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Sinopse Kaelyn acaba de ver o melhor amigo partir. Ela tem dezesseis anos e voltou agora para a ilha onde nasceu, depois de um período morando no continente; ele está fazendo o caminho inverso, vai estudar fora. O que sentem um pelo outro não está muito claro, ela o deixou ir embora sem nem mesmo dizer adeus, e a última coisa que passa por sua cabeça é nunca mais vê-lo. Mas, pouco tempo depois, isso está bem perto de acontecer.

A ilha de Kaelyn foi sitiada e ninguém pode entrar nem sair: um vírus letal e não identificado se espalha entre os habitantes. Jovens, velhos, crianças – ninguém está a salvo, e a lista de óbitos não para de aumentar. Entre os sintomas da doença misteriosa está a perda das inibições sociais. Nem todos, porém, assistem impassíveis ao colapso da ilha. Kaelyn é uma dessas pessoas. Enquanto o vírus leva seus amigos e familiares, ela insiste em acreditar que haverá uma salvação. Caso contrário, o que será dela e de todos?

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A todos que algum dia já caíram, não importa o tamanho da queda.

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SINTOMAS

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2 de setembro Leo, Faz mais ou menos seis horas que você saiu da ilha. Do jeito que as coisas andam, sei que não esperava que eu fosse me despedir, mas não consigo parar de pensar em você nas docas, acenando sem parar, quando fui para Toronto cinco anos atrás. Enquanto a barca o levava para o continente, fiquei em West Beach com Mackenzie e Rachel. Mackenzie tinha decidido que deveríamos dar um último mergulho de férias, pois amanhã voltaremos às aulas, mas o vento estava tão frio que nenhuma de nós quis entrar na água. Ficamos andando na areia, conversando e imaginando como será o segundo ano. Todos os turistas que estavam aqui de férias de verão já foram embora, então na praia só estávamos nós três e algumas famílias que faziam churrasco perto das pedras. Dava para ver a barca branca ficando menor à medida que cruzava o estreito, e o nó no meu estômago crescia cada vez mais. Mackenzie começou a se gabar do verão “incrível” que tinha passado em Los Angeles e de todas as boates da moda às quais tinha ido, e Rachel e eu basicamente só balançávamos a cabeça nos momentos certos, como sempre. Não que eu me importe. Em algum momento da conversa, Mackenzie se virou para mim e disse: “Porque as boates das cidades grandes são as melhores. Não é verdade, Kaelyn?”, e só o que pude responder foi: “Hmm, acho que sim”, porque, na verdade, não fui a nenhuma boate em Toronto. Se ela soubesse que em Toronto passei quase todo o tempo no zoológico ou na clínica veterinária perto de casa, em vez de fazer compras ou sair à noite, tenho certeza de que não

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teria grudado em mim assim que voltei a morar aqui, na primavera passada. Mas não me dei o trabalho de corrigi-la. É legal ter com quem andar, mesmo que para isso seja necessária uma mentirinha. Eu estava tão focada em me virar sozinha naquela cidade que não percebi o quanto sentia falta de ter amigos. E só hoje percebi o quanto sentia falta de você. Quando a barca já tinha sumido de vista, estávamos tremendo de frio por causa da água do mar que as ondas espirravam em nós. Fomos até a faixa de grama entre a estrada e a areia, e Mackenzie quase pisou em um pássaro morto. Ela gritou e ficou pulando em um pé só, sacudindo o outro como se os germes pudessem ter saltado para sua pele. Rachel não conseguia parar de rir. Era uma gaivota comum, e parecia saudável — exceto pelo fato de estar morta, é claro. As penas estavam lustrosas e não vi nenhum ferimento. Era muito estranho, aquele bicho ali, como tivesse simplesmente caído do céu. Pensei em pegar um graveto e mexer no corpo, para ver melhor, mas Mackenzie daria um ataque. Você, Leo, não se importaria. Se eu estivesse caminhando pela praia a seu lado, como a gente fazia, você me esperaria examinar a gaivota e perguntaria: “Sabe como ela morreu?” E estaria realmente interessado na resposta. Naquele momento, olhando para o pássaro, enquanto Mackenzie sacudia o pé e Rachel ria, ficou mais claro do que nunca como fui burra por deixar uma discussão tão boba estragar tudo. Você foi meu melhor amigo a vida inteira, e já faz quase dois anos que a gente não se fala. Depois de um tempo, Rachel parou de rir e falou que precisava ir embora. Desde que o pai dela quebrou a perna, semana passada, trabalhando nas traineiras, a mãe tem enchido o saco para ela passar mais tempo em casa. Combinamos um encontro na cantina amanhã, para comparar nossos horários de aulas, e depois voltamos para a cidade.

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Não fui direto para casa. Depois que Mackenzie e Rachel foram embora, passei pelas peixarias e peguei a trilha entre os pinheiros que vai até aquele penhasco onde os biguás fazem ninho. Lá em cima é tão tranquilo... Ali, de pé na beira da pedra, olhando para o mar, a brisa fria batendo no meu corpo e as gaivotas no alto, imagino como seria voar. Ou, pelo menos, em geral consigo. Naquele instante parecia que havia um peso amarrado à minha cintura, me puxando para baixo; um peso formado por tudo o que eu deveria ter dito antes de você ir embora. E o mais importante é o mais difícil de admitir. Você tinha razão. Quando nos mudamos, eu me senti oprimida no instante em que o táxi nos levou do aeroporto para a cidade. E assim que cheguei àquela escola enorme, repleta de alunos que tinham passado a vida toda cercados por arranha-céus e pelo metrô, tive certeza de que eu não me encaixava ali. Então eu ia ao zoológico ver os chimpanzés brincarem e alimentava os gatinhos da clínica veterinária, em vez de tentar fazer amigos. Talvez eu tivesse conseguido me integrar se me esforçasse — Drew era da minha escola, só um ano à minha frente, e em menos de um mês ele já estava tão ocupado pela cidade com os colegas de turma que mal aparecia em casa. Mas ficar na minha era mais fácil. E quando comecei o ensino médio em uma escola ainda maior, o simples fato de pensar em agir de outra forma já era assustador. Você me ouviu reclamar sobre a cidade e o pessoal do colégio muitas vezes e só então falou que metade da culpa era minha. Eu não deveria ter ficado tão irritada, mas naquele momento eu me senti como se você estivesse contra mim. Só percebi que estava certo depois que voltamos para cá. Imaginei que seria natural me reaproximar das pessoas que já conhecia, mas todo mundo me olhava como se eu fosse uma estranha. E continuava sendo assustador. Eu não sabia o que fazer nem o que falar, nem mesmo quando estava com você. Estou desacostumada demais. É ridículo.

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Mas as coisas vão mudar. A partir de amanhã vou ser alguém que fala com as pessoas na aula mesmo que não falem comigo primeiro, e que passeia pela cidade, em vez de ficar olhando os pássaros do alto de penhascos. Vou continuar sendo essa pessoa até perder todo o medo. E vou usar este caderno como um diário, para me manter na linha e treinar tudo o que quero lhe dizer. Assim, quando você voltar para visitar seus pais, no dia de Ação de Graças ou no Natal, eu poderei pedir desculpas cara a cara e nós continuaremos sendo amigos. Prometo.

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4 de setembro A essa altura você já deve ter se adaptado à sua nova escola, Leo. Fazendo aulas de dança com os melhores professores e andando com gente supertalentosa feito você. Aposto que está amando. Tenho trabalhado na nova Kaelyn. Ontem dei oi para pelo menos dez pessoas no colégio enquanto esperávamos para receber os nossos horários das aulas. Todo mundo ainda parece meio desconfiado, como se a Kaelyn que conheciam cinco anos atrás possa ter sido substituída por uma impostora enquanto estava em Toronto. Até agora não passei do “oi”. Mas já é um começo. Aí hoje, depois da escola, coloquei meus furões (Mowat e Fossey) nas coleiras e levei os dois para passear no parque Thompson, em vez de ficar no jardim. Não sabia se alguém aqui da ilha já tinha visto um furão de estimação, e a ideia de que pudessem ficar me olhando sempre me deixou nervosa. Mas após alguns minutos umas crianças se aproximaram e começaram a me fazer várias perguntas, do tipo “O que eles comem?” e “Eles sabem nadar?”, e foi legal. Mowat e Fossey adoraram a atenção, é claro. Quando cheguei em casa, minha mãe veio até o meu quarto e disse: “Vamos jantar um pouco tarde. Tem um caso incomum no hospital, e querem que o seu pai dê uma olhada.” “Incomum como?”, perguntei. “Ele não sabia”, respondeu minha mãe. “Ele me ligou antes de ir ao centro de pesquisa. Mas disse que deve chegar em casa no máximo às sete.” Ela ficou parada na porta enquanto eu tirava os livros da mochila. Eu já estava começando a me perguntar o que havia de errado quando ela finalmente perguntou: “Como você está, Kaelyn?” 9|Página


“Bem”, respondi. “Sei que para você foi difícil ir morar em Toronto, depois mudar de cidade outra vez”, disse ela. “Se precisar conversar, você sabe que ficarei feliz em ouvir, não sabe? É para isso que estou aqui.” Os olhos dela ficaram marejados, provavelmente porque estava pensando na vovó — que quando ela teve o derrame e morreu, minha mãe não estava aqui. Mas o que minha mãe poderia fazer se eu tivesse contado sobre a briga com você, sobre minha solidão em Toronto, sobre como me sinto deslocada aqui, agora? Nada. Então respondi: “Eu sei, mãe. Sério, está tudo o.k.” A resposta dela foi “tudo bem”. Tive a impressão de que ela queria dizer mais alguma coisa, mas minha mãe apenas foi embora. Espero que meu pai volte logo. Já são quase sete horas e estou morrendo de fome.

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5 de setembro Que dia estranho. A Sra. Harnett já está programando os seminários de história, mas pelo menos deixou cada um escolher sua dupla. Vou fazer com Rachel, já que Mackenzie não é da nossa turma. O que não me incomodou, porque ela provavelmente passaria o tempo todo falando sobre os astros de cinema que já viu e pintando as unhas enquanto eu fizesse o trabalho. Rachel realmente se importa com as notas. Decidimos que seria melhor começar o trabalho na casa da Rachel, que é mais perto. Encontrei Drew no laboratório de informática depois da aula; ele estava mostrando para outros garotos do último ano que sabia invadir as pastas dos professores na rede, e pedi para ele avisar à mamãe aonde eu ia. Rachel o cumprimentou e abriu um sorriso tímido. Drew, é claro, nem reparou nela. Se a vida pessoal dele fosse da minha conta, eu diria a Rachel que não adianta flertar com ele, só que não tenho nada a ver com isso. Mas comecei a pensar: talvez eu devesse dar uma chance a Rachel. Afinal, temos andado juntas porque ela está sempre com Mackenzie, mas quando Mackenzie passou o mês de agosto inteiro em Los Angeles, não liguei para Rachel nenhuma vez. Tudo bem que ela também não me ligou. Mas pelo que percebi, tenho mais em comum com ela do que com Mackenzie. Preciso tentar ser mais amigável. A nova Kaelyn com certeza tentaria. “Como vai seu pai?”, perguntei enquanto íamos para a casa dela. “Vai bem, eu acho”, respondeu ela. “É melhor a gente escolher o nosso tema para o trabalho.” “Vamos falar de alguma coisa interessante.”

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Em praticamente todos os anos estudamos a importância dos mares para o Canadá, e a última coisa que eu quero é vomitar os mesmos fatos de sempre e ver a turma dormir. “Vamos fazer sobre os acadianos”, sugeriu Rachel, e eu fiz uma careta. “Todo mundo vai escolher esse tema”, retruquei. “Eu ouvi as pessoas comentando.” “É”, concordou ela, “porque é o que tem mais informações. Quero tirar uma nota boa.” “Talvez a Sra. Harnett prefira um tema mais original”, observei. “A gente podia pesquisar os indígenas mi’kmaq, ou a imigração escocesa, ou a indústria da pesca; tenho certeza de que a gente consegue encontrar muito material sobre qualquer um desses assuntos.” Eu não estava querendo criar problema — também quero tirar uma nota boa. Mas Rachel me lançou um olhar gélido e disse: “Ninguém liga para peixe. Se você não quer fazer o trabalho comigo, pode procurar outra parceira.” Que raios foi aquilo? Já repassei a conversa mentalmente milhões de vezes e continuo achando que não falei nada para chateá-la. Quem dera fosse tão fácil entender as pessoas quanto é com os animais. Você faz um agrado em um cachorro e ele fica feliz. Você puxa o rabo dele, ele fica com raiva. Uma clara relação de causa e efeito. Talvez eu seja a única que tem problemas. Acho que você teria conseguido enxergar de cara onde eu errei, Leo. Ainda me contorço toda de arrependimento ao me lembrar da nossa fatídica discussão, de tê-lo acusado de não saber o que era ser considerado um estranho, um intruso; logo você, que é adotado e era o único jovem asiático da ilha, e os olhares e comentários deviam machucar mesmo que você não demonstrasse. Mas você precisa admitir que é bom com as pessoas, tanto quanto eu sou boa com os animais. Duvido que você já tenha ficado completamente perdido tentando entender a atitude de alguém.

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Mas você não estava lá, era eu quem estava, então apenas falei: “Tudo bem, se você quer tanto, a gente faz sobre os acadianos.” Passei o resto do percurso até a casa da Rachel pensando no que dizer em seguida. Depois de cerca de meia hora no quarto, pesquisando sites sobre os acadianos, o pai dela chegou, fazendo muito barulho com as muletas. Além disso ele estava tossindo, e também espirrou algumas vezes enquanto se aproximava da porta. Deve ter pegado uma gripe depois do acidente. Ele ficou parado à entrada do quarto, apenas sorrindo e coçando o cotovelo. Em seguida, entrou mancando e deu um abraço de lado na filha. “Minha garotinha”, disse ele. “Que saudade! E você trouxe uma amiga para casa!” As bochechas da Rachel ficaram coradas. Ela o empurrou. “É, pai, também é ótimo ver você.” Ele tossiu outra vez e virou o largo sorriso para mim. “É Kayla, certo?”, perguntou. “Filha da Grace?” “Kaelyn”, corrigi. “Certo”, falou ele, inclinando-se mais para perto. Seu rosto estava afogueado, e não pude deixar de me perguntar se ele tinha bebido, mas não cheirava a álcool. “Fiquei muito feliz quando a sua família voltou”, continuou ele. “Aquele seu pai nunca deveria ter levado vocês embora. O que ele sabe? É sempre triste ver alguém do continente levar um dos nossos, ainda mais uma mulher tão bonita quanto a sua mãe. Sabe, apesar de ela ser escurinha, eu bem que teria tentado alguma coisa com ela se tivesse tido a mínima chance. Por que é que...” “Pai, por favor”, disse Rachel, parecendo constrangida. Eu fiquei ali sentada boquiaberta, com uma sensação de falta de ar. Qual era o problema dele? Será que ele tinha alguma noção do que estava falando?

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Ele coçou a nuca e depois me deu um tapinha no ombro. Eu me encolhi, mas pelo visto ele nem notou, tanto quanto não notou o protesto da Rachel. “Andam falando bastante sobre o que deve ter acontecido na cidade grande para fazer vocês voltarem”, continuou ele, ainda sorrindo. “Seu pai se perdeu um pouco, talvez? É típico dessa gente do continente. Ou será que você se meteu em algum problema?” “Minha mãe sentia saudades da ilha”, falei, o que era uma explicação muito simplificada, mas eu não estava disposta a oferecer a ele nada mais detalhado. Depois me levantei, acrescentando: “É melhor eu ir. Amanhã a gente pesquisa mais um pouco, tudo bem, Rachel?” Mal esperei que ela concordasse. “Espere um pouco”, disse o pai dela me seguindo pelo corredor. “Tem que ter mais coisa aí nessa história! Todas as tentações da cidade... Espero que você e o seu irmão tenham ficado longe das drogas e das gangues... Por que não convida a sua amiga para o jantar, Rachel?”, sugeriu ele, virando-se para trás. “Sua mãe está louca para ouvir os detalhes!” “Pare com isso, pai!”, pediu Rachel. Ela passou por ele e me alcançou na base da escada. O pai voltou a tossir, e acho que foi só por isso que não continuou falando. “Ele só está doente”, desculpou-se Rachel, olhando para as próprias mãos. “Não sei do que ele está falando.” “É”, falei. “Não tem problema. Mas eu realmente preciso ir.” Mas tinha problema, sim. Durante todo o caminho para casa não consegui tirar as palavras dele da cabeça. Sei que tem muita fofoca na ilha, sobre todos os assuntos. Sei que muita gente não gosta de pessoas do continente que vêm morar aqui, como o meu pai. E sei que há pessoas que olham diferente para a mamãe, para Drew e para mim, e para todo mundo que não tem a pele tão clara quanto elas. Mas ninguém nunca tinha falado daquele jeito comigo tão descaradamente, e tão amigavelmente.

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Tenho arrepios só de lembrar. Ele devia estar bêbado. Além do mais, está doente. E talvez ficar em casa o tempo todo seja enlouquecedor, para quem está acostumado a passar o dia todo no porto ou na água. Só o que eu sei com certeza é que na próxima vez que formos fazer o trabalho, Rachel é que virá à minha casa.

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8 de setembro Acho que posso classificar o dia de hoje como um avanço no quesito nova Kaelyn e um retrocesso no quesito relacionamento com os pais. Hoje papai parecia estressado logo de manhã, andando de um lado para o outro na cozinha enquanto esperava a chaleira apitar, mas na hora não pensei muito nisso. Meredith apareceu logo depois do café, como sempre faz aos domingos. Ela passou a manhã com a mamãe, fazendo pulseiras de linha, e a tarde comigo. Não me incomodo com a presença dela — Meredith é bem menos levada do que a maioria das crianças de sete anos que eu já conheci. E tem andado ainda mais quieta desde que a tia Lillian foi embora, no ano passado. Já imaginou largar o marido e a filha sem dar qualquer explicação? Não vejo o menor sentido nisso. Mas, pensando bem, nunca conheci muito bem a tia Lillian. Dos dois, o tio Emmett era quem falava mais. Não posso compensar a ausência da mãe da Meredith, mas me sinto uma heroína quando consigo fazê-la rir com vídeos engraçados que encontrei na internet, ou deixando que ela veja os meus furões correndo um atrás do outro. Estávamos no meu quarto com Fossey e Mowat saltitando em volta como sempre quando Fossey derrubou meu caderno dos coiotes. Meredith o pegou e começou a passar as páginas. “Legal!”, disse ela, vendo meus rascunhos. “Você está escrevendo sobre cachorros?” “Tem uma família de coiotes morando na mata perto da enseada”, expliquei. “Eu observo o que eles fazem e anoto tudo.” “Eles são perigosos?”, perguntou ela.

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“Na verdade, não”, respondi. “Tenho que ser bem cuidadosa quando quero vê-los, porque eles têm muito medo de mim.” Ela ergueu os olhos, arregalados. “Posso ver também? Você pode me levar?” Sempre fui lá sozinha, mas achei que talvez devesse dividir com os outros aquilo que é importante para mim. Meredith estava muito animada, como se fôssemos participar de uma expedição de verdade. Como eu poderia negar? Tudo correu perfeitamente bem. Fomos até a floresta, e mostrei a Meredith o lugar de onde eu gosto de observar, um ponto da colina em que me coloco entre dois abetos, porque dali a brisa normalmente não sopra o meu cheiro na direção da toca, e sim para longe. O sol brilhava, e a grama tinha um aroma acolhedor e vivo, como se o outono ainda estivesse distante. Deitamos de bruços, e, após sussurrar algumas perguntas, Meredith ficou tão quieta que eu quase esqueci que ela estava ali. Durante alguns instantes, tive medo de não vermos nada. Então os coiotes e seus filhotes, que já estão quase crescidos agora, trotaram de volta à toca após um dia caçando e procurando alimentos. Os filhotes então começaram a brincar de luta. Acabei vendo mais coisas do que na maioria dos dias em que vou sozinha. Quase me xinguei por não ter levado o caderno, mas na verdade não estávamos ali por mim. No caminho de volta para casa, contei a Meredith sobre a primeira vez que eu vi um coiote. Você deve lembrar, Leo. O dia em que minha mãe levou Drew e nós dois para colher mirtilos, quando tínhamos cinco anos e ele, seis. Em determinado momento levantei os olhos e vi um coiote a poucos metros de distância, me olhando. Ainda me recordo daqueles olhos amarelo-ouro. Hoje é uma boa lembrança, mas no dia fiquei apavorada. Pensei que o coiote fosse me comer. Mas então eu me virei para gritar pela minha mãe, e o coiote se assustou, se virou e foi embora.

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“Mas por que o coiote teria medo?”, perguntou Meredith. “Porque as pessoas machucam os coiotes muito mais do que eles machucam as pessoas”, respondi. “A gente acha que sabe tudo sobre os animais; por exemplo, que alguns deles são maus. Mas, se você prestar atenção, vai perceber que eles só estão levando a vida deles e se defendendo, como a gente.” Meredith não conseguia parar de falar sobre os coiotes mesmo depois que chegamos em casa, como se vê-los tivesse sido a coisa mais incrível de todos os tempos. Eu nem desconfiei que papai estava chateado até o tio Emmett vir buscar Meredith. Ele me chamou à sala, e estava com aquela expressão rígida que eu e Drew chamamos de sua cara de cientista. “Acho que você não deveria levar Meredith de novo à toca dos coiotes”, disse ele. “O quê?” Depois de ver como ela havia ficado feliz, não dava para acreditar que eu tinha escutado meu pai direito. “Ela é quase dez anos mais nova que você”, disse ele. “Não entende como é importante tomar cuidado perto de animais selvagens. Você sabe que em outros lugares já houve casos de coiotes atacando crianças.” “Só crianças muito menores que Meredith”, retruquei. “Eu estava ensinando ela a tomar cuidado. Ela...” “Não vamos mais discutir isso”, me interrompeu ele. Como se tivesse havido alguma discussão de fato. “Existem muitas outras coisas que vocês podem fazer.” E foi para o escritório. Você conhece meu pai — ele sempre apoiou minha vontade de estudar os animais. E quando comecei a sair sozinha para observar os coiotes, eu era só um pouquinho mais velha que a Meredith é hoje. Não entendo por que ele está tão preocupado agora. Talvez ele não esteja aborrecido por causa dos coiotes, mas pelo mesmo problema, seja lá qual for, que já o vinha

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incomodando antes. Vou ter que conversar com ele de novo em outra ocasiĂŁo, quando ele estiver de bom humor.

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9 de setembro Ontem à noite o pai da Rachel foi levado às pressas para o hospital. Eu soube quando cheguei ao colégio, hoje de manhã. Já tinha um grupinho falando sobre ele — aos cochichos, mas alto o suficiente para que eu ouvisse Shauna, que se senta atrás de mim nas sessões de orientação escolar, dizer as palavras “psicótico” e “ambulância” depois de mencionar o nome da Rachel. Normalmente eu teria esperado Mackenzie aparecer e pedido para ela me atualizar das novidades. Mesmo quando éramos crianças, Shauna franzia o nariz quando eu levava girinos para mostrar na aula e dava risadinhas quando eu aparecia na escola com grama grudada na roupa, o que não era raro. Mas eu resolvi que a nova Kaelyn não deixaria um pouco de antipatia do passado me impedir de descobrir o que tinha acontecido, então me virei na cadeira e perguntei: “O que está havendo?” Shauna parou um instante, como se não acreditasse que eu tinha realmente falado com ela. Suas sobrancelhas se ergueram em arcos perfeitos. “Quer dizer que você não sabe?”, perguntou ela. Acho que ela supôs que, como sou amiga da Rachel, eu já estaria por dentro. Abri a boca, mas não saiu nada, e algumas amigas da Shauna riram. Mas não teve importância, porque no mesmo segundo Mackenzie se sentou ao meu lado. Eu me virei para ela, torcendo para que não desse para notar meu rosto vermelho. “Assustador, hein?”, disse Mackenzie. “O quê?”, perguntei. “Ainda não soube.”

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“O pai da Rachel.” Ela baixou a voz. “Ficou totalmente maluco ontem à noite. Acordou a rua inteira às duas da manhã, batendo na cerca do quintal e gritando.” “Gritando o quê?”, perguntei. Eu me lembrei do comportamento dele na semana passada, e de repente tremi por dentro. Então não era coisa de bêbado, afinal. Havia algo muito errado com ele. “Ninguém sabe!”, falou Mackenzie. “Ele ficava repetindo que precisava fazer alguma coisa ‘contra eles’, mas não tinha ninguém lá! Pelo menos foi essa a história que eu ouvi. Alguém ligou para a polícia, e chamaram um médico para sedar o cara. Parece que ele ficou gripado depois que quebrou a perna. Minha mãe fez enfermagem, você sabe, e ela disse que se a febre subir muito, a pessoa pode começar a delirar. Vai que foi isso. Por que mais ele ficaria assim tão alucinado, não é?” Eu poderia ter contado a ela sobre as coisas que ele tinha falado na última quinta-feira. Mas achei difícil que Mackenzie conseguisse ficar de boca fechada, e Rachel e a mãe já deviam estar bastante estressadas para que eu aumentasse a fofoca. “Como está Rachel com tudo isso?”, perguntei. “Eu não a vi hoje.” “Nem eu”, respondeu Mackenzie. “Parece que ela ficou em casa, ou talvez esteja no hospital. Não é de se estranhar. No lugar dela, eu usaria qualquer desculpa para matar aula.” Espero que Rachel esteja bem. Passei o dia pensando nela e no pai, mas não quis telefonar, por medo de incomodar. Quando cheguei em casa, me ocorreu que papai poderia ter ouvido algo a respeito. Apesar de agora estar no recém-construído centro de pesquisa oceânica, ele ainda tem contato com algumas pessoas com quem trabalhava no hospital. Depois do jantar, ele estava sentado na sala com uma das suas revistas de Sudoku. Quando me aproximei, ele olhou para mim e perguntou: “Kae, como está se sentindo?”

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Ele tem dito isso, em vez de “Como você está?”, desde as férias do ano passado, quando viemos visitar a ilha e eu tive uma febre tão alta que precisei ficar dois dias no hospital. Durante, sei lá, a primeira semana, deu para entender, mas agora já está meio irritante. Como se ele achasse que eu ainda não superei uma crise boba de intoxicação alimentar. “Tudo bem”, respondi. “Queria fazer uma pergunta.” “Claro.” Mas antes que eu pudesse continuar, Drew entrou na sala e pegou o controle remoto da TV. Ele estava com aquele olhar determinado de quando está prestes a tocar no assunto. Papai claramente também notou, porque vi seus ombros ficarem tensos. “Hoje vai ter reprise de um episódio ótimo de Queer as a Folk”, disse Drew ao ligar a TV. “Mal posso esperar!” Papai olhou friamente para sua revista. “Talvez a sua irmã queira ver outra coisa”, disse ele, como se eu quisesse ser arrastada para a disputa passivoagressiva dos dois. “Então ela deveria ter pedido primeiro”, retrucou Drew. “Ei, se lembram daquele site que eu ajudei a fazer, o da petição pelo direito ao casamento homossexual na América do Norte? Já tem mais de mil assinaturas. Maneiro, né?” “Ah”, falou papai, mexendo na sua revista de Sudoku e levantando o lápis, “o sete é aqui.” A abertura do programa começou, e Drew se ajeitou no sofá. “Incrível como eles conseguiram colocar tantos caras gatos em um só programa”, disse meu irmão, aumentando o volume. Papai sucumbiu antes do normal. Ele se levantou e saiu da sala. Drew revirou os olhos em desdém. Seria de se esperar, considerando a inteligência de papai para as ciências e a medicina, que ele não agiria de modo tão ignorante em relação à orientação sexual do filho. Mas ele age como se ter um filho que sente atração por

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homens fosse algo tão inconcebível que ele não consegue sequer admitir a ideia. Duvido que ele tivesse concordado tão depressa em procurar um emprego na ilha quando mamãe sugeriu voltarmos para cá se não tivesse flagrado Drew beijando o “melhor amigo” há alguns meses. E Drew, é claro, está determinado a esfregar isso na cara dele até... até que papai tenha um colapso, talvez. Não sei o que ele espera que aconteça. A meu ver, Drew tem toda a razão, mas às vezes dá vontade de gritar com os dois. Mesmo que papai já tivesse superado o mau humor de ontem, tive a sensação de que essa “conversa” com Drew o fez piorar outra vez. Não me parecia um bom momento para incomodá-lo com um monte de perguntas. Pelo menos o pai da Rachel já está sendo tratado. Amanhã no colégio devo ficar sabendo tudo sobre a recuperação dele.

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10 de setembro Rachel faltou à aula de novo. Nenhuma notícia do pai dela. Mackenzie aparentemente não achou nada de mais ela faltar, mas eu não conseguia imaginar Rachel matando aula dois dias seguidos a não ser que o pai estivesse basicamente morrendo — e alguém falaria sobre o assunto se ele estivesse tão mal assim. Afinal, é a mesma garota que achou desnecessário ir para casa depois de vomitar a alma durante a prova de inglês no ano passado. Rachel nunca disse nada, mas eu desconfio de que sua família não tenha dinheiro suficiente para pagar por uma faculdade a menos que ela consiga uma boa bolsa. O pai vive da pesca, que ultimamente não tem andado muito bem para ninguém, e a mãe não trabalha. Deve ser difícil. Então depois da aula eu liguei para saber como ela estava. “Kaelyn!”, disse ela quando atendeu. “Estou tão feliz que você tenha ligado. Senti sua falta!” Eu não esperava uma reação tão entusiasmada. “Como vão as coisas?”, perguntei. “Ah, peguei um resfriado idiota e a minha mãe disse que eu tenho que ficar em casa e descansar.” Ela espirrou. “Meu Deus, como é chato. Quer vir aqui? Acho que a minha mãe não ia gostar muito, mas ela foi ao mercado, e ela não precisa saber, não é mesmo?” “Claro”, falei. Tudo bem que ela parecia meio estranha, mas eu queria me aproximar. Parecia uma boa hora para tentar. Assim que toquei a campainha, Rachel abriu a porta e me abraçou. Só me soltou para tossir e coçar o pescoço. Seu nariz estava vermelho. Exatamente como o pai quando estive na casa deles — espirrando e tossindo e se coçando. 24 | P á g i n a


Aí comecei a me sentir nervosa. Mas Rachel parecia tão feliz em me ver, e uma verdadeira amiga não iria embora simplesmente. Era só um resfriado. Seu pai tinha ficado muito mal, mas isso não queria dizer que ela também fosse parar no hospital. Então, quando ela me puxou pelo braço, fomos para a sala. Na TV, um VJ entrevistava um cantor de hip-hop. Rachel me puxou para o sofá e colocou o braço nos meus ombros. “Vamos, me conte”, disse ela. “Quero saber tudo o que eu perdi. Estou presa nesta casa chata há milênios.” Não tinha muito o que contar. Não achei que ela fosse querer saber que todo mundo no colégio estava fofocando sobre seu pai. Falei que tinham anunciado que a equipe de natação começaria as atividades em breve e que, como eu havia decidido fazer um teste, talvez ela quisesse ir também, e então me lembrei da história que Mackenzie tinha contado no almoço — mais uma das suas sobre “aquele famoso que os meus pais conhecem”, mas que dessa vez tinha sido mesmo engraçada. Quando comecei a história, Rachel fez uma careta. “Ela é um saco, não é?” Parei de falar e olhei fixamente para ela. “A Mackenzie”, explicou Rachel, e revirou os olhos. “Como se ela fosse muito especial só porque nasceu em Los Angeles. Vive de nariz em pé. Meu Deus, às vezes eu tenho vontade de arrancar aquele nariz da cara dela, você não?” Às vezes. Mas Rachel? Ela sempre me pareceu muito entusiasmada em ouvir tudo o que Mackenzie contava. Não respondi de imediato, então ela continuou: “E ela também é tão mandona, me deixa louca! Sabe, eu fiquei um tempo meio irritada porque ela era a minha melhor amiga e você estava tentando, tipo, roubá-la para você. Mas na verdade você é muito mais legal do que ela. Que bom que eu tenho você agora! Podemos andar juntas, certo?”

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O braço dela no meu ombro já estava pesando e ficando desconfortável. “A-ham. Claro.” Só que a última coisa que eu queria fazer naquele momento era ficar ali com ela. Não eram só os espirros e a tosse que me incomodavam — ela também estava falando igual ao pai na semana passada. Como se estivesse libertando cada pensamento desagradável e constrangedor que houvesse em sua mente. Eu me afastei disfarçadamente, e ela começou a coçar o pescoço outra vez, tão forte que a gola da blusa ficou esticada para o lado. Ela devia estar coçando aquela região havia horas. A pele estava vermelha — não um vermelho das marcas das unhas, mas um tom forte e cru, como se o sangue estivesse prestes a irromper. Meu estômago embrulhou quando vi aquilo. Rachel só parou de coçar ao espirrar. Ela então tirou o braço de cima de mim por um segundo, e eu me levantei de um salto. Mas no mesmo instante começou um clipe. Rachel deu um grito. “Eu amo essa música!”, exclamou ela, pulando do sofá e segurando minhas mãos. “É maravilhosa!” Ela me sacudia enquanto dançava, e eu fiquei imaginando o que fazer para conseguir sair de lá. Ela levantou as mãos e começou a se remexer toda e rebolar. “Que tal?”, perguntou, gritando apesar de a música não estar tão alta assim. “Eu tenho treinado no quarto. Às vezes striptease também! Você sabe, para quando eu tiver um namorado. Vou arrasar.” Ela girou o corpo, rindo. O barulho da porta da frente se abrindo naquele momento foi o som mais maravilhoso que eu já ouvi na vida. “Rachel?”, chamou a mãe dela. “Querida, eu falei para você...” Ela parou de súbito ao nos ver. Rachel continuou dançando, jogando o cabelo de um lado para o outro. Não sei bem o que incomodou mais a mãe dela: minha presença ali,

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ou o fato de a filha estar agindo feito uma louca. Mas ela estava definitivamente incomodada. “Kaelyn”, a voz dela vacilou sutilmente, “acho que este não é o melhor momento para Rachel receber visitas.” “Sinto muito”, falei, e era verdade. “Não sabia que ela ia ficar tão... agitada.” Rachel foi saltitando atrás de mim até a porta. “Minha mãe é uma estraga-prazeres”, disse ela, em um sussurro alto. “Ela acha que os outros pais na ilha não controlam os filhos. Mas descontrole é tudo!” Ela coçou o pescoço outra vez enquanto me dava tchau. Olhei para trás depois de atravessar metade do quarteirão e ela continuava ali, acenando e se coçando. Agora estou mais que nervosa. Estou assustada. Não posso tentar me convencer de que Rachel estava bêbada, nem acreditar em nenhuma outra desculpa em que eu poderia ter pensado para justificar o comportamento de seu pai. Ela simplesmente não estava sendo ela mesma. O que será que está acontecendo?

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11 de setembro Leo, É uma da manhã e não consigo dormir. Queria poder ligar para você. Por pior que fosse a situação e por mais triste que eu estivesse, você sempre sabia o que dizer para fazer com que eu me sentisse melhor. Quando ainda éramos amigos. Mas não tenho o seu telefone em Nova York, e, mesmo que tivesse, duvido que você fosse gostar se eu rompesse dois anos de silêncio acordando-o no meio da noite. A culpa é minha, por não ter falado com você antes. Então estou sentada na cama com o abajur aceso, escrevendo este diário, porque não sei mais o que fazer. Eu não consegui parar de me preocupar com Rachel desde que cheguei em casa hoje à tarde. Tentando entender que doença esquisita faria as pessoas agirem tão estranho. Mas bactérias e vírus são a especialidade do meu pai, não a minha. Então, quando nós dois estávamos lavando a louça, comecei a contar o que tinha acontecido. Acabei falando tudo, inclusive sobre o pai da Rachel na semana passada. Eu não olhei para ele, foquei apenas nos pratos que eu estava secando, porque achei que talvez fosse um exagero da minha parte. Mas desabafar foi um grande alívio. Eu estava começando a achar que talvez estivesse tudo bem quando levantei os olhos e vi a expressão do meu pai. Ele tinha ficado pálido e estava com as mãos paradas, mergulhadas na água da pia. “O pai dela tocou em você?”, perguntou ele, e parecia estar se esforçando muito para não levantar a voz. “Só no ombro”, falei. “Nada impróprio.” “E hoje, a Rachel? Ela abraçou... você passou o dia inteiro com a mesma roupa?” 28 | P á g i n a


Meu rosto ficou quente, porque eu me senti uma idiota enquanto me trocava. “Não”, respondi. “Quando cheguei em casa, tomei banho e coloquei outra roupa. Não pude deixar de pensar que, se o que ela tem for contagioso, eu não quero pegar.” A postura de papai relaxou, o que me deixou tensa outra vez. “Você acha que é?”, perguntei. “É contagioso?” “É sempre bom ter cuidado, Kae”, disse ele. “Você deveria lavar hoje todas as roupas que estão no seu cesto. E Rachel foi ao colégio semana passada, não foi? Depois que você encontrou o pai dela?” Eu assenti, e ele falou: “É melhor você ficar em casa, então. Pelo menos até o fim de semana.” “O quê?” Um dos motivos para eu estar com medo de ficar doente era porque não queria perder aulas. Eu posso não precisar de bolsa de estudos, mas ainda assim tenho que tirar notas boas para ser aceita em alguma grande universidade. E ficar em casa também atrapalharia meu projeto nova Kaelyn. “Os testes para a equipe de natação são esta semana”, argumentei. “A Sra. Retese disse que só vai aceitar quem demonstrar comprometimento logo do início.” “Vou pedir para alguém do hospital lhe dar um atestado. Temos que nos proteger,Kae.” “Proteger do quê? Nem sabemos o que está acontecendo!”, falei. Ouvi minha mãe entrar na cozinha e se colocar atrás de mim. Ela tocou minhas costas e falou: “Gordon, é melhor contar logo para ela.” “Contar o quê?” Eu me virei para olhá-la e em seguida me voltei novamente para papai. Os olhos dele estavam nela, não em mim. Minha mãe não gosta de discutir — ela diz que acha mais eficiente “dar uma cutucada gentil, ainda que firme”. Mas quando alguma coisa é muito importante, ela não tem medo de bater o pé. Papai queria cortar a internet e o telefone

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do Drew depois do incidente do beijo, mas a mamãe disse que ele estava sendo ridículo, e assim se encerrou o assunto. “Ela só tem 16 anos”, falou papai como se eu fosse um bebezinho. “Sim”, disse mamãe. “E como qualquer pessoa normal dessa idade, ela só vai lhe dar ouvidos se tiver um bom motivo.” Papai tirou as mãos da pia, secou e então passou os dedos no cabelo. “O que é?”, perguntei. Se ele tivesse me contado antes o que sabia, talvez eu nem tivesse ido à casa da Rachel. Ele realmente achava que guardar segredos iria me proteger? “O pai da Rachel está muito doente”, disse ele. “Não sabemos o que há de errado com ele.” “Nós?”, repeti. “Você foi visitar o pai dela?” Ele abriu um sorriso tenso. “Sou o único microbiologista da ilha. A equipe do hospital não estava conseguindo fazer um diagnóstico, então acharam que fazia sentido me procurar. Estávamos torcendo para que a causa fosse ambiental. Outros dois homens que trabalham com pesca deram entrada no hospital na semana passada, e mais um hoje de manhã, todos com sintomas parecidos: tosse, espirro, coceira insistente e febre, seguida de uma severa queda das inibições sociais. E, finalmente, pânico em função da confusão mental. “Eles estão tendo alucinações”, falei, me lembrando da teoria da Mackenzie. “Por causa da febre?” “Não temos certeza”, respondeu papai. Então, resumindo, uma doença bizarra está bagunçando completamente o cérebro das pessoas, e ninguém faz ideia de que doença é nem de onde vem. De que adianta existirem médicos se eles não conseguem descobrir esse tipo de coisa? Minha mãe me envolveu com o braço e afagou meu ombro.

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“Isso vai acontecer com Rachel também?”, consegui perguntar. Ela estava com todos os outros sintomas quando a vi. Será que amanhã ela vai ter um surto de insanidade no quintal de casa? Como vão ajudá-la? “Não sei”, respondeu papai. “Vou ter que conversar com a mãe dela amanhã de manhã, tentar convencê-la a levar a Rachel ao hospital para ficar em observação. O que mais me preocupa, no entanto, pelo que você me contou, é que parece que estamos lidando com um agente infeccioso. Parece bem provável que Rachel tenha contraído do pai essa doença.” Então me lembrei do que papai tinha dito antes, e meu coração acelerou. “Você acha que ela pode ter passado para mim. Por isso não quer que eu vá ao colégio.” “Existe uma pequena chance”, disse ele. “Muito pequena, porque você tomou precauções e porque o contágio não parece acontecer com tanta facilidade. O caso da Rachel, que eu saiba, é o único em que claramente foi transmissão por contato direto. Mas não dá para termos certeza. E ela pode ter contaminado outros alunos. Vou falar para Drew ficar em casa também.” “Mas ela não vai ao colégio desde que ficou doente”, falei. “Não sabemos ao certo”, disse ele. “Não sabemos qual é o período de incubação. Ela podia já estar contaminada pela bactéria ou pelo vírus na semana passada, mesmo antes de os sintomas aparecerem.” Repassei os acontecimentos com o máximo de calma possível. Se alguém tivesse contraído a doença misteriosa da Rachel na sexta-feira, o último dia em que ela foi à escola, os sintomas já teriam aparecido, não? Não vi ninguém na minha turma tossindo ou espirrando. E papai achava que eu provavelmente estava a salvo. Rachel morava com o pai, afinal de contas. É um contato muito mais próximo que o meu com ela.

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Ao mesmo tempo, fiquei imaginando ter que passar os três dias seguintes em casa — sozinha. Estou indo bem, mas ainda fico muito nervosa quando tenho que falar em sala e, para ser sincera, estou um pouco apavorada de aparecer no teste de natação na quinta-feira. Atender ao pedido do meu pai seria uma saída fácil. E era exatamente por isso que eu não deveria concordar. “E se eu quiser continuar indo à escola?”, perguntei. “Afinal, uma coisa é cautela e outra é paranoia, certo? Só tem cinco pessoas doentes. E até onde se sabe, elas podem estar boas amanhã.” Papai trocou um olhar com mamãe por cima do meu ombro. Ele contraiu os lábios, mas assentiu. “Tudo bem. Mas se você perceber que alguém na sua sala tem os sintomas que eu descrevi, ou se sentir qualquer coisinha que seja...” Levantei as mãos. “Fico em casa sem discutir”, falei. “Prometo.” Mesmo sabendo que se realmente houvesse uma emergência meu pai jamais teria concordado, entrei no meu quarto e não consegui apagar a luz. Fico pensando: e se aquelas pessoas não melhorarem? E se eu tiver realmente sido contaminada, seja lá o que for essa doença? Espero que você esteja dormindo bem aí em Nova York, Leo. Assim pelo menos um de nós estará.

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11 de setembro (mais tarde) A esta hora Rachel deve estar no hospital, onde os médicos poderão cuidar dela. Espero que esteja bem. Ninguém no colégio está falando nada sobre a doença misteriosa. Só as mesmas reclamações de sempre, sobre professores e deveres de casa, e as fofocas sobre quem está ficando com quem. Não é possível que eu seja a única ciente do que está acontecendo. Os médicos e as enfermeiras sabem, e eles conversam em casa, com a família, e alguns têm filhos aqui. Parece que estamos tentando preencher cada segundo de silêncio com papos sem importância, para não termos que falar sobre nada real ou assustador. Toda vez que alguém pigarreia eu me encolho de susto. Vi Quentin coçando o braço na aula de inglês e fiquei imóvel até perceber que era só uma mordida de mosquito. E depois, na fila do refeitório, a fumaça que a chapa produzia me fez espirrar e eu tive a sensação de que todo mundo em volta de mim se afastou instintivamente. Mas não vi ninguém que parecesse de fato resfriado. E, por via das dúvidas, tenho lavado as mãos nos intervalos das aulas e tento não ficar muito perto de ninguém. É estranho. Semana passada passei o tempo todo tentando ser Kaelyn, a Supersimpática, e agora estou com medo de colocar a saúde das pessoas em risco se respirar perto delas. Andei pensando que talvez eu não deva ficar junto da Meredith, pelo menos neste fim de semana. E também me perguntei se algum daqueles trabalhadores do porto que ficaram doentes não têm filhos na mesma escola que ela.

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Será que há alguém de olho neles, para confirmar se estão contaminados ou não? Talvez ela devesse ficar em casa até os médicos terem certeza. Ainda vou participar dos testes para a equipe de natação, amanhã, e não voltei totalmente àqueles meus hábitos antissociais. Tessa se atrasou para a aula de biologia hoje à tarde e percebi que ela estava parada na porta, olhando para a carteira onde normalmente se sentava, no fundo da sala, perto da Shauna. O lugar estava ocupado, pois Shauna tinha chamado as amigas para fofocarem sobre meninos, festas e sei lá o que mais que elas costumam falar. A única carteira livre era ao lado da minha, lá na frente. “Ei”, falei, apontando para o lugar. “Pode se sentar aqui se quiser.” Não a conheço muito bem, é claro, considerando que ela veio morar aqui quando estávamos em Toronto. Mas qualquer um consegue ver que ela não faz muita questão de impressionar. Tessa nunca pinta o cabelo para ficar “castanho”, em vez de vermelho-cenoura, nem esconde as sardas com base, como Mackenzie faz. Também nunca fala muito com Shauna, apenas sorri reservadamente quando a outra tenta arrastá-la para alguma conversa. Na verdade, a impressão que eu tenho é de que ela prefere não se relacionar conosco. Quer dizer, com a maioria de nós — ela obviamente se relacionou com você, Leo. Então não faço ideia do que a levou, hoje, a olhar para mim e depois para a mesa vazia, e então falar: “Não, tudo bem.” Ela passou direto por mim, foi até o grupo da Shauna e disse alguma coisa que eu não consegui escutar. Melissa, que é quem normalmente se senta perto de mim, saiu da mesa da Tessa e voltou para meu lado. Meu rosto ficou meio quente e eu passei o restante da aula olhando para o livro. Acho que, apesar de sua namorada não ligar a mínima para Shauna, ela ainda prefere ficar perto dela a se sentar comigo. Talvez ela tenha ouvido falar das pessoas que adoeceram e saiba que eu sempre ando com Rachel. Não tem

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importância. Só de escrever o que aconteceu já me sinto desconfortável, como se fosse eu que tivesse feito alguma coisa errada.

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12 de setembro Sempre que entro na sala da aula de história não consigo parar de olhar para a mesa vazia da Rachel. Quanto mais tempo fico lá, sentada, mais inquieta eu me sinto. Principalmente porque todo mundo parece tê-la esquecido. Mackenzie nem sequer a mencionou hoje. Pelo menos a Sra. Harnett não esqueceu. No final da aula, ela falou comigo em particular: “Talvez demore um pouco até Rachel voltar à escola. Você pode terminar o trabalho sozinha, se quiser, ou pode se juntar a outra dupla, formando um grupo de três.” Ela estava falando sobre aquilo com muita tranquilidade e, de repente, senti meus olhos arderem, como se estivesse prestes a chorar. Não sei por quê. É só um trabalho — é claro que Rachel pode recuperar a nota depois. “Vou continuar fazendo sozinha”, falei. “Até ela melhorar.” Eu queria acreditar que ela talvez voltasse antes do prazo de entrega. Mas então, quando papai finalmente chegou em casa ontem à noite e perguntei como estavam Rachel e os outros, ele franziu o cenho. Os médicos estavam examinando as famílias dos pacientes e mais um monte de gente vinha apresentando os sintomas. “Mas vocês estão cuidando disso, certo?”, perguntei. “Eles vão melhorar?” Meu pai hesitou e eu insisti: “Pai, eu preciso saber! Você não pode continuar escondendo as coisas de mim.” “A esta altura é difícil dizer, Kae”, disse ele. “Conseguimos aliviar os sintomas por enquanto, mas ainda não sabemos como eliminá-los totalmente. E os indícios estão

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apontando para o contágio por vírus, e não infecção bacteriana.” “Ah, isso é bom, não é?���, falei. “Quer dizer que vocês estão descobrindo do que se trata.” “De certa forma”, disse ele. “Vírus são mais difíceis de combater, pois nossas opções de tratamento são mais limitadas. Mas estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance.” O que não melhorou nem um pouco meu ânimo. Era quase preferível não ter perguntado.

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14 de setembro Ontem a vida voltou a parecer praticamente normal. Meu pai ainda trabalhou até tarde, mas a aula foi como sempre. Shauna estava tentando convencer Tessa a dar uma festa, porque, aparentemente, os pais dela viajaram. Fiz os testes de natação na quinta e na sexta, e a Sra. Retese fez sinal positivo para mim quando eu estava saindo da piscina, então acho que estou no time. E ontem à noite Mackenzie e eu atravessamos para o continente, para ver o filme novo do Christopher Nolan no cinema grande. O cara da bombonière era bonitinho. Fiquei conversando com ele quando o filme acabou, até Mackenzie perder a paciência e falar que tínhamos que ir embora. Sorri durante todo o caminho de volta. Não que eu esteja louca por ele. Mal o conheço. Mas seria legal, você sabe, ter alguém por quem me interessar. Alguém que pudesse se interessar por mim também. Mas aí, hoje cedo — cinco da manhã de sábado —, meu pai recebeu uma ligação e saiu correndo. Tentou não fazer barulho, mas mesmo assim a casa toda acordou. Depois que percebemos que ele tinha saído, ninguém conseguiu voltar a dormir. Então Drew e eu nos sentamos à mesa, ainda meio dormindo, e minha mãe fez bolinhos de batata. Ela só prepara isso em ocasiões especiais ou quando quer que a gente se sinta melhor, porque diz que dá muito trabalho e ela própria não gosta de comer. Mamãe fez bolinhos de batata no dia em que ela e papai anunciaram que estávamos de mudança. Então deu para perceber que ela estava esperando notícias ruins. “Talvez ligaram porque alguém melhorou no meio da noite”, opinei, como se dizer isso fosse me convencer dessa possibilidade.

