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A ESCRITA DA PALAVRA

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Escrever texto, prosa… poesia livre, com ordem ora doce, ora com azia tentando afastar a melancolia adormecendo ao som da melodia que de tão leve embala a palavra que não se cala é uma primazia. Sustentando nas notas do som que do hi-fi transborda em previsíveis decifráveis tons perdendo a tentação de ir atrás de uma atenção preguiçosamente se aborda a pena. E se escreve, se escreve o que rápido prescreve no íntimo sabendo que mesmo não querendo o que no papel se transmuta no fim nos encontramos perto do prazer de estar com uma difícil luta. - 2 - A ESCRITA DA PALAVRA


Traço no ar a palavra que de entediada se faz cara e que embrulhada nos tumultos do pensamento se esquiva. E difícil se torna o concreto do desenho a que se destina perdendo-se a consequência da pouca tinta de que disponho para o efeito. Com a força da sua sensação de ser palavra sem glória e vã, peleio sem me construir na tentação de, com paranóia, me sentir feio por, se conseguir domar a poder desenhar. E assim se cumpre o meu ego que de deslumbrado se faz eco de dizeres de outros, e não só que estando já se sentindo pó me deixam menos só. A ESCRITA DA PALAVRA

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As palavras me fascinam mais do que olhares, captáveis mais do que paladares, intragáveis. Do desejo de que elas me pertençam brota incessantemente a vontade de que elas de mim nasçam e que faz ser constante o labor da minha estouvada mente. Esquizofrenia mal formada perdida na tentativa de abraçar dia a dia um qualquer sentido que por aí já deve ter existido faz com que, momento a momento se me vislumbra o meu ente, na penumbra que pede para, mesmo virando pó pelo menos no meio delas possa ficar para me sentir menos só. - 4 - A ESCRITA DA PALAVRA


Sentado, no meio do turbilhão de vozes silenciosas ouvindo, o pensamento que se eleva entre a enorme confusão de mentes ociosas olhando, o movimento que circula no seio de um ar que seca tacteando, a mesa que suporta o papel que deixará de ser inocente borboletando, as palavras que me circundam, confundindo as vontades que se afundam no poço de ideias que vão pedindo que não as deixem falecer pois, por aqui, neste mundo pouco abundam caminhando, no tempo que se me parece haver eis que de repente, alguém tem em mente questionar-me: O que estás aqui a fazer? A ESCRITA DA PALAVRA

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Risco, tento, o fio descritivo do reflexo do traçado destino querendo-o largo, sem fim caminhando no intemporal infinito e o que vejo (?), a folha tamanha de limitado espaço brincando com a vontade que não é dela com manhã e a espaço ludibriando a força do traço do desejo incontido que me faz viajar em rodopio constante para não cair no vazio da folha que, em contínuo me coloca à frente uma qualquer amante a fim de não me permitir nada entender. - 6 - A ESCRITA DA PALAVRA


Certo de querer sempre algo dizer que cale fundo no poço do mundo há dias em que aparece sempre alguém que, com desdém, diz que a rima é pobre e simples que o melhor é tentar descobrir o caminho que me há-de levar a desbravar que um outro discurso devo parir. Discurso esse que sendo possível ser meu, não é dele, nem teu mas sim de ninguém. Ninguém esse que, de pensamento em pensamento a tempo de se encontrar com a sua dúvida se passeia pela incógnita da incongruência perdendo a paciência e caindo alienado no fácil juntar de palavras por acabar. Acabar esse que, não tendo fim nos mostra por fim a força do não ter vontade de querer mudar a atracção da conjunção das mesmas que sendo a acomodação de pequenos seres feitos letras não se importam de gerar um imenso acatar de ideias mostrando tretas. A ESCRITA DA PALAVRA

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Esta sensação de me sentir fábrica com linha de produção e tudo de vários modelos prontos a sair no prelo faz-me muita confusão. E insónias e alguma depressão. O que vale é que ela depressa passa pois, não faltando a matéria prima logo a incontornável contundente rima o papel, feito vegetal, trespassa mostrando que, só não rompendo o ciclo me darei bem com esta tentação de sensação.

