, Sá-Carneiro, Hilda Hilst, entre tantos outros que marcaram sua trajetória artística e pessoal. Já publicou em algumas antologias e em 2015 publicou seu primeiro livro, Peregrinações, pela editora Literacidade. Também pode ser encontrada em seu blog pessoal, umcafeparaminhagastrite.blogspot.com.

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Autorretrato II - Rastros de silêncio além da porta – Despertas a memória: Pântano da tua existência. Eu vejo em teus olhos, Em tuas mãos trêmulas, Em tua pele pálida e opaca, Eu vejo a hera que se espalha em teu corpo. Teu corpo é quase alma: Matéria apodrecida em plena juventude Jardim adormecido As pétalas murcham em tuas mãos decrépitas As tuas mãos são ossos As tuas mãos são pó. E eu me perco Eu naufrago em teus olhos mudos Tu és silêncio Só silêncio Tu és sono Tu és só.

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Eu me perco em tua memória - rio de água turva – Eu me perco Tu me devoras. Tudo em ti é exílio Teu corpo exala o vazio.


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Tuas mãos, Teus olhos, Teu rosto lasso, Perco-me no espelho Perco-me em fragmentos Perco-me. Samantha de Sousa  

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Corrosão Para além das fronteiras Além da respiração Além da carne Turbulências em minha mente Rajadas de vozes desconhecidas Desejos indesejáveis Olhos que me observam de dentro Turbulências em minhas veias Vórtice vermelho em meu peito Eu desabo Ruínas do meu corpo Ruínas da minha memória Meus dedos sangram Arranquei as unhas com os dentes Arranhei minha pele Sangue macerado sob a pele Eu desabo Ruínas em meu corpo Hálito de casa abandonada Paredes condenadas pelo tempo 212

Eu desabo  

Samantha de Sousa


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A outra Ela está em meus olhos sob minha pele na minha cabeça - latejando aos meus ouvidos - sussurrando A imunda A fera Olhos de besta infernal Ela cresce dentro da carne de dentro para fora - perfurando rasgando com os dentes e com as unhas Ela se alimenta da minha náusea Meu rosto, estilhaçado As peças não encaixam Em nada me reconheço nestes reflexos. Nada é sólido. Meu corpo, liquefeito, escorre nas paredes Nada condiz Nada convém Imóvel na exata inexistência Imóvel no vazio No oco do meu corpo 213


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Ela grita, orgasmo sádico E eu erguendo-me trêmula, Também posso sorrir E também posso sentir nos olhos sob a pele na cabeça aos ouvidos Meu corpo inteiro pode senti-la pulsando por dentro de dentro para fora Rasgo minha própria pele E posso vê-la nas frestas que a insanidade penetra. Samantha de Sousa  

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A outra Ela está em meus olhos sob minha pele na minha cabeça - latejando aos meus ouvidos - sussurrando A imunda A fera Olhos de besta infernal Ela cresce dentro da carne de dentro para fora - perfurando rasgando com os dentes e com as unhas Ela se alimenta da minha náusea Meu rosto, estilhaçado As peças não encaixam Em nada me reconheço nestes reflexos. Nada é sólido. Meu corpo, liquefeito, escorre nas paredes Nada condiz Nada convém Imóvel na exata inexistência Imóvel no vazio No oco do meu corpo 215


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Ela grita, orgasmo sádico E eu erguendo-me trêmula, Também posso sorrir E também posso sentir nos olhos sob a pele na cabeça aos ouvidos Meu corpo inteiro pode senti-la pulsando por dentro de dentro para fora Rasgo minha própria pele E posso vê-la nas frestas que a insanidade penetra. Samantha de Sousa  

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Água latejando no silêncio Água latejando no silêncio. Passos que se arrastam invisíveis. Rostos que se escondem nas paredes. Aranhas mortas, aprisionadas na própria teia. Eu me acumulo. Como uma casa antiga, a poeira me consome. Crostas de penumbra devoram minha pele. O tempo se acumula em reminiscências. [Minhas mãos perdem a consistência. Tuas mãos levam o cigarro à boca. O que eu fui se dissipa na fumaça, O que tu foste se dissipa no que me torno.] Olho-me no espelho: Água turva. Pântano estagnado. Ranço de beijo impuro. A água ainda lateja no silêncio. Ecos latejam aos meus ouvidos. Estou tecendo minha teia: Vidro partindo Estilhaços de meu corpo espalhados pelo chão. Samantha de Sousa 217