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“Vamos torcer”, disse mamãe. Mesmo que estejam perfeitamente crocantes por fora e macios por dentro, bolinhos de batata não descem bem quando você acordou duas horas mais cedo que o normal e está com um nó garganta. Só consegui dar algumas mordidas. Drew acabou com todos do prato dele, e levou um minuto inteiro mastigando o último pedaço até finalmente engolir. Minha mãe não comeu. Deu de ombros e guardou as sobras em um pote, para mais tarde. Ficamos sentados ali até o sol nascer, de olho no telefone. Até que Drew falou: “Ei, gente. Hoje é sábado. Vamos ver o que está passando na TV.” Mamãe dispensou o convite, dizendo que ia tentar dormir mais um pouco. Sábado sim, sábado não ela tem um turno extra na lanchonete do posto de gasolina, mas acho que hoje ela não vai. Drew e eu fomos para a sala e ele ficou zapeando. Não estava passando nada, só programas infantis. Finalmente ele parou em um episódio dos Looney Tunes e ficamos por algum tempo vendo o Pernalonga insultar o Hortolino. Às vezes eu consigo achar esses desenhos divertidos, mas hoje as piadas me pareceram apenas bobas. Eu não conseguia tirar os olhos do relógio. O papai demorar muito a ligar é um bom sinal? Quer dizer que ele não está com pressa de nos salvar de uma catástrofe? Ou será que significa que o que quer que tenha acontecido foi tão ruim que vai levar uma eternidade até ele resolver? Os poucos bolinhos de batata que eu havia comido já deviam ter sido digeridos havia horas, mas os movimentos em meu estômago não paravam. Drew estava esparramado no sofá, as pernas esticadas no pufe, como se nada no mundo fosse mais importante que um coelho que fala. Depois de um tempo não me aguentei e disse: “Você não está preocupado?” “Claro”, respondeu ele, ainda focado na TV. “Não parece.”

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Ele alcançou o controle e abaixou o volume. Em seguida se virou para mim: “Acho que algumas meninas que fazem umas aulas comigo estão doentes”, disse baixinho, para a mamãe não ouvir caso ainda estivesse acordada, imagino. Porque se ela ouvisse, provavelmente reagiria pior do que eu. “O quê?” Tive que me forçar a diminuir o tom de voz. “Tem certeza? O que aconteceu?” “Não aconteceu nada”, disse ele. “Só que ontem uma menina na aula de física estava espirrando, e no meio da aula de legislação a Amy teve que sair por alguns minutos porque estava tossindo muito. Deve ser uma gripe normal. As pessoas sempre começam a ficar gripadas nesta época do ano.” “Você contou para o papai?”, perguntei. Ele revirou os olhos. “Claro que não. Ele ia trancar a gente em casa se soubesse. Isso ajudaria em quê?” “Impedindo que a gente fosse exposto à doença”, falei. “Você quer ser contaminado também? E ele podia garantir que essas meninas fossem examinadas no hospital, por via das dúvidas.” “Se o problema é a doença, ficar em casa não vai ajudar. Vamos acabar pegando do papai. É ele que está passando doze horas por dia com pessoas que temos certeza de que estão doentes. Um cara que eu conheço do time de futebol tem uma tia que é enfermeira. Ele me disse que ela está sendo obrigada a ficar no hospital porque ajudou a tratar os pacientes e agora começou a apresentar os sintomas.” Era um bom argumento. Eu sabia disso. Mas, por algum motivo, só me irritei ainda mais. É fácil para ele dizer que nosso pai está exagerando. Ele não viu Rachel e nem o pai dela — não imagina como essa doença é séria, que pode transformar completamente a pessoa. É assustador saber que cada vez mais gente está sendo contaminada e os médicos ainda não encontraram nenhuma cura.

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“Você poderia pelo menos ter me contado”, falei. “Porque você teria feito diferente?”, perguntou ele. “É assim que você quer enfrentar isso, se escondendo em casa?” “Não sei!”, gritei. “Pelo menos eu poderia ter escolhido o que fazer!” Parei antes que eu falasse demais, e ficamos sentados em silêncio, ouvindo a TV. Por sorte, não houve nenhum sinal de que tínhamos incomodado mamãe. “Desculpe”, disse Drew disse após um momento. “Eu devia ter lhe contado. É que odeio o jeito do papai de resolver os problemas simplesmente erguendo um muro, sem nem saber do que ele está tentando nos ‘proteger’. E...” Como ele não continuou, eu insisti: “E...?” “E eu ando mais irritado com ele do que o normal, por outros motivos”, explicou ele, franzindo a testa. “Há algumas semanas Aaron disse que não fazia sentido a gente continuar junto, porque meu pai não está nem um pouco disposto a aceitar que eu tenha um namorado, e acho que Aaron não gosta desse ‘drama’ todo, mesmo que a distância. Apesar de ser eu quem tem que aturar o papai.” “Ah”, falei. Não sabia o que dizer além disso. Nós dois nunca conversamos propriamente sobre namorados, considerando que eu nunca tive um de verdade e que Drew sempre foi reservado quanto à vida amorosa dele. “Sinto muito. Que droga.” “É”, concordou Drew. “É uma droga mesmo.” Ele se levantou e saiu da sala, e eu não estava com vontade de ver TV sozinha. Me sentia muito cansada, mas quando deitei no quarto e tentei dormir, minha mente não queria desacelerar. Comecei a escrever para tirar tudo isso da cabeça. Só que agora estou é pensando ainda mais. Demais. Ouvi minha mãe entrar no banheiro há alguns minutos, então ela já deve ter acordado. Acho que vou lá perguntar a ela se ***

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Meu pai finalmente ligou. Mamãe ainda está falando com ele, então ainda não sei de tudo. Mas nenhuma das notícias parece boa. O pai da Rachel acaba de morrer.

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15 de setembro Fomos à casa do tio Emmett hoje. Papai queria conversar com ele sobre a doença misteriosa. Eu ia sair um pouco com Meredith, mas o tio Emmett insistiu em que ela também fosse informada, então nos sentamos todos na sala. Fiquei com o braço em volta dela. Ela começou a roer a unha do polegar enquanto papai explicava o que estava acontecendo. Como se ela já não tivesse mais preocupações do que deveria, para uma criança de sete anos, desde que a mãe desapareceu, agora ainda tinha que ouvir sobre doenças e pessoas morrendo. Quanto daquilo tudo ela ia entender, além das partes assustadoras? Quando papai acabou, tio Emmett balançou a cabeça, lamentando. “Mas como aquele centro de pesquisa todo bacana é útil para a ilha...”, comentou ele. “Fico feliz sabendo que enquanto vocês estavam lá estudando as algas essa doença veio chegando de mansinho.” “Emmett”, repreendeu-o minha mãe, e ele fez uma careta para ela. Eu poderia ter reclamado com meu tio, mas papai não pareceu ofendido. Acho que ele já se acostumou com as agressões do tio Emmett. “Você iria se surpreender”, retrucou ele. “O equipamento está sendo muito bem utilizado, pode acreditar.” Tio Emmett se levantou e falou: “Bom, vou começar a fazer as malas.” “O quê?”, exclamou minha mãe. “Para onde você vai?” “Faz diferença?”, perguntou ele, elevando a voz. Meredith se mexeu desconfortavelmente, e eu a puxei mais para perto de mim. “Acha que eu devo esperar aqui até esse vírus contaminar minha filha ou a mim? Se a situação é tão

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séria quanto Gordon está dizendo, eu é que não vou ficar nesta ilha.” “A questão aqui não é só sobre você e Meredith”, disse papai. “É o mundo inteiro. Até onde sabemos, um de vocês pode já ser portador do vírus. Se saírem da ilha, poderão espalhá-lo ainda mais. Já entramos em contato com a Agência de Saúde Pública. Eles estão pensando em montar uma área de controle no continente, para que as pessoas possam sair daqui sem riscos. Você teria que ficar sob a supervisão deles pelo tempo que determinassem e, quando tivessem certeza de que não está infectado, você seria liberado para ir aonde quisesse. É só esperar alguns dias enquanto eles organizam o processo.” “Alguns dias?”, gritou tio Emmett. “Por que eles não têm um lugar para nós agora? Não estou nem aí para o restante do mundo, tenho o direito de proteger minha família!” Ele continuou reclamando, e o olhar de mamãe continha uma ordem implícita — uma ordem que fiquei feliz em obedecer. Peguei a mão de Meredith e a levei para seu quarto, onde a maioria das palavras do pai dela chegava abafada. Seu cabelo estava um pouco emaranhado, então peguei a escova na cômoda e me sentei com ela junto à janela. Tia Lillian fazia um monte de trancinhas em Meredith. Eu sempre tive inveja, porque sabia que nunca conseguiria fazer o mesmo no meu cabelo, já que, apesar de ser escuro como o de mamãe, é fino como o de papai. Tentei imitar a técnica em Meredith, mas minhas tranças ficaram grossas e irregulares, e não lisas como deveriam ser. Então resolvi fazer apenas duas tranças grandes, como uma maria-chiquinha. Meredith se levantou para se olhar no espelho e sorriu para mim, apesar de as tranças estarem tortas. Mas então o sorriso se desfez. “O que o tio Gordon disse é verdade?”, perguntou ela. “Eu posso estar doente?” Minha garganta de repente ficou apertada.

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“Provavelmente não”, respondi. “Poucas pessoas estão. E mesmo que você fique doente, eles ainda não tiveram tempo para descobrir a cura, só isso. Logo vão conseguir curar todo mundo. Então não se preocupe, viu?” Eu a coloquei no colo e ela relaxou encostada em mim, enquanto olhávamos juntas pela janela. A casa fica bem perto do mar. Um grupo de toninhas saltava na água do estreito. Lá longe, as luzes do continente brilhavam como se estivesse tudo certo no mundo. Ficamos assim até a cabeça do Drew aparecer no vão da porta do quarto e ele falar que deveríamos descer para ver um filme. “Mamãe fez o tio Emmett prometer que vai esperar a Agência de Saúde Pública se organizar”, murmurou ele enquanto descíamos atrás de Meredith. Sei que é uma coisa boa, mas parte de mim entende exatamente como meu tio está se sentindo. Parte de mim gostaria que ele quebrasse a promessa e tirasse Meredith daqui, por via das dúvidas.

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17 de setembro Antes que papai saísse correndo de casa hoje de manhã, perguntei a ele quantas pessoas estavam no hospital. “Mais do que gostaríamos”, foi só o que ele disse. Ainda não isolaram o vírus. E outro paciente morreu. Não sei como Rachel está. Ontem, quando comecei a sugerir que eu ia visitá-la, papai fez cara de quem tinha sido atingido por um sopro de ar gélido e disse que àquela altura não faria a menor diferença para ela. Por favor, que ele encontre a cura que prometi a Meredith. Por Rachel, e por todas as outras pessoas. Ele ontem ligou para meus avós, que moram em Ottawa, e pediu que ficassem atentos, por via das dúvidas. E proibiu que Drew e eu fôssemos ao colégio, é claro — na verdade, ele nos proibiu de sair de casa. Mas depois de passar quase todo o fim de semana mais ontem o dia inteiro engaiolada em casa, eu já estava subindo pelas paredes hoje à tarde. Fiquei pensando no que Drew falara, sobre nos escondermos dos nossos problemas, em vez de encará-los. A nova Kaelyn não teria medo de sair e ver o que está acontecendo. Eu disse a mim mesma que, desde que não me aproximasse de ninguém, estaria tão segura quanto se ficasse em casa. Mas ainda assim meu estômago começou a se revirar durante a caminhada até a escola. Parei embaixo do carvalho que tem em frente a uma das janelas do laboratório de ciências. Vi que o Sr. Granth estava escrevendo no quadro-negro com seus garranchos tortos. Todo mundo abria seu livro. Parecia um dia completamente normal. Então notei um menino na primeira fila coçando o ombro. Ele coçou o mesmo ponto durante pelo menos dez segundos, parou e em seguida começou outra vez.

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Algumas fileiras atrás dele, uma menina tossia tão alto que dava para ouvir lá de fora. Mais alguém espirrou, e outro menino riu. Virei-me e comecei a sair dali, com as pernas bambas. Nem a nova Kaelyn conseguiria continuar assistindo àquilo por muito tempo. Quando passei pelo estacionamento, alguém chamou meu nome. Levei um susto tão grande que quase comecei a correr — como se alguma pessoa doente fosse vir atrás de mim. Mas me contive e me virei na direção da voz. Uma mulher estava saindo de um carro perto do caminho para a entrada. Após um instante eu a reconheci. Uma das amigas de papai do hospital, Sra. Alguma Coisa, mas eu sempre a chamei de Nell. “Kaelyn”, chamou ela outra vez, e retirou do portamalas uma caixa de papelão, que carregou até o fim do estacionamento. “Pensei que seu pai a tivesse feito ficar em casa.” “Eu não fui à aula”, falei rapidamente. “Só precisava sair um pouco de casa. Estou dando uma volta.” Papai vai ter um ataque se ela contar que me encontrou. “Contanto que tenha cuidado”, disse Nell, ajeitando a caixa nos braços. “Quer ajuda com isso aí?”, ofereci. “Não, acho que Gordon me mataria se eu levasse você lá para dentro”, disse ela com um sorriso. “Eu dou um jeito. É só papel. Imprimimos alguns folhetos informativos, falando sobre como se proteger em caso de uma eventual epidemia. Fiquei encarregada de repassar as instruções com todos os alunos daqui.” Ela balançou a cabeça na direção da escola. Devem ser os mesmos conselhos que eu já pesquisei na internet. Lave muito bem as mãos. Fique em casa se não estiver se sentindo bem. Evite lugares públicos muito cheios. “Você acha que vai dar tudo certo?”, perguntei.

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Eu nem sabia que ia fazer essa pergunta até as palavras saírem. Mas queria ouvir a opinião de alguém além de papai. “Acho que precisamos nos concentrar em manter as pessoas informadas sem criar pânico”, disse ela. “Normalmente, as emergências de verdade são causadas mais pelas pessoas que têm medo de ficar doentes do que por aquelas que realmente estão.” Por isso é que papai foi tão duro com o tio Emmett, imagino. Assenti, e Nell falou: “Bem, cuide-se, Kaelyn.” Ela então se dirigiu à entrada da escola e eu decidi que já tinha visto o suficiente, então estou aqui em casa de novo. Evitei passar por lugares cheios na volta. Quando cheguei, lavei as mãos e fui direto tomar outro banho. Mesmo assim, não estou me sentindo nem um pouco mais protegida.

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18 de setembro Mackenzie me ligou ontem durante o jantar. Por um milagre mamãe me deixou falar com ela enquanto todo mundo continuou comendo. “Tive medo de não encontrar você em casa”, disse Mackenzie. “Todo mundo no colégio está falando sobre aquele monte de gente ficando doente, e eu não vejo você desde semana passada...” Ela fez uma pausa para respirar, e em seguida perguntou: “Está tudo bem?” “Está”, respondi, e era verdade, contanto que a definição de bem fosse ainda não contaminada pela doença mortal. “Meu pai está muito preocupado”, acrescentei. “Ele achou mais seguro a gente ficar em casa até saberem ao certo o que está acontecendo.” “Bem, o colégio está definitivamente mais insuportável agora. Talvez eu consiga convencer meus pais a me deixarem ficar em casa também. Quanto tempo isso vai durar? Seu pai tem informações de bastidores?” “Ele tem ajudado no hospital”, falei. “Ninguém sabe muita coisa ainda. Estão testando tratamentos diferentes. Vieram algumas pessoas da Agência de Saúde Pública ontem, e eles são especialistas.” “Isso é bom”, disse Mackenzie. “Podemos fazer alguma coisa amanhã depois da aula? Não tenho feito nada além do dever de casa e ouvir as pessoas se descontrolarem.” Respondi que iria tentar. Ontem consegui escapar porque não tinha ninguém em casa, mas hoje minha mãe não trabalha. Como sei o que papai diria, esperei até ele sair para o trabalho hoje de manhã para conversar com ela. “Não vamos chegar perto de ninguém”, falei. “E Mackenzie parecia totalmente saudável quando falei com ela pelo telefone.”

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Mamãe franziu a testa. Por sorte ela confia mais do que papai na minha capacidade de cuidar de mim mesma. “Só preste atenção no horário, para chegar em casa antes do seu pai”, recomendou. “Ele já tem preocupações demais para ter que incluir você na lista.” Algumas horas atrás encontrei Mackenzie no parque Thompson. Sentamos em um daqueles bancos perto do lago, e ela ficou jogando batatinhas para os patos. A brisa já está começando a trazer o frio do outono. “Acho que, em breve, eles vão começar a migrar para o sul”, falei, me referindo aos patos. Mackenzie concordou com um aceno de cabeça e depois hesitou. “Acho que nós também vamos”, disse. “Como assim?” “Meus pais estão surtando”, contou ela. “Minha mãe quer ir para Los Angeles e ficar lá até isso passar. Não tem mesmo muita coisa para fazer por aqui. Na escola mandaram todo mundo para casa depois do almoço. Fecharam as portas.” Eu não sabia. A epidemia está realmente muito séria. Senti um frio percorrer minha espinha. “Sabe se a Rachel pegou o vírus bizarro?”, perguntou ela. “Estão falando que sim. Ela parecia meio doente na última vez que foi ao colégio.” Eu não sabia se Rachel iria querer que eu contasse a Mackenzie. Então falei apenas: “Ah é? Nem percebi.” “Você não deve ter visto”, disse Mackenzie. “Foi só depois do almoço. Ela começou a tossir muito no último tempo. Não podia estar tão mal assim, porque foi para o ensaio do coral depois. Achei que ela tivesse pegado um resfriado.” Coral. Eu me lembrei de Drew falando sobre algumas meninas do colégio que, pelo que ele tinha notado, estavam com alguns sintomas — será que elas também faziam parte do coral? Talvez estivessem perto de Rachel quando ela tossiu, e isso pode ter sido suficiente.

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Talvez a última quinta-feira tenha sido o dia de maior sorte da minha vida, pois fui visitá-la e não contraí o vírus. Mackenzie se mexeu, impaciente, e falou: “Bom, se ela estiver mesmo doente, não tem nada que a gente possa fazer. Seria burrice alguém ficar aqui, podendo ir embora. Não você, é claro; afinal, precisam do seu pai e tal. E ele vai garantir que vocês fiquem bem. Quem não estiver ajudando...” Cogitei explicar a ela por que papai achava que ninguém deveria deixar a ilha, não sem as medidas de precaução adequadas. Mas do jeito que Mackenzie gosta de transgredir as regras, provavelmente enxergaria nisso mais um motivo para debandar. Antes que eu pudesse decidir o que dizer, ela olhou para o lado, e seu rosto se alegrou. “Ei! São eles!” Eu olhei. Uns meninos da nossa escola estavam do outro lado do lago. Havia alguns do nosso ano e outros mais novos, mas a maioria era do último ano. Não vi nada de especial neles. “O quê?”, perguntei. “Você conhece Gag?”, perguntou ela. “O da camisa vermelha?” Não conheço todos os meninos do último ano pelo nome, mas o da camisa vermelha me era familiar, principalmente pelo cabelo castanho-claro cacheado. Achei que já o tinha visto no gramado da escola mais de uma vez. “Shauna soube pela Anne, que soube pelo irmão, que esse Gav começou um negócio meio Clube da Luta”, explicou Mackenzie apressadamente. “Eles se encontram escondidos e batem uns nos outros. Deve ser esse grupo! Será que vão começar a lutar aqui no parque?” “Muito difícil um clube da luta se manter secreto desse jeito”, observei. “É verdade”, concordou ela. “Mas, mesmo assim. Aqui na ilha! Loucura.” Como se as pessoas só fizessem loucuras idiotas assim em cidades como Los Angeles e tal. Fico surpresa por Drew

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nunca ter ouvido falar nisso. Ou talvez até tenha ouvido, só não mencionou. “Acho que é isso que os meninos gostam de fazer”, falei, tentando racionalizar a ideia. “Exercícios agressivos, sabe? Tipo futebol e luta livre.” Mackenzie riu. “Futebol, com certeza, não é um esporte pesado o suficiente para esses caras”, disse ela, e olhou para o relógio. “Droga! Falei para minha mãe que iria voltar antes das cinco. É melhor eu ir ou ela vai ter um ataque.” Ela me deu o abraço de despedida habitual, o que me lembrou o abraço esmagador que recebi da Rachel naquela última vez, e me veio à mente o pensamento horrível de que eu podia nunca mais ver Mackenzie de novo. Enquanto ela se afastava, eu a vi coçando a nuca. E em seguida o pulso esquerdo. Do nada, tive o impulso de gritar o nome dela, mandá-la parar. Mas as coceiras surgem sem motivo. Há cinco minutos mesmo eu cocei o queixo. Não necessariamente significa alguma coisa. E se significar... o que eu vou poder fazer?

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20 de setembro Mais seis pessoas morreram. Os agentes da Saúde Pública estão impedindo as visitas aos pacientes internados no hospital e só aceitam tratar quem está em estado crítico ou com os sintomas do vírus misterioso. Papai falou que quase não há mais leitos. E um dos médicos também adoeceu. Ontem papai trouxe para casa uma caixa de máscaras cirúrgicas. “Se for absolutamente vital que vocês saiam de casa”, disse ele, “não se esqueçam de colocar uma dessas. Temos quase certeza de que a transmissão se dá por via respiratória.” “Então vocês estão mais perto de descobrir como tratar a doença?”, perguntei. “É difícil dizer, com a Saúde Pública agora controlando tudo. Eles não fazem cópias dos registros nem compartilham os resultados dos testes conosco. Como esperam que o restante de nós trabalhe...?” Com um suspiro ele deixou a frase no ar, e então acrescentou: “A Organização Mundial de Saúde está sendo acionada. Só espero que eles ajudem mais do que atrapalhem.” Perguntei a ele sobre a área restrita no continente que já deveria estar preparada para que pessoas como o tio Emmett e Meredith possam deixar a ilha, e ele disse que ainda não estava pronta. Bem que eles podiam se apressar. Mamãe continua trabalhando na lanchonete, mas tem levado uma máscara. Ela disse que nunca viu tanta gente enchendo o tanque do carro. “Eles têm medo de que o posto acabe fechando”, explicou mamãe, mas fico imaginando se não estão pegando a barca para o continente e, chegando lá, pegando um carro para ir para o mais longe possível da ilha. Recebi um e-mail 53 | P á g i n a


da Mackenzie ontem à noite bem tarde. Ela escrevia de Los Angeles, contando que tinham pegado a primeira barca da manhã e ido direto para o aeroporto. E hoje cedo, logo antes da hora em que mamãe sairia para trabalhar, uma van branca com o logotipo de um canal de TV de Halifax apareceu na nossa rua. Estacionou do outro lado da calçada e dois sujeitos saltaram, um com um microfone e o outro com uma câmera. “Urubus da mídia”, murmurou mamãe enquanto assistíamos à cena da janela da sala. “Procurando assunto na dor alheia.” Quando bateram à porta, voltamos para a sala de jantar e os ignoramos. Mamãe esperou mais quinze minutos até enfim sair. Pelo que papai tinha comentado, tanto a prefeitura quanto a Saúde Pública preferem manter a epidemia longe da mídia, para evitar um pânico generalizado. Até agora só vi algumas poucas menções no noticiário sobre uma “questão de saúde” na ilha, exibindo entrevistas breves com moradores que não sabiam muito sobre a situação. Não sei se os canais americanos já transmitiram a história. Fico imaginando se seus pais falaram alguma coisa, Leo. Eles não iriam querer que você se preocupasse neste seu primeiro mês em uma cidade nova e uma escola nova. Você provavelmente nem suspeita de nada. E, não sei por quê, isso só me dá a sensação de que você está ainda mais distante. Mas agora estou feliz por você estar mesmo longe daqui, a salvo.

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21 de setembro Fui muito cuidadosa nos últimos dias. Não é divertido passar o dia todo em casa, mas, agora que sei o risco que corri com Rachel, concluí que é melhor não abusar da sorte. Desde que encontrei Mackenzie, na quarta-feira, não passei do quintal. Com a escola fechada e as duas únicas pessoas que posso chamar de amigas fora de alcance, não tenho muito motivo para sair. Mamãe e Drew estão por aqui se eu quiser conversar, e ontem o tio Emmett trouxe Meredith para ficar um pouco com a gente. Mas hoje fiquei sozinha. Meus pais foram trabalhar, e Drew escapuliu logo de manhã para ir só Deus sabe onde. A casa estava vazia. Comecei a ter a sensação horrível de que ia continuar assim. De que ninguém ia voltar. Então pensei em você aí, tão longe, em Nova York, Leo — provavelmente sem saber de nada que o deixe preocupado. Não sei nem como seus pais estão. Quando éramos pequenos eu os via quase todo dia... Em certo momento eu me apavorei com a possibilidade de eles terem contraído o vírus, quem sabe até estarem no hospital sem que nenhum de nós tivessem a menor ideia. Pode ser que eu só estivesse querendo uma desculpa para sair de casa, mas funcionou. Coloquei uma máscara e fui. Lá fora, alguns pássaros piavam nos fios de telefone, como se fosse um dia qualquer. Comecei a respirar mais tranquila. Quando cheguei à sua rua, vi sua mãe no quintal, aparando a cerca viva. Parei na esquina e fiquei observandoa. Após alguns minutos, seu pai saiu com um copo d’água, e eles conversaram um pouco. Nada de coceira nem espirro nem tosse. Eles estão bem. Não fui até lá porque não sabia o que dizer a eles. Isso pode esperar até que eu resolva a minha situação com você. Quando eles voltaram para dentro, fui para casa. 55 | P á g i n a


No caminho, parte da minha inquietação voltou. Não havia quase ninguém nas ruas, mas estava bastante quente, as janelas das casas estavam abertas, e em determinados momentos ouvi uma tosse distante ou um espirro. Comecei a andar mais depressa e decidi cortar caminho pela rua principal, em vez de dar a volta. Achei que chegar em casa mais depressa compensaria o risco de encontrar alguém no caminho. Quando passei pelo antigo cinema, vi Tessa dobrando a esquina no fim da rua. Ela caminhava como se não houvesse nada de errado no mundo. Nem se dera o trabalho de colocar uma máscara. Eu quase continuei andando, mas então me lembrei de tê-la ouvido dizer que os pais viajariam na semana anterior. Não sei se já voltaram. Ela devia estar se sentindo sozinha, não é? Talvez não soubesse do perigo de sair à rua. Que tipo de pessoa eu seria se seguisse em frente sem falar nada só porque certa vez ela não se sentou ao meu lado? Então corri para alcançá-la. “Ei, Tessa”, chamei. Ela parou e olhou em volta, e eu tive um flashback daquele dia na aula de biologia, quando ela passou direto por mim. Mas então ela acenou com a cabeça e respondeu: “Oi, Kaelyn.” “Tudo bem com você? Quase todo mundo está ficando em casa ultimamente.” “Tudo bem”, respondeu ela. “Só preciso ir buscar algumas coisas.” Ela parecia tão calma que eu me senti desconfortável, como se a estivesse perturbando, apesar de estar tentando ajudar. Comecei a falar e fiquei meio enrolada: “Porque, hmm, não é seguro sair, a não ser que você precise mesmo, sabe. Você pode acabar esbarrando em alguém que esteja doente.” Percebi que não estava dando o melhor dos exemplos, então toquei minha máscara e

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acrescentei: “Mesmo usando isso, estou voltando para casa agora.” “Ah, eu não vou demorar.” “Tudo bem”, respondi. “Bem, tome cuidado.” Ela fez aquele breve aceno de cabeça outra vez e se afastou. No quarteirão seguinte, atravessou a rua e entrou na loja de jardinagem. Pois é, eu tentei. Se a sua namorada quer arriscar a vida por causa de adubo, uma pá ou coisa do tipo, ela é quem sabe.

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22 de setembro Tenho pensado muito em você, Leo. Quando me sinto muito sozinha em minha prisão domiciliar, ou desesperada pensando no que vai acontecer se não encontrarem a cura para o vírus, lembro de como era antes de tudo dar errado. E como fomos melhores amigos por dez anos, não surpreende você estar em tantas lembranças minhas. A mais recorrente de todas é a da minha festa de aniversário de nove anos. Lembra? Alguns meses antes, você tinha me pedido para treinarmos a valsa juntos, porque a Srta. Wilce não tinha mais nenhum outro aluno para ser seu par e você estava com medo de que ela parasse de ensiná-lo se não aprendesse logo os passos. O melhor que eu consegui fazer foi um sapateado desengonçado com meus tênis, mas você gostava tanto de dançar que foi impossível não me deixar contagiar pelo seu entusiasmo. Quando chegou o dia da minha festa, Shauna apareceu com o novo filhotinho de cachorro dela. Todo mundo ficou brincando com ele e falando sobre ele, em vez de participar da caça ao tesouro que minha mãe havia passado a noite inteira planejando. Mesmo naquela época, Shauna já era uma daquelas pessoas que simplesmente brilham, independentemente do que façam, e que por isso conquistam as pessoas. Foi por isso que eu a convidei. Eu não brilhava. Eu era a menina estranha com pais de cores diferentes, e que gostava mais de passar o recreio observando formigueiros do que brincando. A família de mamãe é mais antiga que qualquer outra na ilha, então na maioria das vezes as outras crianças me incluíam se eu quisesse participar, e se não me incluíssem, eu não ligava. Mas ao ver todo mundo em volta de Shauna, tive a sensação de que poderia desaparecer que nem notariam. 58 | P á g i n a


Então você falou: “Ei, vamos mostrar a eles o que sabemos fazer.” E apontou para o computador, onde você tinha colocado a música que vínhamos treinando. Achei que fosse tropeçar nos meus próprios pés e que as pessoas fossem rir de mim, o que seria ainda pior do que ser ignorada. Mas você parecia tão confiante que peguei sua mão. Não tropecei. Senti-me flutuando, deslizando sobre o chão. Todo mundo parou para olhar, e alguém disse “Uau!”. E o nervosismo passou. As pessoas estavam me olhando e desejando conseguir fazer o que eu estava fazendo. Por alguns minutos eu brilhei, por sua causa. Se eu pudesse, arrancaria aquela sensação da minha memória e a deixaria aqui, no presente. Assim poderia sentila agora. Achei que o pior tinha sido ontem à noite. Depois do jantar, veio um barulho lá de fora. Primeiro achei que fosse um guaxinim — eles chiam alto quando estão irritados. Mas comecei a ouvir palavras também. Sem pensar, fui direto para a porta ver o que estava acontecendo. Minha mãe disse que me chamou, mas eu não ouvi. Fui até a varanda, e lá estava, no seu quintal, a Sra. Campbell, que mora a três portas da nossa, arrancando pedaços de grama e jogando-os na própria casa. Ela vestia apenas uma camisola. Descalça, seus pés já estavam marrons da terra de onde a velhinha tinha arrancado a grama. Era ela que estava gritando. Entre berros, ela gritava coisas como “Você não vai me levar!” e “Saia, saia!”. Não consegui me mexer. Não consegui sequer respirar. Sinto como se tivesse ficado lá durante horas olhando para ela, mas devia ter se passado menos de um minuto até papai me puxar pelo cotovelo e falar: “Volte para dentro, Kae.” Minha mãe já estava chamando uma ambulância, porém o hospital devia estar sobrecarregado. Ela teve que

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tentar cinco vezes até conseguir falar com alguém, e a Sra. Campbell ficou lá gritando durante uma hora inteira antes de o socorro finalmente chegar. “Não tem como você ajudar?”, perguntei a papai, mesmo enquanto as palavras saíam, percebi que não estava sendo justa. Não é como se ele tivesse um estoque de medicamentos em casa. “Acho melhor ficarmos longe”, disse ele. “Claro”, disse Drew. “Não temos como ajudá-la.” Então mamãe começou a chorar, porque a Sra. Campbell a convidou para ir a sua casa alguns dias atrás. “Pensei que ela só estivesse se sentindo sozinha e assustada, com tudo que estava ouvindo”, falou. “E vocês sabem que ela estava com essa tosse há muito tempo. Eu não fazia ideia de que ela estava doente. Se soubesse...” Meu estômago se revirou, e eu logo perguntei: “Você estava de máscara?” Mamãe piscou algumas vezes, como se até o momento não tivesse pensado na própria segurança. Sua voz tremeu um pouco ao responder: “Estava. Estava sim.” “O hospital não poderia fazer muita coisa por ela mesmo que você tivesse percebido na hora”, disse papai. Ao que mamãe perguntou, em um tom bem cortante: “Por que não?” Ela se desculpou logo em seguida. Todos nós passamos o resto da noite inquietos. No entanto, isso não foi nada comparado a hoje. Apesar de ser domingo, papai foi ao hospital. Há mais ou menos meia hora, ele ligou e pediu para falar com mamãe. Eu poderia ter ido chamá-la — ela só estava no quintal, cortando a grama —, mas pelo seu tom deu para perceber que o que ele tinha a dizer era importante. E eu estou cansada de ser a última a saber das coisas. “Ela deu uma saída rápida”, falei. “O que foi?” Ele suspirou, e por um segundo pensei que não fosse me contar. Outras vozes diziam coisas indiscerníveis ao fundo. Não consegui identificar nenhuma delas.

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“Pai...”, comecei. Então ele disse, baixo e rápido: “Ainda não sei os detalhes, e está todo mundo aqui implorando para usar o telefone, só posso dizer isto agora: o governo decidiu que a área apresenta alto risco. Estão isolando a ilha.”

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QUARENTENA

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22 de setembro (mais tarde) Leo, Quando comecei este diário, estava escrevendo por mim. Agora tenho a sensação de que preciso continuar escrevendo por você também. Para que haja algum registro do que está acontecendo. Você não poderá voltar, pelo menos por um tempo, e quando puder, vai querer saber de tudo. Talvez eu consiga lhe mostrar isso um dia. Espero que sim. Quando mamãe voltou do quintal, contei a ela o que papai tinha dito sobre isolarem a ilha, chamamos Drew e ligamos a TV. Exibiram uma reportagem no noticiário das seis. A câmera deu um zoom no porto — nos soldados que marchavam pelas docas usando máscaras que pareciam de mergulho. “Fontes do governo não confirmaram o motivo para esta operação militar”, informou o repórter. “Mas parece claro que a presença deles tem relação com a recente emergência médica na ilha.” Nem assim senti que era real o que papai havia me contado. O porto que mostraram na TV parecia o nosso, porém tinha que ser em outro lugar. Ou cenas de algum filme gravado aqui. Não podia estar acontecendo de fato. Papai chegou em casa pouco antes de meia-noite. Ele nos reuniu na sala e falou sem hesitar: “A Saúde Pública resolveu colocar a ilha em quarentena”, informou, sem emoção na voz. “Pelo menos até isolarmos o vírus e desenvolvermos um método bem-sucedido de tratamento.”

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“O que isso significa na prática?”, perguntou Drew. “Vai ficar todo mundo confinado em sua casa?” Papai balançou a cabeça em negativa. “Significa que ninguém, além de agentes de saúde do governo e militares, pode entrar ou sair da ilha por enquanto”, explicou ele. “A barca ficará ancorada até suspenderem a quarentena, e os militares vão patrulhar as docas para garantir que ninguém tente fugir em barcos particulares.” Então estamos presos aqui. O desconforto na minha barriga aumentou, como se uma bola de argila tivesse se formado. Então me lembrei do tio Emmett e de Meredith. “E a área de controle no continente para quem não está doente ter a chance de sair?”, perguntei. “Decidiram que seria arriscado demais permitir a circulação de pessoas”, respondeu ele. “Lamento.” Todas as escolas permanecerão fechadas. Espera-se que, se possível, continuemos estudando em casa, pelos livros. O ano vai recomeçar de onde parou — as aulas podem se prolongar até o começo das férias de verão. Todo o comércio considerado não essencial deve ficar fechado, preferencialmente. Mamãe concordou em renunciar ao seu trabalho na lanchonete até a epidemia acabar. “Disseram que vão garantir o fornecimento dos produtos essenciais”, disse papai, enquanto minha cabeça girava. “Vão enviar suprimentos de comida e material médico toda semana.” “Eles acham que a quarentena vai durar mais de uma semana?”, perguntou mamãe, as mãos entrelaçadas sobre a mesa. “Temos muito que trabalhar ainda”, disse papai, o que obviamente significava que sim. Demorou alguns instantes para a ficha cair. O Dia de Ação de Graças é daqui a três semanas. Eu tinha a expectativa de que a gente pudesse conversar quando você viesse para as festividades dessa data, Leo. Agora não sei nem se vou voltar a vê-lo um dia.

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Podemos todos morrer. Se ninguém encontrar uma cura, o governo vai simplesmente nos manter presos aqui até o vírus ter infectado todas as pessoas da ilha. Até estarmos todos gritando nas ruas como o pai da Rachel, como a Sra. Campbell. “Como podem fazer isso?”, exclamei. “Tudo porque algumas pessoas morreram? E quanto ao resto de nós?” Papai pareceu ainda mais cansado do que um minuto antes. “Perdemos mais doze pacientes nas últimas vinte e quatro horas”, disse ele, e fez uma pausa antes de prosseguir: “Um deles foi Rachel.” Por um instante fiquei apenas sentada ali, estática. Não fazia sentido. Rachel morta? Rachel, que estava perfeitamente saudável antes de tudo isso acontecer? Não consigo acreditar, não de verdade. Parece tão impossível. E, de repente, fiquei furiosa. Com o governo, por impor a quarentena. Com papai, por não encontrar uma cura a tempo. Com mamãe, por nos fazer voltar para cá. Com todo mundo. Então me levantei e saí da sala, sabia que se ficasse ali muito tempo acabaria ou arremessando alguma coisa na parede ou me debulhando em lágrimas. Consegui chegar ao meu quarto antes de começar a chorar. Como Rachel podia ter morrido? Algumas semanas atrás ela estava rindo, dançando. E agora aquela menina simplesmente não existe? Deveríamos ter ido embora. Não ligo para os argumentos racionais do meu pai. Todos nós deveríamos ter feito como a família da Mackenzie e saído daqui enquanto ainda podíamos. Agora é tarde demais.

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23 de setembro Desculpe pelo meu descontrole de ontem à noite, Leo. Não acredito realmente que vamos todos morrer. Claro que podemos superar isso. Até parece que nenhuma doença nova nunca apareceu antes. Três equipes diferentes de especialistas estão nos ajudando — uma delas tem que encontrar uma cura. E eu preciso continuar lembrando a mim mesma que a quarentena tem um bom motivo: garantir que o vírus não chegue a você em Nova York, nem a meus avós em Ottawa, nem a mais ninguém fora da ilha. Quando acordei, fiquei tentada a puxar as cobertas por cima da cabeça e simplesmente esperar até ser seguro sair. Mas quando comecei a escrever aqui, não queria mais ser o tipo de pessoa que se esconde, e continuo não querendo. Sim, no momento há muito do que se ter medo. Porém, se conseguir fazer, alguma coisa para melhorar a situação, talvez não me sinta tão desesperançada. Levantei a tempo de encontrar papai antes que ele saísse. “Quero ajudar no hospital”, falei. “Tem que ter alguma coisa de útil que eu possa fazer. Posso fazer tarefas simples, ou você pode me ensinar a usar algum equipamento no laboratório.” Papai balançou a cabeça em negativa. “Não quero você nem perto do hospital ou do centro de pesquisa”, disse ele. “São os lugares mais perigosos da ilha no momento.” Eu meio que já sabia que ele ia dizer isso. “E fora do hospital?”, perguntei. “Todo mundo lá está ocupado com o vírus. Alguém deveria informar ao resto da ilha sobre a quarentena, certo? Colar avisos nas caixas de correios das pessoas ou coisa do tipo, quem sabe? Eu poderia cuidar disso.” 66 | P á g i n a


“Kae...”, começou ele, que, em seguida, fez uma pausa. “Existe um plano de notificar todas as famílias por telefone, mas acho que ainda nem começamos. Você poderia fazer isso. Vou falar com os agentes da Saúde Pública: eles têm uma declaração oficial que deve ser utilizada.” O que significava que eu tinha que esperar até que ele voltasse, hoje à noite. Por isso encontrei outra maneira de me ocupar. Mais tarde, quando desci para almoçar, o primeiro andar da casa estava dominado por um aroma amanteigado de baunilha. Fechei os olhos e simplesmente respirei por alguns segundos. Mamãe estava na cozinha preparando biscoitos com gotas de chocolate. “Um agradinho para a gente se alegrar”, disse ela, mas as linhas de expressão em torno dos seus olhos estavam duas vezes maiores do que há alguns dias. Questionei-me como os funcionários do hospital estavam conseguindo preparar refeições para todos os pacientes. Deviam estar tão sobrecarregados quanto os médicos. Não teriam tempo de preparar biscoitos. “Tem mais massa?”, perguntei. “Talvez pudéssemos alegrar alguns pacientes também.” Acabamos preparando mais seis fornadas. Quando papai chegou em casa, os biscoitos já estava guardados nas latas que sobraram do Natal. Tive medo de que ele pudesse ter esquecido nossa conversa, mas ele me entregou uma porção de papéis assim que tirou os sapatos. “Aqui está uma cópia da lista telefônica que estamos utilizando”, disse ele. “As pessoas que já foram informadas estão marcadas. E este é o roteiro que deve usar. Tem uma seção extra para qualquer pessoa que pareça doente ao telefone; queremos que você peça para ficarem em casa, e anote na lista para que alguém do hospital vá buscá-la.” “Parece bom”, falei. “Posso montar um banco de dados para você”, ofereceu Drew. “Para manter um registro de quem já foi avisado, e assim você pode gerar notificações sobre as pessoas que apresentem sintomas.”

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“E já que você se ofereceu”, continuou papai, retirando um pequeno pacote do bolso do paletó, “tenho mais uma função para lhe passar, se quiser. O vírus parece estar atacando células nervosas, e os medicamentos comuns quase não estão desacelerando o processo. Antes de anunciarem a quarentena, eu tinha começado a pesquisar tratamentos experimentais, e encontrei uma substância química utilizada em algumas partes da Ásia. O composto não foi aprovado aqui, porém encomendei sementes da planta que o produz. Nossa prioridade tem sido isolar o contágio, então ninguém se responsabilizou por cultivar essas plantas ainda. O que acha?” “Vou tentar”, falei. “Aquela família que se mudou para cá há alguns anos...”, disse mamãe. “Os Freedman, não é? Eu me lembro de ter ouvido falar que eles tinham uma estufa em casa. Devem se interessar por jardinagem. Talvez possam dar algumas dicas.” A sugestão me pareceu boa durante os cinco segundos que levei para lembrar que Freedman é o sobrenome da Tessa. É óbvio que mamãe tinha razão em relação à família dela: acabei de vê-la entrar na loja de jardinagem, não é mesmo? Concluí que, mesmo que Tessa não me achasse digna do seu tempo, os pais dela ajudariam. Depois do jantar, procurei o número do telefone deles. Tessa atendeu. Reconheci a voz sem emoção. “Estou ligando em nome do Dr. Weber e do Hospital St. Andrew”, falei, sentindo que deveria tentar soar oficial. “Posso falar com um dos seus pais?” “Desculpe”, respondeu Tessa. “Eles não podem atender no momento.” Meu coração parou. Eu estava tão concentrada no trabalho que não havia considerado a possibilidade de eles não estarem bem. “Eles estão doentes?”, obriguei-me a perguntar. “Não”, respondeu ela, com firmeza, e, apesar de não saber nem se eu reconheceria os pais dela se os visse, fiquei

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tão aliviada que quase ri. Ela acrescentou: “Mas não podem atender agora. Estão ocupados. Já sabemos sobre a quarentena e as precauções. Não precisa ligar de novo.” Ela parecia prestes a desligar na minha cara. “Ouça,Tessa”, falei rapidamente. “Aqui é Kaelyn Weber, do colégio. Não estou telefonando para transmitir a mensagem padrão. Preciso conversar com seus pais sobre um assunto importante.” “Que assunto?”, perguntou ela. “É meio complicado. Posso falar com um deles?” Ela hesitou, e em seguida falou: “Não. Eles não conseguiram voltar.” “O quê?”, falei. “Era para terem voltado no sábado”, disse ela. “Mas teve uma tempestade, e o voo atrasou. Quando pousaram, a balsa já tinha parado de funcionar.” “Ah”, falei. Minha mente voltou para aquele momento, um dia desses, em que eu estava sozinha em casa e tive a sensação de que ninguém nunca mais iria voltar. Uma solidão devastadora. Tessa está sozinha há mais de uma semana, e quem sabe quanto tempo a quarentena ainda vai durar? Deve ser assustador. “Então, que assunto importante é esse?”, perguntou Tessa, calmamente. É óbvio que ela não se assusta com facilidade. Expliquei o que papai havia me dito sobre as plantas, e Tessa fez algumas perguntas. “Acho difícil que você consiga improvisar alguma coisa assim”, disse ela afinal. “Se quiser que germinem, claro. Por que não traz as sementes aqui em casa amanhã? Eu cuido delas na estufa. Tenho tido um bom índice de sucesso com plantas raras.” Não vi motivo para discordar. Nunca tive muito jeito para lidar com a terra. Melhor deixar as sementes nas mãos de quem sabe o que está fazendo.

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“Só... não conte para ninguém sobre os meus pais, tudo bem?”, pediu ela. “Uma das vizinhas descobriu e agora não para de vir aqui para ver como estou, mesmo não a deixando entrar. Ela parece contaminada.” Prometi não falar nada. Menti para mamãe quando estava tentando convencê-la a me deixar ir até a casa da Tessa. “Falei com ela e com os pais: ninguém tem sintomas”, aleguei. É verdade, pelo menos no que se refere a Tessa. E jurei que iria embora imediatamente se percebesse qualquer sinal, por menor que fosse, de contaminação. “Tudo bem”, disse mamãe. “Sei que você está levando isso a sério. Mas quero que vá de carro; não se sabe quem pode estar nas ruas.” “Claro”, falei, e em seguida, já que me pareceu adequado, dei um abraço nela. Mamãe pareceu um pouco surpresa, mas retribuiu o gesto. Seja lá o que mais dê errado, pelo menos tenho a ela, papai e Drew.

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24 de setembro Bem, não foi o que eu esperava. Fui à casa da Tessa logo após o café da manhã. Parecia estranho ir até lá de carro quando ela mora a apenas dez minutos a pé, mas aquelas paredes metálicas ao meu redor realmente faziam com que eu me sentisse mais segura, como se eu tivesse um escudo impenetrável contra o vírus. No entanto, acho que mamãe não precisava ter se preocupado. Só vi uma pessoa no caminho — um homem sentado na varanda de casa; ele sorriu e acenou quando passei. Já estava quase na casa dela quando um helicóptero passou sobrevoando. De alguma emissora de TV, provavelmente. Tentando conseguir um furo da única forma possível, agora que estamos em quarentena. Imaginei algum repórter ou cinegrafista lá no alto, olhando para nós, e de repente me senti muito pequena. Como uma formiga em uma fazenda de formigas de criança. Apertei o volante com mais força e só relaxei quando o som das hélices sumiu. Tessa abriu a porta quando eu ainda subia as escadas da entrada, e me fez entrar correndo. Conduziu-me pela casa até o jardim, falando sobre zonas de solo, proporções de luz solar e outros termos de jardinagem que não faziam o menor sentido para mim. Quando pisamos do lado de fora ela parou, e nós duas olhamos para a estufa. Eu não imaginava que fosse tão grande. Eles têm um jardim de bom tamanho, e a estufa preenche quase todo o espaço, exceto pelo pequeno pátio logo ao lado da casa. Mas é claro que você já sabe disso, Leo. “Uau”, falei. Parte de mim estava impressionada, e outra parte estava se perguntando qual teria sido o efeito daquilo sobre a população local de pássaros. É como uma janela enorme.

