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O ÉDEN PERDIDO Onde está o teu Paraíso?!

Uma perspectiva psíquica e histórica sobre o desenvolvimento social humano

Carlos Coléct Pontal do Paraná - 08/2014


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PREFÁCIO “Onde está o teu Paraíso?!” - questiona a alma humana à si mesma, mergulhada em uma sensação de inquietude e incompletude. “A vida é uma eterna busca” - afirma o Homem envolvido em uma labirintite existencial. Ele clama por achar o seu lugar ao sol e por encontrar a sua identidade perdida em algum lugar. Não sabe de onde veio, qual o seu propósito e nem para onde vai, e nestes vácuos internos, ele é inserido pelo seu inconsciente em uma busca por um caminho que o conduza a um paraíso — um Éden perdido —, semelhante ao Jardim bíblico, um ambiente onde as suas dores e sofrimentos se precipitam no vale do esquecimento. Não há quem nunca tenha se sentido um estranho em seu próprio corpo. Não há nem um Ser Humano sequer que já não tenha enfrentado a crise de ser Humano. Um Ser de falta e vazio que se descobre finito, consumido pelo tempo. Finitude que nos leva a desejar o imortal, o invisível e o oculto. Como pensar esta eterna busca? O que impulsiona o Homem em sua constante mudança? O que nós buscamos afinal? Como esta busca incessante transforma a Humanidade e o seu meio? Como a Sociedade se modifica e se estabelece numa cultura? Questões que são comuns desde os primórdios dos tempos; muitos teóricos e filósofos já as pensaram em suas épocas. Inegável é o anseio do Homem por se encontrar em uma existência aparentemente tão complexa. Sobre tais questionamentos e complexidade proponho um ensaio filosófico instigante e investigativo, que visualiza o Homem a partir da vida intrauterina sob uma perspectiva psicanalítica e histórica acerca dos caminhos percorridos pela Humanidade em direção ao Éden, conhecido como um Lugar de prazer. Pode-se dizer que esta proposição transita na contramão do ordinário dito popular —“a vida não gira em torno do seu umbigo!”. Ela sugere o oposto, no contexto pressuposto de que a vida humana gira sim em torno do seu umbigo, mais precisamente do seu vazio umbilical. Desta cavidade abdominal, e não menos psíquica, nasce o ideal de Deus internalizado em cada alma humana, a Religião como forma de religação, o Homem desejoso pelo paraíso e uma Sociedade teocêntrica transformada pelas crenças que, por sua vez, são teologias e doutrinas, muitas vezes disfarçadas sob outras nomenclaturas. Apresento a religiosidade como ponto central da busca humana, no entanto, ela não é observada por um ângulo habitual e tradicional, pelo contrário, coloca todos os homens em uma condição potencialmente religiosa, reformulando, desta maneira, o conceito ateísta. Em minha proposta, todos se sustentam em um Sagrado, em um ideal de Deus (Poder Oculto) registrado na psique conforme a imagem do organismo materno — uma energia sentida no ambiente intrauterino,


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porém, sem forma e sem face. Nesta busca religiosa individual, o Homem constrói uma Sociedade diversificada, tendo em vista a reconstrução de um Jardim que mana leite e mel. O objetivo aqui não é despertar o leitor para uma verdade única e nem colocar a sua crença particular sob condenação, é sim uma crítica ao fundamentalismo — invasivo — e um convite à reflexão sobre as diversidades e mudanças sociais, sugerindo um olhar justo para o total, e assim, gerar a percepção de que todos possuem o vazio do umbigo e que cada um o preenche com o cordão umbilical que melhor lhe cabe. Na visão de que este preenchimento produz diversidades, um dos meus propósitos está focado em demonstrar a beleza que há em ser uma Humanidade capaz de criar, inventar sentidos e responder para si mesma a indagação de sua alma: “Onde está o teu Paraíso?!”


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SUMÁRIO

1. Considerações Iniciais .........................................................................................................7 Sociedade Teocêntrica ......................................................................................................................7 O conceito Deus ................................................................................................................................8 Teogonia ...........................................................................................................................................9 Ateísmo ..............................................................................................................................................9 O Homem em constante mudança .................................................................................................10 O desejo do Homem religioso .........................................................................................................11 A busca do Ser de carência e angústia ..........................................................................................11 A Vida intrauterina .........................................................................................................................12 O Paraíso .........................................................................................................................................12 O uso de alegorias ..........................................................................................................................14

2. A alegoria do Jardim do Éden ...........................................................................................15 A Vida intrauterina na imagem do Paraíso ...................................................................................16 O Conhecimento em tempo inoportuno .........................................................................................16 A artimanha da Mente Humana ....................................................................................................17 A expulsão .......................................................................................................................................17 O elo vital ........................................................................................................................................18 A Idade de Ouro ..............................................................................................................................19 Síntese .............................................................................................................................................20

3. A Busca humana no processo do vir-à-luz .......................................................................21 A memória imaginária e o pensamento .........................................................................................21 A memória sensorial .......................................................................................................................22 A morte e o dormir como espelhos do ventre .................................................................................25 O vazio umbilical ............................................................................................................................27 A força motora ................................................................................................................................27 O caminho sofisticado do retorno .................................................................................................28 O querer internalizado na Busca ...................................................................................................29 Síntese .............................................................................................................................................29


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4. Teogonia – o nascimento do ideal de Deus na vida intrauterina ....................................32 O PODER invisível .........................................................................................................................33 Totemismo - A materialização do PODER ....................................................................................34 O animatismo ..................................................................................................................................35 O dinheiro como forma de totemismo e animatismo ....................................................................37 Questões existenciais originam pensamentos e crenças ...............................................................39 Sincretismo mitológico ...................................................................................................................39 A Psique, o Eros e o Prazer ............................................................................................................46 O termo El ......................................................................................................................................49 Deus – O Poder do Céu iluminado ................................................................................................50 A busca pelo Poder Celestial – Altíssimo .......................................................................................52 O Poder Celestial Solar ..................................................................................................................53 Síntese .............................................................................................................................................58

5. O Homem teocêntrico ........................................................................................................59 O Homem religioso .........................................................................................................................60 Síntese .............................................................................................................................................63

6. A Religiosidade na construção da Sociedade ...................................................................64 O modo de produção mental e material .........................................................................................64 A Sociedade fundamentada no pensamento religioso ..................................................................66 Os sistemas religiosos sociais ........................................................................................................69 Síntese .............................................................................................................................................70

7. Capitalismo – o Sistema Religioso dominante ..................................................................71 A doutrina capitalista e o endeusamento do Tempo .....................................................................72 Os apelos e a ansiedade como um mal social ................................................................................73 O dogma consumista e a estética ...................................................................................................74 Síntese .............................................................................................................................................76

8. A adoração integral e o estabelecimento de uma cultura ................................................77 O termo adoração ...........................................................................................................................77 Avodah / Latreia – adoração que desenvolve uma identidade sócio-cultural ..............................78 O modelo da formação identitária de um povo .............................................................................80 Síntese e a cultura no culto capitalista...........................................................................................85


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9. O momento crítico e as transições sociais ........................................................................88 Pensamentos transicionais e o surgimento da Modernidade .......................................................88 Pensamentos transicionais e o surgimento da Pós-Modernidade ................................................89 Mudanças significativas na contemporaneidade ..........................................................................89 Descobertas, invenções e arte – projeção do pensamento social ..................................................91 Síntese .............................................................................................................................................93

10. Algumas teologias na configuração social .....................................................................94 10.1 A prisão pela vontade e a crença na liberdade ..........................................................95 A liberdade Dionisíaca e os limites sociais .......................................................................97 O direito igualitário e a transformação da Democracia ...................................................99

10.2 As celebrações litúrgicas e a elaboração dos calendários ....................................102 O calendário litúrgico bíblico israelita ............................................................................102 O calendário litúrgico babilônico e judaico ....................................................................104 A liturgia na nomenclatura dos dias ...............................................................................106 As celebrações do Ano Novo ............................................................................................107

10.3 A doutrina ascética, o Ego e a sexualidade ..............................................................109 A transformação do Ego humano ...................................................................................111 A tradição medieval sobre a sexualidade ........................................................................113 A pregação Homogênea ...................................................................................................114 Os mitos na construção da visão sexual social ...............................................................116

10.4 A crença na Verdade Imutável e alguns conflitos sociais ....................................118 A teologia fundamentalista ..............................................................................................119 O fundamentalismo na crença da Terra Santa ..............................................................120 A teologia Patrística e o seu fundamentalismo ............................................................. .123 A crença de Lutero e sua influência social fundamentalista .........................................126 A crença que exige cuidado .............................................................................................131

11. O conflito do Homem partido no parto .........................................................................133 Síntese ...........................................................................................................................................138

12. A Justiça na diversidade de crenças .............................................................................139 Síntese ...........................................................................................................................................142


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1. Considerações Iniciais

No Mundo há muitos sub-mundos com ramificações e desdobramentos. Mundos que trilham caminhos diversos em seus pensamentos e ensinamentos. Psicologia, antropologia, sociologia, psicanálise, neurologia, medicina, mitologia, entre tantas outras disciplinas. Com quem estaria a verdade? Com todos! – penso eu. Cada qual com a sua verdade constrói a sua doutrina. A verdade é uma crença estimulada por uma instrução adquirida, por um ensino absorvido. A palavra que absorvemos estabelece as nossas experiências e cosmovisão. Haveria uma Verdade absoluta? Sim, se somente um mundo houvesse! Havendo muitos sub-mundos, haveria um único caminho correto ou apenas possibilidades, interpretações, ângulos, perspectivas e olhares peculiares? Sob esta perspectiva, inicio a minha proposição — a qual não deixa de ser uma crença — com algumas introduções importantes sobre pontos que, para a Humanidade, são centrais e que, para esta obra, são principais. Tendo a ciência de que as palavras discorridas neste texto são indigestas em uma cultura tradicionalmente monoteísta judaico-cristã e, assim, bons ingredientes para a formulação de discussões violentas desnecessárias, certifico-me do devido cuidado para que não seja mal interpretado pelas mentes leigas e fundamentalistas. Não sou contra o surgimento de questionamentos, do contrário, desejo que eles aflorem no interior do leitor, desde que sejam feitos internamente, de modo que a busca pela resposta desencadeie um processo pessoal, e não um processo de guerra coletiva por uma única e irrefutável verdade.

Sociedade Teocêntrica Desde que se interpreta a História, compreende-se que o Homem vive em sociedades, comunidades e ajuntamentos. Pessoas se reúnem em um mesmo espaço geográfico, estruturam-se visando a sobrevivência e outros objetos de desejo e prazer, e, assim, constroem uma civilização fundamentada em uma cultura, ideais, crenças e pensamentos. Isto é óbvio, como diria Rousseau1, a família é o primeiro modelo das sociedades políticas. O Ser Humano é um Ser que depende de outro para sobreviver, e melhor, sem um o outro nunca existiria. Assim sendo, no primeiro momento da vida, no nascimento, não há ninguém que nasça sem estar de antemão sob um contrato, uma sociedade firmada anteriormente ao parto.

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ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social. Tradução: Rolande Roque da Silva. Ed. Eletrônica. p. 11


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Somos coletivos, nascemos dentro de uma sociedade que, pela necessidade de ordem, organiza-se em divisões políticas, econômicas e eclesiásticas. Estes setores são profundamente influenciados pelo regime teocrático regido pelo teocentrismo residente no interior de cada Ser Humano, essa é a minha asserção. Ressalto que o teocentrismo no decorrer desta obra será tratado no seu sentido mais amplo e imparcial, sem o objetivo de desmerecer ou merecer a crença nesta ou naquela divindade. O fim é unicamente observar como a construção da Civilização humana é totalmente dependente da visão teocêntrica e suas catequeses2, mesmo que esta não seja assim conceituada tradicionalmente como tal. O ideal de Deus está intrínseco no Homem como uma verdade inata3, transformando-o em um Ser plenamente religioso desde a sua concepção, esteja ele dentro de uma Igreja ou não, professe alguma fé em algum Ser metafísico ou não. Criacionismo, evolucionismo, existencialismo, deísmo, ateísmo, ascetismo, laudo científico, pensamento filosófico, psicológico e metafísico são algumas das crenças que estruturam a Sociedade Humana e que nascem da internalização do Ideal de Deus. Um de seus benefícios é o acréscimo de esperança nos corações aflitos, mas, como espadas de dois gumes, também são protagonistas em cenas de terror. A partir do momento em que geram prisões ou pelo medo causam privações, deixam de ser boas crenças para serem doenças; um tipo de fé não saudável.

O conceito Deus Nesta tese, convido ao leitor a ampliar a sua visão conceitual sobre Deus. Estou certo de que, em uma forma mecânica, devido ao meio cultural ocidental judaico-cristão e islâmico monoteísta, a palavra Deus nos leva a imagem de um Ser único e verdadeiro, como o Organizador e Criador relatado na Bíblia, não é este o pensamento que tenho em mente; aqui a utilização do termo Deus está em suma no caráter de um Poder Supremo, invisível e oculto, e não exclusivamente de um único Ser. Poder invisível que é representado ou materializado em divindades, ícones, símbolos e sagrados (homens, seres, coisas, elementos da natureza,...). Esta é a maneira que muito se verá nas linhas deste ensaio, embora soe para alguns como algo esotérico ou se encaixe nos perfis mais místicos, a expressão Poder supremo, elevado, oculto ou invisível não é assim por mim tratado no decorrer das páginas que se seguem, ele está sendo utilizado genericamente para se equivaler a figura do organismo materno (Mãe) — o poder sem face que sustenta a vida intrauterina. É, por assim dizer, um modo que encontro para demonstrar o ideal que o Homem carrega em si desde a sua gestação.

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Doutrinas e ensinos.

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Sem a mediação da aprendizagem.


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Teogonia Proponho-me a expor uma possível visão acerca da Teogonia — nascimento do ideal de Deus (Poder oculto e supremo). Vale enfatizar que a existência de um Deus ou Deuses, enquanto Seres Reais, não está sendo posto em questão, o que está em observação é a existência do ideal / conceito de um Poder absoluto na formação e condução da Vida Humana. A finalidade aqui presente é sugerir, segundo a minha

percepção, uma das possíveis bases que consolida a transformação da Sociedade Humana até o momento contemporâneo. Tentarei pintar um quadro, certamente em um nível sintetizado, para nos situarmos como Homens religiosos participantes e ativos nos acontecimentos sociais, de maneira que reflitamos — subjetivamente ou intersubjetivamente — sobre a nossa condição de responsabilidade e sobre um meio saudável de amenizarmos os desconfortos causados pelas diversidades e mudanças transicionais e críticas na Civilização pós-moderna. Teogonia é um tema muito desconfortável para a grande maioria ocidental que cultiva a tradição em um mundo laico pós-moderno, pois soa como uma descaracterização de Deus (conforme a crença monoteísta) como Criador e Verdade absoluta, sendo facilmente confundido com um tipo de ateísmo. Esse é o pensamento tradicional, porém, não compreendo desta forma, exponho a Teogonia como o nascimento do ideal de Deus, e não da pessoa de Deuses ou Deus. Não me oponho à crença individual ou particular, isso pertence a cada Homem por direito. Não está sob os meus princípios agir de forma radical, no sentido pejorativo da palavra. Até porque tudo o que temos como certeza, em sua essência carrega uma incerteza, fazendo com que as nossas certezas sejam tão somente crenças acreditadas, inclusive as minhas. O que quero dizer é que se alguém acredita que um Deus (Ser digno de reverência) existe, para esse ele existe, e não importa como, se em forma física, em apenas energia ou somente em sua mente. Por fim, tenho por encerrada a minha tentativa de justificação, contudo, sendo esse tema de difícil exposição devido a sua multiplicidade, amplitude de entendimento e dogmas, inevitavelmente haverá quem o receba sob o seu particular conceito fundamentalista como uma posição ateísta. Isento-me da responsabilidade interpretativa que cabe particularmente a cada indivíduo, de acordo com o seu ensino doutrinário recebido.

Ateísmo Ateísmo é um termo de origem grega “a-theos”, cujo significado é “sem theos”, ou comumente “sem Deus”. Assim sendo, na literalidade, alguém ateu é alguém sem deus (qualquer divindade física ou metafísica), no entanto, esta palavra, dentro da tradição cristã, foi conceituada para se dirigir as pessoas que não professam uma crença no Deus pregado pelos cristãos, isto é, pelo Deus referente na Bíblia como único e verdadeiro, ou ainda, para indicar todos aqueles que baseiam


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as suas vidas nas ciências humanas em invés de se basearem nos ensinamentos bíblicos e no criacionismo divino. A concepção de ateísmo, em minha atual posição de entendimento, é que não há ninguém ateu, nem um Homem sequer, todos têm a ideia de Deus em suas mentes; todos buscam um Poder Oculto e Supremo; todos creem em algum sagrado; todos servem, adoram e reverenciam algum totem ou símbolo de poder. — Este conceito será mais bem esclarecido durante a leitura —. Para o leitor não fundamentalista, tenho certeza de que esta obra não soará como ateísta, no sentido de negar crenças e deuses, pelo contrário, será percebido uma afirmação e um apoio às crenças, como uma característica legitimamente humana. A Humanidade é dependente delas, salvo tais crenças violentas e desrespeitosas, como infelizmente se vê em alguns grupos, segmentos ou indivíduos.

O Homem em constante mudança Não há, logicamente, como falarmos de Sociedade e Civilização teocêntrica sem falarmos do Homem, um subsiste pela existência do outro. O Homem é a peça fundamental que faz a engrenagem social se movimentar. O desprazer sentido no organismo humano desencadeia um movimento em busca do prazer, tal movimentação promove uma Sociedade Humana em constante transformação. Estou de acordo com as palavras de Freud4, citado por Spitz (1996, p.109)5: “Sensações de natureza agradável não contêm nada que seja impulsionador, ao passo que as de desprazer têm esse fator no mais alto grau, as de desprazer impelem em direção à mudança...” [1923]. Neste ângulo de visão, a Sociedade que tem o Homem como seu sócio se modifica a todo instante como tudo o que existe. A Humanidade em uma busca religiosa, metódica e ritualística segue o fluxo da existência. Sua transformação se dá por diversos fatores — citarei mais a frente — evidenciados nos setores políticos, econômicos e clérigos6.

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Sigmund Schlomo Freud, judeu austríaco. Freiberg in Mähren, 6 de maio de 1856 — Londres, 23 de

setembro de 1939. Médico neurologista. Lutou para ter a psicanálise reconhecida como uma ciência. Hoje é considerado o pai da Psicanálise. Deixou um grande legado para a investigação da mente humana. 5 6

SPITZ, René A. O Primeiro Ano de Vida. Ed. Martins Fontes. São Paulo. 1996 Uso o termo “clérigo” para indicar um sistema religioso composto por instituições ligadas a um clero tradicional, ou

seja, formalmente lideradas por sacerdotes, padres, pastores, médiuns, enfim, aquelas instituições consideradas tradicionalmente religiosas (catolicismo, protestantismo, espiritismo, budismo...). Portanto, em invés de utilizar, como é de costume, somente a expressão “sistema religioso”, eu prefiro colocar “sistema religioso clérigo” com o propósito de que o leitor assimile a Religião para além do pensamento comum e a amplie para o âmbito econômico, político e todas as áreas da vida humana.


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O desejo do Homem religioso O que desde a Era da Pedra — antes da linguagem escrita — motiva a constante transformação Social humana, em minha crença atual, é algo que está para além do instinto de sobrevivência. O Homem Religioso, como veremos, deseja um algo mais do que somente comer, beber e procriar, isto é o que pretendo transmitir por intermédio de uma investigação psíquica e histórica. O termo religioso usado será mais bem compreendido na medida em que desenvolvermos o pensamento sobre o Homem e sua busca interior, mas de antemão adianto que não é conceituado segundo o entendimento comum e ordinário da Religião tradicional. O Homem religioso se encaixa em um contexto amplo baseado na vida intrauterina, não necessariamente e somente a alguém que professa uma fé (cristã, espírita, islâmica, judaica, budista...) em um Ser explicitamente divino. Está em consonância com o que diz William James, citado por Merval em seu livro Psicologia da Religião: "no sentido mais amplo e em termos gerais, pode-se dizer que a vida religiosa consiste na crença de que existe uma ordem invisível e que nossa felicidade suprema consiste em pormo-nos em harmonia com essa ordem em que cremos"7.

A busca do Ser de carência e angústia A partir de uma sintética análise dos comportamentos e anseios humanos, tendo como objeto de pesquisa principal a vida intrauterina e utilizando essencialmente três visões — a psicanalítica, mitologias de civilizações antigas e a espiritualista, associadas a minha observação pessoal —, insiro este Homem no contexto social para melhor visualizarmos as transformações ocorrentes em seu ambiente — a Sociedade. A ideia não é definir o Homem — isto não seria possível em sua plenitude —, é apenas observar e investigar a essência que o move e, consequentemente, o transforma. Muitos em toda a História o estudaram, analisaram, o pensaram, o observaram; muitas teorias, filosofias e ciências se construíram e se constroem em torno do Homem. Estudos diversos que não comprovam exatidão, pelo contrário, revelam um Ser biopsicohistóricossocial — genético, psíquico, histórico e social — diverso e complexo, e que, acima de tudo, tem uma insaciável sede por se conhecer, confirmando a nossa condição de carência, falta, vazio e angústia. Este condicionamento imposto pela natureza nos coloca como um Ser de insatisfação que constantemente está em busca de algo para se satisfazer.

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Rosa, Merval. Psicologia da religião. 2. edição. Rio de Janeiro, Junta de Educação Religiosas e Publicações, 1979 p.

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A Vida intrauterina Como compreender esta busca que permeia a existência humana? De onde ela nasceu? Como se enraizou em nós? Na tentativa de responder a estes questionamentos, sugiro uma visão, não absoluta, apenas uma proposta, uma possível leitura dos acontecimentos mais relevantes de nossa história — a vida intrauterina e o parto. Entendo que muitas são as vertentes psicanalíticas e científicas que estudam a constante busca interior do Homem, juntamente com a vida fetal humana e sua relação com o desenvolvimento cognitivo e comportamental, no entanto, não tenho por interesse me sustentar inteiramente nos teóricos desse assunto, tão embora reconheça que os seus experimentos sejam de suma importância para a formação do meu pensamento aqui proposto. Pensamento que não tem a intenção em trazer a vida intrauterina e o parto como eventos traumatizantes causadores de todos os males do Homem, e nem como fonte para todas as respostas existenciais, mesmo que assim possam ser colocados; não me atenho a esta questão, pretendo colocá-los apenas para exprimir a ideia da origem de um Homem religioso, citado anteriormente, que pela sua Religiosidade intrínseca, propulsora inconsciente de uma busca incessante, modifica o seu mundo interno e externo.

O Paraíso Uma Sociedade teocêntrica, centralizada em um Ideal de Deus, naturalmente vislumbra um local divino e sagrado onde todo o Bem desse Poder Oculto é usufruído. Um paraíso em que o mal não é mais sentido sobre a carne humana e a existência não mais dói. Cada civilização, desde os tempos primários, o visualizou conforme as suas crenças. Na Idade Média (476 a 1453 d.C.), o Mundo Ideal, influenciado pela filosofia8 de Platão9, foi refletido num Céu metafísico, distanciado 8

“O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias; e estas contrapõe-se a matéria

obscura e incriada. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas, através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem, que está no vértice. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica, um objeto adequado ao conhecimento conceptual. Esse conhecimento, aliás, se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível, para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na sua efetiva realidade. E, em geral, o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores, o dever ser, de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. Visto serem as idéias conceitos personalizados, transferidos da ordem lógica à ontológica, terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência, serão universais, imutáveis. Além disso, as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos, que se obtém mediante a divisão e a classificação, isto é, são ordenadas em sistema hierárquico, estando no vértice a idéia do Bem, que é papel da dialética (lógica real, ontológica) esclarecer. Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada


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da matéria e de caráter futuro; na Era Moderna (1453 a 1789 d.C.), a metafísica caiu em descrédito e o Mundo Ideal foi colocado no plano físico, construído pelas próprias mãos do Homem por meio das ciências. Acreditou-se que pelo avanço do conhecimento humano o paraíso seria alcançado na terra em um futuro não tão distante. Na Pós-Modernidade (1789... d.C.), esta crença se desfez e o Mundo Ideal deixou de ser uma imagem futura para se tornar em algo existente no passado, no instante e no agora, assim como comumente se ouve da boca de alguém que avança em idade: “...antigamente é que Mundo era bom!”, ou quando o Homem desolado sentencia seu próprio futuro, declarando-lhe a condenação: “...a humanidade não tem solução!”, assassinando, neste discurso, qualquer visão de um bom futuro. O jovem sentenciado só consegue ver e vivenciar um paraíso no prazer usufruído no agora, sem se importar com alguma consequência negativa em longo prazo, “... afinal não há Bem futuro, a humanidade não irá chegar a lugar algum!”; “... hoje eu estou aqui, amanhã não estarei mais!” – pensa em sua descrença. O avanço da ciência, que outrora despertara a crença num mundo melhor, hoje, desperta – em muitos – temores e medos pelo o que ela poderá causar à Humanidade; as manipulações genéticas e as diversas conquistas tecnológicas geram um pensamento que visualiza um domínio por parte das máquinas e, consequentemente, uma extinção da raça humana. Ficção? Só o Tempo responderá. Levando em consideração a descrença na ciência, onde estará o próximo Mundo Ideal desejado pelo Homem? Será que se encontrará em um plano extra-terreno, na construção de uma nova civilização em algum novo planeta da Via Láctea? É algo possível, não distoa da realidade. Sendo esta uma visão profética ou não, só o Tempo trará a resposta.

nas idéias respectivas, assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem. Logo, a idéia do Bem, no sistema platônico, é a realidade suprema, donde dependem todas as demais idéias, e todos os valores (éticos, lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível; é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser. Portanto, deveria representar o verdadeiro Deus platônico. No entanto, para ser verdadeiramente tal, falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. Desta personalidade e atividade criadora - ou, melhor, ordenadora - é, pelo contrário, dotado o Demiurgo o qual, embora superior à matéria, é inferior às idéias, de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos.” Fiorin, José Augusto (org.). O pensamento humano na história da filosofia. Ijuí: Sapiens Editora, 2007. 57. Versão digital em Pdf. Sublinhado meu. 9

Platão, Atenas. (428–347 a.C.). Fundou em 387 a.C. a Academia em Atenas. Grande nome da filosofia grega do

período socrático. Suas filosofias se estendem até os dias atuais e foram base para muitas ramificações filosóficas, tais como o gnosticismo e o ascetismo. O Cristianismo adquiriu grande parte de suas ideias. Segundo o professor José Augusto Fiorin em O Pensamento humano na história da filosofia, Agostinho e Tomás de Aquino foram os responsáveis pelo resgate cristão da filosofia de Platão e Aristóteles. Nos escritos do filósofo Nietzche, o cristianismo é platonismo para os leigos.


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Voltanto aos tempos atuais, embora muitos segmentos clérigos professem a crença em um paraíso metafísico celestial, percebe-se que na prática do dia a dia o Mundo ideal almejado se encontra nas ações concretas realizadas no presente, raramente alguém serve ao seu Sagrado tendo em mente um Bem futuro, pelo contrário, a sua atitude visa um bem estar concreto no agora. Outra percepção possível que demonstra a mudança de tempo e local do ideal paraíso é a movimentação de muitos grupos cristãos que atualmente pregam o Reino de Deus na Terra, em uma esfera concreta e não mais metafísica, no agora e não mais no futuro. Diante dessas transições históricas de pensamentos, a minha colocação sobre o ponto central desta obra — o paraíso — fixa-se na ideia comum em que circunda a crença paradisíaca, ou seja, um local (geográfico ou não) em que reside todo Bem (ausência de mal); um Mundo Ideal que espelha a vida desconhecida intrauterina, internalizado na psique humana e almejado por cada Homem nascido de um útero materno e recebido em uma existência que, muitas vezes, parece-lhe estranha — não natural.

O uso de alegorias Para melhor ilustrar a minha visão, utilizo a mitologia grega e bíblica como uma ferramenta didática, como uma forma de alegoria, ou como os judeus declarariam — agaddah’s (narração), um termo hebraico usado para se referir as histórias, fábulas, parábolas, contos, cujo foco não está na literalidade e veracidade dos fatos, e sim no princípio e ensino que a narrativa comunica, comunicação esta que está sob uma condição interpretativa. Ressalvo que o uso da Bíblia salienta o seu valor histórico e mitológico, e desassocia-se das convicções e raízes dogmáticas judaico-cristãs, para que assim, eu possa desbravar com mais liberdade os caminhos do meu pensamento.


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2. A alegoria do Jardim do Éden

Dou início a transmissão do meu pensamento, usufruindo do poema hebreu do Gênesis (Bereshit), uma alegoria pertinente que me auxiliará neste trabalho. Nela está a origem da Humanidade para o Cristianismo, Judaísmo e grande parte do Ocidente. Segundo os seus versos, a Terra, por algum motivo desconhecido, estava em caos, sem forma e vazia. Observando o estado caótico, Deus, um Poder oculto, dotado de todo poder, misterioso e sem face, enviou o seu Espírito para por o mundo em ordem. Pela sua palavra (que em outros textos bíblicos é comparado a semente / sêmen)10, Ele recriou todas as coisas, desde a Luz ao firmamento. Transformou a desordem em um belo Jardim chamado Éden, que traduzido significa “Prazer, Delícia” e nele colocou o Homem, como assim diz o texto: Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente. [...] Do solo fez o SENHOR Deus brotar toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento; e também a árvore da vidad no meio do jardim e a árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 2.7-9) [...] Tomou, pois, o SENHOR Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar. E lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás (Gênesis 2.15-17) [...] Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o SENHOR Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim? Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais. Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu. Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si (Gênesis 3.1-7) [...] Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal; assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vidae, e coma, e viva eternamente. O SENHOR Deus, por isso, o lançou fora do jardim do Éden, a fim de lavrar a terra de que fora tomado. E, expulso o homem, colocou querubins ao oriente do 10

Bíblia. Marcos 4.1-20

d

2.9 Ap 2.7; 22.2,14

e

3.22 Ap 22.14


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jardim do Éden e o refulgir de uma espada que se revolvia, para guardar o caminho da árvore da vida (Gênesis 3.22-24). O que esta aggadah (narração) nos comunica acerca do Homem que está em uma incessante busca? Proponho algumas observações:

A Vida intrauterina na imagem do Paraíso Particularmente, este conto antigo me transmite a imagem do Homem dentro do terreno intrauterino, um local vazio e sem vida que, por um Poder oculto, sem face, fonte de sustento e poderoso (organismo materno - mãe), é transformado em um jardim fértil — terra apropriada para gerar —; desta fertilidade vem à existência o Homem que, pela verbalização da palavra11 (ação), germina como uma semente (sêmen) que brota da terra. Nu e em formação neste local desfruta de prazeres, delícias, sustento, trabalho não pesado (movimento sem perda de energia), segurança, completude (simbolicamente na união entre feto e mãe), comunhão com uma Força Poderosa que lhe mantém vivo (expressada no cordão umbilical)..., neste paraíso, porém, também há limites espaciais: não lhe é permitido comer do fruto da árvore do Conhecimento do bem e do mal antes do tempo oportuno, se assim o fizer ainda imaturo, será conduzido a uma grave situação.

O Conhecimento em tempo inoportuno Para um melhor entendimento a respeito deste tempo inoportuno para receber o Conhecimento, analisemos algo: Deus, como um ser onisciente, plantou um fruto e disse que não poderia ser comido? Por que plantar uma árvore que não se pode comer? Creio que se trouxermos este verso de Gênesis 2.17 para o contexto hebraico, perceberemos que o fruto estava proibido por apenas um momento específico, podendo ser desfrutado futuramente. Vejamos que, na possível tradução hebraica, a expressão “NO DIA” transcrita no verso: “[...] mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, é “b’yom ‫”ביום‬, e “b’yom” também pode ser “neste dia”, indicando o tempo presente do HOJE. No 11

“O Logos se fez carne e habitou dentro de nós...” (Jo 1,14). Logos que, do grego, pode ser interpretada como

“palavra verbalizada”. Palavra que se desvincula da inércia dos recônditos do pensar e sobre o pensamento sopra fôlego de vida, transformando-o em verbo, em ação; anima e dá movimento aos corpos de barro. Para o filósofo Heráclito é o princípio que dá estabilidade e ordem ao mundo em constante mudança. O Logos é o agente ativo da criação. O que forma os céus e constitui a terra. Penetra todos os Seres, torna tudo existente e faz do nada, alma vivente. O texto de João mostra a Palavra que, quando verbalizada, é capaz de se tornar carne dentro de nós, como um embrião depositado no útero.


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hebraico não há uma palavra específica para “hoje”, por esse motivo é utilizado “yom” para as ações temporais. Sendo assim, Gênesis 2.17 ficaria da seguinte forma: [...] mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, NESTE DIA [HOJE] em que dela comeres, certamente morrerás. Indicando, nesta interpretação, uma possibilidade futura.

A artimanha da Mente Humana Depois desses eventos, uma voz alheia, a saber, da serpente, lança aos ouvidos do Homem palavras que lhe faz transgredir a ordem e, assim, comer o fruto até então proibido; os olhos se abrem, recebe entendimento e se percebe enquanto Ser; olha para si mesmo e se vê despido, da forma relatada no verso: Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus [...] (Gênesis 3.7). Faço aqui uma observação sobre o simbolismo da serpente nessa alegoria: Ela, como um animal astuto, enganoso e perigoso, pode ser um símbolo da mente humana. Para esta compreensão sugiro a exposição de um verso bíblico, mais especificamente do profeta Jeremias, o qual nos alerta sobre a presença de algo enganoso — o coração. “ENGANOSO É O CORAÇÃO, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” (Jeremias 17.9). A palavra hebraica usada para "coração" é "‫ בל‬lev", que também significa "mente e intelecto", ou seja, é o ser interior do Homem. Portanto, podemos ler as palavras de Jeremias na seguinte tradução: ASTUTA É A MENTE, mais do que todas as coisas [...]. No chamado Novo Testamento, há mais um texto que nos cabe na reflexão: “Porque de DENTRO, do CORAÇÃO (mentalidade / intelecto) dos homens, é que PROCEDEM os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios” (Marcos 7.21). Não é de se admirar que algumas esfinges da antiguidade ou coroas faraônicas contenham a imagem de uma cobra na parte superior insinuando a habilidade e sagacidade da mente humana.

A expulsão Com base nestas interpretações sobre o tempo inoportuno para se desfrutar do conhecimento e a respeito da serpente como a própria mente humana, entendo este momento do Homem dentro do Jardim (vida intrauterina), metaforicamente como o tempo entre a 28ª e 37ª semana de gestação, quando, segundo experimentos, o feto já possui o cérebro formado com inúmeras conexões de neurônios, apto para ser estimulado ao pensamento. A serpente, enquanto voz enganosa da própria mente, inicia a sua fala e induz ao desenvolvimento da capacidade do Conhecimento. Os olhos já se abrem e os tímpanos começam a ouvir. O feto já se encontra na forma de um recém-nascido. Sua composição genética e mental está conforme a imagem do Poder invisível (mãe); a sua imagem é


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como a imagem do seu “Deus oculto e misterioso”. É chegada a hora da expulsão do paraíso, do Jardim de Delícias, antes que a Árvore da Vida seja afetada pelo Homem (feto) imaturo no Conhecimento.

O elo vital Em uma linguagem metafórica, a figura da Árvore (da Vida) pode representar a imagem de uma pessoa, assim como é vista em alguns textos bíblicos: Este, recobrando a vista, respondeu: Vejo os homens, porque como árvores os vejo, andando... (Marcos 8:24); Ele [homem] é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem sucedido (Salmos 1:3); Porque ele [homem] é como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro... (Jeremias 17:8); Assim, toda árvore [homem] boa produz bons frutos, porém a árvore [homem] má produz frutos maus (Mateus 7:17); A árvore que viste, que cresceu e se tornou forte, cuja altura chegou até ao céu, e que foi vista por toda a terra, cuja folhagem era formosa, e o seu fruto, abundante, e em que para todos havia sustento, debaixo da qual os animais do campo achavam sombra, e em cujos ramos as aves do céu faziam morada, és tu, ó rei, que cresceste e vieste a ser forte; a tua grandeza cresceu e chega até ao céu, e o teu domínio, até à extremidade da terra (Daniel 4.20-22). Na etimologia hebraica, a palavra “árvore / ‫ עץ‬ts” procede da raiz primitiva “‫ עצה‬tsah” que significa “fechar”, e ao mudar a vocalização desta raiz temos a palavra “‫ עצה‬tsah”, cujo significado é “desígnio, propósito”. Neste conceito etimológico, a árvore alegórica nos traz o sentido de uma pessoa ou algo que carrega em si um propósito ou desígnio. No caso da Árvore da Vida, ela pode ser visualizada como algo que carrega em si o propósito de gerar vida, e este algo está ligado em uma pessoa. O que estaria nesta posição, segundo o contexto que temos observado até agora? O cordão umbilical, obviamente, o qual se conecta à mãe, fazendo o elo entre ela e o feto; de forma análoga, seria como a Árvore da Vida no centro do Jardim tendo a função de portal vital entre o Sagrado e o Homem. Percebamos que a Árvore está centralizada, ela frutifica a vida no centro, justamente como o cordão umbilical no ponto central do corpo. Relembremo-nos da alegoria de Gênesis, quando o Símbolo de Poder e Sagrado (Deus / corpo invisível para o feto) percebe que o Homem agora está como Ele — com o cérebro habilitado para aprender —, compreende que a Árvore da Vida (Mãe / cordão umbilical) está em risco, isto é, o Homem (feto) pode estender a mão — “Yad (força)” em hebraico —, em outras palavras, ele pode tocar a Árvore (mãe / cordão umbilical) com força e prejudicá-la. Aqui, é importante a observação de outro simbolismo bíblico. A vida é comparada ao sangue, ou melhor, o sangue é considerado como a vida


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do Ser — Carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não comereisb (Gênesis 9.4) —, desta maneira, se o Homem (ainda no ventre / paraíso) tocar indevidamente o cordão umbilical, ocorrerá uma hemorragia, a mãe sangrará continuamente e virá a óbito, pois o texto diz “... não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente12” (Gênesis 3.22). A última sentença, tendo em mente a vida igual a sangue, pode simbolizar “sangre continuamente”. Tendo em vista a preservação da Árvore da Vida (Mãe / cordão umbilical) e naturalmente o próprio Homem, o feto é expulso do útero, tem o seu cordão umbilical rompido e o caminho de volta é bloqueado. Agora, fora do Jardim (útero) trabalhará com peso, experimentará a dor. Colherá espinhos com sofrimento por ter em sua memória inconsciente a lembrança de que um dia esteve no paraíso intrauterino e não mais voltará a ele. Carregará o fardo da angústia por desejar o que não mais terá.

A Idade de Ouro A alegoria do Jardim do Éden nos servirá, em muitos momentos deste livro, para elucidar a visão sobre o Homem religioso e o processo de transformação social. Creio que, enquanto local intrauterino de completude e delícias, o Éden pode ser equiparado a muitos mitos e contos que expressam a ideia de uma Idade de Ouro inicial em diversas civilizações, na qual o Homem desfruta de um paraíso — ausência de dor, sofrimento e preocupações. Na cultura chinesa, por exemplo, a lenda antiga do Imperador Amarelo – Huang-Ti, governante no séc. XXVI a.C, alega que, “em suma, a história da China começou com um paraíso”13. Similarmente, no livro sagrado persa Avesta, o conto “belo Yima, o bom pastor”, descreve a perfeita relação entre o criador Auramazda e sua criatura em um ambiente de plena satisfação paradisíaca: árvores odoríficas, pilares dourados, ausência de violência, ruindade de espírito,...

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A mitologia greco-latina também

relata uma Era de Ouro. Hesíodo, no poema Os Trabalhos e os Dias, escreve que os deuses imortais fizeram uma raça humana de ouro que, como deuses viviam, com almas felizes e despreocupadas, sem trabalho e dor. Para os gregos, foi sob o reinado de Chronos15 que os homens b

9.4 Lv 7.26-27; 17.10-14; 19.26; Dt 12.16,23; 15.23

12

‬‫ — ויאמר‬יהוה‬אלהים‬הן‬האדם‬היה‬כאחד‬ממנו‬לדעת‬טוב‬ורע‬ועתה‬פן־ישלח‬ידו‬ולקח‬גם‬מעץ‬החיים‬ואכל‬וחי‬לעלם׃‬No texto hebraico

sem pontuação, “Vachay leolam – viva eternamente” (sublinhado) pode se referir à Árvore ou ao Homem. 13

Citado em O Homem em Busca de Deus. Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados. 1990. p. 38

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O Homem em Busca de Deus. Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados. 1990. p. 36

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O titã Chronos, filho de Gaia (terra) e Urano (Céu), dá origem a segunda geração da teogonia grega. Esposo de Reia,

gera Héstia, Deméter, Hera, Hades, Posídon e Zeus, o qual destrona seu pai e toma o seu lugar de destaque no panteão do Olimpo.


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vivenciaram uma era de inocência e ventura chamada de Idade de Ouro. Nela, reinavam a verdade e a justiça, embora não impostas pela lei, e não havia juízes para ameaçar ou punir. As florestas ainda não tinham sido despojadas de suas árvores para fornecer madeira aos navios, nem os homens haviam construído fortificações em torno de suas cidades. Espadas, lanças ou elmos eram objetos desconhecidos. A terra produzia tudo necessário para o homem, sem que este se desse ao trabalho de lavrar ou colher. Vicejava uma primavera perpétua, as flores cresciam sem sementes, as torrentes dos rios eram de leite e de vinho, o mel dourado escorria dos carvalhos (Bulfinch, 2002, p 22)16. Assim, a presença de um Jardim – paraíso inicial — parece estar viva na lembrança da

psique humana em todas as civilizações, manifestada na memória cultural dos povos.

Síntese Sintetizando o que até agora observamos: o Jardim – paraíso inicial — está como representação do útero; o Homem como feto; Deus como o Poder — Criador, Organizador, Ordenador, Gerador, Sagrado (separado / intocável), Fonte de Energia oculta e invisível — que se reflete na imagem do organismo materno (mãe); a Árvore da Vida está como simbolismo do cordão umbilical (o elo); o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal está como o potencial do feto em aprender; a mente humana está figurada na Serpente enganosa; a expulsão do jardim está na significação da saída do Homem de sua posição intrauterina para preservar a si mesmo e a mãe de um possível sangramento; e os espinhos e as más sentenças são colocados como a entrada humana em uma condição de angústia, trabalho pesado, falta e desprazer.

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Jardim do Éden

Útero Materno

(LUGAR DE PRAZER)

(VIDA INTRAUTERINA)

-Deus -Formação do Homem (semente) -Trabalho sem suor -Fruto proibido -Voz da Serpente -Árvore da Vida -Expulsão

-Poder oculto (organismo materno / mãe) -Formação do feto (sêmen) -Existência sem perda de energia -Uso imaturo do conhecimento -Voz da mente -Cordão umbilical (elo vital) -Nascimento

IDADE DE OURO

O livro de ouro da mitologia: (a idade da fábula): histórias de deuses e heróis / Thomas Bulfinch ; tradução de David

Jardim Júnior — 26a ed. — Ediouro. Rio de janeiro, 2002. p. 22


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3. A Busca humana no processo do vir-a-luz

O processo que envolve o vir-a-luz nos conduz a uma visão interessante acerca de nossa constante busca interior. Enquanto habitávamos o ventre materno, desfrutávamos de um local de provisão, aconchego, independência, ausência de vontades e obrigação, sustento, temperatura estável, isolamento das preocupações, tranquilidade, inconsciência das dores e sofrimentos... Segundo os filósofos antigos, a alegria é uma sensação sentida na ausência de consciência, nos momentos em que a razão não é acionada. Neste conceito, estando nós dentro do útero sem o mecanismo da razão e da consciência, estávamos na calma e, portanto, em uma permanente alegria, e isto caracteriza um estado pleno de felicidade. Seria como a vida vivenciada nos regalos do Jardim do Éden ou da Idade de Ouro.

A memória imaginária e o pensamento Desta Vida paradisíaca não temos memória imaginária — por imagens. Não fazíamos uso da linguagem e das palavras como signos17, não nos possibilitando, desta forma, representar mentalmente e significar o mundo por meio de imagens, ou seja, sem o aprendizado da linguagem (palavras) não existia para nós um mundo externo além do intrauterino. As palavras ou a linguagem verbal, enquanto sistema simbólico absorvido na interação social, é um fator essencial na estruturação do pensamento, são elas que produzem em nós a capacidade de decodificar o que nos cerca; é por meio delas que ao olhar um carro, por exemplo, não vejo apenas um objeto sem sentido. Começamos a pensar pelas imagens que as palavras 17

Segundo Vygotsky, ocorrem duas mudanças no uso dos signos. O processo de internalização, que é quando marcas

externas se tornam em processos internos de mediação; e os sistemas simbólicos, que organizam os signos em estruturas complexas e articuladas. Chega um ponto no desenvolvimento do individuo que ele não necessitará mais de marcas externas, pois substituirá os objetos do mundo real por representações mentais, ou seja, signos internos. Com o surgimento do trabalho e das atividades sociais e coletivas, as representações do real começaram a ser articuladas em sistemas simbólicos, sendo a linguagem o sistema básico dos grupos humanos. É socialmente que este sistema simbólico é dado, ou seja, é por meio do grupo cultural em que o individuo está inserido que ele absorve as formas de perceber e organizar o real. Os sistemas simbólicos são considerados como um “filtro” que dá a capacidade ao individuo de ver o mundo e se inteirar nele. Quando um carro é visto por uma pessoa, por exemplo, ela não o vê como um monte de informações incompreensíveis, mas devido a uma representação mental adquirida e construída socialmente a respeito do conceito de carro, ela consegue compreender o carro. Portanto, esta representação mental faz a mediação entre o individuo e o objeto real. E é neste meio cultural que estas representações são geradas, os signos construídos e constituídos como um “código” para a decifração do mundo.


