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C r a ig L. Blomberg

Q

u e st õ e s c r u c ia is

DO

Novo T ESTAMENTO


Todos os direitos reservados. Copyright © 2009 para a língua portuguesa da Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina. Título do original em inglês: Mnking Sense o f lhe New Testmnent Published by Baker Book H o l isc Company, KUA Primeira edição em inglês: 2 0 0 4 Tradução: Degmar Ribas Preparação dos originais: Klaine Arsenio Revisão: Verônica Araújo Capa: Flamir Ambrosio Adaptação de projeto gráfico e editoração: Oséas lí Maciel C D D : 225-Novo Testamento ISB N : 9 7 8 -8 5 -2 6 3 -1 0 1 7 -9 As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de I 995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação cm contrário. Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos lançamentos da CPAD, visite nosso site: http://www.cpad.com.br SAC — Serviço de Atendimento ao Cliente: 0 8 0 0 -0 2 1 -7 3 7 3 Casa Publicadora das Assembleias de Deus Caixa Postal 3 3 1 2 0 0 0 1 -9 7 0 , Rio de Janeiro, R J, Brasil 2 a Impressão: 2010


A George Kalcmkarian Com uma profunda gratidão por uma amizade que já ultrapassou três décadas


Prefácio Muitas pessoas são merecedoras dos meus agradecimentos, por pos­ sibilitar que este projeto fosse concluído. Jim Weaver, o antigo editor de livros acadêmicos para a Baker Books, foi quem propôs que eu me envolvesse, e estava disposto a me dar um contrato com uma data de alguns anos no futuro, em razão dos meus muitos outros compromis­ sos. Jim Kinney, o atual editor acadêmico, foi suficientemente generoso para continuar a me encorajar a desenvolver o projeto, mesmo quando me arranjava material adicional para escrever mais à frente. Michelle Stinson e Jeremiah Harrelson, ambos recém-formados no Programa de Estudos Bíblicos do Sem inário Masters of Arts em Denver, dedicaram inúmeras horas de ajuda na pesquisa, durante os anos acadêmicos de 200]-2002 e 2002-2003, respectivamente. Jeanette Freitag, como assis­ tente da nossa faculdade, ajudou-me com os estágios finais da edição. Também sou grato à adm inistração e aos membros do conselho do Seminário de Denver, por me apontar para uma posição na primavera de 2002, que me propiciou um pouco mais de tempo e significativos recursos extras, os quais me capacitaram a com pletar este projeto, en­ quanto mantinha uma carga de trabalho de ensino normal, durante os dois últim os anos acadêmicos. Muitos livros cristãos afirmam destinar-se a uma ampla fatia do pú­ blico leitor, apresentando suas discussões em um nível prontamente inteligível pelos adultos de nível superior, em bora reconhecendo que os estudantes de faculdades cristãs e seminários, assim como líderes da igreja e pastores, possam form ar o seu público leitor principal. Notas de rodapé ou notas finais guiam leitores interessados, e particularmente


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acadêmicos, a estudos mais detalhados. Este livro deseja fazer todas es­ sas coisas também. Essas obras frequentemente também se referem ao leigo instruído ou interessado como um tipo de "m eio-termo dourado" dos indivíduos aos quais se destina o livro. Ao mesmo tempo, os padrões de leitura entre o público norte-ame­ ricano, às vezes, fazem com que os autores se maravilhem com quantas pessoas leigas ainda se encaixam nesta descrição! Um indivíduo que claramente se encaixa nisso é George Kalemkarian. Quando jovem solteiro, George dedicou muitas horas por semana, ao longo de vários anos, como um voluntário no grupo de apoio de uma Cruzada no campus universitário para falar a respeito de Cristo, e tam­ bém no trabalho de discipulado que se seguiu, no Augustana College em Rock Island, Illinois. A minha principal educação cristã, durante meus anos de faculdade, de 1973 a 1977, veio por meio desta assem­ bleia. George não apenas me proporcionava liderança afetuosa e ins­ trução bíblica consistente, mas também devorava literatura teológica e era regularmente capaz de nos apontar o aprendizado cristão evan­ gélico essencial para responder às nossas duras perguntas. E tudo isso acontecia, não porque ele tinha frequentado uma faculdade cristã ou seminário, mas porque tinha estudado sozinho, além de ter um empre­ go secular em período integral. Posteriormente, George se casou com uma jovem que ele tinha conhecido através da Cruzada, June Stunkel, e ambos criaram duas belas filhas em Moline, Illinois, onde ainda con­ tinuam ativos na First United Presbyterian Church. Nós continuamos em contato, e George continua sendo uma das pessoas que mais me dá apoio sólido, e um de meus melhores amigos. E a ele, portanto, que dedico este livro, com profunda gratidão por três décadas de amizade e influência.


Sumário

P refácio.......................................................................................................................... 5 Introdução...................................................................................................................... 9 1. O Novo Testamento É historicamente C onfiável?..............................

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2. Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do C ristianism o?........................

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3. Como o Cristão Deve Aplicar o Novo Testamento à V id a?..............107 Resum o..................................................................................................................... 147 N otas.........................................................................................................................151


Introdução Recentemente, a Baker Books publicou vários volumes apresentan­ do "três perguntas cruciais" sobre um tópico teológico ou bíblico par­ ticularmente controverso. Estudos auxiliares examinaram perguntaschave com respeito ao Espírito Santo e aos dons espirituais, a guerra espiritual, os últimos dias ou o final dos tempos, as mulheres no m inis­ tério, e outras. Um volume que se desvia do form ato do enfoque em um tema especificamente centrado é a obra de Tremper Longman, M aking Sen se ofth e Old Testament: Tliree Crucial Questions.1Neste livro, Longman aborda três perguntas muito amplas — as "chaves para a compreensão do Antigo Testamento", a comparação do Deus do Antigo Testamento com o Deus do Novo Testamento, e a orientação para os cristãos com respeito a como aplicar o Antigo Testamento hoje em dia. Em razão da popularidade da obra de Longm an, a Baker Books me propôs escrever um volume semelhante sobre o Novo Testamento. Mas quais seriam as nossas três perguntas? Certamente, as duas maiores par­ tes do N ovo Testamento tratam da vida de Jesus (os quatro Evangelhos) e do ministério de Paulo (grande parte do Livro de Atos e todas as suas epístolas). As duas prim eiras perguntas provavelmente diriam respei­ to à obra destes dois hom ens. E embora o Novo Testamento não seja tão difícil de aplicar como o Antigo Testamento, certamente ainda há problem as cruciais de aplicação. Decidiu-se, portanto, formular três perguntas sobre Jesus, Paulo e a aplicação. Agora, precisávamos nos decidir sobre as perguntas específicas. Comprovadamente, o aspecto mais controverso da vida de Cristo, durante os últimos duzentos anos, desde a ascensão do aprendizado bí­ blico moderno, é se os retratos de Jesus de Nazaré, do Novo Testamento,


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são confiáveis ou não. Certam ente, há porções nebulosas dos Evangelhos, mas qualquer pessoa razoavelmente instruída, com uma boa tradução da Bíblia, poderá reconhecer rapidamente que Mateus, Marcos, Lucas e João, todos acreditavam que o Senhor Jesus Cristo era muito mais do que um grande professor, um rabino judeu e um contro­ verso profeta do século I. Eles acreditavam que Jesus também era o tão esperado Messias de Israel ou o seu Libertador, um Mensageiro divi­ namente enviado, o Deus encarnado. Destas convicções, veio um coro­ lário crucial: — toda a humanidade será julgada um dia, com base nas suas respostas a este Jesus. Os seus seguidores podiam ansiar por uma era futura, já inaugurada durante a sua vida, mas consumada apenas quando Ele retornasse do céu, para reinar sobre a terra. Os cristãos, que é como estes seguidores vieram a ser chamados posteriormente, vivenciariam, então, uma eternidade de felicidade incessante na companhia de Deus, e de uns com os outros, ao passo que aqueles que rejeitaram Je^us e a mensagem do Novo Testamento a respeito dEle passariam uma eternidade separados de Deus e de todas as suas bênçãos. A a va liação que uma pessoa faz das declarações do Novo Testamento sobre Jesus, desta perspectiva, é, assim, a questão mais importante que ela poderá enfrentar nesta vida, apesar das culturas do nosso mundo que a substituíram vários interesses supostamente mais urgentes. Mas esta linha de raciocínio pressupõe que, pelo menos, os contornos bá­ sicos do retrato que a Bíblia faz de Cristo são dignos de confiança. Se Jesus não fizesse as declarações sobre si mesmo que o Novo Testamento apresenta, então nós poderíamos relegá-lo a um papel inferior na his­ tória da humanidade, e continuar enfrentando eventos mais urgentes. Uma das três perguntas cruciais que este livro irá tratar, portanto, en­ volverá a confiabilidade histórica do Novo Testamento. Ou, formulan­ do a pergunta de m odo mais preciso, as porções aparentemente histó­ ricas do Novo Testamento realmente comunicam a história confiável? Isso significa que devemos examinar particularmente os Evangelhos e o livro de Atos, que supostamente nos propiciam biografias de Jesus e uma história da primeira geração do cristianismo, respectivamente. Mas há reflexões autobiográficas nas cartas de Paulo, que também terão de ser consideradas, juntam ente com o fornecimento de novas evidên­ cias indiretas sobre questões da natureza, em todas as cartas do Novo Testamento, e também no livro do Apocalipse. Uma pergunta intimamente correlata redireciona a nossa atenção de Jesus a Paulo. Mesmo que o retrato básico de Jesus que o Novo


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Testamento nos pinta seja confiável, a sua m ensagem frequentemente soa diferente da m ensagem do maior pregador e missionário do século I, o apóstolo Paulo. As igrejas, em muitas épocas e lugares, por toda a história cristã, dedicaram muito mais atenção a Paulo do que a Jesus, quando tentaram resumir a mensagem do Evangelho. Poderemos con­ ciliar o ensinamento destes dois personagens formadores? Ou Paulo distorceu tanto a m ensagem de Jesus que deveremos preferir uma à outra? Terá sido Paulo, na verdade, o segundo fundador, ou talvez até mesmo o verdadeiro fundador do cristianismo, da maneira como ele se desenvolveu ao longo dos séculos? A nossa segunda pergunta crucial deve, portanto, tratar da continuidade e descontinuidade entre Jesus e Paulo, conforme eles são retratados no Novo Testamento. É um caso de "Jesus versus Paulo", ou poderão os dois serem vistos como com ­ plementando, um ao outro, embora ainda conservando suas distintas qualidades? Obviamente, nós podemos tratar desta questão somente depois de termos um claro entendimento do que representaram os dois homens. Quando tivermos lidado com estas duas importantes per­ guntas iniciais, então teremos "com preendido" uma grande porção do Novo Testamento. Como a interpretação realiza muito pouco, a menos que conduza à aplicação, a terceira pergunta crucial será paralela à sua correspondente no livro de Longman. Com o aplicamos hoje o Novo Testamento, espe­ cialm ente em culturas m uito distantes, em tempo e espaço, daquelas do mundo mediterrâneo do século I, em que Jesus e Paulo ministraram? Mais exatamente, que princípios variados em ergem para a aplicação das diversas formas literárias do Novo Testamento? Afinal, as parábo­ las de Jesus não devem ser interpretadas como história direta, e o m ate­ rial narrativo, de modo geral, não produz frutos de seus ensinamentos da mesma maneira como as ordens mais diretas. E as biografias, as his­ tórias e cartas, todas são diferentes da literatura apocalíptica — o gêne­ ro literário que o livro do Apocalipse reflete mais intimamente. O que os leitores devem fazer hoje, com esta coleção de visões que, às vezes, se aproxima do bizarro? Existem, sem dúvida, outros conjuntos de "três perguntas cru­ ciais" que poderiam nos ajudar a compreender razoavelmente o Novo Testamento, mas o cam inho seria longo para alcançar este objetivo. Como o escopo desta série de livros é com parativamente modesto, cada capítulo irá investigar rapidam ente imensas extensões de terreno, sem o obstáculo de uma pesada documentação acadêmica. Mas eu tentei


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inserir um número razoavelmente amplo de notas a cada capítulo, que permitirão que os leitores investiguem as questões com mais detalhes, onde desejarem fazê-lo. As notas também irão demonstrar que todos os pontos de vista que apresentei nesta obra são baseados no mais deta­ lhado e meticuloso conhecimento. M esmo quando defendo pontos de vista resguardados por uma minoria de acadêmicos, acredito que es­ tes pontos de vista estão baseados em sólida argumentação. A maioria deles, especialmente quando influenciados por pressuposições muito liberais, nem sempre é correta! Os leitores devem abordar as questões com mente aberta e decidir, por si mesmos, se as minhas apresenta­ ções, em cada ponto, são persuasivas. Voltemo-nos, então, para o Novo lestamento, e vejam os se conseguimos compreendê-lo.


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O Novo Testamento É historicamente Confiável? Jesus e as origens cristãs continuam a fascinar o público norte-am e­ ricano. As estantes dedicadas à religião, em todas as principais cadeias de livrarias, exibem inúmeros títulos sobre esses assuntos. Infelizmente, eles vão de livros escritos por acadêmicos responsáveis a obras de pura ficção, impingidas a leitores desavisados com o a última "verdadeira descoberta" sobre os primórdios do cristianismo. Nós podemos discer­ nir três categorias destas obras, que não se incluem na corrente do co­ nhecim ento bíblico e sério. Em primeiro lugar, existem os livros que são os mais perturbadores, baseados em nenhuma evidência histórica genuína, de nenhum tipo. Um professor aposentado de ciência atmosférica, em uma grande uni­ versidade pública, fica fascinado com OVNIs e publica dois livros sobre um suposto documento em aramaico, encontrado no Oriente Médio, mas depois (convenientemente) perdido outra vez, preservado apenas em uma tradução em alemão, feita por um entendido "U fologista" que reescreve o Evangelho de Mateus. Neste documento, Jesus é um alie­ nígena, que visita a terra para ensinar uma doutrina similar à m oder­ na filosofia "Nova E ra "!1 Ou uma coletânea, líder de vendas, de ficção cristã, quer seja a mais antiga ou a mais recente, chamada The Archko Volume se propõe a divulgar ao público os verdadeiros relatos sobre


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Jesus e o início do cristianismo, sem admitir que nenhum historiador responsável, em parte alguma do mundo, acredita que uma fração do seu conteúdo reflita fatos históricos.2 Uma segunda categoria envolve a distorção de evidências recente­ mente descobertas. Quando os Rolos do mar Morto foram encontra­ dos, pouco depois da Segunda Guerra M undial, foram feitos todos os tipos possíveis de declarações sensacionalistas sobre como eles rees­ creveriam radicalm ente a história da origem cristã. Isso nunca acon­ teceu, mas outro turbilhão de exageros fantásticos em ergiu no início dos anos 1930, quando o últim o grupo de docum entos muito frag­ m entados, de Q um ram , o local da seita do mar Morto, foi finalmente publicado e traduzido. Um dos m ais famosos conjuntos de acusações vem de uma série de livros escritos pela autora australiana, Barbara Thiering. Ela alega que vários personagens nos docum entos que des­ crevem os m embros da com unidade de Qumram, e outros no mundo judeu do seu tem po, são codinomes para João Batista, Jesus e alguns dos seus seguidores!3 No entanto, não há razão para suspeitar que Qumram tenha inventado tais codinom es, principalm ente porque a grande maioria dos seus docum entos tem data anterior ao século I e ao nascim ento de Cristo. Não é de surpreender que Thiering não tenha conquistado um número significativo de adeptos entre os aca­ dêmicos. Distorções de novas descobertas também podem vir de círculos conservadores. Carsten Thiede, um evangélico alemão, escreveu várias obras recentes declarando que m inúsculos fragmentos de manuscritos gregos, encontrados em Qumran, e contendo apenas algumas poucas letras cada um, na verdade representam versículos do Evangelho de Marcos. Se isso for verdade, estas descobertas exigem uma data para este Evangelho anterior à que até mesmo os acadêmicos conservadores normalmente têm defendido. Thiede também acredita que uma cópia do Evangelho de Mateus, em grego, preservada por muito tempo na bi­ blioteca de M agdalen College, Oxford, data da metade do século I. Mas praticamente todos os outros acadêmicos que examinaram estas decla­ rações consideram equivocada a equação que combina os fragmentos de Qumram com o Evangelho de Marcos, e que o papiro de Oxford vem do mesmo codex (ou livro) a que pertenciam os papiros datados como sendo dos anos 200, agora conservados em Paris e Barcelona.4 Os cristãos conservadores poderiam desejar que as hipóteses de Thiede mostrassem ser prováveis, mas, com razão, eles ficam desacreditados


( ) Nitiui l i s l i i i i i r i i l n I lii - l o i ii t i i i i n i l c l t w liiít**!?

,ios olhos dos outros se tentarem respaldar teses altamente improváveis sim plesm ente para promover a sua apologética. A terceira categoria nos traz ainda mais perto dos limites do conhei imento responsável. Há acadêmicos do Novo Testamento plenamente credenciados na "extrem a esquerda'' teológica, que desenvolvem pes­ quisa genuína, mas apresentam suas opiniões como se elas refletissem m consenso de conhecimento quando, na verdade, representam a "ala radical". Certamente, o m ais famoso exem plo disso nos últimos anos foi o "Sem inário Jesus", um grupo de indivíduos, na maioria acadêm i­ cos do Novo Testamento (embora muitos não fossem especializados em pesquisa sobre o Jesus histórico), que, inicialmente somava mais de duzentas pessoas, mas acabou reduzido a menos de cinquenta, e que conquistou a atenção dos meios de com unicação para as suas con­ ferências semestrais ao longo dos anos 1980 e 1990. Examinando cada palavra e obra atribuídas a Jesus nos quatro Evangelhos, além do apó­ crifo Evangelho de Tomé5 o Sem inário Jesus concluiu que apenas 18% dos dizeres e 16% das ações de Jesus contidas nestes documentos represen­ tavam algo próximo do que Jesus realmente disse ou fez.f’ Essas conclusões, no entanto, foram praticamente determinadas pelas pressuposições e pelo método do Sem inário Jesus. Em uma lista particularm ente franca destas pressuposições, Seminário Jesus explica que milagres não podem acontecer, de modo que todos os eventos so­ brenaturais dos Evangelhos são rejeitados desde o começo, e que Jesus jam ais falou sobre si mesmo, ou sobre o futuro, ou sobre o juízo final (um tópico indigno de um professor iluminado ou esclarecido).7 Essas últimas pressuposições vão muito além da tendência antissobrenatural das primeiras, que levariam à conclusão de que Jesus não poderia ter acreditado que Ele era divino, nem ter predito o futuro de maneira in­ falível. Em vez disso, eles insistem numa verdade que não pode ser afir­ m ada sobre nenhum outro líder religioso na história, ou seja, que Jesus não fez nenhuma declaração sobre a sua identidade nem especulou de maneira alguma sobre eventos futuros. E, embora possa ser verdade que certos liberais modernos não podem digerir a noção de um dia de ju í­ zo, quando toda a hum anidade será levada a prestar contas diante de Deus, esta crença era praticam ente universal no mundo de Jesus, de modo que seria assombroso que Ele não refletisse sobre este tema. O Seminário Jesus agora concluiu a sua obra e foi dispersado, mas, no início do novo milênio, um Seminário Atos semelhante se formou, e publicou seus resultados iniciais, os quais sugerem que as m esm as


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abordagens imperfeitas são adotadas por eles.8 Felizmente, eles recebe­ ram muito m enos atenção dos meios de comunicação; pode-se esperar que eles desapareçam completamente. Enquanto isso, um dos segredos mais bem guardados do público do século XXI é o fato de que a assim chamada Third Quest (Terceira Busca) pelo Jesus histórico, durante os últimos 25 anos, tenha, de modo geral, sido cada vez mais otimista sobre o quanto nós podemos conhecer acer­ ca do fundador do cristianismo. A investigação de Ben Witherington das abordagens na metade dos anos 1990 oferece uma excelente visão ge­ ral: Concentrando-se em diferentes partes dos retratos dos Evangelhos, e comparando-os com a quantidade sem precedentes de informações agora disponíveis sobre os mundos judaico, grego e romano do século I, acadêmicos engajados no estudo do Novo Testamento demonstraram as várias maneiras pelas quais Jesus foi um profeta de uma era nova e futura, cheio do Espírito, um reformista social, um sábio e um Messias marginalizado.1' Ligeiramente menos intenso está um renovado escrutí­ nio acadêmico sobre o apóstolo Paulo, que Witherington também pes­ quisou, incluindo uma reabilitação do valor histórico do livro de Atos, especialmente as seções que tratam do ministério de Paulo.10 Mas fora dos círculos distintamente evangélicos, até mesmo na cor­ rente atual e centrista dos acadêmicos do Novo Testamento, ainda não se acredita que qualquer parte substancial dos Evangelhos ou do livro de Atos seja historicamente exata. Critérios padrão são empregados para separar as partes mais históricas das menos históricas." Mas aqui, estudos recentes sugeriram que estes critérios provaram ser inadequa­ dos para o que declaravam realizar. Os dois critérios mais comuns no aprendizado dos Evangelhos se tom aram conhecidos como "desigual­ dade" e "confirm ação m últipla". O critério da desigualdade aceita como autêntico aquilo que separa um evento ou expressão dos Evangelhos, tanto do mundo judaico convencional da época de Cristo como do sub­ sequente cristianismo, uma vez que é improvável que qualquer judeu ou cristão pudesse tê-lo inventado. O critério de confirmação múltipla aceita como sendo mais provavelmente histórico aquilo que é apresen­ tado em mais de um Evangelho ou em mais de uma forma literária ou fonte que os Evangelhos empregaram. Ambos os critérios podem destacar elementos que estão seguramente ancorados no ministério do Jesus histórico, mas não podem logicamente eliminar itens que não são aprovados nos dois testes. Jesus se sobrepôs a seus antecessores judeus, ao passo que os primeiros cristãos o imitaram com exatidão em vários


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aspectos. Testemunhos isolados também podem comunicar verdades históricas. Assim, precisam os de critérios mais sofisticados se preten­ demos desafiar detalhes nos Evangelhos com a justificativa de que não refletem a história exata.12 Na verdade, vários acadêmicos desenvolve­ ram recentemente um critério de quatro partes que torna mais prová­ vel que vastas partes dos Evangelhos sejam historicamente exatas. N. T. Wright, bispo de Durham, Inglaterra, e comprovadamente liderando o conhecimento do evangelicalism o sobre o Novo Testamento hoje, o chama de critério duplo de desigualdade e igualdade. Os acadêmicos alemães Gerd Theissen, Annette Merz e Dagm ar Winter falam do cri­ tério com plausibilidade histórica. Dizem que, em cada caso, inúm e­ ras características nos Evangelhos simultaneamente demonstram (1) suficiente continuidade com contextos judaicos, para serem dignos de crédito em um ambiente israelita a partir do primeiro terço do século 1; (2) suficiente descontinuidade com o judaísm o convencional para su­ gerir que ele não fora inventado por um judeu comum; (3) suficiente continuidade com o princípio do cristianismo, para mostrar que Jesus não era mal interpretado pelos seus seguidores; e (4) suficiente descon­ tinuidade com o primeiro movimento de Jesus para sugerir que um dos primeiros cristãos não o inventou. Quando todas as quatro condições são satisfeitas, podemos ter certeza de que os Evangelhos nos apresen­ tam inform ações exatas. Wright é mais otimista do que os três alemães, sobre a quantidade de m aterial que satisfaz estas condições, e os seus textos aceitam muitos dos temas centrais dos Evangelhos, certamente muito mais detalhes do que o conhecimento alemão moderno e alta­ m ente cético normalmente reconhece.13 O escopo modesto deste livro me impede de comentar, ainda que ra­ pidamente, cada um dos temas centrais ou porções dos dados do Novo Testamento. Mas posso apontar inúmeras características mais genéri­ cas que suportam uma substancial medida de confiança na fiabilidade histórica dos cinco livros do Novo Testamento que tradicionalmente se supõe que apresentam um fiel registro da vida de Jesus e da primeira geração da história cristã — os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João e o livro de Atos. Ao fazer isso, nós nos colocamos no lugar dos nossos historiadores, e tentamos, por um m omento, delinear a fé cristã. N ós não queremos ser culpados de fazer aquilo pelo que criticamos tão asperamente o Seminário Jesus, que é pressupor as nossas conclusões.14 Mas m esm o se nos limitarmos às abordagens feitas pelos historiadores clássicos que estudam outros povos, eventos e instituições dos mundos


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judaico, grego e romano de antigamente, um caso cumulativo emerge, o que sugere que os Evangelhos e o livro de Atos são muito confiáveis historicam ente.

A Crítica Textual O ponto de partida comum para investigar a confiabilidade de um documento antigo não tem a ver com a credibilidade do seu conteú­ do, por si mesmo, mas pergunta se nós podemos ser confiantes de ter alguma coisa próxima ao que o autor daquele documento escreveu originalmente. Na maioria dos casos, as mais antigas cópias que nós temos de um determinado livro datam de séculos depois de quando ele foi escrito. Nem existem muitas cópias de determinado livro das eras anteriores à invenção da gráfica. Por exemplo, há apenas nove ou dez bons manuscritos da Guerra de Gália de César, e os mais antigos datam de novecentos anos depois das datas dos eventos descritos. Somente trinta e cinco dos 142 livros de história romana de Livy ainda existem, e estes em cerca de vinte manuscritos, dos quais somente um data do século IV. Dos catorze livros de Tácito sobre a história romana, somente sobrevivem quatro e meio, e estes em apenas dois manuscritos que da­ tam dos séculos IX e X I.15 Por outro lado, a evidência textual do Novo Testamento desde os primeiros séculos depois que ele foi escrito é assom brosa. Acadêm icos de praticam ente todas as classes teológicas concordam que os escribas cristãos copiaram o Novo Testamento com extraordinário cuidado, com parável som ente pela exatidão da cópia, pelos escribas judeus, das Escrituras dos hebreus (o Antigo Testamento cristão). Som ente no original em grego, mais de cinco mil m anuscritos ou fragm entos de m anuscritos de porções do Novo Testamento foram preservados dos séculos em que a Bíblia era copiada à mão. O mais antigo destes m a­ nuscritos é uma tira de papiro designada (p52) que contém partes de João 18.31-33 e 37-38 e data da prim eira terça parte do século II d.C., menos de quarenta anos depois que o Evangelho de João foi escrito nos anos 90. Mais de trinta papiros datam do período entre o fim do século II até o início do século III. Alguns destes papiros contêm gran­ des trechos de livros inteiros do Novo Testamento. Um deles abrange grande parte dos Evangelhos e do livro de Atos (p4S); outro, grande parte das epístolas de Paulo (p46). Quatro Novos Testamentos muito confiáveis e quase com pletos datam do século IV (A e B) e do século V (A e C ).


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Todos os tipos de pequenas variações distinguem estes manuscritos entre si, mas a grande m aioria destas variações envolve meras m odifi­ cações de grafia, gramática e estilo, ou omissões acidentais ou duplica­ ções de letras, palavras ou expressões. Apenas quatrocentas (menos de uma por página, em uma tradução norm al na língua inglesa) têm algu­ ma influência no significado da passagem, e as mais importantes varia­ ções são normalmente indicadas nas notas de rodapé das traduções nos idiomas modernos da Bíblia. As únicas variações textuais que afetam mais do que uma ou duas sentenças (e muitas afetam apenas palavras ou expressões individuais) são João 7.53 - 8.11 e Marcos 16.9-20. Alguns entendem que nenhuma destas passagens reflita, provavelmente, o que João ou Marcos escreveram originalmente, em bora a história no texto de João — sobre a m ulher flagrada em adultério — ainda tenha uma chance muito boa de ser historicamente precisa. Mas de modo geral, 97 a 99% do Novo Testamento original em grego podem ser reconstruídos sem qualquer dúvida. Além disso, nenhuma doutrina cristã baseia-se de m odo único, ou até mesm o basicamente, em qualquer passagem tex­ tualmente discutida.16 Até mesm o os membros mais liberais do Seminário Jesus concor­ dam com os acadêmicos evangélicos muito conservadores de que não há evidência histórica de nenhum tipo que sustente as declarações de alguns mórmons ou muçulm anos modernos de que o texto do Novo Testamento tornou-se tão corrompido com o passar dos séculos que não tem os como ter certeza do que continha o original. Essas declara­ ções, na verdade, contradizem os ensinamentos oficiais de ambas as religiões. As declarações de Joseph Smith, armazenadas nas Escrituras adicionais dos Santos dos Últimos Dias e o livro sagrado do Islã, o Alcorão, referem-se à Bíblia como a Palavra de Deus e sustentam for­ temente a exatidão do seu conteúdo, embora não chegando a afirmar uma infalibilidade total. M as os ensinamentos não oficiais de muitos líderes nos dois m ovimentos frequentemente questionam, injustificadamente, esta exatidão.17

Autoria e Data Um a vez que estabelecemos que possuímos uma reconstrução con­ fiável do que um documento antigo continha, com base na comparação dos manuscritos que existem de uma data m ais antiga, estamos prontos para com eçar a avaliar a confiabilidade do seu conteúdo. A próxima pergunta padrão para os historiadores da antiguidade é se podemos


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determinar o autor do documento e a data em que ele foi escrito. Se acontecer de o autor ser alguém que estava em posição para conhecer os fatos sobre o povo ou os eventos descritos, se pudermos determinar que o seu caráter era, de modo geral, confiável, a nossa convicção da confiabilidade do documento aumenta. Se a data em que a obra foi es­ crita estiver dentro do período de duração da vida de testemunhas ocu­ lares dos eventos narrados, a nossa confiança aumenta, similarmente. Se estas condições não se cumprirem, nós nos tornamos mais céticos a respeito do conteúdo da história que é narrada. Como os Evangelhos e o livro de Atos se mostram, quando testados de acordo com esses critérios? Admiravelmente bem, pelo menos pelos padrões antigos. A rigor, os autores destes cinco livros são anônimos, uma vez que os nomes Mateus, Marcos, Lucas e João não aparecem em nenhum versículo como os autores destes documentos. Os nomes aparecem, no entanto, em todos os manuscritos existentes, como títulos dos quatro Evangelhos. Mas é improvável que quatro dos primeiros cristãos tivessem decidido independentemente chamar seus textos de "O Evangelho segundo X" (onde "X " representa o nome do autor). E mais provável que a Igreja Primitiva acrescentasse esses títulos parale­ los para distinguir um Evangelho do outro, quando eles foram combi­ nados para formar uma coletânea de quatro partes.1" Por outro lado, entre os muitos autores cristãos do período en­ tre o século II e o IV, que comentaram acerca das origens do Novo Testamento, nenhum nome, senão Mateus, Marcos, Lucas e João, ja­ mais foi oferecido como um possível autor dos Evangelhos e do livro de Atos. O mais antigo destes autores, Papias, foi um discípulo do apósto­ lo João e escreveu no início do século II, apenas uma geração depois da morte deste último apóstolo. Uma consideração de tudo o que Papias declarou sobre os Evangelhos está além do nosso alvo aqui, e há algu­ mas das suas declarações que não parecem completamente confiáveis.'1' Mas a Igreja Primitiva teria uniformemente atribuído os três primeiros Evangelhos e o livro de Atos a Mateus, Marcos e Lucas, sem crer que eles tivessem sido os seus verdadeiros autores? Afinal, os Evangelhos e os livros apócrifos de Atos do final do século II até o século V foram todos (falsamente) atribuídos a cristãos primitivos influentes e de ele­ vada reputação, para tentar fazê-los parecer tão confiáveis e autênticos quanto possível. Assim, nós temos Evangelhos supostamente escritos por Pedro e Tiago, Tomé e Filipe, Bartolomeu e Matias (o substituto de Judas, que traiu a Jesus) e até mesmo Nicodemos e Maria. De maneira


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similar, os livros apócrifos de Atos aparecem em nome de André, João, Pedro, Paulo e Tomé.20 Em comparação, Marcos e Lucas são personagens muito mais obs­ curos nas páginas do Novo Testamento. O nom e de Marcos não apa­ rece em nenhuma parte dos Evangelhos; no livro de Atos, ele é mais conhecido como o com panheiro de viagem de Paulo e Barnabé, que os abandonou na sua prim eira viagem m issionária (At 13.13). Lucas aparece apenas nas saudações de encerramento em três das epístolas de Paulo, que também nos informam que ele era um médico (Cl 4.14; cf. também 2 Tm 4.11, Fm 24). Nem Marcos nem Lucas fazem parte do grupo dos doze "apóstolos"; ambos provam ser candidatos imprová­ veis para uma atribuição de autoria, a m enos que realmente tenham escrito os documentos a eles atribuídos (no caso de Lucas, o Evangelho que traz o seu nome e o livro de Atos dos apóstolos). Mateus era um dos Doze, mas, tendo sido um coletor de impostos que trabalhava (indire­ tamente) para os odiados romanos, ele teria sido o mais notório, de um ponto de vista judeu ortodoxo. Como Simão, o Zelote (na extremidade oposta do espectro político, violentamente oposto a Roma), Mateus não teria sido um dos primeiros nove ou dez discípulos a ser escolhido, se alguém estivesse tentando emprestar autoridade ou credibilidade a um documento fictício escrito por outra pessoa. João, por outro lado, pertencia ao círculo mais íntimo dos três discí­ pulos (com seu irmão, Tiago e Pedro) que compartilhavam de experiên­ cias na vida de Jesus das quais os demais não participavam. Um livro apócrifo de Atos é atribuído a ele, como já observamos, e o testemunho de Papias não deixa claro se ele pensava que foi João, o apóstolo, que escreveu o Evangelho que trazia o seu nome, ou um João diferente, cha­ mado o Velho, que pertencia à segunda geração de seguidores do após­ tolo. Mas a questão para a qual não apareceu nenhuma boa resposta é a seguinte: Se o autor do Evangelho de "João" não era o filho de Zebedeu, e o apóstolo do mesmo nome, por que este autor (diferentemente dos Sinóticos — Mateus, Marcos e Lucas) sempre se refere a João Batista me­ ramente como "João" e espera que os seus ouvintes saibam de qual João estava falando? E a aparente referência a si mesmo feita pelo autor deste Evangelho, cinco vezes referindo-se ao "discípulo a quem Jesus amava", é perfeitamente compatível com alguém que pertencia ao círculo íntimo de Jesus (veja Jo 13.23-25; 19.26,27; 34,35; 20.2-5, 8; 21.1-7; 20-22).21 Acadêm icos liberais do Novo Testamento tendem, hoje em dia, a colocar Marcos alguns poucos anos de um lado ou de outro de 70 d.C.,


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Mateus e Lucas-Atos em algum ponto dos anos 80, e João nos anos 90. Quanto às datas, todos estes documentos são citados ou mencionados em textos cristãos do começo do século II, de modo que dificilmente poderiam ser datados mais tarde do que o século I. Declarações explí­ citas, combinadas com deduções razoáveis dos vários "Pais da Igreja" levaram, no entanto, muitos acadêmicos conservadores a situar todos os três Evangelhos Sinóticos, e também o livro de Atos, nos anos 60, com João ainda nos anos 90.22 A evidência interna destes cinco livros combina bem com as datas mais antigas. Jam ais foi dada uma explicação completamente convin­ cente para o abrupto final do livro de Atos, a menos que Lucas estivesse escrevendo pouco tempo depois dos eventos que concluem o livro. Por qual outro motivo ele teria passado mais de uma quarta parte da sua obra narrando o aprisionamento, os juízos e a apelação de Paulo (ca­ pítulos 21 - 28), deixando-nos, então, em suspense sobre o período de prisão domiciliar de Paulo em Roma, esperando os resultados da sua apelação, a menos que Lucas estivesse escrevendo antes de saber quais foram estes resultados? Mas, se esta lógica for convincente, então ele deve ter escrito o livro de Atos aproximadamente em 62 d.C., uma vez que sabemos, com base em outras fontes, que Festo subiu ao poder na Judeia em 59. E sabemos, com base no livro de Atos, que Paulo apelou ao imperador pouco tempo depois da ascensão de Festo, e que ele pas­ sou o inverno seguinte na ilha de Malta, depois do naufrágio, e os dois anos seguintes em Roma.23 Podemos, então, deduzir que o Evangelho de Lucas foi escrito antes do livro de Atos dos Apóstolos, uma vez que este último é a sequência do primeiro. Como muitos acadêmicos modernos acreditam que Lucas confiou parcialmente no Evangelho de Marcos, este deve ter uma data anterior. Talvez estes três trabalhos tenham sido escritos, então, nos anos 60. De acordo com Irineu, que escreveu próximo ao final do sécu­ lo II, Mateus compilou o seu relato "enquanto Pedro e Paulo estavam pregando o Evangelho e fundando a Igreja em Rom a" (Against Hercsies 3.1.1). Isto também exige uma data não posterior a meados dos anos 60, pois depois disso os dois líderes cristãos perderam suas vidas na perseguição de Nero à Igreja (64-68 d.C.). O que deve ser ressaltado, no entanto, é que com qualquer conjunto de datas, seja o mais liberal ou o mais conservador, os Evangelhos e o livro de Atos foram escritos no século I. Os que não foram escritos por testemunhas oculares da vida de Cristo, como Mateus e João, foram es­


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critos por pessoas em posição de entrevistar aquelas testemunhas ocula­ res — Marcos e Lucas. Isso também é verdadeiro mesmo se adotarmos a abordagem mais cética, de que estes documentos eram originalmente anônimos, seguindo a suposição liberal padrão de que os autores eram cristãos da segunda geração, e seguidores dos apóstolos. Além disso, devemos nos lembrar de que o cristianismo do século I enfrentou inú­ meros oponentes que teriam ficado satisfeitos em refutar as declarações desta religião recém-nascida. O que seria melhor, do que declarar que os Evangelhos e o livro de Atos simplesmente não narravam com exatidão à história? Enquanto houvesse, ainda vivas, testemunhas oculares hostis à vida de Cristo e à formação da Igreja, esta refutação sempre seria pos­ sível. Mas não há registro, em nenhum lugar, de que alguém tivesse feito tal declaração. Na verdade, a mais antiga e mais duradoura acusação que os judeus não cristãos fizeram contra as reivindicações do cristianismo, já tendo começado durante a vida de Cristo, admitia tacitamente a confia­ bilidade dos seus registros históricos. Hoje, um período de trinta a sessenta anos entre uma série de eventos e os registros históricos que os narram , parece um tempo m uito longo. Se Jesus foi crucificado por volta de 30 d.C., e o prim ei­ ro Evangelho foi escrito nos anos 60, e o últim o nos anos 90, certa­ mente uma considerável distorção poderia ter se desenvolvido dentro deste período de tempo. Parte da nossa resposta a esta alegação virá m ais adiante neste capítulo. Aqui, são im portantes dois com entários. Em prim eiro lugar, há razões para crer que M ateus, M arcos, Lucas e João tenham usado fontes escritas anteriores, mais curtas que um Evangelho inteiro, para pesquisar e escrever porções de seus livros. Estas fontes anteriores podem ser datadas por volta dos anos 50. As palavras idênticas em inúm eras frases de Jesus, traduzidas de seu aram aico original ao grego, encontradas tanto no Evangelho de M ateus como no de Lucas, mas não no de M arcos, sugerem a dependência destes autores de uma fonte com um que não fosse o texto de M arcos.24 M enos seguro, mas ainda bastante possível, é o uso que João faz de uma "fon te de m ilagres", frequentem ente datada nos anos 60, para as suas histórias particulares de milagres, neste caso devido a um estilo singular, perceptível em partes destas narrativas. É interessante que até m esm o o Seminário Jesus aceita estas duas hipóteses como prová­ veis desta maneira reduzindo à metade o período de tempo em que, segundo acreditam, m uitas das palavras e obras de Jesus circularam antes de serem com piladas em algum tipo de documento escrito (de


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30-50 d.C. versus 30-70 ou 80 para os Sinóticos, e de 30-60 versus 30-90 para João).25 Em segundo lugar, mesmo 60 anos entre um conjunto de eventos e uma história escrita sobre eles é um período de tempo admiravelmente curto para os padrões antigos. As sagas lendárias dos antigos heróis gregos e romanos circularam de boca em boca durante séculos, às vezes durante mais de um milênio, antes de serem escritas. Mesmo as biogra­ fias relativamente moderadas de Alexandre, o Grande, por exemplo, que ainda existem datam do final do século I e início do século II d.C. Mas Alexandre morreu em 323 a.C., de modo que há um intervalo de aproximadamente quinhentos anos antes que seus biógrafos, Plutarco e Arriano, escrevessem seus livros sobre a sua vida. Os dois autores, no entanto, dedicam um copioso reconhecimento a fontes escritas an­ teriores, e os historiadores clássicos acreditam que a partir destas obras possam obter, de maneira detalhada, informações históricas exatas so­ bre Alexandre, enquanto, ao mesmo tempo, reconhecem que elas não são, de maneira alguma, isentas de falhas.26 A citação frequentemen­ te comentada, do historiador romano A. N. Sher-win-White, de uma geração anterior a nossa, ainda resume a ironia que cerca o ceticismo contemporâneo: "A ssim , é assombroso que, enquanto os historiado­ res greco-romanos crescem em confiança, o estudo das narrativas do Evangelho no século XX, tendo começado de um material não menos promissor, tenha sofrido uma reviravolta tão som bria..."27

Os Gêneros dos Evangelhos e do Livro de Atos Tudo o que dissemos, até agora, pressupõe que os quatro evangelis­ tas pensaram estar escrevendo história e biografia relativamente diretas. Isto é, certamente o que os Evangelhos e o livro de Atos parecem estar apresentando, e é a maneira dominante como os leitores interpretaram estas obras ao longo da História da Igreja. Mas será correta essa pressu­ posição? Na literatura do mundo mediterrâneo antigo, quais são os pa­ ralelos mais próximos a estes documentos, e o que podemos aprender das tentativas de rotular a sua forma ou o seu gênero literário? Vários esforços foram feitos pela crítica bíblica moderna, para declarar estas obras como predominantemente fictícias, com base em supostos paralelismos com mito, lenda, romance e gêneros semelhantes. Durante grande parte do século XX, uma grande parcela dos críticos declarou que o seu gênero era sui generis (isto é, único, singular, ou, literalmente, o seu "próprio gênero").28 Mas um grande número de estudos especiali­


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zados recentes reconhece que os mais próximos paralelos são encontra­ dos entre as histórias e biografias relativamente confiáveis, de autores como o historiador judeu Josefo, e os historiadores gregos Heródoto e Tucíd ides.29 Particularmente instrutivos são os prefácios aos livros de Lucas e Atos (Lc 1.1-4; At 1.1,2), que não somente são paralelos aos prefácios das obras destes historiadores não cristãos, mas também des­ crevem a confiança de Lucas em fontes anteriores, entrevistas com tes­ temunhas oculares e tradição oral confiável. Embora o esforço para pro­ var que Lucas era médico, com base no uso de um vocabulário supos­ tamente médico, tenha sido abandonado há quase um século, Loveday Alexander demonstrou que os mais próximos paralelos à linguagem de Lucas aparecem em "prosa técnica" greco-romana, o que ela define, em um escopo amplo, como literatura "científica", incluindo tratados sobre tópicos com o medicina, filosofia, matemática, engenharia e retórica.30 Estes paralelos novamente distanciam os autores bíblicos da literatura mais abertamente fictícia dos seus dias e inspiram confiança de que a preocupação com a exatidão era uma das principais características da composição dos Evangelhos e do livro de Atos. O Evangelho de João obviamente é mais diferente dos Sinóticos do que semelhante a eles, nos detalhes que apresenta sobre a vida de Jesus, incluindo o estilo linguístico das palavras de Jesus. Não é de surpre­ ender que os acadêmicos tenham questionado se o Quarto Evangelho poderia ser identificado com o mesmo gênero, e prova ser tão exato como os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. A declaração de in­ tenções do Quarto Evangelho aparece em João 20.31: "Estes [sinais], porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nom e". Esta declaração poderia sugerir que a vontade de João em promover a fé cristã teria so­ brepujado o seu interesse pela exatidão histórica. Mas alguém poderia perguntar se a literatura abundantemente fictícia teria promovido tal fé, quando outros, no mundo de João, poderiam ter menosprezado a sua narrativa. Em outras passagens, fica claro que um dos principais interesses de João é a "verdade" (veja, especialmente, 19.35; 21.24). É di­ fícil im aginar que ele tivesse pensado que uma narrativa grandemente falsificada iria ajudar as pessoas a crer na verdade, em qualquer nível, histórico ou teológico.31 A razão por que João inclui episódios tão dife­ rentes dos Evangelhos Sinóticos é provavelmente porque reconhecia que os seus ouvintes (as igrejas de Efeso e redondezas) já conheciam uma boa porção daquele m aterial, pelo seu ministério de ensinamento


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anterior entre eles.32 O estilo característico de João é claramente o seu próprio. Mas a razão que ele apresenta para se sentir livre para escrever sobre os ensinamentos de Jesus nas suas próprias palavras, mais do que Mateus, Marcos e Lucas — especificamente, a inspiração do Espírito Santo (Jo 14.26) — é uma razão fundamental para crer que João, apesar disso, preservou com exatidão a essência dos ensinamentos de Jesus. Em um espectro de obras antigas, que vão de crônicas altamente ob­ jetivas da história a obras de total ficção, João talvez caia ligeiramente mais além do primeiro tipo do que os Sinóticos, mas os três primeiros Evangelhos ainda continuam sendo os paralelos literários mais próxi­ mos a João na antiguidade.” O que frequentemente confunde os leitores modernos é o fato de que as convenções contemporâneas para escrever história e biografia normalmente requerem padrões de precisão que as pessoas ainda não tinham sequer inventado, e muito menos começado a seguir no mundo antigo. Em culturas que ainda teriam que criar algum símbolo que cor­ respondesse as nossas aspas, ou sentir a necessidade de fazer isso, era perfeitamente apropriado expressar com as próprias palavras as de ou­ tra pessoa, com a condição de ser fiel à "essência' ou intenção do ora­ dor original. Era considerado não somente apropriado, mas também necessário abreviar ou resumir as narrativas longas, inserir os próprios comentários no texto (como observações entre parêntesis, em um mun­ do que não tinha símbolos para parêntesis) e ser altamente seletivos quanto ao que era narrado sobre uma determinada pessoa ou evento.34 Hoje, nós julgaríam os uma biografia deficiente se ela não narrasse algo sobre o nascimento e a educação de um indivíduo, ou se passasse pra­ ticamente metade do seu tempo descrevendo os eventos imediatamen­ te anteriores à morte deste indivíduo. O mesmo seria verdadeiro se o texto rearranjasse os eventos fundamentais da vida de uma pessoa por assuntos, em vez de seguir uma cronologia estrita. Mas quando Marcos e João fazem exatamente estas coisas, estão seguindo bons preceden­ tes mediterrâneos antigos. A obra Lives o f the Philosopliers, compilada por Diógenes Laércio no início do século III frequentemente é muito parecida com os Evangelhos canônicos neste aspecto. Quando alguém recorda que os cristãos acreditavam que o aspecto mais significativo da vida de Jesus foi a sua morte (pelos pecados do mundo), a sua escolha de ênfases faz sentido. Com respeito ao livro de Atos, muitos estudos acadêmicos se dedi­ caram aos seus sermões. Por um lado, os críticos se queixam, às vezes,


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ilc que a mensagem central de cada sermão é a mesma, independenl f mente de quem o profira. Lucas — alegam eles — deve ter criado '"ii protótipo "tam anho ú nico" e o atribuído indiscriminadamente a i-.nl.i pregador cristão. Por outro lado, os críticos também observam a cxli.iordinária variação de detalhes específicos de um sermão a outro, <■ novamente atribuem esta variedade à criação de Lucas. Certamente o mesmo orador, por exem plo, Paulo, não teria variado tanto as suas mensagens de uma ocasião para outra. Na verdade, estas duas críticas se cancelam mutuamente! O que a combinação de unidade e diversidade na pregação do livro de Atos de­ monstra é quão perfeitam ente cada mensagem é expressa sob medida para o seu público particular. Paulo e Pedro podem se parecer quando lalam para o mesmo tipo de público, como no templo judaico ou nas sinagogas (conforme, por exemplo, At 3.12-26 com 13.16-48). Mas as palavras de Paulo soam muito diferentes quando ele fala aos pagãos em Listra, para quem o Antigo Testamento e o cumprimento das es­ peranças dos judeus não significavam nada (14.15-18). Mas os pontos comuns essenciais — a importância da ressurreição de Jesus e a necessi­ dade do arrependimento dos pecados para receber perdão, e o Espírito Santo residente em cada cristão — mostram que há uma unidade na antiga mensagem cristã que transcende qualquer contexto específico.35

O Sucesso do Empreendimento dos Evangelistas Poderíam os concordar que Mateus, Marcos, Lucas e João pensavam que estavam escrevendo um bom material de história e biografia, pelos padrões do seu tempo. M as eles foram bem-sucedidos? Aqueles que respondem negativamente a esta pergunta frequentemente baseiam a sua opinião em uma ou em todas as três alegações a seguir. In teresse H

is t ó r ic o ?

