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Rua Vinicius de Moraes, antiga Rua Montenegro, Ipanema, cidade do Rio

de Janeiro. Numa esquina, o Vinicius Show Bar, onde Maria Creuza canta de quinta a domingo há anos. Na esquina em frente, o Garota de Ipanema, bar preferido de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Há quem diga que foi ali que Tom e Vinicius, entre um gole e outro de uísque, compuseram alguns versos da mais famosa canção brasileira. Mas há quem diga que não, como o jornalista Ruy Castro. Ele diz em seu livro Rio Bossa Nova que Tom e Vinicius eram muito sérios e não iam a um bar para trabalhar. Somente para beber. Mas sentados ali, naquela mesa do então Bar Veloso, viam Helô Pinheiro passar . E, aos suspiros, os amigos se enchiam de inspiração, o que os levou a criar – depois de, claro, muita transpiração também – a música que ganhou o mundo. Aquela mesa ainda está lá e passou a ser acompanhada de um pôster fixado à parede com a reprodução ampliada da partitura da música. Minha primeira ida ao bar e restaurante Garota de Ipanema foi em 2009. Estava com parte da família no Rio de Janeiro para passar o fim do ano e entrar 2010 assistindo ao grandioso espetáculo dos fogos na praia de Copacabana. Quando para lá vamos, é em Copacabana mesmo que nos instalamos. Precisamente, na Rua Duvivier, no quarteirão próximo à Avenida Atlântica. Era a minha segunda vez no Rio. A primeira ocorreu quando eu era muito novo e as poucas lembranças se resumiam ao cheiro do mar e ao chiado peculiar dos vendedores de praia. Mas foi na segunda ida, naqueles quase 15 dias, que fui acometido de um encanto arrebatador pela cidade. Naqueles dias, eu soube que bem ali em frente ao edifício onde estávamos hospedados ficava o Beco das Garrafas, onde funcionaram pequenas boates nos anos de 1950 e 1960, importantes no início de carreira de tantos grandes nomes da música brasileira e considerado um dos berços da Bossa Nova. Elis Regina, Dolores Duran, Jorge Ben, Sergio Mendes e Wilson Simonal – para citar alguns – se apresentaram, principalmente, na Baccara, na Little Club e na Bottle’s Bar. Os pocket shows eram produzidos por Luiz Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli. Havia ainda outra boate, a Ma Griffe, que, dizem, era mais destinada às promiscuidades. Hoje, não há mais as boates, mas desde 2006, a livraria Bossa Nova & Companhia promove o resgate histórico do Beco das Garrafas, que ganhou esse nome porque os moradores dos edifícios próximos, incomodados com os barulhos que lhes tiravam o sono, lançavam garrafas das janelas de seus apartamentos.


A Bossa Nova & Companhia apresenta uma decoração de época que a faz ser muito mais que um espaço comercial, onde se pode encontrar livros, discos e outros acervos. Quem gosta, pode ficar horas vendo os objetos, os quadros e se transportar para um momento que, possivelmente, não viveu. Ela nasceu como uma irmã da Toca do Vinicius, o Centro de Referência da Bossa Nova, que fica em Ipanema, também na Rua Vinicius de Moraes. Mas não era ainda do meu conhecimento a existência da Toca do Vinicius. Soube somente quando, de volta a Goiânia, coloquei o DVD de Toquinho adquirido em um quiosque da Biscoito Fino, no Shopping Rio Sul, em Botafogo. O DVD, intitulado Só Tenho Tempo Pra Ser Feliz, é resultado da gravação de um show do cantor no extinto Canecão, em fevereiro de 2004, e apresenta um menu de extras bastante interessante, com entrevistas, depoimentos e interpretações de sucessos acústicos. Foi vendo essa parte extra que fiquei sabendo da existência da Toca do Vinicius. É lá que o dono do espaço


grava as mãos de personalidades em placas para a Calçada da Fama de Ipanema. E o extra do DVD conta, então, com imagens de Toquinho gravando suas mãos exatamente no dia 4 de fevereiro de 2004. Eu pensava então, comigo mesmo, como pude ir ao bar Garota de Ipanema e à loja de mesmo nome ao lado do bar, para comprar a camiseta estampada com a partitura da canção, e não conheci a Toca do Vinicius, na mesma rua, a poucos metros. Lamentei bastante, mas pensei “tudo bem, fica pra próxima”. Porque o Rio é assim: sempre fica faltando lugares para visitar. São sempre poucos dias para tantas coisas. E que bom que é assim, porque há sempre motivo para voltar. E voltei, no último abril, pouco mais de três anos depois daquela última estada. Dessa vez, eu não poderia perder a chance de conhecer a tal Toca do Vinicius que vi no DVD do Toquinho. Estávamos eu, minha mãe, minha amiga