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conceituadas nos transmitem e, deste modo, o pensamento começa a ser estruturado com personagens e objetos, sentidos e significados18. Partindo desse pressuposto, o feto, sem o signo externo da linguagem aprendida em uma interação sócio familiar, não está em condição de formar signos internos, isto é, não há formulação de imagens e pensamentos que lhe permita representar e decodificar o seu mundo pessoal. Não é possível uma mediação para a significação entre feto, útero e mundo intra e extrauterino. A ausência de memória imaginária percorre a primeiro estágio neonatal. Para Spitz, em concordância, o recém-nascido não possui nenhuma imagem do mundo. Esta imagem é construída, gradativamente, quando os estímulos sensoriais do bebê são transformados em experiências significativas, convertendo-os em sinais. Constata-se que, mesmo com a idade de seis meses, há pouquíssimos traços de memória formulados por estímulos reconhecidos como sinais.19

A memória sensorial No entanto, mesmo não havendo imagens e pensamento, a formação do Sistema Nervoso entre a 15ª e 20ª semana de gestação permite a memória sensorial — por sensações e emoções. Tal memória gravada em nosso inconsciente, em certas vivências neonatais, remete-nos às lembranças sensoriais da vida intrauterina. Muitas são as pesquisas que, sem conclusões absolutas, propõem desvendar se o feto possui ou não sentimentos, inclusive a dor. Algumas vertentes tendem positivamente influenciadas pelas correntes teológicas contra o aborto, outras defendem a posição negativa pelo fato de que sentir dor envolve uma complexidade de mecanismos, dos quais alguns só se desenvolverão após o nascimento. Na minha maneira de ver, como anteriormente disse, compreendo que as sensações existem no feto pela presença dos nervos e neurônios (estabelecidos

18

Afirma-se inicialmente que a palavra, enquanto signo, é o material semiótico privilegiado veiculador da ideologia,

devido à sua capacidade de refletir e refratar as condições de produção sócio historicamente presentes no discurso. Afirma-se também que a palavra, compreendida mais amplamente como signo linguístico e verbal, é constitutiva da consciência, da ideologia, do pensamento e, por conseguinte, dos sujeitos, por ela ser o resultado das interações sóciohistórico-verbo-ideológicas. (PALAVRA: SIGNO IDEOLÓGICO. Antonio Francisco Ribeiro de Freitas, Universidade Federal de Alagoas. Maceió 1999. Prefácio por Pedro Nunes [Doutor em Comunicação e Semiótica baseado em OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento: um processo sócio histórico. São Paulo: (PUC/SP e Un. Autônoma de Barcelona), Autor dos Livros: As Relações Estéticas no Cinema Eletrônico e Cinema & Poética] ) 19

SPITZ, René A. O Primeiro Ano de Vida. Ed. Martins Fontes. São Paulo. 1996, p. 32


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entre a 28ª e 37ª semana de gestação)20, contudo, por não haver uma memória capaz de produzir representação, comparação e mediação, não há a significação, fazendo com que o ventre mergulhado em sensibilidade, sensações e impressões maternas que interagem com o feto pelas substâncias químicas compartilhadas pelo canal umbilical seja também um local de esquecimento e distração. Perceba, não são poucas as vezes que se veem adultos e crianças que, quando em sofrimento, encolhem-se na posição fetal para reencontrarem o lugar onde a dor e o desconforto são desconhecidos da lembrança. Posição que nos traz para uma sensação de proteção, aconchego e amor. Seria a alma querendo voltar para o seu calor? Seria um gesto da memória sensorial inconsciente? Outras vezes observaremos pessoas, mais frequentemente as crianças que, quando não querem sentir a dor da repreensão, tapam os ouvidos e dizem “lalalalala... não to ouvindoo.. lalalalala!!!”, ou mesmo sem dizerem nada, tapam os ouvidos. Onde a criança aprendeu a tapar os ouvidos para isolar o sentimento? Onde ela aprendeu que a ausência da palavra lhe é “ausência de dor”? Existem experimentos que relatam esta memória sensorial, um deles, segundo a psicanalista Joanna Wilheim21, “consiste em que a mãe leia certa história para o feto nas últimas semanas da gravidez. Após o nascimento, fones de ouvido são colocados no bebê e são lidas duas histórias para ele: a que escutou quando estava no útero e outra desconhecida. Por meio de um aparelho de sucção, o recém-nascido pode ‘regular’ qual das historinhas quer ouvir. Invariavelmente, ele ‘chama’ a história conhecida”. Há outros fatos que me chamam a atenção e me fazem pensar nesta memória sensorial fetal. Um é a sensação de quietude e tranquilidade que aparece ao estarmos diante do mar, a grande maioria, com raras exceções, sente este bem-estar. Alguns experimentos mostraram que em pessoas colocadas diante do mar ou em frente a imagens (fotos, filmes, quadros) do mar com o som das ondas, o cérebro liberou substâncias de prazer e satisfação, foi como um calmante natural. Esta sensação de quietude seria uma lembrança da vida intrauterina? A frequência sonora das ondas do mar traria a lembrança do ambiente intrauterino imergido no líquido amniótico? O outro fato é que grande parte da humanidade carrega em sua alma o desejo por um lugar isolado, onde se sentirá bem e descansará, isto é, sentimo-nos bem ao nos imaginarmos em uma ilha deserta ou qualquer outro lugar sem nenhum tipo de interferência. Seria uma lembrança sensorial do isolamento intrauterino? Há ainda outra sensação que me remete a pensar na vida fetal, o bem-estar e 20

Informações extraídas do BabyCenter. A Gravidez por Dentro. As primeiras nove semanas. 2008

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Psicanalista paulista, autora de O que é Psicologia Pré-Natal. Editora Casa do Psicólogo. Defende a inteligência

existente nos fetos ainda em formação.


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relaxamento sentido ao estar sob o sol, em uma banheira de água quente, diante de uma lareira, sob as cobertas em um dia frio ou envolvido por um abraço caloroso. O relaxamento e o bem-estar sentidos na submissão do corpo a uma temperatura externa semelhante à interna, ou seja, próximo aos 35°, seria o corpo se lembrando do momento em que estava imerso em uma placenta com esta temperatura ambiente? Certamente existem muitas explicações técnicas e científicas para estas suposições, no entanto, as questões que proponho não são de ordens químicas cerebrais ou fisiológicas, mas de ordem psíquica, na observação das sensações inconscientes e no surgimento do desejo que envolve tais situações agradáveis. As lembranças sensoriais também afetam negativamente. Há acontecimentos, de acordo com alguns teóricos, em que alguma situação desfavorável ocorrida durante a gestação pode, em algum momento específico extrauterino, ser lembrada e vir à tona pela memória sensorial em forma de traumas, medos, fobias ou até mesmo ataques cardíacos e arteriosclerose. Há um possível caso próximo a mim, em que expõe uma pessoa acometida de fobia ao ser imergida ou se imaginar imergida em água. Sabe-se que a sua mãe, quando dela estava grávida, no quarto mês de gestação passou por uma cirurgia para levantar o útero. Teria esse processo cirúrgico afetado o feto em relação ao líquido amniótico e, posteriormente, ter gerado a fobia ao se deparar com a sensação de afogamento sob um grande volume de água? Conta-nos Gonzáles-Crussi22, em sua obra Nascer e outras dificuldades, que Nicolas Malebranche (1638-1715), um filósofo e teólogo francês, em sua Busca da verdade23, relata que “conheceu um jovem internado no Hôpital des Incurables, uma instituição para pacientes além do alcance da ciência médica. Ele nascera louco, e desde o nascimento seu corpo mostrava fraturas em vários lugares. Esse paciente viveu até os vinte e poucos anos, e uma observação interessante é que as partes de seu corpo que se encontravam ‘fraturadas’ (presumivelmente deformadas por fraturas ou torções do esqueleto) correspondiam àquelas em que normalmente a tortura era aplicada a criminosos condenados, conforme as bárbaras leis prevalecentes naquela época. De acordo com os princípios adotados por esse filósofo, a situação do infeliz podia ser explicada pelo fato de que, quando grávida, sua mãe tinha testemunhado a tortura de um criminoso. Todos os golpes aplicados ao criminoso haviam atingido com muita força a imaginação da mulher; o choque fora transmitido ao cérebro e, por força de uma espécie de contragolpe, também ao corpo delicado 22

F. Gonzáles-Crussi é professor emérito de patologia na Northwestern University Medical School. É autor de Notes of

an Anatomist, The Five Senses, Suspended Animation, The Day the Dead e There Is a World Elsewhere. Nascer e outras dificuldades é o seu primeiro título publicado no Brasil. 23

Nicolas Malebranche. De la recherche de la verité, livro 2, parte 1, em oeuvres (em 2 vols.), Gallimard, Paris,

(coleção La Pléiade), 1979.


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do feto.” O autor, sobre a medicina contemporânea e sua posição acerca das impressões maternas no feto, ainda declara: “Na verdade, nada se sabe com certeza. [...] No entanto, pode-se afirmar com segurança que o feto não é indiferente às atividades da mãe. Ele está banhado por hormônios maternos, e aqueles produzidos durante períodos de tensão sem dúvida afetam a sua fisiologia.”24 Estas exemplificações e citações das impressões negativas registradas no feto servem apenas para salientar a possibilidade da existência de uma memória sensorial — além da memória genética25 e imaginária. Estes registros sensoriais nos convocam a retornar a vida intrauterina, principalmente ao seu bem-estar no “isolamento existencial”.

A morte e o dormir como espelhos do ventre Em uma linguagem poética, o impacto causado na saída do ventre gerou um trauma em nossa memória sensorial. Trauma que nos causou um desejo escondido na alma. Desejo que, quando tenta vir à luz no momento em que a vida escurece, é rapidamente recolhido. É um desejo legítimo, porém, malvisto. É camuflado pelos maus vícios. Aquele que a si mesmo se fere intensamente e continuamente, para mim, é uma expressão e manifestação do desejo inconsciente que a alma não quer revelar. Na sinceridade de cada alma habita um desejo latente e forte. Qual? O desejo pela morte, pois a morte é o refúgio eterno para todas as dores e sofrimentos. Não há ninguém que em algum dia de calor escaldante não tenha pensado o quão bom seria estar morto, mesmo que em tom de brincadeira. De acordo com os escritos dos Reis de Israel, até um profeta, chamado Elias, no deserto foi sincero e pediu para si a morte: “Ele mesmo, porém, se foi ao deserto, caminho de um dia, e veio, e se assentou debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte e disse: Basta; toma agora, ó SENHOR, a minha alma, pois não sou melhor do que meus pais” (1 Rs 19.4). Esta sinceridade, contudo, mantém-se escondida, porque os dogmas sociais de “perfeição” e “bem-estar” não permitem a exposição de um desejo pela morte, e porque as crenças teológicas pintaram personagens além das obscuridades das cortinas, colocaram anjos, deuses e demônios, mas a alma não tem medo das personagens, ela tem medo da dor, não da dor do pós-morte ou do desconhecido; ela é acometida por um mal-estar ao imaginar a dor que poderá sentir no evento causador da morte; na ocorrência ou sofrimento que precede a desencarnação; e esta dor é a dor do conhecido, uma sensação registrada na memória sensorial. Qual dor? Dor do nascer. Medo de que a

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Gonzáles-Crussi, F. Nascer e outras dificuldades; tradução de Sérgio Bath. — São Paulo: Códex, 2004. p. 89,90;96 É a hereditariedade contida nos genes. Onde estão as informações da formação corporal: cor dos olhos, cabelo, duas

pernas, dois braços, além de predisposições para algumas doenças como a diabetes.


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dor da entrada seja a mesma da saída. Mesmo com medo da dor, cada alma a deseja. Pois ela é a certeza da redenção e esquecimento. Não seriam estas as palavras do rei-sábio no livro de Eclesiastes 9:10: “... porque no além, para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.” ? Por isso, anteriormente disse sobre a camuflagem dos maus vícios; o que seriam eles, senão um desejo, mesmo que inconsciente, de antecipação da morte? Os vícios são prazeres momentâneos de esquecimento da existência, são flashes da morte. Ela é a única certeza em uma existência de incertezas. Ela é um reflexo da vida intrauterina. Como assim um reflexo? Vede, a nossa alma ao visualizar a morte contempla a sua liberdade almejada e como em um espelho ela revive a sensação do esquecimento intrauterino e da ausência do sofrimento. Não havendo memória não há sofrimento, porque o sofrimento reside na memória. Não seria este o caso das demências? As loucuras e as demências são originadas de memórias afetadas, desconectadas, desestruturadas, apagadas, segundo Schopenhauer 26. Um fio da conexão é cortado. Mas por que o fio da memória se rompeu? Talvez porque o cérebro não suportou o sofrimento e desligou a memória dos registros sofridos. Bom, o dormir também é uma alusão à vida fetal, pois é um momento de esquecimento. Acaso a morte não é um dormir? Não é isto o que diz o livro da profecia: “muitos dos que dormem no pó da terra...” (Daniel 12.2)? Por que pessoas acometidas de tristezas profundas não conseguem sair da cama e, mesmo em meio as não vontades, conseguem encontrar apenas uma vontade, a vontade de dormir? Justamente, porque o dormir é o momento em que se esquecem, literalmente, esquecem-se de si mesmas. No extremo nível da tristeza, há aqueles que rompem a limitação do medo e não apenas querem experimentar a morte no dormir, querem ela eternamente e, assim, atentam contra a própria vida. O desejo pela morte, portanto, seria também um desejo inconsciente pelo ventre? Penso que sim. A morte é o espelho do ventre! Ventre que, ao mesmo tempo em que é a porta de entrada para a existência também é a de saída para o esquecimento! Porque ele foi o único local em que existimos sem ter a lembrança da dor de existir, e quando a existência dói é para o útero que queremos ir, porém, o caminho mais curto a ele — a morte —, como diz a alegoria bíblica, está bloqueado por querubins e uma espada em chamas que se revolve. Para o nosso bem existe este bloqueio que, em meu conceito, é nomeado medo. O medo da chama da espada não nos permite entrar precocemente pelo caminho da morte.

26

Schopenhauer, Arthur (1788 – 1860). O Mundo como Vontade e Representação, III parte; Crítica da filosofia

Kantiana; Prerga e paralipomena, capítulos V, VIII, XII, XIV / Arthur Schopenhauer; traduções de Wolfgang Leo Maar e Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola. – 5. Ed. – São Paulo: Nova Cultural, 1991. – (Os Pensadores) p. 22-23


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O vazio umbilical A partir do momento em que adentramos a existência pelo canal vaginal, deixamos de ser seres plenos e sãos para sermos Seres de carência, de ausência, de falta, de buraco na alma e aprisionados em vontades e desejos. Na 37ª semana da gestação, aproximadamente, mudamos de posição e nos preparamos para entrarmos no mundo extrauterino de cabeça para baixo, literalmente. As contrações e as dores nos empurraram para uma nova condição de incompletude. Rompeu-se o estado de liberdade. Fomos expulsos do paraíso. Fomos rejeitados, expelidos para um mundo desconhecido. O cordão umbilical foi cortado, separou-se o elo. Barulhos, ruídos agrediram os ouvidos. A forte luz irritou os olhos que mal enxergavam. A asfixia forçou a respiração, o ar rasgou os pulmões. As pregas vocais se dilataram para dar som ao desconforto, ouviu-se o choro. A temperatura do ambiente externo desconfigurou o termômetro do organismo. A dor foi conhecida. A vontade surgiu. O desejo não concebido gerou a angústia. A angústia na falta foi percebida na fome, na sede. A decomposição saiu pelos orifícios do corpo, o mau-cheiro foi exalado. O trabalho será forçado, haverá cansaço. Não somos mais nossos, somos prisioneiros de nossas vontades. Encerrou-se a Idade de Ouro (vida pré-natal) e se iniciou a Idade de Prata (vida neonatal) representada na Mitologia Grega: Seguiu-se a Idade de Prata, inferior à de Ouro, porém melhor do que a de Cobre. Júpiter reduziu a primavera e dividiu o ano em estações. Pela primeira vez o homem teve de sofrer os rigores do calor e do frio, e tornaram-se necessárias as casas. As primeiras moradas foram as cavernas, os abrigos das árvores frondosas e cabanas feitas de hastes. Tornou-se necessário plantar para colher. O agricultor teve de semear e de arar a terra, com ajuda do boi (Bulfinch, 2002, p. 22).27 A porta de nossa primeira casa — o útero — se fechou, a chave — a placenta — foi jogada fora, e nunca mais por ela entraremos. A única lembrança visível que em nós ficou foi o umbigo, um buraco no abdômen que nos relembra que um dia habitamos um paraíso, libertos e esquecidos pela angústia. Eis aqui, segundo o meu pensamento, a origem de nossas buscas: o buraco umbilical — o centro da religiosidade humana.

A força motora Para sanar a angústia da ausência, andamos pela Vida em busca de algo que tenha o poder para preencher o vazio que está no centro de nosso corpo, saímos da inércia para encontrarmos algo 27

O livro de ouro da mitologia: (a idade da fábula): histórias de deuses e heróis / Thomas Bulfinch; tradução de David

Jardim Júnior — 26a ed. — Ediouro. Rio de janeiro, 2002. p. 22


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que equilibre o nosso eixo gravitacional; algo que nos coloque no prumo, que nos reposicione de cabeça para cima e que nos reconecte ao que está registrado em nossa memória sensorial. A angústia parece ser o elo entre os momentos aflitos da falta e os prazerosos do acolhimento; nesses dois acontecimentos que se entrelaçam, ela se transforma na grande musa inspiradora, a força motora, a motivadora que incita ao movimento, a causadora das relações, a impulsionadora das criações, a procriadora dos amores e das uniões, a provocadora da busca incessante. Ela é a tensão do desprazer, como uma mola propulsora que, quando tensionada, convida-nos, conforme a língua dos hebreus, ao caminho constante de Teshuvah28 — retorno ao princípio.

O caminho sofisticado do retorno O caminho de retorno à Idade de Ouro (Ventre materno) se desdobra para muito além do instinto de sobrevivência. Se nos movimentássemos apenas pelos comportamentos instintivos, quem sabe ainda estaríamos dormindo em cavernas, mas o fato é que somos Seres biopsicohistóricossociais29, isto é, não somos conduzidos apenas por um ato biológico (genético) como uma abelha que exerce a sua função na natureza de forma repetitiva, sem grandes aprimoramentos. Nós, em contrapartida, possuímos uma psique, uma estrutura mental que nos permite interagir sofisticadamente com outros de nossa espécie. Existe em nós uma busca por um algo além, somos capazes de negar a vida em prol de outras coisas, e isto evidencia que a sobrevivência não é o único motivo que nos move. Alguém que, por exemplo, compra um carro tendo outro na garagem, ou alguém que abre a sua segunda empresa não está se movendo apenas querendo preservar a sua vida, o seu anseio está motivado por uma alavanca psíquica, histórica ou social, e não somente instintual em permanecer vivo. A bomba atômica lançada sobre Hiroshima e o holocausto judaico pelos nazistas foram atos realizados em prol da sobrevivência? Pode até ser que alguém pense que sim, já eu, não. O Homem é capaz de escrever códigos morais e éticos. Não nos contentamos somente em adquirir o alimento, nós o produzimos e o comercializamos; não apenas praticamos o sexo, nós formalizamos um contrato, constituímos história e tradição;

28

Teshuvah – palavra hebraica que procede da raiz shuv / ‫(שוב‬voltar). Ela é usada para uma posição de retorno,

conversão, volta, arrependimento. 29

Somos formados e constituídos a partir de uma herança genética, psíquica, história e social. A hereditária de genes

nos dá características específicas, corporais e comportamentais. A nossa estrutura mental complexa se molda nas muitas situações da vida. Os valores tradicionais e históricos influenciam nossos comportamentos, nossa moral e ética. A interação social, o ambiente, a sociedade também interfere em nossa cosmovisão.


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ensinamos a próxima geração e formamos cultura. Não satisfazemos apenas o instinto, também intelectualizamos os desejos.

O querer internalizado na Busca Temos, portanto, um Homem angustiado pela falta e que se move para saná-la. Sem ela, talvez não houvesse mudança e transformação na espécie humana, seríamos inertes (não intactos) como os outros animais, experimentaríamos poucas modificações. Entretanto, as modificações e aperfeiçoamentos na espécie ocorrem significativamente pelo engajamento em uma busca incessante pela reconexão com a sua placenta perdida. Esta estrada de retorno para a desejada vida satisfatória

intrauterina

contém

muitas

bifurcações,

cada

qual

relacionada

ao

que,

inconscientemente foi registrado no momento pré-natal, em outras palavras, o querer na inconsciência do Homem se direciona, além da sobrevivência (proteção, segurança, saúde...), às questões morais, éticas, pureza e liberdade de consciência, paternidade (cuidado - afetividade), autoridade / poder (autonomia), completude, aceitação... Alvos que trazem à lembrança a memória sensorial fetal, motivam a movimentação do Homem e determinam o seu curso no Mundo. Afinal, a busca não seria a saída de um estado de inércia? Quando se busca algo é preciso sair do lugar em que se está para alcançar o objeto de desejo. Busca é movimento, mudança de comportamento e ação.

Síntese Todos os Homens estão inseridos no processo do vir-a-luz. Neste caminho, no período intrauterino, não temos, segundo a minha observação e algumas vertentes de estudos, uma memória imaginária que nos permite elaborar pensamentos e, consequentemente, ter algum tipo de lembrança por imagens da vida fetal, porém, pela formação do Sistema Nervoso, somos capazes de absorver sensações que se registram em uma memória sensorial. Esta memória gravada em nossa psique, por vezes, manifesta-se em momentos da vida neonatal, como nas ocasiões em que nosso corpo procura se contorcer em uma posição fetal para encontrar uma sensação de conforto. Ao sairmos da completude promovida pelo interior do ventre, ficamos com um vazio, uma falta e incompletude. A angústia gerada na carência é convertida em movimento. Somos movidos, inconscientemente, pelo desejo de retornar ao Paraíso. Iniciamos um caminho de busca constante por possuir o que tínhamos no útero: proteção, cuidado, pureza de consciência, ausência de tempo, sensação de eternidade (quando o tempo parece não passar)..., em resumo, o querer está naquilo que


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comumente chamamos de Felicidade, ou seja, um estado permanente de alegria na ausência de consciência. Este termo Felicidade se divide em outros termos, tais como no Amor, o qual carrega em sua conceptualização a sensação de completude e plena satisfação. O que chamamos de Felicidade, para mim, é um reflexo do que desfrutávamos antes de nascermos, ainda ocultados em uma barriga, sem lembranças, sem memória, sem a pressão do tempo, apenas no esquecimento. É o que no fundo cada um de nós deseja, ser livre da sua consciência e da prisão temporal. Talvez, por isso, a maioria dos dementes expressa uma grande alegria, porque vivem no esquecimento de si mesmos. O “são” luta para tê-lo, mas não consegue, tudo o que tem são momentos em que se esquece. As crianças também parecem sempre alegres e felizes, não se prendem aos momentos indesejáveis, quem sabe devido ao fato de terem uma memória curta da vida (lembramos poucas situações da primeira infância), possuírem uma identidade débil acerca de si mesmas e pouca noção de tempo. O querer internalizado na busca humana pode, portanto, ser condensado no esquecimento da existência, no ocultamento de si mesmo e da vida, na negação da existência sofrida. Por isso, cresce o entretenimento atual, pois promove uma amnésia temporária do sofrimento existencial! Ouve-se constantemente em alguma sala noturna esfumaçada e com músicas triviais: “ESQUECE, seja feliz e relaxa!”; ou em algum templo com músicas e palavras que elevam a mente para um plano metafísico: “ESQUEÇA-SE dos seus problemas e visualize o Céu!”. Estas frases revelam o desejo que o Homem tem de esquecer as preocupações trazidas pela existência. Outra oração e pensamento comum que expressa o desejo do Homem angustiado em desaparecer num buraco negro é: “que vontade de sumir!”. Há um anseio por desligar o cérebro para se ter um momento de descanso. Não seria isto o que propõe as práticas de meditação, oração e tantas outras atividades terapêuticas? Pois bem, a busca pelo retorno, reconexão ou preenchimento do vazio umbilical não cessa, cada passo em direção ao ventre transforma o mundo interno e externo do Homem, gerando um ciclo de interferência entre ambiente e Humanidade. Na medida em que o Homem modifica o seu ambiente ele também é forçado a se modificar em uma readaptação. É o que desenvolverei no transcorrer das páginas seguintes.


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Saída do útero (IDADE DE PRATA)

- Memória imaginária ausente Não há lembranças de imagens - Memória sensorial presente Lembranças de sensações: completude, ausência de consciência, autonomia, temperatura estável, sustento contínuo, ausência de carência e falta...

Esquecimento da Existência Felicidade, prazer, liberdade, cuidado, amor, bondade, proteção, acolhimento...

Corte do cordão umbilical Angústia da falta - Motiva a busca - Desperta o desejo pelo retorno

Preenchimento do vazio umbilical


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4. Teogonia – o nascimento do ideal de Deus

Antes de iniciar este tópico é preciso que o leitor tenha compreendido a progressão do raciocínio concernente a Busca do Homem originada na vida intrauterina e sua expulsão do ventre. Este raciocínio dá à luz a uma possível Teogonia. Muitos já estudaram, formularam teorias e documentaram crenças sobre o assunto, no entanto, o meu foco não é formular uma ideia de como surgiram os deuses no Mundo, e sim de como a Humanidade começou a pensar e a se voltar para esta ideia teísta. O objetivo não é observar os deuses fora do Homem, mas a partir dele. Não vejo necessidade em citar o que outros autores já fundamentaram sobre a Teogonia, quero tão somente dizer como a minha concepção se forma. A minha argumentação parte da vida intrauterina e, como coloquei de início, está manifestada na alegoria do Jardim do Éden e na Idade de Ouro. O Homem, na forma de feto, reside em um jardim de delícias e prazer, desfruta da alegria permanente na ausência de consciência, está ligado por um cordão umbilical a um Poder invisível, oculto, generoso, misterioso, sem forma, sem face. Poder que é apenas sentido e percebido; o feto existe pela existência desse Poder que, no caso, é o organismo materno, uma Força Poderosa que representa o cerne da criação e poder. Tomo a liberdade de emprestar a citação do filósofo Leibniz, a qual traduz muito bem a imagem desse Poder que, sentido na figura da mãe e sob a nomenclatura de Deus, é reverenciado, servido por meio das mais variadas formas e amado pelos meios mais diversos: Os homens não podem deixar de ter alguma ideia das coisas sobre as quais os entretêm, sob diversos nomes, aqueles com os quais entram em contato. E se é uma coisa que implica a ideia de excelência, de grandeza, ou de alguma qualidade extraordinária que sob algum título seja de interesse, e que se imprime no espírito sob a ideia de um poder absoluto e irresistível que não podemos deixar de temer [eu acrescento: e sob a ideia de uma grandíssima bondade, que não podemos deixar de amar], uma tal ideia deve, segundo todas as evidências, causar as mais fortes impressões e difundir-se mais longe do que qualquer outra; sobretudo se for uma ideia que concorda com as mais simples luzes da razão, e que deriva naturalmente de cada parte dos nossos conhecimentos. Ora, tal é a ideia de Deus, pois as marcas brilhantes de uma sabedoria e de um poder extraordinários aparecem tão visivelmente em todas as obras da criação, que toda criatura racional que quiser refletir não pode deixar de descobrir o Autor de todas essas maravilhas. A impressão que a descoberta de um tal Ser deve produzir naturalmente na alma de todos aqueles que tiverem ouvido falar dele uma só vez é tão grande, e encerra pensamentos de tão grande importância e tão aptos a se difundirem pelo mundo, que me parece completamente estranho que


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possa haver na terra uma nação inteira de homens tão estúpidos que não tenham nenhuma ideia de Deus [...] (Trecho do Ensaio sobre o Entendimento, livro I, cap. 3, § 9; citado por Leibniz).30

O PODER invisível O Poder invisível, a energia vital, a força oculta sentida na vida fetal é registrado na memória sensorial do feto como uma fonte responsável pelo equilíbrio e homeostase31 do paraíso intrauterino. Em uma entrevista sobre a vida dentro do útero, a psicanalista Joanna Wilheim declara que a médica e psicanalista italiana Alessandra Piontelli, autora do livro De Feto a Criança (Imago Editora), relata o caso de uma menininha observada através de ultrassom desde o início da gravidez. A menina era um feto muito ativo. Movimentava-se bastante, brincava com a placenta e o cordão umbilical. Uma de suas brincadeiras era manipular com os dedinhos a placenta num movimento de querer descolá-la. Esta manipulação acabou provocando um forte sangramento. A mãe correu o risco de perder a bebê e foi colocada em repouso absoluto até o fim da gravidez. A menina passou a ficar absolutamente imóvel, “enfiada” em um canto do útero, até o fim da gravidez. De acordo com este relato, poderíamos dizer que o feto tinha em si uma percepção de que a sua vida estava em risco e, por isso, acomodou-se? É possível que ela tivesse a sensação de que o seu bem-estar estava relacionado a placenta. Na memória sensorial, portanto, registrada no feto, pode haver a lembrança de Algo poderoso do qual depende a Existência e a Vida. Algo sagrado que não se deve tocar, e quem o toca indevidamente está sujeito a morrer. Lembro-me de passagens bíblicas que exemplificam esta situação da invisibilidade e intocabilidade do Poder Sagrado: Disseram a Moisés: Fala-nos tu, e te ouviremos; porém não fale Deus conosco, para que não morramos (Êxodo 20.20) [...] Ninguém jamais viu a Deusa; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado (1 João 4.12) [...] E acrescentou (Deus): Não me poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá (Êxodo 33.21).

30

Leibniz, Gottfried Wilhelm, Leipzig (1646 – 1716). Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano / Leibniz;

tradução Luiz João Baraúna. 5 ed. São Paulo. Nova Cultural, 1992. (Os Pensadores) p. 51,52 31

Homeostase ou homeostasia (do grego homeo “igual” / stasis “estático”). Termo que, segundo entende-se, foi criado

em 1932 pelo fisiologista americano Walter Cannon (1871-1945 d.C.), primeiramente, para indicar, dentro do contexto da biologia, um equilíbrio e estabilidade de um organismo vivo. No entanto, este termo se estende e é usado para se referir a um estado de equilíbrio e estabilidade em qualquer contexto. a

4.12 Jo 1.18


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A meu ver, todo Homem que nasce, nasce com esta ideia, que para mim, é a ideia intrínseca da existência de um Poder sobremodo excelente, bom, dominador e autoridade sobre a Vida, fonte de energia e do fluxo do paraíso (ventre). Poder que não é necessariamente amaterial, é também transfigurado em qualquer coisa que o possa representar. Esta é a Teogonia que proponho. Qualquer civilização ou sociedade na Terra, antiga ou atual, tem em sua constituição a ideia de um PODER intocável e criador de todos os seres, aquele que pode prover os benefícios do paraíso (vida intrauterina). Após a saída do útero, o Homem, em um estado de dependência, continua a se relacionar intimamente com o Poder oculto, na forma física e corporal da mãe. No processo de amamentação, a imagem da Fonte de Energia invisível permanece, porquanto não há uma identificação com a mãe como uma pessoa distinta. O recém-nascido não faz nenhuma diferenciação, conforme alguns teóricos da psicanálise. Afirma Freud que “um bebê não distingue ainda seu ego do mundo externo como fonte das sensações que afluem sobre ele” (1930, p. 66). Spitz, seguindo a linha psicanalítica de Freud e Hartmann, fala do estágio não-objetal do recém-nascido, nesta fase da não-diferenciação “o recém-nascido não consegue distinguir uma “coisa” de outra; não consegue distinguir uma coisa (externa) de seu próprio corpo e não experimenta o meio que o cerca como sendo separado dele mesmo. Portanto, ele também percebe o seio materno, que satisfaz suas necessidades e lhe oferece alimento, como parte de si mesmo — se é que ele percebe o seio materno. Além do mais, o recém-nascido em si mesmo também não é diferenciado e organizado, mesmo em aspectos fundamentais como a relação entre centros neurais distintos, de um lado, e seus órgãos efetores musculares, de outro; [...] durante os primeiros dias e por mais um mês aproximadamente, em medida decrescente, o mundo exterior praticamente inexiste para a criança.”32 No decorrer do desenvolvimento do recém-nascido, ocorre um afastamento, os seios não são mais a fonte de sustento, e a existência começa a entrar em um nível de aprendizagem mais intensa e desconfortável, onde o Poder que outrora era percebido na vida intrauterina já não está mais tão presente, agora o sustento deve ser buscado, a dor é sentida... A mãe transfigura a imagem de um mortal frágil, diferente daquele registrado na memória como um PODER absoluto. O Poder não está mais no nível corporal e físico da mãe, ele entra em um estágio metafísico e ideal.

Totemismo - A materialização do PODER A psique do Homem inicia uma busca pelo Poder invisível, e por ser invisível e sem nome, sente a necessidade de nomear e dar formas. Nas culturas primitivas, segundo pesquisadores, a 32

SPITZ, René A. O Primeiro Ano de Vida. Ed. Martins Fontes. São Paulo. 1996, p. 27,28


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manifestação teológica era, em sua maioria, expressada no totemismo, no qual o totem poderia ser um animal, uma pedra, uma árvore, um fenômeno natural,..., e esse totem representava o Sagrado, como uma forma de tornar tangível a força invisível, e sobre ele criava-se uma crença de intocabilidade. Era de ordem individual, mas também de ordem coletiva, ou seja, toda a comunidade ou tribo se voltava para ele. Não há muita diferença quanto aos dias atuais, o princípio é o mesmo. O PODER invisível precisa ser visto e representado por objetos, elementos naturais ou outras formas. Recordo-me do texto bíblico que reflete o momento em que Moisés sobe ao monte para orar ao PODER invisível, e o povo no pé do monte fica à espera de seu retorno, porém, Moisés demorou e o povo, liderado por Arão, inquietou-se, fez um bezerro fundido e disse “... São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito.”33 O povo Hebreu que servia a um Poder teoricamente invisível se percebeu na necessidade de vê-lo, talvez pela influência do tempo em que habitavam as terras do Egito. Mesmo que o PODER reverenciado pelos hebreus fosse imperceptível aos olhos e sem representação material, na prática, o PODER era representado por uma figura física, como assim percebemos na Arca da Aliança, nos querubins de ouro, no altar de bronze, no Tabernáculo de Moisés e seus utensílios, e nos próprios homens profetas, como Moisés, Elias, Jeremias, Isaías, entre outros, e no Cristianismo ele é visualizado no filho Jesus: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (João 1.18).

O animatismo O totemismo está ligado ao animatismo, "crença segundo a qual todos ou determinados objetos importantes estão dotados de vida ou contêm uma energia comunicável (mana). Se é suficientemente forte para constitui-los em objetos de magia ou de adoração, são respeitados como veículos de um poder impessoal ou como capazes de atuar por motivos de tipo pessoal."34

33

Mas, vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão e lhe disse: Levanta-te, faze-nos

deuses que vão adiante de nós; pois, quanto a este Moisés, o homem que nos tirou do Egito, não sabemos o que lhe terá sucedido. Disse-lhes Arão: Tirai as argolas de ouro das orelhas de vossas mulheres, vossos filhos e vossas filhas e trazei-mas. Então, todo o povo tirou das orelhas as argolas e as trouxe a Arão. Este, recebendo-as das suas mãos, trabalhou o ouro com buril e fez dele um bezerro fundido. Então, disseram: São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito. Arão, vendo isso, edificou um altar diante dele e, apregoando, disse: Amanhã, será festa ao SENHOR. ( Êxodo 32.1-5) 34

Dicionário de Sociologia, Rio: Editora Globo (1961), pâg. 23.


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Creio ser interessante citar Murphy, transposto por Merval Rosa 35: “... Como sistema religioso primitivo, o totem surge do interesse pelo alimento, pois ele é o animal ou planta comestíveis considerados misteriosos, mas benéficos. A ideia de pertencer ao mesmo sangue ou à mesma carne do totem leva o primitivo a sentir seu parentesco com ele... o totem-divindade é o pai ou ancestral do clã."36 Esse totemismo, nos dias atuais, é visualizado em muitos rituais, tal como na eucaristia católica ou na santa ceia protestante. O ato de comer o pão e tomar o vinho é simbolismo do comer a carne e tomar o sangue do Poder invisível, é como participar da divindade ou da energia divina, e aquele que participa recebe parentesco e é recebido como filho de Deus, irmão de Jesus e membro da família celestial. Usando um exemplo dos textos bíblicos, é possível ver como o totemismo e o animatismo estiveram fortemente intrínsecos na cultura das civilizações antigas: Os filisteus tomaram a arca de Deus [Poder representado para os hebreus] e a levaram de Ebenézer a Asdode. Tomaram os filisteus a arca de Deus e a meteram na casa de Dagom, junto a este. Levantando-se, porém, de madrugada os de Asdode, no dia seguinte, eis que estava caído Dagom com o rosto em terra, diante da arca do SENHOR; tomaram-no e tornaram a pô-lo no seu lugar. Levantando-se de madrugada no dia seguinte, pela manhã, eis que Dagom jazia caído de bruços diante da arca do SENHOR; a cabeça de Dagom e as duas mãos estavam cortadas sobre o limiar; dele ficara apenas o tronco. Por isso, os sacerdotes de Dagom e todos os que entram no seu templo não lhe pisam o limiar em Asdode, até ao dia de hoje. Porém a mão do SENHOR castigou duramente os de Asdode, e os assolou, e os feriu de tumores, tanto em Asdode como no seu território. Vendo os homens de Asdode que assim era, disseram: Não fique conosco a arca do Deus de Israel; pois a sua mão é dura sobre nós e sobre Dagom, nosso deus (1 Samuel 5.1-7). Dagom era o totem que representava o Poder para os filisteus, ele estava ligado ao poder da fertilidade; representado com o rosto e as mãos de um homem e a cauda de um peixe37. Os filisteus levaram para o seu templo a Arca, o totem dos hebreus, e o Totem de Dagom foi afetado e o povo castigado com tuemores, segundo a visão dos Filisteus. Para eles, a causa dos males era o Poder que havia no interior da Arca da Aliança dos hebreus e, por assim ser, não quiseram mais o totem do povo hebreu em seu território. 35

Rosa, Merval. Psicologia da religião. 2. edição. Rio de Janeiro, Junta de Educação Religiosas e Publicações, 1979 p.

45,46 36

John Murphy, Lamps of Antropology (1943), pág. 4, citado por Bpínke, op. cit., pág, 42.

37

Strong, James: Léxico Hebraico, Aramaico E Grego De Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2002; 2005, S. H1712


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O dinheiro como forma de totemismo e animatismo Por que não dizer que o dinheiro também é um totem animático? Este, como moeda de metal ou papel, é um objeto tido pela grande maioria dos Homens, desde a antiguidade e evidenciado na contemporaneidade, como dotado de grande poder e energia. Basta pensarmos que muitos carregam em suas carteiras uma nota de Dólar para atrair riquezas, ou lembrarmos que nas notas de dinheiro está escrito “Deus seja louvado”. O dinheiro, neste prisma, é uma representação tangível do Poder invisível. Há alguns relatos bem conhecidos da maioria ocidental que indicam este pensamento corrente no I séc. d.C.: Então, Judas, o que o traiu, vendo que Jesus fora condenado, tocado de remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos principais sacerdotes e aos anciãos, dizendo: Pequei, traindo sangue inocente. Eles, porém, responderam: Que nos importa? Isso é contigo. Então, Judas, atirando para o santuário as moedas de prata, retirou-se e foi enforcar-se. E os principais sacerdotes, tomando as moedas, disseram: Não é lícito deitá-las no cofre das ofertas, porque é preço de sangue (Mateus 27.3-6). Este primeiro exemplo, mostra as moedas oferecidas pela traição com algum tipo de poder capaz de causar mal sobre quem as aceitasse. Elas estavam profanadas pelo pecado e transgressão de Judas e, assim, não poderiam ser colocadas em um lugar santo como o cofre do templo. Há outro texto do livro de Mateus que também é muito interessante, convém citá-lo: Dize-nos, pois: que te parece? É lícito pagar tributo a César ou não? Jesus, porém, conhecendo-lhes a malícia, respondeu: Por que me experimentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo. Trouxeram-lhe um denário. E ele lhes perguntou: De quem é esta efígie e inscrição? Responderam: De César. Então, lhes disse: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Ouvindo isto, se admiraram e, deixando-o, foram-se (Mateus 22.17-22). Aqui a moeda é revelada como um objeto tangível, sobre o qual é visto um Poder maior, no caso, representado pelo imperador César que, na língua latina significa “separado”. César foi o sobrenome de Júlio César e posteriormente foi usado como título para os imperadores sucessores. A ideia de separação coliga a ideia de santificação. Santo é uma palavra que quer dizer “separado para um propósito maior, algo intocável”. Este era o entendimento dos imperadores, ou seja, eles se consideravam semideuses, representações do Poder supremo que, em Roma, dividia-se entre os totens do panteão romano (Júpiter, Vênus, Apolo, Mercúrio,...). Não contentes, havia aqueles que almejavam a posição de algum deus totêmico, foi o caso de Caio, do qual declarou Flávio Josefos38: “Mas a loucura de Caio não se deteve. Era pouco para ele igualar-se aos semideuses; ele queria

38

Flávio Josefo foi um escritor e historiador judeu que viveu entre 37 e 103 d.C.


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mesmo igualar-se aos deuses. Começou por querer passar por Mercúrio. Vestiu-se com roupas parecidas com as dele, tomou nas mãos um caduceu e calçou botinas com asas.”39 Visualizando o dinheiro dentro do princípio do animatismo, o veremos como um objeto sagrado, um meio para se alcançar favores e benefícios de um Poder Supremo, contudo, sendo um objeto mágico, quando usado e tocado indevidamente pode causar males. Lembro-me de um relato do Tanach40 que expõe essa dicotomia de benção e maldição no totemismo. A Arca da Aliança, um totem animático dos hebreus e fonte de bênçãos, o mesmo que destronou o Dagom dos filisteus, estava sendo carregada sobre bois, e ao tropeçarem, Uzá a tocou e morreu: “Quando chegaram à eira de Nacom, estendeu Uzá a mão à arca de Deus e a segurou, porque os bois tropeçaram. Então, a ira do SENHOR se acendeu contra Uzá, e Deus o feriu ali por esta irreverência; e morreu ali junto

arca de Deus” (2 Samuel 6-8). Este é um bom exemplo de

como os totens exerciam e exercem grande influência na vida e cultura de um povo. São agentes de morte e de vida, de paz e de guerra, simultaneamente reverenciados e temidos. Não me surpreende o caso descrito pela história acerca da oficialização do Cristianismo no império romano. Conta-se que no séc. IV d.C., o império romano estava dividido e enfrentava uma guerra civil, neste intercalo, Constantino visava a unificação e sua coroação como o grande imperador de Roma. Em uma das batalhas contra o general Maxentius, relata-se que houve uma cena incomum testemunhada por aqueles que ali estavam, alguns interpretam como um meteorito que se chocou com o solo deixando um rastro de fumaça no céu, mas para os conselheiros cristãos foi um sinal do deus cristão. Avistou-se um símbolo formado pela fumaça, Constantino foi aconselhado a fazer bandeiras e estandartes com este símbolo e levantá-los na próxima batalha. Assim feito, ergueram-se os estandartes, como totens mergulhados em um grande poder. Desta forma, os soldados adversários olharam para os símbolos e se intimidaram, temendo aquele novo deus que surgira no império. Constantino venceu, tornou-se o grande imperador de uma Roma unificada e oficializou o Cristianismo como religião de Roma. Foi coroado com duas coroas, uma de ordem política, e outra de ordem eclesiástica. Recebeu o título de Pontifix Maximus (Pontífice Máximo), o primeiro Papa 39

JOSEFOS, Flávio. A História dos Hebreus. De Abrão à queda de Jerusalém. Obra Completa. Ed 8. 2004. Rio de

Janeiro. Tradução por Vicente Pedroso. — Capítulo 7 A loucura de Caio aumenta sempre mais e ele quer ser honrado como um deus; imita Mercúrio, Apolo e Marte. Versão e-book 40

Tanach é um termo hebraico usado pelos judeus, corresponde ao Velho Testamento da Bíblia dos cristãos. É um

acrônimo, uma palavra formada pelas iniciais – T-N-Ch (tanach) – Torah (pentateuco, 5 primeiros livros) – Neviim (profetas) – K(ch)etuvim (demais escritos). O seu conteúdo difere um pouco do Velho Testamento cristão no que diz respeito a ordem dos livros e no acréscimo de outros, e principalmente nos pensamentos. A divisão entre Novo e Velho Testamento da Bíblia foi proposta no período da Patrística por Marcião de Sinope (110 – 160 d.C.).


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da Igreja Cristã Católica romana. Presidiu o I concílio de Niceia (325 d.C.) e eternizou o seu credo no coração dos cristão. O símbolo que deu a vitória ao imperador, até hoje se encontra no cristianismo e suas vertentes.

Questões existenciais originam pensamentos e crenças A Humanidade, em sua psique, carrega questionamentos básicos e fundamentais sobre a sua existência. “Quem sou, de onde vim, qual é o meu propósito nesta terra, para onde vou?”, a partir dessas questões ligadas a origem e finitude humana, criamos inúmeros mitos. Nós os construímos para preencher os buracos no asfalto da lógica. Seria isto ruim? Há quem pense que sim. Nem sempre vejo assim. O mito é a nossa capacidade de criar e inventar. São as nossas verdades, as quais fazem da estrada revitalizada e mais transitável. Cada civilização inventou a sua origem e deu um sentido a sua existência. Criou a sua ideologia de deuses, tradições, histórias e pensamentos. Na ausência por respostas satisfatórias as crenças surgiram, os ensinos nasceram, as catequeses e doutrinas se fundamentaram. O Homem criou seus livros sagrados, seus contos, suas epopeias, suas filosofias, medicinas (curandeirismo), psicologias, ciências, e neles colocou a imagem do Poder supremo — o ideal de um Poder oculto que nos sustinha no ventre. Na tentativa de se descobrir, a Humanidade desenvolve o pensamento visualizando um Criador. Este Criador, nos tempos da antiguidade remota, foi pintado nas paredes das cavernas, em monumentos, em templos, visto nas forças da natureza. Este Poder Criador, capaz de dar vida a todas as coisas, recebeu em cada civilização humana um nome e uma forma diferente, porém, a essência como Poder Criador e invisível permaneceu em todas.

