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E STA D O D E M I N A S

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MUITO

prazer EDUARDO AVELAR

D O M I N G O ,

D E

degusta

Cara de tacho Já se passaram alguns dias em que estivemos no evento Minas + Viva, promovido pelo jornal Estado de Minas, no qual debatemos sobre a sustentabilidade na gastronomia. Um dos assuntos mais interessantes abordados na ocasião foi o perigo das bactérias, dos tachos de cobre e da colher de pau. Desde o fim desse evento venho recebendo mensagens com perguntas sobre quando será o próximo round, e a todos tenho repetido que não acredito mais na forma sugerida para resolver esses embates. O entendimento e as discussões já subiram para outro patamar, no qual os argumentos são os principais temperos dessa receita de cozimento lento.

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Voltando aos “inimigos”, na ocasião, o convidado Gilson Salos, gerente de Educação Sanitária e Apoio à Agroindústria Familiar do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), nos deixou “aterrorizados” ao falar sobre as bactérias benignas de uma determinada cidade que, ao atravessar as fronteiras, podem se tornar terrivelmente mortais para os vizinhos. Assim é o entendimento tragicômico de certas leis federais que esses profissionais são obrigados a acatar, mesmo concordando que o maior problema não está nas bactérias. No caso das colheres de pau e dos tachos de cobre, o professor da UFMG e bioquímico de renome internacional Leonides

S E T E M B R O

Resende fez uma explanação, também bem-humorada, na qual afirmou categoricamente que se um indivíduo chegar a se contaminar com cobre por ingestão pode-se ter a certeza de que ele tentou o suicídio, pois é impossível que o metal dos tachos passe para os alimentos. O mesmo não se pode afirmar com relação ao estanho e ao mal que ele pode causar, mas mesmo assim os produtores de doces de Araxá estão sendo orientados a estanhar seus tachos. Quanto às colheres de pau, a tese de que as rachaduras da madeira apresentam grande risco de abrigar bactérias tem a sua importância minimizada pelo professor, já que a simples prática de higienização do utensílio em solução clorada pode evitá-lo. Enquanto isso, nada se diz a respeito aos perigos do ponto de fusão das colheres

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de plástico aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que podem se derreter e soltar resíduos tóxicos diante das altas temperaturas de cozimento dos doces. Já com relação às tábuas de plástico, o coordenador de gastronomia do Senac, Edson Puiati, ensina que após o uso elas têm de ser lixadas, pois as pequenas fissuras causadas pelo corte das facas se tornam esconderijos para bactérias. Mais uma prova inquestionável de que o ponto principal a ser abordado é a higiene e a educação. Portanto, amigo da cozinha, mais uma vez ponho esse assunto na ordem do dia, pois já estamos maduros o suficiente para tomar atitudes mais eficazes pelas nossas tradições à mesa. As escolas de nutrição e engenharia de alimentos podem dar o exemplo, abrindo

o debate para preparar melhor os nossos jovens, que podem se tornar os principais vetores para reeducar os produtores e redirecionar leis ultrapassadas. Outro exemplo deveria partir do governo de Minas, que ao anunciar a gastronomia como prioridade, poderia encaminhar o tema para discussão na Assembleia, a fim de que se estabeleçam parâmetros mais justos e modernos em favor dos processos artesanais produtivos. Até quando vamos ficar com cara de tacho, invejando as culturas da França e da Itália, como se elas tivessem brotado nas oliveiras do Mediterrâneo por obra divina, quando nasceram (e foram adubadas ao longo dos anos) do respeito às pessoas, às suas preferências e tradições?

A cachaça e a cidade

RAFAEL MOTTA/TV ALTEROSA

LAURA VALENTE Quando o assunto é cachaça, a história da Salinas, produzida na cidade de mesmo nome, localizada no Norte de Minas Gerais, confunde-se com a daquele município, também reconhecido pela produção de aguardente de qualidade. Ou seja, quem deu fama a quem? Thiago Medrado, diretor comercial e filho do fundador da marca, puxa a sardinha para a empresa, já que a Salinas ganhou o prêmio Top of Mind por nove anos consecutivos por ser a cachaça mais lembrada pelo consumidor mineiro. “Muitos associam a fama da cachaça à cidade. Hoje, Salinas é mundialmente conhecida como polo produtor, mas grande parte desta divulgação deve-se também à nossa marca, que há anos tem feito um trabalho de qualidade, levando o nome da região para todo o Brasil por meio de produtos com valor agregado. Quando começamos, em 1986, a cidade não gozava de tanta notoriedade na produção de aguardente”, justifica. Polêmicas à parte, Medrado lembra que a cachaça artesanal fundada pelo pai, Heleno Medrado, é a mais vendida no estado e a marca mais lembrada pelos mineiros. “Se somos líderes é porque fazemos jus a esse reconhecimento”, registra. O diretor comercial discorre sobre a origem da Salinas. Segundo conta, o pai comprava cachaça de fornecedores no interior e revendia o produto na capital. O sucesso do negócio