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“Tínhamos uma menor quando nos mudamos”, disse Tessa. “Mas vivia sem espaço. Este foi meu presente de aniversário de dezesseis anos.” Ela sorria como se a estufa fosse uma Ferrari, ou uma viagem a Cancun. E percebi que tinha falado com a pessoa certa, afinal. Não são os pais da Tessa que são jardineiros — é ela. Na estufa, o ar era pesado e úmido, e o sol parecia de alguma forma mais brilhante ao ser filtrado pelo vidro. O calor e a luz, somados aos muitos aromas das plantas, me deixaram um pouco tonta. Mas gostei. Era um espaço caloroso e tranquilo, afastado da loucura que acontecia lá fora. “Conseguiu falar com os seus pais?”, perguntei, enquanto Tessa arrumava o que ela chamou de bandeja de sementes. “Eles ligam todos os dias”, respondeu ela. “Estão tentando fazer com que abram uma exceção para poderem voltar.” Ela me pareceu muito mais calma do que eu estaria em seu lugar. Olhei em volta e notei um banco perto dos fundos da estufa, próximo a um arbusto com flores cor-de-rosa. De repente me veio uma imagem de você e ela sentados ali, você a abraçando, e as palavras simplesmente escapuliram: “E o Leo?” “Ah, trocamos e-mails umas duas vezes por semana”, disse ela. “Ele está muito ocupado, e falei que prefiro receber duas boas mensagens a receber várias curtinhas todos os dias.” Eu me lembrei de como éramos nós dois logo que saí da ilha — mandando fotos, piadas e coisas aleatórias típicas de crianças de onze anos. Por um segundo perdi a voz. Engoli em seco e perguntei: “Você contou para ele o que está acontecendo?” “Claro que não”, respondeu ela. “Ele não perguntou. Ou o noticiário americano ainda não tocou no assunto, ou ele não teve tempo de assistir, então por que mencionar o

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assunto? O Leo não pode fazer nada para ajudar. O que ele mais queria na vida era entrar para aquela escola. Não quero distraí-lo.” Bom argumento. Mas se os seus pais também não avisaram você... E a sua mãe não diria nada, não é? Ela teria medo de que você insistisse em tentar voltar, para ter certeza de que eles estavam bem. Isso me parece errado. Deixá-lo sem saber de nada, quando as pessoas que você ama estão correndo perigo. Não deveria ser uma decisão sua? Independentemente do que Tessa ou os seus pais pensem, sei que você iria querer saber. Então há alguns minutos, apesar de me sentir ridiculamente nervosa e intrometida ao mesmo tempo, mandei uma breve mensagem para o seu antigo e-mail. Voltou. Acho que você mudou de endereço em algum momento nos últimos dois anos. Bom, eu tentei! Talvez eu pense em alguma desculpa para pedir a Tessa o seu endereço de e-mail atual — definitivamente vou voltar a encontrá-la. Depois que ela plantou as sementes, me levou para dentro e tomamos limonada. “Acho que vai demorar umas duas semanas até que comece a brotar”, disse ela. “Mas você pode aparecer quando quiser para ver como as plantas estão indo.” “Eu ligo antes”, falei. “Para você saber que não estou doente.” Ela deu de ombros. “Não precisa. Sei que não viria aqui se estivesse. Naquele dia era você quem estava tentando identificar se eu estava contaminada.” Ela falou como um simples relato de um fato, mas senti meu rosto esquentar ao me lembrar, e desviei o olhar. Foi quando notei o quadro de chaves penduradas em ganchos perto da geladeira. Tessa deve ter acompanhado meu olhar. “Meu pai faz a manutenção de várias casas de veraneio”, disse ela. “Para verificar vazamentos e outros problemas durante o inverno.” Então seus olhos se

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iluminaram e ela acrescentou: “Sabe, aposto que os proprietários têm todo tipo de medicamentos em casa. Eles vivem falando em calmantes ou remédios de pressão. Se começar a faltar no hospital... eu pego lá, sem problema.” “O governo vai mandar medicamentos do continente”, falei. “Vai dar tudo certo.” “Bem, se alguma coisa der errado, pense nisso”, disse ela. “Os veranistas não precisam do que quer que tenham deixado aqui.” Quando cheguei em casa, perguntei a mamãe se papai tinha falado alguma coisa sobre o estoque do hospital. Aparentemente eles receberam uma boa carga de medicamentos antes do início da quarentena, e papai disse para não nos preocuparmos. Se nem ele considera a situação desesperadora, provavelmente estamos bem. Mas ainda assim vou manter em mente a ideia da Tessa. Talvez esteja tudo bem agora, mas quem sabe o dia de amanhã?

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25 de setembro Ontem à tarde, Drew transferiu para o meu computador o arquivo personalizado de banco de dados que ele fez. Fico impressionada com a facilidade que ele tem para manipular programas a seu bel-prazer. Se ele quisesse, tenho certeza de que arrumaria um emprego milionário no ramo da informática assim que acabasse o colégio, mas ele continua decidido a ser advogado. “Um dos poucos não corruptos”, como sempre diz. Claro, isso se chegarmos a terminar o colégio. “Tem certeza de que vai saber se virar com isso?”, perguntou ele, enquanto eu acrescentava os números telefônicos. “Claro”, falei. “Só preciso ler o roteiro do que falar.” “É, bem... Mas nem todo mundo vai ficar feliz em receber a sua ligação. Tem muita gente furiosa com a quarentena. Quando você telefonar, vai parecer que tem alguma parcela de responsabilidade nisso, e podem descontar a raiva em você.” Não tinha pensado nisso, mas ele tinha razão. E se alguém que atendesse estivesse enlouquecendo, como a Sra. Campbell? Senti um aperto no peito, e respirei fundo. “Vou ficar feliz por estarem do outro lado da linha, e não ao meu lado”, respondi. “Tudo bem”, disse ele. “Mas me avise se quiser que eu assuma em algum momento.” Ele fez uma pausa, e em seguida acrescentou: “É muito legal que você esteja se envolvendo, Kae. Tive certo medo de que você ficasse tão nervosa que acabasse enfiada no quarto deixando as coisas acontecerem. Acho que você é mais corajosa do que imaginei.” Ele declarou a última parte com um meio sorriso, e me cutucou naquele ponto onde sinto cócegas antes que eu 75 | P á g i n a


pudesse detê-lo, como se não pudesse me deixar esquecer que sou a irmã mais nova mesmo quando está me elogiando. Mas mesmo assim foi bacana ouvir aquilo. Drew tem padrões elevados, e eu sinto que nem sempre os alcanço. Ontem à noite e hoje de manhã eu quis atirar o telefone longe pelo menos umas dez vezes, mas ainda não pedi para Drew me salvar. Algumas pessoas até que parecem satisfeitas por ter alguém cuidando delas. Agradecem e prometem tomar todas as precauções. Mas muitas outras começam a esbravejar contra a quarentena, como se a ideia tivesse sido minha. As piores, no entanto, são as que estão tossindo e espirrando enquanto falam comigo ao telefone. As que não estão doentes há muito tempo me perguntam se devem se preocupar, e que remédio podem tomar, e eu não sei o que dizer, falo apenas que alguém do hospital vai buscá-las. E as que já estão doentes há um tempo ficam conversando, fofocando sobre pessoas que eu nem conheço, ou me contando detalhes sobre as próprias vidas, até eu falar cinco vezes que preciso encerrar a ligação, e acabo simplesmente desligando. Na verdade, essas nem são as piores. Porque às vezes simplesmente ninguém atende. Ou saíram cedo, ou estão tão doentes que ninguém pode atender o telefone. Estou tentando não pensar muito no assunto.

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26 de setembro Não sei o que fazer. Estava aqui sentada lendo o capítulo que a gente ia estudar essa semana na aula de história, e de repente tive uma irritação na garganta. Não foi uma tosse de fato, mas uma sensação áspera, uma comichão. Acabei de tomar um copo d’água inteiro e não passou. E se eu tiver sido contaminada? E se Rachel tiver me transmitido o vírus, e os sintomas apenas levaram séculos para aparecer? Não tem mais ninguém em casa. Será que eu devo ir ao hospital? Ou será que é mais seguro ficar aqui até ter certeza? Não quero *** Esqueça. Tossi algumas vezes e agora estou melhor. Devia ser alguma coisa presa na garganta. Uau. Acho que nunca senti tanto alívio na vida. Obrigada, obrigada, obrigada, qualquer poder superior que estiver me ouvindo!

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27 de setembro Ao longo dos últimos dias, consegui ligar para quase toda a lista telefônica. Então ontem, após minha breve crise de pânico, decidi que era hora de um intervalo, e fui para a cozinha preparar mais alguns pães e biscoitos com mamãe e Drew. Acabamos com a farinha da casa, mas mamãe não me pareceu ficar preocupada. Até o fim da tarde, a casa inteira cheirava como uma padaria, com um aroma doce e de massa. Não sei até que ponto pães e biscoitos vão ajudar alguém, mas se apenas despertarem um sorriso no rosto dos pacientes e os distraírem por um minuto, já vale a pena. Papai ficou impressionado, mas deve estar menos feliz agora que teve que carregar todas aquelas sacolas para o trabalho. Culpa dele, por insistir em deixar o carro conosco, para o caso de uma emergência. Fiz os últimos telefonemas hoje de manhã: um doente, um morador irritado, outro irritado, um muito doente, e na última ligação ninguém atendeu. Depois disso eu não aguentava nem mais um segundo presa no quarto. Desci e vi mamãe à janela da sala, olhando para a rua. Não havia ninguém lá. Ela só estava olhando para fora, como os animais fazem no zoológico, lembrando-se de quando tinham um mundo inteiro fora da jaula. Fez meu coração doer. “Vamos ao parque”, falei. “Os furões vão gostar de um passeio.” Eu já esperava certa resistência, mas ela sorriu. “É uma boa ideia. De vez em quando temos que nos permitir um momento para deixar de ter medo de tudo. Não pode ser saudável passar o dia presa. Veja se Drew quer ir. Vou ligar para o seu tio.”

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Ninguém respondeu quando bati à porta do quarto de Drew, então espiei lá dentro. O computador, a cama desfeita e os pôsteres de filmes de ficção científica estavam todos lá, mas ele não. Ele anda escapulindo quase todo dia, ficando fora por uma ou duas horas. Aonde será que ele tem ido? Pode ser que esteja só saindo com os amigos, para provar que o vírus não vai controlar sua vida. Espero que pelo menos esteja se lembrando de levar a máscara. Coloquei as coleiras em Mowat e Fossey bem devagar, muito mais do que o necessário, porque dava para ouvir a voz de mamãe lá de cima. A quarentena realmente irritou o tio Emmett, o que não era nenhuma surpresa, e ele anda descontando sua frustração na minha mãe. Só desci depois que ela desligou o telefone, e então ela já parecia mais calma. “Vamos levar Meredith com a gente”, disse mamãe. “Vai ser bom para ela.” “Drew não se animou com ideia”, falei. Percorremos de carro os dois quarteirões que separam nossa casa da do tio Emmett, e em seguida mais cinco quarteirões até o parque. Os olhos de mamãe iam de um lado a outro quando saltamos, como se ela esperasse que algum maníaco pulasse da vegetação. Mas tudo que vimos foram alguns pássaros de outono pelas árvores. Após alguns minutos ela relaxou. Abaixei a máscara para poder saborear o ar fresco, e ela não disse nada. “Posso levar um deles?”, perguntou Meredith, praticamente dando pulinhos, e eu lhe entreguei a coleira de Mowat. Ela correu com ele para um ponto onde a grama era alta, rindo. Devia estar louca para sair de casa. Fossey decidiu que queria dar um mergulho no lago, então deixei que me puxasse até a beira. Ela mergulhou, e em seguida saiu, se sacudindo com todos os pelos arrepiados. Olhei em volta para chamar Meredith, então vi que não éramos as únicas pessoas no parque, afinal. A mais ou menos dez metros de nós, em meio às árvores, havia um grupo de meninos, alguns deles passando uma garrafa de cerveja. Nenhum deles estava de máscara.

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Reconheci a maioria do colégio: Quentin estava lá, assim como o garoto de cabelo castanho-avermelhado sobre o qual Mackenzie falou quando estivemos ali da última vez. Gav. O do clube da luta. Não consegui me lembrar exatamente quem estava com ele antes, mas tive quase certeza de que era o mesmo grupo. Bem naquele instante, Quentin se virou para mim. A expressão dele não se alterou, mas ele disse alguma coisa aos outros, e mais alguns meninos olharam. Meus dedos apertaram com força a coleira. Eles estavam sendo muito descuidados em relação ao vírus. Se apenas um deles tivesse sido contaminado, poderia transmitir facilmente para os outros. Mas eu estava de máscara, e talvez eles soubessem de coisas que papai não nos contara. Enquanto eu pensava se deveria ir lá falar com eles ou não, Fossey conseguiu enrolar a coleira nos galhos de um arbusto cheio de espinhos. Tive que me ajoelhar para desfazer os nós e, quando consegui soltá-la, o menino de cabelo castanho-avermelhado estava vindo na minha direção. Levantei-me com Fossey no ombro. Tive o impulso de puxar a máscara de volta para o rosto, mas isso me pareceu extremamente grosseiro. Pelo menos ele não estava se coçando nem tossindo. Ele parou a alguns passos de mim. Como se soubesse que eu queria manter certa distância. “Oi”, disse ele. “Você é a Kaelyn, não é? Posso falar com você rapidinho?” Não havia nada de ameaçador nele. Ele simplesmente ficou parado esperando, os olhos atentos a mim. Eu me senti desconfortável, principalmente com Fossey se encolhendo na minha nuca, e abaixei o olhar. As mangas da camisa dele estavam erguidas, e perto do pulso havia uma mancha amarelada de um hematoma já antigo. Seus antebraços eram musculosos, talvez graças ao exercício de agredir os amigos com tanta frequência. Forcei-me a desviar o olhar do seu braço e a fitá-lo nos olhos, e tentei soar normal.

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“Claro”, respondi. “Sobre o quê?” “Soube que o seu pai é uma espécie de especialista em doenças”, disse ele. “Ele é microbiologista”, falei. “Então, mais ou menos, ele estuda bactérias, vírus, essas coisas.” “Então você deve saber mais do que as outras pessoas sobre o que realmente está acontecendo. O que ele contou? Qual é a gravidade disso tudo, de verdade?” “É bem grave”, respondi. “Ainda não encontraram um tratamento eficaz. Pessoas estão morrendo. As que não morreram não estão melhorando. Meu pai está muito preocupado.” “Então essa quarentena não vai ser suspensa tão cedo”, disse ele, apontando na direção do continente. “Estão se lixando para a gente.” “Bem, se os médicos encontrarem um tratamento que funcione, as coisas podem melhorar em alguns dias”, falei. “E o governo não abandonou a ilha. A agência de saúde está aqui, e eles vão mandar comida e suprimentos.” As mesmas coisas que tenho dito sem parar a mim mesma. Ele abriu um sorriso irônico. “Sei”, falou. “Desde que essa ajuda não seja muito inconveniente para eles. Assim que um deles ficar doente vai ser ‘Sayonara!’, e a gente que se vire.” Um dos outros meninos gritou: “Ei, Gav, vamos!” Não tive chance de responder. Gav acenou com a cabeça para mim. “Obrigado”, disse ele. “Tome cuidado.” Ele voltou pela grama em direção aos amigos, e meu estômago afundou. O governo jamais desistiria totalmente de nós, certo? Quer dizer, Gav nem sequer sabe como eles trabalham! Ele só está tão assustado quanto todos nós. Talvez para algumas pessoas seja mais fácil se irritar. Mas se eu não conseguisse continuar acreditando que vamos

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superar isso, provavelmente acabaria enfiada no quarto, como Drew havia imaginado que eu faria.

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29 de setembro Tentei tirar a conversa com Gav da cabeça. Disse a mim mesma que já tinha muito com que me preocupar, mas estou começando a achar que ele estava certo. O primeiro carregamento do continente chegou hoje. O governo havia prometido garantir uma distribuição justa e segura, enviando pessoas com suprimentos de porta em porta para que todos pudessem receber sua parte sem correr o risco de se expor ao vírus. Parecia legal da parte deles. Poderiam ter apenas largado tudo no porto e ido embora, mas em vez disso iriam fazer um esforço. Então eu, mamãe e Drew estávamos em casa esperando a campainha tocar. Eu estava tentando imaginar o que exatamente o governo consideraria essencial em termos de comida, e me perguntando se a mercearia ainda tinha Cheetos ou se eu teria que passar a quarentena inteira sem nem um pacotinho — como se biscoito fosse realmente importante agora. E então a campainha finalmente tocou. Mas não era a entrega da comida. Era o tio Emmett. Ele olhou furioso para mamãe, que tinha sido a primeira a chegar à porta. Atrás dele vi Meredith, sentada na picape estacionada, nos olhando pela janela. Ela estava de ombros encolhidos e mordia a unha do polegar. “Sei que Gordon fez uma lavagem cerebral em você, para que concordasse com a quarentena”, começou tio Emmett, “mas achei que eu devesse pelo menos tentar. Está tendo um protesto no porto. Queremos que eles vejam quem estão matando aqui. Se você vier agora, podemos chegar a tempo.” “Emmett, você é mais inteligente do que isso”, disse mamãe. “Entre e almoce conosco. Quem sabe o que pode acontecer lá? Pense em Meredith!” Ele assentiu com tristeza. 83 | P á g i n a


“Estou pensando nela”, disse ele. “Pense no que pode acontecer com a minha filha, com os seus filhos, se deixarmos esses infelizes do governo nos prenderem aqui!” Mamãe tentou impedi-lo, mas ele voltou para o carro batendo os pés e se foi. Mamãe contraiu os lábios. “Não posso simplesmente deixá-lo ir”, disse ela. “Não nesse estado.” Imaginei mamãe sendo engolida pelo protesto. “Vou com você”, falei. “Caso precisem de alguém para ficar de olho em Meredith.” Mas na verdade eu queria era ficar de olho nela. Mamãe nem avisou Drew. Pegou uma máscara, jogou outra para mim e correu para o carro. Pela primeira vez no que parecia uma eternidade, havia gente na rua. Todos iam assistir à chegada do carregamento. Alguns seguravam cartazes com mensagens como SUSPENDAM A QUARENTENA AGORA, como se isso fosse fazer o governo mudar de ideia. Carros estacionados lotavam as ruas próximas ao porto, então encostamos em uma calçada a alguns quarteirões e corremos o restante do trajeto. A máscara cirúrgica me deixava sem fôlego. Ouvi tosses em meio à multidão e passamos por uma mulher parada coçando o joelho. Meus pulmões começaram a arder. Eu só queria voltar para o carro e ir embora dali. Mas minha mãe avistou a picape do tio Emmett e correu ainda mais. Tive medo desviar os olhos por um segundo e perdê-la de vista. Uma embarcação tinha acabado de chegar — nossa barca. Diversos homens e algumas mulheres em uniforme militar se posicionaram em um semicírculo no asfalto entre a doca e a multidão. Outros se apoiaram na grade da barca. Estavam todos com as máscaras pesadas que eu vira antes no noticiário, e cada um empunhava uma espingarda. Fiquei imaginando se aqueles soldados iriam escoltar os funcionários do governo pela cidade para garantir que ninguém roubasse comida. Ou talvez fossem eles os responsáveis pela distribuição.

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A multidão avançou enquanto a barca ancorava. Muitas pessoas gritavam, mas eu não conseguia identificar nenhuma palavra. Balançavam os cartazes e gesticulavam com raiva, mas abriram caminho quando os soldados acenaram querendo passar. Então tio Emmett avançou, arrastando Meredith pela mão. Mamãe acelerou ainda mais o passo ao atravessar a multidão. As pessoas em volta nos esmagavam enquanto forçávamos a passagem. Uma brisa fria veio da água, mas o suor escorria pelas minhas costas. Ainda havia muita gritaria ao redor, de forma que eu não conseguia escutar o que o tio Emmett estava dizendo. Ele apontou para si mesmo, para o continente e para Meredith, que parecia apavorada. Os soldados balançaram as cabeças em negativa e responderam alguma coisa. Nitidamente queriam que o tio Emmett saísse do caminho. Mas ele continuou firme, sua voz se elevando até que consegui ouvir alguns trechos: “matando crianças” e “conviver com isso” e coisas do tipo. Os soldados pareciam não se importar. Um deles agarrou o braço do tio Emmett e o puxou para o lado. Ele o enfrentou, empurrando o soldado com tanta força que o fez cambalear para trás. Uma arma disparou, tão alto que meus ouvidos começaram a zunir. E o tio Emmett caiu. Mamãe soltou uma exclamação de susto e correu para ele. Ao mesmo tempo, as pessoas ao nosso redor foram para a frente, os gritos aumentando, as vozes cada vez mais furiosas. Perdi de vista tio Emmett e Meredith quando a multidão avançou. Ouvi mais um tiro, talvez dois — a lembrança é ainda muito confusa na minha cabeça. Quando os alcançamos, mamãe quase tropeçou na perna do tio Emmett, que estava esparramado no chão, a frente da camisa ensopada de sangue. Meredith o abraçava, curvada, a cabeça junto à dele, dizendo repetidamente: “Papai, papai, papai!”

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Um tom cinzento começava a aparecer na pele escura dele, e uma bolha de saliva se formou nos seus lábios. Por um segundo, o mundo pareceu girar. Fechei os olhos e os abri outra vez, mas a cena diante de mim continuava tão horrível quanto antes. Mamãe agarrou o irmão pelos ombros. “Filha, me ajude a carregá-lo”, pediu ela, com a voz trêmula. “Temos que levá-lo ao hospital.” Curvei-me para ajudar, mas alguns homens ali perto perceberam o que estávamos fazendo e foram ajudar. “Onde está o carro de vocês?”, perguntou um deles, pegando os pés do tio Emmett. Passei o braço pelos ombros de Meredith e fomos nos espremendo pela massa de corpos, que ia para a frente e para trás, como se não tivessem mais certeza do que queriam: correr para a barca ou para longe das armas. Olhei para trás uma vez. Só o que vi foi a barca se afastando do porto. A picape do tio Emmett estava bloqueada pelos veículos estacionados ao redor, então tivemos que levá-lo até o nosso carro. Os homens que nos ajudavam o colocaram no banco de trás. Ele resfolegou, e Meredith tremeu junto ao meu corpo. Minha mãe olhou para nós duas e disse: “Você pode levá-la para casa, Kae? Eu ligo assim que souber como ele está.” Trouxe Meredith para nossa casa em tamanho torpor que estou surpresa por termos chegado tão depressa, e fiz o que pude para distraí-la. Ela agora está jogando o novo jogo do Mario, apesar de olhar para a tela da TV como se não enxergasse de fato, e às vezes deixa os inimigos baterem nela. Não sei o que lhe dizer. Alguém no porto — no nosso porto —, um dos soldados que deveria estar nos trazendo comida e remédios para continuarmos vivos, atirou no seu pai. E acho que em outras pessoas também. E depois simplesmente nos abandonaram. Por favor, por favor, por favor, faça com que o tio Emmett fique bem.

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30 de setembro Mamãe chegou em casa cerca de meia hora depois que acabei de escrever sobre o dia de ontem. Ela queria contar a Meredith pessoalmente. Tio Emmett chegou morto ao hospital. Os médicos fizeram de tudo para ressuscitá-lo, contou ela, mas a bala atingiu o coração. Ele não tinha chances de sobreviver. Mas não é bem verdade. Se ele não tivesse ido até o porto, se não tivesse empurrado o soldado, não teria levado um tiro. Estava tão preocupado em sobreviver à epidemia que acabou fazendo com que o matassem. É uma coisa tão estúpida. Não deveria ter acontecido. Ele estava tão preocupado com Meredith, mas agora morreu e a deixou sozinha. É horrível eu querer tanto bater nele quanto quero chorar? Toda vez que o chão range, fico esperando que ele entre no quarto para buscar Meredith. Mas nunca mais vou vêlo. Meredith nunca mais vai vê-lo. Ele se foi. Por causa de uma atitude idiota. Agora estou molhando as páginas. Melhor parar.

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1º de outubro Hoje pela manhã fomos eu, Meredith e Drew até a casa do tio Emmett para buscar as coisas dela. Mamãe não quis ir. Nos últimos dias ela tem passado mais tempo do que o normal no quarto, e quando sai, seus olhos estão sempre um pouco vermelhos. Ao chegarmos lá, Meredith ficou parada no meio do quarto dela, parecendo atordoada. Então peguei as roupas que julguei serem suas preferidas, mais alguns livros e brinquedos. Em seguida parei e a abracei, e ela começou a chorar, com soluços curtos e engasgados. Afaguei suas costas e disse as coisas que se diz quando não se pode fazer nada para ajudar. O tempo todo fiquei com um nó na garganta, e tive que lutar contra o impulso de chorar também. Depois que ela parou, Drew subiu com um par de binóculos que encontrou, e espiamos pela janela. “Ei, veja só isso”, disse ele, e apontou para baixo. Na península que há bem perto da casa do tio Emmett, algumas pessoas trajando roupas volumosas, aparentemente de plástico, armavam uma engenhoca de caixas perto da água. Desapareceram de vista, mas em seguida voltaram, cada uma carregando mais caixas de metal. Assistimos por alguns minutos, revezando os binóculos, mas nenhum de nós conseguiu entender o que elas estavam fazendo. Então comecei a olhar para o continente. Não consegui identificar muita coisa, mesmo com os binóculos, mas tive a impressão de ter visto algumas figuras se movimentando no porto de lá. Entre nós e eles, alguns barcos de patrulha estavam posicionados no estreito, atentos a quem ousasse desobedecer à quarentena. A barca não voltou. Papai disse que o governo está tentando providenciar alguma outra solução, pois concluíram que entregar suprimentos no porto gerava muita “agitação”. É 88 | P á g i n a


como se estivessem nos punindo. Como se atirar nas pessoas já não fosse suficiente. Tio Emmett foi o único que morreu, mas uma mulher e um senhor ficaram feridos. Os soldados serão condenados por assassinato e violência? Ou o Exército vai alegar que os disparos foram necessários, em legítima defesa? Se é que vão nos dizer alguma coisa, a essa altura. Drew também devia estar se lembrando daquele dia, porque franziu a testa e disse: “Se o tio Emmett tivesse avisado do protesto com antecedência, eu poderia ter falado com ele.” “Você realmente acha que poderia tê-lo convencido a mudar de ideia?”, perguntei, abaixando os binóculos. “Ele não deu ouvidos nem à mamãe.” “Eu não teria falado para ele não protestar”, disse Drew. “Só teria explicado que há formas melhores. O governo nunca iria ceder e suspender a quarentena só porque alguns moradores da ilha estavam gritando; no máximo, todo mundo do continente teria se revoltado contra a gente. Mas quem quisesse ir embora poderia ter começado a reivindicar alguma forma de retirarem daqui quem não está doente, como prometeram originalmente. Se tivéssemos recorrido à internet, alertado o mundo sobre como fomos enganados, apelado para a mídia... Ei, será que não tinha câmeras lá ont...” Ele se virou para mim quando começou a perguntar, mas sua voz se perdeu no ar. Meredith estava olhando para o chão, com os braços cruzados com força na frente do corpo, e tremendo da cabeça aos pés. “Meredith!”, falei, abaixando-me ao lado dela. Ela se apoiou em mim, e aos poucos foi parando de tremer. Apertei-a, meu estômago embrulhando e meus olhos se enchendo de lágrimas. “O papai estava tentando me proteger”, disse ela. “Ele me falou.” “Eu sei”, respondi. “Eu sei. E ele iria querer que você tivesse por perto tudo aquilo que a deixa feliz, certo? Vamos

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descer e pegar os seus filmes preferidos. A gente assiste a algum deles assim que chegarmos lá em casa.” Drew desceu alguns minutos depois. Ele foi atrás de mim quando me encaminhei para a cozinha a fim de buscar uma sacola para guardar os DVDs. “Desculpe”, disse ele. “Acabei me deixando levar. Não devia ter dito aquilo na frente dela.” Suspirei. “Talvez tivesse funcionado desse seu jeito”, falei. “Mas nunca vamos saber. Como você pode criticá-lo quando ele acabou de morrer?” “Não sei”, disse ele, esfregando a testa. “É só a minha opinião. Ainda nem parece real, sabe?” “Sei”, respondi baixinho. Enquanto voltávamos para a sala, senti Drew hesitar, e em seguida ele falou: “Kae, se conseguíssemos convencer o governo a começar a deixar as pessoas saudáveis saírem da ilha, se tivesse uma maneira segura... você iria embora, mesmo que o papai ficasse?” Tínhamos acabado de atravessar a porta, e Meredith me olhou com um singelo esboço de sorriso. Nem precisei pensar para responder. “Se isso significasse que eu poderia tirar Meredith daqui?”, falei. “Sim. Com certeza.” Juntamos as bolsas com as coisas dela, e mantive a mão no seu ombro no caminho até o carro. Enquanto colocávamos as bagagens no porta-malas, uma menina que aparentava ter doze ou treze anos veio vagando pela rua. Notei sua presença assim que ela pisou no asfalto. Ela estava coçando o pulso. Todos os músculos do meu corpo se retesaram. “Entre no carro”, falei para Meredith. Ela me encarou por um segundo, mas entrou no carro sem questionar. “Oi!”, disse a menina, e em seguida espirrou e limpou o nariz. “O que está acontecendo? Vão viajar?”

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“Mais ou menos”, respondi. “Estamos, hmm, com um pouco de pressa. Até mais!” Eu já estava com as chaves, então pulei para o banco do motorista. Drew entrou enquanto eu tentava me entender com a ignição. A tosse da menina parecia estar bem do meu lado. Eu disse a mim mesma que estávamos protegidos, que as janelas estavam fechadas, que o vírus não podia entrar, mas mesmo assim fiz três tentativas até finalmente conseguir dar partida no motor. A menina bateu à minha janela, e eu pisei no acelerador. “Por que você não quis falar com a Josey?”, perguntou Meredith enquanto dobrávamos a esquina às pressas. “Ela é muito legal. Ela cuida de mim às vezes.” “Ela está doente”, falei. “Se você vir alguém que parece resfriado, ou se coçando muito, tem que se afastar bem depressa. Entendeu?” “Ah”, disse ela, tão baixinho que mal escutei. “Está tudo bem”, disse Drew. “Kaelyn fez a coisa certa. Saímos de lá e agora está tudo certo.” Isso fez com que eu me sentisse melhor, mas quer saber? Nenhum de nós sabe qual é a coisa certa. Tio Emmett achou que a coisa certa fosse empurrar soldados para protestar contra a quarentena. Papai acha que a coisa certa é não sairmos de casa. Talvez eu devesse ter dito para a menina ir ao hospital, ou procurado os pais dela. Em vez disso, apenas saí em disparada. Pelo menos protegi Meredith. Isso eu tenho certeza de que é certo; apenas isso.

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3 de outubro Então o governo encontrou uma nova maneira de trazer suprimentos. Ontem à noite um helicóptero militar sobrevoou a ilha jogando os pacotes. Claro, com uma entrega aérea não teve ninguém para levar a comida à casa das pessoas. Alguns voluntários carregaram os pacotes até a prefeitura e espalharam panfletos avisando às pessoas que fossem até lá se precisassem de alguma coisa. E um dos pacotes arrebentou ao cair, então parte da medicação que nos mandaram ficou inutilizada. Papai parece exausto. Mesmo quando está em casa, ele fica a maior parte do tempo no escritório, trabalhando mais. Não falei nada para ele nem para mamãe, mas depois que eu acabar de escrever vou até a casa do tio Emmett para pegar o que tiver sobrado de comida na geladeira e na despensa. Podemos deixar o que o helicóptero trouxe para as pessoas que realmente precisam. Perguntei a papai sobre as pessoas com as roupas plásticas que vimos outro dia. Ele assentiu quando as descrevi. “A Organização Mundial de Saúde quer uma amostra da vida selvagem da ilha”, explicou ele. “A maioria dos vírus tem um hospedeiro na população animal local, uma espécie na qual habita sem matá-la. Se conseguirmos encontrar o hospedeiro, podemos isolar o vírus com mais facilidade, o que nos ajuda a desenvolver um meio de erradicá-lo.” “Qualquer tipo de animal?”, perguntei. Se levarmos em conta insetos e peixes, deve haver milhares de espécies em contato com a ilha. “Para os vírus terem passado para seres humanos, provavelmente estamos procurando um mamífero”, disse ele. “Ou um pássaro, como vimos acontecer com alguns vírus, como o da gripe aviária.” 92 | P á g i n a


Um pássaro. Lembrei-me da gaivota morta na qual Mackenzie quase pisou quando estávamos na praia no Dia do Trabalho. Não acredito que faz só um mês. “Acho difícil”, disse papai quando mencionei o incidente. “O vírus provavelmente não mataria o hospedeiro; os dois organismos teriam uma relação mais simbiótica. Mas vou avisar ao pessoal da OMS para fazer testes com algumas gaivotas comuns.” Então me ocorreu perguntar: “O que vão fazer com eles? Com os animais que prenderem? Pegar uma amostra de sangue?” A expressão de papai tornou-se séria. “Vão ter que sacrificá-los, Kae”, explicou ele. “Um exame de sangue não é o suficiente.” Fiquei completamente nauseada. Provavelmente eu acabo de condenar à morte um punhado de gaivotas. Já não está havendo mortes o suficiente? Certo ou errado? Queria que houvesse uma maneira mais simples de saber.

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4 de outubro Pelo menos alguns dos animais não morreram em vão. Papai ligou hoje à tarde para avisar que a OMS conseguiu isolar o vírus, o que significa que agora podem começar a desenvolver uma vacina. Quando mamãe nos contou, todos vibramos. A má notícia é que parece que a quarentena não foi totalmente bem-sucedida. Tenho assistido aos noticiários com mais frequência do que seria apropriado para minha sanidade, fico vendo aquelas filmagens da ilha obtidas pelos helicópteros. Alguns dos canais noticiaram uma “gripe virulenta” surgindo no continente. Talvez nem seja a mesma doença. Até onde sei, por enquanto ninguém morreu lá. Mas se algum dos moradores da ilha que saiu antes da quarentena estivesse contaminado pelo vírus, as pessoas do continente não estão mais seguras do que nós. “Se sentir que está ficando resfriado, seja responsável e fique em casa”, dizem os repórteres. Como se faltar ao trabalho fosse ter alguma utilidade depois que as pessoas chegam ao estágio excessivamente amigável. Nosso vírus é muito mais esperto do que aqueles que aparecem nos filmes de zumbi: não deixa as vítimas cambaleando por aí, babando e resmungando, de modo que qualquer um em sã consciência se afaste. Faz com que elas se aproximem das outras pessoas, para poder tossir e espirrar na cara delas. Só precisamos da vacina. Aí vai ficar tudo bem. Eu queria mandar um e-mail para Mackenzie e perguntar o que está acontecendo em Los Angeles, mas quando tentei entrar na internet só aparecia uma mensagem de erro, invariavelmente. Nenhum dos computadores da casa estava funcionando. O último que fui tentar foi o do Drew. Ele já estava olhando fixamente para o monitor. 94 | P á g i n a


“Não consigo acessar a internet”, falei. “A sua está conectando?” “O serviço caiu em algum momento hoje de manhã”, disse ele. “O problema não é aqui em casa. Estou tentando resolver.” Não sei o que ele pode fazer se o problema não é aqui, mas com as habilidades de Drew, quem sabe? Resolvi, então, ligar para Mackenzie. Ela me deu o número do telefone deles em Los Angeles antes de ir embora, no verão. Também não dei sorte. Tentei duas vezes falar com ela, e em seguida tentei ligar para meus avós em Ottawa, mas só o que consegui foi ouvir uma gravação avisando que “este serviço não está mais disponível”. Os telefones locais ainda funcionam. Liguei para a casa do tio Emmett e ouvi o telefone chamar até a secretária eletrônica atender. A internet e as linhas telefônicas já caíram em outras ocasiões, mas sempre quando uma tempestade danificava os equipamentos. O tempo esteve bom nos últimos dias, e não consigo pensar em mais nada que possa ter causado o problema. Por que tinha que acontecer isso logo agora? Sem a possibilidade de fazer ligações interurbanas e sem a internet funcionando, não tenho como descobrir o que está acontecendo com Mackenzie, nem com meus avós, nem com mais ninguém fora da ilha. Nem eles podem descobrir o que está acontecendo conosco. Talvez papai saiba explicar o que está se passando quando voltar. Talvez os técnicos já estejam consertando. Meu Deus, espero que sim.

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6 de outubro Continuamos sem internet e sem conseguir ligar para fora da ilha. Parece que houve um “incidente” no prédio das comunicações. Um dos funcionários ficou doente e começou a enlouquecer com as alucinações, e acabou danificando os cabos que chegam pelo estreito. Papai falou que os técnicos — pelo menos os que ainda estão saudáveis — estão tentando fazer os reparos, mas não sabem se será possível sem trazer peças do continente. O que, evidentemente, não vamos conseguir tão cedo. Drew me emprestou o celular dele, alertando-me que a recepção é péssima na ilha. Consegui ligar para o número dos meus avós, mas o chiado era tanto que não sei se falei com uma pessoa ou com uma secretária eletrônica. Pelo menos no hospital e na prefeitura tem serviço via satélite, então não estamos completamente isolados do resto do mundo. Papai vai ficar em contato com meus avós o mais frequentemente que puder. Drew saiu sorrateiramente hoje pela manhã, enquanto mamãe estava no banho. Ele não fazia isso desde a morte do tio Emmett, e desta vez passou quase o dia todo fora. Após algumas horas, comecei a olhar para fora a cada vez que passava por uma janela, torcendo para vê-lo voltando. Estamos tão afastados de tudo agora, até mesmo dos vizinhos, que tenho a sensação de que meu irmão pode vir a se perder em algum lugar da ilha — cair no oceano, levar um tiro — e jamais ficaremos sabendo o que aconteceu. Finalmente, logo antes do jantar, levantei os olhos do livro com o qual estava tentando me distrair e o vi saltando a cerca do quintal dos fundos. Consegui alcançá-lo quando ele estava passando pela entrada. “O que você está fazendo?”, perguntei.

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“Só tomando um pouco de ar fresco”, respondeu ele, como se só tivesse ido até o quintal. Essa deve ser a versão oficial que ele escolheu contar. “Não”, falei. “Aonde você tem ido? Você vive saindo. Não minta para mim, Drew. Eu vi.” “Não é nada importante”, disse ele, desviando o olhar. “Só preciso sair de casa às vezes, e quero ver o que está acontecendo pela cidade. Tenho tomado cuidado.” E deu um tapinha no bolso da calça onde tinha guardado a máscara.” “Se é só isso o que você está fazendo, por que não avisa à mamãe e vai de carro?”, perguntei. “Eu ando dando cobertura para você, sabia? Ela e o papai vão ficar furiosos se...” “Você não pode contar!”, disse ele antes que eu pudesse concluir a frase. “Eu preciso fazer isso, entendeu?” Ele pareceu tão desesperado, tão diferente do Drew ao qual estou acostumada... “Tudo bem”, respondi. “Eu não ia contar mesmo.” “Obrigado”, disse ele, um pouco mais calmo. “Por me dar cobertura e tudo mais.” Quando Drew passou por mim, senti cheiro de sal e alga. Ele tinha ido a alguma parte da costa. Seja lá o que ele anda fazendo, obviamente é mais do que esticar as pernas. Ele está fazendo alguma coisa lá. Alguma coisa importante para ele. E eu aqui presa, jogando jogos de tabuleiro com Meredith. A frustração me corroeu durante todo o jantar. E aí papai voltou para casa, com ar exausto, e eu o ouvi falar alguma coisa para mamãe sobre algum dos medicamentos ter acabado. Nem pensei. Fui para o quarto e disquei o número da Tessa. “Oi”, falei quando ela atendeu. “Vamos em frente. Vamos ver o que tem nas casas de veraneio.” Então está combinado. Começamos amanhã.

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7 de outubro Tessa Freedman e Kaelyn Weber, furtando medicamentos em larga escala. Aposto que você jamais imaginou uma coisa dessas, Leo. A história que contei para mamãe foi que estava indo ver as plantas do papai. Quando estacionei na frente da casa da Tessa, estava tão agitada que precisei respirar fundo algumas vezes antes de sair do carro, e minhas mãos estavam suadas de tanto apertar o volante. Mas lembrei a mim mesma que a nova Kaelyn não seria vencida pelo próprio nervosismo, sequei as mãos na calça e segui decidida até a porta. Tenho a sensação de que dez segundos depois já estávamos no carro dos pais dela, o quadro de chaves pesando no meu colo. O vento aumentou ao nos aproximarmos do oceano, assobiando através das janelas. Lembra aquela vez em que invadimos uma das praias particulares, no primeiro verão em que voltei para visitar a ilha depois de ter ido embora? Dez minutos sendo empurrados pelas ondas do oceano, e nunca mais pensamos em voltar. Mas a maioria daquelas “cabanas” tem piscina particular, e a vista do oceano é mais bonita ali do que do outro lado do estreito, então imagino que seja bem satisfatório para o pessoal que vem só no verão. Quando estacionamos na entrada da primeira casa, que parecia duas vezes maior do que a minha, o medo me atingiu de verdade. “Tem certeza de que não vai ter ninguém em casa?”, perguntei. “A maioria dos veranistas vai embora antes do Dia do Trabalho”, disse Tessa. “Começa a ficar muito frio para eles. Perguntei para o meu pai da última vez que ele telefonou, e

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ele disse que ninguém falou que ia ficar mais tempo. Todas as casas devem estar vazias.” Ela parecia tão calma. Queria vê-la nervosa também; saber que há uma rachadura ou outra em sua armadura. “Acho que já faz alguns dias”, falei, “desde a última vez que você falou com eles. Estão tentando consertar as linhas interurbanas.” “Eu sei”, disse ela. “Falei com uma pessoa da prefeitura. Não tem sido tão ruim. Afinal, sei que eles estão bem. Para eles deve ser muito mais difícil.” Ela balançou a cabeça, lamentando, e em seguida acrescentou: “Bem, vamos lá.” Foi tão estranho chegar perto da porta e abrir como se a casa fosse nossa... Lá dentro, o hall era amplo e arejado. Tiramos os sapatos, e dava para patinar no chão só de meias, de tão encerado que era o piso de madeira. Dá para imaginar, gastar tanto dinheiro em uma casa que você só usa nas férias? É loucura. “Onde vamos procurar?”, perguntei. “No lugar em que normalmente se guardam os remédios, imagino”, respondeu Tessa. “Banheiro, cozinha?” “E nos quartos”, sugeri. “Tudo bem. Então a gente verifica os banheiros e quartos, depois a cozinha, e aí vamos para uma outra casa.” Fomos de cômodo em cômodo abrindo armários e gavetas, como uma bizarra brincadeira de caçar ovos de Páscoa. Cada vez que eu encontrava um frasco de Advim ou um saquinho de pastilhas para a garganta, sentia uma breve empolgação. Foi tudo para o saco de papel que Tessa levou. Pegávamos qualquer coisa que parecesse medicinal, mesmo se não soubéssemos para que servia. “Melhor sobrar do que faltar”, comentou Tessa. Depois das primeiras casas, já não me parecia mais tão estranho. Você não iria acreditar em quantos remédios esse pessoal tem — e isso é só o que eles deixaram para trás! Uma das casas foi uma verdadeira loteria: Tylenol, Xanax, Valium, Ambiem, Ritalina, alguns tubos que Tessa achou que fossem

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de pomadas antifungos, mais um monte de remédios sem receita. Fomos a vinte casas, o que nos rendeu dois sacos cheios. Tessa escreveu em ambos UMA DOAÇÃO AMIGÁVEL, com caneta Pilot, e os deixamos na porta do hospital. Tessa parecia tão séria acelerando o carro quando saímos que comecei a rir. Fiquei imaginando como você acharia estranho nós duas juntas, parceiras no crime, mas depois achei que você sentiria orgulho de Tessa por ela ter tido a ideia, e então meu ânimo despencou. A pergunta simplesmente me escapou: “Como estava o Leo da última vez que você falou com ele?” “Bem”, respondeu ela. “Está feliz com a nova parceira de dança. A escola é exatamente como ele imaginou que seria, e ele também está adorando a cidade. Fico muito feliz por ele não estar aqui, no meio disso tudo.” E me senti culpada, como se fosse um péssimo reflexo de mim o fato de que eu ia interromper a sua felicidade contando o que está acontecendo aqui. Só acho que você tem o direito de saber. Continuo querendo que você fique protegido. Não sei ao certo o que eu falei. Alguma coisa vaga como “Que bom”, e então chegamos à casa dela. Ela sorriu para mim, e meu estômago se acalmou um pouco. “Eu tenho muitas outras chaves”, disse ela. “É só me avisar quando quiser repetir.” Quer saber? Acho que mal posso esperar a próxima vez. Isso sim é que é estranho.

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9 de outubro Quando abri os olhos hoje de manhã, só queria ficar deitada na cama até que o sol se pusesse outra vez. Talvez devesse ter feito isso. Provavelmente teria sido um dia melhor. Mas me levantei. Estava imaginando mais quinze horas de notícias deprimentes e mais avanços nas leituras dos livros da escola, que até onde sabemos talvez nunca mais volte a abrir. Então vi Meredith encolhida na caminha ao lado da minha, em silêncio, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Como posso reclamar da minha vida quando ela está sofrendo tão mais do que eu? Tenho é sorte; de verdade. Sentei-me ao lado dela e a abracei, e quando ela parou de chorar, descemos até a cozinha e preparei o café da manhã para nós duas. O tempo todo ela parecia muito séria. Em determinados momentos seu lábio inferior tremia, e eu tinha medo de que ela começasse a chorar outra vez. Eu não queria que ela ficasse triste. Queria fazer com que se sentisse melhor. Mas até eu ainda me sinto dilacerada por dentro quando penso no tio Emmett. A melhor ideia que me veio à mente foi fazer com que ela pensasse em outra coisa, algo mais alegre. “Quer ir lá fora um pouquinho?”, perguntei. “Vamos sair daqui.” Pensei em parar na mercearia e comprar um docinho. A maioria dos estabelecimentos comerciais estava fechada desde a implementação da quarentena, mas a mercearia continuava aberta da última vez que eu havia passado de carro por lá. E só precisaríamos atravessar dois quarteirões, então achei que seria seguro ir a pé, fazer um pouco de exercício. Conferi a máscara de Meredith, para ver se estava bem ajustada, e saímos.

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“Cadê todo mundo?”, perguntou ela um minuto depois. As ruas estavam tão desertas que nossos passos praticamente ecoavam. “Estão todos em casa”, falei. “Como a gente tem feito a maior parte do tempo. Todo mundo quer se proteger, ficar longe de qualquer pessoa que possa estar doente.” Quando dobramos a esquina na rua principal, ela se animou. “Veja”, disse ela, apontando. “Não somos só nós duas!” Um caminhão de entrega estava estacionado em frente à mercearia, e havia uns garotos perto da traseira aberta. A porta da loja era mantida aberta por uma pedra. Uma leve onda de animação percorreu meu corpo, pois pensei que talvez a barca tivesse voltado e trazido mais alimentos e medicamentos, além das peças para o conserto dos cabos de telefonia e internet, só não tínhamos ficado sabendo. Mas logo a sensação desapareceu. Não fazia sentido. Por que o governo de repente desistiria dos helicópteros e voltaria a usar a barca? E, se o houvessem feito, por que alguns adolescentes que nem sequer usavam máscaras estariam entregando os alimentos? Parei de andar e peguei a mão de Meredith. Na mesma hora, mais dois meninos e uma menina saíram da loja. Estavam carregando caixas de comida, e a menina levava um pacote enorme de garrafas d’água. Deram a volta até a traseira do caminhão para guardar tudo lá dentro, e percebi que todos me eram familiares. Um deles eu conhecia com certeza — era Quentin. Olhei os outros com mais atenção. Gav não estava lá, mas reconheci os meninos do seu grupo. Então ele e os amigos acham que a coisa certa a se fazer é saquear toda a comida que sobrou na ilha? Não posso acreditar! Ele critica o governo por não nos ajudar o suficiente, e quando vira de costas faz algo dez vezes mais egoísta. “O que eles estão fazendo?”, sussurrou Meredith. “Só estão pegando um pouco de comida”, respondi, e comecei a puxá-la para longe dali. “Acho que não vão querer

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dividir com a gente. Vamos para casa. Ainda tem um pouco de sorvete.” Ela entrelaçou os dedos nos meus. “Eles estão roubando!”, disse Meredith. Quentin se virou na nossa direção. Congelei, torcendo para que ele não nos visse sob o toldo do Keith’sFish Kart, contanto que não nos mexêssemos. Acho que funcionou. Ele foi um pouco na nossa direção, mas não olhou para nós, apenas para as fachadas das lojas. Parou na frente da Maritime Electronics, tamborilando sobre uma tábua que trazia apoiada na perna. “Ei, Vince”, gritou ele. “Por que não um pouco de diversão também? A gente podia ter os melhores sistemas de som da ilha!” O tal garoto chamado Vince pareceu não lhe dar ouvidos. “Não sei”, disse ele, voltando para a mercearia. “Gav falou para pegar só a comida. É o que eu vou fazer.” “Banana”, Quentin gritou para ele. Em seguida levantou a tábua e a bateu na vitrine da janela. Se fosse em Toronto, nada teria acontecido. O vidro seria muito espesso, ou reforçado com barras. Mas você conhece as lojas daqui: a maioria foi construída antes de os nossos avós nascerem, e ainda são os mesmos vidros. As pessoas não saem por aí simplesmente invadindo lugares. Pelo menos não faziam isso antes. A janela estilhaçou. Eu e Meredith nos encolhemos. Por sorte, Quentin estava tão ocupado roubando a mercadoria que não teria notado nossa presença nem se estivéssemos sapateando. Eu estava esperando que ele entrasse para podermos sair correndo dali, mas então Meredith soltou a mão da minha e foi na direção dele. “Você não pode fazer isso!”, gritou ela, com uma ferocidade incomum para uma menina de sete anos. “Não tem nada seu aí dentro! Deixe essa loja em paz!” Eu sabia que ela estava triste, mas essa foi a primeira vez que percebi que Meredith podia estar também furiosa.