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Distâncias Persigo inerte o horizonte rabiscado em luz, incandescente. Rumor de horas aflitas de passos que se perdem sem estradas, tontos como insetos rumo a chama. Persigo as horas vaguidões horas trêmulas. Sigo ao acaso vazia de mim sem lembranças nua e sem rosto. Sigo inerte sem um corpo que me dê contorno sigo sem rotas. Persigo inerte o horizonte que se apaga, horas aflitas que se calam. Sou. Simplesmente sou e sigo. Réstias de memórias. Sigo ausente. 218

Samantha de Sousa


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Sou feita de estradas Sou feita de estradas Da poeira colada em meu corpo Do suor que molha o meu rosto Sou feita de luzes alheias Sou feita de lares estranhos Ergo meus olhos para o além O além — sempre distante O além — sempre adiante Ergo meus olhos e vejo Sinto em meu corpo cada caminho Sou feita de horizontes O mundo inteiro está em mim. Samantha de Sousa

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Das invisibilidades A vida é um livro de páginas raras: Tudo o que é vida se esconde Nas invisibilidades. Tudo aquilo que os olhos tocam, Os cheiros que não comovem, Todos os atos minimamente observáveis, Nada disso é estar vivo. Acordar e ter os mesmos olhares Sempre à espreita dos mesmos gestos, Levantar e ter sempre as mesmas certezas, Isto não é estar vivo. As vozes que nada dizem, As palavras que se repetem Vazias, inertes, inúteis, Nada disso é estar vivo. Ainda não é estar vivo. O viver se esconde nas invisibilidades: Nas rosas furtadas, Nos amantes proibidos, No estranho pulsar Que em prazer lateja sem se traduzir. 220

Viver não se diz, não se vê. É o silêncio.


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É o segredo. São páginas furtadas De um tempo suspenso no tempo. Samantha de Sousa  

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Socorro Lira é compositora, cantora, instrumentista

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e produtora cultural. Formada em Psicologia pela Universidade Estadual da Paraíba – UEPB. Em quinze anos de carreira musical, lançou dez CDs, um EP e um DVD. Já se apresentou em países da Europa, África e América Latina, em inúmeras cidades do Brasil. Ganhou o Troféu Catavento 2013 (Melhor Música) da Rádio Cultura Brasil, Programa Solano Ribeiro e a nova música do Brasil. Ganhou também o 23º Prêmio da Música Brasileira de melhor cantora - categoria regional - e o Prêmio Europa 98, da Associazione Senza Frontiere, em 1998, na Itália. Lançou os livros de poesia: Aquarelar (2007) e A pena secreta da asa (2015).


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Aguaceiro Em janeiro chorei um Amazonas Fevereiro, um de seus afluentes Carnaval, eu desci pelas correntes Em abril, chovi o mês inteiro Maio em flores, eu fio de nascente Mês de Junho, enchi um são Francisco Julho foi que meu riso, rio em risco, escorreu para Agosto lentamente em meu rosto banhado, com capricho, dessas águas que inundam terra e gente De Setembro a Outubro, o tempo inteiro Quase fim, porém fim inda não era Só dezembro anuncia novo inverno no sertão onde mora meu inferno Novamente chegou mais um janeiro Socorro Lira

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Intervalo Aos dez ainda está nascendo se for de muda, inda está pegando Raízes, galhos se fortalecendo nessa idade Aos vinte é pleno inverno de sertão igual uma explosão de alegria a terra é bem menor que o coração e o sol é quem cria Trinta anos e a doce sensação de plenitude Tudo feito! Para daqui a pouco perceber o quão imperfeito tudo é Quarenta e já passamos da metade A lei da gravidade se apresenta: dói o pé o peito arde a fé sem a física natureza de criança sem a firme e odiosa esperança juvenil nem aquela confiança que, aos trinta, tem (...) nem, ao menos, a desculpa dos cinquenta, sessenta e, quiçá, cem 224

Socorro Lira  


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Atitude É o que me move me comove e me convence É a chuva que me chove o argumento que vence O alaúde que soa entre o ruído da rua e a solidão que povoa Me pertence Socorro Lira

