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Serenamente por entre a agitação

Carlos Salazar d’ Eça


Edição de Autor Coimbra, Dezembro de 2016 Capa: fotografias do autor, Coimbra Contracapa: fotografia do autor, Salamanca


À minha Família Sem eles não haveria encanto, paz, tranquilidade e vida para brincar com as palavras e sonhar escrever histórias


Carlos Salazar d’ Eça

Serenamente por entre a agitação

Coimbra, 2016


Por los tenebrosos rincones de mi cerebro acurrucados y desnudos duermen los extravagantes hijos de mi fantasĂ­a esperando en silencio que el Arte los vista de la palabra para poder presentarse decentes en la escena del mundo Gustavo Adolfo BĂŠcquer, In Rimas


Antes de começar Há medida que me fui crescendo como leitor, foi aumentando em mim o desejo de também escrever, usar as palavras de modo fascinante e cativante. Porém sempre considerei que a complexidade da tarefa de redigir um romance, criar uma trama páginas a fio com um enredo para prender um leitor e sobretudo dar-lhe prazer durante o seu tempo de leitura, estava muito para lá daquilo que eu pensava que seria a minha capacidade. Por isso nunca empreendi qualquer esforço para passar de um ou dois parágrafos ocasionais. A leitura de romances, novelas, contos e policiais, fazendo aumentar a admiração por alguns autores e afastando outros da minha lista de preferências, produziu uma espécie de inveja, um desejo de conseguir fazer qualquer coisa que também gostasse de ler. Essa espécie de inveja, de admiração pela capacidade de pintar com frases elegantes, sóbrias e coloridas foi-me pressionando, aguçando essa vontade. Porém sempre considerei que criar uma estrutura, um enredo, definir personagens e criar uma linha condutora para desenvolver a história era trabalho apenas para vocacionados, para eleitos.

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Em algumas ocasiões fui treinando frases curtas, expressões e descrições. Brincar com as palavras para pintar um quadro que os outros poderão ver dentro da sua cabeça é algo fascinante, pois temos de ser nós o primeiro a vê-lo. Com espanto e de repente após ler um livro de Ítalo Calvino (Se numa noite de inverno um viajante) dei por mim a bater no teclado do computador algumas frases que davam vida a ideias soltas na cabeça. Sem dar conta e quase sem esforço, apenas concentração nos momentos em que esperando aqui ou acolá só podia usar a cabeça, começaram a surgir parágrafos, que tinha de escrever na primeira ocasião, para poder passar para o parágrafo seguinte. Assim alguns parágrafos davam vida aos seguintes num processo de autocriação em que eu era apenas o instrumento que permitia o alinhamento das letras, das palavras no ecrã e em que os personagens iam ganhando autonomia e profundidade. Olhando para as escassas páginas que escrevi vejo claramente a influência de autores que fui lendo ao longo da minha vida de adulto. Tudo o que li em jovem deve ter feito substrato, porém há centenas de autores que nem me lembro. Só olhando para a minha base de dados saberei quem foram. Porém, como não assinalar e enorme influência, sobretudo na adjetivação, de Eça de Queiroz. O fascínio mais antigo sobre obras de Gabriel Garcia Marquez, que li após a juventude, e o lugar destacado que a Crónica de uma Morte Anunciada sempre teve sobre mim quer na tradução em português quer em espanhol. E mais recentemente a admiração sobre as páginas fulgurantes de Carlos Ruiz Zafón, não só a Barcelona misteriosa e envolvente, mas também a “trilogia da niebla”. E claro o clique resultante da leitura de “se numa noite de inverno um viajante”. Tenho de referir um livro quase

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despercebido, mas que marca tudo o que escrevi “Todo Eso Que Tanto Nos Gusta” de Pedro Zarraluki. Simples como a vida e complexo como nós. Momentos da minha vida são inspiradores, mas não passam disso. Não posso e não a quero contar, é só minha e de quem comigo a viveu e guardou alguns traços na memória. Coisas e sensações que vivi servem, no primeiro momento para dar vida a uma personagem ou outra, mas depressa se autonomizam e passam a obrigar-me a escrever a sua trama. A maior parte das vezes só tenho poder sobre o fim, mais ou menos abrupto, ou então entrevisto páginas atrás e serpenteando até à foz como um rio, umas vezes indolente e outras apressado. Olhando para o que escrevi até agora noto o gosto pelas descrições mais ou menos coloridas e o gosto por usar as palavras em situações não habituais, pelos parágrafos que só mais tarde têm sequência numa lógica muito própria, por referências à atração sexual entre os personagens, descritas com imaginação e algum pudor na linguagem mas revelando intensidade e ação, por histórias curtas (dificuldade de imaginação?), que acabam abruptamente, deixando ao leitor a liberdade de as concluírem dentro da cabeça. A fuga a fins óbvios, mas a repetição de alguns elementos padrão (pessoas, casas, descrições de corpos) numa tentativa de reproduzir um dia a dia ideal, onírico. Frases curtas ou carregadas de virgulas, com raciocínios que obrigam à concentração, como se quisessem emular uma conversa a acontecer com o leitor.

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O seio nu


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O seio nu, redondo e pujante oferecia toda a sua vitalidade, fazendo-me vibrar de excitação para lhe tocar, evocava paisagens de prazer, enquanto ela na alvura láctea do seu corpo despido continuava a falar discorrendo as suas ideias em frases organizadas, expondo um discurso claro, sublinhando as suas palavras com gestos ora suaves ora enérgicos. O torso apoiado de lado no colchão permitia-me percorrer o seu corpo, em toda a extensão, tateando-o com o olhar, enquanto distraidamente alimentava o diálogo. Entretanto a excitação do meu membro, deitado à sua frente, não resistia duro às suas palavras, demasiado alinhadas e inapropriadas para dois corpos despidos sobre o colchão, na tarde quente. Na verdade, até hoje, não me consigo lembrar qual era o assunto da conversa, que ela conduzia com tanto afinco. Algo que terá surgido enquanto comíamos na pequena mesa da cozinha. Era uma divisão simples, com uma porta ampla para uma pequena varanda, com uma grade de ferro forjado. O Sol dardejava sobre a vidraça, aquecendo o ar lá fora e mantendo em mim uma brasa pendente, iluminando o quarto com uma luz forte e dourada, que recortava os escassos móveis em

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arestas vivas. Uma estante com ar provisório e uns poucos livros. A cadeira no canto, para onde atirei diligente a minha roupa. O colchão, onde estávamos deitados entre a conversa fluente dela e a paixão que eu, enquanto subia as escadas dois a dois, com o coração aos pulos mais por antever o corpo dela que pelos degraus, tinha previsto terna e quente, mas que ainda não tinha avançado nada. Apesar de nua, permitindo-me percorrer (como disse) cada pequeno espaço do seu corpo com o olhar milimétrico de desenhador de precisão, perscrutando cada centímetro com infinita curiosidade e deleite, estava completamente vestida pelas suas palavras, como que discursando num areópago de urgência sobre o problema abrangente dos desperdícios de plástico a flutuarem no Oceano Pacífico. Acariciei o seu calcanhar, percorri a perna, elegante e bem torneada, como se diz nos livros. Deslizei, quase flutuando, sobre a nádega bem constituída e vibrante. A curva das costelas levou mais tempo. E finalmente o seio, o mamilo duro com a sua pequena coroa de pequenos pontos que deveriam estar eretos. Mas não estavam. Os seios duros e juvenis mantinham a sua postura hirta, mas sem emoção. O pescoço longo e bonito, de estátua grega. Sem que ela desse conta os meus olhos não paravam de a beijar e deslizar, húmidos sobre a sua pele. Continuava a falar alheia ao peso do meu olhar. Ignoro se salivava, como os animais de Pavlov, mas mentalmente, entre as palavras que ia dizendo, para não parecer um bruto insensível, sei que salivava. Eu e ele um pouco mais abaixo. De súbito levantou-se e deslizou com elegância para fora do quarto. Deitei-me de costas, relaxando o braço que ameaçava ficar

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dormente de estar há tanto tempo apoiado nele, e olhei fixamente no teto as estrelas da minha imaginação. Revi os minutos a passarem enquanto lhe afagava o pescoço e timidamente tentava aproximar a mão do seu peito. Cheguei aos botões da camisa e sem pressa e sem pressão, quase sem lhe tocar a pele, desapertei um a um. Uma eternidade depois a camisa aberta revelava o seu esplendor. Um colo elegante e dois seios, ainda protegidos, nem grandes nem pequenos, mas redondos, espetados e a desafiarem saltar do soutien a qualquer momento, num movimento respiratório mais forte. Revi a minha língua a brincar com a dela em caricias sem fim, fazendo a paixão e o calor tomarem conta de mim. A casa era pequena e antiga. Além da cozinha, onde comemos e onde iniciei as manobras de sedução destinadas a usufruirmos dos nossos corpos, um pequeno corredor, o quarto e a casa de banho. Esta estava equipada de forma moderna. Era a melhor divisão para mim, porque espaçosa, muito luminosa devido à grande janela, não em largura, mas em altura, que eu gostava de ver aberta, por sobre os telhados em frente. Voltou, deslumbrante e a sorrir. Os cabelos soltos cobrindo naturalmente um dos ombros. Na mão trazia um jarro de limonada bem gelada e dois copos. E atirou-me: conversar contigo faz-me sede. O meu cérebro explodiu. Faço-te sede? Calei o espanto, reprimi a interjeição de protesto que já tinha percorrido quase todo o espaço da garganta, das cordas vocais à língua que se preparava para articular as palavras. Calma! O cérebro conseguiu recompor- se e tomar conta dos controles de novo. Faço-te sede por estar aqui nu, a teu lado, desejando-te pacientemente, à espera que o teu cérebro perceba que devemos

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passar à ação. Procurando-me manter firme e hirto, zelando para que a qualquer momento possamos avançar ou por ir argumentando e contra-argumentando para manter uma conversa que não quero? Não consegui dizer nada na eternidade daquele segundo que levou a retomar a frase que tinha ficado interrompida pela ida à cozinha. Pela posição da luz que deslizava pela parede desde que a empurrara com suavidade para o colchão ao fazer descer a minissaia alegremente colorida pelas coxas com as minhas mãos ligeiramente húmidas de nervosismo e excitação deslizando pelos glúteos com ternura e sofreguidão mal disfarçada, percebi que as horas tinham avançado muito mais pela tarde dentro do que eu em direção ao centro do mundo. Ao seu interior mais quente, onde queria abrigarme até explodir de prazer e satisfação enquanto o seu orgasmo me afogaria, deixando-me sem respiração. A parede branca irradiava tanta luz que quase nos podíamos bronzear. Era uma intimidade acolhedora, retemperadora e muito excitante. Não fosse a interminável conversa. Por duas ou três vezes já tinha estado terrivelmente excitado e igualmente tão murcho como um manjerico depois de cheirado. Olhei disfarçadamente para a minha camisa, quase a cair da cadeira. Olhei para a janela aberta, para os vasos alegremente cobertos de pequenas flores multicolores. Levantei-me, olhei para o seu corpo. O triângulo perfeito no cimo das pernas indicando o ponto de contacto há tanto ansiado. Revi a sua roupa, ali ao lado, além da minissaia, a blusa, o soutien e a pequena peça íntima preta, que eu lhe oferecera depois daquele jantar romântico com a vela na mesa enquanto a ligeira brisa vinda do rio refrescava o meu rubor. Os cabelos perfeitos estavam agora espalhados pelo colchão, compondo

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um forte contraste contra o lençol. E inalei o aroma do jacarandá que subia da rua. Encostei-me à grade de ferro forjado da varanda, demasiado pequena para ter mais do que uma cadeira, de costas para a rua. Admirei-a longamente, como sempre fazia, dando combustível à paixão, sentindo o sangue acelerar nas veias e chocar com força, devido ao excesso de velocidade, em todas as curvas do sistema circulatório. Recordei o par de horas atrás, quando chegado apressado, a tinha apertado ternamente enquanto mentalmente revia, mais uma vez o que planeado se seguiria ao arrumar da cozinha. “Que fazes aí fora todo nu? Os vizinhos vão ver-te!” Disse-me exasperada, interrompendo-se ou suspendendo o rio de palavras que vinha debitando, com a voz a fugir-lhe para umas notas falsete, nada habituais em si. Olhei espantado, para ela e depois para a rua lá em baixo. Primeiro para a esquerda, como sempre e depois para a direita. Nem vivalma. Nas casas em frente, ninguém. Não me mexi. A tarde estava magnífica. Ao longe o recorte dos telhados compunha a linha do horizonte que eu daquele quarto andar podia vislumbrar, identificando as ruas e os quarteirões mais conhecidos da minha geografia pessoal na cidade. Ligeiras gotas de suor começavam a escorrer pelas minhas costas aquecidas pelo sol. Sim, estava a transpirar discretamente, quase nada. Seria por causa do calor da tarde? Por causa do sol nas minhas costas? Ou simplesmente porque a máquina desejava entrar em ação, para atingir aquele frenesim vibrante de aconchego e ternura quando dois corpos se partilham e se fundem? Olhei para ela,

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tinha-se sentado com as pernas fletidas apertadas entre os braços, com uma mão a segurar o outro pulso e o queixo sobre os joelhos. Deslumbrante. Estava zangada? Perdera o fio à meada? Tinha finalmente reparado que eu estava nu! Terá reparado que também estava sem peça de roupa? “Vem cá”, disse docemente abrindo os braços para me receber. Afinal sempre íamos avançar… numa fração infinita de segundo vi-me, como em camara lenta avançar para os seus braços, reassumir a minha postura de guerreiro armado e já quase sentia o meu corpo colado ao dela a alta temperatura. Vi-me a descer sobre ela e o lençol a aproximar-se. Numa fração infinita de tempo o mundo parecia ir ser perfeito. Os sinos da Basílica de Santa Maria em Trastevere bateram as dezasseis e trinta. Bolas! Estou atrasado! Olhei para o peito dela, agora com os mamilos ligados como faróis em dia de nevoeiro, para o sorriso, para a pele sedosa, para o triângulo sorridente em que terminavam as suas magníficas pernas e para a cadeira, para a camisa. Os olhos caíram no relógio, que relaxado marcava as horas inexoravelmente, no chão de madeira, entre as pernas da cadeira. Os ponteiros estridentemente berravam chamando por mim e fazendome descer do meu desejo. Confirmei a notícia. Atrasado! Depois dos boxers enfiei a camisa e fui apertando os botões distraído, lentamente como quem anda para trás e acabei por enfiar as calças. Encontrar os sapatos foi mais difícil, estavam a meio caminho entre a cozinha e o quarto. Veio direita a mim e enroscou o seu corpo contra o meu agora que o contacto tinha uma barreira colorida de algodão. “Vê se acertas os botões ou vão olhar para ti”, disse sussurrando enquanto a sua mão deslizava pela minha barriga até ao pequeno mamilo que se

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denunciou imediatamente, exultando de alegria, mas agora desnecessariamente. Depois fez o caminho inverso para dentro das minhas calças e agarrou-me com força fazendo-me vibrar dentro da sua mão e os bóxeres ficaram instantaneamente mais justos, sem espaço para mim e para a mão dela. Agora o corredor estava muito mais claro, parecendo indicarme a porta de saída, como no fim do cinema quando se acendem as luzes, devido à posição do sol que inundava a cozinha. Pois, agora é tarde disse-lhe enquanto mordisquei o lóbulo da sua orelha esquerda, arrepiando-a até ao seu intimo. Afinal a conversa era importante, continuei, ligeiramente sarcástico com um toque de deceção na voz. Verdadeiramente furioso por dentro, mas não deixando transparecer Peguei na mochila, abri a porta e desci a escada. A penumbra e o ar fresco acolheram-me acariciando-me o rosto com gentileza. Devagar, perdendo a velocidade que tinha imprimido à saída da porta, degrau a degrau, enquanto descia os lanços fui pensando no que se tinha passado. Ou melhor, no que não se tinha passado. Fui demasiado gentil? Não fui suficientemente claro nas minhas intenções de a penetrar até ao centro do mundo e de a inundar de prazer fazendo-a navegar em orgasmos sucessivos? Faltou paixão ou pelo contrário foi insegurança? Se calhar o almoço estava bom demais e a digestão, à vista do colchão e do calor da tarde, pesou, dando origem a uma conversa intelectual, sobre sabe-se lá o quê. Bem me parecia que deveria ter começado pela sobremesa. Talvez devesse ter sido mais incisivo quando a afaguei enquanto a estreitava nos meus braços, mal cheguei e deixei o seu peito a ponto de saltar direito a mim de alegria, furando a blusa e o soutien, enquanto a minha mão passava atrevida a barreira das pequenas cuecas, que

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ainda não lhe tinha tirado. Deveria ter sido mais acutilante quando a minha língua percorreu a sua pele de leite. Mais dois degraus e o pequeno patamar da entrada atravessado e a luz brilhante refletida das fachadas amarelo ocre e brancas cobrir-me-ia, devolvendo ao anonimato da rua e da vida. No último segundo atirei a mochila para as costas, tendo até aí vindo a cumprimentar cada degrau, deslizando sem interesse. Cheguei à rua e virei para a Via della Lungaretta.

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DecisĂľes


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O autor sou eu! Sou eu que decido! Disse ele com veemência e sublinhando as suas palavras com um murro na secretária. Vocês só estão aí porque eu decidi. Aceito opiniões, mas quem decide sou eu. Esta história vai terminar como eu quero. Virou-se de costas e abriu o vidro. A varanda era espaçosa e bem arranjada. Mesa redonda, quatro cadeiras. Um ar fortemente tropical dado pela cobertura de telha de meia cana, fornecendo uma generosa sombra e as colunas de madeira. As floreiras, a toda a volta limitando a estrutura, com pequenas flores garridas e muito aromáticas estavam enquadradas pelo azul magnífico do mar. Apoiou-se no rebordo com as mãos afastadas e olhou profundamente ao longe. A linha do horizonte brilhante marcando com vigor a separação do azul celeste onde escorriam raios de sol dourados como ouro liquido. Desceu os olhos e foi o areal que afagou. Era relativamente estreito, dando à praia uma intimidade quase familiar. Na praia duas crianças brincavam alegremente entre castelos de areia meio desfeitos e os baldes e pás. Perto delas, com um livro na mão, concentrada na leitura e nas crianças, como uma mãe

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consegue em plena multitarefa, um belo corpo bem torneado dentro de um biquíni elegante. Deu meia volta e entrou. Estava decidido. A história iria acabar como ele tinha previsto, como tinha decidido. Não importava o que eles pensavam. A história tinha um quadro de personagens banal. Um homem, uma mulher. Corpos perfeitos, de sonho. Bronzeado a condizer e elegância por todos os poros. Ian Fleming não desdenharia o casal. Sim, um Martini agitado, mas não batido. No entanto era o fim, o desfecho que a tornava interessante, apetecível mesmo e por isso não iria abdicar dele. Que importava o que eles pensavam? Nada. Sentou-se e começou de novo a escrever, batendo com suavidade no teclado e fazendo, letra a letra, aparecer as palavras alinhadas, com sentido, no ecrã pintando cenários e delineando mais uns quantos avanços no último capítulo. Escrevia com destreza e uma elegância fluente, que agradava aos leitores e também ao seu editor. O sol foi entrando timidamente, pé ante pé. Primeiro uns escassos centímetros ao pé da varanda. Depois avançando, decidido até se apropriar de grande parte do espaço da divisão enchendo-a de uma luz brilhante, quente dourada. A sala irradiava uma aura e ele sem se aperceber foi-se sentindo desconfortável, com calor. O suor começou a descer lentamente pelas costas. Primeiro umas gotículas discretas, quase invisíveis, mas depois foram engrossando e deslizando. Ergueu os olhos e procurou o copo. Bebeu um golo e saiu meditando e foi assim que chegou, distraído, à borda da piscina. Desceu os degraus e deslizou suavemente para dentro de água, quase não a agitando. Umas braçadas tímidas, como que pedindo desculpa

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por quebrar a lisura vítrea. Depois mais vigorosamente à medida que o corpo foi apreciando a caricia suave e terna. Por cima da sebe jorrava o riso jovial e fresco das crianças e aqui e acolá a voz serena da mãe. Resolveu boiar virado para cima e ficou ofuscado pela chapa de luz. A casa não era deles. Estavam de férias. Dois quartos, sala de dimensões generosas permitia a vida familiar com desafogo. Separada da sala por um simples balcão, a cozinha era funcional, mas resumia-se a um espaço em u alongado, com o equipamento necessário nos dias de hoje para uma família de quatro. Fora, um telheiro de dimensões consideráveis tinha espaço para dois carros, deixando-os abrigados do sol. Era o único contacto com o exterior. Do outro lado da casa, um jardim, que mais parecia um pequeno bosque de pinheiros, dava recato e sossego à casa resguardando-a do resto da urbanização e trazendo intimidade à piscina banhada todo o dia pelo sol. Era para eles o centro da moradia e tinha ficado no primeiro lugar dos itens da seleção para aquela estadia. Os miúdos passaram a correr e atiraram pelo ar: temos fome. Já tinham desaparecido sala dentro a toda a velocidade, pela portada aberta, que era a parede toda desse lado da sala virada para o pátio e a piscina. Tinham idade suficiente para atacarem a cozinha sem risco, para suprirem as suas necessidades alimentares. Depois iriam tomar banho, o que significava que ainda tinha uns momentos de relaxamento. Ela depositou o seu saco de praia no limite entre a relva cuidadosamente aparada que bordejava a casa e ia perdendo expressão em direção aos pinheiros e o lajedo de calcário em torno da piscina. Desceu, vagarosa desfilando para dentro de água alargando um sorriso magnífico.

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A piscina de formas quase regulares tinha de um dos lados um conjunto de degraus a toda a largura, permitindo entrar e sair da água, como quem chega ao teatro. Isto é, sem esforço, mas com atitude. E foi isso que ela fez. O bronzeado, que começava a intensificar-se dava-lhe um ar apetitoso quando as suas curvas se deslocavam, os seios e as coxas mexendo-se com indolência, fazendo cintilar o brilho da pele, ainda vigorosa. A cor forte das duas peças realçava o conjunto das curvas e contracurvas bem delineadas. Deu umas braçadas calmas e descontraídas até ficar bem junto dele. Entretanto, como um adolescente tolo, não conseguiu tirar os olhos dela, de cada requebro, de cada pormenor, que ele tão bem conhecia. Nem articulou palavra. O sol colaborou no cenário preparando-se para dar lugar à lua e permitindo que o céu fosse mudando o seu tom de azul forte e dourado para um tom mais discreto e suave, deixando antever que em breve ganharia um rosado levemente violeta, primeiro junto à linha do horizonte e depois avançando para terra, apressando o seu passo e pintando a abóbada com milhares de estrelas quais led eternos. A temperatura, essa pelo contrário resolveu ficar. Ainda não estava disposta a dar tréguas. Por momentos a água foi-se tornando um espelho polido tão quieta que estava, enquanto as suas línguas brincavam alegremente como se tivesse chegado a hora do recreio. Puxou-a para ele suavemente até não haver espaço entre as suas peles, que aqueciam rapidamente. Tateou-a subindo os seus dedos com delicadeza e elegância ao longo das pernas alcançando a pequena mata púbica, que

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atravessou delicadamente. De seguida, numa fração de tempo que parecia sempre durar uma eternidade, como todas as vezes, pois era exatamente essa a sensação que desfrutava naquelas ocasiões, de um prazer que dura um tempo sem fim naquele curto percurso, deixouse absorver para dentro dela enquanto o calor do seu interior o invadiu, o envolveu. Enquanto faziam o jantar juntos, os jovens puseram a mesa no pátio e em breve estavam todos sentados comentando o dia entre garfadas de arroz, de salada, pedaços de laranja e as fatias de carne bem braseada, tão ao gosto de todos. A sangria estava gelada na perfeição. Quiseram saber como estava o último capítulo e se aquela história teria chegado ao fim antes de se irem embora. A luz interior da piscina estava ligada além de algumas lanternas com velas, dando ao jantar um ar festivo e não rotineiro. Comeram calmamente, conversando. Tinham saído da água de mãos dadas e tomado duche juntos. A casa de banho era espaçosa com uma decoração minimalista que acentuava a sua luminosidade devido à grande janela, que estava aberta e deixava ver o mar vagamente iluminado pela última réstia de luz do entardecer. Nessa ocasião já os garotos ocupavam o sofá da sala preocupados em atualizar o seu mural no ciberespaço. Realmente a organização das divisões, apesar de não serem muitas, e a sua generosidade permitia que estando juntos ao longo do dia havia espaço para os momentos individuais. O rasto de pegadas molhadas da borda da piscina pela sala indicava que ainda faltava tempo para o jantar. No duche ele tinha-a ensaboado gentilmente e com detalhe, demoradamente acariciando o seu corpo e o mesmo fez ela,

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percorrendo com calma o espaço bem constituído do seu homem. Aquele fulgor da piscina foi repetido, agora sem pressa aproveitando todos os segundos, enquanto a água os acariciava e dava aquela sensação tépida de prazer interior e exterior. Apesar dos anos juntos irem passando paulatinamente, aquela chama estava sempre viva e não era preciso muito para irromper em explosões quase espontâneas de prazer sempre renovado. Só depois de ambas as respirações terem voltado ao normal é que deram o duche por terminado. A faísca ia recomeçando quando se limparam um ao outro. Foi a vez de ela dizer. Está quieto, olha as horas. Sim, disse ele. O livro vai ficar pronto ainda esta semana. A tarde foi muito produtiva depois de eu ter posto tudo em pratos limpos. Tomei a decisão, inabalável diga-se, que mesmo ouvindo as sugestões que eles me deram, sou eu que decido o fim. Não me importo que se tenham apaixonado durante a história, mas lamento que, para aproveitarem o baixo preço, tenham comprado o voo para Paris sem me perguntarem, sem me consultarem. Poderíamos ter visto as datas. Não, vão ter de ir entregar a mochila a São Petersburgo, na data inicialmente prevista. Nem que isso coincida com o seu agradável fim de semana a ver o Louvre ou o que seja numa mansarda parisiense. Os dias foram passando entre banhos de mar e de piscina e uns passeios de automóvel mais umas idas até ao Centro Comercial La Marina, sempre acompanhados de um sol glorioso e de uma temperatura, que nem de noite abrandava, mas que todos tanto gostavam. Na quinta-feira ao almoço ele disse: acabei, acabei esta manhã. Quando voltarmos a casa envio o ficheiro ao Daniel. Já sei

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que à tarde irá querer uma cervejola para petiscar algo e dizer-me que já leu com atenção. Como se eu acreditasse. As noites com temperaturas sempre acima dos 20 graus, mesmo no fim da madrugada, quando o sol já se prepara para despontar do outo lado do horizonte, enganando os distraídos, permitia-lhe dormir completamente nu, sem acordar com a pele fria, já quase de manhã, como acontece em casa, muitas vezes. De noite, no piso de cima, as janelas dos quartos ficavam abertas, permitindo que a ténue luz das estrelas se introduzisse no piso, evitando que após o pôr-do-sol fosse necessário acender as luzes. Não só por poupança, mas também pelo espirito ecológico de não ter de usar produtos anti insetos. O grande vitral da escada entre os dois pisos fazia também o seu papel. Podia observá-la a seu lado e ver o efeito da sua mão sobre a pele, por onde ia passando. Gostava de adormecer apreciando o seu corpo, o que muitas vezes significava adormecer bastante mais tarde. Olhou, demoradamente, em contraluz os seios, que tinham amamentado os filhos, mas que ainda se mostravam vigorosos e apetitosos, levando a não resistir ao seu contacto de bom dia, boa tarde ou boa noite. Eles não se faziam rogados e muitas vezes contra vontade dela apresentavam-se imediatamente firmes e entusiasmados, antevendo diversão. O ventre quase plano, mas com aquela pequena elevação que dá encanto a uma mulher com experiencia da arte do amor. As pernas, já quase na penumbra total, ele não precisava de ver, naquele momento, pois não se cansava de as admirar, quer em casa quer na rua e por isso deslizou o seu pé numa caricia suave, ao longo da sua perna, fazendo-a estremecer. Teve cuidado para não a acordar, outra vez, mas percebeu, com nitidez que os mamilos tinham ficado a postos. As férias foram assim

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preenchidas. Amor, diversão (com os filhos), trabalho e prazer (com a mulher). O sábado despontou forte e vibrante, como se não tivesse havido noite. Ao longe já o mar brilhava no seu azul-cobalto. O carro estava praticamente carregado. Faltava o pequeno-almoço e depois entregar a chave na receção da urbanização. Tinham nadado uma última vez e tomado o pequeno-almoço. Em breve o carro saiu o portão principal e apontou direto à N332 para apanhar a AP-7 e mais tarde a AP-36. No disco rígido do computador, a heroína, no seu impecável vestido, bem justo, revelando formas do Tomb Raider, fazendo temer pela integridade do suporta seios, seguia no avião sentada ao lado do seu novo amor, impecavelmente escanhoado e bronzeado, sem tirar os olhos da mochila que no compartimento da bagagem de mão, ao alcance dos seus olhos, rumava, como eles, com destino a São Petersburgo, onde na Prospettiva Nevsky mudaria de mãos. Finalmente. Talvez a conjugação de voos os colocassem a tempo em Paris. E apertaram um bocadinho as mãos. Seria todo o contacto possível, pois não cabiam nas instalações sanitárias, os dois, naqueles aviões russos pré-diluvianos. Tinham chegado há doze dias para umas férias, depois de um ano de trabalho, exatamente por aquela estrada, no outro sentido, claro. As aulas dos filhos haviam terminado e eles ansiavam por uns dias de praia, de piscina, de sol. Ele, escritor relativamente recente, depois de dois ou três êxitos, o primeiro inesperado até para ele e o segundo e terceiro esperados pelos leitores, estava agora com o quarto livro em banho-maria e sem avanços significativos e o Daniel a pressionar a cada sexta-feira. Uns dias longe de tudo seriam

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fundamentais para se livrar do editor, acabando o livro. Quando sentiu que dominava o gosto por escrever e que tinha facilidade em criar histórias que os outros apreciavam largou o emprego de gestor de recursos humanos numa multinacional apátrida. Os filhos ganharam um pai mais presente e divertido e a mulher um amante mais fogoso e criativo. A Clara era administradora executiva no departamento criativo de uma empresa de tecnologias de comunicação. Tinha sido promovida há pouco tempo, mas aos olhos dos seus subordinados e dos amigos tinha sido um presente envenenado, com laço e tudo, do seu antigo colega de gabinete e exnamorado de 15 anos antes, na universidade. Por isso aquela urbanização retirada dos grandes circuitos turísticos tinha sido excelente, para retemperarem forças e para o escritor fazer o que tinha a fazer, ou seja escrever e acabar aquele livro. Os filhos e ela fariam o que tinham de fazer: nada e nadar. Chegaram e partiram sós, por aquela estrada, aliás como fariam em outros anos, mas durante alguns dias não estiveram sozinhos. A irmã de Clara e o seu marido tinham aparecido, com os dois filhos pequenos, vindos de norte e ficaram numa moradia mais pequena, duas estreitas ruas ao lado, durante sete noites. Quase três anos mais nova, a Teresa não era tão interessante como a irmã. Como se o molde se tivesse cansado e estando lá todos os traços principais os pormenores não tinham a riqueza dos detalhes que a Clara exibia, apesar do trabalho desgastante. O peito, mais pequeno, ainda chamava a atenção, que ela provocava, de verão ou de inverno, com decotes assassinos. As minissaias e as transparências abundavam no seu guarda-roupa e nem a maternidade, relativamente recente, a tinha moderado no uso dos seus atributos para se manter sempre no centro das atenções. O facto de ser a mais nova das irmãs tinha-a sempre colocado nesse lugar, que ela sentia como segunda pele. Sem

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ser uma galdéria ou depravada usava os seus dotes para manter não só o marido em brasa como atiçava os cunhados até ao limite da compostura familiar. Não o fazia mal-intencionadamente, mas porque simplesmente gostava de ser o centro. As pernas menos interessantes que as da Clara, passavam grande parte do tempo destapadas, pelos sofás e cadeiras, sempre procurando evidenciar o bronzeado e a suavidade da pele e terminando em sapatos elegante, em qualquer ocasião. A Teresa era muito popular entre os sobrinhos porque o seu comportamento muito informal aproximava-a das suas brincadeiras, quer na praia quer na piscina quer por vezes às refeições. No entanto em breve estariam adolescentes suficientes para se começarem a sentir embaraçados com tanta descontração. Aos quinze anos os jovens têm pouca flexibilidade, as cores e os comportamentos são a preto e branco. Mas ainda não foi este verão. Este ano, esse comportamento irrequieto levou-a a nadar na piscina, completamente nua. Uma vez durante a noite, em que apenas o marido a tinha acompanhado e mais ninguém sabia e em outras duas ocasiões. A propósito de ter areia, chegada da praia, acabou por tirar a parte de baixo do biquíni. Desde a água do mar que os seios se vinham a bronzear, por isso um simples movimento foi o suficiente para a deixar, no meio dos quatro miúdos sem nenhuma peça. Nenhum dos adultos pareceu incomodado e as crianças e os jovens também não. A Teresa fazia essas coisas. Brincou um pedaço com os filhos e os sobrinhos e foi estender-se ao sol, no canto do relvado. No entanto na noite da primeira vez que a Teresa ficou nua na piscina, a Clara teve necessidade de falar do assunto. Lá fora a lua resplandecia sobre a água e refletia-se para dentro do quarto, com a grande janela da varanda absolutamente aberta e as cortinas de lado, deixando traços luminosos a bailar no teto. Estavam os dois nus sobre a cama, no limbo entre dormir e simplesmente deixar descansar o

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corpo quando ela atacou o assunto. Viste a Teresa nua dentro de água? Sim, respondeu ele. Ela e os garotos divertiram-se bem. Mas olhaste para ela? Claro, não sou cego. É uma mulher bonita, nova, na minha piscina e nua. Ia fazer o quê? Tapar os olhos? Por outro lado, é a tua irmã mais nova. Não é uma desconhecida. Já a vi em trajes menores e muitas vezes em trajes mínimos em alguns eventos. Não é uma cueca a tapar a púbis que altera o conjunto. Rodou virando-se para ela. E tu és, e sabes muito bem, bem melhor do que ela. Em ti a beleza que os teus pais fizeram tem todos os detalhes a raiar a perfeição. A raiar a perfeição? Estupor, bateu-lhe ela com determinação, mas de brincadeira. Num segundo estava deitada sobre ele, fazendo estilhaçar a tranquilidade da noite em mil bocadinhos de paixão, que escorreram lentamente por eles, até adormecerem nos braços um do outro. Os mamilos eretos espetaram-se sobre ele e os dois umbigos colaram-se, de forma engraçada quando o ar saiu todo. Aquele episódio da piscina não ficou por ali. Na manhã seguinte, depois das mulheres e as crianças terem ido para o areal, do lado de lá da vedação da casa, o cunhado aproximou-se da mesa onde ele tinha o computador e se preparava para começar a escrever. O Gustavo era um rapaz simpático, bem-parecido e calado. Estava apenas de calções exibindo um físico quase de atleta, que não combinava com a ideia de intelectual distraído que quase todos faziam dele quando o viam de fato e gravata a caminho da universidade. Naquele momento dessa ideia restava apenas uma pele pouco bronzeada, mas que parecia compleição natural e normal nele. Não tinham muita diferença de idade, mas ele parecia sempre acanhado perante o cunhado, quase celebridade. Viste a Teresa nua dentro de água? perguntou com suavidade. Sim, respondeu e após um breve instante, percebendo como ele estava desconfortável,

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adiantou a argumentação que usara com a mulher, antes que qualquer embaraço ganhasse forma de monstro. Sim, via e olhei para ela, com gosto. Claro, não sou cego. É uma mulher bonita, nova, na minha piscina e nua. Ia fazer o quê? Tapar os olhos? Por outro lado, é a minha cunhada mais nova. Não é uma desconhecida. Já a vi em trajes menores e em algumas saídas noturnas em trajes mínimos. Não é uma cueca a tapar a púbis que altera o conjunto. Sim, estava apetitosa, mas não é minha, é tua. Aliás são quase iguais. Somos civilizados. Gostei de ver, mas não cobiço. Apenas quero uma mulher, a minha. Aquela que me completa. Apreciar não é comer nenhum bocado. Acho que o fez com naturalidade, sem maldade, em família. Se estivéssemos numa praia seria a mesma coisa. Tu és a outra metade dela e ela a tua metade. Não é o biquíni que vai alterar isso. Após uma breve pausa, muito ligeira acrescentou: logo à tarde deixa a Clara com os teus e os meus filhos na praia e trás a Teresa para a piscina. Eu estarei do outro lado da casa, no pinhalzinho. Tira a roupa, a dela e a tua e nadem até ficarem cansados. Vais gostar. E verás que ela não terá nenhum pedaço a menos. Disse-lhe tudo isto sem interrupções, calmamente. Deixando que as palavras entrassem devagar. Há coisas na vida que se devem descobrir, juntos de preferência. Algumas sensações e algumas barreiras são boas quebradas em conjunto e sem teias no sótão, disse apontando com o indicador que encostou à têmpora direita, num gesto displicente e brincalhão. Quando o fizeres descobrirás uma sensação de liberdade no teu corpo, tão estranha que te parecerá impossível que seja apenas causada por aquele bocado de pano. Sim, tens razão. Uma destas noites, eu e a Teresa estávamos à borda da pequena piscina, ali na moradia, os gémeos a dormir, eram quase duas da manhã e resolvemos tomar banho. Entrámos na água e ela tirou o biquíni e eu

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os calções. A sensação foi avassaladora. Surpreendente. E espero repetir durante o dia. Logo farei como dizes. Sinto um formigueiro. Sorriu-lhe por perceber que lhe tinha desvanecido a nuvem negra que ameaçava acabar com as férias dele. Levantou-se afastando-se do computador e foi até à borda da piscina enquanto tirava os calções e deslizou para dentro de água nadando com calma. O Gustavo sorriu, pegou no chapéu branco e saiu para a praia. Quando ele se virou e ficou a boiar virado para o sol, já estava só. Foi uma das manhãs mais produtivas, em que mais páginas viram o seu rumo traçado no ecrã do computador. Agora a história estava desencravada. O medidor de preocupações do Daniel havia de estar a descer, lá longe. Quando vieram todos da praia, um bom bocado antes da hora de almoço, por causa da intensidade do sol e da pele, já a mesa estava posta. Ele tinha um avental, ridículo diga-se, com uns pequenos folhos vermelhos, por cima dos calções. A carne estava temperada ao lado do grelhador e as brasas tinham acabado de pegar. A Clara abraçou-o, depois dos quatro miúdos terem atravessado o pátio em direção à cozinha, com força e calor. Ela estava quente e ele sentiu o ar esvair-se à medida que a língua dela brincava irrequieta com a sua. O Gustavo e a Teresa chegaram de mãos dadas, ambos em topless. Mergulharam todos na piscina, mas ninguém tinha areia. Os restantes dias da Teresa, do Gustavo e dos gémeos foram tão normais como é possível para quatro adultos e quatro crianças e adolescentes em férias. Nem as crianças nem os adultos registaram como importantes aqueles dois momentos na piscina.

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A Teresa abraçou-o com força. Ele sentiu o peito da cunhada quente quase a atravessá-lo e ela disse-lhe: és um gajo muito fixe. Beijou-lhe a face e soltou-se. O Gustavo trocou dois beijos com a Clara e os gémeos entraram no carro. Em instantes o carro já tinha dobrado a esquina e eles deixaram de acenar. À noite, na cama a Clara disse: a minha irmã falou comigo. Agradeceu teres desmontado o drama, que sem o nosso apoio o Gustavo teria montado. A Teresa já tinha em outras ocasiões procurado soltar as amarras do Gustavo, mas ele tinha resistido e não tinha percebido como usar o corpo dele e o dela com espontaneidade e não com posse. Nem os intelectuais mais brilhantes atinam em coisas de coração e vida. Ela explicou-me que fez sem pensar, mas estava feliz, livre e divertida com as crianças. E sabia que nós moldaríamos a situação. Não se enganou embora a minha primeira reação tenha sido primária. No entanto os nossos dois adolescentes não ficaram nem atrapalhados nem chocados com a tia nua. Perceberam que não é o pano do biquíni que cria ou não as situações constrangedoras. A Clara tinha razão ao chegar àquela conclusão. Depois do Gustavo e a Teresa terem partido, ao fim da tarde, antes de jantar sentaram-se na sala e confrontaram os filhos, diretamente, sem rodeios, sobre o corpo, o sexo e o nudismo. Ficaram felizes pois encontraram dois jovens esclarecidos, com ideias firmes e opiniões atuais. O rumo da educação e o diálogo sempre constante com eles tinha frutificado. Muito diferentes daqueles dois heróis, que dias depois viajariam no disco rígido do portátil, num avião para S. Petersburgo, pensando se a casa de banho do avião permitiria ou não manobras intimas que desejavam, sem aguentarem até Paris.