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Alcancei-a quando Quentin se virou. Por um segundo ele pareceu hesitar, em seguida nos olhou de modo irônico. Quase vi os pelos do seu corpo se eriçando, como os furões quando se assustam. “Está com algum problema?”, perguntou ele, acenando com a tábua. “Quer falar sobre isso?” “Não”, respondi, agarrando Meredith pelo cotovelo e recuando. “Faça o que quiser.” “Ótimo”, disse ele. “Porque senão eu teria que bater com isso aqui em mais algumas coisas.” “Mas, Kaelyn...”, começou Meredith, e eu apertei seu braço com tanta força que deve ter doído. Arrastei-a pela esquina e por metade do quarteirão seguinte até ela começar a acelerar o passo. “Se encontrar alguém maior e mais forte do que você que começar a fazer cara de mau”, falei, “afaste-se o mais rápido possível. Entendeu?” Todo animal conhece essa regra de sobrevivência. Temos que começar a pensar assim. Em sobreviver. “Mas eles não podem roubar”, protestou Meredith. “Não é errado deixar que façam isso?” “Se a polícia ainda estiver por aí, eles cuidam disso”, falei. “Seria muito mais errado se você se machucasse tentando fazer o trabalho deles.” “Aquelas pessoas estavam doentes?”, perguntou ela alguns minutos depois, quando chegamos em casa. “Por isso é que elas estavam sendo tão más?” Não soube o que responder. Eu estudei com Quentin durante todos os anos em que morei na ilha, e ele podia até ser um babaca, mas nunca me pareceu perigoso. Você se lembra daquela vez no quinto ano, Leo, quando eu disse que ia dar um soco nele se ele continuasse provocando você por causa da dança? Ele ficou todo assustado e correu para contar para a professora. Não consigo acreditar que seja a mesma pessoa que vi hoje. Então falei para Meredith:

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“Não é só com as pessoas doentes que você deve se preocupar. Você está segura comigo, com minha mãe, meu pai e Drew. Não deve confiar em mais ninguém.” Bem que eu queria ter posto a culpa no vírus. Acima de tudo, queria que o vírus não tivesse nos colocado nesta posição, não exigisse que eu explicasse essas coisas a ela.

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10 de outubro Minha mãe se aproximou enquanto eu estava preparando o almoço de hoje e me deu um abraço, do nada. Eu não tinha percebido como estava abatida até relaxar nos braços dela. “Você tem cuidado muito bem da Meredith”, disse ela. Pensei na encrenca em que quase me meti ontem, e meu peito apertou. “Não sei bem o que fazer”, falei. “Você acha que ela está bem?” “Espero que sim”, respondeu mamãe. “Acho que Emmett ficaria muito feliz em ver como você tem sido boa para ela.” Mamãe fez uma pausa, piscando forte, e engoliu em seco audivelmente. Então acrescentou: “Só queria que você soubesse o quanto me orgulho de você.” Foram apenas palavras, mas me senti mais leve durante toda a tarde.

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12 de outubro Não consigo parar de pensar sobre isso. Talvez escrevendo eu consiga tirar esse assunto da cabeça. Tessa me ligou hoje à tarde e disse que algumas das sementes do papai brotaram, então talvez ela devesse trazer algumas mudas aqui em casa, e depois poderíamos passar em mais algumas casas de veraneio. Eu concordei. Depois de ver o que Quentin estava fazendo no outro dia, ficou difícil sentir culpa por pegar medicamentos de pessoas ricas que nem sequer moram aqui e doá-los ao hospital. Pelo menos estamos roubando para ajudar. As plantas que ela trouxe eram apenas pequenos maços de folhas, mas já era um começo. Nós as deixamos na varanda e saímos. Foi relativamente relaxante entrar naquelas cabanas com suas cortinas translúcidas e seus eletrodomésticos brilhantes, tudo limpo e arrumado. Como se ninguém nunca tivesse ficado doente ali. Pareciam locais seguros. A terceira casa a que fomos tinha uma parabólica no gramado da frente. Assim que vi isso, não me importei tanto com os remédios que poderia encontrar. Queria conseguir acesso à internet, finalmente escrever para Mackenzie e descobrir o que estava acontecendo em Los Angeles. Ela deve estar se perguntando por que não escrevo há tanto tempo. Se não estivesse tão concentrada nisso, talvez eu logo tivesse percebido que alguma coisa estava errada. Havia algumas louças na bancada da cozinha. Um casaco deixado no corrimão. Mas presumi apenas que aqueles donos talvez não fossem tão organizados quanto os outros. Tessa foi para o banheiro do andar de baixo enquanto eu subi às pressas. Abri uma porta e encontrei o quarto principal, que era do tamanho de todo o segundo andar da minha casa. Tinha uma TV grande de tela plana, mas não vi 107 | P á g i n a


nenhum computador. Havia um lenço de papel amassado no chão. Ao menos isso deveria ter servido de alerta. Eu deveria ter chamado Tessa para irmos embora. Mas não. Eu abri a porta seguinte. A primeira coisa que vi foi o sangue. Havia coberto boa parte do carpete até quase o corredor, espalhando-se a partir do local onde estava a mulher, no chão. Ela estava encolhida ao pé da cama, virada para mim. Tinha os olhos fechados, mas sua boca estava contorcida em uma careta, como se ela tivesse morrido rosnando. Seus braços envolviam uma criança pequena, que olhava para o nada, o rosto do menino pálido e azul. O pijama dele estava ensopado de vermelho. Parecia que ela havia se cortado dos pulsos ao cotovelo e abraçado o menino enquanto sangrava até a morte. Não podia ter acontecido havia tanto tempo. Não estava nem cheirando ainda. Só consegui me virar, e em seguida estava vomitando no piso de madeira polida. Minhas pernas cederam. Fiquei agachada ali por um ou dois minutos, arfando. Então, não sei como, cheguei à escada. Tessa estava lá. Ela devia ter me ouvido. “Você está bem?”, perguntou ela. Pisquei várias e várias vezes para conter as lágrimas. Minha garganta queimava. Tessa olhou para mim, depois para o corredor, e fez menção de ir lá ver, mas agarrei seu braço. Não sei se consegui falar alguma coisa inteligível. Lembro que fiz que não com a cabeça incessantemente. Mas ela foi assim mesmo. Em seguida voltou para o meu lado, colocando-se tão perto que nossos corpos se tocavam, e esperou até que eu me acalmasse. “Vamos”, disse ela. Pensei que ela estivesse falando em voltar para casa. Só depois de um minuto no carro é que percebi que ela estava indo para mais uma das residências de verão. “Pode me levar de volta?”, pedi. “Para a minha casa?”

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Não consigo me lembrar do que ela disse, mas atendeu meu pedido. Agradeci quando saí do carro. Depois subi, deitei e puxei a coberta sobre a cabeça, e torci para que Meredith não entrasse ali e me perguntasse como eu estava. Tentei dizer a mim mesma que o que tinha acontecido era claro. O menino ficou doente e morreu, e a mãe se matou para fugir do sofrimento. Mas se ele estava tão doente assim, por que ela não o levou ao hospital? E se tiver sido ela que ficou doente, sem ninguém na casa para mandá-la para o médico, nem ninguém por perto para notar quando ela enlouquecesse? Pode ter sido assim. As alucinações dominando sua mente, ela imaginando que alguma coisa ou alguém a estivesse perseguindo, a criança começando a chorar e a fazer bagunça, e então ela bateu nele ou o pegou pelo pescoço, e *** Mas não importa como aconteceu. Não me importa por que ela fez aquilo. Só quero que isso acabe. Quero que as lojas reabram e que as pessoas possam conversar sem máscaras cobrindo-lhes os rostos, e que mais ninguém morra, nunca mais.

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13 de outubro O jantar de Ação de Graças seria hoje. Foi uma surpresa quando mamãe nos mostrou o peru que tinha começado a descongelar em segredo ontem. Ela deve tê-lo comprado antes de o bando do Gav saquear a mercearia. “Temos muito pelo que agradecer”, disse ela. “Nós cinco ainda estamos saudáveis, e o seu pai está progredindo na pesquisa da vacina.” Sinceramente, temos muito mais do que reclamar do que a agradecer, mas foi um alívio vê-la sorrindo. Então eu disse que ajudaria na cozinha, e Meredith também se ofereceu. Drew fugiu da tarefa, alegando estar ocupado com alguma coisa no computador, mas eu o vi escapando pela porta dos fundos alguns minutos depois. Começamos a preparar o jantar logo depois do almoço, apesar de papai ter dito que não chegaria antes das seis. Mamãe estava preparando o peru junto ao forno. Eu descascava batatas na pia. Meredith colocava a mesa. Eu estava falando para ela usar os talheres de sempre, que não tínhamos nada especial para as festividades, quando de súbito mamãe parou. Antes que eu tivesse a chance de perguntar o que havia de errado, ela saiu da cozinha. O peru ficou lá, na tábua de cortes, com metade do recheio ainda na vasilha. Concluí que ela precisara ir ao banheiro. Mas quando terminei as batatas e lavei as mãos, ela ainda não tinha voltado. Meredith queria saber o que podia fazer agora que havia terminado de colocar a mesa. “Por que não descansa um pouquinho?”, sugeri. “Pode jogar Nintendo se quiser.” Mamãe não estava em lugar nenhum do primeiro andar, nem no banheiro. A porta do quarto dela estava fechada. Bati. 110 | P á g i n a


“Não entra”, respondeu ela na mesma hora. “O que houve?”, perguntei. “Precisa de alguma coisa?” “Não”, disse ela. “Só estou me sentindo um pouco mal. Preciso de um tempo sozinha, tudo bem?” Ela não tinha espirrado nem tossido, mas de repente eu entendi: estava com medo de ter contraído o vírus. Meu corpo inteiro ficou rígido. Mamãe deve ter sentido que eu ainda estava ali. “Não se preocupe, querida”, disse ela com firmeza. “Volte lá para a cozinha. Você e Meredith podem acabar de preparar o jantar. Vou descansar.” Virei-me e comecei a descer, meu coração batendo tão alto que eu não conseguia escutar quase mais nada. Preciso contar para papai, pensei. Foi só o que consegui pensar. Sem parar. Chamar papai, chamar papai. Ele saberia o que fazer. Contar para Meredith só a assustaria, então falei que ia sair rapidinho, e que ela podia continuar jogando. Não levaria mais de meia hora, pensei. Ir de carro até o hospital, pegar papai, voltar. Peguei as chaves do gancho na parede e fui para o carro. Durante todo o caminho, meus batimentos cardíacos acompanhavam a velocidade dos meus pensamentos. Mamãe não podia estar doente de verdade. Ela não tinha nenhum dos sintomas. Só estava nervosa e sendo cautelosa. Papai veria isso. Diria que ela está bem, e ela se acalmaria, e teríamos um jantar de Ação de Graças normal. Mas aí me lembrei de como ela ficara tensa e saíra da cozinha sem falar nada, e minha pulsação ficou ainda mais alta, e tive que repassar a história para mim mesma novamente. Acho que foi um milagre eu não ter batido em um telefone público ou um hidrante. Mas cheguei inteira ao hospital. O estacionamento estava lotado. Percorri as fileiras de carros duas vezes, procurando uma vaga. Nunca tinha visto aquele estacionamento cheio nem pela metade. Alguns dos carros estavam cobertos por uma fina camada de poeira, como se estivessem lá, parados e sem uso, havia um mês.

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O que talvez fosse o caso. Talvez as pessoas que os guiaram até lá em busca de ajuda nunca tivessem voltado. Tive que estacionar no outro quarteirão. E fui correndo até as portas do hospital. Eu não entrava no hospital desde o ano passado, quando viemos visitar a ilha e tive aquela febre forte. Normalmente tem uma enfermeira ou um assistente na recepção, e uma mãe ou um pai com uma criança chorando, ou um dos idosos da ilha que veio fazer um checkup. Nunca mais do que algumas pessoas. Costuma ser quieto, quase pacífico, um estilo desinfetado e artificialmente iluminado de paz. Hoje estava uma loucura. A recepção estava tão cheia que eu não conseguia enxergar a mesa, apenas uma multidão de pessoas se mexendo sem parar. Vozes ecoavam das paredes. Eu não tinha dado nem dois passos quando a Sra. Stanfeld, do quarto ano, veio por trás de mim com uma garotinha que estava saltitando e conversando entre um espirro e outro. As duas passaram por mim, adentrando a sala. “Minha filha precisa de ajuda!”, gritou a Sra. Stanfeld, e alguém gritou de volta: “Todo mundo precisa de ajuda! Espere sua vez!” E outra pessoa começou a chorar. Por todo lado, pessoas tossiam e espirravam e se coçavam por sobre as roupas, tentando aliviar algo que na verdade não podiam resolver. O cheiro de desinfetante continuava presente, porém suprimido por suor e algo azedo que fez meu estômago embrulhar. Eu havia saído de casa em tamanho pânico que esquecera minha máscara. Tive a sensação de ter entrado lá nua. Mas eu não ia voltar para casa para depois ir novamente ao hospital. Então cobri o nariz com a manga do casaco e me enfiei pela multidão. Uma enfermeira de máscara, roupa plástica como uma fina capa de chuva e luvas descartáveis compridas estava coletando sangue de uma senhora que não parava de coçar o

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queixo. A enfermeira tinha um carrinho de amostras sanguíneas etiquetadas atrás de si — provavelmente para fazer testes a fim de ver quem realmente tinha o vírus. Todos eles têm, pensei. Por um segundo não consegui respirar. Tive a sensação de que o vírus me cercava por todos os lados, que nuvens deles preenchiam o ar. Papai não estava naquela sala, e obviamente a enfermeira estava ocupada demais para ajudar, então apertei o braço no rosto o mais forte que pude e passei pela multidão até chegar ao corredor do lado oposto. Outra enfermeira passou por ali. Ela entrou em uma das salas de exame, em que se viam seis pacientes amontoados em camas e alguns em colchões no chão. “Eles estão vindo, estão vindo!”, um deles começou a sussurrar em voz rouca. “Não tem ninguém vindo”, disse a enfermeira. Ela injetou alguma coisa no braço do sujeito, e os olhos dele ficaram desfocados. Ela ficou observando-o por um instante, e parecia estar contendo as lágrimas. “Com licença”, comecei a dizer quando ela estava saindo. “Volte para a recepção”, disse ela rispidamente. “Exame de sangue, depois você será admitida.” Antes que pudesse explicar, ela já tinha seguido para a sala seguinte. Talvez papai estivesse no andar de cima, mas já havia gente demais em torno do elevador, e eu não sabia onde ficavam as escadas. Continuei em frente, e nisso um assistente passou por mim com várias pessoas febris e tossindo, vindo em fila da recepção, em seu encalço. “Onde colocamos os novos?”, perguntou ele a uma enfermeira, em voz tensa. Não consegui ouvir a resposta. Mais adiante à direita, vários colchões cobriam o chão ao longo da parede, alguns ocupados, outros livres. O assistente apontou para aquela área.

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“O quê?”, exclamou uma mulher. “Vão nos largar no corredor? Onde estão os médicos? Precisamos de tratamento decente!” Virei-me para o outro lado, procurando pelas escadas, mas vi apenas um corredor curto cheio de pacientes em fila, e dali não havia saída. Em um dos quartos próximos, alguém começou a gritar. Recuei e me apoiei na parede, deixando-me escorregar até o chão. Com a manga ainda sobre o nariz, eu tentava respirar fundo através do tecido. Só precisava de um momento, eu disse a mim mesma. Só um ou dois minutos, para me recompor. Mas a cada respiração parecia que eu estava tremendo mais, e não menos. Não sei ao certo quanto tempo fiquei ali. Foi tudo uma confusão de vozes e pessoas passando depressa, até que senti alguém parar na minha frente. “Kaelyn?”, chamou ela. Era a amiga do papai, Nell. Ela parecia estar acordada desde a noite anterior. Seu cabelo estava escapando do coque, e manchas marrons e amarelas marcavam a roupa plástica que ela vestia por cima do jaleco. Seu sorriso era pouco mais do que uma linha reta. Mas era alguma coisa. Eu me levantei. “Preciso encontrar meu pai”, falei. “Minha mãe acha que pegou o vírus. Ele precisa ir para casa.” O esboço de sorriso desapareceu. “Ah, Kaelyn”, disse ela. “Não sei onde ele está. Ele tem se dividido entre o hospital e o centro de pesquisa.” Devo ter feito uma cara de total desespero, porque ela tocou meu braço com a luva e perguntou: “Ela está mal?” Balancei a cabeça em negativa. “Não sei nem se ela está mesmo doente”, falei. “Tudo bem. Então é melhor não trazê-la para cá. Ela vai ficar melhor em casa, mais confortável. Vou dar a você alguns remédios que descobrimos que aliviam os sintomas. Espere aqui.”

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Ela levantou novamente a máscara e se afastou depressa. Alguns minutos depois, voltou com algumas caixas de amostra grátis de comprimidos, além de uma máscara para mim. Coloquei-a no rosto com alívio. “Desculpe por não poder dar mais que isso: estamos ficando sem remédios outra vez”, disse Nell. “Se ela tomar um de cada, deve ajudar pelo menos um pouquinho. Agora saia daqui, tudo bem? Assim que eu encontrar o seu pai, aviso a ele.” “Obrigada”, respondi. Alguns remédios em vez do papai não me pareceu um bom negócio, mas não era culpa da Nell. Ela me levou até a saída, apesar de provavelmente ter muitas outras coisas mais importantes para fazer. Quando chegamos lá, soltei a pergunta: “Alguém já melhorou?” Ela contraiu o maxilar, olhou lá para fora. “Temos alguns casos que parecem promissores.” Alguns casos. Quantas pessoas já morreram? Quando cheguei em casa, Meredith ainda jogava vídeo game. Subi e fiquei junto à porta do quarto da mamãe, mas não ouvi tosse nem espirro. Então talvez ela esteja mesmo bem. Tomei banho, troquei de roupa e joguei as que estava usando na máquina de lavar. Então desci para a cozinha, para ver se podia ajudar a preparar a comida. Foi lá que Drew me encontrou. “Onde você estava?”, perguntou ele assim que entrou no recinto. “Eu queria falar com você, e a mamãe disse que não sabia onde você estava, e Meredith só sabia que você tinha saído. Você não pode sair por aí sem avisar ninguém!” Meus nervos já estavam à flor da pele. Como Drew poderia realmente achar que ele tinha algum direito de reclamar de mim? “Do que você está falando?”, perguntei. “Você vive dando as suas escapadas!” “Bom, é por um bom motivo”, defendeu-se ele. “Eu nunca...” Ele não terminou a frase, e balançou a cabeça.

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“Olhe, não quero discutir agora. Você voltou, e é isso que importa. Temos que começar logo.” “Começar o quê?”, perguntei. “O que está acontecendo?” “Encontrei uma maneira de ir embora.” O que não era nem de longe o que eu esperava ouvir, então apenas o encarei e perguntei: “Embora de onde?” “Da ilha, é claro”, respondeu ele, diminuindo a voz. “Descobri algumas coisas. Eu teria bolado um plano mais rápido se a internet não tivesse caído. Sei que o papai não vai, mas aposto que conseguiríamos convencer a mamãe se ela achar que isso pode nos proteger, e proteger Meredith. Ainda estamos todos ilesos, então não deve... Kae, o que houve?” Esfreguei os olhos antes que mais lágrimas pudessem cair. “A mamãe acha que está doente, Drew”, falei. “Foi por isso que eu saí. Fui até o hospital tentar encontrar o papai.” “Mamãe está doente? Ela me pareceu bem quando falei com ela... Só queria tirar um cochilo.” “Não sei”, falei. “Deu para perceber que ela está preocupada. Ela nem abriu a porta para falar com você, não foi? Acho que o papai vai fazer um exame de sangue ou alguma coisa para descobrir. Quando ele chegar.” Drew franziu o cenho. “Ela não pode estar doente”, disse ele. Parecia estar falando mais consigo mesmo do que comigo. “Ela quase nunca sai. Como pode ter contraído o vírus? Ela só está nervosa, como todo mundo. O papai vai ver que ela está bem. Aí a gente conversa sobre ir embora, tudo bem?” “Tudo bem”, respondi. Eu deveria me sentir aliviada por ele pensar como eu. Que mamãe não estava doente, só nervosa. Mas minha mãe não é o tipo de pessoa que costuma se deixar levar pelo nervosismo. E ainda não sabemos ao certo sobre todas as possíveis formas de transmissão do vírus. Todos nós já saímos de casa. Qualquer um poderia ter trazido o vírus.

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13 de outubro (mais tarde) Eu estava passando pelo quarto de mamãe para ir ao banheiro há alguns minutos e a ouvi tossindo. Ainda assim não significa nada. Muitas coisas fazem a pessoa tossir. Pode até ser o nervosismo a fazendo imaginar uma irritação na garganta. Acontece. Sintomas psicossomáticos. Tentei falar com ela, mas mamãe disse que está descansando e que não devo me preocupar. Então falei que estava deixando na porta do quarto os comprimidos que Nell me deu, e que ela deveria tomar um de cada. Ela abriu a porta para pegá-los enquanto eu descia. Acabamos não fazendo o jantar. O peru continua na bancada recheado pela metade. São oito e meia e papai não chegou. Onde é que ele está, droga? As pessoas no hospital têm outros médicos. É a nossa mãe. Ele deveria estar aqui. Feliz Dia de Ação de Graças.

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15 de outubro Leo, Às vezes tenho inveja de você por ter saído daqui antes de tudo isso começar. Mas deve ser quase tão ruim ficar aí, longe, sem saber o que está acontecendo com seus pais, sua namorada e todos os seus amigos. Fico imaginando se você se preocupa comigo... Espero que pelo menos você esteja bem em Nova York. Soube pela TV que houve algumas mortes fora da ilha, que os repórteres afirmam estar relacionadas ao vírus, e que agora transmitem medidas preventivas em todos os noticiários, mas que o governo não tentou colocar Halifax nem Ottawa em quarentena. Então não é possível que a situação esteja assim tão ruim — pelo menos não tão ruim quanto aqui. Algumas coisas boas aconteceram. Entregaram mais suprimentos por helicópteros hoje de manhã. E papai chegou tarde no Dia de Ação de Graças porque a equipe com a qual ele está trabalhando finalmente descobriu como fazer uma vacina potencialmente utilizável. Algumas pessoas da OMS levaram um pouco da substância para testar fora da ilha e, espero, para iniciar uma produção em grande escala, se funcionar. O que é ótimo, exceto pelo fato de que uma vacina não vai adiantar nada para quem já está doente. Como mamãe. Papai pegou uma amostra de sangue dela e levou ontem ao hospital, para confirmar se é o vírus. Mamãe ainda não saiu do quarto. Não a vejo desde quando estávamos preparando o jantar de Ação de Graças. Mas a ouço tossindo e espirrando, mesmo com a porta fechada. Papai deu a ela um pouco da emulsão que fizeram com as plantas da Tessa, e falou que os sintomas diminuíram um pouco. Tenho conversado com ela através da porta.

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“Cuide de você e da Meredith”, diz ela. “E eu vou fazer tudo que puder para melhorar. Vamos superar isso.” Mas se ela conversa comigo durante muito tempo, começa a tossir tão forte que não consegue mais falar, então não tenho tentado tanto quanto gostaria. Meu Deus, e se eu nunca mais abraçá-la? Não posso pensar assim. Só vai servir para me enlouquecer. Pelo menos fiz alguma coisa de útil hoje. Papai disse que já extraíram tudo que podiam das duas plantas que Tessa nos deu, então liguei para ela. Outras brotaram e parecem saudáveis, pelo que ela disse. Fui até lá hoje à tarde para buscá-las. Quando ela abriu a porta para mim, de repente me senti desconfortável, porque a última vez que eu a vira tinha sido no dia em que encontrei aquela mulher na casa de verão. Talvez ela tenha percebido, porque disse: “Pensei em ligar para você, mas aí pensei que, se fosse eu, provavelmente não iria querer que me lembrassem daquilo. Mas se quiser continuar o que estávamos fazendo...” A mera hipótese de entrar em uma daquelas casas fez meu estômago se retorcer. “Não”, respondi. “Acho que não quero mais.” Mas de certa forma foi bom saber que ela se dera ao trabalho de se preocupar comigo. E também fez com que eu me sentisse culpada por talvez não estar me preocupando o suficiente com ela. É que eu tenho a sensação de que ela não quer a ajuda de ninguém. Levamos uma dúzia de vasos para o carro, e um homem jovem, talvez de uns vinte e poucos anos, veio saltitando pela rua na nossa direção. “Meninas bonitas!”, exclamou ele. “Exatamente o que eu estava procurando.” Em seguida espirrou, mas teríamos entrado e fechado a porta mesmo que ele não estivesse doente. “E é por isso que eu passo quase todo o tempo em casa, ou no quintal”, disse Tessa.

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Ela preparou o almoço para nós duas. Protestei, até ela insistir que tinha mais comida do que poderia comer sozinha antes de estragar. “Normalmente eu daria o que sobra da estufa para os vizinhos”, disse Tessa. “Vou dar um pouco para você levar para casa. Tenho alfaces prestes a passar do ponto, tomates prontos para explodir, e acho que alguns feijões maduros também.” “Eu não sabia que você cultivava legumes e verduras”, falei. Não sei por que, mas quando estive lá das outras vezes só notei as grandes plantas exóticas. “Ah”, disse ela, “as flores interessantes e coisas do tipo são só para a minha mãe. Ela disse que se eu fosse ocupar o quintal inteiro, que era melhor deixar a estufa bonita. Mas meu foco são as culturas comuns. Sabia que as grandes empresas agrônomas têm diminuído a diversidade genética de quase todas? O que significa que se aparecer alguma peste agrícola que ataque algum tipo de milho ou brócolis, ou qualquer coisa, podemos perder todos.” Tessa tinha muitas outras opiniões para compartilhar a respeito de empresas de agronomia e genética vegetal enquanto íamos até a estufa para colher algumas das suas “culturas”. Foi estranho vê-la tão animada. Uma criança morta não a perturba, mas milho e brócolis a deixam completamente ligada. “Uau”, falei em determinado momento. “Você deve ter feito muita pesquisa.” Ela assentiu. “Quero ajudar a reverter o processo”, disse ela. “Tenho trabalhado em diferentes cepas de determinados vegetais. Um dia vou ter uma fazenda inteira, talvez aqui na ilha, e vou começar a fornecer sementes novas a outros fazendeiros.” Enquanto Tessa falava, entendi mais ou menos por que você gostou dela, Leo. A relação dela com a estufa é como a sua com a dança. Vocês dois têm, cada um, uma paixão que a maioria das pessoas não conseguiria entender.

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Meu maior objetivo sempre foi o de ir para um lugar selvagem estudar lobos do ártico e leões da montanha. Tessa planeja salvar o mundo todo. Acho que é assim que ela consegue se manter sã morando ali sozinha, sem saber quando vai voltar a ver os pais. Mas enquanto estávamos na entrada da casa dela, eu carregando um monte de legumes, ela me olhou com aqueles olhos azul-escuros, e por um segundo me pareceu perdida em pensamentos. Eu tinha que falar alguma coisa. “Sabe, tenho certeza de que os meus pais não se importariam que você ficasse conosco. Não tem muito espaço, mas pelo menos...” ...pelo menos você não ficaria sozinha o tempo todo, era o que eu queria dizer, mas achei que era ofensivo insinuar que ela não sabia cuidar de si mesma. E então me lembrei — tinha realmente conseguido me esquecer — de mamãe. “Ah”, continuei. “Só que minha mãe ficou doente, então talvez... ela está passando o tempo todo no quarto, não ficaria tossindo em você nem nada, mas se você não achasse seguro...” Fiquei surpresa por ela conseguir acompanhar o que eu estava dizendo. Eu mesma estava achando difícil. Ela esperou até eu terminar, e em seguida falou: “Obrigada, Kaelyn. De verdade. Mas prefiro ficar aqui. Não por causa da sua mãe nem nada. Preciso cuidar da estufa, e quero que meus pais possam entrar em contato comigo assim que os telefones voltarem a funcionar, ou se finalmente conseguirem permissão para voltar.” Ela fez uma pausa. “Sua mãe... ela vai ficar bem?” Essas palavras bastaram para meus olhos começarem a se encher de lágrimas. Fechei-os por um segundo e respirei fundo. “Não sei”, respondi. Ela olhou para o chão, depois para mim, e falou: “Bem, espero que as plantas ajudem. E ela tem mais chances do que todo mundo, não acha? Seu pai pode ser o médico particular dela, e você deve ter percebido cedo e

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começado logo a tratar dela, já que é tão cuidadosa. Se alguém pode superar essa doença, esse alguém é ela.” Não foi um abraço, nem uma efusão de solidariedade, mas esse não é o estilo da Tessa, não é verdade? Enquanto eu voltava para casa, com suas palavras passando pela minha mente, me senti um pouco mais calma do que vinha me sentindo desde que mamãe se trancou no quarto. Se Tessa, a Praticidade em Pessoa, consegue ter esperança, então eu também consigo.

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16 de outubro Parece que tem uma parede de fumaça engrossando cada vez mais entre nós e o continente. Não se pode confiar no que se vê na TV. Tem sempre uma distorção, como Drew gosta de dizer. Na internet poderíamos ver pessoas de verdade falando sobre o que realmente está se passando com elas. Eu estava torcendo para que quando o helicóptero do governo viesse outra vez, recebêssemos o equipamento necessário para consertar os cabos de internet e das linhas interurbanas, mas acho que tinha tanta coisa acontecendo que o recado se perdeu, e as peças não vieram junto com os outros suprimentos. Quando perguntei a papai, ele quase pareceu surpreso, como se tivesse esquecido que algum dia tivemos internet. Provavelmente porque o hospital tem uma antena parabólica e não ficou sem serviço em momento algum. “Tenho conseguido falar com os seus avós a cada três ou quatro dias, e eles estão bem”, disse papai. “Não posso ligar mais vezes porque o hospital precisa da linha desocupada para o caso de alguma coisa importante acontecer.” O que faz sentido. Por meio segundo me perguntei se o hospital teria as mesmas restrições em relação à internet, mas até parece que papai ia me deixar ir lá só para navegar pela web. Ele tem passado a maior parte do tempo no quarto com mamãe, usando uma daquelas roupas plásticas que todos os funcionários do hospital têm, para impedir que o vírus se espalhe quando ele sai do quarto. Então, mesmo quando está em casa, não tenho muitas chances de conversar com ele. Mamãe não piorou. Quando ele saiu hoje para passar rapidamente no hospital, fiquei sentada na porta do seu quarto contando para ela algumas das melhores histórias de

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famosos da Mackenzie, e achei que ela não estava tossindo tanto quanto antes. Até riu em alguns momentos, como se realmente estivesse se sentindo bem. Só pode ser um bom sinal, certo? Após um tempo, ela disse que estava se sentindo quente e que seria melhor se deitar. Antes que eu saísse, ela falou: “Eu amo você, Kaelyn. Nunca se esqueça disso, entendeu?” Ela já tinha dito isso muitas outras vezes, mas agora é diferente. Fiquei emocionada e depois disse que também a amava. Passei o resto do tempo em função de Meredith. Os furões estão exaustos de tanto brincar. Já vimos metade dos DVDs do Drew com episódios dos Simpsons. Comecei a mostrar para ela um dos meus, uma série sobre a natureza, já que ela havia ficado tão interessada nos coiotes, mas depois do primeiro episódio resolvi que não era uma boa ideia. Nunca tinha percebido como esses programas podem ser deprimentes. Tem sempre algum bicho sendo caçado, ou lutando contra a chuva e os ventos e afins. Lembrava demais o modo como estávamos vivendo agora. Hoje à noite estávamos nos preparando para irmos deitar quando ouvimos um horrível grito agudo lá fora. Felizmente, dessa vez eram realmente guaxinins. Dois deles, brigando perto da cerca viva do vizinho. “Por que eles estão tão irritados?”, perguntou Meredith. “Não sei”, respondi. “Provavelmente um deles está defendendo o que considera seu território. Às vezes eles fazem esses barulhos quando estão procurando... hã... uma nova namorada. Mas não é a época do ano certa para isso.” Continuamos observando-os até eles contornarem a cerca e desaparecerem. É estranho pensar que para os guaxinins o mundo continua o mesmo.

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17 de outubro Obviamente não vamos tentar executar o plano secreto do Drew para escapar da ilha, pois mamãe está doente. Nos últimos dias ele tem passado quase todo o tempo no quarto, ou vagando lá fora. Ele quase não precisa sair sorrateiramente agora — mamãe não está em condições de reparar nas pequenas fugas dele, e papai está com a atenção totalmente voltada para ela. Não sei o que Drew está tramando. Talvez esteja verificando se está tudo certo, caso ela melhore e a gente possa ir. Mas ele deve ter percebido que para mim tem sido difícil manter Meredith ocupada o dia todo, porque hoje de manhã se ofereceu para ensiná-la a jogar um jogo de computador sobre o qual ela já tinha perguntado antes, mas que ele sempre dizia que era complicado demais para ela. Tentei assistir a um dos meus filmes de Hitchcock, mas, assim que o primeiro cadáver apareceu, meu estômago embrulhou e tive que desligar. Peguei o livro de matemática, que me pareceu mais tranquilo, e fui para a sala de jantar encarar o próximo capítulo. Tenho evitado álgebra, mas sei que vou acabar esquecendo as fórmulas e tendo que aprender tudo de novo se não continuar a estudar. Mesmo que a vida nunca mais volte ao normal na ilha, tenho que presumir que em algum momento vou voltar a estudar em algum lugar. Acreditar em qualquer outra coisa me parece desistência. Depois que comecei, me senti reconfortada em ficar trabalhando com os números e encontrando respostas. Dava para ouvir a música clássica do rádio da mamãe vindo pelo teto, e tudo acabou formando um ritmo estranho. Já tinha feito algumas páginas quando a campainha tocou. Minha cabeça estava tão cheia de números que me levantei para atender automaticamente. Estava com a mão na

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maçaneta quando percebi que não deveria abrir a porta para qualquer pessoa. Como a porta da frente não tem olho mágico, inclineime para mais perto e perguntei: “Quem é?” Torci para que fosse Nell trazendo alguma coisa para papai, ou Tessa com mais plantas. Ou qualquer pessoa, na verdade, contanto que não fosse algum vizinho excessivamente simpático com um intenso desejo de conversar e espirrar em cima de mim. “Kaelyn?”, chamou a voz do outro lado. “É o Gav. A gente conversou no parque faz algumas semanas, sobre o seu pai...” A primeira coisa que me veio à mente foi o incidente na mercearia. Quentin destruindo aquela vitrine e ameaçando a mim e a Meredith. Senti uma onda de pânico antes que tivesse a chance de pensar. Então percebi que não faria sentido Gav vir saquear a nossa casa quando ele provavelmente dispunha das mercadorias de todas as lojas da cidade. E, se fosse essa sua intenção, ele não tocaria a campainha. “O que você quer?”, perguntei. “Preciso da sua ajuda em um assunto”, disse ele. “Não estou interessada”, falei. Até as palavras saírem da minha boca, eu não sabia como estava furiosa. Minhas mãos haviam se fechado com força. “O que você quer dizer?”, perguntou ele. “Quero dizer que sei o que você anda fazendo, e a última coisa que eu quero é ajudar. Só porque o governo atrasou uma entrega, isso não lhe dá o direito de começar a invadir lugares e pegar o que quiser.” Fez-se uma pausa, e em seguida ele falou: “Não é isso. Não sei com quem você falou...” “Não falei com ninguém”, respondi antes que ele pudesse continuar. “Eu vi. E depois um dos seus amigos

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ameaçou machucar a mim e a minha prima de sete anos porque ela teve a coragem de reclamar.” “O quê?”, exclamou ele, parecendo espantado. “Olhe, Kaelyn, isso não... Ninguém deveria ter feito isso. E eu posso explicar o resto. Posso entrar, ou você pode vir aqui fora?” Ele não estava na mercearia aquele dia. Eu podia acreditar que ele não sabia de tudo. E estava começando a me preocupar com a possibilidade de Drew ou Meredith me ouvirem gritando pela porta. Era muito difícil avaliar se Gav estava sendo sincero sem poder vê-lo. “Vá até a janela”, falei. Ele já estava lá quando entrei na sala. Com a luz do sol incidindo por trás do seu corpo, ele provavelmente não conseguia enxergar mais do que o próprio reflexo. Mas ele permaneceu ali na varanda, com uma expressão séria no rosto e as mãos nos bolsos do moletom de capuz. Não sei por que, eu me lembrava dele maior, mas ele é só alguns centímetros mais alto do que eu. E o mais importante, parecia perfeitamente saudável: nada de nariz vermelho, rubor febril nas faces nem pele em carne viva de tanto coçar. Além do mais, eu não tinha ouvido nenhum espirro ou tosse pela porta, então concluí que, pelo menos no tocante ao vírus, Gav era inofensivo. Ele tinha uma mancha na testa que parecia de óleo de motor, e alguns pontos no cabelo castanho-avermelhado, que aliás estava mais bagunçado do que na última vez que eu o vira. Após um instante ele virou os bolsos do avesso como se quisesse dizer: Veja, não estou escondendo nada. Voltei para a porta, abri a fechadura e me inclinei para fora. “Tudo bem”, falei. “Pode entrar. Por alguns minutos.” Ele foi muito educado, tirando os sapatos e deixandoos sobre o tapete, olhando em volta ao entrar para ver se tinha mais alguém que deveria cumprimentar. Agia com certa desconfiança, como um gato selvagem — calmo porém cauteloso ao mesmo tempo. Eu me senti melhor ao ver que

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ele julgava necessário ter cuidado comigo, tanto quanto eu com ele. Empurrei os livros de matemática para o lado e nos sentamos à mesa. “Tudo bem”, disse ele. “Quem ameaçou você?” Contei a ele que vi o pessoal com o caminhão, que Quentin tinha invadido a loja de eletrônicos, que Meredith o havia acusado de roubo. Gav escutou tudo em silêncio. A única hora em que reagiu foi quando repeti o que Quentin disse a nós duas. Ele tencionou o maxilar, e uma de suas mãos se fechou sobre a outra na mesa. “Vou falar com Quentin”, disse Gav quando terminei. “Ele vai devolver tudo que pegou. E talvez tenha que encontrar novos amigos.” Ele falava com segurança, como se fazer com que Quentin lhe obedecesse não fosse nada, como se o outro garoto não fosse bem mais forte e vários centímetros mais alto que ele. Fiquei imaginando o que exatamente Gav teria feito para se tornar o líder do grupo. “Ainda assim, não é correto saquear toda a comida”, falei. “O hospital já está com bastante dificuldade para manter as pessoas vivas; não é justo eles terem que se preocupar se os pacientes vão passar fome caso o próximo carregamento atrase. Por que você deve ter mais que os outros?” “Não é isso”, disse ele. “Estou tentando ajudar. Depois do que aconteceu no porto, achei que as pessoas estavam meio que enlouquecendo, e que não ia demorar para entrarem em pânico e começarem a invadir os lugares para saquear o que pudessem.” “Então você achou melhor saquear tudo antes.” “Bem, mais ou menos”, admitiu ele. “Mas a comida não é só para nós. Pelo que sabíamos, o governo não iria enviar mais nada. E pelo que sabemos agora, a remessa que acabou de chegar é a última. Além disso, o pessoal da prefeitura está entregando suprimentos para qualquer um que apareça; e quanto àquelas pessoas que estão assustadas demais para

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sair de casa? Temos um plano melhor. Levamos tudo que não era perecível para um dos armazéns perto do cais; o pai do Vince tem acesso. E desde então temos saído no caminhão dia sim, dia não, batendo em todas as casas para ver se as pessoas têm o bastante para comer, e dando mais se elas precisarem. Até estive aqui na semana passada, falei com a sua mãe. A ideia é garantir que todo mundo receba parte da comida.” A explicação dele foi tão diferente do que eu esperava que levei um tempinho para conseguir falar alguma coisa. “Sério? Você roubou toda a comida da mercearia só para poder distribuir para as pessoas?” Ele deu de ombros e acrescentou: “Toda vez que a gente lê sobre um desastre assim é a mesma coisa. As pessoas encarregadas cuidam primeiro de si próprias. O Exército se preocupa mais em fugir do perigo do que em garantir que a comida chegue a todo mundo. Ninguém na prefeitura dá a mínima. O resto de nós pode ou lutar entre si pelo que sobrou, ou tentar fazer alguma coisa útil. Acho que quanto mais as pessoas colaborarem, mais chances a gente tem de sair dessa.” Não sei se ele estava sendo completamente justo, considerando que o governo cumpriu com sua palavra quase que inteiramente, e imagino que qualquer autoridade da ilha esteja bem ocupada com a crise no hospital. Mas na verdade a proposta dele não era tão diferente daquilo que eu estava fazendo com Tessa. “E o que você acha que eu posso fazer?”, perguntei. Ele abriu um sorriso pequeno, que poderia ter sido interpretado como presunçoso, mas que na verdade mostrou que ele estava feliz por eu estar ao menos ouvindo. “Bem, no momento você é a melhor pessoa para conseguir saber em primeira mão o que está realmente acontecendo, por causa do seu pai”, disse ele. “Mas hoje especificamente, estou aqui porque a sua mãe comentou que trabalhava no posto quando passei aqui antes. Temos o caminhão e um carro, e estamos ficando sem gasolina. Eu

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tinha a esperança de que você pudesse pedir a ela que abrisse o posto por alguns minutos para podermos abastecer.” Abri e fechei a boca, engolindo em seco. Se eu contasse a ele por que minha mãe não poderia ir a lugar algum, ficaria um clima desconfortável, e meus olhos se encheriam d’água, e isso não ajudaria ninguém em nada. Ele não precisava propriamente dela — mamãe tinha deixado a chave da lanchonete perto da porta depois da última vez que fora trabalhar, caso algum de nós precisasse encher o tanque e ela não estivesse por perto. “Se quiser”, acrescentou ele quando não respondi de imediato, “posso lhe mostrar. Para você poder ver o que estamos fazendo. É só dez minutos a pé daqui.” Foi então que as escadas rangeram e Drew enfiou a cabeça pela porta da sala. “Com quem você está falando, Kae...?”, começou ele, e parou ao ver Gav. “Drew”, disse Gav, com um aceno de cabeça. “Gav”, respondeu Drew, com voz fria. “Não sabia que vocês dois eram amigos.” Eles não estavam a ponto de saltar no pescoço um do outro, mas também não pareciam se gostar muito. Eu me levantei. “Estávamos de saída”, falei. “Volto rapidinho.” Depois que saímos, lamentei não ter vestido algo mais pesado. O vento de outono havia se intensificado, e meu casaco só aliviava um pouco. Gav enfiou as mãos nos bolsos e não me pareceu muito incomodado. “Você tem problemas com Drew, ou ele com você?”, perguntei. “Não tem nada a ver com o seu irmão. Ele parece um cara legal. É só que eu não me dou tão bem com um dos amigos dele... aí já viu.” Não pude deixar de me perguntar se “não me dou tão bem com ele” seria um eufemismo para “batemos um no

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outro com regularidade”. As palavras escapuliram antes que eu conseguisse impedi-las: “Ouvi dizer que vocês têm uma espécie de clube da luta. Com Quentin e aqueles garotos.” “Bem”, disse ele, e passou a mão no cabelo, “isso meio que aconteceu. Um ou outro do nosso grupo costuma limpar piscinas, cortar a grama e outras coisas do tipo nas casas de veraneio. Tinha um garoto mais ou menos da nossa idade que vinha com a família todo verão e gostava de provocar a gente. Tentava irritar a gente, provar que era muito mais durão. Eu sempre o ignorei, mas no ano passado esse garoto irritou tanto Warren que ele acabou avançando no cara, e simplesmente levou uma surra. Quebrou o nariz, quebrou um dente... o garoto acabou com ele. E, para piorar, os pais do sujeito ainda deram uma bronca no Warren quando o encontraram, por não ter terminado o serviço aquele dia.” “Que horror”, falei, com um arrepio. “Pois é”, concordou Gav. “Então esse ano eu achei que algum de nós deveria enfrentar o cara, e como Warren não ficou muito animado depois da última vez, que fosse eu. Comecei a assistir a vídeos de técnicas de luta na internet. Você não imagina o que a gente encontra. Pedi para Warren me ajudar a treinar alguns dos movimentos, e aí ele contou para alguns dos nossos amigos, e aí começamos a treinar um com o outro. Deve ter rolado algum comentário por aí, porque começaram a aparecer uns caras que eu não conhecia direito, tipo Quentin, pedindo para participar. Depois de um tempo já éramos mais ou menos dez a cada encontro. Pode parecer bobagem, mas todo mundo precisa descarregar a pressão de alguma forma. E o que pode ter de errado em saber se defender, certo?” “Nada, eu acho”, admiti. “Eu não teria ideia do que fazer se alguém me atacasse.” Não tinha me ocorrido antes que poderia vir a ser necessário. Mas o que eu faria se estivesse fora de casa e alguém no meio de uma alucinação viesse para cima de mim? Ou se alguém como Quentin realmente tentasse bater com

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uma tábua na minha cabeça? Seria bom saber que eu posso me proteger, e a Meredith também, se for preciso. “Se quiser”, disse Gav, “qualquer hora dessas posso passar na sua casa para ensinar algumas coisas a você.” “Claro”, respondi. “Seria ótimo.” Então percebi que ele não tinha concluído a história. “Conseguiu enfrentar o cara das férias?”, perguntei. “Não deu... Ele não veio esse ano.” O vento aumentava à medida que nos aproximávamos do cais, mais frio e úmido, e com um leve sabor de peixe no ar. Gav apontou para uma fileira de armazéns mais à frente, daqueles utilizados para guardar materiais de pesca durante o inverno. Apesar de as construções parecerem já ter visto dias melhores, Gav provavelmente tinha razão ao dizer que os alimentos estavam mais seguros ali do que na mercearia. A tinta pode estar descascando e o tapume de tábuas, rachado, mas todos têm poucas e pequenas janelas e portas robustas. O caminhão que eu tinha visto em frente à mercearia estava estacionado nos fundos. Uma figura de cabelo escuro estava sentada ao volante, com a cabeça curvada sobre um bloco de papel. “Ei, Warren!”, chamou Gav, e apontou com o polegar para mim quando o garoto levantou o olhar. “Esta é Kaelyn.” Warren saltou da cabine, segurando o bloco embaixo do braço, e apertou minha mão como se estivéssemos em uma reunião de negócios. Era mais alto que Gav, e tinha ombros mais largos, mas ao mesmo tempo parecia mais suave, mais um panda do que um urso pardo. Sua voz também era suave. “Prazer em conhecê-la”, disse ele. “Está organizando as fichas?”, perguntou Gav, e em seguida virou-se para mim: “Vamos fazer mais uma ronda hoje à tarde.” Warren assentiu, seu cabelo caindo nos olhos enquanto ele nos mostrava o bloco no qual estava fazendo as listas. Era um papel quadriculado, dividido em uma grade de dias e endereços, com quadradinhos riscados ou assinalados

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ao lado de anotações como 4x sopa, 1 lata de ervilhas ou esperar 1 semana em uma letrinha pequena. “Risquei todos os locais que tentamos pelo menos três vezes e ninguém atendeu”, disse ele. “Assim diminui o tempo.” “Uau”, falei, olhando dele para Gav. “Vocês realmente se organizaram.” Parecia que eles estavam sendo mais eficientes em descobrir quem ainda está por aqui e quem precisa do quê do que eu fui com minha lista telefônica oficial. “Foi Warren quem planejou tudo”, disse Gav, com o mesmo sorrisinho de antes. “Eu sou o homem das ideias, mas o verdadeiro cérebro é ele.” “Ei, ideias também vêm de cérebros”, disse Warren, erguendo as sobrancelhas, mas suas bochechas ficaram vermelhas com o elogio. De pé ali, com o sol brilhando e os dois apoiados na lateral do caminhão, por um instante senti como se estivesse tudo bem. Não precisaríamos do governo se parassem de nos ajudar. Podíamos cuidar de nós mesmos e sobreviver à epidemia muito bem. Ainda que nossos heróis fossem adolescentes que passavam seu tempo livre bolando novas formas de nocautear um ao outro. “Tudo bem”, falei. “Vamos arrumar gasolina. Vocês podem levar o caminhão e os carros até o posto daqui a, digamos, uma hora?” As bombas funcionaram exatamente como mamãe havia ensinado. Warren levou o caminhão, Gav e alguns amigos apareceram com os carros, e observei-os através das janelas da lanchonete enquanto eles enchiam os tanques. Quando Gav se aproximou para me agradecer, fiz com que ele levasse algumas das máscaras que tinha sobrando aqui em casa. Então eles partiram em sua missão de levar comida aos desesperados, e eu voltei para casa. Quando cheguei, dobrei a caminha de Meredith, arrastei-a para o meu quarto e botei para tocar algumas

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antigas músicas dance que eu não ouvia fazia séculos. Porque se não comemorarmos o que está dando certo, de que adianta sobreviver?