Lana Costa e seu namorado – e agora também meu amigo – Alexandre Gonzaga. Nove e meia da manhã de uma quinta-feira ensolarada, chegamos à porta da Toca, no número 129-C da Rua Vinicius de Moraes. A vitrine apresentava importantes livros e discos da música brasileira, em especial a Bossa Nova; também logo vimos a placa com as mãos de Chico Buarque perpetuadas na Calçada da Fama de Ipanema. Fizemos fotos na entrada, como tantos turistas o fazem, e, enfim, adentramos o espaço, já encantados com os quadros de fotos históricas, discos, LP’s, livros. Ao fundo, no balcão, havia um senhor que, prontamente, já nos observava. Devia ser o Carlos Alberto, dono do espaço, eu pensava. Já havia lido seu nome em uma pequena nota na matéria sobre o roteiro lítero-musical carioca que a Revista Gol publicou na edição de março. Foi quando troquei as primeiras palavras com aquele senhor: – Bom dia! Posso fotografar aqui dentro? – Você quer fotografar exatamente o quê? – retrucou com um olhar firme que me pareceu até um pouco repreensivo. – O espaço interno mesmo, no geral, nada específico. – Pode sim, claro. Sinta-se em casa. – respondeu-me com tranquilidade. Depois de fazer algumas fotos, parei para ver os souvenires e já fui logo decidindo levar uma camiseta da Toca. Meus amigos Lana e Alexandre também escolheram camisetas e outras coisinhas. Enquanto Carlos Alberto ajeitava tudo nas embalagens, um agradável papo surgiu, não sei bem como. E nós, que pensávamos ficar por ali por no máximo trinta minutos, ficamos por quase duas horas. Carlos Alberto nos presenteou com histórias, falou sobre música, especialmente sobre Bossa Nova, e um pouco sobre a sua vida. Foi um grande privilégio. Ficamos todos encantados com a sabedoria daquele senhor. Não bastasse isso, no momento em que o ouvíamos, entrou um outro senhor, magro, de óculos, carregando uma pasta. Estávamos diante de outra personalidade representativa da Bossa Nova. Era Cesar G. Villela, importante designer, criador


do visual dos LP’s de Bossa Nova da Odeon, da Philips e da Elenco nas décadas de 1950 e 60. Enquanto nos contava sobre Cesar Villela, Carlos Alberto tratou logo de nos mostrar dois exemplos de LP’s com as grandes criações do renomado artista: um da cantora Maysa e outro de Vinicius de Moraes com Odette Lara. Ainda havia outros lugares para visitar ali mesmo em Ipanema e acabamos nos despedindo de Carlos Alberto. Antes, tive a ideia de dizer que voltaria à Toca na semana seguinte para conversar mais e até mesmo gravar uma entrevista com aquele senhor rico de histórias. Ele prontamente topou. Já sozinho no Rio (minha mãe e meus amigos voltaram antes para Goiânia), voltei à Toca para conversar mais e tentar gravar uma despretensiosa entrevista com Carlos Alberto. Era final da manhã de quarta-feira, 25 de abril. Entrei e ele me reconheceu. Em partes. Foi preciso refrescar sua memória: – Estive aqui semana passada. Estávamos eu, minha mãe e um casal de amigos. Somos de Goiânia e batemos um agradável papo aqui com o senhor, o que me fez até dizer que voltaria para gravarmos uma entrevista... – Claro, claro, pô... Só temos um problema. Eu não vou poder conversar com você hoje, porque estou aguardando a TV Record. Eles vão vir aqui gravar uma matéria comigo, porque amanhã é aniversário do bairro e eu vou fazer um evento aqui na Toca para comemorar e gravar as mãos de uma personalidade. Hoje vai ser meio difícil de termos tempo para conversar. – Não tem problema, eu posso voltar. Ainda fico mais uns dias no Rio. – Faz o seguinte... Você é meu convidado para estar aqui amanhã, a partir das sete e meia da noite. Será um evento simples, para poucas pessoas, com alguns docinhos, um bolo. Quero que você venha. Agradeci o privilégio do convite e, sem pestanejar, dei como certa a minha presença. Ipanema festejava os seus 118 anos de fundação – nasceu como Villa Ipanema no dia 26 de abril de 1894 – e o evento na Toca reuniu, para celebrar a data, alguns moradores do bairro, entre eles personalidades das artes e da política, como o designer Cesar Villela, a deputada estadual Aspásia Camargo (PV-RJ) e o engenheiro civil Claudio Pinheiro, que é


também presidente da Banda de Ipanema. O músico Paulo Rêgo – saxofonista da banda No Olho da Rua, que há 15 anos faz apresentações, aos domingos, na praia, próximo ao Posto 10 – foi o 102º a gravar as mãos na Calçada da Fama de Ipanema. Depois de participar e fazer o registro fotográfico da festa, combinei com Carlos Alberto de voltar no sábado pela manhã para, enfim, gravarmos a entrevista. Às nove horas, eu chegava à Toca, exatamente no momento em que Carlos abria o espaço. Pediu-me para que aguardasse alguns minutos e, então, por volta das nove e quinze, começamos o nosso dedo de prosa.