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Das nove Ă s cinco


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Estacionou antes da garagem, debaixo do elegante telheiro de arquitetura arrojada, como a restante moradia, ao abrigo dos grossos pingos de chuva que caiam das manchas negras que cobriam o céu naquela tarde. Pegou na mochila, ouviu o carro trancar-se e entrou em casa. Já ia a desfazer o nó da gravata e largou os sapatos assim que pode. Colocou o casaco no bengaleiro da entrada. A casa contrastava um pouco na rua, mas com o tempo foi-se integrando na paisagem. As variações entre as paredes de betão aparente envernizado e o branco das outras criavam uma tensão de superfícies muito agradável e elegante. A disposição das árvores tinha sido estudada e com isso modificado a linha da rua, que agora, com os anos a passar, estava bem mais interessante. Desceu os poucos degraus para o piso inferior enquanto desapertava a camisa. As peças de roupa, que foi despindo calmamente, mas decidido, organizou-as em cima do banco, que estava ali para o efeito. Ficou nu e entrou na água da piscina que emanava um ligeiro vapor no ar. Como ele gostava. Deixou-se absorver pelo manto liquido e flutuou com gosto. Recebeu na pele o contacto da água como um bálsamo espalhado por uma mão omnipresente, de uma só vez.

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A divisão era relativamente grande, acomodando uma piscina de cerca de oito por dez metros, desenhada a partir do número dourado, com à vontade, mas o ambiente era íntimo, sobretudo porque o pé direito era o normal, de uma habitação. Acolhedor, com uma iluminação de sombras e penumbras, a lembrar os banhos turcos em Constantinopla. A luz, da forma como havia sido instalada, mimetizava o cintilar de miríades de velas, iluminando todo o espaço, mas de modo velado e tranquilo. Na verdade, à volta da piscina existiam umas quantas lanternas marroquinas de latão trabalhado e nos dias em que estavam mais tempo em casa sempre acendia as velas. Não era possível deixar um só dia passar sem mergulhar, no que era para si o centro íntimo da casa. Por isso ela tinha sido construída assim. Um programa de espaços arrojado, inteiramente dependente daquele propósito diário. Deixou-se boiar de costas enquanto a água cálida ia desvanecendo o peso do dia no escritório, no tráfego. Ouvindo clientes e argumentando soluções. Era quinta-feira. Deu umas braçadas descontraído e chocou com a parede mole. Com a parede mole? Endireitou-se e tirou a água da cara. Ali estava ela sorrindo, dentro de água, os cotovelos apoiados ao de leve na borda e o peito, bem proporcionado e convidativo, dando-lhe as boas vindas. A ela, tão atarefado a carregar o cansaço para dentro de água, não a vira. Bela, sensual e tranquila. Puxou-a com suavidade e sem rodeios para si, até ficarem colados e estreitou-a num abraço terno e quente fazendo fervilhar de paixão a água à sua volta. Beijou-a, com carinho, com intensidade

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como se o não fizesse há uma eternidade. Afinal tinham tomado o pequeno-almoço há muito tempo, antes das oito da manhã. Nem sequer dera conta que o carro dela estava na garagem. Claro, estava fechada. Nadaram mais um pouco até se sentirem leves e esfomeados. Começaram a combinar o que iriam preparar para o jantar quando chegassem à cozinha. No entanto, assim juntos naquele líquido tépido e ao abrigo do mau tempo que lá fora continuava, e que se ouvia ao longe, numa sensação de útero maternal, resistiram a sair da água. Ainda mais um pouco. Subiram a escada abraçados em direção à cozinha. Os seus olhos posaram na mochila ainda na entrada e sorriu relaxado. A estrutura da casa, ou algumas partes, tinha viajado durante muito tempo na sua cabeça. Mesmo antes de algum dia ter percebido que seria arquiteto. Mesmo antes de ser arquiteto, já o desenho de pormenores, considerados importantes tinham sido fixados. No entanto ela trouxe consigo não só o amor, mas também ideias, que agora estavam materializadas no betão e na decoração. A casa era a sua carapaça, a casca que tinham projetado e construído em torno da vida e que os protegia do mundo exterior. À medida que se deslocavam, em direção à cozinha, a iluminação ia-se adaptando de acordo com a programação, que o sistema central tinha recebido e que os múltiplos sensores transmitiam em contínuo. Por isso a entrada ficou mais clara para receber os dois filhos, que coincidentemente chegaram quase em simultâneo. Afinal jantariam os quatro.

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Os três níveis da moradia estavam desencontrados, pelo que na realidade não tinha a altura de três pisos, mas de dois. Os quartos ficavam por cima da piscina, o que aliás tinha colocado problemas de isolamento difíceis de resolver. A sala, a entrada e a cozinha, num corpo separado e em angulo de quarenta e cinco graus. Um conjunto de condutas técnicas concentrava a passagem de todas as tubagens, permitindo fácil acesso para a manutenção, de água, eletricidade e comunicações. Quando perceberam que não estavam atrasados, que o jantar ainda vinha a caminho no fio das decisões, os dois irmãos desceram e repetiram os passos dos pais, agitando a água com alegria e descontração. Exceto, talvez a roupa que simplesmente estaria atirada para o chão, na maneira tão própria da juventude, de qualquer década. Enquanto abriu o frigorífico e ela puxou dos tachos, percorreu o corpo dela descaradamente com os olhos, apreciando-o com satisfação e prazer. Apesar dos anos irem passando, não lhe ficavam mal. Aliás a curva dos quarenta tinha-lhe trazido um amadurecimento ao corpo que não se encontra nas jovens adultas, por muito que queiram, pois só o tempo traz essa sabedoria ao corpo. E isso despertava-lhe facilmente o fogo que a consumia e alimentava vezes amiúde. A camiseta ligeira e os pequenos calções, apanhados no armário da piscina, para usar em casa, revelavam, a ele, mais do que escondiam, todas as curvas por onde ele passeava, com deleite e paciência, como numa peregrinação sempre repetida, para a vida. Não colocara soutien, mas o peito mantinha-se firme e desafiava o fino algodão.

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Sem excessos nem hábitos agressivos também ele, aos olhos dela, fazia sombra a alguns jovens amigos da filha. Sem ser atlético ou dado a grande exercício físico, para além do que praticava com ela, com dedicação e paixão, mantinha-se atraente e apetitoso. Os primeiros fios brancos, ainda escassos e tímidos, quer na barba quer no cabelo, acentuavam-lhe o interesse. Ela não ignorava, mas desprezava com tranquilidade, que algumas das colegas de trabalho dele gostariam de o ter em cima delas. Uma ou outra nem se quer se dava ao trabalho de disfarçar a constante oferta ambulante que fazia para ser o prato principal dele. Pára quieto, disse-lhe ela enxotando a mão atrevida dele, que mais uma vez ao passar por ela nos afazeres da preparação do jantar, tinha aproveitado para lhe tocar a pele suave, com uma intensão clara. Os miúdos estão em casa! Ele não se importava com isso e aproveitava, sem deixar escapar ocasião. Quase nunca foram apanhados, ao contrário do que acontece a tantos outros casais, em movimentos de mãos mais íntimos, pelos filhos, quer quando eram crianças quer agora, que nunca se sabia bem quando chegavam. Isso não quer dizer escassez de contactos, bem pelo contrário. Era mais um jeito, uma arte para fintar a vigilância que os filhos sempre têm sobre os carinhos dos pais. Não se atrapalhou ou conteve e na ocasião seguinte ficou bem junto a ela e deliberadamente deixou os dedos vaguearem em direção ao cinto dos calções, depois procurou passagem e sentiu o seu pelo curto e ainda mal seco. Olhou para ela para a beijar e percebeu como a sua respiração tinha acelerado. Num tom muito doce disse-lhe “está quieto”, mas suou a “não pares”. O alarme do

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fogão avisou de súbito que o tacho precisava de mais atenção do que ela. Ela chegara a casa pouco antes dele. Ainda não chovia. O vestido vermelho ligeiro que trazia naquele fim de primavera tinha sido um engano num dia que se tinha tornado, depois de sair de casa, num inverno escuro. Tinha a pele arrepiada, por isso há dois quarteirões atrás que sabia bem o que ia fazer depois de enfiar o carro na garagem. Entrou em casa, subiu os seis degraus e entrou no quarto. A carteira e a pasta do computador, já tinham ficado para trás, no seu sítio, sempre que chegava. Despiu-se calmamente, apreciando o momento e o seu próprio corpo, enquanto acariciava a pele com gosto, fazendo-a aquecer um pouco. O espelho, amplo, integrando a composição da divisão, refletiu o deleite expresso no rosto enquanto a mão ia deslizando para território mais íntimos. Pegou na roupa e levou-a para a máquina. Desceu à piscina. Sim, tinha percorrido a casa nua, e isso agradava-lhe. Davalhe uma sensação de posse e ao mesmo tempo de aconchego e de intimidade. Nem sempre possível. Eram quatro em casa. Em qualquer ocasião do ano, a técnica de construção, os materiais e o extremo cuidado no desenho e na utilização das energias renováveis permitia manter o interior da casa na temperatura de conforto ideal. E isso despertava os sentidos. Que os dois compartilhavam cumplicemente.

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Provavelmente, na ausência dos pais, qualquer um dos filhos já teria tido ocasião de desfrutar desse despertar dos sentidos com um outro amigo ou amiga. O jantar estava pronto. Sentaram-se e foram comendo calmamente, colocando na mesa o dia de cada um e fazendo perspetivas sobre os dias que se aproximavam. Haviam no ar planos para o verão e ainda tarefas para concluir até lá. O sistema central, entretanto, tinha fechado os estores e adaptado a iluminação. A relva não tinha sido regada hoje pois os sensores haviam registado a chuva da tarde e a humidade e temperatura do ar, verificando não ser necessário. Em breve seria sábado. Um dos amigos da filha - o amigo? Nunca mais se decidia veio buscá-la, iriam à última sessão do dia. O filho saiu também direito a casa da Carolina. Era noite de grupo da escola. Já tinham passado dez anos e continuavam a encontrarem-se quase todas as semanas. Como tantas outras noites, tinham a casa e a intimidade só para eles. Que não seria desperdiçada. Nem a casa nem a intimidade.

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A epifania


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Todos os dias, no trabalho, tomo café com o Daniel. Um ou o outro, quase sempre em cima das 10, arranca em direção ao bar arrastando o outro, para lá de qualquer papel urgente. Ainda não recuperei do espanto. Ontem, atirou-me de repente, quando eu levava a chávena à boca. Por um muito breve instante quase que tomou banho de café. “Já sei porque é que os homens trocam as mulheres que amam, as mulheres da sua vida, por outras mais novas”. Apareceu-me à porta do meu gabinete fazendo-me ver que estava na hora, levantei-me e percorremos juntos o corredor e subimos um piso. O bar era ao fundo do corredor, do lado de trás do edifício. Estávamos os dois em mangas de camisa e gravata, como sempre durante a semana. Na verdade, isto era a continuação de uma conversa que ele havia já iniciado várias vezes, comigo sempre a fugir, por pudor ou por ingenuidade. Eu estava casado há tempo suficiente para os meus colegas acharem que eu sou um retrogrado, do tempo em que o casamento era até à marca fatal da morte. Porém não tinha e não tenho nenhum

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problema com a instituição, vivendo uma vida calma e sem sobressaltos, nem quando os filhos eram carentes de atenção constante, o que já não era o caso, nem agora que vivíamos o dia-adia previsível, de um amor calmo e sereno. Com altos e baixo e ainda fulgor para incendiar um monte de feno. Sim, há já algum tempo, talvez depois das férias de verão, de há dois anos, em que ele e a sua segunda mulher, ligeiramente mais nova que ele, haviam voltado das praias do sul. Uma mulher normal, com os seus traços de beleza, mas sem fazer capa de revista. Tinha tudo no sitio embora desse sinal de dificuldades crescentes de controlar o peso. Porém irrepreensível a vestir, não descuidando a maquilhagem e por vezes com umas peças mais insinuantes. As rachas, as minis e alguns decotes marcavam a sua passagem algumas vezes. A primeira não tinha resistido aos maus tratos de uma doença súbita. Na ocasião começou a explicar-me que não percebia porque é que alguns homens se davam ao trabalho de acabar com casamentos felizes, aparentemente, de uma ou duas décadas, em troca de uma rapariga nova, por vezes desenxabida ou mesmo um pãozinho sem sal, a quem tinham de ensinar tudo de novo, os seus gostos, manias e desejos e que os obrigava a aprender e aceitar um conjunto novo de hábitos, manias, tiques e cabeleireiros e, pior do que isso, amigos da idade delas. Ao ponto de alguns amigos acharem que era o pai. Durante o inverno, numa ocasião ou outra, voltou ao tema rematando sempre, antes de mudar de assunto, com “não percebo, mas não percebo mesmo. Se alguém me explicasse eu juro que tentava perceber”. Quase sempre nesta ocasião já fazíamos o caminho de regresso ou tínhamos parado a uma das nossas portas.

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Invariavelmente dava-me uma palmada no braço e afastávamo-nos. O trabalho esperava. No verão seguinte o assunto esmoreceu. Voltou quando o frio do inverno apertava de manhã, com o estacionamento ainda gelado, quando chegávamos. Os pés a enregelar, o nariz frio e as mãos com pouca vontade de sair das luvas, pelo menos até sair do elevador lá em cima. Eu próprio, algumas vezes, tinha exprimido argumentos semelhantes, sempre que o tédio de uma conversa de circunstância ameaçava soçobrar no meu bocejo, ou uma companhia enfadonha ou desagradável se perpetuava ou quando queria agitar uma plateia feminina ou masculina, se era necessário provocar controvérsia. Sim, o que leva um homem, com um casamento estável, feliz e longo cheio de cumplicidades e hábitos consolidados a embarcar numa nova vida, destruindo, por vezes a ferro e fogo, o que tem? O que leva um homem, à beira dos 50, a trocar uma mulher madura, conhecedora, experiente nas coisas da casa e da cama? Uma mulher com quem muitas vezes se viveu dias de luta para construir uma vida por uma quase da idade da sua filha, senão mais nova mesmo, em que a única vantagem será talvez a frescura da carne, mas com todo o peso da inexperiência de vida? Com gostos por definir, objetivos ainda pouco claros e a segurança tola de ter um homem. O certo é que todas as vezes que tinha lançado este tópico, ficara sem resposta. Homens e mulheres, amigos ou só conhecidos, em convívios ou encontros casuais, fugiam para estereótipos, do género: perdeu o juízo, onde queres chegar, falas assim porque não está aqui a tua mulher, ela conhece essa tua ideia? Ou esboçavam um

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sorriso amarelo, de quem não quer pensar no assunto e sempre com aquele olhar recriminador de: olha o sito em que estás. Isso é lá assunto. Bateste com a cabeça. Várias vezes, e não só no café da manhã no trabalho, o Daniel, que era meu colega desde os tempos do ensino secundário, incluindo a universidade e depois no trabalho, idêntico, tinha voltado ao assunto. Parecia não o largar, como se tivesse colado um lembrete amarelo dentro do cérebro. Como se tocasse uma campainha, de vez em quando. Ou poderia ser um problema maior, mais intimo. Conhecia bem o Daniel para lhe seguir o fio dos pensamentos, com alguma facilidade, mas ainda não tinha descortinado onde queria chegar. Encarei como uma mera dúvida existencial. Algo filosófico ou como a galinha e o ovo. Nessa altura, quando se aproxima a quinta década, ou foi dobrada há pouco tempo, os nossos amigos e conhecidos, começavam a aparecer com bronzeados elétricos, umas roupas que os filhos mais novos não desdenhariam e quase sempre com uma miúda pendurada no braço, que se não tivermos cuidado confundimos com aquela filha que tínhamos ido ver à maternidade uns anos antes. Já está. O Manuel mudou de clube. Sim divorciou-se desde a última vez que o vi e agora vai à faculdade buscar a namorada. Atenção para a próxima vez. Antes de abrires a boca, verifica se é a mesma. Ao longo destes dois anos, sempre que o Daniel abordava o tema preferido do princípio ou do fim do café, eu fui guardando notas

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mentais. Colecionando ideias, palpites e opiniões. Mas não passei daí. Não era preocupação minha. Era do Daniel. Homens maduros e mulheres jovens, combinação desde sempre da história da humanidade. O contrário não é tão visível, sendo que existe passando na sombra, ou ainda não entrou na lista das preocupações existenciais para chegar ao lugar de honra de assunto do café da manhã. Do nosso café. Lembras-te, disse ele, como a tua namorada e a minha namorada, não devam tréguas por um bom bocado de intimidade. O sexo quando não estava presente andava a rondar de perto, mesmo muito antes de primeira consumação. Mesmo que eu o desejasse muito, muito, como todos os rapazes aos vinte anos, era ela que se aventurava mais. Exigia uma mão mais atrevida, mais atividade. Não sejas tão envergonhado. Nesta parte da conversa já o Daniel entrava por intimidades da sua vida e afinal também da minha, que me encostavam ao balcão e à vergonha das coisas íntimas. Nesta ocasião alarmado virava constantemente a cabeça não fossemos apanhados por alguma colega que surgisse de repente. Depois, quando casámos, continuou ele, ela reclamava por duas ou três vezes na mesma noite, na mesma tarde, no mesmo dia, a propósito de alguma coisa, que eu a possuísse. E eu rabujava, ficava envergonhado por precisar de tempo para me recompor para a intervenção seguinte, que ela exigia quase imediatamente, por adormecer no fim, quando ela queria conversar para recomeçar. Cheguei a pensar que era insaciável, que tinha um problema, que eu era um desajeitado, que não a consolava, que não era homem suficiente para ela. Contava os minutos de cada ato. Foram assim os primeiros anos.

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Muitas vezes, neste ponto da conversa, estava na hora de retomar os papéis e a vida que nos pagava o ordenado. No dia seguinte ou havia outro assunto, ou o bar estava mais cheio e a conversava não continuava. Por uns tempos ficava interrompida por outros assuntos, que discutíamos com mais participação minha ou puxados por mim ou o trabalho impunha. Na verdade, este tema, que parecia ciclicamente afrontar o Daniel, retornava mais dia, menos dia. Uma ou outra ocasião despoletado por um vestido ou um decote ou aquela morena, que insistentemente, parecia fazer-se encontrar connosco. No bar, no corredor, uma ou outra vez entrando no último segundo no elevador. Lá veio o dia em que ele retomou a descrição que fazia dos primeiros tempos de casado, avançando agora para o período em que a Odete fora mãe duas vezes, com um intervalo de cinco ou seis anos. Talvez quatro, não consigo precisar. Lembrou como nessa altura, com os filhos pequenos, como as noites, por qualquer motivo, porque era verão e estava calor, porque era inverno e ela tinha frio, resultavam sempre em paixão ardente, até à última gota. Precisou que durante uma década tinham tido desejo e prazer coincidentes, nos momentos, na duração. Tal como de outras vezes, neste ponto, a conversa esteve uns tempos interrompida. Penso que terão sido as nossas férias. As minhas e as dele, desencontradas. Depois do verão, cheguei a pensar que o Daniel tinha enterrado o assunto. Que aquele machado de guerra tinha encontrado paz. Quem sabe se se tinha perdido em alguma onda mediterrânica.

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Não. Um dia o assunto voltou e ele retomou o ponto, a lógica da conversa como se tivesse sido ontem. Tive de fazer um esforço para encontrar o arquivo do meu cérebro que tinha o resumo. Folheio mentalmente ainda o café fumegava e tentei ficar a par, enquanto ele, distraído por duas belas colegas que passaram os seus atributos ao nosso alcance, demorou mais uns segundos a prosseguir. Sabes, disse ele, a entrada nos 40 foi estranha. Olhei para ele arqueando as sobrancelhas. Queria perceber, antes de abrir a boca, a qualidade daquele qualificativo. A Odete começou a enxotar, com mais frequência, os meus contactos durante a preparação do jantar, no duche, ao deitar. Tive um dia difícil, estou muito cansada, pára com isso, os miúdos podem aparecer de repente. Comecei a perceber que agora ela nem sempre estava “com disposição”. E o meu amigo, encolhido no seu apartamento, lá mais abaixo, começou a ter de ficar muito mais quieto. A ter de esperar autorização para se apresentar, hirto e firme e bem oleado. Não preciso de dizer que nesta fase da sua vida intima, já tinham ocorrido várias paragens no relato. Vários cafés e várias manhãs. Começou a parecer-me que eu estava afinal a participar numa novela e não num problema que o apoquentava. Prosseguiu. Dei por mim a sentir falta do corpo dela, de dar vazão aos meus ímpetos e gosto por atividade a dois, que tanto tínhamos feito. Passei a sonhar acordado com momentos que tínhamos vivido. Acariciava-a com os olhos e com receio da recusa. Olhei para ele e percebi como o seu semblante se havia alterado. Por escassos momentos aparentou a sua verdadeira idade, que teimava sempre em ficar escondida. Vi uma sombra no olhar, como se tivesse percebido que algo, irremediavelmente se tinha perdido na sua vida.

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Senti-me desconfortável, bati em retirada, sem saber como aguentar ou sair daquele momento, que representava uma tragédia que o meu amigo estava a viver. Dei-lhe uma palmada, com uma amizade sentida. Vamos, temos de voltar à papelada. Era sexta-feira, o dia passou a correr. Felizmente, penso quando no caminho para casa fui revendo o dia e apanhei esta parte da conversa a ser processada para arquivo futuro. Quando cheguei a casa percebi que tinha a consciência pesada. Faltei ou não ao meu amigo? Aquilo era um apelo? Tinha sido um pedido de ajuda, ou era ainda simplesmente um relato, analítico? Uma constatação neutra da evolução da vida? O que tinha começado como uma questão sociológica aproximava-se a velocidade crescente de um drama pessoal. Pelos menos assim me estava a parecer. Não foi o melhor dos fins de semana. Recorrentemente este pensamento voltou durante as refeições, ao ver um pouco de televisão, quando li o correio eletrónico e quando me deitei e afaguei com deleite o corpo da minha mulher. Até entre as garfadas do espaguete com carne e salada de tomate, no sábado ao jantar. Na segunda-feira o Daniel esteve ausente, em serviço no exterior. Tomei o café sozinho, no bar repleto, com umas frases de circunstância com um ou outro colega. Nem a morena nem os decotes passaram pelo bar, ou não dei conta disso. No dia seguinte, o sol resplandecia lá fora, justificando o uso em pleno do ar condicionado, vamos ao bar. Desta vez quase em traje de verão, para o local de trabalho. Camisa de manga curta com dois botões desabotoados e por fora das calças, agora claras.

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A conversa fluía sobre o fim de semana, sobre a lista de coisas para tratar esta semana, sobre o trabalho de ontem. Dois seios generosos num belo vestido amarelo justo quanto baste, a ponto de deixar o sol empalidecer, passaram ameaçando a cada movimento de avanço saltarem em nossa direção descontrolados e fugitivos da prisão que os seguravam. Não que fossem demasiado grandes. Foi quando o Daniel largou a bomba. Quando eu levava a chávena à boca. Por um muito breve instante quase que tomou banho de café. “Já sei porque é que os homens trocam as mulheres que amam, por outras mais novas”. Ao cabo de tanto tempo, de tantos cafés em conjunto. Depois de ter repetido vezes sem conta a famosa frase: “não percebo, mas não percebo mesmo. Se alguém me explicasse eu juro que tentava perceber”, o Daniel dizia que sabia o porquê, que sabia a resposta. Recompus-me da surpresa. Afinal sempre que me ia contando pormenores da sua vida familiar não era uma confissão, não era um pedido de auxílio. Era a sua dissertação, em fatias, ao ritmo dos cafés da manhã e das vicissitudes desses momentos, da sua preocupação de fundo. O Daniel tinha encontrado a resposta. Achava que tinha encontrado a resposta. Percebi que ali era impossível saber mais. Deixámos o bar e fomos andando devagar. As mulheres começam a vida, quando se tornam mulheres sexualmente ativas, com um apetite sexual voraz. Têm orgasmos uns atrás dos outros enquanto nós raramente conseguimos mais do que um, num momento absolutamente excecional.

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Quando casamos com elas fazemos figura de coitadinhos, que só damos uma de cada vez e precisamos de um intervalo, quase que eterno, para retomar a função, para retomar a penetração seguinte. Elas não, estão sempre prontas, vezes sem conta, durante os preliminares, antes dos preliminares, depois dos preliminares e até depois do ato ter terminado, contigo atirado para o lado. Conseguem sempre, se fizermos o nosso trabalho com competência. Continuou. Na verdade, isto é fogo-de-artifício. Enquanto nós seguimos a viagem da nossa vida em velocidade de cruzeiro. Sexo quanto baste, sempre que se proporciona, sem hora nem porquê. No nosso caso mesmo que engordem um pouco e os anos comecem a pesar basta uma roupa mais fina, os filhos fora de casa ou um tempo mais ameno e aí estamos prontos para tomar de assalto o nosso castelo. Mas elas vão perdendo velocidade, vão perdendo gás. Aquela vontade inicial vai desaparecendo. A primeira desculpa são os filhos, o pós-parto, as noites mal dormidas, a criança que chora. Hoje não, ainda não estou bem. Certo, sem problema. Vamos aguardar. A seguir há um período em que parece que as chamas voltaram às brasas. Tudo parece estar bem. O sexo retorna, como se não tivesse havido interregno. Parece que voltámos aos vinte. É o período em que ambos já dominamos a arte de saber esperar um pelo outro, ou no nosso caso de aguentarmos até elas terem explodido um número de vezes suficiente e começarem a pedir tréguas. Nesta altura estávamos no corredor, eu encostado à parede e ele dissertando, com gestos apaixonados, sublinhando as suas

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palavras e ilustrando a argumentação. Não te entusiasmes, fala mais baixo, senão ainda temos audiência, disse-lhe sorrateiro. Depois vem a época da desculpa “agora não, olha as crianças”, “estão quase a chegar”, “tens de ir buscá-las”. Ou “não faças barulho, temos de perceber quando chegam a casa” e o terrível “tive um dia desgraçado, pára com isso, não pensas noutra coisa”. Nesta altura os anos estão a passar mais depressa do que tu querias. Começas a ter medo de não ter tempo para gastares toda a tua vontade. Começas a ter medo que as tuas próprias pilhas afinal fraquejem, coisa que achas que não vai acontecer, mas que te apavora. Apareceu o diretor no corredor e com uma palmadinha gentil deu a entender que o intervalo já estava demasiado prolongado. Acompanhou-nos aos respetivos gabinetes. Relembrou a reunião da tarde e frisou a necessidade de não haver documentos pendentes. Assim que pude, com um molho de papéis de um projeto na mão aí vou para o gabinete do Daniel. Acaba de vez o raciocínio, disse ao atravessar a porta. Sentei-me. Ao longo de todo o tempo que esta conversa, ou melhor, este assunto ia e vinha, como um transatlântico entre Londres e Nova Iorque, foi a primeira vez que me consegui sentar. No bar era impossível, pois não há cadeiras, só mesas altas para encostar o braço e colocar a chávena. Um dia, numa das retas da vida, quando apreciamos a viagem e admiramos a paisagem, damos conta, depois de uma lomba, que entrámos num troço de curvas e contracurvas e de repente acende-se a luz da menopausa, ou da pré menopausa, ou seja, lá o que for, retomou ele o fio da meada, como se não tivesse havido qualquer paragem.

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Quando menos esperas ela começa a queixar-se de dificuldades, de secura, de problemas de lubrificação. Ou está calor ou está frio. já nem se refere ao apetite ou à dor de cabeça. Agora é radical. Tens a certeza. A festa desapareceu. Os preliminares, já nem te lembras o que são. Percorrer os seios com a mão e a língua e ver aquela fabulosa constelação de pontos eretos em torno do mamilo foi totalmente banido. Usar os dedos e tentar percorrer o caminho desbravando, como na juventude, o interior quente e então húmido do seu centro, antecipando uma penetração lenta e saborosa tornase numa mera recordação numa página amarelecida pelo tempo. Passa a ser: vem cá, não queres agora? E cinco minutos depois já ela te diz: falta muito, já não aguento mais. Vamos lá acabar com isto. Porra, andaste anos a treinar, a contar bolas, a olhar o teto em busca de micróbios, a contar cubos de gelo para serem os dois ao mesmo tempo, para ela gozar mais uma vez e outra, antes do teu fósforo se gastar e agora ela pergunta se demoras? A vida torna-se injusta. E agora? Achas que tens a vida pela frente, ainda, e acabaste de te tornar monge no Tibete. Gelo por todo o lado. Ficas encolhido no teu canto. O que fazer? Como a cativar? Lá vem água fria? Quando será a próxima vez? Será menos rápida? Exagero nos preliminares para ficar bem oleada ou adormece antes de chegar a entrar? Na rua e no trabalho, porém, a vida continua. Todos os dias passas na rua e nas lojas e no café por elas. Umas novas e outras mais velhas. Durante o dia convives e trabalhas com as tuas colegas. Bem arranjadas ou sem espalhafato. Mulheres. Os teus olhos não conseguem evitar de ver e de apreciar, como sempre fizeste. O tamanho da saia, a curva da perna, aqueles centímetros do decote,

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um soutien que é bem visível debaixo da blusa. O novo penteado da Filomena, o peito da Rita, que teima em ter frio de verão e de inverno, o Gabriel que se atira descaradamente a todas como se fosse o único macho em todo o edifício. O Daniel falava agora devagar, calmamente, como se estivesse sozinho. O telemóvel tocou no meu bolso e eu ignorei-o, simplesmente. Não iria fazer como na sexta-feira. Desta vez não bati em retirada. Estava pronto para a conclusão a que ele iria chegar a qualquer momento.

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Se olhares vĂŞs


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Não sei bem como aconteceu, recordo apenas que estava na sala de reuniões, perto da coluna, com um copo distraído na mão, quando senti o olhar dele bajulando o meu peito e entrando descaradamente pelo decote. Eu tinha um vestido justo, elegante numa cor discreta de verão. A meia manga e a pequena gola não deixavam muita pele destapada. Olhei com força para ele, mas nem reparou. Estava bem entretido a desfazer os pormenores. Os seus olhos pareciam duas crianças a brincar à bola na rua. No primeiro momento fiquei furiosa. Estive a escassas décimas de segundo para lhe ir dizer para se afogar nas da mãe dele. Senti-o a tentar usar a visão raio x do super-homem para ver através do tecido. Percebi que ele se esforçava por adivinhar se eu tinha mais alguma peça por baixo do vestido. Indagava se o busto estava ou não ao natural. Era um rapaz bonito, elegante na descontração de uma roupa informal. Tínhamos pouca diferença de idade.

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Dei por mim a aquecer ligeiramente e percebi que agora os mamilos tinham resolvido soltar-se e preparavam-se para se exibirem pujantes. Raios. Estavam a querer entrar na festa. Era sexta-feira à tarde, mas não como as outras. Era aquela sexta em que vamos trabalhar menos formais. Roupa ainda mais ligeira que o habitual. Às cinco horas havia mensalmente aquele convívio. Afinal, acalmei e deixei que ele aprofundasse o estudo, aproveitei a Clarisse passar e enquanto lhe dei duas palavrinhas mostrei a ele outro angulo. O ombro, um pouco das costas e das nádegas, bem torneadas e, claro, o perfil do meu peito. Suponho que a contraluz daquele lado da sala com a cor do vestido o tenha deixado com as brasas mais ateadas. A ideia da administração era desanuviar os laços de tensão laboral que o ritmo frenético da semana, das semanas, imponha e fortalecer as ligações de camaradagem que permitem uma partilha de ideias e sugestões mais fluída, sem guerras nem invejas. Terceira sexta-feira de cada mês. Apesar de não haver um código de vestuário e das relações entre todos os colegas serem sempre muito informais, na realidade o contacto com os clientes levava a que, no dia-a-dia, quer os homens quer as mulheres do departamento não descorassem um informal mais cuidado. Para esta sexta feira tinha largado o habitual conjunto saia casaco com a blusa vaporosa mais comedida no que mostrava e não arrisquei o tal vestido que algumas vezes usava para fazer parar o trânsito nas saídas com os amigos.

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Ele não trazia o fato e gravata rotineiros e por isso apresentava um polo, de marca, com os botões abertos e umas calças claras. Deixavam ver um peito escassamente bronzeado, quase pálido, mas levemente peludo. Não um homem alcatifa, mas longe dos depilados da moda. A visão era agradável. Parecia ter tudo no sítio. Ainda. Quando se virou ligeiramente, porque meteram conversa com ele, não só deu descanso ao meu corpo como o pude apreciar. Bem constituído, nem esquelético nem gordo e aparentemente nada de fanatismos de ginásio. As nádegas pareciam irrepreensíveis dentro das calças. Preparava-me para ser eu agora a despi-lo minuciosamente quando a conversa dele acabou e virou-se de novo para o lado da sala em que eu estava. Bolas. O convívio de hoje estava a ser particularmente aborrecido. Ou o calor ou a falta de uma conversa interessante deixou-me tempo para observar os presentes. Os olhos tinham vagueado pela sala sem poisar em ninguém em particular, até aquele momento. Quando dei com o olhar descarado, guloso e tateante dele. Não fui apanhada na minha tarefa, a que tentava dedicar-me, de ser eu a observá-lo porque nesse instante o meu chefe atravessou o seu campo de visão direito a mim. O Alfredo, como todos os chefes, sem assédio, fazia questão não só de aprovar, diariamente, deleitado, o meu vestuário, como simular que mantinha um fraquinho. Fazia questão de me olhar com minucia e alguma desfaçatez, por vezes. Quem é que não gosta? No entanto eu sabia que ele dedicava essa atenção a todas e não apenas às mulheres do seu departamento.

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Para além do tempo em que estávamos a trabalhar no mesmo departamento já fôramos colegas, primeiro na escola e depois na universidade, em percurso umas vezes coincidente e outras vezes paralelo. Por isso aquele interesse dele, tão atento, em tirar medidas e analisar o meu corpo, com tanto afinco, foi para mim uma novidade. Estávamos dezenas de vezes por dia e por semana em contacto próximo e nunca passara de um colega e amigo. Trabalho e projetos comuns. A mesma equipa algumas vezes, outras em grupo de trabalho diferente ou mesmo em projetos concorrentes, tentando ficar com o cliente primeiro. Senti-me a aquecer por dentro e a humidade a subir. E não era por causa do ar condicionado. Aquela atenção estava a mexer no meu ego. O convívio aproxima-se velozmente do fim. Havia já suspiros no ar de alívio que alguns iam atirando em direção ao fim de semana. Uns quantos deitavam olhares furtivos à porta, verificando se ela estava no mesmo sítio. Afinal a semana estava mesmo no fim e todos queriam ver os colegas pelas costas. Havia vida lá fora. Havia outra vida. Todos menos o Manuel. Parecia que tinha casado com o trabalho. Era dependente das pilhas de documentos e assuntos que o seu computador encerrava. Nunca chegava tarde e quase sempre a mulher da limpeza tinha que o expulsar. Nenhum de nós lhe conhecia companhia e ele nunca tinha feito a menor referencia à família. Suponho que em todas as empresas haja um Manuel.

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Quase toda a gente tinha saído. Restavam os diretores de departamento muito entusiasmados, quem sabe, com trabalho, o Manuel, ele, eu e a Clarisse que tinha vindo retomar a conversa anterior e o grupo de trabalho da Beatriz, que pareciam estar a fazer uma reunião e não a descontraírem. Sem que me tivesse apercebido, depois da Clarisse se ter despedido e de procurar um lugar para abandonar à sua sorte o meu terceiro copo. Onde terão ficado os outros? Ouvi um ligeiro sussurro bem perto de mim e, antes de me voltar já o perfume da Carolina Herrera para homem tinha-me aprisionado fazendo os meus sentidos entorpecerem. O que vais fazer esta noite? Tens planos? Disse-o com um sorriso franco, aberto e gaiato, quase inocente. Procurei ganhar tempo. Primeiro passei a língua pelos lábios, discretamente, para os humedecer. Esperando que ficassem mais brilhantes. Depois fiz um sorriso tolo, quase um esgar e disse-lhe: desculpa, não percebi. Está muito barulho. Passei a mão pelo rabo dando um jeito à saia. Era impossível verificar agora o decote. Deveria estar bem. Ele repetiu, com paciência, e de novo inundou-me com o sorriso. Bem agora tenho de responder, pensei. Suponho que corei ligeiramente. Lá fora estava uma radiosa tarde de princípio de verão. Quando cheguei à rua fui acariciada por uma onda de calor, muito agradável. Ao emergir do estacionamento os vidros do carro vinham abertos e por isso aquela receção da rua. Pelo retrovisor vi que durante dois quarteirões o carro dele vinha atrás do meu. Depois virou à esquerda e eu segui em frente, em direção ao por do sol. Mais um pouco e estaria em Pedralbes.

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O telemóvel tocou e pude ver no ecrã do automóvel que era a Clarisse. Atendi. Houve lá, o que foi aquilo, esta tarde, disparou à queima-roupa. Engraçado, o fio dos meus pensamentos estava precisamente a tentar recompor-se desde que cheguei à rua. Como sempre a Clarisse acertava nos momentos de concentração. Depois de sairmos da sala percorremos o corredor até ao elevador que dava acesso às caves. Ele procurou manter uma conversa neutra e casual, entre o trivial e o trabalho, mas não dava para disfarçar que algo se estava a passar. Tinha acabado de me convidar. Tinha rompido uma barreira. Depois de durante um bom bocado da tarde ter desfrutado do meu corpo, ainda que fosse apenas com a imaginação e os olhos. Nessa altura ainda não tinha percebido se ele dera conta que eu tinha sentido o peso do seu olhar na minha pele, ou se tinha estado tão absorto que nem notara que eu o tinha apanhado. Um adeus à francesa tinha servido bem para nós os dois nos livrarmos depressa do grupinho dos diretores, que nesta semana pareciam particularmente colados ao chão, sem pressa de saírem. Bom fim de semana, dissemos quase em uníssono, com um ligeiro acenar de mãos. A Clarisse já tinha saído há uns instantes quando ele, levemente, pegou no meu cotovelo e disse: “Vamos?” Não esperando a confirmação arrancou, arrastando-me com suavidade decidida. Não sei, não percebi. Nunca esperei aquilo dele, respondi à Clarisse enquanto controlava o trânsito e parava em mais um semáforo vermelho. Tu és uma parva. Então, vais ficar embasbacada, de copo na mão, enquanto ele te media os centímetros todos. Até

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deve ter descoberto o número dos teus sapatos. Ainda não tinhas dado conta? Disse ela com enfase. Atrás, o cavalheiro buzinou gentilmente acordando-me para o verde que me convidava a avançar. Cheguei a casa, com o cérebro em piloto automático. Um quarteirão atrás tinha acabado a conversa com a Clarisse e passado rapidamente em revista o que faria ao chegar a casa para não me atrasar. Depois de ter largado o carro na garagem e esperado uma eternidade pelo elevador, abri a porta eletrónica com a chave ainda dentro da carteira e descalcei-me. Os sapatos não eram demasiado altos, mas a sua elegância era cansativa, ao fim de um dia de trabalho e, neste caso, de convívio profissional, quase sempre em pé. Depois de abandonar a carteira e o computador no seu canto habitual deslizei para o quarto. Despi-me com calma e desfrutando o momento de intimidade. O corpo, ligeiramente suado do calor da rua e se calhar do olhar de técnico de inspeções do Eduardo, pedia uma caricia suave e por isso percorri-o com satisfação e deleite numa intimidade crescente, à medida que fui tirando as peças de roupa. Olhei para o espelho e gostei. Estava tudo no sítio, como devia. Não sendo uma fanática procurava ter algum cuidado diário para retardar o mais possível a fatura da idade e a maldição da gravidade. Tínhamos combinado um jantar informal numa esplanada, depois de lhe ter respondido, primeiro com uma evasiva delicada e quase formal, para não assustar e depois, com o melhor sorriso dizendo” parece interessante e tentador”, quando ele tentou delinear um plano de ação convincente para essa noite.

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A água do chuveiro, mais que morna caiu em cima da pele e o deslizar do sabonete começou a pregar partidas no meu raciocínio. No vidro embaciado começou a passar um filme que a minha cabeça projetava. Bem contra o meu hábito era demasiado cor-de-rosa e pouco abonatório da emancipação feminina, mesmo não sendo militante de queimar soutiens em manifestações, mantinha uma convicção de igualdade de tratamento e de oportunidades. O tempo correu casa de banho fora, a toda a pressa, e quando olhei para o relógio por entre a neblina percebi que ou me despachava ou ficava irremediavelmente atrasada. A campainha tocou no momento em que tinha acabado de dar o último jeito ao cabelo. Depois de sair da casa de banho procurei com alguma rapidez o que vestir. Se fosse uma rapariga sensata teria usado o tempo do duche para pensar na indumentária que envergaria, mas não. Estive com devaneios sexuais mais ou menos românticos enquanto percorria as curvas do corpo com intenção e interesse. Abri a porta depois de respirar fundo e de ter dado uma mirada ao espelho, pelo canto do olho. Nada mau embora um pouquinho ruborizada a mais. Havia várias semanas que não tinha nenhum compromisso à noite, sobretudo numa sexta-feira. Por isso a ligeira hesitação e um pouco de espanto quando ele me sussurrou iniciando o convite. No patamar estava um enorme ramo de rosas de um vermelho paixão deslumbrante e um par de olhos sorridentes e meio tímidos. Olá, cheguei a horas? Perguntou afastando um pouco as flores, o que deu para ver que estava um pouco corado. As silabas

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tinham saído com uma cadência de hesitação quase impercetível, mas os ouvidos de uma mulher não deixam escapar essas subtilezas. Puxei-o pela mão e dizendo “entra”. Quando a porta se fechou ele balbuciou um “são para ti”. Depositei-lhe em troca um beijo demorado na face e outra vez fui invadida pelo seu perfume, enquanto pegava no ramo fui em direção à cozinha para pegar numa jarra. Vem, convidei. A noite estava muito agradável. A esplanada começou a encher enquanto no seu vaivém rotineiro e discreto o empregado nos ia servindo, após ter ouvido os nossos pedidos. A comida ligeira, mas cuidada estava de harmonia com o ambiente. O vinho leve e muito fresco convidava à descontração. Bem precisávamos. Estávamos visivelmente tensos ou embaraçados. Ao fim de tantos anos era a primeira vez que estávamos sozinhos os dois, longe do ambiente protetor e formal do trabalho. Agora estávamos entregues a nós, como que despidos daquela carapaça, em que as conversas se resumem ao trabalho, ao estado do tempo e a um pouco de coscuvilhice, mais ou menos inocente. Desde a tarde era a primeira vez que tomava consciência da situação. Era um encontro. Homem mulher, mulher homem. Nada de trabalho, nada de projetos, nada de chefes, nada de amigos. Apenas nós os dois, um copo de vinho fresco, comida e o cérebro a trabalhar desordenadamente com o coração a bombear desenfreadamente sangue pelo circuito fazendo-o a uma velocidade incrível. Ele tinha trocado de polo e por isso mantinha um ar gaiato e informal. Quando abri a porta reparei, depois das flores, numas calças um tom ligeiramente mais escuro e os pés abrigados por umas sandálias, que nunca lhe tinha visto. Aliás sempre o vira de sapatos.

