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como tua ferramenta.” “Você me deu muitas coisas, Paula, me cumulou de atenções (...) Não quero discutir os motivos da tua generosidade.” “Não me telefone, não estacione mais o carro na porta do meu prédio, não mande terceiros me revelarem tua existência.” “Não tente mais, Paula, me contaminar com a tua febre, me inserir no teu contexto, me pregar tuas certezas, tuas convicções e outros remoinhos virulentos que te agitam a cabeça.” “Não seja tola, Paula, não estou te recriminando nada, sempre assisti com indiferença aos arremedos que você fazia da ‘bruxa velha’.” As formas de imperativo são invariavelmente as do tratamento você (que aliás vem explícito, como pronome reto, quando sujeito): “não conte”, “Não me telefone, não estacione”, “não mande”, “Não tente”, “Não seja”; mas os pronomes oblíquos e possessivos assumem sempre as formas do tratamento tu: te, tua, teu, tuas. O contista usa conscientemente da liberdade que gozam os escritores autênticos de desviar-se intencionalmente das normas gramaticais em benefício da expressividade. Ele subscreveria, sem dúvida, estas palavras de outro grande prosador brasileiro, Autran Dourado: “Não defendo a ignorância dos escritores: deve-se conhecer a gramática, para violentá-la em favor da expressão e do falar e escrever brasileiros.” Mas isso é privilégio dos grandes escritores. Enquanto você não chega a essas alturas, se quiser manter-se dentro das normas da língua escrita culta, não misture os dois tratamentos em trabalhos ou documentos formais. Faze aos outros o que queres que te façam. Faça aos outros o que quer que lhe façam. Fazei aos outros o que quereis que vos façam. Não faças aos outros o que não queres que te façam. Não faça (você) aos outros o que não quer que lhe façam. Não façais aos outros o que não quereis que vos façam.

Profile for Carlos Duarte

Adriano da Gama Kury - Para falar e escrever melhor o português  

oi.

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