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Carlos Alberto Afonso é um simpático senhor sexagenário, filho de portugueses. Possivelmente pela raiz lusitana, é apaixonado pelo Clube de Regatas Vasco da Gama. Acima de tudo, tem paixão pelo futebol e é provável que seja o único a ter conseguido, inclusive, um autógrafo de Zico, ídolo flamenguista, na sua camisa do Vasco, junto com a assinatura do ídolo e presidente vascaíno Roberto Dinamite. Nasceu no bairro de São Cristóvão e, com apenas um ano de idade, seus pais se mudaram para a Tijuca. Aos dezessete, foi morar em Copacabana, em um tempo em que ainda era possível jogar bola no asfalto, na Rua Santa Clara. Em Ipanema, está há 21 anos, mas é ipanemense da mesma maneira como são os nascidos no bairro. Foi já na adolescência que seus pais decidiram que ele faria a carreira diplomática. Reside aí a sua primeira identificação com o poeta, compositor e diplomata Vinicius de Moraes. Mas antes de fazer o concurso que o tornaria, efetivamente, diplomata, Carlos Alberto encontrou-se com a sua maior paixão na vida: dar aulas. Ser professor é seu passado, seu presente e seu futuro. Embora já seja aposentado das salas de aula – lecionou Literatura Brasileira no Ensino Médio e Teoria Literária em universidades –, continua ensinando muito com suas histórias, suas experiências e sua ampla sabedoria aos que visitam sua Toca. A Toca é do Vinicius, mas antes, é sua. Desde 1993. É militante da cultura e da educação desde sempre.


A Toca dos sonhos

Carlos Alberto Afonso e Ronaldo Bôscoli: a conversa que deu início ao projeto do professor. (Foto: arquivo pessoal)

– Carlos Alberto, você é professor, gosta disso, trata disso, então eu quero te chamar para nós ganharmos dinheiro com aquilo que a gente ama. Vamos fazer juntos a Casa da Bossa Nova? Foi esse o convite que o jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli – autor de clássicos da Bossa Nova como “O Barquinho”, “Saudade fez um samba” e “Lobo Bobo” – fez ao Carlos Alberto, em 1993. Bôscoli morava no Barramares, na Barra da Tijuca, e chamou o amigo professor para uma conversa. Carlos Alberto tomou partido da ideia e saiu dali com muito mais do que uma empreitada: era um sonho para o qual trabalharia com todas as forças, mesmo que sua órbita sempre fosse a da educação. – Naquele momento, eu saí dali pensando... “Não. Casa da Bossa Nova é pretensão! Toca da Bossa Nova”. Entendeu? Uma Toca. Aí, depois, a gente vai trabalhar até ela chegar à condição de casa. Ronaldo Bôscoli já estava doente terminal. Hoje, olhando a foto, já dá pra imaginar. Dá pra imaginar que ele estava doente terminal e... Eu não sabia. Bôscoli estava com câncer de próstata e sua situação estava cada vez mais delicada, levando-o a ser hospitalizado. Faleceu pouco mais de um ano depois daquela conversa com o amigo, no dia 18 de novembro de 1994. Assim, não houve muito tempo, nem saúde, para realizar o que tinha dado início com Carlos Alberto. O professor, no entanto, seguiu com a ideia, aprimorando-a. Conversou com a mulher e seus três filhos para pedir apoio, já que ele ainda passava a maior parte do tempo


em sala de aula e a aposentadoria viria ainda um pouco depois. – Aí a gente começa com uma coisinha pequenininha e eu vou construindo o projeto em torno dessa coisinha pequenininha. Não fisicamente... Um projeto abstrato... Por exemplo: nós fazemos uma livraria e essa livraria promove um show, uma entrevista, atividades... E o conjunto das atividades, ao longo dos anos, é que