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Sapatos de vela ou sapatos luva, mas sempre sapatos. Havia, afinal um outro Eduardo que nunca tinha visto. Ou nunca tinha reparado. Quando pousei a jarra na mesa da sala ele não se conteve e deu-me um abraço tímido. Registei. Sem espanto e sem sinal de alarme. Puxava pela cabeça para conseguir trazer para a conversa, de forma natural, tanto quanto possível aquele convite, ao fim de tantos anos de rotinas diárias. Ele, pelo seu lado, tentava manter uma conversa interessante na margem delicada entre o trabalho e a vida pessoal. Falávamos sobre como estava cuidado o jardim em torno da esplanada, como o local era simultaneamente elegante e despretensioso. E lá veio o tempo. Do dia e dos próximos dias e como a noite estava agradável. Neste ponto da conversa os olhos escaparam-lhe para dentro do meu decote, num pequeno momento, que terá sido o mais natural e espontâneo da noite. Por breves instantes acariciou-me os seios com delicadeza e deleite e com sobressalto percebeu que nos tínhamos calado os dois. Ele porque se tinha entretido em volta dos meus mamilos, que resolveram tornarse duros e salientes, sem eu os controlar, e eu porque o olhava fixamente, para dentro dos olhos, para tentar perceber a qualidade daquele olhar. Corou, de forma nada discreta, que eu não mencionei e pigarreou, tentando ganhar tempo e procurando apagar o silêncio, algo constrangedor provocado por aquela intimidade. Foi agradável sentir-me tocada pelos olhos dele. Se não tivesse sido tão natural, espontâneo querido, teria sido um desastre. Outros, por menos ficaram sozinhos; à mesa.

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Quando lhe abrira a porta ele pode ver o meu vestido curto e vaporoso, com um decote muito generoso e duas alças muito finas, que com dificuldade cumpriam a missão. O corpete era justo e elegante e a saia muito rodada, mas curta. Se não o tenho puxado para dentro ainda estaria agora no patamar. Parecia que me via pela primeira vez ou que me tinha esquecido de colocar a roupa. Na verdade, no trabalho eu procurava manter uma elegância pouco exibicionista, ou seja, feminina sem produzir paragens de trânsito nos corredores nem embaraços nas reuniões. Na escola e na faculdade as roupas, nessa ocasião eram sobretudo práticas. Portanto, se calhar era mesmo uma das poucas vezes que ela via a fêmea na colega de trabalho e de estudo. Quase que começámos as frases ao mesmo tempo, mas a minha ficou mais audível: “hoje à tarde…” e parei. “Espero que não…” estava ele a iniciar. Era chegada a sobremesa e ambos percebemos que não havia como fugir, de pôr por palavras ditas, o motivo daquele convite, a intenção daquele jantar e, pela minha parte, aquela inspeção durante a tarde. Só ainda não sabia como lá chegar. Por isso, como dama, deixei que ele se afundasse em explicações e preparei-me para a introdução longa, antes do concreto. A Fernanda foi a uma reunião de trabalho a Brasília, com o chefe dela e uns colegas, por cinco dias e não voltou. Recebi os papéis do divórcio assinados duas semanas depois. Não voltou a falar-me. Já lá vão nove meses. Disse de um folego só e sem desviar os olhos dos meus. Pára tudo! Fernanda? Divórcio? Onde é que eu estive? O Eduardo era um pacato colega de trabalho, calmo, discreto e sem

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vida, que não fosse projeto atrás de projeto. Pelo menos era o que achávamos no meu departamento. Algumas de nós passeavam os atributos descaradamente à sua frente, recebiam uns piropos gentis e oportunos e em algumas tardes, antes de irmos para casa, bebíamos uma cerveja com ele e outros. Nunca o Eduardo tinha tido parelha em casa. Por uma vez ou outra até tinha havido insinuações no bar quanto às suas preferências. Para mim ele era um colega de longa data, simpático, amável e trabalhador. Giro e apetitoso também, mas não exuberante. Até hoje o nosso relacionamento tinha sido assexuado. Sem género. Sem feromonas. Há uns tempos, numa reunião de trabalho, depois de ter conseguido estripar a dor da partida dela e de ter começado a saborear as noites tranquilas em casa e o controle do meu tempo e do meu espaço, fui atingindo gravemente. Num instante entre duas explicações tuas e uma pergunta do Manuel, sobre um detalhe qualquer das ideias que apresentavas. Desceste do olimpo radiante e com uma tocha incendiaste o meu coração. A reunião despareceu e tu encheste todo o espaço. O projeto desapareceu, o cliente foi às urtigas. Tinhas nesse dia um vestido branco de alças de apertar atrás do pescoço, com um decote muito fundo, mas tão estreito que dificilmente deixava ver dois centímetros e que rematado com um cinto dourado se prolongava plissado até um pouco acima do joelho. Parecias diana a descer do olimpo para apresentar o powerpoint. Primeiro comecei por tentar ignorar, depois por achar que era um perfeito disparate. Nas semanas seguintes evitei-te, troquei a hora do café, para não me cruzar contigo e a troca de equipa de trabalho veio a calhar. Porém, aquela velha ferida de guerra, dos tempos de escola, quando as miúdas não olham para os rapazes da

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mesma idade, estava de novo aberta, sangrava a jorros. E eu fiquei sem saber o que fazer. Passei a ter dificuldade em comer e sobretudo em ficar quieto na cama e dormir. Olhei para ele com atenção. A colher distraída na sua mão, a meio caminho entre a taça e a boca. Boca bonita, bem desenhada, articulando as palavras com calma e determinação. Não estava descontraído, mas também não estava crispado. Mas percebi que estava calmo, limpando a alma. Sendo honesto comigo, sendo honesto com ele. Estava resolvido. Sabia que passos queria dar. Passei a olhar para ti com mais atenção. Todas as manhãs era um desafio imaginar o que trarias vestido antes de te ver. Não sei se percebeste, mas passámos a cruzar-nos com mais frequência no estacionamento e a subir mais vezes no elevador. Aqueles segundos a escassos centímetros de ti eram uma bênção, permitindo cheirar o aroma da tua pele e vê-la respirar. Procurei no meu arquivo mental do trabalho o período que ele descrevia para encontrar algo de diferente da minha rotina tão bem arrumada. Uma ponta de fora num ficheiro ou numa pasta. Nada, foi discreto ao ponto de ser invisível nas minhas memórias desses dias. As suas mãos bem torneadas, com umas unhas masculinas curtas, mas elegantes, pareciam indicadas para me afagarem a pele. Tentei, enquanto ele falava e eu mantinha os conectores da conversa ativos, tentei calcular se estavam quentes, se estavam suadas. Comecei a imaginar o peso delas sobre a minha pele, a pressão sobre os meus vasos sanguíneos, que estavam a aquecer demasiado depressa. Bebi um pouco do copo, na esperança de controlar a

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situação. Não resultou, dentro do copo vi os seus dedos a procurarem o bordo das minhas cuequinhas em direção aos meus lábios. Percebi, continuava ele, que não sabia nada de ti. Colegas há tantos anos e nada. Casada? filhos? Mora longe ou perto? Quais as rotinas fora do trabalho, sem ser aquela cerveja de quando em quando? Será que ela sabe que eu existo? Lembra-se da escola? Da universidade? De como corava quando ela me dizia olá? Caramba, o que este rapaz tem na memória. Teve tempo de rever toda a história. Será que ele se lembra das nossas notas? Será que ele percebeu como eu me esforçava para ficar à sua frente nos resultados das provas? E as pequenas pedrinhas que, uma a uma, todos dias deixava dentro da sua pasta, será que algum dia desconfiou? Aos poucos fiquei a saber que o trabalho estava em primeiro lugar, que a tua vida fora do departamento era tão privada que ninguém, nem a Clarisse, quando a abordei discretamente no bar, por várias vezes, me avançou nada de significativo. Nem a tua cor preferida ela quis arriscar partilhar. Foste mesmo discreto. A Clarisse nunca me disse que a tinhas sondado. Nem deu conta da tua investigação. Olhei em volta, a esplanada começava agora a estar mais vazia. A pressão da hora de jantar, mesmo a mais tardia, já tinha passado. Mais um pouco e os empregados teriam vagar suficiente, se não fossem educados, para ouvir a nossa conversa. Vamos caminhar um pouco, disse. Pagámos a conta e descemos a rua, atravessámos o jardim.

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No momento de atravessar de um passeio para o outro e evitar o trânsito, dei conta de uma breve hesitação dele, tentou apanhar a minha mão, afastou-se ligeiramente e regressou. Como quem não quer a coisa enfiou fraternalmente o braço no meu, na passagem do alcatrão para o empedrado. Menos romântico que dar a mão, menos explícito na intenção, no entanto as nossas peles estavam juntas. Por um breve momento o meu coração deixou de bater. Bolas, que se passa? Ao longo do pequeno jardim que compunha a zona central da rua, que íamos descendo lentamente, havia gente sentada nas cadeiras e nos bancos públicos, mas também muitos que, como nós caminhavam calmamente para baixo e para cima. Comigo, a situação foi parecida, mas diferente da tua, disselhe, após um ligeiro silêncio momentâneo. O Filipe era um repórter independente, a trabalhar para várias editoras ao mesmo tempo, ao sabor dos tópicos dos seus relatos, umas vezes mais turísticos e outras vezes mais científicos. Conhecemo-nos, por acaso numa das minhas deslocações a Roma. A empatia foi imediata e daí até termos passado a viver juntos foi um fósforo. Sempre que ele estava em casa a vida mantinha-se calma, quase tão calma, como durante as suas ausências. Lá ao fundo, no topo da avenida já se via o reflexo prata da lua sobre as águas escuras a esta hora, ao contrário do azul transparente do dia, por entre as ramadas das copas frondosas das árvores. Duas semanas antes do Natal passado saímos para comprar um pinheiro. A meio do caminho disse-me “sabes, tenho andado a pensar, preciso de um tempo para mim. Comprei bilhete para

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Varanasi, para segunda-feira”. Fiquei pregada no chão. Nada fazia supor essa sua necessidade de se encontrar. “Está bem” disse com naturalidade “como tu queiras”. Foi a vez do Eduardo ficar preso no passeio. Como não parei imediatamente, movida pela força das palavras, virei-me de repente para trás e ele mantinha ainda a mesma cara de espanto. Pedimos um granizado para cada um e bebericamos sentados a olhar o mar através do porto. A noite estava agradável, tinha a pele quente, mas quando ele passou mão pela região entre a coluna e a nuca estremeci um pouco. Olhei-o nos olhos e ele, timidamente baixou-os tirando a mão. Antes que ele tentasse dar alguma desculpa tola, disse-lhe “foi agradável, a tua mão é suave. Senti-me refrescada”. Parou o carro junto à entrada do prédio. Saiu, cavalheiro para a abrir a porta do meu lado e pegou-me na mão. Como estava a olhar para mim certamente não reparou que a saia do vestido se tinha portado mal deixando ver mais do que devia. Em compensação os olhos não evitaram o decote e ficaram presos. Desta vez em êxtase contemplativo. O fim de semana foi calmo. Aproveitei para pôr a leitura em dia, rever uma apresentação para segunda-feira e arrumar a casa. Aproveitei o sol na varanda, tanto quanto pude. Sem roupa, para não deixar marcas deselegantes, para os decotes e o que mais pudesse acontecer. Perguntei-lhe se queria subir, por delicadeza, mas ele recusou. Ou por timidez ou por não se querer precipitar ou porque simplesmente eu tinha mal disfarçado um bocejo depois do granizado.

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Na segunda-feira quando cheguei ao estacionamento, pouco antes das oito e trinta vi os faróis do carro dele a apagarem-se, duas filas à frente. Significava que subiríamos juntos. Bom dia disse-me. Respondi com um sorriso franco e alegre e o coração a saltar pela boca. O resto do dia foi normal. Nada denunciava que tínhamos saído. As duas semanas seguintes foram de desencontros. Reuniões, projeto diferente, sessões de trabalho inesperadas. Finalmente na quinta-feira, ele apanhou-me no bar, na hora do café. Depois de me ter deixado à porta, subi e entrei em casa. Desta vez atirei as sandálias e fui desapertando o fecho do vestido, tirei as alças e ao entrar no quarto já estava quase despida. Tirei o soutien, passei calmamente a mão pelos seios e tirei as cuecas. Olhei para o espelho, estreito e alto até ao teto, e vi-me ao natural e senti o corpo quente. Quente de dentro para fora. Quente e voluptuoso. Fui tomar duche. Nessa noite dormi mal. Senti a falta dele. Acordei algumas vezes sentindo aquele toque suave, inesperado e tão breve perto da nuca. No bar ele disse-me de uma vez só, como se tivesse medo de não ter tempo de acabar a frase. “Quero sair contigo amanhã. Não paro de pensar em ti. Quase não dormi e quase não comi esta semana. Bolas para o projeto. Não vais dizer que não? Não tens compromisso? A Clarisse disse-me ontem que não está cá este fim de semana…” O fato azul quase escuro e a camisa creme assentavam-lhe como a pele. Não que fossem justos, mas elegantes. A gravata estava ligeiramente de lado, coisa nada habitual nele. Com naturalidade dei-

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lhe um jeito, ainda antes de responder e ele ficou com as faces ligeiramente, muito ligeiramente, com mais cor. Vamos à mesma esplanada ou variamos? Foi a minha reposta indireta e pude ver um sorriso limpo e franco seguido de um suspiro de alívio. A quinta-feira demorou a passar e a sexta só não foi interminável porque o Alfredo convocou uma reunião para distribuir as equipas para o projeto que começaria na segunda-feira. Com a natural rotação de elementos, de acordo com as caraterísticas dos trabalhos e a especialidade de cada técnico, O Eduardo e eu fomos designados para a mesma. Seria uma inversão interessante relativamente ao que sucedera depois do primeiro encontro. O que proporcionaria a cada um? Nesta sexta-feira o Eduardo saiu à minha frente do estacionamento e pude comtemplar os seus olhos no espelho retrovisor enquanto ele controlava o trânsito que escorria avenida abaixo como uma enchente súbita. Eram cor de mel quase escuros, mas alegres e humorados. Irrequietos e, afinal, atrevidos comigo. Quando a campainha tocou dei um jeito à blusa e verifiquei quantos botões estavam fechados. O último olhar ao reflexo que o espelho apresentava disse-me que estava tudo certo. Abri a porta e fui outra vez ovacionada com um enorme ramo. Desta vez as rosas eram cor de chá e o polo dele vermelho sangue escuro, como as rosas do outro dia. Contraste e efeito excelente no patamar. Ao contrário do que seria normal foi ele que disse: “vais ficar aí?” É melhor eu entrar, se calhar preferes calçar-te. Sim, era verdade. Tão pronta que estava e faltavam os sapatos. Bem desta vez tinha a oportunidade de combinar melhor com ele. Usaria algo mais simples, afinal tal como a roupa que tinha escolhido. Blusa vaporosa e saia

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descontraída e muito rodada um pouco acima do joelho, mas com uma abertura generosa quase de lado. Até nos tons tínhamos acertado, sem combinar. Conversámos, primeiro sobre trabalho, das quase duas semanas de desencontros, enquanto as bebidas e a comida foram servidas. Depois, caminhou lentamente para o lado mais pessoal. Tentámos parecer naturais, cada um à vez, quando timidamente fomos avançando para dizer o que sabíamos intimamente. Ou seja, como cada um tinha sentido a falta do outro. Estranho e engraçado ao mesmo tempo, como de repente, como se duas rodas dentadas tivessem encaixado ao fim de uma longa rotação, duas pessoas começavam a sentir falta uma da outra. Vivêramos tanto tempo, tantas horas no mesmo local de trabalho e isso não tinha existido. E agora, uns olhares depois, dois jantares e uma amizade antiga ganhava novos contornos. Novas formas e um impulso que nenhum ousava, ainda, reconhecer, materializar, verbalizar. A noite estava outra vez muito agradável e por isso decidíramos, no elevador, não ir de carro. Seria outra esplanada e o caminho a pé seria uma variante interessante. Nada de ganhar rotinas, antes que os empregados se dessem por íntimos. Estaríamos mais próximos um do outro. Não haveria trânsito a desviar a atenção. Desta vez escolhemos comida de verão. Salada mediterrânica, um vinho suave e discreto, mas muito fresco e café. Nada de doces. Preciso de me manter apetitosa. Nenhuns segundos de prazer gustativo têm de ser suportados nas ancas por tempos infindos. Olhou-me nos olhos, antes do café, quando a mesa estava mais livre, e colocou a sua mão sobre a minha que tinha acabado de

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poisar o guardanapo com as marcas do batom para dentro. Não disse palavra, olhou com profundidade e tão demorado foi o momento que pensei que tinha deixado de respirar. Ao contrário das outras vezes em que tinha acariciado o meu corpo e um pouco mais até, desta vez pareceu subir até à minha alma. Falava sem dizer palavra, ou pelo menos foi isso que eu entendi. Desta vez soube que ele estava a conhecer-me por dentro, no mais íntimo dos meus pensamentos. Senti-me desconcertada. Eu ainda não tinha decidido ou sequer pensado sobre o assunto, julgo eu. Quanto tempo duraria aquele período de relacionamento a meio caminho entre o superficial de uma mulher e um homem que se sentem sós e a companhia do outro lhe agrada para sair depois do trabalho e o passo seguinte. No caminho para o restaurante ele fora decidido à saída do prédio e pegou gaiatamente na minha mão, mas, com o desenvolvimento da conversa e o aproximar do sitio onde ficaríamos sentados frente a frente, sem contacto físico, a sua mão foi exercendo maior pressão, embora suave, amável, gentil, mas quase que podia jurar que sentia o seu sangue a passar debaixo da pele. Foi agradável e intimo. Se não fossemos a conversar lado a lado ele poderia ter visto o rosado das minhas faces. Suportei o seu olhar e também procurei ver para dentro do dele. Procurar entender as suas intenções. Precisava de recolher dados, para além e para lá das sensações. Sabia que em breve precisava de tomar uma decisão. Estava na altura de levantar ferro. Olhámos em volta e sorrimos tolamente um para o outro. Estávamos sozinhos na

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esplanada. O empregado, um pouco amuado, junto à vitrina esperava desesperado pelo pedido da conta. Novamente foi rápido a pegar na minha mão, mas agora fora mais natural e também mais meigo. Descemos a rua pelo passeio central arborizado e respirando a fragância que devido ao calor da noite as plantas emanavam. Nenhum de nós olhou para o relógio. Desde que saíramos de casa. Depois de pegar nas rosas que ele me estendia recuei um passo e ele fechou a porta delicadamente. Enquanto fui buscar uma jarra à cozinha ele foi até à varanda descontraído. Talvez estivesse a orientar-se no apartamento. Ainda não passara da sala e por isso julgo que procurava desenhá-lo mentalmente. No primeiro cruzamento virámos à direita e percebi que para ambos era o momento para regressar. Seria regressar ao futuro ou repetir o passado? Agora percebo, que o meu coração já tinha tomado uma decisão que o cérebro, demasiado ocupado e ler todos os sinais exteriores ainda não tinha digerido. O tom de voz, a pressão da sua mão, o calor das duas peles, o palpitar do meu coração, as suas palavras. Uns metros mais à frente, já se avistava o edifício. Enquanto falava, com entusiamo sobre a última novidade na área do som, deu conta dessa proximidade e intuiu a despedida que se avizinhava o que foi denunciado por uma ligeira, ténue diminuição da sua velocidade. Subitamente parecia ir ficando um pouco acabrunhado, como um garoto que sabe que a hora do recreio está a chegar ao fim.

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Chegámos à porta, soltou-me a mão e agarrou-me carinhosamente o meu pescoço com as duas mãos procurando que eu não fugisse ao beijo que se seguiria. Não o recusei. Senti-me começar a ferver por dentro. Alguma coisa dentro de mim começava a ter necessidade de extravasar. O elevador chegou, à sua velocidade inversamente proporcional à pressa dos ocupantes, ao décimo primeiro e devolveunos ao patamar. À aproximação da minha carteira a porta fez o clique que autorizava a sua abertura. A luz ambiente automática acendeu-se e o sistema de vigilância percebeu que vinha acompanhada, subindo, de acordo com a programação, o nível de luz. Lá em baixo, depois do beijo mais doce que algum dos meus namorados alguma vez me dera, agarrei-lhe a mão e perguntei sem querer saber da resposta. “Tens pressa?” Sem esperar resposta puxei a sua mão para mim e entrámos. A casa não era demasiado grande nem demasiado espaçosa, mas deixava espaço suficiente para uma vida organizada e agradável. Sala, cozinha, quartos e uma casa de banho de princesa. A divisão melhor de todo o apartamento, apesar da sala e da varanda estarem muito próximas do topo. Na segunda-feira o dia correu normalmente. Não o encontrei nem no estacionamento nem no elevador, mas sim no bar, perto das dez horas. Estava com dois colegas. Apesar de estarmos neste projeto na mesma equipa, cada um ainda tinha trabalho no seu gabinete. Sorri para ele, com o significado do abraço mais terno e quente que não lhe podia dar agora. Ninguém percebeu. Bom dia Eduardo. Recebi o mesmo em troca num bom dia quente e soalheiro. Disse

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bom dia também aos outros dois e a conversa alargou-se por momentos.

Demos as mãos e fomos até à varanda. Lá em baixo a rua estava calma e ao longe ouvia o barulho do tráfego da cidade que nunca para. O luar resplandecente iluminava-o. O meu coração estava descontrolado. Talvez ele o visse a saltar no peito ou o ouvisse. Desde que chegara estava descalça, como sempre em casa e o piso da varanda estava quente. Ficámos abraçados um pouco e então percebemos que era inevitável. Que tinha chegado o momento. Beijámo-nos demoradamente e sem pressa nem sofreguidão. O tempo começou a aquecer. Senti a mão dele a descer do meu pescoço em direção ao centro. Hesitou e levou-a para as minhas costas. Depois retomou o caminho. Todo esse percurso foi agradável. Refrescante e abrasador, ao mesmo tempo. O primeiro botão da blusa levou algum tempo a ceder, mas os seguintes não se fizeram rogados ao pedido dos dedos dele. Suavemente senti os dedos sobre os ombros empurrando a blusa, que não deixou cair no chão. Acabou na cadeira. Percorreu as minhas costas meigamente e fez soltar o colchete do soutien, que juntou à blusa. Os mamilos explodiram e aqueles pontinhos em coroa, que dão choque quando querem receberam gulosos primeiro os lábios e depois, numa caricia húmida, a língua. Consegui tirar-lhe o polo, que foi descansar em cima da minha blusa. Numa eternidade de caricias, que eu desejava que não acabassem, ficámos nus, com o mar lá ao fundo a resplandecer.

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Devido ao seu tamanho e posição, a varanda oferecia toda a intimidade que queríamos. Durante o dia era o meu solário sem testemunhas. Sem pressa desfrutamos todos os momentos num silêncio de palavras em que apenas os sentidos comunicavam vida e desejo. As suas mãos e a sua língua descobriram, aos poucos, os altos e baixos do meu corpo. Provavelmente confirmando o que tanto tinham querido anteriormente vislumbrar. Fiz o mesmo, embora a minha ignorância fosse maior. Nunca tinha tido, na verdade, tempo suficiente para o observar com detalhe e pormenor, como ele. Puxeio para mim e colados fomos até ao quarto. A semana passou, ocupada, cheia e agitada. No trabalho mantivemos a relação de sempre e isso divertia-me, pois dava a sensação de uma vida dupla. De um segredo só meu que eu guardava no coração. Porém havia um frenesim dentro de mim à medida que nos aproximávamos da sexta-feira. De manhã, no bar disse-me “logo, depois de sairmos, vais tu ter comigo, a minha casa. Vamos mudar de zona. Ainda temos muito para descobrirmos juntos”. Nenhum dos nossos colegas e amigos, na agitação natural do meio da manhã se apercebeu. Claro que o resto do dia demorou a passar. O ponteiro do relógio, teimosamente avançava devagar. Perto da cinco o Alfredo ligou-me para ir ao gabinete dele. Agora? Lá fui implorando interiormente que fosse rápido. Como quase todos os dias das últimas semanas, saímos do estacionamento um à frente do outro, mas desta vez a Clarisse estava de permeio. O Eduardo saiu com rapidez, no sentido diferente do

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habitual. A Clarisse demorou uma eternidade, por isso quando foi a minha vez já não vi o carro dele. Tínhamos passado o fim de semana em minha casa, numa intimidade, que parecia antiga, mas apaixonada. No sábado, nem me lembro se me vesti até à hora de jantar. Quando decidimos ir às saladas da esplanada da esquina, só para tomar ar da rua é que pusemos roupa. Previa que este fosse igual ou parecido. Assim o desejava. Subi rapidamente, atirei com os sapatos e a roupa com pressa e fui direita ao duche. Precisava de refrescar e precisava de acalmar o corpo. Escolhi mentalmente uma blusa informal, calções elegantes e teria de usar sandálias rasas, para combinar. Desci na Diagonal uns quarteirões e passei o Centro Comercial Mar. As coordenadas que ele introduzira no gps levaram o carro até à porta dele. Eu conhecia a rua, mas não sabia que era ali que ele morava. Encontrei lugar perto e olhei para o relógio. Tinha dois minutos para tocar à campainha. Sai do carro e instintivamente dei um jeito à blusa e verifiquei os botões abertos. Através do vídeo porteiro presenteei-o com um sorriso de felicidade. O elevador foi rápido. O patamar era agradável e relativamente amplo. Três portas e algumas plantas nas outras duas. Quando ia para tocar no botão a porta abriu-se. De calções e descalço, com uma camisa de linho amarrotado, sorriu e puxou-me até ficarmos colados. Depois de um longo e quente beijo ainda fui a tempo e disse “cuidado” e passei-lhe uma garrafa, com um laço vermelho ardente. Fotografei mentalmente o apartamento. Masculino, minimalista e muito luminoso. Senti-me em casa. A varanda, não tão

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grande como a minha, mas estava muito mais perto do mar, a escassos metros, ao fundo da rua. Tinha a mesa posta e duas velas, acesas, tremeluzentes dentro de uma proteção de vidro bojuda. Apontei para a mesa e ele percebeu e disse “vamos comer aqui. Eu fiz o jantar. Disse-te que ainda temos muito para descobrirmos juntos”. De mãos dadas fomos andando pela areia molhada em direção ao lado do por do sol. O calor do corpo contrastava com a sensação nos pés. Não que a água estivesse fria. Beijamo-nos aquecendo ainda mais o ambiente e uma pequena onda subiu até aos joelhos. Olhei para ele e puxei-o em direção ao mar. Acabámos por mergulhar e nadar um pouco. Abraçámo-nos quando já estávamos um bocado cansados e ele procurou suavemente os meus mamilos, que despontavam com vigor através da blusa, fazendo-os mudar de temperatura. Depois com suavidade e delicadeza percorreu o espaço entre eles e o triângulo peludo que ele admirava. Como a sua mão estava quente. Não fiquei quieta e correspondi deslizando a minha mão para dentro dos calções molhados dele. Depois de me atrapalhar um pouco com os boxers apertei suavemente, mas decidida fazendo-o palpitar. O jantar estava delicioso. Uma salada, como ele tinha referido no trabalho, acompanhada de carne na brasa. A sobremesa era de ananás com frutos vermelhos. Depois do café, bebido com calma e descontração calçámo-nos e descemos a rua até à praia. Percebemos o que ambos queríamos muito e saímos da água escorrendo. A roupa ligeira secaria depressa e o facto de já ter anoitecido resguardaria, um pouco, da visão dos transeuntes o que se revelava agora com nitidez. Não só o meu soutien saltava da blusa flagrantemente como os boxers mais escuros que os calções pareciam

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um farol. Olhámos um para o outro, encolhemos os ombros e rimos com gosto. Demos as mãos e caminhámos mais um pouco na mesma direção. O fim de semana aconteceu como eu desejei. Simplesmente sensacional, no exato termo da raiz da palavra. No Domingo, depois de jantar, quando nos aninhávamos no sofá para ver um filme, com o número de passeios suficientes e os corpos a precisarem de descanso, lembrei-me que não podia ir trabalhar com a única roupa que tinha trazido. E sem o computador. Não te preocupes, fica quase em caminho, passamos em tua casa de manhã. Perto da hora do almoço, com a equipa a concluir os últimos aspetos do trabalho o Alfredo entrou na sala e explicou que a Clarisse e eu teríamos de ir na quarta-feira a Madrid, só as duas porque o Eduardo teria de ficar para receber um cliente novo e não havia mais ninguém disponível. Sem problema, disseram os nossos olhos um ao outro, sem que ninguém tivesse ouvido. Depois de jantar, enquanto a Clarisse tomava um duche, por causa do calor do fim do dia, liguei do quarto do hotel. Como te amo, disse assim que percebi que a chamada tinha sido atendida. Ele disseme o mesmo. Depois de breves comentários sobre o dia de cada um desliguei, abruptamente, quando a água do chuveiro deixou de cair. Não nos cruzámos no estacionamento e tão pouco ao passar pelo gabinete dele o vi. Um formigueiro forte começava a tomar conta de mim. A secretária, cheia de recados do dia anterior reteveme e obrigou-me a concentrar. Um pequeno papel amarelo, depois de uns quantos já lidos dizia, ”Café, sem falta, contigo. Olha as horas”. Nem precisava de assinatura. A letra pequena, elegante e organizada denunciava-o.

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Chegámos ao bar quase ao mesmo tempo, mas ele não vinha do seu gabinete. Senão teríamos feito o corredor juntos. Em vez disso fui sozinha, com três colegas a tagarelarem-me algo a que não prestei atenção. Depois da troca de bons dias entre todos os que estavam e os que iam chegando ao bar e até depois de saudar as empregadas, finalmente fui inundada até ao meu íntimo pelo perfume dele. Bom dia Eduardo, disse com mel e apetite na voz. Preciso de ser mais cuidadosa, disse para mim em nota mental. Ontem, começou ele, a meio da manhã chamaram-me à receção, julgando que era trabalho passaram-me o encargo. Era um fulano, cabelo desgrenhado, calças de algodão indiano amarrotadas e sandálias hippies do século passado. Perguntou por ti antes mesmo de dizer quem era e o que queria. Disse-me que tinha ido a tua casa, mas a porta não reconhecera as suas permissões e que o telefone assim que o ouviu recusou gravar um recado. Olhei para ele entre surpreendida, estarrecida e divertida com o tom que ele imprimia ao relato. Estava deliciado e feliz. Não descurou uma série de pormenores. Antes mesmo que eu perguntasse e sem parar continuou. Não admira que a porta não abra disse-lhe. Ela casou-se. Assim, de chofre, sem dó nem piedade. Não era o tipo que se queria encontrar, que te deixou? Espetei a faca fundo e gostei. Agora sim, enquanto ele gozava o momento, consegui perguntar “E depois?” Não pareceu nada preocupado, continuou. Disse-me que tinha um trabalho em Katmandu e bilhete para o Expresso do Oriente. Será que ele sabe que já não circula?

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Tirou uma pequena caixa do bolso das calças azuis quase escuras de impecável corte e com um vinco para lá de perfeito e pôs na minha mão com descrição. Abri-a da mesma forma, tão discreta que ninguém reparou. O brilho do que lá estava dentro entrou pelos meus olhos e atingiu o meu coração com força, provocando um sismo de magnitude incalculável. Disse-lhe “sim”.

Y así pasan los días de lunes a viernes, como las golondrinas del poema de Bécquer (in Jueves, La Oreja de Van Gogh)

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A varanda ,


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O Leonel estava com dificuldade em conciliar o sono com algo que o seu subconsciente não conseguia resolver. Olhou o despertador na mesa-de-cabeceira. Eram quatro e cinco. Levantou-se, foi à cozinha beber um copo de água, passou pela cama e saiu para o terraço. A noite estava magnífica, com uma lua gloriosa de prata brilhante que iluminava a rua lá em baixo, quase tanto como os candeeiros. Olhou apreciando o trânsito escasso que passava, os carros alinhados ao longo do passeio e arrumou mentalmente as cores. A temperatura estava muito agradável. O terraço era bastante espaçoso. Além da mesa e quatro cadeiras sobrava bastante espaço. Quando virou a cabeça para o outro lado viu a vizinha. Também ela estava no terraço dela, mas algo não estava certo. Não era primeira vez que via a vizinha toda nua, nem seria a última. Mas qualquer coisa não era habitual. Acenou, mas ela não reparou. Ou fez que não reparou, pensou ele, afinal também não tinha nenhuma peça de roupa. Não estava constrangido. À noite ou durante o dia, apanhando sol, várias vezes, por escassos instantes, ele tinha olhado, quase sem cerimónia e com admiração e gosto, para as curvas dela.

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Não eram perfeitas, de modelo, mas eram as curvas certas de mulher. Embora a sua ficasse uns degraus acima. Admirar e comparar não era crime nem ofensa, na opinião dele. Tantas vezes apregoada junto dos amigos e das amigas e na presença da mulher. Dizia às amigas que era um elogio que lhes fazia, havia mulheres para as quais não valia a pena olhar segunda vez. Pelo contrário, quando as apreciava, estava a valorizá-las e não a ser machista, como quem não o conhecesse suficientemente bem concluiria com prontidão, mas sem exatidão. Aliás, o mesmo se passava com os homens. Nunca tinha escondido em falsas masculinidades que não só se comparava com os outros homens com quem se cruzava, como tinha critérios de valor sobre eles. Olhava com interesse estético e de recreação, sem concupiscência. Nenhuma destas situações alguma vez colocara em risco a sua relação com a mulher, o apreço que tinha por ela e a dedicação que lhe prestava. Amava-a sem hesitações. Costumava dizer que era mais fiel que um cachorro. Entrou no quarto e abanou suavemente a mulher. Inês, Inês, algo se passa com a Catarina, com a vizinha. Ela acordou devagar. Olhou-o e deu-lhe um pequeno beijo. Que dizes? Fui um pouco ao terraço e a Catarina também está no dela. Parece-me que algo não está bem com ela. Acenei-lhe, mas ela não me viu. Não sei o que é, mas parece-me que algo não está bem. A Inês levantou-se e ele não pode deixar, à luz ténue que entrava no quarto vinda da rua, de apreciá-la. Olhou cada curva, que conhecia, enquanto ela se ergueu, e tocou-lhe ao de leve nos seios, redondos, que se tornaram imediatamente mais duros e firmes com uma coroa majestosa em torno de cada mamilo. Abraçou-a com suavidade e saíram para o terraço.

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A Catarina, lá estava, a cerca de oito metros, no meio do terraço, na mesma posição, imóvel. Não atendeu ao chamado suave da Inês nem ao gesticular dele. Chamar mais alto tinha o risco de chamar a atenção de outros vizinhos, quase de certeza. Vamos tocar-lhe à porta, disse ele. Entraram e já no corredor, perto da porta, reparou que ambos não tinham roupa. É melhor vestir alguma coisa. Dois minutos depois colocava o dedo na campainha, com determinação, mas sem pânico nem exagero. Esperaram uns momentos. E tocaram de novo. Desta vez perceberam que alguém se mexia dentro do apartamento, em direção à porta. Algo bateu do lado de lá. A Catarina abriu a porta, depois de ter verificado quem era. A Inês e o Leonel tinham respondido acenando para a câmara. Vestia uma peça de algodão, bastante fino e bem acima do joelho. O decote, bem, a abertura para a cabeça, era muito generosa, deixando ver muito mais do que seria suposto quando se abre a porta. Quase em uníssono perfeito perguntaram: o que se passa?

Tinham-se visto na praia de nudistas onde ele e a mulher iam às vezes. A primeira vez que a viu foi quando ela saiu da água e ele a seguiu com os olhos até à toalha. Era raro ver uma mulher sozinha numa praia de nudistas. Por isso fixou o seu rosto. O mesmo sucedeu à Inês, tendo talvez fixado algo mais que o rosto, pois, como sabemos, a concorrência feminina leva-as a recordarem umas sobre as outras muito mais que o rosto. Uns dias mais tarde foi com surpresa que se cruzaram na entrada do prédio. E nessa semana

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ainda voltaram a ver-se no enorme patamar do seu penúltimo andar. De todas as vezes tinham encarado com um rosto sorridente e aberto. Estava vestida com elegância e o vestido realçava com justiça as formas que ambos já tinham apreciado. Era a nova vizinha. Caramba, quais são as hipóteses de voltares a encontrar alguém que viste numa praia de nudistas? Baixíssimas, suponho eu. Quais as hipóteses de te cruzares com essa pessoa e a reconheceres, agora que está completamente anónima? E quais as hipóteses de encontrares essa pessoa no prédio em que vives? Mesmo para um nudista ocasional é um pouco estranho vir a conhecer pessoalmente alguém que já se viu nu. Mas por isso mesmo ou por causa da sua personalidade jovial e cativante ambos nutriam uma amizade carinhosa com a Catarina, que vinham a desenvolver-se no último ano e meio. Ambos acompanharam o começo do namoro da Catarina com o Jaime há uns meses atrás, e como passaram a vê-los sempre juntos. Saíram algumas vezes os quatro à noite, no entanto não se pode dizer que eram íntimos. A Catarina mantinha alguma distância. Um pouco ciosa da sua privacidade. O Jaime era um rapaz simpático, mas que passaria sempre despercebido num grupo de amigos. Calado, tímido, nada de porte atlético, que as mulheres recordassem mais tarde ou suspirassem por algum músculo mais evidente. No entanto era um cientista em afirmação na área da nanotecnologia e isso levava-o a viagens com alguma frequência.