Para começar, com frequência se discute que a primeira geração de cristãos não teria estado terrivelmente interessada em preservar um registro histórico preciso de suas origens. Três linhas de raciocínio, à prim eira vista, parecem sustentar essa afirmação. Em primeiro lugar, há a alegação de que os profetas cristãos antigos falavam, em nome do Senhor ressuscitado, aquilo que acreditavam que Deus estava dizendo às igrejas, por seu intermédio, e que estas palavras teriam se mesclado com os ensinamentos do Jesus histórico. Afinal, era a mesma pessoa


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que falava em ambas as ocasiões, e os oráculos greco-romanos pare­ cem ter adotado prática similar. Em segundo lugar, a primeira gera­ ção do cristianismo certamente alimentava uma esperança viva do fim do mundo, propiciado pelo retorno de Cristo, dentro do período da sua vida. Sendo assim, quem estaria vivo para ler uma história sobre o seu movimento? Finalmente, a tendência ideológica dos autores — um comprometimento apaixonado com a teologia cristã — inevitavelmen­ te teria distorcido os seus relatos. Nós devemos considerar estas possi­ bilidades, cada uma por sua vez. Com relação à profecia cristã, independentemente de possíveis ana­ logias com outras religiões da época, o único dado atual que temos em o Novo Testamento contradiz a declaração de que as palavras de Jesus durante a sua vida estivessem mescladas com o que os cristãos poste­ riores acreditavam que Ele estava dizendo às igrejas. As três referências reais em que conhecemos o conteúdo da profecia cristã do século I dis­ tinguem claram ente as suas palavras das do Jesus histórico. Duas vezes no livro de Atos, Ágabo aparece em cena para profetizar — a primeira vez, a respeito de uma fome que viria à Judeia, e a segunda vez, sobre o iminente aprisionamento de Paulo em Jerusalém (At 11.28; 21.11). Uma vez no livro do Apocalipse, lemos que as palavras específicas de João às igrejas locais lhe tinham sido dadas como profecia (Ap 2 - 3 como resultado de 1.3). Em nenhuma passagem dos Evangelhos estas coisas aparecem como se Jesus as tivesse dito durante a sua vida. A hipótese, pelo contrário, é infundada.36 Com respeito à crença de que o mundo poderia acabar a qualquer momento, é importante observar que esta não era uma convicção exclu­ siva dos cristãos. Os judeus, a partir do século VIII a.C., tiveram uma sucessão de profetas que declaravam que o Dia do Senhor era chegado (por exemplo, J1 2.1; Ob 14; Hc 2.3). Mas os séculos passaram, o mundo continuou a existir na sua forma atual, e os judeus escreveram a pre­ gação destes mesmos profetas em livros que fariam parte do seu cânon bíblico. No período intertestamentário, Salmos 90.4 tornou-se um texto favorito para explicar como o judaísmo ainda podia crer em um imi­ nente dia do juízo: "M il anos são aos teus olhos [aos olhos do Senhor] como o dia de ontem que passou".37 O que parece ser longo a partir de uma perspectiva humana é muito breve da perspectiva eterna de Deus. Além disso, a seita dos essênios de Qumran, que nos deu os Rolos do mar Morto, abrigava uma esperança tão vívida como qualquer grupo judeu pela intervenção iminente e apocalíptica de Deus neste mundo,


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para punir os seus inimigos e defender os seus seguidores. Mas os essênios produziram mais literatura, incluindo obras que permitem que os acadêmicos de hoje apresentem a evolução da sua comunidade, do que qualquer outro grupo judeu que conhecemos nos tempos pré-cristãos. Uma vez que todos os prim eiros cristãos eram originalmente judeus, é duvidoso que uma convicção de que Jesus pudesse retornar durante o tempo da sua vida os im pedisse de estar interessados em registrar a sua história. Quanto à noção de que um forte comprometimento ideológico ne­ cessariam ente leva à falsificação ou distorção de registros históricos, realmente, às vezes, o oposto é verdadeiro. Não há dúvida de que um programa especial pode distorcer os fatos, mas em certos casos os m es­ mos compromissos ideologicos que levam a registrar uma determ i­ nada fração da história exigem que se conte a história corretamente. Considere o exemplo dos historiadores judeus depois do holocausto nazista na metade do século XX. Precisamente por causa da sua apai­ xonada preocupação de que tais atrocidades jam ais acontecessem no­ vamente ao seu povo (ou a qualquer outro), os cronistas judeus cuida­ dosamente coletaram e divulgaram, detalhe após detalhe, os horrores que o seu povo tinha vivenciado, culminando na morte de seis milhões de pessoas. Por outro lado, foram certos autores não judeus mais re­ centes, e não pessoalmente envolvidos nos eventos da Segunda Guerra Mundial, que geraram os relatos "revisionistas", declarando falsam en­ te que um número muito menor de vítimas estava envolvido. A prática dos autores do Novo Testamento corresponde intim am en­ te a este exemplo dos historiadores judeus modernos. O que distinguia as declarações de judeus e cristãos das declarações de todas as outras religiões no antigo mundo mediterrâneo era a fé de que Deus tinha agido de modo singular na história, por intermédio de seres humanos reais e recentes, para propiciar a salvação para a humanidade. O que distinguia o cristianismo de suas raízes judaicas era a declaração de que a oferta decisiva, que expiaria os pecados de uma vez por todas, era fornecida pela crucificação do homem Jesus de Nazaré, que foi sub­ sequentem ente justificado por Deus pela sua ressurreição corpórea da sepultura. Se essas declarações não forem historicamente precisas, o cristianism o desmorona.18 Portanto, a mesma teologia que os céticos afirmam que teria deturpado os relatos do Novo Testamento muito pro­ vavelmente agia como uma proteção contra tal distorção. Além disso, até onde sabemos, os antigos jam ais escreveram a história sem alguma


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lente ideológica por meio da qual estes eventos eram examinados. A sua atitude, basicamente, era perguntar que objetivo havia em registrar a história se o povo não pudesse aprender algumas lições disso. Ao mesmo tempo, contrariamente às declarações de alguns acadêmicos modernos, eles poderiam distinguir a boa história da má, mesmo con­ siderando propósitos propagandísticos (veja especialmente Luciano, On Writing History).™ H

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i s t ó r ia ?

Podemos admitir que os primeiros seguidores de Jesus estiveram interessados em escrever a história da fundação do seu movimento. Mas surge uma segunda pergunta. Eles seriam capazes de escrever uma história confiável? Mesmo se aceitarmos as datas conservadoras para os Evangelhos Sinóticos e o livro de Atos (os anos 60) e se reconhecermos que estes livros dependiam de fontes escritas ainda mais antigas, de testemunhos oculares e da tradição oral, trinta anos parece um tempo longo demais para que tudo fosse preservado intacto. Bart Ehrman fala em nome de muitos céticos quando compara o processo ao jogo infantil do "telefone sem fio".411Em uma sala cheia com umas vinte pessoas, sussurre uma frase comprida e complicada à primeira pessoa, peça que ela sussurre à próxima pessoa o que ouviu e recorda, e o processo deve continuar até que a mensagem tenha sido "transm itida" à última pes­ soa da sala. Quando você pedir que esta última pessoa repita em voz alta a mensagem, para que todos ouçam, normalmente é cômico, por­ que a mensagem ficou muito deturpada. Como podemos imaginar se­ riamente os cristãos preservando, por todo o Império Romano, durante toda uma geração, o enorme número de detalhes que encontramos nos Evangelhos e no livro de Atos? A resposta mais simples a essa pergunta é que o processo da trans­ missão de informações sobre Jesus e a Igreja Primitiva trazia pouca se­ melhança com o comportamento descontrolado de crianças brincando de "telefone sem fio". O Império Romano do século I continha somente culturas orais. Toda informação importante circulava de boca em boca. A maioria das pessoas que vivia no império era analfabeta. Os homens judeus tinham uma instrução muito maior do que o resto da população, porque muitos deles frequentaram a escola em sinagogas locais, desde os cinco anos de idade até os doze ou treze. Eles teriam aprendido o su­ ficiente para serem capazes de ler as Escrituras em hebraico, mas pou­ cos teriam meios para possuir suas próprias cópias. Assim a educação


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ia m tecia, como também era o caso no mundo greco-romano, por m e­ morização. Muitos homens judeus tinham memorizado consideráveis I ragmentos do que nós cham am os de Antigo Testamento. Os aspirantes . 1 rabinos, que se submetiam a treinamento adicional durante a sua ado­ lescência como alunos de reverenciados professores judeus, em alguns i .isos aprendiam todo o conteúdo das Escrituras. Há até mesmo relatos lie escribas que concluíam uma cópia do Antigo Testamento e então um respeitado rabino a revisava, comparando-a com a versão que ti­ nha memorizado! Meninos que tinham acesso à educação no mundo ^reco-romano, às vezes, memorizavam a Ilíada e a Odisséia de Homero, parcial ou integralmente. Nesse tipo de cultura, confiar o conteúdo de um livro tão pequeno com o um Evangelho à memória teria sido com ­ parativamente fácil, especialmente quando observamos que 80 a 90% ilos ensinam entos de Jesus são formulados em forma poética.41 Pode, no entanto, haver objeções de que nós não temos quatro I vangelhos que sejam idênticos, palavra por palavra. A memorização pode explicar algumas das similaridades, embora já tenhamos observa­ do que a dependência literária que um Evangelho tem de outro ou de uma fonte comum provavelmente explique o número de textos em que aparecem palavras idênticas. Mas o que acontece com todas as diferen­ ças? Uma das respostas a tal pergunta envolve uma segunda dimen­ são para o costume de memorização das antigas tradições sagradas do Oriente Médio. As tradições sagradas transmitidas unicamente de boca a hoca eram narradas, algum as vezes até mesmo cantadas, por conta­ dores de histórias em pequenos vilarejos onde as pessoas frequente­ mente se reuniam ao redor de uma fogueira depois de anoitecer, depois do jantar, em um ambiente (sem eletricidade) onde havia pouco para lazer, se não fosse isso. Nestas situações, e principalmente para man­ ter o interesse em histórias bastante conhecidas, qualquer contador de histórias tinha o direito de om itir ou incluir, de expandir ou abreviar e de inserir comentários sobre os vários detalhes das histórias. Mas essa llexibilidade na transmissão tinha limites específicos. Os pontos fixos em cada história, sem os quais os relatos não poderiam ser compreen­ didos apropriadamente, tinham que ser preservados com exatidão, e a com unidade tinha a responsabilidade de interromper e corrigir um contador de histórias, se estes pontos fixos não fossem adequadamente apresentados. Na maioria dos casos, uma dada "perform ance" variava fn tre 10 a 40% da anterior. E interessante constatar que esta porcenta­ gem é muito similar à variação de um Evangelho Sinótico em relação


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ao outro, sempre que dois ou mais narram o mesmo episódio. Assim, provavelmente nós precisamos caracterizar "a evolução na tradição oral" além da cópia literária e da edição teológica, como um compo­ nente significativo na formação dos Evangelhos, da maneira como os conhecemos.42 Dois outros elementos na antiga tradição oral cristã a separam dras­ ticamente da analogia do "telefone sem fio" de Ehrman. Em primeiro lugar, existe evidência de que os rabinos permitiam que os indivíduos tomassem nota depois dos ensinamentos, para facilitar o aprendizado e a memorização. Embora esta noção tenha sido satirizada, não é, de maneira alguma, irracional imaginar alguns dos discípulos de Jesus rabiscando lembretes para si mesmos depois de um dia de exposição ao seu ministério de ensinamento, para ajudá-los a recordar os seus pontos principais. Algo semelhante a isso parece ter sido o processo uti­ lizado em Qumran, para preservar os ensinamentos do seu "Professor de Justiça" anônimo.43 Em segundo lugar, o costume de Pedro, João e Tiago no livro de Atos, e nas epístolas, de realizar viagens ou fazer reuniões para acompanhar a chegada do evangelho a uma nova loca­ lização geográfica, mostra que a Igreja Primitiva desejava assegurar a exatidão daquilo que era pregado ou ensinado (veja especialmente At 8; 15; 21; G1 1 - 2). A Igreja recém-nascida não era uma entidade amorfa e descontrolada como muitas vezes é retratada; mas, ao contrário, era uma comunidade "im pulsionada por objetivos" com uma reconhecida liderança e mecanismos de responsabilidade.44 E x a t id ã o

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P r o d u t o F in a l ?

Nós vim os que os autores dos Evangelhos e do livro de Atos pro­ vavelm ente estiveram interessados na preservação das biografias de Jesus e da história da prim eira geração do cristianism o. Nós observa­ mos que todos os m ecanism os estavam funcionando no mundo deles, para que tivessem feito isto com um alto grau de exatidão. A últi­ ma pergunta desta série, de que devem os tratar agora, é: "M as eles foram bem -sucedidos nesta tarefa?" Quando com param os os relatos dos quatro Evangelhos, onde eles são paralelos, ou quando tentam os adequar a inform ação no livro de Atos juntam ente com a informação histórica encontrada nas epístolas de Paulo, percebem os harm onia ou desacordo? Certam ente, foram elaboradas longas listas de supostas contradições aqui e em outras passagens na Bíblia.45 Será que estas seriam suficientes para refutar declarações de confiabilidade histórica


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independentem ente dos argum entos mais genéricos apresentados até aqui?

Os Quatro Evangelhos A única maneira com pletamente adequada de responder a esta per­ gunta seria considerar as supostas contradições, uma por vez, o que resultaria em um livro muito mais extenso. Em outros trabalhos, in­ vestiguei praticamente todas as famosas supostas contradições, tan10 entre os três Sinóticos, com o entre os Sinóticos e João, e recomen­ do que o leitor leia estas discussões com pletas.4'' Uma considerável maioria das aparentes discrepâncias desaparece, quando recordamos os padrões mais livres de narração histórica do mundo antigo (veja o tópico "O s Gêneros dos Evangelhos e do Livro de Atos"). Mas mesmo o nosso mundo moderno e científico preserva convenções similares. Ninguém pensa em acusar o repórter de um erro quando ele declara: "O Presidente Fulano de Tal anunciou hoje que..." quando, na verdade, loi o seu secretário de imprensa que leu um documento, escrito por um roteirista e supostamente apresentado ao presidente, ainda que rapida­ mente. Assim , não deveríamos ficar surpresos quando Mateus converte . 1 narrativa do centurião gentio que pedia um milagre de Jesus, por meio de judeus intermediários (segundo Lucas 7.6) em uma narrativa em que o próprio centurião vem com o pedido (Mt 8.5). Agir por meio de um intermediário pode ser descrito como agir por si mesmo. Inúmeros outros exemplos poderiam ser fornecidos. A Última Ceia loi celebrada na noite da refeição da Páscoa (aparentemente segundo Marcos 14.12-16), ou antes dela (aparentemente segundo João 18.28 e 19.14)? Provavelmente foi na Páscoa, uma vez que João 18.28 parece lazer, referência à festa da Páscoa que dura uma semana, ao passo que o versículo 19.14 pode ser interpretado como o Dia da Preparação para 11 sábado durante a semana da Páscoa (como na NV1). Jesus enviou os demônios aos porcos em Gerasa (Mc 5.1; Lc 8.26, ARA) ou em Gadara (Mt 8.28)? Provavelmente foi perto de Khersa — uma cidade na mar­ gem oriental do mar da Galileia, cuja grafia em grego poderia facil­ mente resultar em Gerasa — na província de Gadara.47 O que queremos 11 /Br aqui é que nenhum destes problemas é novo. Os pais da Igreja Primitiva, escrevendo no período do século II a VI, estudaram o Novo Ir -lamento o suficiente para reconhecer todas as aparentes discrepân( uas no texto que os críticos modernos enfatizam. O famoso comentário de Agostinho, do século V, intitulado Harmonia dos Evangelhos, trata de


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um grande número destas discrepâncias. Hoje, praticamente qualquer comentário evangélico detalhado sobre um dos quatro Evangelhos ou o livro de Atos incluirá possíveis soluções para estes problemas na sua exposição, passagem a passagem. Nem todas as harmonizações são igualmente convincentes, e muitas "contradições" têm mais de uma solução plausível. Mas a questão é que homens e mulheres cuidadosos e atentos, ao longo da História da Igreja, e plenamente cientes destes problemas, também reconheceram que nenhum deles precisa minar a confiança do outro no que diz respeito à confiabilidade da Bíblia. É muito frequente que céticos modernos deem a entender que, se nós conhecemos hoje algo que nossos predecessores não conheciam, isso agora torna indefensável a fé na confiabilidade histórica das Escrituras. Essa declaração é simplesmente falsa. De fato, o que mudou são as atitudes de muitos acadêm icos com relação à harm onização. Com o observam os acim a, os historiadores clássicos são m uito mais confiantes sobre a nossa capacidade de re­ cuperar fatos históricos de antigos docum entos, mesmo quando eles parecem conter pequenas contradições, do que o são muitos acadêm i­ cos bíblicos. Um excelente exem plo disso vem da obra do historiador canadense, Paul Merkley. A travessia de Júlio C ésar do rio Rubicon quando retornava da Gália à Itália em 49 a.C. frequentemente é apre­ sentada como um fato indiscutível da história romana, que também teve importância histórica. Com este ato, César se comprom eteu com a guerra civil, e o curso da república romana foi alterado, para sempre; ela se tornaria um império. O que frequentemente não é mencionado é que não sabem os, ao certo, a data exata, nem o local desta traves­ sia. Além disso, como acontece com os Evangelhos, nós temos quatro relatos do evento, narrado por historiadores posteriores — Velleius Paterculus, Plutarco, Suetônio e Appian. Som ente o primeiro destes quatro hom ens nasceu antes da metade do século I depois de Cristo. Todos afirmam ter confiado em uma mesma testemunha ocular, ou seja, Asnius Pollio, cujas obras desapareceram com pletamente. Os quatro relatos variam aproxim adam ente da mesma maneira que os Evangelhos, quando seus conteúdos se sobrepõem. Suetônio inclu­ sive chega a introduzir um m ilagre no seu relato, declarando que a decisão de César foi m otivada porque ele viu "um a aparição de tam a­ nho e beleza sobre-hum anos" que "estava sentada à margem do rio, tocando uma flauta de pastor". Mas a travessia de César do Rubicon continua a ser citada como um dos mais bem estabelecidos fatos histó­


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ricos da antiguidade. Uma confiança sim ilar deve ser transferida para os ijimtro Evangelhos, que perm anecem m uito próxim os, em tempo e ,icesso aos eventos que eles narram .48 lím outros trabalhos, mostrei como os historiadores da vida de Alexandre, o Grande, assim como estudantes de Josefo, que com pa­ ram os seus vários textos sobre uma dada pessoa ou evento, adotam regularmente uma forma cuidadosa de harm onização de detalhes aparentemente discrepantes. Somente porque algumas harmonizações se mostram não plausíveis, isto não significa que todo o método deva ser descartado. Por exemplo, é improvável que a solução ao proble­ ma das várias localidades onde Jesus cura o cego, perto de Jericó, dos r.vangelhos Sinóticos (quando Jesus estava "sain d o" da cidade — Mc 10.46; Mt 20.29 — ou quando Ele estava "chegando perto" de Jericó — I i 18.35) se dá com a suposição de duas Jericós diferentes, uma delas, 0 local do Antigo Testamento que está em ruínas, e a outra, a cidade do Novo Testamento, com o já foi sugerido algum as vezes. Nenhum ouvinte do século I suporia que um narrador tivesse em mente uma Cidade desabitada desde muitos séculos, quando falasse simplesmenle de "Jericó". A expressão grega, traduzida com o "chegando perto" pode simplesmente querer dizer "estando na proximidade d e".41' Por oulro lado, somente Mateus fala de Jesus curando dois cegos nesta nar­ rativa (Mt 20.30-34). Mas nem Marcos nem Lucas declaram que havia apenas uma pessoa presente, de modo que é natural imaginar que esles dois autores do Evangelho, ou a tradição oral que eles herdaram, linham simplesmente sim plificado o relato e falado somente daquele que interagiu mais diretamente com Jesus e cujo nome foi preservado Bartimeu. Esse tipo de harmonização "ad itiva" é comum em estudos Acadêmicos de outros personagens antigos.51’ Mas o que acontece com as diferenças muito maiores entre os 1 vangelhos Sinóticos e o Evangelho de João? Novamente terei que re­ comendar ao leitor a minha discussão muito mais ampla deste tema, em um livro inteiro sobre o assunto.51 Mas podemos fazer algumas genera­ lizações aqui. Em primeiro lugar, com o risco de declarar o óbvio, uma das razões por que João parece tão diferente é porque ele não depen­ di' diretamente de um ou mais Sinóticos, da mesma maneira como os I vangelhos de Lucas e M ateus dependem do de Marcos. Se os quatro evangelistas tivessem escrito, totalmente independente uns dos outros, haveria tanta diversidade de detalhes entre os Sinóticos como há entre os Sinóticos e João. Embora usando hipérboles, o comentário final de


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João, de que "H á, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez", de modo que "se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem ", certamente se aplica a todos os personagens — principais, complexos e influentes — da história. Se não tivéssemos três Evangelhos tão semelhantes, as diferenças entre João e qualquer um dos outros não seria tão incisiva. Em segundo lugar, e intimamente relacionado com isso, nós deve­ mos nos lembrar do quanto João e os Sinóticos têm em comum, e não nos concentrar meramente nas diferenças. Uma lista parcial incluiria: 1. O retrato de João Batista como cumprimento de Isaías 40.3 e como o precursor do Messias; 2. O contraste entre o batismo de João, com água, e o futuro batism o do Messias, com o Espírito Santo; 3. O Espírito ungindo Jesus, como testificado por João Batista; 4. A refeição dos cinco mil; 5. Jesus andando sobre a água; 6. A ordem a um paralítico: "Toma a tua cama e anda"; 7. A cura do filho de um centurião romano, à distância; 8. Curas milagrosas que infringem as leis do sábado, que proibiam o trabalho neste dia; 9. A recusa de Jesus em realizar milagres meramente para satisfazer os seus oponentes; 10. O fracasso das tentativas de prender Jesus, prematuramente; 11. A amizade de Jesus com a reflexiva Maria e a atarefada Marta; 12. A insistência de Jesus na necessidade de um novo nascimento espiritual; 13. A promessa de uma colheita abundante para os lavradores espirituais; 14. A rejeição de um profeta na sua terra natal; 15. O juízo pelas obras dos incrédulos; 16. O Pai revelando o Filho, e ninguém conhecendo plenamente o Pai, senão o Filho; 17. Jesus e os seus discípulos, como "a luz do m undo"; 18. O ensinamento de Jesus, funcionando, em parte, para endurecer os corações daqueles que já o tinham rejeitado, cumprindo Isaías 6.9,10; 19. Jesus como o bom pastor;


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20. O verdadeiro discipulado como a atitude de servir; 2 1. Jesus resistindo à tentação para abandonar o caminho para a cruz; 22. Receber Jesus é com o receber àquEle que o enviou; 23. Um discípulo não é m aior do que o seu Mestre; 24. A promessa de que o Espírito Santo dirá aos seguidores de Jesus o que deverão dizer no futuro; 25. A futura expulsão dos crentes das sinagogas judaicas; 26. A dispersão dos crentes expulsos, por todo o mundo conhecido; e 27. Os discípulos recebem a autoridade para perdoar ou reter os pecados dos ou tro s.52 lí a lista poderia ser ainda maior. I m terceiro lugar, as circunstâncias singulares que conduzem à i'om posição do relato do Q uarto Evangelho, pela decisão de João de narrar episódios diferentes da vida de Cristo. Com binando evidências internas e externas, parece que o Evangelho de João foi escrito no final »lo século I, para as várias congregações de Éfeso e das suas redon­ dezas, para combater desafios semelhantes aos que a igreja daquela »'omunidade estava enfrentando. Por um lado, o professor gnóstico C erinto tinha conquistado seguidores entre os cristãos dali, prom o­ vendo, entre outras coisas, um "docetism o" que aceitava a divindade ik* Jesus, mas negava a sua hum anidade. As inúm eras referências, por lodo o Evangelho de João, a Jesus realm ente se tornando carne, tendo em oções, comendo e bebendo, sendo subordinado ao seu Pai, e não lazendo nada além de realizar a vontade do seu Pai, o que finalmente incluiu m orrer uma m orte torturante e com pletam ente humana, tudo isso, sem dúvida, está incluído para com bater este erro teológico. Por nulro lado, no final do século I, a separação entre igreja e sinagoga se I»•/ com pleta principalm ente porque os líderes judeus tinham exco­ mungado o seu próprio povo, que professava a fé em Jesus, como o Messias. Assim , uma alta porcentagem das passagens exclusivas de |oao envolve Jesus pregando a líderes judeus, ou discutindo com eles, para justificar seus atos e suas declarações. A leitura destas histórias devia encorajar os cristãos judeus de que eles tinham realmente to­ mado a decisão correta, seguindo Jesus e tam bém dar-lhes "m unição" evangelística, para lidar com seus amigos judeus e seus familiares não salvos.53


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Em quarto lugar, há inúm eros exem plos fascinantes de integração entre o Evangelho de João e os Sinóticos em que um episódio ou de­ claração nos Sinóticos faz sentido somente se tiverm os informações exclusivas de João, e vice-versa. Por exem plo, João 3.24 faz uma refe­ rência breve a uma época em que "ainda João não tinha sido lançado na prisão", mas em nenhum a outra passagem no Evangelho de João há qualquer referência a este aprisionam ento. Supostam ente João es­ tava presum indo que os seus ouvintes tivessem pelo menos ouvido falar sobre este evento, narrado em Marcos 6.14-29 e passagens pa­ ralelas. Ou, novam ente, no seu relato sobre os julgam entos de Jesus, João quase om ite com pletam ente a aparição culm inante de Cristo diante do Sinédrio, presidido por Caifás. Mas faz duas observações breves que mostram que ele tem conhecim ento deste evento, quando escreve: "A nás mandou-o, m anietado, ao sumo sacerdote C aifás" (Jo 18.24) e "levaram Jesus da casa de Caifás para a audiência..." (v. 28). Novamente, João deve também supor que o seu público conhecesse a história (ela aparece em todos os Sinóticos — Mc 14.53-65 e passagens paralelas). Enquanto isso, João está interessado em descrever uma au­ diência prelim inar diante do sumo sacerdote anterior, Anás, o sogro de Caifás (Jo 18.13; 19-23). Em outros casos, a integração trabalha na direção oposta. Os que leem som ente os Evangelhos Sinóticos poderão se perguntar por que os líderes judeus tiveram que enviar Jesus ao governador romano, Pôncio Pilatos (Mc 15.1-3, e paralelas). Se tinham considerado Jesus culpado de blasfêm ia, por que sim plesm ente não o apedrejaram de acordo com a sua lei? Som ente João fornece a resposta: os líderes judeus, sob o governo de Roma, não tinham perm issão de executar a pena de m orte nestes casos (Jo 18.31). De maneira similar, os que leem som ente os Evangelhos de M ateus, Marcos e Lucas poderão se perguntar se os prim eiros discípulos de Jesus realm ente deixaram suas ocupações im ediatam ente para segui-Lo na prim eira vez em que Ele os viu. Marcos 1.16-20 e passagens paralelas certam ente po­ deriam ter esta interpretação, sem nenhum a inform ação adicional. M as João 1.35-42 deixa claro que vários dos apóstolos encontraram Jesus pela prim eira vez quando eram seguidores de João Batista. Cada um deles teria testem unhado o seu batism o, fam iliarizado-se com o seu m inistério, e m ais tarde respondeu a um cham ado m ais form al para se tornar um dos doze que literalm ente trabalharam lado a lado com Jesu s.54


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O Livro de Atos Finalmente, consideramos um tipo diferente de suposta contradição livro de Atos. Com o a narrativa do segundo volume de Lucas contém muitas informações acerca da pregação de Paulo, frequente­ mente é feita a alegação de que a ênfase teológica que emerge dos seus sermões no livro de Atos não se encaixam bem com os temas princi­ pais das cartas incontestáveis de Paulo (Gálatas, 1 Tessalonicenses, 1 e 2 Coríntios, Romanos, Filemom e Filipenses). Phillip Vielhauer escreveu um clássico estudo, na metade do século XX, fazendo esta alegação. Ele identificou quatro áreas em que acreditava que o Paulo do livro de Atos era fundamentalmente incompatível com o Paulo das epístolas. (1) No livro de Atos, Paulo é favorável com relação à teologia natural ou à revelação geral (a ideia de que as pessoas podem vir a ter algum conhe­ cimento de Deus e até mesm o a salvação, tendo em vista o desígnio na criação — veja especialmente o seu sermão no Areópago, em Atenas [At 17.16-33]); nas epístolas, Paulo permanece inteiramente negativo (veja especialmente Rm 1.18-32). (2) No livro de Atos, Paulo ainda trata a Lei de maneira favorável, com o quando raspa a sua cabeça como parte de um voto judaico (18.18), ou quando circuncida Timóteo (At 16.3); nas epístolas, Paulo enfatiza que a lei meramente aponta a incapacidade da pessoa de guardá-la, quando os rituais e cerimônias judaicos agora perlencem ao passado (veja especialmente G1 3 - 4). (3) No livro de Aios, o Jesus ressuscitado forma o centro da mensagem do Evangelho, em praticamente cada sermão registrado; nas cartas, Paulo se concentra unicamente na crucificação (1 Co 2.2). (4) No livro de Atos, a esperança i lo iminente retorno de Cristo diminui; nas cartas, ela continua vibrante (veja especialmente 1 Ts 4.15).55 Nenhuma destas quatro supostas contradições, no entanto, resume bem os dados complexos no livro de Atos ou nas epístolas. Nada, no livro de Atos, sugere que alguém realmente possa ser salvo, separado tle C risto; o texto em 17.27 fala apenas das pessoas "achando" Deus ui algum sentido não especificado, mesmo quando Lucas emprega o incimuim modo optativo com o verbo, sugerindo que Paulo duvida de que isso possa ser feito. Rom anos 1.19,20, ao contrário, declara que as I» .soas deveriam saber que Deus existe, com base na criação. Quanto à .i11 1ude de Paulo com relação à Lei, o livro de Atos pode retratá-lo como o grande defensor da graça (At 13.39), e as epístolas podem mostrar l\mlo guardando a lei, para tentar conquistar judeus para Cristo (1 Co w ’()). A questão, tanto no livro de Atos como nas epístolas é se uma 1 1 0


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determinada lei é apresentada como necessária para a salvação. Paulo irá resistir totalmente a isso. Voltando à questão sobre o cerne do evangelho, Atos 20.28 ressalta a expiação através do sangue de Cristo, ao passo que 1 Coríntios 15 ensina extensivamente sobre a ressurreição. Está claro que é uma ques­ tão de ênfase e não de contradição, o que leva os textos a destacar um aspecto da obra de Cristo e não outro. Finalmente, as epístolas de Paulo revelam que ele reconhece que pode não viver para ver o retorno de Cristo (por exemplo, Filipenses 1.19-26), ao passo que o livro de Atos retrata Paulo pregando que o seu tempo é o ponto decisivo nas gerações que iniciarão o juízo de Deus (At 17.31). David Wenham habilmente investigou estas questões e outras correlatas, e concluiu que as dife­ renças entre o livro de Atos e as epístolas de Paulo são suficientemente substanciais para provar que Paulo não escreveu o livro de Atos! Mas as diferenças dificilmente demonstram uma tensão fundamental entre Paulo e Lucas. Cada autor tem suas próprias razões para enfatizar por­ ções complementares do ministério de Paulo.Sh

Palavras Severas e Tópicos Ausentes Na seção anterior deste capítulo, eu respondi a inúmeros argumen­ tos contrários à confiabilidade das porções aparentemente históricas do Novo Testamento. Agora é o momento de nos voltarmos para evidên­ cias positivas e adicionais a favor da sua confiabilidade. Duas destas evidências formam um par natural. Por um lado, há inúmeras "pala­ vras duras" de Jesus nos Evangelhos que os seus primeiros seguidores provavelmente não teriam inventado. Um exemplo de palavra dura é aquele que faz uma exigência muito rigorosa aos discípulos, mesmo quando parece contradizer o ensinamento do próprio Jesus em outras passagens. Por exemplo, Lucas 14.26 declara que Jesus disse aos seus possíveis seguidores: "Se alguém vier a mim e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo". Esta declaração teria escandalizado um público judeu que levava muito a sério o mandamento mosaico de honrar pai e mãe, um mandamento que Jesus confirma em outras passagens (por exemplo, Mc 7.10). Felizmente para nós, Mateus inclui um ensinamento paralelo de Jesus em um diferente contexto, explican­ do o que Ele provavelmente quis dizer no contexto de Lucas também: "Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de m im "


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(Ml 10.37). Os dois textos em grego estão, naturalmente, traduzindo o aramaico original de Jesus, e nas línguas semitas "am ar" e "od iar" Irequentemente significavam "escolher" e "não escolher" ou "preferir" I’ "não p referir"." O nosso am or por Deus deve superar tanto o nosso imor pela família, que este se parecerá até m esm o com o ódio, quando se li/.er uma comparação. Agora, as palavras são, pelo menos, compre1 'iisíveis, embora ainda incrivelmente desafiadoras. Mas se Lucas ou M.iteus se sentisse suficientemente livre para manipular as tradições que linha herdado, como afirmam muitos acadêmicos, certamente teria mi lo muito mais fácil simplesm ente omitir este tipo de frase. I m outros casos, o que torna uma frase "d u ra " é o fato de que ela parece contradizer a divindade de Cristo, que a Igreja Primitiva tão rapidam ente veio enfatizar. Por exem plo, em M arcos 6.5,6 o poder de Jesus parece limitado pela falta de fé em Nazaré: "E não podia l.izer ali obras m aravilhosas; som ente curou alguns poucos enferm os, im pondo-lhes as mãos. E estava admirado da incredulidade deles". ( >ii , em 13.32, o seu conhecim ento parece lim itado: "M as, daquele Dia e hora [do retorno de C risto], ninguém sabe, nem os anjos que estão ih>eeu, nem o Filho, senão o Pai". A teologia cristã entendeu, afinal, esses textos, e falou que Jesus não se utilizava de seus atributos di­ vinos (tais como a onipotência e a onisciência), exceto quando era a vontade do seu Pai. Mas teria sido mais fácil que Marcos sim plesm en­ te om itisse estes dizeres, levando em consideração a confusão que poderiam criar. Alguma coisa, no entanto, o impediu de excluí-los. Aparentem ente, estes eram "pontos fixos" na tradição que não poderi.im ser elim inados se as narrativas nas quais eles apareciam fossem relatadas outra v e z .8 Um fenômeno inverso também respalda a historicidade substancial ■los Evangelhos. Várias controvérsias da Igreja Primitiva, descritas no livro de Atos e nas epístolas, jam ais aparecem nas páginas dos qua­ lm Evangelhos. Se os primeiros cristãos se sentiam livres para atribuir .lo lesus histórico os ensinam entos que eles acreditavam que o Senhor ressuscitado estava revelando a eles, por que nenhum ensinamento de lesus sequer trata destas controvérsias em particular? Nós sabemos, de Atos 15 e Gálatas 2, que a questão da circuncisão, como parte da po­ lítica dos judaizantes para fazer com que os gentios, que estavam se tornando cristãos, obedecessem a toda a lei judaica, ameaçou dividir .i Igreja Primitiva. O cam inho mais simples para solucionar a contro­ vérsia teria sido que um dos participantes do Concílio Apostólico de


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Atos 15 tivesse citado o próprio ensinamento de Jesus sobre o assunto. Nós, então, esperaríamos que um dos Evangelhos contivesse algum ensinamento de Cristo sobre o tema, se a circuncisão devesse ser exi­ gida dos seus seguidores. Mas nem o livro de Atos nem os Evangelhos contêm uma única palavra atribuída a Jesus para solucionar este deba­ te. Aparentemente, a Igreja Primitiva não se sentiu livre para inventar ensinamentos de Jesus, sabendo que Ele não os tinha proclamado du­ rante a sua vida terrena. Um exem plo similar vem de 1 Coríntios 12-14. Falar em línguas provou causar muita discórdia em Corinto. Qual seria a melhor maneira de solucionar o debate sobre falar em línguas, se­ não citar palavras de Cristo? E certamente nós esperaríamos encontrar algumas palavras de Cristo sobre o tema nos Evangelhos. Mas estas palavras jam ais aparecem! Na verdade, uma lista considerável de con­ trastes pode ser compilada entre questões que foram importantes para Jesus durante o seu ministério pré-crucificação em Israel e questões que eram importantes para a Igreja pós-ressurreição. E o Novo Testamento, coerentemente, as conserva separadas.5lf Além disso, pelo menos em uma ocasião, quando estes interesses se sobrepõem , Paulo claram ente em preende grandes esforços para distinguir o que Jesus disse, durante a sua vida terrena, daquilo que ele acreditava que Jesus lhe estava dizendo, quando escrevia suas epístolas sob inspiração divina. O exem plo em questão aparece em 1 Coríntios, no tema de casam ento e divórcio. Em 7.10,11, Paulo pro­ clama: "A os casados, mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido... E que o marido não deixe a m ulher". Aqui, Paulo resume o conteúdo do ensinam ento do Jesus histórico em pas­ sagens com o Marcos 10.1-12 e paralelas. Mas sobre a questão de um cônjuge incrédulo desejar deixar seu esposo ou sua esposa depois que esta pessoa tivesse se tornado cristã, Jesus não tinha ensinado nada. Assim, Paulo continua, em 1 Coríntios 7.12: "M as, aos outros, digo eu, não o Senhor: se algum irm ão tem mulher descrente, e ela consen­ te em habitar com ele, não a deixe. E se alguma mulher tem marido descrente, e ele consente em habitar com ela, não o deixe". Paulo não está dizendo aqui que ele já não está mais escrevendo sob inspiração divina! O versículo 40 deixa claro que ele pensa que todas as suas instruções neste capítulo são orientadas pelo Espírito. Na verdade, Paulo aqui fala com um tom de ironia, uma vez que está com baten­ do oponentes em Corinto os quais declaram que somente eles têm o Espírito. Na verdade, o versículo 12 quer dizer sim plesm ente que


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fli' tem que confiar naquilo que acredita que Deus está lhe dizendo, ■.cm ser capaz de provar isso, citando uma palavra da tradição dos nsinam entos terrenos de Jesus. A mesma explicação, sem dúvida, é v.ilula para o versículo 25. Longe de m esclar casualm ente os ensina­ mentos de Cristo anteriores e posteriores à ressurreição, Paulo cuida­ dosam ente os conserva separados. Tudo isso deve aumentar o nosso i redito na confiabilidade histórica dos Evangelhos.60

A Evidência de Autores Não-Cristãos Para algumas pessoas, a única evidência que prova ser definitiva­ mente valiosa é a de antigos autores que nunca se tornaram cristãos. Mesmo se admitirmos que os cristãos podiam escrever sobre a história ■.em que suas tendências a distorcessem indevidamente, sempre há a possibilidade de que não o fizeram com sucesso. Naturalmente, estas mesmas pessoas raramente observam que os não-cristãos poderiam ser muito mais inclinados contra o cristianismo e desta maneira deixar de apresentar adequadamente as suas origens históricas. Nós temos pro­ vas de que isso acontecia frequentemente no primeiro milênio d.C., pois . 1 volumosa literatura judaica que formava o Mishnah, Talmudes e vá­ rios Midrashim, cada vez mais censurava e excluía referências a Jesus (e oulros supostos apóstatas) com o passar dos séculos. Mas, apesar disso, vale a pena investigar o que as literaturas mais antigas — judaica, grega e romana — dizem sobre Jesus e outros personagens e eventos retrata­ dos nos Evangelhos e no livro de Atos. Especialmente, quando levamos em conta a tendência destes autores, uma considerável quantidade de evidências emergem, que, novamente, respaldam a confiabilidade hislorica dos documentos canônicos.1’1 E v id ê n c ia s

a

F avor

de

J esu s

De longe, a informação m ais extensa e interessante vem de Josefo. I screvendo próximo do fim do século 1, este historiador judeu produziu uma obra de vinte volumes, intitulada Antiguidade judaica — uma histó­ ria do m undo, desde a criação até os seus próprios dias! Os manuscritos que sobreviveram contêm duas referências a Jesus. Em 20.197-203, nós lemos sobre a execução de Tiago, o meio-irmão de Jesus, pelas mãos do Sinédrio, em 62 d.C. Especificamente, na seção 200, Josefo se refere a "Tiago, o irmão de Jesus que era chamado o C risto".62 Nenhum acadê­ mico sério duvida da autenticidade desta observação breve, de modo que ela já é suficiente para demonstrar que Jesus existiu.


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A outra passagem de Josefo é consideravelmente mais detalhada. Ela diz: Nesta época, ali viveu Jesus, um hom em sábio, se é que realmente de­ veríamos cham á-lo de homem. Pois Ele foi aquele que realizou feitos surpreendentes e mostrou que é o professor das pessoas que aceitam ale­ gremente a verdade. Ele conquistou muitos judeus e muitos dos gregos. Ele era o M essias. Q uando Pi latos, depois de ouvir que ele era acusado por homens da maior autoridade entre nós, o condenou para ser crucifi­ cado, aqueles que tinham sido os primeiros a amá-lo não desistiram de seu afeto por ele. No terceiro dia, ele lhes apareceu, restaurado à vida, pois os profetas de Deus tinham profetizado estas e incontáveis outras coisas m aravilhosas sobre ele. E a tribo dos cristãos, assim chamados por causa dele, até hoje não desapareceu ( 18:03-64).

O problema com esta passagem é que Josefo indica, no resto da su obra, que continuou sendo judeu por toda a sua vida, e não aceitou o cristianismo. De modo que é altamente improvável que ele tivesse realmente escrito que Jesus era o Messias, questionado a sua verda­ deira humanidade ou acreditado na sua ressurreição. Quando nos da­ mos conta de que foram cristãos — e não judeus — que preservaram as obras de Josefo nos primeiros séculos depois da sua escrita, é natural supor que alguns escribas "m exeram " na obra de Josefo, para fazer com que o seu testemunho respaldasse as reivindicações cristãs mais expli­ citamente. Além disso, uma obra árabe do século X, a História Universal de Agápio se refere ao testemunho de Josefo sobre Jesus, e no seu re­ sumo faltam precisamente estes três itens, embora ele descreva Josefo dizendo que os seguidores de Jesus disseram tê-lo visto vivo e que Ele fosse talvez o Messias. Há um consenso cada vez maior entre os acadê­ micos, portanto, de que a passagem em Antiguidade judaica, uma vez reescrita nestes três pontos, se aproximaria intimamente do que Josefo realmente escreveu/’-' Testemunhos judaicos posteriores, a maioria deles encontrados no Talmude, têm natureza mais tendenciosa. Em um texto, está escrito que Jesus fora enforcado na véspera da Páscoa. Uma vez que os judeus já ti­ nham decidido que a crucificação era comparável ao enforcamento em uma árvore, isso não entra necessariamente em conflito com os relatos dos Evangelhos, particularmente o de João, que pode ser interpretado como se Jesus tivesse sido executado na véspera da Páscoa (embora


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devamos nos lembrar da nossa interpretação diferente, no tópico "O s Ou.ilro Evangelhos"). Este mesm o texto, no entanto, diz, a seguir, que durante quarenta dias antes da execução, um arauto clamou: "E le vai ‘.cr apedrejado, porque praticou feitiçaria e atraiu Israel à apostasia". I >e modo que pode ser que o registro histórico aqui esteja um pouco delurpado. A acusação de que Jesus era feiticeiro, no entanto, aparece em outros Irei lios da literatura rabínica (veja especialmente b. Sanh, 107b), que liirnece corroboração indireta de que Jesus verdadeiramente realizava milagres. Em vez de negar este fato, os autores judeus simplesmente ahibuíram o seu poder ao Diabo, em lugar de atribuí-lo a Deus. O que e interessante é que esta abordagem emerge, em primeiro lugar, nas paginas dos próprios Evangelhos cristãos (Mt 12.24; Lc 11.15).t>4A m es­ ma seção do Talmude que se refere ao enforcamento de Jesus também dei Iara que Cristo tinha discípulos com os nomes de Matha, Naqai, Ne/er, Buni, e Todah. Quatro destes nomes podem ser grafias alternati­ vas ou corrompidas dos nomes hebraicos de M ateus, Nicodemos, João e l.ideu, ao passo que Nezer pode se referir a um nazareno ou seguidor de Jesus, de modo mais genérico. Outras referências explícitas a Jesus incluem uma tradição em que um discípulo rebelde é com parado a alguém "que queima publica­ mente um alimento precioso, que é Jesus de N azaré", uma metáfora que se refere à distorção do ensinamento judaico (b. Sanli. 103a). Em varios pontos, Jesus é cham ado de "Jesus ben (= filho de) Pandera", e l )rígenes, um autor cristão do século II, explica que os judeus acredi­ tavam que Jesus fosse filho de Maria em um relacionamento adúltero mm um soldado romano que tinha este nome (Contra Celsum 1:32). O nume, e consequentemente a lenda, talvez venha de uma adulteração d i palavra grega parthenos para "virgem ", refletindo, assim, um conhei ímento deturpado da tradição cristã da concepção virginal. Em outros lexliis, Jesus não aparece mencionado por seu nome, mas há um amplo i unsenso na tradição judaica de que a referência é feita a Ele. Por exem­ plo, o rabi Abbahu, do século III, declara: "Se um homem diz a você, I ii sou (um) Deus', é um mentiroso; 'Eu sou (um) Filho do Homem', ii a se arrepender disso; Se disser 'Eu vou subir para o céu', poderá ter d no isso, mas não será capaz de fazê-lo" (p. Tann. 65b). Podemos reco­ nhecer ecos da tradição do Evangelho nestas três declarações.1’5 I listoriadores greco-romanos não-cristãos também fazem algumas ivlerências a Jesus. Thallus (preservado somente nos textos do historia­


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dor Júlio Africano, do século III) se referiu à escuridão que aconteceu no momento da crucificação. Plínio, o Jovem, um embaixador roma­ no no início do século II, escreveu para o imperador Trajano, pedindo conselhos sobre como lidar com os cristãos que se recusavam a ado­ rar o imperador. Nesta correspondência, ele explicou que os cristãos se reuniam regularmente e entoavam hinos "a Cristo, como se a um deus" (Lctters 10.96.7). Tácito, historiador romano do início do século II retratou os cristãos como aqueles cujo nome se devia a "Cristo, que tinha sido executado por sentença do procurador Pôncio Pilatos, no rei­ nado de Tibério" (Anuais 15:44). Aproximadamente na mesma época, o historiador romano Suetônio se referiu à expulsão dos judeus de Roma, durante o reinado de Cláudio, em razão de uma revolta instigada por Clireshts. Muitos acadêmicos acreditam que esta é uma versão corrom­ pida de Christiis (Cristo) e que Suetônio está descrevendo uma agitação entre judeus e cristãos, de forma equivocada pensando que Cristo es­ tava pessoalmente presente para instigá-la. A referência "no entanto, aponta para Jesus como líder de um grupo de judeus dissidentes, se não o fundador do cristianismo"/’'’ Mara bar Serapion, escritor grego do final do século I, falou sobre Jesus, como o sábio rei dos judeus, ao passo que Luciano de Samosata, filósofo e historiador grego, em sua obra de meados do século II, A M orte de Peregrino, se referiu à crucifica­ ção de Cristo (seção 11) de uma maneira desdenhosa à credulidade dos cristãos que reverenciavam seu fundador como um deus. Finalmente, Orígenes narrou, com certo nível de detalhes, as acusações deste crítico pagão, Celso, que reconhecia, mas menosprezava "os ancestrais, a con­ cepção, o nascimento, a infância, o ministério, a morte, a ressurreição e a contínua influência de Jesu s".67 Quando combinamos todo este antigo testemunho não-cristão de Jesus, há material mais do que suficiente para refutar o mito persistente que ainda existe em certos círculos, de que Jesus jam ais existiu!'’8 Os leitores modernos podem se perguntar por que não há muito mais m a­ terial preservado, e para isso podemos dar duas respostas básicas. Em primeiro lugar, naqueles primeiros anos, ninguém sabia ainda que o cristianismo um dia se tornaria a religião dominante tanto no império, como em muitas outras partes do mundo. Em segundo lugar, até boa parte do século XX, a maioria dos escritos históricos envolveu as faça­ nhas de reis e rainhas, generais militares, os que detinham cargos em instituições religiosas, e outras pessoas. O foco nos cidadãos normais de uma nação particular e nos movimentos do povo que não estives­


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sem relacionados com quaisquer poderes políticos ou eclesiásticos conliiuiou relativamente raro até o século passado. Nós poderíamos dizer i|ue é surpreendente que estas referências não-cristãs a Jesus tenham sob revivido. O

utros

P erso n a g en s

e

E v en to s

Quando nos voltamos para outros personagens nos Evangelhos e no livro de Atos, a situação é bastante diferente. Precisamente porque muitos deles são pessoas poderosamente influentes, de vários tipos, .is referências não-cristãs são tão abundantes que podemos apresentar ,u|ui somente uma pequena seleção delas. Josefo, sozinho, fornece uma considerável quantidade de informações sobre João Batista, Herodes (o ( Irande), Antipas, Agripa I e II, Anás, Caifás e Pôncio Pilatos.69 Josefo c os vários historiadores romanos, naturalmente, fazem detalhadas reIcTÔncias aos diferentes im peradores que também são mencionados no Novo Testamento. Copiando do volumoso catálogo de inform ações contido na obra magistral de Colin Hemer, podemos destacar treze tipos de conheci­ mento histórico exibido no livro de Atos, que sao corroborados ou pelo menos estão bem de acordo com outras fontes históricas.71' Em cada i.iso, nós vamos dar apenas um ou dois exemplos, embora na maioria ilos casos exista um número maior. 1. Conhecimento geral: Lucas reconhece que Augusto é o nome do imperador (Lc 2.1), mas, corretamente, menciona que um oficial romano se refere a ele pelo seu título (em grego, Sebastos) em Atos 25.21,25. Ele também sabe que os navios transportando grãos zarpavam de Alexandria rumo a Puteoli (28.11-13). 2. Conhecimento especializado: Lucas entende que Anás ainda era considerado com o sumo sacerdote pelos judeus, mesmo depois de formalmente deposto por Roma (4.6). Ele também tem ciência dos detalhes da organização de uma guarda militar — quatro grupos de quatro soldados cada (12.4). 3. Conhecimento local específico: Zeus e Hermes eram deuses populares em Listra, por causa de uma lenda de que tinham aparecido ali incógnitos, séculos antes. E compreensível, portanto, que Barnabé e Paulo fossem confundidos com eles (14.12). A viagem e o naufrágio de Paulo contêm inúmeros


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itens que dificilmente teriam ficado conhecidos, a menos que alguém tivesse estado nesta viagem, ou fosse muito familiarizado com a tecnologia náutica da época.71 Correlações de data: A informação do livro de Atos está em conform idade com outras fontes históricas, e nos capacita a fornecer datas para a morte de Herodes Agripa I, a fome na Judeia, a expulsão dos judeus de Roma por Cláudio, o governo de Gálio em Corinto, e a mudança de procuradores, de Félix a Festo, na Judeia. Capacidade de ajustar o restante do livro de Atos com estas datas: Outras indicações de tempo no livro de Atos criam uma concordância harmoniosa com estes detalhes — um ano e meio de permanência de Paulo em Corinto, aproximadamente três anos em Efeso, e dois anos aprisionado na gestão de Félix — o que possibilita que os estudos da vida de Paulo datem com considerável precisão (pelos padrões antigos), cada uma das viagens missionárias de Paulo e as suas paradas em cada rota.72 Detalhes altamente sugestivos de datas: A Sinagoga dos Libertos, em Jerusalém, foi destruída em 70 d.C.; a sua descrição precisa em Atos 5.9 teria exigido o conhecimento de condições anteriores a este ano. A Frigia e a Galácia estiveram associadas durante um curto período de tempo no século I, exatamente como Lucas as retrata em 16.6. Correlações com o livro de Atos e as epístolas: Novamente, há um enorme número de correlações. Gálatas 2.2,10 combinam elementos da visita de Paulo a Jerusalém também descrita em Atos 11.27-30. A superstição recriminada em Gálatas 3.1 se encaixa com o engano de Listra em identificar Paulo e Barnabé como deuses gregos, como já observamos. Correlações no livro de Atos: A natureza diversa dos sermões de Paulo está em perfeita conformidade com o que sabemos sobre as localidades às quais cada um deles é destinado, desde a cética e filosófica Atenas em uma ponta (17.16-34) aos anciãos cristãos de Efeso na outra (20.17-35).73 Possíveis informações históricas preservadas em variantes textuais: Embora provavelmente não seja o que Lucas escreveu originalmente, o texto "ocidental" de Atos 19.9,10 acrescenta que Paulo falava todos os dias na escola de Tirano, "da


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quinta à décima h ora" (isto é, de 11 da manhã às 4 da tarde — a parte mais quente do dia, quando a sala provavelmente estaria disponível), uma informação provavelmente precisa, acrescentada por um escriba posterior. 10. Referências espontâneas: Informações secundárias, historicamente precisas, e com pouca probabilidade de terem sido inventadas conscientemente, incluem o nome de Antioquia na Frigia, próxima à fronteira da Pisídia, como Antioquia da Pisídia (13.14), como outros tinham feito, para distingui-la de outra Antioquia, localizada mais centralmente na Frigia, embora jam ais mencionada no livro de Atos. A citação que Paulo faz com exatidão de poesia grega, de Epimenides e Arato, em Atenas oferece um segundo exemplo (17.28). 11. Diferenças de formulação no livro de Atos: Lucas emprega corretamente o termo "helenistas", ou "gregos judeus" (na versão BBE) quando se refere aos judeus que tinham adotado a cultura grega, mas chama as pessoas de "gregos" quando se refere a indivíduos não-judeus e não-cristãos. Saulo deixa de usar seu nome judaico, não na conversão, como leitores desatentos da Bíblia frequentemente pensam , mas quando começa a ministrar entre os gentios (13.9). 12. Particular seleção de detalhes: Embora não mencionado explicitamente em outras fontes históricas, a inclusão de determinados detalhes de um significado não obviamente teológico é conveniente ao gênero de texto histórico, em um mundo que ainda não tinha inventado o que nós chamaríamos de romance histórico.74 Podemos comparar os papéis de Rode em 12.13,14 e Mnasom em 2 1.16. 13. Expressões idiomáticas especiais ou características culturais: As palavras lisonjeiras de Tértulo (24.2-4) combinam perfeitamente com a oratória aduladora de advogados gentios ao falar a procuradores romanos. A opção do governador de aceitar ou recusar a jurisdição sobre um caso de uma província isolada é, de igual maneira, retratada fielmente em 23.24. Q ualquer um destes itens específicos pode não provar muita coisa por si só, mas o caso cum ulativo a favor da exatidão de Lucas como


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historiador no livro de Atos se torna esmagador quando percebemos o volume de tais itens que existem na sua narrativa.