Sincretismo mitológico Não creio que é coerente, quando se trata de história e descobertas, afirmarmos datas e acontecimentos com precisão. As descobertas são baseadas em interpretações, ninguém esteve naquela data da história para comprovar o que de fato ocorreu, quem de fato lá viveu e como viveu. Há suposições, sugestões e possibilidades. Daqui alguns anos haverá outra descoberta, e tudo


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novamente mudará, assim ocorreu muitas vezes na medicina que, como exemplo, no séc. XVIII tinha certo diagnóstico patológico, e no séc. XXI, devido aos avanços e novas possibilidades, reformulou alguns conceitos de patologia. Substâncias que antes faziam bem ao corpo, hoje se descobriram os seus malefícios. As descobertas sobre o inconsciente da mente humana é um exemplo a ser visto, a Psicologia no séc. XIX foi conduzida a novos horizontes e caminhos de entendimento sobre a alma do Homem. A história está o tempo todo se redescobrindo e se reinventando, juntamente com a Humanidade. A memória histórica é falível, porque os pensamentos são falíveis; são fragmentados. Existe um abismo entre o mundo externo e o nosso mundo interno, o pensamento é um meio de preencher este espaço vazio. Uma ponte que está sempre em movimento. Se olharmos para a nossa própria história, perceberemos que a cada momento de nossa vida nós a reinterpretamos segundo o que vivemos no agora. Cada vez que alguém me perguntar como foi o meu aniversário de 10 anos de idade, eu o relatarei de forma diferente. Alguém que esteve preso no campo de concentração nazista documentará a 2ª Guerra Mundial diferentemente de um oficial alemão. A memória não é estável, a história também não. Cada mente, cada olho, cada alma a documenta de maneira diferente. A arqueologia acreditava que os povos mais antigos na mesopotâmia eram os assírios e babilônios, mas descobertas arqueológicas recentes (Séc. XIX), conduziram os pesquisadores à Suméria, um Povo que antecedeu a Assíria e a Babilônia, sendo desta forma, a civilização mais antiga de que se tem relato na Mesopotâmia até o momento. Isto faz dela o berço das mitologias teístas, pelo menos até as recentes descobertas. Os povos posteriores foram influenciados por sua cultura, ideologia e crenças, ocorrendo um sincretismo dos seus deuses, isto é, as crenças adentram os povos com os nomes alterados, permanecendo com as mesmas funções e atributos. É como dizer que, atualmente, Iemanjá do Candomblé se relaciona com a Maria do Cristianismo, e que ambas provêm da imagem de Semíramis do mito babilônico antigo. O meu foco de interesse aqui não são os fatos históricos, eles são apenas meios para enfatizar a construção do Homem religioso dentro da sua história, é uma investigação de caráter psicanalítico e filosófico. Desejo tão somente mostrar um ponto comum entre as civilizações — o ideal de Deus (Poder supremo). Existem fundamentalistas que debatem com afinco que a Bíblia é um plágio dos escritos sumérios, devido algumas semelhanças com a Epopeia de Gilgamesh41. Não vem ao caso este 41

É um ciclo de poemas épicos com versões sumárias, babilônicas e assírias sobre Gilgamesh, o quinto monarca da

primeira dinastia suméria pós-diluviana em Uruk (Erech da Bíblia Gn 10.10), ele viveu por volta de 2.700 a.C. Transcorre sobre rituais, deuses, vida eterna... Um achado importante para a literatura mundial. Foi encontrado na região da Mesopotâmia (Nínive) no séc XIX. O inglês Austen Henry Layard, em 1839, escavou a região e achou uma


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debate, embora — aparentemente — existam sincretismos mitológicos, não só entre as lendas sumérias e bíblicas, como também entre os gregos, medos, e outros. Grandes personagens dos povos antigos eram normalmente documentadas como heróis em textos e poemas, e se misturavam naturalmente entre as civilizações. Podemos pegar Hércules da mitologia greco-romana e compará-lo com Sansão do conto hebreu, ou ainda com algum herói justiceiro da pós-modernidade como o Superman. É interessante como os contos e personagens caminham e se canonizam na história; se alguém, por exemplo, daqui alguns milhares de anos tiver acesso aos relatos sobre Madre Tereza de Calcutá ou Alan Kardec e ler os seus milagres e atos realizados, possivelmente os verá como deuses épicos, assim como hoje existem muitos homens que viveram nos séculos passados e que estão canonizados em alguma catedral. Ou ainda, é possível que ao ler uma revista em quadrinhos dos heróis da Comics (1938), escavada em alguma caverna, acredite na existência deles e até institucionalize alguma crença sobre a origem do universo. Enfim, vejamos alguns exemplos plausíveis de sincretismos mitológicos: Lembremo-nos de Moisés, o levita hebreu que foi separado dos pais, e que, lançado em um cesto sobre o rio, foi resgatado pela princesa do Egito; lá cresceu e se tornou um príncipe egípcio. Assim está escrito sobre ele: Foi-se um homem da casa de Levi e casou com uma descendente de Levi. E a mulher concebeu e deu à luz um filho; e, vendo que era formoso, escondeu-o por três meses. Não podendo, porém, escondê-lo por mais tempo, tomou um cesto de junco, calafetou-o com betume e piche e, pondo nele o menino, largou-o no carriçal à beira do rio. A irmã do menino ficou de longe, para observar o que lhe haveria de suceder. Desceu a filha de Faraó para se banhar no rio, e as suas donzelas passeavam pela beira do rio; vendo ela o cesto no carriçal, enviou a sua criada e o tomou. Abrindo-o, viu a criança; e eis que o menino chorava. Teve compaixão dele e

biblioteca soterrada com uma literatura perdida em caracteres cuneiformes. Começou ali uma grande descoberta. Em 1853, Rassam, companheiro de Layard, escavou parte da biblioteca onde estavam as tábuas com o cotejo assírio da Epopeia de Gilgamesh. “Em dezembro de 1872, num encontro da recém-fundada Sociedade de Arqueologia Bíblica, George Smith anunciou: ‘Pouco tempo atrás, descobri entre as tábuas assírias no Museu Britânico um relato do dilúvio.’ Era a décima primeira tábua da recensão assíria da Epopeia de Gilgamesh. [...] Estamos falando da civilização suméria arcaica. Os sumários foram os primeiros habitantes da Mesopotâmia a conhecer a escrita, e é na língua deles que foram escritas as mais antigas tábuas de Nippur relacionadas a Gilgamesh. [...] Temos boas razões para crer que a maior parte dos poemas de Gilgamesh já haviam sido escritos nos primeiros séculos do segundo milênio a.C. e que provavelmente já existiam numa forma bastante semelhante muitos séculos antes disso, ao passo que o texto definitivo e a edição mais completa da epopeia vêm do século VII, da biblioteca de Assurbanipal, antiquário e último dos grandes reis do Império Assírio. (SANDARS, N. K. A epopéia de Gilgamesh. São Paulo: Martins Fontes, 1992)


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disse: Este é menino dos hebreus. Então, disse sua irmã à filha de Faraó: Queres que eu vá chamar uma das hebréias que sirva de ama e te crie a criança? Respondeu-lhe a filha de Faraó: Vai. Saiu, pois, a moça e chamou a mãe do menino. Então, lhe disse a filha de Faraó: Leva este menino e cria-mo; pagar-te-ei o teu salário. A mulher tomou o menino e o criou. Sendo o menino já grande, ela o trouxe à filha de Faraó, da qual passou ele a ser filho. Esta lhe chamou Moisés e disse: Porque das águas o tirei (Êxodo 2.1-10). Esta figura heroica de Moisés pode ter sido sincretizada, a priori do conto de Sargão (2.800 a.C.). Assim como ele, Moisés é lançado sobre um rio, achado por uma princesa e elevado a uma alta posição. Freud, em suas análises, cita este épico mesopotâmico no ensaio Moisés e o Monoteísmo: ‘Sargão, o poderoso Rei, o Rei de Agade, sou eu. Minha mãe era uma vestal, a meu pai não conheci, ao passo que o irmão de meu pai morava nas montanhas. Em minha cidade, Azupirani, que fica à margem do Eufrates, minha mãe, a vestal, concebeu-me. Em segredo ela me teve. Depositou-me num caixote feito de caniços, tampou a abertura com piche, e abandonou-me ao rio, que não me afogou. O rio me conduziu até Akki, o tirador de água. Akki, o tirador de água, na bondade de seu coração, tirou-me para fora. Akki, o tirador de água, criou-me como seu próprio filho. Akki, o tirador de água, fez-me seu jardineiro. Enquanto eu trabalhava como jardineiro, [a deusa] Istar ficou gostando de mim; tornei-me Rei e, por quarenta e cinco anos, governei regiamente.’42 Acerca desta lenda, Freud ainda declara: “Os nomes que nos são mais familiares na série que começa com Sargão de Agade são Moisés, Ciro e Rômulo. Mas, além destes, Rank reuniu grande número de outras figuras heróicas da poesia ou da lenda, de quem se conta a mesma história a respeito de sua juventude, quer em sua totalidade quer em fragmentos facilmente reconhecíveis, incluindo Édipo, Karna, Páris, Telefos, Perseu, Héracles, Gilgamesh, Anfion e Zetos, e outros.”43 Vejamos outro exemplo de sincretismo nos mitos sobre o gênesis do Homem: Prometeu tomou um pouco dessa terra e, misturando-a com água, fez o homem à semelhança dos deuses. Deu-lhe o porte erecto, de maneira que, enquanto os outros animais têm o rosto voltado para baixo, olhando a terra, o homem levanta a cabeça para o céu e olha as estrelas (Bulfinch, 202, p.

42

Conto de Sargão de Agade, fundador da Babilônia (por volta de 2800 a.C.). Freud o cita do livro Der Mythus von der

Geburt des Helden de Otto Rank (1909) em Moisés e o monoteísmo, Esboço de psicanálise e outros trabalhos. (19371939). Versão digital. p. 6 43

7

Freud, Sigmund. Moisés e o monoteísmo, Esboço de psicanálise e outros trabalhos. (1937-1939). Versão digital. p. 6-


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20). 44 Este conto grego assemelha-se ao relado bíblico da Criação: Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; [...] Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; [...] Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente (Gênesis 1.26,27 / 2.7). Percebe-se ainda a semelhança na mitologia suméria de Gilgamesh: A deusa então concebeu em sua mente uma imagem cuja essência era a mesma de Anu, o deus do firmamento. Ela mergulhou as mãos na água e tomou um pedaço de barro; ela o deixou cair na selva, e assim foi criado o nobre Enkidum (Sandars, 1992, p. 94).45 Ambos, partindo do poema mais antigo de Gilgamesh, partilham a ideia de um Homem criado do barro pelos deuses. Citarei mais uma coincidência entre os mitos grego, bíblico e sumério, agora, a respeito do episódio do dilúvio, relevando que, pelo o conhecimento que se tem, o sumério é o mais antigo entre todos, sendo, por dedução, a origem. Começo com o mito grego: Dirigindo-se à assembleia, Júpiter expôs as terríveis condições que reinavam na Terra e encerrou as suas palavras anunciando a intenção de destruir todos os seus habitantes e fazer surgir uma nova raça, diferente da primeira, que seria mais digna de viver e saberia melhor cultuar os deuses. Assim dizendo, apoderou-se de um raio e já estava prestes a atirá-lo contra o mundo, destruindo-o pelo fogo, quando atentou para o perigo que o incêndio poderia acarretar para o próprio céu. Mudou, então, de ideia, e resolveu inundar a terra. O vento norte, que espalha as nuvens, foi encadeado; o vento sul foi solto e em breve cobriu todo o céu com escuridão profunda. [...] Não satisfeito com suas próprias águas, Júpiter pediu a ajuda de seu irmão Netuno. Este soltou os rios e lançou-os sobre a terra. Ao mesmo tempo, sacudiu-a com um terremoto e lançou o refluxo do oceano sobre as praias. Rebanhos, animais, homens e casas foram engolidos e os templos, com seus recintos sacros, profanados. Todo edifício que permanecera de pé foi submergido e suas torres ficaram abaixo das águas. Tudo se transformou em mar, num mar sem praias. [...] De todas as montanhas, apenas o Parnaso ultrapassa as águas. Ali, Deucalião e sua esposa Pirra, da raça de Prometeu, encontram refúgio — ele é um homem justo, ela, uma devota fiel dos deuses (Bulfinch, 2002, p. 23,24).

46

Vejamos a impressionante compatibilidade com a história de Nóe: Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; [...] Noé andava com Deus. [...] A terra estava corrompida à vista 44

Conto grego de Prometeu. O livro de ouro da mitologia: (a idade da fábula) : histórias de deuses e heróis / Thomas

Bulfinch ; tradução de David Jardim Júnior — 26a ed. — Ediouro. Rio de janeiro, 2002. p. 20 45

SANDARS, N. K. A epopéia de Gilgamesh. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 94

46

Relato extraído do conto de Prometeu e Pandora . O livro de ouro da mitologia: (a idade da fábula) : histórias de

deuses e heróis / Thomas Bulfinch ; tradução de David Jardim Júnior — 26a ed. — Ediouro. Rio de janeiro, 2002. p. 23, 24


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de Deus e cheia de violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque todo ser vivente havia corrompido o seu caminho na terra. Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra. [...] Durou o dilúvio quarenta dias sobre a terra; cresceram as águas e levantaram a arca de sobre a terra. Predominaram as águas e cresceram sobremodo na terra; a arca, porém, vogava sobre as águas. [...] No dia dezessete do sétimo mês, a arca repousou sobre as montanhas de Ararate. E as águas foram minguando até ao décimo mês, em cujo primeiro dia apareceram os cimos dos montes (Gênesis 6.9-14 / 7.17-19 / 8.4,5). Ainda nos resta mais uma comparação com o conto sumério de Gilgamesh: Naqueles dias a terra fervilhava, os homens multiplicavam-se e o mundo bramia como um touro selvagem. Este tumulto despertou o grande deus. Enlil ouviu o alvoroço e disse aos deuses reunidos em conselho: ‘O alvoroço dos humanos é intolerável, e o sono já não é mais possível por causa da balbúrdia.’ Os deuses então concordaram em exterminar a raça humana. [...] Ea47, avisa Utnapishtim, em um sonho, das intenções de Enlil e orienta-o de como sobreviver à catástrofe que estaria por vir: ... põe abaixo tua casa e constrói um barco. Abandona tuas posses e busca tua vida preservar; despreza os bens materiais e busca tua alma salvar. Põe abaixo tua casa, eu te digo, e constrói um barco. Eis as medidas da embarcação que deverás construir: que a boca extrema da nave tenha o mesmo tamanho que seu comprimento, que seu convés seja coberto, tal como a abóbada celeste cobre o abismo; leva então para o barco a semente de todas as criaturas vivas. [...] Eu carreguei o interior da nave com tudo o que eu tinha de ouro e de coisas vivas: minha família, meus parentes, os animais do campo – os domesticados e os selvagens – e todos os artesãos. [...] Caiu a noite e o cavaleiro da tempestade mandou a chuva.[...] Por seis dias e seis noites os ventos sopraram; enxurradas, inundações e torrentes assolaram o mundo; a tempestade e o dilúvio explodiam em fúria como dois exércitos em guerra. [...] Na alvorada do sétimo dia o temporal vindo do sul amainou; os mares se acalmaram, o dilúvio serenou (Sandars, 1992, p. 149-153). Para não me estender, citarei apenas mais um sincretismo. Talvez a história babilônica de Semíramis e Tamuz seja a mais disseminada entre os Povos por meio do Cristianismo. Semíramis era casada com Ninrode e após a morte dele, estando ela grávida, deu à luz a Tamuz (Filho da Vida). Semíramis apregoou que seu filho havia sido concebido de maneira sobrenatural e que ele era a reencarnação de seu pai Ninrode. Ela semeou a crença de que Tamuz era a semente prometida, o "Salvador". Quando Tamuz era moço e sai para uma caçada na mata, é morto por um porco selvagem. Então, com este episódio, Semíramis 47

O Enki sumério; deus da água doce e da sabedoria, patrono das artes e um dos criadores da humanidade, em relação à

qual ele geralmente demonstra boa vontade. O deus principal de Eridu, onde tinha um templo, vivia "nas profundezas". Sua linhagem é pouco conhecida, mas ele era provavelmente filho de Anu.


O É d e n P e r d i d o | 45 reúne as mulheres da Babilônia, jejuam e choram por Tamuz. Depois de 40 dias de jejum e clamores, Tamuz volta à vida e Semíramis passa a ser adorada como a doadora da vida (Rainha dos Céus). Conforme visto

no texto do profeta Ezequiel, este mito influenciou as mulheres israelitas: “Levou-me à entrada da porta da Casa do SENHOR, que está no lado norte, e eis que estavam ali mulheres assentadas chorando a Tamuz” (Eequiel 8.14). Outro texto do profeta Jeremias manifesta o comportamento devocional dos israelitas para com a Rainha dos Céus: Os filhos apanham a lenha, os pais acendem o fogo, e as

mulheres amassam a farinha, para se fazerem bolos à Rainha dos Céus; e oferecem libações a outros deuses... (Jeremias 7.18). Desenvolveu-se, desta forma, um "culto à mãe com a criança", em que a mãe é adorada por ter trazido o filho à vida novamente; o poder era dela. Rapidamente esse culto se espalhou pelo mundo. Os nomes Semíramis e Tamuz sofreram alterações ao serem acrescentados na cultura de outros povos, no entanto, a essência da relação cultual mãe-filho permaneceu. No seio do Cristianismo Romano, Semíramis e Tamuz se transformaram em Maria e Jesus. Cabe aqui transcrever o texto em que Maria recebe a notícia de que conceberia o salvador: Mas o anjo lhe disse: Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim. Então, disse Maria ao anjo: Como será isto, pois não tenho relação com homem algum? Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus (Lucas 1.30-36). O objetivo nestas citações não é afirmar quem está certo ou errado, quem copiou, quem plagiou, qual deus é falso ou qual deus é verdadeiro. Transfiro esse trabalho aos que se declaram combatentes da verdade e desejam desmentir os mitos, o que para mim não leva a lugar algum, senão à criação de outros mitos. O meu propósito maior é evidenciar a busca humana e, isso sim, interessa à mim, ou seja, as semelhanças entre os textos mitológicos me mostram que entre todas as civilizações existe um anseio, uma busca por um Poder imortal, criador e oculto. A Humanidade se construiu e continua se construindo sobre esta busca religiosa, a qual vai além da simples reverência a uma divindade, é algo mais profundo e que se expande para todas as crenças humanas em todas as áreas da vida.


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Apesar de esse sincretismo ser indigesto para uma cultura tradicionalmente monoteísta, desejo que seja recebido com uma mente moderada e visto com beleza, sendo que expõe a magnifica habilidade humana de se reinventar, ultrapassar obstáculos, vencer conflitos internos e criar caminhos. Encerrando este tópico, deixo claro que não cabe a eu levantar um tribunal inquisitorial para condenar heresias ou julgar arbitrariamente a maneira como cada Homem personifica esse Poder, essa personificação está debaixo da liberdade de crença de cada indivíduo, desde que essa liberdade não se transforme a prisão do outro.

A Psique, o Eros e o Prazer Nos contos, nos poemas épicos, nas crenças e nas divindades relatadas anteriormente, percebo laços comuns, pensamentos que se entrelaçam, mostrando a capacidade peculiar do Homem em transmitir o mesmo ideal por diversas formas; maneiras diversas que se dirigem para um ponto comum — um Poder imortal e invisível, do qual emana toda a satisfação ambicionada pela nossa alma. Alguns chamariam este Poder de Mana, uma palavra polinésia que, segundo Merval Rosa, em seu livro Psicologia da Religião, significa uma força vaga, impessoal, mecânica, que controla os destinos do universo. Para ele, parece que em todas as culturas de que temos conhecimento e em que há formas de comportamento religioso, a crença num poder que controla os destinos do universo é básica e universal.48 Esta declaração reforça o meu pensamento da busca comum que movimenta a psique de cada Homem. Existe um conto grego49 do no séc. II d.C. que, na minha percepção, expressa com louvor esta constante busca da mente humana. A alegoria de Psique e Eros foi, possivelmente, uma inspiração para os contos de fadas modernos. Psique era uma bela mortal e a chamavam de Vênus (Afrodite50). Afrodite, a deusa da beleza, não gostou da concorrência. Mandou seu filho Eros 51, o Cupido, o deus do desejo, ir até 48

Rosa, Merval. Psicologia da religião. 2. edição. Rio de Janeiro, Junta de Educação Religiosas e Publicações, 1979 p.

44 49

Ver: O livro de ouro da mitologia: (a idade da fábula) : histórias de deuses e heróis / Thomas Bulfinch ; tradução de

David Jardim Júnior — 26a ed. — Ediouro. Rio de janeiro, 2002. 99-111 50

Afrodite é o nome grego da divindade Vênus (latino).

51

Eros significa “desejo” e é o nome grego do Cupido (latino). Pelo fato da cultura grega se misturar com a romana, os

nomes das divindades misturam-se entre a língua latina e a grega. Na Grécia é Afrodite e em Roma é Vênus; na Grécia é Eros e em Roma é Cupido; na Grécia é Dioniso e em Roma é Baco; na Grécia é Chronos e na língua latina é Saturno;


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Psique e lançar uma de suas flechas envenenadas com a paixão para que ela se apaixonasse pelo homem mais feio que existia. Eros, como filho obediente, cumpre as ordens de sua mãe. Algo, porém, não saiu como o esperado. Quando estava para executar a missão, sem querer, feriu-se com sua própria flecha e apaixonou-se por Psique. Apesar de Psique ser muito bela, ela não conseguia achar alguém que se apaixonasse por ela. Seus pais consultaram Apolo, preocupados. Ele lhes disse que Psique deveria ir ao alto da montanha, onde encontraria seu marido, um monstro. Enquanto Psique estava nesta montanha, Eros, o Cupido, aparecia a ela na escuridão, e em uma dessas aparições, ele adormeceu, e Psique, com uma lâmpada nas mãos, desejou ver o rosto de seu marido. Marido que lhe falaram ser um monstro. Contudo, Psique descobriu o mais belo dos deuses e, enquanto o admirava, “uma gota de óleo ardente caiu no ombro do deus, que, assustado, abriu os olhos e encarou Psique. Depois, sem dizer uma palavra, abriu as brancas asas e voou através da janela. Psique, na vã tentativa de segui-lo, caiu da janela ao solo. Cupido, vendo-a estendida no chão, parou o voo por um instante e disse: — Tola Psique, é assim que retribuis meu amor? Depois de haver desobedecido às ordens de minha mãe e te tornado minha esposa, tu me julgavas um monstro e estavas disposta a cortar-me a cabeça?”(Bulfinch, 2002). Eros ficou ferido com o óleo quente que caiu sobre ele. Ficou muito triste pela desconfiança e voa tristemente. Mais tarde, Psique foi ao encontro de Eros no templo de sua mãe Afrodite, mas Afrodite a recebeu rispidamente, e ainda deu a Psique quatro tarefas a serem executadas para que ela pudesse reencontrar Eros. Então, Psique cumpre estas tarefas, na última, no entanto, quando precisava ir ao Hades para pegar uma caixa com a beleza de sua esposa, ela foi tentada a abrir a caixa, e ao abri-la, caiu em um profundo sono. Ao saber da situação, Cupido já recuperado acordou Psique e a advertiu a respeito de sua curiosidade. Curiosidade que anteriormente a fez acender a lâmpada que o feriu. Após Psique ter acordado, eles foram até Zeus (Júpiter), o qual tornou Psique imortal, eles casaram e tiveram um filho chamado Prazer. Psique, na minha interpretação, representa a alma, a mente humana em busca do deus perfeito e imortal, um desejo (Eros) sem igual, um amor divino e ideal, capaz de gerar a vida e ascender a pulsação do coração humano.52 A alma, em sua angústia gerada pela falta e pela

na língua grega é Zeus e na latina é Júpiter;... Este sincretismo está presente em todas as culturas e também podemos vê-la na mistura entre catolicismo e candomblé, onde Maria recebe o nome de Iemanjá. É um sincretismo comum que ocorre nos encontros das culturas antigas ou modernas. 52

“Eros [amor divino] nasceu do ovo da Noite, que flutuava no Caos. Com suas setas e sua tocha, atingia e animava

todas as coisas, espalhando a vida e a alegria. ”O livro de ouro da mitologia: (a idade da fábula) : histórias de deuses e heróis / Thomas Bulfinch ; tradução de David Jardim Júnior — 26a ed. — Ediouro. Rio de janeiro, 2002. p. 11. Sublinhado meu. “[...] segundo as teogonias mais antigas [Eros – amor divino] teria emergido do caos primitivo, é a


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consciência de ser finita, busca a satisfação e imortalidade no desejo — amor ou qualquer outro “objeto” de busca —, gerando assim o prazer. A mente é bela e curiosa, procura meios para ver o deus (poder) oculto. E pela sua curiosidade fere o desejo e também se faz adormecida. A alma distante do desejo desce ao “mundo inferior” para procurar uma beleza que não é sua. Para reencontrar o desejo ferido precisa cumprir tarefas, passar por processos. Pelo insaciável interesse e pela falta de controle da ansiedade, dorme profundamente. E o desejo, quando sarado e recomposto, a redesperta para a sensação de imortalidade, concebendo o Prazer. Desta forma, a nossa alma, a nossa mente, a nossa Psique reinicia constantemente o ciclo da busca pela satisfação do Desejo (Amor divino e imortal – fonte geradora), casa-se com ele, gera o Prazer e o amamenta em seus seios. O Prazer (satisfação), como todos os filhos, cresce e rompe os laços umbilicais com a mãe. A Psique o vê indo embora, e logo, anseia por outro filho prazeroso. A alma vazia, na falta e na ausência, é novamente penetrada pelo desejo. Assim, cada Homem busca em seu ideal de Deus (poder oculto) o prazer para a sua alma, sendo este ideal apenas um meio procriador da satisfação outrora absorvida no ventre materno. É como o recém-nascido — todos nós — que logo após o parto é colocado em contato com a pele da mãe e se acalma, quando afastado, ele chora, ao ser aproximado, alivia a tensão e aquieta-se novamente53. Quando a psique sente o desprazer ao se afastar do calor do organismo materno, ela busca uma aproximação para se aquietar. Um ciclo constante na vida humana, em que o organismo materno, registrado em nós como um Poder Oculto (ideal divino), é um meio para a satisfação e pacificação.

Psique Mente ou alma humana

Na falta (tensão) busca o Desejo

Eros

Poder oculto (mãe) Imortal PRAZER Tempo imperceptível Satisfação Fonte geradora Sensação de imortalidade Amor divino

Ventre Materno

força irresistível que faz atrair os elementos, surgindo assim como princípio de vida. A sua ação fecundante fará nascer todas as coisas através da união do espaço (Caos) e da matéria (a Terra). [...] A versão exposta por Platão no Banquete é, no entanto, diferente: Eros teria nascido, no fim de um banquete que reunira todas as divindades, da união de Pénia (a pobreza) e de Poros (o Expediente). Ele fora gerado com a missão de assegurar a continuidade das espécies, numa caçada perpétua,

imagem de sua mãe, e sempre cheio de astúcia, como seu pai. [...]” Dicionário da

Mitologia Grega e Romana. Georges Hacquard. Traduzido por Maria Helena Trindade Lopes. 1996. 120. Sublinhado meu. TITULO ORIGINAL GUIDE MYTHOLOGIQUE DE LA GRÈCIE ET DE ROME (@) 1990, Hachette. Embora essas versões sejam diferentes elas trazem um ponto comum sobre o Amor – Eros, ou seja, o revelam como um instrumento, um meio fecundante e procriador. Neste aspecto, a busca da alma (mente) humana se concentra em encontrar o Amor divino (Eros), Amor que é uma das bifurcações no caminho de retorno ao ventre materno e uma das nomenclaturas usadas para o Poder invisível — potência e fonte da criação. 53

A mente, quando, por fatores externos ou internos, é estimulada por um desejo do instinto (Id), provoca uma tensão

(falta, desconforto) que, ao ser aliviada pela consumação do desejo, produz a sensação de prazer e bem-estar.


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O termo El A expressão semita El, ao que tudo indica, tem a sua origem em An, o Poder supremo sumério (o deus do céu). É uma das palavras mais antigas usada para significar uma Força absoluta capaz de trazer e amparar todas as coisas à existência. Nós a encontramos com frequência nos textos bíblicos, principalmente na palavra Elohim54, plural de El, a qual, de uma maneira simbólica, é traduzida como Deus, no entanto, a sua tradução não é Deus, é uma equivalência de conceito. É com muita frequência usada em nomes como Israel, Daniel, Raquel, Natanel, Ezequiel, entre outros; também é usada em expressões que exaltam características da deidade dos hebreus, tais como El Shadday (El Poderoso), El Elyon (El Altíssimo), El Olam (El Eterno [ou dos mundos])... Dentro da tradição judaica, El significa “aquele que é poderoso para estabelecer uma relação de amor” e na linguística é “aquele que detêm o poder”. El também nomeou um ídolo cananeu que, segundo a mitologia Cananéia, foi o pai de Baal e marido de Asherá. Assemelha-se com a mitologia grega, em que El está para Chronos, assim como Baal está para Zeus. Alguns versos da Bíblia expõem o uso de El no seu contexto semita: [...] eu o entregarei nas mãos da mais EL das nações, que lhe dará o tratamento segundo merece a sua perversidade; lançá-lo-ei fora (Ezequiel 31:12).55 O ferreiro faz o machado, trabalha nas brasas, forma um ídolo a martelo e forja-o com a força do seu braço; ele tem fome, e a sua força falta, não bebe água e desfalece. O artífice em madeira estende o cordel e, com o lápis, esboça uma imagem; alisa-a com plaina, marca com o compasso e faz à semelhança e beleza de um homem, que possa morar em uma casa. Um homem corta para si cedros, toma um cipreste ou um carvalho, fazendo escolha entre as árvores do bosque; planta um pinheiro, e a chuva o faz crescer. Tais árvores servem ao homem para queimar; com parte de sua madeira se aquenta e coze o pão; e também faz um EL e se prostra diante dele, esculpe uma imagem e se ajoelha diante dela. Metade queima no fogo e com ela coze a carne para comer; assa-a e farta-se; também se aquenta e diz: Ah! Já me aquento, contemplo a luz. Então, do resto faz um EL, uma imagem de escultura; ajoelha-se diante dela, prostra-se e lhe dirige a sua oração, dizendo: Livra-me, porque tu és o meu EL (Isaías 44:12-18).56 Tendo ouvido isto todos os cidadãos da Torre de Siquém, entraram na fortaleza subterrânea, no templo de El-Berite (Juízes 9:47).57 Eis que El se mostra grande em seu poder! Quem é mestre

54

Elohim é muito usado entre os Judeus para se referir ao Deus único. A palavra literalmente é “poderes” e não

“deuses”, algo como um “poder absoluto”. 55

Aqui o poder (el) está sobre as nações. Foi traduzido na versão Almeida como “poderosa”.

56

Poder (El) colocado nos totens. Foi traduzido na versão Almeida como “Deus”.

57

O Poder (El) está sobre uma divindade adorada em Siquém. Não foi traduzido.


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como ele? Quem lhe prescreveu o seu caminho ou quem lhe pode dizer: Praticaste a injustiça? (Jó 36:23).58 Irom, Migdal-El, Horém, Bete-Anate e Bete-Semes; ao todo, dezenove cidades com suas aldeias. 39 Esta era a herança da tribo dos filhos de Naftali, segundo as suas famílias; estas cidades com suas aldeias (Josué 19:38,39).59 Pois quem é El , senão o SENHOR? E quem é rochedo, senão o nosso Deus? El é a minha fortaleza e a minha força e ele perfeitamente desembaraça o meu caminho (2 Samuel 22:32,33).60 Este termo não era somente usado para divindades metafísicas, como se percebe nas citações acima, ele também era utilizado para homens ou objetos, referindo-se há um Poder que denota capacidade de criar e realizar, acima da condição humana. Podemos, por assim dizer, que El, assimilado na cultura antiga da Mesopotâmia, era um termo usado para indicar um Poder maior. Nos textos bíblicos vemos nações, postes-ídolos (madeira, árvores, pedras), deidades, nome de cidade e o deus dos hebreus (YHWH) carregando a expressão El. Era, portanto, um termo muito usado na região.

Deus – O Poder do Céu iluminado O termo El, visto no tópico anterior, antecede o título Deus, o qual traduz El nos textos bíblicos atuais. Na antiguidade remota, obviamente, não existia a palavra Deus como hoje se conhece. Conceitua-se e surge no entrelaçar das línguas, dos pensamentos e suas entrelinhas. Havia um Panteão Protoindo-europeu, origem das principais religiões pagãs europeias e orientais. Nele, um Ser Supremo estende seu cetro sobre os mortais. Seu nome? “Dyeus”. Divindade do céu iluminado. O Patriarca adorado. Seu nome sofreu derivações em algumas regiões. Em sânscrito, ficou conhecido como Dyaus; nos Balcãs, como Dievas; na região de Gaul, tornou-se Diaspater; no grego, ficou conhecido como Zeus; na região da atual Alemanha como Tiwaz, e no latim, inicialmente Jove Pater (Júpiter) – uma derivação de Dyeus Pather – e posteriormente “Deus”. “Deus” era, portanto, o nome próprio do Poder supremo do panteão protoindo-europeu –

58

Neste texto, Eliú enaltece a força de El (Poder). Foi traduzido na versão Almeida como “Deus”.

59

El (Poder) está no nome de uma das cidades dada como herança a Naftali. Não foi traduzido.

60

El (Poder) foi traduzido como “Deus” e é usado para se referir à divindade suprema dos hebreus. A versão Almeida

traz a palavra SENHOR em caixa alta como uma opção para tornar a leitura compreensível quando no texto em hebraico está o tetragrama sagrado dos judeus — ‫ יהוה‬YHWH.


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conhecido como o pai de todos os outros deuses, o senhor da luz. Assim como Zeus na Grécia, “Deus” (Dyeus/Júpiter) era o mais adorado dentre as divindades do paganismo. Nos escritos gregos foi acrescentado a palavra “theos”, que é usada para “deus”, e que também é o nome de “Zeus”, o grande Poder da Grécia. Três palavras que compartilham da mesma fonética e origem: DEUS, THEOS, ZEUS. Zeus que na forma nativa Theos forma a palavra DEUS. Percorrendo este caminho do Panteão da antiguidade, Deus, proveniente de Dyeus, passou a se referir a um Poder Supremo que habita o Céu, uma Luz sobre os mortais; um título genérico que representa um Poder imortal e infinito, um patriarca, um gerador, um criador, enfim, qualquer coisa, pessoa ou objeto que manifeste algum tipo de poder sobre-humano. Por isso, o El ou ELohim semita descrito na Bíblia equivale ao uso de Deus na atualidade. Nas línguas ramificadas do latim, como o português, existe a possibilidade de identificar nome próprio com letra maiúscula, mas no hebraico e nas línguas antigas não havia e não há letras maiúsculas para indicar Pessoa. Hoje, entretanto, principalmente no ocidente, ocorre uma diferenciação no uso de Deus maiúsculo com o propósito de dizer que esse Deus é um Ser único, geralmente o Deus bíblico conceituado pelo Cristianismo, por outro lado, o uso de deus minúsculo transmite a ideia de deuses diferentes que, para o cristão tradicional seria um falso deus. Algumas vertentes do Judaísmo também são adeptos dessa diferenciação, é usado D’us ou D-us, com apóstrofo ou hífen para comunicar o tetragrama ‫ יהוה‬YHWH, nome impronunciável61 do Ser único e verdadeiro que foi revelado a Abraão e que, em algumas características dogmáticas, é diferenciado do Deus dos cristãos. Além da palavra em si, o conceito que ela carrega me chama a atenção. Quando pronunciamos “deus”, enquanto Poder supremo, a nossa mente associa a imagem de quem? Como anteriormente vimos, as palavras são signos, são como recipientes que carregam conceitos e valores históricos. Lembro-me do documentário do History Channel com o titulo “O confronto dos deuses. Zeus”, no qual Tom Stone62 comenta que quando as pessoas faziam algo de errado, elas

61

Segundo relata-se na história hebraica, até o exílio de Israel para a Babilônia e a destruição do segundo Templo (586

a.C), a pronúncia do tetragrama sagrado da deidade israelita era conhecido e pronunciado, porém, depois da Babilônia, o Nome deixou de ser pronunciado, sendo somente pronunciado no Yom Kippur (festividade conhecida como “dia do perdão”, dia de jejum, expiação e arrependimento), contudo, com o passar dos anos a pronúncia foi perdida. Então, começou a se falar “Adonay”, “Elohim”, Eterno”, “Hashem” para a substituição do tetragrama. E no decorrer da história gerou-se alguns nomes como Javé, Yovah, Jeová, nomes estes que nasceram da colocação das vogais de Adonay no Tetragrama “ ‫ יהוה‬, YHWH”, formando assim “Y ehovah”, e transliterando temos Jeová. 62

Autor do “Zeus: A journey through Greece in the footsteps of a God”


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tomavam muito cuidado para que Zeus, o criador dos Homens, não as atingisse com um raio, pois o RAIO é o maior símbolo do poder de Zeus. Não teria a nossa imaginação ocidental recebida essa herança grega, a civilização que embasou a cultura ocidental? A imagem de um Ser poderoso com um raio63 na mão, pronto para lançar sobre sua criação, os mortais pecadores? Constantemente se ouve, algumas vezes em tom de brincadeira, alguém dizer ao seu amigo que aparentemente cometeu algum pecado: “Cuidado, vai cair um raio em tua cabeça!”. Este conceito internalizado na palavra Deus antecede, entretanto, os raios de Zeus, ele nasce nas civilizações mais antigas, quando buscavam o Poder Supremo que habitava a vastidão do Céu e controlava os fenômenos dos ventos, tempestades e raios.

A busca pelo Poder Celestial - Altíssimo Retornando à visão da vida intrauterina — a base analítica deste ensaio —, o Poder que nos sustentava estava em um lugar oculto a nós, sem face e invisível, todavia, houve um momento em que algo mudou e uma luz feriu os nossos olhos, por isso e obviamente, o processo do nascimento se chama “dar à luz”. Há uma luz poderosa proveniente de um lugar desconhecido registrada em nossa memória. A primeira imagem que temos em nossa memória visual é a Luz. Seria por esta razão que o Deus supremo, encontrado em todos os povos da Terra, é um Poder relacionado ao Céu, Espaço cósmico, Sol? Não seria o planeta como a imagem de um grande útero, protegido por uma placenta de gases, dentro da qual estão todos os Homens olhando para o Céu e vendo uma grande luz que fere os olhos? Seria esta memória intrauterina que nos faz buscar no Céu (lugar intocável e oculto) o Poder invisível e criador? A Humanidade, por sentir-se em escuridão, caminha em busca do Poder por detrás da Luz. Como assim foi observado, Deus e El apontam para um Poder que está ACIMA dos Homens, isto é, em um local elevado — o Céu. É uma linha teísta comum entre os povos. O céu (lugar alto) é a habitação das divindades e o lugar do paraíso para muitas formas de crenças. Na suméria, An (céu) era o criador do Mundo, aquele que do Céu domina. Em acádio é Anu, o deus dos céus, acima de todos os deuses. Entre os Maias temos Itzamna, o deus dos céus. Os Astecas têm o Huitzilopochtli; os hebreus, Elohim; os gregos, Zeus, os japoneses, Ama-terasu; os árabes, Alah; 63

“Júpiter (Zeus) tornou-se rei dos deuses e dos homens. Sua arma era o raio e ele usava um escudo chamado Égide,

feito por Vulcano. Sua ave favorita era a águia, que carregava os raios. [...] Assim dizendo, apoderou-se de um raio e já estava prestes a atirá-lo contra o mundo, destruindo-o pelo fogo, quando atentou para o perigo que o incêndio poderia acarretar para o próprio céu. [...]” O livro de ouro da mitologia: (a idade da fábula) : histórias de deuses e heróis / Thomas Bulfinch ; tradução de David Jardim Júnior — 26a ed. — Ediouro. Rio de janeiro, 2002. 12; 23


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o indígena (guarani) Avá tem o Tupã e acredita que forças vieram do espaço cósmico, onde está o paraíso e para lá retornará após a morte. O mundo ocidental, de forma geral, por influências do Islamismo, Judaismo e, principalmente, do Cristianismo embasado nas filosofias gregas, tal como a do mundo ideal metafíco, tem o Deus abraâmico, aquele que habita os Céus — o paraíso —; e como vimos, Deus descende de An, El, Dyeus, Zeus. Entre os orientais, indianos, africanos ou asiáticos, dispensa citações, é de comum pensamento entre os povos a reverência a um Poder Elevado simbolizado no Céu ou Sol. Seleciono alguns textos que, acredito eu, serem convenientes para demonstrar o El (Poder elevado) almejado pela Humanidade: Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do El Altíssimo; abençoou ele a Abrão e disse: Bendito seja Abrão pelo El Altíssimo, que possui os céus e a terra; e bendito seja o El Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos (Gênesis 14:18-20).64 Não há outro, ó amado, semelhante a El, que cavalga sobre os céus para a tua ajuda e com a sua alteza sobre as nuvens (Deuteronômio 33:26).65 Oh! Tributai louvores ao El dos céus, porque a sua misericórdia dura para sempre (Salmos 136:26).66 Acrescento mais dois versos bíblicos que exprimem o Poder patriarcal e celeste como primordial na Busca do Homem: Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste (Mateus 5:48). Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome (Mateus 6:9).

O Poder Celestial Solar O Céu desejado e reverenciado pelo Homem está interligado a imagem do Sol. Considerado o Poder Vital em todas as civilizações de que se tem conhecimento, é venerado como a grande expressão de uma Força oculta que emana dos Céus. Exaltado, adorado e elevado pelos Seres Humanos, o Sol influenciou grandes sociedades, tal como a do médio império egípcio, onde a sua veneração reflete a sua grande importância na construção social de um povo. Durante o reinado de Amenófis III (1390 – 1353 a.C.), de acordo com Rick Gore (National Geographic 2001, p. 26-45), o deus Amon era o patrono de Tebas, a capital do Egito; o seu nome significa “o oculto”, e com o passar dos anos ele se fundiu com o antigo deus-sol Ra, tornando-se Amon-Ra — o deus-sol criador. Após a morte do faraó Amenófis III, o seu filho Amenófis IV assumiu o governo do Egito, 64

Na versão Almeida Revista E Atualizada, El foi traduzido como “Deus”.

65

Na versão Almeida Revista E Atualizada, El foi traduzido como “Deus”.

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Na versão Almeida Revista E Atualizada, El foi traduzido como “Deus”.


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e se tornou o grande nome da 18ª dinastia egípcia. Seus feitos se distanciaram de seu pai e das tradições do seu povo. Transformou a cultura de sua sociedade. As mudanças na arte e na divisão geográfica e política do Egito se deram embasadas na sua reverência extrema ao deus Aton (deussol), pelo qual ele passou a ser chamado de Akhenaton — “o que bem serve a Aton”. O desejo do faraó herético e visionário era elevar Aton acima de Amon e de todas as demais divindades do Egito; dizem alguns egiptólogos que o revolucionário tinha um pensamento monoteísta, e para Freud, diz Gore, Akhenaton pode ter sido um profeta cuja modalidade de monoteísmo de alguma forma inspirou Moisés. Suposições a parte, não se sabe ao certo o que pensava faraó, o que se sabe é que suas ideias nasceram de uma veneração entusiasmada a Aton, o astro solar. Os raios solares muito influenciaram faraó a ponto de ele construir uma nova capital egípcia chamada Akhetaton — “horizonte de Aton”. Tão profunda foi a adoração a Aton (deus-sol) que Akhenaton e sua esposa Nefertiti ficaram conhecidos como “faraós do sol”.

Imagem de Akhenaton (à esquerda) e Nefertiti com suas filhas sob os raios de Aton. Egyptian Museum, Berlim. Foto original por Kenneth Garrett. Digitalizada da revista National Geographic Brasil, Abril, 2001.

Esta veneração solar não é exclusividade ou privilégio dos faraós, ela se estende para todos os povos primitivos até os atuais. A contemporaneidade recebeu muitas heranças mitológicas por meio dos sincretismos, como apresentei inicialmente. Hélio e Mitra são duas dessas personagens sincretizadas nas quais quero me ater. Delas nasce uma figura bem conhecida no mundo ocidental — Jesus Cristo —, ele herda as suas características quando os cristãos gentios já helenizavam a pessoa do Cristo com filosofias gnósticas, antes mesmo de o Cristianismo ser a religião oficial de Roma pelo imperador Constantino (Séc. IV d.C.). Em seu livro Dicionário da Mitologia Grega e Romana, Hacquard, expõe as figuras de Hélio e Mitra, e acrescenta alguns comentários sobre suas influências no Jesus do Cristianismo,


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creio ser cabível citá-lo: Hélio, o astro solar, é filho dos Titãs Hiperíon e Teia e irmão do astro lunar, Selene, e da Aurora, Eos. Todas as manhãs ele percorria os céus, montado no seu carro de fogo, atrelado a cavalos alados de uma brancura estrondosa. Quando lá chegava, enquanto os seus cavalos cansados se banhavam, Hélio repousa no seu palácio de ouro para depois alcançar, de barca, o Oriente. [...] Hélio é representado com os traços de um homem jovem e belo, com longa cabeleira encaracolada, de olhos abertos, a cabeça aureolada por raios e vestido com umas roupagens que ondulavam ao vento (Hacquard, 1996, p. 144,145).67 Neste ponto, é preciso trazer à lembrança as imagens tradicionais de Jesus, nas quais ele está com seus cabelos ondulados, jovem, belo, e uma auréola solar.