Nunca o Leonel, nas vezes que conversou com o Jaime, abordou ou se referiu a que já tinha visto a Catarina nua, toda. Que a tinha apreciado com detalhe e que os seus olhos tinham vagueado

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pelos seios, pelo púbis e pelas nádegas, em plena luz do dia. Se calhar ela terá feito o mesmo com ele. Não o conhecia suficientemente bem, o namoro não parecia ainda consolidado, apesar de ele viver lá em casa grande parte dos dias e, por outro lado, essa era uma questão da Catarina. O que se vê e o que se faz na praia fica na praia. A Inês, sem conversar esse assunto com o Leonel, fez exatamente o mesmo. Talvez um dia aquele acaso de tarde de verão fosse uma brincadeira entre dois copos. Mas por agora ainda não. O Jaime não parecia ter (ainda) segurança suficiente em si próprio para carregar essa revelação. O Jaime está em Tóquio, no aeroporto. Foi assaltado, não tem documentos nem cartões. Disse ela perfeitamente aflita, num tom de voz de falsete, quase histérico, que não lhe conheciam. Vamos entrar, disse-lhe a Inês, empurrando-a com delicadeza e dando-lhe um jeito aquela camisola disforme que ameaçava cair-lhe pelo peito abaixo. Ou preferes vir para nossa casa? Não! Entrem, disse mais calma e quase natural. Levou-os para a cozinha. A luz era ténue num efeito decorativo muito acolhedor, mas suficiente para se trabalhar e comer. Pôs água a aquecer, mas perguntou: chá ou algo fresco, como cerveja ou vinho branco? Podemos trincar algo. Tinha assumido o comando da sua casa. Isso parecia retemperá-la. Falar ajuda sempre a organizar as ideias e os sentimentos. O Leonel optou pelo vinho para acompanhar alguma coisa de comer. A noite estava esplendida. Não era por acaso que ainda há minutos atrás estavam, cada um em seu sítio, sem roupa. Ele conseguiu que o consulado me telefonasse e foi assim que eu soube que enquanto não tratar da papelada com a polícia do

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aeroporto não o deixam embarcar. O que significa que ficou sem voo. Por isso não consegui voltar para a cama. Estava no terraço a tentar acalmar e pensar no que podia fazer, quando tocaram à campainha. Demorei a perceber o que era. No caminho até esbarrei na porta do quarto. Eu fui ao terraço porque não conseguia dormir e vi-te e percebi que algo não estava bem, por isso chamei a Inês. Ela instintivamente, sem controlo racional, levou a mão ao peito para confirmar se tinha roupa. Sim, agora tinha roupa, mas antes não. Ficou muito ligeiramente corada. Não sei se algum deles notou. Talvez tenha hesitado se devia explicar ou não porque estava nua, sozinha em casa, mas a placidez da noite deve-lhe ter sussurrado que não era necessário. Isto levanta a questão interessante de saber se ela se lembrava, ou não, deles na praia. Nunca tinha aflorado esse pormenor desde que se apresentaram no patamar. Encheu os três copos e colocou fatias de pão, pasta e uns “huevos revueltos” e uma porção de polvo à galega. Tudo isto apareceu, como por magia enquanto ia falando. Sentou-se do outro lado da mesa e revelou a coxa toda e algumas partes mais para o interior. Ninguém reparou. O peito mostrava-se e ocultava-se por trás do algodão conforme ela ia falando e mexendo-se. Retomou a aventura do Jaime em Tóquio. Cansados, devido à hora, o Leonel e a Inês encostaram-se, continuando a ouvi-la. Ocasionalmente faziam interjeições e, uma vez ou outra, perguntas para manter ou diálogo. Ele com naturalidade e descrição deslizou a mão por baixo do vestido de praia que ela tinha posto, sentindo o acetinado da sua pele. Enquanto a Catarina

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continuava com os detalhes e bebericavam o vinho e os petiscos iam desparecendo, pensou que tinha de a possuir antes de adormecerem. O apartamento devia ser semelhante ao deles. Provavelmente simétrico. A sala e a cozinha e o quarto principal dariam para o terraço e o outro quarto teria uma varanda mais pequena para o outro lado do prédio. Na realidade a cozinha não era uma divisão autónoma, mas parte da sala, num arrojo arquitetónico muito interessante, que dava a sensação de espaço, mas que mantinha as áreas funcionais muito acolhedoras. Depois de perceberem que a Catarina estava mais calma e que tinha raciocinado que só dali a algumas horas é que poderia ser uma ajuda mais efetiva para o Jaime, despediram-se e foram para casa. Combinaram falar ao fim do dia, depois do trabalho. Ainda a porta não estava completamente fechada, a Inês empurrando com suavidade com a mão no puxador, já as mãos dele haviam avançado diretamente para os seios, que se revelaram atentos, acolhedores e soberanos, como que ostentando coroas de glória. Chegou-se bem para ela e ela sentiu como ele ficou hirto e duro num ápice. Tirou-lhe o vestido pela cabeça e aproveitou para beijar com delicadeza e paixão o seu pescoço. Depois foi descendo lentamente, beijando-a centímetro a centímetro, até ficar de joelhos. A respiração dela era agora muito mais rápida e audível. Ela tocou-lhe e estremeceu ao verificar como já estava húmido. Pegou nela e levoua para o quarto, depositando-a com suavidade na cama. Tirou a camisola e os calções. Deitou-se sobre ela com ternura e paixão. Foram criativos na exploração do território até atingiram o momento de ficarem num só. Acabaram por adormecer, mais tarde, depois de terem consumado o seu prazer sem pressas. Os orgasmos dela eram quentes, abundantes, avassaladores e pareciam intermináveis, dando

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a ele a sensação de ficar suspenso no espaço e no tempo, durante o que lhe parecia uma eternidade de prazer, que não queria que acabasse. Só esse bem-estar físico e espiritual lhe permitia controlarse para não explodir no momento ao que acabava de ficar dentro dela. Desde que tinham começado a namorar e desde a primeira vez que se descobriram sexualmente que tinha ocorrido, instantaneamente, uma ligação, uma simbiose de ideias e de quereres, de renuncias e de prazeres mútuos, como se tivessem sempre pertencido um ao outro. Como se fossem duas peças que finalmente se encaixam. Nem sempre tinha sido assim. Quer um quer o outro tinham tido experiências anteriores desagradáveis, que haviam recordado apenas uma vez, quando, cada um, de mente livre e coração ansioso, a contou com os detalhes suficientes, pondo em cima da mesa as dores e os pontos altos, para começarem uma relação limpa e lisa de sobressaltos e pedras, para que quando olhassem para trás não houvesse sobressaltos nem fantasmas do passado agitados dentro do armário. O momento dessa conversa chegou inevitavelmente e com a naturalidade de quem sabe que é o caminho, o único caminho para o futuro. O Leonel tinha tido algumas namoradas durante a escola e a universidade, mas a última tinha sido manipuladora e castradora, como uma mãe de filho único consegue ser. Provavelmente treinava e escrevia o futuro, se conseguisse não ficar para tia. A sua relação era muito física e dominada por uma necessidade de controlo obsessiva, que o impedia de vestir como queria, de sair sem ela ou de olhar para outras mulheres na rua, nas revistas, no cinema, nas lojas. Um dia, decidido, pôs fim a esse caminho e deixou-a a percorrê-lo sozinha.

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Mudou de rumo, mudou de vida e mudou de cidade. Pelo seu lado a Inês, na verdura dos seus anos universitários, tinha percorrido o caminho de patinho feio, para quem ninguém olhava, a loira objeto de exibição do seu segundo namorado. Nessa época a sua autoestima era baixa. Não via com nitidez a imagem que o espelho lhe devolvia, vendo só defeitos. Aos vinte e poucos pensava que iria ficar sozinha. Por isso começou a namorar com um parvalhão que conhecia desde a infância, presunçoso, crendo-se inteligente e sem dificuldades económicas. Os amigos disseram-lhe vezes sem conta que não precisava de suportar aquilo, que havia mais vida para lá daquele idiota. Um dia acordou decidida, cortou amarras e mudou de emprego. Foi assim que conheceu o Leonel. Foi assim que descobriram que as duas peças encaixavam, feitas uma para a outra. Num dia sem história, a percorrer, cada um, a vida numa página em branco, que tinham acabado de abrir, cruzaram-se. A Inês é prima do Pedro, colega de trabalho do Leonel, que tinha exatamente acabado de chegar à cidade e era o seu primeiro dia naquele emprego, quando ela foi tomar café com o primo, a meio da manhã. Quando ela chegou o Pedro dava algumas indicações onde ele devia procurar casa e coisas práticas para ele se estabelecer na sua nova cidade. Enquanto ela se aproximava do primo, por qualquer motivo não descolou os olhos do desconhecido. Naqueles escassos metros, sem que ele tivesse percebido mediu-o todo, de alto a baixo. Apreciou o que ele tinha vestido e até os olhos num azul a fugir para o castanho muito invulgar. Como que por instinto o Pedro virou-se no segundo em que ela ia dizer bom dia. O Leonel sentiu algo muito estranho quando olhou para ela. Uma sensação impossível de perceber e descrever nessa ocasião, mas que foi seguramente a flexa de Cupido a cravar-se bem fundo, por entre o diminuto espaço deixado livre pelas costelas, no seu coração.

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Venham teóricos, filósofos, psicólogos e outros entendidos e digam que não há amor à primeira vista, mas desde o início do mundo que um homem e uma mulher estão destinados e caminham um para o outro, para se completarem. Quer se encontrem ou não no decorrer da sua vida. Neste caso foi naquele dia, àquela hora. Depois de uma noite mal dormida, na manhã seguinte Leonel chegou ao trabalho e antes de dizer bom dia já tinha dito ao Pedro. Preciso de ver a tua prima. Ela é a mulher da minha vida. Não te rias, por favor, mas sei. Só não sei como é que sei. Depois de recuperar da surpresa daquela entrada, Pedro disse-lhe “bom dia”. Por incrível que te possa parecer, acredito no que dizes. A Inês telefonou-me há dez minutos. Senta-te. Disse-me exatamente o mesmo que tu. Tens a certeza que não combinaram? Acrescentou entre um enorme sorriso e a vontade de rir alto e bom som. No fim do trabalho o Pedro levou o Leonel a uma esplanada numa rua transversal, relativamente perto. O sítio era encantador. Numerosos canteiros criavam recantos e o aroma das plantas, naquele dia, fazia despertar os sentidos. A temperatura estava agradável num dia de fim de primavera que convidava à descontração. A Inês chegou um pouco depois deles, já tinham uma cerveja à frente e o prato dos amendoins ameaçava ficar vazio a qualquer momento. Atravessou a rua em direção a eles. Trazia um vestido amarelo relativamente curto e um sorriso que lhe iluminava o rosto mais do que o sol. Os cabelos soltos, castanhos cor de mel cobriam ligeiramente, de um dos lados, o pescoço, que parecia alto e elegante. O Leonel bebeu um ligeiro golo para humedecer os lábios e procurou ser discreto ao olhar para ela, mas ficou colado aos movimentos cadenciados das ancas. Levantaram-se os dois. O Pedro

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beijou-lhe a face e sentou-se e o Leonel atrapalhou-se todo. Esticou a mão interrompendo o trajeto a meio do caminho, avançou com a cara e parou e tentou balbuciar um boa tarde, que se perdeu algures entre o cimo da garganta e os lábios. Parecia um adolescente. Olá Pedro, olá Leonel, disse ela enquanto lhe ofereceu a face para ele beijar, o que fez desajeitado. Durante um pedaço conversaram os três sobre banalidades até que, acabada a cerveja o Pedro levantou-se e disse pagas tu Leonel. Desculpem, mas tenho horas marcadas. É preciso ir buscar os garotos. Não se janta mal aqui, mas parece-me que se devem levantar antes disso. As cadeiras vão agradecer. Contornou a esquina ligeiro, em direção ao estacionamento da empresa. Durante uns instantes o silêncio ameaçava tornar-se constrangedor. Molhou os lábios no último golo de cerveja e finalmente, fitando-a nos olhos, disse: Não sei quanto estranha a situação é para ti, mas para mim é muito. Só te vi ontem por escassos minutos, acabei de chegar à cidade, não conheço mais ninguém e mal consegui dormir. Não sei o que se passa. Deve parecer absurdo para ti ou mesmo que sou um idiota chapado. Obrigado por teres vindo. Não me parece que este seja o melhor princípio para me conheceres. Foram as frases mais longas que ele tinha dito desde ontem. Parou, baixou os olhos por uma fração de tempo entre o inexistente e a eternidade. O sorriso dela era simples, franco e muito quente. Leonel, eu poderia ter dito essas mesmas palavras. Esta situação, de ontem até hoje, parece um sonho fantástico, numa fábula de ficção. Friamente, parece irracional. Ninguém no seu juízo perfeito fica no estado que tu descreveste e, no entanto, foi exatamente o que se passou comigo desde que cheguei ontem ao bar, mesmo antes de teres olhado para mim. Se acreditasse na predestinação seria talvez isto que eu descreveria. Vou ter de rever estas minhas ideias, acrescentou num

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parêntesis que provocou o riso dele e dela. Até aí ele tinha permanecido quieto como um garoto acabado de ser apanhado numa falta. As nádegas ameaçavam mudar de forma e por isso decidiram pagar a conta. Desceram a rua na direção em que a Inês tinha chegado. Ele ainda se estava a orientar na cidade, mas tinha a noção de que a praia seria para aquele lado. Caminharam, lado a lado, durante bastante tempo, fazendo o sol avançar no horizonte, até que cansado acabou por se pôr. Perceberam que estavam com fome e um pouco cansados. Decidiram jantar num restaurantezinho que lhes apareceu e que a Inês conhecia vagamente. Ao entrarem ele deitou o olhou ao menu e os preços sorriram-lhe. Não era um esbanjador nem um garfo exigente. Pareceu-lhe bem. O ambiente era declaradamente romântico. Mesas com toalhas de pano aos quadrados vermelhos e brancos, pequenas velas de chá, já acesas, em cada mesa e uma empregada vestida com uma saia preta pequena, mas encantadora, porque ligeiramente rodada, que lhe ficava muito bem, com um avental de folhos pequenino branco. A blusa era de seda preta, a combinar e com os botões abertos a raiar o limite da descrição. Parecia ter tudo no sítio incluindo o tamanho do busto. As coisas em que os homens e as mulheres reparam, mesmo quando vão acompanhados, pela pessoa que se afigura ser o par para o resto dos seus dias. Nunca a ciência conseguirá explicar isto. Talvez seja parte do treino para o cérebro querer ser multitarefa. No caso das mulheres é mais fácil. Se tivessem comparado pormenores, no fim do jantar, certamente que a Inês ainda falaria do pó, dos guardanapos e do empregado, que atrás do balcão tinha olhado com desfaçatez e delonga para as pernas dela, quando entrou. E nas tentativas posteriores de ver alguma coisa sempre que ela cruzava as pernas

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durante o jantar. Sim, a Inês reparou nisto tudo e na iluminação que era discreta, acolhedora e quente, mas a fugir para diminuta. No entanto tinha o seu espírito integralmente focado no Leonel. Queria conhecê-lo, bem, mas depressa pois ansiava perceber o que se passava consigo. O que era aquilo que a dominava desde o dia anterior. Não era virgem nestas situações, mas o seu coração pulava de uma forma diferente sempre que ele falava. O tom de voz soava-lhe tão bem que a tranquilizava. Em abono da verdade ela devia reconhecer que ou a voz ou a presença dele ou o seu físico, que ainda não apreciara convenientemente, a faziam sentir-se quente, muito quente. Nem o longo passeio pela marginal tinha acalmado aquela sensação. O Leonel estava mais focado na conversa, coisa rara num homem, mas também ele queria controlar a situação rapidamente e saber se aquele acaso da véspera era para durar. Se era ela a tal. Nesta tarde nem o vestido amarelo, nem o peito dela, amparado no soutien de renda, que saía, com atrevimento ligeiro, pelo decote, nem as costas dela, suaves, que por um momento ou outro, sempre que ficou para trás para a deixar passar, se atreveu a apreciar, pois ela não veria esse interesse físico, o desviaram da sua necessidade de conhecer mais dela. Chegaram ao estacionamento escassos minutos antes do segurança o fechar. Nenhum dos gabinetes tinha luz acesa. O que lhe valeu foi o facto de uma das primeiras coisas que o Pedro lhe ensinou foi a hora de fecho do edifício. Caso contrário teria ido de metro levar a Inês. Ela tinha optado, não sabendo bem o que esperar daquele encontro, por deixar o carro em casa e chegar de metro. Ficaria com todas as opções em aberto.

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Saíram do estacionamento e ela introduziu no gps as indicações necessárias. O percurso foi calmo. Àquela hora o trânsito era escasso e por isso em poucos minutos chegaram. A perspetiva de se despedirem estava a deixar o ambiente um pouco embaraçado. O Leonel não sabia bem que atitude tomar. Nem demasiado atrevido e voluntarioso, a ponto de a assustar e a afugentar nem demasiado seco, soterrando o seu verdadeiro interesse, que tinha consolidado durante as horas que estiveram juntos, à medida que a foi conhecendo. Ela estava exatamente na mesma situação, mas como todas as mulheres práticas já tinha decidido que a espontaneidade seria o melhor. No entanto interrogava-se se ele a beijaria e como a beijaria. Não lhe parecia que fosse ocorrer mais do que isso ou então estaria completamente enganada do juízo que sobre ele começava a tomar forma. Ele parou o carro, saiu e abriu-lhe a porta com descontração e gentileza. Pegou na mão dela, foi a primeira vez, enquanto ela saia e depois, desajeitadamente soltou-a. Caminharam até à entrada, atravessando o relvado pequeno e ela disse-lhe: não te posso convidar para subires, pois vivo ainda com uma amiga, que me acolheu de emergência. De todas as coisas que tinham conversado desde a cerveja da tarde, ainda não tinha chegado ao relato da libertação do parvalhão. Sim, claro, respondeu o Leonel. Posso ver-te amanhã? Oh, não! fez ela com uma interjeição muito sensual, como ele achou. Tenho trabalho fora nos próximos dois dias, saio de manhã cedo. O desapontamento varreu-lhe a cara com tal profundidade que ela passou-lhe a mão no rosto, numa caricia terna e quente. Ele diminuiu a distância entre ambos até ao limite mínimo entre a timidez e a intimidade e beijou-a na face com suavidade, mas com paixão. Essa paixão ela sentiu-a na pele quando um calor imenso a percorreu como numa onda de maremoto desde esse ponto de

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contacto até ao centro nevrálgico. Ela não percebeu se tinha sido o cérebro, o coração ou a sua vagina a registar o impacto. Sentiu-se quente, como numa fogueira. Na sexta-feira quando chegar telefonote disse-lhe num tom de açúcar e mel e beijou-o na face, também. Aquele processo explosivo percorreu-o a ele agora, como uma réplica. Nessa noite nenhum dos dois dormiu serenamente. À vez, como se estivessem na mesma cama, mas afinal separados por alguns quilómetros, tatearam o espaço livre do colchão à procura do outro. O Leonel teve dificuldade em concentrar-se o resto da semana no trabalho, em que ainda estava a descobrir todos os truques de funcionamento das novas tarefas, dos novos colegas e sobretudo as manhas do seu chefe. Foram dias complicados. Mas os momentos a sós ainda foram piores. Havia um novo vazio na vida dele que resultava tão só de um encontro furtuito e de uma saída com jantar, com uma rapariga que mal conhecia. Ela não tinha dito a que horas telefonava e ele subtendeu que seria ao fim do dia, por isso quando o telefone tocou ao meio dia e dez foi com espanto que ele viu o nome dela no visor. Olá Leonel, almoças comigo? Daqui a uma hora? Deixo o carro no estacionamento no lugar do Pedro. Sim, titubeou enquanto um enorme e radioso arco iris se desenhava do seu coração até ao dela. Naquele caso, como na lenda, não sabia onde é que terminava, mas dentro de uma hora estaria junto do seu. Aquela hora foi a mais comprida da semana. Um nervoso miudinho crescia dentro dele devagar. As mãos suavam e o ecrã do computador parecia ter mudado de forma para o rosto dela.

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Preparava-se para descer, olhou a carteira para pegar nela e uma mão suave tocou na sua orelha. Olá Leonel. Virou-se e encarou-a. Estava ali, finalmente. Tinha saudades daquele sorriso. Sentiu o mesmo perfume e olhou em volta. Não, não estava a sonhar. O vestido era quase branco, curto e rodado e um decote que estonteava até o mais distraído. Carteira na mão e sandálias vermelhas. Pela cara dele e pelos olhos, sem pararem quietos a percorrerem todo o espaço do horizonte que ela preenchia, sentiu-se feliz por ter escolhido aquele que era um dos seus preferidos. Vamos, disse ele beijando-a na face como se fosse de porcelana delicada, prestes a quebrar. Sim. Resolvi subir para te apanhar no teu ambiente. Estava mesmo a sair, respondeu ele apontando para o relógio no pulso. Almoçaram na cervejaria da esquina, onde tinham tomado a primeira cerveja. Não parecia muito criativo, mas muito simbólico. Queriam reatar o ponto, como se não tivesse havido uma separação. Escolheram comida leve, de verão e beberam água. Não conseguiam desviar os olhos um do outro. Depois do encontro anterior, focado em generalidades e conhecimento superficial de gostos, desportos, até roupa ou manias inofensivas, aproximava-se rapidamente, se queriam realmente levar aquele impulso do início da semana a sério, aproximava-se rapidamente o momento em que teriam de acertar os passos no caminho de vida, em que cada um teria de conhecer de que caminho o outro tinha vindo até se terem encontrado naquele entroncamento da vida e olharem para o caminho comum que estava à sua frente. E percorrê-lo juntos, ou não.

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Depois das trivialidades sobre o trabalho, a deslocação dela fora e o estado do tempo nas duas cidades, a Inês abordou a questão de estar em casa de uma amiga. Também para ela estava a ser estranho. Ainda há oito dias não o conhecia. Ainda há oito dias andava a limpar pelos cantos do seu coração e da sua alma todo o lixo que o parvalhão tinha deixado espalhado. Só tinham saído uma vez depois daquele impulso, inexplicável – era a melhor palavra para descrever o embate no seu íntimo do desconhecido que estava com o Pedro. Mas aquela noite mal dormida e aquela saída tinham um grande peso. O coração não se engana sempre. Nem sempre se deixa enganar. Há altura em que já amadureceu e está pronto para acertar com o caminho para o futuro. Belo discurso na sua cabeça. Decidida, como em muitas ocasiões anteriores e posteriores, começou a relatar, com pormenores suficientes para ele a poder conhecer, como tinha chegado, no seu trilho de relacionamentos (era o que mais importava naquele momento) até ter encarado com ele na companhia do Pedro no início da semana. O Leonel era bom ouvinte. Assumia com naturalidade e facilidade o papel de confessor. Isso sempre o tinha tornado popular entre as suas amigas de juventude no meio de crises existenciais e amorosas. Manteve-a sempre à vontade para ela deixar sair tudo da alma, exorcizando o seu fantasma principal. A comida acabou muito mais depressa do que eles tinham percebido. O empregado, nitidamente exasperado com a demora deles, quando havia pessoas a quererem almoçar, trouxe os cafés, que eles não pediram, mas beberam distraídos. Estava na hora de voltarem para o trabalho. Faltava um capítulo inteiro na reciprocidade das revelações. Jantamos? Perguntou ele. Vai buscar-me a casa às

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oito, respondeu ela já a descer para o estacionamento. Os beijos que trocaram na face quando ele ficou a carregar no botão do elevador prometeram que eram os últimos tímidos. A tarde de trabalho passou mais depressa do que ele tinha previsto. O primeiro relatório semanal e uma pequena reunião de departamento ajudaram o tempo a voar pelas janelas. Dois minutos antes das oito parou o carro à porta da amiga da Inês. Esperou quase nada. Ainda estava a olhar as fachadas e a registar a rua na memória quando ela abriu a porta. Tinha mudado o penteado ligeiramente. Mesmo àquela distância ele percebeu uma maquilhagem em tons mais quentes e dourados, diferente da diurna. Trazia um vestido muito vaporoso, seda, pensou ele. Os ombros estavam quase totalmente descobertos, apenas umas alças estreitas que fugiam para a frente fazendo um decote em coração, acentuado, generoso, que realçava os atributos do colo e do peito. Os seios bem redondos e firmes, segundo parecia, estavam quietos dentro do soutien, ligeiramente visível nas pequenas rendas, discretas e atrevidas que se deixavam ver timidamente. As pernas esguias e elegantes viam-se até acima do joelho com arrojo e descrição simultaneamente, se isso é possível. Ele saiu, deu a volta e abriu-lhe a porta. Trocaram dois beijos, ainda hesitantes. Nervosos? Ela sentou-se, compôs o vestido, mas as pernas ficaram perturbadoramente visíveis, para quem vai conduzir numa cidade ainda recente para o piloto automático do seu cérebro. Conseguiu levar o carro até ao centro sem se desconcentrar. Escolheram um restaurante pequeno e acolhedor de uma ruinha estreita perto da praça do município. À saída do carro ela deu-lhe a mão e assim caminharam até se sentarem na esplanada. Três artistas tocavam para as escassas pessoas que já estavam sentadas. O por do sol, para lá dos prédios,

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dava ao céu uma luz dourada a tornar-se cada vez mais num alaranjado escuro e azulado. Escolheram a comida, vieram as bebidas, desta vez sangria de um vermelho denso e com fruta generosa. Depois do primeiro golo ele soltou a torrente. Focou-se na sua última vida. Aquela que o tinha marcado mais e que ele tinha liquidado arrancando a raiz do seu coração e mudado de vida, de cidade e chocando com ela e a sua seta certeira. Quando a esplanada ficou cheia e já não havia mesas livres e a fila que se começava a formar na lista de espera do empregado ameaçava ser maior que a lista telefónica de outros tempos já ele tinha expurgado os seus medos, lutas e assumia a vitória dizendo-lhe que até aquele momento a sua companhia tinha enchido a semana de vida e satisfação. Resolveram caminhar um pouco, pelas ruas quentes em direção ao jardim. Ele passou-lhe o braço pelas costas e assentou a mão com timidez e pudor na anca. Percebeu que por baixo do vestido tão fino havia uma combinação para dar efeito de leveza, tornando-o tão solto e leve, como se via. De volta a casa, o carro parou no único lugar livre. Foi impossível aguentar mais. Ele pegou-lhe no pescoço com as duas mãos (e ela não evitou) e beijou-a com delicadeza, com paixão e desejo e esperou que ela não tivesse percebido essa parte. Tarde demais. Todos os alarmes soaram dentro dela e a torneira do desejo ficou a ponto de rebentar. A luz da portaria do prédio, com sensor automático de movimentos, fê-los descer à terra. Ela abriu a porta e esperou por ele no passeio virada para o carro enquanto ele respirava fundo, arrumava as ideias e procurava o norte. Vamos à praia amanhã

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de manhã, pediu ela fazendo beicinho entre o mimado e o sensual, que não aceita outra resposta que não seja sim. Quando me levantar telefono-te e assim acertamos os ritmos para ficarmos prontos ao mesmo tempo. Não escolhas demasiado a roupa. Toalha e calções, disse-lhe decidida. Mais uma noite quente, para ambos, separados, mas juntos e a ansiarem por ficarem ainda mais. Ela encostou o carro e viu que ele estava sentado no banco. Sandálias, calções azuis e uma camisete de botões, com um estampado jovial, abertos com à vontade, mas sem exagero. Na cabeça o chapéu clássico, branco com a fita em azul muito escuro, foi uma surpresa para ela, mas ficava-lhe bem. Seria um Humphrey Bogart informal, mas mais atraente. Ela apreciou as pernas peludas, afinal combinavam com os braços e o peito, enquanto ele se dirigia para ela e abriu a porta. Não havia uma floresta intimidante, mas uma cobertura bem doseada a revelar masculinidade não dissimulada nem sufocante. Arrancou e durante a manobra ele deitou o olho observador à sua indumentária. Vestido de praia de algodão, verde lima, chinelos de couro. Nada de parte de cima do biquíni, os seios pareciam felizes e sorridentes livres dentro do vestido. Foram conversando com descontração. Ele deu conta que não só ela já tinha passado dois estacionamentos de praia, com lugares, como não parecia ir parar. Vais ter uma surpresa, disse-lhe ela, antecipando a questão dele. Quando parou o carro ele percebeu onde estava. Uma praia de nudistas! Enquanto as ideias dele davam voltas para perceber como reagir ela explicou com naturalidade. Queria que me visses nua, à luz do dia, sem hipóteses de haver sexo, para me apreciares e

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para eu te apreciar, quero conhecer-te assim também. Sem pudor, sem entraves, como num desfile e sem sexo a mascarar os sentidos. E agora? O cérebro dele explodiu perante tantas variáveis para processar. Não era a primeira vez que estaria nu em público. Já tinha frequentado saunas com colegas, homens, todos do mesmo sexo. Coisa informal, conversa de carros, trabalho, mulheres, mas sem elas e outras vulgaridades. E agora? Há dias a rebentar de desejo por ela e vai ter de ficar nu, às dez e meia da manhã, na praia. Com toda a gente a ver? Vamos, disse ela divertida. Sim, para ti é fácil. Não vais ficar com nenhuma bandeira no ar, até os mamilos vão parecer naturais (e apetitosos). Ela riu-se, descontraída. Podes deixar a camisa e apontou para o banco de trás, enquanto foi à mala pegar no saco de praia. Para que era preciso um saco de praia numa praia de nudistas, pensou ele. You can leave your hat on, gracejou ela citando Joe Cocker. O areal, logo depois do passadiço de madeira com a pérgula que fazia o caminho entre o estacionamento e o mar, estava cheio. Várias dezenas de homens e de mulheres, das mais variadas idades e até crianças gozavam o sol da manhã daquele sábado, como senão houvesse mundo depois dos automóveis alinhados ao sol, protegidos pelas telas de falso camuflado. Todos vestidos como tinham vindo ao mundo. Até o homem dos gelados e a empregada do pequeno bar. Era bem jeitosa à vista rápida que o nervoso Leonel deu no percurso, enterrando os pés na areia, quente e agradável, tentando aparentar calma e descontração. Escolheram um lugar, um pouco à esquerda do passadiço, como era hábito dele. Apesar de ser ambidestro, nas decisões mais elementares o subconsciente tomava o comando. Poisou o saco e tirou o vestido pela cabeça, com a naturalidade que as mulheres

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conseguem imprimir. Estava nua. Não trazia mais nenhuma peça de roupa. Ele ficou extasiado e pela primeira vez admirou-a sem subterfúgios. A pele sedosa e ligeiramente bronzeada era uma tentação. O peito simétrico, fogoso e duro, as pernas, que ele já tinha apreciado antes, de capa de revista sem Photoshop, as nádegas e as costas bem torneadas. A púbis tinha um triângulo de pelo alourado, fino e delicado compondo a entrada do seu mundo interior, como um convite e uma dificuldade à descoberta. Ficou sem respiração e nem percebeu que também já estava sem roupa, pois mimeticamente, tinha despertado o fio, tirado uma perna de cada vez e dobrado os calções colocando-os sobre o saco. Só depois de estender a toalha reparou no ar guloso dela olhando-o com detalhe. Tinha o protetor solar na mão e preparava-se para o aplicar nele. Quando ela deu conta do estado dos seus mamilos percebeu que o Leonel estaria em dificuldades a qualquer momento e deu-lhe a mão e puxou-o até à água, atirando o frasco para cima da toalha. Mergulharam. Apesar de bem mais que tépida o contacto do corpo com a água acalmou-o e a ela também. Mesmo não se notando exteriormente ela não estava imune ao que se estava a passar entre eles. Ele não conseguiu resistir mais e puxou-a suavemente, mas sem hesitações ou subterfúgios. Ficaram colados, pele com pele apenas com algumas moléculas de água de permeio, e beijaram-se como se estivessem sozinhos ou disso dependesse a respiração. De seguida nadaram e brincaram e quando já estavam cansados o suficiente para não haver sinais exteriores de paixão, sobretudo no caso do Leonel, como sabemos, foram para as toalhas. De mãos dadas. Quase até à hora do almoço passearam pela borda da água, voltaram a nadar e a deitarem-se lado a lado. A maior parte do tempo sem palavras, mas conversando com o espírito e os olhos.

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Sem relógio, só quando a posição do sol revelou que se aproximava a pior hora para a pele é que perceberam que estavam com fome. Posso fazer o almoço em tua casa ou fazes tu para mim, perguntou com naturalidade. Penso que tenho o suficiente para os dois. Faço eu, respondeu o Leonel. Vestiram-se e atravessaram o passadiço, agora em sentido contrário. Que aventura excecional e diferente. Desnudaram-se um para o outro, numa descoberta sensual, terna e amorosa em frente de toda a gente. Sem ninguém ter visto ou percebido que tinham perdido a virgindade da ignorância dos seus corpos. Foi lindo pensou ela. Incrível, pensou ele, nada me tinha acontecido assim. Logo o carro tomou a direção de casa. Ele abriu a porta embaraçado. Era um pequeno apartamento, sem qualquer luxo ou devaneio, num prédio antiquado. Provavelmente a vizinha do primeiro andar teria dado conta que ele estava a entrar com uma mulher. Ela identificou o quarto, a casa de banho e a sala, que simultaneamente tinha a cozinha num estilo americano já marcado pelo tempo. Tinha uma varanda enorme (para o apartamento) resguardada com plantas, deixando entrar luz e sol, mas dando privacidade em relação aos outros prédios. Como a urbanização era antiga, havia árvores bastante frondosas e uma distância civilizada entre os vizinhos. A temperatura do ar era excecional. No limiar entre a sala e a varanda ela pegou na mão dele e fêlo tocar nos seios. Depois deslizou a sua mão pelo fio dos calções e passou-a para dentro com calma e sem pressa. Ambos tinham a pele quente. Enquanto a respiração ficava um pouco mais ofegante, a de ambos, claro, ficaram nus. E foi ali que pela primeira vez, antes de

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almoço, com o corpo em brasa (e a paixão) ficaram unidos num só, em harmonia e prazer. A espreguiçadeira aguentou a missão. O resto do dia, depois de reporem as energias com um belíssimo prato de carne e salada que ele lhe apresentou na mesa posta por ela acompanhado com um vinho frutado e ligeiramente fresco, descansaram e voltaram vezes seguidas a percorrer os seus corpos com prazer, na tentativa do subconsciente recuperar um tempo que ainda não tinha sido deles, mas que lhes pertencia desde sempre. Jantaram tarde. Enquanto comiam pousou a mão sobre a dela. Ela admirou-lhe os dedos, as unhas curtas, arranjadas, mas bem acentuadas e delineadas no dedo, másculas. Obrigado disse-lhe. Nunca pensei que pudéssemos ter tanta privacidade privados de roupa. Obrigado pela tua ideia e por te teres mostrado livre e bela, não só por fora. Ela corou ligeiramente. Sabes, respondeu-lhe, não imaginava bem como resultaria, mas pareceu-me a melhor maneira de te dar o que sou. Nunca tinha ido a uma praia de nudistas. Tive de investigar para dominar o assunto. Eu também nunca tinha ido, respondeu o Leonel. O que pretendes fazer amanhã? desviou ela, depois de terem clarificado os aspetos daquela aventura, para os dois. Eu quero fazer duas coisas, ir à Missa e estar contigo. Aliás, estar contigo para o resto da vida. Desculpa, sei que nos conhecemos apenas na segunda-feira, mas parece-me que estiveste sempre comigo. E não estou a ser precipitado. Parece-me fácil respondeu ela: tens ideia de alguma igreja ou vamos os dois a S. Francisco? Não conheço nenhuma igreja na cidade, portanto o que escolheres está bem, concluiu ele. Resolveram vestirem-se, finalmente, e ir à rua dar uma volta pelas redondezas. Percorreram várias ruas de mãos dadas, abraçados

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e a brincarem um com o outro, como garotos no fim da escola. Era o primeiro passeio do Leonel naquela zona da cidade, que era recémchegado, mas para ela também era uma estreia, sempre tinha vivido mais para poente. O bairro apresentava alguma idade visível no tipo de construção, na altura dos prédios e nas árvores sempre presentes ao longo dos passeios. Bairros mais modernos e elegantes tinham desprezado as árvores. Sem darem conta estavam de novo à porta de casa. Quando ele pensou que se iriam beijar e marcar a hora do novo encontro ela disse que tinha de subir. Chegaram lá acima ofegantes e um pouco suados. Subiram a escada a correr em alguns lanços, depois de terem começado muito agarrados nos primeiros. Pegou no telemóvel e disse à amiga. Não te preocupes. Vou ficar aqui. O sorriso dele foi gigantesco e ameaçava fazer cair o maxilar. O domingo não teve uma história diferente da que já conhecemos. Depois de terem saído de manhã para irem à Igreja de S. Francisco e tomado café numa bela esplanada dentro do jardim no caminho para casa, fizeram o almoço e preguiçaram um pouco. O fim da tarde foi passado na praia, mas desta vez com fatos de banho. Era mais perto. Ainda não era tempo de voltar aos nudistas. Chegaram a casa e tomaram duche juntos na pequena casa de banho, salpicando água para todo o lado, que o calor secaria sem preocupações. Para dar luz e arejamento a janela para o exterior era quase de alto a baixo, mas relativamente estreita. Estava aberta, deixando entrar sem filtro os raios de sol do entardecer que ora umas vezes ora outra, conforme iam mudando de posição, acentuava o tom de pele da Inês, realçava a mão do Leonel a ensaboa-la com calma e prazer num movimento languido e terno de descoberta e êxtase, ou a sua pequena mão, de unhas vermelhas sobre os seus quadris, nos

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pelos púbicos ou nas pernas ou no peito, voltou a admirar o equilíbrio muito sedutor entre o ligeiramente peludo e a pele, suave, por baixo. Foi um duche demorado, ao ponto dos estômagos começarem a reclamar assistência técnica. O despertador suou estridente, apesar de estar sintonizado numa estação de rádio calma. Acordaram ainda abraçados e olharam um para o outro com um sorriso infantil de felicidade. Confirmaram que o tempo disponível era escasso para os dois se arranjarem e chegarem a tempo. Mas despacharam-se. À porta do prédio beijaram-se, como se o filme estivesse a chegar fim e os créditos finais fossem passar. A mistura de paixão e de amor enchia o passeio. Com dificuldade entrou cada um em seu carro e foram vencer mais uma semana de trabalho. Semana que começou complicada e que os manteve afastados, exceto do telefone até quarta-feira ao fim do dia. Ela teve de voltar a sair em viagem. Ele teve reuniões atrás de reuniões, com clientes, com colegas, com o diretor, com quase toda a gente. Faltou o porteiro e o segurança do estacionamento. A Inês regressou na quarta ao almoço, como ele sabia e por isso já estava a caminho da cervejaria quando ela despontou na esquina. A mini saia muito travada e a blusa num tom de castanho pastel, muito próximo de chocolate de leite, fizeram-lhe disparar o coração. Ela viu que ele tinha um polo verde-claro e calças informais em tom de café com leite e a barba de três dias. Com o coração descontrolado correu para ele de braços abertos. A carteira no braço em voo acelerado acertou-lhe em cheio ainda antes de ele sentir os seios dela absolutamente comprimidos contra o seu peito. O beijo foi longo, quente, profundo e demorado. O tempo de o trânsito ter parado no sinal vermelho da passadeira, centenas de peões terem

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atravessado a rua e o carro de trás ter começado a buzinar. Não ouviram e não viram nada. Naquele momento, só eles os dois estavam no mundo. Mal começaram a comer, entusiasmado como um garoto que comunicava que tinha tirado a melhor nota da turma, ele disse-lhe que iria sair mais cedo, com autorização, para irem ver uma casa. Uma casa decente. Só os dois. Tinha a chave de um apartamento para estrear numa zona interessante, nova, mas em que o urbanismo era civilizado. Apesar dos prédios serem altos, cada apartamento tinha privacidade. Levantou e baixou as sobrancelhas num gesto de brincadeira e de cumplicidade. A varanda é melhor que a minha. Em todos os aspetos. Aliás não é uma varanda, é um terraço. A casa não é grande, mas pode-se transformar em duplex quando quisermos. Parte do piso de cima está bloqueado no contrato. Podemos comprálo mais tarde. Vais gostar. Ele ainda não tinha tocado na comida que, entretanto, a empregada trouxera, depois das bebidas. Ao contrário das outras vezes, não passara os olhos pelas curvas bem pronunciadas dela nem pelo peito que transbordava da abertura da blusa, que os botões a custo sustinham. A Inês registou a intensidade do seu entusiasmo ao ter perdido aquela oportunidade. Eram 17 e cinco quando ele saiu disparado do edifício, como um garoto que tinha acabado as aulas. Beijou-a com paixão e sofreguidão. Depois de a ter soltado afastou-se ligeiramente para apreciar o que ela tinha vestido, pois durante a aproximação tinha anotado uma alteração no visual. Tinha um vestido justo de malha elástica que lhe modelava todas as formas com justiça e exuberância, num tom creme muito vivo. Os sapatos, ligeiramente altos, eram vermelhos. A carteira combinava. O sorriso dourado tinha nos lábios uma cor vermelha quente de anúncio de cinema dos anos 50. O

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coração dele bateu a descompasso e pegou-lhe na mão. Ela tinha vindo de metro para usarem só um carro. Ao cabo de uns quarteirões ele encostou o carro e ela percebeu que estava numa urbanização, que pela sua configuração quase ficava isolada da avenida principal. Subiram depois de ambos terem apreciado a rua, o movimento ligeiro e de terem inclinado a cabeça até ao topo do prédio. Moderno, elegante, não espalhafatoso. A fachada principal parecia ser formada por grandes varandas, desenhadas de tal forma que cada uma estava quase só no ar, como ela pode constatar a seguir. O átrio grande e luminoso era semelhante ao do piso onde o elevador parou, no décimo primeiro. O apartamento tinha uma organização parecida com a do velhinho do Leonel embora as divisões fossem mais generosas e luminosas. À esquerda a sala e a cozinha formando um enorme conjunto com o terraço e à direita os dois quartos. No centro ficava um volume fechado que era, nitidamente o acesso aos restantes quartos em duplex, como ele tinha referido. Por trás da escada uma enorme (para ela) casa de banho onde os olhos caiam imediatamente na cabine de duche generosa. Não havia mobília exceto duas cadeiras e uma pequena mesa a lembrar as esplanadas francesas, estavam entre a sala e o terraço. Sim, não se podia chamar à melhor divisão da casa varanda. Percorreram as divisões, olharam pelas janelas. Olharam a rua apreciando o trânsito escasso que passava, os carros alinhados ao longo do passeio e ele arrumou mentalmente as cores. A temperatura estava muito agradável. Olharam-se nos olhos e quase ao mesmo tempo disseram: é a nossa casa. Os lábios colaram-se lentamente e trocaram caricias quentes com a língua enquanto ele tateou ao longo do corpo dela, sem pressa, com delicadeza. O tecido fino e suave transmitia o calor