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18 de outubro Nada de música hoje. Mamãe piorou. Papai já devia imaginar que isso ia acontecer. Disse que ia dar uma passada no hospital e que voltaria em poucas horas. Estava com o antigo pager que desenterrou semana passada, e me lembrou umas dez vezes que eu deveria mandar uma mensagem para o aparelhinho se precisássemos dele por qualquer motivo. Na hora achei que era só mais um dos seus momentos de paranoia. Mas a postura dele também me contaminou. Depois que ele saiu, eu estava lavando a louça do almoço e comecei a me perguntar até que ponto nossa cozinha estaria protegida do vírus. Afinal, era lá que mamãe estava quando percebeu que tinha sido contaminada. Mesmo que ainda não apresentasse nenhum sintoma, pelo menos não visivelmente, será que ela poderia ter deixado o vírus em algum lugar da casa? Por que não pensei em perguntar isso antes a papai? O vírus poderia estar em qualquer parte. Não sei por que, mas essa preocupação me lembrou urubus. Eles praticamente nunca ficam doentes, apesar de viverem pisando em animais mortos, porque têm uma urina tão ácida que mata qualquer bactéria que tente entrar nos seus pés. O que é nojento, mas ao mesmo tempo legal. Seria muito prático se tudo que precisássemos fazer fosse urinar em nós mesmos e, voilà, estamos protegidos! Comecei a rir um tanto histericamente, imaginando a cena, e deve ter sido por isso que não ouvi mamãe descendo as escadas. Ela entrou na cozinha, do nada, e me abraçou. Seu perfume preferido alcançou meu nariz, baunilha e frutas vermelhas, mas forte demais, como se ela o tivesse borrifado por todo o corpo. Retribuí o abraço com certa cautela. Fazia

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dias que meu único contato com ela eram nossas conversas através da porta. Como eu poderia afastá-la? Enquanto ela me apertava, o significado daquilo me tomou como uma onda gelada. Ela não teria descido se continuasse mentalmente sã. Ela estava pior. Nenhum dos tratamentos tinha contido a evolução da doença. O vírus estava penetrando seu cérebro cada vez mais, e não havia nada que eu pudesse fazer. “Kaelyn! Parece que faz uma eternidade que não vejo você, meu amor”, disse mamãe. Ela pressionou a bochecha na minha testa. Estava com a pele quente. Então se virou para o lado para espirrar, e tossiu algumas vezes no cotovelo, como papai sempre nos ensinou a fazer. Acho que alguns hábitos permanecem, mesmo com o vírus na sua cabeça. Eu queria chamar Drew, para me ajudar de algum jeito, mas ele estava na sala jogando video game com Meredith. O mais importante era mantê-la longe disso. Se ela soubesse que mamãe estava ali embaixo, ia querer vê-la. E se eu lembrasse mamãe de que Meredith estava aqui, ela poderia pensar em abraçar a sobrinha também. Fiquei apavorada. Por mamãe, por mim, por Meredith. Mas ao mesmo tempo me senti... aliviada; por vê-la. Como se parte de mim tivesse começado a acreditar que ela não existisse mais, exceto como uma voz através de uma porta, e naquele momento tive provas de que isso não era verdade. “Também fico feliz em ver você, mãe”, falei, torcendo para que se eu fingisse calma, talvez começasse a realmente me sentir mais calma. “Vamos conversar lá em cima.” Ela fechou a cara. “Estou cansada de ficar lá em cima”, disse ela. “Sabe quanto tempo eu passei lá? Essa casa inteira poderia queimar só para eu nunca mais precisar ver aquele quarto outra vez.” “Aí não teríamos onde morar”, falei. “Vamos, vamos preparar um banho de banheira para você. Com aquele óleo que você adora. Quando foi a última vez que usou?”

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Ela bufou, colocando as mãos na cintura. “Você é igualzinha ao seu pai”, disse mamãe. “Falando comigo como se eu fosse uma criança.” “Só estou tentando ajudar.” “Você nem deve ter se importado comigo, presa lá aquele tempo todo”, disse ela. “Não sei como a minha filha se transformou em alguém tão frio. Conversar com você nos últimos anos tem sido uma verdadeira dificuldade. Você acha que seria melhor se eu morresse e nunca mais a incomodasse, não acha?” Meus olhos se encheram de lágrimas, e meu plano de ficar calma foi por água abaixo. Não conseguia acreditar que ela pudesse me dizer uma coisa daquelas, mesmo naquele momento, mesmo estando doente. “Claro que não, mãe”, falei. “Quero que você melhore.” “Tentei ser paciente”, disse ela, balançando a cabeça. “Tentei dar espaço para você. E o agradecimento que recebo é: ‘Mãe, volte para o quarto e me deixe em paz’.” “Eu nunca disse isso”, comecei, mas então ela olhou para a sala e eu entrei em pânico. Fiquei na frente dela e tentei levá-la para o outro lado. “Então vamos para o quintal”, falei. “Você vai se sentir melhor com um pouco de ar fresco.” Ela teria passado direto por mim se um ataque de tosse não a tivesse impedido. Levei um segundo para limpar as lágrimas dos olhos, e em seguida a conduzi para o outro lado da casa, com a mão nas suas costas. “Vai ficar tudo bem”, falei. “Papai vai chegar logo, e ele vai trazer mais alguns remédios que vão ajudar você a se sentir melhor.” “Não quero mais nenhum remédio dele”, retrucou ela, com voz rouca. “Nunca adianta nada. Por que ele não está aqui? Quero falar com ele. Ele está no hospital? Vou até lá.” Ela passou por mim antes que eu pudesse impedi-la, mas assim que passou pela porta, comigo correndo atrás dela, papai surgiu. “Gordon!”, gritou mamãe, e se jogou sobre ele como tinha feito comigo alguns minutos antes.

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“Aqui, Grace, trouxe uma coisa para você”, disse ele suavemente, mas sua voz tremia um pouco. Enquanto ele a guiava para a escada, eu a ouvi sussurrar: “Estou com tanto medo...” Não sei o que mais ele disse para convencê-la a voltar para o quarto, mas assim que ouvi a porta se fechar, corri para o banheiro e entrei no banho de roupa e tudo. Quando a água estava fumegante de tão quente, passei sabão por todo o corpo, em seguida tirei as roupas molhadas e me ensaboei novamente. E então, quando já tinha limpado cada centímetro, exceto pelo interior da boca e das pálpebras, comecei a chorar de verdade. Toquei minha mãe pela primeira vez em uma semana e fiquei completamente petrificada. Para você ver como a minha vida está de pernas para o ar. Papai disse que o vírus ataca as inibições das pessoas. Ele não disse se as coisas que as pessoas falam sem essas inibições são necessariamente honestas. Quer dizer, mamãe não quer que a casa pegue fogo de verdade, certo? Então ela não pode estar tão irritada comigo, pode? Bem, eu não falei com ela nem sobre metade do que passei desde que nos mudamos para Toronto. Nunca deixei transparecer que me sentia sozinha, ou como era difícil me encaixar no novo ambiente, ou que tinha brigado com você, Leo. Mas qual adolescente não guarda segredos da mãe? Não é justo. Como ela podia esperar que eu lhe contasse tudo? Como poderia achar que eu queria que ela morresse?

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19 de outubro Papai trocou a fechadura do quarto. Deu alguma coisa a mamãe para ajudá-la a dormir ontem à noite, mas ela passou o dia mexendo na maçaneta e nos chamando, um por um, implorando para que alguém a deixasse sair, ou pelo menos que entrasse para conversar com ela. Meredith tentou abrir a porta uma vez. Por sorte, papai está com a chave, para garantir que ninguém consiga. “Mas ela parece tão triste, pelo jeito como fala”, Meredith me falou. “Eu sei”, respondi. “Mas ela está muito doente, e é mais seguro para todos nós se ela ficar em um lugar só, inclusive para ela. Não queremos que ela saia vagando por aí, não é mesmo?” Eu digo isso, mas também me sinto péssima. É como ouvir um gato ou um macaco arranhando as barras da jaula em uma daquelas propagandas contra testes em animais. Só que é um milhão de vezes pior, porque o animal em questão é a minha mãe, e há apenas poucos dias ela estava conversando com a gente como um ser humano racional. Não troquei uma palavra com ela desde ontem. Não consigo. Tenho tentado ao máximo fingir que nem a ouço. Sei que não é mais ela. Ela está lá, mas já se foi. E talvez eu esteja com um pouco de medo de descobrir o que mais ela pode dizer sobre mim. O que com certeza faz de mim uma péssima filha, não é mesmo? Drew se sentou perto da porta e conversou um pouco com ela hoje à tarde, e, quando passou pelo meu quarto depois, tinha as mãos cerradas e piscava com força. Ele saiu de casa meia hora depois, e ainda não voltou. Papai não tem ido ao hospital desde que ela ficou assim, mas ontem à noite dormiu no sofá, e só ficou pouco tempo com mamãe hoje de manhã. Ela estava gritando 139 | P á g i n a


quando ele saiu do quarto, então talvez tenha dito algumas palavras furiosas para ele também. Ele passou quase todo o dia sentado à mesa de jantar com o laptop aberto, lendo arquivos e esfregando o rosto. Seu cabelo está ficando desgrenhado, porque não é cortado desde o verão. Ele costumava parecer jovem para um pai, já que seu cabelo louro como areia esconde qualquer fio grisalho que ele possa ter, mas sua pele se tornou tão pálida e desgastada que é como se estivesse desbotando. Preparei alguns biscoitos cream cracks com atum para ele enquanto fazia uns para mim também, pois não sei se ele tem comido direito. E acabou o pão. Sentei-me em frente a ele, e nós dois comemos sem dizer uma palavra. Ele mal desgrudou os olhos do computador. Quando não aguentei mais o silêncio, empurrei o prato para o lado e me forcei a dizer as palavras: “Ela não vai melhorar, não é verdade? As plantas especiais, os remédios... Nada está adiantando.” Ele então olhou para mim, como se eu tivesse lhe dado um tapa, e eu desejei não ter dito nada. Mas o pensamento vinha me perseguindo desde ontem, cada vez mais insistente. Eu precisava saber. “Não temos como saber”, disse ele, baixinho. “Duas pessoas no hospital se recuperaram. E estamos fazendo todo o possível.” “Duas”, repeti, meu estômago dando um nó. “Todas aquelas pessoas que ficaram doentes... e só duas melhoraram? O que faz você pensar que a mamãe vai ter essa sorte?” “A alternativa é desistir”, disse ele. “E eu não vou fazer isso.” Não falei nada, mas fico imaginando se não seria mais fácil desistir. Mais fácil do que depositar todas as suas forças e energias em uma batalha impossível. Porque ele próprio já parecia semimorto. No entanto, há algumas horas Meredith se apoiou em mim no sofá e perguntou:

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“Tia Grace vai ficar bem?” E eu respondi: “Claro que vai. Nenhum vírus insignificante consegue derrubar a mamãe.” Então agora eu sou uma péssima filha e uma mentirosa.

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21 de outubro Hoje à tarde fez tanto sol que fomos todos para o quintal. Pelo menos foi o motivo que alegamos. Eu desconfio que tenhamos ido mais porque de lá não dá para ouvir mamãe gritando. Papai se sentou no banco de balanço com o laptop, enquanto eu, Drew e Meredith jogávamos frisbee, e então Drew, em uma rara demonstração de benevolência, disse a papai que ele ia acabar sofrendo morte cerebral se não desse um tempo do trabalho. Então sugeriu que se divertissem um pouco arremessando a bola de beisebol. Eles não faziam isso desde que fomos para Toronto, e acho que Drew não chamava papai para fazer nada desde a descoberta do seu namorado. Então papai se levantou e foi procurar as luvas. Mais ou menos nessa hora, um daqueles helicópteros de noticiários passou tão próximo que dava para enxergar a silhueta do cinegrafista observando as pessoas aqui embaixo. Meredith olhou para cima, franzindo a testa para o barulho. “O que eles estão fazendo?”, perguntou ela. “Tentando ver como estamos”, respondi. Contive o impulso de levantar a mão e deixar que filmassem meu dedo médio. Eles vêm, fazem suas filmagens e em seguida voltam para o continente, como se estivessem registrando um evento esportivo e não a vida real das pessoas. Tomara que na volta todas as câmeras caiam no estreito. Em uma tentativa de nos distrair, encontrei um saquinho de amendoins para jogar para alguns esquilos que tinham subido pela cerca. “Está vendo aquele ali falando?”, eu disse. “Ele está tentando mandar o outro sair de perto, dizendo que este jardim é dele. Mas o outro sabe que ele está blefando, então vai continuar descendo a cerca sempre que o primeiro estiver 142 | P á g i n a


de costas. Olhe, lá vem mais um que ficou sabendo que tem comida.” Continuei falando sobre esquilos até ficar cansada, relatando cada fato que já tinha aprendido ou concluído a partir de observação. Pelo menos Meredith pareceu se divertir um pouco. Papai e Drew estavam jogando a bola de um lado para o outro, e ouvíamos um satisfatório tum quando a bola batia na luva. E então a gritaria começou. No início pensei que fosse outro vizinho, alguém da rua. Minha voz falhou no meio de uma frase, mas continuei falando. Então os berros se tornaram um pouco mais altos, de modo que podíamos identificar uma palavra aqui, outra ali, e papai ficou imóvel. Em seguida ele largou a luva no chão e correu para dentro de casa. Minha garganta se fechou. Drew me olhou, desesperado, e Meredith respirou fundo. Acho que percebemos ao mesmo tempo que era mamãe. Por um momento sua voz atingiu um volume máximo: “Não, eu não vou, não vou, não vou”, gritava ela. E em seguida ficou quieta. Esperamos em silêncio, com os ouvidos atentos. Após um tempo — o suficiente para que papai descesse com ela depois de ter lhe dado qualquer que tenha sido o remédio que a acalmou —, ouvimos o motor do carro. “Para onde ele vai levar a tia Grace?”, sussurrou Meredith. “Para o hospital”, respondeu Drew. “Onde os médicos vão continuar sendo uns completos inúteis.” Ele jogou a luva na grade, e todos os esquilos fugiram. Meredith começou a chorar. Pus os braços em volta dela e a puxei mais para perto. “Não diga isso”, falei para Drew. “Por que não?”, perguntou ele. “Porque é verdade? Por que não deveríamos falar sobre o que realmente está acontecendo? A ilha inteira está morrendo há semanas e eles ainda não têm ideia do que fazer! Quem vai ser o próximo?”

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Ele entrou em casa furioso, e o choro de Meredith se transformou em pequenos engasgos. Eu a abracei o mais forte possível, e contive minhas próprias lágrimas. “Vai ficar tudo bem”, falei. “Vai ficar tudo bem.” Apesar de eu mesma não conseguir imaginar como alguma coisa poderia voltar a ficar bem algum dia.

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22 de outubro Sobrevivi à noite passada. Senti-me um pouco dura e fria, seguindo o roteiro, mas acalmei Meredith, preparei o jantar e a coloquei na cama, e mesmo com as luzes apagadas e ela respirando suavemente, não me permiti chorar. Meu medo era não conseguir parar se começasse, e acabaria acordando-a. De que adianta chorar, aliás? Eu sei que estou triste. Por que alguém mais precisa ver? Papai passou a noite fora. Durante o café da manhã, Drew disse que ia até o hospital. Eu teria ido junto com ele se pudesse, mas não queria deixar Meredith sozinha — e não suporto a ideia de levá-la lá, do jeito que o hospital está agora. Então, em vez disso coloquei A pequena sereia, o filme preferido dela, e já estávamos na metade quando a campainha tocou. Presumi que Drew ou papai tivessem esquecido de levar a chave. Nunca tivemos o hábito de trancar a porta. Eu estava tão certa de que era um deles e, acho, também um pouco entorpecida, que abri a porta sem nem ver quem era. Gav estava parado lá fora. Tinha os ombros encolhidos como se não soubesse se seria bem recebido. Eu o encarei, e ele me encarou, e em seguida ele se aprumou e deu aquele sorrisinho. “Nada de interrogatório dessa vez?” “Oi”, falei. “Eu...” E então parei, porque não tinha o que dizer. Era como se todos os muros que eu tivesse erguido para não me deixar destruir também estivessem atrapalhando meus pensamentos. Meu cérebro entrou em piloto automático. “Entre”, falei. Ele entrou, e eu fechei a porta.

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“Você está bem?”, perguntou ele. “Estou”, respondi. “O que foi?” “Eu prometi ensinar a você algumas técnicas de defesa pessoal”, disse ele. “Se for uma boa hora.” “Claro”, falei. Na verdade eu não via sentido em aprender autodefesa naquele momento. Mas então pensei, eu disse que estava interessada; então vamos lá, sem problema. Foi quando ele olhou em volta e falou: “Sua casa parece quieta hoje.” O que me lembrou como nos últimos dias eu queria que mamãe simplesmente ficasse quieta, e agora meu desejo havia se realizado porque ela não estava em casa e provavelmente nunca mais voltaria. Foi a primeira vez que me permiti chegar a pensar isso, e antes que pudesse me conter, um soluço explodiu da minha garganta. Desabei no chão e levei os braços à cabeça, escondendo o rosto atrás dos joelhos, como se fosse possível me controlar se apenas apertasse com bastante força. Mas já era. Botei tudo para fora. Lágrimas descendo, o nariz escorrendo, nem quero saber qual era a minha aparência naquela hora. Após um tempo senti uma pressão no meu braço, e então percebi que era a mão do Gav no meu ombro. Como uma âncora, me trazendo de volta para o lugar. Havia um chão sob os meus pés, e uma parede atrás de mim. Eu estava em casa. Não estava sozinha. A manga do meu casaco estava completamente ensopada. Limpei o rosto e a calça, que também estava bastante úmida. Gav tirou a mão, mas eu ainda podia sentilo agachado na minha frente. Não queria olhar para ele. “Desculpe”, falei por fim. “Meu pai teve que levar minha mãe para o hospital ontem.” Ele soltou uma espécie de risada abafada e disse: “Por que está pedindo desculpas? Eu é que tenho que me desculpar. Devia ter percebido que tinha alguma coisa errada. Por que você teria interesse em treinar uns golpes quando está enfrentando isso?”

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Mas ele não saiu dali, e não falou mais nada, então, após um momento, levantei a cabeça. Ele estava me observando, ao mesmo tempo preocupado e nervoso. Como se eu fosse uma raposa com a pata presa em uma armadilha e pudesse tentar mordê-lo se ele fosse me ajudar. Lembro-me de ter notado, futilmente, que os olhos dele eram meio verdes, apesar de antes eu achar que eram castanhos, mas talvez fosse porque ele estava com uma blusa verde. Então ele voltou a falar: “Minha mãe também está doente”, disse ele. “E meu pai daqui a pouco vai ficar, se é que já não está, porque eles continuam dormindo na mesma cama. Estou ficando na casa do Warren. Meu maior medo é que ele pegue. Ele vivia doente quando era pequeno.” “Ele tem que usar sempre uma daquelas máscaras que eu dei para você, quando forem fazer as rondas no caminhão”, falei. “E você também. Se quiser, tenho luvas também. Meu pai tem usado tudo isso no hospital, e quando estava cuidando da minha mãe, e ele continua bem.” “É”, disse Gav. “A gente tem usado as máscaras. E, claro, vou levar algumas luvas, se estiverem sobrando. Obrigado.” Ele olhou para o chão, e em seguida para mim outra vez. “Quer que eu vá embora?”, perguntou. “Ou... sabe, eu posso ficar, se você quiser.” Se ele fosse embora, eu teria que voltar para a sala e ficar com Meredith como se estivesse tudo bem. Eu não sabia se conseguiria fazer isso. “Na verdade, talvez lutar um pouco seja bom. Extravasar, não é mesmo?”, falei. E foi assim que acabamos tendo aula de artes marciais na sala da minha casa. Perguntei a Gav se ele poderia ensinar também Meredith, então pausamos o filme e empurramos o pufe para o lado. “Não é nenhuma técnica profissional nem nada do tipo”, disse ele, apesar de, aparentemente, saber muita coisa. Quando você pratica em outras pessoas, acho que aprende rápido o que funciona e o que não funciona.

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Ele me mostrou como se livrar de alguém que esteja agarrando o seu braço, e o que fazer se viessem por trás, e alguns movimentos rápidos que provocam dor o suficiente para se ganhar tempo e fugir. Até Meredith deu conta da maioria. Em determinado momento ela golpeou o olho dele com um pouco mais de força do que pretendia, e Gav acabou sentado no sofá, com a mão no olho, franzindo o rosto enquanto eu enrolava um cubo de gelo em um guardanapo para ele. “Acho que você já está dominando esse golpe”, disse ele a Meredith. “E viu, funciona!” Meredith ficou um pouco tímida no início, mas, depois de destruir o olho dele, acho que ela se sentiu na obrigação de ser simpática. Quando ele acabou de mostrar todos os truques úteis de que se lembrara, ela já estava conversando com ele como se fosse seu mais novo melhor amigo. Meredith não vê nenhum dos amigos desde que veio morar aqui em casa, talvez até desde que a escola foi fechada, dependendo de como estava o grau de paranoia do tio Emmett. Ela deve ficar entediada tendo só a mim — e às vezes Drew — como companhia. Depois fiquei imaginando se algum dos amigos dela ainda estaria vivo. Mais um pensamento terrível a acrescentar a uma lista já longa. No entanto, por mais que eu pareça deprimida agora, foi bom. Até cheguei a rir em determinado momento. Gav estava calçando o tênis quando Meredith perguntou, do nada: “Qual é o seu nome de verdade?” “O quê?” “Gav não é um nome de verdade”, explicou ela. “É um apelido, não é? Que nem a minha mãe me chamava de Mere, e às vezes eu chamo a Kaelyn de Kae. Então, qual é o seu nome de verdade?” “Ah”, disse ele, e respondeu baixinho enquanto amarrava os cadarços. “É Gavriel.” Foi então que comecei a rir. Ele me lançou um olhar furioso, mas sorrindo para demonstrar que não era sério.

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“Parece um nome de cavaleiro da Távola Redonda”, falei. “Não é à toa que você acha que tem que salvar todo mundo. Tentando fazer jus ao Gavriel.” “Deve ser”, disse ele. Gav perguntou como estávamos em termos de mantimentos, e eu respondi que estávamos bem, porque temos tudo que peguei da casa do tio Emmett também. Não parece que *** Meu Deus, Leo. Não sei o que fazer. Parei de escrever por um segundo, porque me deu uma coceira, mas quando cocei, não passou, e então senti outra no quadril, e agora foi para a barriga. Disse a mim mesma que só estava com a pele ressecada e coloquei um pouco daquela pomada cara que papai usa para eczema, mas não ajudou. E se *** Não, não vou pensar isso. Vou preparar o jantar, e isso vai me distrair, e a coceira vai passar. Só estou mais nervosa do que de costume por causa de tudo que anda acontecendo. Só isso.

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23 de outubro Agora eu sei como mamãe deve ter se sentido. Ela parecia bem, mas podia sentir, subindo sorrateiramente pela sua pele até ela não poder mais ignorar o fato de que alguma coisa estava errada. Então ela se afastou de nós antes que piorasse. Ontem eu desci para preparar o jantar, como pretendia, mas então vi Drew e Meredith jogando Lig4 na mesa e pensei: “E se eu estiver doente?” Sou a última pessoa que deveria encostar na comida de alguém. Minha barriga continuava coçando no mesmo lugar. Durante um ou dois minutos melhorava, e eu começava a ficar aliviada, mas então minha pele voltava a comichar, mais ainda do que antes. Esperei uma hora, porque, sei lá, me pareceu um intervalo de tempo bem científico, e em seguida coloquei minha máscara e peguei um par de luvas da caixa que papai deixou no hall. Mesmo de máscara, porém, tentei não respirar enquanto tirava as coisas da Meredith do meu quarto. Arrastei a caminha para fora, mas não sabia onde colocar. Talvez possam armá-la na sala, quem sabe? Deixei no alto da escada para que pudessem decidir. Em seguida peguei as malas que ela continua utilizando para guardar suas coisas, apesar de eu já ter lhe dito que tem espaço no meu armário, além de alguns livros e brinquedos que ela havia deixado espalhados, e empilhei tudo ao lado da sua caminha. A coceira estava me matando. Justo quando eu estava prestes a pegar a blusa que ela deixara na cadeira do meu computador, perdi o controle da minha mão e cocei. Tive que jogar a luva fora e pegar outra. Mas ainda assim era só uma coceira, e parte de mim acreditava que pudesse haver outra explicação, como, por 150 | P á g i n a


exemplo, eu ser a única pessoa na história do universo a pegar catapora duas vezes, ou talvez eu tivesse conseguido contrair alguma nova forma de sarampo. Qualquer uma das opções seria bem melhor, para ser sincera. Minha porta não tem tranca, então fiquei sentada na cama, atenta a qualquer rangido na escada, e, quando ouvi alguém vindo, fiquei encostada na porta, caso tentassem abri-la. Por sorte, quem subiu e notou a caminha do lado de fora foi Drew, e não Meredith. Tenho certeza de que ele soube imediatamente qual seria a explicação mais lógica. “Kaelyn?”, chamou ele, em frente à porta fechada. “Pois é”, respondi. “Acho que...” Eu não queria pronunciar aquilo em voz alta, então resolvi falar só: “Estou preocupada. Pode tomar conta da Meredith para ela não entrar? E, quando papai chegar, quero falar com ele.” Drew disse que alertaria Meredith, mas, só para garantir, empurrei a cama para impedir que a porta abra. Em seguida deitei e tentei dormir. Mas minha cabeça não parava, e a coceira subiu para a axila. Eu sentia calor quando me cobria, mas sentia frio sem o edredom. Devo ter cochilado em algum momento. Por volta de meia-noite, ouvi uma leve batida à porta e a voz de papai perguntando suavemente: “Kae? Está acordada?” Sentei na cama e respondi: “Estou! Só um segundo.” Tirei a cama do caminho. Ele entrou com a máscara na mão, e não no rosto, então coloquei a minha. Talvez papai tenha presumido que, se eu não estava tossindo nem espirrando, não era contagiosa, mas eu não ia permitir que ele corresse esse risco. Ele se sentou na cadeira do computador, com as mãos fechadas à sua frente, e falou: “Drew disse que você não está se sentindo bem.” Ele parecia exausto, mas era como se estivesse se esforçando imensamente para parecer calmo e otimista. Sei que papai realmente queria que eu dissesse que tinha me enganado, ou que demonstrasse que estava apenas sendo

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paranoica. E de repente me senti culpada por fazer isso com ele justo quando mamãe estava piorando. Como se eu tivesse escolha. Mas mentir não ajudaria em nada. Então contei a ele da coceira que não passava, e que eu não conseguia dormir, e ele balançou a cabeça e falou que era muito cedo para afirmar alguma coisa e que coletaria uma amostra de sangue meu pela manhã, para termos certeza. Ele saiu e voltou com um copo d’água e um remédio para me ajudar a dormir. Quando me levantei para pegar, ele os pousou sobre a mesa e me abraçou. Não era o mais seguro a se fazer, mas naquele momento eu não me importei. Retribuí o abraço até a coceira ficar tão forte que tive que me afastar para me coçar. O tempo todo me senti tão equilibrada, tão madura... Acho que, não sei por que, eu acreditava que se ficasse calma, tudo passaria. Mas, hoje de manhã, logo depois que papai saiu para o hospital, senti uma irritação na garganta. Tive que chamar Drew pela porta para pedir que ele me trouxesse outro copo d’água. Falei para que ele deixasse do lado de fora, e peguei depois que ele saiu. Já faz meia hora e continuo tossindo, com alguns intervalos de calmaria. O que mais pode ser? Peguei o vírus. Não posso mais ver Meredith, nem Drew, nem ninguém além de papai. Vou ficar presa neste quartinho até a doença chegar a um ponto em que papai terá que me arrastar daqui. O vírus vai devorar meu cérebro até que eu não consiga mais controlar o que digo ou penso, até eu começar a falar coisas terríveis, como fez o pai da Rachel, como mamãe, até eu começar a gritar com pessoas que nem estão por perto, e até eu perder a capacidade de discernir o quão louca estou. Meu Deus. Tenho que ***

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Leo, se você, não sei como, estiver lendo isto, se voltou e estava tentando descobrir o que aconteceu e achou este diário, queime-o. Queime-o agora. Acabei de tossir nele, e estou respirando em cima dele, e o vírus deve estar em todas as páginas. Afinal, não tenho mais muito tempo para escrever.

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24 de outubro Sabe aquelas confissões que as pessoas dos livros e dos filmes fazem no leito de morte? Elas percebem que estão prestes a partir e precisam revelar, enquanto ainda podem, aqueles segredos há muito guardados. Tenho pensado nisso, já que não tenho muito o que fazer além de pensar — e tossir, e espirrar, e tentar não coçar demais o mesmo lugar. Papai se ofereceu para me fazer companhia, como fez com mamãe, disse que podíamos jogar baralho ou coisa do tipo. Mas cada vez que olho nos olhos dele, vejo seu coração se despedaçando, independentemente da expressão de seu rosto, e isso me lembra o que vai acontecer comigo, e meu coração se despedaça também. Sei que ele quer ficar no hospital com mamãe, e fazendo mais pesquisas, e muitas outras coisas mais importantes do que jogar cartas. Então falei que prefiro ficar sozinha, e ele tem respeitado minha decisão a maior parte do tempo. Pelo menos os remédios estão ajudando a conter a febre. E ele deve ter me dado também alguma coisa para me ajudar a ficar calma. Estou me sentindo meio tonta, como se eu não estivesse totalmente aqui. Mas voltando: fiquei imaginando se haveria alguma coisa que eu devesse contar a papai, ou a Drew, ou a Meredith, antes que eu não consiga mais controlar o que digo. E não há. Não que eu tenha sido completamente honesta com eles durante toda a minha vida, mas nunca escondi nada importante. Meu único segredo de verdade tem a ver com você, Leo. E eu o guardo há tanto tempo que não queria nem escrevê-lo. Mas eu posso nunca mais ter outra chance. Foi no verão em que eu tinha catorze anos, antes de começar o ensino médio em Toronto, antes de brigarmos e pararmos de nos falar. Eu, meus pais e Drew estávamos 154 | P á g i n a


visitando a ilha; passaríamos uma semana aqui, como fazíamos todo mês de julho desde que fomos embora. No último dia da viagem você passou na nossa casa, e nós dois fomos até a West Beach, onde tomamos sorvete caseiro de mirtilo da loja dos Cameron e caminhamos lentamente pela areia. Um dia totalmente normal. Quase na hora do jantar, falei que precisava voltar para casa. Na rua, um garoto andava de bicicleta, indo e voltando várias vezes, as rodinhas de quem ainda não sabe pedalar direito fazendo barulho. Será que você se lembra disso? Ele passou por nós dois algumas vezes, e em seguida parou à nossa frente e semicerrou os olhos. “Eu já vi você por aqui antes”, disse ele, dirigindo-se a você. “Não acha que deveria morar na China?” Ele nem tinha olhado para mim, mas enrijeci na hora. Você só inclinou a cabeça para o lado e deu de ombros. “Não”, você respondeu, como se não fosse nada demais, e levantou um dedo. “Primeiro, eu nasci na Coréia, e não na China.” Outro dedo. “Segundo, meus pais me queriam tanto que foram até lá para me buscar, o que eu considero um bom motivo para ter vindo para cá com eles.” Mais um dedo. “Terceiro, quantos anos você tem?” “Seis”, respondeu o menino, com os olhos arregalados. “Então pronto”, você disse, sorrindo. “Eu sou da ilha há mais tempo que você. Mais que o dobro dos seus seis anos!” Muitas pessoas devem ter tratado você como se este não fosse o seu lugar, para você conseguir dar uma resposta tão boa que nem precisou parar para pensar. Tantas vezes você teve que fingir que não se importava. Mas, naquele momento, tudo que vi foi como você era calmo e confiante. Sempre foi. Coisa que eu nunca fui, por mais que quisesse. Eu já tinha visto isso milhares de vezes, é claro. Mas daquela vez, enquanto eu estava ali, olhando para você, tive vontade de beijá-lo. Talvez o momento tivesse passado, tornando-se apenas um breve impulso que pareceria ridículo um minuto depois. Só que então o menino olhou para mim e disse:

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“E você, de que país você é?” “Hmm. De nenhum. Quer dizer, eu nasci aqui.” “E, se dependesse de mim, você nunca mais iria embora”, você me disse, como se o menino nem estivesse lá, e pegou minha mão. Deixei que você me puxasse, me afastando dele, porque, no instante em que os seus dedos tocaram os meus, todos os outros pensamentos sumiram da minha mente. Meu rosto esquentou, e tive medo de olhar para você durante todo o caminho de volta até a casa do tio Emmett, pois não queria que você notasse. E acho que não notou. Você soltou minha mão quando chegamos lá, me deu um rápido abraço de despedida e me falou para escrever e ligar muito de Toronto, a mesma coisa de sempre. Mas tudo estava diferente para mim. Eu não queria que você fosse embora. Queria acreditar que o seu coração tivesse parado por um segundo quando, antes de dobrar a esquina, você olhou para trás uma última vez — foi o que aconteceu com o meu. Quando pisei na barca aquela noite, senti como se alguma coisa dentro de mim estivesse se rasgando, por saber que eu só voltaria a encontrá-lo dali a meses e meses. E essa sensação nunca passou, nem quando chegamos a Toronto, nem quando voltamos a morar aqui. Eu queria que você fosse mais do que o meu melhor amigo. Se não fosse por isso, talvez nem tivéssemos brigado. Mas, vivendo sempre meio que excluída naquele colégio enorme enquanto todas as outras garotas, nascidas e crescidas naquela cidade grande, fofocavam, riam e flertavam, comecei a me perguntar se algum dia você poderia se interessar por uma menina um tanto estranha e desajeitada como eu. Sempre que eu reclamava de todo mundo para você, eu queria que você me dissesse que eu era ótima do meu jeito, que eles só estavam sendo esnobes e chatos. E foi por isso que sofri tanto quando você disse que a culpa era minha por não me integrar.

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Se meus sentimentos estivessem menos confusos, talvez eu tivesse ligado para você quando viemos à ilha depois. Mas só de pensar em ouvir sua voz meu estômago dava piruetas, e eu me acovardei, dizendo a mim mesma que você é que deveria tomar a iniciativa de se desculpar. E então, se eu tivesse superado isso, talvez pudéssemos ter feito as pazes logo que voltei para cá. Eu sabia que precisávamos conversar, mas, no meu primeiro dia de volta à ilha, fui até a escola e lá estava você, nos degraus de entrada, com o braço nos ombros de Tessa, a cabeça inclinada tão perto da dela que seus rostos estavam praticamente se tocando. E a pontinha de esperança que eu ainda cultivava morreu. Nem consegui olhar para você. Sempre que você olhava para mim, eu fingia que não via. Em todas as aulas que fazíamos juntos, eu sentava do outro lado da sala. Como se aqueles nossos dez anos de amizade nunca tivessem acontecido. Sinto muito por ter feito você pensar que eu o odiava quando você não tinha feito nada de errado. Sinto muito por todos os pensamentos mesquinhos que tive em relação a Tessa. E sinto muito principalmente porque você nunca vai receber esse pedido de desculpas. Vai passar o resto da vida achando que nossa amizade não significou nada para mim, quando na verdade o problema é que significava demais.

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25 de outubro Drew me trouxe um pouco de canja de galinha para o almoço agora há pouco, mas, em vez de deixar o prato no chão e ir embora, ele hesitou do outro lado da porta. Esperei ouvir o rangido do chão, pois assim saberia que ele havia descido. Mas não escutei. “Não vou deixar você entrar”, falei. “Eu sei”, disse ele. “Eu só queria...” Ele não terminou a frase, constrangido, e por um minuto ficou em silêncio. Eu sentia sua presença através da porta. Ele devia estar com a cabeça inclinada para a frente e a mandíbula cerrada. “Eu agi como se fosse errado ter medo”, disse ele. “Encorajei você a se envolver, a sair.” Senti um aperto no peito. “Não, Drew.” “O quê?” “Não tente fazer com que isso seja culpa sua”, falei, “porque não é.” “Mas...” Não deixei que ele continuasse: “Sabe o que deve ter acontecido?”, perguntei. “Como eu peguei? Já sei como foi. Eu fui até o hospital, quando a mamãe ficou doente, para encontrar o papai, e fiquei lá sem máscara. E, quando a mamãe desceu outro dia, quando já não estava mais pensando com clareza, eu também não estava de máscara. Essas foram as únicas vezes que eu cheguei perto de alguém doente em semanas. E nenhuma delas foi por sua causa ou por alguma coisa que você tenha dito, Drew.” Ele ficou mais alguns segundos em silêncio, e então falou: “Eu estava tentando tirar a gente daqui. Era só o que eu queria.” 158 | P á g i n a


“Eu sei”, respondi. “Eu também.” Então ele saiu, e eu peguei a canja, mas não tenho mais vontade de comer. Deixei o prato em cima da mesa, esfriando. Talvez, se eu tivesse pegado a máscara antes de correr para o hospital aquele dia... Talvez, se papai tivesse pensado em trancar mamãe no quarto antes que ela saísse vagando pela casa... Eu poderia culpar qualquer um de nós. Mas de que adiantaria? Nada disso muda minha situação atual.

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26 de outubro Comecei a ler o terceiro ato de Hamlet, e avancei mais ou menos duas páginas quando percebi que não tinha razão para continuar. Nunca vou voltar para o colégio. Nunca vou para a faculdade. Nunca vou observar lobos nas florestas do norte, nem elefantes na savana. Nunca vou fazer sexo, nem me casar, nem ter uma família. Nunca vou ter meu primeiro apartamento, minha primeira casa, meu primeiro carro. Nunca vou

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27 de outubro Descobri o segredo para manter a sanidade. É só não pensar nisso. Jogar e ver filmes no computador, brincar com Mowat e Fossey, reler meus livros preferidos uma última vez e simplesmente não pensar. Os remédios que papai tem trazido estão ajudando. Às vezes sinto como se minha cabeça estivesse flutuando em algum lugar perto do teto. Não estou espirrando tanto quanto antes, o que é bom. Não tenho nada com que me preocupar além dos furões, então fiz Drew me prometer que vai cuidar deles. *** Tudo está encaminhado. *** Escrever me faz pensar demais. Vou voltar para o computador. Ninguém fala comigo. Por que ninguém fala comigo? É como se todo mundo tivesse saído e me deixado aqui. Isso seria horrível. Só pode ser abuso infantil, ou coisa do tipo, deixar uma adolescente sozinha sem ninguém para conversar, só com o diário, não é? *** Era de se esperar que pelo menos meus amigos viessem ver se estou bem. Espere aí. Rachel não pode vir, ela morreu. Que burrice a minha. Bem, talvez Mackenzie venha. Ela sabia ser uma boa amiga às vezes, quer dizer, isso

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quando não estava obcecada pensando em como é mais descolada do que todo mundo na ilha. Será que ela sabe que estou presa aqui? Não pude contar a ela por causa das porcarias dos telefones, que quebraram. Ela deveria vir me buscar e me levar para Los Angeles. Assim eu conheceria todas as estrelas de cinema. Aliás, de que servem meus pais e meu irmão? Drew é cheio de planos, e papai vive ocupado com os assuntos do hospital. Os dois se acham muito brilhantes, mas conseguiram se livrar do vírus? Não. Não preciso de nenhum deles. Eu devia ter saltado para a barca quando tive a chance e *** Papai trouxe almoço para mim. Ou talvez tenha sido jantar. Macarrão com queijo! Falei para ele ficar e almoçar comigo, ou jantar, ou seja lá o que fosse, aí ele sentou um pouco, mas ficou com aquela capa de plástico idiota que faz barulho toda vez que ele se mexe, e aquela porcaria branca no rosto, que não me deixa nem ver a boca dele se mexendo quando fala, o que é bem esquisito. Falei que queria que ele conversasse comigo sem aquilo, e ele falou que se fosse assim teria que sair do quarto, e eu falei que isso era muito idiota, e ele ficou meio chateado e saiu. Como assim, pai? Eu queria sair e ver como está Meredith, mas ele foi embora e me trancou aqui dentro. Meu próprio pai! Eu me exauri de tanto gritar para alguém me ajudar a abrir a porta, mas ninguém me ouve, ninguém se importa, e tem uma janela aqui, mas é alta demais para pular lá para fora. Será que *** Ei! Eu vi alguém no quintal do vizinho! Abri a janela e tentei falar com a mulher, mas ela fez uma cara esquisita e entrou em casa, que coisa mais grosseira, não acha? Poxa, eu só queria conversar. É horrível ficar aqui sozinha. Por que

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todo mundo está sendo tão mau comigo? O que eu fiz de errado? *** Engraçado quando vi aquela mulher pensei que fosse Tessa só que era velha demais e o cabelo nem era da mesma cor era castanho e não ruivo. Só consegui ver direito quando abri a janela. Não que Tessa fosse aparecer por aqui. Ela nunca gostou de mim de verdade eu sei que ela não gosta de ninguém. Ela só queria alguém para encontrar os cadáveres nas casas para ela não é mesmo a gente bem viu aquela coisa horrível vimos sim. Você ia querer continuar como namorado dela se soubesse disso Leo? Ela mentiu para você sobre o que estava acontecendo na ilha e eu jamais mentiria para você. Não consigo entender *** Por que você foi embora, aliás? A única coisa nessa ilha horrorosa de que sentia falta de verdade era você e você tinha que ir e me deixar aqui sozinha. Sinto saudade. Se você voltar eu prometo que vou perdoá-lo por todos os

*** Esta aqui eu preciso sair de perto preciso

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MORTALIDADE

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Estou viva, Leo. Não entendo muito bem. Eu acordei, e queria voltar a dormir na mesma hora, porque estava muuuuito cansada. Mas tinha algo errado com o espaço em volta, amplo demais para ser o meu quarto, e havia algo estranho no meu braço. Abri os olhos e vi que estava com uma agulha de soro presa à minha veia. Papai estava sentado ao lado da cama. Assim que o vi, ele avançou para pegar minha mão e disse: “Kaelyn?” Eu queria perguntar a ele quem mais poderia ser. Então me lembrei de ter ficado doente. De ter ido para o meu quarto, de não deixar ninguém entrar. O resto é meio nebuloso. Isso é o fim, pensei. Devem ter me dado alguma coisa para conter as alucinações por um tempo, para que eu possa me despedir. Eu me sentia pronta para morrer. Tinha a sensação de que um tubarão havia me atacado, de dentro para fora. O que, suponho, é quase verdade. Foi um enorme cardume de tubarõezinhos minúsculos. “Quanto tempo?”, perguntei a papai. Aquela outra médica, a amiga dele, Nell, entrou no quarto e sorriu, e papai me respondeu: “Mais de uma semana.” O que me pareceu muito tempo. “Eu ainda tenho uma semana inteira de vida?”, perguntei. Nell me pareceu que ia começar a chorar de repente, apesar de não ter parado de sorrir, e disse, suavemente: “Ela acha que ainda está doente.” Isso fez meu pai apertar minha mão tão forte que doeu. “Você está no hospital há pouco mais de uma semana”, disse ele. “Mas agora já está bem. Está se recuperando.” Ainda não acredito muito nisso. Talvez eles estejam dizendo que eu estou bem para que eu me sinta feliz durante

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o pouco tempo que me resta. Mas eles também pareciam felizes. E mesmo que eu me sinta completamente podre e esgotada, não estou mais tossindo, nem espirrando. Minha garganta está um pouco doída. Será que eu gritei muito? E ainda sinto algumas coceiras. Papai começou a falar sobre danos residuais às células nervosas, e que era preciso mais tempo para isso se corrigir, mas eu estava zonza demais para acompanhar tudo que ele dizia. Eu percebo que há mais gente no quarto, porque ouço ruídos de movimento e de respiração, mas estou em um canto com a cortina fechada. Acho que ganhei esse espaço extra porque estou melhorando e eles querem garantir que o quadro se mantenha, será? Ou será que é por causa do meu pai? Enquanto eu dava uma olhada no quarto, meu pai me entregou este diário. “Achei que você fosse querer isto assim que acordasse”, disse ele. “Você não quis soltar de jeito nenhum enquanto eu a trazia para cá.” E então recomendou que eu descansasse mais. O que eu acho que é uma boa ideia, porque, apesar de eu ter dormido até meia hora atrás, meus olhos estão tão pesados que tenho a sensação de que passei a noite em claro. Mas achei importante escrever alguma coisa antes. Tinha uma caneta presa a uma prancheta ao pé da cama. Por causa do soro, tive que pegá-la com os dedos do pé. Foi engraçado. Então já faz um tempo desde a última vez que escrevi. Nem sei que dia é hoje. Mais ninguém veio. O que isso significa? Queria conseguir me lembrar de mais coisas. Meus últimos registros no diário estão muito confusos. Não faço ideia do que eu disse quando fiquei muito doente. Será que irritei tanto o Drew que ele decidiu não falar comigo? Meu Deus. E se mais ninguém veio porque todo mundo, exceto papai, está doente? Até onde sei, Drew pode estar do outro lado da cortina, ou Meredith, ou eu

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10 de novembro Parece que forcei um pouco a barra ontem. Desmaiei no meio de uma frase. Papai disse que o vírus realmente esgotou minhas forças. Tiraram o soro hoje de manhã. É muito mais fácil escrever sem um tubo enfiado no braço. Papai me fez tomar mais alguns remédios. Não sei para que servem, mas fiquei meio zonza outra vez. Porém, não a ponto de esquecer as perguntas que precisava fazer, o que talvez ele tivesse preferido. “Conversamos mais tarde, quando você estiver se sentindo melhor”, disse ele, e começou uma lenga-lenga sobre equilíbrios delicados e níveis de estresse, até eu agarrar seu pulso. “Pai, já estou no meu nível máximo de estresse, imaginando as piores coisas. Falar comigo vai ajudar. Tudo bem? Vamos acabar com isso.” Mas aí tive que parar e engolir em seco antes de conseguir perguntar: “A mamãe?” Ele desviou o olhar, e eu só precisava disso para saber o que tinha acontecido. “Ela não resistiu”, disse ele, e segurou minha mão quando soltei seu braço. Então acariciou-a com o polegar, enquanto eu olhava para o teto. Eu sabia. Afinal, se mamãe tivesse melhorado, ela estaria aqui comigo. Eu sabia disso. Mas, ao ouvir as palavras, senti como se alguém tivesse enfiado a mão em meu peito e rasgado meu coração. Forcei-me a respirar uma, duas vezes, mas ainda assim meus pulmões pareciam prestes a explodir. Eu nem pude vê-la. Nem pude vê-la uma última vez. Eu devia ter estado ao seu lado.

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Por um tempo, não consegui falar. Finalmente, sequei minhas lágrimas, peguei o lenço que papai me ofereceu e perguntei, já me preparando: “Meredith?” “Ela está bem”, disse papai. “Está na casa da sua amiga Tessa. Eu estava tentando resolver o que fazer com ela sozinho em casa quando Tessa apareceu para saber de você e se ofereceu para tomar conta da Meredith. Foi o que me pareceu a melhor solução.” Meu estômago embrulhou. “Não tem ninguém em casa?”, perguntei. “Cadê o Drew?” Papai olhou para as próprias mãos outra vez. “Não sei exatamente”, admitiu ele. “Quando voltei para casa depois que você já estava... instalada aqui, ele tinha ido embora. Deixou um bilhete dizendo que estava indo para o continente, que alguém lá tinha que ter alguma coisa capaz de ajudar, e que ele ia trazer isso para nós. Alguns dos meus antigos equipamentos de mergulho sumiram. Ele deve ter pegado para despistar os barcos que fazem a patrulha.” Absurdamente, a primeira coisa que saiu da minha boca foi: “Ele tinha que cuidar dos furões.” “Acho que ele considerou mais importante fazer o que fosse possível para salvar você e sua mãe, Kae. Os últimos dias que você passou com a gente... ele não conseguia ficar parado. Não conversava comigo, mas dava para perceber que ele estava ficando cada vez mais frustrado por não poder ajudar. Se não precisassem de mim aqui, talvez eu tivesse feito a mesma coisa.” Eu achei que papai ficaria furioso, mas em vez disso ele parecia apenas preocupado. E talvez um pouco pesaroso, como se achasse que, se tivesse conseguido mais progressos, Drew jamais teria que se arriscar assim. Mas mesmo que papai pudesse ter escapado para o continente para procurar ajuda, duvido que Drew se contentasse em sentar e esperar. Espero que ele esteja bem. Por favor, que ele esteja bem. Que ele volte para casa são e salvo.

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“É verdade que no continente eles encontraram uma cura?”, perguntei. “Por que não mandam logo a vacina, ou a nova medicação, se já descobriram o que é?” “Não sabemos ao certo o que está acontecendo fora da ilha. Um dia depois de trazer você para o hospital, bateu um vento vindo do nordeste, e você sabe como é. A rede a cabo caiu e as antenas foram danificadas. Não conseguimos entrar em contato com ninguém que saiba consertar isso. Só o serviço local de telefonia está funcionando.” “Resumindo, estamos totalmente incomunicáveis”, constatei. Sem termos como ligar para o continente e sem internet. E agora até mesmo sem TV. Papai assentiu. “Tentamos estabelecer contato por intermédio dos militares”, disse ele. “Um dos voluntários se ofereceu para conversar com eles. Mas alguns soldados que estavam baseados no cais ficaram doentes, e o resto deve ter entrado em pânico.” Ele hesitou e em seguida prosseguiu: “Atiraram nesse homem antes que ele chegasse a seis metros de distância.” “Como o tio Emmett”, falei. O peso de todas essas informações me fez afundar de volta na cama. “Ainda temos alguns médicos da Agência de Saúde Pública e da OMS trabalhando conosco”, ressaltou papai. “A maioria foi embora antes do tempo piorar; acho que concluíram que a ilha já está contida, então é mais importante concentrar os esforços no continente. Pode ser que eles tenham feito mais progressos por lá. Talvez haja uma vacina ou um novo tratamento em vias de ser produzido. Só não temos como saber quando. Um dos voluntários está monitorando o melhor rádio que encontramos, mas até agora não conseguimos fazer contato.” “E quanto aos suprimentos?”, perguntei. “Os helicópteros ainda têm vindo?”