vai construindo a Casa da Bossa Nova. Só vai ficar faltando a casa física, porque a casa do ponto de vista do conteúdo já existirá e será consagrada pela tradição. Em cinco anos, a gente faz isso... Claro que não foram só cinco (risos). A Toca nasce, assim, no dia 27 de setembro de 1993. Mas por que o nome do Vinicius acabou substituindo “Bossa Nova”, mudando o nome do espaço para Toca do Vinicius? Essa era a questão que me intrigava. A importância de Vinicius de Moraes é inegável, mas a Bossa Nova é repleta de outros nomes representativos. Vinicius foi o escolhido e, certamente, não foi uma arbitrariedade. E Carlos Alberto, então, me contava, com o máximo de detalhes que conseguia, os acontecimentos que o levaram a trocar o nome do centro cultural. É que aquele ano de 1993 tinha um algo a mais: Vinicius de Moraes, se estivesse vivo, completaria 80 anos. A prefeitura, então, instituiu por decreto que aquele 1993 seria o Ano Vinicius de Moraes na cidade do Rio de Janeiro. Carlos Alberto recebeu uma ligação do prefeito César Maia, no dia 4 de fevereiro, convidando-o para secretariar a comissão que acabara de formar, composta pela Secretária de Educação, Regina de Assis, pela Secretária de Cultura, Helena Severo, e pelo Secretário de Turismo, Luís Eduardo Guinle. Carlos Alberto aceitou? – Não podia fazer nada que não significasse remuneração pra minha sobrevivência e pra minha família, entendeu? Mas não é que eu... Claro, pô! Nunca diria que não! Era uma coisa que, enfim... E, então, foi um ano primoroso, porque eu fui para as escolas que reuniam professores das escolas do entorno e levava para os professores, meus colegas, ideias de abordagem, materiais e reflexões. Isso passou a ter um desdobramento fora da própria rede pública, porque a prefeitura entrou com uma mídia pesada. O convite não foi sem razão. Carlos Alberto sempre teve um compromisso forte com seus princípios, com sua ideologia e uma militância da pesada, como mesmo diz. A partir disso e do seu trabalho na rede pública de ensino, seguia na tentativa de promover o contado da produção de Vinicius de Moraes com a base da pirâmide, as classes menos favorecidas, com as comunidades. Ele conta que a maior identificação que teve e tem com Vinicius de Moraes, além da questão da carreira diplomática, é o fato de ambos terem projetos políticos no sentido de articulação com a sociedade.


Em suas mãos, neste momento, estava o livro 3 Antônios e 1 Jobim, daquele ano mesmo de 1993. Trata-se de uma compilação de conversas entre os amigos Antônio Callado (organizador da obra), Antônio Cândido, Antônio Houaiss e o maestro Antônio Carlos Jobim. O professor, entusiasmado com o que me contava, queria me mostrar a parte em que os quatro amigos conversam sobre Vinicius. E começa a ler: – Então, o Tom diz isto, veja bem: “é bonito, é bonito sim. O João Cabral continua a afirmar que o maior poeta do Brasil teria sido o Vinicius. Ele diz ‘teria sido’ num sentido muito honesto e muito nobre. Ele acha que se o Vinicius não tivesse tido aquela divulgação toda, ele teria feito a maior obra concentradamente poética do Brasil.” “Reparem a humildade do Cabral em reconhecer que ele seria menor que o Vinicius”. [completou Antônio Houaiss]. Aí o Tom diz assim: “a frase do Cabral é a seguinte: ‘o Vinicius é o maior poeta que o Brasil não teve’”. Ou seja, ficou em potencial. E o Houaiss diz: “e o maior poeta que o poeta não quis ser. Essa é que é a coisa”. Aí o Antônio Cândido: “no momento, o Vinicius não está bem junto à crítica”. Os amigos de Vinicius de Moraes, naquela conversa, conseguiam ter um distanciamento necessário que lhes permitia ver a coisa como ela é: para a crítica e para a sociedade, de uma maneira geral, poeta era João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade etc. Vinicius, não. Com brilho nos olhos ao falar sobre o “poetinha”, Carlos Alberto completa: – Vinicius é um barato! O poeta da minha vida é o Carlos Drummond de Andrade, mas o meu barato é o Vinicius, entendeu? Mas o que é ser um barato? É ser uma porção de coisas ao mesmo tempo. Vinicius de Moraes instrumentalizou os talentos que tinha – e que não eram poucos – em função do verdadeiro projeto dele. Era um projeto político, não partidário nem eleitoral. Político no sentido de articulação com a sociedade. Essa é a minha identificação com o Vinicius de Moraes. Exatamente o nosso ponto comum. A coisa que temos iguais. Não sei com que consciência ele queria isso, mas é absolutamente factual que ele fazia isso. É factual que ele era hipertalentoso; é factual que ele tinha diversos instrumentos de articulação; e é factual que ele usou todos esses instrumentos em função da articulação. Eu tenho imagens dele falando “o livro não chega a ninguém, eu precisava da música para divulgar”. Ou seja, essa necessidade de multiplicar a articulação e de chegar a mais de um segmento da sociedade.