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do corpo dela que ia aumentando e também uma sensação de relaxamento. Ela desapertou os botões da camisa dele um a um e empurrou-a pelos ombros abaixo sem a deixar cair. Poisou-a com jeito na cadeira e debruçando-se beijou-lhe os pequenos mamilos de homem lentamente enquanto eles pareciam querer triplicar de tamanho. Ele estava ligeiramente com a pele húmida o que contribuiu para o aumento da temperatura de ambos. O vestido dela era uma peça única, de tecido muito elástico, só com quatro aberturas e ele hesitou como executar a manobra, mas com ligeireza fê-lo subir os quadris deixando ver as pernas completas, depois as cuecas de tom de pele, depois o umbigo e finalmente o soutien. Colocou-o por cima da sua camisa, na cadeira. Abraçaram-se com tanta força como se quisessem atravessar-se em simultâneo e sair do outro lado. A mão dele deslizou pelas suas costas até soltar, num ápice, o fecho do soutien. Mas ela não se distraiu e com as duas mãos fez descer os bóxeres estampados dele até ao chão depois de abrir o cinto e os botões das calças. Com muita suavidade os dedos dele tatearam-na centímetro a centímetro até ao centro e afastaram a pequena e simbólica selva do tesouro, de tom quase rubro, enquanto a mão dela apertava o cetro dele vibrante e palpitante. Na eternidade de segundos que durou o percurso até estarem absolutamente unidos um ao outro, o mundo parou de girar, o arco iris de felicidade que saia dos seus corações deu a volta à Via Láctea. Amaram-se com calma, tranquilidade e privacidade no terraço da sua casa. Pela primeira vez. De muitas, que nunca seriam capazes de contabilizar. Em menos de um mês tinham comprado a casa e a decoração minimalista que desejavam foi surgindo. No trigésimo dia de vida voltaram à praia de nudistas repetir a experiência. Mas agora foi mais difícil. Não havia nervosismo, era dia de semana e havia menos gente e a novidade não era

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conhecerem-se, mas sim controlarem-se. Caminharam de mãos dadas com os pés na água ao longo da praia enquanto o céu se ia alaranjando e o sol se apressava a desaparecer. Tomaram banho, nadaram e deitaram-se na toalha, juntinhos como se não houvesse espaço, quando já estavam cansados. Foi bem perto daquele sítio, que num sábado, viram aquela nudista sozinha, e apreciaram-na, cada um distraidamente, sem ela perceber, para não violarem a etiqueta dos nudistas, que viria a ser a vizinha Catarina. Uns tempos mais tarde deu-se então aquele encontro no patamar. Olá, eu sou a Catarina. Sou a nova vizinha. Avançou para eles e estendeu a mão. Não tinha ideia deles ou não o quis dar a entender. Provavelmente não teria visto todas as caras naquela praia de nudistas, naquele dia. Estava sozinha, recatada e discreta, apesar de parecer bem consigo mesma. Junto à toalha tinha os chinelos, no mesmo tom e um saco de praia, de onde tirou, depois de se deitar uns óculos e um livro. Por outro lado, talvez fosse embaraçoso para ela reconhecer que já os tinha visto, a ambos, nus. Eram um casal e ela estava sozinha, na praia, antes e agora no patamar. Sem combinarem hesitaram os dois, mas a Inês deu-lhe a face e beijaramse. O Leonel acabou por dizer apenas olá. Foi o início do relacionamento de vizinhos. Tão só isso. Perceberam que a Catarina tinha uma vida regular, isto é, com uma rotina diária e semanal quase de relógio suíço. Notaram que era reservada e ou tímida. Tímida como? Uma mulher que vai sozinha a uma praia de nudistas? Algum dia esse tópico virá à conversa, seguramente. Um dia, estavam à espera do elevador, entrou no prédio a Catarina com um rapaz pelo braço. O Leonel e a Inês trocaram um olhar rápido muito discreto e impercetível, como só os casais muito cúmplices conseguem. Ficavam bem juntos, embora o rapaz parecesse deslocado, quase como a pedir desculpa por estar ali a

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respirar. Com descontração e felicidade na voz a Catarina fez as apresentações: este é o Jaime. Em breve o Jaime vivia com a Catarina. Passado algum tempo de encontros de vizinhos a entrar ou a sair do prédio ou no patamar, um fim de tarde, a passearem encontraram-se à porta do mesmo restaurantezinho. Sorriram e trocaram beijos entre si e, naquele momento, decidiram jantar juntos. O Leonel e a Inês para além de alguns colegas de trabalho não tinham muitos amigos. Aliás o Leonel tinha apenas o Pedro como amizade do tempo da faculdade e agora colega de trabalho e apenas mais dois companheiros também dos tempos da universidade, mas longe da secção dos amigos, apesar de algumas vezes terem saído, mas não com a Inês. Pelo seu lado ela ainda estava a depurar o seu círculo de amigas, pois algumas, duas ou três, tinham com a sua rutura com o parvalhão tentado a sua sorte de boneca de exibição. Assim, que aquele encontro inesperado, na hora de jantar, foi aceite como interessante. Podiam conhecer melhor a vizinha, para lá do seu exterior e dar um pouco de mudança às suas saídas. Apesar do desejo de viverem um para o outro ainda estar no topo também conviver com outros fazia parte dos seus planos de vida. Uma relação para respirar precisa também de viver para fora. Apesar de pacato, um pouco calado e tímido, o Jaime revelou-se excelente companhia. Bom conversador, divertido e intelectualmente superior, era uma mais-valia numa saída. Afinal os dois faziam um par interessante e muito menos díspar do que as suposições iniciais tinham pintado no cenário, quando o viram a primeira vez. Tinha calções aos quadrados, sandálias de couro e uma camisa ligeiramente aberta que mostrava um peito alvo como se não apanhasse sol desde a infância. As pernas também eram bastante brancas. Este efeito era acentuado por ter cabelo louro curto, que se prolongava em pelo curto rarefeito, pelo corpo num tom ainda mais

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claro. De particular usava uma mosca, no queixo, logo por baixo do lábio. Em vez de o tornar mais velho dava-lhe um ar gaiato. Nesse dia não combinava com a Catarina. Ela tinha uma saia muito leve, quase transparente em tom azul e uma blusa branca, muito ligeira, deixando ver o soutien azul-escuro, quer através do tecido quer pelo decote generoso que os botões abertos convidavam a desvendar mais, num estilo mais cuidado. Apesar do Leonel já ter visto o conteúdo era sempre tentado a olhar para um decote interessante. Ele e a Inês combinavam melhor, quer no bronzeado que na roupa. Ele tinha calções no tom quase da blusa dela e sandálias castanhas, como ela. A blusa dela era de algodão ligeiro, mas de bom corte e não deixava perceber a cor do soutien ou se ela se tinha esquecido dele. Devido à formação científica e profissões dos quatro a conversa fluiu com facilidade e o jantar foi agradável, como seriam os outros que espaçadamente ocorreram. Nesse dia quando a Inês chegou depois do trabalho, já o Leonel estava a fazer o jantar, que estava quase pronto. Já tinha posto a mesa no terraço com uma vela. Beijaram-se apaixonadamente e o aquecimento central de ambos disparou. Espera, agora não, sorriu ele com cumplicidade, enquanto lhe afagava o peito devagarinho e os boxers ficavam com menos espaço. Temos de ir tocar à porta da Catarina, lembrou. Precisamos de saber do Jaime. Pegou-lhe na mão e mesmo descalços saíram para o patamar. Repetiram a operação daquela madrugada tocando à campainha. Deste conta de ela chegar, perguntou, entretanto, a Inês. Não, estava a ouvir música. Uns segundos depois perceberam que a Catarina ia abrir. Tinha tirado a roupa da rua pois vestia um pequeno top e uns calções muito pequenos. Também estava descalça. O rosto estava marcado por uma noite de preocupações e de pouco descanso. Entrem, convidou.

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Foram direitos à mesa da cozinha e apareceram copos. Então, quais são as notícias? Perguntaram, seguindo-a enquanto fechava a porta. A Catarina vestia habitualmente com elegância e distinção, devido ao seu trabalho de diretora executiva na área da comunicação. Blusas, sais casacos e saltos altos eram quase como um utensilio de trabalho para ela. Completado por maquilhagem discreta, mas de qualidade o quadro retirava-lhe alguma informalidade à sua postura, pelo que facilmente poderia afastar pessoas que não tivessem de privar com ela mais de perto ou ainda não a conhecessem. Tinha uma personalidade afável e dócil, mas apenas depois de ter aberto a sua vedação. Antes era dura e distante. Punha os seus subordinados na ordem com facilidade e obtinha sempre os resultados esperados, usando ou não os objetivos e estratégias delineadas. Apenas escassas vezes a tinham visto informalmente vestida, não esquecendo a informalidade mais natural na praia de nudistas. Como esquecer, se ela é a vizinha do lado? Foi ao balcão da cozinha, pegou num jarro de limonada e colocou-o na mesa de apoio em frente ao sofá. Sentou-se sobre uma perna e começou a falar enquanto se serviam. O Jaime já está a caminho de Frankfurt. Conseguiu entrar no avião às 11 horas de cá e depois são quase 12 horas até à Alemanha. O que significa que devo conseguir falar com ele perto da meia-noite. Afinal correu tudo bem. A polícia do aeroporto encontrou a pasta dos documentos abandonada atrás de um vaso, quase na zona de check-in. À medida que foi falando foi relaxando e parecia agora muito menos cansada. As rugas ligeiras do canto dos olhos tinham desaparecido e a face estava menos pálida. Ficaram a saber que depois o Jaime teria de aguardar o voo de ligação, que deveria ser perto das quatro da manhã. O que significava que iria buscá-lo ao aeroporto a meio da manhã, na melhor das hipóteses, mas isso só teria confirmado

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quando ele lhe indicasse a hora da partida de Frankfurt. Perguntaram-lhe se ela queria jantar com eles, pois estava quase pronto, mas a Catarina recusou. Voltaram para casa, de mãos dadas, não que o caminho fosse longo, mas porque tinham estado afastados o dia todo e hoje tinha sido um dia em que nem tinham almoçado juntos. Jantaram calmamente e depois de arrumarem a cozinha verificaram se havia algum trabalho de casa para completar. Por fim foram para o terraço preguiçar um pouco. Esticaram-se nas espreguiçadeiras e a música de fundo acompanhava o ruído distante do mar compondo o cenário para uma lua deslumbrante, com uma luminosidade branca quente que refulgia e mantinha a temperatura elevada. Lá em baixo o barulho dos carros era escasso, pois não havia quase trânsito nenhum. O terraço estava envolvido na luz ténue da iluminação muito discreta, sobretudo por causa dos insetos. Passado um pedaço de tempo, o seu cérebro começou a divagar da leitura porque no seu campo visual estava recortada a silhueta nua da Inês, estendida, de livro na mão, ao lado tinha um copo de água fresca e os dedos brincavam distraídos com o marcador das páginas. Nem percebeu que ele tinha parado de ler e olhava para ela. Como já tinha feito tantas vezes, e muitas mais iria fazer, pela vida. Estava deleitado, admirando-a curva a curva. Uma vez tinha começado pelos pés e subido lentamente pelas pernas torneadas com precisão, parado nos joelhos e embalado pela subida em direção às coxas. Quando ia a avançar sobre o ventre distraiu-se e voltou ao princípio, mas desta vez pelos cabelos, entre o louro e o castanho, encaracolados desalinhados, as pestanas, não muito fartas nem muito longas, mas adequadas ao seu rosto. Os olhos concentrados, pareciam muito negros, mas isso devia-se à luz ténue onde estavam. Desceu ao

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pescoço depois de ter sugado, com os olhos, os seus lábios bem proporcionados e elegantes, que por vezes faziam covinhas nos cantos, quanto ela se ria de um jeito só seu, muito discretamente. A curvas do pescoço encantavam-no e apetecia-lhe sempre fazer deslizar a mão em direção aos seios, redondos, firmes, acolhedores, saborosos e apetitosos. Todos os preliminares deles tinham um ato inteiro neste ponto. Poderia não haver tempo para sexo, mas os seios teriam de ser visitados e cumprimentados, com delonga, muitas vezes. Assim como sempre que conseguia a mão deslizava com atrevimento para dentro das cuecas dela onde, por momentos, se perdia com deleite em busca do tesouro. Neste momento se ela tem levantado os olhos do livro era impossível não ver o estado em que ele estava. Percebeu um pouco depois, quando ele se colou a ela e a beijou, sem parar, até estarem num só. A lua não se envergonhou, mas antes sorriu irradiando com mais intensidade. O dia seguinte foi agitado. Não tiveram tempo de ir almoçar a casa, limitando-se a encontrarem-se, de fugida, na cervejaria da esquina, onde comeram apressados. Por isso até à hora de jantar não souberam nada da Catarina nem do Jaime. Quando chegaram, ainda antes de entrarem em casa tocaram à campainha dos vizinhos, com expectativa. Foi com alegria que viram um Jaime sorridente e quase tímido, com o cabelo em desalinho, barba de três dias a espreitar por cima do ombro da Catarina, que estava descalça, uma pequena saia de algodão e um top muito largo amarelo que apenas fingia tapar alguma coisa. Não que eles já não tivessem visto tudo. A maquilhagem já há bastante tempo que tinha deixado de ser um borrão. O Jaime tinha olheiras marcadas, mas um sorriso gaiato, como sempre, que lhe dava um ar simultaneamente de miúdo traquina e de sabichão. Estava apenas de calções. Saiu disparado de

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trás da Catarina e atirou-se ao pescoço do Leonel, como se não se vissem desde o ano passado ou fossem amigos íntimos desde a primária. As duas olharam uma para a outra, cúmplices. De seguida o Jaime espetou um beijo sonoro na face da Inês, como nunca tinha feito nos escassos meses em que se conheciam. Os três desataram a rir enquanto, comovido, o Jaime olhava para cada um à vez. Estiveram quase para jantar juntos, mas o cansaço na cara do Jaime, a expressão da Catarina, entre o maternal preocupado e a mulher apaixonada, e o bom senso do Leonel e da Inês acabaram por os separar naquela noite. Afinal haveriam de celebrar aquele reencontro noutro dia. O verão foi decorrendo com tranquilidade e entre uns dias de férias, o aperto do trabalho devido aos colegas de férias, o certo é que os quatro encontraram-se poucas vezes, até no patamar ou no átrio. Mesmo no terraço os avistamentos, ainda que momentâneos foram escassos. Tudo estava bem, assim parecia. Num dos primeiros dias de Setembro, numa tarde radiosa e calorenta, sem brisa nem frescor vindo do mar, quase em simultâneo o Leonel e a Inês decidiram, depois do trabalho, ir dar um mergulho sem roupa. Prepararam as poucas coisas necessárias e foram direitos à primeira praia da sua vida comum. Apesar de ser a meio semana e já ter começado o último mês de verão, foi difícil arranjar lugar para deixar o carro. Desta vez não havia sombra. Percorreram a passadeira de mão dada e, como sempre, lá ao fundo, olhando vagamente o horizonte do areal e a linha do mar o Leonel deu o habitual impulso para a esquerda. Escolheram um lugar, olharam calmamente em redor, tomando posse do seu pedaço de praia e tiraram a roupa devagar. No caso da Inês o vestido apenas, que saiu com o estilo habitual das senhoras, quando puxam uma peça de roupa para cima

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cruzando os braços, o que permitiu ir descobrindo debaixo para cima o seu corpo, agora bem bronzeado, mas sem exagero. A saúde da pele é sempre uma preocupação. As coxas, a púbis, o ventre, os seios e o seu sorriso despontando no fim, como uma coroa. Estava equipada. No caso do Leonel a camisa tinha ficado novamente, como de costume, no banco do carro. Desapertou o fio dos calções, laçou-o um pouco e com um pequeno toque este desceu ao longo das pernas deixando ver, à vez, as nádegas ligeiramente peludas, agora num tom mais claro dos pelos, devido ao bronzeado, e depois o triangulo púbico bem fornecido onde desta vez, sem lhe causar embaraços, o seu companheiro esperava, o momento de ir à água, com calma. A última coisa que tirou foi o chapéu branco com a fita azul escura. Depositou-o com um lançamento curto entre as duas toalhas que tinham esticado. Ele apanhou a mão dela e correram para a água como garotos de escola. Nadaram, brincaram, passearam ao longo da areia e depois de cansados foram secar. Estava distraído a olhar o horizonte da linha de água, mordendo com apetite o lanche que tinham trazido. Garrafa de água junto à coxa, à sombra, quando uma mulher, jeitosa, diga-se de passagem, com as curvas no sítio, prendendo-lhe os olhos distraídos, atravessou o seu campo visual saindo da água. No primeiro instante era apenas mais uma nudista, agradável à vista, ao contrário de um grupo que estava ali mais para a direita, embaciando um pouco o cenário. Mais um corpo bronzeado, mas vinha com ela um homem mais claro, alourado e com uma mosca no queixo. Olhou melhor para as pernas, o tronco, o peito. Caramba! A Catarina e o Jaime! Nus! Sem uma pecinha de roupa! Passaram, cruzando o espaço, apaixonados, sem reparar. Entretanto, no meio do espanto que ameaçava fazer cair o queixo e

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enterrar-se na areia o Leonel tocou ao de leve na InĂŞs e esticou o dedo para ela ver. NĂŁo repararam, disse. Ou talvez nĂŁo!

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O monte da aldeia

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O sol foi entrando devagar pela janela e momentos depois, já sem cerimónia, enchia o quarto e atingia em força as costas dele. Lá fora, a pequena aldeia com umas várias centenas de casas, empoleiradas no cimo da crista, num pequeno planalto que tentava espraiar-se, quase no topo da encosta, começava a despertar para mais um dia de verão. A maioria dos habitantes já estava embrenhada nas suas lides habituais e o dia prometia ser outra vez quente. A essa hora, uma muito ligeira brisa matinal agitava com suavidade os ramos. Só os forasteiros estavam ainda recolhidos. Ele esticou o braço procurando o corpo dela, sem despertar, e deixou a mão encher-se com o seio, redondo e quente. Estavam encaixados, as costas dela contra o peito dele. Nem o facto de começar a suar ligeiramente nas costas o despertou. O dia anterior tinha sido cansativo, percorrendo o vale e algumas cumeeiras, confirmando os dados recolhidos anteriormente e verificando o decurso das obras. E a noite quente tinha-lhes atiçado o fogo dos seus corpos, que o trabalho tinha contido num recato não desejado, pelo que só adormeceram depois de esgotada aquela energia interior. Depois de jantar, no alpendre que dava da cozinha para o quintal os habitantes da casa tinham ficado um bom pedaço à conversa. Uma revisão da semana de trabalho, um breve

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apontamento do que se faria na seguinte e outros assuntos mais ligeiros que foram esmorecendo e dando lugar ao sono. Perto das onze e meia, já todos tinham rumado em direção à cama. O quarto era pequeno, de casa de aldeia, paredes caiadas de branco, uma cama rústica, uma cadeira, um guarda-fato antigo. O chão era de soalho, impecavelmente limpo e envernizado. Uma das modernidades da casa. A porta, de madeira escura, pelo tempo, estava fechada. Estavam deitados de lado, nus e destapados. Tal como tinham adormecido. Pela janela aberta entravam, além do sol os sons crescentes da atividade lá fora ao longe e a tranquilidade que só existe nas manhãs do campo. A casa tinha, além da cozinha grande e moderna, centro da vida, uma sala pequena, virada para a rua estreita, mas acolhedora, e quatro quartos, em níveis diferentes ao longo de um corredor desigual com dois degraus a meio. Na verdade, em tempos teriam sido duas casas. Aqui e ali, um olhar atento descortinava pormenores dessa existência. Duas casas de banho, bem equipadas, outra das modernidades, davam qualidade de vida urbana àquele pedaço de calma que se conseguia viver ali, não fosse a agitação que a empreitada tinha trazido à aldeia. Além deles os dois, vivam ali, até ao fim da obra, mais dois engenheiros, que repartiam o quarto maior e a jurista que completava a equipa. Ele tinha ficado com o quarto mais pequeno, ao fundo da casa. O dela, agora vazio, era com o da jurista no princípio do corredor. Estavam ali há três semanas e ainda havia trabalho, segundo o plano, para mais duas, apesar de estarem, para já, ligeiramente adiantados. Quando fizessem as malas e partissem a nova ligação

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elétrica à aldeia estaria quase concluída e os habitantes já não teriam picos de corrente nem sobressaltos no próximo inverno. Sobretudo as comunicações telefónicas e por estrada estariam facilitadas e mais fiáveis. A movimentação dos trabalhadores da elétrica para a colocação do novo transformador tinha exigido a abertura de uma estrada mais larga e mais segura e o melhor de tudo, mais curta. Agora a vila estava vinte minutos mais próxima. No dia em que chegou à aldeia ele ainda não a conhecia. Ela fazia parte do projeto, como técnica florestal especialista, com a missão de identificar as espécies a proteger, mas não pertencia à companhia. Tinha acabado de estacionar o jipe no largo da igreja, o espaço mais amplo da aldeia e mais perto da casa, quando outro jipe estacionou ao lado. Enquanto pegava na pasta do computador e numa mochila de trabalho, viu-a através do vidro da porta traseira, sair e contornar o veículo em sua direção. Botas de trabalho de campo, calções curtos mostrando umas pernas relativamente altas, bem-feitas e ligeiramente bronzeadas. Para cima tinha uma blusa de algodão relativamente justa, mas com aspeto confortável e prático, creme quase branca. Cabelo castanho solto, pelos ombros e um sorriso franco e luminoso. O coração deixou de bater quando ela numa voz agradável e bem modulada, embora um pouco mais grave que seria de esperar, lhe disse bom dia eu sou a Susana, Susana Mendonça. Ele gaguejou qualquer coisa enquanto tentava retornar à vida. Estranho, muito estranho. Ele não era exatamente inábil com as mulheres e apesar de não ser um libertino ou aventureiro não ficava naquele estado perante uma fêmea bem-apessoada. Este seria um ponto que lhe levaria algumas horas de reflexão em breve.

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Eu sou o Tiago, conseguiu dizer finalmente. Sou o chefe da equipa. Bom, não diria chefe, mas o responsável pelo cumprimento dos prazos, o relacionamento com a população e o relatório. Depois daquele momento, que só mais tarde seria claro para ele, e vencida a hesitação ele retomou as suas faculdades e com um pequeno gesto começaram a caminhar em direção a uma rua no canto do largo. Ela deitou uma vista de olhos ao pelourinho e seguiu atrás dele, procurando acompanhar a passada. O som de rodas contra o empedrado e de um veículo a travar levou-os a olhar para trás em direção ao sítio onde tinham deixado os seus. Era outro jipe, amarelo forte da mesma marca do dele. São os engenheiros, informou-a, parando voltado para o largo. Apearam-se dois homens novos, saindo quase em simultâneo e também quase em simultâneo levantaram o braço saudando o Tiago. Perto da casa dos trinta, vinham ambos de botas de trabalho, calções e camisas de algodão com bolsos no peito. Calções e camisa de cor acastanhada clara. Rostos magros e barba curta bem tratada eram o palco de um sorriso franco e jovial. Troncos robustos e bem constituídos tinham um bronzeado nítido de horas ao ar livre. Ao aproximarem-se cada um deu um sonoro abraço ao Tiago e na presença da mulher retraíram-se um pouco. O Tiago fez as apresentações. Esta é a Susana, técnica florestal e a missão dela é impedir que deitemos abaixo as espécies erradas. Enquanto a cumprimentavam ele acrescentou: este é o José António e este é o António José. Ela não se podia ter mostrado mais confusa e surpreendida, pela expressão que o seu rosto transmitiu. Olhou com atenção para ambos e foi incapaz de os distinguir. Eram absolutamente idênticos. Dos pés à cabeça.

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Retomaram o caminho e ao fim de uma dúzia de passos o Tiago meteu a chave a uma porta rustica numa casa de pedra aparente. Duas janelas, maiores que as restantes da rua, mas em harmonia com a vetustez da povoação, uma de cada lado da porta. Entraram os quatro e as bagagens numa sala de casa de aldeia, mas nitidamente renovada. O Tiago era o único que conhecia o interior. Tinha-a alugado no mês anterior, ainda antes de entrar no mercado de turismo rural. A Susana e a Margarida ficam com os dois primeiros quartos. Podes escolher Susana, pois a Margarida ainda não chegou. O José e o António ficam com o quarto maior ao fundo do corredor e eu fico com o mais pequeno. Os gémeos partiram em direção ao fundo do corredor e a Susana foi investigar os dois quartos. Optou pelo segundo. Ficava mais longe da sala e mais perto das casas de banho. Assim a jurista, quando chegasse ficaria com o quarto com janela para a rua. Venham tomar café, chamou da cozinha. Tinha ligado a máquina do café e posto na mesa pão de centeio, manteiga e queijo e um jarro de sumo de laranja. Ou tinham demorado muito a instalarem-se ou ele fazia milagres de logística. O quarto da Susana era pequeno, acolhedor e com uma porta para o quintal com um pequeno alpendre. Colocou as suas coisas na cadeira e no chão. Abriu a porta, reparou que o quintal era pequeno. Não daria muito trabalho a manter, mas a relva estava bem tratada e clamava para que ela se descalçasse e andasse em cima dela. Pensou que devia tirar a blusa fechada de gola redonda e colocar uma camisa de botões. O dia parecia ir aquecer. Na realidade os três homens que tinha acabado de conhecer eram apetitosos. Seria por isso que estava com calor? Estes seus pensamentos, que a fizeram sorrir e repreender-se a si própria (pareces uma depravada) foram interrompidos pelo chamamento do chefe.

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Os gémeos gostaram do quarto. Era grande, espaçoso e luminoso. Tinha uma janela, maior do que seria de esperar numa casa de aldeia e uma porta para o quintal. Duas camas, um armário e uma mesa de trabalho. O José abriu a porta e passou para o alpendre, no momento em que a Susana fazia o mesmo. Entraram na cozinha quase ao mesmo tempo. Era grande, espaçosa e bem equipada, com uma porta larga para o quintal. Tal como em várias partes da casa a pedra era aparente por entre panos de parede branca. A decoração nitidamente rural tinha um toque cuidado de atualidade sem ferir o ambiente geral. O Tiago estava sentado num banco de madeira e fez sinal para que se sentassem. Vamos começar a trabalhar, disse. Empurrou em direção de cada um uma chave deixando uma abandonada. Esta é a chave da casa, se quiserem fechar os vossos quartos a chave está na porta. Não se preocupem com o calor. A estrutura da casa e a sua exposição e as obras que teve, permitem uma temperatura adequada durante o dia e durante a noite. Verão as maravilhas da arquitetura quando aliada à engenharia. A rede de internet é sem fios e a palavra passe está na sala. Ao pequeno-almoço, cada um está por sua conta incluindo a limpeza da louça e a arrumação da cozinha, mas contratei uma senhora para fazer o almoço e o jantar. Podemos acertar a ementa antecipadamente ou deixar à criatividade dela. A Margarida, a jurista que nos apoiará na resolução de eventuais conflitos legais, pelos vistos chegará mais tarde. Para já não é precisa. Depois de comermos, damos uma vista de olhos pela aldeia e pela área de intervenção. Algumas coisas já estão no terreno. Outras equipas já fizeram a parte delas. Temos cinco semanas pela frente. Será um Verão na serra.

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Saíram e tomaram a direção do largo do pelourinho. De frente, em relação à sua rua, na cabeceira do largo a igreja matriz, claramente barroca, caiada de branco, com a torre sineira à esquerda da porta principal e felizmente sem os tão habituais altifalantes empoleirados, tão vulgares em tantas aldeias de norte a sul. Dentro em breve iam perceber que os sinos davam conta do recado a anunciar as horas, as meias horas e os quartos. Também em breve deixariam de reparar nesse som que se tornou familiar e agradável. No centro o pelourinho, testemunho do poder local conquistado, em tempos idos, pelos habitantes e que a Susana tinha tentado apreciar à chegada. Era um largo acolhedor e soalheiro, com casas quase todas cuidadas. Havia um café, pequeno, com duas mesas e quatro cadeiras cada, na rua fazendo uma acolhedora esplanada. Com a mão indicou: é o café do senhor Manuel, tem bom café. Ao lado a mulher tem um pequeno mercadinho com quase tudo o que é preciso, incluindo protetor solar. A farmácia fica naquela rua, mais ou menos a meio e apontou para a rua do lado esquerdo da igreja. Deambularam por algumas ruas da aldeia, apreciaram a paisagem, tomaram nota do enquadramento e da forma como a sua intervenção não podia arruinar a natureza, que ali naquele pequeno canto da civilização lhes parecia tão acolhedora. Vou ter de ver se há por aí uma casa à venda. O sítio parece formidável para viver. Calmo. Foi o comentário da Susana, sublinhado pelos homens com um lento abanar de cabeça, quando num pequeno varandim de uma das ruas, se abarcava o vale com o rio a correr mansamente. Além do rio, nas horas que tiverem livres há uma piscina pública lá em cima, à saída da aldeia, em direção ao topo da encosta. O sítio é excelente, mas têm de ter cuidado com os escaldões. Sobre

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os espaços verdes, nem preciso de comentar, vamos encontrar recantos excelentes. Depois de mais umas indicações sobre o que conhecia da vida na aldeia, foram-se encaminhando para casa. A senhora Joaquina já deve estar a adiantar o almoço, disse ele. Efetivamente ao abrirem a porta foram recebidos pelo cheiro de pão quente que pairava no ar e caldo verde a ser apurado. Bom dia, disseram quase em uníssono a espreitarem para dentro da cozinha. Foram recebidos com um sorriso bondoso e maternal. A senhora Joaquina, nitidamente marcada pela vida do campo, tinha uma idade indecifrável. Era de pequena estatura e tinha uma bata de chita vestida, como se estivesse em sua casa. Fizeram-se as apresentações. A mesa das refeições depressa foi parar ao alpendre. Começaram, pois, a marcar a casa com os seus hábitos e gostos. Em breve estavam a almoçar. A senhora Joaquina tinha preparado migas com carne grelhada na brasa e o caldo verde que as narinas tinham apreciado antes. Apesar de uma tentativa de protesto dos gémeos que não se comia sopa no verão ela não fez caso. Têm de ter força para correrem serra acima e serra abaixo. Os ares aqui são muito fortes. Na verdade, comeram com satisfação. A Susana usou o almoço para perscrutar os seus novos colegas. Entre as colheres de sopa e as garfadas de migas observou com atenção como o José e o António eram muito, mas muito idênticos. Não conseguiu vislumbrar um único ponto que pudesse reter para os distinguir. O corte da barba era cópia um do outro. O cabelo quer no tom quer no penteado não dava nenhuma pista. E quando pensava que tinha encontrado a solução, o José tinha aliança e ficou tranquila com esse pormenor, deu conta, pouco depois que o António também tinha e muito idêntica. A mesa era ampla. O Tiago

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tinha ficado ao lado da senhora Joaquina, ela à sua esquerda. O António na cabeceira desse lado da mesa e à sua esquerda o José, em frente à cozinheira. Ela estava em frente ao Tiago. A outra cabeceira tinha ficado livre. Seria o lugar da Margarida? Será que os lugares ficariam fixos ou dependeria da chegada à refeição? Será que isso iria ser importante? A conversa ia fluindo com a senhora Joaquina muito entusiasmada. Não parecia uma aldeã inculta. Voltou à sua observação. Analisou a voz de cada um e fechou, sem darem conta, por momentos os olhos para as fixar. Depois a roupa. Efetivamente, por baixo da bata de chita a senhora Joaquina tinha uma blusa. A Susana lembrava-se de ter visto o padrão numa das suas lojas preferidas do centro comercial. Observou que os três homens eram ligeiramente peludos nos braços e também no peito, pois tinham agora a camisa mais aberta. Estavam a almoçar, estavam à vontade. Embora, no caso dos gémeos num tom bastante mais claro. Apreciou, com facilidade, as mãos dos gémeos. Dedos longos, finos e elegantes e idênticos, novamente. E comparou com as mãos do Tiago. Os dedos pareciam perfeitos e moviam-se com elegância enquanto falava, mas sem afetação. Não tinha nada nos dedos. Não tinha aliança. Seria ou não casado? Isso não era importante. Aquilo era apenas trabalho, num período definido. E só isso. Por acaso já nem se lembrava quando tinha devolvido à mãe o traste do seu ex-namorado. O imbecil que achava que ela devia ficar em casa a limpar e a cozinhar. Não seria ali que ela mudaria a situação. Aliás, esse era um dos motivos porque tinha aceitado aquele trabalho, arejar e esquecer o fulano. A oportunidade de defender um pedaço de floresta do progresso e pôr alguns engenheiros na linha também tinha pesado na decisão. A sobremesa mostrou-se gloriosa. Pudim de ovos com caramelo, feito em casa. Não pode continuar a cozinhar assim, senão não caberemos nas portas em breve. E não vamos conseguir acabar a

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obra disse o António com um ar regalado que apelava a uma sesta. A senhora Joaquina corou um pouco nas ficou nitidamente vaidosa. Durante a tarde dedicaram-se a organizar o trabalho da primeira semana. O Tiago foi falar com o presidente da junta. À noite haveria uma reunião com a população no pavilhão multiuso. A empresa queria ter a população interessada no projeto e não contra ele. A Susana decidiu familiarizar-se com as plantas de trabalho e ocupou parte da mesa da sala. A temperatura era perfeita. Tinha tirado as botas e estava de chinelos, que perdera no chão da sala enquanto, distraída, brincava com os pés. Parecia que estava em casa. Ao fim da tarde, aproximava-se o jantar a passos largos, mas o sol ainda ria alto, inundando o vale, as encostas e a aldeia, tocou o telemóvel do Tiago, que estava num móvel da sala mais perto da porta. A Susana, sobressaltada, procurou os chinelos, pegou no telemóvel e foi direita à cozinha. O Tiago estava no alpendre esticado numa cadeira. É para ti. E passou-lhe o aparelho. Vou ter contigo disse ele. Dois minutos, já chego ao pé de ti. Desligou e disse: É a Margarida. Está junto ao jipe. Volto já. Num instante estava no largo do pelourinho. Ela já tinha saído do carro, um modelo recente, de quatro portas, azul elétrico. Estava a olhar em redor as fachadas e quando deu com ele a avançar acenou-lhe e abriu um sorriso, que lhe ficava bem, mas talvez um pouco estudado. Beijaram-se, como colegas de trabalho e ele disse-lhe algo sobre a sua elegância. Ela respondeu-lhe, provocadora, tu és um pãozinho… sem sal. No largo estavam agora estacionadas quatro viaturas de fora. A porta abriu-se, empurrada pelo Tiago e os três engenheiros puderam ver um vestido vermelho, bem justo e curto, provavelmente de lycra, com um decote generoso, que revelava um corpo bem definido, nem magro nem gordo, que qualquer homem não

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desdenharia percorrer com todos os sentidos, entrar na sala. Os sapatos eram cremes claros, de salto fino com uns dez centímetros pelo menos. A pele estava bem bronzeada fazendo sobressair as pernas e o colo. Na sala tinham percebido que estavam a chegar pelo barulho das rodas da mala rua fora em aproximação. O que foi confirmado quando à frente do Tiago a dita mala entrou. Sem demora apresentou a Susana. Era a única que a Margarida não conhecia. A senhora Joaquina estava na cozinha. Seria apresentada depois. As duas mulheres beijaram-se, aparentemente com empatia. A Margarida calçada era da mesma altura da Susana de chinelos. O jantar foi agradável. Esclarecendo a interrogação da Susana, da hora de almoço, sentaram-se como calhou em redor da mesa. Mesmo ao jantar o alpendre era muito agradável. De fundo, o entardecer na paisagem ajudava o espírito a abrandar e apesar de ainda terem trabalho nessa noite, estavam todos descontraídos. A Margarida aproveitou para perguntar se o namorado a podia visitar alguns dias. O Tiago não se opôs, mas realçou que não podia haver interferências no trabalho e na produtividade da equipa e na dela. A Margarida corou muito ligeiramente. Ninguém reparou, entretidos com a conversa que tinha seguido em frente. A reunião foi relativamente rápida e tranquila. A sala estava quase cheia e os habitantes mostraram-se interessados em conhecer os pormenores do projeto, a duração da obra e os benefícios. O Tiago começou por apresentar as pessoas que estavam com ele, explicar as funções e depois pediu aos gémeos que explicassem o que se iria passar nas próximas semanas. Apenas uma pergunta legal mais incisiva necessitou da intervenção da Margarida, que se mostrou muito clara e assertiva na resposta, parecendo anular um possível conflito. No fim, pelo caminho o Tiago realçou a qualidade da sua intervenção e concluiu que achava que não haveria problemas. Os

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cinco percorreram com descontração, em passo de passeio, as ruas da aldeia, mas não no trajeto mais curto e direto. A noite estava muito agradável e a lua, grande, redonda e brilhante acompanhavaos. Juntaram-se em volta da mesa no alpendre. Tinha-se tornado o centro da casa nas horas de descontração. Fora isso era a sala o local de trabalho. Beberam chá gelado e morderam umas bolachas, até que o cansaço foi vencendo a conversa. Nessa noite adormeceu depressa. Porém, na mudança de sono, veio-lhe à memória o momento em que na traseira do jipe encarou com a Susana que chegava. Durante todo o dia não se lembrou do incidente, mas o subconsciente, afinal ainda não tinha resolvido o caso e encerrado o assunto. Sem nenhuma conclusão consciente voltou a adormecer sem dar conta. Levantou-se e ia a sair do quarto quando se lembrou onde estava e que havia mulheres na casa. Deitou a mão aos calções do pijama e enfiou-os. A casa de banho estava livre. Fez a barba e tomou banho rapidamente. Só depois disso reparou nas horas: oito menos dez. Ao olhar para o espelho, quando se penteava viu de novo a imagem da Susana através do vidro do jipe. Limpou-a da cabeça e foi direito à cozinha. A tentativa de análise durante a noite não tinha resultado, ainda teria de voltar aquele acontecimento para o perceber. Pegou numa caneca de leite e num pão no qual meteu uma fatia de queijo e foi sentar-se no alpendre. Não estava mais ninguém, ainda. Olhava para nada com os olhos no horizonte verdejante quando chegou a Susana. Provavelmente diretamente da cama. Tinha um pijama de verão engraçado. Calções muito curtos e uma camisola

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pequena, que tinha mais botões abertos do que devia. Ela não terá reparado. Compunha um quadro familiar e intimo, muito longe de uma equipa de trabalho em missão fora de casa. Bom dia Tiago, disse num tom de voz matinal e quente. Bom dia Susana, disse ele levantando os olhos para ela e vendo o quadro completo. Não era magra, tinha tudo no sítio, como se costuma dizer. Os seios revelavam uma grande vontade de espreitarem o mundo. Ela sentou-se do outro lado da mesa e tal como ele esticou os pés até quase tocar a relva que começava já ali e ficou um pedaço a olhar em frente. O silêncio parecia estar bem naquele momento, não tendo sido incómodo ou constrangedor. Estavam a partilhar a natureza a iniciar o seu dia. Depois levantou-se, demorou um pouco e voltou com uma torrada de pão de centeio e uma chávena fumegante de café. Quando se sentou terá dado conta de quantos botões estavam abertos. Discretamente recompôs o decote. O Tiago não se tinha deixado perturbar, nem antes nem depois, apesar de estar a gostar. A pele branca ligeiramente bronzeada deu-lhe um aconchego familiar de estabilidade. Era uma fêmea apetitosa, fisicamente. O resto ainda estava por conhecer. Não sabia bem se teria tempo para abrir uma investigação para esse lado. Aos poucos a mesa do alpendre foi-se enchendo. A última a chegar foi a Margarida, de jeans e sapatilhas provocou o espanto de todos, sem que ninguém o tivesse denunciado. A blusa de algodão estampado acentuava um ar informal que nenhum deles tinha esperado. Em breve, alimentados, saíram para o campo. O trabalho esperava e o cronograma não era generoso. Tinha arrancado, assim, a primeira semana de trabalho. Sem história nem histórias dignas de menção, chegou-se a sexta-feira sem atrasos nem percalços nos trabalhos de campo. Também o Tiago produziu e enviou todos os relatórios.

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Na maior parte dos dias o José e o António tinham liderado as operações em duas frentes e em algumas vezes estiveram os quatro juntos, mas por diversas vezes a Susana saiu com o Tiago. Quase sempre a Margarida ficou por casa, embora durante as tardes deambulasse pelas duas frentes. Nitidamente preferiu acompanhar o António. De manhã fazia trabalho de gabinete na mesa da sala. Esta primeira semana estabeleceu, sem sombra de dúvida o alpendre como o local de convívio e encontro. Não fosse verão. Com a sexta-feira chegou a agitação. Depois de almoço chegaram as mulheres do António e do José. Vieram juntas, no mesmo carro, que ficou no largo do pelourinho, claro. Para a Susana foi uma surpresa absoluta. Eram gémeas! Porém era fácil distingui-las. A mulher do António era ligeiramente mais loura, apenas isso. Eram altas, magras e exuberantes, bem-dispostas e um pouco atrevidas. Os maridos eram nitidamente mais discretos, como a Susana já tinha constatado. Uma vestia uma saia rodada por cima do joelho e uma blusa ligeira estampada que fugia para o transparente. Talvez um pouco demais para algumas senhoras da aldeia. A outra estava mais prática. Sapatos de lona e corsários e uma camisete de algodão. Era a mulher do José. Os quatro operacionais tinham acabado de chegar da obra, depois dos trabalhadores terem ido de fim de semana após o almoço e eles terem verificado que tudo estava em ordem no estaleiro e nas duas obras. Preparavam-se para tomar banho. Apenas a Margarida não precisava, logo eram quatro para duas casas de banho e estavam no impasse de ver quem avançava. O António abandonou de imediato a ideia do banho. Iria ficar no fim de semana com a mulher na vila, num pequeno hotel. Lua-de-mel disse ela. Tinha marcado. Assim o José e a mulher podiam ficar à vontade no quarto grande.