Evidências Arqueológicas Uma categoria importante de evidências de corroboração fora dos Evangelhos e do livro de Atos, ou de quaisquer outras fontes cristãs explícitas, é o que a arqueologia descobre. Novamente, há livros cheios de itens que confirmam o tipo de detalhes em o Novo Testamento que se prestam como prova ou refutação arqueológica. Em nenhum caso algum detalhe foi refutado; incontáveis itens foram corroborados. Novamente, podemos ter apenas uma ideia inicial, com os exemplos mais famosos ou significativos.75

Os

Q u a t r o E v a n g e lh o s

Uma admirável quantidade de detalhes circunstanciais nos Evangelhos recebe respaldo de escavações realizadas em Israel. A maio­ ria delas serve para reforçar o nosso entendimento do cenário histórico, religioso e sociocultural do mundo de Jesus. Assim, podemos ver ruí­ nas de inúmeros projetos de edifícios de Herodes, a disposição e a fun­ ção do templo, as dimensões e o conteúdo de uma típica casa palestina, a natureza das estradas romanas e outras coisas. Pedras de moinho, tanques para imersão ritual, e a "cadeira de M oisés" em uma sinago­ ga, tudo foi desenterrado, esclarecendo as referências do Evangelho a esses itens. Em alguns casos, localidades inteiras foram escavadas — a sinagoga de Cafarnaum, do século IV, provavelmente edificada sobre as fundações de uma sinagoga da época de Jesus; o poço de Jacó em Sicar, onde Jesus se encontrou com a samaritana; o tanque de Betesda, com seus cinco alpendres, próximo à Porta das Ovelhas em Jerusalém; o tanque de Siloé, também em Jerusalém; e possivelmente a pedra (Gabatá ou Litóstrotos — veja João 19.13) do lado de fora do palácio de Pilatos (supondo que se tratava da Fortaleza Antônia).76 O mesmo é válido para a localização de cidades inteiras. Um mosaico de um barco de pesca do século I, com a inscrição "M agdala", ajudou a conduzir à descoberta da localização da terra natal de Maria Madalena. Ruínas de uma igreja bizantina, a leste do mar da Galileia, provavelmente apon­ tam para a localização de Khersa, onde Jesus expulsou uma legião de demônios de um homem. Algumas descobertas são bastante recentes. Somente depois de 1961 foram desenterradas as evidências de inscrição (em oposição às lite-


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ríirias), em Cesareia M arítim a, de Pilatos com o governador da Judeia, durante o reinado do im perador Tibério. Em 1968, um ossuário (isto é, uma caixa de ossos) de um homem crucificado, chamado Johanan, ( onfirmou, pela primeira vez, que os romanos podiam cravar pregos nos pés ou tornozelos de vítim as de execução. Um barco de pesca do seculo I foi dragado do mar da Galileia em 1986, depois da pior seca cm Israel em mais de um século. E interessante que nele havia espaço para treze pessoas, exatamente, a quantidade de espaço que teria sido necessária para que Jesus e seus doze discípulos coubessem todos em uma embarcação. No museu em que os turistas agora podem vê-lo, o barco foi apelidado de "o barco de Jesus", embora, é claro, não tenha­ mos como saber se o próprio Jesus chegou a usar este barco. Em 1990, a sepultura que parece ser, provavelmente, do sumo sacerdote Caifás foi descoberta no monte Sião em Jerusalém, perto do local tradicionalmen­ te conhecido como a Cidade de Davi no Antigo Testamento.77 O mais recente centro de atividade arqueológica foi Betsaida. Embora, até hoje, não houvera nenhuma descoberta dramática, muitos pequenos artefalos, incluindo inúmeros itens relacionados à atividade pesqueira, foram escavados. Apenas quando este livro ia começar a ser impresso, surgia uma controvérsia a respeito de outra descoberta, próxima a Jerusalém - ■o possível ossuário de Tiago, o irmão de Jesus. A possibilidade de que a inscrição da urna funerária, que diz "Tiago", tenha sido feita por duas m ãos diferentes, no entanto, deixa os acadêmicos incertos quanto a qual Tiago teria sido enterrado nela.78 Frequentemente, a arqueologia fornece boas "lições práticas" para o leitor interessado da Bíblia. Em outras palavras, locais que não são ,is reais localizações de eventos dos Evangelhos, apesar disso, asse­ melham-se provavelmente aos verdadeiros lugares. Assim, embora a adornada Igreja do Santo Sepulcro, na parte velha de Jerusalém, esteja pmxima ao local autêntico da crucificação e do sepultamento de Jesus, 0 C’alvário de Gordon — um afloramento de rocha na forma de caveira, pouco acim a da atual estação de ônibus da moderna Jerusalém — é tão semelhante ao terreno que provavelmente parece com o lugar original do Cólgota, explicando por que este lugar foi apelidado de "Lugar da 1 » veira". Ou, de novo, os turistas normalmente são levados a visitar um considerável patamar, a algumas centenas de metros acima da costa noroeste do mar da Galileia, e abaixo do tradicional "M onte das Bem.i venturanças". Aqui, a acústica natural possibilita que alguém que está no meio do caminho para o topo seja ouvido por grande multidão de


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pessoas ao mesmo tempo. Este poderia ser o lugar onde Jesus pregou o seu famoso "Serm ão da M ontanha", mas nós simplesmente não temos como afirmar isso, porque os Evangelhos não nos fornecem informa­ ções suficientes para determinar o local. Artefatos desenterrados podem frequentemente fornecer esclareci­ mento sobre palavras ou costumes específicos. A palavra corbn ("con­ sagrado a D eus") foi encontrada sobre um sarcófago judaico, como advertência para ladrões de sepulcros. Sepulcros "caiados" resplande­ centes ainda salpicam o vale do Cedrom e uma parte das encostas do monte das Oliveiras, ilustrando visualmente a metáfora de Jesus, em Mateus 23.27. Abundante quantidade de moedas confirma o costume de cunhar nelas a imagem de César, um ponto em que Jesus se baseou quando evitou a pergunta capciosa dos líderes judeus sobre o paga­ mento de tributos. A arqueologia ainda tem o potencial de esclarecer os silêncios dos Evangelhos. Nos últimos vinte anos, grande parte das escavações se concentrou em Sepphoris, a capital herodiana original da Galileia, antes da construção de Tiberíades, nos anos 20 d.C. Curiosamente, Sepphoris ficava somente a 8 quilômetros de Nazaré e solicitou grande quantida­ de de trabalhadores na construção civil, durante a mocidade e início da vida adulta de Jesus. Foi aqui que Ele aprendeu o costume grego de "atuar", de onde deriva a palavra hiipakrites ("hipócrita"), uma palavra não encontrada em hebraico ou aramaico, mas que Jesus usou repetidas vezes contra certos líderes religiosos (veja especialmente Mateus 23)? Afinal, um grande teatro em estilo tipicamente grego foi escavado ali. O silêncio dos Evangelhos a respeito de Sepphoris pode indicar que, quando Jesus iniciou o seu ministério público, Ele teria evitado esta grande cidade gentílica, porque entendia que a sua missão era "prim ei­ ro para os ju d eus?"79 Ou o fato de que arqueólogos tenham desenterra­ do comparativamente alguns poucos ossos de porcos em Sepphoris — uma característica de cidades altamente judaicas, em que as refeições eram "kosher" e onde se evitava comer carne de porco ou presunto — sugere que nós superestimamos o quanto esta cidade era grega? Um artefato de uma natureza bem diferente merece um breve co­ mentário. Pequenos fragmentos do Sudário de Turim, cuidadosamente guardados durante séculos na Itália por autoridades católicas, foram submetidos a uma bateria de testes científicos em 1988, em três diferen­ tes laboratórios, ao redor do mundo. Todos os resultados, independen­ temente, provaram que se tratava de um pedaço de tecido do século


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XI ou XII, recente demais para ter sido o Sudário de Jesus.80 Ainda não lia explicações convincentes sobre a origem da assombrosa impressão de um hom em crucificado, estampada neste tecido, mas é inútil continii.ir argumentando a favor da sua autenticidade.81 Uma vez que muil.is pessoas ao redor do m undo já ouviram falar neste sudário, embora n.ula mais saibam sobre artefatos bíblicos antigos, este ponto deve ser rnlatizado. O L iv r o

de

A tos

Q uando nos voltamos para a arqueologia dos inúmeros locais meni jonados no livro de Atos, mal sabemos por onde começar, pois muitos j.i loram escavados. Deixar Israel significa, antes de mais nada, seguir P.iulo nas suas jornadas (At 13 - 28).82 Em Antioquia da Pisídia, refe­ rencias a parentes de Sérgio Paulo, o governador cipriota, foram encon11 adas, sugerindo um dos motivos por que Paulo e Barnabe foram para l.i, depois de navegar, saindo de Chipre para o que hoje poderia ser Chamado de Turquia continental. Inscrições em pedras possibilitaram que os arqueólogos localizassem Listra e Derbe, duas outras cidades do .ui da Galácia que Paulo visitou na sua primeira viagem missionária. ( aande parte da antiga Efeso foi reconstruída das ruínas, incluindo o le.ilro onde os ourives de prata se revoltaram. Uma estátua de Artêmis em Efeso, que parece ter mais de doze seios no seu peito, confirmou a adoração daquela deusa da fertilidade e exemplifica o tipo de idolatria rontra a qual Paulo lutava. Em Tessalônica, evidências de inscrições, pela prim eira vez, justificaram o uso que Lucas faz do termo "politari a", que não aparece em outras passagens, com referência aos gover­ nantes civis locais (Atos 17.8 - "principais da cidade"). Em Filipos, um possível local do breve aprisionamento de Paulo foi escavado assim iorno a ampla Mora ou o mercado, e um possível local próximo ao rio onde havia aquela oração, onde Paulo encontrou Lídia e seu grupo. Corinto, como Efeso, contém muitas ruínas que ainda existem ou loram reerigidas. Ali a famosa inscrição de Gálio nos possibilitou conlirmar a existência e a data do governador local diante do qual Paulo foi lulgado. Podemos até mesmo ver ruínas do benta, ou "tribunal", onde ( .alio teria se sentado para presidir o julgamento. Na imensa montanha rochosa, chamada de Acrocorinto que se ergue no fundo, ainda estão ,is ruínas da fortaleza romana que posteriormente substituiu o templo pagão no seu cume, no século I. Ali, os "sacerdotes sagrados" ou as "sacerdotisas" tinham relações sexuais com os "adoradores" para obter


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união com os deuses. Pouco admira que a moralidade sexual fosse uma grande preocupação de Paulo na sua primeira carta à jovem igreja des­ ta cidade (veja especialmente 1 Coríntios 5 - 7). Uma inscrição mencio­ nando "E rasto", o "aedile" (palavra em latim, que significa um oficial municipal) corresponde, assombrosamente, às saudações que Paulo transmite de Erasto, "procurador da cidade", em Romanos 16.23, escri­ tas de Corinto. Atenas, naturalmente, contém o espetacular Partenon, mas também o Areópago, onde Paulo falou, e uma stoa esplendorosa­ mente reconstruída e modernizada — uma passagem apoiada em pila­ res e coberta, em que se alinham lojas ao redor da ágorn.m A s I g r e ja s

do

L iv r o

do

A

p o c a l ip s e

Normalmente, não se pensa no livro do Apocalipse como um docu­ mento do gênero histórico. Mas os capítulos 2 e 3, que contêm as cartas da João às sete igrejas da Ásia Menor, incluem várias referências que são esclarecidas pelo estudo histórico e, mais especificamente, arqueo­ lógico.84 A promessa da "árvore da vida" aos que "vencerem " (Ap 2.7) está em agudo contraste com a árvore do santuário ao culto de Artêmis em Éfeso e o abrigo que esta dizia oferecer. A oferta de uma coroa a Esmirna (v. 10) era apropriada para uma cidade que a tinha como seu conhecido emblema de beleza. Pérgamo era um centro de adoração a Zeus, de curas de Asclépio e o culto imperial, sendo qualquer um deles, ou todos, bons candidatos ao "trono de Satanás" (v. 13). Tiatira era local de associações de comerciantes, incluindo a de oleiros, que participa­ vam de cerimônias pagãs idólatras. Compare o quebrar da cerâmica no versículo 27. Contudo o mais importante esclarecimento arqueológico envolve a sétima cidade, Laodiceia, que era famosa pela sua riqueza (ela foi re­ construída, sem ajuda romana, depois de um terremoto, em 60 d.C.), pela sua indústria de lã negra, e uma escola de medicina que fabrica­ va bálsamo para os olhos. A guisa de comparação de cada um destes três itens, Apocalipse 3.17 declara que os cristãos ali eram um povo "desgraçado, e miserável, pobre, cego, e nu". Jesus bate à porta des­ sa igreja para tentar recuperá-los e conduzi-los a uma fé mais vibran­ te (v. 20). Essa gentil abordagem contrasta com a entrada forçada de oficiais romanos exigindo alojamento nesta rica cidade, passando por uma impressionante porta tripla nas muralhas da cidade. O que é mais significativo é que Laodiceia não tinha seu próprio abastecimento de água; a água tinha que ser canalizada das frias fontes montanhosas,


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|M'i to de Colossos, ou das terapêuticas fontes de água quente perto de I lierápolis. I )e qualquer maneira, quando os aquedutos chegavam a Laodiceia, . 1 ,igua já estava morna. Assim, quando Jesus fala, por intermédio de |o,io, que desejava que os laodicenses fossem frios ou quentes (v. 15), umbus expressões são m etáforas positivas. Este fato é conhecido, pelo mçnos, desde a obra de Rudwick e Green, há meio século, de modo que os pregadores que perpetuam o mito de que aqui "frio " significa •iliv.imente em oposição a Deus, conduzem muitas pessoas a um equívni o!8S l)m a lista de tanto m aterial arqueológico de respaldo à historici­ dade básica do Novo Testamento não deveria dar a impressão de que ii.tii há problemas não solucionados a respeito da confiabilidade destes ile< iimentos. Por exemplo, existem pelo menos duas, e talvez até mes­ mo três, localizações plausíveis para a cidade de Emaús. O problema .Li il.ita do governo de Cirênio, na Síria (Lc 2.1), documentada fora da llíblia não antes de 6 d.C., pode ter sido solucionado por inscrições mi­ i mgrá ficas em moedas, que indicam que ele teve também uma posição |inlitica anterior, mas as marcas são pequenas demais e incertas, para jiu) tenhamos certeza.8'’ (Há problemas similares quando tentamos dal.ii o Teudas mencionado em Atos 5.36; Josefo parece atribuir uma data p<*lerior a esta rebelião.87 Fontes literárias, portanto, contêm os mes­ mos prospectos e as mesmas ciladas que as fontes arqueológicas). Mas . 1 esmagadora maioria de descobertas arqueológicas consistentemente .i|Kinta na direção de confirm ar a confiabilidade destas porções de doi gmentos do Novo Testamento com os quais é possível fazer compaI 11.01 ‘ S .

O u t r a s E v id ê n c ia s C k is t ia n is m o

do

P e r ío d o

do

I n íc io

do

As duas seções anteriores se concentraram nas evidências, literárias r arqueológicas, que não poderiam ter sido distorcidas por "inclina­ i tics" cristãs. Mas o argumento de que a evidência cristã deve ser "exi linda do tribunal" é enganador, como já vimos no tópico "O Sucesso •li >I mpreendimento dos Evangelistas". Há um último tipo de testem u­ nho, portanto, que não deve ser negligenciado, e envolve outros textos I I !• t.ios, fora dos Evangelhos e do livro de Atos. Nós investigamos estes ii ilrriais na ordem cronológica inversa, do m enos importante para o iMil e 'inportante.


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No início do século III, se não no final do século II, praticamente to­ das as narrativas cristãs do ministério público de Jesus e a história da primeira geração da igreja confiavam exclusivamente no material dos Evangelhos canônicos e do livro de Atos. Mesmo a literatura apócrifa, na sua maior parte, não coincidia com o material canônico, mas procurava (ainda que ficticiamente) se encaixar nos "anos ocultos" da vida de Jesus, revelar os seus ensinamentos supostamente secretos a determinados se­ guidores, depois da ressurreição, ou descrever feitos muito posteriores dos apóstolos. Já na metade do século II, no entanto, a tradição oral dos eventos relativos à fundação da Igreja continuava a circular juntamen­ te com os documentos escritos do Novo Testamento. Papias, bispo de Hierápolis no início do século II, afirmou que confiava na tradição oral que lhe fora transmitida pelos sucessores dos apóstolos de Cristo, mais do que em quaisquer textos escritos (Eusébio, Eccl. Hist 3.39.3-4).88 O s P a is A

p o s t ó l ic o s

A coletânea dos primeiros escritos, cristãos ortodoxos, posteriores ao Novo Testamento, é conhecida como Pais Apostólicos. Escritos prin­ cipalmente durante as duas primeiras terças partes do século II, esses documentos incluem duas epístolas escritas por Clemente, bispo de Roma; um conjunto de cartas breves de autoria de Inácio, um famoso mártir cristão; uma epístola de Policarpo, discípulo do apóstolo João; o Didaclw, ou "Ensinam ento" dos apóstolos, um manual sobre questões práticas de ética cristã e ordem na igreja; uma epístola dura contra o judaísmo, falsamente atribuída a Barnabé; e uma coletânea de visões, mandamentos e parábolas de doutrinas cristãs atribuída ao "Pastor de Herm as".8g Frequentemente, essas obras citam tradições encontradas em o Novo Testamento, mas com palavras ligeiramente diferentes, de modo que não podemos ter a certeza de que estejam dependendo das formas escritas destas tradições. Em um punhado de exemplos, elas ci­ tam ensinamentos ou eventos não encontrados em o Novo Testamento. Estas duas características reforçam o comentário de Papias, sugerindo que o testemunho oral independente continuava a circular, mesmo de­ pois que os Evangelhos e o livro de Atos foram escritos. Como os Pais Apostólicos se referem a um número de detalhes da vida de Cristo e da Igreja Primitiva, bastante maior do que os autores não-cristãos, inde­ pendentemente de até que ponto eles propiciam testemunho indepen­ dente, é confirmada uma porcentagem muito maior de informações so­ bre as origens cristãs do que poderia ser corroborado por nossas linhas


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.interiores de argumentação. Estas referências incluem grande material sobre o ensinamento de Jesus no Sermão da Montanha, uma significa­ tiva porcentagem de outros ensinamentos exclusivos ao Evangelho de Mateus, assim como exortações éticas de Jesus de modo geral, clara­ mente a parte mais comum dos Evangelhos e do livro de Atos citada nos primeiros textos cristãos não canônicos.90 A p o c a l ip s e

Voltando ao final do século I, chegamos ao último documento do Novo Testamento, o livro do Apocalipse. Greg Beale acredita ter identilicado inúmeros pontos onde João, ao compor este livro do Apocalipse, se inspirou nas mesmas tradições independentes, empregando as profe­ cias de Daniel do Antigo Testamento, que estão por trás dos Evangelhos Sinóticos. O uso da analogia do Filho do Homem, extraída de Daniel 7.13,14, singular tanto aos Evangelhos quanto ao livro do Apocalipse, e o seu exem plo mais proem inente.1'1 Louis Vos vai mais além, crendo ler identificado vinte e cinco passagens no livro do Apocalipse que de­ monstram um conhecimento independente das tradições incorporadas ,ios Evangelhos Sinóticos/'2 porem muitas delas são excessivamente .ilusivas para nós de fato. 1 P ed ro

A primeira epistola de Pedro é datada, por acadêmicos liberais, nas ultimas décadas do século I, frequentemente por volta dos anos 80. Os conservadores, que acreditam que o próprio Pedro escreveu esta carta, .ilribuem-na a uma data não posterior a meados dos anos 60, uma vez que Pedro foi martirizado por Nero em Roma, entre 64 e 68 d.C. Esta e.irta contém numerosas alusões aparentes à tradição dos Evangelhos, em form as suficientemente diferentes, de modo que a dependência li­ terária direta não pode ser demonstrada com certeza. Particularmente notáveis são as alusões a palavras do Evangelho de João, que, se João 11 vesse escrito nos anos 90, não poderiam ter existido, em forma escrita, nem na data mais tardia atribuída à primeira epístola de Pedro. Três exemplos comumente citados são as declarações sobre nascer de novo, em 1 Pedro 1.2 (cf. Jo 3.3); am ar a Jesus sem tê-lo visto, em 1.8 (Cf. Jo ’0.29); e ser levado das trevas à luz, em 2.9 (cf. Jo 8.12).93 T ia g o

A epístola de Tiago pode, na verdade, ser a primeira de todos os doe Limentos do Novo Testamento, escrita no final dos anos 40. Mas


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a evidência é ambígua. Tiago, o irmão do Senhor, poderia ter escrito esta epístola já no início dos anos 60, uma vez que viveu até 62 d.C. Aqueles que atribuem esta epístola a outro autor, em algumas ocasiões datam-na nos anos 70 ou 80. Mas praticamente todos acreditam que a epístola é anterior à primeira epístola de Pedro, assim como a primeira epístola de Pedro é anterior ao livro do Apocalipse. De todas as epís­ tolas do Novo Testamento, nenhuma contém tantas passagens que se assemelham, verbalmente, aos ensinamentos de Jesus, como a epístola de Tiago. Embora aqui não haja citações inequívocas, há aproximada­ mente três dúzias de referências ao Sermão da M ontanha/Planície em Mateus 5 - 7 e Lucas 6.20-49.tM Não é preciso ir além do primeiro parágrafo da epístola de Tiago para observar um padrão de referências que permanece consistente por toda a carta. "M eus irmãos, tende grande gozo quando cairdes em vá­ rias tentações" (1.2; cf. Mt 5.11,12 — "bem -aventurados sois vós quan­ do vos injuriarem... Exultai e alegrai-vos" — e Lc 6.23); "para que sejais perfeitos e com pletos" (1.4; cf. Mt 5.48 — "Sede vós, pois, perfeitos, [ou maduros) como é perfeito o vosso Pai, que está nos céus"); "peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente... e ser-lhe-á dada" (1.5; cf. Mt 7.7 — "Pedi, e dar-se-vos-á" - e Lc 11.9); "Peça-a, porém, com fé, não du­ vidando" (1.6; cf. Mt 21.21 — "se tiverdes fé e não duvidardes" — e Mc 11.23). Essas referências envolvem as três fontes principais de Mateus — Marcos, Q e M (exclusivamente material de Mateus) — mostrando que o conhecimento que Tiago tinha da tradição do Evangelho era am ­ pla. Mas mesmo que a carta tenha sido escrita tão tardiamente, como 0 ano 60 ou 61, é improvável que Tiago tivesse acesso ao Evangelho completo de Mateus. Ele deve ter conhecido as fontes de Mateus, ou as tradições orais por trás delas. Começam a se somar as evidências de que os Evangelhos estavam baseados em tradições fielmente transmiti­ das, e não inventadas pelos evangelistas. P a u lo

Finalmente, chegamos às importantes epístolas de Paulo. Comentaristas de todo o espectro teológico concordam que Romanos, 1 Coríntios e 1 Tessalonicenses foram escritas nos anos 50, cedo demais para se basear em algum Evangelho escrito. Mas há mais ou menos uma dúzia de citações ou alusões muito claras aos ensinamentos de Jesus que os Sinóticos registrariam mais tarde. Romanos 12.14 traz o mandamento: "Abençoai aos que vos perseguem; abençoai e não amai-


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diçoeis" (cf. Lc 6.27b; 28a); 12.17, "a ninguém torneis mal por m al" (cf. Ml 5.39); e 13.7, "dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, im posto" (cf. M c 12.17). Em 13.8,9, Paulo resume toda ,i lei no mandamento de am ar ao próximo (como em G1 5.14; cf. Mc 12.31); em 14.10, ele condena julgar um irmão, uma vez que todos se­ remos julgados (cf. Mt 7.1,2a); e em 14.14, ele declara: "Eu sei e estou i erto, no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma im unda" (cf. I.c 11.41; Mc 7.19b). Três das mais explícitas citações de Jesus, feitas por Paulo, aparecem em 1 Coríntios. Em 1 Coríntios 7.10,11, Paulo respalda suas opiniões sobre o casamento e o divórcio, com o mandamento "não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que se reconcilie com o marido; e que o mari­ do não deixe a mulher". Ao enfatizar que isso vem do Senhor, ele não quer dizer que o resto do seu ensinamento não é inspirado, mas que nesta questão específica ele pode buscar o respaldo do ensinamento do Jesus terreno.95 Em 1 Coríntios 9.14, Paulo escreve: "Assim ordenou lambém o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evan­ gelho". Aqui, ele está se referindo ao ensinamento que posteriormenle seria registrado em Lucas 10.7, ("digno é o obreiro de seu salário"; i í. Mt 10.10). A terceira citação de uma passagem semelhante à de um 1'vangelho Sinótico é a mais clara de todas. Ao tentar corrigir o mau uso que os coríntios faziam da Ceia do Senhor, Paulo cita abundantemente da tradição das palavras de Jesus na sua Ultima Ceia, particularmente paralela à forma em que Lucas escreveria (cf. Lc 22.19,20). Em razão do seu subsequente uso litúrgico, estas palavras ficaram conhecidas como "palavras de instituição" (da Ceia do Senhor): Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, com ei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente também, depois de cear, tom ou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. (I Co 11.23-25)

Os verbos "recebi" e "en sin ei" neste tipo de contexto são termos téc­ nicos para a transmissão fiel da tradição oral, como era a prática dos ra­ binos com a Torá.% Paulo provavelmente recebeu esta informação bem


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cedo na sua vida cristã, como parte do discipulado cristão elementar da sua época. Mas isso sugere que já nos anos 30 existia o conhecimen­ to detalhado das palavras reais das tradições que seriam escritas uma geração mais tarde nos Evangelhos, uma vez que a data da conversão de Paulo pertence ao período entre dois a três anos após a crucificação de Cristo! Em 1 Tessalonicenses 2.14-16, Paulo compara a perseguição que os cristãos tessalonicenses suportavam à que os cristãos judeus sofreram nas mãos de seus compatriotas, que levaram Cristo à morte. Esses ver­ sículos contêm numerosas alusões a partes de Mateus 23.29-38. Em 1 Tessalonicenses 4.15 - 5.4, há paralelos ainda mais claros. Paulo intro­ duz a sua descrição do retorno de Cristo em 4.15-17 como "pela palavra do Senhor", e muitos dos detalhes desses três versículos são correspon­ dentes ao "Serm ão do Monte das O liveiras" de Jesus (Mc 13), em que o Senhor descreveu os eventos que envolveriam a sua segunda vinda. Em 5.2-4, a dupla referência ao dia do Senhor que vem como um ladrão à noite, certamente recorda a parábola do ladrão narrada por Jesus (Mt 24.43; Lc 12.39), uma vez que uma metáfora tão impressionante não aparece em nenhuma das fontes anteriores. Inúmeros outros textos, às vezes com alusões ligeiramente mais vagas, poderiam ser relaciona­ dos aqui. Mas a questão é clara — um corpo significativo, detalhado e fixo de tradições orais dos ensinamentos de Deus circulava desde os primeiros dias da igreja cristã. Os autores do Evangelho, por sua vez, confiaram nesta tradição, que não era uma invenção fantasiosa, para compilar o seu ensinamento. Isso prova ser igualmente verdadeiro com respeito aos detalhes so­ bre a vida e as obras de Cristo. Um resumo das mais importantes infor­ mações biográficas que podem ser reunidas das incontestáveis epísto­ las de Paulo incluiria a sua descendência de Abraão e Davi, o fato de ter sido criado na lei judaica, a sua convocação de discípulos, incluindo Pedro e João, e o fato de que Ele tinha um irmão cham ado Tiago. Nós também aprendemos sobre o impecável caráter de Jesus e a sua vida exemplar, a sua Última Ceia e a traição e inúmeros detalhes que envol­ veram a sua morte e ressurreição.97 Os Credos Cristãos Antigos As mais antigas de todas são as passagens usadas por Paulo e Pedro em suas epístolas, que os acadêmicos identificaram como, muito pro­


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vavelmente, pré-datando as epístolas em que aparecem. Numerosos textos em grego altamente poético, cheios de formulações densas da doutrina cristã fundamental, em estilos que frequentemente são dife­ rentes dos estilos dos próprios autores das epístolas, e que parecem se separar como entidades independentes dentro das epístolas em que aparecem, são prováveis candidatos a credos cristãos antigos ou con­ fissões de fé. Os exemplos mais claros e mais comumente citados são Filipenses 2.6-11, Colossenses 1.15-20 e 1 Pedro 3.18-22.1,8 Essas cartas foram possivelmente escritas no início dos anos 60, de modo que credos estabelecidos, incorporados a elas, provavelmente não são posteriores aos anos 50. Mas essas (e outras) confissões também mostram sinais de um cristianism o judeu primitivo que floresceu principalmente nos anos 30 e 40, de modo que elas poderiam ser ainda mais antigas. Mas é precisamente neste material mais antigo que com frequên­ cia encontram os algumas am ostras da mais exaltada linguagem sobre Jesus. Ele tinha "a natureza de Deus" (Fp 2.6, NTLH), era "é imagem do Deus invisível" (Cl 1.15), e "está à destra de Deus, tendo subido ao céu, havendo-se-lhe sujeitado os anjos, e as autoridades, e as potências" (1 Pe 3.22). Essas crenças emergiram cedo na História da Igreja, não em algum estágio avançado da "evolução da doutrina cristã".w Tais passa­ gens também conferem confiabilidade às declarações exaltadas feitas por Jesus, e sobre Ele, nas páginas dos próprios Evangelhos. A mais significativa e assombrosa passagem pré-paulina é 1 Coríntios 15.3-7. Uma vez mais, Paulo usa a linguagem técnica da re­ cepção e transmissão da tradição judaica oral: "Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi". Aqui chegam os ao âmago da fé cristã antiga acerca de Jesus: ... que Cristo morreu pelos nossos pecados, de acordo com as Escrituras, que Ele foi sepultado, que ressuscitou ao terceiro dia de acordo com as Escrituras, e que apareceu a Cefas [Pedro] e depois aos Doze. Depois disso, Ele apareceu a mais de quinhentos dos irmãos e irmãs, ao mesmo tem po, muitos dos quais ainda estão vivos, embora alguns estejam ador­ m ecidos. Então, Ele apareceu a Tiago, e depois a todos os apóstolos...

O âm ago desta informação de discipulado deve ter sido ensinada a Paulo pouco depois que se tornou um cristão. Uma dramática corroboração disso nos vem de um importante acadêm ico alemão que per­ correu o caminho do cristianism o liberal ao ateísmo durante os anos


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1990. Escrevendo abundantemente sobre o tema da ressurreição, Gerd Lüdemann afirmou que durante os dois primeiros anos do movimento cristão, os seguidores de Jesus proclamavam confiantemente a sua res­ surreição corpórea dos mortos. Embora Lüdemann não cresse que um evento genuinamente sobrenatural tenha acontecido, reconhece que a declaração mais responsável que um historiador pode fazer é que os primeiros cristãos creram, quase que imediatamente, que algo deste tipo ocorreu.'00 Não adiantará fingir que a história da ressurreição foi uma invenção mitológica e muito posterior, muito tempo depois que as pessoas que realmente sabiam o que tinha ou não acontecido já es­ tavam mortas!

Milagres A única coisa que impede que Lüdemann passe da observação de que os primeiros cristãos acreditavam que Cristo tinha ressuscitado dos mortos para a convicção de que Ele ressuscitou fisicamente, é a sua sin­ cera pressuposição de que essas coisas, ou quaisquer eventos milagro­ sos, jamais poderiam ocorrer. Embora pareça melhor deixar a questão do miraculoso para outro livro, eu não consigo evitá-la completamente neste capítulo, ainda que meus comentários devam ser breves."11 C e t ic is m o

e

R espo sta

Há três razões principais por que muitos acadêmicos modernos acreditam que milagres não acontecem. Em primeiro lugar, alguns acreditam que a ciência refuta os milagres. A mais famosa enunciação dessa convicção vem do prolífico acadêmico do Novo Testamento e te­ ólogo alemão, de 50 anos atrás, Rudolf Bultmann, quando declarou que "o conhecimento e domínio que o homem tem do mundo avançou a tal ponto, em razão da ciência e da tecnologia, que não mais é possível que alguém defenda seriamente a visão de mundo do Novo Testam ento".102 Os povos antigos simplesmente não tinham o entendim ento das leis universais de causa e efeito que nós temos, e por isso acreditavam no que nós não podemos crer. Em segundo lugar, outros admitem a possibilidade do miraculoso em teoria, mas insistem que, na prática, sempre haverá uma probabili­ dade mais alta de que uma explicação naturalista se responsabilize pelo misterioso. A clássica exposição deste ponto de vista vem do filósofo escocês do século XVIII, David Hume, que defendeu essa afirmação enfatizando quão frequentemente a declaração de testemunhas confi-


(* Novo Testam ento É h istoricam en te Confiável?

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,iv(|is pode estar equivocado, quão frequentemente pessoas ingênuas e crédulas caem presas de interpretações equivocadas de eventos, e como os outros estão simplesmente procurando milagres e por isso são inca­ pazes de analisar objetivamente causas de eventos incomuns. Hume .ulotou um uniformitarianismo filosófico, isto é, declarando que uma pessoa não pode atribuir uma causa a um evento que não observou nem vivenciou diretamente (nem obteve a inform ação de alguém que observou ou vivenciou o evento).1'13 Finalmente, um terceiro argumento apela para os aparentes paralelos na antiga religião e mitologia. Histórias similares eram contadas sobre os deuses e deusas gregos e romanos. Quase contemporâneos de Jesus, por exem plo, Apolônio, no mundo grego e Hanina ben Dosa ou Honi, 0 que faz chover, no mundo judeu, são considerados como tendo reali­ zado milagres, alguns deles assombrosamente similares aos primeiros prodígios e maravilhas cristãos. Portanto, este argumento tenta sugerir <■1Lie nós interpretamos mal o gênero literário das histórias de milagres bíblicos, que jamais teriam pretendido registrar fatos sérios, mas seriam relatos fictícios designados a ensinar lições teológicas. Classicamente estruturada nos meados do século XIX por David Strauss, esta é hoje em dia a explicação dominante para as histórias de milagres da Bíblia, entre o ramo mais cético dos acadêm icos.104Cada um dos três argumen­ tos merece uma resposta. Em resposta à reivindicação científica, é importante enfatizar que em uma era pós-Einstein, pós-Heisenberg, os filósofos da ciência são cada vez menos dogmáticos sobre o que pode ou não acontecer, reconhecen­ do que a ciência, por definição, é o estudo do que é repetível, e por isso não pode avaliar a existência divina.10S Se Deus, por definição, é um ser sobrenatural que criou o universo, realmente existir, então nós devemos aceitar a possibilidade de que Ele ocasionalmente interrompa as leis cien11 ficas normais de causa e efeito, para criar o que chamamos de mila­ gre. Curiosamente, mesmo nesta era altamente tecnológica e científica, a substancial maioria dos norte-americanos adultos ainda crê em milagres, porque respostas dramáticas a orações e curas físicas instantâneas e inex­ plicáveis continuam a acontecer com excessiva frequência para que se possa negá-las.106 Por outro lado, devemos nos lembrar de que, já no perí­ odo do Novo Testamento, as pessoas sabiam que os mortos normalmente não ressuscitam, e que os doentes não se curam instantaneamente. Muito 1requentemente, nós declaramos a ingenuidade dos povos primitivos de maneira que simplesmente não são fiéis à história.


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Embora ainda encontre adeptos, a objeção filosófica foi refutada há mais de três séculos. O testem unho de pessoas confiáveis ainda deve ser levado em consideração, mesm o se o que elas descrevem parecer inacreditável. Algum as pessoas são ingênuas, mas não todas, e nem todas ao mesmo nível. A lgum as certam ente estão procurando milagres, e podem acreditar que os encontraram , por meio de algum processo de "cum prim ento de desejos". Mas os céticos endurecidos também foram convertidos à fé cristã por causa dos milagres que de­ cididam ente não estavam procurando. E o uniform itarianism o pro­ va: pelo seu critério, ninguém que viva nos trópicos, em uma época diante da com unicação global e tecnologia m oderna, teria qualquer razão para crer no gelo! Além disso, o uniform itarianism o marcara um determ inism o antropológico; isto é, ele não deixa espaço para que o livre-arbítrio humano crie uma nova causa para um evento jam ais imaginado an tes.1117 Quanto aos paralelos com outras religiões antigas, não é provável que sejam responsáveis por gerar as histórias de m ilagres contidas nos Evangelhos e no livro de Atos. O s mitos clássicos greco-rom anos eram sobre deuses e deusas que jam ais viveram vidas hum anas verdadeiras na terra. Nas raras ocasiões em que os milagres eram atribuídos a he­ róis hum anos endeusados, com o Asclépio (embora mesmo então haja debates se este homem realm ente existiu), ainda eram pessoas de sé­ culos passados cujos retratos cresceram ao nível de lendas detalhadas somente depois de centenas de anos. Os m ilagres que aconteceram nos tempos do Novo Testamento em santuários dedicados a Asclépio provavelmente podem ser explicados pelo que hoje seria chamado de processos psicossom áticos.1118 Apolônio de Tyana viveu depois da época de Cristo e a com posição dos Evangelhos e do livro de Atos, de modo que as suas supostas curas e ressurreições não podem ter influenciado os primeiros relatos cristãos. Hanina teve milagres de cura atribuídos a ele, mas som ente por meio da oração, ao passo que Cristo e os apóstolos ordenavam que as pessoas fossem curadas dire­ tamente, e elas realm ente ficavam curadas. O único m ilagre atribuído a Honi, com o sugere o seu apelido, foi ter feito chover, um tipo de milagre que jam ais é retratado nos Evangelhos ou no livro de Atos. Mas, dada a fé cristã de que Deus realizou m ilagres por intermédio de judeus fiéis, e de que Satanás pode realizar falsos m ilagres, não há ra­ zão necessariam ente para rejeitar todas as histórias antigas de outros eventos aparentem ente sobrenaturais.109


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A E v id ê n cia

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P o s itiv a

Não apenas as objeções padrão à aceitação das histórias de milagres do Novo Testamento não convencem, mas a evidência positiva adicion.il respalda a sua historicidade. Nós já observamos que tanto a tradição ubínica como Josefo concordaram que Jesus realizou milagres. As his­ torias de milagres são encontradas em cada Evangelho, e cada suposta I **n to para o Evangelho, assim como para o livro de Atos, e as referênis a Jesus e aos apóstolos realizando milagres estão espalhadas pelas epístolas também (por exemplo, Rm 15.19; 2 Co 12.12; G1 3.5; Hb 2.4). ( ilobalmente, as histórias de milagres satisfazem plenamente até mesmo d antigo critério da dupla igualdade e desigualdade (veja o início do ca­ pítulo 1). Há paralelos parciais nas fontes judaicas mais antigas e nas crisl.is mais recentes, mas o âmago da singularidade dos relatos bíblicos é a objetividade e a eficácia dos milagres e da sua função como indicadores da chegada decisiva do reino de Deus. Os milagres, assim, também sa­ tisfazem o critério da coerência com o ensinamento de Cristo conhecido como autêntico e essencial. John Meier, na mais abrangente investigação acadêmica dos tempos modernos, sobre a historicidade dos relatos de milagres do Evangelho, embora enfatize que nem todos os relatos satislazem a todos os critérios, ainda assim conclui: A curiosa conclusão da nossa investigação é que, considerada global­ mente, a tradição dos milagres de Jesus é mais firmemente respaldada pelo critério da historicidade do que o são inúmeras tradições conheci­ das e com frequência prontamente aceitas, sobre a sua vida e o seu mi­ nistério (por exemplo, a sua condição de carpinteiro, o seu uso de "abba" em oração, a sua própria oração no Getsêmani antes da sua prisão). Explicando dramaticamente, mas sem grandes exageros: se a tradição dos milagres do ministério público de Jesus tiver que ser rejeitada in toto como não histórica, todas as outras tradições do evangelho a respeito dEle também deverão ser.110 Esta não é, naturalmente, a conclusão de Meier; na verdade, há for­ tes razões para crer, ainda que com bases puram ente históricas, na con­ fiabilidade substancial da tradição dos milagres.

A

R e s s u rre iç ã o

Novamente, breves comentários parecem completamente inade­ quados, mas há excelentes livros que se dedicam mais plenamente ao


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tema,111 principalmente N. T. W right na sua recente e magistral obra, The Resurrection o f the Son o f God [A Ressurreição do Filho de Deus].112 Nenhuma explicação alternativa convincente foi proposta para expli­ car a fé dos primeiros cristãos na ressurreição. As ideias propostas na literatura popular mais antiga, de que Jesus na realidade jamais morreu na cruz, de que os seus discípulos roubaram o seu corpo, de que as mulheres foram ao sepulcro errado ou que mais de quinhentas "teste­ m unhas" durante um período de quarenta dias, em diferentes localiza­ ções geográficas, todas foram acometidas de idêntica "alucinação em m assa", foram apropriadamente descartadas por grande parte de aca­ dêmicos contemporâneos. A alternativa acadêmica mais popular hoje é a de que a ressurreição é o produto de um processo de mitologização posterior de uma tradição original que não incluía um retorno sobrena­ tural dos mortos. Mas a evidência de 1 Coríntios 15 já basta para refu­ tar isso, como já vimos anteriormente nos tópicos "O s Credos Cristãos A ntigos" e "M ilagres". Além disso, é o tipo de explicação que poderia fazer sentido, se Jesus tivesse sido um grego que pregava em Atenas, e se os seus seguidores, uma geração depois, tivessem se tornado predo­ minantemente judeus. A Grécia, de modo geral, acreditava somente na imortalidade das almas. Os judeus eram comparativamente singulares no mundo mediterrâneo do século I, crendo em uma ressurreição total do corpo. Mas, naturalmente, isso é o oposto do progresso geográfico real do evangelho. No mínimo, nós deveríamos ter esperado um cristia­ nismo helenista crescente, cada vez mais, para m inimizar ou eliminar as referências à ressurreição de um corpo.111 As alternativas à ressurreição corpórea de Jesus não convencem, e, além disso, seis argumentos adicionais também propiciam fortes evi­ dências a favor da sua historicidade. Nós já m encionamos o testemu­ nho terreno de Paulo. Além de 1 Coríntios 15, há mais de uma dúzia de outras referências à ressurreição de Cristo nas incontestáveis epístolas paulinas, escritas antes dos anos 50 (Rm 4.24, 25; 6.4, 9; 8.11, 34; 10.9; 1 Co 6.14; 2 Co 4.14; 5.15; G 11.1; 1 Ts 1.10; etc.). Em segundo lugar, não há alternativa que explique adequadamente por que os primeiros cristãos judeus (isto é, não apenas gentios) alteraram o seu dia de adoração de sábado para domingo, especialmente quando a sua lei fazia da ado­ ração no sábado (Sabbath) um dos Dez M andamentos invioláveis (Ex 20.8-11). Alguma coisa objetiva, assombrosamente significativa e com data de alguma manhã de domingo em particular deve ter gerado a mudança. Em terceiro lugar, em uma cultura em que o testemunho das


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mulheres era frequentemente inadmissível em um tribunal, quem in­ ventaria um "m ito" relacionado à fundação, em que todas as primeiras testemunhas de um evento difícil de crer eram mulheres? Em quarto lugar, os relatos contidos do Novo Testamento diferem dramaticamente ilas bizarras descrições apócrifas da ressurreição, inventadas no século II e depois. Em quinto lugar, nos primeiros séculos do cristianismo, ne­ nhum sepulcro jam ais foi venerado, separando a resposta cristã à morte do seu fundador de praticamente todas as outras religiões da história da humanidade. Finalmente, o que teria levado os primeiros cristãos judeus a rejeitar a interpretação que lhes foi dada como herança em I )euteronômio 21.23, de que o Messias crucificado, pela própria natu­ reza da sua morte, demonstrou que Ele estava se colocando em uma posição de maldição diante de Deus? Novamente, é mais fácil crer em um evento aceito como sobrenatural do que tentar explicar todos estes latos estranhos através de alguma outra lógica.114

Conclusão Neste capítulo, nós investigamos um vasto terreno, tentando ofere­ cer breves introduções a cada tópico, com referências onde cada uma delas pode ser investigada com mais detalhes. Determinados argumen­ tos e determinadas partes das várias linhas de raciocínio acabam sendo mais fortes do que outros. De forma cumulativa, no entanto, um caso impressionante pode ser defendido a favor da confiabilidade geral dos I vangelhos e do livro de Atos, exclusivamente pelos critérios históri­ cos. As pessoas que decidem crer nos relatos mais do que a argumen­ tação histórica pode respaldar o fazem, certamente, por um "salto de lé". Mas é um salto na mesma direção para a qual a grande maioria das evidências históricas está apontando. E cada historiador do mundo an­ tigo regularmente obtém conclusões provisórias sobre a confiabilidade im não de determinada fonte, o que, então, predispõe a sua atitude com relação às partes daquela fonte que não podem ser confirmadas nem contraditas. Como os Evangelhos e o livro de Atos se mostram comprovadamente confiáveis em tantas passagens onde podem ser testados, deveriam receber o benefício da dúvida onde não puderem sê-lo.


C

a p ít u l o

2

Paulo Foi o Verdadeiro Fundador do Cristianismo? Na m etade do século XIX, o acadêmico alemão do Novo Testamento, Ferdinand Christian Baur propôs uma drástica revisão do entendim en­ to tradicional das origens cristãs. Empregando a filosofia de história file G. W. F. Hegel, o m e sm o homem que inspirou Karl Marx na arena política, Baur acreditou ver um processo de "tese-antítese-síntese" nas p rim e ira s gerações da História da Igreja. Um ramo do cristianismo se­ guia a Pedro, que permanecia relativamente fiel ao ensinamento judai­ co de Jesus. Paulo, no entanto, representava uma abordagem contrária, influenciada mais pela cultura greco-romana. As gerações posteriores, então, criaram uma síntese das duas tendências. No final do século XIX, outro liberal alemão, William Wrede, expandiu a obra de Baur e chamou Paulo de o segundo fundador do cristianism o.1Autores de outras disi iplinas ficaram ainda menos discretos nas suas descrições. O famoso tl ramaturgo inglês George Bernard Shaw escreveu sobre "a monstruosa imposição a Jesus", ao passo que o filósofo niilista Friedrich Nietzsche Cham ou Paulo de "o primeiro cristão" e o "desevangelista judeu" (isto é, alguém que traz más notícias, em lugar de um "evangelista", ou por­ tador de boas novas).2 Uma comparação superficial entre Jesus e Paulo certamente reve­ la diferenças mais rápido do que similaridades. Paulo parece citar ou


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se referir aos ensinamentos de Jesus raramente, e dizer ainda menos sobre a vida de Cristo. Em vez disso, Paulo se concentra no significa­ do da morte e ressurreição de Jesus e emprega categorias cristológicas que fazem de Jesus um ser muito divino e exaltado. Particularmente para as pessoas que não julgam os Evangelhos terrivelmente dignos de confiança, que duvidam de que Jesus agisse como algo mais do que um profeta, ou declarasse sê-lo, Paulo parece trabalhar em um mundo completamente diferente. Na primeira metade do século XX, Rudolf Bultmann se esforçou, como muitos, para conservar Jesus e Paulo afastados um do outro. Mas para Bultmann, a fé não dependia de evidências históricas, mas do tes­ temunho do Espírito de Deus a uma pessoa, por intermédio da sua Palavra. Uma pessoa poderia afirmar a doutrina cristã tradicional como crente, pela fé, mesmo que os seus estudos como historiador conduzis­ sem a retratos radicalmente diferentes das origens cristãs. Bultmann também se fez famoso por apelar a 2 Coríntios 5.16 ("Assim que, da­ qui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo, agora, já o não conhecemos desse m odo") e reivindicar que isso queria dizer que, sendo incrédulos, os discípulos pensaram que era importante ava­ liar o Jesus histórico, mas que, sendo crentes, reconheciam que o Jesus terreno não tinha importância. O que importava era adorar o Senhor ressuscitado.1 Na segunda metade do século XX, o pêndulo começou a se afas­ tar destas posições de extremo ceticismo. Os comentaristas concordam que 2 Coríntios 5.16 estava contrastando duas avaliações diferentes de Cristo, antes e depois da sua ressurreição — uma que não o consi­ derava como o Messias divino, e outra que considerava.4 Acadêmicos conservadores, como F. F. Bruce e J. W. Fraser escreveram livros impor­ tantes que destacam a continuidade entre as vidas e os ensinamentos de Jesus e Paulo,5 gerando uma crescente confiança na similaridade entre os dois homens, até mesmo em círculos menos conservadores." Em anos recentes, ninguém fez m ais para defender esta causa do que o evangélico inglês David Wenham, em dois importantes livros e em vários artigos sobre o tema.7 Mas o ceticism o é difícil de eliminar, e antigas teorias ressuscitam de roupa nova. No princípio deste novo milênio, Michael Goulder, da Universidade de Birmingham, modificou e reapresentou a teoria de Baur, pelo menos no que diz respeito à tensão em Corinto, sugerindo


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que Paulo tinha que combater o cristianismo Petrino como uma parte daquilo que ele considerava como falsos ensinos.8 E Gerd Lüdemann, cujas opiniões sobre o assunto que discutimos no capítulo anterior, nos tópicos "O s Credos Cristãos A ntigos" e "M ilagres", vão ainda mais além do que Wrede, chama Paulo de verdadeiro fundador do Cristianismo.9 A ideia de que a mudança do ensino de Jesus para a teologia de Paulo a respeito de Jesus possa ser resumida com o título "D e profeta judeu a deus dos gentios",10 continua a vir à tona!

O Conhecimento de Paulo sobre os Ensinos de Jesus O óbvio ponto de partida para responder a essas acusações envol­ ve os m esm os textos que apresentei rapidamente no capítulo anterior, textos que demonstram que Paulo estava ciente dos ensinamentos de Cristo. Ali, o meu propósito foi meramente argumentar que a presença de citações ou referências às palavras de Jesus, em cartas escritas antes da composição de qualquer Evangelho escrito, demonstrava que os en­ sinamentos de Cristo estavam circulando de boca em boca e eram re­ lativamente preservados com cuidado. Aqui, nós precisamos nos apro­ fundar nos detalhes, examinando estes e outros textos, para determinar o quanto Paulo conhecia sobre Jesus e quão cuidadosamente ele usava o que conhecia. As R

e f e r ê n c ia s m a is

C laras

Um Texto Litúrgico De longe, a mais abrangente citação direta de Jesus nas epístolas de Paulo aparece em 1 Coríntios 11.23-25: Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; e, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, com ei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim. Sem elhantem ente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o Novo Testamento no m eu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim.

Aqui, Paulo apela à terminologia técnica dos judeus para a trans­ missão da tradição oral com os verbos "recebi" e "ensinei". Essas são informações que lhe teriam sido ensinadas muito cedo, na sua vida cristã. A celebração da Ceia do Senhor, em memória da Ültima Ceia


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de Jesus, caracterizava a adoração da Igreja, desde a sua origem (veja Atos 2.42). As palavras usadas por Paulo são particularmente próximas da versão que Lucas apresenta da Ultima Ceia (Lc 22.19,20), embora todos os três autores Sinóticos incluam relatos razoavelmente similares. Embora Lucas modifique regularmente o texto de Marcos, quando eles compartilham relatos de um episódio na vida de Cristo, muitos acadê­ micos pensam que Lucas teve uma fonte especial, particularmente de materiais exclusivos relacionados à última semana de vida de Cristo, e que a versão compartilhada por Lucas e Paulo reflete o mais antigo relato existente sobre a Ultima C eia.11 Seja este o caso ou não, Paulo claramente veio a crer na morte substitutiva e expiatória de Jesus muito cedo, com base nas mesmas declarações que o próprio Jesus fez sobre a sua morte vindoura. Paulo certam ente explica de forma detalhada o tópico em suas epístolas, muito mais do que Jesus o fez, mas os dois estão em perfeito acordo quanto ao tema.