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“Houve algumas dificuldades. Estamos tentando resolver. Temos comida suficiente, mas vários remédios estão acabando. Sinceramente, a maioria não estava fazendo efeito nenhum mesmo, então não sei se faz alguma diferença. E o mesmo vale para as plantas experimentais que Tessa estava cultivando para nós, infelizmente. Mas precisamos dos sedativos para ajudar os doentes a se manter calmos nos estágios mais avançados.” “Até morrerem”, concluí. Pensei em mamãe outra vez, e meus olhos se encheram d’água. Cruzei os braços sobre o peito, abraçando a mim mesma. “Nem sempre”, disse ele, tentando parecer otimista, mas só conseguindo transmitir dor. “Você é a nossa quinta paciente a se recuperar totalmente. A mulher que está dividindo o quarto com você parece que vai ser a sexta.” E quantos outros não se recuperaram? Lembrei-me da multidão na recepção do hospital no dia em que vim procurar papai, dos pacientes fazendo fila nos corredores. Mas achei que papai não me contaria se eu perguntasse. Eu não queria ver a expressão que seu rosto assumiria. Então, apenas disse: “Por quê? O que tínhamos de diferente?” “Só podemos dizer que foi sorte”, respondeu ele. Estou deitada aqui há um tempo desde que papai saiu, assimilando tudo que descobri. Este é o momento em que eu deveria estar comemorando por ter sobrevivido. Mas minha única vontade é desaparecer no colchão até a devastação finalmente acabar. Que diferença faz eu continuar viva? Isso não impediu que todo o resto piorasse. Por que eu e não mamãe, ou Rachel, ou a Sra. Campbell? O que eu fiz para merecer viver quando todos eles morreram, e se foram e *** Eu não fiz absolutamente nada.

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10 de novembro (mais tarde) Gav veio me visitar hoje à tarde. Por algum motivo, isso mudou tudo. “Oi”, disse ele ao abrir a cortina. Ele parecia mais cansado do que antes, e seu cabelo estava bagunçado pelo vento, mas havia a mesma intensidade em seus olhos, e, ao baixar a máscara, ele tinha aquele mesmo sorriso quase convencido no rosto. Eu ainda estava me sentindo fraca e inútil, mas forcei um sorriso. “Oi”, respondi, e endireitei um pouco o corpo, apoiando-me no travesseiro. “O que está fazendo aqui?” “Soube que você melhorou”, disse ele. “Levei um tempo para achar seu quarto, mas todo mundo está ocupado demais para reparar em um sujeito qualquer vagando pelo hospital.” “Bem, você me encontrou”, falei. “Entre.” Ele se sentou no banco que papai vinha ocupando ao lado da cama, mas não falou mais nada. Olhou o quarto, dando uma espiada em mim de tempos em tempos, como se temesse que eu pudesse desaparecer se ele não prestasse atenção. Então me ocorreu que eu devia estar com uma aparência péssima — eu havia tomado banho de manhã, mas me deitara com o cabelo molhado, e ele agora devia estar todo esquisito. Além disso, as lágrimas e as fungadas que me

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acompanharam durante toda a manhã certamente não estavam ajudando. Então pensei que era muito ridículo me preocupar com a minha aparência quando a alternativa era a morte, e deixei isso de lado. “Como está indo a distribuição de comida?”, perguntei. Ele franziu o cenho. “Bem, a coisa desandou um pouco”, disse ele. “Você nem vai querer saber.” “Quero sim”, retruquei, embora, na verdade, quisesse ouvir que estava tudo ótimo. “O que aconteceu?” “Não sei”, respondeu ele, olhando para baixo. “Parecia estar tudo funcionando. Mas aí... um dos caras ficou doente. Kurt. E depois Vince. E aí os outros já não tinham mais tanta certeza de que queriam continuar fazendo aquilo. Então Quentin e mais alguns começaram a falar, e acho que eu não estava prestando tanta atenção quanto deveria. Um grupo de caras mais velhos começou a pilhar a cidade nas últimas semanas, invadindo casas e lojas, levando coisas, e Quentin e os amigos dele resolveram comprar uma vaga nesse grupo. E fizeram isso entregando a eles a chave do armazém.” Por um segundo fiquei sem voz. “Levaram tudo?”, consegui perguntar. “Não”, respondeu ele. “Foi sorte. Warren descobriu o que estava acontecendo, fomos até lá e flagramos os caras no ato. Foi uma grande loucura, porque eles arrumaram algumas armas e não têm medo de utilizá-las. Mas devem ter achado que já tinham o bastante, então por que desperdiçar balas? Eles fizeram uma ligação direta no caminhão, por isso perdemos isso também, mas ainda sobrou mais ou menos metade da comida. Tivemos que levar tudo para outro lugar, é claro. E agora só eu, Warren e Patrick estamos fazendo as distribuições, de carro. Acho que deveríamos fazer mais vezes, porque temos visto pessoas doentes nas casas, e acho que em algumas só têm crianças, sem ninguém para tomar conta delas, mas somos só três.” A voz dele se esgotou.

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“Você deveria falar com alguém daqui”, sugeri. “Se pedisse...” “Não, eu sei como a conversa iria terminar”, respondeu ele. “Eu levaria uma bronca por pegar os alimentos e tentar conduzir uma operação por conta própria, e eles colocariam outra pessoa para cuidar do estoque que ignoraria tudo que já fizemos. Não adianta.” Ele suspirou e esfregou o rosto. “Desculpe”, disse Gav. “Eu não deveria estar pondo mais esse peso nas suas costas. Só queria mesmo dizer que estou feliz por você estar bem.” Ao mesmo tempo, um pouquinho de esperança começou a florescer dentro de mim. Talvez Gav ache que não daria certo, mas sei que ele está enganado. Hoje mais cedo vi a Sra. Hansen, que trabalhava na administração da escola, trazendo comida para a mulher que está dividindo o quarto comigo, e o Sr. Green, o carteiro, passando pelo corredor, e outros voluntários que nunca trabalharam em um hospital antes. Mas que agora estão aqui, porque querem ajudar tanto quanto Gav. Ninguém está preocupado com quem está liderando o grupo de ajuda, contanto que seja alguém com boas intenções, que faça a coisa certa. Gav precisa de apoio, e as pessoas estão aqui. Só precisamos uni-las. Então, quando ele estava saindo, eu disse: “Você volta amanhã de manhã? Foi bom ver você.” E ele sorriu e disse que voltaria. Posso fazer isso. Eu venci o vírus — é o que eu sou agora, uma sobrevivente. Tenho que provar que mereci isso. Tenho que fazer valer a pena.

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11 de novembro Minha esperança era de que seria mais fácil suportar a dor se eu tivesse um plano de ação. Mas acordei no meio da noite querendo minha mãe, sua mão no meu rosto, sua voz segura. Por um segundo eu esqueci. E então lembrei, e lembrei também que Drew tinha ido embora, e talvez também estivesse morto, e que eu não tivera a chance de me despedir de nenhum dos dois. Comecei a soluçar tão alto que devo ter acordado minha colega de quarto, mas não conseguia parar. As lágrimas não paravam de vir, até que meu peito começou a doer. Eu ainda estava embargada quando papai entrou hoje de manhã. Mas fiz o que havia planejado. Contei a ele o que Gav anda fazendo — deu para perceber, pelos comentários, que ele já sabia de algumas coisas — e disse que ele precisava de mais pessoas ajudando: com a comida, com os doentes e com as crianças. Quando terminei, ele olhou para mim por um prolongado instante e então observou: “Estamos falando de muito trabalho, Kae.” “Claro. Mas Gav dá conta, e o amigo dele, Warren, é muito bom em planejamento. E eu também vou ajudar.” Ele deu uma espécie de sorriso, e eu comecei a achar que daria certo. Gav apareceu meia hora depois. E percebi que aquilo pode ser mais difícil do que eu esperava. Ele entrou, viu papai mexendo no laptop e enrijeceu.

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“Acho que é melhor eu voltar mais tarde”, disse ele, já recuando. “Espere!”, exclamei. “Gav, este é o meu pai. Queria que você conversasse com ele.” Ele parou, olhando com cautela para papai, e então me ocorreu que ele devia incluir papai no bolo de pessoas do governo e da prefeitura e de todos os encarregados que nos decepcionaram. Papai é um cientista, um especialista, e ele não isolou o vírus a tempo. Mas Gav confia em mim. Ele veio até mim quando queria saber o que estava acontecendo, quando precisou de ajuda antes. Papai se levantou devagar e assentiu em saudação. “Gav”, disse ele, “ouvi muito sobre o que você tem feito pela cidade. É impressionante.” “Estou fazendo o melhor que posso”, respondeu Gav. Seus ombros continuavam tensos, ele permaneceu onde estava, na entrada. “Já temos muitos voluntários ajudando no hospital”, falei, presumindo que, quanto mais rápido ele entendesse a minha ideia, melhor. “Pelo menos alguns deles ficariam felizes em doar seu tempo, a cada dois ou três dias, para ajudar a distribuir a comida pela cidade.” “Podemos providenciar mais veículos também”, disse papai. “Quantos forem necessários.” “Simples assim?”, perguntou Gav, parecendo cético. “Sem nada em troca?” “Todo mundo no hospital está tão preocupado com o restante da ilha quanto você”, respondeu papai. “Só não fizemos mais porque estamos muito ocupados aqui. Ficaremos felizes em oferecer qualquer coisa que pudermos lhe dar para facilitar o seu trabalho.” “Você e Warren continuariam à frente de tudo”, ressaltei. “Só precisariam informar às pessoas como elas podem ajudar.” Gav entrou no quarto, menos tenso. Seus olhos foram depressa de mim para papai e repousaram nele.

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“Isso é verdade?”, perguntou Gav. “Ninguém aqui vai decidir de repente que pode começar a mandar em tudo só porque vocês nos deram alguns carros, né? Estamos fazendo isso há semanas, temos um sistema que funciona.” “Talvez deem um conselho a vocês de vez em quando”, respondeu papai. “Se a equipe do hospital perceber alguma coisa que possa ser feita de forma mais eficiente. Mas, falando francamente, não temos tempo de assumir uma tarefa assim tão grande, mesmo se quiséssemos.” Eles se encararam por um instante, Gav com uma expressão dura no rosto, papai o observando calmamente, e então a expressão de Gav se abriu em uma versão meio inibida do seu sorriso habitual. “Tudo bem”, disse ele. “Parece bom.” E eu comecei a sorrir. Conversamos por mais um tempo sobre o que poderia ser feito pelas pessoas infectadas que ainda estavam em casa e pelas crianças que haviam perdido os pais. Apesar de o hospital estar superlotado, continua sendo o melhor lugar para qualquer doente se quisermos impedir que o vírus se espalhe. “Com os carros extras, será mais fácil trazer para cá as pessoas contaminadas que encontrarmos”, disse Gav. “Não seria bom as crianças saudáveis ficarem aqui”, observei. “Mas, se estivessem todas juntas em algum lugar, precisaríamos de menos gente para tomar conta delas.” “Pensei em uma pessoa que talvez esteja disposta a abrigar as crianças órfãs”, disse papai. Ao fim da conversa, Gav já estava sentado tranquilamente conosco, como se nunca houvesse tido receio. Ele se levantou, cumprimentou papai com um aceno de cabeça e falou: “Vamos ver se conseguimos começar isso logo.” Ele fez uma pausa, e em seguida apertou meu ombro, com um olhar de quem queria agradecer mas não sabia como. “Até mais, Kaelyn”, foi o que acabou falando.

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Papai esperou que ele saísse, em seguida se virou para pegar novamente o laptop. “Pai”, falei, “ainda vou ter que ficar muito tempo aqui? Não quero ficar deitada enquanto todo mundo trabalha.” “Vamos ver como você vai estar nos próximos dias. Não quero que você se desgaste muito.” “Mas a minha recuperação é definitiva, não é?”, perguntei, e uma ideia aterrorizante me ocorreu. “Eu não posso ficar doente de novo, posso?” Papai se sentou ao meu lado. “Bem”, disse ele, “o seu sistema imunológico deve conseguir combater o vírus se voltar a encontrá-lo. Mas não sabemos o que vai acontecer no futuro. O vírus pode sofrer mutação, e nesse caso suas defesas não bastariam, não necessariamente. Vamos continuar tomando cuidado, tudo bem? As mesmas precauções de antes.” Então por enquanto estou protegida — o mais protegida possível. Posso não ser invencível, mas tenho muito menos com que me preocupar do que qualquer outra pessoa. O paciente mais doente do hospital poderia espirrar na minha cara e eu continuaria bem. Tenho que enxergar o fato de que sobrevivi como um presente, independentemente de merecê-lo ou não. E vou fazer tudo o que me for possível com esse presente. Hoje foi bom, mas foi apenas começo.

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13 de novembro Estou livre! Hoje papai decidiu que estou pronta para deixar o hospital. Gav, que tinha acabado de aparecer quando recebi a notícia, se ofereceu para me levar à casa da Tessa. Eu não me dera conta do quanto tinha me acostumado à quietude do meu quarto. Pelos corredores do hospital, as pessoas estão sentadas em cobertores ou travesseiros, ou qualquer coisa que os voluntários tenham encontrado, tossindo e espirrando nas máscaras cirúrgicas presas ao rosto. Ficaram me olhando passar, com Gav logo atrás. Minha máscara filtrava apenas parte do cheiro azedo de suor e tornava cada respiração espessa e úmida. Quando saímos, baixei-a para respirar o ar frio. Na rua, estava tudo quieto novamente. Folhas mortas voavam sobre todos aqueles carros que ninguém nunca irá buscar. Quase todas as árvores estão com os galhos nus. Lixo pairava pelas ruas, e as janelas diante de nós estavam às escuras. Estremeci e apertei o casaco no corpo. Não tem como olhar para esta cidade e acreditar que a vida possa voltar a ser como era há dois meses. Gav também havia tirado a máscara. “Você está bem?”, perguntou ele.

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Tudo vai melhorar, eu disse para mim mesma. Vamos fazer isso tudo melhorar. “Estou”, respondi. “É só que, você sabe, faz semanas que eu não saio.” O carro do Gav — ou, ao que parece, dos pais dele — é um Ford hatch que já tinha sido branco, mas agora estava mais para cinza, com ferrugem subindo pelas quinas como líquen. O interior fedia a fumaça de cigarro. Franzi o nariz automaticamente, e Gav percebeu. “Minha mãe”, disse ele. “Tentei ventilar um pouco, mas acho que demora quando o cheiro ficou quinze anos grudando no carro.” “Ela não se importa que você use?”, perguntei com cautela. Sua voz tornou-se dura ao responder: “Ela não está em condições de se importar.” Gav tinha me contado, quando foi lá em casa ensinar aquelas técnicas de defesa pessoal para mim e para Meredith, que sua mãe estava doente. O que significa que ela provavelmente já havia morrido quando acordei no hospital. Ele não tinha me dito nada. “Como está o seu pai?”, perguntei. “Igual a ela”, respondeu ele, girando a chave, e seu tom de voz sugeria que ele preferia não falar sobre o assunto. O motor roncou e ganhou vida com mais suavidade do que eu esperava, dada a aparência do carro. Mas ainda assim o ruído era absurdamente alto na quietude das ruas à medida que seguíamos a caminho da casa de Tessa. O único sinal de vida no caminho foi um gato atravessando uma portinhola. “Pelo visto eu nem precisava de um segurança”, falei, não porque me incomodava, mas porque falar fazia a situação parecer um pouco mais normal. “Está tudo bem quieto aqui fora.” “Por enquanto”, disse Gav. “Você precisa ter cuidado. Quentin se meteu com aquela gangue... eles são da pesada. Das últimas vezes que os helicópteros passaram para jogar

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mantimentos e remédios, eles pegaram tudo, e ouvi dizer que atiraram no pessoal do hospital que tinha ido lá buscar. E...” Ele hesitou, e se calou. Alguma coisa que decidiu não falar. Algo pior ainda? Senti mais frio do que tinha sentido ao vento lá fora. “Estão pegando toda a comida e todos os remédios?”, perguntei. “Então como estamos nos virando sem isso?” “Seu pai disse que ainda há sobras dos últimos carregamentos que o hospital recebeu”, respondeu Gav. “E temos a comida que conseguimos salvar do nosso estoque. E simplesmente não... não sobraram tantas pessoas para comer.” Ele falou a última parte baixinho, como se isso fosse torná-la menos verdadeira. Lembrei-me da lista que Warren tinha feito, de todas aquelas casas. Em quantas eles ainda passavam? Em quantas ainda havia alguém para atender à porta? “Eu sei”, prosseguiu ele, já não falei nada. “Eu devia ter prestado mais atenção. Devia ter descoberto Quentin e os outros antes que eles traíssem a gente. Aí teríamos o dobro de alimentos, pelo menos. E se eles não estivessem com o caminhão, talvez não tivessem conseguido levar tudo.” “A culpa não é sua”, falei. “Você estava com muita coisa na cabeça.” “É minha culpa sim. Era eu quem estava liderando as coisas. Tinha que ficar de olho em todo mundo. E veja só no que deu. Estávamos controlando sozinhos toda a operação, e agora temos que implorar por ajuda porque eu estraguei tudo.” Ele parou em frente à casa de Tessa com um solavanco do volante. Tinha as mãos cerradas e seus olhos sombrios olhavam pelo para-brisa. “Não é possível que você realmente ache que estragou alguma coisa”, comecei. “Claro que estraguei”, ele me interrompeu antes que eu pudesse continuar. “Se eu não tivesse...”

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“Ouça!”, exclamei, tão alto que nós dois nos espantamos. Ele fechou a boca com um ranger de dentes e finalmente olhou para mim. “Quentin é um babaca”, prossegui. “Sempre foi, esse tempo todo que eu o conheço. Aposto que não havia nada que você pudesse fazer para impedi-lo de se juntar à gangue. E se ele não tivesse entregado a eles a chave, eles teriam arrombado a porta do armazém, e você não teria tido nenhum aviso, e teriam levado tudo, não só metade. Então, mesmo que a gente ignore totalmente todas as coisas que você tem feito para ajudar, mesmo que a gente finja que nada disso importa só porque as coisas não saíram exatamente como você planejou, em que mundo poderia ter impedido que nenhum alimento fosse roubado?” Não era a minha intenção fazer um discurso longo, mas, depois que comecei, não consegui mais parar até que as palavras tivessem saído. É simplesmente muito ridículo que Gav, que tem feito tanto, esteja se torturando por causa de uma única e pequena coisa que provavelmente ele não poderia ter mudado. Quentin, aquele babaca egoísta, que se dane! Quando terminei, Gav continuava me olhando, e ainda parecia um pouco espantado. “Não sei”, admitiu ele. “Então pronto”, decretei. “Não sabe porque não tinha nada que você pudesse ter feito para impedir. Por que não se dá um desconto?” Ele exalou longa e lentamente, e em seguida sorriu pela primeira vez desde que havíamos entrado no carro. “Tudo bem”, disse ele. Parecia que a conversa já tinha chegado ao fim, portanto, estiquei o braço para abrir a porta do carro. Então ele falou: “Kaelyn.” Eu me virei novamente para ele, e alguma coisa em sua expressão fez meu coração bater mais forte.

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Ele estava olhando para mim, mas era de um modo diferente. Parecia que seu foco havia se aguçado, como se antes pelo menos uma pequena parte de sua atenção estivesse voltada para outras coisas e agora todos os seus pensamentos estivessem concentrados em mim. Ele havia se sentado mais para a frente e apoiado a mão na lateral do banco do passageiro, a poucos centímetros do meu ombro. Sua boca estava semiaberta, como se ele fosse falar alguma coisa assim que conseguisse encontrar as palavras. Não sei o que achei que ele fosse fazer. Não, não é verdade. Achei que ele fosse tentar me beijar. Acho que não percebi na hora, e não sei se queria isso, mas me preparei, e meu coração continuou batendo acelerado. Mas então não teve a menor importância, porque Gav não tentou me beijar. A mão dele caiu para a lateral do próprio corpo, ele olhou pela janela, e quando se virou novamente para mim, seu olhar não tinha nem metade da intensidade de antes. “Obrigado”, disse ele. Levei alguns segundos para lembrar porque ele estava me agradecendo, então dei de ombros e sorri como se aquele momento potencialmente constrangedor não tivesse acabado de acontecer. “Fico feliz em ajudar!”, falei, alegre demais. Alcancei a porta outra vez, e ele não me deteve. Um de nós dois disse algo do tipo “A gente se vê” e o outro concordou, então eu me vi na porta da casa de Tessa, ouvindo o motor do Ford rugir enquanto Gav se distanciava. Tessa deve ser a única pessoa capaz de manter perfeitamente a compostura enquanto o mundo desaba. Quando ela abriu a porta, tinha o cabelo preso em um rabo de cavalo benfeito, e, exceto por alguma sujeira na calça jeans, na altura dos joelhos, suas roupas estavam limpas e sem nenhum amarrotado. “Seu pai ligou para avisar que você estava vindo. Estávamos justamente preparando o almoço. Está com

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fome?”, disse ela, totalmente calma, como se eu não tivesse quase morrido desde a última vez que ela me vira. Foi até bom não ser tratada como um milagre. A sensação durou cerca de cinco segundos, porque depois disso ouvi passos pelo hall, e Meredith se jogou em mim. “Você está bem! É verdade!”, exclamou ela. “Eu fiquei muito, muito preocupada, Kaelyn. Você vai ficar aqui com a gente? Tessa deixou. Eu queria trazer as suas coisas para ficar tudo preparado para você, mas o tio Gordon não me deixou entrar no seu quarto. Desculpa.” Eu não ouvia Meredith falar tantas coisas de uma só vez desde que a tia Lillian ainda estava aqui. Senti um nó na garganta e por um minuto não consegui falar nada. Então apenas a abracei e a beijei na testa. “Fico feliz por você estar bem”, falei, após um tempo. “Meu pai tem razão: precisamos tomar muito cuidado. Preciso que você continue saudável.” Ela assentiu. “Eu sei”, prosseguiu Meredith. “Só fico dentro de casa, que é seguro. E estou cuidando dos furões para você!” Ela pegou minha mão e me arrastou para o quarto de hóspedes, que estava lotado com suas malas, seus brinquedos e a gaiola dos furões. Mowat e Fossey escalaram a grade para me ver, focinhando meus dedos. Não pareciam nem um pouco abalados pela minha ausência. Abri a porta e deixei que subissem em mim. “Tessa não gosta muito deles”, sussurrou Meredith para mim. Depois de superada sua agitação inicial, ela estava quieta outra vez. “Por que não?”, perguntei. Ela olhou para os próprios pés. “Eu pensei que seria divertido levar os dois para a estufa”, relatou ela. “Mas Fossey tentou cavar debaixo de uma das mudas, e Mowat derrubou um vaso.” “Não se preocupe”, falei. “Tenho certeza de que Tessa não está chateada com você.”

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Tessa nos chamou para o almoço, que foi ravióli enlatado. Meredith ficou praticamente em silêncio, e Tessa foi educada, porém de um jeito que não nos deixava à vontade, conversando com Meredith como eu conversaria com um amigo dos meus pais que eu não conhecesse muito bem. Ela não deve ter convivido com muitas crianças. Mas ela estava tentando; não me entenda mal. Então estas somos nós agora. Formamos uma espécie estranha de família nova. Cheguei a me sentir quase feliz, até olhar para as três cadeiras vazias e pensar que Drew deveria estar sentado em uma delas, e mamãe na outra; uma dor familiar tomou conta do meu peito. Três semanas doente e tenho a sensação de que perdi um século.

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14 de novembro Agora sei o que Gav não me contou ontem. Hoje de manhã depois do café, Tessa disse que me levaria até em casa para eu buscar minhas coisas. Eu queria ir sozinha, mas não sei onde papai deixou nosso carro, nem se Tessa me emprestaria o dela, que eu não sei dirigir porque o câmbio é manual. Ir andando estava fora de cogitação, porque às vezes ainda me sinto fraca. Tivemos uma discussão aos sussurros sobre o que fazer com Meredith, e no fim decidimos que era mais seguro para ela deixá-la dentro de casa com a porta trancada, pois não sabíamos quem iríamos encontrar no caminho. Meu Deus, como fico feliz por termos optado por isso. “Tem certeza de que não se importa?”, perguntei a Tessa, já no carro. “Por estarmos, hmm, morando com você? Eu e Meredith podemos ficar na minha casa agora que eu saí do hospital.” “Seu pai falou que não sabe até que ponto a sua casa é segura, certo?”, disse Tessa. “Porque você e sua mãe ficaram lá enquanto estavam doentes. Ninguém ficou doente na minha casa. Faz sentido que ela fique lá, e que você fique com ela. Tem bastante espaço.”

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“Mas é a sua casa”, retruquei. “Não precisa acolher a gente só porque faz sentido.” Ela hesitou por um instante, em seguida falou: “Eu meio que gosto de ter gente em volta. A casa fica muito quieta às vezes.” Ela sempre parece tão serena que esqueci de considerar a possibilidade de que estivesse se sentindo sozinha. Mas é claro que a esta altura já faz semanas que ela não consegue falar com os pais, ou com você, Leo — desde que caíram as linhas interurbanas e a internet. Se fosse comigo, eu já teria enlouquecido. “Tudo bem”, concordei, “então é bom para nós duas.” E ela sorriu. Enquanto passávamos de carro, notei algumas casas que me lembraram da gangue da qual Gav havia falado. As portas estavam escancaradas e as janelas da frente, quebradas. Quando viramos na minha rua, de repente fiquei morrendo de medo de ver minha casa daquele jeito. Mas estava tudo normal, tudo como deveria estar. Falei para Tessa que preferia entrar sozinha, tanto pela possibilidade de o vírus ainda estar por lá, quanto por não saber o quanto me emocionaria. Mas quando entrei e olhei em volta, não soube o que eu estava com medo de perder. Tessa tinha me falado que eles já haviam levado toda a comida para a casa dela, então fui direto para meu quarto. Fiquei parada à porta por alguns minutos, me perguntando se eu me importava tanto com algum objeto ali a ponto de arriscar transportar o vírus junto. No fim, enchi um saco de lixo com as roupas que me pareciam mais práticas e o fechei, para jogá-las direto na lavadora quando chegássemos à casa de Tessa. Coloquei meu iPod na mochila, junto com o caderno dos coiotes e alguns outros em que eu vinha anotando relatos de observações, mais um guia de sobrevivência na selva que eu tinha comprado para me preparar para expedições de pesquisa e o porta-retratos com a foto de nós quatro — meus pais, Drew e eu — que a tia Lillian tirou perto da praia há dois anos. Olhei

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demoradamente para mamãe e Drew, e tive que me segurar para não chorar enquanto guardava a foto. Então fiquei indecisa quanto ao que fazer com o computador, até que finalmente gravei os dados e arquivos. E pronto. É a isso que minha vida se resume agora: algumas roupas, alguns livros e um DVD. “Pronto”, falei quando voltei para o carro. “Vamos embora daqui.” Estávamos voltando para a casa de Tessa quando uma mulher veio correndo e se jogou na frente do carro. Tessa pisou no freio com tanta força que eu fui jogada para a frente e tive o corpo refreado pelo cinto de segurança. O carro parou a poucos centímetros da mulher, que, no entanto, pareceu nem notar. “É tão bom ver alguém!”, disse ela. “Aonde vocês estão indo? Posso ir junto? Acho que não suporto ficar nem mais um segundo sozinha!” Seu rosto estava afogueado, e ela espirrou enquanto esperava uma resposta nossa, recusando-se a sair do lugar. Tessa deu ré, mas a mulher nos seguiu. “Não, não”, disse ela. “Não vão embora! Eu só quero alguém para conversar.” E então a mulher começou a chorar, soluçando e tossindo ao mesmo tempo. Nesse momento, percebi que eu podia fazer alguma coisa. Podia saltar do carro e conversar com ela, e isso seria quase tão seguro quanto se ela estivesse saudável. “É melhor levá-la ao hospital”, falei. “Acho que posso convencê-la a andar até lá. A gente se encontra na sua casa.” Tessa balançou a cabeça. Primeiro achei que ela fosse tentar me dissuadir, mas então ela disse: “Podemos levá-la de carro. Nós duas estamos de máscara, então não deve ter problema, né?” Para ser sincera, eu não estava com tanta vontade de passar uma hora ou mais convencendo aquela mulher a ir andando comigo até o hospital. Decidi que iria no banco de

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trás com ela e que colocaria minha máscara no seu rosto, de modo a conter melhor o vírus. Ao saltar do carro, ouvi outro motor em algum lugar atrás de nós, e imaginei que fosse alguém do grupo de Gav distribuindo comida. A mulher se virou para mim, coçando o couro cabeludo logo acima da orelha. Alguns fios de cabelo caíram no chão. “Qual é o seu nome?”, perguntou ela, sorrindo para mim. “O meu é...” Algo agitou o ar, e um vento súbito passou chiando nos meus ouvidos. Eu me encolhi e baixei a cabeça. Quando voltei a erguer o rosto, a mulher estava caindo. Um círculo de sangue crescia em sua testa. Ela desabou na rua. Seu corpo tremeu, e em seguida ficou imóvel. Uma porta bateu. Virei-me e vi um garoto alguns anos mais velho que Drew saltando de uma picape e vindo até nós, com uma espingarda na mão direita. Usava uma máscara com as palavras “sobrevivência” e “força” escritas em caneta azul, mas eu o reconheci pelo cabelo louro quase branco. Ele ajudava no pomar de macieiras dos MacCauley, onde enchíamos uma cesta a cada outono. Então Tessa chamou meu nome, e percebi que era melhor voltar para o carro. “Mas que droga vocês pensam que estão fazendo?”, perguntou ele, parando a cerca de três metros de mim e inclinando a cabeça, como se avaliasse se a mulher estava realmente morta. “Não sabem o que está acontecendo? Querem ficar doentes?” “O que você está fazendo?”, gritei em resposta. “Você acabou de atirar em uma pessoa!” “Ela estava doente”, disse o garoto. “Já ia morrer de qualquer jeito. Eu só impedi que ela contagiasse alguém.” “Ela não estava morta!”, argumentei. “Podia ter se curado! Eu me curei.” Assim que as palavras saíram da minha boca eu soube que tinha sido um erro. Ele semicerrou os olhos e ergueu a arma.

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“Você já teve? Ainda deve estar em você.” Eu me lancei para a porta do carro, mas tenho certeza de que ele teria me dado um tiro antes que eu entrasse se Tessa não tivesse saído bem naquele momento e se colocado entre nós dois. Ele hesitou, e ela começou a gritar: “Você tem tantas balas que vale a pena desperdiçar uma?”, disse ela, com as mãos na cintura. “Seus amigos mandaram você sair por aí matando pessoas saudáveis?” Ele simplesmente a encarava. Eu fiz a mesma coisa. “Você é pior do que o vírus”, prosseguiu ela. “Pelo menos o vírus deixa algumas pessoas sobreviverem. Você está por aí tentando matar todo mundo.” “Quero ver se você vai continuar falando isso quando pegar a doença dessa sua amiga aí”, disse ele, mas abaixou a arma. Assim que ele começou a se afastar, eu me enfiei no carro. Tessa entrou também. Tinha deixado o motor ligado e recuou um pouco com o carro para desviar do corpo da mulher antes de pisar no acelerador — o que ela fez tão abruptamente que bati com o ombro na janela. “Desculpe”, disse ela, voltando a parecer normal. “Achei que seria melhor não dar tempo para ele mudar de ideia.” “Sim”, respondi. “Meu Deus. Obrigada.” “Ora, eu não podia deixá-lo atirar em você”, disse ela, como se fosse um simples fato. Mas não é. Ela podia ter deixado. Podia ter arrancado com o carro, não precisava ter arriscado a própria vida por uma menina que há alguns meses ela nem queria ver sentada ao seu lado. Não sei o que eu teria feito se estivesse no lugar dela. Quero acreditar que a teria defendido, mas só me imagino ficando imóvel, sem saber o que fazer, até ser tarde demais. Eu queria ser esse tipo de pessoa. O tipo de pessoa que salva outras.

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Eu venci um vírus que matou quase todo mundo que o contraiu — deveria me sentir mais forte. Eu estou mais forte. Preciso me lembrar disso.

15 de novembro Quando fui tomar banho hoje de manhã, a água que saía do chuveiro estava marrom. Parecia lama escorrendo pela banheira limpa de Tessa. Tentei ligar para o hospital, mas o telefone estava ocupado, como sempre, então falei para Tessa e Meredith não beberem água e fui até lá. Por sorte, papai trouxe nosso carro ontem à noite. Vi Nell assim que entrei. “Alguma coisa deve ter quebrado no sistema de filtragem”, disse ela. “Vamos tentar encontrar alguém que saiba consertar, mas acho que foi até sorte não ter quebrado antes. Sem manutenção, qualquer coisa mecânica quebra. É uma surpresa a eletricidade estar aguentando tanto tempo.” Então agora temos que ferver a água antes de beber. Passei a manhã toda enchendo as maiores panelas da cozinha do hospital, esperando ferver e em seguida armazenando a água ainda marrom, porém potável, em garrafas que um dos voluntários encontrou. Quanto mais, melhor. Essa me pareceu uma forma simples de ajudar.

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Depois que enchi a última garrafa, fui procurar Nell para descobrir o que fazer com todas elas. Eu tinha acabado de vê-la no corredor, e estava chamando seu nome, quando as portas do elevador se abriram e de lá saiu um homem com cabelo desgrenhado e grisalho, puxando uma maca grande. Ela estava coberta com um lençol, mas não era o suficiente para disfarçar as formas ali debaixo. Pés e cotovelos, ombros e testas. Uma montanha de corpos. Meu estômago se retorceu quando ele passou por mim empurrando a maca, as rodas rangendo. Os pacientes no corredor se calaram. Quando consegui desviar o olhar, Nell estava ao meu lado. “Para onde eles são levados?”, perguntei. Nell colocou a mão no meu braço trêmulo, e eu percebi que o que estava perguntando era: cadê minha mãe? “Eu bem que queria poder conceder a eles o respeito que merecem”, disse ela, baixinho. “Mas depois da primeira onda... Não temos nem voluntários nem tempo suficientes. Tivemos que começar a usar a velha pedreira.” A pedreira. Eu me lembro de explorar o lugar quando era criança, de escorregar e ralar a palma das mãos nas pequenas pedras. Era como um enorme lago vazio. Só que agora não está vazio. O ar me escapou dos pulmões, e tive que lutar contra o impulso de na mesma hora sair do hospital e só parar quando chegasse à beira da pedreira, quando achasse minha mãe em meio à confusão de corpos. Para vê-la uma última vez. Sei que parece mórbido, mas acho que parte da dor não pode ser superada quando se tem apenas a palavra dos outros. Quando você não viu o corpo com os próprios olhos, ou não viu um caixão sendo baixado à cova. Você não consegue se livrar da sensação de que pode ser um erro grave, como se eles pudessem estar enganados e, na verdade, ninguém morreu. Animais honram seus mortos. Elefantes fazem vigília perto de amigos e familiares abatidos. Gorilas uivam e batem no peito. Minha mãe não teve nem isso. Foi jogada em um

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buraco junto com muitos outros, como as vítimas de um genocídio. Como lixo. Como podíamos fazer isso com ela? De certa forma, isso não era tão diferente do que vi ontem. Basta um vírus microscópico e até quem não está doente começa a agir como homicida. Fechei os olhos por um momento e engoli todas as palavras raivosas e dolorosas que eu poderia ter dito. Não é culpa da Nell. Não exatamente. E há coisas piores capazes de me deprimir. Como o fato de que Drew pode estar boiando nas águas do estreito, ou todo enrugado e retorcido em alguma parte da costa do continente, morto e perdido. Pelo menos mamãe eu sei onde está. Observei o homem com a maca desaparecer pelas portas da frente. “Ele não tem medo de ficar doente?”, perguntei após um instante, para mudar de assunto. Ele estava de máscara e capa plástica, como todo mundo, mas ficar tão perto de tantos corpos devia ser arriscado. Nell abriu um sorriso um pouco triste. “Howard é como você, querida”, explicou ela. “Ele contraiu o vírus logo no início, foi nosso primeiro paciente a sobreviver. Por isso é que ele assumiu a função.” Papai me disse que eu fui a quinta sobrevivente, e que a mulher com quem eu dividi o quarto seria a sexta, mas por algum motivo eu ainda não tinha assimilado direito a ideia até então. Existem outras pessoas por aí que sobreviveram ao vírus. Que mostraram que é possível. Papai falou também que tivemos sorte, mas isso é desculpa. Quando o assunto é ciência, sorte só quer dizer que você ainda não descobriu o motivo. Um tremor de animação passou por mim, como um flash de luz na escuridão. “Nell”, falei, “vocês têm registro de todos os pacientes, não têm?” “Claro”, respondeu ela. “Apesar de não estarmos conseguindo manter as fichas tão organizadas quanto antes. O arquivo fica perto da recepção. Por quê?”

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“Você pode anotar para mim os nomes das pessoas que se recuperaram?”, pedi. Ela franziu o cenho. “Kaelyn, você sabe que o seu pai já leu aqueles arquivos milhares de vezes, não sabe? E não encontrou nada.” “Eu sei”, respondi. “Mas talvez só esteja faltando alguém que olhe com outros olhos. Não vai me custar nada.” Então ela me deu o código para abrir a porta e os nomes dos outros cinco sobreviventes e me deixou ir em frente. Nell tinha razão quanto à desorganização — os armários estão transbordando, cheios de pastas largadas por cima ou enfiadas de qualquer jeito nos lugares errados. Mas após meia hora consegui achar os arquivos de nós seis, os que sobreviveram. Sentei-me no chão e fiquei lendo até as letrinhas começarem a me dar dor de cabeça, depois juntei tudo e guardei no espaço vazio entre dois armários, para que eu pudesse encontrá-los rapidamente da vez seguinte. Não vi nada em comum entre nós hoje, nada capaz de explicar por que sobrevivemos e todas as outras pessoas não. Mas vou continuar procurando. Tem que haver alguma coisa.

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16 de novembro Fui até o centro hoje, e ninguém apontou nenhuma arma para mim. Pequenas vitórias. Encontrei Gav ontem, quando estava saindo do hospital, e ele me contou que papai tinha lhe pedido que o grupo dele informasse as pessoas sobre o problema da água na próxima distribuição de comida. O que faz sentido. As coisas só vão piorar se quem não contraiu o vírus pegar alguma outra doença ao beber água contaminada. “Quando você vai?”, perguntei imediatamente. “Posso ir também, se precisarem de mais gente.” “Agora tem uma boa galera ajudando”, falou Gav. “Quanto mais gente, no entanto, mais rápido fazemos as rondas. Vai ser amanhã de manhã; posso passar na Tessa para buscar você.” Ele parecia bem mais confiante do que em nosso último encontro, quando estava se torturando pelo que tinha acontecido com Quentin. Mas continuou me olhando meio

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que na defensiva depois que falou, como se achasse que eu fosse lhe dar um fora. “Seria ótimo”, falei, sorrindo, e ele retribuiu o sorriso. Naquele instante, apesar de eu não ter encontrado nada nos registros dos sobreviventes, o dia me pareceu bom. Então hoje de manhã ele apareceu no seu Ford velho, e fomos até o hospital, que era o ponto de encontro. Para uma operação que até uma semana atrás consistia de apenas três meninos, Gav e Warren tinham se organizado incrivelmente rápido. Enquanto dirigia, ele ia me contando os detalhes: “Warren dividiu a cidade em duas áreas, e tem uma lista para cada uma. Mais uma terceira para os lugares mais distantes, as fazendas e tudo mais. Pelas listas a gente sabe quais casas pular, para poupar tempo. Você toca a campainha e entrega um pacote de alimentos para quem abrir a porta. Hoje também vamos avisar que agora a água da pia precisa ser fervida. E aí você pergunta se tem alguém na casa apresentando os sintomas. Se tiver, ou se virmos algum doente, fazemos o possível para convencer a pessoa a ir para o hospital conosco. Uma das enfermeiras está montando um abrigo naquela igreja perto do hospital para as crianças que estão sozinhas, então, se você encontrar alguma, anote em qual casa ela está. Se tudo der certo, teremos para onde leválas nos próximos dias.” “Uau”, falei, e ele riu. “Eu sei. Parece muita coisa. Mas depois que a gente começar, não vai ser assim tão diferente do que estávamos fazendo antes. Eu ainda queria...” “Se disser que queria poder fazer mais”, o interrompi, “vou bater em você. É sério.” “Tudo bem, tudo bem!”, disse ele, baixando a cabeça. Mas sei que estava pensando nisso. Quando chegamos ao hospital, um grupo de pessoas esperava do lado de fora. Reconheci Warren e outro menino do grupo do Gav, uma mulher de meia-idade que eu já vira ajudando no hospital, um homem jovem que trabalhava como

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garçom no restaurante Seaview, um dos recepcionistas e mais alguns adultos que eu só conhecia vagamente. O rosto de Gav assumiu uma expressão séria. Cumprimentou todos com um gesto de cabeça, mas eu vi seus ombros se encolherem bem sutilmente, como se ele fosse uma tartaruga lutando contra o impulso de se esconder no casco. Em seguida foi rapidamente para perto de Warren, que estava um pouco afastado do grupo, sentado ao volante de um carro, a porta aberta. “Que bom ver você, Kaelyn”, disse Warren, e olhou de relance para Gav. Algo silencioso se passou entre eles, e um segundo depois o rosto do Gav me pareceu ficar mais vermelho do que antes. Ele deu de ombros e se recostou na porta do carro. “Então, qual é o plano para hoje?”, perguntou Gav. Warren mexeu em alguns papéis, bastante parecidos com os que estavam na sua mão quando o conheci. “Conseguimos cinco carros hoje”, disse ele. “Dividi as listas de acordo com esse número. Cada grupo deve fazer umas oito paradas, menos o pessoal que vai cuidar das áreas mais distantes, que só precisará visitar uma casa por vez. Patrick e Ferry já colocaram tudo nos carros, como você pediu, então acho que estamos prontos para começar.” Ele entregou os papéis a Gav, que olhou para as listas e, em seguida, para o grupo que aguardava. “Sabe”, disse Gav, “um dia desses vou obrigá-lo a levantar e falar.” “Mas você sabe que eles dão muito mais ouvidos a você; eu nunca conseguiria a mesma atenção”, retrucou Warren. “Fale logo, todo mundo está ansioso para começar.” Gav fez uma careta bem-humorada para ele e subiu rapidamente os degraus do hospital. Hesitou por um segundo, em seguida gritou para pedir a atenção de todos. Warren se voltou para mim com um meio sorriso. “Ele gostava mais no início, quando éramos só nós. Mas consegue fazer todo mundo trabalhar junto mesmo assim. E não fique com a impressão que ele está levando todo

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o crédito sem merecer. Foi tudo ideia dele. Eu só ajudo a fazer as coisas funcionarem melhor porque ele me pediu.” “Não acha que isso é importante?”, perguntei. “Sei que é importante. Mas, se me colocassem lá, eu ficaria mudo, paralisado. E ele tem tato. É isso que move as pessoas.” Nós dois olhamos na direção do Gav, que gesticulava enquanto explicava por que todo mundo precisava saber que a água não estava apropriada para se beber. Qualquer nervoso que ele estivesse sentindo antes já tinha desaparecido. Estava altivo e seguro, e com aquela intensidade familiar nos olhos, como se fosse uma questão de vida ou morte. E era, afinal. “Vocês parecem ser amigos há muito tempo”, falei para Warren. “E somos”, respondeu ele. “Desde o segundo ano. A professora ficava zombando dele por não ter aprendido a nadar ainda. Ele queria se vingar, então eu bolei o trote perfeito. Desde então conspiramos juntos.” Ergui as sobrancelhas. “O que vocês fizeram com ela?”, perguntei. O sorriso dele se tornou ligeiramente travesso. “Acho que ele não iria querer que eu contasse para você”, disse Warren, inclinando a cabeça na direção do Gav, que vinha na nossa direção. As outras duplas estavam entrando nos seus respectivos carros com mapas e listas em mãos. Acho que o Ford do Gav ficou com o recepcionista. Então nós três entramos no carro do Warren, os meninos na frente e eu atrás, com uma sacola de alimentos. Em certos aspectos, não foi tão ruim quanto imaginei que seria. Enquanto estávamos andando de carro e conversando, quase dava para acreditar que éramos apenas um grupo de amigos saindo para um passeio. E a maioria das pessoas nas casas em que bati parecia saudável e aliviada em me ver, mesmo quando falei sobre o problema da água.

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Mas teve a mulher que apenas pegou a comida e fechou a porta antes que eu pudesse dizer qualquer palavra. Ouvi a voz de um garotinho do outro lado, tagarelando incansavelmente entre um espirro e outro. E o homem que não parava de tossir e teve que ser levado ao hospital. “Eu levo ele”, ofereci, e Gav me dirigiu um olhar horrorizado. “Eu levo os doentes”, retrucou ele. “Fui eu que inventei de fazer isso, então, tenho que me virar.” “É, mas eu já fiquei doente, e você ainda corre o risco de ficar. É questão de bom senso.” Ele não podia negar os fatos, então acabamos fazendo do meu jeito, apesar de Gav insistir em ajudar a colocar o homem no carro. Quando dei a volta até o banco do motorista, ele tocou meu braço. “Fique de olho”, disse ele. “Se vir alguém que não faz parte do nosso grupo dirigindo por aí...” “Eu sei”, respondi. “Vou tomar cuidado. Obrigada.” Fui até o hospital e voltei sem problemas, então essa não foi a pior parte do dia. A pior foram os vários endereços que já estávamos pulando, e todos os que tive que riscar da lista porque não tivemos resposta nas últimas três tentativas. No fim das contas, só encontramos pessoas em quarenta e três casas. Warren examinou a lista que texto-versalete, cheia de X, e beliscou a ponte do nariz. “Vou refazer todas antes da próxima ronda”, disse ele a Gav. Gav assentiu, como se não fosse nada demais, mas um minuto depois pegou uma lata de feijão do porta-malas e a arremessou no chão. O barulho foi forte ao atingir o asfalto. Pelo menos estamos tentando, pensei, mas não falei. Tenho certeza de que não era isso que ele queria ouvir. Queria poder dizer algo melhor.

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17 de novembro Eles passaram pelo bairro do tio Emmett — aquela gangue que, de acordo com Gav, Quentin passou a integrar. Fui até a casa hoje de manhã para dar uma última olhada e encontrei a porta escancarada. A maçaneta tinha sido arrancada. Fiquei em pânico por um instante e quase corri de volta para o carro até que me dei conta de que eu poderia estar em um dos lugares mais seguros da cidade. Eles já levaram tudo o que queriam. Por que voltariam? A probabilidade de saquearem a mesma casa uma segunda vez é a mesma de eu pegar o vírus de novo. Não devia ter muita coisa ali que valesse a pena roubar. O armário de bebidas está vazio, e parece que eles vasculharam os quartos, procurando objetos de valor. Mas tia Lillian levou a caixa de joias quando foi embora, tenho certeza, então eles devem ter se decepcionado. Por alguns minutos tive medo de que houvessem roubado os binóculos, que eu queria muito achar, mas acabei encontrando-os na bagunça perto da cama de Meredith.

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Os barcos de patrulha continuavam ancorados no estreito, vigiando. Adiante deles, o continente parecia o mesmo de sempre. Vi vagos rastros de movimento e luzes brilhando através da névoa. É difícil imaginar a vida seguindo como sempre por lá. As pessoas indo à escola, fazendo compras e saindo com os amigos sem máscaras grudadas no rosto. É como um planeta diferente, do outro lado de um vasto espaço, em vez de uma cidade a poucos quilômetros de distância, separada por um não tão amplo curso d’água. Isso pode soar terrivelmente pessimista, mas, sinceramente, é melhor do que a alternativa. Porque a alternativa é que a vida não está continuando como sempre, que o fim de todos será na mesma velocidade que o nosso. Tentei imaginar o que você está fazendo agora, Leo. Às vezes o imagino na aula, girando e saltando enquanto os professores olham impressionados. É bom pensar nisso, mas sei que não é verdade. Porque agora você deve saber o que está se passando, e você não seguiria com sua vida normalmente. Talvez, neste exato momento, você esteja tentando negociar com quem quer que seja o encarregado para que o deixem voltar para casa. Fico pensando se Drew está aí com você. Talvez ele tenha conseguido chegar a salvo, mas o equipamento de mergulho tenha dado problemas no caminho e, mesmo que ele descubra alguma coisa capaz de nos ajudar, esteja preso no continente. Algum dia, porém, quando a ilha tiver voltado a ser um lugar seguro, vocês dois voltem para nós. Eu queria que esse dia não me parecesse tão distante. Saí da casa e levei os binóculos comigo. Não quero ter que voltar lá. Quando me dirigia ao portão, parei ao ver um movimento mais adiante na rua. Havia um corpo esparramado em frente a uma casa perto dali, metade na calçada, metade na rua. Alguém que tinha morrido por causa do vírus, da água ou de um tiro — a distância não me permitia identificar. Um coiote puxava seu braço. Olhei para o outro lado e entrei no carro.