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A Susana aproveitou e enfiou-se na casa de banho depois de apanhar algo lavado para vestir. O José levou a mulher para o quarto, para se instalar e foi tomar banho, pelo que o Tiago ficou no alpendre a conversar um pouco com a mulher do António enquanto ele pegava num saco para os dois dias fora. A Margarida ficou com eles. Meia hora depois a casa tinha retornado à tranquilidade habitual. Todos de roupa lavada e para fazer horas para o jantar resolveram ir até ao café do senhor Manuel. Aquela hora a pequena esplanada já estava à sombra, mas o largo resplandecia com o sol a inundar boa parte do espaço. Foram calmamente até lá. O Tiago, a Susana, o José e a mulher e a Margarida. Na sala, em casa, o coração do Tiago teve uns batimentos mais bruscos quando a Susana saiu do quarto, fresca, perfumada e pela primeira vez para ele, com roupa cem porcento feminina. Uma saia a tender para o curto, quase travada, uma blusa cavada, com um decote generoso e o cabelo solto. No caminho até ao café, duas vezes ficou um instante para trás, primeiro apertando o sapato e depois para apanhar uma moeda que lhe tinha caído da mão. Aproveitou, porque os restantes não pararam, para observar, sem ser visto, com pormenor as curvas da Susana. Alguma coisa começava a encaixar no subconsciente. O Tiago cedeu o lugar virado para o pelourinho ao José e a mulher ficou à sua esquerda, ainda virada para o mesmo lado. Quando se sentou ficou com a Susana à sua esquerda e a Margarida à direita. De costa para a rua principal que alimentava o largo de trânsito. Ou seja, a que vinha da vila. A ligação com o mundo. Durante a conversa, depois do senhor Manuel os ter servido, com um sorriso afável e agradecido. Desde terça-feira nunca tinha tido tantos clientes. Por várias vezes, inadvertidamente e sem intenção, supomos, durante a conversa animada que iam alinhando

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para a mulher do José sobre a aventura de estarem ali, na aldeia, a perna da Susana encostou, por uma ínfima fração de tempo, à perna peluda do Tiago, que estava de calções, como quase sempre. Ou foi ele que encostou. É irrelevante. Seja como for aquele escasso contacto pareceu, a cada um sem que o outro soubesse ou percebesse, um fogo abrasador, a cada vez que aconteceu. Não que o tenham percebido, conscientemente, naquele momento. Mas ficou a marca, algures, perdida, no subconsciente, até ser encontrada, mais tarde. Instintivamente, nas primeiras vezes e quase em simultâneo, com um gesto tímido, pediram desculpa um ao outro, sem interromperem a conversa em redor da mesa. A repetição involuntária e o agradável daquele momento de confraternização de fim de tarde, sem compromissos nem trabalho pela frente, fez escassear esse gesto tímido e desajeitado. E aquele muito ténue toque deixou de ser um alvoroço. Nova agitação estava para acontecer. O Tiago não deu conta, nem a Margarida. Parou, timidamente um pequeno carro utilitário no largo. Tinha-se aproximado pé ante pé como quem pede desculpar por aparecer. Um homem novo, de calções e camisete saiu do carro e aproximou-se do grupo, com um ar muito gaiato, e disse boa tarde. Todos responderam e a meio da saudação a Margarida levantou-se de um pulo e lançou-se ao pescoço do recém-chegado. Nem foi preciso apresentações. Estava visto que era o namorado. Este é o Luís, disse ela e foi apresentando um a um os presentes. Senta-te, disse o Tiago e afastou a sua cadeira ligeiramente enquanto o Luís procurava na mesa do lado uma cadeira para se sentar. Por momentos a conversa esmoreceu até que o José perguntou: que tal a viagem? Foi fácil cá chegar? Ficaram quase até à hora de jantar. Era a primeira tarde da semana em que podiam estar mais descontraídos.

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O Luís parecia muito mais novo do que seria ou a Margarida arriscava-se a ser acusada de pedofilia. Louro e quase sem barba, magro quase a raiar o enfezado, parecia um reguila. Era agitado ou estava muito desenquadrado, o que não seria de estranhar. Depois de terem jantado no alpendre, pois claro, arrumaram a cozinha o Tiago, a Susana e a mulher do José, pois, por ser fim de semana dispensaram a senhora Joaquina, para estar com a família. Os restantes ficaram no alpendre. Acabaram por sair todos dando uma volta pela aldeia. A Margarida e o Luís por diversas ocasiões ficaram para trás beijando-se e olhando os recantos do vale, onde ao longe, aqui e acolá tremeluziam uns pontos de luz, mostrando uma ocupação desordenada e dispersa, mas persistente. Esse era um dos aspetos que conferia importância à obra que estavam a executar. Não era propriamente pelo tamanho da aldeia, mas porque era um ponto central naquela manta de vida espraiada pelo vale e pelas encostas. Pareciam estar na fase de enamoramento do namoro. Estavam juntos de fresco, de certeza. Timidamente iam roçando as mãos e aproveitando com avidez uma falsa intimidade ao ficarem para trás. Por aqueles lados o clima aquecia mais depressa que um microondas. De regresso a casa o José e a mulher despediram-se, mal se abriu a porta, dando as boas noites, iam aproveitar os dois o seu pequeno pedaço de jardim e namorar um pouco, como disseram. Também a Margarida e o Luís se apressaram a desejar boa noite. Nem um avião a travar no início da pista teria sido tão rápido a abrir e a fechar a porta do quarto. Talvez o alpendre do quarto os esperasse, ou não. Não pareciam ser criativos a esse ponto. Umas quantas variantes à posição do missionário deviam deixá-los de língua de fora, tal era a pressa.

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Ficaram, pois, na sala, sozinhos o Tiago e a Susana. Olharam um para o outro. Ele deslizou os olhos por ela com calma. Percorreu devagar o decote, o peito interessante, o ventre e por último as pernas. Quando ergueu os olhos percebeu que tinha demorado tempo demais e que tinha dado nas vistas. Pegou no computador disse-lhe: vou até lá fora pôr uns relatórios em dia. Deve haver sumo de laranja na cozinha… acrescentou em tom de convite. Ela respondeu-lhe: boa ideia, vou levar um livro, se não te importares. Tinha dado conta da observação que ele fizera ao seu corpo e o brilhozinho dos olhos dele durante a operação. Mas ninguém tinha visto, pois só estavam os dois, como no mesmo espaço de tempo ela tinha feito exatamente o mesmo olhando com interesse para o peito peludo dele através da camisa aberta, procurando vislumbrar os pequenos mamilos de homem, que tanto gostava de mordiscar, quando tinha namorado, como fixara a atenção na zona abaixo do cinto dos calções, apreciando e calculando o conteúdo do volume, depois de ter reparado como não tinha barriga, e de seguida, descendo até ao joelhos onde parou subitamente, pelas mesmas razões do Tiago. Ou seja, porque percebeu que estava a berrar interesse, por todo o lado. Foram ambos muito discretos, não se deixando embaraçar, mas o subconsciente, de cada um tomou notas detalhadas, que iriam ser usadas. Em breve, talvez. Demoraram-se no alpendre. Já passava da meia-noite, e há muito que o silencio enchia a noite de paz e doçura, salvo alguns insetos com insónia, que nas redondezas festejavam mais uma noite de verão, quando se deram vencidos pelo sono. O Tiago desligou o computador, levantou-se e deu-lhe as boas noites. Ela fechou o livro e fez o mesmo. À saída da cozinha ele virou à esquerda, para o quarto e ela entrou no seu. Uma semana de trabalho estava concluída. Se tudo

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corresse bem faltariam mais quatro e ela voltaria para a cidade, para o seu apartamento e para aquele vazio que tinha ficado na sua vida. Nessa noite ela sonhou com o Tiago e viu as qualidades, de líder, de trabalhador e tentou perceber como era o seu físico para além dos pedaços que podia ver como os outros. Adormeceu nesta altura. Tinha sido um dia de trabalho, apesar da tarde sem afazeres, mas fora para a cama muito mais tarde que nos outros dias. O Tiago fechou a porta do quarto e foi-se despindo, colocando a roupa com ordem na cadeira. Abriu a porta para o quintal e deixou entrar a lua para lhe fazer companhia. Passou a mão pelo corpo e sentiu saudades e a falta da Sara. Lembrou-se de repente que tinha de ir à Missa no Domingo. Olhou para a data no telemóvel. Sim, era este Domingo. Adormeceu depressa e sem dar conta, quando estava a tentar rever o filme da semana para ver se havia alguma ponta pendurada. Não acabou, mas percebeu, ainda, que tinha tudo em ordem. Tal como tinha acontecido a meio da primeira noite, a Susana entrou no seu sono. No seu sonho? Viu-a durante a semana, a trabalhar a seu lado, em alguns percursos pela floresta, nos carreiros das encostas, no planalto da aldeia observando o conjunto e nessa tarde na esplanada, em conversa de grupo, e os pequenos toques das pernas, involuntários. Viu-a de calções e botões em ação e com aquela saia e blusa. Há onze meses, faria no Domingo, que não tinha uma ereção. Mas não se apercebeu, estava a dormir. Só mais tarde daria conta, no Domingo. O sábado passou calmo e tranquilo. Foram todos à piscina. O dia estava magnifico e aproveitaram para relaxar. A dança dos lugares às refeições continuou e apenas o Luís manteve-se até ao almoço de

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Domingo à ilharga da Margarida. O sexo com o namorado tinha-a deixado mais calma e mais amistosa. Tinha abandonado os jeitos de advogada. De alguma forma estava mais humana. Pelo menos sem o terem dito em voz alta, era o que todos pensavam, se tivesse havido uma sondagem. O Tiago estava a tomar o pequeno-almoço, de calças e camisa metida para dentro, ao contrário do que tinha acontecido todos os dias da semana, quando a Susana entrou com cara de acabadinha de sair da cama. Hoje a parte de cima do pijama portava-se bem e os seios pareciam ainda estar a dormir, como ela. Mantiveram-se no aconchego, por detrás dos botões. Vais sair, tão cedo? Perguntou ela espontaneamente e sem se dar conta que estava a questionar o chefe. Sim, vou à Missa das 10. Na Igreja matriz, aliás na única igreja. As outras são apenas capelas. Respondeu com naturalidade não acusando o despropósito da pergunta. Nem reparou nisso. Afinal, ao fim de quase uma semana a viverem na mesma casa, até tinha soado naturalmente. Posso ir contigo? Arranjo-me em dez minutos, achas que dá tempo? Ele olhou para o mostrador do micro-ondas. Sem problema. Será agradável não ir sozinho, disse. Enquanto ela se foi arranjar ele acabou por pensar como é que tinha anuído tão depressa. Aquele Domingo era especial. Fazia onze meses. Ele tinha decidido que, estivesse onde estivesse, iria à Missa naquele dia. Bem, não era relevante o facto de a Susana ir com ele. Não faria qualquer diferença. Chegaram à igreja em silêncio. Tiago escolheu um lugar do lado esquerdo, quase à frente. Na quarta fila, para ser exato. A Susana reparou como estava absorto, mas não deu relevância a esse facto.

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O Domingo foi calmo, tranquilo mesmo. Um Domingo de verão. A meio da tarde apareceu o António e a mulher. Estavam radiantes. O fim de semana na vila tinha sido fabuloso nas palavras dele e ela descreveu algumas coisas que tinham visto. A irmã, entretanto, foi arrumando a sua bagagem para se irem embora. Queriam chegar a casa por volta do jantar. Segunda seria dia de trabalho cedo. Pelo seu lado o Luís a seguir ao almoço deu sinais de se ir embora e a Margarida abandonou o ar enamorado e foi progressivamente entrando na pele de jurista. Tinha um vestido Justo e curto, cor de açafrão. Não lhe ficava mal. As formas exibiam-se através do tecido. A seguir ao jantar, já não havia visitas na casa, reuniram-se na sala e não no alpendre, para alinhar as tarefas da semana e conferir os trabalhos a executar. O Tiago foi-se deitar cedo. Tinha estado estranho todo o dia, muito calado. Os gémeos foram os seguintes e as duas mulheres foram até ao alpendre. A Margarida estava agitada, sem o namorado para a ocupar. Antes de adormecer, com a luz apagada, mas a claridade noturna de uma lua de campo a banhar a sua solidão o Tiago pode finalmente descomprimir. Há onze meses atrás tinha sido um dos dias mais duros da sua vida, senão o mais duro, e dai para cá cada mês tinha sido penoso. Estava a rever a sua vida quando o subconsciente abriu a gaveta de sexta-feira. O contacto com a perna da Susana, o calor de outra pessoa junto ao seu e uma pessoa que era uma mulher. Nessa altura percebeu que durante a noite tinha tido uma ereção. A primeira desde aquele dia. A tomada de consciência deste incidente levou-o a dar a volta a todos os pedaços já arquivados da semana, que não fossem trabalho. Veio de novo a imagem daquela mulher a sair de um jipe, a dirigir-se para si. Viu as formas, ou tentou recordar-se e deu conta que nunca tinha olhado (conscientemente)

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para ela como uma mulher. A não ser aquela hesitação adolescente quando ela se dirigiu a ele. As botas grossas de trabalho e os calções assim como todas as peças de roupa, exceto na sexta-feira à tarde, tinham conduzido sempre o seu espírito para lhe colocar a etiqueta de colega de trabalho. Aliás como convinha, para quem tinha um projeto para dirigir e concluir dentro do prazo. No entanto, por outro lado, havia uma voz melodiosa, uma pele que convidada a ser tocada e uns olhos vivos e amistosos. Ia adormecer, sentiu o corpo a desligarse. Tentou forçar a imagem do vestido justo de sexta-feira na esplanada do senhor Manuel. Foi tarde. Já estava a dormir, aliás tranquilo como já há muito tempo não acontecia. O trabalho na segunda-feira foi ainda mais absorvente pois estavam a iniciar novas frentes e não houve tempo para grande descanso pelo que depois de jantar o serão também foi curto. No entanto no dia seguinte iria ocorrer algo que mudaria o rumo por completo das restantes semanas. A meio da manhã a Susana e o Tiago estavam bem perto da margem do rio, ela explorando as espécies presentes e ele tomando as notas necessárias para dar instruções aos trabalhadores encarregados do desbaste. O jipe do Tiago tinha ficado na beira da estrada que descia da aldeia até a uma pequena praia fluvial natural, onde não só a população ia frequentemente em lazer como também servia, nesta altura, de ponto de recolha de água para as obras. De repente, a Susana apoiou mal a bota sobre uma pedra grande, que ao contrário do que lhe tinha parecido não estava nem estável nem segura, acabando por torcer o pé direito com violência. O Tiago que descia à frente dela cerca de três metros só se apercebeu pelo som cavo da pedra a deslizar e todo o roçar das botas da Susana tentado equilibrar-se, mas acabando por cair, no momento em que ele já olhava para trás. Correu para ela enquanto ela procurava manter-se

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em pé, mas sem conseguir apoiar-se no pé. Ele agarrou-a com firmeza para ela recuperar do susto e da respiração e passou-lhe a mão pelo rosto, que estava transpirado. Com a agitação o cabelo tinha-se soltado do gancho e caia-lhe pelos ombros. Olhou em volta e procurou um ramo ou galho que fosse suficientemente forte para ela se apoiar até ao jipe. Nada. O mato tinha sido limpo há pouco tempo. Então, não hesitou. Era necessário chegar ao transporte. Pegou nela ao colo, com energia e começou a subir em direção ao jipe. O seio dela comprimido contra o seu peito, a respiração acelerada pelo esforço da subida e do peso extra e as nádegas bem encostadas a si provocaram nele uma reação em cadeia. A temperatura subiu em flecha. No momento em que ele lhe pegou ao colo ela surpreendeu-se por um muito breve instante, mas de seguida pôs os braços em torno do pescoço dele e apertou-se bem contra ele, no intuito de lhe facilitar a progressão. Ela sentiu contra si os braços, fortes e viris, os músculos tensos nas costas e nas pernas, o arfar do peito e o suor a aumentar, até as duas peças de roupa ficarem coladas. A cada passo dele a subir, alternadamente, sentia ora uma ora outra perna contra as suas nádegas, provocando um balanço para cima e para baixo, marcado pelo ritmo forte com que ele arrancou encosta acima. O declive não era pronunciado, estavam já perto da margem do rio, onde ele se espraiava em dois largos patamares que eram as duas margens, e por isso avançavam depressa. Mas os dois corpos juntos, tão juntos como ainda não tinham estado, não iriam esquecer, como se de um pedaço da eternidade das suas vidas tivesse constituído aquele troço de caminho. Chegou ao jipe e poisou-a com delicadeza e cuidado sobre a perna esquerda para abrir a porta. Estavam os dois ensopados em suor. O calor da manhã, o calor do esforço e sabe-se lá mais o quê, tinha-os deixado alagados. Os mamilos delas despontavam através do

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algodão molhado, mesmo o que tinha vindo esborrachado contra o peito dele. Os dele também estavam bem visíveis, curiosamente. Colocou-a com cuidado no banco, depois de ter pegado nela novamente. Agora, ou por ser em plano ou por ser um gesto repetido, pareceu-lhe mais leve. Se calhar tinha tomado o gosto. Ainda não tinham falado, desde que ele a tinha levantado em peso quando ela tentava apoiar-se. Afastou-se um passo e perguntou-lhe: como te sentes? Doí-te muito o tornozelo? Ela fez uma careta e disselhe que não. Pensava que não era nada de especial. As botas protegem bem o tornozelo de movimentos excessivos, acrescentou. São feitas para isso, para andarem por montes e vales. Penso que foi mais o susto. Mas tu não te conseguias apoiar no pé, replicou ele. Sim, tens razão. Espero que isto não atrase os trabalhos, disse ela olhando para baixo, de onde tinham vindo. Não te preocupes. A tua saúde primeiro. Haverá outros trabalhos para fazer até conseguires calçar as botas outra vez. Isso vai inchar. Deu a volta ao veículo e entrou. Quando chegaram ao largo do pelourinho ele parou perto da entrada da rua. Saiu e abriu-lhe a porta. Antes que ela tentasse sequer por o pé no chão pegou novamente nela ao colo, empurrou a porta com as nádegas e caminhou decidido até à porta de casa. Desta vez ambos estavam menos nervosos e sem comentarem ou darem a entender um ao outro apreciaram o momento em que novamente tiveram os corpos colados. Peito com peito. De novo ela colocou os braços em volta do pescoço dele, desta vez menos tensa, apreciando a sensação dos braços dele nas suas costas e dos seus braços em volta do pescoço. Discretamente, ao compor as mãos, para se ajeitar, tocou-lhe os cabelos curtos. Caminhou firme, mas não apressado. Junto à porta poisou-a no chão lentamente para ela se equilibrar na perna esquerda e abriu a porta. A senhora Joaquina ainda não tinha

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chegado do mercadinho onde todos os dias se abastecia de produtos frescos para o almoço. Pegou nela com jeito, outra vez e atravessou a sala. A porta do quarto dela estava aberta, assim como a porta para o quintal. Deitou-a na cama. A luz brilhante da manhã entrava pelo quarto com força e dava uma claridade amarelada às paredes, como se tivessem luz própria. A posição da cama fazia-lhe realçar todas as suas formas. Ela, obediente, não protestou. Descalçou-a e tirou-lhe as meias. Foi à casa de banho e voltou com o frasco do álcool. O tornozelo estava a ganhar cor avermelhada, estava quente e nitidamente a inchar. Colocou uma boa porção de álcool na mão e massajou-a com suavidade. Ela relaxou o corpo e descontraiu-se. A casa estava agradável, numa temperatura amena, como ele tinha elogiado na chegada. Ambos estavam com calor. Antes de repetir a operação, tirou a camisa e disse-lhe: desculpa, mas estou a escorrer. Não que peses muito, mas foi a preocupação e sorriu como um garoto. Voltou a pôr álcool na mão e repetiu a operação de esfregar o tornozelo. Por descuido, distração ou algo no subconsciente a funcionar, uma vez ou outra subiu quase até ao joelho. Estava a apreciar a suavidade da perna. Se ela fazia depilação não notou. Quando deu conta do que se tinha passado, corou e tentou dizer alguma coisa que ficou muito enrolado debaixo da língua. Ela não deu conta. Não tinha tirado os olhos dos peitorais dele e a imaginação via as suas mãos noutros pontos do seu corpo. Ainda tentou perceber se estava a ficar húmida. Quando desceu à terra de repente. Se não estivessem tão alheados do que se estava a passar, dando asas à imaginação, ela teria dado conta dos seus mamilos a explodirem deformando a camiseta e ele teria percebido que havia falta de espaço dentro dos calções. Porém nem um nem outro se embaraçaram, porque não deram conta.

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A porta bateu e a senhora Joaquina passou para a cozinha. No último segundo viu-os e perguntou o que tinha acontecido. A eng. Susana estava na cama, deitada e o senhor engenheiro, de joelhos a esfregar-lhe o pé. Ele explicou sucintamente o que se tinha passado e ela foi direita à cozinha, aqueceu água e trouxe um pacote de sal. Não demoro disse, e voltou quase de seguida com um grande alguidar com água, onde deitou o sal. Foi quando deu conta do peito do senhor engenheiro e, nada discretamente, deitou um olhar aprovador e comentou baixinho, mas eles não deixaram de ouvir: ai se eu fosse mais nova…. Efetivamente a presença dele era interessante, para uma mulher. Peito bem constituído, uma cobertura de pelo na medida certa e ligeiramente alto. Bem barbeado e bonito. Enquanto a Susana mergulhava o pé na água quente ele foi vestir uma camisa, olhou para o relógio e decidiu que tinha de voltar para o trabalho. Estás em boas mãos, vemo-nos ao almoço. Descansa. As tuas melhoras. As palavras foram saindo, em frases curtas, do nervosismo. Baixou-se um pouco e deu-lhe um beijo na face. E saiu. Conduziu o jipe em direção ao rio, devagar. Sem prestar atenção à estrada ia a tentar arrumar e catalogar as sensações todas que tinha acabado de viver, naquela manhã. Precisava de perceber o que se tinha passado dentro dele. O suor a escorrer-lhe pelo peito, do esforço e da excitação, o peito dela a bater dentro do dele. Os seios desesperados para serem tocados, a pele macia das pernas deixando a questão de como seria o resto e o beijo da saída. Caramba, idiota. Ela é tua colega, és o chefe. Tens de pôr ordem. Bem, ela é uma mulher, bem interessante, por acaso e tu não és de ferro, embora andes há meses a fazer de conta. Sem dar por isso tinha parado no mesmo sítio. Saiu e caminhou em direção ao rio. Estava a suar, de novo, sem motivo. Pensou no trabalho que estava por fazer e viu a Susana na cama, como que abandonada, as pernas bonitas, os

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calções curtos, a camiseta molhada e os seios. Desta vez viu o que não tinha visto no quarto. O olhar, meigo e excitado. Bolas. Que se passa, disse em voz alta. Se alguém estivesse por ali teria ficado surpreendido. Levantou-se, caminhou em direção ao jipe e tomou a decisão de não deixar transparecer aos colegas que algo estava inquieto dentro dele e que teria de vigiar os sentimentos dela. Estava na altura de voltar à vida. O passado, a Sara, não poderia voltar. Ele tinha chegado ao fim da sua travessia de solidão no Domingo. Agora sabia, agora percebia. Talvez fosse a hora da Susana. Teria de deixar o coração no comando, mas ficaria atento. Em casa, a Susana percebeu que quanto ao tornozelo a situação não era tão grave como poderia ter sido, graças às botas de qualidade, mas que quanto às emoções o estado era de calamidade. Ele era o chefe. O que iria pensar. Conheciam-se há uma semana. O que iam os outros pensar. Certamente que ela tinha tudo previsto, ou que queria simplesmente aproveitar-se. Que fazer? Em primeiro ficar a andar o mais rápido possível para continuar ao lado dele no campo, em segundo não deixar que ninguém desse conta das suas emoções e depois perceber o significado daquele beijo tão suave e sentido. Tudo isto mantendo a mesma produtividade. Nada de falhas Susana, disse em voz alta. O que disse engenheira, perguntou a senhora Joaquina da cozinha. Quando chegaram para almoçar já ela estava no alpendre. Ficou no lugar da cabeceira, mais perto da porta e em posição que podia ter a perna em cima de um banco. Chegara lá apoiada nos móveis e nas paredes, ao pé coxinho. Os gémeos chegaram entremeados com o Tiago. Ele tinha ido ao estaleiro, depois de ter recuperado o material que tinha caído das mãos da Susana e que não

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tinham apanhado na altura. Vinham a conversar, bem-dispostos. Evidentemente, ele já tinha explicado o que se passara com ela pois mal a viram perguntaram como estava e o José e o António ajoelharam-se fazendo-lhe festas no rosto. Hoje era o dia dos beijos. Cada um beijo-a na face, com delicadeza. O Tiago ficou um pouco de lado e acenou-lhe com um sorriso infantil e ternurento. Pelo menos foi o que ela achou. Durante o almoço ela foi o centro das atenções, a tal ponto que só ao café, depois de esclarecidos com detalhes e repetições, quer os gémeos quer a senhora Joaquina, é que o José disse: onde está a Margarida? Foi à sede, só volta amanhã ou na quinta. Para já parece que ela resolveu os problemas com a intervenção na reunião. Até agora nenhum habitante precisou de novos esclarecimentos, e para já todos estão a concordar com o decorrer dos trabalhos, esclareceu o Tiago. Pelos vistos ela tinha saído depois do pequenoalmoço. Como sempre se levantava depois deles e raramente tinha tomado com eles a primeira refeição, nem tinham reparado. O Tiago foi firme dizendo-lhe que ela tinha de ficar a descansar. Precisava dela para avançar na obra e por isso era mais sensato perder uma tarde ou um dia do que atrasar os trabalhos de campo por dificuldades sucessivas. E acrescentou, sorrindo, volto mais cedo para fazer uns relatórios, para não ficares a tarde toda sozinha, cá em casa. Vou buscar o teu computador e as plantas para aqui. Podes avançar na introdução de dados e na cartografia do que já analisaste. Assim não perdemos tempo, nessa área. O António e o José concordaram. Depois da senhora Joaquina acabar de arrumar a cozinha e adiantar algumas coisas para o jantar, ficou sozinha em casa. Os homens tinham saído imediatamente a seguir ao café. No alpendre

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colocou-se à vontade e começou a trabalhar. Eram quatro e pouco da tarde quando ele chegou. Já tinha avançado bastante na referenciação dos dados recolhidos. Ele atravessou a casa, depois de ter fechado a porta e parou na porta da cozinha para o exterior, sorriu-lhe e perguntou: como está o tornozelo? Observou que ela tinha trocado de roupa. Tinha uma blusa de botões, abertos até ao limite do soutien, amarela clara, num tecido ligeiro com alguma transparência e sem mangas e uma saia castanha. A perna estava estendida sobre o banco. À sua frente, o computador, algumas plantas de grande dimensão e dois blocos de notas. Acho que estou melhor, respondeu-lhe. As dores pararam. A senhora Joaquina trouxe-me pomada. Estendeu-lhe a face e perante a hesitação dele acrescentou: estou carente, com um sorriso gaiato e afetado como uma criança magoada. Ele deu-lhe um beijo com ternura e no momento que se debruçou sobre ela os olhos, sem querer, caíram diretamente dentro da abertura da blusa e só pararam depois de se rebolarem em ambos os seios. Na verdade, apenas na parte não protegida. Sentiu um pequeno calor invadi-lo. Supôs que ela não percebeu, pois endireitou-se de imediato e poisou a mochila do outro lado da mesa. Vou buscar água, precisas de alguma coisa? Quando voltou, com um jarro na mão e dois copos já tinha tirado as botas e estava de chinelos. Também a camisa estava com mais botões fora da casa. Sentou-se, tirou o computador da mochila, um bloco de notas e olhou-a nos olhos com um sorriso tranquilo. Durante um pedaço de tempo trabalharam em silêncio e afincadamente. De súbito ela disse: não sei bem explicar o que se passou. Costumo ser muito cuidadosa e tenho imensa experiência de andar no campo, em trabalho. Sei que olhei para todas as pedras. Tenho a certeza que me pareceu que aquela estava segura. Mais do que procurar encontrar desculpas para o chefe ela procurava

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verdadeiramente, e agora que tinha alguém que a escutava, com espírito e visão científica tentava perceber o que tinha acontecido. Virou e revirou a sua análise de todos os ângulos que tinha captado no momento e procurava tirar mais do que conclusões uma lição para o futuro. Não tens de te preocupar assim, disse-lhe ele finalmente, depois de a ter escutado com atenção. Tantas vezes a vida muda num segundo de uma forma que nunca tínhamos suposto ou imaginado, alterando todos os nossos planos e visão do futuro. Naquele momento ela não deu conta nem imaginou que ele estava a falar da sua história. Só mais tarde ela soube, mas não naquele dia. Ficaram calados durante bastante tempo. Ela trabalhando, depois de ter conseguido verbalizar a sua análise da situação e ele procurando concentrar-se, mas sem conseguir produzir nada. Ela não percebeu, mas ele estava bastante perturbado. Tantas vezes a vida muda num segundo, tinha ele dito. Como a dele tinha mudado há onze meses e como parecia estar a mudar agora. Desta vez não era de uma forma brusca. Aparentemente ele estava a aperceber-se da mudança e parecia estar preparado para esse acontecimento. Levantou-se, foi à cozinha e trouxe fatias de pão e manteiga. Fizeram um intervalo para comer. De seguida ele ajoelhou-se, pegou na pomada na borda da mesa e começou a massajar-lhe o tornozelo. Com suavidade e carinho e com interesse. Soube-lhe bem o contacto da sua mão com a pele dela. Acalmou o seu espírito. Mas não o corpo. Ela ficou a fitálo, enternecida. Alguém que tivesse observado aquele momento teria percebido o que se estava a passar. Provavelmente, nenhum dos dois deu conta, naquele momento, nem enquanto estiveram juntos o resto da tarde. Mas a semente já tinha germinado. Em breve seria visível.

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O trabalho de ambos do dia ficou pronto e, entretanto, chegou a senhora Joaquina e pouco depois os gémeos, com algum intervalo. Hoje tinham estado cada um na sua frente de obra. Juntaram-se a eles no alpendre e ficaram a conversar um pouco antes de irem tomar banho. Também o Tiago iria tomar banho antes de jantar. Porém ainda ficaram um bom bocado a conversar. Sobre trivialidades e sobre a atualidade do país. Com intimidade. Ela procurou, mas não encontrou maneira de abordar o comportamento dele de Domingo, fechado e ausente. Sentia que era algo muito intimo e apesar de se sentir mais próxima, depois do contacto físico, do seu peito pressionado contra o dele, os braços a suportarem as suas pernas e o calor dos seus corpos, que partilharam durante os trajetos, quando ele lhe pegou, quando lhe massajou o tornozelo, a tarde de trabalho em conjunto e quando teve de pegar novamente nela quando precisou, a meio do trabalho da tarde, de ir à casa de banho, não tinha bem a certeza de já poder tocar no assunto. O José e o António, como a senhora Joaquina, mostraram-se preocupados e interessados no estado do seu tornozelo. Os três deram palpites embora a senhora Joaquina tenha sido mais veemente a prognosticar que tinha de ficar em repouso mais tempo. Apesar de oposição de todos ela continuava a insistir que no dia seguinte iria continuar o levantamento no mesmo sítio. Depois de jantar era visível que o tornozelo dela estava bastante melhor. Não estava inchado e a cor tinha voltado ao bronzeado que lhe prendia os olhos. Por volta das onze e meia já estavam todos a precisar de ir para a cama. Os dias de trabalhos não sendo longos eram pesados pela orografia do terreno e pelo excelente estado do tempo, cujo calor ajudava a fatigar o corpo. Assim, que os gémeos e o Tiago perguntaram à Susana se a levavam para o quarto, ela pôs-se em pé com cautela. Está tudo bem, disse

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ela. Acho que consigo andar sem me doer. E foi dando uns passos. Os homens pareciam seguir em procissão atrás dela, atravessando a cozinha em direção aos quartos. Deram as boas noites. E por um muito breve espaço de tempo notou-se uma ligeira hesitação entre eles os dois enquanto o António e o José já seguiam corredor fora. Cuidado com os degraus disse o Tiago, no momento em que ambos não sabiam como pôr fim às longas horas que tinham estado juntos, de forma natural. Ela desceu os degraus e ele virou para o quarto. Em escassos minutos a casa estava em silêncio. Ele despiu-se e deitou-se. Apesar da tensão da manhã e do esforço de a carregar não estava tão cansado como nos outros dias. A tarde tinha sido de “gabinete e papelada”. Não conseguia pegar no sono. Deu voltas na cama para um lado e para o outro. Olhou através da porta do alpendre, que tinha deixado aberta. A noite estava gloriosa. Ao longe os pontos tremeluzentes das estrelas e mais perto um certo brilho, mais à esquerda, das luzes da aldeia. A temperatura era amena, quase tropical, considerando que estavam na serra. Sentia o corpo dela contra o seu peito. O bater do seu coração, ou seria o dele? O seio quente e generoso. As pernas suaves sobre os seus braços. E o suor a escorrer gota a gota molhando a camisa à medida que se aproximava, em esforço do jipe. Depois viu as suas mãos a deslizar pelo tornozelo espalhando a pomada. E como acariciou a perna até ao joelho num movimento distraído e carinhoso. Pensou na Sara. Não aguentou mais, levantou-se e saiu para o quintal. Deu uns passos pela relva fresca e foi encostar-se ao pequeno muro que limitava o espaço da casa sobre o vale. Olhou em frente, apreciou as luzes da civilização que ponteavam a encosta do outro lado do rio, lá à distância. Olhou o céu, as estrelas, como estavam agrupadas e tentou encontrar algumas das formações mais conhecidas. Aos poucos sentiu-se acalmar. Uma paz interior começou a invadi-lo. Os olhos estavam a

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ficar pesados e bocejou, várias vezes. Voltou para dentro. Deitou-se e adormeceu. A Susana estava sentada na borda do alpendre com os pés na relva. Estava ligeiramente encoberta por um dos pequenos buxos que espaçadamente ponteavam o alpendre ao longo dos quartos. Ele não a tinha visto, não se tinha virado para aquele lado. Também ela não tinha conseguido adormecer logo e por isso tinha vindo para fora. Sentou-se e ficou a observar as luzes tremeluzentes. Quando ele saiu devagar do quarto e caminhou pela relva em direção ao muro, ela suspendeu a respiração e ficou quieta, sobretudo espantada, por ele estar nu e não parecer dar conta disso. É certo que a noite estava muito agradável. Não se ouvia nada, a natureza estava calma e a aldeia, nas suas costas, parecia estar a dormir. Apesar do angulo difícil em que se encontra e não querendo ser vista, não fosse ele julgar que ela o vigiava, apreciou-o com deleite e com a claridade disponível. As luzes do quintal estavam apagadas. Só a lua brilhava. Reparou nas costas e nas nádegas e desceu pelas pernas. Apreciou o pescoço onde os seus braços se tinham amparado de manhã. Percorreu as costas devagar e quando ele se virou para voltar para dentro mediu o ventre plano e tudo o que ficava abaixo. Tudo o que viu, sem estar a contar, constava da lista de itens para o seu par ideal. Ficou ainda mais um pedaço, até os olhos se começarem a fechar a dizer-lhe que estava na altura de apreciar a cama. Levantouse devagar e cuidadosamente, não queria estragar nada. Poisou o pé devagar. Era fundamental sair de manhã com ele. Espreguiçou-se e compôs o pequeno pijama de verão e abriu um pouco mais os botões do peito. Os seios agradeceram a ligeira brisa que receberam e ela acariciou-os com gosto. Deitou-se, virada para cima. Tentou olhar o teto, com a claridade ambiente, demasiado ténue, e viu o Tiago, o corpo do Tiago os braços do Tiago e sentiu o seu calor da manhã a

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invadi-la até ter a sensação do seu suor a colar-se à sua pele. Pensou que ia ter muita dificuldade em adormecer. Assim não aconteceu, mas ainda percebeu que algo se estava a passar consigo. O coração estava a bater de maneira diferente. Desejava o Tiago e não apenas sexualmente. Queria-o para si. Estava apaixonada. Como é que aquilo tinha acontecido? Ainda na outra semana não o conhecia. Era o seu chefe naquele trabalho. Mas era também simpático, atencioso, calmo, bonito e… a lista de predicados positivos ameaçava ser longa. Ele acordou cedo, relaxado e bem-disposto. Tinha a sensação que uma nuvem negra tinha desparecido de cima da sua cabeça e, pelo contrário, achava o mundo sorridente, azul e quente. Chegou à cozinha já preparado para sair de casa. Ia tomar um pequeno-almoço rápido, no alpendre, e sair sem a Susana dar conta. Achava que ela ainda tinha de dar descanso ao tornozelo. Pegou em leite frio, num pão onde colocou queijo e numa madalena das que fazia a senhora Joaquina. Foi direito à mesa e sentou-se. Voltou a apreciar a paisagem que lhe tinha servido de refrigério à alma antes de adormecer e comeu com gosto. O António e o José chegaram, quando estava quase no fim e começaram a conversar sobre os trabalhos do dia. Era a grande preocupação de todos. Deslocados de casa nenhum admitia atrasos, apesar de estarem a gosto ali. Quando o Tiago se levantou para ir fazer um café quase que chocou de frente com a Susana. Estava vestida para o trabalho, incluindo botas. Nem penses nisso, disse-lhe ele em vez de se desculpar. Contornando-a direito à máquina. Eu estou bem e vou contigo acabar aquele troço. Queres que eu tire a bota para veres, respondeu ela tão rápido que o surpreendeu. Ela era sempre calma e ponderada a responder. Estava determinada e isso era evidente. Ele travou a fundo, contornando a discussão que se avizinhava, já que não queria puxar da situação de

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chefe. Desculpa eu ir a entrar tão depressa na cozinha, mas contava que ficasses na cama, pelo menos até ao almoço. E ainda não era dia da Margarida voltar, por isso estávamos todos aqui, disse ele com um sorriso infantil, tentando amenizar e ganhar tempo e folego para a decisão que teria de anunciar, não esperava chocar contigo. O José e o António perceberam que iram ter de tomar partido e por isso, quase em simultâneo, começaram a dizer: se ela se sente bem… Claro que ela levou a intenção dela por diante. Meia hora depois estavam os dois a sair do jipe no mesmo local da manhã do dia anterior. Ela foi caminhando desenvolta, mas cautelosa. Não parecia ter dificuldade a andar, embora o fizesse devagar. Ele seguia no seu encalço, bem perto, com a mochila às costas, que tinha atirado para a mala no largo do pelourinho e agora havia posto às costas. Estava um pouco nervoso, devido sobretudo ao local. Foram descendo. O sol ameaçava fazer o seu trabalho com rigor e deixá-los ensopados e cansados. Quer na descida quer na subida. Chegaram à pedra solta que ontem tanto sobressalto tinha causado. E tanta intimidade física. Era dali que teriam de recomeçar. Ele pretendia concluir aquele troço até ao almoço, mesmo andando mais devagar. Neste trabalho ele servia de técnico de apoio registando os dados indicados por ela. Tirou a mochila e desta para fora o tablet com gps, de modo a registar os dados. Teriam de fazer o percurso até ao rio em faixas paralelas de dez metros de comprimento por três de largura, tal era a quadrícula usada no levantamento. Após os momentos em silêncio em que apreciaram o local em que devido às circunstâncias se tinham tocado com tanta intimidade e pressão, pela primeira vez. Vamos a isto disse ela após ter tirado uma fotografia à pedra e ao rasto vincado na terra pelo seu deslizar sob a pressão do seu peso.

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Foram progredindo relativamente rápido, mas com ele sempre de olhos fixos nos movimentos dela e no terreno por onde avançariam. Um pouco depois do meio da manhã estavam quase na água. Fazemos as últimas faixas e comemos à borda da água, perguntou ele com naturalidade. Sim, boa ideia, disse ela vivamente. Pode ser que haja um sítio para nos sentarmos. Continuaram cerca de mais meia hora, até que chegaram à água. O rio corria tranquilo e discreto, mostrando uma preguiça que não seria normal naquele percurso ainda de montanha, porém a represa uma centena de metros para jusante explicava aquela placidez. Bem perto ficava a praia fluvial da aldeia. Olharam em volta e encontraram três pedras relativamente grande, quase penedos, convidando-os a sentarem-se. Ainda por cima tem sombra, disse ela, que sorte. Com as mesmas cautelas a caminhar aproximaram-se e ele deu uma vista de olhos. Não só o local estava limpo como não havia vestígios de animais. Sentaram-se e ele tirou da mochila pão, duas fatias de bolo e uma garrafa. Oh, não trouxe copos…. Apreciaram a água a correr devagar, olharam a encosta da outra margem e em redor. O local era muito agradável. Acolhedor e romântico. Comeram tranquilamente e com calma. Depois do bolo e de terem bebido a água pela garrafa, os dois, ele fez algo muito inesperado. Deixou-a boquiaberta, mas não se negou a segui-lo. Nem sequer hesitou. Ele tirou as botas e as meias e avançou até à água, pé ante pé, escolhendo onde pisar e entrou no rio e só parou quando a água estava a escassos centímetros da borda dos calções. Ela fez exatamente o mesmo, mas os calções dela eram mais curtos, por isso ficou ligeiramente à frente dele. O fundo do rio era de pedra, suave, mas pouco inclinado. Podiam andar de um lado para o outro alguns passos. A cara deles transparecia felicidade como um garoto travesso sabendo que lhe iam ralhar a seguir. Mas não, ela não se portou

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como a mãe careta repreendendo, mas como um companheiro de travessuras. De súbito o miúdo reguila pegou-lhe na mão e puxou-a para si. Ficaram muito juntos, ombro, braço e perna encostados, olhando a água a correr mansamente. Ele recordou a perna dela na esplanada do senhor Manuel, na primeira sexta-feira. Colocou-lhe o braço por cima. Agora era um rapaz apaixonado e momentaneamente inexperiente. O sol estava forte, a sombra não os cobria ali. Devagarinho ele soltou-a, deslizando a mão para baixo percorrendo por breves centímetros as suas costas, mas fugindo apressada de qualquer contacto com o soutien, mas não se mexeram. Que fazer agora? Como voltar à vida? Acho que o meu tornozelo já não quer mais água fria, foi a frase que rompeu o silêncio, que ameaçava tornar-se constrangedor. Sim, é verdade a água estava fria. Água de serra. Voltaram para a margem, ela à frente e ele velando por ela, um passo atrás. Gulosamente apreciou-lhe as nádegas firmes, que ontem tinha sentido contra si quando a transportou. Percebeu-se que ficou qualquer coisa por dizer. Calçaram-se, depois de tentar secar os pés ao sol por uns momentos. Voltaram ao trabalho. Como tinham conseguido concluir o troço até ao rio iniciaram um novo levantamento, mais próximo da praia fluvial, em direção à estrada e ao jipe. Faltavam duas horas para o almoço. Avançaram encosta acima com relativa rapidez, mas ainda lhes faltava umas quatro faixas quando chegou a hora de irem almoçar. Ele não gostava de fazer esperar ninguém e muito menos às refeições quando haveria pessoas à mesa. Diga-se que a senhora Joaquina reclamaria logo, por causa da comida. Não que houvesse o perigo de arrefecer naquele dia. Arrumaram os instrumentos e chegaram ao jipe. À hora certa estavam a entrar em casa.