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Conselho quase afeto Vire a página! Não digo para rasgá-la passe por ela Papel e caneta em punho prepare o coração para outros poemas novos com novos motivos novos sobre os mesmos temas mas, renove a poesia Revolva-se todo dia nas profundezas do chão da alma mantenha a terra arejada cultive com calma que o barato está na intenção que motiva o ato Portanto, vire a página! Arranque do pé a bola de aço antes de mergulhar. E vá! Se não der de um fôlego só, respire mas não deixe de virar a página bem como, de começar outra vez Conte até três, se precisar mas vá, porque o ensaio é valendo a vida é agora, já 226

Socorro Lira  


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Vivendo e desaprendendo Mãe disse para não andar com estranho E eu? Andei Para não falar com estranha E eu... Falhei Socorro Lira

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Impedimento Tem uma ferida que não sara e faz aniversário Tem uma ferida que até tem nome de batismo ela se chama fome Sobrenome mantém-se omitido como de um filho de pai impedido Há uma ferida que de tão ferida de doer não para Tem um ferimento tão, tão persistente que de tão antigo se fez paciente e resistente no correr da vida Socorro Lira

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Elogio à coragem que me falta Tem pessoa do tipo tão fluente tão sim tão cio que me parece injusto dizer “gente” Quando não é rio é nascente Socorro Lira

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Telma Cunha nasceu em São Francisco do Pará,

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em 28 de dezembro de 1974. Teve poliomielite com um ano e seis meses e passou vinte anos para aprender a conviver com as sequelas que ela lhe deixou. Hoje, aceita sua forma física e desencanou de tentar mudar o que não pode, como as pernas de “molambo”, resultado da paralisia. Recusa-se a achar que essa transformação trata-se de “exemplo de superação”, mas não é. Apenas entendeu que ser cadeirante, não torna ninguém menos capaz de ser feliz. Desde pequena escreve poesia, mas nunca havia mostrado a ninguém, engavetava suas palavras. Até conhecer o Poeta Antônio Juraci Siqueira


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(que a carregou na aba de seu chapéu encantado para o mundo grande das palavras e arrancou a sua burca). Faz-lhe perceber que escrever é SENTIR, mas abrir a gaveta é DESNUDAR-SE! Hoje, Telma tem três livros publicados: Voo de Borboleta, Folhas Soltas e Sob os Lençóis de Eros, este último veio para quebrar paradigmas, para dizer que ela não tem mais a sua exata medida, que hoje, ela só se vê cabendo nas aspas da poesia.

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Crepúsculo No céu crepuscular, Quase madrugada, No enlevo doce do desejo Do teu hálito. Nesta agonia gostosa Do Amazonas que nos separa Te aperto Te cheiro Te vejo Tu és tudo isso: O mais bonito. És mistura. Céu lilás Melodia do rio. Rio revolto. Celestial. Azul Noturno. Perdida no som da flauta, Busco tua alma, Sussurro Suspiro Sonho.

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Socorro Lira  


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Oferenda Tê-lo dentro de mim... O que pode haver de mais profundo? Diante de ti sou ateia em devotada reverência entre juramentos de saliva e sussurros suados de adoração onde o céu e a terra se unem no profundo das águas e os ecos ancestrais dessa paixão retumbam em mim. És cavaleiro consagrado da menina seduzida pela lua cheia sereia que vagueia com medo de não voltar. Dentro te fazes oferenda e sob teus mistérios fecho os olhos para não cegar porque quando estás dentro de mim és Exu. Deixa esta noite ser tua sacerdotisa Iara Amazona Icamiaba para em ti me transbordar e provar o gosto da eternidade na verdade abissal dos nossos gozos. Socorro Lira   233


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Amado O coração do meu amado é nascente de rio que me carrega para o mar de sonhos! Desenha o sol mais bonito pra aquecer os vasinhos de rosas da janela da minha alma! O brilho do seu olhar, tem magia e uma varinha de condão que salpica estrelas no meu escuro, planta borboletas coloridas no meu riso e me faz dançar dentro dos seus (a)braços com a leveza de nuvem quando sorri! Socorro Lira