Ensinos Éticos Uma referência menos direta ou abrangente a um ensinamento de Jesus aparece em I Coríntios 9.14, em que Paulo escreve: "Assim orde­ nou também o Senhor aos que anunciam o evangelho, que vivam do evangelho". Aqui, Paulo se refere ao ensinamento de Jesus, apresen­ tado em Lucas 10.7 e Mateus 10.10, de que os trabalhadores merecem seus salários. Em razão do contexto financeiro mais explícito, Paulo provavelmente está, de novo, aproveitando a forma usada por Lucas de uma assim chamada expressão Q (material encontrado em Mateus e Lucas, mas não em Lucas), e é a forma da expressão normalmente considerada como a mais antiga, e mais literal tradução das palavras de Jesus. Algumas vezes, se alega que Paulo se sente livre para desobede­ cer aos mandamentos de Cristo, uma vez que em Corinto ele se recusa a aceitar dinheiro pelo ministério. Mas as palavras de Jesus enunciavam um princípio de que aqueles a quem chamaríamos "trabalhadores cris­ tãos em período integral" merecem apoio financeiro dos companheiros cristãos. Ele jam ais disse que as pessoas não poderiam voluntariamente abrir mão de seu direito de receber este sustento, por uma boa razão, como a que Paulo acreditava ter.12 O texto de 1 Coríntios 7 envolve uma interessante interação entre palavras que Paulo atribui diretamente ao "Senhor" e aquelas cujo cré­ dito é seu. No versículo 10, ele declara: "Aos casados, mando, não eu, mas o Senhor: Que a mulher se não aparte do m arido". No versículo


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12, no entanto, ele escreve: "M as, aos outros, digo eu, não o Senhor...", quando continua a lidar com a situação de uma pessoa cristã com um cônjuge incrédulo que deseja abandonar o casamento. Embora, à pri­ meira vista, possa parecer que Paulo esteja reivindicando inspiração para a sua primeira declaração, e então meramente dê a sua opinião no segundo caso, é mais provável que ele queira dizer que sabe que o Jesus histórico ensinava, de modo geral, contra o divórcio (veja Mc 10.2-12), mas que Jesus não fez nenhum pronunciamento específico a respeito de casam entos mistos. Paulo faz uma distinção similar no versículo 25: "Ora, quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor; dou, po­ rém, o meu parecer, como quem tem alcançado misericórdia do Senhor para ser fiel". Paulo realmente crê que o Senhor o guiou ao dar-lhe uma convicção sobre o tema, mas reconhece que não pode citar o Jesus ter­ reno no processo. Finalmente, o versículo 40 conclui o capítulo com outra das "cham adas à decisão" — sobre a felicidade pessoal de uma viúva que continua sem se casar — e acrescenta a sua convicção de que ele também tem o "Espírito de Deus", provavelmente um gentil em ­ purrão nos professores elitistas de Corinto que pensavam que somen­ te eles estivessem em contato com o Espírito de Deus.13 Novamente, a forma do ensinamento de Jesus a que Paulo se refere, no princípio dos seus comentários, reflete a mais antiga versão entre os relatos dos Evangelhos.14 É interessante, também, que a preferência de Paulo pela vida de solteiro, por todo este capítulo, provavelmente reflete o ensina­ mento contracultural de Jesus, de que Deus dá a dádiva do celibato a alguns crentes (Mt 19.10-12). Com o Jesus em Marcos 10.7 e passagens paralelas, Paulo também apela ao relato do Gênesis sobre o casamento (como deixar pai e mãe, apegar-se ao cônjuge e tornar-se uma única carne) em um contexto próximo (1 Co 6.16) que sugere que ele conhe­ cia, com detalhes, os ensinamentos de Jesus sobre o tema. Um grupo de alusões aos ensinamentos de Jesus aparece em Romanos 12 - 1 5 . IS Romanos 12.14 claramente se refere ao ensinamento de Jesus no Sermão da M ontanha com os seus mandamentos de aben­ çoar àqueles que perseguem os crentes, com a conclusão "abençoai e não am aldiçoeis". A ocorrência dos verbos para abençoar e amaldiçoar na forma deste ensinamento, segundo Lucas (Lc 6.28), mostra que, no­ vamente, Paulo está mais próximo, nas suas palavras, da versão das pa­ lavras de Jesus consideradas como sendo a tradução mais antiga e mais literal (compare com Mt 5.44). Romanos 12.17 ("A ninguém torneis mal por m al") pode ser uma alusão a uma parte do sermão encontrado


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apenas em M ateus (5.39 — "não resistais ao m al"). Os versículos 18-19 parecem fazer alusão ao m andamento de Jesus, de amar aos próprios inimigos, especialmente da maneira como vemos em Lucas 6.27 e 36, que são, novam ente, as formas mais antigas da tradição.16 Rom anos 13.7, com suas palavras sobre dar a todos os que lhes é devido, incluindo taxas e im postos, claram ente relembra a respos­ ta de Jesus à pergunta sobre o pagam ento de tributos: "D ai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de D eus". Até mesmo o extrem am ente cético Seminário Jesus marca em verm elho este texto no Evangelho de Marcos (12.17), identificando-o como uma rara frase de Jesus preservada intacta na sua forma original.17 O apelo de Paulo aos romanos, para que deixem de julgar os outros com respeito a questões m oralm ente neutras (Rm 14.13) talvez seja uma alusão a ou­ tro ensinam ento essencial do Serm ão da Montanha sobre não julgar, para não ser julgado (Mt 7.1; Lc 6.37). O versículo seguinte (Rm 14.14) reitera ainda m ais claram ente a declaraçao de Jesus de que todos os alim entos agora são inerentem ente limpos (Mc 7.18,19 par.), uma de­ claração que está mais clara na sua forma mais antiga, a de Marcos. A declaração de Cristo também pode estar por trás da ordem de Paulo em 1 Coríntios 10.27: "Com ei de tudo o que se puser diante de vós". Alternativam ente, esse texto pode aludir a Lucas 10.7, sobre comer o que quer que as pessoas fornecessem aos discípulos, quando eles prosseguiam em suas viagens m issionárias. Neste últim o caso, é inte­ ressante que versículos consecutivos do mesmo serm ão tenham sido citados em diferentes textos de Paulo (lembre-se de 1 Co 9.14 sobre Lc 10.8), sugerindo que Paulo conhecia blocos de ensinam ento maiores do que sim ples frases individuais de Jesu s.18 Finalm ente, Romanos 15.1-3 se refere explicitam ente ao modelo de Cristo, em não agradar a si mesmo, usando linguagem que também pode fazer eco às suas palavras sobre a servidão (cf. Mc 10.45). Com a exceção da citação muito explícita e extensa do ensinamento de Jesus na Ceia do Senhor, todas essas referências consideradas até aqui caem em um claro padrão. Paulo faz alusão às palavras de Jesus, em lugar de citá-las diretamente. Todos os textos envolvem a instrução ética de Jesus. E as referências repetidas aos sermões extensos de Jesus sugerem que Paulo conhecia mais do que ensinamentos individuais que circulavam isoladamente uns dos outros. Ele estava, pelo menos, ciente de grupos de ensinamentos sobre temas similares, se não da to­ talidade das próprias mensagens.19


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Escatologia O principal ponto teológico que aparece nas alusões de Paulo aos ensinamentos de Jesus é a escatologia. 1 Tessalonicenses 2.15,16 coí^P3ra a perseguição que os tessalonicenses estão vivenciando àquela dos líderes judeus em Israel, "o s quais também m ataram o Senhor Jesus e os seus próprios profetas, e nos têm perseguido, e não agradam a Deus, e são contrários a todos os homens. E nos im pedem de pregar aos gentios as palavras da salvação, a fim de encherem sempre a medida de seus pecados; mas a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim ". Essas duras pala­ vras nos lembram das palavras de Jesus a certos líderes hipócritas entre os fariseus e escribas, em Mateus 23, especialmente os versículos 32-36. Ali, Cristo declara: "Enchei vós, pois, a medida de vossos pais" (v. 32); Ele descreve como eles tinham condenado profetas nas eras passadas, e como agora iriam crucificá-lo (vv. 34,35), e conclui dizendo que "esta geração" será responsável por todo este pecado (v. 36). N ovam ente to‘ das essas alusões também têm paralelos em Lucas (11.48-51), de m odo que estam os olhando para tradições com raízes muito antigas.20 Ainda que os comentaristas discutam se as palavras de Jesus e de Paulo foram cumpridas na passagem do antigo concerto para o novo, iniciado com a crucificação de Cristo (30 d.C.) ou na destruição de Jerusalém e m 70 d.C. pelos romanos (ou em ambos os episódios), ainda há paralelos sur' preendentes entre as declarações dos dois oradores. Em 1 Tessalonicenses 4.15, Paulo anuncia: "Dizem o-vos, pois, isto pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dorm em ". Nos versículos 16 e 17, ele prossegue, explicando que o próprio Senhor irá retornar d o céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro, e então os crentes Mue ainda estão vivos irão encontrar o Senhor "nos ares". Embora a lg uns com entaristas pensem que esta é uma informação que Paulo recet,era diretamente do Cristo ressuscitado, parece mais provável que ele esteja, novamente, aludindo a ensinamentos do Jesus terreno. E difícil sab er quanto do que ele acrescenta depois do versículo 15 faz parte d e s ta "palavra do Senhor", mas é interessante observar vários paralelos ao ensinam ento de Jesus no Serm ão das Oliveiras (em Mc 13; Mt 24 — 25 e Lc 21). Especificamente, Marcos 13.26 e paralelos descrevem o r e to r n o de Cristo do céu (como em 1 Ts 4.16a), quando envia os seus anjos (ci- v. 16b). O paralelo em Mateus acrescenta uma referência a um clam or de trombeta (Mt 24.31; cf. 1 Ts 4.16c), ao passo que Mateus e Marcos c o n t i ­


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nuam falando de uma congregação de todo o povo de Deus (Mt 24.31; Mc 13.27; cf. 1 Ts 4 .1 5 ,17).21 O fato de que a "palavra do Senhor" se refere aos ensinamentos de Jesus no Apocalipse Sinótico, como Marcos 13 e passagens paralelas são frequentemente chamadas, é reforçado por alusões ainda mais cla­ ras em 1 Tessalonicenses 5. Nos versículos 2 e 4, a vinda de Cristo é comparada à chegada surpresa de um ladrão durante a noite. Essa é uma metáfora tão incomum e assombrosa (especialmente uma vez que Cristo era reverenciado, mas os ladrões são considerados maus), que Paulo provavelmente não a teria inventado. Quando vemos Jesus na sua parábola do pai de família, em pregando a metáfora idêntica para uma realidade idêntica (Mt 24.43,44; Lc 12.39,40), temos praticamente certeza de que Paulo está fazendo alusão a esta passagem em particu­ lar. A repentina chegada do fim, quando as pessoas pensam que o mun­ do continuará normalmente (1 Ts 5.3), combina com o ensinamento de Jesus na seção imediatamente anterior do Sermão das Oliveiras (Mt 24.37-42). A metáfora das dores do parto, no mesmo versículo, corres­ ponde a Marcos 13.8 e passagens paralelas. Estar sóbrios e vigilantes, como filhos do dia (1 Ts 5.4-6) repete o chamado à vigilância, em Marcos 13.33, e toda a parábola das virgens, em Mateus 25.1-13 (cf. também os servos vigilantes em Lucas 12.35-38, que pode, originalmente, ter feito parte do mesmo sermão).22 2 Tessalonicenses 2.3-6 oferece vários equi­ valentes à descrição da abominação da desolação em Marcos 13.14-20 e passagens paralelas. Uma vez mais, Paulo parece ter conhecido todo o sermão de Jesus e se refere a ele em várias ocasiões diferentes.2:1 E as parábolas e metáforas citadas estão entre as passagens, nos Sinóticos, mais amplamente consideradas com o autênticas, até mesmo por acadê­ micos céticos de grandes porções da tradição do Evangelho. As linhas de continuidade entre Paulo e o Jesus histórico novamente superam as diferenças. O u t r a s P o s s ív e is A E s c r it o s d e P a u l o

lu sõ es aos

E n s in o s

de

C

r is t o n o s

Nós podemos facilmente nos entusiasmar, procurando por alusões ou ecos aos ensinamentos de Jesus. Uma palavra ou frase normalmente não é suficiente para estabelecer uma dependência direta, embora de­ terminados acadêmicos tenham exercido considerável esforço tentan­ do ampliar os possíveis pontos de contato entre Jesus e Paulo.24 Mas a lista a seguir, de paralelos provavelmente intencionais, embora talvez


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incluindo um ou dois itens além do que a evidência justifica, parece atingir um razoável equilíbrio entre poucas e excessivas alusões adi­ cionais.9' 1 Coríntios 13.2, com sua proverbial referência à fé que pode m o­ ver m ontanhas, possivelmente seja uma alusão à promessa de Jesus em Marcos 11.23,24, sobre os discípulos sendo capazes de ordenar que um monte se levante e se lance no mar. O paralelo de Mateus acrescenta uma referência explícita à "fé " na primeira parte destas palavras (Mt 21.21); as duas versões se referem à crença na segunda parte. Mateus 17.20 descreve palavras similares de Jesus, com referência à fé, tão pe­ quena como um grão de mostarda. 1 Coríntios 1 - 2 , com seu contraste entre as pessoas que este mundo considera sábias e aquelas a quem Deus se revela, contém inúmeros ecos dos pronunciamentos de Jesus em Mateus 11.25-27 e Lucas 10.21­ 22 em que Deus mostra a sua vontade, exclusivamente por intermédio do seu Filho, e não àqueles que são considerados sábios na terra, mas às "criancinhas". Paralelos verbais incluem as palavras gregas para sa­ bedoria, entendimento, o bom prazer de Deus, o que ninguém conhece, o contraste entre o sábio e o louco, e as palavras para escondido, olhos, ver e ouvir.2*’ Em 1 Tessalonicenses 4.8, Paulo exclama: "Portanto, quem despreza isto não despreza ao homem, mas, sim, a Deus, que nos deu também o seu Espírito Santo". Esse princípio pode aludir ao ensinamento do próprio Jesus, em Lucas 10.16: "Quem vos ouve a vós a mim me ouve; e quem vos rejeita a vós a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita rejeita aquele que me enviou". E interessante que a alusão novamente reflete as palavras missionárias de Jesus, confirmando as nossas sus­ peitas anteriores sobre o conhecim ento de Paulo de blocos inteiros de tradição.27 Gálatas 1.15,16 descreve a conversão de Paulo quando Deus desejou revelar o seu Filho "em " Paulo, sendo que depois disso Paulo não con­ sultou "carne nem sangue" — isto é, outros seres humanos. Uma vez que Paulo está defendendo o seu chamado apostólico, tão autorizado como o de Pedro, e uma vez que ele, em breve, irá descrever como teve que se opor a Pedro diretamente, em Antioquia (2.11-14), é tentador suspeitar de uma alusão à resposta do próprio Jesus a Pedro, quando o confessou como Messias: "não foi carne e sangue quem to [ou "em " ti] revelou, mas meu Pai, que está nos céus" (Mt 16.17). Embora esse trecho do episódio não seja encontrado no Evangelho de Marcos, há


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inúmeros semitismos nos acréscimos de Mateus que sugerem a proba­ bilidade de que Jesus realmente tenha dito essas coisas.28 Os leitores de 1 Coríntios 5.1-5 frequentemente se perguntam como adequar os mandamentos de Paulo para excomungar o membro in­ cestuoso da igreja, com os princípios de Jesus, em M ateus 18.15-17. E possível que os passos menos dramáticos, definidos na primeira parte desta última passagem, já tivessem sido tomados sem alcançar o efeito desejado. De qualquer forma, é surpreendente que as ordens de Paulo, de entregar o homem a Satanás (v. 5) — pelo menos, a exclusão da co­ munhão — reflita precisamente as medidas extremas que Jesus invoca, se todo o resto falhar, no final das suas instruções. Em Gálatas 5.14, Paulo explica que "toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta: Amarás o teu próximo como a ti m esm o". Essa conclu­ são corresponde intimamente à declaração de Jesus de que toda a lei e os Profetas "dependem " do duplo mandamento de amor do Antigo Testamento (a Deus e ao próximo) (Mt 22.40). Tanto Jesus como Paulo ci­ tam explicitamente Levítico 19.18 nestes dois contextos; não é provável que cada um deles tivesse escolhido independentemente o texto idênti­ co, para fazer parte de seus sumários do(s) maior(es) mandamento(s). Colossenses 1.5,6 descreve "a palavra da verdade do evangelho" como "frutificando" e "já em todo o mundo". Embora metáforas simi­ lares de agricultura fossem suficientemente comuns no judaísmo antigo, podemos pensar na parábola do semeador, contada por Jesus, que tam­ bém relaciona a pregação da Palavra ao semeador; e algumas sementes crescem o suficiente para produzir frutos (Mc 4.3-9). Uma vez que uma variedade de outros textos, nas epístolas de Paulo, parecem ecoar a lin­ guagem dessa parábola e/ou da sua interpretação (vv. 14-20) — muito notavelmente 1 Tessalonicenses 1.6 e 2.13, sobre receber a palavra com alegria, a despeito da perseguição, e aceitar a palavra que se ouvia — é muito possível que Paulo estivesse familiarizado com a própria parábo­ la. Curiosamente, em Atos 17.18, alguns dos filósofos de Atenas insultam as palavras de Paulo, chamando-o de spermologos — eti mo logicamente, um "paroleiro", uma palavra rara, expressão vulgar em grego, para um orador de segunda classe, que meramente repete a filosofia de outra pes­ soa, sem compreendê-la realmente. Alguém se perguntaria por que a eli­ te cultural dos filósofos se curvaria para usar esta expressão, a menos que ela capturasse particularmente bem uma das ênfases de Paulo — falar sobre sementes. Paulo poderia ter usado o semeador e outras parábolas sobre sementes de Jesus amplamente no seu ensino?21’


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Ao longo das cartas de Paulo, o contraste entre "carn e" e "Espírito" ou "esp írito" tem um papel importante (veja, por exemplo, G1 5.16,17; Rm 8.12,13; 1 Co 3.1-3). No idioma grego, de m odo geral, "carn e" nor­ malmente não tem o sentido que emprega Paulo, de "natureza hum a­ na pecadora". O contraste também não é comum nos Evangelhos, mas as palavras de Jesus aos seus mais íntimos seguidores, no jardim do Getsêmani permitem um paralelo assombroso: "O espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca" (Mc 14.38). Parece provável que Paulo estivesse familiarizado com a tradição das palavras significativas que Jesus proferiu durante a sua agonia. Muitos textos de Paulo se referem a servir uns aos outros, e frequen­ temente usam Cristo como modelo de servo (por exemplo, Rm 15.1­ 4; 1 Co 10.33-11.1). Particularmente digno de nota é o famoso "h in o" em Filipenses 2.5-11, em que a piedosa condescendência de Cristo para com a humanidade na encarnação é descrita com o "tom ando a forma de servo" (v. 7). Podemos suspeitar que Paulo possa estar repetindo a declaração do próprio Jesus de que "o Filho do Flomem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos" (Mc 10.45).''° 2 Coríntios 1.17 apresenta Paulo descrevendo a sua mudança nos planos de viagem, não em razão de sua inconstância, mas devido à m u­ dança da situação em Corinto. Provavelmente antecipando acusações contra ele, pergunta: "deliberando isso, usei, porventura, de levianda­ de? Ou o que delibero, o delibero segundo a carne, para que haja em mim sim, sim e não, não?" Essa é uma maneira curiosa de descrever a vacilação nos planos, a menos que Paulo e/ou os coríntios estejam re­ petindo as instruções de Jesus, sobre juramentos, em Mateus 5.37: "Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não, porque o que passa disso é de procedência m aligna". Várias observações interessantes emergem desta lista de possíveis alusões. Para começar, muitas se originam de palavras de Jesus, ampla­ mente aceitas como autênticas, de modo que Paulo está demonstrando não o mero conhecimento da tradição do Evangelho, mas o conheci­ mento sobre o Jesus histórico. Em segundo lugar, a maioria se origi­ na das cartas indiscutíveis de Paulo (com a exceção de Colossenses, que m uitos acadêmicos, no entanto, consideram de autoria de Paulo). Em terceiro lugar, o fato de que Paulo faça alusões a ensinamentos de Jesus, em lugar de citá-los literalmente, requer que os seus ouvintes estivessem familiarizados com a tradição, com certo nível de detalhes,


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de modo que reconhecessem as alusões.31 Finalmente, como muitos dos textos citados mais diretamente (assim como os textos aos quais são fei­ tas alusões) não são formalmente descritos como palavras do Senhor, é provável que outras passagens, nas epístolas de Paulo, também aludam a palavras de Jesus, não preservadas na tradição do evangelho (compa­ re o versículo m emorável em Atos 20.35).32

O Conhecimento de Paulo de outros Elementos da Tradição do Evangelho O capítulo 1 apresentou uma lista básica com as mais sólidas carac­ terísticas da vida de Jesus, além dos ensinamentos explícitos, de que Paulo demonstra ter conhecimento. Stanley Porter apresenta uma lista comparativa do que Paulo parece "conhecer sobre Jesus, o homem": Ele nasceu com o humano (Rm 9.5) de uma mulher, e sob a lei, isto é, como judeu (Cl 4.4); Ele nasceu da descendência de Davi (Rm 1.3; 15.12); embora não fosse como Adão (Rm 5.15), Ele linha irmãos, incluindo um chamado Tiago (1 Co 9.5; Gl 1.19); Ele fez uma refeição na noite em que foi traído (1 Co 11.23-25); Ele foi crucificado e morreu em uma cruz (Fp 2.8; 1 Co 1.23; 8.11; 15.3; Rm 4.25; 5.6, 8; 1 Ts 2.15; 4.14, etc.), foi sepultado (1 Co 15.4) e ressuscitou três dias depois (1 Co 15.4; Rm 4.25; 8.34; 1 Ts 4.14, etc.) e posteriorm ente foi visto por Pedro, os discípulos e outras pessoas ( I Co 15.5-7).1'1

Mas provavelmente poderíamos ampliar esta lista. "N ascido de m ulher", em Gálatas 4.4, é muito estranho, se tudo o que Paulo quer dizer é que Jesus era verdadeiram ente humano, e talvez ele esteja fazendo alusão à tradição de uma concepção virgi­ nal — isto é, nascido somente de uma mulher e não também de um hom em .34 As palavras de Paulo sobre a salvação em Jesus, "que nos livra da ira futura", podem indicar o conhecimento do ensino de João Batista às multidões, sobre a fuga da ira futura de Deus (Mt 3.7). O fato de que Paulo acreditava no batismo como o rito de iniciação para os cristãos, sugere que ele conhecia o batismo de João, de modo geral, e o respaldo que Jesus dá a João, quando concorda em ser batiza­ do por ele (Mc 1.9-11). Mas pode haver uma alusão ainda mais especí­ fica à descida do Espírito sobre Jesus no seu batismo, quando Gálatas


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4.6 proclama que "Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho".35 ‘ 2 Coríntios 5.21 declara a pureza de Cristo, e que Ele jam ais pecou; isso exige um considerável conhecimento dos detalhes da sua vida. Esta afirmação também pode sugerir que Paulo conhecesse a história da bem -sucedida resistência de Jesus às tentações do Diabo, no início do seu m inistério, uma ocasião que talvez fora a maior ameaça à com ­ pleta ausência de pecados na vida de Jesus, quando comparada a qual­ quer outro momento de sua vida (Mt 4.1-11). Em 1 Coríntios 1.22, Paulo faz a generalização: "O s judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria". Quanto aos gregos, isso é eviden­ te, com base no ministério de Paulo por todo o mundo greco-romano, como revelam o livro de Atos e também as epístolas. Mas nada, em ne­ nhuma outra passagem destes livros, mostra que os judeus exigissem sinais de Paulo. Nos Evangelhos Sinóticos, no entanto, alguns líderes judeus repetidas vezes pedem que Jesus realize um milagre, como um sinal completamente convincente da sua identidade. Sempre que Cristo sente que tal pedido se origina meramente de um coração endurecido, que deseja zombar dEle ou insultá-Lo, Ele se recusa a atendê-lo (Mc 8.11-13; Mt 12.38,39; Lc 23.8,9; Jo 4.48). Provavelmente Paulo tem em mente esses tipos de situações.1'’ O interesse de Paulo pelos pobres, que em nenhuma passagem é apresentado com mais detalhes do que em 2 Coríntios 8.9, claramente se inspira no modelo de Cristo: "Já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, por am or de vós se fez pobre, para que, pela sua pobreza, enriquecêsseis" (8.9). No contexto, esta declaração não precisa significar nada além do fato de que Cristo renunciou às incomparáveis glórias e riquezas do céu para assumir as drásticas limitações da vida na terra. Mas também poderia refletir o conhecimento que tem Paulo do estilo modesto de vida que Cristo adotou. No seu nascimento, a sua família era pobre demais para oferecer os sacrifícios animais costumei­ ros, de m odo que tiveram permissão de substituir estes sacrifícios por aves (Lc 2.24; cf. Lv 12.8). Com o carpinteiro, durante os seus anos de mocidade, Jesus pode ter alcançado o nível do que hoje chamaríamos de classe média baixa.37 Mas a sua adoção voluntária de um ministério itinerante, em que dependia da hospitalidade de outras pessoas, sig­ nifica que muito provavelmente Ele teria estado, ocasionalmente, em um nível mais próximo da linha de pobreza (cf. especialmente Lc 8.1-3; 9.57,58). E Paulo poderia saber de tudo isso, especialmente uma vez


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que ele parece vir de uma condição mais próspera e conscientemente imitou Cristo, abandonando seus recursos para adotar a vida difícil do ministério itinerante.38 Em 2 Coríntios 3.18, Paulo descreve os crentes como "transformados de glória em glória, na mesma im agem ", usando o mesmo verbo grego que é encontrado nos relatos do Evangelho para a transfiguração de Jesus (Mc 9.2). Uma vez que o contexto mais amplo de 3.1; 4.6 exploram os níveis contrastantes de glória, entre o antigo e o novo concerto, cor­ respondente ao brilho no rosto de M oisés quando ele desceu do monte Sinai em com paração com o brilho maior de Jesus, é natural suspeitar que Paulo conhecesse a história de Cristo no monte da Transfiguração.39 Se realmente conhecia, então uma sugestão mais especulativa é mais provável. O mesmo original hebraico ou aramaico pode fundamentar as palavras gregas normalmente traduzidas como "colu nas" e "em pé'', o que nos leva a nos perguntar se a razão por que Paulo diz que os apóstolos líderes em Jerusalém eram considerados as "colunas" (Cl 2.9) era o fato de que três deles estavam "em pé" na presença de Jesus, quando Ele viu o reino de Deus vir com poder, na Transfiguração, como predisseram Marcos 9.1 e passagens paralelas.41’ Eu já mencionei que Paulo pode ter tido conhecimento dos ensinos de Jesus, sobre vir, não para ser servido, mas para servir. Mas provavel­ mente ele conhecia muitos detalhes sobre a vida de Cristo, que seriam correspondentes a um modelo mais amplo de liderança servil, por causa dos repetidos ensinamentos de Paulo sobre este tema. Particularmente interessante é 2 Coríntios 10.1, em que Paulo se refere à "m ansidão e benignidade de Cristo'' (ainda que ironicamente), sugerindo um conhe­ cimento desta conduta característica do Senhor, e talvez até mesmo das bem-aventuranças, que especificamente recomendavam um comporta­ mento similar entre os discípulos.41 Inúmeros textos de Paulo recomendam a imitação de Cristo. As ve­ zes, a ordem é dada explicitamente (1 Co 11.1; 1 Ts 1.6); frequentemente é mais implícita (Fp 1.21; 2 Co 3.18; Rm 6.17; 8.15,16; 13.14; 15.1-6). De qualquer maneira, este tema requer conhecimento detalhado do com­ portamento de Jesus.42 Uma vez mais a nossa lista pode ser ampliada, m as alguns itens se­ riam mais especulativos. Usando somente as epístolas incontestáveis, e fazendo referência a elementos dos Evangelhos normalmente consi­ derados abundantemente autênticos, eu compilei uma lista significati­ va de itens sobre a vida de Cristo que Paulo provavelmente conhecia.


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A lista possivelm ente reflete apenas uma pequena quantidade do que Paulo realmente conhecia, uma vez que estes dados, como as alusões ao ensinamento de Jesus, em ergem somente quando as questões nas igre­ jas locais justificavam a referência a estes ensinamentos. E inerentem en­ te provável que alguém que tinha perseguido tão zelosamente a Igreja, e então experimentado tal reviravolta depois da experiência na estrada para Dam asco, tivesse desejado conhecer uma grande quantidade de informações históricas a respeito de Jesus de N azaré.11 A curiosidade normalmente gera interesse histórico nas pessoas a quem o indivíduo se opõe fortemente ou serve. 14 As noções análogas, de que (1) há pouca indicação nas epístolas de Paulo de que ele tivesse conhecimento do Jesus histórico, e (2) que Paulo teria pouco interesse no tema, provam ser altam ente improváveis.

Razões para o Silêncio que Persiste Mas mesmo que todo o meu argumento prove ser convincente até aqui, é natural perguntar por que não há referências ainda mais ex­ plícitas às palavras e obras de Jesus. (A questão se parece, em parte, à questão do capítulo 1, sobre o motivo por que não há mais abordagem não-cristã sobre Jesus). Sob certo ponto de vista, posso afirmar que é surpreendente que tenhamos de fa to encontrado tanto, em vista do pou­ co ou nenhum conhecimento que Paulo tinha de Jesus durante o início da sua vida, a sua personalidade e o seu ministério independentes, o contexto modificado da sua m issão no mundo greco-romano, e outros motivos. No entanto, há muitas outras coisas que podem ser ditas em resposta à pergunta "por que não há m ais?"4 Em primeiro lugar, devemos nos lembrar de que nenhuma das cartas de Paulo reflete a sua evangelização inicial das comunidades às quais ele escrevia. Sem dúvida, quando Paulo e outros pregadores cristãos da prim eira geração apresentavam o Evangelho às pessoas que não o tinham ouvido anteriormente, tinham que contar a história de Jesus com algum nível de detalhes. Mas nenhuma das epístolas reflete este estágio do m inistério; na verdade, elas o pressupõem e o aproveitam e ampliam. Em resumo, os ouvintes de Paulo sempre conheciam a histó­ ria básica da vida, morte e ressurreição de Jesus. Se não a conhecessem, não teriam se tornado cristãos! Os sermões no livro de Atos que re­ presentam a pregação evangelizadora inicial são resumos drasticamente abreviados do que seriam m ensagens claramente muito mais extensas. Ainda assim, podemos detectar um esquema do que deve ter incluído


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consideráveis informações sobre os ensinamentos e as obras de Cristo. Atos 10.36-38 reflete este esquema com mais clareza: A palavra que ele [Deus] enviou aos filhos de Israel, anunciando a paz por Jesus Cristo (este é o Senhor de todos), esta palavra, vós bom sabeis, veio por toda a Judeia, com eçando pela Galileia, depois do batism o que João pregou; como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimi­ dos do diabo, porque Deus era com ele.

C. H. Dodd exagerou apenas ligeiramente, quando sugeriu que este esquema poderia ter servido de estrutura para a narrativa escrita pelo primeiro autor dos Evangelhos, M arcos."’ F. D. Moule mostra que um padrão similar pode ser detectado, de maneira genérica, em vários ou­ tros sermões no livro de Atos.'17 Em segundo lugar, nenhuma das outras epístolas do Novo Testamento tem um número maior ou referências mais claras à vida e aos ensinamentos de Jesus, mesmo as cartas escritas em épocas sufi­ cientemente tardias para que tivessem conhecimento e fizessem uso dos Evangelhos escritos. Nós vimos, no capítulo I, que a epístola de Tiago e a primeira epístola de Pedro têm, cada uma delas, algumas alusões, mas não citam Cristo diretamente As suas datas, no entanto, são alvo de discussão. As cartas que os acadêmicos conservadores e liberais, de igual maneira, normalmente datam de um período suficientemente tardio para que tenham conhecimento dos quatro Evangelhos, sáo as epístolas de João. Sejam o produto do próprio apóstolo, ou de uma "es­ cola joanina" dos seus seguidores, certamente era de se esperar que fi­ zessem referência às palavras e ao ministério de Jesus, apresentados no Quarto Evangelho, similarmente escrito por João ou seus seguidores. Mas as três epístolas de João imo contêm nenhuma alusão incontestável; a única alusão claramente possível envolveria o mandamento de amor de Jesus (compare 1 Jo 2.7-11 com Jo 15.9-17). Assim, parece que as epís­ tolas simplesmente não são o lugar onde podemos esperar encontrar muitas referências aos detalhes da vida de Cristo. Em terceiro lugar, estes dois primeiros itens sugerem que as epístolas representam um gênero literário que, na opinião dos primeiros cristãos, não era adequado à disseminação de informações históricas básicas so­ bre o Jesus terreno. Eles não estavam acostumados ao que nós costuma­ mos chamar de "instruções de discipulado" para os fundamentos da fé.


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Essa conclusão é corroborada pela literatura epistolar da primeira m e­ tade do século II. Novamente, podemos encontrar um número razoável de alusões verbais às palavras de Jesus e algumas citações mais diretas, mas não em maior proporção às referências que há nas epístolas de Paulo. Isto se modifica quando passamos para a segunda metade do século II, época em que os Evangelhos já são claramente considerados como Escrituras e são citados mais diretamente e com mais frequência, como poderíamos ter esperado que as epístolas anteriores tambem fi­ zessem. Mas se o período de 100-150 d.C. náo revela ainda este padrão, certamente não deveríamos esperar vê-lo em cartas que já tinham sido escritas por Paulo nos anos 40, 50 e 60 do século I.4fi Em quarto lugar, a primeira geração do cristianismo reconheceu rapidam ente que os aspectos mais importantes sobre a vida de Jesus eram a sua morte e ressurreição. Os seus ensinamentos éticos e os seus poderosos milagres, em última análise, teriam se provado irrelevantes, se Ele não fosse quem dizia ser, um Messias divino que veio para expiar os pecados do mundo e derrotar a morte. Assim, quando Paulo se refere ao Jesus terreno, é mais frequente que seja ao clímax da sua vida — quer dizer, à sua morte e ressurreição (por exemplo, Gl 3.10-14; 1 Co 2.1-4; 15.1-58; 2 Co 5.11-21; Rm 3.21-31). Outra maneira de deixar isso claro é observar que Paulo, como os demais autores do Novo Testamento, considerava os eventos da cruz, do sepulcro vazio, da exaltação e de Cristo enviando o Espírito no Pentecostes, o início de uma nova era na história da redenção. Depois do Pentecostes, existiram coisas muito mais importantes a ensinar sobre Jesus do que apenas o seu ministério terreno em Israel, por mais significativo que fosse.49 Em quinto lugar, como mostrará a próxima seção, há uma abundan­ te continuidade entre Jesus e Paulo, em temas teológicos mais amplos, pressupondo um conhecimento abrangente da tradição de Jesus, até mesmo quando citações, alusões, ou repetições não estão explicitamen­ te presentes. Quanto mais estam os de acordo com a tendência acadê­ mica atual de reconhecer Paulo como apoiado em antecedentes cristãos judaicos mais antigos e não em helenistas mais recentes, mais esta será a conclusão natural.51’ Em sexto lugar, o mesmo sentido de orientação ou inspiração divina que deu a Paulo a liberdade de declarar cada palavra como sendo um ministério apostólico tão autorizado como os que tinham os líderes da igreja em Jerusalém (veja especialmente Gl 1 - 2; 1 Co 9; 2 Co 10 - 13) também lhe dava a liberdade de escrever as coisas usando as suas pró­


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prias palavras. Se ele podia citar ou fazer alusão ao Antigo Testamento, sem estar limitado pelas suas palavras ou pelo seu sentido original, em muitos casos, em razão da sua percepção do que Deus estava dizendo, por intermédio do texto, ao seu povo, em uma nova era, certamente também podia promulgar uma doutrina autorizada e um comporta­ mento ético, sem citar, de modo enfadonho ou insípido, as palavras de Jesus a cada momento. E mesmo quando ele realmente se referia às palavras de Jesus, elas formavam uma tradição "viva, tradição que evidentemente era adaptável a diferentes necessidades e diversos con­ textos", sob uma forma que "ainda não estava definida".51 Na verdade, é possível que as tradições das próprias palavras de Jesus existissem em duas formas separadas, uma mais fixa, por causa do uso específico (como a tradição litúrgica da Ultima Ceia) e outra, provavelmente uma coletânea muito maior e mais fluida, por analogia às abordagens judai­ cas da Torá oral e escrita, respectivamente.52 Em sétimo lugar, qualquer que fosse o grau em que os apóstolos de Jerusalém ou emissários que afirmavam representá-los enfatizassem seus laços pessoais com o Jesus histórico (At 15;GI 1 - 2 ) , laços aos quais Paulo sabia que não poderia se equiparar, ele poderia ter preferido conscientemente se distanciar da tradição das obras e palavras terrenas de Jesus. Ao contrário, somente se concentrando no seu encontro d ire'to com o Senhor ressuscitado, e no seu subsequente chamado e na missão recebida dEle, Paulo podia esperar convencer as pessoas da exatidão da sua mensagem, e da autoridade que tinha para promovê-la. Em resumo, qualquer que seja a maneira como avaliamos até que ponto Paulo conhecia e utilizava a tradição sobre Jesus, há inúmeras razões por que não a vemos com mais frequência e mais explicitamente nas suas epístolas. Mas talvez seja mais fácil subestimar do que superes­ timar o quanto realmente aparece em suas epístolas, e o quanto Paulo realmente conhecia.

Comparações Teológicas mais Abrangentes Pelo m enos tão importante quanto à questão do conhecim ento específico de Paulo a respeito da vida de Jesus é a questão da sua congruência com o pensam ento de Jesus. Talvez Paulo tivesse um co­ nhecim ento razoavelm ente detalhado do Jesus histórico, mas isso não assegura que concordasse com Ele! Para avaliar as reivindicações de que Paulo foi o verdadeiro fundador (ou pelo m enos, um segundo fundador) do cristianism o, devem os também com parar o que os dois


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ensinavam , e em que acreditavam , como essencial ao seu entendi­ mento religioso. Aqui, naturalm ente, retornarem os à questão polêm i­ ca sobre quais partes do Evangelho podem ser aceitas com o m aterial autêntico de Jesus. O capítulo anterior justificou poderosam ente a aceitação de grandes porções deste m aterial, mas isso ainda é dife­ rente de defender a autenticidade de palavras e obras em separado. Na pesquisa a seguir, portanto, em grande parte m e limito às caracte­ rísticas da tradição do Evangelho que são am plam ente consideradas como sendo históricas. Isso quer dizer que grande parte das m inhas com parações serão com as características dos Evangelhos Sinóticos, e não com o de João, apesar da possibilidade de defender a autentici­ dade do Evangelho cie João. Isso também quer dizer que farei as m i­ nhas com parações com elem entos da tradição aceitos por um am plo consenso de acadêm icos m oderados, e não me limitarei ao quadro muito truncado do Seminário Jesus. Nos casos em que me baseio em detalhes mais duvidosos, cito estudos específicos que me convence­ ram da autenticidade destes detalhes, mesm o que representem vozes m inoritárias. Quanto a Paulo, nós podem os confiar plenam ente nas sete cartas incontestáveis (Gálatas, 1 Tessalonicenses, 1 e 2 Coríntios, Romanos, Filipenses e Filem on) e ainda ter uma amostra adequada dos seus tem as principais.'’3 A J u s t if ic a ç ã o

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Poucos discutiriam que um tema essencial da teologia de Paulo en­ volve a justificação pela fé — ser justificado com Deus, não pelas obras da lei, mas pela pura confiança na misericórdia e na graça de Cristo (veja especialmente G1 1 - 4 e Rm 1 - 5 ) . Ainda menos pessoas dis­ cordariam da declaração de que o Reino de Deus, presente e futuro, formava a essência da proclamação de Jesus. Certamente, este exemplo já é suficiente para mostrar o quanto Paulo estava afastado de Jesus. De fato, um olhar mais atento a ambos os conceitos revela exatamente o oposto. "Justificação" era uma m etáfora legítima comum no mundo grecoromano do século I para a absolvição de uma pessoa perante um tri­ bunal. Quando Paulo declara que os seres humanos são justificados com Deus somente pela fé, e não por obras da lei, ele está utilizando o uso m etafórico de "justificação", ou dikaiosunS em grego. Mas a pala­ vra tam bém tem o sentido de "retidão". Teologicamente, Paulo enfatiza que Deus nos "im puta" a "retidão" de Cristo quando confiamos nEle


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para a nossa salvação. Assim o nosso Pai celestial olha para nós, e vê, não a nossa natureza pecaminosa, mas a natureza sem pecado de Jesus. Somente desta maneira nós somos "purificados" para comparecer e vi­ ver na presença de um Deus perfeitam ente justo e santo. Mas a "retidão" de Deus não se refere meramente à sua santidade, mas também ao fato de que Ele é justo. Na verdade, não há uma pala­ vra específica no grego das cartas de Paulo para designar o fato de que Ele é "ju sto "; dikaiosunSe suas cognatas cumprem dupla função, para ambos os conceitos. Nós devemos rever as nossas traduções e substi­ tuir a palavra "retidão" por "justiça", sempre que nos depararmos com esta, para determ inar o significado adicional que pode estar presente. Então reconheceremos que Deus não apenas nos "im pu ta" uma nova postura, diante dEle, como nos dá a responsabilidade, e a autorização, "em Cristo", para começar a implementar os seus padrões de justiça em nossas vidas e neste mundo.'’4 De repente, "justificação" já não parece tão afastada da noção de Jesus do Reino de Deus. A palavra grega para "reino" é basileia, tradução de um termo hebraico subjacente, malkiith. Nos dois idiomas, "reino" se refere mais a um poder do que a um lugar, mais a um reino do que a um domínio. "Realeza" pode traduzir melhor o conceito, ou, como Ben Witherington gosta de traduzir, "o domínio de D eus".w Quando ob­ servamos o grande paralelismo sinônim o na oração do Senhor "Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade, tanto na terra como no céu" (Mt 6.10), reconhecemos que Deus inicia o seu Reino na terra para que os seus padrões de justiça influenciem o comportamento de seus súditos, de forma individual, corporativamente e a tal ponto que possam ser o sal e a luz da sociedade (Mt 5.13-16), até mesmo transformando um mundo corrompido. Paulo pode ter usado uma expressão completa­ mente diferente, muito mais conhecida dos gregos e romanos, entre os quais ele ministrava, do que a noção teocrática e muito judaica do reino de Deus, mas dificilmente teria distorcido o espírito da proclamação de Jesus. Além disso, Paulo continua a se referir ao "Reino de D eus", ainda que não tão frequentemente como Jesus. E essas referências refletem o mesmo alcance básico das dimensões presente e futura do Reino, como vemos nos Evangelhos (compare, respectivamente 1 Co 4.20,21; Rm 14.17; e Cl 4.10; com 2 Ts 1.5-12, especialmente o versículo 5; 1 Ts 2.11,12; G1 5.21; 1 Co 6.9,10 e 15.50).56 Por outro lado, Jesus fala sobre a "fé", como algo fundamental para a resposta de um indivíduo com


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relação a Ele, em inúmeras passagens, particularmente insistindo no seu uso — quatro vezes — do slogan "a tua fé te salvou" [ou "te fez bem "], em Marcos 5.34, e paralelas, Marcos 10.52, e paralelas, Lucas 7.50 e 17.19.57 Reconhecidamente, o grupo de palavras dikai- não é tão comum. "Justiça", como substantivo, aparece principalmente no tex­ to de M ateus, referindo-se a um comportamento reto, ao passo que as raras ocorrências de "justificar" como verbo nos Evangelhos norm al­ mente significam "confirm ar". Mas Lucas 18.14 conclui a parábola do fariseu e do publicano com um pronunciamento de Jesus, de que o úl­ timo foi para casa "justificado", e o primeiro, não. O verbo é idêntico, em forma e em significado, ao uso favorito de Paulo. E a oração do pu­ blicano a Deus — literalmente, "tem misericórdia de m im " — emprega o verbo que é cognato ao termo essencial de Paulo, hilasterion para um sacrifício de expiação que aplaca a ira de Deus (cf. Rm 3.5). Combine tudo isso com a imagem do publicano orando, em uma postura de total dependência de Deus, e não de si mesmo, reconhecendo a sua abjeta pecaminosidade, e não devemos nos surpreender quando F. F. Bruce declara que esta parábola é um dos fragmentos mais "paulinos" de en­ sinamento, encontrados nos Evangelhos.58 Ao incorporar uma significativa porção da ênfase de Jesus no seu uso de "justificação pela fé", Paulo não está fazendo uma mudança de terminologia mais drástica do que João quando ele, também, usa "R eino" muito raramente (somente em João 3.3,5, e 18.36), mas norm al­ mente substitui "vida eterna" pela mesma ideia, quando fala ao seu pú­ blico muito mais helenista.59 Na verdade, o relato de Mateus do diálogo de Jesus com o rico príncipe mostra como vários termos se tornaram intercambiáveis no pensamento cristão daquela época. O jovem pergunta, "que bem farei, para conseguir a vida eterna?” (Mt 19.16). Jesus responde em termos de entrar no reino do céu e no reino de Deus (vv. 23,24) e os discípulos prosseguem com sua pergunta sobre quem pode ser salvo (v. 25) — o termo evangélico contemporâneo mais comum para o processo! O P apel

da

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Nenhum tema teológico, entre os ensinamentos de Jesus e Paulo, gerou m ais interesse acadêmico recente do que a maneira como eles tra­ tam a Lei do Antigo Testamento. Claramente, nenhum deles acreditava que a Lei pudesse "salvar" uma pessoa. Mas nenhum deles descartou nenhuma porção das Escrituras hebraicas como irrelevantes ou não


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mais válidas para os crentes. Entre esses dois extremos, no entanto, am­ bos os professores foram acusados, na melhor das hipóteses, de estar em desacordo um com o outro, e, na pior das hipóteses, de contradizer a si mesmos.“ No entanto, novamente, um olhar mais atento revela muito mais o que Paulo e Jesus têm em comum. Desde a Reforma, intérpretes protestantes reconheceram três prin­ cipais propósitos para a Lei, no modo de pensar de Paulo — apontar a extensão do pecado humano e, consequentemente, a necessidade de um Salvador, dissuadir o pecado, para evitar que se tornasse ainda mais difundido, e funcionar como um guia moral (mas não civil nem cerimonial) para o comportamento cristão. Estes três propósitos podem ser encontrados na epístola aos Gálatas (veja 3.19,20; 3.21-4.7; 3 5.13-26, respectivamente) e com frequência em outras passagens (mais notavel­ mente, Rm 4-7). Intérpretes protestantes continuadamonte deixaram de captar importantes distinções entre Jesus e Paulo, e interpretaram ensinamentos, com o o Sermão da Montanha de Cristo, como se Paulo o tivesse escrito, e como se ele refletisse exigências legais impossíveis, designadas a nos deixar de joelhos para confiar em Jesus, e abandonar tentativas de obedecer à Lei. De modo geral, no entanto, Jesus não im­ põe um comportamento ético, em conformidade com os dois primeiros usos que Paulo faz da Lei. Por outro lado, há uma considerável sobreposição entre o apelo de Jesus às Escrituras legais e o terceiro uso que Paulo faz da Lei (ou tertms iisus legis, como os reform istas o chamaram). Mateus 5.17-20 condensa o entendim ento básico de Jesus sobre a função da lei, em consideração à sua vinda: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim ab-rogar, mas cum prir". O Senhor Jesus conside­ ra todo o A ntigo Testamento com o uma autoridade; mas, ao mes­ mo tempo, Ele não se limita a aceitar este status quo. "C um prir" a Lei, como exem plificado pela subsequente "an títese" do Sermão da M ontanha (5.21-48) significa que Cristo se tornou o intérprete sobera­ no dela, algum as vezes internalizando-a ou radicalizando-a, às vezes transcendendo ou excedendo-a, mas, de maneira algum a, deixando-a intocada.1M Precisam ente porque está iniciando a era do reino, seus seguidores terão que com preender como a sua encarnação, o seu en­ sinamento, a sua morte e ressurreição redefinem a vontade de Deus para uma nova era da história humana. É interessante que Paulo use o mesmo verbo em sua declaração em Gálatas 5.14: "Porque toda a lei se cumpre numa só palavra, nesta:


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Amarás o teu próximo como a ti m esm o". Paulo repete o verbo nova­ mente, alguns versículos mais adiante, em 6.2: "Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de C risto". A expressão "Lei de C risto" aparece novamente em 1 Coríntios 9, como, de alguma maneira, equi­ valente a "Lei de Deus para a era cristã", quando Paulo descreve como tenta ser todas as coisas para todas as pessoas, de modo que possa sal­ var a algumas (vv. 19-23). Mas, ao se tornar como alguém que não tem a Lei de Moisés, pregando entre os gentios, ele "não está sem lei para com Deus, mas [está] debaixo da lei de C risto" (v. 21). Muita tinta já foi gasta, discutindo o que Paulo quis dizer com "Lei de C risto"; mas a melhor síntese provavelmente é "a Lei como era interpretada pelo próprio C risto",62 incluindo tanto a enunciação por Jesus da mensa­ gem do evangelho, como o entendimento que Jesus tinha do Antigo Testamento, que se cumpriu nEle. Uma consideração mais detalhada de Jesus e também de Paulo no que diz respeito ao tópico da Lei pode m ostrar que eles estão de acordo, fundam entalm ente, um com o outro, em vários pontos.63 Aqui eu observo apenas quatro exem plos significativos, e todos eles con­ trastam drasticam ente com as formas com uns do judaísmo daquele tempo. Para começar, tanto Jesus como Paulo reconhecem a autoridade per­ manente do que frequentemente tem sido chamada de lei moral — os princípios éticos fundamentais do Antigo Testamento, tais como amar a Deus e ao próximo, honrar os pais, respeitar a vida e a propriedade, as relações sexuais reservadas para o casamento monógamo e heteros­ sexual, e assim por diante. Nenhum deles, no entanto, separa os "Dez M andam entos" (Ex 20) como, de alguma maneira, distinto de todo o resto. Na verdade, tanto Jesus como Paulo reconhecem que o manda­ mento do sábado não continuará imutável na nova ordem. Jesus não somente desafia as tradições dos fariseus sobre o que era considerado como trabalho no sábado, mas delineia um princípio que, se plenamen­ te implementado, iria eliminar por completo o costume de deixar de trabalhar um dia em cada sete: "O sábado foi feito por causa do ho­ mem, e não o homem, por causa do sábado", de modo que é sempre lícito "fazer o bem " no sábado (Mc 2.27; 3.4). Assim, também, Paulo, se aceitarmos o testemunho de Colossenses 2.16,17, conecta o sábado às festas m ensais e anuais dos judeus que "são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo". Até que o imperador Constantino legalizasse o domingo como um dia sem trabalho, no início dos anos 300, os cris­