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Não posso julgar, não mesmo. Coiotes também precisam comer para sobreviver. A caminho da casa da Tessa, fiz um desvio pelo cais. Não cheguei muito perto, pois me lembrei da história do papai sobre os soldados paranoicos. Mas perto o suficiente para dar uma boa olhada com os binóculos. Não consegui ver ninguém se movimentando pelo cais. Então resolvi olhar os barcos, e minha pele gelou. Os que consegui divisar estavam meio submersos, mesmo que presos ao dique, proas ou laterais brancas despontando da água, alguns sem pedaços das bordas ou com buracos nos cascos. Parecia que um gigante tinha passado por ali, pisoteando as embarcações e brandindo um martelo. Com o olhar, acompanhei as fileiras curvas das docas, tentando ver a lancha do tio Emmett. Os destroços eram uma confusão tamanha que não consegui enxergar nenhum detalhe capaz de identificar um barco, mas, pelo que vi, nenhum escapou ileso. A tempestade que papai mencionou não podia ter causado aquilo tudo — nunca vi um vento nordeste destruir barcos dessa forma. Deve ter sido uma pessoa. Ou várias. Comecei a sentir tanto enjoo que tive que abaixar os binóculos e fechar os olhos. Cada vez que olho em volta, mais alguma coisa se quebrou.

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18 de novembro O hospital tem ficado mais barulhento nos últimos dias. Papai e Nell não disseram nada, mas desconfio de que o estoque de sedativos esteja quase esgotado. Dá para ouvir a progressão inteira da doença nos corredores: tosses, espirros, conversas agressivamente amigáveis e gritos de pânico. Só na terceira tentativa é que consegui chamar a atenção de uma enfermeira ontem, e percebi o porquê quando ela retirou um tampão do ouvido para me escutar. O vírus tem uma voz, e não é muito feliz. Eu pretendia passar a tarde na sala dos arquivos, porém depois de uma hora analisando mais uma vez os detalhes dos tratamentos realizados no hospital e comparando os sobreviventes aos que morreram, deixei os registros de lado e saí dali. Procurei e procurei exaustivamente ao longo dos últimos dias e não tem nada. Nada de especial que tenha sido feito a nós seis e aos outros não. Nenhuma resposta milagrosa apenas esperando ser encontrada por mim. Ao sair no ar gelado, ouvi o ruído de um helicóptero passando, roncando lá no alto seguindo rumo ao continente. Um repórter coletando imagens para o noticiário? Ou mais

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uma entrega que a gangue vai roubar? Imaginei aqueles garotos jogando todos os medicamentos dos quais o hospital tanto precisa na traseira do caminhão roubado e fechei as mãos com força. Voltei direto para a casa de Tessa. Ela estava ajoelhada na estufa, podando um dos matinhos. “A gente devia voltar às casas de veraneio”, falei. “Catar as coisas. Não terminamos todas.” “Eu fiz o resto sozinha”, disse Tessa. “Então vamos passar para casas normais. Podemos começar com a sua rua.” “Está falando em invadir as casas?”, perguntou ela, erguendo uma sobrancelha. Quase pensei, Por que não? A gangue já está saqueando as casas por motivos egoístas — por que não fazemos o mesmo, só que para ajudar o hospital? Pensar neles me lembrou o dia em que o garoto com o caminhão atirou naquela mulher bem na minha frente, e meu estômago embrulhou. Não quero seguir o exemplo deles, seja de que forma for. “Não”, respondi. “Não precisamos. Sei quais casas estão vazias, descobri quando saí com Gav. Vamos tentar as portas, e só entramos se estiverem destrancadas.” Então ontem e hoje à tarde deixamos Meredith assistindo a um DVD e saímos. Faço Tessa esperar lá fora enquanto dou uma rápida olhada, para ter certeza de que a casa está vazia. Nas primeiras vezes suei terrivelmente ao percorrer os corredores que levam aos quartos. Ainda não esbarrei com ninguém, saudável ou doente, vivo ou morto. Após um tempo, a lembrança da mulher e da criança mortas na casa de veraneio começou a esmaecer. O que não significa que entrar não seja horrível às vezes. As casas de veraneio eram tão assépticas e isoladas que dava para fingir que ninguém nunca tinha morado ali. Os lugares em que estamos buscando mantimentos agora pertenciam a pessoas pelas quais eu passava nas ruas, ou que cumprimentava na mercearia. Pessoas cujas presenças

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permanecem nos porta-retratos das mesas de cabeceira, nos bilhetes deixados nas bancadas das cozinhas, nos brinquedos espalhados pelo chão das salas e nos pôsteres pendurados nas paredes dos quartos. Porém nenhuma delas vai voltar. Aprendi a manter a mente e os olhos focados na gaveta seguinte, no armário seguinte, ignorando todo o resto. Não encontramos muita coisa, essencialmente apenas remédios básicos como Tylenol e antiácidos, mas pouco é melhor que nada. E também estamos pegando qualquer comida que encontramos. Gav pode ter um bom estoque por enquanto, mas quem sabe quando vamos receber outra entrega do continente? Tessa e eu levamos tudo para o hospital, e deixei a comida na cozinha de lá. Gav apareceu ontem à noite para o treino de defesa pessoal com Tessa, e ver se Meredith e eu ainda nos lembrávamos do que ele nos ensinara, e o encontrei hoje de manhã para as rondas habituais. Não contei o que estamos fazendo. Não que eu tenha medo de que ele não aprove. Claro que aprovaria. Ficaria todo feliz e iria querer assumir tudo e incluir nas suas rondas para distribuição de comida. E aí não seria mais uma coisa minha. Talvez eu devesse querer envolver mais gente. Mas, por algum motivo, no momento me parece muito importante ter algo que pertença só a mim.

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19 de novembro Você deve ter notado que não tenho falado muito sobre o papai, Leo. O fato é que mal o vejo. Quem sobrou no hospital o considera o chefe, e ele está praticamente morando lá. O que, de certa forma, é mais seguro para todos, porque assim ele não se arrisca a trazer o vírus e contaminar Meredith ou Tessa. Ele liga quase toda noite, para saber como estamos, mas nunca pode falar por mais que um ou dois minutos. O que nem de longe se compara a tê-lo perto de mim. Às vezes acordo no meio da noite e fico pensando onde será que meu pai está, e ele parece quase tão distante quanto mamãe ou Drew. Não sei como o papai continua seguindo em frente. Ele sorri quando passamos um pelo outro no hospital, mas a exaustão no seu rosto é evidente. O centro de pesquisa deve ser um lugar mais quieto, então talvez ele consiga tirar uns cochilos por lá. Espero que sim. Nesse ritmo vai ficar doente mesmo que não pegue o vírus, e não posso perdê-lo também. Simplesmente não posso. Finalmente tive uma chance de conversar de verdade com ele hoje à noite. Papai veio até a cozinha do hospital enquanto eu estava guardando a comida que Tessa e eu pegamos à tarde, e comecei a preparar uma sopa instantânea 205 | P á g i n a


para ele. Pelo menos agora sei que ele tem comido de vez em quando. “Alguma notícia do continente?”, perguntei. “O rádio está detectando alguma coisa?” Ele hesitou, em seguida suspirou. “Até agora nossas tentativas não tiveram nenhum resultado”, disse. “Mas vamos continuar tentando, é claro.” “Eu estava querendo perguntar a você...”, principiei. “Dei uma olhada no cais outro dia... está deserto. E os barcos...” Deu para ver, pela forma como sua mandíbula enrijeceu, que papai já estava sabendo. “Sei que você quer vir ao hospital e ajudar por aqui, e acho que é bom para você”, disse ele, “mas prefiro que não vá sozinha a nenhum outro lugar, nem mesmo de carro, tudo bem? Quanto mais gente, mais seguro.” “É”, falei, o que não foi uma promessa, pois não ia prometer nada. Não posso arrastar Tessa e Meredith comigo para todo lugar. “Mas então, o que aconteceu com os barcos?”, perguntei. “Foram os soldados”, disse ele, derramando a água quente da chaleira no macarrão e levantando vapor entre nós. “Os que estavam no porto. Pelo que sabemos, eles ficaram com tanto medo de pegar o vírus que resolveram descumprir as ordens e deixar seus postos. Mas antes disso quiseram se certificar de que ninguém iria atrás deles.” Engoli em seco. “Então destruíram todos os barcos”, concluí. “Não todos”, corrigiu papai. “Você sabe que algumas pessoas guardam alguns barcos menores em casa. Se quiséssemos mandar alguém atravessar o estreito, poderíamos. Só não acho que o risco valeria a pena, já que os barcos patrulheiros provavelmente não nos receberiam muito bem. Desconfio de que o Exército em geral tenha assumido a postura de atirar primeiro e perguntar depois com relação a qualquer pessoa da ilha.”

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O que terão feito a Drew se o pegaram? A imagem do corpo dele indo parar na praia passou pela minha mente, e eu me contorci. Papai me abraçou, e apoiei a cabeça no ombro dele. “As coisas têm que melhorar, não é verdade?”, falei. “Isso não pode continuar para sempre.” “Nada é para sempre”, respondeu papai, mas as palavras não foram tão reconfortantes quanto eu gostaria. No entanto, é verdade. A epidemia tem que acabar em algum momento. Preciso me concentrar nisso — no dia do futuro em que o vírus terá desaparecido, e em que tudo que vivemos vai ser apenas uma história muito ruim que aconteceu há muito tempo.

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20 de novembro Gav fez o almoço hoje. Ele cozinha muito bem. Quem iria imaginar? Eu não tinha planejado, mas logo depois que terminamos a entrega dos alimentos pela manhã e nos despedimos de Warren, que está ajudando a levar as crianças órfãs para a igreja, Gav disse: “Sei que é péssimo, mas sempre fico com fome quando terminamos as rondas.” “Você podia ir para a casa da Tessa almoçar com a gente”, propus. “É?” Minhas bochechas começaram a esquentar. Para disfarçar, dei um soquinho no ombro dele. “A não ser que a nossa gororoba não seja boa o suficiente para você”, respondi. “Acho que vou ter que dar uma conferida”, disse ele, erguendo uma sobrancelha. Assim que entramos na cozinha, ele foi na direção dos armários. Em cinco segundos estava pegando latas e fuçando a prateleira de temperos enquanto Tessa, Meredith e eu apenas olhávamos. Então pegou uma panela e só então ocorreu-lhe que deveria consultar Tessa. “Você se incomoda?”, perguntou. “Vá em frente”, respondeu ela, que parecia estar se divertindo.

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Nossa ideia de comida sofisticada tem sido misturar uma porção de ervilhas congeladas a arroz instantâneo, então não podíamos reclamar. Comparado ao que normalmente comemos, o ensopado que Gav preparou foi um milagre, apesar de ele ter dito que deveria ter usado salmão fresco, em vez de enlatado, além de queijo parmesão. Foi a primeira vez em um tempão que gostei do que estava comendo. Saboreei cada garfada antes de engolir, ignorando os roncos do meu estômago, porque no jantar voltaríamos ao básico. O momento teria sido perfeito não fosse pelo fato de que, no meio da refeição, esbarrei no copo de Meredith. A água previamente fervida entornou no colo dela e no chão, e, enquanto secávamos, ela ficou o tempo todo pedindo desculpas para mim. Depois da vigésima vez, me irritei: “Meredith, não é culpa sua. Fui eu que derrubei o copo. Pare de se desculpar.” E ela realmente parou e, em vez de se desculpar, começou a chorar. Eu me senti como se pudesse ganhar o prêmio de Pior Prima do Ano. Eu não estava assim tão brava, mas fico muito preocupada com ela o tempo todo, e é claro que isso me afeta. Desde que tive alta do hospital ela vive dócil e me adulando, pedindo desculpas por qualquer coisa que dê errado, mesmo que não seja culpa dela. Talvez ela ache que vai deixar todo mundo mais feliz se assumir a culpa por qualquer coisa. Como explicava o documentário sobre lobos que vi há alguns anos, em relação à hierarquia do bando, com o ômega na base: se os outros lobos se irritassem com alguma coisa, descontavam no ômega. Mas o ômega não se importava, porque tinha escolhido esse papel. Queria ser o bode expiratório e receber o castigo para qualquer que fosse a irritação, assim todos poderiam se acalmar. Talvez fosse essa a intenção de Meredith. Ou talvez ela esteja tão abalada que está realmente acreditando que tudo é realmente culpa sua.

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Não sei. Tentei conversar sobre isso com ela, mas sua única reação é sorrir de um jeito esquisito e dizer que está bem, que só está feliz por eu ainda estar aqui. Queria que mamãe estivesse conosco, queria mesmo. Ela saberia o que fazer. Mais do que eu, pelo menos. O que fiz acabou não sendo a melhor ideia de todos os tempos, mas na hora me pareceu uma boa. “Vamos dar um passeio”, falei. “Você não sai de casa há séculos.” “Podemos ir ver os coiotes?”, perguntou Meredith, ainda fungando, mas parecendo um pouco mais alegre. Lembrei-me do coiote mordendo o cadáver na rua do tio Emmett. “Acho que eles não estão muito amistosos no momento”, falei. “Podemos ir até a praia.” Era um dia nublado e de vento forte, o pior tempo possível para um passeio na praia, mas Meredith concordou, terminou de comer às pressas e foi correndo pegar os sapatos e o casaco. Tessa se retirou dizendo que precisava cuidar da estufa. As plantas especiais e supostamente medicinais de papai podem ter sido um fracasso, mas ela continua se dedicando às próprias espécies. Gav se ofereceu para ir com a gente à praia. “Vamos no meu carro”, disse ele. “Preciso abastecer mesmo.” Eu dei a ele as chaves do posto e o ensinei a utilizar a bomba há alguns dias, tendo em vista que é mais provável que ele precise de gasolina do que eu. Logo que entramos no Ford, Meredith ficou quieta, e o silêncio parecia pesado demais. “O almoço estava ótimo”, falei, para quebrar o silêncio. “Foi a sua mãe que ensinou você a cozinhar?” Gav sorriu, mas por pura educação. “Pode-se dizer que sim”, respondeu ele. “Assim que eu tinha idade suficiente para preparar um sanduíche sozinho, as refeições basicamente se tornaram uma batalha. Era cada um por si. Depois de um tempo, enjoei de sanduíches. Tinha

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livros de receitas pela casa, e eu meio que gostava de provocar minha mãe, preparando alguma coisa para mim melhor do que o que ela fizera para si e comendo tudo.” “Ah”, falei. Não consigo imaginar ser criança e não saber que no mínimo o jantar vai aparecer magicamente na mesa em algum momento, toda noite. Ele deu de ombros e falou: “Eu não me importava muito, depois que me acostumei. A gente aprende muito quando não recebe tudo de bandeja.” Ao observá-lo, tive a sensação de que ele tinha acabado de me dar uma peça de um quebra-cabeça que eu não sabia que estava montando. De repente enxerguei exatamente como ele tinha se tornado o garoto com quem falei no parque há dois meses, que riu da ideia de que o governo fosse ajudar e calmamente foi até a mercearia e esvaziou as prateleiras para oferecer outro tipo de assistência. Eu queria dizer alguma coisa profunda e sensível para demonstrar que eu entendia, mas justo nesse momento passamos por algumas lojas, e o que fiz foi gritar: “Espere, espere, pare!” A gangue obviamente tinha varrido a rua principal sem deixar nem pó. Quase todas as vitrines estavam quebradas, as calçadas cheias de cacos de vidro. Eles tinham entrado na loja de jardinagem, mas ainda vi mudas e pacotes de sementes nas prateleiras, e me ocorreu que eu teria que voltar ali com Tessa para que ela pudesse pegar qualquer coisa que considerasse útil. Mas o que realmente me chamou a atenção foi a Play Time. Tenho certeza de que a gangue achou que não haveria nada de útil em uma loja de brinquedos. O que provavelmente é verdade, pelo menos do ponto de vista deles. O vidro da fachada, com o desenho em redemoinho de duas crianças em um tapete mágico, continuava intacto, embora um pouco sujo. Na vitrine, alguns animais de pelúcia

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espiavam de um canto, um exército de bonecos de soldados comandando o movimento do outro. Aquilo era melhor do que a praia. Era, pensei, exatamente do que Meredith precisava. Tentei a porta, que estava aberta. Quem quer que tivesse ido até ali pela última vez não se dera ao trabalho de trancar. Talvez tivesse imaginado que voltaria no dia seguinte. O que não acontecera — e eu não queria nem pensar na explicação mais provável para isso. Gav já tinha tirado Meredith do carro. Ela foi até a loja, hesitante. “Podemos entrar mesmo?”, perguntou ela. “Podemos”, respondi com firmeza. “Claro que podemos. Você pode escolher cinco brinquedos para levar para casa. E vamos levar alguns para as crianças que agora estão sozinhas também.” Gav olhou para os dois lados da rua. “Vou ao posto”, disse ele. “Deve levar só uns minutos.” Mas ele continuou parado. “Vamos ficar bem”, falei. “É uma loja de brinquedos. Pode ir.” Abri a porta e acendi as luzes. Foi como atravessar um portal para Nárnia. Eu amava a Play Time. Quando era pequena, parecia o salão de um palácio de conto de fadas, com o chão de pedra pintada, o tapete de pelo falso onde, toda tarde, os voluntários liam histórias em frente à lareira a gás e o aroma doce de cedro emergia das prateleiras cheias de caixas e latas de tesouros. Comprei minha rede para pescar no rio lá, e o livro de histórias da natureza que li até a capa se soltar, e aqueles pássaros de brinquedo com penas de verdade coladas no corpo de madeira. Mas eu não entrava lá desde que voltamos para a ilha. A loja parecia menor agora, mais um chalé aconchegante do que um palácio, é claro, porque eu cresci, mas ainda havia alguma coisa mágica. Tão intocada. Um

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pedacinho da nossa antiga vida, escondido no meio da cidade. Meredith ficou ali parada olhando em volta, e não era isso o que eu queria. Eu queria animação, danças e risos. Então peguei uma garrafinha que estava no balcão onde havia a caixa registradora e soprei bolhas de sabão coloridas na direção dela. Meredith abanou as mãos, tentando pegálas, e uma das bolhas estourou na bochecha dela. Ela riu. “Quero fazer!”, disse ela, e por alguns minutos tudo foi espetacular. Abri uma segunda garrafinha e enchemos a loja de bolhinhas de sabão, e ela correu em meio às bolhinhas, de uma ponta até a outra, fazendo-as girar no ar à nossa volta. Vários vestidos de princesas da Disney estavam pendurados em uma arara quase nos fundos da loja. Encontrei o da Ariel e o vesti em Meredith, por cima do casaco. Ela rodopiou na frente do espelho, sorrindo como não fazia havia meses. Corremos de volta para o tapete e afundamos nos enormes pufes. Enquanto Meredith soprava mais bolhinhas no ar, me debrucei sobre a lareira e tentei descobrir como acendê-la. Quando ouvi a porta se abrindo atrás de mim, presumi que fosse Gav, de volta do posto. Só me virei quando Meredith emitiu uma espécie de ruído esganiçado e assustado, e então congelei. Quentin estava à entrada. Ele tinha um aspecto bruto. Seu cabelo estava arrepiado e irregular, como se o tivesse raspado sem espelho, e sua pele estava pálida, exceto por um arranhão grande no rosto, já formando uma casca de cicatrização. A vida na gangue não parecia estar sendo gentil com ele, mas mesmo assim ele conseguiu assumir uma expressão zombeteira. “Não foi você quem me deu bronca por roubar?”, disse ele para Meredith. “O que acha que está fazendo agora?” Ela só conseguiu responder com um ganido. Ela saiu do pufe, vacilante. Comecei a ir na direção dela, mas Quentin foi mais rápido.

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Ele avançou e agarrou-lhe o braço, prendendo-o às costas dela. Meredith choramingou e ficou parada. Quentin estava olhando para mim. “Soube que você pegou o vírus”, disse ele. “E que foi curada.” Eu nem precisava me perguntar como ele sabia. Bastava o garoto da espingarda ter dito que conversara com uma menina de pele marrom-clara, o que reduzia as opções a uma. Eu já tinha me sentido desconfortável e deslocada antes, mas foi a primeira vez que desejei ter a mesma cor de todo mundo na ilha. “Eu sobrevivi”, falei. “Não me curaram. Tive sorte.” “Sei”, disse ele. “A filha do cientista teve sorte, só isso?” “Minha mãe morreu”, retruquei. “Você realmente acha que se soubessem a cura não ajudariam todo mundo?” Ele hesitou por um instante, ainda segurando o braço de Meredith — mas com menos força, de forma que ela parecia não estar sentindo dor. No entanto, ela estava muito longe; se eu fizesse algum movimento, ele perceberia e a machucaria antes que eu os alcançasse. Com certeza ele não esperaria que uma criança reagisse. Se Meredith conseguisse se livrar dele, poderíamos correr para a porta. Após me certificar de que ela estava olhando para mim, esfreguei os olhos, tentando passar a minha mensagem de forma clara mas sem parecer artificial. Ela ficou me encarando com os olhos brilhando de medo. “E quando é que o governo vai fazer mais do que só passar voando?”, perguntou Quentin, alternando o peso de um pé para o outro. “Quando vão tirar a gente daqui?” “Não sei”, respondi. “Estão esperando que a ilha volte a ser um lugar seguro, e ninguém sabe quando isso vai acontecer.” “Ou seja, estão só largando a gente aqui até todo mundo morrer.”

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Ele desviou o olhar para a vitrine, franzindo o rosto em amargura. Eu não sabia se teria outra chance. Formei um V com o indicador e o dedo médio e fiz um gesto simulando enfiá-los nos olhos. Dessa vez Meredith entendeu. Ela então olhou para Quentin, que se voltou novamente para mim quando ela se mexeu. “Não podem nos deixar aqui para sempre”, falei, repetindo as palavras que se tornaram praticamente meu mantra nos últimos dias. “Só não sabemos quanto tempo vai demorar.” Sustentei o olhar de Meredith e acenei com a cabeça o mais sutilmente possível. Ela mordeu o lábio. “É melhor que esses filhos da puta venham mesmo”, disse Quentin, levantando a voz. “Tem um amigo meu que ficou doente, e ele já...” Meredith se virou e enfiou os dedos nos olhos dele. O que se seguiu foi como um borrão. Quentin xingou e a soltou para levar as mãos ao rosto. Apontei para a porta, já correndo. Meredith disparou na minha frente. Parei por apenas um segundo, para chutar a canela de Quentin com toda a força, torcendo para que aquilo o desacelerasse caso ele viesse atrás da gente. Lá fora, na calçada, percebi que não sabia para onde ir. Gav ainda não tinha voltado com o carro, então agarrei Meredith pela mão e a puxei na direção do posto. Atrás de nós, Quentin abriu a porta da loja de brinquedos com um empurrão, resmungando. Então o ronco de um motor ressoou lá na esquina. Acho que primeiro Gav viu só nós duas, apavoradas, por isso parou o carro no meio da rua e saltou. Aí viu Quentin. Eles ficaram se encarando, a uns cinco metros um do outro. Quentin protegia a perna que eu tinha chutado, com os olhos vermelhos e lacrimejantes. Gav cerrava os dentes com força e tinha as mãos fechadas nas laterais do corpo. Deu um passo para a frente.

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Quentin titubeou, em seguida se virou e saiu correndo. Se tivesse um rabo, estaria entre as pernas. Meus joelhos fraquejaram, e me sentei pesadamente no meio-fio. Meu peito doía como se eu tivesse acabado de correr uma maratona, apesar de mal termos atravessado meio quarteirão da loja até ali. Meredith me agarrou. O tafetá do vestido de princesa me arranhou quando a abracei. “Vocês estão bem?”, perguntou Gav. Ele veio até nós, em seguida olhou na direção de Quentin, abrindo e fechando as mãos como se não soubesse o que fazer com elas. “Estamos”, respondi. “Quer dizer, eu estou. Como está o seu braço, Meredith?” “Doendo um pouco”, respondeu ela. “Ainda bem que você acabou com ele, então”, falei. “Você foi incrível.” “É?”, disse ela, recuando um pouco para encontrar meu olhar. “Claro”, respondi, e ela abriu um leve sorriso. Respirei fundo. Não queria que o dia acabasse tão mal. “Tudo bem”, falei. “Derrotamos o vilão do mal. Agora você precisa buscar a sua recompensa. Que tal aqueles cinco brinquedos que eu falei que você podia pegar?” “Ainda posso?”, perguntou ela. “Claro”, respondi. “E por que não escolhe também os das crianças que estão sem os pais? Sei que você vai encontrar os melhores.” “Tudo bem”, disse ela. Dei um empurrãozinho na direção da loja, e ela foi. Assim que estava segura lá dentro, afundei a cabeça nas mãos. O vento soprou meus cabelos. Naquele instante o frio até que foi gostoso. Gav se sentou ao meu lado. Falei antes que ele pudesse se pronunciar: “Se tentar me dizer que a culpa foi sua por nos deixar sozinhas durante dois segundos”, olhei de lado para ele, “vai levar um chute igual ao que eu dei no Quentin.”

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Ele fechou a boca e inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse considerando as opções. “Onde exatamente foi o chute?”, perguntou ele. “Na canela”, respondi. “Como você me ensinou.” “Hmm”, fez ele. “Posso dizer que eu queria ter quebrado a canela dele em mil pedacinhos? E, aliás, o resto também?” “Pode”, respondi, e levantei a cabeça. “Acho que seria aceitável.” Ao mesmo tempo, nós dois começamos a rir. Não sei se estávamos liberando a tensão ou uma histeria desesperada ou o quê. Mas foi bom rir, ainda que não houvesse nada de muito engraçado na situação. Então Gav se inclinou, passou os dedos pelo meu rosto e me beijou. Não foi um beijo demorado. Mal tive tempo de reagir. Ele foi, de alguma forma, determinado e gentil ao mesmo tempo, o gosto do chá que havíamos tomado na casa de Tessa ainda em sua boca, e seus dedos permanecendo na minha bochecha. Meu coração começou a saltar de um jeito totalmente diferente. Eu não queria que ele parasse. Mas ele parou. Sua mão desceu do meu rosto para o alto das costas, e ele me abraçou com força. Apoiei a cabeça no seu ombro. Assim tão próxima dele, não senti o vento frio. “Você vive me ameaçando com violência”, disse ele, com o hálito quente na minha orelha. “Por que isso?” “É você que fica me ensinando a bater nas pessoas”, observei. “Então está dizendo que eu sou má influência?” Pude sentir o sorriso dele se abrindo. “Ah, mas sem dúvida”, falei. Meredith chamou meu nome de dentro da loja, e eu me levantei. “Acho melhor a gente começar a botar as coisas no carro”, disse Gav. Meredith quis levar o vestido de princesa, e encontrou também um kit de miçangas e um conjunto para pintar

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tecidos que se recusou a largar. Escolhemos alguns bichos de pelúcia e quebra-cabeças para as outras crianças, e levei alguns jogos, caso ficássemos entediados alguma noite na casa de Tessa, já tendo assistido a todos os DVDs dez vezes. No fim, enchemos todo o porta-malas. Depois de deixarmos tudo na igreja, Gav nos levou de volta para a casa de Tessa. Meredith entrou correndo para começar a brincar com seu kit. Gav saltou do carro comigo. Eu não sabia dizer se o que tinha acontecido antes havia sido algo momentâneo, impulsionado pelo choque. Não foi. Estávamos de pé em frente ao carro quando ele me beijou de novo, e eu retribuí. E fiquei feliz. Exultante. Como há nem sei quanto tempo não me sentia. Mesmo agora, escrevendo sobre isso, não consigo conter o sorriso. É estranho que eu me sinta um pouco culpada por estar feliz, Leo? Afinal, você tem Tessa, e com a gente nunca foi assim, mesmo que eu quisesse que fosse. Faz tempo que não somos nem amigos. Eu precisava disso. E agora terei um motivo a menos para ficar nervosa quando finalmente encontrar você outra vez.

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21 de novembro Não teve entrega de comida hoje, então passei a manhã ajudando no hospital. Os corredores estão começando a parecer menos lotados. Eu queria poder explicar isso afirmando que as pessoas que permanecem na cidade estão se protegendo — e não que não há muitas mais para adoecer. Eu estava levando o café da manhã para aqueles que estão sendo chamados por todos de paciente em “estágio dois”: baixas inibições e alta sociabilidade. Não é tão ruim. Uma das enfermeiras destranca a porta para mim, e eu entro empurrando o carrinho com seja lá o que estiverem servindo aquela manhã, e os pacientes imediatamente me rodeiam, tagarelando e pegando a comida se estiverem com fome. Sempre ficam felizes em me ver, como se eu fosse a atração especial da festa. E como estão fazendo companhia uns aos outros, não grudam muito quando preciso me retirar. Eu só preciso tentar parar de pensar no que vai acontecer com eles nos próximos dias. Hoje estive um pouco desligada. Minha mente estava no dia de ontem, e em Gav, imaginando o que exatamente estaria acontecendo entre nós, e se eu iria encontrá-lo hoje, e, caso encontrasse, se nos beijaríamos de novo. Nem vi Shauna no quarto até alguém puxar meu cotovelo. Virei-me e lá estava ela. Seu nariz e um lado da testa, que ela não parava de coçar, estavam vermelhos, os lábios, ressecados, mas de alguma forma seu cabelo continuava sedoso e ondulado, e ela 219 | P á g i n a


usava aquela roupa de hospital como se estivesse desfilando a última coleção. Tinha uma pose natural que não se deixaria abalar por um vírus qualquer. Por um segundo, enquanto eu olhava para ela, tive a sensação de que havíamos voltado ao refeitório da escola, dois meses e meio atrás. “Meu Deus!”, disse ela. “Kaelyn, o que está fazendo aqui? Virou voluntária ou coisa do tipo? Que máximo ver você! Deixou a franja crescer? Ficou bom. Como vai todo mundo? Faz séculos que não vejo ninguém do colégio!” Antes que eu conseguisse superar minha surpresa, um senhor passou por nós, afagando o cabelo de Shauna como se ela fosse um animal de estimação. Eu me lembrava de ter conversado com ele alguns dias atrás, quando passou meia hora me contando histórias desconexas sobre seus anos na guarda costeira. “Essa mocinha aqui melhorou!”, disse ele, apontando para mim. “Ela é uma inspiração! Vamos todos ficar bem. É muito bom ver você, muito mesmo.” Shauna me encarou, pasma. “Você estava doente e se recuperou?”, falou. “De verdade?” Nell havia me alertado a não conversar sobre a doença quando os doentes chegam a esse estágio, pois nunca se sabe que tipo de reação terão. A maioria dos infectados parece esquecer que contraiu algo muito pior que uma simples gripe se ninguém os lembrar disso. Mas não vi razão para mentir quando ela me perguntou diretamente. No entanto, eu estava mesmo era me perguntando como aquele senhor sabia. Devia ter ouvido alguém do hospital mencionando. “Foi”, falei, e então, tentando soar otimista, prossegui: “E outras pessoas também se recuperaram.” “Ah, essa não!”, disse ela. Eu tinha esquecido como a voz dela pode se manter alegre mesmo quando ela está muito irritada. “Você ficou boa? O que você tem de tão especial?” Abri a boca, mas nada saiu. O que eu poderia dizer? Que eu não era especial, que tivera apenas sorte? Não achei que isso fosse deixá-la mais feliz.

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Shauna continuou, cerrando os olhos: “Você se acha incrível só porque morou em Toronto durante cinco anos.” Recuei um passo. “Mas é uma fracassada. Mal fala com as pessoas. Passa o tempo todo com o nariz enfiado nos livros, ou olhando os esquilos no parque. Por que logo você tinha que ficar bem?” As palavras me atingiram como um soco. Meu rosto esquentou, e minha mandíbula cerrou com uma raiva que eu não sabia que tinha em mim. Por que eu não poderia?,queria gritar para ela. Os outros pacientes do quarto perceberam a agitação de Shauna, e todos se agruparam ao nosso redor, murmurando palavras tranquilizadoras para ela, afagandolhe as costas. Engoli em seco e fui para a porta. Ela estava doente, não podia controlar suas ações. Era melhor eu sair, deixar que todos a acalmassem e voltar mais tarde para buscar o carrinho. “Isso mesmo!”, gritou Shauna atrás de mim. “Vá embora! Por que você deveria estar aqui? Mamãe, papai, Abby... Eles deveriam ter sobrevivido!” Ela continuava gritando quando fechei a porta atrás de mim. A enfermeira me olhou de um jeito estranho, e tudo que consegui fazer foi balançar a cabeça. Levantei e fui andando até a sala dos arquivos. Lá é um lugar tranquilo. Sentei no chão e abracei os joelhos. Um tremor percorreu meu corpo. Parte de mim estava abalada, ouvindo a voz de Shauna ecoar na cabeça. Imaginei se de repente ela estava certa, se eu não tinha realmente roubado a chance de alguma outra pessoa, dos pais ou da irmã de Shauna, de todos aqueles médicos e enfermeiras que morreram. Da minha mãe. Mas parte de mim continuava irritada. E, enquanto fiquei lá sentada, a parte irritada venceu. Que importância tem quem eu era antes disso? Que importância tem se Shauna estava no topo da pirâmide social

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e eu, na base? Eu sobrevivi. Isso é um fato. Estou aqui e eles não, e estou fazendo tudo que posso para fazer isso valer. O que é muito mais do que Shauna poderia dizer. Fiquei na sala dos arquivos por cerca de dez minutos, até me sentir calma outra vez. Então voltei e busquei o carrinho sem sequer demonstrar que percebia a presença dela. Quando saí, a enfermeira tocou meu braço e me perguntou se eu estava bem. “A-ham”, respondi. “Eu estou bem.” E quer saber? Estou mesmo.

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22 de novembro Eu estava toda inquieta hoje antes de encontrar Gav. Talvez eu não devesse ficar tão nervosa — afinal, foi ele que me beijou —, mas não tenho lá muita experiência com garotos. Não quero concluir precipitadamente que somos um casal e virar um grude. Talvez ele já tenha ficado com muitas meninas; talvez, para ele, uns beijinhos não signifiquem tanto. Mas quase toda a minha inquietação desapareceu quando saltei do carro ao chegar ao hospital e ele sorriu para mim do outro lado da rua. Depois de fazermos a entrega da comida, me pareceu totalmente natural dizer: “Almoço na casa da Tessa outra vez?” Gav deixou seu carro no hospital e eu fui dirigindo. Quando estacionei em frente à casa, hesitei, sabendo que aquele momento provavelmente seria o último em que ficaríamos sozinhos por um tempo. “Ei”, disse ele, virando-se para mim no banco do passageiro. “Tudo bem?” Não paro de notar coisas novas quando ele fica assim tão perto, como algumas sardas bem clarinhas sob o bronzeado que sobrou do verão, ou a covinha que se forma só de um lado do seu rosto quando ele sorri. Eu gosto disso, de todas essas coisas. “Tudo bem”, respondi.

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Então foi como se a gravidade assumisse as rédeas da situação. Sem pensar, me inclinei para ele e ele para mim, e então estávamos nos beijando outra vez. Tive a sensação de haver passado a manhã inteira esperando por aquilo. Um calor suave e entorpecente se espalhou por mim, da cabeça aos pés, e meu coração começou a bater tão depressa que após alguns minutos tive que me afastar só para poder respirar um pouco. Gav afagou meu rosto com os dedos e beijou minha testa. Finalmente saltamos, pois logo Tessa ou Meredith apareceriam na janela para me procurar. Gav havia levado uma das sacolas de comida que sobrara da entrega. Fiquei na cozinha com ele, que me ensinou alguns dos seus segredos culinários enquanto fazia o almoço. Talvez eu consiga começar a tornar nossas próximas refeições um pouco mais apetitosas. A sensação quente e entorpecente permaneceu mesmo depois que ele foi embora. Eu e Tessa fizemos mais umas buscas, e nem a visão daquelas casas alterou o que eu sentia. Meu bom humor devia estar aparente, pois, enquanto voltávamos para casa, Tessa me olhou de relance com um sorriso discreto e perguntou: “Há quanto tempo está rolando esse lance com Gav?” Meu rosto ficou quente. “Alguns dias”, respondi. “Ele parece um cara legal”, comentou ela. “Cozinha para você. E cozinha bem. Definitivamente você deve estimular isso.” “Pode acreditar, vou fazer isso”, falei, e sorrimos uma para a outra. Foi a primeira vez que senti que eu e Tessa éramos amigas de verdade, e não apenas conhecidas unidas pelo bem da conveniência. Foi bom. Mas, na situação em que nos encontramos, acho que é impossível alguém continuar se sentindo bem por muito tempo. Logo, logo é preciso voltar a encarar as coisas ruins.

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Nada aconteceu. Eu só estava ajudando Meredith com o cabelo depois do jantar. A água é tão ruim para se lavar quanto para beber — bactérias que entram pelos olhos ou pelo nariz podem ser mais perigosas do que qualquer coisa que a gente ingere —, então, o momento do banho se tornou meio que desconfortável. Tessa colocou um balde de água fervida na cozinha, junto com um sabonete, para utilizarmos para as mãos e o rosto. E todas as noites encho a panela maior, levo-a para o banheiro para um banho completo e em seguida faço isso de novo, para Meredith. Geralmente deixamos o cabelo por último, e então o mergulhamos na água. O meu não é tão trabalhoso, está na altura dos ombros, portanto, se eu usar pouco xampu, acabo em alguns minutos. Fico feliz por nunca ter cedido quando mamãe comentava como ficaria lindo se eu deixasse o cabelo crescer de vez. O de Meredith não é tão mais comprido, mas é muito mais cheio, então acaba sendo mais difícil para o xampu penetrar, e mais difícil de enxaguar. Ela lava a parte da frente enquanto eu fico com a de trás, o que acelera o processo. Meredith tinha acabado de enxaguar pela última vez quando perguntou: “Kaelyn, o que você sentiu quando começou a ficar doente?” “No início foi como uma gripe forte”, respondi. “E como se um mosquito tivesse me mordido várias vezes. Depois disso não me lembro. O vírus não deixa a pessoa pensar direito.” Ela ficou sentada quieta enquanto eu esfregava a toalha na sua cabeça. “Você teve medo?”, perguntou ela, baixinho. Eu não queria responder, mas de que adiantava mentir? “Tive”, falei. “Não sabia o que iria acontecer.” De repente fiquei gelada, imaginando por que ela estaria me fazendo aquelas perguntas. “Você está se sentindo bem?”, perguntei.

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“Acho que sim”, respondeu ela. “Às vezes sinto uma coceira, mas passa. Isso significa que estou ficando doente?” Fiquei tão aliviada que a abracei até a umidade da toalha penetrar na blusa do meu pijama. “Definitivamente, não”, respondi. “Coceirinhas que passam são normais. Não precisa se preocupar, Mere. Não vou deixar aquele vírus se aproximar de você.” Ela fez que sim com a cabeça, mas seus olhos continuaram preocupados. Estou fazendo tudo o que posso para mantê-la a salvo, mas tenho a sensação de que nunca é o suficiente. Às vezes fico imaginando até onde a pessoa aguenta. Depois de ter passado por tanta coisa, mesmo quando a epidemia acaba, ela não volta a ser quem era antes. Espero que nunca precisemos descobrir.

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23 de novembro Acordei de manhã sentindo cheiro de fumaça. De início não me pareceu algo tão estranho, naqueles momentos entorpecidos entre o sono e o despertar. Às vezes as pessoas queimam folhas no outono. Existem famílias que volta e meia fazem fogueiras no quintal de casa, para os filhos tostarem marshmallows. Mas aos poucos fui percebendo que a fumaça tinha cheiro de madeira, e não de folhas, e quem estaria assando marshmallows em uma fogueira às seis da manhã quando há um vírus assassino à solta? Minha boca ficou seca e com dificuldade saí da cama. Os furões estavam focinhando as barras da gaiola, com as costas curvadas. O cheiro de queimado se intensificava à medida que eu avançava pelo corredor. Da porta da frente vi a fumaça, mais escura que o céu nublado, se erguendo dos telhados das casas ao sul. O cheiro pungente encheu minha garganta. Voltei para dentro e acordei Tessa, para que ela pudesse ficar atenta, por ela e por Meredith. Em seguida fui até o hospital, torcendo para que alguém lá soubesse o que estava se passando. Está tudo tão úmido que eu não imaginava que um incêndio pudesse se espalhar tanto, mas também não imaginava nem que pudesse começar.

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Já estava quase lá quando a sirene soou, a que eles utilizam para chamar os bombeiros voluntários. Uma risada curta escapou de mim antes que eu pudesse contê-la. Porque, sério, quem é que pode ter sobrado para atender o chamado? Na recepção do hospital, papai estava ao telefone. Do outro lado da sala, uma enfermeira tirava sangue de algumas pessoas em um dos cantos. Sentei-me em uma das cadeiras e tentei relaxar, mas não parava de contorcer as mãos de nervoso. Assim que papai desligou, ele foi até mim. Nem me perguntou por que eu estava lá. “Ninguém sabe o que aconteceu ainda”, disse ele. “Um grupo foi dar uma olhada.” “Você acha que o incêndio foi proposital?”, perguntei, imaginando se alguém não teria feito isso no meio de uma alucinação. “É cedo para afirmar”, disse ele. Papai passou o braço em torno dos meus ombros e me apertou, mas em seguida teve que voltar ao trabalho. Já que eu estava lá, bem que poderia ajudar. Passei as horas seguintes com a Sra. Hansen, levando lençóis e roupas para a lavanderia, e depois preparando pratos e mais pratos de mingau para o café da manhã dos pacientes. Estávamos terminando quando Gav entrou na cozinha, trazendo consigo o cheiro de fumaça. “O fogo apagou”, disse ele. “Finalmente.” “Não sabia que você tinha ido ajudar”, falei. Apesar de ele estar ileso, senti uma leve onda de pânico. Quis abraçá-lo, ter certeza de que não estava machucado, mas a Sra. Hansen estava bem ali. Ela então me lançou um olhar cúmplice e saiu empurrando o carrinho para fora da cozinha. Assim que ela sumiu de vista, eu o abracei. Ele se inclinou para mim. “Eu ouvi a sirene, então fui até lá ver se podia fazer alguma coisa”, falou. “Apareceram vários caras para tentar conter o fogo, mas só um de nós tinha treinamento. Não sei

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se realmente ajudamos a conter o incêndio ou se o fogo apagou sozinho.” Ele virou a cabeça para tossir, limpando da garganta o ardor da fumaça. Em seguida me deu um beijo na testa. “Pelo menos ninguém se machucou”, acrescentou ele. “Parecia imenso”, falei. “Seis casas. Uma ao lado da outra. A mangueira não estava ajudando em nada na contenção do fogo, e descobrimos o motivo quando encontramos um balde com cheiro de gasolina.” “Onde alguém arrumaria um balde de...”, comecei, mas parei quando enxerguei a resposta óbvia. Fechei as mãos, que estavam apoiadas na frente da camisa de Gav. Ele assentiu. “Depois que encontramos o balde, fui até o posto”, disse ele. “A porta estava arrebentada. Eles fizeram a festa.” Não precisou dizer quem eram eles. “Mas por que iriam querer queimar as casas?”, perguntei. “Não sei. Não faz o menor sentido para mim.” Talvez a gangue tenha achado que seria divertido destruir algumas construções. São pessoas que atiram em outras só porque estão doentes, afinal. Mas tenho a impressão de que eles também estão doentes — doentes de medo, doentes de egoísmo. Como alguém pode fazer o que fazem sem se odiar por isso?

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26 de novembro Nos últimos dias houve incêndios em quatro partes da cidade, todos iniciados com gasolina. Ninguém pôde fazer muita coisa além de garantir que ficassem todos em casa e impedir que as chamas se espalhassem ainda mais. Por um momento tive a esperança de que toda aquela fumaça chamaria a atenção de alguém no continente, avisaria que precisamos de mais ajuda. Sem internet, sem linhas telefônicas de longa distância e sem sorte nas tentativas de contato via rádio, bem que podíamos tentar enviar sinais de fumaça. Mas não deu em nada; nem mesmo um helicóptero passou por aqui. Ontem pela manhã Gav concordou em ir com um dos voluntários adultos até a casa de veraneio de que a gangue se apropriou para usar como base de operações, a fim de ver se estariam dispostos a conversar. “Por que você tem que ir?”, perguntei a ele enquanto o outro voluntário conversava com papai. “Acho que esse seu complexo de herói está começando a fugir do controle.” Tentei falar de um jeito provocador, mas a verdade é que eu estava assustada. Aquele garoto da picape teria me dado um tiro sem nem pensar duas vezes. Eu não tinha muita esperança de que eles fossem dar ouvidos à voz da razão. 230 | P á g i n a


“Eu já tive mais contato com eles do que qualquer outra pessoa aqui”, observou Gav. “Mas a gente travou as bombas”, falei. “Eles não podem ter roubado tanta gasolina em uma só ida ao posto. Quando acabar o que conseguiram, eles vão ter que parar de qualquer jeito.” “E aí vão fazer outra coisa.” O que é verdade. Então fiquei ali, com os braços cruzados e um peso no estômago, vendo-o ir até o carro. Foi muito difícil vê-lo ir embora e não gostei nada disso. Acabei de superar dois anos sofrendo por você, Leo — a última coisa de que preciso é me envolver tanto com outro garoto a ponto de não conseguir raciocinar. E Gav não vai querer uma garota carente, que fica esperando por ele na janela, em vez de ter seus próprios assuntos para resolver. Então fervi mais água, servi o almoço e tentei não olhar para o relógio a cada dois minutos. Gav chegou exatamente uma hora e catorze minutos depois. Quando o ouvi entrando pelas portas, parei e permiti que a sensação de alívio me inundasse. Em seguida me obriguei a levar o carrinho de volta para a cozinha antes de descobrir o que tinham conseguido. “Fomos parados algumas casas antes da deles”, contou Gav enquanto o outro voluntário deixava papai e Nell a par da situação. “Dois deles se postaram na frente do carro: Lester, que trabalha nas barcas, e a irmã mais velha de Vince, Andrea. Ela apontou uma arma para nós dois. Nenhum deles quis ouvir o que tínhamos a dizer. Só ficaram repetindo que estavam provocando os incêndios ‘pelo bem da ilha’. ‘Estamos limpando a cidade’, disse Lester. ‘Aposto que o vírus não sobrevive à incineração!’ Eu falei que as pessoas também não sobreviveriam, e ele simplesmente riu. Então Andrea apontou a arma direto para nós e disse que tínhamos dez segundos para sair dali.” Então eles estão queimando a cidade inteira para tentar eliminar o vírus.

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Não paro de me lembrar de como Quentin estava na loja de brinquedos. Tão furioso e desesperado. Eu disse a ele que o governo não ajudaria enquanto a ilha não fosse um lugar seguro e estivesse livre do vírus, e que ainda não sabíamos como vencer a doença. Então agora eles estão tentando fazer isso do jeito deles. E quer saber? Contanto que mantenham as balas e os incêndios longe das pessoas com quem me importo, por mim tudo bem.

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27 de novembro Hoje decidimos dar um tempo e pararmos um pouco de nos preocuparmos com o vírus, com as gangues, com o fato de a ilha estar desmoronando. É o aniversário da mamãe, ou seria, e o papai disse que deveríamos compensar pelo Dia de Ação de Graças perdido e honrar a memória dela. Eu e Tessa cozinhamos os últimos peitos de frango que havia no freezer e fizemos uma salada de verdade, com alface e tomates da estufa. Ver papai sentado à mesa foi muito estranho. Foi a primeira refeição dele na casa da Tessa, junto com a gente. Mas, depois que começamos a comer e conversar, todo mundo relaxou. Papai contou como conheceu mamãe na faculdade, e sobre o dia em que criou coragem para convidá-la para sair, e eu falei sobre como ela me ensinou a andar de bicicleta e me estimulou a continuar apesar de acabar mais machucada do que eu no fim do dia. E então ficamos em silêncio, o que também pareceu apropriado. Fiquei imaginando onde estaria Drew, e se ele estaria pensando na mamãe. Nossas palavras pareciam insuficientes sem ele. A dor no meu peito aumentou e até agora não passou. Depois que limpamos tudo, papai foi com Meredith ver todos os colares e pulseiras que ela fizera com o conjunto de miçangas, e eu e Tessa nos sentamos no sofá. Ela olhou para a lareira, onde há duas fotos dela com os pais — sentados em um tronco em uma floresta e apertando os olhos à luz do sol diante de um campo. De repente eu quis abraçá-la, apesar de Tessa ser a pessoa menos chegada a abraços que já conheci.

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Sinto saudade de mamãe e de Drew o tempo todo, mas ainda tenho papai. Tessa está sozinha há muito tempo. “Como você consegue?”, perguntei. “Consigo o quê?” “Ficar tão calma e controlada, mesmo não tendo ninguém”, respondi. “Eu não aguentaria.” “Eu tenho pessoas”, retrucou ela. “Tenho você e Meredith.” “Mas você mal me conhecia quando a epidemia começou”, falei. “Não é a mesma coisa.” Ela deu de ombros. “Agora conheço. Vejo o que tenho e evito pensar no que não tenho. Não sei se ficaria menos preocupada com os meus pais se eles estivessem aqui comigo. Provavelmente me preocuparia ainda mais. Pelo menos, até onde sabemos, o vírus não se espalhou pelo continente.” Comparada a ela, devo parecer um desastre. Acho que Tessa tem sua casa, sua estufa e as buscas que fazemos, e reduziu sua vida a essas três coisas. Deve ser mais fácil conservar a sanidade mental assim, mas não consigo me imaginar deixando para trás o trabalho no hospital, ou as distribuições de comida. Mesmo quando o que vejo é muito difícil de encarar, pelo menos sei que estou ajudando. Sem isso, acho que não estaria lidando nada bem com a situação. Eu não tinha a intenção de mencionar isso, nunca tive, mas meio que escapou. “Antes”, principiei, traçando com o dedo a estampa do braço do sofá, “quando a escola ainda estava funcionando, teve um dia em que você chegou atrasada na aula e não quis sentar ao meu lado.” Ela franziu o cenho. “Que aula?”, perguntou. “Onde você estava sentada?” “Biologia”, respondi. “Eu estava na frente. Mas deixe para lá. Não tem importância.” “Não, eu sei por quê. Sempre sento nos fundos. Quando estamos fazendo revisão da matéria, gosto de aproveitar e começar logo os deveres das outras aulas, mas a

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maioria dos professores não gosta quando flagra alguém fazendo isso. Não dá para sentar lá na frente.” Simples assim. Não dava para sentar ao meu lado. Se eu conhecesse Tessa na época, talvez tivesse percebido que não era sua intenção me esnobar. Ela não perde tempo guardando mágoas ou classificando as pessoas. Só quer poder fazer o que quiser, do seu próprio jeito. Naquele momento, sua atitude me parecera arrogante. Mas agora meio que admiro sua postura. Tessa também brilha, à sua própria maneira, firme e atenta. Ela pode não iluminar um recinto como Shauna, mas não iria querer fazer isso. Acho que você percebeu isso há muito tempo, Leo. E talvez eu tivesse feito o mesmo, se não estivesse tão ocupada sentindo raiva dela por ter você. “Obrigada”, disse eu a ela. “Por nos deixar ficar aqui. E por tudo.” Por não perceber ou por ignorar o fato de que há dois meses eu teria ficado feliz em roubar seu namorado — essa parte eu não disse. Achei que eu não me importasse mais, agora que Gav e eu somos, bem, o que quer que seja, e que Tessa e eu somos pelo menos mais ou menos amigas. Mas não tenho certeza de que realmente esqueci o assunto até aquele instante. A sensação foi de que o espinho que vinha me espetando na lateral do corpo há meses finalmente conseguiu se soltar e caiu. Não sei o que eu teria feito sem Tessa. Ela merece você, Leo.