Toda essa identificação com Vinicius já seria um motivo e tanto para inserir o nome do poeta na Toca. Mas houve mais um acontecimento determinante. O Ano Vinicius de Moraes corria bem, com muita mídia por parte do governo, muita badalação e muito trabalho de Carlos Alberto e os demais que estavam na “causa”. Mesmo assim, porém, não houve interesse de empresas em patrocinar shows ou outras atividades em homenagem ao “poetinha”. O motivo era bastante claro: – Naquela ocasião, Carlos Alexandre, o Vinicius já era uma evidência de ternura, de competência poética e de tudo que você possa imaginar. Mas para o grupo de aficionados, não para a sociedade, não para um segmento mais largo, mais expressivo, que pudesse sugerir interesse a um patrocinador. Uma edição do Jornal do Brasil publicou, em seu Caderno B, uma fotografia de Vinicius propositalmente editada. Na imagem, o compositor aparece curvado, com uma mão sobre a testa, debruçado em uma mesa, como quem pudesse estar lendo algum livro. E ele estava lendo um livro, mas a imagem foi cortada em sua parte inferior e o livro já não aparecia mais. – A intenção era mostrá-lo acabrunhado, triste, chateado, cabisbaixo. E a manchete: “QUEM VAI SALVAR O ANO DO POETA?” Tenho tudo isso, é óbvio, tenho até o original... “QUEM VAI SALVAR O ANO DO POETA?” Porra, o meu cabelo subiu!! Pô, rapaz... É o retrato da depreciação, da degradação. Quem vai salvar o ano do poeta? Porra, ninguém! Metade da página é a foto e a manchete; a outra metade, tome de texto dizendo que mil planos foram feitos, mas ninguém conseguiu patrocínio pra nada. Então, o jornal propunha uma saída pra isso. E vem o subtítulo: “SOS VINICIUS”! Vem a proposta para que os aficionados, da forma como pudessem, se mobilizassem e hasteassem as suas bandeiras. Eu vi e fiquei arrasado! Isso ficou o dia inteiro na minha cabeça... Foi exatamente esse o estalo que Carlos Alberto precisava. Inserir o nome Vinicius no nome de seu espaço era levantar uma bandeira. Não se tratava de uma simples homenagem. Mas uma bandeira! O professor chegou em casa trazendo a ideia para a mulher e os filhos. Todos aceitaram a mudança. A Toca funcionou até 1995 na Rua Visconde de Pirajá, numa galeria, e, então, reinstalou-se na Rua Vinicius de Moraes, com um espaço um pouco maior do que era e mais visível.


Implacáveis na Calçada da Fama Entre as atividades tradicionais da Toca do Vinicius está a gravação de placas para a Calçada da Fama de Ipanema. Toquinho, naquele 2 de fevereiro de 2004, foi a 29ª personalidade a ter as mãos registradas. Mas essa história de perpetuar as mãos de nomes, principalmente, da música brasileira não teve início nas dependências da Toca, nem mesmo foi uma ideia de Carlos Alberto. – A Calçada da Fama nasceu no dia 18 de agosto de 1969, por ideia de um jornalista recém-falecido chamado Reynaldo Jardim e funcionava no Restaurante Pizzaiolo, que era praticamente aqui ao lado. Chamaram a Maria Bethânia, que era iniciante ainda. Depois Vinicius de Moraes – que circulava aqui –, depois Elis Regina... Naquele mesmo ano de 1969, entre agosto e dezembro, gravaram cinco ou seis placas. Elizeth Cardoso, Chacrinha, Pixinguinha... E deram o nome de Calçada da Fama. A ideia partiu de uma gaiatice: na Califórnia tem, por que em Ipanema não?

1º de abril de 2004: Chico Buarque gravando suas mãos para a Calçada da Fama de Ipanema, depois de jogar uma de suas tradicionais peladas. (Foto: arquivo pessoal de Carlos Alberto)

O tradicional Restaurante Pizzaiolo gravou placas para a Calçada da Fama (que ainda não levava “de Ipanema” no nome) até o ano de 1977. No total, foram dezenove registros. Além dos nomes que Carlos Alberto citou, também gravaram as mãos a musa Leila Diniz, o menestrel Juca Chaves, o grupo Os Mutantes e o “poetinha” Vinicius de Moraes. A última placa gravada por Joaquim Campos, dono do restaurante, foi a de Gal Costa.


A placa com as mãos de Chico Buarque exposta na entrada da Toca do Vinicius.