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tãos praticamente concordavam de forma unânime que descansar um dia a cada sete refletia uma atitude "judaizante" e herege!64 Em segundo lugar, embora tanto Jesus como Paulo citassem o man­ damento de honrar pai e mãe, e reconhecessem a sua aplicação perma­ nente em vários contextos (Mc 7.9-13; Ef 6.2,3), ambos provaram ser al­ tamente contracultura is, como hom ens solteiros, em uma cultura judai­ ca que praticamente exigia o casam ento de varões adultos e saudáveis, particularmente os líderes religiosos. Ambos também promoveram determinados valores que dificilmente poderiam ser chamados "prófam ília" em nosso atual ambiente político (Lc 14.26; 1 Co 7.8,26,27,32­ 35,38,40). De m odo mais genérico, ambos exibiam tendências definidas e ascéticas, mesmo sem chegar aos extremos de alguns filósofos helenistas ao exigi-las.6S Em terceiro lugar, ambos desafiaram o pensamento judaico conven­ cional, predizendo a destruição do Templo e do sistema de sacrifícios, que seria substituído por um equivalente espiritual. Jesus anteviu ex­ plicitamente a derrubada de todas as pedras do Templo, o que literal­ mente aconteceu em 70 d.C. (Mc 13.2), ao passo que Paulo entendeu a substituição dos sacrifícios animais pelo sacrifício "p ascal" de Cristo (por exemplo, 1 Co 5.7). l'ara Jesus, o cumprimento das leis sacrificiais acontecia no "tem plo" que era o seu corpo (Jo 2.19);61’ derivativamente, Paulo pôde chamar os crentes, corporativa e individualmente, de tem­ plo de Deus (1 Co 3.16,17; 6.19). Em quarto lugar, ambos reconheciam as leis da alimentação, mes­ mo as decretadas no Antigo Testamento, como sendo substituídas em Cristo. Jesus preparou o terreno para esta evolução, em Marcos 7.14­ 22 e paralelas, em que comparou o que entrava no corpo de alguém (que não contaminami uma pessoa) com o que saía daquele corpo (que podia contaminar uma pessoa). Talvez escrevendo retrospectivamente, Marcos acrescenta o comentário, em 7.19, de que Jesus, ao dizer isso, declarou todos os alimentos como "puros". Paulo, de igual maneira, reconhece a comida como uma das questões moralmente neutras sobre as quais os cristãos ainda têm escrúpulos, ao passo que outros se sen­ tem livres para comer qualquer coisa. Em 1 Coríntios 8 - 10, a questão provavelmente é a prática pagã de comer carne sacrificada aos ídolos, mas em Romanos 14 e 15 é mais provável que fossem as leis alimenta­ res judaicas que estivessem em vista. Filipenses 3.18,19 também pode se referir àqueles que ordenavam que a alimentação fosse koshcr — "o deus deles é o ventre".67


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I g r e ja

Se obedecer à Lei de Moisés não fosse um pré-requisito para a sal­ vação, os gentios viriam até Cristo muito mais facilmente. O tópico natural a discutir a seguir, então, na comparação entre Jesus e Paulo, envolve a sua concepção da natureza e da constituição da comunidade de crentes. Há um século, o acadêmico católico radical francês Alfred Loisy fez uma declaração que é frequentemente citada, e em que mui­ tos crecm: "Jesus predisse o reino de Deus, mas foi a igreja que veio".'’8 Reformulada em termos da discussão de "Jesus versus Paulo", podese alegar que Jesus não predisse a igreja, de modo que o foco central de Paulo na igreja oferece provas adicionais de como ele se afastou de Jesus. Não apenas isso, mas Jesus pregou praticamente de forma exclu­ siva aos judeus, ao passo que Paulo pregou predominantemente aos gentios, criando um movimento de pessoas, de uma diversidade de origens que Jesus jamais imaginou. Novamente, então, um escrutínio mais cuidadoso desmente es­ sas generalizações simplistas. Embora elas apareçam somente no tex­ to de Mateus, há inúmeras evidências de semitismos nos três textos dos Evangelhos que usam a palavra "igreja" (ekklesin) (Mt 16.18; 18.17 [duas vezes|), sugerindo que elas podem, realmente, remontar a Jesus.'’1' Nestas promessas de uma igreja emergindo do grupo dos seus doze mais íntimos seguidores, não devemos entender a instituição altam en­ te estruturada e organizada do século II e além. Na verdade, por trás da palavra grega ekklesin provavelmente está a palavra hebraica qirlinl, o termo padrão para a "assem bleia" do povo de Deus, nos tempos do Antigo Testamento. Mas, com o naquela assembleia, que acabou se de­ senvolvendo nas sinagogas judaicas, teria havido alguma estrutura, pelo m enos em congregações individuais, na verdade tambem havia, entre os doze (com Pedro, Tiago e João designados como o núcleo cen­ tral de liderança), desde o início.70 De maneira mais genérica, grande parte do ensinamento ético de lesus pressupõe uma comunidade dos seus seguidores, vivendo, du­ rante um significativo período de tempo, neste mundo corrompido, tendo que enfrentar suas muitas dificuldades — exatamente o que veio <i ser chamado de "igreja". Assim, Jesus ensina sobre o casamento e o divórcio (Mc 10.1-12), sobre impostos civis (Mc 12.13-17), sobre lidar com as hostilidades de uma força militar de ocupação (Mt 5.41), sobre questões legais e tribunais (Mt 5.25,26,33,39), e sobre uma perseguição vindoura pela declaração de ser cristão (Mc 13.9-11). Os Evangelhos


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Sinóticos devotam ainda mais detalhes ao ensinamento de Jesus sobre a administração em geral, e ao dinheiro em particular.71 N ão é de surpre­ ender que seja precisamente nestes tópicos que Paulo faça mais referên­ cias aos ensinam entos de Jesus. Por outro lado, não se deve entender que há muita estrutura (como em séculos posteriores) nas discussões de Paulo sobre a igreja, particularm ente nas suas cartas incontestadas. 1 Coríntios 14.26-40, por exemplo, descreve uma comunidade razoa­ velmente "carism ática", com cada crente agraciado, de uma ou mais maneiras, tendo oportunidades para compartilhar estes dons quando cada casa/igreja local se reunisse para adorar. É igualmente inexato declarar que Jesus jamais predisse uma mis­ são gentílica. A menos que estejamos preparados para dizimar a tradi­ ção Sinótica e rotulá-la como não-autêntica, quase na sua totalidade, é necessário observarmos um ponto importante: falando humanamente, Jesus não poderia ter imaginado incorporar os gentios ao seu movi­ mento; porém, há abundantes evidências de que Ele lançou a fundação precisamente para esta evolução (pois, sendo Deus, Ele conhece todas as coisas). O seu interesse incomum pelos excluídos da sua sociedade — os pobres, as mulheres, os doentes, os ritualmente impuros, e, mais notavelmente, os samaritanos72 — embora nem sempre ultrapassando as fronteiras de Israel ou do judaísmo, certamente preparou o caminho para a missão aos gentios. O seu mandamento para que amemos os nossos inimigos (Mt 5.44) prepara o caminho para isso. O seu elogio ao centurião gentio, por ter mais fé do que qualquer outra pessoa que Ele tinha visto em Israel, passa pelo teste de "diferenças",73 e em razão da sua autenticidade vitoriosa teria chocado um público judeu conven­ cional. E a sua "retirada" da Galileia e o seu ministério entre os gentios (Mc 7.24; 8.10) certamente mostra o seu interesse por todos os povos, mesmo se o seu ministério seguisse o padrão que o próprio Paulo pos­ teriormente enunciaria e imitaria, de ir "primeiro ao ju d eu " e depois "também ao grego" (Rm 1.16).74 Essas duas missões não foram conduzidas em uma perfeita separa­ ção, uma da outra. Mesmo antes das cartas ainda mais discutidas, como Efésios e Colossenses, a unidade de gentios e judeus em Cristo foi uma paixão predominante de Paulo (veja especialmente Rm 9 - 11). Mesmo que ele não tenha podido contem plar um fenômeno idêntico durante a vida de Cristo, precedentes suficientes tinham sido estabelecidos para tornar o desenvolvimento natural. Wedderburn resume: "A ssim como Jesus, como representante de Deus, tinha indicado que Deus aceitava


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os pecadores, comendo com eles, também agora Deus indicava a acei­ tação dos pecadores gentios derram ando o Espírito divino sobre eles, como sobre os cristãos ju d eu s".75 Ou, como explica John Barclay: "Para lesus e tam bém para Paulo, o núcleo das Boas Novas consiste na radical demolição dos limites restritivos, na livre e piedosa atividade de um Deus m isericordioso".76 Similarmente, várias das metáforas "corporativas" de Jesus sobre os seus seguidores — por exemplo, "pequeno rebanho" (Lc 12.32), a da anterior "ovelha perdida" (Lc 15.3-7), ou uma nova família com laços mais íntimos do que os biológicos (Mc 3.31-35) — bem podem ter inspi­ rado os retratos frequentes de Paulo sobre a Igreja, como um "C orpo", particularmente "o Corpo de C risto" (veja especialmente 1 Co 12). Um corpo precisa de uma cabeça (Jesus), assim como um rebanho tem um pastor guia, e uma família, no século I, tinha o marido e pai como a suprema autoridade. Similarmente, a metáfora favorita de Paulo "em Cristo" sugere uma conexão orgânica e coletiva entre Jesus e os seus seguidores, edificando um relacionamento terreno íntimo, como um grupo de associados muito próximos. Paulo pode ter tido em mente o ensinamento de Jesus sobre a Santa Ceia, representando o seu corpo (cf. Mc 14.22 com 1 Co 11.27,29). Os dois professores previram clara­ mente a criação de um grupo coeso de crentes, de forma corporativa ou comunitariamente desempenhando suas tarefas. Wenham resume este pensamento da seguinte forma: "Jesus pode não ter se visto fundando a igreja, da maneira como pensam os nela hoje, mas Ele realmente se viu juntando as pessoas salvas por D eus".77 E, mais do que nunca, estas pessoas viriam de todos os grupos étnicos do mundo. O P a pel

das

M

u lh eres

Intimam ente relacionada com a vida comunitária dos primeiros cristãos, rompendo as barreiras entre judeus e gentios, é a ênfase co­ locada, tanto por Jesus como por Paulo, em um papel proeminente para as mulheres, pelo menos pelos padrões culturais do seu tempo. Potencialmente, o aspecto mais escandaloso dos relacionamentos de Jesus com as mulheres foi o fato de Ele ter permitido que um grupo de­ las literalm ente viajasse com Ele e seus seguidores do sexo masculino, durante o seu ministério itinerante, apesar das suspeitas de im oralida­ de que este grupo inevitavelmente teria gerado (Lc 8.1-3). Ao permitir que M aria de Betânia "se assentasse aos seus pés" e aprendesse com os seus ensinam entos (10.39), Ele a aceitava, na qualidade de um estudan­


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te da Torá, precisamente o papel normalmente proibido às mulheres pelo judaísmo ortodoxo do século I. E Ele não apenas permitiu o com­ portamento de Maria, como o elogiou e censurou a sua irmã, Marta, por estar preocupada com papéis domésticos convencionais (vv. 41,42). Por outro lado, Jesus não chegou a promover inequivocamente as re­ lações totalmente igualitárias entre os gêneros, pois escolheu de forma exclusiva homens para formar o seu grupo de Doze seguidores mais íntimos.78 Paulo, também, mostra incomum abertura para as mulheres líderes nas suas igrejas. Frequentemente, ele inclui nomes de mulheres entre seus "cooperadores" (veja especialmente as saudações em Romanos 16.3-16 e Filipenses 4.2,3). Ele reconhece que todos os dons espirituais que Deus dá são para todos os crentes, exatamente como o Espírito decidir distribuí-los (1 Co 12.7-11). Entre eles, estão os dons do profeta, pastor e professor, embora eles não necessariamente correspondam aos papéis ou funções formais (às vezes, chamados de "cargos") que podem ter o mesmo nome. E, ainda mais surpreendente, Paulo antevê mulheres apóstolas ("m issionárias" ou "fundadoras de igrejas" - Rm 16.7, NTLH) e diaconisas (Rm 16.1, NTLH). No entanto, como Jesus, Paulo também traça uma linha limite, e exclui o papel ou o cargo de presbítero para as mulheres, aparentemente o "m ais alto" nível de autoridade nas suas igrejas (1 Tm 2.12). Nas igrejas de hoje, este papel é, com frequência, o equivalente funcional de um pastor presidente de uma igreja que pos­ sui uma equipe formada por muitos grupos de obreiros, ou o único pastor em uma congregação que tem apenas um grupo de obreiros.79 C r is t o l o g ia

Provavelmente, o que é mais controverso, Jesus frequentemente é descrito como não tendo visões exaltadas de si mesmo, ao passo que Paulo, mais do que qualquer outra pessoa, no início do cristianismo, fez dEle o Cristo, o Filho de Deus, e o Senhor divino, igual, em alguns aspectos, a Yahweh, o Deus de Israel, em pessoa. Uma vez mais, aqui também devemos deixar de lado, não apenas o Evangelho de João, mas também grandes porções da tradição Sinótica, para defender estas drásticas generalizações. No entanto, é interessante que, mesmo se nos limitarmos a considerar uma seção do material mais comumente aceito dos Sinóticos, emerge abundante "cristologia explícita". Em outras pa­ lavras, há inúmeras indicações no ensinamento e no comportamento de Jesus, completamente à parte do seu suposto uso de títulos específicos


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c exaltados para si mesmo, que sugerem que Ele pensava em si mesmo como m ais do que qualquer outro rabino judeu ou profeta.

A Cristologia Implícita dos Sinóticos Podemos listar nada m enos do que treze fenôm enos que caem nesta categoria, incluindo atos simbólicos, relacionamentos chave, e outras características miscelâneas.80 A

tos

S im b ó l ic o s

1. E um amplo consenso que o batismo de Jesus é um fato histórico, uma vez que cria o constrangimento potencial de Jesus tendo se sub­ metido a um rito que João proclamava como simbolizando o perdão dos pecados.81 Mas é precisamente neste evento, no início do ministério público de Jesus, que Ele ouve uma voz celestial, que combina trechos de Salmos 2.7 e Isaías 42.1, o qual declara: "Este é o meu Filho amado, em quem me com prazo". Qualquer que seja a realidade por trás deste evento de aparência sobrenatural, Jesus provavelmente acreditava ser o cumprimento das profecias destes textos, sobre um Filho e Servo so­ fredor messiânico que viria. 2. Embora os acadêmicos discordem sobre como eram realizados os milagres, um consenso crescente aceita que o Jesus histórico era visto realizando milagres, especialmente curas físicas e expulsão de dem ô­ nios. Também havia um grande consenso de que o ponto central desta atividade de realização de milagres era demonstrar a chegada do Reino de Deus, a era messiânica (veja especialmente Mt 12.28).82 Mas, se a era messiânica tinha chegado, então o Messias devia ter chegado. Um novo reino requer um rei recentemente entronizado. 3. A "entrada triunfal", talvez um nome inadequado, no dia que denominamos de domingo de Ramos, mostrou claram ente Jesus cum ­ prindo uma profecia messiânica — o rei chegando sobre um jum ento (Zc 9.9). A aclamação da multidão demonstrava que eles reconheciam esta declaração; o que não reconheciam era que Jesus vinha em paz, para morrer, e não para derrotar os romanos e governar a partir de um trono literal em Jerusalém (Mc 11.1-11). 4. A "purificação do tem plo", intimamente relacionada (Mc 11.15­ 19) simbolicam ente prediz a destruição do Templo, que Jesus de forma explicita prediz um ou dois dias depois (Mc 13.2).83 Mas, sem um tem­ plo, não haveria lugar onde realizar os sacrifícios de animais prescri­ tos pelo Antigo Testamento para o perdão dos pecados. Jesus deve ter imaginado algum outro sistema sendo instituído no seu lugar, algo que


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somente alguém muito intimamente ligado a Deus poderia autorizar, uma vez que as leis dos sacrifícios das Escrituras foram originalmente apresentadas com o invioláveis. 5. Jesus sugere este novo sistema nas suas "palavras de instituição", durante a Santa Ceia. Considerando o cálice de vinho como símbolo da sua morte iminente, Jesus declara: "Isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que por muitos é derram ado" (Mc 14.24). Embora Ele não forneça detalhes, aqui está a matéria prima para a epístola aos Hebreus, onde há uma teológica reflexão muito mais detalhada sobre Cristo como o sacrifício definitivo pelos pecados da humanidade.”4 R

e l a c io n a m e n t o s - C h a v e

6. Se João Batista foi o último e maior dos profetas da era do Antigo Testamento, Jesus deve ter sido alguém maior (ou pelo menos julga­ va ser alguém maior). Afinal, Ele declara que "o menor no Reino dos céus" é "m aior do que" João Batista (Mt 11.11). Ele também faz alusão a si mesmo, declarando, em outra passagem, que "está aqui quem é mais do que Jonas" e "está aqui quem é mais do que Salom ão" (Mt 12.41,42). 7. Os relacionamentos de Jesus com os líderes judeus também re­ velam declarações assombrosamente audaciosas. Precisamente por­ que Jesus não desafiou a tradição dos fariseus, mas a aplicabilidade, pelo menos em um nível literal, de mandamentos tão fundamentais do Antigo Testamento, como a observância do sábado, a adoração no Templo e as leis alimentares, Ele deve ser entendido como fazendo uma transição entre eras de história redentora, de uma maneira que só seria permitida a Deus.*5 8. Ao convocar doze discípulos, Jesus estava form ando o número de um novo Israel, ou do Israel liberto (veja especialmente Mt 19.28).86 Não mais a etnia implicaria na escolha, mas o povo de Deus deve ser constituído daqueles de qualquer nação que se tornaram discípulos de Cristo. Mas novamente surge a pergunta, quem, além de Deus, tem a autoridade para introduzir estas medidas? O u t r a s C a r a c t e r ís t ic a s

9. Em mais de uma ocasião, Jesus afirma que a resposta de Deus aos humanos, no dia do juízo, será baseada nas suas respostas a Jesus, nesta vida (Mc 8.38; Mt 10.32,33; Lc 12.8,9). Mas revelações prévias não dão aos meros mortais o privilégio de funcionarem como um "filtro" no juízo divino!


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10. Assim , também, a maneira como Jesus declara a autoridade para perdoar pecados vai muito além da função do sacerdócio judaico, como reconhecem os líderes judeus que ouvem as suas declarações (veja es­ pecialmente Mc 2.1-12). 11. Em várias ocasiões, Jesus emprega m etáforas para si mesmo que são com um ente usadas no Antigo Testamento somente para Yahweh. Essas metáforas aparecem com especial frequência em parábolas que contêm um personagem responsável, cujo comportamento justifica a atividade sobre a qual Jesus está sendo questionado (veja, por exem ­ plo, Lc 15.3-7; 8-10; 11-32). Individualmente, nenhuma destas m etáfo­ ras é tão impressionante, mas juntas elas formam uma evidência forte de que Jesus se considerava como o representante terreno, único e ex­ clusivo, de Yahweh, funcionando exatamente com o o Deus de Israel funcionou por toda a Bíblia hebraica. Entre estas funções, se incluem a de Esposo, Rochedo, Diretor da colheita, Pastor, Semeador, Dono de vinha, Distribuidor de perdão, Pai, Rei e Alguém que recebe o louvor das crianças (Mt 21.16).87 12. O uso que Jesus faz do termo aramaico, Abba para Pai, ao se dirigir a Deus, reflete uma intimidade incomum, rara entre os judeus do sécu­ lo I. O termo é explicitamente reproduzido na transliteração grega em Marcos 14.32, e supostamente respalda outros usos de "p ai" por Jesus nos Evangelhos, mesmo quando os autores dos Evangelhos traduzem as palavras de Jesus usando a palavra grega mais tradicional, pater.m 13. Finalmente, mesmo um termo simples como amém, usado iso­ ladamente (ou duplicado, como acontece constantemente em João), introduz várias declarações de Jesus, dando-lhes um notável ar de au­ toridade. O termo é normalmente traduzido como "verdadeiram ente". Mas ele se desvia dos padrões rabínicos tradicionais de justificar o en­ sinamento de alguém, apelando às Escrituras ou a pronunciamentos anteriores dos rabinos. Jesus não emprega nenhuma destas técnicas. Ele nem mesm o segue o modelo dos profetas, declarando, "A ssim diz o Senhor". Na verdade, Ele anuncia com simplicidade, mas com so­ berania, "Em verdade vos d igo", como se não precisasse de nenhuma outra justificativa para as suas declarações solenes e radicais. Somente alguém que cresse possuir algum tipo de autoridade divina falaria des­ ta maneira.

A Cristologia mais Explícita Uma vez que percebamos quão implícita a cristologia aparece no centro do m aterial Sinótico, amplamente aceito como autêntico, passar


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para títulos mais explícitos para Cristo parece algo m uito mais natural. Além disso, é mais fácil crer que o seu uso, nos Evangelhos, é histori­ camente preciso. Mesmo se nos concentrarmos apenas nos quatro títu­ los essenciais que conectam os Evangelhos e Paulo, podemos justificar mais continuidade, e não descontinuidade, entre os ensinamentos des­ tes dois homens. O título mais obviamente autêntico, que representa a forma favorita com que Jesus se descrevia, é Filho do Homem. Mas este é o único título que não aparece nos textos de Paulo.81’ Mas "Filho" e "Filho de Deus" aparecem. E quando investigamos o motivo para que Jesus use "Filho do H om em ", descobrimos que essa expressão significava muito mais do que "m eram ente hum ano" — como, por exemplo, frequentemente em Ezequiel, quando Deus se dirige ao profeta com o uso desta expres­ são. Na verdade, o motivo mais relevante aparece em Daniel 7.13, em que "um como o filho do hom em " foi conduzido à presença de Deus, e foi-lhe dado o domínio sobre todas as nações do mundo. Quando reco­ nhecemos que "Filho de Deus" nos ambientes judeus, de igual maneira, indicava frequentemente um Messias exaltado, e não a segunda pessoa, igualmente divina, da Trindade, com o na teologia cristã posterior, então os títulos "Filho do Homem" e "Filho de Deus" provam ser mais seme­ lhantes do que diferentes.1’1’ Provavelmente o uso que Jesus faz de Abba forma uma importante ligação entre os dois títulos, e também é uma importante razão por que, mesmo nos Evangelhos, "F ilh o " e "Filho de Deus" começaram a assumir tons cada vez mais exaltados. Alguém que é especialmente consciente de uma intimidade filial sem paralelos com Yahweh seria um Filho de Deus singularmente divino.1’1 E interessante que outro autor do Novo Testamento, que não é um dos escritores dos Evangelhos, que preserva Abba na transi iteração em grego, seja Paulo (Rm 8.15; Cl 4.6), que considera o termo um título apropriado para que os crentes usem quando se dirigirem ao seu Pai celestial adotivo. O uso é tão incomum que Paulo deve ter se baseado, talvez já com preceden­ tes cristãos judeus, na própria tradição de Jesus. O uso de "C risto" ou "M essias" forma um segundo elo de ligação razoavelmente direto entre Jesus e Paulo. Embora esta não fosse a sua maneira preferida de descrever a si mesmo, porque tantos judeus pro­ curavam um M essias militarista que iria derrotar os romanos, Jesus, ainda assim, reconhecia tacitamente que era um atributo preciso em pontos chave do seu ministério (mais notavelmente, Mc 8.29; 14.62). Paulo também reconhece que é um nome adequado para Jesus, particu-


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l.i rmente em Romanos 9.5 onde os comentaristas concordam que o senl ido titular permanece. Muitos acadêmicos pensam que a maioria das ocorrências nos textos de Paulo meramente reflete o início da tendência posterior de converter “C risto" em um nome próprio, mas argumentei, rin outras obras, que não é o caso.92 De qualquer forma, Jesus e Paulo reconhecem que há maneiras legítimas com que Jesus pode ser cham a­ do de Libertador messiânico de Israel. Um terceiro título frequente para Jesus, tanto nos Evangelhos como nos textos de Paulo, é "Senhor". Evidente, aqui, é o histórico judeu e do Antigo Testamento, pelo qual a palavra grega kiirios norm alm en­ te traduzia o nome divino de Yahweh na Septuaginta. Nem todas as ocorrências dos Evangelhos refletem este forte sentido. Muitas pessoas se dirigiam a Jesus como Senhor simplesmente como um título de res­ peito, de alguma maneira equivalente a "am o" nos dias de servos ou escravos. Mas, em alguns contextos, a palavra parece ter um significado mais forte do que este (veja especialmente Mt 14.28 ou Lc 5.8). E em Marcos 12.35-37 e paralelas, o próprio Jesus se referiu ao Messias como "Senhor", em um contexto que desafiava diretamente as expectativas convencionais dos judeus de que o Messias seria um mero descendente humano de Davi.1’3 Por outro lado, Paulo reconhece que kurios significa Senhor, e também Deus, como a forma clássica que lemos na confissão cristã de Romanos 10.9 — "Jesus é Senhor" (NTLH). Inseridos contra um cenário de reivindicações cada vez mais ofensivas do imperador como senhor humano absoluto, assim como divino, os cristãos, às ve­ zes, arriscavam suas vidas, elevando Jesus, e somente Ele, a essa posi­ ção. M uito menos comum nos Evangelhos Sinóticos, mas ainda im por­ tante, especialmente para Mateus, é "Filho de D avi", termo que cla­ ramente se conecta com "M essias" por causa da linhagem davídica esperada para o Messias. Uma passagem essencial nas epístolas de Paulo, que demonstra conhecimento desta expectativa é Romanos 1.3, que descreve o "Filho" com respeito à sua vida "segundo a car­ ne" como "descendente de D avi". Assim, embora cristologias distintas obviamente apareçam, quando se compara os textos de Paulo com os Sinóticos, assim como aparecem quando se compara cada um dos qua­ tro Evangelhos com os outros, dificilmente será exato dizer que Paulo tomou a imagem de um simples profeta ou rabino judeu e a distorceu em uma figura exaltada e divina, contrária à evidência histórica sobre o que Jesus disse e fez.94


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E s c a t o l o g ia

Um tema natural com o qual podemos concluir a nossa investiga­ ção teológica é a escatologia. Quão similares eram os ensinamentos de Jesus e de Paulo sobre o fim do mundo? Podemos ver que há uma con­ siderável sobreposição. E o lugar apropriado para com eçar com a esca­ tologia é a morte de Cristo, uma vez que, como já vim os no meu estudo sobre o ensinam ento do "reino", tanto Jesus como Paulo acreditavam que os últimos dias (a presença do reino) começaram com a morte e a ressurreição de Cristo. Embora seja moderno negar que Jesus predisse o futuro sobre qual­ quer tópico, uma forte justificativa pode dizer que Ele predisse a sua própria morte. Quem quer que fizesse o que Ele fez poderia ter espe­ rado hostilidade dos líderes judeus ou romanos, ou de ambos. A sua tripla "predição da paixão" (Mc 8.31; 9.31; 10.33,34) leva à sua declara­ ção de que Ele veio "dar a sua vida em resgate de m uitos" (10.45 par.). Tanto a tripla profecia, de modo geral, como as palavras específicas so­ bre o propósito da sua morte, mostram vários sinais de autenticidade.95 Mas a metáfora frequente de Paulo sobre a "redenção" — o preço pago pela liberdade de um escravo — vem do mesmo grupo de palavras de "resgate" aqui nos Evangelhos. Paulo está simplesmente expondo, com consideráveis detalhes, depois do evento, o significado da crucificação que o próprio Cristo predisse. As predições da paixão, no entanto, também predizem a ressurrei­ ção de Cristo. Se elim inarm os a possibilidade do sobrenatural como uma pressuposição, então, naturalm ente, rejeitaremos estas predições e as narrativas da própria ressurreição, com que cada Evangelho ter­ mina. Mas independentem ente desta exclusão a priori, há boas razões para aceitar as tradições da ressurreição, de modo que Paulo está claram ente se baseando nos ensinam entos e nos atos de Jesus ao en­ fatizar este tema (veja especialm ente 1 Coríntios 15). Mas, usando o mesmo cenário do Antigo Testamento de que Jesus teria estado ciente (mais notavelm ente Dn 12.2), Paulo reconhece que uma ressurreição está, de modo indissolúvel, ligada à ressurreição de todas as pessoas, de modo que ele consegue pensar em Jesus como as prim ícias ou a garantia da ressurreição geral (1 Co 15.20; cf. vv. 21-28).% E, contra a crença helenista, que consiste apenas e basicam ente na imortalidade das almas, Jesus e Paulo concordam que a esperança é uma ressurrei­ ção corpórea (vv. 35-49; cf. uma cena que, não fosse isto, seria enigm á­ tica em M t 27.51-53).


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A ressurreição, no entanto, não é o fim da história. Mesmo antes da sua ressurreição, Cristo repetidas vezes prometeu que retornaria outra vez, em glória, no final da história humana, para introduzir o dia do ju ­ ízo (veja especialmente Mc 13). Assim, também, Paulo ensina em várias passagens a respeito da "segunda vinda" de Jesus (veja especialmen­ te 1 Ts 4.12 - 5.11; 2 Ts 2.1-12). Nestes mesmos textos, ambos também profetizaram que haveria "grande tribulação" na terra, pouco antes do retorno de Cristo, envolvendo intensa perseguição de crentes, e a ira de Deus liberada sobre os incrédulos. Mas, ao mesmo tempo, muitos viriam a conhecer o Senhor, durante este período. Entre estes, parece haver um grande número de judeus étnicos, que crerão em Jesus como o M essias, talvez pouco antes da sua volta (Mt 23.29; Rm 11.25,26). E tanto Jesus como Paulo concordam que todas as pessoas do mundo, ao longo de toda a história humana, comparecerão diante de Deus para julgamento, quando Deus os separará em duas categorias — os crentes, que passarão a bem-aventurada eternidade na sua presença e na com­ panhia de todos os remidos, e os incrédulos que serão conscientemente separados d Ele e de todas as coisas boas para sempre (cf. especialmente Mt 25.31-46 com 1 Co 3.10-17).1,7

O Papel da Conversão de Paulo Muitas vezes, o tratamento do relacionamento entre Jesus e Paulo co­ meça — em Iugar de terminar — com um exame de Gálatas 1. Ali, Paulo se refere à sua conversão e declara "o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens, porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo" (vv. 11,12). Frequentemente se supõe que esta breve declaração define a questão — Paulo não sabia quase nada sobre Jesus! Mas esta opinião não pode ser sustentada em razão da grande quantidade de evidências contrárias, evidências que fui capaz de enfatizar apenas brevemente neste capítulo. O que, então, Paulo quer dizer com esta declaração? Claramente, não foi nenhum evangelista cristão que conduziu Paulo ao Senhor; foi o seu encontro sobrenatural com o Cristo ressuscitado, na estrada para Dam asco (At 9.1-19). Seyoon Kim enfatizou quanto da teologia fundamental de Paulo deve ter mudado, por causa deste encontro. Claramente, a cristologia de Paulo foi transformada — Jesus não era um apóstata cujos seguidores ameaçavam o bem-estar do judaísmo, mas um M essias celestial. Jesus claramente ressuscitou, o que, como ob­ servamos acima, significava que os últimos dias tinham começado. A


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era messiânica estava presente, e culminaria na ressurreição de todas as pessoas. M as a era messiânica foi aquela em que os gentios viriam a Deus em rebanhos, por isso a ênfase de Paulo na m issão aos gentios, e a incorporação de judeus e gentios em um corpo. E, naturalmente, se Jesus foi o verdadeiro Messias, então a salvação vinha pela fé nEle, e não por obras da lei, ao passo que a comunidade escolhida do povo de Deus seria com posta daqueles que eram os seus seguidores, de qual­ quer antecedente étnico.1’8 Estas declarações teológicas resultam, naturalmente, da revelação que Jesus faz de si mesmo a Paulo. Mas, além disso, Paulo precisava ser ensinado sobre os eventos do início da vida de Jesus, como qualquer outro recém-convertido. Inevitavelmente, Ananias teria apresentado um breve resumo do que Paulo mais precisava saber, quando o encon­ trou na sua casa em Damasco e o preparou para o batism o (At 9.17-19). Paulo teria aprendido mais durante "alguns dias" com outros discípu­ los em Damasco (v. 19). E, para aqueles que suspeitam da confiabilida­ de do livro de Atos, as observações autobiográficas do próprio Paulo, em Gálatas 1.18-20, admitem que, três anos mais tarde, ele passou mais de duas semanas com Pedro e Tiago em Jerusalém, para "pedir infor­ mações" a eles (v. 18, NTLH). O significado exato do verbo (grego historesai) tem sido discutido. Ele pode, na verdade, significar "entrevis­ tar" ou até mesmo "realizar investigação histórica", mas, mesmo que não seja este o significado, Paulo teria de modo inevitável aprendido consideravelmente mais sobre as origens cristãs durante este período.99 Como vimos anteriormente, nas suas cartas Paulo fala, mais de uma vez, sobre transmitir o que tinha recebido pela tradição, o que sugere um padrão de instrução de catequese. E nada disto deve ser considera­ do como uma contradição a Gálatas 1.11,12, que descreve meramente as bases independentes das verdades centrais do entendimento que Paulo tem do evangelho.1110

Conclusão Paulo foi o verdadeiro fundador do cristianismo? Ou, pelo menos, um "segundo fundador" essencial? De maneira nenhum a. Ele tinha conhecimento razoavelmente grande da vida e dos ensinamentos do Jesus histórico, e a sua proclamação central dependia da veracidade da morte e ressurreição de Cristo, precisamente conforme descritas nos Evangelhos e preditas pelo próprio Jesus. Mas persistem distinções teo­


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lógicas entre os dois homens, e os propósitos diferentes dos Evangelhos e das epístolas devem ser levados em consideração quando se avaliam as razões por que alguns assuntos aparecem ou não nestes livros. Mas Jesus e Paulo se encontram em profunda concordância a respeito de inúmeros tópicos centrais. Como conclui abertamente Dale Allison: "A convicção persistente de que Paulo não conhecia quase nada do ensi­ namento de Jesus deve ser rejeitada. Jesus de Nazaré não era a pres­ suposição sem face da teologia de Paulo. Ao contrário, a tradição que derivou de Jesus foi muito útil ao apóstolo, em suas funções de pastor, teólogo e m issionário".101


C

a p ít u l o

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Como o Cristão Deve Aplicar o Novo Testamento à Vida? Muitos leitores do Novo Testamento se deparam, ocasionalmente, com aplicações infames do texto. Alguns talvez tenham inventado al­ gumas. Contam a história, supostamente verdadeira, de uma mulher em um casam ento difícil, que abriu ao acaso a sua Bíblia, quando seus olhos caíram sobre o texto de Efésios 4.22 ("...vos despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do engano"), e inter­ pretou que este versículo lhe dava permissão para dar início ao divór­ cio! Muitas aplicações inadequadas não são extremas como esta, mas eu ouvi pessoalmente cristãos citando Filipenses 4.13 ("Posso todas as coisas naquele que me fortalece") como respaldo para empreender uma tarefa para a qual não são dotados nem cham ados, na opinião de quem os conhece. Citando o versículo fora de seu contexto, não percebem que Paulo estava falando de se satisfazer com toda e qualquer condição socioeconômica. Como também ouvi crentes interpretando 1 Timóteo 5.8 ("se alguém não tem cuidado dos seus e principalm ente dos da sua família, negou a fé e é pior do que o infiel") com o uma instrução de que o marido deve ser o provedor principal do sustento de sua família. Eles não percebem que o contexto se refere a filhos adultos, de qualquer sexo, que devem cuidar de seus pais idosos e necessitados.


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Esses exemplos demonstram que a aplicação válida não pode se separar da interpretação legítima. Até que saibamos o que uma pas­ sagem queria dizer, no seu contexto original, histórico e literário, e até que tenhamos uma tradução confiável, que reflita significados exatos de palavras e sentenças daquela passagem, não poderemos determi­ nar como aplicá-la aos nossos contextos, bastante diferentes, do século XXI. Existem incontáveis manuais para auxiliar o intérprete inexperien­ te nos princípios da interpretação bíblica — "herm enêutica", como é frequentemente cham ada.1 Mas é um número muito menor o dos que se concentram principalmente na aplicação.2 Em outra obra, escrevi sobre alguns dos importantes princípios dos quais se deve ter ciên­ cia quando se interpreta cada porção do Novo Testamento, de acordo com os gêneros literários dos seus livros (Evangelhos, Atos, Epístolas, Apocalipse) e de acordo com as form as menores que aparecem nestes livros (por exemplo, parábolas, milagres, listas de perversidades, hinos e confissões, etc.).3 Eu também descrevi um processo básico, de quatro etapas, para a aplicação bíblica legítima, independentemente da parte das Escrituras que se está lendo. Em resumo, o processo envolve (1) determinar as aplicações originais, pretendidas pela passagem; (2) ava­ liar o nível de especificidade destas aplicações, para ver se devem ser (ou até mesmo, se podem ser) transferidas através do tempo e espaço a outro público; (3) em caso negativo, identificar princípios interculturais mais amplos do que refletem os elementos específicos do texto; e (4) encontrar aplicações contemporâneas apropriadas que incorporem estes princípios. Eu também desejo fornecer orientação específica para cumprir a etapa (2), em particular.4 Aqui, desejo fazer algo que é uma interseção entre as duas aborda­ gens que adotei anteriormente. Vou prosseguir pelo Novo Testamento na sua sequência canônica, gênero por gênero, comentando os princí­ pios distintos de aplicação em cada etapa, ao longo do caminho. Os re­ sultados irão envolver abordar o mesmo terreno que abordei antes, mas em um formato diferente, assim com o introduzir novos materiais. Não há um conjunto abrangente de princípios que se possa formu­ lar de maneira abstrata, sem discussões de textos e formas individuais, de modo que a minha investigação aqui não possa ser mais do que re­ presentativa. Há inúmeras5 obras que o leitor poderá consultar quando tentar aplicar o Novo Testamento ao mundo moderno.6 Um último comentário introdutório é necessário. Seria errado com e­ çar a nossa investigação de princípios para aplicação, sem enfatizar que


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grandes porções da Bíblia continuam muito claras, mesmo muito dis­ tantes, em tempo e espaço, de seus contextos originais. Os reformistas protestantes falavam regularmente da "perspicuidade" das Escrituras ao com bater a noção católica medieval de que a Bíblia exigia uma classe de intérpretes de elite (o clero) para interpretá-la. Naturalmente, en­ quanto a Bíblia foi lida em latim, na igreja, quando muitos europeus não mais falavam este idioma, realmente era necessário ter ajuda espe­ cial! Mas os protestantes constantemente enfatizaram que, quando a Bíblia é traduzida com exatidão aos idiomas nativos das pessoas, em qualquer parte do nosso mundo, tudo o que é necessário para que eles entendam o plano de Deus da salvação em Cristo, e o tipo de vida cristã que Ele deseja que os seus seguidores vivam, se torna claro e cristalino. Por outro lado, os reform istas jam ais declararam que as Escrituras eram igualmente claras, em cada passagem ou sobre cada tópico. Vários tex­ tos e temas continuavam (e continuam, ainda hoje) a dividir os intér­ pretes com petentes e piedosos. Aqui é onde a disciplina da hermenêu­ tica entra em cena.7

Os Evangelhos C o n s id e r a ç õ e s G

e r a is

Lucas e João fornecem, cada um deles, declarações explícitas, a res­ peito do seu propósito em escrever relatos sobre o ministério e a men­ sagem de Jesus. Lucas explica que deseja que Teófilo "conheça a cer­ teza das coisas" de que já está informado (Lc 1.4). João acrescenta que escreve o seu Evangelho "para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (Jo 20.31). Em cada caso, os autores do Evangelho podem estar se referindo tanto a uma experiência inicial de conversão quanto ao crescimento na fé cris­ tã.8 Assim, as mais fundamentais aplicações de um estudo de algum dos Evangelhos, ou de todos, requer que as pessoas depositem a sua confiança em Jesus como seu Senhor e Salvador, e então continuem a segui-Lo no discipulado, por toda a vida. Afinal, os Evangelhos reco­ nhecem claramente que, no final, Deus irá dividir a humanidade em dois únicos "grupos" — aqueles que irão passar uma bem-aventurada eternidade com Ele, e aqueles que irão suportar a agonia de uma se­ paração eterna de Deus e de todo o bem (Mt 25.31-46; Jo 5.28,29; Ap 20-22). E o critério para a divisão das pessoas nestes dois grupos será a maneira com o elas responderam aos cristãos que proclamaram o evan­


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gelho, e consequentemente, como responderam ao próprio Cristo (veja também Mc 8.38). Mas e todo o resto dos ricos detalhes dos Evangelhos? Agora vou analisar sequencialmente o Evangelho de Mateus, comentando formas literárias ou tópicos específicos e os princípios conectados a eles, exem­ plificando principalmente com passagens deste Evangelho, mas incor­ porando alguns exemplos também de Marcos, Lucas e João. P r in c íp io s E s p e c íf ic o s

Genealogias O Evangelho de Mateus começa com uma das duas genealogias de Jesus apresentadas pelos Evangelhos (Mt 1.1-17; cf. Lc 3.23-37). Pelo menos, um princípio essencial na aplicação destas listas de nomes apa­ rentemente sem vida é observar como elas diferem das genealogias convencionais da época. A lista de Mateus inclui os nomes de cinco das mães, todas as quais tiveram filhos que estavam envoltos com a sus­ peita de ilegitimidade. Aqui encontram os a primeira indicação de um tema que irá dom inar grande parte das narrativas dos Evangelhos — o interesse de Jesus pelos excluídos sociais. Na aplicação deste tema, de­ vemos identificar quem pode ser os correspondentes contemporâneos, e começar a tratá-los com similar compaixão.1' A genealogia de Lucas, de igual maneira, enfatiza a humanidade de |esus e o seu interesse por todas as pessoas, mostrando como a sua genealogia se origina do pri­ meiro homem, Adão.

Narrativas do Nascimento Mateus 1.18; 2.23 formam uma das duas narrativas do Evangelho sobre os eventos relacionados com o nascimento de Cristo (cf. Lc 1.2; 2.52). Curiosam ente, am bos enfatizam a maneira com o a vinda de Cristo cum priu várias profecias (embora Lucas o faça de maneira mais alusiva). Alguns desses cum prim entos estão refletidos nas narra­ tivas diretas de eventos anteriorm ente preditos, que agora ocorriam; outros são "tipológicos" — veem a mão de Deus por trás de padrões assom brosam ente recorrentes de com portam ento em pontos chave da história da redenção. Sempre que algum tipo de profecia é cum pri­ do em o N ovo Testamento, os crentes podem ter m aior confiança de que as profecias ainda não cum pridas das Escrituras (especialmente as que dizem respeito ao retorno de Cristo e ao fim do mundo) irão sim ilarm ente acontecer, e que Deus opera nas vidas hum anas com pa­


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drões predizíveis e reconhecíveis de atividade, que os crentes devem procurar.10

O Ministério de João Batista Mateus 3 é um dos vários capítulos essenciais dos Evangelhos sobre o profeta divinamente ungido, que deveria preparar o caminho para o Messias. Se uma palavra puder resumir a m ensagem do ministério de João Batista, esta palavra seria "arrependei-vos". Os exemplos especí­ ficos de como seria isso no mundo de João (por exemplo, Lc 3.10-14) nos lembram de que o arrependimento bíblico inclui muito mais do que arrependimento mental ou desculpas verbais. Ele envolve um giro de 180 graus, ou uma mudança de comportamento. As boas obras de­ sempenham um papel crucial na vida dos crentes, não como base para a salvação, mas como demonstrações dela. Essas boas obras começam com o batismo, que Jesus também exemplifica aqui (Mt 3.13-16), e con­ tinuam, incluindo a obediência a tudo o que Ele ordena (Mt 28.20).11 A s Tentações de Jesus Mateus 4.1-11 forma um dos três relatos dos Evangelhos sobre a ten­ tação de Jesus. O autor da epístola aos hebreus capta melhor as aplica­ ções básicas e atemporais desse evento para os crentes: "Porque, naqui­ lo que ele mesmo [Jesus], sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados" (Hb 2.18) e "não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado. Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno" (4.15,16).

O Chamado e a Instrução dos Discípulos A medida que o ministério de Jesus na Galileia está em andamento, Mateus o resume como envolvendo pregação, ensinamento e cura. Jesus chama os seus primeiros discípulos e pouco tempo depois os ensina (e também a grandes multidões) com o seu famoso Sermão da Montanha (Mt 4.12 - 7.29). Alguns princípios importantes entram em jogo na apli­ cação destes ou de quaisquer outros ensinamentos de Jesus. Em prim eiro lugar, é preciso distinguir o que â explicitamente dirigido somente aos doze. A maioria das pessoas que se tornou seguidoras de lesus durante a sua vida, não deixou imediatamente as suas ocupações e seguiram literalmente pela estrada, para acompanhar Cristo durante o seu m inistério itinerante (como aconteceu com Pedro e seus amigos,


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em 4.18-22). A conversão e o discipulado, para a maioria, envolvem a confiança em Jesus e a adesão aos seus princípios de vida, nos seus modos de vida com uns.12 Em segundo lugar, é preciso distinguir instruções específicas, dadas aos doze para a situação em que se encontravam, que foram revogadas até mesmo para eles posteriormente, nos Evangelhos. Quando Jesus enviou os doze para pregar sem Ele, eles deviam falar somente aos judeus (10.5,6). Mas esta foi uma prioridade temporária; a Grande Comissão deixaria claro que no futuro eles deveriam pregar a todos os grupos étnicos (28.19). Assim, também, a instrução de Jesus para que os apóstolos dependes­ sem de outras pessoas para seu sustento material (10.9-12) foi rescin­ dida na última noite da sua vida na terra (Lc 22.35-38), embora muitos grupos religiosos contemporâneos pareçam não ter percebido isso, ain­ da exigem que seus adeptos lhes propiciem o seu próprio sustento. Em terceiro lugar, é preciso observar o que pode jamais ter sido explicita­ mente limitado aos doze, nem formalmente revogado, mas não poderia ser obe­ decido por cristãos em gerações futuras. Um exemplo clássico aparece no Sermão de Despedida de Cristo, quando Ele promete enviar o Espírito Santo como Consolador e Defensor. Em João 14.26, Jesus promete que este "Paracleto" (anglicizando a palavra grega parakletos) "vos ensina­ rá todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito". Obviamente, o Espírito de Deus podia fazer lembrar somente àqueles que tinham literalmente andado com Jesus por Israel e nas regiões vi­ zinhas. Outras pessoas não tinham ouvido Jesus dizer nada a elas. Essa profecia se cumpriu quando os apóstolos se espalharam pelo mundo, depois do Pentecostes, pregando a respeito de Jesus e, no caso de João, também quando ele escreveu o seu Evangelho. Mas este versículo não pode ser usado por cristãos posteriores para justificar alegações de novas revelações feitas a eles, no mesmo nível que as inspiradas Escrituras.13 Em quarto lugar, nós devemos estar alertas para que as metáforas ou ou­ tras figuras de linguagem não sejam interpretadas literalmente. Cerca de 80 a 90% dos ensinamentos de Jesus têm forma poética, e a poesia, normal­ mente, emprega linguagem metafórica. Quando Jesus diz àqueles que cobiçam que seria melhor arrancar seus olhos a perder os seus corpos inteiros no inferno (Mt 5.29), Ele não está literalmente ordenando que as pessoas se mutilem. Os cegos, afinal, podem cobiçar tanto quanto os que têm visão! Na verdade, Jesus está empregando uma metáfora vívida, que representa uma tomada de atitude drástica para evitar a


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tentação.14 Então, também quando Jesus diz àqueles que dão esmolas, "não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita" (6.3), Ele não quer dizer que os cristãos não devem controlar suas finanças e prestar contas a outros pelos seus hábitos de caridade. Em outra passagem, Paulo recomenda a responsabilidade escrupulosa (2 Co 8.16; 9.5). Na verdade, os crentes devem realizar sua caridade de modo suficiente­ mente "ocu lto" (Mt 6.4), para que não sejam tentados a fazer caridade pelo desejo de receber elogios ou adulações dos homens (v. 1). Em quinto lugar, a compreensão do contexto histórico frequentem ente é crucial na determinação de quão literalmente se deve aplicar uma das ins­ truções de Cristo. Incontáveis líderes cristãos bem intencionados têm submetido inapropriadamente esposas espancadas a contínuos maus tratos, dizendo a elas que devem continuar se submetendo à violência de seus esposos, e citam a instrução de Jesus de "d ar a outra face" (Mt 5.39). Mas se alguém "batesse" na "face direita", em um mundo em que muitas pessoas eram forçadas a ser destras, isso não seria o golpe agres­ sivo de um boxeador, mas uma bofetada, dada com as costas da mão, frequentemente usada por um superior para insultar um subordinado. Isso não infligiria danos físicos significativos. A aplicação correta da passagem, portanto, estaria mais no sentido de "não retribua insultos, nem faça retaliação quando sofrer maus tratos", e não "se submeta deli­ beradam ente a maus tratos físicos contínuos!"15 Muitas das palavras de Jesus requerem similar compreensão do significado do comportamento ou dos costumes no seu mundo, que frequentemente se perdem em públicos em diferentes tempos e culturas. Por outro lado, é igualm ente possível não perceber a natureza ra­ dical de m uitos dos m andam entos de Cristo, precisam ente porque nós não estam os fam iliarizados com o contexto histórico. Hoje, nós pode­ mos interpretar a insistência de Jesus, para que amemos a Deus mais do que aos membros da família (Mt 10.37) com o um truísmo religioso óbvio, sem perceber o quanto a fidelidade de Jesus era dedicada aos sem elhantes espirituais acim a da família biológica (por exem plo Mc 3.31-35). Afinal, a sua cultura judaica considerava a lealdade a pais, irm ãos e filhos mais fundam ental do que qualquer outra lealdade hu­ mana. Então, como acontece com alguns cristãos hoje, frequentem en­ te se assum ia que a lealdade aos membros da fam ília era a vontade de Deus, m esm o quando as suas exigências contradiziam a Palavra de Deus. Jesus, no entanto, se opõe diretam ente a esta suposição (veja tam bém Lc 9.57-62 ).16


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Finalmente, os ensinamentos individuais de Jesus com frequência estão embutidos em sermões mais longos, que contêm ensinamentos aparentemente contraditórios. Nestes casos, n aplicação legítima deve levar em consideração as duas tendências do ensinamento. Por exemplo, o ensi­ namento de M ateus 7.1 ("N ão julgueis, para que não sejais julgados") é, normalmente, tirada do contexto, frequentemente por não-cristãos que o jogam diante de cristãos que tentam rotular determinados com­ portamentos com o pecaminosos. Mas os versículos 3-5 claramente con­ vocam os seguidores de Jesus a julgar, no sentido de "avaliar" o que é certo ou errado. Esses versículos incluem a advertência de que, uma vez que alguém tenha lidado apropriadamente com o pecado na sua própria vida, também deverá ajudar os outros a livrar suas vidas do pe­ cado. A gama de significados para a palavra grega traduzida como "ju l­ gar" no versículo 1 sugere que o que Cristo está proibindo aqui é um espírito excessivam ente "crítico" ou "julgador". Há ainda abundantes aplicações contemporâneas para este termo, mesmo quando o texto é interpretado corretam ente!17 Por exemplo, os crentes devem "julgar" (isto é, discernir) que a prática homossexual é pecaminosa e explicar aos outros que a Bíblia constantemente deixa isso claro, mas não devem "julgar" (isto é, condenar) aqueles que se debatem com esta prática, nem destacar este pecado em particular como algo que mereça maior desaprovação do que os pecados heterossexuais. Portanto, a menos que Jesus se contradiga flagrantemente, não uma vez, mas duas, em três passagens consecutivas, a sua instrução para que Pedro perdoe "setenta o sete vezes" (ou "setenta vezes sete" — Mt 18.21,22) deve ser abrandada pelo seu modelo de disciplina na igreja, nos versículos 15-20 e pela parábola do servo que não perdoa, nos ver­ sículos 23-35. Embora Jesus não deseje nunca que os seus seguidores alimentem ressentimentos contra aqueles que pecaram contra eles, o perdão no sentido bíblico e global da restauração ao relacionamento correto de uns com os outros não poderá ocorrer, a menos que o elemen­ to que pecou se arrependa. Deus irá julgar com dureza o impenitente (vv. 23-35) e exigir que os crentes removam da comunhão aqueles que se recusam a todas as outras tentativas de reconciliação (vv. 15-20).18 Um último exemplo lembra-nos de que, às vezes, versículos de equi­ líbrio aparecem em passagens fora do contexto imediato, interpretada isoladamente, a promessa de Jesus, de dar aos que pedem, buscam e batem (Mt 7.7-11) parece um cheque em branco, e cristãos desorienta­ dos, ao longo da História da Igreja, creram, às vezes, que Jesus assegura


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saúde e riqueza, se simplesmente pedirmos com suficiente persistência. Mas Jesus pressupõe que o seu público irá se lembrar do seu ensina­ mento do capítulo anterior, de que, quando eles orassem, deixassem espaço para que a vontade de Deus prevalecesse à vontade deles (6.10). Não é um princípio de hermenêutica sofisticado demais, lembrar que todos os livros do Novo Testamento foram destinados à leitura de uma só vez, de modo que os ouvintes aplicassem o que chamamos de capí­ tulo 6 a um texto no capítulo 7!