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Complexo de beleza Sou dessas mulheres de sorriso enluarado vivo à flor da pele. Amanhecendo molhada de infinito. Em mim, perdem-se e acham-se sonhos. Não caibo em padrões, respiro livre sem a rigidez de estereótipos. Invisto meu tempo em ser linda e feliz! Socorro Lira  

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Sonho Sonho passear por avenidas livres de barreiras onde possa usufruir de minha liberdade Sonho, indo e vindo desfrutando do prazer da magnitude do viver sem precisar me isolar ou me esconder. Sonho, caminhar em parceria com meus irmãos sem ficar excluída, perdida na contramão. Sonho que as diferenças, que me fizeram diferente já não existem mais e sem estigmas, aceitem-me como sou sou filha do amor. 236

Socorro Lira


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Plenilúnio Acordas em mim um incêndio. A sensualidade está no suor, Olhar, corpo, tudo. Teu beijo me nutre E não pode ser Mensurado em palavras. Sensorial. Sentimental. Espiritual. É imenso! Transcende a lógica E supera os meandros Do verbo. Completo-me contigo. Meu coração encontra-se Ao me perder em ti. Sou maior. Ganho o universo. A plenitude. -Extensão de mim. Socorro Lira

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Flor Vem... Deixa eu roçar minhas pétalas, pelo teu falo macio. Esquece a hora e toco feito música Tua rigidez… Vem... Sentir a inocência passeando por tuas alturas, por teus andares cheios de noites vividas. Vem… Caminha pra mim com teus passos de rio, despeja teu mar no meu sorriso – pois minha emoção é líquida. Vem… Que eu te dou o mel desta minha flor orvalhada, fresca de verão… Que eu derramo em gotas meu cio pelos quatro cantos do teu corpo, vestindo tua pele com meus gemidos mudos. Vem… 238


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Sente meu desejo se esgueirando pelos teus dedos, veleja sem bĂşssola pelos meus seios, me toma como quem pede a lua... Que me ofereces. Socorro Lira

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Vaneri de Oliveira, sulsancaetanense, como se fala aos nascidos na sua terra. Pisciana por nascimento, psicóloga por formação e sempre professora por atuação. Há muito tempo descobriu que para alfabetizar era preciso trazer o lúdico para o processo. Alfabetizou com canto, com teatro e com dança. Em 1992, conheceu as Danças Brasileiras e, em 1998, as Danças Circulares, que, a partir de então, passaram a fazer parte do seu caminho e de quem passava por ele. Elas lhe recordaram a arte do simples, do respeito à Natureza e de toda Diversidade sobre face da Terra. Levaram-na a pensar na existência de um Mundo-Mãe-Sabedoria-Natureza, onde a cada dia procura se dedicar à sua realização. 240


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Conversa com a mãe de dentro Senhora , são tantas, mas tantas as vezes, que em mim eu te sinto, tão verdadeira. Sem medo, sem culpa, me sinto inteira Para ouvir, o que tenta, através da vida falar Quietinha, parada, te escuto de dentro, antes de perguntar! Estando eu comigo, por vezes pergunto: _ Haverá tempo para tudo que preciso Ser!? “Já é!” _Mas me sinto ainda distante do que deveria! “Está no caminho do que deve ser...” _Por vezes fugi! “Mas não consegue fugir da Essência, que nem sempre te leva ao que gostaria, mas ao necessário, para ser o que precisa...” _ Me perco... Às vezes encontro o que tira o caminho, que sinto assim ofender! “Ofender a si mesma é parar o caminho. Celebra a si mesma e estará a percorrer...” _ Não é fácil fazê-lo, são tantos os testes que me dificultam! “Os testes corrigem o caminho, não estão preocupados com a consequência. Falam por si, se ouvi-los quiser...” _ Contudo me dói! “Sofre pelo que escolhe não ter. O ter que é preciso, não é inimigo, mas amigo do ser. Ainda que o ter, seja a escolha do não.”

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SETE - feminino de luas e marés

_ O que mais quero ter, não me é entregue e não foi por escolha! “Para que possa saber procurar a si mesma. Há risco na busca...” _ Que sempre dá medo! Não veja o medo que ser teu acredita, mas sim as conquistas que realizou ...! Pergunte sempre: _Para onde eu vou?! _ Para onde eu vou? “Não importa, desde que vá contigo...” Estando eu comigo, por vezes pergunto: _ Haverá tempo para tudo que preciso Ser!? E, pacientemente, Ela reinicia, Com toda magia, a conversa a se ter...