A carruagem de Hélio. Detalhe da métopa do templo de Atena em Ílion, Ásia Menor. Data: -300 / -275 Berlim, Staatliche Museen – Antikenmuseen © Ekdotike Athenon S.A. Κ. ΣΕΡΒΗ, Ελληνική Μυθολογία, Αθήνα, 1998.

Sobre Mitra, Harquard declara: Mitra, uma antiga divindade da Pérsia, foi a última das divindades orientais a entrar na mitologia romana. Mas foi, igualmente, aquela que conquistou a maior importância ao ponto de o seu culto acabar por absorver todo o paganismo. Os próprios imperadores iniciaram-se nos seus mistérios e Diocleciano, perseguidor do cristianismo, proclamará Mitra como "protector do Império". Mitra, originalmente deus do céu, da terra e dos mortos, foi assimilado ao deus do Sol (Sol invíctus). Como Cristo, a quem se oporá sistematicamente, ele nasceu a vinte e cinco de Dezembro, lutou e sofreu na terra, subindo finalmente ao céu. A sua missão consiste em salvar as almas dos iniciados, ajudando-os na sua ascensão. As provas de iniciação consistem num baptismo de água, numa confirmação por imposição de um ferro em brasa sobre a fronte, e finalmente, numa refeição onde se consagra o

67

Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Georges Hacquard. Traduzido por Maria Helena Trindade Lopes. 1996. p.

144,145.TITULO ORIGINAL GUIDE MYTHOLOGIQUE DE LA GRÈCIE ET DE ROME (@) 1990, Hachette


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pão e a água misturada com vinho. O instrumento por excelência da redenção é a imolação, por Mitra, do touro considerado como fonte de vida (Hacquard, 1996, p. 211).68

Soli Sanctissimo Sacrum. Atrás da águia de Júpiter. Museus Capitolinos, em Roma. Anteriormente a Coleção Cesarini. Data: segunda metade do primeiro século.

O cristianismo, em consonância com os dados históricos, colhe as tradições da veneração ao astro rei. Jesus, demonstrando um sincretismo solar, leva em sua cabeça os raios de luz, sobre os pés a carruagem de Hélio e nos rituais o batismo e a santa ceia de Mitra. Com efeito, não deixo de perceber as semelhanças no mosaico do séc. IV d.C. na Basílica de São Pedro, cuja inscrição está como Christ Helios (Cristo Hélio).

130 Christ Helios. Necrópole préconstantiniana sob a Basílica de São Pedro. Datada do Séc. IV d.C.

Em outros objetos de culto usados nas celebrações do catolicismo romano (origem do protestantismo), também é perceptível a influência solar: a cruz como uma expressão vinda de Hórus (deus solar egípcio), o ostensório e a hóstia no formato de sol, a tonsura e o solidéu como possíveis práticas ritualísticas a Shamash (deus sol do panteão babilônico), entre outros. Não me 68

Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Georges Hacquard. Traduzido por Maria Helena Trindade Lopes. 1996. p.

211.TITULO ORIGINAL GUIDE MYTHOLOGIQUE DE LA GRÈCIE ET DE ROME (@) 1990, Hachette


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aprofundarei no simbolismo e origem de cada utensílio citado, cabe ao leitor uma pesquisa, caso seja de seu interesse. O meu desejo aqui não é incentivar os fundamentalistas judaizantes e anticristos que, pela verdade israelita, disseminam o terror aos cristãos. Apenas quero focar nos sincretismos que caminham na história; até porque se todas as teogonias estão envolvidas em um sincretismo, então com quem estaria a verdade? Se olharmos o conjunto, não há motivos para uma guerra santa. Sobre a adoração ao Sol, ainda há um texto pertinente que reproduz tal influência entre os homens israelitas no séc. VI a.C.: Levou-me para o átrio de dentro da Casa do SENHOR, e eis que estavam à entrada do templo do SENHOR, entre o pórtico e o altar, cerca de vinte e cinco homens, de costas para o templo do SENHOR e com o rosto para o oriente; adoravam o sol, virados para o oriente (Ezequiel 8.17). Partilho, por fim, uma imagem egípcia que retrata o Homem antigo associando elementos do Céu — a lua e sol — com o útero (fertilidade) da mulher.

Monumento egípcio mostrando chifres do touro com o símbolo solar no centro. Símbolo comum que representa o útero da mulher (muitas vezes também refletido como uma lua crescente) com o sol nascente deus. Imagem © descobertas surpreendentes.

O ventre materno sempre foi considerado um local sagrado entre os Povos da Terra. O sol e a lua, como símbolos de renascimento, foram associados ao útero. Mais uma vez, vejo a busca da Humanidade se voltando para o útero materno. Quando o Homem ergue os seus olhos para o Céu — na imagem do Sol e da Lua —, e eleva as suas orações ao Poder oculto capaz de trazer todas as coisas à existência, estaria desejando desfrutar novamente da vida intrauterina? Estaria o Homem buscando o Poder invisível (El) que o sustentou no ventre materno, como assim está descrito na declaração do salmista: “Mas tu és o que me tiraste do ventre: o que me preservaste estando ainda aos seios de minha mãe. Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu El [Poder] desde o ventre de minha mãe. Não te alongues de mim, pois a angústia está perto, e não há quem ajude.”? (Salmo


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22:9-11).69 É um entendimento aceitável, embora possa ser contestado, mas não me preocupo, pois qualquer pensamento é refutável, desde a teoria mais genial de Einstein a mais fantástica descoberta de Freud; desde Platão a Agostinho; desde a Bíblia ao Corão.

Síntese

GESTAÇÃO

MÃE – organismo materno Fonte de sustento

PODER OCULTO LUZ DO PARTO Imagem do céu / sol

TEOGONIA An > El > YHWH > Dyeus > Zeus > Theos > Deus...

Nascimento do ideal de Deus

TOTEMISMO / ANIMATISMO Ponto de contato Objetos, árvores, dinheiro, elementos da natureza, animais, estátuas, imagens, homens...

HUMANIDADE

69

Almeida Revista E Corrigida 1969. El foi traduzido como “Deus” na versão almeida, mas no hebraico é El (poder).


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5. O Homem teocêntrico

Sem ser perturbado pela angústia da falta ou pelos ponteiros do tempo, o Homem habitava o ventre de sua mãe e se deliciava no seu paraíso intrauterino. Na ausência de consciência abraçava a alegria permanente — a Felicidade Eterna; no cuidado e no sustento beijava o seu Amor sem face e oculto; encoberto por sua placenta, uma coberta térmica que não lhe permitia suar, não desperdiçava energia. — Ah que Éden! – suspira a Humanidade em seu recôndito sobrenatural. Só um Poder magnífico lhe proporcionaria tal Jardim; só uma Fonte sobre-humana lhe sustentaria a vida de tal maneira; só uma Energia Imortal, sem fim e sem começo, lhe daria os benefícios dessa existência sem sofrimento, dor e lembranças indesejáveis; só um Criador invisível, sem as corrupções da matéria, presentearia com esse estado de graça e bem-estar; só um Pai celeste condicionaria a essa posição elevada de amplitude e eternidade, como a vastidão do Céu. O Homem não encontra em nenhum de sua espécie alguém que seja tão capaz de lhe agraciar com as ias da vida intrauterina. — Este Poder ideal não cabe na carne humana. Os ossos não suportariam a presença dessa Força descomunal – pensa a alma humana consigo mesma. A Humanidade sai de sua primeira casa com esse ideal da existência de que há algo superior, cujos olhos não conseguem distinguir e nem a alma consegue saber exatamente o que é, mas busca incessantemente por Isso. Em qualquer mente no mundo, existe esse vazio angustiante que o faz se mover em direção a algo que não sabe com exatidão o que significa. Qualquer mente, em qualquer civilização, carrega em si o desejo pelo paraíso, por uma origem ideal, sem dor, sem sofrimento, sem angústia, sem carência; anseia por um estado de alívio, cura, graça, elevação e equilíbrio. Cada alma quer o seu ventre novamente, o qual é regido por esse Poder oculto. Homem teocêntrico é este, ou melhor, somos todos, todos os que nascem de mulher, todos os que um dia foram expulsos de um útero, todos os que carregam em seu centro um buraco, uma cavidade, um umbigo, um símbolo que remete a lembrança de um estado anterior sem imagens, porém, com sensações agradáveis. No centro de cada Homem está a marca da Árvore da Vida perdida, a evidência do Poder que nos mantinha no Éden. Teocêntricos porque vivemos a vida olhando para o nosso umbigo e desejando o que ali estava — o cordão umbilical. Teocêntricos porque passamos pela vida centralizados no Theos — o An, o El, o Dyeus, o Deus —, o Poder oculto, tenha forma ou não, tenha nome ou não, seja divino ou não, esteja no físico ou não, seja de qualquer maneira, o Poder oculto ao nosso entendimento é o único capaz de nos conduzir ao caminho de volta a sensação vivenciada no útero materno. Qualquer Homem, na face da terra, o quer ver, todo Ser quer dele as chaves do paraíso, mesmo que se considere um ateu — na concepção


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ordinária —, sempre existirá um Theos (Poder almejado) no centro de sua existência, mesmo que se revele pelo nome de ciência ou força do pensamento. O ideal de Deus, enquanto um Poder elevado sobre os Homens capaz de estabilizar o eixo, ainda que momentaneamente, está presente em todas as almas, mentes e corpos. A Humanidade teocêntrica construiu o mundo, tal como ele é, em torno do seu Sagrado. No interior de cada Ser Humano reside um Sagrado digno de sacrifícios, ao seu redor a vida se estabelece, assim como tudo o que existe necessita de um centro gravitacional para se firmar, a mente humana também, e é neste centro que habita o Sagrado, o ideal de Deus, relembrando que o uso de Deus não se refere a um Ser único, trata-se da idealização de um Poder supremo.

O Homem religioso O Homem religioso é o mesmo Homem teocêntrico que olha para o seu vazio umbilical e sente, no seu inconsciente, falta de algo. É o mesmo que anseia por ter novamente a completude de seu Ser; é o mesmo que caminha em busca do que foi perdido; é o mesmo que procura pela placenta rompida; é o mesmo que almeja a religação de seu cordão umbilical; é o mesmo que deseja o retorno ao Jardim intrauterino, local onde se encontra o ponto de contato vital — o cordão umbilical —, figurado na Árvore da Vida. Esta é a Humanidade Religiosa: a Humanidade que caminha a procura de um contato que proporcione a Religação entre o Poder oculto e o útero. Esta é a Religião em que, desde as civilizações primitivas até as sociedades atuais, todo Homem está inserido. Esta é a essência da Religião declamada na língua latina — Religare - RELIGAR. A Bíblia, no livro de Gênesis, descreve um episódio muito cabível ao momento, a construção da Torre de Babel que, na etimologia acádia, é “porta de El (Poder)”. Vejo nesta alegoria uma boa maneira de exemplificar a Humanidade em seu intuito religioso: E era toda a terra duma mesma língua, e duma mesma fala. E aconteceu que, partindo eles do Oriente, acharam um vale na terra de Sinear, e habitaram ali. E disseram uns aos outros: Eia, façamos tijolos, e queimemo-los bem. E foi-lhes o tijolo por pedra, e o betume por cal. E disseram: Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra. Então desceu o Senhor para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens edificavam; E disse: Eis que o povo é um, e todos têm uma mesma língua; e isto é o que começam a fazer; e agora, não haverá restrição para tudo o que eles intentarem fazer. Eia, desçamos, e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro. Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade (Gênesis 11.1-8).


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A Religião é a mesma — todos querem se religar ao Céu, ao Poder elevado e oculto. Toda a Humanidade em uma mesma linguagem, em um propósito comum, volta-se para os Céus, lugar que no pensamento do Homem primitivo simbolizava o seu lugar de origem, basta prestarmos atenção na fala bíblica para percebermos o Céu como símbolo de origem e retorno. Jesus, o filho de Deus, segundo a tradição cristã, declara: “Saí do Pai, e vim ao mundo: outra vez deixo o mundo, e vou para o Pai” (João 16.28). Em outro momento ele diz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito: vou preparar-vos lugar. E, se eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” (João 14.2,3); e por fim, após sua ressurreição, ele ascende aos Céus: “E quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos. E estando com os olhos fitos no céu, enquanto ele subia, eis que junto deles se puseram dois varões vestidos de branco, os quais lhe disseram: Varões galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que dentre vós foi recebido em cima no céu, há de vir assim como para o céu o vistes ir” (Atos 1.9-11). O filho de Deus, acima citado, é a personagem, creio eu, que todos nós interpretamos dia após dia, isto é, temos em nós o pensamento de que somos filhos de um Poder oculto conhecido no ventre, assim tenho tentado expor nesta obra. Estes versos do discurso de Jesus expressa muito bem o ideal internalizado no Homem, o Céu é visualizado como origem e retorno da Humanidade. Coloco este esclarecimento para compreendermos um pouco mais o episódio que retrata todos os Homens da Terra querendo subir aos Céus. Os Homens erguem uma torre, constroem um elo no local chamado Bab-el — portal de El (poder) —, uma abertura que permite o contato com o Poder. Esta torre, contudo, nunca se concluiu, o Poder supremo não permite o contato permanente, a religação é uma condição incompleta. As línguas se multiplicam, os pensamentos se diversificam, mas a busca permanece a mesma em todos os Homens. O trabalho de Religação (religião) é constante, nunca alcançará sua plenitude. Assim como no mito de Sísifo70, o qual foi condenado a carregar uma grande pedra até o topo de uma montanha e, chegando ao topo, ela rola novamente para baixo, e o trabalho recomeça. O Homem nunca conseguirá voltar ao seu lugar de origem, o útero. Haverá apenas momentos de lembranças. Na mistura de linguagens, Babel começa a usufruir de seu outro significado: confusão. Na diversidade de pensamentos a Humanidade Religiosa se confunde, percebe-se em meio a muitas ideologias e crenças espalhadas pela terra. Assim sendo, o Homem religioso constrói um Mundo 70

O livro de ouro da mitologia: (a idade da fábula): histórias de deuses e heróis / Thomas Bulfinch ; tradução de

David Jardim Júnior — 26a ed. — Ediouro. Rio de janeiro, 2002. p. 321


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diverso devido às inúmeras linguagens (palavras). O movimento Religioso do Homem é sincretizado, mudam-se apenas as nomenclaturas, as catequeses, as doutrinas, os cultos, os dogmas, sendo que o centro do culto permanece o mesmo — a busca pela reconexão com as sensações da vida intrauterina. Certa vez, conforme o Livro de João, Jesus disse ao sábio Nicodemos: “... na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3.3-5). Aqui tem algo interessante que quero partilhar: “nascer de novo71” no texto grego pode também ser traduzido como “for gerado do início”; “gerado de novo” ou “gerado do alto”, isto me confirma o ideal que habita no interior de todo Homem, em outras palavras, o reino de El (Poder elevado) que no texto foi colocado como Deus, só é visto quando somos gerados de novo, do início, naquela condição elevada. Certamente, o texto bíblico está se relacionando a um reino de um Ser específico, porém, ampliando o sentido do termo El, e contextualizando para o que temos visto até agora, o Poder elevado que em nós foi registrado na vida intrauterina só é encontrado novamente dentro do útero. Como não é possível, a busca é constante. O ato religioso de buscar a religação é contínuo em cada Ser Humano. Gosto de usar a mitologia bíblica nas minhas exemplificações, ela relata, na minha visão, a saga do homem religioso. Ela começa o descrevendo dentro de um Jardim de delícias e, após a sua expulsão, caminha em busca de um retorno. Ele avança para sanar a angústia por saber que um dia esteve no Éden e de lá saiu. Está em constante busca pela terra prometida que mana leite e mel. É uma luta diária para derrotar gigantes e invasores. O desejo de religação é incessante. No meio desta busca existe um caminho de reconexão com o sagrado — o sangue dos sacrifícios —, é um ato momentâneo, não é uma religação eterna. São sacrifícios diários, são rituais constantes, onde a vida (sangue) é derramada para um sagrado (algo separado) em prol de comunhão e, consequentemente, de delícias que relembram o Éden. Como assim diz o oráculo do profeta Isaías: “Porque o SENHOR tem piedade de Sião; terá piedade de todos os lugares assolados dela, e fará o seu deserto como o Éden, e a sua solidão, como o jardim do SENHOR; regozijo e alegria se acharão nela, ações de graças e som de música” (Isaías 51.3). A história se repete nesta saga até o último livro, no qual o profeta revela uma Jerusalém que desce do Céu, uma reconfiguração do Jardim, onde não há choro e nem ranger de dentes, não há sofrimento e dores, há deleite, e no centro, tal como no Éden, desvenda-se a Árvore da Vida, o elo vital. “No meio da sua praça, de uma e outra margem do rio, 71

γεννηθη ανωθεν (Novo Testamento Grego: Textus Receptus (1550/1894). Sociedade Bíblica do Brasil, 1550; 2007, S.

João 3:3) — γενναω / gennao: gerar, nascer ; ανωθεν / anothen: , do início, começo; de cima, lugar mais alto; de novo, mais uma vez. (Strong, James: Léxico Hebraico, Aramaico E Grego De Strong.2005,2005)


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está a árvore da vidab, que produz doze frutos, dando o seu fruto de mês em mês, e as folhas da árvore são para a cura dos povos. Nunca mais haverá qualquer maldição” (Apocalipse 22.3). E como se trata apenas de uma visão, o Homem não cessa a sua busca. Esta é a expressão da Humanidade religiosa que caminha pela terra em busca de seu Paraíso perdido. Transforma o mundo a sua volta para achá-lo, para se reconectar a ele. A Sociedade se molda nesta busca constante. Em cada Era, a existência humana se modifica pela sua própria atuação sobre si mesma, é como alguém que deseja muito encontrar um tesouro, uma riqueza, e, neste anseio, altera o estado do terreno fazendo túneis e minas, assim é o Homem em sua busca pelo tesouro do Éden — o prazer da vida intrauterina —, ele contrói caminhos para possuí-lo. Como não sabe muito bem o que é este Paraíso, pois no ventre não o via, apenas o sentia no organismo materno, procura em diversas formas a sensação que outrora recebera. Bem retratou Michelangelo, no teto da Capela Sistina, a imagem do Homem e Criador (Poder) que se esforçam por se reencontrarem e se religarem, todavia, não se encostam, há somente o esforço

contínuo.

É

como

se

vivêssemos em uma constante missão espermatozóica em direção ao óvulo. Fomos recrutados neste encargo e nele permanecemos fiéis até perfurarmos o duro óvulo da morte. ORGANISMO MATERNO

Síntese

Fonte de sustento

PODER OCULTO Ideal de Deus

HOMEM Dentro do útero materno Ideal de paraíso

HOMEM RELIGIOSO E TEOCÊNTRICO

RELIGAÇÃO Tudo o que faz a função do cordão umbilical

HOMEM Fora do útero materno Expulso do Jardim Vazio umbilical

PROCESSO RELIGARE - RELIGIÃO

b

22.2 Gn 2.9


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6. A Religiosidade na construção da Sociedade

A Religião, dentro do conceito psíquico de religação, amplia-se, portanto, para além do campo de instituições ou sistemas que assim se declaram abertamente, tais como o Espiritismo, Cristianismo, Islamismo, Budismo... Ela se expande para tudo o que faz a função do cordão umbilical rompido. Ela é tudo o que se propõe a ser o caminho, a verdade e a vida em direção ao ventre, ao paraíso, ao Éden perdido (felicidade, amor, aconchego, bem-estar, imortalidade, alívio de sofrimento e dores existenciais, conforto, autonomia...), ou seja, é tudo o que se coloca como um elo de retorno ao bem-estar outrora sentido no ambiente intrauterino. Neste aspecto, as palavras bíblicas do chamado Novo Testamento reforçam o fundamento da religião: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João 14.6). Partindo desse ponto, a Sociedade humana desde o seu início é constituída e formada pela religiosidade intrínseca no Homem. Sem a intenção de ser repetitivo, vejo a necessidade de enfatizar que a religiosidade aqui proposta nasce com o Homem expulso de seu paraíso intrauterino e que vive em busca de um retorno. Neste aspecto, toda ação do Homem passa a ser um movimento religioso de religação ao útero. Começa pela ordem individual e se estende a coletividade social, porquanto a busca do indivíduo pelo seu paraíso transforma o seu local.

O modo de produção mental e material A grande maioria que se dedica a pensar a Sociedade é influenciada pelas ideias materialistas de Marx72. Em sua análise A Mente de Marx (Ed. Ciência Moderna), o psiquiatra Marcelo Caixeta73 afirma que o pensador alemão compreendia que a vida social, política e espiritual do Homem estão condicionadas ao modo de produção material, ou seja, as formas jurídicas, os códigos morais e éticos [teologias, deuses, ideologias] e a modulação econômica são extensões do modo de produção (Caixeta, 2006. p. 19-28). Recordemo-nos da pré-história: alguém com fome é alguém que sente a angústia da falta, esta desperta o desejo que, por sua vez, faz com que esse

72

Karl Marx nasceu em Trier, região da Renânia alemã, em maio de 1818 e morreu em Londres em março de 1883, aos

65 anos de idade. Suas ideias sobre a natureza humana e a alienação, o trabalho, o capitalismo, o comunismo, o materialismo, (...) influenciaram grandemente o pensamento da Sociedade pós-moderna. 73

Marcelo Caixeta. Diretor do Instituto de Psicologia Médica. Pós-graduado em psiquiatria pela USP e pela

Universidade de Paris XI. Autor de diversos artigos científicos e livros: Psicologia Patológica, Teoria da Mente, A Mente de Hitler, entre outros.


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alguém se mova em direção ao alimento para sanar a sua falta. No caso, a caça e a colheita são os meios para se conseguir o alimento, mas para caçar ou colher é preciso usar ferramentas. Começa a existir então um modo de produção; a lança, o arco, a flecha, a funda, a rede de pesca, a vara, a faca, o fogo para cozer o animal, a vasilha para água..., e desta forma, o meio é modificado. O Instrumento, segundo o entendimento de Vygotsky74, citado por Oliveira (1995 p. 29), é um elemento interposto entre o trabalhador e o objeto de seu trabalho, ampliando as possibilidades de transformação da natureza. Os outros animais também são capazes de usar instrumentos e transformar o ambiente num momento específico, mas, diferentemente do Homem, não produzem deliberadamente, não guardam os instrumentos para uso futuro e não desenvolvem sua relação com o meio num processo histórico-cultural. Este pensamento marxista é coerente, no entanto, quero ampliá-lo e conduzi-lo para além da produção material como base da formação social. Para mim, há algo anterior ao materialismo. Antes de o Homem produzir uma ferramenta ele teve de gerar outro tipo de produção — a produção do pensamento. Foi preciso estruturar ideias para construir um instrumento que o possibilitasse caçar com mais precisão. Marx e Engels afirmam que: “A produção de ideias, de representações e da consciência está em primeiro lugar direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens; é a linguagem da vida real...”75 Estou de acordo no aspecto de que o pensamento está intimamente ligado à atividade material, havendo uma relação mútua de construção entre o pensamento e a produção material. Contudo, acredito que, em uma visão geral do Ser Humano, o pensamento antecede a produção material. Antes de sermos capazes de produzir, ainda crianças, a única ferramenta que temos é o pensamento; sob este prisma, a produção mental de ideias vem antes da produção material. O exercício mental humano aflora da necessidade, da angústia gerada por uma falta que, no caso pré-histórico, está no âmbito primitivo da sobrevivência, 74

L. S. Vygotsky 1826-1934, Orsha na Bielo Rússia. Graduou-se em psicologia na Universidade de Moscou em 1917, e

em suas teorias sobre o desenvolvimento cognitivo do ser humano teve como uma de suas maiores influências as ideias do materialismo histórico e dialético de Marx e Engels. A base de sua teoria é histórico-social, a qual promove a ideia da interação do individuo com o meio. Em sua proposta ele também apresenta a linguagem e a aprendizagem como pontos essências na formação cognitiva do individuo. Vigotsky acreditava no interacionismo, ou seja, o sujeito exerce tanto influência sobre o objeto como o objeto sobre o sujeito. Em seus estudos se dedicou as funções psicológicas superiores, que são as ações voluntárias e conscientes típicas do ser humano e adquiridas por meio de um processo. Essas funções desencadeiam as relações diretas ou mediadas, cuja diferença é que em uma relação direta não há a intervenção de um elo intermediário como uma lembrança, outra pessoa, dentre outros elos, e na relação mediada ocorre o que Vygotsky chama de “mediação”, e de acordo com ele há dois tipos de elementos mediadores: “os instrumentos e os signos”. 75

Marx, K. E Engels, F., A Ideologia Alemã, Vol I, Lisboa, Editorial Presença, 1980. Pp. 25 e 26


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porém esta angústia não está apenas no aspecto do instinto, está — psiquicamente — na falta de um cordão umbilical que lhe permite o bem-estar intrauterino. O Homem, desta maneira, é levado a produzir além de sua real necessidade. Se produzíssemos apenas pela sobrevivência, não estaríamos onde hoje estamos; não teríamos mercados ou bancos... Assim sendo, a busca religiosa do Homem antecede o modo de produção material na construção da Sociedade, e é um processo transformador da Humanidade e seu meio.

Lenhador

Ambiente e homem transformados

Homem angustiado pela Falta

Árvore Objeto

Machado Instrumento

A Sociedade fundamentada no pensamento religioso A Sociedade humana psiquicamente religiosa e teocêntrica caminha sob este padrão: a angústia da falta, caracterizada na ausência do cordão umbilical (elo de sustentação – aliança entre mãe e feto), inicia uma produção mental, ou seja, produz pensamentos — crenças, ideologias, filosofias, doutrinas, métodos... — com o intuito de alcançar o que a memória sensorial fetal transmite ao inconsciente; a partir do pensamento é elaborado um trabalho concreto e material — modo de produção espacial e físico — em direção ao Poder supremo (imagem do organismo materno) com o propósito de reconstruir o seu paraíso. O Homem desde a antiguidade vem tentando fazer do seu ambiente uma reprodução do útero. Temos desejado reproduzir uma Sociedade perfeita, de bem-estar, conforto, imortal, feliz... Creio que não há nada na Sociedade Humana que não seja fruto dessa busca religiosa, e assim, tudo se torna uma religião, um meio ao paraíso. Tentarei desenvolver esta ideia e, sendo este pensamento difícil de ser verbalizado, espero conseguir. Primeiramente, parto da visão de que tudo o que nasce, principalmente o Homem, nasce tendo a cabeça como a primeira parte que encontra a luz, ou seja, vendo por esta ótica, a Sociedade nasce da elucidação humana, do surgimento da luz dos pensamentos: o Homem pensa e depois constrói. A História se criou pelo pensar dos filósofos, poetas e muitas escritas, sempre houve uma mente aflita por buscar esclarecimentos. Mas o pensamento em si nada vale se ele não sofrer uma transformação e se tornar em comunicação. Só transforma o que está fora de mim quando ele mesmo se transforma e é comunicado nas múltiplas existentes formas, fazendo-se exteriorizado! No princípio da Civilização, a necessidade de comunicar os pensamentos impulsionou a criação das palavras, pois as crenças precisavam ser comunicadas e transmitidas de tal forma que viabilizasse o


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entendimento mais próximo do fiel. Atualmente, acredito que nada tenha mudado neste processo. Os pensamentos transformados em palavras constroem a Humanidade. A palavra é o principal instrumento – signo –, produzido pelo Homo Sapiens com o poder de destruir e construir o Mundo. Alguém, no entanto, só será afetado pelo meu pensamento se nele houver o mesmo anseio em se transformar! O outro precisa ter o desejo ou conflito semelhante ao que me despertou para o pensamento significante, só assim o outro será tocado por aquilo que eu penso. A comunicação do pensamento só causa um despertamento; só desperta o que no outro já existe em potencial. Usando um modelo contemporâneo, a nossa mente se assemelha ao computador, no qual existe um compartimento de memória onde se registram as atividades realizadas, nele estão armazenadas as palavras “vivenciadas” pelo cérebro virtual — HD (Hight disc) — em forma de arquivos e pastas. Quando se faz uma busca digitando algo que se deseja encontrar, automaticamente a memória é escaneada, se houver o que foi digitado, será “puxado” e exposto. Deste modo, quando ouvimos ou nos deparamos com um pensamento externo, automaticamente, um scanner passa pela nossa memória e busca algo semelhante ao que está entrando pelos sentidos, caso encontre, não nos soará com estranheza, mas se não houver nada parecido registrado em nossa memória, soará estranho ou não nos fará diferença alguma. Talvez, por isso, o pensamento exteriorizado tirou e tira a Humanidade da inércia, porque na memória psíquica universal existente em cada Homem contém registros da vida intrauterina, ou melhor, o paraíso expresso em nomenclaturas como amor, felicidade, satisfação, segurança, autonomia, quietude, liberdade... Ainda que alguém esteja aparentemente indo em direção contrária a esse caminho saudável de satisfação, tal como ao alcoolismo, drogas, voto de pobreza,..., em seu íntimo ele está buscando a sua homeostase — um preenchimento, um equilíbrio. Mesmo que alguém pregue a infelicidade, em sua psique ele está em busca de algo que lhe satisfaça, ainda que este algo lhe seja um modo de vida infeliz. Neste raciocínio, qualquer pensamento significante verbalizado causará algum tipo de movimento na Humanidade, porque encontra na memória humana um registro que possibilita um efeito. Obviamente que me refiro em termos gerais e não pessoais, pois o efeito não é o mesmo em cada indivíduo. Todo pensamento estruturado, que desde os primórdios forma a Sociedade humana, é uma crença religiosa nascida de um Homem teocêntrico. Pensar, como foi visto, é o primeiro passo de um Homem que desde o nascimento é acometido pela angústia da falta de respostas objetivas e exatas quanto a sua existência e identidade. “Quem sou, de onde vim, o que estou fazendo aqui e para onde vou?” são questões que estruturam o contexto social humano; nelas baseamos o nosso modo de viver; nelas buscamos o caminho de retorno ao ventre; nelas buscamos a religação do cordão umbilical. A angústia por não saber a sua origem, propósito e destino faz com que o Homem


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estimule o seu intelecto e, assim, crie e invente as suas respostas, isto é, as suas verdades, crenças, ideologias e mitos. A Humanidade, desta forma, constrói outra importante e não menos perigosa ferramenta: a Fé. Não há quem não faça uso dela. Fé que para os hebreus é “emunah76”, um ato de fidelidade, constância; para os gregos é “pistis77”, uma posição de crença auto convincente e persuasiva; e para os místicos, um pensamento positivo. Seja como for, é uma estado de crença que não se vale apenas no terreno metafísico da teologia tradicional, estende-se para todo o pensamento humano. É utilizada pela grande maioria para acrescentar esperança em meio as incertezas, como assim está escrito no Livro dos nazarenos: “Essa é a vitória que vence o mundo: a nossa fé”78! Os pensamentos que delineiam os caminhos da Humanidade estão dosados com o ingrediente da fé. Para que o aeronauta e inventor Santos Dumont, por exemplo, construísse concretamente o avião híbrido 14 Bis (1906), ele precisou pensar e, acima de tudo, acreditar (agir com fidelidade) em seu pensamento. Infelizmente o mau uso deste poderoso instrumento de crença trouxe grandes e maléficas transformações na Humanidade. Criamos, por assim dizer, diversas teologias (crenças, pensamentos e ensinos que circundam um Poder específico) fundamentadas na fé para aliviar as nossas angústias existenciais. O totemismo, o animatismo, o ascetismo, o hedonismo, o gnosticismo79, o ceticismo80, o cinismo81, o 76

/ ‫’אמונה‬emuwnah ou (forma contrata) ‫’אמנה‬emunah 1) firmeza, fidelidade, estabilidade - Strong, James: Léxico

Hebraico, Aramaico E Grego De Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2002; 2005, S. H530 77

Πιστις / pistis de πειθω / peitho ; verbo primário; v 1) persuadir 1a) persuadir, i.e. induzir alguém pelas palavras a

crer 1b) fazer amigos de, ganhar o favor de alguém, obter a boa vontade de alguém, ou tentar vencer alguém, esforçarse por agradar alguém 1c) tranquilizar 1d) persuadir a, i.e., mover ou induzir alguém, por meio de persuasão, para fazer algo 2) ser persuadido 2a) ser persuadido, deixar-se persuadir; ser induzido a crer: ter fé (em algo) 2a1) acreditar 2a2) ser persuadido de algo relativo a uma pessoa 2b) escutar, obedecer, submeter-se a, sujeitar-se a 3) confiar, ter confiança, estar confiante.Strong, James: Léxico Hebraico, Aramaico E Grego De Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2002; 2005, S. G3982 78 79

Bíblia. Almeida Revista e Atualizada. 1João 5:4 O gnosticismo, assim como o ascetismo, é uma ramificação das filosofias da metafísica de Platão. “O pré-requisito

essencial da filosofia gnóstica é o postulado da existência de uma ‘entidade imortal’, que não é parte deste mundo, que pode ser chamado de Deus interno, Centelha divina, Crístico, divina essência etc, que existe em todos os homens e é a sua única parte imortal. Os gnósticos consideram que o estado do homem neste mundo é "anti-natural", pois ele está submetido a todo tipo de sofrimentos. Para eles, é necessário que o homem se liberte deste sofrimento, e isto só pode ocorrer pelo conhecimento.” (Wikipédia) 80

“nada pode ser conhecido, nem mesmo isto, devemos duvidar sempre”. “As opiniões sobre as coisas, quase nunca são

verdadeiras”. Dentro deste pensamento, a investigação e o questionamento nunca acabam. 81

400 a.C. Seu pensamento era a autarquia e o desprezo pelo prazer. Diógenes de Sínope – o maior nome do cinismo

vivia em um barril. Pregava essencialmente o desapego aos bens materiais e externos.


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protestantismo, o criacionismo, o iluminismo, o materialismo, o deísmo, o ateísmo, o kardecismo, o panteísmo, o renascentismo, o idealismo, o empirismo, o epicurismo, o estoicismo, o humanismo, o existencialismo, o estruturalismo, a psicanálise e outras tantas infinitas filosofias religiosas que revelam a alma do homem em busca do reencontro com o seu antigo lar — o útero materno.

Os sistemas religiosos sociais Sobre estas teologias — todo tipo de crença e filosofia — comunicadas em palavras construímos os Sistemas religiosos, cada qual fundamentado especificamente em uma dessas crenças (pensamentos), cujo objetivo é oferecer um paraíso. Por detrás de cada Sistema está a imagem de um Poder invisível que se coloca como aquele capaz de solucionar os problemas da Humanidade e reconstruir o Éden. São atribuídos, portanto, como um meio de religação, aquele tão desejado por todos os Homens. Baseados nos pensamentos (crenças) estabelecem um totem que proporciona um contato com o Poder invisível, o sagrado (simbolicamente organismo materno). Formam-se, assim, em uma forma simplista, os sistemas religiosos econômicos (feudalismo, socialismo, capitalismo,...); os sistemas religiosos políticos (democracia, monarquia, imperialismo, absolutismo,...) e os sistemas religiosos clérigos (xamanismo, judaísmo, islamismo, cristianismo, budismo, espiritismo...,). Dentro de cada sistema existe um totem, uma representação do Poder, uma deidade, uma legislação, uma doutrina, uma catequese, um culto, sacerdotes, devoção, veneração, sacrifício, obra missionária... Qual é o Deus verdadeiro? Talvez alguém se pergunte não tendo ainda compreendido a minha proposta. Todos os Homens, segundo a minha proposição, buscam somente um Deus, o mesmo ideal, como tenho falado desde o início, e este ideal de Deus é um Poder oculto, representado na figura do organismo materno82, o qual nos sustentava na vida intrauterina. Neste 82

Deus – Poder oculto, na imagem de um organismo vivo, ao mesmo tempo em que está separado (santo – kadosh hb.)

do feto (criação) por uma placenta, é também o local onde o feto (criação) está abrigado. Deus, portanto, nesta concepção, pode ser tanto algo que mantém a vida como o lugar onde se vive isolado e protegido da existência acometida de dores e sofrimentos. Em um pensamento hebraico, Deus é chamado de ‫ המקום‬HAMAKOM (O Lugar), não um lugar no Mundo, e sim O Lugar onde o próprio Mundo está; diferencia-se, neste caso, do panteísmo, porque Deus não estaria em tudo, tudo é que estaria em Deus. Pode-se, desta forma, imaginar este Lugar como a própria imensidão infinita do macrocosmos; escuridão e abismo sem fim em que todo Universo se abriga, assimcomo o Lugar intrauterino escuro e isolado (organismo materno – ideal de deus) onde o feto se refugia e se esconde. Os textos bíblicos bem expressam este Lugar (hamakon) Sagrado que serve de abrigo, refúgio e esconderijo para as aflições humanas: o meu Deus, o meu rochedo em que me refugio;o meu escudo, a força da minha salvação, o meu baluarte e o meu refúgio. Ó Deus, da violência tu me salvas. (2 Samuel 22.3). O SENHOR é também alto refúgio para o oprimido, refúgio nas horas


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parâmetro, não há Deus certo ou verdadeiro, há tão somente um Ideal de Deus, um desejo intrínseco na psique de cada Homem por um Poder invisível. Todos os Deuses da Humanidade são representações do mesmo Ideal psíquico humano. Essa idealização está por trás de todas essas religiões e sistemas, porém, alguns dão nomes e outros não, mas está visível em seus totens (capitaldinheiro, cruz, imagem, amuletos, natureza, árvores, livros, objetos, a mente — qualquer coisa.). O ideal de Deus, entretanto, não é o nosso objetivo maior. Na nossa sinceridade, nós não queremos exatamente o Poder Supremo (Deus-organismo materno), queremos o que está sob a sua capacidade em nos conceder; queremos o que é de nosso interesse — a satisfação. Na representação de nossa psique, Ele é a Fonte de sustento, como uma Companhia de Água que fornece água tratada para as nossas casas; o que nos importa é a água e não a Companhia, mas precisamos dela, por isso, temos que estabelecer uma aliança, uma relação de troca e dependência. Nesta relação existe algo que faz o intermédio para que a água chegue até nós: os canos e as torneiras. Estes meios variam de acordo com a casa que, no caso, é o interior de cada indivíduo. Estas torneiras são os totens e os Sistemas econômicos, políticos e clérigos.

Síntese Humanidade Teocêntrica

Estrutura pensamento e ideias

Sistemas Religiosos

- Homem religioso em busca do Paraíso perdido (útero materno) e com o Ideal de Deus (Poder Oculto – organismo materno) intrínseco em sua psique.

(CRENÇAS = TEOLOGIAS)

Econômico: Feudalismo, Socialismo, Mercantilismo, Capitalismo...

- Angustiado pela falta e questões existenciais

Filosofias: animatismo, totemismo, ascetismo, hedonismo, iluminismo, criacionismo, deísmo, gnosticismo, naturalismo, psicanálise, estoicismo, existencialismo...

Político: Democracia, Absolutismo, Monarquia, Imperialismo... Clérigo: Judaísmo, Cristianismo, Budismo, Espiritismo, Xamanismo...

Totem, sagrado, legislação, doutrina, catequese, culto, cultura. Meio de religação com o Poder oculto (mãe). Oferece o Paraíso (vida intrauterina) > Felicidade, paz, segurança, tranquilidade, justiça...

PARAÍSO (Útero materno) SOCIEDADE TEOCÊNTRICA

de tribulação. (Salmo 9.9). No recôndito da tua presença, tu os esconderás das tramas dos homens, num esconderijo os ocultarás da contenda de línguas. (Salmo 32.20). Tu és o meu esconderijo; tu me preservas da tribulação e me cercas de alegres cantos de livramento. (Salmo 32.7). — Deus como O Lugar onde tudo está — Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; (Salmo 139.8)


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7. Capitalismo – o Sistema Religioso dominante

O Capitalismo, a meu ver, é a instituição religiosa dominante no Mundo atual. Atrás da ação desse Sistema existe um Poder elevado e supremo, uma Força, uma Deidade supostamente capaz de recriar o paraíso intrauterino, ele está simbolizado no totem Capital, etimologicamente vem do latim

capitalis

“principal,

primeiro,

chefe",

e

capitalis

provém

do

protoindo-

europeu kaput "cabeça". Aqueles que querem receber os benefícios da felicidade, do bem-estar, do conforto, da segurança, autonomia,... precisam carregar consigo e venerar o seu totem capital (bens, propriedades, dinheiro.. ). Os seus templos são as empresas; os sacerdotes são os patrões; os membros são os empregados; os dízimos são os impostos; os sacrifícios são a doação do tempo de vida e da saúde. Seus mandamentos principais são: Tempo é dinheiro - “Time is money”; acumular capital (bens – dinheiro); lucrar; ser competitivo; a propaganda é a alma do negócio; projetar (estabelecer metas); administrar; demonstrar eficácia; ser ativo; ser produtivo;... seus seguidores são obrigados a cumprí-los, se assim não fizerem estão sujeitos a excomunhão. Sua teologia se sustenta no empreendedorismo. A Religião Capitalista sucedeu o Mercantilismo (séc XV-XVIII), no período da Renascença, quando a Igreja Cristã Universal Romana já não estava mais conseguindo levar o Homem ao paraíso prometido e, sobre muitas crenças, como o iluminismo, o materialismo e o hedonismo, estabeleceu-se. Basta olharmos para as publicidades e propagandas televisivas e veremos claramente esta Religião Capitalista que, assim como todas, oferece o paraíso. A aquisição de um carro garante poder, autonomia e liberdade; a compra de um eletrodoméstico na loja do slogam “vem ser feliz” segura a felicidade. Paraíso (ventre materno) que é sentido no momento da aquisição, mas não perpetua pela eternidade. Na Idade Média, o sistema religioso clérigo Cristão, fundamentado nas crenças (pensamentos) gregas, foi dominante sobre o sistema religioso econômico Feudal, porém, atualmente, o Capitalismo é dominante sobre qualquer sistema clérigo e político, é ele que determina os dogmas; por exemplo, a grande maioria das congregações cristãs é adepta da teologia do empreendedorismo e da doutrina da prosperidade; o grande número de templos construídos e ostentados em uma riqueza estética não é mais um símbolo de obra missionária em avanço, e sim um símbolo de estabilidade financeira, a maior benção divina recebida dentro da teologia capitalista do empreendedorismo empresarial; é um anzol para atrair os Homens. Não é assim que diz “... Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” (Mateus 4.19)?


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Todas as pessoas que adentram uma igreja cristã querem e desejam o que todos os Homens querem — o paraíso (tranquilidade, aconchego, segurança, paz...) —, só que para isso, elas não mais precisam se desfazer de seus bens como pregava a Igreja medieval, agora, sob outra jurisdição e novas doutrinas do Capitalismo, elas vão para a congregação pensando no acúmulo de bens, visando o totem capital como o cordão umbilical que proporciona o paraíso desejado, ou seja, eles oram ao Deus (Poder) que ali dentro é pregado, leem a Bíblia, mas o Deus bíblico e suas palavras são sincretizados de acordo com o Deus e a liturgia capitalista, e incorporam a teologia do Capitalismo em seu modo de vida. Todos os Sistemas econômicos, políticos ou clérigos são religiões, pois oferecem a reconstrução do Éden (Delícia, prazer) e, na atualidade, o Capitalismo está redigindo as catequeses.

A doutrina capitalista e o endeusamento do Tempo Atualmente, um dos principais motivos pelo qual nasce a angústia no Homem são a existência do Tempo e seus ciclos. O Tempo é um mistério da esfera que está ligado aos movimentos de rotação e translação da Terra. Como seria a sua existência no Espaço, onde só se encontra o vácuo? Teria algum sentido as horas e os dias? Ou melhor, esse tempo conhecido existiria? Bom, deixo isso para a Astrofísica. Mistérios que nem o próprio Tempo conta. Os antigos o conheciam pela sombra. Mas o ponteiro veio com a mecanização e posteriormente surge a digitalização e, o tempo de hoje, já não é mais por observação. O que trará a próxima invenção? Como o verá a futura geração? Antigamente não havia números, minutos ou segundos e quem dirá milésimos de segundos, pois o Tempo não era exato. O Homem inconformado, sentindo-se necessitado por saber o tempo que supunha ter, acreditou ser melhor fracioná-lo para ser mais preciso e assim, usá-lo com o objetivo de aumentar a produção sem ter perdas ou desperdícios. Tão preciso se tornou que se tornou tudo o que é preciso. Enfim, o Homem entendeu assim ser uma boa solução. Mal sabia que estava sentenciando o Tempo da sua Vida! Com a atualização do Mercado de trabalho, o Tempo foi endeusado e idolatrado, por isso, muito considerado e, desta forma, a pontualidade é essencial, chegando a ser vital para a aquisição de um bom capital. Porém, a supervalorização do Tempo trouxe consigo o seu mal. A agenda com os horários marcados, as metas no tempo estipulado, o relógio com alguns minutos adiantados, o pagamento que não pode ser atrasado, entre outros casos que fazem do Homem moderno um escravo, um ser angustiado por se sentir sempre atrasado. O Tempo se faz acelerado. Corre e rapidamente se torna passado. O Tempo no pulso se separou do Tempo biológico e dificultou o viver do Homem em seu curso. Ironicamente, o Homem se acostumou tanto com a corrida que,


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quando o Tempo caminha, angustia-se mais ainda. É tanta pressa que até a morte se apressa. Outro ponto a ser observado é que o controle do Tempo é muito desejado porque também traz consigo o suposto poder de remover atos indesejáveis no passado, mudar a rota no presente e de dar domínio sobre o futuro. Não é a toa que surgiram muitos filmes e seriados com esse tema: “Viagem no tempo”. Revela-se o anseio de um Homem angustiado. E como já diziam os poetas: “A invenção do relógio, a estruturação do tempo na torre da Igreja, na praça da cidade, mostra-nos o desejo de controle existente na Humanidade!”. De tão misterioso, o tempo adquiriu o status de poderoso. Ah o tempo que nos priva a vida! Consome-nos ainda vivos. Já a mitologia grega previa que até os deuses, por ele, são engolidos. Chronos, o grande deus do Olimpo, engole os seus filhos. Há quem diga que, ao exemplo de uma situação específica em que um amor se perde, só o tempo é capaz de curar o coração que se fere; por outro lado, o tempo também pode matar. Quando? Quando o tempo falta para aquele que tem o que esperar o sofrimento aumenta e leva consigo a calma da alma. Para mim, a sensação de liberdade, que muito é desejada pela Humanidade, pode ser sentida quando escrevemos uma pauta onde o Tempo não domina, onde se pode deixar para depois quando se pensava que o depois não mais havia. Talvez como uma pauta musical que, naturalmente, é escrita sob um tempo, entretanto, a improvisação atemporal traz a liberdade no andamento e cria novas possibilidades pelo uso da criatividade. Sabemos que nada subsiste a ação do Tempo. Tudo tende a envelhecer. Contudo, o processo de envelhecimento é acelerado pela era atual, principalmente pela condição virtual. E com isso, por não conseguirmos segurar o Tempo, a angústia é aumentativa com a sensação de atropelamento. A inútil tentativa de controlar o incontrolável realmente angustia. Todavia, procuro ver o Tempo como um bom aliado, e não como um inimigo violento, cujo agir é sangrento. Aliado?! Sim, aliado! Pois se o uso a meu favor, logo não me faço precipitado e alcanço o aprendizado de que tudo nesta vida tem o seu tempo para ser realizado.