Histórias de Milagres Os capítulos 8-9 contêm a maior coletânea, no Evangelho de Mateus, de relatos de milagres de Jesus, que aparecem também em vários outros pontos dos Evangelhos. Provavelmente, o princípio mais importante a ter em mente na aplicação destas passagens é o fato de que todos os milagres pretendiam, originalmente, dem onstrar a presença do reino e a chegada do Messias (veja Mt 12.28).|l' Assim, os milagres não nos ensinam, antes de mais nada, como Deus deseja satisfazer as neces­ sidades humanas por intermédio de Cristo (embora certamente Ele faça isso), mas como nós devemos reconhecer quem é Jesus. Apesar de inúmeras mensagens sobre o acalmar da tempestade que afirmam que "Jesus irá acalmar as tempestades nas nossas vidas, tam bém ", o fato é que muitas vezes Ele não nos removerá das "águas tem pestuosas", mas nos preservará em segurança no meio delas (cf. 1 Co 10.13). A maneira mais importante de aplicar o milagre é, na verdade, glorificar a Jesus, espelhando a reação original dos discípulos: "E aqueles homens se m a­ ravilharam, dizendo: Que homem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem ?" (Mt 8.27). De modo similar, não podemos nos voltar aos milagres de cura física e supor que a aplicação, para nós, é que a nós também está assegurada a restauração da saúde depois de doença ou ferimentos. Afinal, cada um de nós deverá, no fim, ter uma experiência terminal — ou seja, a morte. Na verdade, como está explícito na cura do paralítico em Mateus 9.1-8 e passagens paralelas, Jesus realiza milagres de cura física para dem ons­ trar a sua capacidade de cumprir uma promessa mais importante, com a qual sempre poderemos contar — a cura espiritual, começando com o perdão dos nossos pecados (vv. 4-6).

Histórias de Provérbios e Pronunciamentos Espalhados pelos Evangelhos aparecem ensinamentos de Jesus que são parecidos intimamente com os provérbios do Antigo Testamento.


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Por exemplo, Mateus 9.12 e paralelas descrevem Jesus declarando: "N ão necessitam de médico os sãos, mas sim, os doentes". O princípio mais im portante que se deve ter em m ente na aplicação dos provérbios, é o fato de que eles são generalizações sobre o que é frequentemente verdadeiro, e não princípios rígidos que não admitem exceções. Havia ocasiões, no mundo antigo, como há também hoje em dia, em que os médicos davam conselhos aos pacientes saudáveis; mas esta não era (nem é) a sua função principal. A mesma coisa é verdadeira no nível da "m edicina espiritual". Portanto, não devemos concluir, com base neste provérbio, que os cristãos não devem jamais recorrer a Jesus, exceto quando pecam, embora seja verdade que a expiação dos nossos peca­ dos era a razão principal do ministério de Jesus. Em muitos casos, os provérbios ou outras frases curtas e culminan­ tes estão embutidos no que os acadêmicos chamam de "histórias de pronunciam entos".20 Estes episódios colocaram Jesus em conflito com várias autoridades judaicas, de modo que também são descritos como "histórias de controvérsias" ou "conflito". Mateus 12.1-8 e paralelas for­ necem um excelente exemplo. Jesus e os seus seguidores são confron­ tados pelos fariseus, porque "colheram " grãos dos campos para comer em um sábado. Jesus apela a vários precedentes do Antigo Testamento, para justificar o seu comportamento, mas sucintamente encerra a ques­ tão, declarando que "o Filho do Homem até do sábado é Senhor" (v. 8). Aqui está a parte mais radical e culminante da passagem. Jesus declara que pode falar em nome de Deus, declarando com autoridade o signifi­ cado e a aplicação, para o seu tempo, de um dos dez importantes man­ damentos da lei do Antigo Testamento. Os versículos 9-13 fornecem um segundo exemplo de Jesus desafiando as regras rígidas e farisaicas sobre o sábado. Não é de admirar, então, que "os fariseus, tendo saído, formaram conselho contra ele, para o matarem" (v. 14). Em algumas culturas cristãs da atualidade, os crentes, de igual maneira, irão des­ pertar a ira de seus próprios líderes, se implementarem os princípios de Jesus e desafiarem as regras locais e legalísticas sobre o que pode ou não ser feito no domingo. Mas a fidelidade na aplicação desses textos requer exatam ente este desafio, ainda que diplomático, mesmo quando vier com um preço a pagar!21

Parábolas Mateus 13.1-52 nos apresenta uma série de oito parábolas. Talvez nenhuma seção das Escrituras tenha gerado tanto debate interpretativo


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ao longo dos anos como as parábolas de Jesus. Em outra publicação, co­ mentei a controvérsia a respeito de até que ponto as parábolas podem ser consideradas alegorias, e defendi a abordagem de que podemos deduzir uma lição principal de cada personagem principal em deter­ minada parábola.22 A aplicação destas lições frequentemente pode ser auxiliada pela "m odernização" das narrativas — contar novam ente as histórias, usando situações e personagens modernos que reproduzam fielmente o impacto original que as parábolas de Jesus devem ter tido sobre os seus ouvintes. Muitas vezes, o valor de choque das parábolas é perdido, hoje em dia, por causa dos séculos passados na sua fam iliari­ zação. Até mesmo os incrédulos atualmente estão convencidos de que um "sam aritano" é um "sujeito bom ", porque damos nomes a hospitais e leis que protegem o povo com base no "bom sam aritano". Mas ao chegar a esta conclusão precipitadamente, nós deixamos de perceber completamente a força original da parábola de Jesus (Lc 10.25-37), por­ que os samaritanos eram os odiados inimigos dos judeus antigos. Para o público contemporâneo, nós precisamos contar uma história sobre um soldado, à morte no campo de batalha, sendo resgatado por um dos membros da tropa de elite (ou equivalente) do inimigo. Ao fazer isso, conseguiremos transmitir com maior clareza a lição principal da parábola, de que até mesmo o inimigo é o próximo de alguém, assim como recriar a força original da narrativa, aplicando-a a uma situação atual equivalente. Ou considere um segundo exemplo de parábola. Imagine uma his­ tória sobre um homossexual ativo, que reconhece estar viciado em um modo de vida pecaminoso, e luta para abandoná-lo, embora jam ais con­ siga ser mais do que parcialmente bem-sucedido. Insira um relato sobre um honrado pastor evangélico conservador, que agradece com profu­ são a Deus por todas as suas bênçãos, incluindo o fato de que Deus o poupou dos piores vícios sociais que regularmente infestam a nossa sociedade. Conclua com o veredicto de Jesus, de que, sob determinadas circunstâncias, o primeiro homem poderia ser salvo, e o segundo, perdi­ do. Agora nós estabelecemos novamente o valor de choque da parábola de Jesus sobre o fariseu e o publicano (Lc 18.9-14), em um mundo em que todos sabiam que os fariseus eram líderes judeus respeitados, que buscavam obedecer fielmente à Lei em cada área da vida, ao passo que os publicanos eram os coletores de impostos, os odiosos traidores que tinham se vendido para trabalhar (pelo menos, indiretamente) para o Império Rom ano invasor. A modernização, então, convida os ouvintes


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a pensar em outros equivalentes, talvez ainda mais próximos, no seu mundo, para am bos os personagens, e a reconsiderar as suas atitudes com relação ao próxim o.23

Confissão e M á Interpretação Os capítulos seguintes de Mateus fornecem mais exemplos de for­ mas literárias já comentadas — particularmente, mais histórias de mi­ lagres e controvérsias. No meio do capítulo 16, encontramos um ponto decisivo, para o Evangelho de Mateus, em particular, e para o ministério de Jesus como um todo. Em nítida justaposição, sucessivas passagens narram o reconhecimento que Pedro, auxiliado pelo sobrenatural, tem de Jesus, como o verdadeiro Messias (16.13-20), assim como a sua inca­ pacidade de aceitar a predição do sofrimento iminente de Jesus e da sua morte (vv. 21-28). As duas partes são cruciais para a aplicação contem­ porânea. Por um lado, nós somos lembrados do propósito global dos Evangelhos — trazer homens e mulheres a um conhecimento salva­ dor de Jesus Cristo. A menos que uma pessoa seja levada, como Pedro, a confessar Jesus corretamente, nenhuma outra aplicação do Novo Testamento im portará, uma vez que esta pessoa continuará perdida no seu pecado. Mas professar simplesmente para seguir a Jesus é ina­ dequado, especialmente quando a pessoa faz isso visando meramente ganho pessoal. O caminho do verdadeiro discipulado é o caminho que leva à cruz — a morte para si mesmo, a negação do "triunfalism o" que perverte o evangelho, em uma fórmula de sucesso e prestígio terrenos, e a disposição de dar a própria vida por Cristo, se isso for necessário, ainda que signifique uma morte repleta de vergonha e agonia (o verda­ deiro significado de tomar a sua própria cruz e seguir Jesus — v. 24).24

Atos Simbólicos Novamente, os capítulos subsequentes repetem formas já introdu­ zidas. A nova forma que aparece cada vez mais no relato de Jesus, à medida que se aproxima da sua execução, é a do ensinamento de ato simbólico ou objeto profético, uma forma muito conhecida dos judeus do século I, com base em atos similares que são frequentes nos minis­ térios proféticos de Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oseias, Amós e Zacarias. Na verdade, o primeiro exemplo cumpre a profecia de Zacarias 9.9, quando Jesus entra em Jerusalém sobre um jumento, em uma procissão aparentemente triunfante, com a adulação das multidões ao seu redor (Mt 21.1-11). Eles reconhecem as suas reivindicações messiânicas, mas, como Pedro, não percebem o significado do humilde anim al de carga.


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O que a História da Igreja veio a chamar de "entrada triunfal" de Cristo seria mais apropriadamente chamada de "entrada não triunfal!"25 As mesmas aplicações que derivaram da confissão e da má interpretação de Pedro se repetem aqui. O Messias retornará, um dia, para libertar o seu povo do sofrimento terreno, mas até então, o discipulado poderá, na verdade, aumentar a possibilidade de tal sofrimento. Vários dos atos simbólicos de Jesus são ameaças do juízo de Deus sobre Israel e Jerusalém, em particular. A "explosão de ira" de Jesus no Templo representa a futura destruição do Templo por Deus, se a sua liderança não se arrepender.2'’ Comprimido junto a este evento, pelo menos na narrativa de Marcos (Mc 11.12-25) está a maldição da figueira por Jesus. Quando reconhecemos que as figueiras eram um símbolo comum no Antigo Testamento para Israel, parece provável que aqui a intenção fosse de um simbolismo similar. Até mesmo as parábolas e os "a is" que Jesus profere durante o seu ministério em Jerusalém (Mt 21.28; 22.14; 23.1-36) insistem neste tema do juízo. Muitos que julga­ vam pertencer ao povo de Deus acabam sendo seus oponentes. A apli­ cação contemporânea apropriada irá perguntar onde, na igreja visível de Cristo, aparecem opostos similares. Infelizmente, não é preciso se esforçar muito para encontrar paralelos, em muitas culturas em que o cristianism o existe, àqueles que colocam cargas pesadas sobre os om ­ bros dos outros, sem levantar um dedo para compartilhá-las (23.4), que exibem a sua piedade em público para obter elogios dos outros (vv. 5-7) ou que se deleitam com os títulos de exaltação pelos quais são tratados (vv. 8-10), e assim por diante. Aqui temos atividades cruciais para evi­ tar que sejamos encontrados lutando contra o próprio Deus.27

Discurso Apocalíptico Os capítulos 24 e 25 do Evangelho de Mateus nos apresentam o maior exem plo de literatura apocalíptica nos Evangelhos — um gêne­ ro literário conhecido, do Antigo Testamento, assim como de literatura judaica do período intertestamentário, e da literatura greco-romana. A sua principal ocorrência no Novo Testamento se dá com o livro do Apocalipse, que comentarei no final deste capítulo. Aqui, no entanto, podemos observar brevemente que o discurso apocalíptico tipicamente retrata eventos passados, presentes e especialmente futuros, com rou­ pagem altam ente simbólica — não para possibilitar que alguém predi­ ga, com antecipação, quando e como as profecias se cumprirão (pelo menos, não com detalhes), mas, em vez disso, para encorajar o povo


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de Deus, em tem pos extraordinariamente sombrios, com a lembrança de que Ele continua no controle, e de que está conduzindo a história humana a objetivos definidos, que, no final, irão incluir o resgate e a li­ bertação do seu povo, pelo menos espiritualmente, se não fisicamente.28 O discurso apocalíptico (ou escatológico) de Jesus, na verdade, se des­ tina a moderar um entusiasmo pelo "fim dos tempos", que pensa que consegue discernir, com base nos eventos atuais, que estam os vivendo na última geração da história humana. Os "sinais" que Jesus fornece aos seus discípulos são eventos que não deveriam alarmá-los, porque "é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim " (Mt 24.6).29 Embora os intérpretes discutam qual parto da mensagem de Jesus res­ ponde à pergunta dos discípulos, sobre a destruição do Templo nos seus dias, e qual parte trata da sua pergunta sobre a sua volta (v. 3), praticamente todos concordam que o objetivo de Jesus era encorajar o modo cie vida devoto e fiel, não importando quão longo ou curto o futuro venha a ser (segundo Mt 24.43 - 25.46). Infelizmente, cada século da História da Igreja teve aqueles que deixaram completamente de per­ ceber esta aplicação central, preferindo, em vez disso, especular sobre quando, e em quem, os eventos do fim dos tempos se cumpririam. Até hoje, a totalidade absoluta destas especulações provaram ser falsas, o que deveria inspirar uma considerável humildade por parte daqueles que estão dispostos a continuar fazendo conjecturas!30

Narrativas da Paixão Os relatos da última noite que Jesus passou com os seus discípulos, a sua prisão, os seus julgamentos e a sua crucificação (Mt 26 e 27) for­ mam as narrativas que são frequentemente chamadas de narrativas da Paixão. A questão mais básica na aplicação destes textos é a distinção entre o que era exclusivo ao contexto de Jesus e o que era exemplar para todos os crentes. Obviamente, somente a morte de Cristo expiava os pecados do mundo. E, como Cristo sabia, antecipadamente, que o plano de Deus para Ele era que fosse crucificado, Ele também sabia que não deveria lutar no jardim (26.52-54) nem se defender no tribunal (v.62). Não podemos interpretar automaticamente esses comportamen­ tos como exem plos de um pacifismo exigido de todos os crentes, em to­ das as partes. Na verdade, Jesus prometeu que os discípulos iriam falar e dar testemunho, quando levados a julgamento pela sua fé (10.19,20). Mas todos os discípulos podem esperar algum tipo de perseguição e dificuldades, por serem crentes, e alguns darão a sua vida como már­


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tires (16.24-27). Aqui está a aplicação permanente das narrativas da Paixão para os crentes, o que, novamente, desmente o assim chamado Evangelho de riqueza/saúde ou prosperidade.

Padrões de Paradigma Uma categoria especial de ato simbólico encontra dois exemplos na narrativa da Paixão de Cristo. Jesus exemplifica duas vezes uma ver­ dade teológica profunda através das suas lições dramáticas e então or­ dena que os seus discípulos imitem-no. O evento que quase todos os ramos do cristianismo reconhecem como "sacram ento" ou "ordenan­ ça", a ser repetida sempre que a igreja se congregar, é a Ultima Ceia de Jesus (26.17-30). Os cristãos aplicam essa passagem, quando repartem e compartilham o pão e o vinho, refletem sobre como eles representam o corpo ferido e o sangue derramado de Cristo, e desta maneira celebram o que veio a ser chamado de "Ceia do Senhor", "Santa Com unhão" ou "E ucaristia".31 No Evangelho de João, no entanto, em lugar das "Palavras de Instituição" que explicam o novo significado que Jesus confere ao pão e ao vinho na Páscoa, Jesus lava os pés dos discípulos e ordena que os seus seguidores façam o mesmo (Jo 13.2-17). Embora al­ guns ramos da igreja repitam literalmente esta cerimônia, regularmen­ te, no contexto da adoração, muitos reconhecem que esta prática é um paradigma do estilo de vida do serviço humilde que os crentes devem imitar.32

Narrativas da Ressurreição Como uma subcategoria das histórias de milagres, as narrativas da ressurreição não expressam de forma explícita a sua aplicação, com a convocação para reconhecer quem é Jesus e para segui-Lo, como vemos em outras passagens nos relatos dos milagres de Jesus. Mas esta reação é claramente apropriada. Uma das passagens mais enigmáticas em to­ dos os Evangelhos, no entanto, pode, na verdade, indicar uma segun­ da e importante aplicação. Em Mateus 27.51-53, um pequeno grupo de "santos" é ressuscitado, juntam ente com Jesus, saindo de seus sepulcros depois da ressurreição de Cristo, e aparecendo a muitos.33 Inúmeras perguntas sobre essa narrativa continuam sem respostas (quem eram estes santos? quem os viu? durante quanto tempo continuaram a apare­ cer? etc.). Mas pelo menos uma coisa pode ser dita com certa confiança. Considerando a convicção dos judeus, de que todas as pessoas, um dia, ressuscitarão, algumas para a vida eterna e outras para a punição eter­ na (veja especialmente Dn 12.2), Mateus parece querer dizer, pela sua


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inclusão desta passagem, que a ressurreição de Jesus é "as primícias" da ressurreição geral futura de todas as pessoas, das quais algumas se­ rão ressuscitadas com Jesus, em antecipação a muitas mais. Paulo, é claro, tornará isso mais explícito em 1 Coríntios 15.23.

Discursos e Diálogos no Evangelho Escrito por João Marcos e Lucas correspondem grandemente a Mateus, com respeito às formas literárias em que instruem sobre os ensinamentos e aos atos de Jesus. João, por outro lado, inclui vários sermões mais longos e diá­ logos de Jesus com vários públicos. Essas formas, por sua vez, podem ser divididas em várias subcategorias. Em primeiro lugar, Jesus realiza diálogos longos com indivíduos. João 3 e 4 são grandemente dedicados à apresentação das conversas que Jesus teve com Nicodemos e com a samaritana. Esses dois indivíduos contrastam entre praticamente todas as maneiras imagináveis, incluin­ do sexo, religião, etnia, acesso à educação, moralidade, honra e poder. Mas as contribuições de Nicodemos à sua conversa se tornam progres­ sivamente mais breves e demonstram a sua crescente perplexidade, ao passo que a samaritana mantém o nível de sua conversa com o Senhor Jesus, como uma parceira que responde a Jesus com fé, e se torna uma evangelista para o seu próprio povo. A justaposição dos dois persona­ gens em capítulos consecutivos torna ainda mais evidente o contraste entre eles, e sugere que o objetivo de João é surpreender os seus leito­ res com a revelação de quem crê ou não. Como acontece com o tema da "grande inversão" nos Evangelhos Sinóticos, somos convidados a considerar quem são as pessoas comparáveis a estas no nosso mundo, e como elas desafiam as nossas expectativas a respeito de quem mais provavelmente irá crer, e quem não o fará.14 Em segundo lugar, alguns dos discursos de Jesus, apresentados sem interrupção por João, demonstram quiasmo, isto é, uma estrutura para­ lela invertida. João 5.19-30 possibilita um claro exemplo, como demons­ tra o esquema abaixo: Princípio da imitação + raciocínio (vv. 19,20a) Ensinamento sobre "m aravilhar-se" (v.20b) Exemplos de vida/juízo (vv.21-23) + propósito ou razão Um duplo "A m ém " sobre a salvação (v.24)

(v. 30) (vv. 28,29) (vv. 26,27)

(v. 25)35


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O propósito de um quiasmo é colocar o clímax da construção no centro, e não no final, da passagem. Assim, a ideia principal deste "ser­ m ão" aparece nos versículos 24 e 25, com a ênfase repetida de Jesus de que quem ouvir a sua palavra, e crer, viverá eternamente. A interpreta­ ção e consequente aplicação deverá se concentrar nesta "grande ideia". Aqueles que confiam em Cristo podem vivenciar uma qualidade de vida diferente neste mundo (v.24) assim como no mundo futuro (v.25). E esta a nossa perspectiva para a vida cristã e para a vida das nossas igrejas? Todo o Sermão de despedida de Jesus (Jo 14-16) parece, sim ilarm en­ te, arranjado sob a forma de quiasmos, embora nem cada cabeçalho de seção incorpore claramente todos os detalhes contidos nesta seção: 14.1 Introdução: Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.

16.33 Conclusão: Que em mim tenhais paz, apesar das allições do mundo.

14.2-14 Jesus está indo para junto do Pai (preparar um lugar/ Ele é o

16.17-32 Jesus está indo para junto do Pai (a tristeza se converterá em alegria / pedir ao Pai no nome de Jesus)

caminho / o Pai está nEle)

14.15-21 Jesus promete o Consolador (o Espírito da verdade, para estar com os discípulos)

16.5-16 Jesus promete o Consolador (o Espírito da verdade para convencer o mundo e guiar os discípulos em toda a verdade)

14.22-31 A revelação de Jesus aos discípulos e não ao mundo (o ensinamento do Espírito versu s o príncipe das trevas)

15.18-16.4 O ódio do mundo e a rejeição ao testemunho dos discípulos (o Espírito capacita às testemunhas)

15.1 -8 A videira e os ramos: estar

15.9-17 Amar como Jesus / dar a si

em Jesus / produzir muitos frutos

mesmo como sacrifício-16

Se algo parecido com este esquema for o alvo, então certamente o ponto mais importante, novamente, aparece no material central de


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15.1-17, que certam ente é crucial teologicamente. Os crentes devem es­ tar tão conectados a Jesus que o seu m odo de vida se torne como o dEle, ao ponto de morrer pela sua fé, se as coisas chegarem a este ponto. No nosso mundo ocidental, de incontáveis profissões de comprometimen­ to cristão, acompanhadas por tão pequenas modificações no compor­ tamento, vale a pena perguntar quantos crentes realmente pertencem a Cristo. Um terceiro tipo de discurso é bem exemplificado pelo sermão de Jesus na sinagoga de Cafamaum, em João 6.25-59. Este material (vv. 31-58) forma uma unidade que segue a forma literária e retórica dos judeus, conhecida como um proeiii midrash?7 Um texto das Escrituras é introduzido para discussão (v. 31), e então é comentado e parafrasea­ do (vv. 32-40). Certos elementos desta discussão levam a uma segunda passagem das Escrituras (vv. 41-44), que é, então, explicada (vv. 45-47). Finalmente, a atenção retorna à primeira passagem, com explicações adicionais (vv. 48-58). O tema que une aqui este material é a alusão das Escrituras ao "pão do céu".38 Audaciosamente, Jesus está declaran­ do ser o próprio Pão da Vida, propiciando nutrição espiritual para o povo de Deus, assim como Yahweh tinha fornecido pão literal no de­ serto (o maná) durante as peregrinações dos israelitas nos tempos de Moisés. As aplicações, portanto, devem se concentrar nesta passagem das Escrituras e na reivindicação de Jesus de tê-la cumprido. A nutrição espiritual tem precedência à nutrição física para os crentes, e somente em Cristo este sustento está verdadeiramente disponível. Uma quarta categoria de sermão de João encontra Jesus dialogando com as multidões. João 7.14-52 revela um efeito característico desta forma de sermão, ilustrado nos Evangelhos Sinóticos por Jesus falando em parábolas (Mc 4.10-12), especificamente, a polarização da audiência de Cristo (veja especialmente João 7.40-52). Embora o Novo Testamento apresente inúmeros e diversos modelos para evangelização, mais cedo ou mais tarde a nossa apresentação do Evangelho deverá ser clara e indicar suficientemente que exige uma decisão. Quando isso acontecer, se tivermos representado a mensagem adequadamente, alguns serão atraídos para se tom ar crentes, e outros serão repelidos. Se nós jamais tivermos uma resposta que não seja a neutralidade ou a indiferença, provavelmente não teremos explicado de forma adequada o que está em jogo! João 8.31-59 oferece um segundo exemplo de Jesus em diálogo com as multidões, ilustrando vividamente um lado desta resposta polarizada.


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Aqueles que pareciam, realmente, crer em Jesus no início do diálogo (vv. 30,31) estão entre os que tentam apedrejá-lo no final do capítulo (v. 59). Eles percebem somente blasfêmia quando Jesus se refere a si mesmo com o nome divino de Êxodo 3.14 (v. 58 — "antes que Abraão existisse, eu sou" [o itálico é meu]). Metodologicamente, essa passagem ilustra vários princípios essenciais envolvidos na aplicação dos sermões e diálogos expostos no Evangelho de João. Em praticamente cada um deles, aparece uma declaração cristológica importante, frequentemente articulada na forma de uma declaração do tipo "Eu sou" — Jesus decla­ rando ser o Pão da Vida, a Água Viva, a Ressurreição e a Vida, e assim por diante. Quaisquer que sejam os outros ensinamentos contidos em cada passagem, a obediência não é completa, até que reconheçamos Jesus por quem Ele declara ser — a encarnação do próprio Deus. Além disso, não é a profissão inicial de fé, mas é "estar" nEle o que importa (do grego, ineuõ — um verbo que a versão ARA traduz nor­ malmente como "perm anecer"). Paradoxalmente, o Evangelho de João tem algumas das mais fortes declarações em o Novo Testamento sobre a segurança do crente (por exemplo, Jo 6.39,40; 10.29), ao passo que insiste que aqueles que não permanecerem em Cristo serão "tirados" (15.2). Aparentemente, João acredita que somente quando se examina a vida de um indivíduo e se observa se ele permaneceu na fé ou se afas­ tou dela, é possível determinar se foi um crente genuíno (1 Jo 2.19). A segurança vem quando a pessoa continua — verbo no presente — a crer (1 Jo 5.13).19 E os sermões que João nos traz, de Jesus dialogando com as multidões e as autoridades judaicas, fornecem alguns dos exemplos mais claros do Novo Testamento deste princípio. Finalmente, à medida que Jesus se aproxima do fim da sua vida, João o retrata em extensas exortações aos seus discípulos. Praticamente to­ dos os princípios necessários para aplicar estas mensagens emergiram em outro ensinamento do Evangelho sobre o discipulado. Mas uma característica singular aparece em 17.20-23. Este é o único ponto dos Evangelhos, em que Jesus se refere diretamente a nós, que vivemos no século XXI! Aliás, Ele se refere a todos os crentes da era pós-apostólica, quando ora, não apenas pelos discípulos presentes com Ele, mas "tam ­ bém por aqueles que, pela sua palavra, hão de crer em m im " (v. 20). Todos os que vieram à fé depois da morte dos doze, o fizeram por causa da Palavra oral ou escrita que preservou as verdades do século I. Assim, deve ser muito importante ver o que Jesus pediu em oração para esta comunidade de seus seguidores ao longo dos séculos. De maneira im­


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pressionante, Ele ora pela sua unidade, uma unidade que, de alguma maneira, se assemelha à unidade que Ele tem com seu Pai, e para que "o mundo conheça" que Cristo era realmente enviado dos céus (v.23). Enquanto alguns divisores na História da Igreja, sem dúvida, foram necessários para preservar a doutrina cristã fundamental, Deus não pode estar satisfeito com as milhares de divisões da Igreja que tiveram lugar ao longo da história e por todo o mundo, por questões muito mais triviais. Os crentes genuínos e nascidos de novo devem se perguntar, repetidas vezes, como podem ser mais parceiros, em unidade, de modo que os incrédulos desejarão com partilhar deste amor singular gerado por Deus.40

O Livro de Atos dos Apóstolos Muitas das dificuldades para decidir o que fazer com os eventos do livro de Atos derivam da sua natureza transitória. Com a crucificação, a ressurreição e ascensão de Jesus e tendo Deus enviado o Espírito no Pentecostes, nós encontramos a mudança da "eradoA ntigoTestam en to" para a "era do Novo Testamento". O que era perfeitamente apropriado, talvez até ordenado para o povo de Deus, muda frequentemente du­ rante a transição da antiga para a nova aliança. A primeira geração de cristãos vem a crer que não é mais necessário que ofereçam sacrifícios de animais, porque Cristo é o sacrifício definitivo para o perdão dos pecados. "E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudestes ser justifi­ cados, por ele é justificado todo aquele que crê" (At 13.39). As leis ali­ mentares são rescindidas (capítulo 10) e não mais há uma terra santa ou um templo único (capítulo 7), como o lugar ideal onde o povo de Deus deva adorá-Lo. Mas os primeiros cristãos não despertaram na manhã seguinte ao Dia de Pentecostes e reconheceram instantaneamente cada uma destas mudanças. As transições vieram gradualmente, o que quer dizer que as aplicações do livro de Atos não podem simplesmente su­ por que cada ato apostólico deva ser imitado. Assim, não podemos necessariamente deduzir que a purificação de Paulo e o pagamento por determinados sacrifícios de animais dos cristãos judeus tenha sido uma boa ideia, e muito menos a vontade de Deus, especialmente quando o plano desejado para reconstruir a con­ fiança entre os críticos de Paulo fracassa desastrosamente (22.20-36). Ainda mais impressionante, os apóstolos lançando sortes (um tipo de rolar do dado sagrado) para definir a substituição de Judas (At 1.26) segue o precedente estabelecido no Antigo Testamento, mas não volta


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a aparecer em o Novo Testamento. A vinda do Espírito Santo para ha­ bitar permanentemente nos crentes no Pentecostes propicia um tipo de orientação indisponível em muitos contextos do Antigo Testamento e torna obsoleto o lançar de sortes.41 Além de prestar cuidadosa atenção ao ponto em que uma prática aparece no desenvolvimento do entendimento do novo concerto pela Igreja, vários outros princípios nos auxiliam a aplicar o livro de Atos. Um segundo passo essencial é procurar as hidicações narrativas de Lucas. Quando nenhuma instrução direta é dada aos crentes, é fácil se pergun­ tar se determinada história oferece modelos que devem ser imitados ou evitados. O compartilhar comunitário dos primeiros cristãos, de Atos 2.42-47 e 4.32; 5.11 é citado, por um lado, como um modelo exem plar e um motivo para apoiar o comunismo dos tempos modernos, e, por outro lado, como uma experiência fracassada e um costume a evitar! Ambas as perspectivas vão além do que o texto declara explicitam en­ te, mas é impressionante que Lucas descreva os resultados de hábitos como o cuidado com os pobres, a alegria, o louvor a Deus, a alta con­ sideração pelos apóstolos, as curas milagrosas e novas pessoas sendo salvas (2.46-47; 5.12-16). O juízo que se abateu sobre Ananias e Safira (5.1-11), o único resultado negativo, não veio pelo fato de participarem ou não, compartilhando seus bens, mas porque mentiram sobre até que ponto estavam participando (vv. 2-4). É melhor, então, concluir que as imagens de compartilhamento comunitário são exemplos positivos a imitar.42 Mas isso suscita uma nova pergunta, que nos leva a um terceiro princípio para a aplicação do livro de Atos. Quão servilmente devemos imitar o seu modelo? Quando o livro de Atos nos oferece narrativas de exemplo, devemos perguntar com que constância o próprio livro de Atos reproduz este modelo?43 No caso de satisfazer as necessidades dos pobres, há três paradigmas essenciais, todos apresentados como úteis, mas muito diferentes entre si. Em Atos 6.1-7, é estabelecido o precedente para o cargo futuro de "diácono" — determinados líderes são escolhi­ dos para supervisionar uma distribuição diária de comida ou dinheiro para os pobres. Os apóstolos não administrariam mais uma tesouraria comunitária. Então, em 11.27-30, uma oferta especial é recolhida para satisfazer as necessidades de cristãos que sofriam muito gravemente durante um período de fome. Três diferentes modelos provam ser efi­ cazes em diferentes circunstâncias, mas o elo com um é a provisão m a­ terial para os pobres. Isso sugere que a aplicação contemporânea deve


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seguir qualquer um destes três modelos, ou inventar outros, de modo que os cristãos com posses materiais excedentes ainda compartilhem generosamente com seus irmãos e irm ãs mais necessitados.44 Em outros casos, um modelo particular permanece imutável, por todo o livro. Quando o carcereiro filipense pergunta a Paulo e Silas o que deve fazer para estar bem com Deus, a resposta é "Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo" (At 16.31). Esse é o consistente meio de sal­ vação, por todo o livro de Atos. Na verdade, 4.12 generaliza, declaran­ do: "em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nom e há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos". Nós estam os certos em concluir que Lucas, como Paulo, acre­ ditava que a salvação vem unicamente pela fé em Jesus. Em alguns casos, é difícil determ inar se o livro de Atos apresenta um padrão inviolável ou modelos diversos. E o que dizer sobre a vinda do Espírito Santo à vida de uma pessoa? Atos 2.38,39 parece apresentar claramente uma norma universal: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos pecados, e re­ cebereis o dom do Espírito Santo. Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos e a todos os que estão longe: a tantos quantos Deus, nosso Senhor, chamar". E o padrão iwniitil no resto do livro é que, sempre que alguem verdadeiramente crê, o Espírito Santo passa a habitar nesta pessoa e a capacita para a obediência cristã. O que, então, fazemos com a única e aparentemente gritante exceção a este padrão — os samaritanos que reagem à pregação de Filipe com aparente fé, mas não recebem o Espírito até que Pedro e João desçam de Jerusalém para impor as mãos sobre eles (8.12-17)?41' Alguns tentaram fazer desta exceção a norma, e insistem em uma "segunda bênção" do poder do Espírito subsequente à conversão, mas as exceções são más justificativas à regra! Outros argumentaram que iino existe padrão normativo, mas isso ignora a tendência geral do próprio livro de Atos, assim como a convicta afirmação de Paulo, em Romanos 8.9, de que "se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele". Provavelmente a abordagem mais comum, adotada por comentaristas evangélicos, é a de que esta é uma abordagem excepcional para uma si­ tuação excepcional. Como ela representava a primeira conversão geral de samaritanos ao cristianismo, de maneira nenhuma assegurava que a comunidade exclusivamente de cristãos judeus receberia bem estes antigos inimigos, em igualdade de condições dentro da igreja recémnascida. Talvez os líderes apostólicos precisassem confirmar, por si


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mesmos, a legitimidade destas novas conversões. Que melhor maneira haveria, do que o Espírito Santo m anifestando-se de uma maneira tan­ gível, precisamente pelo ministério de Pedro e João? Por outro lado, pode ser que esta passagem não seja a exceção que parece ser. Simão, o Mágico, também é descrito como tendo crido (v.13), mas rapidamente demonstra que o seu "coração não é reto diante de Deus" (v.21), a tal ponto que Pedro profere uma maldição sobre ele (v.20). Talvez a "crença" dos outros samaritanos seja, de igual m anei­ ra, apenas aparente, e é somente depois que Pedro e João chegam e os instruem que eles verdadeiramente compreendem e são salvos.4h Se esta passagem e ou não verdadeiramente uma exceção dentro do livro de Atos, o importante, para a aplicação desta lei, é que ela não pode ser convertida em um requisito de que todos os crentes devem ter al­ guma capacitação extra, subsequente, dramática do Espírito Santo de­ pois da sua salvação inicial, para que a sua vida cristã amadureça. Por outro lado, nenhum texto das Escrituras exclui a possibilidade de que o Espírito possa, em determinadas ocasiões, na sua soberania, decidir abençoar alguns dos seguidores de Cristo, de maneira especial, como aconteceu com os samaritanos. Um quarto princípio essencial na aplicação do livro de Atos envolve a contextuaiização — formular o evangelho em linguagem que melhor transmita a sua essência em um contexto específico.47 Talvez a razão principal que se tem para examinar o livro todo a fim de determinar quais modelos são consistentes e quais variam, seja que os primeiros cristãos trabalharam arduamente para apresentar o evangelho às di­ versas culturas em que pregavam. Os sermões no livro de Atos forne­ cem um exemplo clássico. Por um lado, há elementos comuns em quase todos eles, independentemente de quem é o pregador — um apelo à revelação geral ou especial para estabelecer bases comuns com a audi­ ência, referências a Jesus como o cumprimento de todas as aspirações religiosas anteriores, um foco na sua morte e ressurreição como o cen­ tro da mensagem cristã, e um apelo ao arrependimento ou para que se tornem seguidores de Cristo.48 Por outro lado, não há duas mensagens idênticas. Paulo, cujos sermões ocupam a maior porcentagem de dis­ cursos no livro de Atos, cuidadosamente adapta cada mensagem ao seu contexto. Aos judeus, na sinagoga, ele apela para a história do Antigo Testamento e a inúmeras passagens das Escrituras que ele acredita que apontem para Cristo (13.16-41). Aos pagãos em Listra, Paulo enfatiza o testemunho de Deus na natureza (14.15-18). Aos atenienses interes­


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sados em filosofia, ele apela a um Deus desconhecido a quem erigiram um altar, cita poesia grega e toca filosofias estóicas e epicurianas alter­ nadamente (17.22-31). E aos anciãos das igrejas de Éfeso e arredores, ele se parece com o Paulo das epístolas — falando sobre a importância da graça de Deus, a fé em Jesus, o seu sangue expiador, e o perigo dos falsos mestres (20.17-35). Isso não é de surpreender, uma vez que todas as cartas de Paulo são igualmente dirigidas a públicos cristãos,4<í Infelizmente, em muitos pontos na história da igreja, os cristãos não equilibraram cuidadosamente estas características de uma mensagem essencial comum e contextualização cuidadosa. Ou eles criavam um programa "tam anho único" de evangelização que não trata de situa­ ções, entendimentos e necessidades distintas de cada indivíduo ou cada público, ou trabalhavam tão duro para se adequar a cada situação diferente que o material fundamental ficava de fora. As palavras de Kenneth Gangel permanecem tão verdadeiras hoje como quando foram escritas, há uma geração: Os intelectuais da sociedade de hoje não receberam do cristianismo contemporâneo um testemunho tão distinto da verdade como o que foi ouvido pelos filósofos gregos em Atenas, naquele dia. A "pregação da cruz" não precisa consistir de divagações verbais, calculadas para evocar apropriadas respostas emocionais. O sermão no Areópago nos oferece um padrão de excelência, em profundidade e relevância. Que os atenienses da era moderna ouçam, outra vez, a palavra do Cristo res­ suscitado.™

Um quinto princípio para ap licar o livro de Atos é enfatizar aquilo a que Lucas dedica o m aior espaço na sua narrativa. Q uando al­ guém não está basicam ente transm itind o ordens, m as n arrando a história, um m ecanism o com um para en fatizar o m aterial m ais im ­ portante envolve o uso de espaço narrativo. As h istórias que são contadas com m ais detalhes ou de uma m aneira m ais lenta são norm alm ente m ais im portantes. Ou o narrador pode retornar ao m esm o evento m ais de uma vez. A ssim , em bora d ificilm en te seja o m ais conhecid o discurso do livro de A tos, a "d e fe sa " de Estêvão, diante do Sin éd rio (7.2-53) é narrada com abundância de detalhes. C onsiderando a liberdade que os historiadores an tigos sentiam ter para abreviar seus relatos, Lucas deve ter visto algo de grande im portância aqui. Estêvão pode ter sido o prim eiro cristão a reco­


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nhecer até que ponto a vind a de C risto tin h a trazido a liberdade da lei ju d aica, uma ênfase essen cial por todo o discurso. Esta lib e r­ dade era crucial para o d esenvolvim en to do cristian ism o, a p artir de uma seita exclu sivam en te ju d aica, para um a religião u niversal para todos os pov os.51 O nde a liberdade em C risto não p erm an ece essen cial na experiência cristã con tem porânea, o livro de A tos, de m odo geral, e as palavras de Estêvão, em particu lar, devem ser aplicad os literalm ente! O encontro de Pedro com C ornélio nos fornece um excelen te exem plo de ênfase por repetição. Não apenas Lucas relata o ep isó ­ dio m uito d etalh ad am en te (capítu lo 10), com o dedica outra grande porção de texto, para que Pedro conte n ovam ente a sua história aos líderes da igreja em Jeru salém (11.1-18). A seguir, ele d escre­ ve com o Pedro se referiu a este incidente novam ente no C on cílio A postólico (15.6-11).52 Está claro que o grande progresso con h ecid o com o "P en teco stes g en tílico " foi crucial para o entendim ento de Lucas sobre o crescim en to do cristianism o. A igreja não som ente se libertou da Lei de M oisés, mas o evan gelh o ficou disponível aos gentios, nas m esm as con d ições que para os judeus. Um últim o princípio é o reverso deste últim o. Com freq u ên ­ cia acontece que grande quantid ad e de d etalh es em narrativ as ex ­ tensas está presente sim plesm ente porque eles nos ajudam a com ­ preen der os pontos im portantes, m over a história para a sua cena seguinte, ou acrescentar d eleite artístico ou estético ao relato. É p reciso ter cuidado, portanto, e não atribu ir um significado ex cessi­ vo aos detalhes mais periféricos das narrativas. O m elhor exem plo no livro de A tos é a longa d escrição da viagem quase fatal de Paulo a Rom a, e o naufrágio que resultou dela. As m uitas escalas e os ricos detalhes náuticos do cap ítu lo 27 adicionam ao relato uma cred ib i­ lidade h istórica, além de um a sensação de su spense e av en tu ra.53 A severid ad e da tem pestade e a extensão dos perigos am pliam a g ra­ ça de Deus, ao poupar as vid as de todos os que estavam a bordo. Mas não devem os nos esforçar para en con trar aplicações pessoais para os cren tes de hoje, com base nos d etalhes da direção do vento, ou a passagem por uma ilha cham ada C aud a, o am arrar dos botes salva-v id as, o m edo dos bancos de areia, o abaixar das ân coras, e etc. (vv. 13-20). As aplicações devem vir de partes teológicas da passagem , com o o en corajam en to para os m arinheiros e as p ro m es­ sas de D eus a Paulo (vv. 21-26).


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As Epístolas de Paulo N

o r m a t iv a s o u

E s p e c íf ic a s

em

R

ela çã o à

S it u a ç ã o ?

Sem dúvida, a maior dificuldade na aplicação das epístolas está na questão de quando as ordens específicas são atemporais por natu­ reza, e quando se aplicam somente sob determinadas circunstâncias. Nós jamais devemos perder de vista a natureza "ocasional" das cartas do Novo Testamento, particularmente as de Paulo, na medida em que todas as suas cartas foram, inicialmente, dirigidas a uma congregação cristã ou a um indivíduo.54 Ainda que nenhuma lista possa jam ais vir a cobrir todas as possibili­ dades, a seguinte série de perguntas pode avançar razoavelmente para determinar a extensão em que as instruções das epístolas deveriam ser aplicadas. Em primeiro lugar, o contexto imediato se justapõe a um mandamento aparentemente contraditório? Caso afirmativo, então provavelmente cada parte da passagem contem limitações implícitas da sua aplicação. A passagem de Romanos 12.17-21 tem sido tomada como respaldo para o pacifismo integral: "A ninguém torneis mal por mal... lende pa/ com todos os homens... Não vos vingueis... se o teu inimigo tiver fome, dálhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber... Náo te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem ". Mas Romanos 13.1-7 imediatamen­ te se volta para a responsabilidade de estar sujeito a autoridade, que "não traz debalde a espada. E ministro de Deus e vingador para casti­ gar o que faz o m al" (v. 4). Mesmo sem qualquer crença na inspiração da Bíblia, normalmente se concede o benefício da dúvida aos autores coerentes e inteligentes, que não se contradizem, dentro de limites. Supostamente, Romanos 12.17-21 se refere à reação característica cristã de crentes e igrejas com relação a seus inimigos, ao passo que Romanos 13.1-7 apresenta a responsabilidade dos governos.55 Em segundo lugar, a ordem parece contradizer o ensinamento em outras partes dos textos de Paulo? Novamente, pode ser que uma ou ambas as passagens em que se percebe a aparente tensáo estejam sendo aplica­ das de maneira muito ampla. Assim, embora 1 Coríntios 14.33-38 não venha imediatamente depois de 11.2-16, novamente é razoável supor que o primeiro texto ajuda a qualificar o segundo.56 Em 1 Coríntios 11.5, Paulo tacitamente aprova que as m ulheres orem ou profetizem, des­ de que tenham as cabeças apropriadamente cobertas. Quando, então, ele declara, três capítulos adiante, que "A s mulheres estejam caladas


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nas igrejas" (14.34), é provável que ele tivesse em mente algum tipo específico de discurso. Sem entrar no complexo debate, os dois tipos mais prováveis de discursos em mente são a avaliação da profecia (uma tarefa que acaba atribuída à liderança da igreja e ao tópico mais recen­ temente discutido no contexto deste versículo) e interrupções pertur­ badoras baseadas em uma falta de educação prévia (que explicaria por que as mulheres deveriam perguntar em casa, a seus maridos — v. 35). É possível, até mesmo, com binar estas duas perspectivas. De qualquer forma, a passagem não deve ser aplicada hoje com o sentido de silen­ ciar as mulheres nos ambientes da igreja.57 Em terceiro lugar, o raciocínio para uma ordem específica funciona igual­ mente bem em todas as culturas? Caso a resposta seja não, novamente, de­ vem estar presentes dimensões específicas para as situações. Retornando a 1 Coríntios 11, é discutido se Paulo tem em mente algo que cubra externamente a cabeça ou simplesmente o cabelo, nos versículos 4-10, assim como se inspirando nos seus antecedentes judaicos ou na cultura greco-romana dos coríntios. Em cada combinação de fatores conhecida, no entanto, as cabeças descobertas ou cabelo curto nas mulheres, ou ca­ beças cobertas ou cabelo longo para os homens, sugeriam infidelidade sexual e/ou religiosa. Em culturas onde este simbolismo está ausente, a aplicação de fé dos mandamentos de Paulo significa não se preocupar literalmente com as cabeças cobertas, mas perguntar quais equivalentes culturais enviam os mesmos sinais enganadores. No mundo ocidental, estes sinais poderiam incluir uma pessoa casada, recusando-se a usar uma aliança de casamento ou flertando publicamente; juntamente com qualquer crente, casado ou solteiro, o uso de roupas excessivamente su­ gestivas ou vestir-se de maneira semelhante a um adorador, em alguma religião não-cristã.58 Nos versículos 14-16, no entanto, fica claro que Paulo está falando sobre o cabelo curto e longo. Aqui as razões que ele apresenta, para declarar que o cabelo longo, em um homem, é uma "desonra" (v. 14), ao passo que, em uma mulher, "lhe é honroso" (v. 15), à primeira vista parecem ser mais atemporais — "a mesma natureza" (v. 14) e o costu­ me de todas as igrejas (v. 16). Mas a criação judaica de Paulo lhe teria ensinado a respeito de pelo menos uma categoria de homens consagra­ dos singularmente, que nunca cortam os cabelos — os nazireus (veja especialmente Nm 6) — de modo que a "m esm a natureza" deve, aqui, se referir aos costumes greco-romanos do século I. Assim, também, o costume de todas as igrejas não pode significar nada além de "durante


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Questões Cruciais do Novo Testamento

o século I", mesmo se as instruções de Paulo aqui se destinassem a to­ das as suas congregações.59 O texto em 1 Coríntios 11, obviamente, demonstra a necessidade de que nós façamos um pouco da lição de casa de história, e compre­ endamos os fatores que estavam em ação no século I, quando as epís­ tolas foram escritas. Ao mesmo tempo, a aplicação pode recorrer a um contexto histórico implícito com excessiva rapidez e deixar de perceber a declaração clara do próprio texto. Por exemplo, 1 Coríntios 7.25-28 expressa a preferência de Paulo pela vida de solteiro. Como comparati­ vamente poucas pessoas, ao longo da História da Igreja, compartilham dessa preferência, é natural procurar contextualmente algum fator limi­ tador que influenciasse Paulo. Alguns comentaristas recordam a fome durante o final dos anos 40, e sugerem que efeitos prolongados torna­ ram a vida em Corinto particularmente difícil. Assim, a "instante neces­ sidade" do versículo 26 que torna a vida das pessoas casadas cheia de problemas (v. 28) se torna algo que os outros cristãos, em outras épocas e outros lugares, não enfrentam. Estes cristãos, então, devem procurar de forma fervorosa se casar, como diz o argumento. Mas os versículos 29-35 continuam, com considerável detalhe, es­ pecificando o que Paulo quer dizer com a "instante necessidade" — "o tempo se abrevia" (v. 29), "a aparência deste mundo passa" (v. 31), e as preocupações da pessoa casada são mais divididas do que as de uma pessoa solteira (vv. 32-35). Os dois primeiros argumentos refletem a ciência que tinha Paulo, de que o mundo poderia terminar a qual­ quer momento. O terceiro é claram ente intercultural. As três razões, portanto, permanecem atemporais. O tempo é ainda mais curto agora do que era nos dias de Paulo, quando os interesses das pessoas que estão juntas ainda estão divididos. Os cristãos como John Stott e Lottie Moon conscientemente optaram por permanecer solteiros para servir ao Senhor com devoção ainda maior, e indivisa, e todos os crentes deve­ riam pelo menos considerar seriamente esta opção. Paulo deixa claro, ao longo de todo o capítulo 7, que ele não está declarando que esta perspectiva é absoluta (vv. 9, 28a, 36, 38a, 39), mas quantos cristãos já propuseram esta pergunta?60 Em quarto lugar, um mandamento apela ao modo como Deus estabeleceu as coisas nos tempos do Antigo Testamento, ou ao modo como Ele as está estabelecendo agora, nos tempos do Novo Testamento? Em caso afirmativo, a instrução provavelmente contém uma dimensão atemporal, que também reflete a restauração de algum padrão original que tinha sido abandonado. O exem plo mais importante das cartas de


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Paulo é o seu repetido argumento de que a fé é anterior à Lei. Como Abraão foi justificado pela fé mais de quatrocentos anos antes que a Lei fosse introduzida (e porque ele foi justificado pela fé na sua própria vida, antes da sua clássica "boa obra" de preparar-se para sacrificar o seu filho, Isaque), a fé tem prioridade sobre os mandamentos de Moisés (Rm 4; G1 3.1-18). Aplicações destes temas das cartas de Paulo devem confrontar legalismos, nom ism os e etnocentrismos no nosso mundo — a tríade das manifestações do século 1, de uma ênfase inapropriada sobre as obras da Lei — e procurar substituí-los com a salvação pela graça, através da fé.61 Mais controversos são os exemplos do que foi chamado "ordenan­ ças da criação". Poucos hesitam, nos Evangelhos, quando Jesus argu­ menta a favor do casamento monógamo para a vida, com base na m a­ neira como Deus criou Adão e Eva, antes das suas concessões para o divórcio na lei mosaica, e até mesmo antes que o pecado corrompesse toda a humanidade (Mt 19.1-12). Mas quando Paulo apela para a or­ dem da criação a fim de respaldar a sua proibição para que as mulheres ensinem ou exerçam autoridade sobre os hom ens na igreja, os debates ficam acalorados (1 Tm 2.13). Naturalmente, um fator complicador en­ volve a dificuldade de traduzir palavras e frases essenciais na proibição de Paulo, no versículo 12. Argumentei, em outra obra, que Paulo não está proibindo dois atos desconexos (ensinar e exercer autoridade) mas o papel do "ensinam ento autorizado", que 1 Timóteo posteriormente equipara ao papel singular de um ancião ou supervisor (3.1-7; 5.17). Mas é difícil escapar à conclusão de que, de qualquer forma que se en­ tenda a proibição de Paulo, ele tenciona que ela seja atemporal.62 Essa conclusão é reforçada pela lógica das suas instruções para m a­ ridos e esposas, em Efésios 5.22-27. F, possível argumentar que funda­ mentar um mandamento na era do Antigo Testamento, antes da lei, ainda reflita um período de tempo corrompido pelo pecado. É até m es­ mo possível declarar que uma ordenança de criação possa não ser in­ teiramente intercultual, uma vez que as condições da nova criação em Cristo às vezes vão além da criação original. Veja como a encarnação de Cristo representa um acréscimo permanente de uma natureza humana à natureza divina que Ele tinha por toda a eternidade. Mas Paulo pode ordenar tanto a submissão de uma esposa como o amor sacrificial de um m arido, por uma analogia direta com Cristo. A submissão da m u­ lher deve ser "ao Senhor", a liderança do hom em espelha a autoridade de Cristo sobre a igreja, e o seu amor deve ser um modelo do amor de