Vaneri de Oliveira

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Porque danço Chuva caindo, água escoando, com ela eu vou pros mares de dentro, Os fins de mim mesma vou procurando. Tocando nas dores/amores que enfrento. Das coisas que orbitam, envolta ao meu centro, há aquelas que outrora foram desejos, e hoje são sombras , sem eco, mas tendo pedaços de mim, que ainda eu vejo. Poder é aquilo, que a coragem te pede, saber despedir das coisas que amei. Reusar o que nos liga e a força se inverte, pras coisas que chegam, são minhas, e ainda não sei Há um som que te avisa, no seu novo tempo, que a dança é outra com as coisas que tem. Ou briga com os passos, que não encontram compasso, ou usa seus braços, pra outra dança que vem! Prepara que sempre a orquestra cambia, a melodia que toca, pra você aprender: Que nem sempre se é o que gostaria, mas o necessário, que precisa Ser Na dança que faço em meu centro orbitam, os Eus que hoje sou, com os que não puderem ser. Redimo os contrastes que se digladiam e passam a ser forças do meu conhecer Vaneri de Oliveira  

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Lama Mela a lama a alma Bem ilumina... .Mal elimina Mel, Mãe, me molha, me olha Água mole... me leva além, Amém.... Amém Vaneri de Oliveira

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Feminino No Mito é mistério, é Eva, Gaia, Nanã... Maria Senhora, mora no meio da noite. Menina, resplandece no início do dia ! Na História é Anita, Marilyn, Cora...Sofia, Poderosa, abre caminhos fechados. Humilde, o mundo dos sonhos amplia. Na Natureza é ciclo, estrela, terra/água... mudança Semente, guarda os mistérios do vir, Ausente...saudade, retorno, esperança... No Símbolo é Vitória, Liberdade, Morte...Ação Individual é anima, alma, graça... Coletivo é massa, revolta, união! No sexo é fraco, é forte, é presente! Porção... do homem, da mulher, de quem mais vier... Noção, é do mundo, às vezes ausente. È Palavra, Sofia, do Pai, do profeta, dos deuses...magia, É Memória: da Pátria, da mãe, da avó, da infância. É Vitória, do legado perdido que renasce dia após dia. È o passado de um paraíso uterino... Que grita “vida” num presente ascendente Para a esperança de um futuro menino Vaneri de Oliveira   245


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Busca Na busca de mim Dança um eu que se finda com Um Outro, sem fim... Vaneri de Oliveira

Eternidade É terna idade É ter na idade a eterna unidade, de um ciclo sem fim Vaneri de Oliveira

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O movimento congelado Quem de nós não o possuímos em algum tempo/espaço do palco de nossas histórias? Quem de nós não procura a magia da libertação das danças interrompidas? Quem de nós não deseja o segredo que passa pela força do Velho, no fluir do Novo Então liberte... queira Se o vinho é o vinagre da uva primeira, Então os consagre da mesma maneira e o Livre se faz Vaneri de Oliveira

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Vivian Schlesinger é paulista. Atua como medidora de clubes de leitura, organiza o Jardim Alheio – Grupo de Crítica Literária. Coordena grupos de ciclos de crítica e oficinas de escrita na Casa das Rosas, no Clube Hebraica e no Sesc. Poeta e tradutora. Começou a escrever poesia aos 7 anos para poder respirar. Poemas seus foram publicados no Brasil e no Exterior. Aos 40 perdeu a audição; desde então, ouve mais. Tem sido jurada de concursos literários, tais como o Jabuti; é colunista do Jornal Rascunho e maratonista, para poder correr com os quatro netos. Tem um namorado há quase 50 anos, que a traz de volta à superfície quando naufraga. 248


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Dia de visitas Eleonora grita e relincha poemas em três idiomas rasga páginas e as devora. Talha códigos urgentes com unhas, canetas e garfos nos guardanapos, azulejos na pele do antebraço. Aos sábados enterra a cabeça no ombro do marido, pergunta dos mortos e ri e chora. Ela sabe. Ele beija sua testa e chora baixinho também. Desembrulha um sorriso e um bombom de oleandro. Vivian Schlesinger

