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situações informais. Nela se podem introduzir, com moderação, certos termos de gíria mais usuais, que aos poucos se vão incorporando à língua geral e perdendo o seu caráter especializado; é a linguagem familiar por excelência, com um mínimo de policiamento gramatical. É o nível em que se ouve, por exemplo: “— Você assistiu o [em vez de ao] Fla-Flu? Infelizmente não pude ir no [em vez de ao] Maracanã. Me disseram [em vez de Disseram-me] que o juiz anulou um gol do Flamengo e quiseram agredir ele [em vez de agredi-lo].” — Ou então: “— Me passa o feijão.” ou “— Sua irmã ’tá estudando. Deixe ela em paz!” Na escala seguinte situa-se a coloquial cuidada ou culta, mais tensa, fiscalizada gramaticalmente: é a linguagem de pessoas educadas e instruídas em situações geralmente formais, sem fugir, contudo, à naturalidade: “— Você assistiu ao concerto da Filarmônica de Viena? Disseram-me que o maestro é excepcional. Infelizmente não pude ir ao Municipal: estava gripado.” “— Só assisti à primeira parte do concerto. Deixei-o com muita pena, pois tinha um compromisso inadiável, uma festa de bodas de prata.” Há também, cada vez mais restrita, uma modalidade que se pode chamar ultraformal, que em tudo imita a língua escrita, e soa como artificial, pelo emprego de termos e construções desusados: é a linguagem de certas conferências e discursos empolados, de algumas reuniões formais acadêmicas. Na modalidade escrita, o registro vulgar é o de pessoas de pouca instrução forçadas a escrever, p. ex., um bilhete apressado, ou um cartaz improvisado, anúncios volantes, uma carta, uma solicitação. Quem escreve nessas condições carrega para a escrita os hábitos do seu nível, que contrastam com os do registro culto: “Concerta-se [por Consertam-se] rádios.” — “Não deixem [em desacordo com Aproveite, mais embaixo] de consultar Madame Soraya! A [em lugar de Há] poucos dias no Brasil esta vidente resolve seu caso de amor ou de negoçio [= negócio]. Aproveite esta rara oportunidade!” O melhor exemplo do nível seguinte, a língua escrita despreocupada, é a correspondência íntima entre pessoas de instrução. Nesse registro, duas influências se cruzam: a da linguagem coloquial descontraída e a da língua escrita formal. Daí o caráter misto que pode oferecer: de um lado, termos e expressões familiares, ou mesmo de gíria, e desrespeito a certas normas da gramática; de outro, pela própria condição cultural de quem escreve, surgem construções e termos eruditos, determinados igualmente pelo próprio assunto versado. Este trecho de carta de Monteiro Lobato a seu amigo e também escritor

Profile for Carlos Duarte

Adriano da Gama Kury - Para falar e escrever melhor o português  

oi.

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