Palavras, balas de prata cortinas escondendo o temor do desejo mostram o seu poder a quem as bem trata. - 8 - A ESCRITA DA PALAVRA


Traço Não! Onde já se disso isso? Risco, no papel, a linha desenhada, ou, pelo menos, tentada da letra que, com mais outra e mais outra procura um texto, que não seja de treta. E, o pensamento que comanda a mão não tendo ainda formulado um contexto se vai dando conta que segue em contramão. Pois no espaço feito virgem surge, não se dando conta qual a origem a apressada mensagem que quer estar ali, só de passagem. E a confusão se instala e o conflito de interesses se abala e a mensagem o pensamento afaga e o pensamento a mensagem abafa. E eu, querendo ter como certa a palavra o traço no papel mando à fava. A ESCRITA DA PALAVRA

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Eterno registo do brincar com o pensar do baralhar das ideias do criar, no meio das ameias do desconhecido um novo conceito que me faça deixar de estar perdido.

Prazer invocado êxtase provocado memória conquistada por a palavra por mim ser amada.

Eis porque enquanto por aqui me encontrar de escrever não posso parar. - 10 - A ESCRITA DA PALAVRA


Nada está em sossego naquela mesa de café. Aquele ser, feita mulher se ajeita, se vira se baixa, se torça e sem apego, se rejeita,

Bebendo uma qualquer tissana com ar de quem espera quem a ama não dá descanso à colher.

E de repente se põe em pé.

Terá sido a perna dormente ou a ânsia de uma espera não ausente?

Caminha, dá dois passos volta, torna a sentar-se da sacola tira o papel e a pena… ai a pena…

E escreve, escreve, escreve… A ESCRITA DA PALAVRA

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Transvazo de letras umas brancas outras pretas perdidas na imensidão do espaço querendo construir um pedaço de sentimento. O ruído que as envolve devagarinho as enlouquece. Umas, amarguradas e, umas, umas às outras se atacam. Há, ainda, as translúcidas, que se escapam e ainda outras, persistentes, que se perfilam. E de letras passam a palavras e de palavras passam a inesquecível momento. - 12 - A ESCRITA DA PALAVRA


O fascínio do traço a procura, nem que seja de um seu pedaço o destino me traça.

O desenho que forma a figura, mesmo que fosca de uma entidade, possivelmente tosca o sentir me domina.

A ideia que emerge de leitura, de um principiante do texto insignificante os olhos me hipnotiza.

Ah! Palavras desejadas que de perdidas foram achadas e que desamaldamente são usadas vivo me devoram. A ESCRITA DA PALAVRA

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Esgoto a paciência, pois procuro desvairado, uns versos escritos, na penumbra de um pensamento em papel pardo, disfarçado.

Encontrando o vazio do desejado em páginas ocupadas, perco-me no infinito, de alheio discurso.

Insisto esforçando, a vontade alimentada, por outros ideais desvairados competindo, através de nevoeiros já usados. - 14 - A ESCRITA DA PALAVRA


Descubro o impossível, crescendo na existência, escondendo a sua força, enganando as palavras, o seu poder eliminando.

Atravesso a realidade, imposta sem sequência, pairando sobre a sua gene, desmembrada e sonho…

Oh! Como sonho…!

A ESCRITA DA PALAVRA

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ÍNDICE

Pág.

1

Dias difíceis

2.

Ego de 24.02.2009

3.

O que fazer?

4.

Aqui

5.

Em contínuo

6.

Tretas

7.

Contundente (…)

8.

Traço, risco

9.

A palavra

10. Aquela mulher 11. Letras 12. O traço 13. Sonho

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EDIÇÃO de AUTOR Carlos Sousa Ramos Dezembro de 2010 Edição electrónica

A ESCRITA DA PALAVRA

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A escrita da palavra