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Como contrapartida da obra o trabalho da Susana abrangia uma área muito maior do que a da intervenção das obras, dotando a Junta de Freguesia de um levantamento no final, do seu património vegetal, muito útil no planeamento futuro e no conhecimento da realidade do território. Almoçaram, os quatro e a senhora Joaquina, um excelente assado com verduras e fruta de sobremesa. O resto do dia e os seguintes não tiverem história particular que não fosse o desenrolar dos trabalhos com tranquilidade e normalidade. O Tiago dividiu-se entre assessorar a Susana e o controle do andamento das diversas frentes, mantendo-as sob pressão e assegurando, dessa forma, até porque a meteorologia ajudou sempre, que no final da semana estavam ligeiramente avançados relativamente à planificação. Ao jantar ele avisou a senhora Joaquina que a Dra. Margarida, afinal, só voltaria na segunda feira. Na quinta feira, também ao jantar foi a vez dos gémeos dizerem que iam passar o fim de semana a casa, sairiam depois de almoço. Ela, ao ouvir isto, embora não deixasse transparecer, ficou alvoroçada interiormente. Isto significava que ficariam apenas os dois em casa no fim de semana. Ficou feliz e preocupada. Sentiu-se confusa e agitada. Queria e não queria. Precisava de clarificar rapidamente aqueles sentimentos. Tinha menos de vinte e quatro horas para se preparar. A senhora Joaquina agradeceu o aviso, pois iria fazer as compras de manhã para o fim de semana e adiantar algumas refeições, conforme disse. Aparentemente, ou já sabia ou não se sentiu afetado, pensou a Susana, já que ele não fez nenhum comentário. Interiormente, no entanto, o coração dele sentiu-se muito feliz. Pareceu-lhe um bom augúrio. A notícia deles não foi exatamente uma surpresa. Recordou-se que eles tinham avisado que iriam a casa fim de semana sim, fim de semana não, como tinha sido

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combinado ainda no departamento, durante a planificação da obra, mas não tinha dado particular relevância a essa situação. Ele tinha-se preparado para ficar as cinco semanas fora de casa e não tinha nada que o levasse a voltar em algum fim de semana. Seria um fim de semana de descanso e tranquilo. Quase de retiro. Não iria fazer nada. Talvez passear, rio e piscina. Depois se veria. Depois de jantar a Susana deitou-se cedo, mais cedo que nas noites anteriores. Estava cansada, pois caminhar com todo o cuidado e atenção e avançar nos levantamentos tinha sido duro o dia todo. Na realidade, desde meados da tarde que o seu tornozelo reclamava por descanso, mas esforçou-se por ele não a denunciar ao pé dos colegas. Adormeceu depressa, nem deu conta. A noite estava muito agradável. O verão fazia o seu trabalho. Os três homens ficaram no alpendre a conversar animados e com a possibilidade de serem mais brejeiros que o habitual. Para ajudar à descontração o quarto da Susana era, com o da Margarida o mais afastado. Não havia problema de barulho nem de serem ouvidos. No entanto também eles estavam cansados, tinha sido uma semana de trabalho a bom ritmo, só faltava a manhã de sexta-feira, por isso o sono acabou por vencer. Foram dormir. A casa ficou em silêncio depois do Tiago ter apagado todas as luzes incluindo as do quintal. A lua ainda tinha claridade suficiente. Acordaram todos cedo. Depressa a mesa encheu-se com os comensais esfomeados e, por ser sexta-feira, com animo redobrado para o trabalho. Afinal em breve estariam de fim de semana. Cada um deles tinha expectativas diferentes. O António e a mulher iriam a casa dos sogros dele, o José e a mulher tinham combinado um fim de semana de praia, onde tinham estado de lua de mel e ainda não tinham voltado. O Tiago pretendia relaxar. A Susana queria

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esclarecimentos, do Tiago e do seu coração e recuperar totalmente o tornozelo, para que a semana seguinte não fosse de preocupações. Não se queria sentir inferiorizada, fisicamente. O almoço foi descontraído e ligeiro. Estava imenso calor. A senhora Joaquina preparou uma sobremesa especial. Uma delicia de café, muito fresca, mesmo para dar o tom a dois dias de descanso. Depois do café os gémeos pegaram nas mochilas, mas não nos computadores e despediram-se. Enquanto ajudavam a levantar a louça do almoço ele disse casualmente à senhora Joaquina: só estamos nós os dois, faça também fim de semana. Deixe alguma coisa adiantada e jante com a família. Também merece. Ela protestou ligeiramente, mas acabou por concordar. Senhor engenheiro, na verdade até preciso de ir a casa da minha irmã. É perto, mas é na outra aldeia. Obrigada. Durante a tarde adianto as refeições de amanhã e de Domingo, pois já tinha decidido o que fazer. Com as coisas neste pé estariam os dois sozinhos em casa o fim de semana todo. Seria um acaso ou ele teria planeado? Seria um fim de semana longo, entediante ou curto e agradável. Um fim de semana de colegas ou um fim de semana com o chefe? Agora ainda estava mais confusa. E o seu coração aos saltos. Só um pedaço depois, já tinha terminado o vai vem da arrumação da mesa e da cozinha, quando se preparava para assentar arrais na mesa do alpendre para terminar os relatórios da semana é que deu conta da situação. Até aí, com o espírito ocupado, não tinha ainda realizado que ficaram os dois, apenas os dois, em casa. E ele tinha aquele problema interior para resolver. Pensou que o subconsciente lhe andava a pregar partidas. Ou a conduzi-lo para o futuro. Sim, era o fim de semana de voltar à vida. A Sara, onde

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estivesse, ficaria feliz por ele. Devia ser altura de arrumar o passado e trilhar o futuro. Ela, com todo o seu trabalho já em ordem, em consequência da imobilização forçada de quarta-feira, sentou-se no alpendre, fazendo-lhe companhia, mas lendo um livro. A senhora Joaquina já tinha saído. Estavam sozinhos, em casa. Durante um largo tempo ele trabalhou afincadamente, sem se desconcentrar. Não fossem os pássaros e as cigarras e o silencio seria absoluto. Nem num ermitério seria tão completo. Apenas o ligeiro som emitido pelas teclas do computador marcava o ritmo da tarde. O sol resplandecia, a temperatura do ar abrasava como o hálito de um alto-forno. Desapertou a camisa, mostrando um peito ligeiramente musculado e menos bronzeado do que seria habitual num homem da idade dele. Esticou os braços, como se fosse medir o mundo e as pernas quase para chegar à relva fresca. Olhou para ela e tirou os chinelos que usava em casa, desde que chegara para almoçar. Ainda lhe faltava um pedaço, mas levantou-se e caminhou pela relva, na parte à sombra, ainda. Não fez barulho, por isso ela, concentrada no enredo, não se apercebeu logo. Só quando ele se aproximou e lhe perguntou se queria chá gelado é que ela, com um estremeção de quem acorda de uma outra vida, viu que ele não estava sentado. Sim, por favor disse tirando os pés da cadeira para se levantar. Deixa-te estar disse ele entrando na cozinha. Voltou pouco depois com um tabuleiro. Dois copos grandes, cheios de chá e duas fatias de pão de ló feito de manhã pela senhora Joaquina. Ele olhou para o relógio. Oh! O tempo passou tão depressa. Vou ter de ir à vila, disse ele. É uma coisa rápida, queres vir? Boa ideia, vou. Não a conheço. Só passei por ela a voar na segunda-feira. Não queria chegar atrasada.

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Ele parou o jipe na praça principal. Demoro uns dez minutos. Podes dar uma volta se quiseres. Trouxeste telemóvel? Ela ficou sozinha e resolveu dar a volta à praça. A viagem tinha sido rápida, era relativamente perto. A vila ficava na planície. Em linha reta seriam uns escassos quilómetros, mas por estrada, devido ás curvas para vencer a diferença de altitude, seria mais do dobro. Ele tinha apertado a camisa e calçado as botas mantendo os calções. Era quase o uniforme de trabalho. Ela pelo seu lado estava mais feminina que o habitual. Longe do trabalho, estava de saia e blusa e com uns sapatos rasos, mas que lhe realçavam a linha das pernas, finas e elegantes e longas. Ou seria o efeito da saia acima do joelho, ligeiramente rodada? Fazia-lhe um rabinho empinado, tentador. Será que ele reparou? Na descida da serra, com o sol a bater de curva em curva nas pernas dela, ele teve dificuldade em se concentrar na condução, tal era o apelo que a pele sedosa e o seu tom quente fazia para serem acariciadas. Não a pode apreciar, com ela a caminhar ao seu lado, entre a casa e o largo do pelourinho e depois quando parou. Só a imaginação, recorrendo à visão da outra semana, quando foram todos ao café do senhor Manuel, é que o ajudou a visualizar o efeito, mas a saia era outra… Meia hora depois já estavam de regresso a casa. Ele tinha dado uma volta à vila, de jipe, para ela ficar com uma ideia. A vila era acolhedora e bonita. E parecia satisfeita consigo própria. Passaram pelo hotel onde o António e a mulher tinham ficado. Era numa das saídas, a uns dois quilómetros do centro. O enquadramento, o edifício e a piscina ao lado tinham um ar acolhedor e tranquilo. Quando chegaram à aldeia, o jipe voltou a ficar ao lado do da Susana. Estavam lado a lado desde que ela chegara. O movimento na aldeia

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não criava confusão com o estacionamento e basicamente só eles é que precisavam do largo para estacionar. Tinham feito a viagem de regresso devagar apreciando a calma da tarde. Tudo à volta, a luz do sol, o verde das árvores e dos campos, um pouco amarelados, as cigarras ao longe e nada de brisa convidavam à paz de espírito. Assim que saíram da vila ela desabotoara a camisa, generosamente. Em casa foi direito ao trabalho, que queria acabar quanto antes, mandava-lhe o coração, mas ele ainda não dera conta de onde vinha aquela urgência em ficar sem obrigações. Ela leu um pouco e depois decidiu olhar para o que seria o jantar. O sol ainda não tinha vontade de se pôr, mas a hora de jantar aproximou-se velozmente. Ele já tinha arrumado todas as suas coisas. Que foi colocar na mesa da sala. Quando ela reparou estava novamente familiarmente descalço. Ela tinha trocado de roupa ao chegar a casa. Estava agora muito informal, com ar de dona de casa. Tinha assumido o comando das operações para o jantar. Ele colocou os pratos, os copos e os talheres. Foi ao quintal e trouxe dois pés de flores pequeninas e muito coloridas, que colocou num copo, como se fosse uma jarra, já que não tinha encontrado nenhuma, quando procurou discretamente, para ela não perceber. Mas viu na sala dois pequenos castiçais, com vela. Trouxe um e pôs na mesa perto das flores. Na cozinha, atarefada ela nem deu conta. Só quando se sentou à mesa é que viu. Ficaram frente a frente. Comeram olhando-se e conversando. O calor do fim da tarde não tinha abrandado. Quando acabaram de comer, em vez de ligar a máquina do café ele desafiou-a a irem à rua. Sim, boa ideia, concordou ela. Foi-se vestir enquanto ele despachou a louça. Quando chegaram à rua rumaram em direção ao café do senhor Manuel. ao segundo ou terceiro passo aconteceu algo muito

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inesperado. Ou talvez não. Sem timidez e com naturalidade ele pegou na mão dela. Ela não estranhou, curiosamente. Agradou-se com a sensação forte com que ele a segurava. Com confiança e calor terno. O caminho até à pequena esplanada foi demasiado curto. Não tinham dito palavra naquela centena de passos. Todos os sentidos estavam empenhados em desfrutar aquele contacto. O primeiro desde quarta feira. Tinha sido há tanto tempo, estranharam ambas as peles. O senhor Manuel saudou cordialmente e em breve tinha trazido os cafés. A penumbra do entardecer, o ar violáceo do céu, onde um dourado sereno ainda tinha fulgor bem junto ao horizonte, naquele momento em que o céu não atingiu o azul escuro dos primeiros minutos da noite sólida, disfarçou o rubor de ambos. Tomado o café e estando a esplanada cada vez mais ruidosa, com o fervilhar das mesas já todas ocupadas, ela perguntou: damos uma volta? Ainda nenhum tinha dito palavra sobre as mãos dadas. E ainda não seria agora. Fazia oito dias que também tinham deambulado pelas ruas, mas dessa vez não eram os dois sozinhos. Dessa vez ainda ele estava amarrado a uma prisão invisível. E ela ainda não tinha caído. Assim que saíram do largo do pelourinho, em direção aquela rua estreita onde havia aquele pequeno miradouro sobre o vale, ele colocou-lhe o braço por cima, como se ela precisasse de ser aconchegada da brisa da noite. Que não havia. Só se separaram quando pararam no miradouro. Olharam, durante uns instantes, em silencio, o vale, a encosta diante e o tremeluzir das luzes entre o arvoredo. Que bonito. Não me canso de dizer. Ele olhou para ela, nos olhos, fixamente. Sim, disse ele, mas não se referindo à paisagem. Fizeram um percurso de regresso um pouco maior que na semana anterior. Subiram quase até à piscina e depois foram descendo, calmamente até chegar ao pelourinho, pela rua que vem da vila.

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Ele abriu a porta e deixou-a entrar. Do lado de dentro, no escuro da sala, beijou-a. Finalmente. Com intensidade e emoção. Após um instante de silêncio ele disse: desculpa. Ainda não tinham saído as silabas todas da boca já a língua dela entrava decidida, quente e suave. Ficaram ali uma eternidade de prazer que não durou mais que breves instantes de intimidade. Pegou-lhe suavemente na mão e atravessaram a casa em direção ao alpendre. Sentaram-se na borda com os pés na relva. Ele tirou as sandálias e ela descalçou as sabrinas. A frescura verdejante soube bem na noite quente. Ele respirou fundo devagar e disse-lhe: temos de conversar. Sim, penso que temos muito para dizer, sorriu ela com encanto e ternura. Passou-lhe o braço por cima dos ombros aconchegando-a e aconchegando-se. Ela colocou a mão na perna dele e começou, distraída, a brincar com os pelos. Já não era possível voltar atrás. Começou a falar baixinho, com calma, escolhendo as palavras. Disse-lhe que não era um aventureiro. Que era fiel. A paixão nas palavras foi crescendo e passaram a sair mais fluentemente. Explicou que não era assédio a uma colega. Disse que não sabia o que se passava com ele nos últimos dias. Durante onze meses estivera fechado atrás de um muro cinzento. Desde essa altura que não olhava para uma mulher, como mulher. No entanto, quando ela chegara algo se havia quebrado. Algo cresceu dentro dele, que ainda não sabia explicar, racionalmente. Mas agora tinha sempre muita vontade de estar com ela, sentia-se bem com ela. Acho que tudo começou quando te vi através da porta do meu jipe. Depois foste comigo à Missa, num dia muito difícil. E quando tive de pegar em ti, sem pensar em nada, a não ser que tinha de te trazer para casa, o

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calor do teu peito contra o meu, o teu coração a bater encostado ao meu, foi-me acordando para a realidade para o mundo à minha volta. Percebi que a Sara não pode voltar, e que nada do que eu faça ou sofra a trará de volta. Tinha dito o nome dela sem contar. E afinal foi natural e sem doer. Nestas duas semanas, sem saberes, mostraste-me que tenho de continuar para a frente. E no meu caminho estás tu. Primeiro não vi, mas o meu coração soube. Depois levei tempo a perceber e a seguir a ganhar coragem. Afinal, um fim de semana imprevisto e consegui. Olhou para ela e respirou. Estavam bem juntos, ela tinha passado o braço por trás das costas dele. Ficaram em silêncio uns momentos, olhando em frente. Ela sabia que era preciso tempo. E sabia também que não devia perguntar pela Sara. Ele contaria. Por fim ela disse-lhe que também tinha um percurso sofrido. Que nunca falava dele, mas que também abriria esse livro. Não era ainda tempo. Pelo toque dos sinos num campanário distante perceberam que estavam há horas a conversar. Das coisas intimas e doridas tinham passado para outras mais simples, como os gostos ou os desejos de futuro. Perceberam que estavam cansados e com sono. Afinal tinha sido sexta feira, dia de trabalho. Beijaram-se com ternura e paixão e foram beber uma caneca de leite quente na cozinha. Beijaram-se de novo e cada um foi para o seu quarto. Separadamente prepararam-se para dormir. Cada um sabia, sem o terem dito, que não havia nem pressas nem lugar a precipitações. Tal como a Susana fizera dias antes por causa do tornozelo, escolhendo o terreno para pisar, agora ambos seguiam devagar evitando escolhos e identificando as dificuldades vividas.

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No quarto ele despiu-se e enfiou-se na cama. Ficou virado para cima, olhando o teto e os ligeiros reflexos luminosos bruxuleantes, arrumando os seus pensamentos e tranquilo por ter começado a falar. Tiago, disse ela na porta para o quintal, posso ficar contigo? Sem esperar resposta avançou para dentro do pequeno quarto. Sim, disse ele abrindo o lençol. Ela deitou-se e percebeu que ele estava nu. Despiu-se também. Com suavidade deitou-se de lado, cabeça no ombro dele e mão direita sobre o peito. O braço dele, aberto, passou pelo pescoço dela e a mão pousou, delicadamente, nas costas. Antes que alguma coisa acontecesse adormeceram assim. Abraçados. Como é possível que um homem e uma mulher, no vigor da idade, tendo acabado de confessar um outro que algo se passa nos seus corações, ao ponto de querem estar juntos, adormeçam, nus, em pleno verão, sem fazerem sexo? Só realmente algo muito sólido, em construção, que se sobreponha para além da urgência física dos corpos colados no prazer. Uma grande paz de espírito e a certeza de que o futuro lhes pertence. Como veremos. Só pode ser essa a resposta. O dia amanheceu devagar e preguiçoso, mas quente. Ele acordou na mesma posição, virado para cima. Ela ainda tinha a cabeça no seu ombro. Será que se tinham mexido? O sol entrava devagarinho. Não se moveu, só a cabeça, ligeiramente para ver as horas. Tinha fome. Tirou com muito cuidado o braço debaixo dela e levantou-se devagarinho. Foi direito à cozinha. Preparou o pequeno almoço. Pão de centeio, doce da senhora Joaquina, leite, sumo de laranja e duas fatias de pão de ló feito em casa. Colocou tudo num tabuleiro e regressou ao quarto. Pousou o tabuleiro na borda da cama, não havia outro sitio, e com jeito beijou-a suavemente: Susana, bom dia, disse com ternura suave. Ela abriu os olhos devagar

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regressando à vida lentamente. Olhou para o sorriso dele e deslizou os olhos pelo peito, abdómen e só parou quando chegou aos joelhos sobre a cama junto a ela. Gostou do que viu e desejou-o. Olha, pequeno-almoço, disse ele num tom de miúdo travesso, apontado para o tabuleiro ao fundo da cama. Oh, foi a reação dela. Sim, tenho fome, disse com um olhar guloso, mas não para era para a comida que ela estava a olhar. Destapou-se, com um movimento elegante, quase estudado, diria, e ofereceu-lhe à vista todo o seu corpo, sem pudor nem descaramento. Os olhos dele deleitaram-se percorrendo em camara lenta tudo o que ela lhe revelava. As pernas que ele já conhecia, as coxas bem delineadas, o ventre quase plano e elegante e os seios redondos, cheios a exigirem caricias e o púbis com uma pequena floresta de um tom castanho mais aberto que o cabelo. Sim, ela era bela, apetitosa provocando uma corrente elétrica a alta velocidade pelo seu corpo. Percebeu que o seu companheiro tinha ficado animado, mas ainda não foi desta vez que lhe deu importância. Vamos comer, desafiou ele, sem segundas intenções. Estava mesmo com fome e ela não ia fugir, era sábado, estavam sozinhos e o dia parecia glorioso exaltando os seus corpos. Fosse o que fosse que acontecesse, tinham tempo. Não havia motivo para ter pressa. Não havia motivo para fazer as coisas desastradamente. Comemos com os pés ao sol, propôs ele atrevido e pegou no tabuleiro e colocou-o no chão do alpendre. Boa ideia, disse ela pegando na colcha para colocar no chão. Nenhum fez menção de se vestir. A manhã foi tranquila. Depois do pequeno almoço preguiçaram. Depois do duche ficaram a ler, com música de fundo baixinho embora os pássaros fizessem forte concorrência à pequena aparelhagem que debitava a seleção musical. Tinham vestido roupa informal. Ambos de calções e camiseta, mas descalços.

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A meio da manhã, subitamente ela disse: eu tive um fulano, que me queria amarrada em casa. Eu era louca por ele, mas salvei-me a tempo. Um dia acordei. Pousou o livro, levantou-se e pegou na mão dela. Levou-a até à relva e disse-lhe: conta-me, conta-me com pormenores. Quase até à hora de almoço ela não foi parca na descrição da sua vida anterior. Ele ficou triste com o sofrimento por que ela tinha passado na busca do futuro. Algumas vezes ficou com os olhos húmidos. Uma vez e outra ela limpou-os com a mão, mas também com a língua beijando-lhe a face. Para ela foi tão tonificador e reparador contar aquilo a ele, expurgando de si, que não chorou, mas ficou aliviada. A sinceridade e profundidade a que ela tinha cavado no seu interior as memórias mais duras amoleceram o seu coração, mas empurraram-no também para fazer sair de si o que ainda não tinha saído, mas precisava. Falou-lhe da Sara, diretamente, pela primeira vez. Contou-lhe como a tinha conhecido, como apaixonados tinham namorado felizes e como tudo acabara naquele dia fatídico em que ela tinha ido reservar o vestido de noiva. Para o casamento já marcado. O carro, a passadeira, as amigas feridas, o hospital, o coma, o fim, depois de dias de luta. Chorou, chorou pela primeira vez nos últimos onze meses. Baixinho, com dor, mas aliviando progressivamente o peso que transportara até ali. Agora estava com a cabeça no seu regaço. Ela tinha as pernas cruzadas e ele havia-se colocado de lado em posição fetal falando com os olhos no vazio, que à medida que ia expulsando o negro da memória, ia tornando o dia mais radioso dentro de si. Tinha partilhado tudo. Estava aliviado e feliz. A Sara estava no seu lugar, dando espaço para a Susana ocupar o dela. Se quisesse. Deitados na relva, beijaram-se ternamente, com paixão e desejo. Mas não foi agora, ainda. Mas já não estava longe o momento

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em que se possuiriam. Ambos sabiam disso. O amor, inevitavelmente, transformar-se-ia em sexo, em breve. O sexo seria, em breve, amor presente, no suor e nos fluídos íntimos. Tinham construído a casa com paciência, desde os alicerces profundos, passando pelas paredes para abrigar aquele amor fresco e o telhado para as tempestades do futuro. Colocadas em cima da mesa as dores do passado não haveriam dificuldades insuperáveis amanhã. Essa era a certeza que moldavam com determinação. Ao longe o campanário bateu as horas. E o almoço? Rindo-se, como garotos no recreio levantaram-se e correram para a cozinha. Não admirava que estivessem repletos de fome. Cozinharam em conjunto e sentaram-se à mesa, frente a frente. Por entre silêncios tranquilos a conversa foi surgindo, cúmplice entre os dois, sobre tudo e nada. De repente decidiram ir à piscina à tarde. E assim fizeram. Saíram de casa de mão dada e sem pressa foram a pé até à piscina. Passaram o largo do pelourinho e meteram pela rua da esquerda que subia ligeiramente primeiro e à medida que se aproximava do fim da aldeia acentuava a inclinação. Mesmo no fim da rua, mas uns bons metros antes de chegar à piscina e ao seu pequeno parque verde, tinha uma ligeira curva onde marcavam presença as três últimas casas do lado direito, com uma posição alcandorada sobre o vale e os telhados da maior parte da aldeia. Não estavam encostadas, mas também não tinham demasiado terreno entre elas. Iam a passar, entretidos um com o outro, disputando carinhos púdicos, de casal tímido, ou seja, apenas caricias com as mãos dadas, quando ela reparou num cartaz, quase pequeno ao lado da porta. Vende-se, contactar o telefone tal. Ela parou de repente surpreendendo-o. Olha, olha! Tiago.

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A casa era pequena na fachada. Uma porta e uma janela e pouco mais, mas o terreno deixava ver pelo pequeno muro, que se estendia sobre a encosta. Talvez tivesse dois pisos ou dois níveis. Parecia bem arranjada. Não se viam marcas do tempo nem de desprezo dos donos. Espera, disse ela, eu quero esta casa. Ele olhou com atenção. Terá dois quartos no máximo e sala. A chaminé é nova, mas mantém a traça da aldeia. Vamos tomar nota do número e depois falamos. Tu gostas? Perguntou ela ansiosa com um olhar de cachorrinho abandonado. Irresistível. Ele não respondeu, mas beijoua apaixonadamente e durante uma eternidade de felicidade as suas línguas brincaram às escondidas afagando-se. Foi a primeira vez que ele a beijou na rua, e ela nunca mais esqueceu isso. Dentro das instalações da piscina, depois de terem passado pelos balneários para trocarem de roupa, escolheram um canto do relvado perto da sebe do fundo e onde uma árvore dava sombra a uma grande mancha de sol. Sentaram-se e ela não se esqueceu do protetor solar. Colocou-lhe nas costas e ele fez-lhe, de seguida, o mesmo. A tarde estava magnifica e a ligeira brisa do alto da encosta no cimo da aldeia apenas mitigava o calor, mas não excessivamente. Nadaram, brincaram na água, secaram ao sol e repetiram tudo, sem se cansarem. Pareciam da idade dos poucos jovens que estavam no recinto. Estavam tão sozinhos no mundo, no seu mundo, que não deram conta daquela senhora a aproximar-se deles. Boa tarde senhora engenheira, boa tarde senhor engenheiro. Tiveram dificuldade em reconhecer a mulher que lhes falava. Primeiro devido à posição de contraluz e por estar em pé depois porque a senhora Joaquina em fato de banho parecia muito mais nova e elegante. Também vim à piscina, aliás onde passo o meu tempo livre, no verão, sobretudo ao fim de semana. Foi dizendo

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enquanto se sentava na relva. Também eles se sentaram. Tantos dias juntos na cozinha da casa e tantas refeições apetitosas que tinham comido juntos e como ela era diferente sem a pele de empregada, de cozinheira numa casa de engenheiros empenhados em despachar uma obra. Depois de terem conversado as trivialidades habituais, o tempo, a piscina agradável, a família dela estava boa, a Susana não aguentou mais: quando vínhamos para cá, quase a chegar aqui à piscina vimos uma casinha à venda, ali na rua. A senhora sabe de quem é? Perguntou ela. Sim, é do Miguel Santos, o primo do Manuel do café do pelourinho. Está toda arranjada. Era a casa onde nasceu. Esteve uns anos em mau estado, mas ele fez obras para ir viver para lá. Por dentro está toda moderna. Só deixou as paredes de fora. E a vista para o fundo do vale é encantadora. Tem um pátio enorme do lado de baixo da casa. Mas é um bocado cansativa para se viver lá muito tempo. Tem dois pisos desacertados. A senhora Joaquina falou sem parar, o que encantou a Susana, que se começou a imaginar dentro da casa. O tal Miguel tinha emigrado quando a fábrica da vila, onde trabalhava fechou. Sofreu muito com a morte da mulher. Parece que não quer voltar à aldeia. Quase em pânico ela olhou de soslaio para ele. Tentou perceber se tinha havido algum choque. Nada na expressão dele se alterou. Foi mais uma das muitas informações da senhora Joaquina. Não havia produzido nenhum sismo dentro dele. Sobre aquele assunto estava resolvido interiormente, mas ela não sabia, de certeza, ainda, e por isso sobressaltou-se. Posso tentar saber quanto quer pela casa, ofereceu-se. Sim? Que bom. Muito obrigado, disse a Susana. Volto para o pé do meu homem e do meu neto, disse a senhora Joaquina apontando vagamente para o outro lado da piscina. Boa continuação de descanso, responderam os dois quase em uníssono. Levantou-se atravessou o relvado. Quer um quer o outro

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não puderem deixar de a ver afastar-se. Por razões diferentes, ou não. O Tiago porque sempre apreciava os detalhes das mulheres, sem ser obcecado, mas por natural curiosidade masculina e a Susana, porque todas as mulheres olham para as outras, qualquer que seja a sua idade, como uma rival. Depois de terem atacado o pequeno lanche que levaram repetiram os banhos e as brincadeiras, esquecendo o mundo à volta deles, novamente. Ao fim da tarde o corpo já pedia descanso e alimento generoso e por isso prepararam-se para voltar para casa. Ela, embalada pelo relato da senhora Joaquina, queria olhar outra vez para a casa. Ele não disse, mas já construía sonhos dentro dela, sem conhecer ainda o interior. Ficaram uns momentos abraçados, quando desciam a rua, defronte da casa. Alguém atento, se olhasse para eles naquele momento, poderia ver os seus sonhos a pairarem. Pararam no café do senhor Manuel, que os saudou cordialmente e tomaram um café na esplanada, aproveitando o sol do fim da tarde sobre o pelourinho. Chegaram a casa exaustos, mas felizes. Tinha sido uma tarde relaxada e de descanso sobretudo espiritual. Largaram os fatos de banho e as toalhas na cozinha e cada um foi ao seu quarto. Pelo caminho tinham acertado que faziam o jantar depois de cada um tomar duche. O corpo estava quente do sol e castigado de tanto nadarem e brincarem na água. O Tiago despiu-se e pegou na roupa para a levar para a máquina e seguiu para a cozinha, tão à vontade, e feliz, que não se lembrou que estava nu. Depois rumou a caminho de uma das casas de banho para tomar um duche retemperador. No momento de fechar a porta voltou atrás, subiu os dois degraus e bateu

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suavemente na porta, que não estava fechada. Disse-lhe com um ar inocente de petiz atrevido: lavas-me as costas? Foi empurrando a porta enquanto dizia isto, não esperando por qualquer resposta. Ela estava gloriosamente nua a olhar para ele. Uma ligeira marca do biquíni no peito e no baixo ventre acentuava as suas curvas elegantes. Os seios, redondos mostravam dois mamilos castanhos coroados de pequenos pontos, prontos a serem beijados, ou lambidos carinhosamente. Ela não teve tempo de responder. No segundo seguinte a língua dele estava a jogar às escondidas com a dela enquanto se abraçavam com força e ternura em doses possessivas. Entraram de mãos dadas na casa de banho. Felizmente que a cabine de duche era generosa. Desfrutaram, sem controle, de um banho quente, a fazer vapor, na tarde de verão. Ele ensaboou-lhe as costas com delicadeza e pormenor, saboreando sem pressa a sua pele. Depois colocou-se de joelhos e fez o mesmo às pernas, cada uma na sua vez. Beijou-lhe delicadamente o ventre, que tanto apreciava, e finalmente deslizou o sabonete pelos seios firmes, hirtos e provocadores. Foi contido e respeitador, mas será que era o momento? Colocou-lhe ao de leve o sabonete nas mãos e ofereceulhe as costas. Num jogo apaixonado, quase de simetrias ela repetiu as mesmas operações, sem pressa nem agitação. Nessa ocasião o pénis estava mais ereto que o mastro da bandeira em dia de festa. Lavou-o sem outra intenção, por enquanto. Demoraram a retirar a espuma e a apreciar a água quente sobre a pele. Cada minuto e cada centímetro soube a eternidade e a futuro. Quando deram conta estavam quase a desmaiar de fome e riram-se mutuamente com gosto. Ainda não se tinham possuído em nenhuma gana momentânea de prazer. No entanto cada momento era de puro prazer. Sabiam que em breve estariam unidos, mas não tinham pressa.

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Jantaram com apetite, mas frugalidade, sobretudo fruta e sumo, com ovos mexidos e fatias de carne assada, que tinha ficado preparada desde a tarde de sexta-feira. Depois decidiram ver um filme. Sentaram-se no sofá da sala. Seria talvez a terceira vez que o faziam, mas desta vez estavam só os dois. Juntos, aninhados um no outro. Bateram à porta ao de leve e quase de seguida abriu-se ainda antes que um deles se tivesse levantado. Entrou a senhora Joaquina, fresca e jovial, sem ar algum de cozinheira da casa dos senhores engenheiros, como ela dizia no mercado. Trazia um vestido curto e justo, muito diferente do que usava durante a semana. Assim era impossível perceber a idade dela. O marido tinha motivos de sobra para manter a chama acesa. Boa noite, como estão? Perguntou e acrescentou, não queria incomodar, mas pensei em passar cá com as novidades. Senhora engenheira, não consegui falar com o Miguel da casa que gostou. Não atendeu o telefone, mas o Manuel do café disse-me o preço. Lá ela debitou um número pequeno e redondo que deixou a Susana com o coração aos saltos. Será que a podemos ver, que a posso ver, emendou de imediato. Ele ainda não tinha falado da casa nem mostrado interesse à senhora Joaquina e nada ainda tinha denunciado o casal recém-formado. E não seria agora, ainda. A senhora Joaquina disse que trataria de ver quando era possível, mas talvez o melhor fosse durante a semana, ao fim da tarde. Ou talvez amanhã, que era Domingo. Depois da Missa veria se era possível. Não sabia se o Manuel tinha a chave. Com a missão cumprida despediu-se e saiu. Eles voltaram ao filme, que tinha ficado parado. E voltaram a aconchegarem-se. Quando o filme acabou ainda era cedo, considerando que era sábado. Vamos ver se há lua, propôs ele e pegou-lhe na mão seguindo direitos ao alpendre, mas não pela cozinha, foram em frente no corredor e atravessaram o quarto dele. Como sempre

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estava tudo aberto. A portada da cozinha, do quarto dele e do quarto dela. O quarto dos gémeos e o da Margarida estavam fechados, como eles tinham deixado. Sentaram-se na borda do alpendre, de mãos dadas, apreciando o que se via do vale no lusco fusco da noite, as luzes a tremeluzir em frente, como já tinham apreciado em outras noites acompanhados ou cada um sozinho. Não havia como evitar. Ele pegou-lhe no rosto e beijou-a devagarinho, sem pressa, deixando a temperatura fazer o seu percurso de subida. No momento seguinte ele desceu as mãos pelo pescoço, bem devagar e sem nenhuma pressa e tateou, enquanto dava atenção ao evoluir das línguas, de modo a manter a máxima tensão, os seios. Procurou o primeiro botão da blusa, que não resistiu muito tempo e depois o segundo e o terceiro foram pelo mesmo caminho. Empurrou com suavidade a blusa pelos ombros abaixo e deslizou suavemente as mãos pelas costas dela apreciando, novamente naquele dia, a sua pele suave, mas desta vez não a tonalidade, escondida pela pouca luz do quintal. Não tinham ligado novamente a iluminação do quintal, preferiam as estrelas. Antes de soltar o soutien passou as mãos pelos seios ainda protegidos e os mamilos robustos estavam alerta dizendo presente com todo o fulgor. Voltou a dirigir as mãos aos ombros e seguindo para as costas atacando agora, decidido e sem hesitação, o colchete. Libertou-a daquela peça de roupa. Entretanto ela não ficara parada, impassível. Pelo contrário, puxou-lhe a camisa para cima e fêla deslizar pela cabeça. Encostaram os seus corações um ao outro e, quase podia jurar, que batiam em sintonia. Aquele beijo durou todo tempo da operação de libertarem os seus troncos dos têxteis. A temperatura da noite não ajudou a refrescarem. Descalços já estavam, desde que tinham vindo da sala, apreciando a textura, primeiro do chão da casa, depois do alpendre, um pouco mais rugoso e depois da relva, quando se sentaram. Numa troca complicada de

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mãos no espaço restrito das operações soltaram os botões dos calções um do outro. Ela meteu a mão dentro dos boxers dele e tocou-lhe, estava duro e firme. Agarrou-o decidida. Pelo seu lado ele teve mais dificuldade em arranjar espaço nas pequenas cuecas dela para a sua mão de homem, mas conseguiu. Os dedos seguiram em frente pela pequena mata púbica até alcançaram os lábios exteriores, que acariciou com suavidade. Comprovaram que tinham roupa a mais, naquele momento, para desfrutarem integralmente dos seus corpos. Puseram-se em pé e enquanto se beijavam, como se fosse a primeira vez, por artes mágicas ou outra intervenção não registada, as últimas peças deslizaram pelas pernas até ao chão. Não era a primeira vez que estavam totalmente nus juntos. Já tinha acontecido à tarde, no duche, mas desta vez era especial. Agora, o amor alimentado pacientemente ia transformar-se em união física. Iam ser um único. Não souberam, nem saberemos nós, quanto tempo estiveram primeiro no alpendre e depois na relva, deliciando-se mutuamente com o desejo mútuo de se agradarem e satisfazerem, unidos pelas duas peças encaixadas, como se ele sempre tivesse pertencido àquele lugar quente e húmido e ela o tivesse tido sempre dentro de si. Num intervalo para retomarem o folego apanharam a roupa do chão que atiram para cima da cadeira do quarto e deitaram-se na cama. Voltaram ao princípio, recomeçaram tudo, exceto tirar a roupa, que já não tinham há muito tempo. Cada um sentia, em uníssono e sintonia, uma tal satisfação, gosto e prazer que tiveram a certeza, naquela noite, já longa, que iria ser para sempre. Tinha valido a pena não saltar etapas. Tinha valido a pena não terem começado pelo sexo (que desde sempre, diríamos nós, esteve latente, esteve presente, mesmo antes de o saberem).