Os apelos e a ansiedade como um mal social Há desejos que causam em nós um mal-estar. Mal-estar da ansiedade. Do grego merizo83 “dividir em partes”. É a ânsia da alma dividida entre dois ou mais desejos. É a ânsia provocada pela dúvida em cumprir este ou aquele. Entre o desejo do dever e o desejo do querer. Desejos que a nossa alma inventa ou aceita. Enquanto não se cumpre a sentença e o desejo que se quer não é 83

μεριζω / merizo; v 1) dividir 1a) separar em partes, cortar em pedaços 1a1) dividir em partes, i.e. ser separado em

facções 1b) distribuir 1b1) uma coisa entre pessoas 1b2) dar, conceder. Strong, James: Léxico Hebraico, Aramaico E Grego De Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2002; 2005, S. G3307


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saciado, o tempo custa a passar e a alma continua a sofrer com o enjoo e o corpo com o desconforto. Mas não é apenas a dúvida no cumprimento que somatiza a ansiedade, a indecisão sob a pressão intolerante do tempo também. O desejo é como um filho semeado no ventre de nossas mentes, tem o período em que provoca enjoos e quando nascido traz o alívio. A ansiedade é proporcional ao tamanho e a quantidade de desejos existentes em nossa alma. Se a gestação for de gêmeos o desconforto será maior. Aquele que muito deseja, em grande parte, muito sofre com a ânsia, pois quem muito deseja não sabe o que deseja e o tempo lhe pressiona com um som de “tic-tac” nos ouvidos internos, e na medida em que o “tic-tac” acelera, o batimento cardíaco também se atropela. Muitos desejos dividem a nossa mente e tornam a nossa alma em partes. São como muitos filhos que querem nascer ao mesmo tempo e no fim, nem um nasce. Talvez, por isso, a ansiedade mais agravada seja um mal social, pois a Sociedade atual, submetida aos dogmas do capital, aflora em nossa alma muitos desejos que nos põem em dúvida e indecisão. Ela exige, em um período breve de tempo, uma posição, uma direção de quem não tem nenhuma bússola na mão e muito menos sabe ler as diretrizes de uma constelação. Muitos são os desejos sugestionados à alma, de tal modo, que ela se encontra no meio de uma guerra de desejos sem saber o que de fato deseja. O Desejo perde o seu norte. Muitas possibilidades nos fazem adoecer de ânsia. Muitas informações, diversos modelos de carro, diversas faculdades, diversos caminhos de profissão. A prateleira do Mercado, diante dos nossos olhos, está repleta de atualizações, novidades e produtos de diversas qualidades e marcas. Assim é a vida do cidadão atual que, habita uma polis apelativa, sim, a alma recebe diariamente pela mídia ou pelas ruas, uma constante apelação de ofertas, promoções e liquidações. É possível que a Sociedade de antes da Revolução Industrial não sofresse tanto com a ansiedade, sendo que ainda não havia uma linha de produção capaz de diversificar os desejos. Por fim, diante desses desejos socialmente inventados pelos pensamentos e crenças, estimuladores da ansiedade patológica, o melhor a se fazer é colocar o dedo na garganta e abortálos. Este ato de vomitar, colocar para fora, é o ato de decidir e compreender que muitos desejos apresentados como deveres não precisamos - necessariamente - cumpri-los, porquanto são apenas apelos de um Sistema religioso Consumista em busca de adeptos, e quem decide com mais facilidade frente às múltiplas escolhas sofre menos com a ânsia da ansiedade.

O dogma consumista e a estética Vivemos em dias, em que a sociedade é essencialmente industrial, comercial e capitalista. O capital precisa girar, e dentro desse pensamento surge o mandamento “da oferta e da procura" que, resumidamente, está na oferta de serviços e produtos, e para satisfazer esta oferta é necessária a


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procura pelos mesmos, com o objetivo de girar o capital, e desta forma, a empresa, o comércio, a indústria, ou toda a sociedade continuam existindo. Sem a procura não há sentido na existência da oferta. Esta é uma doutrina da Religião Capitalista. Neste contexto social do consumismo, surgem os males consequentes deste ciclo vicioso (oferta e procura), ou seja, se as indústrias oferecem remédios, como sobreviveriam se as pessoas não se sentissem doentes? A indústria farmacêutica, mesmo que de forma não tão clara e evidente, gera sugestões para que as pessoas se sintam doentes, ou com uma simples dor de cabeça, crendo que um analgésico resolverá o seu problema. Como ela faz isto? Utiliza os meios de comunicação, — a mídia em geral — elabora propagandas que sugestionam a mente das pessoas a sentir uma dor de cabeça. Trabalham com imagens que despertam o inconsciente — Publicidade. Não digo que se trata de uma conspiração, digo que simplesmente este é o funcionamento do consumismo e do capitalismo. É um Sistema oculto, sem face. A mídia da massa popular é usada para gerar um desejo por aquilo que não é necessário, essencial ou vital, e sim ordinário, fútil e desnecessário. A grande maioria da população, por exemplo, não compra um carro só por necessidade, adquire porque querem, ou melhor, porque foram sugestionadas a quererem; pensam que precisam. Pois o consumir não diz respeito ao que realmente se precisa, diz respeito ao prazer de adquirir algo. Consome-se, compra-se a sensação momentânea do "bem-estar", e não o produto enquanto objeto. O ideal do paraíso (útero materno) é vendido e oferecido como o Cristianismo católico medieval fazia, ou seja, cobrava indulgências pela entrada no Céu. Não vejo diferença na essência do pensamento. Alterou-se a religião, permaneceu o princípio da Humanidade Religiosa em busca do seu ventre. O pensamento intrínseco na publicidade consiste em aflorar a mentalidade de que ainda falta algo para se sentir bem e, logicamente, para ele o que falta é adquirir o tal produto ou serviço apresentado pela propaganda. A sugestão de que algo me falta ativa em minha mente a vontade do Ter. Ao nos depararmos com uma propaganda automotiva, somos forçados a acreditar que nossa vida será muito melhor ao adquirirmos o tal automóvel. Em todo esse emaranhado de sugestões psicológicas, tendo por base a "lei da oferta e da procura", talvez as mulheres sejam as mais afetadas e aprisionadas pela utopia da estética gerada pelas indústrias de cosméticos e "beleza" em geral; cria-se um padrão ilusório de beleza física, na qual as mulheres são convocadas a se enquadrarem. Estética não é algo somente relacionado ao corpo, mas a todo o aparato externo de espetáculo e exposição; está intimamente relacionada a imagem padronizada. Enfim, para que as indústrias de cosméticos, academias, clínicas de estética,... funcionem e tenham o seu capital girando, é necessário o quê? Que as pessoas não se sintam bonitas ou bem com seu próprio corpo,


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porque, no desconforto e mal-estar consigo mesmas, irão procurar produtos e serviços que assim as façam se sentirem melhores. Penso que tudo isto não passa de uma ilusão de ótica. Tristemente, pessoas diariamente são aprisionadas nessa ditadura, acreditando serem gordas demais, magras demais, envolvidas em uma insatisfação crônica de si mesmas. Uma grande utopia ornamentada por um Sistema Religioso que procura gerar pessoas cada vez mais insatisfeitas para que, desta maneira, consumam continuamente algo que lhes traga uma efêmera sensação de satisfação. Uma sensação de prazer, e prazer diz respeito a algo momentâneo, que por um momento existe e logo passa, enraizando-se o pensamento de que precisa haver outro momento de prazer, ou seja, o foco é o prazer ligado ao momento. A satisfação não é lucrativa, a insatisfação, sim. Obviamente que a insatisfação em alguns aspectos da Vida é proveitosa para nos manter caminhando e evoluindo, ela está presente na natureza humana, no entanto, ela pode ser má quando é aflorada pela visão comercial a ponto de fazer adoecer a mente e distorcer a visão da Vida. No presente século, por exemplo, cresce absurdamente o número de cirurgias plásticas em adolescentes. Jovens que já realizaram mais de uma cirurgia, não por questão de saúde, mas para tão somente modelar o corpo. Aumentar os seios, moldar a cintura ou diminuir o nariz. A exposição da imagem na internet precisa ser “curtida” – pensam os jovens presos na rede social. Esta é uma preocupação estética excessiva gerada pela insatisfação aflorada pelo apelo comercial. Bom é que as pessoas — homens e mulheres — se olhem no espelho e não se vejam com os olhos implantados por uma sociedade consumista e capitalista; não se vejam como querem que se vejam; se vejam como as pessoas que são, independente de um padrão imposto nos Outdoors, novelas, filmes, revistas e propagandas. É bom zelar e cuidar do corpo e elevar a autoestima, nisto não há dúvida, entretanto, é preciso sondar a si mesmo para não ultrapassar a medida saudável.

TEOLOGIA

Síntese

EMPREENDEDORISMO

PODER OCULTO (Ideal de Deus – Fonte de sustento)

CAPITALISMO

DOUTRINAS –

(Sistema religioso dominante atual)

MANDAMENTOS

- Tempo é dinheiro (Time is Money) - Sacerdotes (patrões) - Lei da oferta e procura - Templos (empresas) - Locais de catequese (Mídia, Universidades) - Ser competitivo

- Dízimos (impostos) - Membros (empregados)

- Acumular bens - A propaganda é a alma do negócio

...

PROMESSAS O Paraíso (Felicidade, bem-estar...)

TOTEM - CAPITAL (Representação do sagrado, Ponto de contato)

SOCIEDADE (Consumista, estética, ativista, acelerada, ansiosa...)


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8. A adoração integral e o estabelecimento de uma cultura

Nesta concepção, em que a religiosidade intrínseca na Humanidade a conduz numa constante busca e transformação individual e social, creio ser de valor dedicar um breve tempo para ampliarmos o entendimento sobre a adoração, cujo ato é um posicionamento obrigatório para o religioso. Ora, se todos nós somos religiosos, conforme tenho tentado demonstrar, então, todos nós somos adoradores. Mas o que vem a ser adorar? Certamente muitos são os conceitos sobre esse termo, porém, não desmerecendo os demais pensamentos, proponho um olhar para além da conceptualização habitual e, para este propósito, atenho-me a uma particular interpretação etimológica e bíblica. Compreendo que nos será proveitoso para visualizarmos um caminho possível pelo qual percorre o estabelecimento de uma cultura social.

O termo adoração O termo Adoração, como conhecemos no português, não existia no hebraico ou no grego antigo — línguas usadas na composição da Bíblia —, partindo disto, desenvolvo o meu pensamento sobre a seguinte questão: Se não havia o termo adoração nos tempos antigos, como era visto esse ato religioso para com o Sagrado? A princípio, é útil observarmos quatro palavras que nos textos antigos bíblicos se relacionam ao ato adorar, elas podem nos ajudar a encontrar uma resposta para este questionamento. 1) Avodah – ‫ עבדה‬/ Latreia - λατρεια Deut 6:13 O Senhor, teu Deus, temerás, a ele servirás (avodah), e, pelo seu nome, jurarás. Luc 4:8

H564784

Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele darás culto (latreia). G3000

2) Shachah – ‫ שחה‬/ Proskuneo - προσκυνεω Gên 22:5

Então, disse a seus servos: Esperai aqui, com o jumento; eu e o rapaz iremos até lá e, H7812 havendo adorado (shachah), voltaremos para junto de vós.

João 4:24

Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem (proskuneo) em espírito e em verdade.

84

G4352, G4352

Referência do dicionário Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong. © 2002. Sociedade Bíblica do Brasil.©

2005 Versão eletrônica.


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As palavras citadas acima estão divididas em pares, duas correspondentes (hebr / greg) dentro de um contexto estético e momentâneo e outras duas dentro de uma ação concreta e constante. Uma é a ação de veneração ritualística e a outra é uma ação cultual de serviço e trabalho. Numa mentalidade original, o servir e o reverenciar caminham juntos — em integridade — no ato de adoração ao Sagrado.

ADORAÇÃO Concreta e Constante

ADORAÇÃO Estética e Momentânea

Avodah ‫( עבדה‬hebraico)

Trabalho, serviço, culto.

Latreia λατρεια (grego)

Trabalho retribuído por salário, serviço, culto.

Shachah ‫( שחה‬hebraico)

Prostrar-se, reverenciar alguém de hierarquia superior. No sentido de se abaixar.

Proskuneo Προσκυνεω (grego)

Reconhecer superioridade. Literalmente “em direção a beijar”, no sentido de um cão que vai em direção ao seu dono para lamber sua mão.

MENTALIDADE INTEGRAL DE ADORAÇÃO

Hoje, inseridos em uma sociedade ocidental, ocorre uma separação nessa mentalidade, raramente enxergamos o serviço e o trabalho como adoração; nós a reduzimos a um templo ou local. Ao pronunciarmos a palavra adoração, internaliza-se em nós, de imediato, a imagem de pessoas em transe, entoando canções e orações, mãos levantadas ao céu, prostradas, enfim, em algum ato de “proskuneo” — reverência e devoção em um momento específico. Mas sustentado na ideia de uma mentalidade integral de adoração, em que o trabalho (avodah – latreia) ocupa um lugar fundamental na vida religiosa da Humanidade em busca do seu Sagrado, procuro ampliar a visão cultual para além das fronteiras tradicionais, na qual o adorador se encontra na imagem de um servo e trabalhador.

Avodah / Latreia – adoração que desenvolve uma identidade sócio-cultural As primeiras vezes que o termo hebraico Avodah / ‫ עבדה‬aparece na Bíblia é no livro de Gênesis 2.5; 15: “Não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o Senhor Deus não fizera chover sobre a terra, e também não havia homem para lavrar (laavod) o solo. [...] Tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar (laavodah) e o guardar.” Nestes versos, as palavras traduzidas como “lavrar” e “cultivar” estão no texto hebraico como laavodah ‫ לעבדה‬, uma derivação de avodah.


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A primeira utilização do termo avodah (trabalho, serviço) foi, portanto, dentro do Jardim do Éden, referindo-se ao trabalho do Homem em seu cultivo. Tomo este simbolismo como base para observar a originalidade da adoração da Humanidade para com o seu ideal de Deus em busca do paraíso perdido (vida intrauterina). Nesta aparição primária, Avodah está como um trabalho de cultivo realizado pelo Homem que, segundo o dicionário Aurélio é “1.Fertilizar (a terra) pelo trabalho; 2.Dar condições para o nascimento e desenvolvimento de (planta); 3.Procurar manter ou conservar; 4.Desenvolver.” Para conseguir chegar ao ponto em que desejo, recorro ao latim, língua românica da qual nasce o português. Pois bem, no latim, “cultivar” é “levantar de uma planta ou cultura”; aqui temos o aparecimento da palavra cultura, um ponto importante para o desenvolvimento deste pensamento. Ainda no latim, “Cultura” é “cultivar o solo, cuidar”, esta palavra ainda aparece na etimologia de outra palavra latina “cultus (culto)”, com o sentido de “cuidado, cultura”. Sobre estas linhas etimológicas do hebraico, português e latim, entendo que o sentido de adoração expressado no termo “avodah” amplia-se para o trabalho no âmbito de desenvolver e manter uma cultura. Mas qual cultura e como ela se estabelece na prática? Saindo um pouco da alegoria do Éden, entremos na vida social de Israel para compreendermos como esta adoração (avodah – trabalho) constituiu a cultura da sociedade israelita na época bíblica. Lembrando que o sistema religioso — aquele que nos propõe o paraíso — contém doutrinas e legislação para que seus membros executem. Entre o Povo de Israel, a legislação do seu sistema religioso foi concedida no monte Horebe, e hoje é chamada de Torah85 (instrução) — um código legal —, na qual estão instruções comportamentais, éticas, morais, cerimoniais, enfim, é uma constituição que diz respeito ao modo de vida de um povo. Nela está uma ordenança da deidade (YHWH) dos hebreus para eles; ela nos revela a adoração que estabelece a cultura: “O SENHOR, teu Deus, temerás, a ele servirás (avodah-adoração integral), e, pelo seu nome, jurarás. 14 Não seguirás outros deuses, nenhum dos deuses dos povos que houver à roda de ti, 15 porque o SENHOR, teu Deus, é Deus zeloso no meio de ti, para que a ira do SENHOR, teu Deus, se não acenda contra ti e te destrua de sobre a face da terra. 16 Não tentarás o SENHOR, teu Deush, como o tentaste em Massá. 17 Diligentemente, guardarás os mandamentos do SENHOR, teu Deus, e os seus testemunhos, e os seus estatutos que te ordenou. 18 Farás o que é reto e bom aos olhos do SENHOR, para que bem te suceda, e entres, e possuas a boa 85

Torah, Livro Sagrado de Israel – Torah é a palavra hebraica comumente conhecida como Lei, mas significa

Instrução. Refere-se, dentro da tradição judaica, aos 5 livros de Moisés: Bereshit (Gênesis), Shemôt (Êxodo), Vayicrá (Levítico), Bemidbar (Números), Devarim (Deuteronômio). Entre os cristãos é conhecido como Pentateuto (nome grego). h

6.16 Êx 17.7; Mt 4.7; Lc 4.12


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terra a qual o SENHOR, sob juramento, prometeu dar a teus pais, 19 lançando todos os teus inimigos de diante de ti, como o SENHOR tem dito” (Deuteronômio 6.13-19). Detalhando estes versos, o serviço que, no texto hebraico é avodah, foi ordenado pelo Deus dos hebreus e é divisível em quatro pontos: Não seguir outros deuses; não tentar o Senhor; guardar seus mandamentos, estatutos e testemunhos e fazer o que é reto e bom aos olhos do Senhor. Temos, assim, dois verbos negativos “não seguir; não tentar” e dois positivos “guardar; fazer”. Isto me conduz a pensar que o ato de adoração dos israelitas são ações (verbos) que se estendem para o dia a dia; é algo comportamental, um trabalho diário diante de seu sagrado. E tal adoração presente na estruturação familiar, nas relações, na agricultura, nos impostos agropecuários (dízimo), em tudo o que cerca a vida se realiza sob o medo da punição (ira). Desta maneira, o CULTO dos israelitas dentro da sua busca pelo paraíso estabeleceu uma CULTURA específica, uma identidade cultural.

O modelo da formação identitária de um povo Neste momento, convido a retrocedermos aos versos de Deuteronômio e caminharmos para a formação identitária de Israel. Uma história que exemplifica a adoração de um povo e sua estruturação identitária cultural e social. Tal visão instiga a minha percepção acerca do modo como uma civilização se consolida em torno da crença (pensamento - ideologia), independente de seu credo. Sem elevar ao mérito da veracidade, atenho-me a observação de uma Sociedade que, em sua busca, constrói a sua crença e por ela se move em direção a terra que mana leite e mel, um ideal de justiça desejado por toda a Humanidade. Os textos do Tanach judaico (Antigo testamento bíblico) relatam a história de um povo chamado Israel, cuja existência tem início em Abraão, filho de Tera (Gênesis 11;12). Ambos estavam em Ur da Caldéia, uma região ao sul da Babilônia, e por algum motivo desconhecido, Tera saiu de Ur com os seus filhos e foi em direção a Canaã, mas não completou a viagem, morreu em Harã. Neste meio tempo, Abraão teve um encontro com a deidade denominada YHWH (pronúncia exata desconhecida, pode ser Javé, Yahweh...)86, fizeram uma aliança e Abraão começou a sua peregrinação em busca de uma terra prometida. Dele descendeu Isaque, que gerou Jacó, cujo nome foi mudado para Israel por um anjo de YHWH. Esta é a origem encoberta desse povo que influenciou tão grandemente o Mundo com sua Divindade YHWH e seus escritos — Bíblia. No entanto, pelo fato dos textos bíblicos serem um tanto quanto vagos em algumas questões, e por se encontrarem dentro da possibilidade de serem apenas alegorias contadas pelos anciãos para as 86

Ver nota 58


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gerações mais novas com o intuito de inventar a sua própria origem (algo natural nos povos tribais), os arqueólogos buscaram respostas para algumas perguntas como: “Qual foi realmente a origem dos israelitas?; “Como eles se tornaram israelitas?”; “De onde veio a sua divindade YHWH?” Para falar dessa origem, alguns arqueólogos entendem que a identidade desse povo se forma a partir de um possível êxodo egípcio, tal como o descrito na Bíblia, porém sem grandes milagres e poderes sobrenaturais. Partindo deste início pós-êxodo, em uma época em que o império egípcio subjugava os povos da mesopotâmia, os arqueólogos encontraram indícios de que o povo israelita, até então sem identidade israelita, tenha sido originalmente um povo nômade, provavelmente uma parte da Sociedade Cananéia, estando, assim, de acordo com o texto que mostra Tera, pai de Abraão, peregrinando pelas terras de Ur e posteriormente em direção a Canaã (Gênesis 11.26-31). Por que estava indo para Canaã, se Abraão ainda não tinha recebido a revelação da terra prometida? Estaria caminhando para a sua terra natal? Para acrescentar mais possibilidades a esses questionamentos, adequo outro texto que documenta um episódio pré-exílio egípcio: “Vendo José a seus irmãos, reconheceu-os, porém não se deu a conhecer, e lhes falou asperamente, e lhes perguntou: Donde vindes? Responderam: Da terra de Canaã, para comprar mantimento” (Gênesis 42.7). Esta reprodução textual evidenciaria a origem Cananéia da civilização israelita ao relatar que os filhos de Jacó (Israel), antes de entrarem nas terras do Egito, habitavam Canaã? Segundo a arqueologia, diferentemente de algumas correntes interpretativas da Bíblia, os israelitas não vêm de fora de Canaã, mas de seu próprio seio. Era um pequeno grupo de pessoas que queria mudanças, desejava construir uma Canaã mais justa, e, possuídos por uma intensa crença, caminharam em conquista desta nova terra motivados pela mensagem revolucionária que lhes impulsionou a uma Canaã que destilava leite e mel (Êxodo 3.7,8)87. Um pensamento natural quando um regime imperial injusto domina o mundo. Este comportamento é comum na história de todas as civilizações. Se olharmos para as Revoluções e para as Guerras das Independências, como exemplo, veremos ações semelhantes de grupos de pessoas sob a liderança de um homem convicto e sob um desejo ardente por um Governo ideal. Não precisamos ir tão longe, a história do Brasil, desde a sua “independência”, está recheada de movimentos ideológicos em prol de um país mais justo, sem as amarras de poderosos. Estes cananeus, então, desataram-se e deram início a peregrinação. De onde veio tanta motivação e inspiração, ou melhor, o que sustentou o movimento deste povo em direção ao seu 87

Disse ainda o SENHOR: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos

seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; 8 por isso, desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel;... (Êx 3.7,8)


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ideal? Em uma das visões possíveis, o pequeno grupo cananeu, recém-saído dos laços egípcios, caminhou pelas terras de Midiã, que na época se chamava YHW (a pronúncia provável é Yahu) — de acordo com uma recente descoberta arqueológica na muralha norte de Karnak 88 —, e foi influenciado pelo povo shasu que ali habitava. O povo cananeu encontrou uma nova deidade denominada YHW. Para eles, esta nova divindade se tornara o grande libertador, aquele que protagonizou a saída de debaixo do jugo da opressão dos poderosos. Este fenômeno de crença é observado facilmente em qualquer povo, lembremo-nos da Padroeira do Brasil — Nossa Senhora Aparecida —, a tradição conta que uma imagem foi achada em um rio por pescadores, os quais atribuíram à ela o milagre da boa pescaria e, a partir desse momento, elevaram a estátua (sem cabeça) ao status de padroeira, e uma crença se estabeleceu ao seu redor. O mesmo pode ter ocorrido com os cananeus que, ao encontrarem YHW dos shasus no meio do caminho, atribuíramlhe o milagre da libertação. Eles, então, incorporaram-no em suas vidas, passaram a adorá-lo e a servi-lo; criou-se, assim, uma forte crença — “YHW estava lhes direcionando para uma nova Canaã”. Não é de se impressionar com tal ato de crença, é muito corriqueiro no modo de vida de um povo “místico” compreender acontecimentos, encontros ou qualquer outro fato acorrido como um sinal divino para confirmar um desejo realizado ou que se quer realizar. Darei um exemplo: suponhamos que existe alguém dentro de um grupo denominado protestante com um grande desejo por um emprego novo e constantemente ora ao seu deus para que isso aconteça. No seu grande desejo, tudo o que ele ouve ou vê (sonho, televisão, placa na traseira de um caminhão...) e que está de acordo com as suas intenções íntimas será recebido como um sinal vindo da parte de seu deus. Há outra possibilidade de vermos esta situação: a pessoa está com um grande desejo pelo emprego novo, porém, ela não frequenta nenhuma denominação cristã (igreja), mas é emocionalmente mística e espiritual. Num bom dia, a empresa que ela tanto almejava liga para ela, é admitida. Consegue o novo emprego. Neste dia, ainda eufórica pelo desejo realizado, ela liga a televisão e, no justo momento, está passando um programa cristão, um Pastor está pregando e, como de costume, fala se direcionando ao telespectador, aponta e diz: “Deus abriu as portas para você; Deus te deu esse emprego que você tanto queria para que você saiba que ele é Deus em sua vida!”. Emocionada, sentindo a sua alma vibrar, ela recebe para si, volta-se para esse deus que se revelara como o seu benfeitor, passa a servi-lo e a incorporar em sua vida uma devoção a ele. Muito provavelmente 88

No Egito, na cidade real de Karnak, em sua muralha norte, foram encontrados registros das conquistas e vitórias de

Seti I, pai de Ramsés, o Grande. Há um registro da celebração de Seti sobre os shasus, povo que vivia no deserto ao sul de Canaã. Segundo textos egípcios, um dos lugares em que viviam chamava-se YWH, que provavelmente se pronuncia “yahu”. (Documentary. National Geographic Channel. Bible’s Buried Secrets, 2008)


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comece a frequentar alguma igreja e dê o dízimo como forma de gratidão. Caso o programa não fosse cristão, e sim umbandista, e da mesma forma o representante desse segmento lhe dissesse as mesmas palavras, é muito possível que igualmente ela recebesse o seu deus, pois a sua alma estava eufórica pelo momento do desejo realizado. Isto é o que pode ter acontecido com o pequeno grupo cananeu que, entusiasmado e eufórico por ter conseguido sair das garras dos egípcios, encontrou na voz de um sacerdote de YHW dos shasus as seguintes declarações: “Não profanareis o meu santo nome, mas serei santificado no meio dos filhos de Israel. Eu sou o SENHOR, que vos santifico, 33 que vos tirei da terra do Egito, para ser o vosso Deus. Eu sou o SENHOR” (Levítico 22.32,33). Neste instante, estava consolidada uma devoção misturada a obrigação e gratidão. O desejo ardente por uma Nova Canaã tinha, agora, um forte aliado, alguém de quem o pequeno povo recebera a esperança e a promessa motivadora. A promessa de uma nova terra acompanha uma nova identidade. E assim, definitivamente os cananeus se transformaram em israelitas. Identidade que, no poema bíblico (Gên. 32.28)89, teria sido acrescentada através da mudança do nome do patriarca Jacó para Israel (Príncipe de El). Após esta alteração, os cananeus passaram a ser chamados de israelitas e também hebreus. É plausível que este termo “hebreu” seja uma evidência de um Israel que outrora habitou Canaã, pois “vem da raiz hebraica que quer dizer ‘atravessar’, isto é, o morador do leste do Eufrates referindo-se ao morador de Canaã, que havia ‘atravessado para o outro lado’ daquele rio”90. E o fato dos israelitas terem sido originalmente cananeus, seria o motivo de haver El em muitos de seus escritos, inclusive em seu nome IsraEL (Príncipe de El)? E quanto ao tetragrama YHWh, seria a mesma deidade dos shasus incorporado na vida dos cananeus que buscavam uma nova Canaã e que, pela crença, sincretizaram com o El cananeu91 e adquiriram uma nova identidade — IsraEL? São probabilidades, porque os israelitas, enquanto cananeus em seu princípio, tendem a carregar traços da cultura Cananéia. Acerca desta possibilidade de visão sobre a origem dos israelitas e sua deidade, como entender as histórias que aparentemente são anteriores ao êxodo, tal como o encontro de Abraão com YHWH ou do próprio Moisés na sarça ardente? Olhando pelo lado psíquico, podem ser representações mentais elaboradas para ajudar esse novo grupo pós-exílio a ser aceito e arrebanhar novos membros para a sua caminhada em rumo a terra dos sonhos. É como se hoje fôssemos a uma

89

Então, disse: Já não te chamarás Jacób, e sim Israel, pois como príncipe lutaste com (El’ohim) Deus e com os

homens e prevaleceste. (Gênesis 32.28) 90 91

Kaschel, Werner; Zimmer, Rudi: Dicionário Da Bíblia De Almeida 2ª Ed. Sociedade Bíblica do Brasil, 1999; 2005 Ver: Sincretismo mitológico


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tribo indígena e ouvíssemos um ancião contando as histórias de como Tupã os criou ou como ajudou o seu povo a vencer os inimigos da antiguidade. Esses contos estabelecem a identidade de uma tribo e são contados oralmente em um tempo posterior aos acontecimentos e compilados muito mais posteriormente. No livro de Êxodo92, diz que o libertador Moisés habitou a terra de Midiã — YHW dos shasus — depois de sair do Egito. Ele foi recebido na casa de um sacerdote daquela região e que, mais tarde, tornar-se-ia seu sogro. Certo dia, Moisés foi apascentar as ovelhas e ouviu uma voz que lhe incumbiu de uma missão: tirar o seu povo do Egito. Ao perguntar o nome do responsável pela missão, ele ouviu: “YHWh, o El’ohim de vossos pais...”. Como é de nosso conhecimento, Moisés é um herói muito semelhante a outros descritos em poemas épicos antigos93; seria esta semelhança mitológica um meio que os cananeus, agora israelitas, acharam para justificar o seu milagre e intimidar os povos ao seu redor? É possível, elaborar contos, alegorias ou poemas épicos era uma prática comum para exaltar o poder dos seus deuses, construir identidade, transmitir princípios para as próximas gerações e gerar temor nos povos inimigos. Quanto mais os deuses de um povo fossem poderosos mais o povo seria temido. Há um exemplo que retrata claramente essa intimidação causada pela exaltação do poder dos deuses. O livro de I Samuel mostra os filisteus temendo os hebreus por causa dos grandes feitos realizados pelos seus deuses ao Egito: “Ai de nós! Quem nos livrará das mãos destes grandiosos deuses? São os deuses que feriram aos egípcios com toda sorte de pragas no deserto. 9 Sede fortes, ó filisteus! Portai-vos varonilmente, para que não venhais a ser escravos dos hebreus, como eles serviram a vós outros!”94 Nesta perspectiva, as grandes histórias de Abraão, Moisés ou Jacó, podem ser contos criados ou sincretizados impulsionados pela nova crença adquirida em meio ao caminho para um Canaã livre e justa. O povo de Israel, portanto, sob um novo código legal — Torah — constituição civil, cerimonial, moral e ética — recebido das mãos da nova representação do Poder Supremo (YHWh), firmou-se em uma nova identidade sociocultural e se fortaleceu para conquistar o paraíso (Canaã sob um novo governo). Este olhar sobre a história israelita é uma imagem que expressa uma Sociedade que, angustiada pela falta de identidade, dá à luz a uma crença motivadora de transformações grandiosas. Um princípio que penetra todas as civilizações que, ao exemplo israelita, estabelecem uma Constituição e configuram as suas identidades em torno da adoração (trabalho integral) ao seu Sagrado. 92

Êxodo 3

93

Ver: “Termo El”

94

Almeida Revista E Atualizada. 1 Samuel 4:9


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Síntese e a cultura no culto capitalista Em suma, contextualizando o princípio da adoração na Sociedade contemporânea, o sistema religioso dominante — Capitalismo — recebe do seu ideal de Deus uma Constituição (credos), e o cumprimento das suas ordenanças firma a identidade cultural pós-moderna. Quando o povo cumpre, por exemplo, o mandamento de acumular capital, nasce a cultura do consumismo, dentro da qual a busca individual por identidade se baseia no “ter” e no exibicionismo de um poder de aquisição, ou seja, “eu sou o que ‘tenho’, “eu sou o que compro”, “eu sou o que consumo”,... Na observância do “lucrar”, do “administrar” e do “projetar”, a vida também é transformada, ela passa a ser administrada como uma empresa e negociada em um jogo de interesses lucrativos, resume-se em um projeto com metas, objetivos, justificativas e planilha de custo, quase não há lugar para o acaso; com isso, também surge um alto nível de frustração, devido o estado líquido da Sociedade, como diria o sociólogo Zigmunt Bauman acerca da pós-modernidade, em outras palavras, tudo é tão imediato e transitório que se torna líquido, se esvai pelos vãos dos dedos, não é possível segurar. Nesta falta de solidificação das coisas, os projetos para uma vida inteira se frustram no meio do caminho. Esta transitoriedade líquida; este fluxo em que tudo deve girar e nada deve estar no mesmo lugar por muito tempo, pode ser um reflexo do modo de produção industrial descartável, cuja mentalidade influencia profundamente os comportamentos sociais. Tudo é assimilado inconscientemente como descartável, sem perspectiva duradoura, inclusive o pensamento. Desta forma, quando o Sistema ordena “estabelecer metas a curto ou a longo prazo”, a mente entra em conflito, pois os seus pensamentos têm data de validade, com efeito de uma Sociedade que é como um rio em constante movimento, ao exemplo das roupas na vitrine e produtos nas prateleiras que devem ser trocados periodicamente, porquanto tudo tem um prazo de validade; nada está livre de se tornar inválido, nem o casamento, nem os objetivos, tudo está sujeito a uma eminente substituição. Nesta mentalidade não durável, em que o futuro é assassinado, ocorre uma disfunção psíquica somatizada, isto é, a mente precisa se readaptar a outras maneiras de sustentar a vida e na readaptação produz mal estar que se manifesta externamente tanto no âmbito pessoal quanto no social. Em um passado próximo, como exemplo, o Homem sonhava, fazia projeções de um bom futuro, a sua dificuldade estava em acreditar na possibilidade de eles se concretizarem, no entanto, hoje, a dificuldade não está na possibilidade de eles se realizarem, a dificuldade está em tê-los. Como sonhar se não há futuro, se nada é durável? Na perda da capacidade criativa de elaborar sonhos e fazer projeções futuras, a Humanidade se encontra em um vácuo no presente, muitos adoecem sem esperança, sem um sentido; afinal de contas, esperança é esperar e esperar é um presente com que o futuro nos presenteia, e que muitas vezes nos faz suportar as dores do agora.


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Mas antes que alguém questione, de fato, o futuro não existe concretamente, é apenas uma projeção da imaginação, todavia, não importa, a questão é que a mente humana é constituída por lembranças e imaginações de um tempo que se desvincula do agora, quando um desses suportes se desconfigura, a instabilidade crítica entra em cena, perde-se o rumo, porquanto o ponto de origem (lembranças) ou o ponto de destino (sonho) ocultam-se. Certamente que a vida humana é assim, sem origem e sem destino, por isso carregamos a sensação de estarmos perdidos, mas também é por isso que a mente se reserva à beleza de inventar e criar um futuro (destinos, sonhos...), para nos remover um pouco do vácuo e para sinalizar um norte na bússola do nosso barco à deriva. O comportamento social vinculado ao descartável é reforçado pela obediência a outro dogma que ordena estar atento as novas “oportunidades do Mercado". Vive-se instavelmente, sempre em busca de novas oportunidades mais vantajosas. Uma das áreas afetadas por este tipo de mentalidade é a dos relacionamentos conjugais que, na sua maioria, iniciam-se com um olhar nas novas possíveis oportunidades, por isto muitas relações caminham na instabilidade, insegurança e medo. Afinal, se outra oportunidade melhor aparecer, o serviço atual será cancelado; além do que, o fantasma da concorrência estará sempre ameaçando tomar o lugar do empreendedor no Mercado (relação conjugal). Tanto está presente esta mentalidade mercantilizada na vida pós-moderna que, corriqueiramente, alguém solteiro e refletindo sobre a sua condição conjugal, em invés de dizer: “estou solteiro”, diz: “estou fechado para balanço”, uma expressão profundamente empresarial. Ainda nesta observação cultural, na obediência ao mandamento “time is money”, o tempo adquire valor monetário e surge a cultura da ansiedade, da aceleração e do imediatismo, pois o tempo, tendo valor de moeda, não pode ser desperdiçado em hipótese alguma, ele precisa ser preenchido para ser produtivo e lucrativo. Interessante perceber que em torno deste mandamento ocorrem dois fenômenos econômicos que se chamam "aceleração e depressão", assim como foi presenciada a "grande depressão" em 1929, uma crise econômica de ordem mundial — uma queda financeira global. Dentro desses dois fenômenos, podemos perceber um pouco mais como o pensamento de um Sistema penetra o comportamento do Homem Social. A Sociedade que está sob a teologia do empreendedorismo da atual Religião dominante adquire, automaticamente, em seu modo de vida, a "aceleração e a depressão", polos extremos que formam uma Sociedade Bipolar. Não são estes os mais evidentes males psíquicos na Sociedade Contemporânea: a bipolaridade e a depressão, além da ansiedade que está intimamente ligada com o tempo da aceleração?! Quando se presta adoração (serviço) ao Sagrado capitalista a identidade cultural se transforma em torno do capital. O emprego, a família, a condição psíquica, as relações, a administração da renda, e todos os outros aspectos da vida se moldam na adoração (trabalho) e no


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cumprimento diário das leis divinas do Capitalismo. Em cada época e contexto, a identidade sociocultural da Sociedade humana teocêntrica se forma em consonância com as doutrinas do Sagrado a quem cultua.

Culto Social

ADORAÇÃO Integral Avodah (heb.) / Latreia (gr.)

- Trabalho diário (oferta da vida) - Cumprimentos dos mandamentos do sistema religioso - Ação realizada sob o medo da punição - Todas as ações humanas compõem uma adoração

HUMANIDADE RELIGIOSA

Identidade sociocultural


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9. O momento crítico e as transições sociais

A diversidade de pensamentos estruturados gera mudanças de comportamentos e, automaticamente, transformações que culminam em um momento de transição social, evidenciando desta forma um tempo crítico que, em qualquer instância da vida, é um estado que induz ao exercício do pensamento e da crítica. É aquele instante em que surge o questionamento: “E agora, o que eu faço?!”. É como mudar de casa e ficar inerte em meio a caixas, bagunça e desordem, sem saber onde colocar as coisas. A mudança não é a crise, a crise é não saber o que fazer na mudança. É como uma criança no primeiro dia de aula, o jovem em seu primeiro emprego ou como a mulher em sua primeira gravidez. Esta sensação de estar perdido vem à tona durante o processo de mudança, a direção muda bruscamente e ocorre a crise. Estar diante do diferente, do nunca vivenciado, do nunca sentido, causa desconforto. Este é o momento crítico, do grego transliterado krisis e traduzido como juízo, ou seja, entra em cena o autojulgamento para o estabelecimento de uma sentença, de uma nova posição e condição. A crise, deste ponto de vista, é uma oportunidade de juízo e autocrítica. É a Vida nos dando a chance de revermos o nosso viver, limparmos o nosso interior e de nos tornarmos mais maduros em nosso modo de Ser. A palavra crise em sânscrito é Kri, cujo significado é “limpar e purificar”. Ela, quando recebida como uma boa amiga, retribui a hospedagem limpando a nossa casa das coisas indesejáveis. Ela expõe as impurezas no juízo, tira as sujeiras escondidas debaixo do tapete e no autojulgamento estabelece a sentença de pureza, mas para que ela realize com eficácia o seu trabalho e seja libertadora e purificadora da alma e da Sociedade, é preciso recebê-la bem.

Pensamentos transicionais e o surgimento da Modernidade As transições, geralmente, alcançam o ápice nas descobertas que, por sua vez, incentivam invenções revolucionárias, sejam no campo da metafísica (ideias, filosofias e pensamentos) ou da física (material, tecnológico e concreto). A Renascença (XV-XVI), por exemplo, foi um período do pensamento humano que recebeu este nome pelo fato de ter havido um renascimento, uma volta às referências da antiguidade clássica: Gregas e Romanas. Com este retorno, aflora o Humanismo expressado na descrição no Templo de Delfos “Conhece-te a ti mesmo”, ou seja, o Homem, após a ideologia medieval de centralização da metafísica (deus) como Verdade essencial, em que os fenômenos eram apenas vistos como ações divinas, é colocado como o centro do Mundo, como o foco do conhecimento da verdade. Nesse momento da História Humana, o poder da Igreja é


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questionado, ocorre a Reforma e surge a Igreja Protestante; mas o fator culminante, segundo historiadores, foi a confrontação da imaginação da Idade Média pela matematização de Galileu (1564-1642), os fenômenos tido como divinos, espirituais, e portanto, inexplicáveis, foram estudados pela física. A matemática associada com as práticas das Grandes Navegações foi o ponto crítico que deu à luz a Era da Modernidade. Houve, então, a transição entre a Era Medieval e Moderna (XV d.C.) marcada pela queda de Constantinopla (1453 d.C.).

Pensamentos transicionais e o surgimento da Pós-Modernidade O Iluminismo (Séc. XVIII d.C.), aparece como herança da Renascença, foi um período do pensamento moderno conhecido como a época da razão, em que as religiões, história, regras, instituições, tradição, enfim, tudo o que envolvia a Humanidade foi colocado sob suspeita. Fez-se uso da razão para iluminar, jogar luz sobre as coisas. Houve um ataque à metafísica. A ideologia iluminista buscou um elo entre o empirismo e o racionalismo, e também se utilizou da imaginação trazida pela Renascença (XV-XVI), mas viu a imaginação como produção de imagens e ideias e não como fantasias e fábulas de crianças. Os grandes nomes desse período são: David Hume (17111776 d.C.), Immanuel Kant (1724-1804 d.C.), Jean Jacques Rousseau (1712-1778 d.C.). As descobertas iluministas produziram invenções industriais e econômicas, gerando um ponto crítico transicional. Com a Revolução Industrial, um novo conceito Social se configurou. As mulheres saíram de casa para as fábricas, iniciou-se uma revolução feminista, e com isso, entrou em cena um mal psíquico chamado de Histeria, o qual motivou o nascimento da Psicanálise de Freud (séc. XIX). Neste período também ocorreu a Revolução Francesa (1789-1799) influenciada pelas ideologias iluministas que ofereceram ideais para a reavaliação do Antigo Regime e para criticar as estruturas políticas, este foi o marco da transição entre a Era Moderna e a Contemporânea.