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Jesus. A menos que seja o caso que "a igreja está sujeita a Cristo" so­ mente em determinadas épocas e lugares (v. 24a), não pode ser que "as mulheres sejam em tudo sujeitas a seu m arido" (v. 24b) somente em de­ terminadas culturas. A menos que Cristo tivesse amado e se entregado somente por algum as pessoas, em algumas culturas (v. 25b), é absurdo pensar que o marido deva amar a sua esposa, de uma forma sacrificial, somente em determinadas épocas e lugares (v. 25a)!63 Em quinto lugar, um mandamento reflete um princípio interadtural de­ clarado explicitamente no texto? Caso afirmativo, podemos esperar que seja atemporal. Quando Paulo insiste que somente pela fé em Cristo o povo poderá ficar bem com Deus, o seu argumento é que "todos pe­ caram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3.23). Com base em Romanos 1.18; 3.20, fica claro que o termo "todos" significa todos os seres humanos, sem exceção, uma vez que Paulo primeiro se expressa com respeito a todos os gentios (1.18-32), em seguida a todos os judeus (2.1; 3.8) e, finalmente, através de dez citações do Antigo Testamento, reforça a generalização de que ninguém, judeu ou gentio, seja justo, nem mesmo uma só pessoa (3.9-20).64 Por outro lado, em outras passagens, o que a princípio parece ser uma drástica generalização, pode passar a ter foco mais limitado, es­ pecialmente quando se observa o contexto mais amplo em que ela está embutida. Romanos 14.24 literalmente diz: "Eu sei e estou certo, no Senhor Jesus, que nenhuma coisa é de si mesma im unda". Esse texto tem sido mal utilizado, ao longo dos séculos, para justificar vários ti­ pos de im oralidade, mas se lermos todo o capítulo fica claro que Paulo está falando sobre os debates a respeito de comida pura e impura. Em uma era em que alguns judeus cristãos ainda insistiam em conservar as antigas leis alimentares, Paulo insiste que nenhum alimento é ineren­ temente impuro (como, na verdade, está escrito em algumas versões bíblicas).65 Em sexto lugar, especialm ente quando uma das cartas de Paulo é dirigida a um indivíduo, e não a uma igreja, devemos perguntar o que é aplicável exclusivam ente a este indivíduo, em lugar de ser exigido de todos os crentes? Por exem plo, em 1 Tim óteo 4.11-16, Paulo dá uma série de instruções a Timóteo, no seu papel de pastor da igreja de Efeso. A maioria delas pode se aplicar tam bém a cristãos que não são líderes de igreja, mas o versículo 13 é claram ente mais limitado: "Persiste em ler [as Escrituras], exortar e ensinar, até que eu vá". O utros pastores deveriam aplicar essa instrução às suas "descrições de trabalho" tam ­


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bém, mas Paulo não im aginaria todos os cristãos realizando estas três tarefas. O

u tros

P r in c íp io s

Aqui eu posso apresentar apenas alguns dos mais importantes con­ ceitos, com breves exemplos. Eu vou enumerar sete princípios adicio­ nais para aplicação das cartas de Paulo. Em primeiro lugar, determine onde está a ênfase de lima passagem, es­ pecialmente se de form a aparente houver princípios conflitantes nela. Em 1 Coríntios 8.1; 11.1, Paulo comenta o alimento sacrificado aos ídolos e outros temas moralmente neutros. Por um lado, o capítulo 8 enfatiza que os crentes deveriam tomar precauções para não levar outros cristãos ao pecado (ou a pecar contra a sua própria consciência, envolvendo-se em algo que não se sentem livres para fazer). Por sua vez, 1 Coríntios 9.19-23 enfatiza que os crentes são inerentemente livres para fazer suas próprias escolhas nestas áreas cinzentas. Na verdade, quando se trata de uma questão relativa aos incrédulos, eles deveriam evitar quaisquer restrições legalistas potenciais ao seu comportamento que pudessem colocar obstáculos desnecessários nos caminhos daqueles que ainda precisam vir à fé. No final desta seção, Paulo repete estes dois conceitos, mas como se fossem um sanduíche: primeiro a liberdade (10.25-27), e depois a restrição voluntária (vv. 28,29a); e, novamente, a liberdade (vv. 29b-30). O mesmo padrão a-b-a, com os mesmos elementos, aparece em Romanos 14.1-12, 14.13-15.4, e 15.7-13. A liberdade é o assunto princi­ pal; a restrição, o secundário. Assim, se alguém tiver que escolher entre enfatizar a liberdade do Evangelho e enfatizar as restrições em áreas m oralm ente neutras, deverá escolher a liberdade — uma lição que in­ contáveis legalistas da História da Igreja jam ais aprenderam!66 Em segundo lugar, aplicações específicas podem frequentem ente ser aplicadas a situações análogas que, não sendo assim, não seriam tratadas nas Escrituras. O exemplo do alimento sacrificado aos ídolos novamente fornece um exemplo clássico. Uma longa lista de questões análogas pode ser mais relevante em outras épocas e lugares, incluindo o uso do álcool, formas de recreação e vestir, estilos de música, e assim por dian­ te.67 Ou, para considerar um exemplo bastante diferente, não há nada na Bíblia sobre "estar morto no Espírito" — quando uma pessoa cai fisi­ camente e, às vezes, se contorce, em resposta a algum tipo de atividade "carism ática". Mas Paulo trata do fenômeno sobrenatural e, de alguma forma, similar, das línguas, ao longo de 1 Coríntios 14. Supostamente,


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os mesmos princípios se aplicam às duas situações, resumidas na ins­ trução de conclusão de Paulo, de não proibir o exercício do dom, mas usá-lo "decentem ente e com ordem " (isto é, de maneira que edifiquem, e não dividam, a comunidade — vv. 39,40).6S Em terceiro lugar, observe o que deve ter se destacado, no mundo de Paulo, como contrário à sua sociedade ou cultura. Essas são, provavelmente, as práticas que Paulo mais enfatiza. As antigas literaturas judaica, grega e romana, constantemente tratavam das responsabilidades das pessoas em relacionamentos de autoridade e subordinação. A forma literária das instruções a estes vários grupos de pessoas veio a ser conhecido como "código dom éstico". Uma pequena parte do que Paulo disse às esposas nos seus códigos teria parecido contracultural, mas a instrução para que os maridos se envolvessem em amor sacrificial deve ter choca­ do muitas pessoas (cf. Ef 5.22-24, com versículos 25-28).w Sem dúvida, aqui é onde deve estar a ênfase hoje, embora poucos cristãos pareçam reconhecer isso. De igual maneira, os princípios de Paulo a respeito da caridade financeira (veja especialmente 2 Co 8-9) teriam parecido tolos para os judeus, que proibiam que um indivíduo doasse mais de 20% da sua renda, e para os gentios, que nem mesmo tinham um amplo esque­ ma, que abrangia todo o império, para satisfazer as necessidades dos pobres, como tinham os judeus. A prática do dízimo gradual permane­ ce contracultural hoje, mas, na minha opinião, é o que a fiel aplicação do ensinamento de Paulo exige.70 Em quarto lugar, distinga entre o que se aplica unicamente a Deus ou fesus e o que pode ser imitado por todos os cristãos. Filipenses 2.5-11 retrata a encarnação, a crucificação, a ressurreição e a exaltação de Cristo. Paulo insere, neste ponto, este hino, porque deseja que os cristãos, em seus relacionamentos uns com os outros, tenham "o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus" (v. 5). Mas nenhum de nós é plenamen­ te divino, assim como plenamente humano, de modo que a nossa imi­ tação pode ser apenas parcial. Não podemos decidir deixar de usar de modo egoísta a nossa "igualdade a D eus" (v. 6), porque não possuímos esta igualdade. Nem podemos esperar ser "exaltados soberanam ente" (v. 9), novamente à destra do Pai. M as podemos nos recusar a converter os privilégios da vida cristã em algo a ser usado para nosso próprio be­ nefício, e podemos suportar melhor as injustiças nesta vida quando re­ conhecermos a gloriosa vida ressurrecta que espera por nós um dia.71 Em quinto lugar, tente discernir a estrutura global de uma epístola. Frequentemente os pontos principais da aplicação irão emergir das


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"grandes ideias" das principais divisões da carta. Também a sequência de tópicos pode fornecer conhecimentos importantes a respeito da sua aplicação. A epístola aos filipenses foi convincentemente esquem atiza­ da como uma carta "fam iliar" ou "de am izade": Saudações e Ação de graças (1.1-11) Confirmação sobre o remetente: Descrição do aprisionamento de Paulo (1.12-26) Pedido de confirmação dos destinatários: Chamado ao modo de vida como o de Cristo (1.27; 2.18) Informação sobre o m ovimento de intermediários: A respeito de Timóteo e Epafrodito (2.19-30) Preocupação especial: Advertências sobre os falsos mestres (3.1; 4.1) Instruções finais, agradecimentos e saudações (4.2-23)72 As duas seções — advertência contra os judaizantes e agradecimen­ tos aos filipenses pelo dinheiro enviado — divergem do esquema pa­ drão e demonstram as razões imediatas para o texto de Paulo. Mas uma aplicação principal pode ser obtida de cada seção do corpo da carta da maneira como ela está: (1) Encorajar os outros a respeito do seu bem estar no ministério; (2) desafiar os outros à unidade que resulta de tra­ tar os outros como mais importantes do que você mesmo; (3) elogiar publicamente os crentes fiéis; (4) advertir diretamente contra a heresia, quando a salvação das pessoas estiver realmente em perigo, mas so­ mente então; (5) agradecer às pessoas pelo seu apoio e ficar satisfeito, seja este apoio grande ou pequeno. No caso da parte da exortação de Romanos (12.1; 15.13), é a sequên­ cia de subseções que parece ser significativa. Em primeiro lugar, Paulo ordena que todos os crentes se transformem, em corpo e mente (12.1-2). A seguir, ele instrui que cada um descubra e utilize seus dons espiritu­ ais (vv. 3-8). O que parece, à primeira vista, uma miscelânea de ordens (12.9; 13.14) na realidade está inserido na estrutura de mandamentos de amor (12.9-13; 13.8-14); este material interveniente, de modo parti­ cular nas relações com os inimigos, certamente demonstra amor. Enfim, Paulo comenta a tolerância cristã de modo mais genérico (14.1-15.13). Quando observamos que 1 Coríntios 12-14 exibe uma estrutura similar — transformação fundacional (12.1-3); uso de dons com diversidade na unidade (12.4-31); amor (13.1-13); e tolerância mútua, equilibrando


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liberdade e restrição (14.1-40) — podemos suspeitar que a sequência de Paulo é deliberada. Se um indivíduo realmente desejar conhecer a vontade de Deus para a sua vida (Rm 12.2), deverá se entregar inte­ gralmente ao Senhor, exercer os dons espirituais com amor, tolerando os outros, cujos dons podem ser diferentes. E faz sentido realizar estas coisas nesta ordem.73 Em sexto lugar, distinga o que é central do que é periférico. Esse prin­ cípio é inerente a algumas das diretrizes e alguns dos exemplos que já forneci, mas merece ser detalhado explicitamente. Um dos assombrosos contrastes nas cartas de Paulo se dá entre a severidade com que ele con­ dena os falsos mestres, cujas crenças atacam o coração do evangelho, e a tolerância com que permite que as pessoas discordem dele em questões periféricas (cf. Gl 1.6-10 com 1 Co 9.19-23).7'1 Intimamente relacionado é o contraste, na epístola aos filipenses, entre a alegria de Paulo pela pregação do evangelho por mestres rivais, com motivos impróprios (Fp 1.15-18) e seus anátemas para os judaizantes que pervertem o evange­ lho em uma obra de justiça (3.2-11). Aparentemente os primeiros, que pregam por "interesse pessoal" (NTLH), ainda têm correto o cerne da mensagem, ao passo que os últimos, por mais bem intencionados que sejam, não. Infelizmente, lioje em dia a igreja frequentemente inverte estas prioridades, seja tolerando maior heresia (particularmente em cír­ culos liberais) ou discutindo sobre questões que não são importantes (particularmente em círculos conservadores). Os dois comportam en­ tos são contrários ao objetivo principal de Paulo, de conquistar para o Senhor tantos quantos possível, pela pregação do verdadeiro evange­ lho de Jesus Cristo. Finalmente, reconheça quando Paulo estabelece princípios que não po­ deriam ser plenam ente implementados no seu mundo, mas que desafiam os cristãos futuros n prosseguir nas direções às quais ele já se dirigia. O exem ­ plo clássico aqui envolve a escravidão. A curta carta a Filemom parece ser um pedido para que ele liberte seu escravo O nésim o, que tinha se convertido a Cristo pelo ministério de Paulo. 1 Coríntios 7.21 é difícil de traduzir, mas provavelmente ensina que os escravos que pudes­ sem obter a sua liberdade, deveriam fazer isso. Mas, em Colossenses 3.22-25, Paulo ainda ordena que os escravos se subm etam aos seus senhores (cf. Ef 6.5-8). O cristianism o acabaria trabalhando para abolir a escravidão em várias sociedades, em diferentes séculos, mas não há evidência de que a igreja apostólica tivesse iniciado um movimento deste tipo no século I. Inúmeras razões podem explicar isso: a sua


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falta de qualquer base de poder, os variados tipos de escravidão no Im pério Romano (muitos dos quais não eram extrem am ente severos), a prioridade da libertação espiritual sobre a física, e outras. M as podese argum entar com F. F. Bruce, que mesmo o pouco que Paulo ensina­ va nos traz "a uma atm osfera em que a instituição somente poderia definhar e m orrer".75 Muitos autores contemporâneos traçam paralelos explícitos entre os ensinam entos de Paulo sobre a escravidão e a sua instrução sobre os papéis dos sexos. Afinal, Gálatas 3.28 une claram ente as duas coisas, declarando, "N isto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesu s".76 Mas foram encontrados paralelos a Gálatas 3.28 em textos bastante pa­ triarcais no judaísmo antigo e no mundo greco-romano, de modo que é difícil concluir que esse versículo apenas prove que Paulo anteviu que não haveria distinções de qualquer tipo para qualquer povo, como os cristãos.77 A questão terá que ser definida, por análise detalhada dos textos que parecem preservar papéis determinados, como aqueles que já foram objeto de menção neste capítulo (especialm ente! Co 11.2-16; 14.33-38; Ef 5.22-33; e 1 Tm 2.8-15).

Hebreus e as Epístolas Gerais Todos os princípios para uma aplicação válida nas epístolas de Paulo trabalham bem com as epístolas de outros autores, também, embora di­ versos destes livros não estejam em tão íntima conformidade com o an­ tigo gênero de epístola, com o as cartas de Paulo.7" Mas em vários casos nós não temos suficiente informação que nos capacite a determ inar a data exata, o público ou até mesmo o local dos destinatários. Em muitos destes casos, no entanto, é possível reconstruir, com razoável número de detalhes, as circunstâncias daqueles que iriam receber as cartas — situações em que os autores das epístolas sentiam que seus públicos precisavam de instrução. Uma abordagem adicional para a aplicação das epístolas, portanto, é procurar situações similares no nosso mundo de hoje. A aplicação destas cartas com parativamente negligenciadas terá, então, uma urgência particular. As limitações de espaço impedem uma análise de cada uma dessas cartas, mas iremos considerar brevemente (rês delas, a título de exemplo. A epístola aos Hebreus provavelmente se dirige a um grupo de igrejas-em-casa de judeus cristãos em Roma, no início dos anos 60, quando a perseguição está começando a aumentar, e a epístola tem o objetivo


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de encorajar os crentes a não retornar ao judaísmo não-cristão mera­ mente para salvar suas vidas físicas. O autor é desconhecido, e mesmo estas sugestões a respeito de data, lugar e público são discutidas. Mas não há dúvida de que a carta apela aos cristãos que se sentem tenta­ dos a cometer apostasia, abandonando a sua fé, para que não façam isso, porque todas as outras opções de religião levam apenas à punição eterna. As aplicações contemporâneas devem procurar situações com­ paráveis em que as pressões do governo, outras religiões ou lealdades de família tentem os cristãos professantes a renunciar a suas profissões de fé. Para as pessoas que nunca colocaram literalmente a sua vida em risco pela sua fé, a epístola aos Hebreus nos lembra de que não podere­ mos conhecer plenamente o verdadeiro caráter das pessoas até que elas enfrentem uma crise.79 A epístola de Tiago parece se dirigir a um grupo de judeus cris­ tãos pobres, provavelmente em Israel ou na Síria, que trabalhavam em grandes propriedades agrícolas, que pertenciam a senhores romanos ou judeus ausentes, que nem sempre lhes pagavam pontualmente ou o suficiente para que alimentassem suas famílias. A pungente repreensão destes ricos opressores deveria despertar temor nos corações de seus equivalentes contemporâneos — as corporações multinacionais que deixam de pagar um salário decente a fazendeiros do Terceiro Mundo ou trabalhadores de fábricas, para não mencionar ocidentais, incluindo cristãos, que compram seus produtos indiscriminadamente, sem tentar determinar as condições sob as quais foram fabricados.8" O cenário de 1 Pedro assemelha-se, de muitas maneiras, ao da epísto­ la aos Hebreus, com a exceção de que parece ter sido escrita em Roma, a várias províncias que hoje formam parte da Turquia. Novamente a per­ seguição crescente, grande parte dela local, estava dificultando a vida dos crentes, embora aqui os cristãos gentios pareçam ser predominan­ tes. Os títulos de dois importantes estudos de 1 Pedro talvez reflitam os dois temas centrais do livro: "um lar para os sem -teto" e "buscar o bem estar da cid ad e".81 Longe de se contradizerem mutuamente, essas ênfases aparentemente opostas refletem as responsabilidades internas e externas da igreja em todas as eras — propiciando refúgio físico e es­ piritual do mundo, e funcionando com o o sal e a luz em uma sociedade corrupta, para tentar melhorá-la. Particularmente em situações com re­ fugiados literais, hoje em dia, os princípios de 1 Pedro gritam, pedindo que os apliquemos.


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0 Livro do Apocalipse Como com o sermão escatológico de Jesus, o livro do Apocalipse representa literatura apocalíptica. Na aplicação desta literatura não se deve tentar correlacionar eventos atuais com as imagens altam en­ te simbólicas do livro, como se o livro do Apocalipse se destinasse a nos capacitar a reconhecer, à medida que eles se desenrolam, todos os eventos que irão dar início ao fim do mundo. Na verdade, Apocalipse 1 deve nos lembrar de que o livro apresenta vários temas teológicos importantes — a soberania de Deus, a divindade de Cristo, a natureza da Trindade, a expiação e a ressurreição e outros (veja, especialmente, 1.4-8) — e que mesmo a doutrina primária da escatologia se concentra principalm ente n o fato da volta de Cristo (v. 7), o que pode ser tudo aquilo em que os cristãos podem esperar (ou precisam) estar de acor­ do.82 As cartas às sete igrejas (capítulos 2 e 3) nos convidam a com pa­ rar todo o espectro de fidelidade e infidelidade, representado na antiga Ásia Menor com igrejas ou ramos análogos ao cristianismo em nosso mundo. Os mesmos chamados ao arrependimento e as mesmas recom ­ pensas pela obediência se aplicam hoje em dia. Os capítulos 4 e 5 (e outros hinos espalhados pelo livro) devem nos levar a louvar a Deus pelas suas maravilhosas obras, como os habitantes do céu já fazem. Aplicações das séries dos juízos dos selos, taças e trombetas, e os in­ tervalos que as separam (capítulos 6 e 19) variarão, de alguma maneira, dependendo de o intérprete adotar uma abordagem passada, histórica, idealista ou futurista (ou alguma combinação destas). Este debate pro­ põe a pergunta: Esses capítulos refletem basicamente eventos do século I (abordagem passada), evolução da História da Igreja (histórica), prin­ cípios atemporais da luta entre o bem e o mal (idealista) ou eventos futuros (futurista)? Talvez a melhor abordagem seja uma basicamente futurista, que, no entanto, reconheça paralelos parciais, tanto no sécu­ lo I como em outros períodos ao longo da história, possibilitando que princípios atemporais sejam derivados também.83 Desta perspectiva, quer alguma geração venha a ser realmente a última ou não, nós pode­ mos, em cada era, reconhecer pelo menos os prenúncios de desenvol­ vimentos que o livro do Apocalipse retrata tão vividamente. Qualquer poder anticristão do mundo se assemelha, pelo menos parcialmente, ao retrato do Anticristo do final dos tempos; mas os cristãos podem ter a esperança de que Deus triunfará no final sobre cada um desses poderes.84 Eles podem enfrentar severa tribulação, mas estão isentos


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da ira de Deus (uma afirmação sobre a qual concordam, igualmente, os pré-tribulacionistas, os m idi-tribulacionistas e os pós-tribulacionistas). Eles podem esperar ansiosamente o descanso e a bênção eternos, ao passo que os ím pios somente se depararão com tormento incessante (capítulos 20 e 22) — uma promessa sobre a qual concordam os pré-milenialistas, pós-milenialistas e amilenialistas. Afinal, praticamente cada detalhe varia de acordo com os variados sistemas teológicos, mas se concordarmos no que diz respeito ao que é essencial, poderemos con­ cordar em discordar sobre o resto.85

Conclusão Não existe nenhuma fórmula mecânica para aplicar apropriadamen­ te qualquer texto das Escrituras. Quanto mais entendemos o que uma passagem em particular queria dizer para o seu autor e o seu público originais, mais provavelmente poderemos entender a sua aplicação ori­ ginal. Quanto mais intimamente paralelos à situação nos encontrarmos hoje, mais poderemos aplicar o texto de maneira similar. Mas muitas vezes as nossas situações não são tremendamente comparáveis. Nós ainda podemos reconhecer amplos princípios que transcendem tempo e lugar, mas aplicações mais específicas podem ser mais controversas. Compreender as questões singulares que estão relacionadas com as diversas formas literárias da Bíblia nos capacita a progredir cada vez mais rumo à aplicação válida, mas os cristãos irão discordar ainda so­ bre inúmeras questões. Da mesma maneira, é crucial se lembrar da graciosa maneira que o Espírito de Deus guia o seu povo. Embora ninguém deva deliberada­ mente usar mal um texto e culpar a Deus por guiá-lo neste processo, o Espírito fala regularmente aos crentes, e por intermédio deles, mesmo quando estes, de forma involuntária e inconsciente usam mal algumas passagens, assim como o Espírito nos usa para realizar a sua obra no mundo, mesmo quando os nossos motivos são menos do que deveriam ser. Nós devemos agradecer a Deus por Ele agir desta maneira. Se não fosse assim, Deus poderia fazer muito pouco conosco, uma vez que nós, com tanta regularidade, deixamos de corresponder aos seus padrões. Mas, como em cada outra área do crescimento cristão, jam ais devemos usar a graça de Deus como uma desculpa para a nossa preguiça, ou algo pior (Rm 6.1). Nós temos mais recursos cristãos evangélicos para o entendimento da Bíblia, em mais idiomas do mundo, do que em qual­


Como o Cristão Deve A plicar o Novo Testamento à Vida?

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quer outra época da História da Igreja. Assim , é uma grande responsa­ bilidade, não nos aproveitarmos destes recursos, gerados por crentes que honram a Deus e que estão respondendo ao seu chamado nas suas vidas, ao produzir essas ferram entas.86 Ao mesmo tempo, interpretar os pensam entos de outras pessoas sobre a Bíblia jam ais deveria suplantar a nossa luta detalhada e séria com o texto das Escrituras, buscando, em oração, o que Deus deseja nos dizer, diretamente neste processo.


Resumo Apesar de inúmeras declarações do contrário, há pelo menos uma dúzia de boas razões para crer que os Evangelhos do Novo Testamento e o livro de Atos apresentam informações históricas substancialmente confiáveis. A crítica textual nos permite reconstruir o que os autores es­ creveram originalmente, com alto grau de confiança. Mateus, Marcos, Lucas e João, todos estavam em boas posições para se lembrar ou apren­ der sobre a vida de Jesus. Todos escreveram seus Evangelhos no século I, um período de tempo comparativamente curto depois dos eventos que eles narram. O gênero do Evangelho se assemelha mais de modo intimo àquele relativamente digno de confiança, de outras biografias e histórias antigas. E provável que os quatro evangelistas tivessem de­ sejado registrar a história com exatidão, de m odo que a tradição cristã cuidadosamente preservasse informações sobre Jesus e os apóstolos, e para que as aparentes contradições entre os documentos pudessem ser harm onizadas de modo plausível. Isto é verdade, quer comparemos os Evangelhos Sinóticos entre si, os Sinóticos com o de João, o livro de Atos com as epístolas de Paulo, ou o Novo Testamento com a história extrabíblica de modo mais genérico. As palavras duras de Jesus, junta­ mente com os tópicos que os Evangelhos não trataram, respaldam ain­ da mais a historicidade destes textos. Autores não cristãos, a evidência da arqueologia e autores cristãos mais recentes, todos fornecem respal­ do adicional. Particularmente impressionantes são as referências à tra­ dição de Jesus nas epístolas do Novo Testamento, que antecipam a data de composição dos Evangelhos. Essas referências demonstram que a informação precisa sobre Jesus circulava oralmente muito tempo antes que os primeiros registros escritos da sua vida fossem produzidos.


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Questões Cruciais do Novo Testamento

Embora, à primeira vista, Jesus e Paulo possam parecer ter enfati­ zado temas muito diferentes, um olhar mais atento revela que os dois homens são fundamentalmente compatíveis entre si. Paulo revela um conhecimento abundante sobre a tradição de Jesus, mesm o que cite Jesus de forma direta apenas ocasionalmente. O propósito e o gêne­ ro das epístolas não se prestam a abundante citação direta. Mas vá­ rias alusões aparecem nas cartas de Paulo a eventos da vida de Jesus, juntam ente com uma ampla seção dos ensinamentos individuais de Jesus, e seus serm ões mais longos. Um a comparação de vários com­ ponentes teológicos essenciais revela considerável sobreposição entre Jesus e Paulo aqui também. A ênfase de Paulo na justificação pela fé corresponde intimamente ao ensinamento de Jesus sobre o reino de Deus. Os dois homens têm perspectivas comparáveis sobre o papel da lei na era cristã, a necessidade da missão e da inclusão dos gentios na Igreja, e o papel das mulheres no ministério. A cristologia implícita dos Evangelhos Sinóticos retrata Jesus com uma visão elevada de si mesmo, tomando a cristologia explícita de João e Paulo um resultado mais na­ tural do que alguns imaginaram. Jesus e também Paulo reconheceram o papel essencial da morte de Cristo, a ressurreição e o seu retorno dos céus. Embora o pensamento de Paulo tenha sido modificado de várias maneiras fundamentais, na estrada para Damasco, e assim o âmago do "seu evangelho" pudesse ser atribuído à sua experiência de conversão (G1 1.11,12), nada do que ele diz em suas cartas contradiz a conclusão de que ele teria aprendido numerosos detalhes sobre o Jesus histórico com outros cristãos. A aplicação do Novo Testamento exige, entre outras coisas, um en­ tendimento de como variam as suas formas literárias. Os Evangelhos foram escritos principalmente para alimentar a fé em Jesus. Eles enfa­ tizam o seu ensinamento contracultural, a compaixão pelos excluídos, e os crescentes conflitos com as autoridades religiosas da sua época. O uso regular que Ele fazia de metáforas significa que não devemos nos preocupar em interpretar literalmente o que se destinava a ser figu­ rado. Os mandamentos mais duros ou mais controversos exigem cui­ dadoso entendimento de seus contextos histórico e literário, além da distinção de quando Jesus está falando somente aos doze ou dando outros mandamentos específicos para a situação. É preciso observar a sua predileção por lições práticas proféticas, pelo discurso apocalíptico e por extensos diálogos ou sermões (particularmente no Evangelho de João), cada uma destas modalidades apresentando distintos desafios


Resumo

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ao intérprete. As dificuldades essenciais na aplicação do livro de Atos derivam grandemente da sua forma narrativa, e do período entre o an­ tigo e o novo concerto que ele descreve. Os leitores devem procurar indicações indiretas que Lucas nos dá para determinar quão impor­ tante ou exemplar determinado incidente é. Essas indicações incluem a maneira como uma passagem é introduzida ou concluída, com que frequência um tema é repetido, se um padrão consistente de com por­ tamento emerge ou não ao longo do livro, e quanto espaço Lucas de­ dica a cada tópico. Todo o livro oferece um m odelo maravilhoso para contextualização do evangelho. Nas epístolas, predomina a questão do que é atemporal versus o que é específico de uma situação. Novamente, devemos procurar aparentes contradições, os argumentos particulares ligados a vários m andamentos, a possível base para um mandamento na criação ou na nova criação, amplos princípios interculturais, e as diferenças entre um ensinam ento dirigido a todos os cristãos e aqueles que se aplicam somente a alguns. A epístola aos Hebreus e as epístolas gerais também requerem o uso de todos estes princípios, mas também apresentam novos desafios e oportunidades para os intérpretes, quando m odernizam as circunstâncias sob as quais estas cartas foram escritas. O livro do Apocalipse não foi escrito para nos capacitar a reconhecer sinais singulares dos tempos imediatamente anteriores ao retorno de Cristo, mas para dar esperança ao povo de Deus, em todos os tempos e lugares, de que Ele é soberano, de que Jesus vence, e de que a história se move em direção aos objetivos indicados. Diante disso, a maneira como um indivíduo responde a Jesus de Nazaré reflete a decisão mais importante que ele pode tomar nesta vida.


Notas Introdução 1 Trem per Longman, Making Sense o f the Old Testament: Three Crucial Questions (Grand Rapids: Baker, 1998).

C a p it u l o 1 : ^ O Novo T e s t a m e n t o É h i s t o r i c a m e n t e C o n f i á v e l ? 1 James W. Deardorff, Celestial Teachings: The Emergence of the True Testament of

Immanuel (Jesus) (Tigard, Oreg.: Wild Flower Press, 1990) (a letra "}" não é um erro tipográfico; esta é a grafia que ele usa); idem, The Problem of New Testament Gospel Origins (San Francisco: Mellen Research University Press, 1992). 2 William D. Mahan, The Archko Volume: The Archaeological Writings of the Sanhedrim and Talmuds of the Jeius, ed. M. Mcintosh e T. H. Twyman (1887; New Canaan, Conn.: Keats, 1975). Este volume continua a ser reimpresso e amplamente dis­ tribuído. Veja Barbara Thiering, jesus and the Riddle of the Dead Sea Scrolls (San Francisco: HarperSanFrancisco, 1993). 4 Veja Carsten P. Thiede (Rekindling the Word: !n Search of Gospel Truth [Valley Forge, Pa.: Trinity Press International, 1995], 37-57,169-97); e Graham Stanton

(■Gospel Truth? New Light on Jesus and the Gospels [Valley Forge, Pa.: Trinity Press International, 1995], 11-19,20-32). 5 O Evangelho de Tomé é um documento extracanônico, posterior ao Novo Testamento, que, segundo a opinião de alguns acadêmicos, pode conter autên­ tica tradição de Jesus, independentemente do conteúdo dos Evangelhos canôni­ cos. Para uma pesquisa e uma avaliação negativa destas reivindicações e outras declarações similares, defendidas, por um número muito menor de acadêmi­ cos, a respeito de outras obras da literatura cristã apócrifa, veja John P. Meier, A


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Q uestões Cruciais do Novo Testamento

Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus (Nova York: Doubleday, 1991-), 1:112­ 66. Veja n" 11 abaixo, para mais informações sobre a obra de Meier. 6 Os resultados são mais convenientemente acessados em Robert W. Funk, Roy W. Hoover, e Seminário Jesus, The Five Gospels: The Search for the Authentic

Words of Jesus (Nova York: Macmillan, 1993); e Robert W. Funk e Seminário Jesus, The Acts of Jesus: The Search for the Authentic Deeds of Jesus (San Francisco: HarperSanFrancisco, 1998). 7 Para uma análise e crítica abrangente da metodologia e das conclusões do Seminário Jesus, veja Craig L. Blomberg, "The Seventy-four 'Scholars': Who Does the Seminário Jesus Really Speak For?" Christian Research Journal 17, no. 2 (1994): 32-38. Para um sentido mais amplo, veja Michael J. Wilkins e J. P. Moreland, eds.,

Jesus Under Fire: Modern Scholarship Reinvents the Historical Jesus (Grand Rapids: Zondervan, 1995). 8 Sobre as perspectivas iniciais, veja todo o exemplar de Forum 3, n" 1 (2000). Fascículos subsequentes, embora com a publicação atrasada por dois anos, mostram que o projeto está progredindo lentamente. 9 A linguagem se origina de vários dos títulos de capítulos da obra de Ben Witherington III, The Jesus Quest: The Third Search for the jew of Nazareth (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1995).

Ben Witherington 111, The Paul Quest: The Renewed Search for the lew of Tarsus (Downers Grove, III: InterVarsity Press, 1998). 11 O mais am bicioso destes esforços, e um a das melhores abordagens é a de Meier,

A Marginal Jew, com três volumes que foram publicados por volta do ano 2000, e há pelo menos m ais um prometido. 12 Veja especialmente Stanley E. Porter, The Criteria for Authenticity in Historical-Jesus

Research (Sheffield, Inglaterra: Sheffield, Academic Press, 2000). 13 N. T. Wright, Jesus and the Victory of God (Mineápolis: Fortress, 1996), 131-133; Gerd Theissen e Annette Merz, The Historical Jesus: A Comprehensive Guide (Mineápolis: Fortress, 1998), 116-118; Gerd Theissen e Dagmar Winter, The Quest for the Plausible Jesus: The Question of Criteria (Louisville: Westminster John Knox Press, 2002). 14 De modo curioso, é precisamente isto o que alguns autores muito conservado­ res desejam que nós façamos. Veja especialmente Robert L. Thomas e F. David Farnell, The Jesus Crisis: The Inroads of Historical Criticism into Evangelical Scholarship (Grand Rapids: Kregel, 1998). 15 F. F. Bruce, The New Testament Documents: Are They Reliable? (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1960), 16.


Notas

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ln A introdução tradicional acadêmica à crítica textual do Novo Testamento, de que estes e muitos outros dados podem ser obtidos, é a obra de Kurt Aland e Barbara Aland, The Text of the New Testament, 21’ ed. (Grand Rapids: Eerdmans, 1989). Para uma investigação muito mais breve, que não exige conhecimento técnico no assunto, veja David A. Black, New Testament Textual Criticism: A Concise Guide (Grand Rapids: Baker, 1994). 17 Sobre o mormonismo, veja Craig L. Blomberg e Stephen E. Robinson, How Wide

the Divide? A Mormon and an Evangelical in Conversation (Downers Grove, 111.: Inter Varsity Press, 1997), 55-74. Sobre o Islã, veja Ghiyathuddin Adelphi e Ernest Hahn, The Integrity of the Bible according to the Qur'an and the Hadith (Hyderabad, India: Henry Martyn Institute of Islamic Studies, 1477). IB Martin Hengel (The Four Gospels and the One Gospel of Jesus Christ [Harrisburg, Pa.: Trinity Press International, 2000], esp. 48-56, 96-105) desafia estas suposições, no entanto, e julga que Marcos inventou o título e os outros autores dos Evangelhos conscientes seguiram o seu modelo. A hipótese de Hengel é sugestiva e merece séria consideração, ainda que, em última análise, seja especulativa e não possa ser provada. Para uma discussão abrangente sobre a "evidência externa" (o testemunho dos primeiros autores cristãos) a respeito das origens tios Evangelhos e do livro de Atos, veja os capítulos sobre os quatro Evangelhos e o livro de Atos, em qualquer introdução detalhada ao Novo Testamento, por exemplo, Donald Guthrie, New Testament Introduction, 4'1 ed. (Downers Grove, III.: InterVarsity Press, 1990); ou Raymond E. Brown, An Introduction to Hie New Testament (Nova York: Doubleday, 1997). 211 A coleção padrão de textos apócrifos do Novo Testamento, na tradução para o in­ glês, é a New Testament Apncn/pha, ed. Wilhelm Schneemelcher, 2’' ed., 2 volumes. (Louisville: Westminster John Knox Press, 1991-1992).

21 Para uma discussão muito mais abrangente, veja Craig L. Blomberg, The Historical Reliability of joint's Gospel: Issues and Commentary (Downers Grove, HI.: InterVarsity Press, 2001), 22-40. 22 Novamente, veja qualquer das introduções padrão ao Novo Testamento. 23 Para uma cronologia detalhada e persuasiva, e as referências relevantes em ou­ tras fontes antigas, veja Ben Witherington III, The Acts of the Apostles: A Socio-

Rhetorical Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 1998), 77-86. 24 Frequentemente designada como Q — da palavra Quelle em alemão, para "fon­ te". Várias hipóteses adicionais sobre Q, elaboradas por acadêmicos liberais, com frequência excedem o que a evidência real pode demonstrar, mas a simples hi­ pótese da existência de tal documento no século I permanece provável. Veja, por


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Questões Cruciais do N ovo Testamento

exemplo, Darrell L. Bock, "Questions about Q", em Rethinking the Synoptic

Problem, ed. David A. Black e David R. Beck (Grand Rapids: Baker, 2001), 41-64. 25 Funk, Hoover e Seminário Jesus, The Five Gospels, 12-13,16.

lh Veja Robin L. Fox, The Search for Alexander (Boston: Little, 1980). 27 A. N. Sherwin-White, Roman Society and Roman Law in the Neiv Testament (Oxford: Oxford University Press, 1953), 187. 28 Para uma boa investigação de abordagens anteriores e para conclusões variadas, veja Robert Guelich, "The Gospel Genre", em The Gospel and the Gospels, ed. Peter Stuhlmacher (Grand Rapids: Eerdmans, 1991), 173-208. 211 Veja especialmente Richard A. Burridge, What Are the Gospels? (Cambridge: Cambridge University Press, 1992); Colin Hemer, The Book of Acts in the Setting of

Hellenistic History, ed. Conrad H. Gempf (Tubingen: Mohr, 1989). 30 Loveday Alexander, The Preface to Luke's Gospel (Cambridge: Cambridge University Press, 1993), 21. 31 Com frequência se argumenta que o Evangelho de João é de forma considerável menos digno de confiança, historicamente, do que os Sinóticos, mas ainda confiá­ vel teologicamente. Um mérito de Maurice Casey, Is John's Gospel True? (Londres: Routledge, 1996) é o fa to de que ele reconhece a íntima conexão entre os dois, embora, infelizmente, considere este Evangelho não confiável em ambos os as­ pectos. Para uma resposta bastante extensa, veja minha obra, Historical Reliability

of john's Gospel. 32 Veja especialmente Richard Bauckham, ed., The Gospels for All Christians:

Rethinking the Gospel Audiences (Grand Rapids: Hordmans, 1998). Eu não estou tão convencido quanto às fontes deste volume de que João podia pressupor conhe­ cimento dos textos escritos de Mateus, Marcos ou Lucas, mas parece altamente improvável uma ampla consciência de seu principal conteúdo. 13 Veja especialmente Samuel Byrskog, Story as History- - History as Story (Tubingen: Mohr, 2000), 235-238; e Derek Tovey, Narrative Art and Act in the Fourth Gospel (Sheffield, Inglaterra: Sheffield Academic Press, 1997), 273. 34 Veja Darrell L. Bock, "The Words of Jesus in the Gospels: Live, Jive, or Memorex?" em Wilkins e Moreland, Jesus Under Tire, 73-99. 15 Veja Conrad Gempf, "Public Speaking and Published Accounts", em The Book

of Acts in Its Ancient Literary Setting, ed. Bruce W. Winter e Andrew D. Clarke (Grand Rapids: Eerdmans, 1993), 259-303. 36 Veja David Hill, Nezv Testament Prophecy (Atlanta: John Knox, 1979); Christopher Forbes, Prophecy and Inspired Speech in Early Christianity and Its Hellenistic

Environment (Peabody, Mass.: Hendrickson, 1997). 37 Para textos e comentários, veja Richard Bauckham, "The Delay of the Parousia",

TynB 31 (1980): 33-36.


Notas

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38 Veja Graham N. Stanton, Jesus of Nazareth in Nau Testament Preaching (Cambridge: Cambridge University Press, 1974), 189. 39 Veja Hemer, Book of Acts, 63-100. 40 Bart D. Ehrman, Jesus: Apocalyptic Prophet of the Neiv Millennium (Oxford: Oxford University Press, 1999), 51-52. 41 Veja especialmente Birger Gerhardsson, Memon/ and Manuscript (Lund, Suécia: Gleerup, 1961), 43-66. Também sao importantes duas obras em alemão, jamais tra­ duzidas ao idioma inglês: Rainer Riesner, Jesus ais Lehrcr (Tubingen: Mohr, 1981); e A. F. Zimmermann, Die urchristlichen Lehrer (Tubingen: Mohr, 1984). 42 Veja especialmente A. B. Lord, "The Gospels as Oral Traditional Literature", em The Relationships among the Gospels, ed. William O. Walker, jr. (San Antonio: Trinity University Press, 1978), 33-^1; e Kenneth E. Bailey, "Informal Controlled Oral Tradition and the Synoptic Gospels", AJT5 (1991): 34-53. James D. G. Dunn, em sua nova obra, (Jesus Remembered [Grand Rapids: Eerdmans, 2003], 173-254) faz mais uso destas descobertas do que qualquer outro livro sobre o Jesus histó­ rico. 43 Veja especialmente Alan Millard, Reading and Writing in the Time of Jesus (Sheffield, Inglaterra: Sheffield, Academic Press, 2000), 210-229. 44 Na verdade, as sementes desta organização derivam do próprio ministério de Jesus. Veja especialmente Meier, Marginal Jew, 3:148-163. 45 Por exemplo, C. Dennis McKinsey, The Encyclopedia of Biblical Errancy (Amherst, N.Y.: Prometheus, 19%). 46 Craig L. Blomberg, The Historical Reliability of the Gospels (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1987), 113-189; idem, Historical Reliability of John's Gospel 47 Grande parte da construção deste parágrafo é emprestada de excertos de Craig L. Blomberg, "Where Do We Start Studying Jesus?" em Wilkins e Moreland, Jesus

Under Fire, 35. 4B Paul Merkley, "The Gospels as Historical Testimony", EvQ 58 (1986): 328-336. 4g Stanley E. Porter, "'In the Vicinity of Jericho': Luke 18.35 in the Light of Its Synoptic Parallels", BBR 2 (1992): 91-104. ^ Veja Craig L. Blomberg, "The Legitimacy and Limits of Harmonization", em

Hermeneutics, Authority, and Canon, ed. D. A. Carson e John D. Woodbridge (Grand Rapids: Zondervan, 1986; reimpressão, Grand Rapids: Baker, 1991), 135-174. 51 Blomberg, Historical Reliability of John's Gospel. 52Para estes e outros exemplos, e todas as referências das Escrituras relacionadas a cada um destes itens, veja minha obra Historical Reliability of the Gospels, 156-159. 53 Para uma boa discussão sobre estas circunstâncias e outras relacionadas a elas, veja Ben Witherington III, John's Wisdom: A Commentary on the Fourth Gospel (Louisville: Westminster John Knox Press, 1995), 27-41.


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Questões Cruciais do Novo Testamento

54 Para estes e vários outros exemplos das duas formas de integração, veja Leon Morris, Studies in the Fourth Gospel (Grand Rapids: Eerdmans, 1969), 40-63; e Richard Bauckham, "John for Readers of Mark", em Bauckham, The Gospels for

All Christians, 147-71. 55 Original em alemão de 1950. Traduzido ao idioma inglês como Phillip Vielhauer, "On the 'Paulinism' of Acts", em Studies in Luke-Acts, ed. Leander E. Keck e J. Louis Martyn (Nashville: Abingdon, 1966), 33-50.

56 David Wenham, "Acts and the Pauline Corpus It: The Evidence of Parallels", em Winter e Clarke, Acts in Its Ancient Literary Setting, 215-258. Veja também Stanley E. Porter, The Paul of Acts (Tubingen: Mohr, 1999). Para uma resposta a uma série de supostas contradições, muito menos importantes, de detalhes entre o livro de Atos e as epístolas, veja Ilemer, Book of Act: 244-307 57 Veja, por exemplo, Darrell L. Bock, Luke (Grand Rapids: Baker, 1996), 2:1284-85. ^ Para um excelente erfudo de várias "tradições pré-formadas" em todas as partes do Novo Testamento que os aulores das Escrituras possam ter absorvido pratica­ mente inalteradas, veja E. Earle Ellis, The Making of lhe Neto Testament Documents (Leiden: Brill, 1999). Ellis provavelmente superestima quantos podem ser iden­ tificados de maneira confiável, mas mesmo se uma substancial minoria dos que ele comenta for genuína, as suas conclusões a respeito da natureza conservadora da tradição do Novo Testamento serão lógicas.

m Veja Eugene H. Lemcio, The Ptisl of lesus in lhe Gospels (Cambridge: Cambridge University Press, 1991). Veja, por exemplo, Anthony C. Thiselton, The Tirsl Epistle lo IheCorinthiiins (Grand Rapids: Eerdmans, 2000), 525-526. 1.1 A compilação mais abrangente de todos estes dados está agora convenientemen­ te acessível na obra de Robert E. Van Voorst, Jesus Outside the New Testament: An

Introduction to the Ancient Evidence (Grand Rapids: Eerdmans, 2000). 1.2 As traduções são tomadas da edição crítica padrão, encontrada na I,oeb Classical Library. Veja especialmente Meier, A Marginal Jew, 1:56-88. ',4 Sobre isto, veja especialmente Graham N. Stanton, "Jesus of Nazareth: A Magician and a False Prophet Who Deceived God's People?" em Jesus of Nazareth: Lord and

Christ, ed. Joel B. Green # Max Turner (Grand Rapids: Eerdmans, 1994), 164-180. 65 Grande parte da linguagem usada nesta seção, sobre as tradições dos rabinos, vem da minha obra, Historical Reliability of the Gospels, 198-199. Para mais de­ talhes, veja Graham H. Twelftree, "Jesus in Jewish Traditions", vol. 5 de Gospel

Perspectives, ed. David Wenham (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1985), 289-341, de onde as traduções usadas acima também são adotadas.


Notas

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66 Murray J. Harris, "References to Jesus in Early Classical Authors", em Wenham,

Gospel Perspectives, 5:356. Todo o artigo (343-368) fornece discussão mais detalha­ da sobre estas referências, juntamente com as traduções aqui adotadas. 67 Van Voorst, Jesus Outside the New Testament, 66. 68 Para exemplos recentes destas declarações veja a pesquisa em Ibid., 1-17.

m Para uma boa visão geral, veja Paul W. Barnett, Jesus and the Logic of History (Grand Rapids: Eerdmans, 1997; reimpressão, Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 2001), 59-89. 711 Excertos e abreviaturas do Homer, Book of Acts, 101-158. 71 Veja também, classicamente, James Smith, The Voyage and Shipwreck of Saint Paulo, 4'1ed. (Mineápolis: James Family Christian Publishers, 1880). 72 Para uma apresentação evangélica padrão, veja F. F. Bruce, Paul: Apostle of the

Heart Set Free (Grand Rapids: Eerdmans, 1977), 475. 71 Não é de surpreender que este seja o discurso no livro de Atos que mais se as­ semelha ao Paulo das epístolas. E também o único lugar onde os públicos são similares — uma igreja cristã já estabelecida — de modo que é exatamente o que deveríamos esperar. 74 Os judeus produziram um pequeno número de romances fictícios, sobre indiví­ duos supostamente contemporâneos, mas todos eles contêm vários anacronismos históricos que revelam a sua verdadeira natureza e origem. A coleção mais completa aparece em Ancient Jezvish Novels: An Anthology, ed. e trad. Lawrence M. Wills (Oxford: Oxford University Press 2002). 75 Para estudos essenciais, recentes e extensos sobre os Evangelhos, veja R. Arav e J. Rousseau, Jesus and His World: An Archaeological and Cultural Dictionary (Mineápolis: Fortress, 1995); Bargil Pixner, With Jesus through Galilee according

to the Fifth Gospel (Collegeville, Minn.: Liturgical, 1996) (o "Quinto Evangelho" é o testemunho da arqueologia); e J. L. Reed, Archaeology and the Galilean Jesus (Harrisburg, Pa.: Trinity Press International, 2000). Para a arqueologia do Novo Testamento, de maneira mais genérica, com seções razoavelmente extensas so­ bre os Evangelhos e o livro de Atos, veja John McRay, Archaeology and the New

Testament (Grand Rapids: Baker, 1991); Jack Finegan, The Archeology of the New Testament, ed. rev. (Princeton: Princeton University Press, 1992); e W. H. C. Frend, The Archaeology of Early Christianity: A History (Mineápolis: Fortress, 1996). 76 Pode-se formular, no entanto, um forte argumento a favor de situar o palácio de Herodes no lado ocidental da antiga Jerusalém, próximo à atual Porta Jaffa. Isso, então, situaria a Via Dolorosa e as "estações da cruz" de Cristo quase na direção oposta em que tradicionalmente têm sido identificadas. 77 Para uma opinião divergente, veja William Horbury, "The 'Caiaphas' Ossuaries and Joseph Caiaphas", PEQ 126 (1994): 32-48.