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Amaram-se, como se não houvesse amanhã, como se fosse a última vez. Como a primeira vez, que era. Acabaram por adormecer, abraçados e unidos, física e interiormente. Ela acordou sem pressa e quando abriu os olhos ele estava a olhar para ela com um sorriso do tamanho do mundo. Deu-lhe um beijo suave na testa e apontou para o tabuleiro ao seu lado. Pequeno almoço, disse. Voltaram a comer no alpendre, ouvindo os passarinhos e vendo o sol a espreguiçar os seus raios. Entre duas mordidelas no pão ele perguntou: vens comigo à Missa? Ainda temos tempo de tomar um duche rápido. Sim, claro. Respondeu dando-lhe um abraço, mas sem largar o pão. Entraram na igreja e ele procurou, com a determinação interior de quem sabe o que precisa de fazer, que ficassem exatamente nos mesmos lugares da semana anterior, o que conseguiu. Na altura não percebeu se ela tinha ou não reparado nesse pormenor, só mais tarde, quando falaram daquele dia, é que isso foi assunto. Para ele o pormenor era importante e significativo. Era o ponto físico onde a sua vida tinha tomado outro rumo. Nesse dia ainda não sabia, só percebeu mais tarde, que tinha saído um homem diferente daquele que entrara. Agora, oito dias depois, sabia que tinha um futuro partilhado. Deu-lhe a mão discretamente depois da oração que fez ajoelhado, enquanto esperavam o inicio da cerimónia litúrgica. Terminada a Liturgia saíram sem pressa por entre os habitantes da aldeia. Alguns já os conheciam de vista ou da reunião noturna, no inicio da obra, com a Margarida, em que ele iniciou e conduziu os trabalhos. Por isso foi com naturalidade que foram saudados por algumas pessoas no adro e que um ou outro, mais afoito ou interessado, também promovendo a hospitalidade da terra,

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se quis inteirar do decurso dos trabalhos. Sempre que pode, manteve a sua mão dada com a dela, numa cumplicidade apaixonada, mas discreta e segura. Deu algumas explicações com pormenores genéricos e respondeu sempre de forma delicada e cordial. Num ou noutro aspeto deixou que fosse ela a dizer algumas palavras. Assim que ficaram sozinhos decidiram tomar café na esplanada e ver se o senhor Manuel tinha o jornal do dia. Havia uma agitação no largo do pelourinho, como ele no domingo anterior não reparara. Bem, o domingo anterior tinha sido o encerrar de um capitulo da sua vida e a abertura de um novo e toda a sua atenção estava focada nessa transformação interior a decorrer. A ferida estava cicatrizada e o espirito preparado para a mudança, para a renovação. Na semana passada estava apreensivo, pesaroso e não estava à vontade. A Susana tinha ido com ele sem contar. Sem querer ela tinha entrado na sua vida, devagarinho, mas sem saber bem como tinha ganho espaço. Espaço próprio. Sim, e algo já se tinha começado a mover dentro de si. Por isso foi tão importante estarem hoje juntos, no mesmo sitio. Foi a confirmação de que tinha chegado um novo tempo. E como esta semana transformara a sua vida e o seu coração voltara a sorrir de prazer e entusiasmo. Ela tinha saído de casa feliz e ligeiramente apreensiva. Feliz porque era domingo, porque iram ter um dia inteiro só para eles antes de uma semana de trabalho e antes de ficarem acompanhados. Feliz porque estava apaixonada, perdidamente, diria. Apreensiva porque na semana anterior ele estava muito distante, estranho e calado. É claro que tinham falado do assunto. Ele tinha-lhe contado as suas feridas e mágoas e como tinham pacientemente alimentado aquele amor novo, que a fazia vibrar por dentro. Ele era tão carinhoso e atencioso e querido. Mas, como iria ser? Será que efetivamente ele tinha virado a página? Será que a sombra da Sara

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ainda estaria algures no seu coração, agora que se aproximava o décimo segundo mês, o terrível aniversário. Afinal tinha sido infundada a sua apreensão. Ele tinha sido ele mesmo. Nada mais diferente do que no domingo passado. Nenhuma sombra pairou. Tinham sido apenas mais um casal na Missa. E tão discreto que tanto podiam ser apenas conhecidos, colegas de trabalho ou mais, muito mais do que isso. O que era o caso. No entanto, um observador atento teria notado uns olhares breves, mas diferentes, carregados de ternura. Teria registado as mãos dadas, sem se esconderem e sem gritarem indiscrição, desnecessariamente. Um observador atento teria visto os laços de amor que os envolviam. Porém ninguém é assim tão atento num domingo de sol, com a esplanada cheia, os vizinhos a conversarem no fim da Missa, as crianças, poucas, a correrem em desenfreada alegria. Fizeram o almoço juntos, partilhando tarefas. Algo simples como panadinhos de peru com arroz de tomate e fruta, mas só depois de se terem beijado com intensidade assim que fecharam a porta e se encontraram em casa, ao abrigo do calor da rua. Rapidamente trocaram de roupa, pois a fome apertava. Ela tirou a saia a tender para o curto, quase travada e a blusa cavada, com um decote generoso que tinha posto na primeira sexta-feira quando foram à esplanada do senhor Manuel, quando ele a tinha visto a primeira vez com o cabelo solto. Na igreja a blusa estivera recata debaixo de um casaquinho de malha, quase da mesma cor, que ela tirou assim que saíram para o largo. Vestiu uns calções largos de algodão e uma blusa muito informal e larga, que deixava, por vezes, quando se mexia, ver o suporta seios cor de carne que os mantinha em ordem, fazendo tocar uma campainha no cérebro dele. Ele trocou as calças por uns calções simples e nem se calçou. A camisete era de

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algodão branco, com publicidade a um famoso café, em vez da camisa engomada. Enquanto comeram, sabendo que o tempo juntos a dois estava a caminhar para o fim, nesse domingo, tentaram arranjar algo para fazerem juntos. Decidiram ir à piscina. Entusiasmou ambos, pela perspetiva da água, do sol e do calor e da liberdade inerente, mas também porque passariam outra vez pela casinha. Nesta ocasião, em que se lembraram desse aspeto, o ar sonhador de ambos fazia lembrar a cena de um filme americano de uma historieta de amor da série B. Tal como na véspera, fizeram o caminho de mãos dadas, sem pressa, apreciando a vida. À medida que se aproximavam da piscina, e por consequência, da casa o coração acelerou, batendo em sintonia e uma pequena agitação apoderou-se deles. Desta vez, assim que ficou visível no angulo da ligeira curva da rua não despregaram os olhos dela, parecendo querer reter todos os pormenores, como se assim a guardassem para si. Por momentos encostaram-se ao pequeno muro de pedra desaparelhada que dava um ar muito rústico e encantador à propriedade. Aqui e ali pequenas plantas e flores silvestres despontavam entre as pedras. O muro estava bem conservado. Com o olho profissional habituado a distancias e medidas calcularam o tamanho, apreciaram a relva, um pouco crescida, mas bem tratada. As paredes brancas com pedra aparente mostrando bom gosto e sobriedade. O telhado era novo, bem conservado e as janelas pareciam de madeira, mas podiam ser sintéticas de qualidade. A distância da fachada principal à rua já não permitia distinguir isso. Ela abraçou-o com força e perguntou num murmúrio: queres? Queres viver aqui, comigo? Sério, respondeu-lhe com doçura: Susana, vivo em qualquer sítio do mundo desde que seja contigo. Inevitavelmente beijaram-se, primeiro apaixonadamente,

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com intensidade e posse e depois suavemente, com deleite e paixão. Ela sentiu o volume dele aumentar contra o seu baixo ventre e ele experimentou o espetar dos mamilos contra o seu peito, fortes e generosos na reação. Ali, no meio da rua, quase no cimo da encosta não havia mais nada a fazer que não fosse seguir em frente, para a piscina. Aliás era isso que o sol dizia a plenos pulmões espraiando toda a sua força e intensidade pela serra e pela aldeia a seus pés. Retomaram o caminho e quase de imediato estavam nos balneários, separados, claro, a libertarem-se da roupa da rua, trocando-a pelos trajes para a água. Ele teve alguma dificuldade em acomodar os calções de banho e precisou de passar pelo chuveiro, de água fria, encolhendo o problema. Não tinham percorrido dois metros na relva em volta da piscina, à saída dos balneários, já a senhora Joaquina vinha direita a eles. Trazia na mão estendida alguma coisa que não perceberam no primeiro olhar o que era, mas à medida que se aproximou, com a velocidade que trazia, um escasso instante imensurável, se tornou claro que era uma chave. O Manuel tinha a chave para mostrar a casa e quando lhe falei no interesse da engenheira ele passou-ma logo para mão, dizendo para a verem quando quiserem. Ora, eu pensei logo que viriam à piscina, como eu. Que mais há para fazer nesta terra num dia de verão excelente, perguntou, sem esperar resposta. Assim podem entrar quando forem para baixo e passou, ainda falava, a chave para a mão dela. Sem qualquer reação ou pensamento a Susana agarrou, com força, cravando-a na palma da mão, para que não fugisse e assegurando-se de que não estava a sonhar. O resto da tarde na piscina foi como no dia anterior. Divertiram-se. A senhora Joaquina voltou para o pé do neto, do marido e seria também o filho e nora. Eles escolheram aquele local que lhes tinha agradado no canto da relva, perto da sebe.

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Depois de terem aproveitado bem a água e o sol deram conta que não tinham trazido nada para o lanche. Paciência, jantaremos melhor, concordaram. Isso significava, no entanto, que não aguentariam tanto tempo e por outro lado, a chave, na borda da toalha, queimava a curiosidade deles. Chegaram de novo ao muro de pedra e procuraram a chave certa para introduzir na fechadura do portão de ferro forjado simples e tradicional. Estava bem oleada e abriu sem esforço e sem ruído. Atravessaram a relva, pelas lajetas, em direção à porta da casa. Era de madeira, tratada e robusta. A porta ficava ligeiramente recuada em relação à fachada do lado esquerdo, onde havia uma janela grande, provavelmente um quarto. Entraram sem esforço. As paredes eram brancas, o chão de madeira. Afinal à esquerda era uma sala e à direita um quarto e depois outro. Caramba, parecia a casa onde estavam a viver, lá em baixo, ao pé do largo. Que coisa estranha. A principal diferença é que o desnível, para acompanhar a inclinação da encosta era um pouco maior. Cinco degraus. Desceram. Afinal havia mais um quarto ao fundo à direita. Ao lado a casa de banho, grande e com uma porta para fora e a cozinha, do lado esquerdo. Estas três divisões, visivelmente mais recentes que a parte superior da casa, davam para uma varanda, larga e coberta, com madeiramento aparente e um ar mediterrâneo, de sul, muito agradável e luxuriante, que era uma perfeita surpresa na aldeia e na serra. A configuração da construção e do terreno escondia-a admiravelmente da aldeia, não agredindo a estética local. Tiago, parece um monte alentejano, disse visivelmente excitada. Vamos ser felizes aqui, disse ela como se já fosse deles. Espero que consigamos comprá-la, rematou descendo à terra. Percorreram divisão a divisão inspecionando atentamente todos os pormenores. Gostaram de tudo. Das janelas grandes para o vale na cozinha, casa de banho e quarto. A cozinha na verdade seria a

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sala de refeições, devido ao seu tamanho, deixando a da entrada como acolhimento e de visitas. A parte superior da casa acabava por funcionar muito bem como barreira para a rua. Era perfeita e seria deles. Fecharam novamente tudo, cuidadosamente, como se já fosse sua. Saíram e desceram até ao largo do pelourinho. Não se sentaram nem tomaram café, mas foram direitos ao interior. Boa tarde senhor Manuel. Boa tarde senhores engenheiros. Aqui tem a chave, muito obrigado. Gostámos muito da casa. Diga ao seu primo, que se o preço se mantém fazemos negócio. Só preciso de ir à cidade tratar com o meu banco. A expressão do senhor Manuel foi de alegria e satisfação. Vou dizer ao meu primo. Fico muito feliz, senhora engenheira. Depois de mais uma quantas palavras de circunstância, despediram-se. A fome estava impossível de aturar. Na verdade, mais qualquer coisa também. O Tiago sonhava com um duche quente, como o de sábado. O cloro da piscina estava a deixá-lo em brasa. Seria mesmo o cloro? Na curta distância até casa tentaram decidir o que seria o jantar. Talvez algo improvisado. Uma boa conversa com o frigorifico traria a solução. O que na realidade aconteceu. Entraram em casa e foram direitos à cozinha. Sacos da piscina junto à máquina da roupa, lavariam os fatos de banho depois. Ele descascou duas peças de fruta, maçãs, que pegou da fruteira no centro da mesa, e foram roendo enquanto se despiram, cada um em seu quarto, para arrumar a roupa. Nesse aspeto eram os dois organizados. Encontraram-se à porta da casa de banho e beijaram-se, como desejavam desde a piscina e como teriam feito na casinha se já fosse deles. O banho decorreu como ele tinha ansiado. Foi retemperador, carinhoso e intimo. Voltou a passar-lhe o sabonete nas

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costas, nas pernas, no ventre e nos seios. Ela repetiu os gestos de carinho e desejo percorrendo o corpo dele sem pressa e com deleite, fazendo deslizar o sabonete, enquanto a água bem quente deixava um nevoeiro denso na casa de banho, mesmo com a janela toda aberta. Possuíram-se com a intensidade e satisfação, de quem sabe que encontrou o caminho. Amanhã, provavelmente já não poderiam repetir aquela intimidade. Tal como desde sexta-feira, fizeram o jantar juntos e comeram no alpendre. Com calma apreciaram a tranquilidade do fim do dia sobre o vale. Apreciaram o verde da folhagem a tingir-se de negro e o azul do céu tornando-se cada vez mais lilás até as estrelas se acenderem. Não tinham decidido ainda o que fazer antes de adormecerem, mas amanhã seria dia de trabalho. Começava uma outra semana intensa para não haver atrasos e agora tinham mais uma ocupação: o seu amor que depois de ter germinado queria agora atenção constante para crescer viçoso. Ainda não tinham dito palavra como abririam ao grupo de trabalho a noticia do seu novo estado de apaixonados. Afinal não estavam de férias na aldeia. Ali era uma base de trabalho. Tinham colegas. Depois de arrumada a cozinha e dele ter passado em revista os planos de trabalho das várias frentes para a semana, apagaram as luzes de casa e ligaram as do quintal. Ainda não o tinham feito, desde sexta feira. Sentaram-se na borda do alpendre, pés descalços na relva e abraçados. A casa era o tema em cima do regaço para esmiuçarem. Desde que tinham vindo de lá, o duche, o sexo e o jantar foram impedimento para falarem dela. Agora era o momento. Coincidiam em quase todas as opiniões e apenas um outro pormenor relativo à organização do espaço era ponto de negociação futura, embora nitidamente ela fosse levar a melhor. Decidiram ir cedo par a cama,

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para se levantarem a horas. Claro que ainda iriam dormir juntos, pelo menos esta noite. Ainda não sabiam muito bem que atitude tomar com a casa cheia. Dormiriam juntos? dormiriam separados? Namorariam às escondidas? Conseguiriam esconder aquela paixão acesa como um holofote num estaleiro? Quando diriam aos outros? Ou seriam descobertos antes de dizerem alguma coisa? Desligadas todas as luzes, foram para o quarto dele, o pequenino acolhedor. Despiram-se mutuamente, devagar, apreciando as caricias e o toque quente da pele. Não tinham muito para tirar. Depois do banho ele tinha ficado apenas de boxers e camisete e ela de cuecas e calções curtos, do costume e uma camisete larga, deixando os seios em liberdade, que apreciaram todos os instantes. Ele bem tinha reparado como eles fizeram todos os possíveis para chamar a atenção enquanto faziam o jantar, enquanto comeram e arrumaram a cozinha e quando se sentaram no alpendre. Firmes e hirtos, empinaram várias vezes os mamilos como se fossem rebentar a qualquer momento. Diga-se, que discreto, uma vez ou outra, sem controlar, o seu companheiro tinha ficado muito mais do que húmido, preparado para entrar em ação ao primeiro sinal, deixando uma clara marca nos boxers. A comunicação entre ele e os seios era perfeita. As poucas peças de roupa acabaram em cima da cadeira. Ele não conseguia ser desarrumado, nem quando a urgência da ação reclamava toda a atenção. Ela deslizou suavemente para a cama, de costas, puxando-o pela mão enquanto o beijava no peito. Sentiu todo o calor que emanava vibrante do baixo ventre dele contra si, por instantes, e deitou-se. Ele libertou-se da boca dela e beijou-lhe os pés, depois as pernas, subiu pelas coxas pelo lado exterior e depois avançou para dentro, em direção ao triangulo do prazer, cuja

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pequena mata, curta e bem aparada escondia o tesouro. Parou e deslizou para os seios, que beijou com intensidade, quase com sofreguidão. Acariciou-lhe o rosto e beijou-lhe o pescoço e antes de suavemente brincar com a língua na sua orelha sussurrou-lhe: querote, para sempre. Depois, deitou-se sobre ela devagar, sentindo o calor do corpo dela a chegar ao seu, cobrindo-a. No instante seguinte deslizou para dentro dela, como se sempre tivesse sido o seu lugar. Já tinham feito todas as evoluções que a imaginação permitia, sem pressa nem cansaço, quando perceberam que tinham calor. Ele pegou-lhe na mão e puxou-a para fora do quarto. A relva estava magnifica no seu esplendor verde, que não conseguiam ver, mas sabiam. E começaram tudo, de novo. Talvez não tivessem outra oportunidade naquele sítio. Quem sabe? Estavam no fim do pequeno almoço, sentados frente a frente, quando o António e o José chegaram. Pouco passava das oito e dez. Deram os bons dias abraçaram o Tiago e beijaram a Susana. A relação entre os três homens era estreita. Trabalhavam juntos há bastante tempo e funcionavam como equipa na perfeição. A empatia com a engenheira tinha sido instantânea. Os dois trouxeram da cozinha leite, pão, sumo de laranja e bolo, chegou ao fim. A senhora Joaquina vai ter de fazer mais logo, disse o António a devorar a sua fatia. Perguntaram quase ao mesmo tempo como tinha sido o fim de semana na aldeia. O Tiago e a Susana trocaram um olhar cúmplice e falaram das idas à piscina, dos filmes à noite e ela falou apaixonadamente da casa que tinham descoberto a caminho da piscina, do preço e como estavam decididos a comprá-la. Ops! Foi o primeiro deslize. Emendou de imediato para estou decidida, mas foi notório. Os gémeos não disseram nada e fingiram não ter percebido a conjugação verbal. O Tiago manteve-se impassível e descreveu com algum pormenor os pontos interessantes, realçando o preço. Ela ficou

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ligeiramente, quase sem se notar, ruborizada. Depois foi a vez do Tiago querer saber como tinha sido o fim de semana deles. O José que tinha ido a conduzir para casa queixou-se do transito e o António do fim de semana tão curto. Era um excelente trabalhador. Muito atento e dedicado, mas achava sempre os fins de semana muito pequenos. Minutos depois estavam a caminho do trabalho. A semana tinha começado. Levou o jipe até ao estaleiro, seguindo atrás do José. Pelo caminho passou-lhe o filme do seu despertar. Estava feliz e tranquilo. O sol foi entrando devagar pela janela e momentos depois, já sem cerimónia, enchia o quarto e atingia em força as suas costas. Esticou o braço procurando o corpo dela, sem despertar, e deixou a mão encher-se com o seio, redondo e quente. Estavam encaixados, as costas dela contra o peito dele. Começou a suar ligeiramente nas costas e despertou. Olhou o relógio. Estava na hora de se levantarem. Dia de trabalho. Olhou o corpo dela, perfeito, encantador e agora o seu refúgio. Beijou-a e ela despertou. O sorriso radiante era o reflexo do fim de semana. Ao almoço, estavam todos menos a Margarida que ainda não tinha chegado, e voltaram a sentar-se aleatoriamente, como nas duas semanas anteriores. A conversa fluiu sem que nada denunciasse o novo estado de relacionamento entre ele e ela. A senhora Joaquina procurou fazer planos para as refeições da semana. Estavam quase no fim quando ouviram a porta da rua abrir-se. Era a Margarida que entrou na cozinha a voar. Saia curta e blusa vaporosa com saltos altos. Estava elegante e desenquadrada. Todos na casa estava em roupa prática de trabalho. Não vinha sozinha, trazia a reboque o Luís. Olá, atrasei-me um pouco disse ela. Tive de… quase que nem se

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notou atalhou o Tiago, foi só a manhã toda. Desde que isso não atrase os processos. O Luís limitou-se a esboçar um sorriso, presente individualizado a cada um na mesa. Desta vez trazia calças ligeiras e uma camisa por fora com três botões abertos no peito. O Luís tem uns dias de férias, disse a Margarida em tom de pedido e de desculpa. Não há problema? De maneira nenhuma, como eu não vou conseguir apoiar a Susana todos os dias, ele pode ocupar algum tempo tomando notas para ela. Ficam as refeições pagas. O Tiago foi perentório. Nem o Luís nem a Margarida podiam recusar. Tinha previsto que três manhãs e duas tardes não poderia apoiar a Susana, assim tinha ganho, sem contar um auxiliar. E sem hipótese de recusar. Efetivamente durante a tarde o Luís mostrou-se um auxiliar diligente e útil. Ao jantar a Susana contou com detalhes a ajuda primeiro tímida, mas depois desembaraçada que ele lhe deu. O único senão era ele não ter botas, mas apenas sapatilhas. O Tiago agradeceu em nome da obra. Quem pareceu desconfortável durante todo o jantar foi a Margarida. A roupa informal de trabalho da Susana, a camisa justa e os calções, o calor do campo e as curvas voluptuosas da Susana, para onde ela olhava com uma pontinha de inveja, deixaram-na desconfortável enquanto ficou em casa. Por vontade dela teria ido com os dois, mas o seu trabalho não lhe permitia. Nem o Tiago. Sobre o assunto a Susana parecia divertida. Depois de jantar o António propôs tomarem café na esplanada dizendo que tinha sentido falta daquele espaço acolhedor no largo do pelourinho. A Margarida disse quase de imediato que os dois ficariam em casa. Ninguém comentou. Saíram os quatro. Assim que chegaram à rua ele deu-lhe a mão com toda a naturalidade e assim foram até ao café. O pequeno percurso foi preenchido com

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conversa informal, mas estava latente a presença do trabalho, como quase sempre. Sentados na esplanada, aguardando que o senhor Manuel os servisse, o perspicaz António soltou: e novidades do vosso fim de semana? O Tiago foi direto e frontal sem rodear ou tentar fugir para a frente. Aliás como é caraterística nele, enfrentado sempre as situações. A Susana e eu descobrimos que estávamos apaixonados e começámos a namorar. O José soltou uma sonora gargalha, tão própria nele como a sua sombra: só vocês é que não sabiam, acrescentou num sorriso enorme. O Tiago e a Susana entreolharamse e esboçaram um escondido sorriso amarelo suave. O António pegou na deixa do irmão e esclareceu: sim, todos tínhamos percebido há muito tempo. Como são curiosas as palavras: há muito tempo! Esta era a terceira semana. Eles nem se conheciam até ela ter chegado um pouco depois dele e ter estacionado o jipe ao seu lado. Por momentos ele desligou-se do mundo e viu-a chegar, através do vidro da porta traseira do jipe, enquanto pegava na pasta do computador e na mochila. Ela saiu do veículo que acabara de parar ao lado do seu e contornou-o em sua direção. Trazia botas de trabalho de campo, calções curtos mostrando umas pernas relativamente altas, bem-feitas e ligeiramente bronzeadas, que agora conhecia ao detalhe. Para cima tinha uma blusa de algodão relativamente justa, mas com aspeto confortável e prático, creme quase branca, escondendo o peito quente e sensual, onde agora se aninhava ao adormecer. Cabelo castanho solto, pelos ombros e um sorriso franco e luminoso. Sentiu de novo como o coração deixou de bater quando ela numa voz agradável e bem modulada se apresentou.

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Regressou ao convívio dos colegas quando sentiu a mão dela nervosa na perna dele. Pareciam dois miúdos apanhados em flagrante. Foi a tempo para perceber como os dois irmãos contavam, à vez os pormenores dos sinais, que a eles os dois tinham escapado, dessa paixão que ainda não viam um no outro, mas que, pelos vistos, era evidente para o resto dos habitantes da casa. Deliciados iam desvendando como a senhora Joaquina tinha sido a primeira a dar conta, como discreta tinha passado a dica a eles. Como eles os tinham mantido em observação e como tinham tentado adivinhar quanto tempo demorariam a perceber o que o coração queria. Fico muito feliz por ti Tiago. Desculpa Susana, mas conhecemo-nos há muito tempo, disse o José. A ti vou aprendendo a conhecer-te, e agora haverá mais oportunidades. Tiago, era altura de colocares o passado no sítio. Nem sabes quanto nós, e fez um gesto englobando-se a si e ao irmão, andávamos preocupados contigo. Afogares-te em trabalho não era solução. Que sejam felizes. Foi a Susana que me tirou do poço, disse o Tiago com ar de gaiato enamorado. Estava lá há muito tempo, mas foi um período necessário. Agora já posso viver, de novo. Percebi o lugar da Sara, que nada nem ninguém pode tirar. E não será a Susana. A vida e o meu coração são suficientemente vastos para as duas terem o seu espaço. E vamos viver, agora os dois. Deu um beijo apaixonado e nada tímido a ela. E nenhum corou. Pelo contrário sentiram-se muito felizes. É bom saber que a Sara encontrou (finalmente, diria) o lugar devido no teu coração e na tua vida. Assim como a Susana. Os quatro estavam com um ar feliz e tranquilo. Ainda não tinham consciência como essa amizade seria para o resto da vida. O largo começava a estar bastante cheio e esplanada já não tinha lugares. A noite estava agradável, como vinha acontecendo

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desde que estavam na aldeia, mas voltaram para casa, cedo, pois haveria mais um dia de trabalho pela frente. Dormiram juntos, naturalmente. Não tinham nada a esconder. Também não tiveram de anunciar ou dar explicações. A Margarida e o Luís estavam ocupados quando entraram em casa. O ruído não era discreto e deixava claro a atividade que os entretinha. Quanto aos gémeos, afinal tinham sabido antes deles mesmos. Voltou a ser uma semana normal de trabalho, sem história digna de registo. No entanto ao almoço do dia seguinte os olhares cúmplices do António e do José informaram a senhora Joaquina, que não precisou de palavras. Foi discreta ao ponto da Margarida e do Luís, fechados na sua relação, não terem captado. Disse apenas: afinal eu tinha razão. Demorou um pouco mais do que eu tinha imaginado. Mas à borda da piscina fica tudo mais a nu. Os gémeos não perceberam a alusão à piscina, mas sabiam o resultado a que se referia a senhora Joaquina. Os quatro engenheiros concordaram acenando entre a garfada a caminho da boca e as interjeições possibilitadas pelos sorrisos de orelha a orelha.

Ele esticou o braço procurando o corpo dela, sem despertar, e deixou a mão encher-se com o seio, redondo e quente. Estavam encaixados, as costas dela contra o peito dele. Nem o facto de começar a suar ligeiramente nas costas o despertou. O dia anterior tinha sido cansativo, percorrendo o vale e algumas cumeeiras, confirmando os dados recolhidos anteriormente e verificando o decurso das obras. E a noite quente tinha-lhes atiçado o fogo dos seus corpos, que o trabalho tinha contido num recato não desejado, pelo que só adormeceram depois de esgotada aquela energia

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interior. Depois de jantar, no alpendre que dava da cozinha para o quintal os habitantes da casa tinham ficado um bom pedaço à conversa. Uma revisão da semana de trabalho, um breve apontamento do que se faria na seguinte e outros assuntos mais ligeiros que foram esmorecendo e dando lugar ao sono. Perto das onze e meia, já todos tinham rumado em direção à cama. A Margarida e o Luís tinham-se ido embora a seguir ao almoço, já que ela tinha terminado os processos com os habitantes da aldeia na quinta feira à tarde, arrumando os papeis na sexta de manhã. Pouco depois chegaram as mulheres do José e do António. No fim de semana ficariam os três casais na casa. O Tiago e a Susana a dormirem juntos no quarto dele permitiu que o José e a mulher ficassem no quarto da Susana cabendo desta vez ao António é à mulher ficarem no quarto grande. Foi a Susana que tomou a iniciativa de ceder o seu quarto. Passariam um fim de semana quase familiar, como já tinha feito antes, em outras ocasiões, e como voltariam a fazer por muitos anos. A novidade era agora a Susana fazer parte da vida do Tiago.

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Velocidade e tempo

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O comboio deslizou lentamente pela plataforma e os prédios foram ganhando velocidade lá fora. Primeiro muito devagar, timidamente, e depois cada vez mais depressa, como que saindo de uma letargia onde tinham estado imoveis. Progressivamente foram tornando-se espaçados, mais degradados e sujos à medida que os subúrbios se aproximavam velozmente até que que o verde, primeiro discreto e escondido foi ocupando a quase totalidade da janela. Em poucos minutos viajavam à velocidade de cruzeiro. Lá fora agora a paisagem passava depressa, sem deixar lembranças nos olhos, verde, monótona, campesina, árvores e culturas suburbanas, primeiro industriais e permanentes depois. Só então ele se descontraiu, olhou de relance para o portabagagem, por cima das cabeças, como para confirmar que nada se tinha mexido e depois deixou vaguear os olhos pelo compartimento, devagar apanhando pormenores, mas sem grande precisão. O vagão não ia completo, mas a maior parte dos lugares estavam ocupados. Talvez mais homens que mulheres. Estas eram quase todas abaixo dos quarenta anos, bem vestidas, até com alguma elegância. Provavelmente haveria tempo para se entreter a observar algumas. Se não lesse, trabalhasse um pouco ou o sono vencesse. Os

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homens quase todos vestidos com formalidade, mas um grupo mais jovem tinha passado por ele de camisete e calças de ganga e calções, com mochilas, claro. Só depois os seus olhos se aproximaram e caíram no passageiro sentado à sua frente. A cada janela do vagão correspondiam quatro lugares virados dois a dois frente a frente. Ele viajava no sentido da marcha. Era uma mulher, nova entre vinte e sete e quarenta anos. Bem-parecida. Rosto amendoado, traços finos e bem definidos, olhos castanhos-claros. Lábios bem recortados sem serem demasiado finos, mas não eram seguramente talhados a silicone. O batom era vermelho. Estava distraída a ler. Um romance da lista dos mais vendidos. A blusa, branca quase transparente estava aberta discretamente mostrando um pouco do colo e permitindo, mais imaginar que ver, dois seios de dimensão interessante. Os braços eram finos sem serem magros em excesso, terminavam em mãos elegantes de unhas bem arranjadas, da cor do batom, que seguravam o livro. A posição dos braços conduzia os olhos diretamente para os joelhos redondos sem arestas, mas não gordos, onde sobressaia o tom da pele não bronzeada em demasia. Claro que estava de saia. Era relativamente curta, mostrando os arredores da coxa do lado esquerdo, pois os joelhos estavam um pouco virados para a janela. As pernas, cruzadas, eram bem delineadas, com tornozelos finos. Por fim uns sapatos de salto alto cor de mostarda, como a carteira, pousada a seu lado, comprovando que as nádegas não precisavam de muito espaço para se sentarem. Por um breve instante levantou os olhos, sorriu rapidamente e voltou para as linhas da narrativa. A seu lado um homem, mais novo, com ar de tecnocrata recém investido. Fato de bom corte, azul muito escuro, gravata azul

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sobre camisa ligeiramente cinzenta. Sapatos quase de certeza italianos, ou boa imitação e meias de seda preta. A pasta estava ao lado. Ainda não se tinha atirado ao computador. Perfeitamente escanhoado, não apresentava vestígios de barba. Não precisou de se esforçar para observar o passageiro a seu lado, pois o lugar estava vazio. O som ambiente, do comboio em movimento, cavo e ronronante embalava os pensamentos e predisponha a uma soneca a que o jovem executivo não resistiu. Talvez não tivesse dormido o suficiente. Uns minutos depois a sua cabeça que tinha escorregado para a esquerda até ao rebordo mais pronunciado de o encosto ia a caminho do peito muito lentamente. Olhou para o relógio, tinham passado quarenta e sete minutos. Pegou na pasta e tirou o portátil que abriu. A passageira descruzou as pernas, esticou-as e continuou a ler. Ele demorou-se a apreciar a nova perspetiva com detalhe. Devia ser relativamente alta, talvez da sua altura. Apreciou o cabelo, castanho, ondulado largo e bem penteado. Uma madeixa, por vezes, cai-lhe sobre o rosto e ela num gesto simples, mas com carga de feminilidade natural, recolocava-o no sítio. Durante um pedaço trabalhou com afinco. Reviu um relatório, leu o correio eletrónico e respondeu a algumas mensagens e arquivou outras, passou os olhos pelos títulos dos jornais e começou um conjunto de notas para desenvolver um outro relatório. Ela voltou a mudar a posição das pernas, agora para o lado do corredor, evitando os pés dele. Apesar que este vagão era bastante generoso para os passageiros, pelo menos nestes lugares frente a frente. Estes movimentos tinham feito subir um pouco a saia, que ela ainda não

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tinha composto, e num dos cruzar descruzar das pernas, por um ínfimo instante, ele percebeu que a roupa interior era negra, afinal como o soutien de renda que se mostrava na escassa transparência da blusa. Não tinha meias, claro nesta altura do ano, e as pernas pareciam sedosas. O brilho da pele dava vontade de passar a mão. O que ele fez mentalmente, mas no segundo seguinte tentou enfiar-se dentro do trabalho. Nem sequer era homem para meter conversa num comboio com uma desconhecida. Era sempre um risco. Nem sequer queria ser mal interpretado. Distraidamente, enquanto lia, ela foi brincando com o botão superior da blusa, o primeiro fechado, durante largo tempo, que ele não sabia precisar quanto por estar concentrado no trabalho. Na verdade, só bastante tempo depois é que deu conta que tinha ficado aberto, revelando um pedaço mais de pele, que se via agora com a certeza de uma alvura tentadora, como um iogurte grego natural. O jovem tecnocrata levantou-se resoluto, mas acabou por durante escassos segundos hesitar entre virar à esquerda ou seguir em frente. Foi em frente. Ou as instalações sanitárias ou o bar eram o destino. Ele aproveitou, colocou o computador, que ainda não tinha desligado, no banco a seu lado e esticou as pernas, com cuidado, para o lado direito, em direção ao lugar agora livre. Procurou esticar o corpo discretamente e fez o mesmo aos olhos. Nesta ação bateu no olhar dela que tinha parado de ler e o estava a fixar. Baixou o olhar quase imediatamente e corou muito ligeiramente. O peito parecia revelar uma respiração um pouco mais rápida. Seria ilusão? Sim, os seios tinham um ligeiro movimento para cima e para baixo, que o deixaram magneticamente preso. Não fosse uma curva mais

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pronunciada da linha, que o chamou à realidade, e teria começado a ser um dos cachorros de Pavlov. Ela tinha retomado a leitura e por isso não deu conta daquele inebriamento momentâneo. Olhou para o relógio de pulso e percebeu que já faltaria apenas um terço da viagem. Decidiu desligar o computador. Tinha ficado um pouco cansado de ter estado a fixar em movimento o ecrã e não tinha dormido bem naquela noite nem tudo o que precisava. A reunião em Lisboa estava a preocupá-lo um pouco. Arrumou tudo na mochila de executivo modernaço e ficou a preguiçar com os olhos no vazio. O jovem tecnocrata voltou, sentou-se e enfiou-se dentro do telemóvel, aparentemente a escrever… ou talvez a jogar. Suspirou com elegância e num sussurro discreto, fechou o livro e colocou-o no assento entre si e o braço de apoio. Levantou-se devagar dando tempo à saia para descer para o seu nível máximo e desceu as mãos brevemente ao longo das coxas, num gesto discreto e inconsciente, de trás para a frente como só as mulheres habituadas a usarem saias pequenas sabem fazer com naturalidade e estilo, como quem não quer a coisa, mas que apregoam, na maior humildade os seus atributos. Os joelhos ficaram de fora, com justiça. Sim, ela seria da sua altura. Não era magra escanzelada nem gorda. Basicamente parecia dar a um homem todos os locais e motivos para segurar com deleite. Talvez passar suavemente um creme ou uma loção, percorrendo montes e vales com suavidade. Dirigiu-se para o corredor e disse-lhe: importa-se de olhar pelas minhas coisas? Fez um gesto vago em direção ao livro, sem ser afetado e elegante, mas com naturalidade até algum à vontade. A voz era suave, num tom a fugir para o baixo, sem ser rouco. No entanto, aos ouvidos dele, soou a um

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coro celestial. Sim, claro, esteja tranquila. Não saio enquanto o comboio não parar, gracejou ele. Demorou sete minutos, contabilizou ele quando a viu aproximar-se do lugar, passando de viés entre as pernas de ambos os homens. Ele estava apertado para ir às instalações sanitárias, mas por indecisão e acanhamento ficou, olhou para o relógio, clássico dourado redondo com correia castanha, a combinar com o cinto e os sapatos. Faltariam cerca de trinta e cinco minutos para chegarem ao destino. Pensou que era melhor aliviar-se no comboio, porque depois teria a saída, a espera pelo táxi, mais trinta minutos de trânsito e engarrafamentos e depois os cumprimentos, o princípio da reunião e na melhor das hipóteses só na interrupção para o café da manhã, se não fosse agarrado pela conversa de algum colega. Levantou-se e disse para ela apontando para a mochila: é a sua vez, por favor. Foi primeiro descarregar a bexiga e depois, em vez de voltar de imediato, esticou as pernas até ao bar, só para andar. Os preços exagerados por produtos embalados e mal-acondicionados davamlhe uma repulsa inapelável na carteira. Água tinha na mochila e o café seria intragável. Viu as horas. Já estavam a chegar, aliás nas janelas já desfilavam os primeiros sintomas de um arrabalde mal cuidado, de armazéns, habitação barata, campo de culturas urbanas e tráfego a fluir para sul. Chegou ao lugar e ao apoiar-se nas costas do assento, devido a um ligeiro solavanco, provocado por alguma imprecisão dos carris, os seus olhos entraram pelo decote dela adentro, agora a partir de uma perspetiva bastante superior, e ele teve quase a certeza de ter descortinado as curvas interiores de dois mundos redondos antes da proteção da renda preta encobrir o resto das calotes gémeas e simétricas. Não sei porquê sentiu a fragância do seu perfume. Ou

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seria ilusão? Talvez o tivesse retocado um pouco na sua ausência e na perspetiva da chegada. Obrigado, disse-lhe ele, não se percebendo se pela vigilância à mochila ou se pela visão, ainda que breve e escassa, do seu vale profundo em direção ao ventre, que tinha tido ocasião de usufruir. Em breve o comboio iniciou os preparativos da chegada. Primeiro fazendo vários quilómetros numa velocidade de caracol reumático depois acelerando e desacelerando em ciclos incompreensíveis deixando apreciar os despojos dos limites urbanos esquecidos fora dos períodos eleitorais. Para variar chegou atrasado em relação à hora prevista pelo horário quase centenário. Nem as sucessivas modernizações das linhas, nem as infindáveis revisões de preços conseguiam assegurar que um passageiro chegaria a horas. Assim que se imobilizou várias dezenas de pessoas apressaram-se a sair e a percorrer em passo apressado toda a extensão da gare almejando ser um dos eleitos para um táxi livre. Era uma imagem habitual aquela hora. Nem antes nem depois da chegada daquele comboio acontecia aquele espetáculo de uma massa humana a fluir em passo apressado, quase de corrida na maioria, mas alguns mais afoitos correndo mesmo pelo cais fora. Neste momento de salve-se quem puder ele deixou de a ver. Só tinha contemplado, pela última vez, assim pensava, as suas costas e nádegas, perfeitas, aparentemente através da saia, quando lhe deu passagem para sair na porta do vagão. A partir desse momento ela tinha desaparecido, engolida pela turba em movimento acelerado em direção à porta principal. Ele dirigiu-se à porta lateral, com alguma calma após consultar o relógio. Faltavam uns minutos para o autocarro seguinte. A rotina destas

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reuniões mensais tinha as suas vantagens. Agora já não corria como louco para sair dali. Havia tempo. O autocarro chegou dois minutos depois como tinha previsto a informação do ecrã eletrónico da paragem. Não arranjou lugar sentado nem era importante. O trajeto era relativamente curto para quem tinha acabado de viajar sentado. Depois de ter arrancado da paragem o autocarro fez algumas dezenas de metros a baixa velocidade e ele pode distinguir a passageira na fila dos táxis quando avistou o saia casaco castanho ocre. Mentalmente disse-lhe adeus pensado ser a última vez que a avistava. A viagem do mês seguinte não teve história. Nem o engomadinho tecnocrata nem ela estavam no comboio, ou pelo menos à vista naquele vagão. O tempo demorou mais a passar até Santa Apolónia. No entanto trabalhou com mais afinco e sem distrações. Desta vez os lugares ao pé de si iam vazios. Nem sequer se levantou para não abandonar a mochila e parecia estranho ir com ela aos sanitários. Claro que o comboio não parava até Lisboa, mas seria uma dor de cabeça se ela desaparecesse do banco enquanto ele ia às instalações sanitárias. Seria impensável chamar um funcionário e tentar recuperá-la até Lisboa. Provavelmente a mochila ou alguma coisa evaporar-se-iam mal o comboio se imobilizasse no cais. Não era opção aquela previsível confusão. Aguentou toda a viagem. Naquele dia a saída do comboio tinha sido calma. Aparentemente havia menos gente a correr, talvez, porque uma vez na vida o horário tinha sido cumprido. Quando o autocarro arrancou passou os olhos pela fila de passageiros a tentar arranjar um táxi, por descargo de consciência. Não reconheceu ninguém. Também o autocarro desta vez seguia com mais velocidade.

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Depois da reunião, que neste mês terminou mais cedo, pelo que pode regressar no comboio das duas, comeu qualquer coisa rápida num restaurantezinho humilde e foi direito à estação, de autocarro, outra vez. Tinha acabado de se instalar quando a viu passar no cais, em direção à frente do comboio. Bem, talvez fosse ela. Na realidade não tinha a certeza. Mas o jeito do saia casaco azul se mover parecia ter algo de familiar. O certo é que não houve maneira, durante toda a viagem, de confirmar ou abater aquela hipótese. Por outro lado, o que sabia dela? Tinham viajado cerca de duas horas frente a frente, trocaram meia dúzia de palavras e saíram na mesma estação. Nem sequer sabia, naquele momento, onde é que ela tinha entrado naquele dia, por não ter prestado atenção até estar instalado e a percorrer o vagão com os olhos. Quilómetros depois já se tinha tornado passado, numa qualquer gaveta do arquivo das memórias descartáveis. Nos afazeres do dia-a-dia o assunto perdeu importância e desapareceu do horizonte até que no mês seguinte teve de voltar a Lisboa. Na véspera, preparando mentalmente o que tinha de levar para a reunião a mulher do banco da frente voltou ao seu espírito. Viu claramente a blusa branca, quase transparente, o livro e os joelhos e a mão a brincar com o botão, acabando por deixar mais um pouco do seu colo visível. Se calhar devia ter conversado mais com ela. Se calhar podia ter sido mais observador e ter aperfeiçoado o conhecimento das suas medidas. Não interessa, já passou, há muito tempo.

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Índice O seio nu

5

Decisões

17

Das nove às cinco

35

A epifania

45

Se olhares vês

61

A varanda

93

O monte da aldeia

133

Velocidade e tempo

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Serenamente por entre a agitação  

Lugar de encontro de pequenas histórias intensas e que exigem atenção do leitor para ganharem sentido.

Serenamente por entre a agitação  

Lugar de encontro de pequenas histórias intensas e que exigem atenção do leitor para ganharem sentido.

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