Mudanças significativas na contemporaneidade No presente tempo, em uma mistura de crenças e descrenças, configura-se uma Humanidade Pós-Moderna que não sabe muito bem quem é, perdida entre o velho e o novo, o antigo e a novidade. Estamos vivendo mudanças significativas, entre as que marcam o momento crítico estão a criação da pílula anticoncepcional, um ingrediente revolucionário no comportamento sexual social; o avanço tecnológico da comunicação, favorecida pela prensa móvel aperfeiçoada por Guttemberg no séc XV, usada para jornais no séc. XVIII e até que a comunicação social adentrou as frequências do rádio, da televisão e principalmente da internet no séc. XX. A maneira como a


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imprensa, sobretudo a sensacionalista, revela a realidade interferiu diretamente em nossa visão sobre ela. Como? Estando sob os dogmas da Religião Capitalista, a notícia precisa dar lucro, precisa vender. E o que vira notícia que vende? Acontecimentos extraordinários, ou seja, os não comuns, os não ordinários; aqueles fatos não corriqueiros que causam surpresa e espanto. Por exemplo, de quase sete bilhões de pessoas que no mundo vivem sem nenhuma ameaça de morte, o noticiário destacará que: “10 pessoas foram assassinadas hoje em São Paulo!”; de milhões de aviões que sobrevoam o Mundo, a notícia será: “1 avião caiu!”; de milhares de países que não têm nenhuma catástrofe natural, o jornal enfatizará: “200 mortos em um terremoto no Japão!”; de milhares de políticos em Brasília que trabalham honestamente, a mídia declarará: “10 parlamentares desviaram dinheiro público!”... O destaque jornalístico afeta a nossa visão do total. Acabamos generalizando o mau do mundo, e nos vemos incapazes de interferir, e pela sensação de incapacidade ficamos inertes. Porém, de 10 corruptos, existem mais milhares honestos; de um avião que caiu, milhões continuam no ar; de um terremoto, existem milhares de lugares sem caos natural; de 10 assassinatos, existem bilhões de pessoas que nunca viram uma arma de perto. Sob este olhar através da imprensa, a crença da Humanidade acerca do mundo a sua volta se veste de pessimismo e muda as rotinas. O medo do assassino, do avião ou dos políticos faz com que a maioria mude o seu comportamento: alterará os horários que sai de casa; não caminhará sozinho por alguma rua suspeita; não dará carona ou ajudará alguém necessitado, pois até que se prove o contrário, todos agem de má fé; viajará de ônibus ou de carro; e não votará nas próximas eleições ou preferirá que o mesmo permaneça no governo, “afinal de contas, não há diferença, são todos corruptos!”... Outro ponto a ser observado em relação ao avanço da comunicação é a acessibilidade. O sexo via internet está acessível a todas as classes sociais, e isto, com muita facilidade. Informações médicas, históricas, teológicas, entre outras que até pouco tempo atrás estavam restritas aos acadêmicos, hoje está acessível, e sem muitas restrições. Nesta acessibilidade desregrada, a aquisição de conhecimento nos coloca em risco de morte. O acesso fácil associado a uma mente imatura traz graves consequências. É como o pai que se descuida e deixa a sua arma de fogo na gaveta destrancada; a criança enquanto brinca com o seu amiguinho a acha e, sem saber para que sirva e sem a maturidade para o seu manuseio, aponta para o seu colega e o mata. Ou como a criança que encontra um martelo, instrumento de construção, e, na crença de que tudo é uma brincadeira, faz dele um meio de destruição. Ter informações e acesso fácil não é o problema, a problemática está na imaturidade (de adultos ou crianças) em lidar com o que se tem em mãos. Entre as muitas crenças contemporâneas, uma das que mais transformaram a Sociedade diz respeito a influência dos genes e DNA na vida do Homem. Segundo se tem relato, o primeiro a se propor a pesquisar sobre a genética, realizando experimentos com ervilhas e flores, foi o monge


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Mendel no séc. XIX. Em outra ocasião, em 1950 houve a descoberta da estrutura do DNA, e em 2000 foi apresentado um grande trabalho sobre o Genoma humano, com o objetivo de identificar o conjunto de todos os genes que formam os seres humanos. Dentro dessas conquistas da ciência, conclui-se que algumas doenças são causas de genes defeituosos, colaborando para amenizar alguns sofrimentos da humanidade. Por outro lado, gerou-se um pensamento na sociedade de que tudo é de causa ou herança genética, ou seja, todas as doenças que meus pais tiveram eu estou propenso a ter. Esta crença trouxe um peso emocional e psíquico sobre alguns que participaram dos sofrimentos de pais e mães na luta contra patologias, como a diabetes ou Parkinson. O entusiasmo em determinados discursos realizados por pessoas de posição elevada socialmente faz com que sejam recebidos como verdadeiros e absolutos. Este fenômeno é de certa forma natural em uma sociedade no auge de suas descobertas. Tudo, no entanto, ainda está em fase de estudos e pesquisas, nem tudo é 100 % comprovado, e nem tudo na vida humana se explica pelos genes ou DNA. Muitas questões encontram-se em aberto. Assim como muito se percebe na história social, em que determinadas épocas focam e explicam o mundo e os fenômenos por alguma recente descoberta, mas nas épocas posteriores, ao compreender novos estudos, o que se tinha como verdadeiro adentra outros trilhos do conhecimento. Com o passar dos anos, a herança genética não explicará todas as questões humanas, há muitos fatores que constituem um Sujeito no mundo, tal como a interação sócio histórica, em que muitos comportamentos e doenças são provenientes de ações sociais e de como nos envolvemos com a sociedade a nossa volta. A diabetes, tomando como modelo, tem um fator genético, mas também um fator social ocidental capitalista, em cuja alimentação existe um alto índice de gordura saturada e açucares. A pressão alta também pode ser muito mais social do que herança genética, assim como a depressão patológica que, em uma sociedade em transição e em crise, é ativada pelas condições sociais. O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) nas crianças do séc. XXI também é uma consequência das alterações sociais humanas. Não descarto, em hipótese alguma, as influências e as importâncias dos genes na ativação de algumas patologias, apenas acrescento que os fatores sociais, em certos aspectos, sobressaem-se sobre os genes. Hábitos, costumes e comportamentos de vida desencadeiam doenças que não estão necessariamente gravadas na genética hereditária.

Descobertas, invenções e arte – projeção do pensamento social Sobre a análise de tais mudanças sociais, deduzo que a produção de pensamentos estruturados e comunicados direcionam os caminhos da Humanidade e suas invenções. Por esta visão, as invenções são como espelhos que refletem o pensamento humano em cada época. A


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invenção de Hoje poderia ter sido inventada Ontem? Eu pergunto. Por que a câmera escura da fotografia não surgiu na Grécia antiga? Eles não tinham tecnologia? Seria este o motivo? Creio que não! Talvez a fotografia não houvesse surgido pelo fato de que a preocupação mental não estava no material, estava no mundo de Platão, no metafísico, no amaterial! Qual a razão, portanto, em retratar o mundo físico?! Tão embora conte a história que eles conheciam a luz e o seu mecanismo, não havia uma busca – uma crença – que despertasse a invenção. Não havia na alma um desejo de criação! Depois de séculos, a fotografia surgiu no Iluminismo, em seu empirismo e da necessidade de trazer luz ao mundo físico e, com a ampliação do Olho do Espírito, a Época das Luzes dá à Luz a um filho! Da busca pela imagem exata da realidade nasce o retrato nítido, a pintura do realismo. A invenção e a arte de cada Era é uma retratação do próprio Homem, é a sua alma que se projeta, é o Homem que a si mesmo coloca-se na tela. A Era atual tem o seu exemplo, onde as invenções que envolvem o Tempo refletem um grande desejo existente no Homem, o desejo pela velocidade que provém do medo da realidade. Esta é a corrida da contemporaneidade. Mas por que não o foi na era medieval?! Porque a ocupação do pensamento estava no espiritual e na alma eternal! Ora, se não tenho um final, para quê correr em prol de uma satisfação do carnal? Sem contar que a carne, enquanto desejo físico, era muito mal vista na Era Medieval. Contudo, veio o pensamento racional, desfocando o Eternal e fazendo surgir a velocidade em saciar a vontade, pois a luz disse que dura é a realidade! Com isso, o tempo se fez curto, a vida tornou-se CURTA e sugestionou: APROVEITE E CURTA! Do Iluminismo veio a lucidez que transformou a mente do Homem em temporal e que, consequentemente, inventou a era industrial, pois a vida agora pede rapidez e a aceleração na comunicação é essencial. O carro, o computador, o avião, o chip, o cartão, a televisão,... tantas invenções que trazem a projeção de um Homem que se tornou lúcido quanto a sua própria morte. Porém, a velocidade do súbito nos levou ao envelhecimento precoce. Outro reflexo, que da alma é visto, está na pintura e no seu retrato. Hoje, quase sempre, a arte é abstrata e sem sentido, demonstrando um Homem que se vê abstrato no contexto do individualismo, em uma particular interpretação do indivíduo e que sem forma definida existe como um quadro com apenas linhas, pois, por muito estar envolvido na corrida, falta-lhe tempo para fazer a pintura concluída. O abstrato tem o seu belo e a forma indefinida também é bonita. Não está fechada, está aberta sem a pressão da imagem certa. Sendo assim, não digo que esse ou aquele é feio, apenas que cada Era possui a sua esfera e que, em cada contexto, o Mundo vai sendo refeito! Penso que o que cabe a nós é tirarmos de tudo um proveito, de maneira a seguirmos uma boa voz e nos refazermos em nosso meio sem cairmos em um redemoinho feroz!


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Síntese

CRENÇAS Produção mental: Pensamentos, ideias, conceitos...

TEOLOGIAS

INVENÇÕES (Ações concretas)

MUDANÇAS (Transição)

Produção material: Instrumentos, ferramentas, objetos, arte, livros, medicina, ciência, congressos, realizações...

Readaptação de comportamentos

TRANSFORMAÇÃO SOCIAL


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10. Algumas teologias na configuração social

Podemos, facilmente, enumerar uma enorme variedade de teologias — ensinos, pensamentos, crenças... — que interferem diretamente na configuração da Sociedade teocêntrica humana, ou melhor, dentro do meu pensamento proposto nesta análise social, tudo o que move a Sociedade em uma transformação está relacionado aos pensamentos verbalizados que, por sua vez, são teologias emergidas de uma Humanidade em busca do seu Éden intrauterino. Quero, porém, apresentar de forma sucinta apenas quatros pensamentos (crenças e doutrinas): a crença na liberdade, as celebrações litúrgicas, a doutrina ascética e a crença na verdade imutável. Estes são suficientes para exemplificar as transformações consideráveis causadas pelo Homem religioso, no mais amplo sentido que implica a condição religiosa humana.


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10.1 A prisão pela vontade e a crença na liberdade

A crença na liberdade está presente em todos os pensamentos que articulam a Sociedade humana. Ela transforma e interfere visivelmente nas relações e nos comportamentos sociais. Não há quem não deseje esta condição de libertado. De uma forma ou outra, não há quem não carregue a sensação de estar preso. Em quê? Onde? Na minha suposição, esta sensação nasce com o evento natalino, no qual adentramos um mundo de vontades, ou melhor, de faltas. No útero materno desconhecíamos este percalço humano; a necessidade era desconhecida; não havia o desconforto da vontade; inexistia o desprazer da tensão e insatisfação; pelo cordão umbilical a satisfação era eterna, em um constante fluxo de sustento. No período neonatal encontramos o desamparo, aparece o Id que, em psicanálise, são as pulsões, impulsos agressivos ou instintos, cuja função é nos manter vivos. Neste período ainda não-objetal, a necessidade é conhecida, os estímulos são gerados, a tensão aflora nos nervos, o desprazer é sentido na vontade não cumprida. Nesta existência de uma vontade nascida da necessidade, o nosso Ego – Eu – está aprisionado entre a não realização (desprazer) e a realização (prazer). Em semelhança, para o filósofo Schopenhauer, a vontade é a raiz metafísica do mundo e da conduta humana; ao mesmo tempo, é a fonte de todos os sofrimentos. Para ele, a vontade é um querer irracional, inconsciente e geradora de dor. Neste âmbito, o prazer é o momento efêmero de ausência de dor, não havendo satisfação duradora. Assim, sendo a dor produzida pela vontade, o prazer encontra-se na ausência de vontade, isto é, nas minhas palavras, o prazer desejado está na consumação da vontade — momento em que ela deixa de existir. O desejo do nosso próprio coração, o anseio que nos consome e o querer que em nós faz habitação nos transformam em eternos prisioneiros em uma busca constante pela liberdade. Entre a tensão da vontade e o alívio da consumação, o nosso Ego (Eu) — a nossa alma — sente-se preso neste jogo inconsciente e ininterrupto. Lembro-me dos escritos da Torah, cuja história relata um povo escravizado e que clamou ao seu Sagrado para ser libertado dos maus tratos: “Decorridos muitos dias, morreu o rei do Egito; os filhos de Israel gemiam sob a servidão e por causa dela clamaram, e o seu clamor subiu a Deus” (Êxodo 2.24). A trajetória de Israel no Egito, neste caso, reproduz com fidelidade a Sociedade humana teocêntrica e religiosa que, aprisionada em suas vontades pulsionais e instintuais, clama ao seu Poder oculto (Sagrado) residente nos Sistemas religiosos (econômicos, políticos, clérigos). Esta imagem, em minha visão, faz alusão à primeira fase do recém-nascido, que, na etapa inicial extrauterina, geme, chora e se move em direção ao organismo materno (seio) para aliviar a tensão originada da vontade e da falta.


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A escravidão do povo israelita, segundo a tradição histórica, teve início no surgimento da necessidade pelo alimento. Foi conduzido ao Egito para saciar a vontade em uma época de sequidão! Assim diz o texto: “Sabedor Jacó de que havia mantimento no Egito, disse a seus filhos: Por que estais aí a olhar uns para os outros? E ajuntou: Tenho ouvido que há cereais no Egito; descei até lá e comprai-nos deles, para que vivamos e não morramos” (Gênesis 41.1,2). Por alguns motivos, que não vem ao caso, Israel habitou o Egito e, passado muitos anos, lá foi subjugado pelas forças egípcias. Depois de lá ter saído, no desprazer do deserto, o desejo foi redespertado pelo alimento que outrora havia gerado na alma uma sensação prazerosa, e assim, a escravidão lhe retornou ao coração. Coração que foi escravizado, não mais pela necessidade, mas pelo desejo fantasioso, pois Israel tinha comida, um maná que descia do céu, porém não era o que eles desejavam e tinham vontade: “E o populacho que estava no meio deles veio a ter grande desejo das comidas dos egípcios; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar e também disseram: Quem nos dará carne a comer? Lembramo-nos dos peixes que, no Egito, comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das cebolas e dos alhos. Agora, porém, seca-se a nossa alma, e nenhuma coisa vemos senão este maná” (Números 11.4-6). Percebo, desta forma, tendo como modelo o relato da Torah, que a vontade que conduz o Ego humano à sensação de prisão reside em duas instâncias: uma é a vontade pulsional e instintiva nascida de uma necessidade genuína (fome, sede, procriação...); a outra é a vontade que já não mais nasce da necessidade, e sim de um estado fantasioso do desejo, ou seja, são aqueles desejos decorrentes das interações sociais experimentadas e vivenciadas, tradições ou ensinos recebidos, como o desejo de casar, por exemplo; ele nasce de uma tradição cultural, e não da necessidade do instinto, a qual está somente no ato sexual. A vontade de realizar uma cerimônia no campo ou na igreja, elaborar uma decoração específica, fazer uma viagem na noite de núpcias, construir uma casa com piscina, ter uma relação afetiva diária, ter filhos e netos,,.. parte de um pensamento fantasioso fora da “real” necessidade. Em uma linguagem simbólica, é como dizer que poucos morrem por ter fome, a maioria morre por ter vontade pelo prazer, pois “fome” não é o mesmo que simplesmente “vontade de comer”. Eu posso estar em um restaurante, ter “a barriga cheia” e, mesmo assim, ter renascida uma vontade de comer um algo mais, instigado pela visão ou pelo aroma. Eu posso estar saciado, olhar uma propaganda televisiva e ter vontade de comer o chocolate que aparece na televisão. A servidão, nesta análise, é um resultado indesejável que começa na ansiedade por suprir o desejo incontrolável na inquietação da vontade. Prisão que a alma (psique) somatiza ao ser participante ativa num ciclo vicioso: — tensão gerada pelo estímulo da vontade (desprazer) — consumação (descarga da tensão) — alívio (prazer).

A liberdade Dionisíaca e os limites sociais


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Desde que o Homem existe, almeja-se a liberdade. Essa crença religiosa, visando o paraíso utópico do útero materno, justificaria a instalação da libertinagem? Afinal, se estamos presos em nossas vontades, soltá-las seria estarmos livres? Pensamento ilusório, a meu ver, porque as vontades sempre retornarão, a angústia ou o sofrimento da falta sempre voltará e a satisfação sempre será perseguida, essa é a prisão eterna da Humanidade — a vontade. Muitos, durante a história, autoflagelaram-se para matá-la, outros, isolaram-se; doutrinas diversas se formaram para tentar abrir os cadeados desta grade psíquica e carnal, e entre elas a que mais se percebe nos comportamentos sociais contemporâneos é a liberdade dionisíaca, cujo mandamento é: “Ser livre de verdade é fazer tudo o que se tem vontade. Sem restrição. Sem regra. Sem obrigação!”. Dioniso, o deus das manifestações orgíacas e do vinho95. Filho de Zeus e Sérnele. Habitava entre os mortais e sua mensagem era libertadora. O que os outros deuses do Olimpo proibiam, as suas celebrações permitiam. A exaltação da vida, segundo Baco, seu nome latino, precisava romper as regras do Destino, do Ananque96 — determinações do divino. Os seus rituais, suas orgias, seus transes propõem uma libertação dos Homens de suas dores e sofrimento 97. Sofrimento que assola a existência humana desde sempre. Muitos o têm como um aprisionamento da alma e do corpo, por isso, a mensagem dionisíaca de liberdade é facilmente aceita, ela traz a falsa sensação de ser livre na quebra das regras e dos limites. O fato é que a incorporação de tal crença na organização social atual causou uma grave falta de limitação. A recolocação do “não” no vocabulário e na estrutura mental é extremamente necessária; é fundamental e essencial para um bom convívio social e pessoal! Infelizmente, chegamos a um grau de “desordem” cuja solução tem sido inconsequente. Força-se ao limite, tornando o Homem, desta forma, mais delinquente. Há imposição e não instrução; obediência 95

“Às festividades populares e às celebrações artísticas juntavam-se, em todos os lugares de culto, ritos de carácter

orgiástico, através dos quais os fiéis entravam em êxtase ou numa bebedeira descontrolada. Estas manifestações, que na origem tinham dado lugar a sacrifícios humanos (como a lenda parece demonstrar), tinham como finalidade permitir ao iniciado incorporar a própria pessoa do deus, comendo do seu corpo e bebendo do seu sangue (simbolicamente: a carne de uma vítima sacrificada ou um copo de vinho).”Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Georges Hacquard. Traduzido por Maria Helena Trindade Lopes. 1996. 101. Sublinhado meu. TÍTULO ORIGINAL GUIDE MYTHOLOGIQUE DE LA GRÈCIE ET DE ROME (@) 1990, Hachette 96

Dentro do contexto da mitologia grega, Ananque é uma personificação do destino, uma deusa correspondente ao

inevitável. Representa um poder inalterável. 97

“[...] Finalmente, com a tradição órfica, ele assumiu o papel de deus supremo, senhor do mundo subterrâneo e

dador de uma felicidade eterna, a todos os seus iniciados. “Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Georges Hacquard. Traduzido por Maria Helena Trindade Lopes. 1996. 102. Sublinhado meu. TITULO ORIGINAL GUIDE MYTHOLOGIQUE DE LA GRÈCIE ET DE ROME (@) 1990, Hachette


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obrigada e não consciente! Mas não se constroem limites apenas forçando com chicotes sobre os ombros. Pode até funcionar com os cavalos, não com os animais sapiens, para esses, é preciso um pouco mais. A nossa alma é complexa demais. Cada um absorve de forma diferente a instrução e o ensino da responsabilidade pelas suas ações e infrações. É um trabalho difícil quando o deslimite social entra em um ciclo. Os limites são como uma porta estreita que conduz para a vida. Um caminho apertado que comprimi a entrada e a passagem. Pelas paredes estreitas não se pode carregar muitas bagagens. Em contrapartida, a remoção dos limites é o alargamento da porta para um caminho espaçoso que conduz para a morte. A porta larga permite a entrada e a passagem da multidão, por isso, é mais atraente a deslimitação, ela fermenta a massa, cresce e os Sistemas religiosos sociais se favorecem. Os que entram pela porta estreita dos limites saudáveis, na maioria, não interessam aos Sistemas da atualidade. Os padrões têm se afastado do formato tradicional das crenças da cristandade, o qual, por um tempo considerável, estabeleceu uma configuração social que por grande parte da população foi aceita. Mudando-se a configuração, gera-se uma crise de limites, pois o que era certo já não é e não se sabe até onde pode ir. Os avós saíram das mesas, a tradição não mais se transferiu. A internet apresenta novas tradições. A família se desconfigurou, agregados foram acrescentados. A instituição do Casamento, em parte, desacramentou-se. O sexo se desaliançou. Assim, o interesse dos Sistemas se transformou. Toda fase de transição gera uma crise de identidade, e toda crise de identidade gera uma crise de limites, porquanto ocorre um desconhecimento de si mesmo, uma perda de sentidos e orientação espacial. Hoje, a Sociedade está nesta crise transicional. Por isso, os deslimites são atraentes aos Sistemas e os limites são como ferramentas sem uso, válidas apenas em uma Comunidade de exclusos. Na Sociedade regida pela religião capitalista do consumo, aquele que tem limites saudáveis não dá lucro: não excede o cartão de crédito e evita os juros; não compra roupas desnecessárias; não gasta além do orçamento; não se preocupa tanto com o padrão estético; não exagera nos cosméticos; preserva o seu próprio corpo e o do outro; não necessita tanto de remédios e médicos; não excede na prática do sexo. Vivenciando este comportamento ético, não politicamente correto, — ético —, ele não fermenta a massa da Sociedade sacramentada na teologia capitalista. Tendo em vista a lucratividade, a crença na liberdade dionisíaca permanece na doutrina do Capitalismo. Até quando não se sabe, o que compreendo é que a Sociedade anda em ciclos e extremos. Enquanto em uma Era nada se podia, havendo proibição total de certos comportamentos e pensamentos, em outra, tudo é liberado, e assim, em um tempo é Tudo, no outro, Nada; num é Nada, e noutro, Tudo. Na Roma antiga o corpo estava solto para desfrutar todo tipo de prazer, o ilícito quase não havia, o limite quase inexistia e a crença na liberdade dionisíaca era latente. Talvez


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alguém naquela época tenha se perguntado: “Onde o mundo irá parar com esta libertinagem?!”. Alguns romanos até proibiram as Bacantes, — cultos a Baco (Dioniso) — mas o pensamento prosseguiu na mente e nos ritos místicos98. Futuramente surgiu a Era das Trevas limitando o corpo com a castidade. O ascetismo extremista novamente floriu na extrema espiritualidade, combateu a crença na liberdade e considerou-a uma pseudoliberdade! Hoje, revive-se a Roma antiga e sua forma de vida libertina Bacante com a exposição dos corpos nus, sexo livre e gladiadores nas arenas, porém sem armaduras e espadas, apenas com sungas e punhos cerrados. E no Amanhã, reviverá a Era da extrema espiritualidade combatendo e impondo novamente a castidade e acendendo a fogueira para o que se acredita, Hoje, ser a liberdade?

O direito igualitário e a transformação da Democracia Outro aspecto que abrange a crença humana na liberdade é a busca pelo direto igualitário. Algumas comunidades existentes na sociedade, principalmente aquelas que se sentem aprisionadas ou reclusas nos submundos sociais, estigmatizadas no corpo ou na alma, travam batalhas para alcançarem posições igualitárias, sob o pensamento de que estão em uma Sociedade democratizada. Entre muitas, podemos citar a comunidade feminista, homossexual e proletária como as mais evidentes atualmente. Todos desejam sair de debaixo dos jugos da legislação e ter os mesmos direitos perante a lei com o objetivo de serem reconhecidos como alguém perante a sociedade. Busca-se uma condição de igualdade. Mas como se tem buscado a igualdade? Em um ato revolucionário, como previu Marx ao falar sobre a ditadura do proletariado como a primeira fase de uma sociedade comunista? Alçando as vozes o mais alto possível sem promover um real debate? Ecoando discursos em alto-falantes, palanques e mídias militantes numa imposição de poder e autoridade irrelevante? Seria esse desejo de igualdade também uma perda de limites saudáveis? Representaria a liberdade de alguns e a reclusão de outros?

98

“A Itália foi um terreno privilegiado para o desenvolvimento destas manifestações, que se caracterizavam por um

desregramento desenfreado. No entanto, no séc. ii a. C., o senado romano, perante as desordens, os escândalos e os crimes que se cometiam durante os mistérios dionisíacos, decidiu interditar as "Bacantes" (nome destas festas). Entretanto, a tradição mística persistirá, preservada por seitas fiéis, e o deus Baco desempenhará um papel religioso e cultural de primeiro plano, desde o período de César até ao final do Império. “Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Georges Hacquard. Traduzido por Maria Helena Trindade Lopes. 1996. 102. TITULO ORIGINAL GUIDE MYTHOLOGIQUE DE LA GRÈCIE ET DE ROME (@) 1990, Hachette


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Lembro-me da história99 do hebreu Moisés, a qual reproduz essa busca violenta, não agressiva, violenta, pois ela não é apenas provocadora, ela viola o direito alheio sob a visão de liberdade. Nascido entre os hebreus e crescido entre os egípcios, Moisés, enquanto aprendia a sabedoria do Egito observava os seus irmãos hebreus sendo escravizados por um Sistema injusto, nada “democrático”. Num certo dia, tendo em seu coração que fora escolhido como libertador dos seus irmãos, assumiu por conta própria o exercício do seu direito. Reivindicou o seu poder de libertador, levantou a sua mão e matou um egípcio que feria o seu irmão hebreu. Esta aggadah (narração) me leva a refletir sobre o poder exercido sem maturidade, o qual transforma um libertador em assassino que, na busca impulsiva em defesa de um ideal de liberdade e pelo cumprimento de um direito, violenta a vida e produz consequências gravíssimas. É provável que esta autoridade usurpada e deturpada nasça da concepção de liberdade registrada em nossa memória intrauterina, a qual comunica a ideia de que estar em liberdade é não estar sob sujeição de alguma força humana. Neste dogma psíquico e inconsciente, não estar sujeito envolve ser independente, e para isso, algo é preciso: demonstrar autoridade / poder, que em grego é exousia e expressa bem o seu sentido — “liberdade para ser e agir”. Ora, se o Homem está preso em si mesmo, num mundo em que não consegue ser quem realmente quer Ser e que nem sempre consegue agir como quer, nada mais óbvio do que vestir-se de autoridade e poder, uma forma de exercer autonomia (auto – nomos: lei própria) para lhe compensar a sensação de falta de liberdade. Associada a autoridade está a independência, tão almejada e desejada. Lembremo-nos da criança que está no ventre sem a consciência da dependência, ela sai do útero pelas mãos de alguém, é carregada nos braços de outro, alimentada, cuidada... ela tem vontade própria, todavia, não a pode cumprir, porquanto está dependente de uma vontade alheia; quando começa a dar os primeiros passos, o que mais ouve é a negação “não toque aí, não vá lá, aí não...”, embora seja para o seu bem, o “não” sempre é recebido de forma dolorosa e agressiva, como algo que não é natural. Acometida pelas privações, ao crescer e aprender a fala, logo declarará ao seu tutor “você não me manda!”, como forma de manifestar o seu desejo pela liberdade; desejo que permanecerá vivo até a morte, quando então a encontrará de fato, sem estar sujeito à vontade de outrem. Enquanto não há esse encontro, o grande desejo pela liberdade que habita o inconsciente da alma humana, quando não domesticado, desperta uma corrida “maluca” pela autonomia e emerge os autoritarismos que se sustentam sobre um poder incisivo. Esta autonomia forçada se percebe neste anseio dos exclusos sociais em demonstrarem a injustiça que lhes é causada. Exigem o exercício da Democracia social. E neste ponto, é importante 99

Bíblia. Êxodo 2.1-14 / Torah. Shemôt 2.1-14


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trazermos à memória o início da Democracia na Grécia Antiga, na qual o cidadão da polis100 para ter a sua voz ouvida precisava ter sabedoria, ser homem, não ser escravo, entre outras características. Não era um cidadão qualquer quem decidia. Havia um arauto que declarava a seguinte pergunta: “Quem pede a palavra?”101. Qualquer cidadão dentro das discriminações poderia responder, porém poucos o faziam. Isto fazia da democracia ateniense uma forma de oligarquia (governo dos oligoi, “de poucos”). Poucos eram os privilegiados dentre o povo. Era a minoria que usufruía dos direitos da isegoria (assembleia), não se tinha total isonomia (igualdade perante a lei). O “igual para todos” não havia, mas na pós-modernidade soa como uma conquista, uma reinvenção moderna da Democracia, pois na antiga não havia direitos igualitários como hoje querem os humanitários. O Mundo democrático tem o seu significado do grego “demo / kratos”, traduzido como “Poder do Povo”. Conta o sociólogo Bauman que o filósofo Aristóteles, no período socrático, foi o primeiro a usar este conceito sobre as pessoas que se encontravam no mercado de Atenas. Mas “Tudo para todos!” foi como a resumimos e modificamos. Essa transformação da democracia, desvinculando-se da democracia representativa fundada pelos interesses capitalistas, seria o princípio da segunda fase da sociedade comunista, segundo o pensamento marxista, isto é, o caminho para a sua realização completa e plena, a consolidação de uma sociedade de iguais? Talvez. Mas sem previsões, o que se percebe no momento é que uma nova forma de democracia entrou no pensamento da vida cotidiana contemporânea, ela não apenas faz parte do cunho político, como também está refletida nos comportamentos diários da população e na constituição de uma nova mentalidade social. A vida íntima saiu do confessionário, abriram-se as portas em direção à rua e se tornou pública. O indivíduo se expõe ao coletivo sem barreiras, abre a sua intimidade de qualquer maneira. Nesta mudança, estaria a democratização social se transformando em uma democratização

emocional?

O

desejo

pela

desprivatização

capitalista

estaria

também

desprivatizando as emoções? A Vida estaria removendo o seu lado privado e obrigando-se a ser compartilhada? Esta seria a condição dos sócios da nova rede social que sai do campo virtual para o real? É um ângulo que pode ser observado: a maioria se acha no direito de invadir o espaço alheio tendo em vista uma democratização da vida. Palpita-se e se dá conselhos sem terem sido requeridos. No desejo pelo poder (kratos) imposto pelo discurso de liberdade nasceu um anseio descontrolado, um direito usurpado e novos comportamentos sociais. Então eu pergunto: Democratizar virou

100

Termo grego que designava um lugar geográfico, bem como a sua população.

101

Ver: Platão. Os Pensadores. Diálogos, o banquete, Fedon, sofista, político. Ed. Abril Cultural. 1979. VI-IX.


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sinônimo de deslimitar? A democratização ampliou-se para um ‘poder do povo’ exercido sobre a vida íntima do outro?

10.2 As celebrações litúrgicas e a elaboração dos calendários

O Homem teocêntrico em busca de um Poder oculto — ideal de Deus — intrínseco em sua alma fabrica crenças e pensamentos dos mais variados conteúdos em sua usina psíquica. Uma das produções mentais fertilizadas por estas crenças é a representação do ciclo infinito do tempo em um calendário. A Humanidade, desde o início da sua civilização, criou unidades de tempo solares ou lunares com base na observação dos astros ou em cálculos astronômicos; por meio destas representações concretas do Tempo intangível, a civilização humana se situa entre dias, semanas, meses e anos. A elaboração de um calendário e o estabelecimento de datas possibilita uma organização social, envolvendo a economia que, na antiguidade estava muito ligada às colheitas — fonte de sustento de um povo primitivo —, e a cultura, relacionada aos ritos e celebrações às divindades. Estas festividades sagradas, a meu ver, foi o ingrediente principal na construção dos calendários que regem a vida temporal humana. Na Era primitiva, assim como na Era Antiga e Medieval, o sistema religioso dominante era o clérigo, isto é, a liderança que conduzia o povo em suas decisões era constituída por sacerdotes, profetas ou ministros das deidades, aqueles que possuíam alguma habilidade especial capaz de viabilizar um contato direto com os poderes da natureza, divindades ou totens. Tais pessoas serviam de conselheiros para o patriarca da tribo, o rei ou o imperador, a fim de transmitirem os oráculos sagrados que conduziriam o povo à vitória em alguma batalha ou as boas colheitas. Sob este sistema clérigo, as deidades exerceram um papel fundamental na construção dos calendários, principalmente o Sol que, sendo o astro de maior poder para o Homem, transformou-se no ponto central da unidade temporal anual, a Lua, em menor instância, foi referência para os meses. Assim como contam os hebreus em seu poema do Gênesis (Bereshit), no qual a sua deidade suprema YHWH criou os firmamentos para dias e anos: Disse também Deus: Haja luzeiros no firmamento dos céus, para fazerem separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais, para estações, para dias e anos (Gênesis 1.14).


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O calendário litúrgico bíblico israelita Neste caso específico dos israelitas, a deidade que circundava o funcionamento do calendário era YHWH. Assim como escrito no livro de Êxodo (Shemôt), que coloca o episódio miraculoso da saída de Israel do Egito como o início do Ano: Disse o SENHOR (YHWH - ‫ )יהוה‬a Moisés e a Arão na terra do Egito: Este mês vos será o principal dos meses; será o primeiro mês do ano. Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: Aos dez deste mês, cada um tomará para si um cordeiro, segundo a casa dos pais, um cordeiro para cada família (Êxodo 12.1-3). Este foi o primeiro dia do mês e o princípio dos meses em celebração ao poder da divindade de Israel sobre os egípcios. Na contagem de dez dias corridos após essa data, iniciar-se-ia os preparativos da solenidade da Pessach – Páscoa (passagem). A partir desta festividade, o calendário hebreu estabeleceria o seu funcionamento, como desta maneira dizem os textos bíblicos. Festas fixas sacerdotais com sacrifícios, oferendas, ofertas, convocação e celebração sobre a colheita foram estipuladas tendo a Pessach (páscoa) como o ponto inicial de contagem dos dias. Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: As festas fixas do SENHOR, que proclamareis, serão santas convocações; são estas as minhas festas (Levítico 23.2); Dá ordem aos filhos de Israel e dize-lhes: Da minha oferta, do meu manjar para as minhas ofertas queimadas, do aroma agradável, tereis cuidado, para mas trazer a seu tempo determinado (Números 28.2). As santas convocações que fixavam os pontos de contagem do calendário israelita e convocavam a memória identitária do povo são: -Chag hamatzot (pães asmos / Pessach / primícias) — (Êx 12:17) Guardai, pois, a Festa dos Pães Asmos, porque, nesse mesmo dia, tirei vossas hostes da terra do Egito; portanto, guardareis este dia nas vossas gerações por estatuto perpétuo. (Lev 23:14) Não comereis pão, nem trigo torrado, nem espigas verdes, até ao dia em que trouxerdes a oferta ao vosso Elohim; é estatuto perpétuo por vossas gerações, em todas as vossas moradas. -Shavuot (semanas) — (Êx 34:22) Também guardarás a Festa das Semanas, que é a das primícias da sega do trigo, e a Festa da Colheita no fim do ano. -Yom Teruá (dia do sonido) — (Núm 10:8) Os filhos de Arão, sacerdotes, tocarão as trombetas; e a vós outros será isto por estatuto perpétuo nas vossas gerações. -Yom Kippur (dia da expiação) — (Lev 23:27) Mas, aos dez deste mês sétimo, será o Dia da Expiação; tereis santa convocação e afligireis a vossa alma; trareis oferta queimada ao Senhor. -Sucot (tabernáculos) — (Lev 23:34) Fala aos filhos de Israel, dizendo: Aos quinze dias deste mês sétimo, será a Festa das Tendas ao Senhor, por sete dias. Shabat (sábado / descanso) — (Êx 31:13) Tu, pois, falarás aos filhos de Israel e lhes dirás: Certamente, guardareis os meus sábados; pois é sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica. -Rosh Chodesh (princípio do mês) — (Núm 28:11) Nos princípios dos vossos meses, oferecereis, em holocausto ao Senhor, dois novilhos e um


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carneiro, sete cordeiros de um ano, sem defeito, (Núm 28:14) As suas libações serão a metade de um him de vinho para um novilho, e a terça parte de um him para um carneiro, e a quarta parte de um him

para

um

cordeiro;

este

é

o

holocausto de cada mês, por todos os meses do ano.

Tabela extraída do comentário da Torá. Marcelo Miranda Guimarães. Vaycrá. p. 166,167, grifo meu. Destaca a possível contagem do ciclo litúrgico israelita, conforme os dados bíblicos do Livro de Levítico cap. 23.

Estas datas sagradas marcavam o ciclo do calendário israelita nos tempos antigos da Mesopotâmia. Entretanto, com as influências dos povos vizinhos, a forma israelita de se situar no tempo foi modificada. Evidenciando, desta maneira, a maleabilidade das crenças que faz com que a Sociedade Humana esteja em constante transição.

O calendário litúrgico babilônico e judaico Nas civilizações politeístas e totemistas, o deus Sol, enquanto poder máximo acima da Terra, recebeu venerações e celebrações. A astronomia girou em torno do astro solar. Nesta crença politeísta, as deidades foram homenageadas tendo os seus nomes como referência dos meses e dias, eram celebrados em dias específicos, para que a terra fosse abençoada com fertilidade, houvesse boa colheita e a fúria dos deuses não recaísse sobre os homens. Sabe-se que a Suméria, a mais antiga civilização humana da qual se tem relato, é a possível precursora da astronomia, serviu de base para muitos calendários. A Babilônia provavelmente herdou os seus pensamentos astronômicos, os quais chegaram até a civilização contemporânea. É interessante o grau de influência babilônica na constituição dos calendários atuais. O calendário judaico atual, como exemplo, foi introduzido por Hillel II no séc. IV d.C. (360), e baseado no trabalho de um judeu da Babilônia chamado Rabi Samuel. As semelhanças são visivelmente percebidas.


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Deidade Babilônica 102

homenageada

Divindades sincretizadas da Suméria

102

Calendário

Calendário judaico

Babilônico (meses)

(meses)

1-

Anu

Nissanu

Nissan

2-

Ea

Ayaru

Iyar

3-

Sin

Simanu

Sivan

4-

Tamuz

Du’uzu

Tamuz

5-

Abzu

Abu

Av

6-

Elil

Ululu

Elul

7-

Ishtar

Tasriti

Tushrei

8-

Marduk

Arachsamna

Marcheshvan

9-

Lahmu e Lahamu

Kislimu

Kislev

10- Utu

Tebetu

Tevet

11- Sebiti

Sabatu

Shevat

12- Adad

Adaru

Adar

Anu: Considerado o deus dos céus, e governante sobre espíritos e demônios. O deus mais antigo do panteão

sumério, parte de uma trindade babilônia que incluía Enlil, deus do firmamento, e Ea (também conhecido como Enki), deus da agua. Ea: Considerado o deus da agua, e governante da terra. Sin: O deus‐lua, também conhecido como Nanna (Nannar) ou Sahar. Era o deus da cidade de Ur Kasdim (Ur dos Caldeus). A época do exilio do povo de Israel, foi o principal chefe do panteão babilônio, ao lado de Marduk. Tamuz: Também conhecido como Dumuz, era considerado o deus‐pastor do alimento e da vegetação, filho da deusa Ishtar. Abzu: Também conhecido como Apzu, era o deus do abismo e das aguas interiores. Tendo a forma de um dragão (como muitos dos deuses babilônios), teria sido morto por Ea, que posteriormente passaria a habitar em sua carcaça (o que explicaria as aguas sobre os abismos, na visão babilônia.) Abzu seria o esposo de Tiamat. Elil: Também conhecido como Enlil, teria usurpado o poder de Ea e teria sido o chefe do panteão babilônio por algum tempo, ate ser sucedido por Sin e Marduk. Ishtar: Conhecida como a deusa da sexualidade, da fertilidade e da cura. Filha de Sin (deus‐lua), era a esposa de Marduk/Nimrod, e mae‐amante de Tamuz. Marduk: O deus da magia e da sabedoria. O deus Marduk, que possuía a forma de um dragão, foi durante um bom tempo o chefe do panteão babilônio. Marduk teria sido o deus que matou Tiamat, uma deusa‐dragão, que teria originado a terra. Lahmu e Lahamu: deuses‐gêmeos, em forma de serpente, os primogênitos de Abzu e Tiamat. Utu: Um dos deuses do sol, filho de Sin, deus‐lua. Sebiti: Os sete deuses‐guerreiros, filhos de Anu, e liderados por Erra, o deus das pragas. Adad: O deus da tempestade, um dos filhos de Anu. (Extraído do estudo O Calendário Babilônico, por Sha’ul Bentsion. 2009. p. 4 )


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Além dessas semelhanças, o calendário judaico atual possui outras semelhanças, como a observação do início dos meses, a qual é feita pelo crescente visível, ou seja, pelo primeiro feixe da lua que aparece após a Lua Nova completa, quando ela é encoberta por inteiro.

A liturgia na nomenclatura dos dias Os nomes dos dias babilônicos em homenagem às suas deidades — Shamash – Sol; Sin – Lua; Nergal – Marte; Nabu – Mercúrio; Bal – Júpiter; Istar – Vênus; Ea – Saturno — também adentraram a contemporaneidade. MESOPOTÂMIA

INGLÊS

FRANCÊS

ESPANHOL

LATIM II

103

(deidades )

103

Dia do Sol (Shamash)

Sunday

Dimanche

Domingo

Solis dies

Dia da Lua (Sin)

Monday

Lundi

Lunes

Lunae dies

Dia de Marte (Nergal)

Tuesday

Mardi

Martes

Marti dies

Dia de Mercúrio (Nabu)

Wesnesday

Mercredi

Miercoles

Mercurii dies

Dia de Júpiter (Bal)

Thursday

Jeudi

Jueves

Iovis dies

Dia de Vênus (Istar)

Friday

Vendredi

Viernes

Veneris dies

Dia de Saturno (Ea)

Saturday

Samedi

Sabado

Saturni dies

Domingo: dia do Senhor. Dedicado ao Sol. O astro-rei era tudo para o homem primitivo: espantava as trevas,

aquecia os corpos, amadurecia as colheitas. Enfim, o Sol era Deus; daí a designação de Dia do Senhor entre os latinos. Segunda-feira: dia da Lua. Depois do Sol e sempre no céu, a Lua era a impressão mais forte recebida pelo homem. Influía nas marés, no plantio, no corte das madeiras, talvez mesmo no nascimento das crianças. Terça-feira: dia de Marte. Na escala dos poderes que governavam os céus, as trevas e os seres humanos, Marte pontificava. Era o senhor da guerra e, portanto, dos destinos das nações e dos povos. A sua influência era tão grande que, inclusive, no calendário romano lhe foi destinado um mês (Março). Quarta-feira: dia de Mercúrio. Era o deus do comércio, dos viajantes e dos ladrões! Mensageiro e arauto de Júpiter, protegia os comerciantes e os seus negócios; dada a importância que estas criaturas tiveram em todos os tempos e em todos os lugares, alcançaram para o seu deus a consagração de um dia da semana. Quinta-feira: dia de Júpiter. Honraria conferida ao pai dos deuses pagãos, comandante dos ventos e das tempestades. Daí a ideia de lhe atribuir um dia da semana, talvez para aplacar a sua fúria. Sexta-feira: dia de Vênus. Nascida da espuma do mar para distribuir belezas pelo mundo, Vênus representava para os pagãos os ideais da formosura, da harmonia e do amor. Daí a razão de merecer a homenagem de um dia da semana. Sábado: dia de Saturno. Saturno, deus especialmente querido dos Romanos, foi despojado, pelo uso e pelo tempo, da homenagem consistente em dar nome a um dia da semana. Em Roma eram celebrados grandes festejos em sua honra, as Saturnais, realizadas em Dezembro e que se prolongavam por vários dias [...]. (Extraído do artigo Calendário Gregoriano. Prof. Laureano Ibrahim Chaffe. Museu de topografia, departamento de Geodésia – UFRGS. 2009. Texto original de Manuel Nunes Marques - Diretor do Observatório Astronômico de Lisboa. p. 4.5)


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Na língua portuguesa não temos a influência direta das nomenclaturas babilônicas ou sumérias nos nomes diários, mas não deixam de estar ligados a uma liturgia eclesiástica. Os nomes dos dias no português provêm de um latim utilizado na liturgia católica, dentro da qual os dias da Páscoa eram feriados; surge daí a palavra “feira” observada nos nomes dos dias “segunda-feira, terça-feira...” se referindo ao dia condizente ao feriado. O dia de Domingo vem de Dominicus (latim), que significa “senhor”. Este nome foi dado ao dia do Sol, o primeiro dia da semana, pois se crê na liturgia cristã que o Messias, chamado Jesus, ressuscitou no Dia do Sol, no primeiro dia da semana, e assim, deram-lhe o nome de Dominicus, sincretizando Jesus e o deus Sol, colocando ambos como Senhor, ou seja, no dito popular: “uniram o útil ao agradável”. Enfim, o Dominicus foi transliterado no português como “Domingo”. O “Sábado”, por sua vez, vem do latim sabbath, procedente do Shabat (repouso) hebraico.

LATIM LITÚRGICO I

PORTUGUÊS MODERNO

Prima feria

Domingo

Segunda feria

Segunda-feira

Tertia feria

Terça-feira

Quarta feria

Quarta-feira

Quinta feria

Quinta-feira

Sexta feria

Sexta-feira

Septima feria

Sábado

As celebrações do Ano Novo Caminhando ao desfecho deste entendimento, acredito ser oportuno e curioso observarmos o surgimento de algumas celebrações de Ano Novo, a começar pelo calendário Gregoriano, utilizado por grande parte da Civilização mundial atual. Ele é um calendário Católico promulgado pelo Papa Gregório XIII no séc. XVI (1582); contém 12 meses e 365 dias, entre outras peculiaridades astronômicas que não vêm ao caso. Antes de ele entrar em exercício, vigorava o calendário Juliano, adaptado pelo imperador romano Julio Cesar que, acreditando em seu privilégio divino, fez uma homenagem ao seu nome colocando o mês Julho, acrescentou também o mês Januario (janeiro) em celebração a Janus, ídolo considerado o porteiro celestial que, em suas representações, possui uma chave em suas mãos, assim como as imagens de São Pedro católico, o guardião do céu. Janus


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também é o ídolo das origens, dos términos e dos começos, do passado e do futuro. Conhecido como o "deus das portas". Com a outorgação do Calendário Gregoriano no séc. XVI, o mês Januario (janeiro), em homenagem ao ídolo Janus, tornou-se o 1º mês do ano, justamente por ser a deidade romana com duas faces, uma para frente e outra virada para trás. O mês que "olha" para os dois anos, o que passou e o está por vir. No Calendário judaico atual, o início do ano é celebrado no mês Tshirei (7º mês – outono), com o nome de Rosh Hashaná ou “cabeça do ano”. Segundo a tradição, entende-se que neste dia o mundo e o homem foram criados, e coincide com o dia de Yom Teruá (dia do sonido), o primeiro dia do mês 7, em conformidade com a Torah. Portanto, de acordo com a tradição rabínica, é um dia de celebração a criação do mundo. Mas, ao que tudo indica, essa tradição tem influência da Babilônia, dos tempos em que Israel foi levado cativo ao território babilônico no séc. VI a.C. Na Babilônia, Mesopotâmia antiga, havia um festival chamado Akitu104, no qual se festejava o Ano Novo na primavera e no outono — época das colheitas. Este festival homenageava o ídolo Marduk, e também celebrava a Enuma elis105, um poema épico da criação do mundo, ou seja, nesse festival se comemorava o surgimento do mundo, semelhante ao Rosh Hashaná judaico, realizado no mesmo período do festival Akitu. 104

“No terceiro milênio AC, a população suméria do sul da Mesopotâmia celebrava o a-ki-ti-se-gur-ki, o festival do

plantio da cevada. Era celebrada no primeiro mês do ano, isto é, em marco/abril. No calendário babilônio, esse mês era conhecido como Nissanu (e no calendário judaico moderno ainda e chamado de Nissan). Uma vez que o festival era celebrado nos primeiros dias do ano babilônio, podemos chamá-lo de festival do Ano Novo. De fato, os babilônios antigos o chamavam de res satim, ‘principio do ano.’ O festival – ou melhor: conglomerado de festividades – era celebrado em dois lugares na Babilônia: no templo do deus supremo Marduk, a Essaguila, e na ‘Casa do Ano Novo’, que era situada ao norte da cidade. Os dois deuses centrais do festival eram Nabu e seu pai, o deus supremo Marduk, que no primeiro milênio AC, era normalmente chamado de ‘Bel’, Senhor, porque seu nome era considerado sagrado demais para ser pronunciado. No dia 4 de Nissanu, o sumo sacerdote da Essaguila (sesgalu) abria o festival, dizendo que o ano novo iniciara. Para a população, isto significa o início de um festival de uma semana. No mesmo dia, o rei ia ao templo de Nabu, onde o sumo sacerdote dava a ele o cetro real. Ele então viajava a Borsipa, uma cidade que fica 17 quilômetros ao sul da Babilônia e do famoso templo de Nabu. Lá, ele passava a noite. Ao mesmo tempo, o sesgalu recitava o épico da criação babilônia (Enumaelis) na Casa do Ano Novo. [...] O festival de Akitu continuou por séculos, e não apenas na Babilônia. Em Palmira, o templo de Baal foi inaugurado na mesma data do Akitu. No princípio do terceiro século DC, ainda era celebrado em Emessa, na Síria, para honrar o deus Elagabal. O imperador romano Hilogabalus (218-222) também introduziu o festival na Itália (cf. Herodian, Roman History, 5.6)” (Lendering citado por Sha’ul Bentsion. O calendário Babilônico. 2009. p. 5-7) 105

O Enuma elis é o mito babilônico da criação. Ele exalta a soberania de Marduque. Foi recuperado por Austen Henry

Layard em 1849 (de forma fragmentada) na Biblioteca de Assurbanipal em Nínive (Mosul , Iraque), e publicado pela George Smith em 1876. > G. Smith, "The Chaldean Account of Genesis" (London, 1876).