Após um recesso de mais de vinte anos, as placas para a Calçada da Fama voltaram a ser gravadas em eventos na Toca do Vinicius, em 1998. O primeiro a ter as mãos registradas foi o compositor Paulo César Pinheiro, no dia 24 de agosto daquele ano. – Eu tenho uma fotografia do Vinicius de Moraes com o Paulo César Pinheiro e, atrás da fotografia, o Vinicius escreveu que o Paulo César era o filho que ele queria ter tido. Aí, a primeira placa que eu gravei foi a do Paulo César Pinheiro. A partir de 2003, a Calçada da Fama de Ipanema passou a monumentalizar os grandes nomes com maior frequência. Alguns deles: Carlos Lyra, em 21 de setembro de 2003; Helô Pinheiro, a Garota de Ipanema, em 19 de outubro de 2003; Chico Buarque, em 1º de abril de 2004 (foto); Presidente Lula, em 21 de dezembro de 2009. E tantas outras figuras representativas, implacáveis personalidades do mundo da música, da política e até do futebol: Zico e Dinamite, que assinaram a camisa de Carlos Alberto, gravaram placas juntos, no dia 3 de setembro de 2009.


Isto é Bossa Nova – Como o senhor “define” a Bossa Nova? – Na realidade, eu tenho percepção e a minha percepção procura ser sempre absolutamente factual, né? Minha percepção de Bossa Nova é fruto de sua história – portanto, de fatos – e de seu exercício – portanto, mais fatos. É fato que João Gilberto formulou uma maneira de executar nosso ritmo típico, o samba, de uma maneira alternativa à sua execução clássica. Enquanto me respondia sobre sua percepção, três rapazes estrangeiros adentraram a Toca. Precisamente, suíços. Carlos Alberto precisou interromper o nosso papo para atendê-los. Alguns minutos de connversa e os rapazes logo decidiram levar discos de Tom Jobim e Jamelão. Após o atendimento, Carlos Alberto voltou-se para mim e continuou a tratar sobre aquela que passou a ser conhecida como a música brasileira de exportação por excelência. Ela que tem seu marco inicial com a gravação de “Chega de Saudade”, fruto da parceria de Vinicius de Moraes com Tom Jobim. A interpretação feita pelo músico baiano João Gilberto para a canção, em julho de 1958, consagrou aquela batida diferente no violão. A expressão Bossa Nova não foi aceita logo de cara. Foi surgindo aos poucos e sofria uma certa resistência dentro daquela nova turma disposta a fazer um novo som. O professor explica: – À revelia de João [Gilberto], contemporâneos seus do mundo musical carioca buscaram dar nome àquele quadro estético formulado. Ronaldo Bôscoli, por exemplo, lutou para emplacar a expressão Bossa Nova, enquanto que Carlos Lyra brigou pela denominação Sambalanço. O resultado, todos sabemos: venceu a Bossa Nova, nome de que seu arquiteto João declinara publicamente inúmeras vezes, lembrando a todos que ele era um “músico de samba”. E, na verdade, era, já que a Bossa, que formulara, era apenas, como já disse, uma forma de execução do samba. E esse foi o pacto em torno da denominação. Bossa Nova, como aponta o professor, é uma maneira de execução do samba.


Uma maneira de pensar a harmonia, o arranjo, a colocação da voz. É, antes de mais nada, como gosta de dizer Carlos Alberto, a “música do músico”, seja ele instrumental ou cantor. Assim, a Bossa Nova se faz com um conjunto de elementos, e não apenas a batida diferente de João Gilberto. E o professor ainda esclarece: – Há um grupo de belíssimas canções mais frequentemente executadas pela forma Bossa Nova. Mas Bossa Nova é a forma de executar essas canções. O exemplo de “Chega de Saudade” pode clarear onde houver dúvida. Ouça-se, por exemplo, as execuções da divina Elizeth Cardoso no disco Canção do Amor Demais, e, de João Gilberto, no seu 78 rpm, em 1958. Apesar de o próprio João ter acompanhado Elizeth em sua gravação, ali, de Bossa Nova mesmo, só temos a batida, a nova batida de João, como uma espécie de primeiro vagido da Bossa, numa execução clara de samba-choro da inesquecível diva. Logo a seguir, ao gravar seu 78 rpm, João Gilberto firmava, com “Chega de Saudade” de um lado e “Bim Bom” do outro, o que se convencionou ser o primeiro registro fonográfico da história da Bossa Nova (que tem direito à pré-história, é claro). Em um determinado momento, o professor cita o verso “fotografei você na minha rolleiflex”, da canção “Desafinado”, de Tom Jobim e Newton Mendonça. Para ele, dizer “fotografei você na minha rolleiflex” na letra é seguir a proposta da Bossa Nova: subverter o costume e trazer uma ideia de ruptura com aquilo que existia até então. O contexto musical era marcado por canções com letras muito sofisticadas, com alto teor poético e de erudição e que traziam, no conteúdo, questões inclusive metafísicas, como a saudade, a morte, a distância etc. E a rolleiflex era uma câmera fotográfica bastante comum naquela época. As letras procuravam ser mais simples e com elementos banais para a época (como a rolleiflex). Era resultado de uma informalidade que ganhava força e destaque com aquela nova onda musical. A canção “Desafinado” é apenas um exemplo de ótimos frutos da importante parceria de Tom Jobim com o compositor Newton Mendonça. Juntos, também criaram “Samba de uma nota só”, “Meditação”, “Foi a noite”, “Caminhos cruzados”, entre outras. Ao tratar sobre a Bossa Nova e o mercado, Carlos Alberto faz questão de mencionar Newton:


– Newton Mendonça fez um trabalho parelho com Tom, a quatro mãos mesmo. Não foram poucas as identificações. Ambos nasceram fora de Ipanema e vieram logo para o mesmo bairro. Ambos moraram, em épocas diversas, na Rua Nascimento Silva. Ambos alugaram seus pianos para os necessários estudos. Ambos nasceram no ano de 1927. Newton Mendonça foi o parceiro Bossa Nova de Tom Jobim. Do ponto de vista melódico e textual, a produção desta dupla manteve com a plataforma da


Bossa Nova uma relação verdadeiramente estrutural. Newton Mendonça morreu prematuramente em 22 de novembro de 1960. Recentemente, em 2010, no cinquentenário de sua morte, pensei ser chegado o momento de chamarmos atenção para ele. Entretanto, não houve nada além de uma faixa estendida sob o letreiro da Toca e um belo registro na Coluna Gente Boa, de Joaquim Ferreira dos Santos, em O Globo. O mercado é um historiador de quem tem coisas para vender e não outorgou nenhum título para o co-criador de “Desafinado” (um hino da Bossa Nova), “Samba de uma nota só” e “Meditação”. O mercado não se lembrou de Newton Mendonça porque, salvo os direitos de suas composições, o genial Newton Mendonça não tem nada para vender. – E o senhor acha que o mercado cometeu, ou comete, injustiça com a Bossa Nova de uma maneira geral?

Carlos Alberto mostra dois dos vários LP’s que tiveram a concepção artística moderna do designer Cesar G. Villela (à direita).

– Carlos Alexandre, o mercado não trabalha com essa consciência ética, mas com consciência comercial. Dispensável dizer que, para ele, os fins justificam os meios. O mercado quer vender, não importando a que título. E a Bossa Nova não recebe dele, mercado, tratamentos diferentes de outros produtos. O mercado trabalha com o produto para que ele seja vendável. Se não for vendável no formato que tem, o mercado não pensa duas vezes em alterá-lo para que passe a ser vendável. Então, por tais fins, o


mercado não faz cerimônias em escrever histórias diferentes daquela história de fatos vividos pela sociedade. Lamento muito, sempre, no caso da Bossa Nova, a deformação conceitual que o mercado acaba provocando na sociedade, que, em geral, pensa que Bossa Nova é uma coisa diferente da que ela realmente é. – O Alberico Campana, veterano do Beco das Garrafas – e que fundou o anexo Bar do Tom, na Churrascaria Plataforma, no Leblon – disse que “hoje a Bossa Nova não existe mais”. O senhor concorda? – Alberico Campana, do alto de sua inquestionável autoridade sobre o Beco das Garrafas e seus clubes noturnos, expressa lamento, quando faz esta afirmação. O lamento de Alberico é compreensível e muito justo, pois ele ajudou a arquitetar e viveu o mundo em que a Bossa Nova foi gerada e deu alguns de seus primeiros e mais notáveis passos. Alberico Campana é um patrimônio de toda a humanidade, na medida em que serviu, com seu trabalho e empreendimentos, à construção deste outro patrimônio de dimensão internacional, que é a Bossa Nova. Pois eu lhe digo que a Bossa Nova existe tanto quanto o próprio Alberico Campana, para a felicidade de todos nós. E digo mais: ambos são tão imortais quanto se desdobrarem geneticamente, o Alberico em outras vidas humanas e a Bossa Nova em outras execuções em que alguma de suas conquistas estéticas estiver presente. Ambos vivem. Viva ALBERICO CAMPANHA e viva a BOSSA NOVA!!!