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Café Cultivada próximo ao Equador baila na língua, exótica Atitlan, Korgua, Kilimanjaro Noites frias produzem frutos com o perfume do fogo, a essência visível do cristal de cintura fina, vapores de cacau e flores, amêndoas, jasmim. Levíssimo toque de reticência a acidez provocante aguça o sabor, dardos de orvalho. Espuma envolve o colo cor de avelãs, pinceladas de veludo marrom escuro. A textura se demora nos lábios. Cultivada em grandes altitudes o gosto é de alma perfumada. feromônios do pôr-de-sol. 250

Vivian Schlesinger


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Nas planícies

é impregnada pelo cedro, Cultivada em cativeiro dos ventos das monções rouba da noite irrequieta transparência. É maior o amargor em quartos sem janelas: o aroma atinge seu clímax e se evapora. Vivian Schlesinger

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Crema Marinheiros entregam-se ao mar ao soar das notas frutais, a crema efêmera, a melodia da sede mais insaciável. Raios de sol bordam lençóis monogramas do amanhecer, regam desejos de úmidos arbustos coníferos. Vivian Schlesinger

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A morte, para principiantes silêncio é químico raiva, física provocação, biológica final é astronômico sexo é musical privação, zoológica suicídio, gravitacional indiferença, ah, essa é imperdoável. silêncio é magma raiva, erosão provocação é tsunami final é relâmpago sexo, então, humus privação, erupção suicídio, leveza indiferença, essa é veneno. silêncio é raiva raiva, obsessão provocação é enchente final é incêndio se sexo é promessa privação é liberdade suicídio é resgate indiferença, essa é morte. Vivian Schlesinger

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Corte deixar-te mergulhar no vale perfumado entre meus seios? penetrar meu sonho tempestade de areia a me cegar? na minha boca as palavras estilhaços de espelho para me engasgar? sou dinheiro que você larga na mesa amassado sem contar arranquei teu corpo do meu e sangrei mas acordei. Vivian Schlesinger  

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SETE - feminino de luas e marés

Dança dos ossos Sua cólera intacta sob fachada caiada, aquece os ossos nos passos do professor de dança. Condena, ríspida, a anistia da noite. Sua raiva povoa o dia Acasala vassalos à força, roga pragas, impregna o ar com vapores fétidos do passado. Folhas secas da malediscência caem da garganta e dançam, insanas, apodrecem tudo que germina. Veneno da inveja e da velhice espalha pedras sobre leitos de flores, de filhos, netos, bisnetos; desfigura o passado, odeia o futuro.

Vivian Schlesinger

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SETE - feminino de luas e marĂŠs

Morsa lisa desliza no gelo lĂ­quido da lua olhos de canto de sereia voz de cristal da geleira ele escuta e torneia. mais garroteia a morsa mais ela serpenteia.

Vivian Schlesinger

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Wanda Monteiro, escritora e poeta, é

uma amazônida, nascida às margens do Rio Amazonas no coração da Amazônia, em Alenquer no Estado do Pará, Brasil. Reside há mais de 25 anos no Estado do Rio de Janeiro, mas só se sente em casa quando pisa no leito de seu rio. Advogada e mãe de três filhos, nunca se afastou de sua vocação literária. Além de escrever, exerceu a atividade de revisora e de produtora editorial durante muitos anos e sempre publicou seus textos literários em revistas literárias, blogs e sites. Nos últimos anos, a escritora tem se dedicado exclusivamente à literatura, com várias obras literárias ainda não publicadas. Participa, como colaboradora, de vários movimentos culturais de incentivo à leitura, em várias regiões do 257


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Brasil. Wanda Monteiro publicou dezenas de seus textos poéticos nas Antologias Poesia do Brasil, do ProyectoSurBrazil, participando dos volumes IX, XI, XIII e XV, lançados no Congresso Brasileiro de Poesia no Rio Grande do Sul. Obras publicadas: O Beijo da Chuva, Editora Amazônia, 2009, Poesia; Anverso, Editora Amazônia, 2011, Poesia; Duas Mulheres Entardecendo, Editora Tempo, 2011, Romance escrito em parceria com a escritora Maria Helena Latini; Aquatempo – Sementes líricas, Editora Literacidade, 2016.