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Assim, sem mais comparativos, findo a minha colocação acerca das crenças litúrgicas que moldam os calendários da Humanidade religiosa.

10.3 A doutrina ascética, o Ego e a sexualidade

O ascetismo é uma crença que muito influenciou o Mundo quando o Cristianismo ainda era, na Idade Média, o Sistema religioso dominante. Tomo a liberdade de iniciar com uma citação pertinente de Fiorin (2007), a qual relata o motivo do surgimento do pensamento ascético: “A característica fundamental do pensamento grego está na solução dualista do problema metafísicoteológico, isto é, na solução das relações entre a realidade empírica e o Absoluto que a explique, entre o mundo e Deus, em que Deus e mundo ficam separados um do outro. Conseqüência desse dualismo é o irracionalismo, em que fatalmente finaliza a serena concepção grega do mundo e da vida. O mundo real dos indivíduos e do vir-a-ser depende do princípio eterno da matéria obscura, que tende para Deus como o imperfeito para o perfeito; assimila em parte, a racionalidade de Deus, mas nunca pode chegar até ele porque dele não deriva. E a conseqüência desse irracionalismo outra não pode ser senão o pessimismo: um pessimismo desesperado, porque o grego tinha conhecimento de um absoluto racional, de Deus, mas estava também convicto de que ele não cuida do mundo e da humanidade, que não criou, não conhece, nem governa; e pensava, pelo contrário, que a humanidade é governada pelo Fado, pelo Destino, a saber, pela necessidade irracional. O último remédio desse mal da existência será procurado no ascetismo, considerando-o como a solidão interior e a indiferença heroica para com tudo, a resignação e a renúncia absoluta.”106 O ascetismo vem do grego askesis “prática, exercício” e, segundo entende-se, é uma ramificação da filosofia de Platão (428–347 a.C.). Trata-se de uma filosofia que busca reprimir e renunciar por meio da prática contínua os prazeres terrenos e físicos para se alcançar uma maior espiritualidade e liberdade. Dentro da minha visão pessoal, tudo tem o seu lado bom quando está dentro de um equilíbrio. Há momentos em que precisamos ser ascéticos e exercitar a renúncia, o desapego e a indiferença para com algumas vontades e desejos que nos prendem e nos privam de alcançar algum bem saudável. Assim como também haverá momentos em que precisamos ser hedonistas, ou seja, reavivar desejos, vontades e prazeres, exercitar o bem-estar físico. O hedonismo (Séc. IV/V a.C.) é uma filosofia aflorada também no seio grego que parte do ponto em que o bem106

Fiorin, José Augusto (org.). O pensamento humano na história da filosofia. Ijuí: Sapiens Editora, 2007. p.10.


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estar físico e o prazer movem a vida. Portanto, ora precisamos renunciar desejos e vontades, ora precisamos reavivá-los ou reavê-los. Considero que há uma verdade contida em cada crença, filosofia ou doutrina, pois aquele que a “fundou”, muito provavelmente foi “sarado” por ela, porém, um remédio não serve para todos os organismos, há vezes em que o remédio precisa ser trocado ou dosado de forma diferente quando se trata de outra pessoa. O mal ou o não saudável caminha nos extremos dogmáticos. É esse aspecto do ascetismo que compreendo ser o mais evidente dentro dos contextos clérigos. Por volta do Séc. III d.C., com a ascensão de um cristianismo fundamentado na filosofia grega, aflorou-se uma hostilidade muito intensa para com a sexualidade humana e vida terrena. Evidenciaram-se práticas como: celibato, jejuns exaustivos e prolongados, autoflagelações e todo tipo de renúncia física e terrena em prol da mortificação da carne com a finalidade de calar a voz dos desejos e vontades. Assim foram interpretados os escritos do apóstolo Paulo, quando algumas vezes fala do mal que habita na carne > “Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis”(Romanos 8.13). Estaria Paulo promovendo um ascetismo extremista? Bom, há certa dificuldade para declarar com exatidão quando não se tem um contato direto e pessoal com o autor, porém, na minha particular concepção, acredito não se tratar de um ascetismo extremista, pois Paulo, sendo um hebreu e judeu da seita dos fariseus, dificilmente teria um pensamento ascético extremista, porque na sua maioria, os hebreus, com exceção dos essênios, tinham uma compreensão do terreno, do físico e do corpo como um bem recebido de Deus. A carne e o corpo referidos nos textos podem ser desejos desequilibrados, cumprimentos de vontades não saudáveis que afastam do bem proposto pelo divino, sendo assim, é possível que não esteja relacionado a uma renúncia física rigorosa. Noutro texto, por outro lado, é possível interpretar que Paulo esteja se opondo a um ascetismo rigoroso que se levantara contra a celebração das festas israelitas e comidas dentro da comunidade de gentios gregos >“Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados [...] Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: toques aquiloutro,

22

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não manuseies isto, não proves aquilo, não

segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas,

com o uso, se destroem. 23 Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade.” (Colossenses 2.16-23). Enfim, não se sabe exatamente quais foram as intenções de Paulo ou do texto que, por sua vez, são apenas cópias e versões, sem nenhum original autoral, nestes casos, cabe apenas a interpretação mais conveniente. No caso do Cristianismo Universalizado no Império Romano coube uma interpretação ascética rigorosa no texto aos


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Romanos e no texto aos Colossenses; interpretou-se se opondo, não ao ascetismo, mas às Leis do “Velho Testamento”, justificando a sua posição de desligamento dos elementos considerados judaicos. Esta maneira de interpretar percorre a Era Medieval (Séc. V - XV d.C.) e adentra a Era Moderna até os dias atuais, permanecendo em muitos contextos clérigos, onde há uma ênfase na “maldade” humana e um foco excessivo quanto ao pecado residente na carne. Segundo José Augusto Fiorin em O Pensamento Humano na História da Filosofia, para o filósofo Aristóteles, a razão pode dominar os desejos da carne, governar sobre as paixões, mas para Platão, a solução era a renúncia e solidão promovida pelo ascetismo.

A transformação do Ego humano O Ego humano sofreu grandes transformações por conta desta vertente filosófica ascética. Por muito tempo, ele esteve enclausurado. A sua voz foi considerada pecado, foi calada pelo regime ascético extremista, gnóstico e eclesiástico107. Por séculos, no mundo ocidental, o “eu” esteve enterrado sob o medo da sentença infernal do inquisidor. — “Sou pobre, nu e pecador!” - diz a Humanidade que, na busca pela santidade, foge da Vaidade. No entanto, a Vaidade escondida se revela em sua extrema santidade. Santidade que era considerada humildade. Contudo, os tempos mudaram e o “eu” de tão cabisbaixo precisou de uma “autoajuda”. Surgiu uma nova cultura. O “eu” foi convidado a sair das clausuras, erguer novamente sua voz e descer das torres do algoz. O discurso mudou. — “Eu posso, eu me amo, eu consigo, eu sou forte, eu sou rico, eu sou santo, eu bem me visto, eu bem me sinto..., eu..., eu...” Tal cultura nasce do sistema religioso dominante no séc. XXI, o Capitalismo, agora a doutrina e a teologia são outras. O “eu” ficou em evidência. Adornou-se e entrou em cena. A autoafirmação não encontrou resistência. A humildade de ontem, hoje já não é mais tão humildade assim, tornou-se sinônimo de depreciação, depressão e infelicidade. Alguém que hoje não se preocupa excessivamente com a sua imagem, na sua maioria, não é visto como um habitante na casa da simplicidade, mas como alguém tomado por tristeza ou inferiorizado na pobreza. Alguém humilde que não supervaloriza o seu “eu”, hoje, em grande parte da sociedade, é algum tolo deprimido. O orgulho e vaidade de ontem, hoje já não é, muitas vezes, reconhecido como vaidade, é visualizado como empreendedorismo, capacidade e felicidade. Alguém vaidoso que eleva a autoestima do seu “eu”, hoje é erigido ao status de feliz bem-sucedido. O ascetismo extremista de ontem, o qual renunciava as vontades do “eu” e sobrevivia sem muitos desejos, hoje, muitas vezes, é diagnosticado como um estado depressivo. O olhar tímido, ontem era 107

Termo que deriva do grego “ekklesia”, palavra usada para assembleias de ordem política ou comunidades

“religiosas, teológicas”. Transliterado temos “Igreja”.


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santo, hoje é antipático ou patológico, precisa ser curado. O olhar sobre si próprio, nos dias atuais, é forçado a ser ereto. O “eu” que ontem era crucificado e mortificado, hoje sai do sepulcro, é ressuscitado, exaltado e elevado à posição de deus. Tão endeusado está o “eu” que qualquer sinal de humanidade é recebido como condição indigna e fraca. A dor, o sofrimento e os sentimentos humanos são negligenciados em prol de um bem-estar sobre-humano. Qualquer esboço de tristeza é visto com medo, quase uma fobia, pois o “eu” pode adoecer e cair na depressão doentia. Ditadura do bemestar? Quem sabe seja o lado extremo da “autoajuda”. Sentir-se bem é a meta a qualquer custo? Há quem esteja disposto a pagar um preço alto por este cobiçado produto. Tanto se quer ajudar o “eu” que ele acaba sendo excessivamente cobrado, e em invés de adoecer por algum sintoma de tristeza, adoece pela asfixia e sufocamento. Nos dias medievais, ele era autoflagelado externamente para que se mantivesse na condição de “coitado”, a dor e o sofrimento o mantinha domesticado, hoje é ferido para que, justamente, saia da posição vitimizada e sofrida de “coitado”, e desta forma, o sofrimento de ontem, hoje seja evitado. Segundo pesquisas, o medicamento mais vendido nas listas das farmácias é o analgésico, isto me comunica uma Humanidade anestesiada que busca evitar as dores, emoções e sentimentos. Pessoas que se medicam com psicotrópicos e florais somente para evitar o “sentir”, e no anseio por evitar o mau sentimento, causam, sem discernimento, um efeito anestésico nas dores necessárias. Seria por este negligenciar o sentir que a Humanidade tem perdido o sentido? Quem sabe, pois o sentir e as emoções são mecanismos necessários para a sobrevivência. Uma Humanidade anestesiada sem sentimento e emoção e, principalmente, sem consciência da dor e do sofrer, é uma forte candidata ao caos e a violência; isto acontece porque a vida perde a percepção do limite e pode ser matada e ferida sem qualquer ressentimento, culpa ou arrependimento. Se alguém é ensinado a não sentir, violentará a si mesmo e ao outro e dormirá tranquilamente sem nenhuma consciência pesada, sem nenhuma dor na alma. Dentro desse ensino social, o sorriso constantemente nos lábios, hoje nem sempre é sinônimo de alegria, na maioria das vezes é apenas alguém sorrindo porque a humanidade está lhe filmando. “Sorria, você está sendo filmado!” - diz o contrato da Sociedade. Quando não há um sorriso, logo os olhos alheios desconfiam que algo está errado e cobram o cumprimento do contrato: “Por que não está sorrindo? O que aconteceu? Está bem?!”. Talvez como se, inconscientemente, dissesse: “Você está sentindo, é um transgressor!”. Obviamente que o sorrir faz bem, ele move músculos que transmitem ao cérebro uma mensagem positiva, mas sorrir o tempo todo pode também não ser saudável, pois se negligencia o tempo necessário do choro e do luto. Às vezes, o muito sorrir esconde uma alma fugitiva que não enfrenta as suas angústias e desafios e, assim, faz do sorriso um bom esconderijo. Sentir a dor e crescer no


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sofrimento também é preciso e estabelece limites. As lágrimas, no tempo oportuno, lubrificam as engrenagens da alma. A cultura da “autoajuda”, uma extremidade oposta ao ascetismo, nascida para combater os comportamentos ascéticos medievais, tem o seu lado que ajuda. Sim, não nego que tenha a sua importância no uso das palavras para gerar algum tipo de esperança. O seu uso excessivo, no entanto, transforma uma cultura; quando o “eu” é radicalmente endeusado, reverenciado e servido, caminhamos para um extremo egoísmo, em que o outro desaparece de diante de mim e tudo o que vejo é somente a minha própria imagem, e esta precisa ser exaltada, mesmo que isto signifique a diminuição da imagem do outro. Esta é a principal característica desse tipo de egoísmo: quando o outro é pisado para que eu seja elevado. Este egoísmo radical está em evidência em muitas falas do cotidiano, cujas palavras e verbos são regidos pela primeira pessoa do singular — “eu”. Entretanto, creio que é necessário ressaltar que o egoísmo, desvinculado do caráter excludente, é um elemento natural humano, um mecanismo de sobrevivência. O “Ego” não pode ser negligenciado e nem tão pouco supervalorizado, senão caímos nos extremos. Neste equilíbrio, inspiro-me a compor alguns versos que espelham um Eu que é antes de Todos, sem excluir Todos.

Antes do que Tu, Eu Antes do que Ele, Tu Antes do que Nós, Ele Antes do que Vós, Nós Antes do que Eles, Vós Antes do que Todos, EU! A tradição medieval sobre a sexualidade Muitas são as crenças que penetraram a sexualidade humana, para refletirmos sobre algumas delas sugiro algumas interrogações: Por que no séc. XXI ainda castro o reflexo do sexo? Por que se culpa a minha moral ao falar do sexual? Por que a visão da nudez confronta a minha ética com rigidez? Por que o pênis, os seios e a vagina são as únicas partes dos nossos corpos que por muito tempo na vida permanecem escondidas? Palavras que, até quando faladas, trazem um constrangimento quando ouvidas! Por qual motivo? Seria pela razão de as considerarmos tão íntimas ou por tê-las como as mais indignas? O mundo atual e tradicional teria recebido a herança do Medieval? Herança que suja o prazer sexual? Quais comportamentos poderia haver neste Novo Testamento, entregue aos filhos no decorrer do tempo? O cristianismo platônico e ideal? O ascético


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e o extremo espiritual? O metafísico e a busca pelo mundo celestial? A negação e a privação do desejo carnal? A doutrina do pecado original? O cinto de castidade? A pureza do ser e a santidade que na virgindade se encontram? O buraco no lençol que na noite nupcial evita a visão do órgão genital? O autoflagelo dos padres e a entrega do próprio corpo às chagas? O celibato para não unirse a carne, afinal, não seria a carne contaminante e fraca segundo as páginas redigidas nos monastérios? Pode ser tudo isso e muito mais! Pois ainda se percebe resquícios da tradição naqueles que vivem sob ela ou simplesmente ouviram falar dela. Resquícios que são como os resíduos que ficam no fundo de um copo e que, quando se coloca um novo líquido, acaba-se também ingerindo os pequenos resíduos até que o copo esteja novamente limpo. Resíduos que, quando o assunto é o sexo e a nudez do corpo, geram o desconforto, porém em uma Era em transição, onde a internet aumenta a exposição, o sexo estaria saindo do baú e querendo deixar de ser um tabu? Sim, o sexo está se despindo e ficando nu diante das câmeras! Eu não defendo a total exposição, pois a muita exposição traz a desvalorização e a desvalorização conduz a perda do interesse. Com isso, a potência tende a se transformar em impotência, literalmente. Sob o meu ponto de vista, compreendo que o sexo não precisa vir acompanhado com o autoflagelo, chicotes ou chagas de culpa. O sexo não é sujo e nem um absurdo. Ele grita dentro de nós, ainda que tentemos fazê-lo mudo! O que suja o interior de um copo? Não são os resíduos em seu fundo? Sim, o copo em si não é impuro, mas o que nele é colocado o faz ser. Da mesma forma, o sexo em si não é sujo, o que o suja são alguns resíduos do antigo mundo! Não que a antiga crença seja de toda má, não é; ela é quando age como “carrasca”, sendo má utilizada, pregando uma culpa máxima, assim como no confessionário a “alma impura” declarava: “MINHA CULPA, MINHA MÁXIMA CULPA!”, forçando-se às penitências para gerar uma suposta “cura”!

A pregação Homogênea O mundo dos antigos era um mundo machista, monumentos e obeliscos ostentavam o autoritarismo ereto do machismo. Pensamento tão machista que, na Grécia antiga, o homem ao homem preferia em suas relações mais íntimas. O tempo mudou e o mundo em transição entrou. A mulher saiu, transformou-se e a outro pensamento chegou. Causou em si mesmo um feminicídio para se defender do violento machismo, e, nesta sua posição, misturou-se com o modo de ser masculino. Nasceu a Globalização Feminina. Derrubou-se o ereto obelisco machista. O homem ficou com a mente perdida, sem saber como agir na “nova” medida. Ele se feminilizou; depilou os pelos do corpo e o grosseiro se alisou para se adequar ao “novo” tipo de vida. A diferença se tornou em igualdade, em tanta igualdade que se reconstruiu na sociedade as muitas formas da


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homogeneidade. Buscou-se desconstruir os muros do diferencial e, em consequência, modificou-se o referencial. Na mistura homogênea, desfaz-se a diferença! O homo, o unissex, o do mesmo tipo, vem à luz como um fenômeno social renascido, dos direitos iguais exigidos pelas mulheres sufocadas pelo machismo. Do que se trata o homo? O que serve para um também cabe no outro? Nesta visão do homo como um todo, mero detalhe é a união do corpo. A isto me dedico dizer que a homogeneidade é um fato que abrange uma ampla condição humana, está para além da orientação sexual, está nas indústrias, nas fábricas, nas casas e na estruturação do pensamento. A homossexualidade é apenas uma filha do Mundo homogêneo; se a Humanidade esteticamente unissex for colocada em debate para conceituá-la, certamente não haverá apenas uma verdade, uma só conclusão ou um único pensamento. Uma contradição na pregação homogênea, a qual me remete a pensar que a Humanidade em sua essência social hetera — diversificada —, sofre com tal pregação da padronização do Ser. Neste suposto debate, por exemplo, entraremos na Antropologia, na Teologia e na Psicologia; na Ciência e na Medicina; na Filosofia, Fisiologia e na Sociologia. Cada contexto trará o seu peculiar e particular conceito do que é belo e do que é feio, do que é moral e do que é ético para o sujeito. O mundo da tradição ascética, rapidamente, lembrar-se-á da antiga geração ao se deparar com esta complexa situação, medirá a atual sob a régua do certo e errado, segundo a sua teológica visão. Todavia, este sexo homogêneo pode ser um fenômeno social, uma condição comportamental, uma desconfiguração hormonal, psíquica ou espiritual. Ninguém sabe de fato, é variável! Sobre tal variação, a meu ver, convém a descrença no certo e no errado para um modo de crer mais ampliado, em que o foco não é exato, porém, revê o que não é e o que pode ser saudável, e isto vale para o hetero e para o homo. Estamos em meio a uma crise de identidade devido ao conceito da absoluta verdade, por isso, penso que a Humanidade na individualidade ou na coletividade precisa tratar com equidade e integridade as mudanças ocorridas na Sociedade, de modo que não seja a crença no único certo ou no único errado o motivo da difícil crise no interior do indivíduo ou no coletivo. Provavelmente, a questão não seja: “Isto é certo ou errado, natural ou pecado, aprovado ou reprovável?!”, e sim, “Como lidar com algo que está presente e que, possivelmente, não será retirado?! Onde estará o limite do ser saudável?! Como viver uma crença tradicional e conviver na transição sem ser gravemente violentado? Como suportar o idêntico, sendo heterogêneo em um Mundo que prega com afinco o homogêneo?!” Infelizmente, ainda somos como bebês aprendendo a andar com rigidez, dando um passo de cada vez, inseguros no desconhecimento deste Mundo — o desconhecido produz insegurança, não medo, insegurança; o medo está no conhecido, nas dores e lembranças registradas na memória. Mas quando aprendemos a fazer as perguntas adequadas, as


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respostas aos poucos vão sendo desvendadas, a cortina do Mundo vai se abrindo e os degraus da escada vamos construindo!

Os mitos na construção da visão sexual social Cada sociedade, em seu tempo, propõe-se a combater os mitos herdados de alguma sociedade passada. Em um desses combates, o deus Eros adormeceu o seu desejo, o Cupido guardou a sua flecha, Vênus escondeu os seus seios e Afrodite tirou as suas pérolas. Os mitos gregos foram aparentemente “desfeitos”. No entanto, criou-se outro mito e conceito, segundo o meu dito: o mito do sexo vampiro! Removeu-se o seu reflexo do espelho para que não fosse desejado e nem visto, foi apenas permitido para a procriação. Assim pensou o Homem em sua busca pela verdade. Mas este sexo vampiro é muito desejado, a negação e a proibição são como os ventos que levantam as chamas do desejo. Quem por ele é acometido, pune-se com dolorosos açoites. O Mito do Sexo que não morre internamente consome, suga a energia da vida, manifesta-se na calada da noite e se oculta da luz do dia. Reclusa-se diante dos olhos alheios, mas no íntimo não há o que o prenda. Entretanto, é interessante pensar em outro mito da pós-modernidade que, segundo uma faceta da Psicanálise, expõe a sexualidade como uma peça essencial e engrenagem fundamental na formação de uma Sociedade. É um mito que conceitua a sexualidade para além da união e da penetração. Origina-se no campo psíquico, reforça o prazer e a erotização em um contexto geral. Sim, a erotização enquanto pulsão de desejo. Esse mito eu chamo de: o mito do sexo libido! O qual nasce da desmitificação do Mito criado pela teologia do mundo antigo. Segundo o mito Freudiano, a Libido (o desejo) é a energia vital que impulsiona o Homem na construção da autopreservação psicossocial, ou seja, a sexualidade está no centro da vida psíquica e social da Humanidade. Como assim, central? Penso que quando se constrói um Mito Sexual — como se vê nos períodos da formação da Humanidade em que o homem e a mulher adquirem um novo agir comportamental — constrói-se também, obviamente, um novo formato social e psíquico. Se uma Sociedade, portanto, desencontra o equilíbrio, pode ser porque a sexualidade desandou no ritmo. O Mito Libido ajudou no surgimento de outro mito, pois quando a sociedade contemporânea e virtual desmitifica o mito medieval do sexo vampiro, colocando o seu reflexo novamente no espelho, acaba por criar outra mitologia sexual: o mito do sexo libertino! Pois para desfazer o mito antigo e provar a sua falsidade, é preciso se distanciar e criar uma extrema verdade. Quando se combate um mito, constrói-se outro! Mas o Sexo em sua essência é belo. Tão belo que foi considerado perigoso, removido dos lábios e proibido ao corpo! Ele, em seu ser é belo e, por isso,


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não precisa ser apagado o seu reflexo e calada a sua voz dentro de nós. No entanto, o seu rosto é neutro, e sendo neutro, é colocado em diversos contextos, e nisto, o que é belo pode se tornar feio. Em qual rosto o tenho colocado? Sob a máscara do vampiro, da libido ou do libertino? Precisamos ter cuidado para não ressuscitar as presas do animal faminto e, assim, sermos consumidos vivos! O cuidado no limite é preciso para permanecer em um equilíbrio, o qual é necessário em tudo o que compõe o nosso instinto, seja no comer, no beber, ou no sexo, pois o Instinto sem o limite da consciência moral, torna-se animal, violento e prejudicial!


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10.4 A crença na Verdade Imutável e alguns conflitos sociais

Há muito tempo, muito antes dos tempos. Quando atormentados por uma existência escura, inundada em questionamentos. Surgiu em nós o anseio por uma cura. Anseio que fez com que alcançássemos e tivéssemos apenas respostas obscuras, sem uma conclusão satisfatória e única. E mesmo assim criamos a chamada Verdade Absoluta ou Imutável para sanar as nossas dúvidas. Dentro deste contexto da busca religiosa por uma Verdade única que sacie todos os desejos humanos, proponho alguns questionamentos: Acaso a Verdade não estaria na origem e no interior das coisas? Não seria a sua origem que, desde os primórdios, o Homem anseia desvendar? Se assim for, então, a Verdade não seria absoluta, no sentido de ser única, mas estaria encoberta, pois a origem da Existência e das coisas é desconhecida. Inventam-se princípios e criam-se destinos nos quais se acreditam e, assim, os sofismas — meias verdades; palavras declaradas retoricamente e proferidas com muita convicção e argumentação a ponto de receberem imunidade contra os questionamentos e dúvidas — transfiguram-se em esperanças, sentidos e propósitos para a carente alma humana. Sabe-se, segundo a significação da linguagem, que um carro, por exemplo, é um meio de transporte com rodas e composto por ferro, plástico e outros elementos, porém, esta não é a sua Verdade plena e completa, e sim incompleta e relativa, em razão do ocultamento da origem do ferro, do plástico, das moléculas e de outros elementos que o constitui. A meu ver, a Verdade sobre algo, alguém ou um acontecimento é um conjunto de fatores, dentre os quais, alguns não se explicam, apenas são interpretados, sugeridos, especulados e acreditados, por isso, penso ser dispensável a dogmatização. Os sofismas não precisam ser aceitos como verdades imutáveis, pois as nossas verdades e valores são apenas crenças acreditadas. Além disso, tenho para comigo que a vida pode ser desfrutada com muito entusiasmo e beleza sem qualquer preocupação perturbadora e consciente sobre a sua origem, em outras palavras, é possível viver muito bem sem nenhuma resposta objetiva quanto a origem da vida, da mesma forma que posso ler um livro e desfrutar de seu conteúdo sem me perturbar com a sua procedência. Dificilmente alguém ao ler um livro se questiona de onde veio o seu papel, de qual árvore, de qual indústria, de qual gráfica; a ausência dessas respostas materiais e originais não interfere na leitura e no seu conteúdo intelectual. Infelizmente, grande parte da Humanidade, de forma consciente ou inconsciente, perturba-se com esta origem vital e absorve a crença como uma Verdade absoluta, imutável e intocável. Este posicionamento conduz o curso do Mundo na visão dissoluta de que só há um único! No Único Absoluto, o diálogo se dispensa, pois não soluta é a crença, e outras possibilidades não se pensa.


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Fazer o quê?! Este é o Mundo das desavenças. Entramos em grandes dificuldades por sermos a Humanidade que busca uma única verdade. Fazemos da nossa mentira uma verdade não sincera. Criamos um motivo para a guerra! Decorrente dessa crença absolutista, seja de ordem econômica, política ou eclesiástica, nasce o pensamento fundamentalista.

A teologia fundamentalista O fundamentalismo, em seu aspecto etimológico, significa um retorno ao fundamento. E nisto, nada há de errado ou mal, se não houve um comportamento sectário e agressivo. Hoje, quando pensamos em “fundamentalismo religioso”, logo pensamos no terrorismo islâmico como um exemplo único, no entanto, ele também é evidenciado no Cristianismo em episódios como as cruzadas, inquisição, os conflitos na Irlanda do Norte (Séc XX). Ou seja, pode-se dizer que o fundamentalismo, neste sentido sectário, é o lado mal e doentio da Religião que, além do lado bom de religare - religação, também partilha da palavra "religionem", cujo significado na antiguidade do mundo latino se referia a um estilo de comportamento marcado pela rigidez e pela precisão, dando-nos a ideia de uma visão absoluta que deve ser apregoada com rigidez e vivenciada com precisão. As tradições monoteístas, como a cristã, islâmica e judaica, são fundamentalistas na essência de seus ensinos. No caso, envolvem o nome de “Deus-YHWH-Alah”, onde a “minha visão” de “Deus” ou do “livro sagrado” (Bíblia, Alcorão ou Torah) deve ser imposta. O Fundamentalista, para agir em extremismo, baseia-se em verdades supostamente reveladas. Podemos citar alguns textos que facilmente servem de fundamento para um extremista. Bíblia: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14.6); “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Romanos 1.18); “Eis que os teus inimigos, Senhor, eis que os teus inimigos perecerão; serão dispersos todos os que praticam a iniquidade” (Salmos 92.9). Alcorão: “Ele foi Quem enviou o Seu Mensageiro com a orientação e com a verdadeira religião, para fazê-las prevalecer sobre todas as outras religiões; e Alah é suficiente Testemunha disso” (Al Fatah – O Triunfo, 48ª Surata, vers. 28); “Mohammad é o Mensageiro de Alah, e aqueles que estão com ele são severos para com os incrédulos, porém compassivos entre si. [...]” (Al Fatah – O Triunfo, 48ª Surata, vers. 29a). Não há fundamentalista somente nos sistemas clérigos, o Capitalismo como religião dominante também tem os seus extremistas fundamentalistas. Quando alguém te força a fazer uma faculdade para ter um futuro mais lucrativo, te impõe um cartão de crédito bancário ou te julga


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inferior por não ter bens materiais ou dinheiro também está agindo como um fundamentalista que busca colocar o seu fundamento; ele se posiciona contra e agride tudo o que se contrapõe a sua crença. Dificilmente o fundamentalista se contenta em expor sua posição, ele buscará impor e aniquilar o pensamento contrário, colocando em uma fogueira, explodindo um carro, atirando contra alunos de uma faculdade, como assim vemos nos casos mais extremos, ou verbalmente nos casos mais amenos, mas não menos violentos. Na mente da maioria dos fundamentalistas, não há um reconhecimento como tal, acreditam ser benfeitores para a humanidade.

O fundamentalismo na crença da Terra Santa Um exemplo de crença fundamentalista e violenta é claramente expressado no conflito pela posse da Palestina. Palestina, nome usado pela primeira vez pelo Imperador de Roma Adriano quando trocou o nome da Judeia por Síria Palestina em 132-135 d.C. na Revolta dos Judeus liderada por Bar Korchba. Palestina se origina da palavra Philisteus, nasce para indicar um “país de Filisteus”, fazendo referência ao povo que habitava a planície da costa do mar Mediterrâneo em Canaã, desde Jope até o Sul de Gaza, o qual, conforme a tradição judaica foi o maior inimigo do Israel antigo e que ainda se transfigura na imagem do povo Palestino-árabe atual. Lamentável que um pedaço de terra mergulhado em crenças e interesses políticos seja objeto de tão grande ódio, discórdia, injustiças e mortes de inocentes. Em 1947 a ONU propôs a divisão da Palestina em dois países: 56,47% para os judeus e 43,53% para os árabes. Os árabes extremistas rejeitaram e se desencadeou uma série de conflitos. Em 14 de maio de 1948 foi criado o Estado de Israel por Ben Gurion, e a partir deste histórico momento, desdobraram-se mais atritos. Em uma carta da OLP (Organização de Libertação da Palestina) datada de 01-17 julho de 1968, resoluções do Conselho Nacional da Palestina incitaram a liquidação da presença sionista por meio de uma revolução armada. CARTA DA OLP - Artigo 9: “A luta armada é a única maneira de libertar a Palestina. Assim é a estratégia global, não apenas uma fase tática. Os árabes palestinos afirmam a sua determinação absoluta e firme propósito de continuar a luta armada e trabalhar para uma revolução popular armada pela libertação de seu país e seu retorno a ela. Eles também afirmam seu direito à vida normal na Palestina e de exercer o seu direito à autodeterminação e à soberania sobre ela. Artigo 15: A libertação da Palestina, do ponto de vista árabe, é um dever e as tentativas para repelir a agressão imperialista e sionista contra o país árabe, e visa a liquidação da presença sionista na Palestina. Absoluta responsabilidade por esta recai sobre a nação árabe - os povos e governos - para com o povo árabe da Palestina na vanguarda. Assim, a nação árabe deve mobilizar todas as suas forças


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armadas, humana, moral, espiritual e capacidade de participar ativamente com o povo palestiniano na libertação da Palestina. Deve, em especial na fase da revolução armada palestina, oferecer e fornecer ao povo palestino com toda a ajuda possível, e apoio material e humano, e disponibilizar-lhes os meios e as oportunidades que lhes permitam continuar a exercer as suas principais papel na revolução armada, até se libertar a sua pátria.”108 Por outro lado, os Sionistas mantiveram a mesma posição de ataque e defesa. Desde os primórdios, o Sionismo vem eliminando os “intrusos” da sua Terra — Eretz Israel. Nas Escrituras sagradas de Israel, há um decreto divino de conquista, e por esta conquista está permitida a “exterminação” como se vê no livro de Josué. JOSUÉ 8.24-27: “Tendo os israelitas acabado de matar todos os moradores de Ai no campo e no deserto onde os tinham perseguido, e havendo todos caído a fio de espada, e sendo já todos consumidos, todo o Israel voltou a Ai, e a passaram a fio de espada. Os que caíram aquele dia, tanto homens como mulheres, foram doze mil, todos os moradores de Ai. Porque Josué não retirou a mão que estendera com a lança até haver destruído totalmente os moradores de Ai. Os israelitas saquearam, entretanto, para si o gado e os despojos daquela cidade, segundo a palavra do SENHOR, que ordenara a Josué.” Este pensamento de eliminação percorre em todas as batalhas para a conquista de Canaã. Estaria também nas batalhas de hoje entre Israel e os Filisteus modernos (Palestinos – árabes)? O povo árabe e o povo israelita sempre foram povos de dispersões, perseguições e diásporas, gerando, desta forma, um anseio por uma terra onde pudessem se estabelecer como nação e firmar identidade, um desejo compreensível e respeitável, porém, isto também fez com que surgisse um extremo nacionalismo por parte de alguns. Qual Terra seria melhor para criar os filhos, senão na Terra Santa (de acordo com a crença de ambos)? Segundo Moshe Maor, Rabbi Shlomo Alkalay Yehudah (1798-1878) e Rabbi Zevi Kalischer Hirsch (1795-1874) foram os primeiros a argumentar que o sionismo de assentamentos judaicos em Eretz Israel (Terra de Israel) foi uma fase preparatória para a vinda do Messias. O Sionismo Religioso é uma luta baseada na crença em um Messias que de Jerusalém reinará sobre a Humanidade. Assim eu me pergunto: Pelo o que matam e morrem os animais denominados irracionais? Por sobrevivência, por conquista territorial? E os animais chamados racionais, Homens fundamentalistas — Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) e Sionistas (Movimento de retorno a Sião) — pelo o que matam e morrem? Por virgens no paraíso, pela reconstrução de um Templo, por decretos divinos, por poder, por dinheiro, por Alah, por Adonay, pelo Alcorão, pela 108

De Leila S. Kadi (ed.), Basic documentos políticos do Movimento de Resistência armada palestina. Centro de

Investigação da Palestina, de Beirute, dezembro 1969, pp. 137-141.


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Torah, por um lar, por um território sagrado, pelo messias...? Por muitos motivos e quem sabe, menos pela sobrevivência. Quais seriam as diferenças entre os irracionais e os racionais? Os irracionais matam movidos pelo instinto e os racionais matam motivados pelas crenças! Guerras por territórios e conflitos pela independência sempre existiram, mas penso que este conflito no Oriente Médio tenha uma diferenciação relevante, diferença observada nas tradições de dois povos permeados em crenças profundas, enraizadas e difíceis de serem modificadas. Um pedaço de terra disputado por séculos, motivo de guerras e derramamento de sangue e compreendido, segundo a crença da tradição, como herança divina prometida ao patriarca Abraão. Quem seriam os combatentes desta guerra épica? Árabes versus judeus? Acredito que não! O povo árabe e o povo israelense conviveriam muito bem, como assim é visto segundo relatos de quem lá vive. Seriam os fundamentalistas do Sionismo versus os extremistas do Hamas? Creio que sim! Pelo fundamentalismo de alguns, o povo inocente sofre. Pela fé radical de ambos, erradica-se a vida de muitos. O estímulo da crença contida na tradição é uma forte estratégia dos fundamentalistas para arrebanharem soldados fiéis. A crença, principalmente a eclesiástica, é um meio muito eficaz na ampliação de um poder territorial. Este mecanismo de ascensão é observado no Império Romano, no séc. IV d.C., quando Constantino amplia as fronteiras do Império ao sincretizar o Cristianismo e ao transformá-lo na religião oficial romana. Reservo-me, neste momento, a um comentário interpretativo e pessoal sobre a Terra Santa, o foco dos confrontos. Se olhássemos para a mesma tradição causadora de conflitos, veríamos o Deus dos Hebreus dizendo ao libertador Moisés: “... não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é TERRA SANTA.”109. Qual local era este? Geograficamente era o Monte Horebe, na península do Sinai, não era a Palestina. Portanto, se olharmos por outro ângulo, teremos a seguinte compreensão da Terra Santa. A palavra “terra” usada no texto em hebraico é “adamah”, da qual procede “Adam - Adão” — Homem que de terra é formado. Portanto, não seria o Homem a TERRA SANTA para com a qual deveríamos ter o cuidado de não tocar indevidamente? Mas o que se tem feito? Enquanto se disputa um local geográfico, a verdadeira TERRA SANTA — o Homem — tem sido profanada, pisada por sandálias sujas com estilhaços dos caminhos da injustiça.

109

Bíblia. Almeida Revista e Atualizada. Êxodo 3.5


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A teologia Patrística e o seu fundamentalismo Segundo consta no livro O Pensamento humano na história da filosofia, Patrística “é o período do pensamento cristão que se seguiu à época neotestamentária, e chega até ao começo da Escolástica: isto é, os séculos II-VIII da era vulgar. Este período da cultura cristã é designado com o nome de Patrística, porquanto representa o pensamento dos Padres da Igreja, que são os construtores da teologia católica, guias, mestres da doutrina cristã. [...] A Patrística do II século é caracterizada pela defesa que faz do cristianismo contra o paganismo, o hebraísmo e as heresias. Os padres deste período podem-se dividir em três grupos: os chamados padres apostólicos, os apologistas e os controversistas” (Fiorin, 2007). Esse momento patrístico se estabeleceu na tentativa dos primeiros padres da Igreja católica em apresentar de maneira convincente as revelações e as crenças do Cristianismo às autoridades romanas e ao povo. Foram elaborados muitos textos sobre a fé cristã munidos da argumentação racional proveniente da filosofia greco-romana. Os pensamentos pagãos se misturaram ao cristianismo. Um de seus principais autores é o Padre Agostinho. Tal defesa fundamentalista da fé cristã adentrou as sociedades vindouras e as influenciaram com muitas atrocidades. Levantaram-se autos de fé que subjugaram e mataram muitos judeus, mouros e outros que foram considerados hereges por não professarem os credos da Igreja ou por questionarem a sua suprema autoridade sobre a terra. Ações e torturas horríveis foram praticadas em nome de uma crença absoluta. Não me aprofundarei na Patrística, apenas desejo, como em todo este ensaio, trazer como as crenças — de qualquer instância — comunicadas em palavras ultrapassam gerações e transformam a Sociedade Humana, para bem ou para mal. Neste caso, a maldade exercida em prol da institucionalização da fé e da crença geraram guerras e holocaustos. Encabeçado pela Igreja católica romana, em 1231 a.C., o papa Gregório IX deu início ao “santo ofício”. As trevas da Inquisição disseminaram as sombras e o terror pelo Mundo medieval até ao contemporâneo. Ela se estendeu por toda a Europa, e na penísula Ibérica ficou conhecida como Inquisição Espanhola (1478-1834). Segundo historiadores, a Inquisição foi considerada um importante instrumento na política chamada limpeza de sangue contra os descendentes de judeus e de muçulmanos convertidos e difundia um ideologia antissemita. Sabe-se que os candidatos a ocupação de um cargo no Tribunal do Santo Ofício deveriam comprovar a pureza do sangue, ou seja, não deveriam ter ascendência judaica, pois pela influência da patrística, principalmente a do Santo Agostinho (354-430 d.C.), que em sua obra Cidade de Deus propõe uma substituição de Israel pela Igreja cristã romana nos planos bíblicos, podendo ser interpretado como uma exclusão judaica nos propósitos divinos, dado o


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episódio da crucificação de Cristo, sobre o qual os judeus foram considerados culpados de teicídio (morte de Deus) e rejeição para com o Salvador. Da penísula Ibérica, com a expulsão dos judeus da Espanha em 1492, a Inquisição se expandiu ao território português. Acontecimento que foi marcado com muitas dores, visto o teor hostil do extrato de expulsão: E ordenamos previamente neste édito que todos os judeus e judias de qualquer idade que residem em nossos domínios e territórios, que saiam com os seus filhos e filhas, seus servos e parentes, grandes ou pequenos, de qualquer idade, até o fim de julho deste ano, e que não ousem retornar a nossas terras, nem mesmo dar um passo nelas ou cruzá-las de qualquer outra maneira. Qualquer judeu que não cumprir este édito e for achado em nosso reino ou domínios, ou que retornar ao reino de qualquer modo, será punido com a morte e com a confiscação de todos os seus pertences.110

Esta obra retrata a cena de expulsão de judeus da Espanha em 1492. (Xilogravura, Michaly von Zichy, 1880.) Os judeus de origem ibérica são chamados de Sefarditas e Marranos (hebr. “mar + anuss” / “conversos à força”), eram os judeus convertidos à força, mas não conversos de coração. Ambos mulçumanos e judeus que se convertiam eram chamados de Cristãos novos.

Conta-nos a historiadora Anita Novinsky, no documentário Caminhos da Memória – Trajetória dos judeus em Portugal, que D. João II (1455-1495), durante seu reinado em Portugal, iniciado em 1477, mandou pegar as crianças de 2 à 10 anos e lançar na Ilha de São Tomé (África) 110

Alvará de expulsão dos judeus da Espanha assinado em 1º de março de 1492 pelo Rei Fernando e pela Rainha Isabel

da Espanha. Traduzido do Inglês por Thiago Costa. Disponível em http://www.geocities.com/brasilsefarad/.


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para serem mortas pelas feras, e que o seu sucessor D. Manuel (1495-1521), tirou as crianças de 14 anos do seio de suas famílias para serem criadas pelas famílias cristãs. Os judeus que chegaram a Portugal após a expulsão da Espanha, em 1500, com a “descoberta do Brasil”, visualizaram uma esperança e receberam o auxílio de Fernando de Noronha — judeu e primeiro arrendatário do Novo Mundo — para serem levados ao Brasil com o propósito de ajudarem na colonização. Dizem, alguns pesquisadores, ser possível que grande parte da população brasileira seja descendentes de judeus cristãos novos, porém, devido as conversões e troca de nomes no batismo cristão, perdeu-se essa identidade. No entanto, um número considerável de convertidos continuou a praticar os costumes judaicos secretamente, e por esse motivo, atualmente ainda são percebidos em algumas famílias, mas isto cabe uma investigação mais detalhada, o que não convém neste momento. O conveniente aqui é percebermos o quanto uma crença modifica povos e nações, a ponto de criar e desfazer identidades. Esta influência inquisitorial sobre a tradição identitária de um povo é claramente observada no Extrato de Conversão de um judeu ao cristianismo:

“Eu, aqui e agora, renuncio a todo rito e observância da religião judaica, detestando todas as suas mais solenes cerimônias e dogmas, os quais outrora eu guardei e mantive. No futuro, eu não praticarei nenhum rito ou celebração relacionada com essa religião, nem qualquer costume do meu erro passado, prometendo não busca-la ou cumpri-la...[Eu] prometo nunca retornar ao vômito da superstição judaica. Nunca mais eu realizarei nenhum dos ofícios das cerimônias judaicas as quais eu fui ligado, nem nunca mais as apreciarem. [Eu] evitarei todo relacionamento com outros judeus, e manterei meu círculo de amizades entre apenas outros cristãos. [Nós não] nos associaremos com os judeus amaldiçoados, que se mantém sem batismo...Nós não praticaremos a circuncisão carnal, ou celebraremos a páscoa, os sábados, ou outros dias de festas relacionadas com a religião judaica...Com relação a carne de porco, prometemos observar a seguinte regra: De que se devido a um antigo costume, não somos capazes de come-la, não iremos por melindre ou erro, recusar as coisas que são cozidas com ela... E se em todos os pontos tratados acima fomos achados culpados de qualquer forma... [então] aqueles entre nós que forem achados culpados, ou perecerão pelas mãos de nossos companheiros, por fogueira ou apedrejamento ou, [se nossas vidas forem poupadas], perderemos imediatamente nossa liberdade, e vocês nos entregarão juntamente com toda nossa propriedade a quem lhes convier para a escravidão perpétua... [Eu] renuncio a toda adoração dos hebreus, à circuncisão, todos os seus legalismos, pão na levedado, a páscoa, o sacrifício de cordeiros, as festas das semanas, os jubileus, as trombetas, a expiação, os tabernáculos, e todas as outras festas hebraicas, seus


O É d e n P e r d i d o | 126 sacrifícios, orações, aspersões, purificações, expiações, jejuns, sábados, luas novas, comidas e bebidas. E [eu] renuncio a todo costume e instituição das leis judaicas...Em uma palavra, eu renuncio a absolutamente tudo o que é judeu...Juntamente com os antigos, eu excomungo também os rabinos chefe e os novos doutores malignos dos judeus...Se eu me desviar do caminho reto em qualquer modo e profanar a santa fé, e tentar observar a qualquer rito da seita judaica, ou se eu enganar a vocês, de qualquer forma, nos juramentos desse voto...Então que caiam todas as maldições da Lei sobre mim...Caiam sobre mim, sobre minha casa, e todos os meus filhos, todas as pragas que feriram o Egito, e para o horror de outros, que eu sofra em acréscimo, o destino de Data e Abirão, ou seja , que a terra me engula vivo, e depois de eu ter sido privado desta vida, serei ainda entregue ao fogo eterno, na companhia do diabo e seus anjos, compartilhando com os habitantes de Sodoma, e com Judas a punição do fogo; e quando eu chegar diante do tribunal do temível e glorioso juiz, nosso Senhor Jesus Cristo, possa eu ser contado naquela companhia a quem o glorioso e temível juiz, com semblante ameaçador dirá: Apartai-vos de mim, malditos para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos" (Dubnow, Simon. Manual de la história Judia. Buenos Aires, Ed. S. Sigal, 4ª Ed. 1955.)