acabou gerando ciúmes, e ele sofreu um boicote. Para continuar, o comerciante decidiu fazer a própria mercadoria. Com foco na qualidade, Heleno Medrado logo foi reconhecido pelo mercado. “A Salinas venceu por quatro anos consecutivos (de 1987 a 1990) o concurso de melhor cachaça de Minas Gerais, promoção do Festival de Cachaça em Sabará, conhecido por expor e classificar as marcas do estado. Com isso, ganhamos o título de hors-concours e a marca alcançou notoriedade”, lembra. Atualmente, a cachaça Salinas é uma das principais marcas do país e distribui produtos para todo o território nacional. “A fama se dá porque não focamos somente em venda, mas na valorização do produto, na fidelização do consumidor, na manutenção da qualidade e na busca por diversidade para atender a novos paladares”, cita Medrado. No contexto, cita o lançamento da linha Séries, em 2009. O produto é envelhecido em diferentes tonéis de madeira para agradar a diferentes paladares. Para 2013, pretendemos lançar um produto focado para o público jovem. Uma fatia do mercado ainda pouco conquistada pela cachaça”, adianta. O empresário fala ainda sobre diferenciais de produção como renovação constante dos canaviais, fermentação natural, destilação em alambiques de cobre e maturação da cachaça em tonéis envelhecidos, além da estrutura da fábrica. “Produzimos um produto nobre e diferenciado. ”

FOTOS: SALINAS/DIVULGAÇÃO

Na ponta da língua dos mineiros, marca de aguardente figura como a mais lembrada pelo consumidor do estado, garantindo fama ao município de origem e vice-versa

Arroz de cachaça

Chef Vinicius Manfredi INGREDIENTES

1kg de arroz arbóreo ou agulhinha tipo 1 (de sua preferência); 1/2 litro de caldo de legumes; 1/2 litro de cachaça Salinas; 3 abobrinhas italianas raladas; 100g de manteiga; 1 cebola média picada; 4 dentes de alho amassados; 1 ramo de alecrim; 200g de queijo parmesão ralado na hora; 20ml de azeite. MODO DE FAZER Refogue a cebola e o alho com azeite até dourar. Em seguida coloque o arroz sem lavá-lo para refogar durante cinco minutos em fogo alto, mexendo com a colher. Depois, coloque a cachaça, o alecrim e deixe que evapore quase por completo. Adicione o caldo de legumes aos poucos, mexendo sempre até que ele fique cozido ao seu gosto. Coloque a abobrinha, a manteiga e o queijo ralado. Misture bem. Desligue o fogo, misture novamente e tampe a panela por dois minutos. Sirva quente.

❚ CACHAÇA É CULTURA Medrado coloca a cachaça como produto sempre presente na cultura do brasileiro, assim como o samba e o futebol, e reforça que a bebida é um dos destilados de qualidade mais baratos do Brasil e do mundo. “Temos boas cachaças que podem ser comparadas aos bons uísques, vodcas ou tequilas, com alto valor agregado”. Na gastronomia, ele também acredita na valorização do produto. “A cachaça já está inserida na culinária brasileira, em que confere um toque de álcool menos adocicado, abrindo as papilas gustativas na apreciação dos pratos.” Para que o leitor comprove o que diz, Medrado indica a receita de arroz de cachaça, criação do chef Vinicius Manfredi (ao lado). Integrante da diretoria do Sindicato das Bebidas (Sindbebidas), da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg/MG), Thiago Medrado informa sobre o lançamento de um vídeo sobre cachaças em 16 de outubro. “Nesse vídeo, mostramos qual a diferença entre as caninhas, cachaças e suas generalidades. Sem dúvida, trata-se de um material muito esclarecedor sobre algumas dúvidas que muitas pessoas têm, valorizando a cachaça mineira.” Na ocasião, o vídeo será lançado também no YouTube.


Coluna Muito Prazer