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Outro casal de estrangeiros, dessa vez vindos dos Estados Unidos, “interrompe“o nosso papo. Carlos Alberto, atenciosamente, conversa com o casal exibindo um ótimo inglês. Bossa Nova, two architects, two gods: João Gilberto and Tom Jobim. E continua a explicar algumas questões e a falar sobre discos. Com pouco esforço, percebo que ele estava dizendo muitas coisas que acabara de dizer a mim sobre a Bossa Nova. A moça levou uma camiseta da Toca e o rapaz comprou o livro Rio Bossa Nova, de Ruy Castro, e mais cinco cópias do disco A Bossa de Caetano e um disco do histórico


show de Tom, Vinicius, Toquinho e Miúcha no Canecão. Naquelas quase três horas em que eu estive na Toca, três suíços, um casal holandês e, por último, o casal estadunidense visitaram o espaço e todos compraram alguma coisa, além de conversar alguns minutos com Carlos Alberto. São, no total, sete estrangeiros, enquanto que, no mesmo período, três brasileiros entraram com o mesmo interesse, o que pode também comprovar o fato de a Bossa Nova ser mais valorizada lá fora. Tratei, então, de saber a opinião do professor: – A Bossa Nova ganhou prestígio internacional logo de cara. Por que ela é mais valorizada lá fora que aqui no Brasil? – A sociedade brasileira não está, digamos assim, amadurecida culturalmente como as sociedades europeia e americana, cujas formações tiveram outros condicionantes diferentes dos condicionantes da nossa sociedade. Então, o que o corre? Essa imaturidade se reflete em atividades, porque ela está no comportamento. Em relação à música, por exemplo, você vai ver uma relação no Velho Mundo, e mesmo na América do Norte, muito mais amadurecida em segmentos. A gente não pode esquecer que a pós-modernidade é um momento das sociedades de massas, né? É o momento do pop, da música como terapia. Mas você vai observar que há quem seja sensível à música considerando-a um instrumento, um meio para alguma coisa. Um meio para o prazer, para a curtição, para o divertimento e até para a terapia. E você vai enxergar também quem se ligue à música não mais a considerando um mero instrumento para atingir outros objetivos, mas considerando a música com fim em si mesma, ou seja, como arte musical. É ínfimo o percentual de quem curte a música como arte, mas para você curtir a Bossa Nova ortodoxa, para você perceber, captar, se ligar à essência da Bossa Nova, tem de ter exatamente essa atitude. Tem de se relacionar com ela de maneira contemplativa, curtindo exatamente esse processo de construção da música. Além dos estrangeiros simplesmente interessados, Carlos Alberto recebe na Toca os músicos estrangeiros, os quais, ele afirma, “fazem assim” para Tom Jobim e para João Gilberto, os dois arquitetos da Bossa Nova. O “fazem assim” é exatamente aquele gesto de aclamação, de homenagem, de reconhecimento.


– E como ele [o músico de fora] faz “assim” aqui para mim, ele faz “assim” no mundo todo, faz “assim” para os seguidores dele, para as plateias dele. Quer dizer, ele leva e estimula essa visão contemplativa que a Bossa Nova merece e que ele tem.

As palavras do professor acerca da Bossa Nova eram sempre acompanhadas de expressões e olhares repletos de brilho e entusiasmo. Carlos Alberto é a própria Bossa Nova. Senhor de senhoras histórias que transita entre o simples e o sofisticado: sua eloquência oriunda de uma intensa vida calcada no ensino não se faz incompreensiva. O eterno professor, na verdade, utiliza como ninguém as metáforas e parece desenhar com a fala, cheia de balanços, como o barquinho a navegar no macio azul do mar. E isso é Bossa Nova, isso é muito natural! Estar na Toca do Vinicius e ter o privilégio de um ótimo dedo de prosa com Carlos Alberto é estar um pouco também com os grandes nomes da nossa música. É estar com Tom Jobim, com Vinicius de Moraes... Com Ronaldo Bôscoli, que trouxe a primeira ideia. A sua Toca, Carlos Alberto, já é, sem dúvida, a Casa da Bossa Nova. Assim se tornou, despretensiosamente. Que gravem, então, as mãos deste rico senhor de histórias!

[Carlos Alexandre Cavarzan Camêlo é jornalista e fotógrafo em Goiânia (Goiás). É autor do livro-reportagem Mulheres no Centro: personagens femininas e cotidiano (2011). Esteve no Rio de Janeiro na última quinzena do mês de abril de 2012 e escreveu A Bossa do Senhor de Histórias em maio de 2012.]

A Bossa do Senhor de Histórias  

"Relato-reportagem-perfil" de Carlos Alberto Afonso, dono da Toca do Vinicius, em Ipanema, Rio de Janeiro.

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