A crença de Lutero e sua influência social fundamentalista Martinho Lutero (1483- 1546 d.C.) nasceu no seio de uma família pobre em Eislebe, Alemanha; na Era dominada pelas trevas, em que, segundo Orlando Boyer, pelo menos, um milhão de Albigenses111 foram mortos cruelmente na França pela ordem do Papa, acusados de heresia; e homens zelosos como Wyclif, João Huss, Jerônimo de Praga e João Wessália foram mortos pelas mãos da igreja romana por almejarem um retorno a sã doutrina. Mudou-se para Wittemberg, tornouse doutor em filosofia e padre. Contestou algumas posições da Igreja. Ficou famoso por ter afixado, em outubro de 1517, à porta da Igreja do Castelo, em Wittemberg, as suas 95 teses em oposição ao valor interesseiro agregado a cobrança das indulgências; ao que tudo indica, ele não as descartava e nem desconsiderava as penitências, tão somente defendia a ideia de que elas deveriam ser praticadas como arrependimento e tristeza pelo pecado. Segue algumas de suas teses: Nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo, quando disse: "Arrependei-vos", quis que toda a vida dos fiéis fosse arrependimento (1ª tese); Esta palavra não pode ser entendida como significando a penitência 111

Considerados os heréticos de maior importância dentro da igreja católica durante a Idade Média. Devem seu nome à

cidade de Albi, na França. O para Inocêncio II lançou a Cruzada albigense (1209 – 1229), que reprimiu seus seguidores de forma brutal. Só pequenos grupos sobreviveriam e, mesmo assim, logo foram perseguidos pela inquisição até fins do século XIV. (Boyer, Orlando. Heróis da Fé. Vinte homens extraordinários que incendiaram o mundo. CPAD. Rio de Janeiro. 2002. p. 30)


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sacramental, isto é, a confissão e a satisfação, que é administrada pelos sacerdotes (2ª tese); Nem também significa somente arrependimento interior, e mais, o arrependimento interior é nulo, a não ser que externamente produza variadas mortificações da carne (3ª tese); A pena [do pecado], consequentemente, continua enquanto continuar o ódio por si mesmo (este é o verdadeiro arrependimento interior), e continua até nossa entrada no reino dos céus (4ª tese); [...] Pregam a doutrina humana os que dizem que assim que a moeda tilintar na caixa, a alma voará para fora (do purgatório) (27ª tese); O certo é que quando a moeda tilintar na caixa, o lucro e a avareza poderão crescer, mas o resultado da intercessão da Igreja está somente na vontade de Deus (28ª tese) [...] Deve-se ensinar aos Cristãos, que a menos que tenham muito mais do que necessitam, devem separar o que é necessário às suas próprias famílias, e de modo algum desperdiçar dinheiro com indulgências (46ª tese); Deve-se ensinar aos Cristãos que a compra de indulgências é uma questão de liberdade e não um mandamento (47ª tese).112 Este ato de Lutero desencadeou uma grande Reforma, a qual chamou-se de Reforma Protestante, no entanto, tinha como finalidade promover um debate, conforme o costume, e não, provocar a criação de outra Igreja ou a sua excomunhão, pois ele acreditava na Igreja e na autoridade papal como representações legítimas de Deus sobre a Terra, inclusive faz defesa do Papa em suas teses: O Papa não pode remir qualquer culpa, a não ser declarando, e confirmando que ela foi remida por Deus; ainda que, para estar seguro, ele possa conceder remissão em casos que são reservados ao seu julgamento. Se seu direito de conceder remissão em tais casos for desprezado, o culpado permanecerá inteiramente sem perdão (6ª tese); Deus não redime a culpa de qualquer pessoa sem que Ele, ao mesmo tempo, a humilhe em todas as coisas e a traga em sujeição ao Seu substituto, o sacerdote (7ª tese). O reformador Lutero, mesmo sem ter a intenção, incentivou transformações consideráveis na configuração da Sociedade humana. Nasceram templos, dogmas, comportamentos, doutrinas e ramificações de uma Igreja romana reformada — vertentes católicas protestantes que hoje estão em quase todas as esquinas e televisões do Mundo. Lutero foi vítima e algoz das crenças dogmáticas fundamentadas pela patrística em seus concílios e aperfeiçoadas pela inquisição em seus autos de fé. Ele, para defender a sua fé cristã, escreveu textos sobre os judeus, os quais provavelmente também defendiam a sua fé no judaísmo,

112

Este texto foi traduzido do original em latim, utilizando grandemente o suporte de sua tradução para o inglês,

conforme publicada em: Works of Martin Luther: Adolph Spaeth, L.D. Reed, Henry Eyster Jacobs, et Al., Trans. & Eds. (Philadelphia: A. J. Holman Company, 1915), Vol.1, pp. 29-38


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nas palavras dos rabinos e do Talmude. Entretanto, os escritos do padre alemão serviram de base para a prática do ódio, principalmente para o exercício do nazismo de Hitler. Em 1523, Lutero escreveu um texto entitulado Que Cristo nasceu judeu, nele ele declara que Cristo era judeu e atesta o mal comportamento dos cristãos contra os judeus. Ele afirma que os judeus devem ser tratados com amor para que se aproximem dos cristãos e, assim, conheçam a sua doutrina e se convertam ao cristianismo. “[...] Tenho esperança de que, se lidarmos amigavelmente com os judeus, ensinando-os limpidamente a partir da Escritura sagrada, muitos se tornarão cristãos verdadeiros, retornando à fé de seus pais, profetas e patriarcas. [...] Daí por que aconselho que sejamos simpáticos com eles: enquanto fizermos uso de violência e de mentiras e os acusarmos de utilizar o sangue cristão para tirarem de si o mau cheiro, e não sei que outras futilidades, e os impedirmos de viver e de trabalhar entre nós em nossa comunidade, e os forçarmos a praticar a usura como poderão vir a nós? Se quisermos ajudá-los [aos judeus], devemos praticar com eles não a lei do papa, mas a do amor cristão, acolhendo-os amigavelmente, deixando que se desenvolvam, assumam uma profissão e trabalhem, a fim de que obtenham razão e espaço entre nós e ao nosso redor, ouçam e vejam nossa doutrina e vida cristãs, e eles estarão conosco de coração... Embora alguns sejam teimosos, que importa? Pois nem todos nós somos bons cristãos.” Mesmo sendo amigável, a intenção do Reformador era converter os judeus à fé cristã, assim como afirmava ser necessário os cânones da Igreja. Vinte anos mais tarde, em 1543, talvez tomado por um sentimento de frustração pela não conversão de alguns judeus ou pela insistência de outros na pregação das doutrinas judaicas, Lutero escreve Os Judeus e suas Mentiras, um tratado no qual contrapõe agressivamente o que anteriormente disse acerca dos judeus. “Havia-me proposto de não mais escrever contra ou sobre os judeus, mas como soube que estes infelizes não param as suas tentativas de aliciar, a nós, cristãos, para o seu campo, resolvi publicar este livro [...] Primeiro devíamos incendiar as suas sinagogas (ou escolas) e o que não queimar, devia ser soterrado definitivamente, para a honra de nosso Senhor e da cristandade, mostrando a Deus que não toleramos ofensas a seu filho, nem a quem o segue. [...] E tu, cristão, quando vires um judeu, pense assim: olhe esta boca maldita que todo Sábado ofende a Nosso Senhor [...] Quem quiser abrigar, tratar bem estas víboras diabólicas e ainda se deixar explorar — pois bem, que o faça, prenda-se as suas bocas, enfie-se nos seus retos, pratique a mesma idolatria para dizer que foi caridoso, que encorajou o demônio a blasfemar ainda mais contra o Nosso Senhor, [...] Devemos, antes de mais nada, como já dissemos, queimar as suas sinagogas com enxofre e fogo do próprio inferno, para que Deus testemunhe o fim destes lugares usados para ofendê-lo e ofender a nossa sincera devoção. Segundo, tirar-lhes os seus livros e escritos, que só usam para injuriar o filho de Deus, criador do céu e da terra. Terceiro, que se lhe proíba louvar ou agradecer a Deus, sob pena


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máxima. Eles não tem a nossa crença e convertê-los é impossível [...] Termino aqui, nada mais querendo saber deles, ou escrever sobre ou contra eles.[...] ”113 Estou certo de que os judeus também foram persuasivos para com os cristãos, tentando convertê-los ao judaísmo, como o mesmo Lutero diz: “Dou meu testemunho pessoal de como são os judeus. Três deles, doutos, me procuraram na esperança de me converterem ao judaísmo [...]”, entretanto, o rude teor das palavras luteranas motivou mentes perversas. É provável que o extrato Os Judeus e suas mentiras tenha sido um dos livros que inspirou Hitler ao bárbaro holocausto na 2ª Guerra Mundial, culminando no extermínio de aproximadamente 6 milhões (1,5 milhões de crianças) de judeus nos campos de concentração alemães, pois o texto foi citado pelos nazistas durante o Julgamento de Nuremberg para justificar a Solução Final. Outro filósofo alemão, Karl Eugen Dühring (1833-1921 d.C.), nascido em Berlim, também teria sido influenciado pelas palavras de Lutero e, automaticamente, motivado o seu contemporâneo Hitler. Em sua obra A questão judaica como questão de raça, nociva à cultura e à existência dos povos (1880), ele faz a seguinte declaração: “A origem do desprezo generalizado pelos judeus reside em sua absoluta inferioridade em todos as áreas intelectuais... Trata-se de uma raça inferior e degenerada. É tarefa dos povos nórdicos "arianos" exterminar raças parasitárias desse tipo, assim como costumamos exterminar cobras e outros predadores.” Para elucidar um pouco mais esta relação entre a crença cristã e as ações nazistas, proponho um esquema de comparação entre leis cristãs anti-judaicas e as leis nazistas antissemitas baseado no texto The Destruction of the European Jews, Prof Raul Hilberg - 1985 - Holmes and Meier - New York, o qual mostra que as leis nazistas não foram nenhuma novidade. Os concílios e os Sínodos já, muito antes do nazismo, elaboraram leis excludentes. Isto releva a minha intenção em expor o movimento das crenças e pensamentos pelas gerações e a sua construção de valores históricos em uma Sociedade essencialmente teocêntrica.

113

LUTHER, Martin. Os judeus e suas Mentiras. Revisão Editora. Porto Alegre – RS. 1993


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Leis Nazistas

Proibição de casamentos mistos e relações sexuais entre Leis para proteção do sangue e da honra alemães; 15 de cristãos e judeus – Sínodo de Elvira 306 Setembro de 1935

Proibição aos judeus de comerem junto com cristãos – Sínodo de Elvira 306 Proibição aos judeus de aparecerem nas ruas durante a Semana Santa – Sínodo de Orleans 538

Destruição pelo fogo do Talmud e outros livros 12º. Concilio de Toledo 681

Proibição aos cristãos de venderem ou alugarem bens imobiliários a judeus –Sínodo do Ofen de 1279

Exclusão dos judeus dos vagão-restaurante na rede ferroviária alemã; ministério dos transportes 30 de dezembro de 1939

Decreto proibindo acesso aos judeus às ruas em determinados dias (dias de festejos nazistas) 3 de dezembro de 1938

Queima de livros judaicos na Alemanha nazista

Decreto permitindo a venda forçada de bens imobiliários judeus – 3 de dezembro de 1938

Conversão de um cristão ao judaísmo ou retorno ao Um cristão convertido ao judaísmo corre o risco de ser tratado judaísmo de um judeu batizado é considerado heresia – como judeu (julgamento de alto Tribunal Regional) de Sínodo de Mayencia 1310 Konigsberg 26 junho de 1942

Esta mentalidade antissemita, ainda que não seja em um grau tão intenso e visível, está solidificada na forma de pensar de muitos cristãos atuais, cuja teologia da substituição sugerida por Agostinho é evidente em pregações e doutrinas que ensinam a exclusão das leis mosaicas, a supervalorização do Novo Testamento bíblico, entre outras interpretações que focam a criação do Cristianismo como a nova representação de Deus sobre a Terra, outorgada pelo Cristo e desligada de qualquer elemento do judaísmo. Enfim, é impressionante como o pensamento estruturado pelo Homem religioso (que busca a religação do cordão umbilical) modifica a forma da vida humana, altera e reorganiza a sua condição social. Enfim, tal ideologia chegou às fronteiras do Brasil pós-guerra, no governo de Gaspar Dutra (1946 – 1951). Segundo uma reportagem da Veja Online (02/02/08 VEJA 6 – Antissemitismo no Brasil: pior do que se pensava), feita por Reginaldo Azevedo, a historiadora Maria Lucia Tucci, da Universidade de São Paulo (USP), encontrou documentos no Itamaraty que comprovam a presença de antissemitismo no governo pós-guerra. Estes documentos oficiais, secretas e telegramas relatam a dificuldade de judeus, negros e asiáticos para entrarem no Brasil. No exterior a imagem passada era de um governo liberal, mas no oculto não era bem o que se tinha.


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Sabe-se que foi um brasileiro que presidiu a I Assembleia Geral da ONU. Oswaldo Aranha decidiu pela criação do Estado de Israel, tendo em vista a preocupação com os refugiados, principalmente judeus; pelo menos é o que se acreditava. A historiadora Tucci, sob as recentes descobertas, contesta essa crença: "A criação do estado de Israel acabou sendo um alívio para o governo brasileiro. Não pela questão dos refugiados, mas porque resolvia o problema interno da imigração dos judeus”. Outro historiador, Fábio Koifman, atesta: “Havia um projeto de branquear a população do Brasil baseado no princípio de que o atraso do país podia ser explicado pela má formação étnica de sua população”. No momento pós-guerra este projeto ainda estava com força total, pois o pensamento da existência de uma raça pura ainda vigorava e era disseminada um ideal eugênico como era comum nas universidades europeias e nos Estados Unidos, que acreditavam que haviam raças mais propensas para o desenvolvimento tecnológico e material que outras, e nisso tinham os judeus como usuários e os negros, e asiáticos como preguiçosos. Segue parte de um telegrama do governo Dutra encontrado no Itamaraty que consta na reportagem aqui indicada.

“A questão dos refugiados ainda não recebi ofício de 28 de dezembro, mas seria de interesse não admitir facilidades de entrada em massa de elementos exóticos. Ainda estamos a braços com o quisto da imigração japonesa e não desejaríamos agravar nossa situação com a entrada de elementos judeus, embora gente capaz e de trabalho, mas, em geral, com fraco poder de assimilação.”

A crença que exige cuidado Visto acima alguns fatos históricos imergidos em crenças fundamentalistas, tomo a posição de transmitir mais algumas palavras pertinentes e alertantes. Neste específico momento do meu fôlego fugaz, estou convicto de que não me é dado direito algum para desdenhar a fé, a crença ou a filosofia de vida de alguém. Crenças, a meu ver, são como remédios que a Humanidade necessita para as suas dores existenciais. Afinal, não seria o viver, em sua multiplicidade, um conjunto de crenças? Penso que sim. Há diversidade de crenças e filosofias, assim como há diversidade de


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remédios, cada qual com o seu objetivo e componente ativo. Existem remédios específicos para cada tipo de enfermidade, e são receitados para cada organismo dentro da sua individualidade. Não há um remédio único para “todo mundo”. Não há coletividade quando se trata de indivíduos. Existem medicamentos que em mim não farão efeito, mas no outro trarão bons resultados. Tomá-los quando não é necessário, ou em uma posologia incoerente ao tratamento, pode matar. No entanto, o remédio da crença, nem sempre, precisa da receita de um terceiro, ele está na liberdade do autoconhecimento e da automedicação, está para antes da Revolução Industrial (Séc. XIX d.C.). Por isso, é preciso ter cuidado para não impor ou, simplesmente, oferecer as crenças individuais e particulares ao outro, pois ele pode não precisar, ou pior, ter alguma reação alérgica ou vir a óbito. Todo remédio, natural ou industrial, exige cuidado. Contudo, há quem não tenha este cuidado. São os que invalidam o direito da liberdade da automedicação, industrializam e fazem da crença um produto comercial, e como usurpadores vestem um jaleco de médico, não sendo. Distribuem receitas sem o devido exame e sob diagnóstico impreciso. Esses, oportunistas, são os mercadores da fé, os quais se utilizam da fragilidade humana em benefício próprio. Em tempos de desesperos, em que aflora a busca humana pela esperança, a crença, a fé, desde a teológica até a tecnológica, tornase um produto lucrativo no Mercado. Da mesma forma em que crescem as indústrias farmacêuticas, crescem as indústrias das crenças que vendem promessas, curas, bem-estar e milagres. A fé jamais deveria ser institucionalizada, dogmatizada, industrializada, pois quando assim é modificada, deixa de ser fé e crença para tomar a forma de moeda de troca. A fé é um elemento natural, e não industrial. Quando ela é colocada sobre a esteira da linha de produção, transforma-se em um mal. Ai dos que dogmatizam a fé! Ai dos mercenários que, em seus merces (latim/comércios), superfaturam a mercê (favor, benefício, graça). Ai dos medievais que, em tempos atuais, renascem para cobrarem as indulgências e manipularem os Homens em suas crenças! Ai dos que ostentam impérios com fachadas de hospitais e fazem da dor humana a matéria-prima para os seus palácios de cristais!


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11. O conflito do Homem partido

Não há quem não tenha conflitos internos e crises existenciais. Entendo que uma das possíveis razões para esta condição humana conflitante se relaciona com o que vimos até agora — o desligamento da completude intrauterina. Para tentar desenvolver esta exposição, inicio a investigação observando que o equilíbrio e a harmonia, não obrigatoriamente, encontram-se sobre uma base. Base que, quando unida, é geradora da homeostase, do equilíbrio e do sorriso, por assim dizer. Como por exemplo, a água como fonte de vida, cuja fórmula química é duas moléculas de hidrogênio que se unem a uma de oxigênio. A união de dois hidrogênios forma a base de um triângulo que sustenta no centro o oxigênio. Observo também o meu corpo em movimento; dois pés que me sustentam, duas mãos que me seguram, dois ouvidos equipados com dois labirintos de sustentação: no mínimo dois pontos são necessários para um terceiro encontrar o equilíbrio. Nesta perspectiva sobre a harmonia composta essencialmente por três pontos, elaboro um entendimento acerca do Homem religioso que, na vida intrauterina, era um ser inteiro, sem divisões, sem a necessidade de uma busca por equilíbrio e harmonia e que, após o parto, tornou-se um ser partido, em partes, com um grande desejo por reuni-las com a finalidade de se reequilibrar na existência. Por muito tempo se compreendeu o Homem como um Ser constituído em Corpo, Alma e Espírito. Três pontos no sentido místico. Quando o Corpo com o Espírito entra em harmonia tal Ser é considerado uma Alma evoluída. O que é o Corpo, o Espírito ou a Alma não nos interessa no momento, cabe apenas dizer que assim se desenvolveu uma crença antiga sobre um Homem partido. Ainda na tradição antiga, em seus maravilhosos fascínios, entre os assírios ou egípcios114 e até mesmo em visões115 dos profetas bíblicos aparece a Esfinge e seu símbolo. A estátua imponente ou

114

Esfinge assíria de Khorsabad, chamada kerub. Ver: O Corpo Fala: a linguagem silenciosa da comunicação não-

verbal, por Pierre Weil e Roland Tompakow. Petrópolis, Vozes, 1986. 30ª Ed., 27 115

“Do meio dessa nuvem saía a semelhança de quatro seres viventes, cuja aparência era esta: tinham a semelhança

de homem.Cada um tinha quatro rostosd, como também quatro asas.As suas pernas eram direitas, a planta de cujos pés era como a de um bezerro e luzia como o brilho de bronze polido.Debaixo das asas tinham mãos de homem, aos quatro lados; assim todos os quatro tinham rostos e asas. Estas se uniam uma à outra; não se viravam quando iam; cada qual andava para a sua frente.A forma de seus rostos era como o de homem; à direita, os quatro tinham rosto de leão; à esquerda, rosto de boi; e também rosto de águia, todos os quatro.”(Ezequiel 1.5-10. Bíblia versão Almeida Revista e Atualizada)


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o Ser Vivente apocalíptico116 com cabeça de Homem, asas de Águia, tórax com rosto de Leão e abdômen e membros de Boi. Quatro faces apontando direções. Três expressões direcionando um ponto cardeal. Homem formado por três partes. Sendo uma a central que, pelo o que vejo na minha simples percepção, é o rei, o selvagem,

o imponente

Leão.

Desta

forma, temos

uma

representação que, respectivamente é: Razão, Emoção e Instinto; Intelecto, Eu e Prazeres primitivos compõem o Homem em seu íntimo. Seria, então, o Homem em equilíbrio, aquele que tem um bom relacionamento entre a sua águia e o seu boi? Seria o Homem em equilíbrio, aquele cujo Intelecto junta-se ao Instinto dando suporte ao Leão, o centro; o Eu, a emoção? Possivelmente. Na psicanálise também ouvimos sobre três pontos no contexto psíquico e que compõem o indivíduo partido no parto. O Id, o Ego e o Superego, ou em outras palavras: os impulsos, o Eu e a consciência moral117. Quando os impulsos convivem bem com a moralidade, o Eu está mais perto da “normalidade”. Essa trindade essencial da harmonia existencial, eu chamo de Tríade Vital. Como a tríade de um acorde musical cuja formação básica é de três notas que se transformam em um som harmônico quando as três, em uníssono, são tocadas. Somos, por assim dizer, indivíduos emotivos, intelectuais e instintivos. Transcorrerei um pouco sobre cada um desses aspectos individualmente. O Instinto — o boi, corpo e o Id — é a voz que nos remete ao passado, ao senso de sobrevivência, ao primitivo e à natureza; ao conforto, desejo, simplicidade, impulsos, querer, sexualidade,... Está ligada ao que foi gravado no inconsciente desde o nascimento. É a primeira voz a ser reconhecida na mente. Esteve conosco desde o primeiro dia de vida. Por esta razão, penso eu,, acha-se a mais experiente e quer muito ser ouvida. Em uma linguagem poética, penso que ela nos tem por filhos. Já o Intelecto — a águia, o espírito e o superego — é a voz do meio. Na interação é nascida, afina o seu tom nas conversas sociais e familiares e pelas experiências e vivências é constituída. Nela encontramos o ensino, o pensamento, o conhecimento, o senso de dever, a cobrança, o entendimento, a razão, a visão do mundo, projetos de vida e objetivos, trabalho e ativismo, moral, ética e tradição,... É nela que temos a causa dos conflitos. É ela que gera culpa e traz a dúvida, diz estar certo ou errado; é a voz do consciente. A segunda voz que aprendemos na

116

“O primeiro ser vivente é semelhante a leão, o segundo, semelhante a novilho, o terceiro tem o rosto como de

homem, e o quarto ser vivente é semelhante à águia quando está voando.”(Apocalipse 4.7. Bíblia versão Almeida Revista e Atualizada) 117

Esboço de psicanálise. Sigmund Freud. (1940 [1938]). Reimpressão de 1949, Nova Iorque, Norton.


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mente. O outro aspecto da nossa formação é a parte Emotiva — o leão, a alma e o Ego (Eu) —, a nossa terceira voz. Vem depois do Instinto e do Intelecto, já que após o nascimento o nosso Eu não está formado, ou seja, não existe o Eu ainda, não há diferenciação com o externo e seus objetos, nós nos vemos como parte de um todo. Quando crianças, mamamos no seio e achamos que é nosso, mas com o tempo, na relação entre o Intelecto e Instinto, o nosso Eu começa a ser constituído e esta voz passa a ser ouvida, ou melhor, sentida. É nela que temos a sensação afetiva, o sentido, o sentimento e o sofrimento. Como não sofreria em meio a essa “queda de braço”, onde de um lado está o Instinto oferecendo-lhe o querer, e do outro lado está o Intelecto o relembrando do dever? No Eu está a satisfação, a emoção, o conflito, a culpa, a dúvida, o reconhecimento, a aceitação, a identidade e a ansiedade. Voz ativa no subconsciente e que nos traz ao fato presente. Ela tem a habilidade de trazer fatos do passado e imaginações do futuro para o momento do agora. O Eu em conflito faz nascer o sentimento emotivo, aquele que almeja um sentido, quer ficar sozinho e conversar consigo. Ele busca o elogio e tem por maior anseio a satisfação do Ego. A aceitação lhe é sinônimo de bem-estar, momento em que o Eu se infla no peito. Existem sentimentos emotivos permanentes e emotivos casuais; existe o Eu que não consegue por nenhum momento se desvincular do conflito e existe o Eu que ocasionalmente entra em conflito e até que o conflito seja existente o Eu ficará mais em evidência para mostrar que está carente. Aquele, portanto, que é movido pelo Instinto (boi, Id), como vimos, tem o querer em evidência. É alguém que gosta do primitivo e que se sente bem na natureza. Seu anseio é pelo natural ao artificial. Preza pelo conforto do corpo, desde que este conforto não lhe exija muito esforço. Talvez este que se move pelo Instinto seja alguém mais propenso aos vícios, até mesmo aos que geram malefícios, porquanto nem todos os vícios são prejudiciais, e na verdade, todos têm vícios. Mas os que trazem malefícios podem ser a glutonaria, alcoolismo, dentre outros tipos. E sendo o Instinto representado no abdômen, local do vazio do umbigo, faz desse alguém, alguém que busca a reconexão com aquele aconchego e bem-estar intrauterino. Assim sendo, esses instintivos ou instintuais também se enquadram nos perfis mais espirituais ou místicos. Aqueles que possuem mais afinidades explícitas com a imagem de um sagrado e divino, ou seja, podem ser os que estão mais ligados aos Sistemas religiosos clérigos (cristianismo, islamismo, budismo...) e suas doutrinas (ascetismo, naturalismo, animatismo, esoterismo...). Mas lembro de que todos nós somos instintivos, pois todos têm um Instinto. A diferença, entretanto, está no aceitar ou não o que ele diz. No Mundo Ocidental atual, percebo que a satisfação do Eu está na obediência ao Intelecto, no ensino que se tem por certo, ao contrário da obediência ao Instinto que faz surgir a culpa e a consciência pesada, assim como as comidas engorduradas que geram mulheres culpadas ou como a conversa com o amigo que traz a culpa para quem poderia estar lendo um bom livro, ou utilizando o


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tempo para ganhar dinheiro. Muitos outros culpados surgem por não cumprirem o que o Intelecto tem solicitado e por cederem ao que o Instinto tem desejado. Isto ocorre devido a transformação da Sociedade atual ocidental, isto é, na sociedade antiga a matéria prima da vida era a natureza, elementos do meio ambiente (instinto), atualmente a matéria prima para a vida humana são elementos industrializados, forjados pelo conhecimento (intelecto), em outras palavras, o Intelecto é mais valorizado do que o Instinto. No Sistema religioso capitalista, dominante sobre a civilização contemporânea, o conhecimento é o bem mais lucrativo. O indivíduo que pelo Intelecto é conduzido prende-se ao ensino recebido, sustenta-se no conhecimento sobrepondo o desejo do Instinto. Na contemporaneidade, como vimos, o Intelecto exerce maior poder sobre os nossos interesses, mas mesmo que a voz do Intelecto seja mais insistente, a voz do Instinto é mais saliente, mais estridente, pois ela nos remete ao primitivo, desejo de bem-estar e ao aconchego intrauterino. É a primeira voz gravada em nosso inconsciente, por isso induz a nossa mente. Porém, na era atual, capitalista e ocidental, ela tem sido inibida pela tecnologia e acréscimo artificial, pois ironicamente, ao mesmo tempo em que desejamos o conforto e o bem-estar sugeridos pelo Instinto, temos que trabalhar em dobro no que não queremos e não gostamos. A Religião Capitalista diz que o oferecido pelo Instinto precisa ser conquistado pelo Intelecto e, desta forma, a voz do desejo primitivo continua gritando aos ouvidos gerando cada vez mais pessoas em conflitos e crises de ansiedade. São muitos os deveres colocados e pela cobrança executados. Por mais que o Instinto seja saliente, o Intelecto se tornou mais forte na Era do Conhecimento, e na divergência dessas duas vozes surge a dúvida no caminho alimentando a ansiedade no íntimo. São tantos os desejos apresentados como deveres que os desejos dos quereres se fazem sucumbidos. O querer já não sabe mais o que quer, está embrulhado nos muitos afazeres. Essa Voz do Capitalismo é uma das vozes da Voz Externa. Voz geradora do conflito entre o dever e o querer, o Intelecto e o Instinto. Voz que é ouvida nos Sistemas religiosos econômicos, clérigos ou políticos. Se expressa pela boca da mídia, família, amigos, conhecidos ou desconhecidos. Apresenta uma única verdade. Implanta e sugestiona os afazeres e os deveres. A Voz Externa levanta as chamas das vozes internas. É a quarta voz que bombardeia o Intelecto provocando uma guerra civil e vil. Sentimo-nos, deste modo, em conflito quando a nossa Tríade entra em desequilíbrio. Em outras palavras, quando pela influência da Voz Externa a Razão do Intelecto não concorda com a Vontade do Instinto, desestrutura-se o Eu. A emoção se desalma. Entra em cena a inquietação, um momento oportuno para a reflexão com a finalidade de buscar a harmonização e a conscientização entre Instinto e Razão, sustentando o Eu; concordando, fazendo concessão e tendo assim uma possível reconciliação. O conflito começa no Intelecto, e logo, pelo Intelecto, pela aquisição de outro ensino ou estruturação de outra crença (pensamento), pode haver a diminuição do conflito. Ou


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seja, o Intelecto confronta o Instinto trazendo a inquietação no Ego e, portanto, creio que remediamos o conflito quando percebemos mais a voz do Intelecto e o dever que ela impõe ao Instinto. Nessa ampliação da percepção me faço mais consciente para que, por meio de outra instrução e em um constante exercício, possa fazê-lo substituído. Não falo que sempre há um substituir e que o Intelecto não se deve ouvir, falo que, quando houver conflito, faz bem refletir sobre a condição do Intelecto, se o que ele absorveu provém de uma boa fonte ou se vem de uma crença fundamentalista (rigorosa) de algum Sistema religioso para, desta forma, encontrar uma ponte entre o Intelecto e o Instinto, resultando no que alguns chamam de Paz Interior, felicidade, ausência de culpa, estado de graça ou inundação do amor (paraíso-útero materno). É muito provável que o Intelecto e o Instinto não andem para sempre de mãos dadas, pois não podemos retornar a integridade do ventre, mas, seja pelo tempo que for, desejo que eles se beijem e se abracem calorosamente e deem bons momentos de tranquilidade à alma. Para findar este esclarecimento, recordo-me dos versos do Livro sagrado judaico-cristão: “Amarás ao teu Deus com todo coração, alma e entendimento!”118(Mateus 22.37). Estas palavras colaboram para ilustrar o Homem religioso que, desde o seu parto, busca a integridade da harmonia. Harmonia que se expressa na relação íntima com o Poder oculto (organismo materno - ideal de Deus). Temos, assim, o texto bíblico trazendo esta imagem de harmonização entre o Homem e o seu ideal de Poder oculto (deus). Uma relação de amor que, quando ocorre uma integridade relacionada ao verbo amar, a comunhão sagrada se estabelece e o fluxo da sensação intrauterina flui. Essa ação amorosa e harmoniosa, segundo o texto, está sobre um tripé, tal como até agora vimos. Observe que, no amor — estado de equilíbrio —, a alma (Eu) está sustentada entre o coração (instinto) e o entendimento (intelecto), trazendo-nos a imagem que vimos inicialmente: o Leão (alma) assenta-se entre o Boi (coração) e a Águia (entendimento).

118

Palavras expressadas na oração judaica do Shemá Israel (Ouve Israel!). Manifestação do Deus “Echad – Um”.

Fundamento do monoteísmo. Conforme a tradição judaica e hebraica, essas palavras foram recebidas por Moisés na descida do monte Horebe e transmitidas ao Povo de Israel. “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força.” (Deuteronômio 6.4. Bíblia versão Almeida Revista e Atualizada). Foram também repetidas em Mateus 22.37: “Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Bíblia versão Almeida Revista e Atualizada).


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Síntese

HARMONIA = EQUILÍBRIO OU DESARMONIA = CONFLITO

INSTINTO

INTELECTO

1ª voz interna Passado Inconsciente Id Corpo Boi

2ª voz interna Futuro Consciente Superego Espírito Águia

Sobrevivência, Desejo (comer, beber, sexo), Natureza, Primitivo, Vontades, Querer, Conforto, Bem estar, Simples, Tranquilidade, Sensação intrauterina, Impulsos...

EU 3ª voz interna Presente Subconsciente Ego Alma Leão Sentido, Sofrimento, Sentimento, Satisfação, Afeto, Ansiedade Identidade, Emoção Área de conflito, Aceitação Reconhecimento, Culpa...

NASCIMENTO

Relação entre intelecto e Instinto

Dever, Projetos, Objetivos, Pensamento, cobrança, Conhecimento, Razão, Entendimento, Visão do Mundo, Tradição, Moral, Experiências, Vivências, Ensino recebido, Ativismo, Trabalho, Crenças...

INTERAÇÃO SÓCIOHISTÓRICO-FAMILIAR

Interior do indivíduo religioso em busca do ventre

VOZ EXTERNA VOZ DO CONFLITO Sistemas religiosos (econômico, clérigo ou político. Expressa pela boca da mídia, família, amigos, conhecidos ou desconhecidos. Apresenta uma única verdade. Implanta os afazeres e os deveres. Conflita o dever com o querer, o intelecto e o instinto.


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12. A Justiça na diversidade de crenças

O Homem religioso, no anseio e no desespero por encontrar alento para a sua angústia existencial, cria muitas crenças, pensamentos e ideologias, tornando a Sociedade humana diversa, inversa e controversa, com muitos caminhos para um único objetivo — o retorno à vida intrauterina — o Éden perdido. Muito ainda poderia ser dito sobre este tema; falar sobre religião, deuses, psicanálise, sociedade e humanidade é algo muito abrangente, sempre haverá novas crenças a respeito. Encerro, porém, a minha investigação e deixo uma última reflexão oportuna diante da diversidade produzida pela religiosidade humana, a qual a princípio parece ser a causa dos males da Humanidade, o que para mim não é, a não serem os casos fundamentalistas e extremistas. Tendo em vista esta diversidade, eu pergunto: A existência humana estaria em uma condição melhor se as relações sexuais e amorosas estivessem apenas no campo hetero; se todos — segundo a tradição — casassem e todas as mulheres tivessem filhos; se não houvesse roubo algum ou assassinato; se não houvesse mídia, televisão, indústrias ou capitalismo; se não houvesse tecnologia, celulares ou computadores; se tivéssemos somente uma crença, um pensamento, um totem, uma mentalidade...? Estaríamos, enquanto humanidade, melhores? Teríamos uma Sociedade humana em harmonia se não houvesse nada que considerássemos mal, imoral, amoral, falha ou erro? Um estado “grego” de perfeição seria a solução? Tal estado, para mim, é utópico, é platônico, metafísico, transcendental, irracional. Um dos maiores causadores do nosso mal-estar, na minha concepção, não está no avanço tecnológico, na homossexualidade, na falta de casamento, na independência feminina, na diversidade de deuses e doutrinas, na descrença no Deus da Bíblia ou nas sectárias notícias da mídia, e sim na ausência da Justiça, isto é, na Injustiça. A lacuna causada pela falta da prática da justiça transforma a existência humana em fardo, difícil de ser carregado. Corriqueiramente buscamos e nos atemos às verdades, mas na busca esquecemos e negligenciamos a Justiça. Justiça que, nem sempre, está presa às verdades. Ela usa vendas, porque sabe que, às vezes, ela também precisa fazer vista grossa para ser justa. Verdade. O que é a verdade? Ela está na tecnologia ou na ausência dela, na homossexualidade, na heterossexualidade ou na bissexualidade, no capitalismo ou no socialismo, no cristianismo ou no espiritismo,...? Muitos tentaram encontrá-la, alguns acreditaram ter achado, apenas acreditaram. Ela não seria relativa aos fatos, contextos, ambientes, visões, tradições, ...?


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Assim diriam os gregos sofistas119: A verdade daqui pode não ser a verdade de lá. Eu diria que a Justiça está para além da Verdade. Sabe-se, sem dúvida, por exemplo, que um assassino, preso em flagrante, cometeu tal ato hediondo, mas o seu interior ninguém conhece, portanto, o ato é certo, a verdade, não. Ela está, em parte, oculta. A veracidade do fato é reconhecida, atesta-se o acontecimento verídico, contudo, a verdade, em parte, está escondida sob os véus, tornando-a apenas uma crença. A Justiça reconhece o ato, entretanto, não consegue sob as suas vendas ver toda a verdade. Portanto, a Justiça não existe para desvendar a verdade em uma absoluta certeza, existe para balancear, equilibrar as medidas, promover bom senso, incentivar às devidas concessões, estabelecer um bom julgamento entre as diferenças. A Justiça está na chuva que cai sobre todos os Homens, no Sol que se levanta sobre toda a Humanidade. Em um mundo, onde as verdades são ocultas, a Justiça é um elo de salvação. Não é assim que diz o profeta da antiguidade em seus oráculos sagrados, “... nascerá o sol da justiça, trazendo salvação120 nas suas asas;...” (Malaquias 4:2)? Quando a Justiça brilha como um Sol sobre os Homens, as suas asas se estendem trazendo salvação. Salvação que, no texto hebraico, é ‫ מרפא‬/ marpe’, “cura, saúde e recuperação”. Embora o “mal” seja parte de sua natureza, a Humanidade não é má. Não quero pensar que seja, prefiro acreditar que ela está apenas em um período doentio de fragilidade e de perda de homeostase. É como o corpo que sente a mudança climática, perde imunidade e fica gripado. Assim, a Humanidade é afetada em sua estabilidade ao sofrer a transição do Tempo cultural e social. Neste caso, ser justo é ser um agente de cura e saúde. E o que é a cura, senão o restabelecimento do equilíbrio? Ser justo é uma responsabilidade de todos os que habitam um “Mundo doente” — em busca de recuperação — e diverso. Ser justo, segundo a palavra hebraica, é tsédec / ‫צדק‬, “estar na posição correta, ser aplainado, sem tortuosidades, que é tido como um padrão de medidas”. Tem o sentido de uma “régua”, algo retilíneo que não tem curvas. Sendo assim, alguém justo é alguém que caminha de forma ereta, isto é, em sobriedade, ponderado, que não pende para nenhum dos lados, que não vê somente o seu lado ou só o do outro, mas, de igual modo, vê os dois. Quem sabe esta condição se reflita na figura de 119

Filósofos gregos do período Sistemático do pensamento grego (Séc. IV a.C.). Seus ensinos se baseavam no

relativismo e ceticismo. A verdade, para eles, era relativa e abusavam da retórica com o pensamento de que não importava o que você ensinasse, se você ensinou bem, isto então é uma verdade. Eram, de um modo geral, individualistas. 120

/ ‫מרפא‬marpe’ - 1) saúde, recuperação, cura 1a) recuperação, cura 1b) saúde, proveito, são (referindo-se à mente) 1c)

cura 1c1) incurável (com negativa) Strong, James: Léxico Hebraico, Aramaico E Grego De Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2002; 2005, S. H4832


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Noé121, uma personagem bíblica cujo modo de vida foi justo em meio aos seus contemporâneos. Em sua época, conta a sua história, a Sociedade era violenta122, deslimitada e corrompida; estava doente. Ele, em meio a essa Sociedade, caminhou como um agente da justiça123 e pelo seu justo viver “condenou124” a sua contemporaneidade. Condenou? Sim, condenou. Mas o que significa condenar? Segundo o texto grego, condenar é “Katakrino / κατακρινω

125

” que quer dizer emitir

julgamento contra e, pelo bom exemplo, tornar a maldade do outro mais evidente e censurável. Portanto, segundo a minha interpretação sociológica, e não eclesiástica, este condenar não significa “apontar o dedo” de acusação e colocar o outro como réu, mas implica em viver de tal modo que exponha uma nova possibilidade de conduzir a vida em uma condição mais saudável. Noé gerou três filhos126, Sem (Shem), Cam (Cham) e Jafé (Yefet) que, respectivamente, em hebraico significam “Nome”, “Quente” e “Aberto”. O número três, dentro da numerologia bíblica, representa uma mudança de estado, e isto, para mim, mostra que assim como Nóe, o justo “encerra” um período em sua contemporaneidade e inicia outro, constrói uma arca segura em meio às águas tempestuosas de um dilúvio e conduz uma nova geração na formação de uma Identidade (Nome – Shem127) mais viva (Quente – Cham) e liberta (Aberta – Yefet), fazendo assim, uma alusão aos nomes dos filhos gerados por Noé, o Justo. Esta é uma reflexão que proponho sem a pretensão de tornar a Humanidade justa. Muito provavelmente ela nunca será em sua plenitude, pois está em transformação constante, homens e mulheres nascem e morrem a todo instante, pensamentos caem no esquecimento, e outros, revivem. 121

“Eis a história de Noé. Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; [...]” (Gênesis 6.9. Almeida

Revista e Atualizada) 122

“A terra estava corrompida

123

“[...] e não poupou o mundo antigo, mas preservou a Noéa, pregador da justiça, e mais sete pessoas, quando fez vir

vista de Deus e cheia de violência.” (Gênesis 6.11. Almeida Revista e Atualizada)

o dilúvio sobre o mundo de ímpios;” (2 Pedro 2.5. Almeida Revista e Atualizada) 124

“Pela fé, Noé, divinamente instruído acerca de acontecimentos que ainda não se viam e sendo temente a Deus,

aparelhou uma arca para a salvação de sua casa; pela qual condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça que vem da fé.” ( Hebreus 11.7. Almeida Revista e Atualizada) 125

Strong, James: Léxico Hebraico, Aramaico E Grego De Strong. Sociedade Bíblica do Brasil, 2002; 2005, S. G2632

126

“Gerou três filhos: Sem, Cam e Jafé.” (Gênesis 6.1. Almeida Revista e Atualizada)

127

Shem / ‫ – שם‬palavra hebraica que significa “nome”. Tanto na cultura grega (onoma) quanto na hebraica (shem) o

“nome” era utilizado como um sinônimo do individuo, da pessoa. Nas civilizações mais antigas era comum dar nomes às pessoas de acordo com a crença do que representariam para a Humanidade. Vejamos o exemplo de Noé, cujo nome em hebraico significa “repouso”, esta foi a sua identidade, o seu propósito, isto é, trabalhou para colocar a sua geração em um lugar de repouso. Hoje, não é mais tão comum, mas ainda se percebe tal tradição de batizar alguém com um nome que simbolizará a sua reputação, fama e identidade.


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Cada indivíduo, entretanto, pode rever a sua justiça em seu contexto e época. Sugiro, desta forma, a seguinte questão para ser pensada: “O mal-estar existente no Corpo da Humanidade religiosa e teocêntrica decorre da presença das diferenças e diversidades de crenças (pensamentos) ou da falta de justiça, ausência de sobriedade e equilíbrio para com e por elas?”. Cabe, entretanto, frisar que a justiça manifestada no equilíbrio e tolerância não significa necessariamente aceitar as diferenças e crenças alheias, e nem tão pouco expressar concordância, ou seja, não é obrigatório incorporar a crença e o modo de vida do outro em sua própria vida, basta somente respeitar o espaço que é de direito de cada Ser, assim como aquele espaço revestido pela placenta que conservava e garantia a nossa condição de indivíduos — seres com características peculiares.

Síntese

SOCIEDADE TEOCÊNTRICA DIVERSA Diversidade de crenças e pensamentos

SOCIEDADE TEOCÊNTRICA DIVERSA Diversidade de crenças e pensamentos

Injustiça

Justiça Elo de salvação, recuperação, cura, balanceamento, equilíbrio, tolerância...

Intolerância, violência, desmedida Estado doentio e desconfortável nas mudanças e transições

Justo Agente de saúde

Estado de cura parcial - indivíduo

O Éden Perdido - Onde está o teu Paraíso? (Carlos Coléct)  

Um livro filosófico-teológico que visa trazer uma perspectiva psíquica e histórica sobre o desenvolvimento da civilização humana.

O Éden Perdido - Onde está o teu Paraíso? (Carlos Coléct)  

Um livro filosófico-teológico que visa trazer uma perspectiva psíquica e histórica sobre o desenvolvimento da civilização humana.

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