158

Q uestões Cruciais do N ovo Testamento

78 Veja especialmente Hershel Shanks e Ben Witherington III, The Brother of Jesus (San Francisco: HarperSanFrancisco, 2003),

n Segundo, especialmente, Richard A. Batey, Jesus and the Forgotten City (Grand Rapids: Baker, 1991). 811 Veja também Stanton, Gospel Truth? 119-120. 81 Várias partes desta seção sobre a arqueologia dos Evangelhos reutilizam, reorga­ nizam e abreviam a linguagem encontrada em Craig L. Blomberg, Jesus and the

Gospels: An introduction and Survey (Nashville: Broadman e Holman, 1997), 367­ 370. 82 A este respeito, veja, classicamente, Sir William Ramsay, St. Paul the Traveler and

Roman Citizen, ed. e rev. Mark Wilson, 15'1 ed. (Londres: Hodder & Stoughton, 1925; ed. rev., Grand Rapids: Kregel, 2001). 83 Na verdade, como "Areópago" pode significar a Câmara Municipal, e também a colina dedicada a Marte, muitos acadêmicos acreditam que Paulo falou a estas autoridades em algum local próximo à Stoa, onde os filósofos visitantes normal­ mente eram convidados a falar. 84 Novamente, o estudo clássico é o de Sir William Ramsay, The Letters to the Seven

Churches of Asia and Their Place in the Plan of the Apocah/pse (Londres: Hodder & Stoughton, 1904). Um estudo moderno ainda mais valioso é o de Colin J. I lemer, The Letters to the Seven Churches of Asia in Their Local Setting (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1986). ^ M. J. S. Rudwick e E. M. B. Green, "The Laodicean Lukewarmness", ExpT69 (1957-58): 176-178. 8Í’ Para mais informações sobre este problema difícil, veja Craig L. Blomberg, "Quirinius", em International Standard Bible Encyclopedia, rev. e ed. Edgar W. Smith, Jr. (Grand Rapids: Eerdmans, 1986), 4:12,13. 87 Mas os dois Teudas podem não ser a mesma pessoa. Veja especialmente Witherington, Acts, 235-339. 88 Para a opinião de que o aparente desprezo de Papias em relação aos textos es­ critos se aplicava somente a fontes não apostólicas, veja A. F. Walls, "Papias and Oral Tradition", VC 21 (1967): 137-140. 8q A melhor introdução e tradução moderna para a língua inglesa é The Apostolic

Fathers, ed. e rev. por Michael W. Holmes (Grand Rapids: Baker, 1Q92). w Veja Blomberg, Historical Reliability of the Gospels, 202-208, e a literatura aqui cita­ da. 111 G. K. Beale, "The Use of Daniel in the Synoptic Escha to logical Discourse and in the Book of Revelation", em Wenham, Gospel Perspectives, 5:129-153. 92 Louis A. Vos, The Synoptic Traditions in the Apocalypse (Kampen: Kok, 1965). 03 Para listas consideravelmente mais longas, veja Robert H. Gundry, '"Verba Christi' in 1 Peter: Their Implications Concerning the Authorship of 1 Peter and


Notas

159

the Authenticity of the Gospel Tradition", NTS 13 (1966-67): 336-350; e idem, "Further Verba on Verba Christi in First Peter", Bib 55 (1974): 211-232. 94 Em útil e vantajosa apresentação em forma de tabela, em Peter H. Davids, The

Epistle of James (Grand Rapids: Eerdmans, 1982), 47,48. 1,5 Segundo, especialmente, David Wenham, "Paul's Use of the Jesus Tradition: Three Samples", em idem, Gospel Perspectives, 5:7-15. * Veja, por exemplo, Raymond F. Collins, First Corinthians (Collegeville, Minn.: Liturgical, 1999), 425-426. 97 Para referências, veja Blomberg, Elistorical Reliability of the Gospels, 222. Fragmentos dispersos da construção desta subseção sobre Paulo são extraídos das pp. 223-28, que também oferecem um tratamento abrangente do tópico. 1)8 Para mais informações sobre a identificação de tais credos, veja Ralph P. Martin,

Neiu Testament Foundations (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), 2:249-275. 99 Para mais detalhes, veja Larry W. Hurtado, Lord Jesus Christ: Devotion to Jesus in Earliest Christianity (Grand Rapids: Eerdmans, 2003). 100 Gerd Liidemann e Alf Ozen, What Really Happened to Jesus: A Historical Approach to the Resurrection (Louisville: W estminster John Knox Press, 1995), 15. 101 A melhor discussão filosófica recente sobre os milagres está em Douglas Geivett e Gary R. Habermas, eds., In Defense o f Miracles: A Comprehensive

Case for God's Action in History (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1997). O melhor estudo recente da exegese dos milagres de Jesus está em Graham H. Twelftree, Jesus the Miracle Worker: /I Historical and Theological

Study (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1999). 102 Rudolf Bultmann, "N ew Testament and M ythology", em Kerygina and Myth, ed. H.-W. Bartsch (Londres: SPCK, 1953), 4. 103 Para uma exposição mais detalhada sobre Hume, veja Colin Brown, Miracles

and the Critical Mind (Grand Rapids: Eerdmans, 1984), 79-100. 104 Um sucinto resumo aparece em Roy A. Harrisville and Walter Sundberg, The

Bible in Modern Culture: Theology and Historical-Critical Method from Spinoza to Kasemann (Grand Rapids: Eerdmans, 1995), 89-110. 105 Veja Peter Medawar, The Limits of Science (San Francisco: Harper & Row, 1984). 106 Veja especialm ente Meier, A Marginal Jew, 2:520,521. 1117 Uma das melhores defesas filosóficas dos milagres, nos tempos modernos, é a de Richard Swinburne, na obra The Concept o f Miracle (Nova York: St. M artin's, 1970). 108 Veja, por exemplo, W. K. C. Guthrie, The Greeks and Their Gods (Boston: Beacon, 1950), 247-53. As antigas sátiras de Luciano frequentemente reve-


Questões Cruciais do Novo Testamento

160

lam o papel de "m anufatura hum ana" em supostos milagres greco-romanos. Para um excelente estudo dos supostos paralelos aos milagres do evangelho, veja Meier, A Marginai Jew, 2:576-601. lm Veja Harold Remus, Pagan-Christian Conflict over Miracle in the Second Century (Cambridge, M ass.: Philadelphia Patristic Foundation, 1983). 110 Meier, A Marginal Jezu, 2:630. 111 Sobre a questão da historicidade, veja Pinchas Lapide, The Resurrection of jcsns: A Jewish Perspective (M ineápolis: Augsburg, 1983); John Wenham,

Easter Enigma: Are the Resurrection Accounts in Conflict? (Grand Rapids: Zondervan, 1984); e William L. Craig, Assessing the New Testament Evidence for the Historicity o f the Resurrection of Jesus (Lewiston, N.Y.: Mellen, 1989). 112 N. T. Wright, The Resurrection of the Son o f God (Mineápolis: Fortress, 2003). Veja especialm ente Murray J. Harris, From Crave to Glory: Resurrection in the New Testament (Grand Rapids: Zondervan, 1990). Para L i m a resposta às ex­ ceções das tendências atuais, veja Gary R. Habermas, "The Late TwentiethCentury Resurgence of Naturalistic Responses to Jesus' Resurrection", Trinj

22 (2001): 179-196. IIJ Para mais detalhes, veja os segm entos de autoria de William Lane Craig em dois livros que contêm versões publicadas dos seus debates (com Gerd Liidemann e jo h n Dominic Crossan, respectivamente): Paul Copan e Ronald K. Tacei Ii, eds., Jesus' Resurrection: Fact or Figment? (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 2000); e Paul Copan, ed., Will the Real lesus Please Stand

Up? (Grand Rapids: Baker, 1998). C a p ít u l o 2 : P a u l o F o i o V e r d a d e ir o F u n d a d o r

do

C

r is t ia n is m o ?

1Para os dois estudos, veja a investigação histórica, em Victor R. Furnish, "The Jesus-Paul Debate: From Haur to Bultmann", em Paul and lesus: Collected Essays, ed. A. J. M. Wedderburn (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1989), 17-50. 1Para estas citações e resumos dos textos dos dois autores sobre Paulo, veja The

Writings of St. Paul: A Norton Criticai Edition, ed. Wayne A. Meeks (Nova York: Norton, 1972), 288-302. ■ Veja especialmente Rudolf Bultmann, "Jesus and Paul", em Existence and Faith, ed. e trad. Schubert M. Ogden (Nova York: Meridian, I960), 183-201. 4 Além dos comentários tradicionais, veja o estudo razoavelmente liberal de C. Wolff, "The Apostolic Knowledge of Christ: Exegetical Reflections on 2 Corinthians 5.14ff.", em Wedderburn, Paid and lesus, 81-98. 5 F. F. Bruce, Paul and Jesus (Grand Rapids: Baker, 1974); J. W. Fraser, Jesus and Paul:

Paul as Interpreter of Jesus from Ha mack to Kihnmei (Appleford, England: Marcham Manor Press, 1974).


Notas

161

6 Veja, por exemplo, Victor P. Furnish, Jesus according to Paul (Cambridge: Cambridge University Press, 1993). 7 David Wenham, Paul: Follower of Jesus or Founder of Christianity? (Grand Rapids: Eerdmans, 1995); idem, Paul and Jesus: The True Ston/ (Grand Rapids: Eerdmans, 2002). Veja também idem, "Paul's Use of the Jesus Tradition: Three Samples", vol 5 de Gospel Perspectives, ed. David Wenham (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1985), 7-37; idem, "The Story of Jesus Known to Paul", em Jesus of Nazareth: Lord and Christ, ed. Joel B. Green e Max Turner (Grand Rapids: Eerdmans, 1994), 297-311; e idem, "From Jesus to Paul — via Luke", em The Gospel to the Nations: Perspectives on

Paul's Mission, ed. Peter Bolt e Mark Thompson (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 2000), 83-97. * Michael D. Goulder, Paul and the Competing Mission in Corinth (Peabody, Mass.: I lendrickson, 2001). “ Gerd Liidemann, Paul: The Founder of Christianity (Amherst, N. Y.: Prometheus, 2 0 0 2 ).

111 Título de um livro de autoria de Maurice Casey sobre o desenvolvimento da cristologia do Novo Testamento (Louisville: Westminster John Knox Press, 1991). 11 Veja, por exemplo, I. Howard Marshall, Inst Supper and lord's Supper (Grand Rapids: Eerdmans, 1980), 30-56, e a análise da investigação ali contida. i: Veja Anthony C. Thiselton, lh e First Epistle lo Hu Corinthians (Grand Rapids: Herd mans, 2000), esp. 692-698. Thiselton observa que os autores patrísticos com­ preendiam o texto também desta maneira (692). 11 Para comentários similares sobre todos estes versículos em 1 Coríntios 7, veja especialmente Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), esp. 291. MContra o estudo excelente de David L. Dungau (The Sayings of Jesus in the Churches

of Paul [Filadélfia: Fortress, 1971 ]) sobre as palavras de Jesus, em 1 Coríntios 7 e 9. Sobre isso, veja especialmente Michael Thompson, Clothed with Christ: The Example and

Teaching of Jesus in Romans 12.1; 15.13 (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1991). 16 Sobre cada uma destas alusões, veja também Wenham, Paul, 251-253. 17 Robert W. Funk, Roy W. Hoover e Seminário Jesus, The Five Gospels: The Search for

the Authentic Words of Jesus (Nova York: Macmillan, 1993), 102. 18 Bruce (Paul and Jesus, 71) também destaca o provável simbolismo do envio dos setenta, em Lucas 10, predizendo a missão aos gentios, de que Paulo se tornou o principal instigador, na Igreja Primitiva.

w Para outras possíveis alusões aos discursos missionários de Mateus 10 e Lucas 10, veja Wenham, Paul, 190-199. 20 Veja ibid., 320-321.


162

Q uestões Cruciais do Novo Testamento

21 Os paralelos são ainda mais próximos, quando se reconhece que o "arrebata­ mento" de 1 Tessalonicenses 4.17 é muito provavelmente pós-tribulacional — isto é, ao mesmo tempo que o retorno público de Cristo. Veja, por exemplo, Bob Gundry, First the Antichrist (Grand Rapids: Baker, 1997). 22 Sobre isso, veja especialmente David Wenham (The Rediscovery of Jesus' Esclmtological Discourse [Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1984]), que demonstra a plau­ sibilidade de um sermão conectado por trás da maioria das várias mensagens apocalípticas de Jesus, em Mateus, Marcos e Lucas. 23 Veja David Wenham, "Paul and the Synoptic Apocalypse", vol. 2 de Gospel Perspectives, ed. R. T. France e David Wenham (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1981), 345-375. 24 Entre os acadêmicos recentes, Seyoon Kim ("Jesus, Sayings of", em Dictionary of Paul and His Letters, ed. Gerald F. Hawthorne, Ralph P. Martin, e Daniel G. Reid [Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1993]), com sua tabela de "Possible Echoes of Sayings of Jesus" (p. 481), parece excessivamente confiante na sua lista de trinta e um itens. 25 Para investigações de listas similares, de perspectivas razoavelmente diferentes, compare Dale C. Allison, Jr., "The Pauline Epistles and the Synoptic Gospels: The Pattern of the Parallels", NTS 28 (1982): 1-32; e Frans Neirynck, "Paul and the Sayings of Jesus", em L'Apotre Paul: PersoniutUk’, slt/le el conception du ministere, ed. Albert Vanlioye (Louvain: Louvain University Press, 1986), 265-321. 2,1 Veja a tabela em Peter Richardson, "The Thunderbolt in Q and the Wise Man in Corinth", em From Jesus to Paul ed. Peter Richardson and John C. Hurd (Waterloo, Ont.: Wilfrid Laurier Press, 1984), 96. Para um estudo mais longo, embora mais especulativo de possíveis alusões a ensinamentos de Jesus em 1 Coríntios 1-4, veja Biorn Fjarstedt, Synoptic Tradition in 1 Corinthians (Uppsala, Suécia: Teologiska Institutionen, 1974). 27 Para mais possíveis alusões em Paulo a este sermão, veja Wenham, Paul, 199. 2>t Veja, por exemplo, Ben F. Meyer, The Aims of Jesus (Londres: SCM, 1979), 185­ 197.

2" Segundo Maurice A. Robinson. XIIEPMOAOI’OX - Did Paul Preach from Jesus' Parables?" Bib 56 (1975): 231-240. 30 Veja especialmente Larry W. Hurtado, "Jesus as Lordly Example in Philippians 2:5-11", em Richardson e Hurd, From lesus to Paid, 113-126. 31 Segundo, especialmente, Christopher Marshall, "Paul and Jesus: Continuity or Discontinuity?" Stimulus 5, n" 4 (1997): 32-42. 32 Donald H. Akenson, Saint Saul: A Skeleton Key to the Historical Jesus (Oxford: Oxford University Press, 2000), 224. 33 Stanley E. Porter, "Images of Christ in Paul's Letters", em Images o f Christ: Ancient

and Modern, ed. Stanley E. Porter, Michael A. Hayes, e David Tombs (Sheffield,


Notas

163

Inglaterra: Sheffield Academic Press, 1997), 98-99. Veja também J. P. Arnold, "The Relationship of Paul to Jesus", em Hillel and Jesus: Comparative Studies o f Two

Major Religious Leaders, ed. James H. Charlesworth e Loren L. Johns (Mineápolis: Fortress, 1997), 256-288. 34 Muitos comentaristas argumentam, apropriadamente, que tudo o que pode ser demonstrado, com segurança, a partir desta referência, é a crença de Paulo na ple­ na humanidade de Jesus. Mas Timothy George (Galatians [Nashville: Broadman & Holman, 1994], 302-303), cujos comentários tratam mais de interesses sistemá­ ticos e histórico-teológicos mais amplos do que os de muitos outros comenta­ ristas, corretamente observa que "é inconcebível que Paulo, o companheiro de viagens de Lucas, não tivesse conhecimento da concepção virginal de Jesus. O fato de que ele não mencione o nascimento virginal em nenhum ponto de suas cartas somente poderia significar que este fato era tão universalmente aceito en­ tre as igrejas cristãs, às quais ele escrevia, que não julgava necessário detalhá-lo ou defendê-lo. Como observou J. G. Machen, 'O nascimento virginal realmente parece estar implícito, da maneira mais profunda, em toda a visào que Paulo tem do Senhor Jesus Cristo'". 35 Wenham, Paul and fesus, bb-67. 3fi Alfred Plummer, A Critical and Exegetical Commentary on the First Epistle o f St Paul

to the Corinthians (Edimburgo: T & T Clark, 1911), 22. 37 Veja especialmente John P. Meier, A Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus (Nova York: Doubleday, 1991), 1:278-85.309-15. 38 Veja especialmente Gillian Clark, "The Social Status of Paul", ExpT 96 (1985): 110­ 111. 39 Veja especialmente A. D. A. Moses, Matthew's Transfiguration Story and Jcwish-

Christian Controversy (Sheffield, Inglaterra: Sheffield Academic Press, 1996). 4(1 David Wenham e A. D. A. Moses, "There Are Some Standing Here...'': Did They Become the 'Reputed Pillars' of the Jerusalem Church? Some Reflections on Mark 9:1, Galatians 2:9, and the Transfiguration" NovT3b (1994): 146-163. 41 Veja também Christian Wolff, "Humility and Self-Denial in Jesus' Life and Message and in the Apostolic Existence of Paul", em Wedclerburn, Paul and Jesus, 145-160. 42 David Stanley, "Imitation in Paul's Letters: Its Significance for His Relationship to Jesus and to His Own Christian Foundations", em Richardson e Hurd, From

Jesus to Paul, 127-141. 43 Akenson, Saint Saul, 173. 44 James D. G. Dunn, "Paul's Knowledge of the Jesus Tradition", em Christus

Bezeugen, ed. Karl Kertelge, Traugott Holtz, e Claus-Peter Marz (Leipzig: St. Benno, 1989), 194.


164

Q uestões Cruciais do Novo Testamento

45 Vários destes pontos são apresentados de maneira mais clara e sistemática em Rainer Riesner ("Paulus und die Jesus-Uberlieferung", em Evangelium,

Scliriftiuislegiing, Kirche, ed. Jostein Aetna, Scott ]. Hafemann, e Otfried Hofius [Gottingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1997], 356-365) do que em qualquer fon­ te de língua inglesa de que eu tenha conhecimento. ^ C. H. Dodd, The Apostolic Preaching and Its Developments (Londres: Hodder & Stoughton, 1936), 54-56. 47 Charles F. D. Moule, "Jesus in New Testament Kerygma", em Verboriini Ventas, ed. Otto Biicher e Klaus Haacker (Wuppertal, Alemanha: Brockhaus, 1970), 15­ 26. 4S Veja também Donald A. Magner 'The Sayings of Jesus in the Apostolic Fathers and Justin Martyr", em Wenham, Gospel Perspectives, 5:233-68. w Um tema essencial, enfatizado por toda a obra de Herman Ridderbos, Puni and lesns (Grand Rapids: Baker, 1958). Veja também Eduard Schweizer, "The Testimony to Jesus in the Early Christian Community", HBT7 (1985): 77-98. ^ Veja, por exemplo, Paul W. Barnett, "The Importance of Paul for the Historical Jesus", Crux 29 (1993): 29-32. Para uma investigação das tendências atuais na in­ terpretação de Paulo de modo mais amplo, veja especialmente Ben Witherington III, The Paul Quest: The Reueuvd Search for llie Jew of Tarsus (Downers Grove, III.: InterVarsity Press, 1998). 1,1 Dunn, "Paul's Knowledge", 206-207. 52 Traugott I toltz, "Paul and the Oral Gospel Tradition", na obra jesns and the Oral Gospel Tradition, ed. Henry Wansbrough (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1991), 380­ 393. w E interessante com pararas duas teologias evangélicas mais recentes sobre Paulo. James D. G. Dunn (The Theology of Paul the Apostle [Grand Rapids: Eerdmans, 1998]) trabalha principalmente com as cartas incontestáveis, precisamente por­ que as outras são contestadas, ao passo que Thomas R. Schreiner (Paul: Apostle of God's Glory in Christ [Downers Grove,, III: InterVarsity Press, 2001 ]) inclui de modo deliberado e igualmente as treze cartas atribuídas a Paulo em o Novo Testamento. Apesar disso, as imagens que emergem dos dois estudos são, na maioria dos casos, bastante consistentes entre si. E as diferenças que aparecem derivam, principalmente, de outras considerações que não sejam a inclusão das seis cartas contestadas ou não. 1,4 Veja James D. G. Dunn e Alan M. Suggate, The Justice ofGod (Carlisle, Inglaterra: Paternoster, 1993); Elsa Tamez, The Amnesty of Grace: Justification by Faith from

a Latin American Perspective (Nashville: Abingdon, 1993). As pessoas de lingua Espanhola frequentemente poderão apreciar este ponto melhor do que as de lín­ gua Inglesa, uma vez que justicin traduz dikaiosunS nas traduções para a língua espanhola. Como em grego, esta palavra é usada para os dois conceitos.


Notas

165

55 Veja especialmente Ben Witherington III, The Christology of Jesus (Filadélfia: Fortress, 1990), 191-215.

56 George Johnston, '"Kindgom of God' Sayings in Paul's Letters", na obra de Richardson e Hurd, From Jesus to Paul, 143-156. 57 Sobre isto, veja especialmente Craig L. Blomberg, "'Your Faith Has Made You Whole': The Evangelical Liberation Theology of Jesus", em Green e Turner, Jesus

of Nazareth, 75-93. 58 F. F. Bruce, "Justification by Faith in the Non-Pauline Writings of the New Testament", EvQ 24 (1952): 66-69. m Veja especialmente George E. Ladd, A Theology of the Nm> Testament, rev. Donald A. Hagner (Grand Rapids: Eerdmans, 1993), 290-95. H1 Nenhum acadêmico investigou esta campanha de acusações mais consistentemen te do que o acadêmico finlandês Heikki Raisanen. Veja especialmente a sua obra

Jesus, Paul and Torah: Collected Essai/s (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1992). 1,1 Veja especialmente Douglas J. Moo, "Jesus and the Authority of the Mosaic Law", /SNT 20 (1984): 3-49. 62 J. Louis Martyn, Galatians (Nova York: Doubleday, 1997), 549. 63 Veja especialmente toda a obra de Peter Stuhlmacher, Biblische Theologie des Neuen

Testaments, 2 volumes. (Gottingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1992-99), infeliz­ mente ainda não traduzida ao português. 64 O melhor estudo do conjunto completo de questões associadas com a observân­ cia do sábado/domingo, bíblica, teológica e historicamente é D. A. Carson, ed.,

From Sabbath to Lord's Dai/(Grand Rapids: Zondervan, 1982). 65 Veja especialmente Dale C. Allison, Jr., Jesus of Nazareth: Millenarian Prophet (Mineápolis: Fortress, 1998), 172-216; Vincent L. Wimbush, Pnnl: The Worldly

Ascetic (Macon, Ga.: Mercer University Press, 1987). 66 Embora encontrado no texto de João, este versículo é frequentemente conside­ rado a parte essencial da passagem, que ê autentica. Muitos acadêmicos acredi­ tam que João 2.12-25 é mai autêntico do que os relatos Sinóticos comparáveis da purificação do templo. Veja Craig L. Blomberg, The Elistoriciil Reliability of John's

Gospel: Issues and Commentary (Downers Grove, III.: InterVarsity Press, 2001), 87­ 91. 67 Embora, novamente, os comentaristas tenham opiniões divergentes alguns pen­ sam que um costume gentio hedonista é o que se tem em mente aqui. “ Citado em Ladd, Theology, 104.

m Veja acima, pp. 79, 161 n° 28. Veja também Gerhard Maier, "The Church in the Gospel of Matthew: Hermeneutical Analysis of the Current Debate" em Biblical Interpretation and the Church: The Problem of Contextualization, ed. D. A. Carson (Nashville: Nelson, 1985), 45-63.


166

Questões Cruciais do Novo Testamento

70 Veja especialmente todo o vol. 3 de Meier, A Marginal few, resumido nas pp. 626-632. Em um sentido mais genérico, veja Richard Bauckham, "Kingdom and Church according to Jesus and Paul", HBT18 (1996): 1-26. 71 Veja Craig L. Blomberg, Neither Poverty nor Riches: A Biblical Theology of Possessions (Leicester, Inglaterra: InterVarsity Press, 1999), 111-46. A respeito do material comparável nas cartas de Paulo, veja pp. 177-212. 72 Mesmo os retratos mais céticos de Jesus reconhecem regularmente este elemento essencial do seu ministério. Veja, por exemplo, toda a obra de J. Dominic Crossan,

The Historical Jesus: The Life of a Mediterranean Jewish Peasant (San Francisco: HarperSanFrancisco, 1991). 73 Ou seja, que de uma quantidade mínima de material autêntico de Jesus pode ser determinado, aceitando palavras de Jesus nos Evangelhos, que nem o judaísmo, que veio antes dEle, e nem o cristianismo, que veio depois dEle, teriam inventa­ do. 74 Para mais dados sobre as palavras de Jesus a não-judeus, veja C. H. H. Scobie, "Jesus or Paul? The Origin of the Universal Mission of the Christian Church", em Richardson e Hurd, Prom Jesus to Paul, 47-61. 75 Alexander J. M. Wedderburn, "Paul and Jesus: Similarity and Continuity", em idem, Paid and Jesus, 139. 7,1 J. M. G. Barclay, "Jesus and Paul", em Dictionary of Paul and His Letters, ed. Gerald F. Hawthorne, Ralph P. Martin,e Daniel G. Reid (Downers Grove, III.: InterVarsity Press, 1993), 502. 77 Wenhnm, Paul, 190. 78 Veja especialmente Kathleen Corley, Women and the Historical jesus (Santa Rosa, Calif.: Polebridge, 2002); mais resumidamente, Grant R. Osborne, "Women in Jesus' Ministry", WT] 57 (1989): 259-291.

79 Naturalmente, é muito discutido se a autoria das epístolas pastorais é realmen­ te de Paulo. Mas a melhor explicação para a restrição de Paulo em 1 Coríntios 14.34-35, sobre a questão das mulheres falarem em público, também depende de entendê-las fora do papel do ancião, na avaliação das profecias. A respeito de todo o material desta seção sobre Paulo, e a exegese detalhada para respaldar as minhas generalizações, veja Craig L. Blomberg, "Neither Hierarchicalist nor Egalitarian: Gender Roles in Paul", em Two Views on Women in Ministry, ed. James R. Beck e Craig L. Blomberg (Grand Rapids: Zondervan, 2001), 329-372. Talvez o melhor estudo de algumas destas categorias, incluindo mais detalhes, seja Witherington, Christology of Jesus. Veja também toda a obra de N. T. Wríght, jesus and the Victory of God (Mineápolis: Fortress, 1996). 81 Veja especialmente Meier, A Marginal Jew, 2:100-116. 82 Para grande quantidade de detalhes, veja ibid., 509-1038.


Notas

167

83 Veja especialmente E. P. Sanders, Jesus and Judaism (Filadélfia: Fortress, 1985), 61-76. 84 A respeito deste significado original e uma possível malha de consequências his­ tóricas, veja Bruce D. Chilton, A Feast of Meanings: Eucharistic Theologies from Jesus

through Johannine Circles (Leiden: Brill, 1994). 85 Veja em detalhes Meier, A Marginal Jew, 3:289-613. 86 Veja especialmente toda a obra de Meyer, Aims of Jesus. K7 Veja especialmente Philip B. Payne, "Jesus' Implicit Claim to Deity in His Parables", TrinJ, n.s., 2 (1981): 3-23. 88 Para uma avaliação ponderada de declarações conflitantes sobre o significado de Abba, veja Scot McKnight, A New Vision for Israel: The Teachings of Jesus in National

Context (Grand Rapids: Eerdmans, 1999), 49-65. 8U Apesar disso, pode-se propor uma sugestiva justificativa para conectar "Filho do Homem" com a cristologia do "novo Adão" de Paulo. Veja especialmente Romanos 5.12-21 e 1 Coríntios 15.22, 45-49. 90 Veja especialmente Seyoon Kim, The Son of Man as the Son of God (Grand Rapids: Eerdmans, 1985). 91 Veja especialmente Richard Bauckham, "The Sonship of the Historical Jesus in Christology", SJT 31 (1978): 245-60. 92 Craig L. Blomberg, "Messiah in the New Testament", em Israel's Messiah in the

Bible and the Dead Sea Scrolls, ed. Richard S. Hess e M. Daniel Carroll R. (Grand Rapids: Baker, 2003), 125-132. Neste livro, no entanto, simplesmente como uma questão de variedade, adotei a prática pós-Neo Testamentária de usar "Jesus" e "Cristo" intercambiavelmente, sendo dois nomes diferentes para o mesmo ho­ mem de Nazaré. 93 Veja especialmente Martin Hengel, Studies in Early Christology (Edimburgo: T & T Clark, 1995), 119-225. 94 Veja também Ben Witherington III, The Many Faces of the Christ: The Christologies

of the New Testament and Beyond (Nova York: Crossroad, 1998) esp. 103-126. 95 Veja, respectivamente, Hans F. Bayer, Jesus' Predictions of Vindication and

Resurrection (Tubingen: Mohr, 1986); e Sydney H. T. Page, "The Authenticity of the Ransom Logion (Mark 10:45b)" no vol. 1 de Gospel Perspectives, ed. R. T. France e David Wenham (Sheffield, Inglaterra: JSOT 1980), 137-161. 96 Veja, por exemplo, N. T. Wright, What St. Paul Really Said (Grand Rapids: Eerdmans), 135-50, esp. 140-42. 07 Para abundantes detalhes sobre este item e outros correlatos, veja Ben Witherington III, Jesus, Paul, and the End of the World (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1992). 98 Seyoon Kim, The Origin of Paul’s Gospel (Grand Rapids: Eerdmans, 1981). Veja também Richard N. Longenecker, "A Realized Hope, a New Commitment, and


Q uestões Cruciais do Novo Testamento

168

a Developed Proclamation: Paul and Jesus" em The Road from Damascus, ed. Richard N. Longenecker (Grand Rapids: Eerdmans, 1997), 18-42. w Richard N. Longenecker, Galatians (Dallas: Word, 1990), 37,38. 11111 Veja Wendell W illis, "A n Irenic View of Christian Origins: Theological Continuity from Jesus to Paul in W. R. Farm er's W ritings", em Jesus, the

Gospels, and the Church, ed. E. P Sanders (Macon, Ga.: Mercer University Press, 1987), 265-86. 11,1A llison, "T h e P au lin e E p istles", 25.

C a p ít u l o 3 : C o m o o C r is t ã o D e v e A À V id a ?

p l ic a r o

N

ovo

T esta m en to

1 Em um nível introdutório, veja especialmente Gordon D. Fee e Douglas Stuart, How

to Read the Biblefor All Its Worth, ed. rev. (Grand Rapids: Zondervan, 1993). Mais detal­ hes, veja William W. Klein,Craig L. Blomberg,e Robert L. Hubbard, Jr., Introduction to

Biblical Interpretation, ed. rev. (Nashville: Nelson, em breve). 2 Importantes e recentes exceções incluem Jack Kuhatschek, Taking the Guesswork

Out of Applying the Bible (Grand Rapids: /ondervan, 1990); David Veerman, How to Apply the Bible (Wheaton, 111.: Tyndale, 1993); e Daniel M. Doriani, Putting the Truth to Work: The Theory and Practice of Biblical Application (Phillipsburg, N.J.: Presbyterian & Reformed, 2001) Klein, Blomberg, e I lubbard, Introduction to Biblical Interpretation, cap. 10; Craig L. Blomberg, "The Diversity of Literary Genres in the New Test.iment", em

Interpreting the Next’ Testament, ed. David A. Black e David S. Dockery (Nashville: Broadman & Holman, 2001), 272-295.

A Klein, Blomberg, e Hubbard, Introduction lo Biblical Interpretation, cap. 12. s Uma série particularmente útil de comentários, iniciada em 1994, pode auxiliar o leitor com pensamentos adicionais sobre as aplicações. Foi previsto que em meados de 2004 a obra NIV Application Commentaries (Publicado por Zondervan em Grand Rapids, Michigan) estaria disponível para todos os livros do Novo Testamento, e os volumes relativos ao Antigo Testamento também estariam chegando rapidamente. O formato singular desta série consiste em acompanhar um livro bíblico, tomando passagens de extensão para pregação, e arranjando comentários sobre estas passagens em três seções, intituladas "Significado origi­ nal", "Ligação de contextos" e "Significado contemporâneo". As duas últimas seções são designadas a ocupar uma porção substancial do comentário sobre cada texto, auxiliando os leitores a pensar metodologicamente sobre como pas­ sar do contexto antigo para o mundo moderno, e então gerar aplicações legíti­ mas. Como em qualquer série escrita por múltiplos autores, alguns volumes são


Notas

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melhores do que outros, mas de modo geral, a qualidade dos comentários que apareceram até agora é muito elevada. Outras séries recentes que dedicam sig­ nificativa atenção à exposição e aplicação, com comentários consis ten temente precisos e úteis, incluem The Bible Speaks Today (sobre os dois Testamentos), e InterVarsity Press New Testament Commentary Series (somente sobre o Novo Testamento), ambos publicados por InterVarsity Press em Downers Grove,, Illinois, e Leicester, Inglaterra. InterVarsity Press Reino Unido iniciou The Bible Speaks Today; InterVarsity Press EUA iniciou a InterVarsity Press New Testament Commentary Series. 6 Em um nível muito básico, muitos dos volumes da série Holman New Testament Commentary (Nashville: Broadman & Holman) são úteis, bem como as explica­ ções de Kent I lughes (Wheaton, 111.: Crossway) e D. A. Carson (Grand Rapids: Baker), embora não pertencendo, nenhuma das publicações, a nenhuma série formal. E vários volumes isolados sobre livros específicos do Novo Testamento, também não pertencentes a nenhuma série, às vezes propiciam aplicações boas e completas — por exemplo, Eugene H. Peterson, Reversed Thunder: The Revelation

ofjolm and Ihe Praying Imagination (San Francisco: HarperSanFrancisco, 1988); Elsa Tamez, The Scandalous Message of fames: Faith without Works Is Dead, ed. rev. (Nova York: Crossroad, 2002); e Lyle D. Vander Broek, Breaking Barriers: The Possibilities of Clirit Han Community in a I,ouch/ World (Grand Rapids: Brazos, 2002), sobre 1 Corintios. 7 Veja especialmente James Callahan, The Clarity of Scripture: History, Theology, and

Contemporary Literary Studies (Downers Grove,, 111.: InterVarsity Press, 2001). 8 Teófilo pode ter sido um "buscador" ou um novo cristão, mas as igrejas que rece­ beram o Evangelho de Lucas claramente criam que ele tinha valor para os crentes depois da conversão e não apenas para que as pessoas viessem até Cristo. No Evangelho de João, o tempo do verbo traduzido como "crendo" varia nos manu­ scritos, de modo que não temos certeza se João desejava se referir à fé inicial, ao crescimento na fé, ou (muito provavelmente) ambas as coisas. 9 Veja Craig L. Blomberg, "The Liberation of Illegitimacy: Women and Rulers in Matthew 1-2", BTB 21 (1991): 145-150. 10 Entre muitas boas abordagens destes temas, veja especialmetne D. Brent Sandy,

Ploivshares and Pruning Hooks: Rethinking the Language of Biblical Prophecy and Apocalyptic (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 2002). 11 Há muito poucas explicações evangélicas no Novo Testamento sobre João Batista, embora nós saibamos mais a seu respeito do que sobre qualquer outros dos per­ sonagens dos Evangelhos, além do próprio Jesus. De uma perspectiva católica contemporânea, grande parte de C. R. Kazmierski (John the Baptist: Prophet and

Evangelist [Collegeville, Minn,: Liturgical, 1996]) é útil.


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Questões Cruciais do Novo Testamento

12 Para uma excelente investigação das diversas formas que estas vocações podem assumir, tanto nos Evangelhos como hoje, veja Scot McKnight, Turning to Jesus:

The Sociology of Conversion in the Gospels (Louisville: Westminster John Knox Press, 2002). 13 Veja D. A. Carson, The Gospel according to John (Grand Rapids: Eerdmans, 1991), 505. 14 John R. W. Stott (Christian Counter-Culture: The Message of the Sermon on the Mount [Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1978], 89) detalha: "Isto é, não olhe! Comporte-se como se realmente tivesse arrancado os olhos e os tivesse atirado para longe, e agora estivesse cego, e assim não pudesse ver os objetos que anterior­ mente lhe fizeram pecar". 15 Veja especialmente Robert C. Tannehill, "The 'Focal Instance' as a Form of New Testament Speech: A Study of Matthew 5:39b-42", jR 50 (1970): 372-85. ^ Veja Stephen C. Barton, üiseipleship and Family Ties in Mark and Matthew (Cambridge: Cambridge University Press, 1994), 67-96. Para aplicação contem­ porânea incisiva, veja Rodney Clapp, Families at the Crossroads: Beyond Traditional and Modern Options (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1993). 17 Veja D. A. Carson, The Sermon on the Mount: An Evangelical Exposition of Matthew

5-7 (Grand Rapids: Baker, 1978), 98,99. 1S Veja J. Carl Laney, A Guide to Church Discipline (Mineápolis: Bethany, 1985); e também John White e Ken Blue, Healing the Wounded: The Costly Love of Church

Discipline (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1985). ^ O melhor estudo evangélico dos milagres de Jesus está agora disponível em Graham H. Twelftree, Jesus the Miracle Worker (Downers Grove, III.: InterVarsity Press, 1999). 2(1 Sobre isto, veja especialmetne Marion C. Moeser, The Anecdote in Mark, the

Classical World, and the Rabbis (Londres: Sheffield Academic Press, 2002). 21 Veja especialmente William Barclay, The Plain Man's Guide to Ethics (Glasgow: Collins, 1973), 26-48. Sobre as questões mais amplas, nos aspectos de exegese, geologia e história, em questão, veja D. A. Carson, ed., From Sablwth to Lord's Day (Grand Rapids: Zondervan, 1982). 22 Craig L. Blomberg, Interpreting the Parables (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1990). 21 Veja Craig L. Blomberg, Preaching the Parables (Grand Rapids: Baker, em breve). 24 Essas aplicações são bem detalhadas na obra de David E. Garland, Mark (Grand Rapids: Zondervan, 1996). 25 Veja especialmente Brent Kinman, "Jesus' Triumphal Entry in the Light of Pilate's", NTS 40 (1994): 442-448; e Paul B. Duff, "The March of the Divine Warrior and the Advent of the Greco-Roman King", JBL 111 (1992): 55-71.


Notas

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26 Usando o agradável jogo de palavras de Ben Witherington III, The Chris-tology of

Jesus (Mineápolis: Fortress, 1990), 107. 27 No nível popular, veja especialmente Tom Hovestol, Extreme Righteousness: Seeing

Ourselves in the Pharisees (Chicago: Moody, 1997). 28 De longe, a mais abrangente abordagem desta literatura, agora disponível, é John J. Collins, ed., The Encyclopedia of Apocalypticism, 3 vols. (Nova York: Continuum, 1998). No nível popular, veja especialmente B. J. Oropeza, Ninety-nine Reasons

Why No One Knozvs When Christ Will Return (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1994). 29 Veja especialmente Timothy J. Geddert, Watchwords: Mark 13 in Markan Eschatology (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1989). 30 Veja a investigação sobre abordagens notáveis, realizadas ao longo da história, em Arthur W. Wainwright, Mysterious Apocalypse (Nashville: Abingdon, 1993). 31 Aplicações criteriosas e provocativas aparecem em Donald Bridge e David Phypers, The Meal That Unites? (Londres: Hodder & Stoughton, 1981). 32 Para um comentário abrangente das questões, veja John C. Thomas, Foot-washing in

John 13 and the johnnnine Community (Sheffield, Inglaterra: JSOT, 1991). 33 Sobre a pontuação correta desta passagem, veja John W. Wenham, "When Were the Saints Raised?" ]TS 32 (1981): 150-152. 34 Veja Craig L. Blomberg, "The Globalization of Biblical Interpretation — A Test Case: John 3-4", BBR 5 (1995): 1-15. 35 Albert Vanhoye, "La composition de Jean 5,19-30", em Melanges Bihlicjites en hoiu-

mage ait R. P. Beda Rigaux, ed. Albert Descamps and Andre de 1 lalleux (Gembloux, França: Duculot, 1970), 259-274. 36 Modificação do esquema sugerido por Wayne Brouwer, The Literary Development

of John 13-17: A Chiastic Reading (Atlanta: Scholars, 2000). 37 O estudo definitivo deste texto, com base nesta perspectiva, é Peder Borgen, Bread

from Heaven (Leiden: Brill, 1965). A forma também aparece em miniatura, com vá­ rias parabolas dos Sinóticos. O mais abrangente conjunto de sugestões dos textos do Novo Testamento que adotam esta forma aparece disperso ao longo de E. Earle Ellis, The Making of the New Testament Documents (Leiden: Brill, 2002). 38 A linguagem, nestas três últimas sentenças, foi tomada de Craig L. Blomberg, The

Historical Reliability of John's Gospel: Issues and Commentary (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 2001), 127. 39 Veja especialmente D. A. Carson, The Gospel according to John (Grand Rapids: Eerdmans, 1991), 514-515. 40 Veja a explicação incisiva em Bruce Milne, The Message of John: Here Is Your King! (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1993), 247-252. 41 Veja, por exemplo, David J. Williams, Acts (San Francisco: Harper &c Row, 1985), 17.


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42 Veja especialmente William ). Larkin, Jr., Acts (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1995), 82-83. 43 Veja especialmente Walter L. Liefeld, Interpreting the Book o f Acts (Grand Rapids: Baker, 1995), 117-127. 44 Veja Craig L. Blomberg, Neither Poverty nor Riches: A Biblical Theology of Material

Possessions (Leicester, Inglaterra: InterVarsity Press, 1999), 161-71. 45 Alguns acrescentariam uma segunda exceção aparente — a experiência dos se­ guidores de João Batista, em Efeso (At 19.1-10). Estes indivíduos são chamados "discípulos", mas, quando Paulo os entrevista, declaram nem mesmo ter ouvido falar do Espírito Santo. Isso quer dizer que conheciam muito pouco sobre os mi­ nistérios de João ou de Jesus, dado o papel central que o Espírito desempenha em ambos. Isso quer dizer que não poderiam ter sido judeus, pois se fossem, teriam sabido do Espírito, pelas Escrituras hebraicas. Com tao pouca informação, é difí­ cil crer que o seu discipulado resultasse em uma fé verdadeira e salvadora. 4I’ Veja especialmente o tratamento desta passagem em James I). G. Dunn, Baptism

in the Holy Spirit (Filadélfia: Westminster, 1970), 55-72. 47 Veja especialmente Orlando E. Costas, Liberating News: A Theology of Contextual

Evangelization (Grand Rapids: Eerdmans, 1989). 4f’ Veja especial men t* C. I I. Dodd, The Apostolic Preaching anil Its Dei’elopnieiits (Nova York: Harper, 1951). 4" Veja Philip 11. Towner, "Mission Practice and Theology under Construction", em Witness to the Gospel: The Theology of Acts, ed. I. Howard Marshall e David Peterson (Grand Rapids: Eerdmans, 1998), 417-436. 1,1 Kenneth Gangel, "Paul's Areopagus Speech", BSac 127 (1970): 312. Cf. J. Daryl Charles, "Engaging the (Neo) Pagan Mind: Paul's Encounter with Athenian Culture as a Model for Cultural Apologetics (Acts 17:16-34)", Triitj 16 (1995): 47­ 62. Sl Veja especialmente Martin Hengel, Between fesns and Pan! (Filadélfia: Fortress, 1983), 1-29. ^ Veja Ronald D. Witherup, "Cornelius Over and Over and Over Again: Functional Redundancy in the Acts of the Apostles , jSNT 49 (1993): 45-66. ^ Veja, respectivamente, James Smith, The Voyage and Shipivreck of St. Paul, 4'1 ed. (Mineápolis: James Family Christian Publishers, 1880); e Richard 1. Pervo, Profit loith Delight: The Literary Genre of the Acts of the Apostles (Filadélfia: Fortress, 1987), esp.

Infelizmente, e de forma desnecessária, como acontece com Pervo, que

lida brilhantemente com o aspecto artístico e de aventura do livro de Atos, é muito frequente que o aspecto literário seja colocado contra o histórico. S4 A única exceção possível é Efésios, se interpretada como uma "encíclica". Veja as introduções tradicionais ao Novo Testamento.


Notas

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55 Veja, por exemplo, Douglas J. Moo, The Epistle to the Romans (Grand Rapids: Eerdmans, 1996), 786: "Paulo não deseja que os cristãos usem a inevitabilidade da tensão com o mundo como uma desculpa para um comportamento que des­ necessariamente exacerba este conflito ou como uma resignação que não nos leva sequer a procurar conservar um testemunho positivo". 56 O oposto é menos provável, uma vez que os leitores de primeira vez não teriam conhecimento do último texto quando se deparassem com o primeiro. 57 Veja Craig L. Blomberg, "Neither Hierarchicalist nor Egalitarian: Gender Roles in Paul", em Two Views on Women in Ministry, ed. James R. Beck e Craig L. Blomberg (Grand Rapids: Zondervan, 2001), 350-352. 58 Veja Craig L. Blomberg, I Corinthians (Grand Rapids: Zondervan, 1994), 207-220. 59 Ibid., 213-14; Blomberg, "Neither Hierarchicalist nor Egalitarian", 347. 60 Veja também Blomberg, I Corinthians, 150-158. 61 Notável aplicação prática aparece em Philip Yancey, What's So Amazing about

Grace? (Grand Rapids: Zondervan, 1997). 62 Blomberg, "Neither Hierarchicalist nor Egalitarian", 357-370. 63 Pontos convincentes na obra de Stephen F. Miletic, "One Flesh": Ephesians 5.22­

24,5.31 — Marriage and the Nm> Creation (Roma: Biblical Institute Press, 1988). w Como Moo, Romans, 33. Comentaristas mais antigos frequentemente dividiam 1.18; 3.20 em duas partes, com 1.18-32 ou 1.18; 2.16 destinadas primeiramente aos gentios, e 2 .1; 3.20 ou 2.17; 3.20 destinadas primeiramente aos judeus. A universa­ lidade do pecado, no entanto, permanece clara em todos estes esquemas.

^ Por exemplo, a NVI. Mas perceba que a TNIV substitui "nenhum alimento" por "nada", adotando uma tradução mais literal. 66 Veja também Blomberg, '/ Corinthians, 202-6. Sobre a aplicação do princípio da liberdade do legalismo, de maneira mais geral, veja especialmente Charles R. Swindoll, The Grace Azvakeniug (Nashville: Word, 1991); Chap Clark, The Performance Illusion (Colorado Springs, Colo.: NavPress, 1993). 67 Veja, por exemplo, Gary Friesen com J. Robin Maxson, Decision-Making and the Will of God (Portland, Oreg.: Multnomah, 1980), 382-383. 68 Para excelentes aplicações de 1 Coríntios 14, a vários contextos, veja D. A. Carson,

Shojt’ing the Spirit: A Theological Exposition ofI Corinthians 12-14 (Grand Rapids: Baker, 1987), 77-136. Para uma teologia bíblica equilibrada de dons espirituais, de modo mais geral, veja Michael Green, / Believe in the Holy Spirit (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), 161-196. 69 Veja especialmente Harold W. Hoehner, Ephesians: An Exegetical Commentary (Grand Rapids: Baker, 2002), 720-729. 70 Veja Blomberg, Neither Poverty nor Riches, 190-99. Cf. Ronald J. Sider, Rich

Christians in an Age of Hunger, 4a ed. (Dallas: Word, 1997), 193-196.


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Questões Cruciais do Novo Testamento

71 Em razão das características singulares, que se aplicam apenas a Cristo, alguns defendem a tese de que o hino se destina a funcionar como um exemplo. Mas isso altera radicalmente a situação. Para um histórico completo da interpretação, com conclusões equilibradas, veja Ralph P. Martin, A Hymn of Christ: Philippians

2:5-11 in Recent Interpretation and in the Setting of Early Christian Worship (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1997). 72 Veja Loveday Alexander, "Hellenistic Letter Forms and the Structure of Philippians", JSNT37 (1989): 87-101. 73 Veja Robert Jewett, Christian Tolerance (Filadélfia: Westminster, 1982). 74 Veja especialmente D. A. Carson, "Pauline Inconsistency: Reflections on 1 Corinthians 9.19-23 and Galatians 2.11-14" Chiirchinan 100 (1986): 6-45. 75 F. F. Bruce, Paul: Apostle of the Heart Set Free (Grand Rapids: Eerdmans, 1977), 401. 7h Veja especialmente Willard Swartley, Slaivry, Sabbath, War, and Women (Scottdale, Pa.: Herald, 1983). Mais recentemente, em um importante estudo de três questões parcialmente paralelas e altamente controversas, William J. Webb "Slaves, Women, and Homosexuals: Exploring the Hermeneutics of Cultural Analysis |Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 2001]) desenvole o que ele chama de uma hermenêutica de "movimento redentor". O principal do seu argumento é que assim como al­ guém pode rastrear o desenvolvimento do entendimento sobre vários tópicos, em sucessivas etapas de revelação do Antigo Testamento, assim como do Antigo Testamento para o Novo, também pode haver pontos em que a "trajetória" do pensamento bíblico sugere que os cristãos hoje devem ir além do ensinamento do Novo Testamento. Webb crê que os cristãos fizeram isso na questão da escravi­ dão. Ele mostra, de maneira convincente, que os dados bíblicos sobre a homosse­ xualidade não se encaixam em tal trajetória. A prática homossexual é igualmente condenada nos dois Testamentos. Mas ele crê que o ensinamento bíblico sobre as mulheres é mais semelhante àquele sobre a escravidão. Ele não interpreta o ensinamento bíblico sobre os papéis dos sexos, como promovendo a igualdade de direitos, como fazem as feministas bíblicas, mas vê o desenvolvimento do pensamento evoluindo em uma direção que apoiaria os cristãos de hoje indo além do Novo Testamento, para apoiar a total intercambiabilidade de papéis dos sexos, no lar e na igreja. Grande parte da obra de Webb é persuasiva, mas ainda permanecem algumas questões perturbadoras. Na realidade, não há texto bíblico sobre os papéis dos sexos análogo a 1 Coríntios 7.21. A Bíblia jamais encoraja as mulheres a se tornarem presbíteras ou líderes sobre seus maridos, se houver oportunidade. Se interpretarmos os textos essenciais sobre os papéis dos sexos, como declarando a qualidade complementar e não igualitária, nas palavras de Paulo, então será difícil ver onde aparece a trajetória do desenvolvimento, dentro


Notas

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do Novo Testamento, para justificar novos movimentos em uma direção que irá explicitamente além do Novo Testamento. 77 Veja especialmente Ben Witherington III, "Rite and Rights for Women — Gl. 3.28", NTS 27 (1981): 593,594. 78 Veja Blomberg, "Diversity of Literary Genres", 283-285. 79 Todas estas generalizações são de forma proposital designadas a serem suficien­ temente amplas de modo que arminianos e calvinistas de igual maneira pos­ sam concordar com elas. Para uma reconstrução convincente de como poderia ter sido a vida de um jovem judeu cristão em Roma nesta época, escrita como uma obra de ficção histórica, veja a obra de George H. Guthrie, Hebrews (Grand Rapids: Zondervan, 1998), 17,18. 80 Embora suas reivindicações ocasionalmente vão além do texto propriamente dito, Tamez (Tiago) faz uma interpretação atenta do texto de Tiago, com base em uma perspectiva liberacionista latino-americana, que cada cristão ocidental de classe média deve encarar. 81 Veja, respectivamente, John H. Elliott, A Home for the Homeless: A Sociological

Exegesis of 1 Peter, Its Situation and Strategy (Filadélfia: Fortress, 1981); e Bruce W. Winter, Seek the Welfare of the City: Christians as Benefactors and Citizens (Grand Rapids: Eerdmans, 1994). Winter faz uma importante abordagem de 1 Pedro, mas também leva em consideração uma quantidade significativa do material de Paulo. 82 Sobre estes temas e correia tos, veja especialmente Richard Bauckham, The Theology

of the Hook of Revelation (Cambridge: Cambridge University Press, 1993). 83 Veja especialmente Grant R. Osborne, Revelation (Grand Rapids: Baker, 2002). 84 Para um fascinante estudo da especulação cristã sobre o Anticristo, ao longo da história cristã, veja Bernard McGinn, Antichrist: Tzvo Thousand Years of the Human

Fascination with Evil (San Francisco: HarperSanFrancisco, 1994). 85 Para comparações úteis das posições sobre o milênio, veja Robert G. Clouse, ed.,

The Meaning of the Millennium: Four Views (Downers Grove, 111.: InterVarsity Press, 1977); sobre a tribulação, veja Richard Reiter, ed., The Rapture and the Tribulation: Pré-, Mid-, or Post-tribulational (Grand Rapids: Zondervan, 1984). Sobre quatro abordagens ao livro do Apocalipse como um todo, com explicações de passa­ gem por passagem, veja C. Marvin Pate, ed., Four Views on the Book of Revelation (Grand Rapids: Zondervan, 1998), que apresenta a perspectiva passada, idealista, e duas futuristas diferentes. 86 As bibliografias impressas de recursos essenciais rapidamente ficam obsoletas. Mas podemos ver as biografias do Antigo Testamento e do Novo Testamento, organizadas por divisões, atualizadas duas vezes ao ano, no Denver Journal, uma publicação online de resenhas de livros, acessíveis na página principal do Denver


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QuestĂľes Cruciais do Novo Testamento

Seminary (www.denverseminary.edu). No entanto, recentemente duas excelen­ tes bibliografias foram publicadas: John Glynn, Commentary and Reference Survey, ed. rev. (Grand Rapids: Kregel, 2003); e David R. Bauer, An Annotated Guide to

Biblical Resources for Ministry (Peabody, Mass.: Hendrickson, 2003).


Q uestões DO

c ru c ia is

Novo TESTAMENTO C r a ig

L. B lo m b e r g

O Novo Testamento é historicamente confiável? Paulo foi o verdadeiro fundador do cristianismo? Como o cristão deve aplicar o Novo Testamento à sua vida?

Com essas três questões cruciais, este livro procura tratar o Novo Testamento de uma forma diferente, através de uma abordagem pós-moderna que nós podemos classificar como “as chaves da compreensão do Novo Testamento”.

Questões Cruciais do Novo Testamento é um livro escrito por um respeitado professor do Novo Testamento do Seminário de Denver (EUA) com mais de quinze anos de experiência no assunto. Como a interpretação realiza muito pouco, a menos que conduza à aplicação, vale a pena você ter em casa um livro completo, que, além de tratar de assuntos tão importantes para o cristão da atualidade, ainda traz uma parte prática que certamente ajudará muitos leitores.

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