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I Teia Do que padece essa gente Que arde febril de culpa Que guarda em silêncio a dúvida E caminha no desamparo de respostas ? Do que vive essa gente Que não enxerga a poesia do peixe Que não compreende a inquietude da flor E rejeita o beijo da dor ? Com que sonha essa gente Que não ouve o oco vivo da rocha Que não aceita a fecundidade do delírio E não sabe do propósito da asa ? Quem sabe dizer dessa gente Que se arma em teia movente de gente Que se entrega à desumana trama de não se saber vivente Nasce Vive Morre Despossuída No vago do poço de si. Wanda Monteiro

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II tu que habitas essa ilha de memória terra de parto vida e morte margeando lembranças na areia da saudade olha procura por debaixo das coisas miúdas os sentidos partidos ao meio pelo tempo recusa a morte corrente-leito-de-espera do rio que já não é aceita a vida manhãs do rio que será o agora não é chegada é partida Wanda Monteiro

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III a madrugada Já não me é mais doce nem morna já não tenho o afago de seu orvalho gélida a madrugada singra-me vara-me parte-me deixando-me em ruínas a madrugada Já não me é contemplação no agora a madrugada contempla meus escombros Wanda Monteiro  

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IV minha cabeça é um cais aceso no olho do sol e no olho da lua ancoradouro de vozes cantos voos cujo horizonte não é fio mas contorno tudo é margem à espera de chegadas e partidas o mundo move-se dentro dela sitiado de espantos tudo acorda e dorme num relógio sem horas pássaros caem em queda livre para nadar peixes roubam suas asas para voar e uma pedra desabrocha na flor da água... é quando o poema rompe a fina película de uma atônita realidade para voar sobre edifícios e pessoas jogando sobre eles suas plumas de sonhos. Wanda Monteiro 262


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V há tanta areia dentro de mim há sal cristalizando meus músculos um mar ondula em meu corpo seu exílio ressaca contida de marés mas um canto de liberdade no voo de gaivotas rasgando o céu de minha boca ouvindo seu canto o mar sobe crescendo crescendo até transbordar

Wanda Monteiro

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VI a calma se esvai pelas horas horas crescem no escuro pálpebras em sofreguidão fecham-se abrem-se o cansaço dos músculos a recusa do repouso demônios acordam assombram o silêncio o instinto aflorado de erguer e soerguer a fé a oração dita e redita como mantra o abrir a janela e o desejo de olhar para o céu a busca de respostas nas estrelas a lua me espreita insone ! o desejo do sonho se contorce na insônia como posso dormir se a noite sempre me encharca de dúvidas

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Wanda Monteiro


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VII Nunca viro esquinas sem antes sentir-me estancada pelo vórtice deitado de seus descaminhos. Elas sempre investem suas pontas contra meu peito, empurrando-me para o vão das ruas. Como se me forçassem ao mimetismo de um reles cordeiro em busca do cheiro de seu rebanho. Recuso o vão das ruas. Acabo cravando as mãos no cimento frio e pontiagudo de sua divisa para encontrar - talvez reminiscências ancestrais sepultadas pela turba de falsas civilidades. Nada vejo. Silenciosa, essa cegueira me faz dobrar as esquinas. Sigo passos de assombros e sofreguidão plantados em pedras. Pouso meus ouvidos sobre o cimento - para ouvir os ecos de um chão desnudado de cinza. De um chão que não sentiu sede nem fome. De um chão molhado que engolindo passos de afetos. Acabo ouvindo um uníssono canto que me leva à várzea de outrora. Lá - costuro os caminhos cruzados. Componho uma terra povoada por pessoas sem pressa, conversando com magos e bruxas, modelando - na areia do tempo seus mitos e deuses. Uma terra sem tempo ou relevo, onde espaço está 265


SETE - feminino de luas e marés

contido no tempo e todo o tempo é senão o espaço mapeado por seus ecos. Passado, presente e futuro são paralelos olhando-se no sumidouro de seus espelhos. São linhas criptografadas na contínua invenção da vida. Espectros de memória aflorada em espasmos. Os ecos desenham frames colados um a um. A música reverbera faces, corpos, paisagens. Tudo se divide e se funde no ritmo martelado de uma nostalgia que acorda ao frenético som de buzinas e do ranger de pneus. A esquina é outra. Wanda Monteiro

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Sete femininos luas e marés