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28 de novembro Sabe, apesar de tudo que se ouve sobre a “Mãe Natureza” e a harmonia do mundo natural, a verdade é que a natureza não está nem aí para nada nem ninguém. Todos os cientistas sabem disso. A natureza não tem sentimentos ou moral; são só alguns acasos que às vezes funcionam em favor de um bando ou de outro rebanho, e que às vezes extinguem alguma espécie. Um acaso qualquer deu a este vírus uma chance de infectar nossos cérebros, e de se espalhar ao fazer com que suas vítimas queiram a companhia de outras pessoas. E, para a natureza, pouco importa se venceremos nós ou o vírus, dá no mesmo. Não há nada que pare e pense sobre quantas pessoas vão se machucar e até que ponto. Mas de vez em quando ainda quero ter alguém para agarrar, sacudir e gritar no seu rosto: “Como pôde fazer isso?” Uma pergunta que a natureza nunca vai responder. Fui ao hospital hoje à tarde. Eu e Tessa decidimos que não deveríamos deixar Meredith sozinha em casa para fazermos nossas limpas, não com a gangue provocando incêndios por todo o lado. Achei um exemplar de Os lobos não choram na biblioteca há um tempo, e tenho lido capítulos para os pacientes em estágio inicial da doença, que ficam entediados e deprimidos enquanto esperam que o vírus penetre ainda mais nos seus cérebros. Eu estava na minha parte favorita, em que Farley Mowat persegue um bando de lobos totalmente nu, exceto pelos sapatos, quando ouvi alguém gritando. O que seria perfeitamente normal no hospital atualmente, a não ser por

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ter vindo da recepção, e não lá de cima, que é para onde foram transferidos os pacientes em estado mais grave. E era uma voz familiar. “Já volto”, falei, e saí para ver o que estava acontecendo. As palavras se tornaram mais claras assim que abri a porta: “Quanto tempo demora para o teste ficar pronto? Quando vou saber?” Gav estava no fim do corredor, uma das mãos na parede e a outra agarrando a máscara. Seu rosto estava vermelho e seus ombros tremiam. Meu coração não apenas afundou; despencou. “Você precisa se acalmar”, dizia Nell a ele. “Estamos fazendo o máximo que podemos. Por favor, coloque a máscara.” Que diferença faz?,pensei. De que adianta a máscara se ele já estiver doente? Ele respirou fundo e disse, dessa vez sem gritar: “Vão fazer alguma coisa por ele? Tem alguma coisa que vocês possam fazer?” Então percebi que ele estava vermelho devido ao nervosismo, e não por causa da febre. Não era ele. O que significava que só podia ser uma pessoa. “Estamos fazendo o possível”, repetiu Nell. “Ótimo!”, exclamou Gav. “Então eu o trouxe até aqui só para poderem trancá-lo em um quarto e o deixarem morrer. Danem-se.” Ele andou de um lado para o outro, inquieto, como se quisesse continuar a falar mas estivesse irritado demais para encontrar as palavras. No fim, virou-se e saiu furioso da recepção. Por um instante, fiquei paralisada. Depois minhas pernas dispararam e eu corri atrás dele, arrancando minha capa de proteção no caminho.

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Ele já tinha atravessado as portas da saída. Alcancei-o nos degraus de fora. Ele não hesitou nem olhou para trás ao ouvir o som dos meus passos, então chamei: “Gav, espere!” Foi como se eu tivesse batido nele. Ele parou e se sentou nos degraus, em meio às poças formadas pela chuva de hoje de manhã, e afundou a cabeça nas mãos. O casaco que estava usando era grande demais para ele — era do pai, já tinha mencionado isso —, e de repente Gav me pareceu muito pequeno. Sentei-me ao lado dele e passei o braço nas suas costas. Não me pareceu certo eu ser a primeira a falar. “Eu fiz de tudo para ele não se contaminar”, disse Gav após um tempo, com a voz áspera. Acho que ele estava tentando não chorar. “Warren?”, perguntei, apesar de não conseguir imaginar por quem mais ele poderia ficar tão chateado. “Eu o convenci de que ele ajudaria mais se trabalhasse com as crianças na igreja, porque sabia que todas tinham sido examinadas, então era seguro”, prosseguiu ele, sem responder. “Fiz com que ele usasse a porcaria da máscara durante todos os minutos de todos os dias.” “Ele já fez o exame de sangue?”, perguntei. “Está fazendo agora. Mas... deu para perceber. Foi bem repentino. Ele passou o dia todo bem, até mais ou menos uma hora atrás, quando, do nada, não conseguia parar de tossir ou de coçar o pescoço. Praticamente tive que lutar com ele para conseguir que entrasse no carro, porque tinha decidido vir sozinho, como se fosse conseguir. Estava preocupado comigo.” Gav balançou a cabeça, como se fosse a ideia mais ridícula de todos os tempos. Ficamos ali sentados sem dizer nada durante alguns minutos. Tudo dentro de mim parecia confuso, formando minúsculos nós. Por fim, Gav levantou a cabeça e me olhou. A expressão em seu rosto só fez apertar ainda mais os nós, até que eu mal conseguia respirar. Ele parecia derrotado.

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“De que adianta, Kaelyn? Se nada do que a gente faz importa, se vamos todos morrer mesmo, de que adianta?” Não sei. Se nem Gav consegue mais enxergar um propósito... E se não houver um? Mas eu não podia dizer isso, não com ele me olhando daquele jeito. Um pensamento começou a se formar na minha mente, tão delicado que tive medo de examiná-lo. Talvez eu não precise me preocupar com o que sinto por ele, Leo. É diferente de como era com você. Talvez ele precise de mim. Então fiz a única coisa que me ocorreu: beijei Gav. E ele passou os dedos pelo meu cabelo e retribuiu o beijo, com intensidade. Minha resposta foi suficiente, por ora. Espero poder encontrar uma melhor. Tanto para ele quanto para mim.

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29 de novembro Voltei à sala dos arquivos ontem à noite, imaginando se haveria algo que eu e papai não conseguimos perceber. Peguei as pastas dos seis sobreviventes, inclusive a minha, e peguei outras dez aleatoriamente para comparar. Enquanto puxava a última, meus olhos passaram pelos nomes das pastas atrás, e vi a sua, a da sua mãe, e a do seu pai. Não vi seus pais em nenhuma das rondas de distribuição de comida. Eu estava torcendo para que estivessem saudáveis, mas não sabia. Poderia ter perguntado a Tessa se ela havia falado com eles; poderia ter passado na casa deles; poderia ter olhado as fichas antes. Só que no fundo eu não queria descobrir. Enquanto eu não soubesse, existia a possibilidade de estar tudo bem. Mas ontem, sem pensar muito, guardei a ficha que estava segurando e peguei a deles. Sinto muito, Leo. Existe um motivo para eu não tê-los visto desde que comecei a trabalhar como voluntária. Sua mãe deu entrada no hospital apresentando os sintomas iniciais uma semana após anunciarem a quarentena. O mesmo aconteceu com seu pai, alguns dias depois. Os dois já estavam mortos antes mesmo de eu adoecer. Tem uma pasta para praticamente cada pessoa da ilha naquele arquivo. Olhando para tudo aquilo, percebi que poderia ver quantos dos nossos vizinhos o vírus vitimou, quantos dos professores não sobreviveram, quantos alunos 240 | P á g i n a


do colégio chegaram ao hospital antes de Shauna e nunca mais saíram. Não sei por que, mas a enormidade da situação me atingiu naquele instante de um jeito que eu ainda não tinha sentido antes. Cinco segundos depois eu estava do outro lado do corredor, agachada no chão do banheiro, tentando manter meu jantar no estômago. Mesmo quando minhas entranhas pararam de se revirar, a minha boca continuou com um gosto ácido. A pedreira deve estar lotada de corpos. Tantas pessoas. Pessoas com as quais passamos a maior parte das nossas vidas. Isso tem que acabar. Quando consegui me levantar, voltei para a sala dos arquivos, fechei a gaveta e me forcei a continuar trabalhando. Organizar as informações seria muito mais fácil com um computador. Drew poderia ter inventado um programa como o que elaborou para aquelas ligações que fiz... Aquilo foi realmente há menos de dois meses? Se Drew estivesse aqui... Mas se a eletricidade acabasse, como já aconteceu com praticamente tudo, eu perderia as informações. Então comecei a fazer tabelas em um bloco de papel quadriculado que encontrei na prateleira de materiais, comparando números, datas e medicamentos. Quanto tempo cada pessoa demorou para chegar a cada estágio da doença. Quantidade de remédios que cada uma tomou, e a que horas. Procurando qualquer elemento em comum. A resposta poderia ser um detalhe tão pequeno que ninguém enxergaria a não ser que analisasse cada fator com o máximo de atenção. Tem tanta informação... Tantos fatores... Preenchi seis folhas de papel em três horas, e nenhuma das informações me pareceu remotamente significante. Então Nell me encontrou ali. “O que ainda está fazendo aqui, Kaelyn?”, perguntou ela. “Já é quase meia-noite.” Olhei para ela, meio entorpecida. Meu cérebro estava inundado de observações médicas que eu mal compreendo.

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Quando não respondi, os olhos dela se suavizaram, mas sua voz tornou-se mais firme: “Muito bem”, disse Nell. “Vamos. Como médica, estou mandando você de volta para casa. Descanse um pouco.” Como se ficar aqui sentada, no mesmo quarto que Meredith, sabendo que não há nada que eu possa fazer se ela de repente acordar e começar a espirrar, fosse fazer com que eu me sentisse melhor. Vou voltar lá hoje. E amanhã, e depois, até ter registrado cada mínimo detalhe. Tem que haver alguma ligação. Não vou parar até descobrir.

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30 de novembro Choveu todos os dias desde o aniversário de mamãe, pelo menos durante parte do dia. A chuva fria e pesada que sempre cai no fim do outono. Não é algo agradável, mas vamos de carro a todos os lugares, então não tive tantas oportunidades de me incomodar com o clima. A parte boa é que chuva e fogo não combinam, e os amigos do Quentin obviamente sabem disso. Pelo visto, eles não tentaram incendiar mais nenhuma residência. Talvez estejam guardando a gasolina que roubaram para quando for possível causar mais estragos. Ou talvez finalmente se toquem e percebam que queimar uma casa aqui e outra ali não vai resolver nossos problemas. A não ser que nos façam um favor e queimem a si mesmos junto. Como os incêndios foram interrompidos com as chuvas, concluí que era seguro deixar Meredith sozinha por um tempinho — quer dizer, tão segura quanto poderia estar na situação em que estamos. Então Tessa e eu saímos para fazer algumas rápidas buscas pelas casas abandonadas hoje à tarde. Passamos por algumas casas não muito longe da rua principal, mas metade delas já parecia ter sido invadida pela gangue. No entanto, eles basicamente se concentram em comida e eletrônicos, então às vezes, pelo menos, encontramos comprimidos e pomadas nos armários de remédios. Quando chegamos à terceira casa com um rack de TV vazio, Tessa balançou a cabeça.

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“Não entendo por que eles acham que alguns aparelhos de TV e DVD vão ajudar a mantê-los vivos”, disse ela. “Talvez estejam planejando levar tudo para o continente para tentar vender”, falei. “Quando descobrirem como sair daqui sem levar um tiro.” Então me lembrei de ter visto a loja de jardinagem vazia um dia desses, e passamos por lá. Tessa olhou para as prateleiras por alguns minutos, pegando embalagens e caixas e em seguida devolvendo-as ao lugar, o cenho franzido. “Eu vinha aqui quase toda semana”, disse ela. “A dona encomendava coisas especialmente para mim. Ela ama essa loja.” “Vai que aqueles caras voltam algum dia desses e pegam tudo que você não levar hoje?”, observei. “Ou incendeiam o lugar?” Talvez a dona já tenha até morrido. “Tem razão”, concordou Tessa. “Além do mais, posso devolver o que eu não usar, e pagar pelo que tiver usado quando a loja reabrir.” Ela pegou todas as sementes e bulbos, todos os sacos de fertilizantes que conseguiu colocar no carro, mais vários vasos e bandejas de plantio. Depois que fechou o portamalas, parou por um instante embaixo do toldo. “Tudo bem?”, perguntei. “Sim”, respondeu ela, e deu um sorriso. “Só estava pensando... Leo vinha aqui comigo, me ajudava a colocar as coisas no carro. Eu passava o tempo todo falando sobre as minhas plantas, e ele só assentia e sorria, assim não dava para saber que ele não estava entendendo quase nada. Ele não gostava de jardinagem, fazenda, nada disso. Mas, naqueles instantes, ele gostava, por minha causa. Ele é assim. Ela baixou os olhos e virou a cabeça. Eu não tinha percebido antes o quanto ela sente sua falta. Uma desconfortável mistura de culpa — pelas vezes em que pensei que ela não gostasse de você — com a saudade que também sinto cresceu no meu peito.

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“Ele é incrível”, falei. “É”, disse ela. “O melhor.” E entrou no carro. E foi isso, assunto encerrado. “Gav está bem?”, perguntou ela no caminho para o hospital. “Faz um tempo que ele não aparece.” “Ele está bem”, respondi. “É só... O melhor amigo dele ficou doente. Ele tem passado quase todo o tempo fazendo companhia a ele.” Apesar de doer quando falo sobre Warren, por saber como Gav está preocupado, e apesar de ter sentido uma pontinha extra de culpa ao perceber o quanto devia ser difícil para Tessa nos ver juntos quando o namorado dela estava a quilômetros de distância, eu ainda tinha aquela sensação calorosa e entorpecente quando pensava nele. Durante todo o percurso de volta à casa de Tessa, eu me deixei flutuar nessa sensação, imaginando como conseguia ficar tão feliz com uma coisa quando tantas outras estavam dando errado. Ela estacionou na entrada. Tudo parecia normal. Então a janela do segundo andar se abriu e a voz de Meredith me trouxe de volta à Terra: “Kaelyn!” Ela engasgou algumas vezes, e fazia aquele barulho que as pessoas fazem quando estão chorando e tentando se acalmar. “Cuidado!”, disse ela. “Acho que eles já foram, não tenho certeza.” Meu coração parou. “Quem?”, perguntei. “O que aconteceu?” Mas ela começou a soluçar e não conseguiu responder. Tessa foi até a porta e a abriu às pressas. A maçaneta se soltou na mão dela. Lá dentro, o chão estava cheio de pegadas lamacentas, e via-se que todas as portas dos armários da cozinha tinham sido escancaradas. Ela correu até lá. Eu subi as escadas em desespero. A porta do quarto principal estava fechada e trancada. Bati. “Meredith”, falei, “pode sair agora. Eles já foram. Você está bem?”

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Ela fungou, e ouvi o ruído da tranca. Assim que abriu a porta, eu me ajoelhei e a puxei para os meus braços. Ela enterrou o rosto no meu ombro. “Foi aquele menino, o garoto zangado que entrou na loja de brinquedos”, contou ela. “E várias outras pessoas também, mas eu não conhecia ninguém. Ele me segurou e me mandou mostrar onde a gente guardava as coisas que você e Tessa andam pegando das casas. Eu disse que vocês levavam para o hospital, e ele ficou com muita raiva. Quando começaram a revirar a cozinha, ele se distraiu, então me soltei e corri aqui para cima. Eu fiz certo, não fiz?” “Certíssimo”, falei. Eu estava tão furiosa que minha voz tremeu. Se tivesse uma arma e Quentin aparecesse na minha frente naquele instante, acho que eu poderia matá-lo sem hesitar. Soltei Meredith calmamente e olhei para ela. Seus pulsos já estavam começando a ficar machucados, uma mancha roxa em forma de dedos na sua pele marrom-escura. Abracei-a novamente, e beijei sua cabeça. Então um uivo fino, tão dolorido que fez meu braço se arrepiar todo, rompeu o ar. A primeira coisa que me veio à cabeça foi que eu tinha me enganado, que havia ainda alguém na casa e estavam machucando Tessa. “Fique aqui”, falei para Meredith. “Deixe a porta trancada até que eu diga o que é seguro.” Ela assentiu, e eu fui me esgueirando até a escada, onde espiei por cima do corrimão. Minha intenção era pegar o inimigo de surpresa para aumentar minhas chances, mas não vi ninguém, só a cozinha revirada e, ao avançar sorrateiramente para a entrada, a porta dos fundos balançando ao vento. Quando cheguei até lá, vi Tessa lá fora no quintal, perto da porta, suas mãos claras apertando uma a outra à frente do seu corpo. A chuva molhava suas roupas e seu cabelo.

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Aquele som devia ter vindo dela, porém, quando cheguei, encontrei-a em silêncio total. Apenas olhando para a estufa. Quando vi, parei de súbito atrás de Tessa. Tinham estilhaçado a parede frontal, e parte de uma das laterais também. Resíduos de grama molhada brilhavam nas pedras do pátio. Marcas de botas cruzavam as áreas do jardim, com folhas e caules no caminho. Havia fossos e buracos na terra onde plantas — imagino que as que eram claramente comestíveis — tinham sido arrancadas e levadas, e outras estavam pela metade, com as partes superiores arrancadas. A chuva começou a escorrer pelo meu pescoço, sob o colarinho do meu casaco. Tremi, mas não quis me mexer até que Tessa o fizesse. Estava esperando que ela agisse, começasse a catar os pedaços e colocá-los de volta no lugar da melhor maneira possível; que me dissesse que, apesar de ser um incidente horrível, poderia ter sido pior. Sempre pode ser pior. Em vez disso, ela se virou e olhou para mim, com os cílios escuros e molhados. “Eles sabiam quando estaríamos fora”, disse ela. “Estavam nos vigiando.” “Meredith disse que estavam procurando a comida que pegamos das casas”, falei. “Acho que devem ter nos visto...” Parei. De repente entendi como tinham nos visto. Eles sabiam que eu tinha sobrevivido ao vírus, e Quentin estava convencido de que eu sabia alguma coisa sobre a cura, então estavam me vigiando. Desde que aquele primeiro garoto apontou a arma para mim, talvez. De que outro jeito Quentin poderia saber onde eu estaria quando fomos até a loja de brinquedos? E desde aquele dia ele devia estar esperando para se vingar pela forma como o envergonhei. A gangue não precisava do pouquinho de comida que vínhamos conseguindo sozinhas. Eles tinham toneladas.

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Meredith contara a Tessa o que acontecera na loja de brinquedos. Ela claramente havia chegado à mesma conclusão que eu, só que mais depressa. “Foi por sua causa”, declarou. Simplesmente, constatando um fato. Em seguida passou por mim e entrou. Quando fui atrás dela, a porta do seu quarto bateu. E desde então ela não saiu mais de lá. Se ela não tivesse me convidado para ficar na sua casa, isso nunca teria acontecido. Não sei o que fazer. Como posso compensá-la por algo tão enorme?

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1º de dezembro Primeira nevasca do inverno. Não foi nem neve de verdade — granizo. Chuva cinza e lamacenta batendo nas janelas desde cedo. Depois do jantar, Meredith e eu estávamos vendo A pequena sereia pela oitava vez quando as luzes e a TV piscaram e apagaram. Não sei se a queda é temporária ou permanente. Espero que seja temporária. Sem eletricidade não temos geladeira, fogão nem micro-ondas. Talvez nem mesmo aquecedor. Gav ligou pouco depois que acabou a luz. Percebi que ele estava no hospital, por causa da confusão de vozes ao fundo. “O hospital inteiro ficou às escuras enquanto eu estava com Warren”, disse ele. “Só agora ligaram o gerador. Disseram que caiu a luz da cidade inteira. Você está bem?” Tinha tateado no escuro para conseguir achar o telefone. Meredith continuava encolhida no sofá, respirando com dificuldade. Agachei perto da parede e fechei os olhos. “Estou”, respondi. “Tessa está procurando as velas que os pais dela guardam para emergências. É meio assustador, mas vamos sobreviver.” “Vou passar aí”, disse ele. “Só preciso me despedir do Warren.” Eu queria vê-lo. Tanto que meu estômago doeu por ele ainda não ter chegado. Cheguei a ficar um pouco com ele e 249 | P á g i n a


Warren no hospital, porém me sinto desconfortável me intrometendo na amizade deles, então não o vi muito nos últimos dias. Quando abri a boca para falar, a janela ao meu lado se sacudiu devido ao vento e ao granizo, e enxerguei mentalmente as compridas e escorregadias estiadas em meio ao breu que nos separava. A imagem do vidro da estufa quebrado surgiu à minha frente, depois se transformando no para-brisa estilhaçado do Ford, e antes mesmo de eu elaborar o que falaria, já estava dizendo: “Não. Fique aí.” “Não estão precisando de mim”, disse Gav. “E de qualquer forma, vão apagar as luzes para os pacientes dormirem daqui a meia hora. Eu só...” “Gav”, falei, tentando soar firme, apesar de a dor no meu estômago ter virado um nó. “Não. Não quero que você venha. Vamos ficar bem.” Fez-se uma pausa; então ele respirou fundo e falou: “Certo. Claro. Tudo bem.” Como se não estivesse nem um pouco bem. “Até mais, então”, acrescentou ele. E de repente eu estava dizendo “tchau”, embora quisesse me explicar. “Kaelyn?”, chamou Meredith, e então tudo o que ouvi foi o sinal de ocupado. Quando voltei para o sofá, Tessa já tinha chegado com as velas, e fomos para os nossos quartos. Meredith finalmente pegou no sono há alguns minutos. Os furões estão empoleirados na plataforma superior da gaiola, acompanhando o brilho da vela com os olhos. Talvez eu não devesse desperdiçá-la escrevendo no diário. A caixa que Tessa encontrou só tinha mais algumas. Além disso, até que combina com a situação ficar à deriva no escuro.

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3 de dezembro Estou de volta à sala do tio Emmett, onde, há um milhão de anos, ficamos sentados ouvindo papai falar sobre o vírus que tinha matado uma pessoa e que poderia ser um risco. É tão estranho estar aqui novamente. Tirei um cochilo no sofá hoje à tarde. Quando acordei e ouvi alguém na cozinha, por um segundo pensei que fosse mamãe. “Não precisa se incomodar tanto, Grace”, tio Emmett dizia, e mamãe respondia: “Quero ter certeza de que você está fazendo uma refeição decente pelo menos de vez em quando”, e então ele murmurava alguma coisa para si mesmo e se sentava na poltrona para ver TV. Eu ficava louca da vida ao vê-lo reclamar com ela por preparar o jantar e nunca se oferecer para ajudar. O que eu não daria para tê-los aqui novamente, implicando um com o outro. Ontem de manhã nos mudamos para cá — Meredith, Tessa, os furões e eu —, porque a eletricidade parece ter acabado de vez, e, ao contrário da casa de Tessa e da minha, a do tio Emmett tem um gerador. Papai me ajudou a consertar a porta da frente, e, usando o carro dele e o de Tessa juntos, conseguimos trazer todas as coisas importantes de uma só vez. A gangue levou o computador quando passou por lá, mas este seria um luxo que hesitaríamos em usar de

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qualquer jeito. Não queremos correr o risco de sobrecarregar o gerador. Temos o fogão para ferver água e cozinhar, e temos luz se precisarmos. É tudo de que realmente precisamos atualmente. Não sei o que todas as outras pessoas da cidade estão fazendo. O hospital está se virando bem, é claro — tem o maior gerador da ilha. E algumas outras casas têm geradores particulares, então as pessoas podem ir levando. Papai disse que várias delas estão vazias e que há algumas perto do hospital, para quem precisar de abrigo. A igreja também tem um equipamento desses, então as crianças devem estar bem. Meredith e eu estamos dividindo o antigo quarto dela. É um pouco apertado, mas eu trouxe os binóculos, e observo o continente pela janela sempre que tenho um tempo livre, embora tudo que tenha visto até agora se resuma a luzes fracas em meio à névoa que se eleva do estreito. Como somos as anfitriãs agora, achei que devêssemos oferecer o quarto maior para Tessa. Não sei como ela está se sentindo — mas, pensando bem, nunca soube direito. Ela foi até o jardim antes de irmos embora de sua casa, e voltou de lá sem nada. Acho que não havia muito o que salvar. Vejo uma rigidez na maneira como ela se move e fala que não me lembro de ter notado antes. Como se ela tivesse se quebrado e as partes não houvessem sido bem encaixadas ao serem remontadas. Tenho tido o cuidado de cozinhar sempre, e deixo que ela decida quando quer falar comigo. Pequenas coisas. Se conseguisse pensar em algo melhor, eu o faria. Ontem passei o dia inteiro sem ter notícias de Gav. Hoje de manhã, enquanto tirava a mesa do café, ouvi uma batida leve na porta. Quando abri, ele estava no degrau da entrada, com os ombros ligeiramente curvados e o cabelo emaranhado. Parecia tão desconfiado quanto no primeiro dia em que foi à minha casa. Por um segundo foi como se nada do que tinha acontecido desde então fosse real. “Oi”, disse ele.

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Respondi também um “Oi”, e então me estiquei instintivamente para ele. Ele pegou minha mão e entrou, entrelaçando os dedos nos meus. Sustentou meu olhar como se estivesse procurando alguma coisa. Após um instante, inclinou-se para me beijar. E eu tive certeza de que tudo tinha sido real. Passei o outro braço pela sua cintura, e ele relaxou um pouco. “Desculpe não ter vindo antes”, disse ele. “Fui até a casa da Tessa ontem à tarde, e vocês não estavam lá. Não sabia ao certo onde procurar.” “Tudo bem”, falei. Achei que não valia a pena lembrar nossa desconfortável conversa ao telefone na noite em que a eletricidade caiu. “Imaginei que, se você não me encontrasse antes, a gente acabaria se vendo no hospital hoje, quando eu fosse lá. Como está Warren?” Gav deu de ombros, mas cerrou os punhos. “O mais confortável que podem deixá-lo”, respondeu ele. “Dão um pouco de aspirina para a febre, e chá e pastilhas de menta para aliviar a garganta... É o máximo que podem fazer.” “Não é culpa deles”, falei. Acho que papai atravessaria o estreito a nado durante uma nevasca se achasse que do outro lado lhe dariam os medicamentos necessários. “Eu sei”, respondeu ele. “E também, os remédios específicos não fizeram diferença alguma antes. Talvez a verdadeira cura fossem balas de menta, esse tempo todo.” Ele tentou sorrir, porém senti hesitação em sua boca. “Acho que tem sido difícil para ele”, acrescentou Gav. “O pai de Warren levou a irmã mais nova dele para ficar com os avós em Dartmouth e não conseguiu voltar antes da quarentena. E a mãe tem medo de ir ao hospital. Ele tem que aguentar tudo isso tendo praticamente só a mim como companhia.”

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“Você acha que ele gostaria que eu aparecesse outra vez?”, perguntei. “Eu o visitaria mais vezes, só não sabia se ele se sentiria confortável, já que não me conhece tão bem.” “Acho que ele gostaria muito”, disse Gav, e sorriu de verdade. “Eu ia passar lá depois daqui, por que não vamos juntos?” Então eu fui. Puseram Warren em um dos quartos menores, que era uma sala de exames quando o hospital ainda funcionava normalmente. Uma senhora estava deitada na maca tendo uma crise de espirros quando entramos, e um menino de mais ou menos dez anos estava sentado recostado na parede, e ficava pausando o mini game para coçar o peito do pé esquerdo. Warren estava esparramado no chão sobre um cobertor dobrado, as costas apoiadas em um travesseiro, um livro aberto nos joelhos. “Kaelyn!”, disse ele ao me ver, e ergueu as sobrancelhas para Gav. “Cansou de vir sozinho, não foi?” Mesmo com uma máscara cobrindo-lhe o rosto, deu para perceber que Gav fazia uma careta para ele. “Eu vivo dizendo para ele ficar em casa”, acrescentou Warren, dirigindo-se a mim. “Se alguém quiser pegar a doença, o lugar é esse. Como sempre, ele me ignora.” “Eu sempre ouço quando você diz coisas que valem a pena ouvir”, retorquiu Gav, e Warren sorriu por um instante antes de começar a tossir. Ele pegou uma xícara ao seu lado e tomou um pouco de chá até a tosse passar. Tive que procurar alguma coisa para dizer que não tivesse nada a ver com o vírus, nem com o hospital, nem com nada deprimente. Finalmente, optei por: “O que você está lendo?” “Um suspense com uma trama de política que alguém deixou aqui”, disse ele. “Não faz exatamente meu gênero, mas não tem muita alternativa.” “Tem uma biblioteca no segundo andar”, falei. “É pequena... só um armário, na verdade... mas eles tentam ter ali um pouquinho de tudo. O que você quer?”

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Os olhos dele se iluminaram. “Por onde eu começaria?”, perguntou-se ele. E manteve o mesmo tom alegre enquanto sugeria autores e assuntos: “Pode ser política, desde que não seja ficção, mas biografia não: biografias de políticos conseguem ser pior do que esse suspense aqui.” E continuou falando. Como se não fosse nada demais o fato de ele estar lá, como se o que tivesse contraído fosse uma bobagem que bastava um pouco de descanso para sarar. A verdade é que ele já está doente há quase cinco dias, o que significa que provavelmente estará fora de si amanhã, e pude perceber que ele tinha tanta consciência disso quanto eu. Sua mão tremia sempre que pegava a xícara de chá, e seus olhos desviavam dos nossos sempre que ele ria. E toda vez que ele mencionava o hospital ou fazia alusão ao fato de estar doente, seu sorriso aumentava. Eu e Gav não éramos os únicos de máscara. Warren levantou a dele com piadas e brincadeiras. Senti uma pontada no peito ao ver isso. Ele está assustado, como qualquer um estaria. Não sei até que ponto ele assumiu esse comportamento para animar a si mesmo ou se foi pelo bem de Gav, isso não importa muito. Porque, de uma forma ou de outra, não havia nada que eu pudesse fazer além de ficar ali e observá-lo, e ir lá em cima buscar um livro novo para ele. Depois voltei para cá, para registrar tudo isso, como faria com os hábitos dos coiotes e com as observações das gaivotas. Inútil. Tão incrivelmente, absolutamente inútil.

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5 de dezembro Descobri! Ah, meu Deus, Leo, eu descobri mesmo! A resposta estava lá o tempo todo. Eu só não tinha recuado no tempo o suficiente. Talvez eu nunca tivesse enxergado a conexão se não fosse por Howard — o homem que sobreviveu e que agora retira os cadáveres do hospital. Acho que ele está morando lá desde que a energia elétrica foi cortada. Fui até a cozinha do hospital hoje de manhã para ferver água e repor um pouco da água limpa, que estava acabando outra vez, e ele estava lá, preparando um copo de leite em pó para colocar no trigo amassado e fazer mingau. Eu nunca o tinha visto sem estar empurrando corpos. Ele é mais alto do que eu imaginava, provavelmente tinha que se abaixar para empurrar a maca. E apesar de ter o cabelo quase completamente grisalho, de perto dá para ver que não é velho. Mais novo que papai — deve ter uns trinta e tantos anos, talvez. Eu disse oi, ele respondeu olá, e foi um pouco constrangedor, porque não sei nada sobre ele além da sua função ali no hospital, que não é exatamente um bom assunto para se puxar. Enchi uma panela de água e a levei

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ao fogão, e ele pegou sua tigela de mingau e foi se dirigindo para a cantina. Foi então que notei seu jeito de andar. “Você está bem?”, perguntei. “Está mancando.” “Ah”, disse ele. “Isso faz tempo. Há mais ou menos um ano eu estava trabalhando nos barcos e consegui derrubar uma âncora no meu pé.” Franzi o rosto e falei: “Ai!” “É, meus dedos ficaram esmagados”, revelou ele. “Alguns nunca melhoraram completamente, por isso é que eu ando meio esquisito. E tive uma baita febre depois.” “Febre?”, repeti, e lembranças da nossa viagem de verão do ano passado invadiram minha mente. Os dois dias que antecederam a volta a Toronto, quando fiquei presa no hospital daqui, com a sensação de estar pegando fogo. Eu estava na água quando aconteceu, exatamente como Howard. Tinha ido nadar e, na volta, cortei o calcanhar numa concha de marisco quando estava subindo as pedras. Nunca imaginei que as duas coisas pudessem ter relação. Papai achou que tivesse sido alguma coisa que eu comi. Desliguei o fogo e corri para o corredor sem mais uma palavra. Howard deve ter achado que sou louca. Mas a verdade está lá, nos registros hospitalares. De todos os sobreviventes, cinco estivemos no hospital entre abril e outubro passado com uma febre forte. Tenho certeza de que o sexto sujeito também teve — talvez só não tenha sido tão grave a ponto de fazê-lo buscar tratamento. Ter tido a febre nos protegeu; nos manteve vivos. O que significa que se conseguirmos descobrir como, saberemos como salvar os outros também. Papai deve ter ignorado a relação pelo mesmo motivo que eu. Focado demais no próprio vírus, não se deu ao trabalho de pensar em antes do início da epidemia. Preciso falar com ele. Passei a manhã inteira procurando por ele, não o encontrei. Nell disse que ele podia ter ido até o centro de pesquisa, mas as portas estavam trancadas quando cheguei. Vou voltar lá depois que Meredith

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almoçar. Quanto mais cedo ele souber, mais cedo podemos fazer alguma coisa. Finalmente. Não acredito que descobri!

6 de dezembro Tive que esperar até hoje de manhã para poder escrever isto. Ontem à noite eu só queria gritar. Acho que não teria conseguido segurar a caneta sem quebrá-la ao meio. Aquele ponto de conexão, a febre, não significa nada. Não, não é verdade. Significa muita coisa. Só não vai nos ajudar em nada. Papai só voltou ao hospital de noite. Eu estava tão animada que nem perguntei onde ele tinha estado. Arrastei-o até a sala dos arquivos e peguei as pastas. Não conseguia falar rápido o suficiente, como se eu tivesse que explicar tudo o mais depressa possível ou ele pararia de me escutar. Tinha a ideia de que, se ele soubesse logo o que eu tinha descoberto, poderíamos salvar Warren. Eu já podia até ver o rosto de Gav se alegrando quando eu contasse a ele. Após um minuto, papai colocou a mão no meu ombro. “Kae”, disse ele. “Kae.” Ele deve ter dito meu nome três ou quatro vezes até eu realmente ouvir e me forçar a parar de falar. “Eu sei”, disse ele. “Percebi isso assim que tivemos nossa primeira recuperação.” 258 | P á g i n a


Fiquei olhando para ele. Eu me sentia como se tivesse corrido e batido com a cara na parede. Como um passarinho voando em direção ao que parecia apenas o ar e se espatifasse contra um vidro. “Então por que não fez nada?”, perguntei. “Todas as pessoas que tiveram aquela febre sobreviveram ao vírus! Não existe alguma maneira de utilizar isso?” Eu sabia que, se tivesse um jeito, papai já estaria trabalhando nisso. Mas antes havia tanta certeza em mim, tanto alívio... Não podia desistir da ideia assim. “No início não tínhamos certeza de que havia uma ligação”, disse papai. “O segundo sobrevivente falou que não ficou doente nenhuma vez no ano passado. E na altura em que houve a terceira recuperação, eu já tinha olhado os arquivos. A febre não é um indicador seguro, Kaelyn. Se fosse, eu não teria ficado tão preocupado com você. Outras pessoas tiveram a mesma febre no ano passado, contraíram o vírus agora e morreram. Pelas informações que temos, diria que a infecção anterior eleva as chances de sobrevivência a cerca de quarenta por cento.” “Quarenta por cento é bem melhor do que o zero por cento que todo o resto parece ter”, argumentei. “Vocês, pelo menos, sabem o que provocou a febre?” “Sim”, respondeu ele. “Ninguém identificou na época, mas os médicos guardaram amostras, e voltamos a analisálas depois que a epidemia começou. Foi um vírus. Uma forma anterior do vírus que estamos enfrentando agora.” Imediatamente entendi. “Por isso que a febre anterior fez diferença”, falei. “De alguma maneira, já estávamos imunizados.” Só então assimilei o resto do que ele disse. “Se existem amostras do antigo vírus, do vírus do verão passado, podemos utilizá-los nas pessoas que ainda não ficaram doentes, certo?”, falei. “Talvez não ajude aqueles que já foram infectadas pelo novo vírus, mas pode ajudar quem ainda não foi contaminado, como Meredith, o Gav e Tessa, a ter mais chances.”

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“Bem que eu queria, Kae”, respondeu papai. “Talvez se tivéssemos descoberto no começo. Com o hospital no atual estado em que se encontra, não temos recursos disponíveis para garantir que as pessoas sobrevivam nem mesmo ao vírus menos potente. Sem a medicação adequada, só a febre em si já pode ser fatal. No mínimo enfraqueceria o corpo do beneficiário e o tornaria mais suscetível ao vírus com mutações, apesar da imunidade parcial. Você, Howard e os outros tiveram um ano ou mais para se recuperar antes que seus sistemas imunológicos tivessem que combater o novo vírus. Debati a ideia com os médicos e com a equipe da Agência de Saúde, e seja por que ótica que se veja a ideia, os benefícios não compensam os riscos.” “Então é inútil”, falei, meu corpo desabando em frustração. Ele balançou a cabeça. “Ajudou no início. Se já não soubéssemos da doença no ano passado e não tivéssemos as amostras para comparação, não teríamos conseguido isolar o vírus tão depressa. Nem dar início aos exames de sangue para confirmar a doença ou desenvolver a vacina.” Exames de sangue que só confirmavam o que as pessoas já sabiam. Uma vacina que, se funcionava, nunca tinha voltado para a ilha. Mas não foi isso o que me chamou a atenção. “Como assim, ‘saber’ da doença?”, perguntei. “Vocês já sabiam que eu não era a única a ter tido a febre, e que não era só uma intoxicação alimentar?” “Nell pediu minha opinião profissional depois que eu trouxe você ao hospital no ano passado”, admitiu papai. “Ela ficou preocupada porque os pacientes de casos anteriores não estavam respondendo tão bem quanto ela esperava. Eu lhe disse para monitorar a situação com cuidado. Todos os pacientes se recuperaram, mas ficou claro que poderíamos estar diante de algo desconhecido, e não tínhamos como saber como a doença poderia evoluir. Eu me afastei subitamente dele.

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“Vocês tiveram medo de que o agente que tinha provocado a febre pudesse se transformar em algo pior. Você não parava de me perguntar se eu estava bem... porque não tinha certeza de que aquilo tinha realmente passado. Vocês sabiam que uma coisa assim podia acontecer antes mesmo de começar!” Meu pai me olhou como se eu tivesse enfiado uma faca nele. “Era algo que nunca tínhamos visto antes”, disse ele. “Qualquer cientista responsável teria se preocupado. Mas não podíamos prever o futuro. Fizemos tudo que podíamos com o que sabíamos,Kaelyn.” “Não fizeram, não”, falei. “Podiam ter mandado o hospital ligar para a Saúde Pública naquela época, e talvez eles tivessem encontrado uma maneira de vencer o vírus antes de a situação chegar a esse ponto. Você podia ter dito que precisávamos ficar em Toronto, em vez de permitir que voltássemos para cá. E nada disso teria acontecido, mamãe e Drew estariam bem, teria ficado tudo bem!” No fim eu já estava gritando, e então minha voz falhou e quase caí no choro. Papai disse alguma coisa, eu não quis ouvir. Simplesmente saí. Fui andando furiosa até o carro, bati a porta e apoiei a cabeça no volante. As lágrimas escaparam. Sei que eu não estava sendo justa. Claro que o hospital não poderia ter chamado a Agência Nacional de Saúde por causa de uma dúzia de pessoas que contraíram uma febre. Ninguém poderia imaginar como a doença iria progredir. E se tivéssemos ficado em Toronto, não teria feito qualquer diferença para o vírus. O pai de Rachel teria adoecido do mesmo jeito, ela também, e todo mundo depois deles, tudo exatamente igual, com a diferença de que papai não estaria aqui para ajudar, e as coisas teriam sido ainda piores para a ilha. Mas teria feito diferença para nós. Mamãe ainda estaria viva, Drew ainda estaria aqui conosco e não estaríamos vivendo assim. Eu poderia atravessar o corredor agora e ouvir

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os dedos de Drew passeando pelo teclado do computador, ver mamãe no banheiro, prendendo o cabelo para sair. Não teria que acordar todos os dias e lembrar que eles não estão mais aqui, e sentir a dor me atingir outra vez. Não sei se posso perdoá-lo por isso. Nesse momento, nem quero.

7 de dezembro Imagine você que, três meses atrás, eu realmente acreditava que bastava mudar minha forma de agir que tudo na minha vida ficaria bem. Se eu me perguntasse: “O que a Kaelyn que eu quero ser faria?”, todos os problemas seriam resolvidos. Hoje, ao me lembrar disso, tenho vontade de rir. O que a nova Kaelyn faria? Irritei a única amiga que me sobrou, e ela talvez nunca me perdoe de verdade, não sei se meu namorado é realmente meu namorado, porque não estamos em posição de fazer coisas de namorados como sair e conversar sobre assuntos que não sejam doença e fome, e mamãe morreu; Drew está desaparecido; a maioria das outras pessoas da ilha também morreu; ainda não sabemos como curar esse terrível vírus, que vai continuar matando mais e mais, e o continente basicamente nos abandonou; tem uma gangue por aí atirando em pessoas, causando incêndios e roubando casas e lojas, e a partir de hoje só uma das bombas de gasolina do posto tem combustível, logo não poderemos nem mais usar os carros para nos proteger. Em dias como este, a Kaelyn que sou quer se encolher no canto em posição fetal. Não há nenhuma parte de mim 262 | P á g i n a


que não esteja com medo. Não existe uma Kaelyn que saiba o que fazer. Já estou dando o melhor de mim, e isso é tudo que tenho.

8 de dezembro Gav apareceu hoje na hora do almoço com uma caixa de mistura para macarrão, um vidro de molho e um olho roxo. “O que aconteceu?”, perguntei assim que abri a porta. Ele foi direto para a cozinha, jogou o que trouxera no balcão e pegou uma panela. “Foi culpa minha”, falou. “Disseram que Warren começou a ter alucinações ontem à noite. Fui vê-lo mesmo assim. Ele não me reconheceu. Não sei quem ele achou que eu fosse, mas não era alguém de quem gostava.” “Sinto muito”, falei, o que me pareceu totalmente inadequado. Gav sorriu dolorosamente e começou a vasculhar os armários. Mostrei onde ficavam os vidros de tempero. “Obrigado”, disse ele, e me deu um beijo tão rápido que mal tive tempo de sentir. Em seguida ele se ocupou em encher a panela de água e girar os botões do fogão. Cada um dos seus movimentos

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dizia que ele não queria conversar. Então deixei-o cozinhando. Quando o macarrão ficou pronto, ele já parecia mais calmo. Porém continuou quase sem falar. Durante toda a refeição, nós quatro devemos ter pronunciado cerca de dez palavras no total. Quando terminamos, Tessa disse que iria lavar a louça e recrutou Meredith para ajudar a secar. Gav olhou em volta e perguntou, do nada: “Dá para ver o continente daqui, não dá?” Subimos para o quarto de Meredith, e eu emprestei a ele os binóculos. “Consegui observar pelo menos alguns minutos todos os dias desde que viemos para cá”, falei, tentando soar esperançosa. “É difícil ver muita coisa, mas como as luzes se acendem à noite, deve haver gente por lá.” “Os barcos de patrulha continuam a postos”, disse ele. “Pois é”, concordei. “Acho que foram mais para perto do continente, provavelmente por causa do clima. Mas não os vi se mexendo durante toda a semana.” Por um tempo ele apenas olhou. Então baixou os binóculos e os pousou no assento ao lado da janela. “Na primeira vez que conversamos”, disse ele, “você me falou que o governo ia cuidar de nós. Ainda acha que vão?” “Mais cedo ou mais tarde terão que fazer alguma coisa”, falei. “Em algum momento alguém vai perguntar por que não tem notícia nossa há séculos e tentar descobrir o que aconteceu.” “Mais cedo ou mais tarde”, repetiu ele. “Isso pode demorar muito.” “Eu sei”, concordei. Cheguei mais perto dele, passando a mão pelo seu cotovelo e olhando para o estreito. Através da névoa, as construções do outro lado da água pareciam se fundir ao cinza do céu. “O que você estaria fazendo se tudo estivesse normal?”, perguntei. “Se não tivesse quarentena, nem vírus.” Ele pensou por um momento.

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“Estudando, mas só o suficiente para passar de ano. Fazendo bicos estranhos à noite para ter dinheiro para me mandar daqui assim que me formasse. Tentando convencer Warren a ir comigo.” Ele fez uma pausa, e o silêncio doeu mais do que qualquer coisa que pudesse ter dito. Após um tempo, envolveu minha cintura com seu braço. “Provavelmente torcendo para que uma certa menina fosse junto com a gente”, acrescentou. Eu sorri, mas minha garganta estava apertada. “Acha que teria me notado se eu não fosse a menina com as informações privilegiadas sobre a epidemia?” “Claro”, respondeu ele automaticamente. “Não consigo imaginar não notar.” Ele se virou, me puxando mais para perto, e se inclinou para me beijar. Suas palavras saíram com tanta facilidade, como se não houvesse qualquer dúvida, porém eu não sei. Não sei se teria me aberto a ele se não tivesse visto seu comportamento enquanto a cidade desmoronava. Quero acreditar que teríamos acabado juntos de qualquer jeito, que nossos sentimentos vão além das circunstâncias horríveis que nos uniram, mas nenhum de nós pode afirmar com certeza. No entanto, talvez isso não tenha importância. Porque, enquanto nos beijávamos, não fazia diferença. E por alguns minutos eu não temia quanto tempo o “mais cedo ou mais tarde” poderia demorar.

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10 de dezembro Ontem à noite tivemos que dar uma pequena saída. Meredith me acordou depois de meia-noite, gritando como se tivesse sido mordida. Pesadelos. Levei um minuto inteiro para fazê-la acordar, e depois ela soluçava tanto que levei mais cinco até conseguir entender do que estava falando. Ela esquecera um bichinho de pelúcia na casa de Tessa quando saímos de lá. Um gato bem macio que a tia Lillian lhe deu quando ela tinha três anos e que ela batizou de RonRon. Meredith não conseguia suportar a ideia de tê-lo deixado no escuro, pensando que “aqueles garotos” poderiam voltar lá e machucá-lo. “Ele está bem”, tranquilizei-a. “Ninguém vai voltar, eles levaram tudo que queriam.” “O RonRon não sabe disso”, retrucou ela, balançando a cabeça. “Ele está com muito medo.” Então prometi buscá-lo quando amanhecesse, porém ela não se acalmou e ficou insistindo, dizendo que ele precisava dela, as lágrimas ainda correndo pelo seu rosto. Comecei a me sentir angustiada também. Ela já tinha perdido tanta coisa, e ali estava eu, discutindo por causa de algo tão

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pequeno. Algo que era uma das poucas coisas que realmente podia dar a ela. “Tudo bem”, cedi. “Vou lá buscar. Vai ser rapidinho.” “Ele não conhece você”, argumentou ela. “E eu não quero que você vá sozinha. Está muito escuro.” Àquela altura, também já tínhamos acordado Tessa. Quando ela espiou dentro do quarto para ver o que se passava, Meredith voltou a falar confusamente e a chorar, e nós três acabamos entrando no carro para resgatar um gato de pelúcia. Foi a solução que nos pareceu mais simples, pelo menos na hora. Nenhuma de nós estava realmente pensando nas consequências daquilo. A cidade estava sombria no meio da noite, tendo apenas os faróis para nos guiarmos. Faróis, aliás, que não capturavam nada colorido, apenas transformavam tudo em um cinza fantasmagórico. E o mundo além dos faróis era um breu. Meredith não queria de jeito nenhum ficar sozinha no banco de trás, então mandei a segurança no trânsito para o inferno e coloquei-a no meu colo. Ela se encolheu toda e me abraçou, ficando nessa posição, com a cabeça embaixo do meu queixo. Enquanto eu observava Tessa dirigir pela escuridão, foi bom ter alguém a quem abraçar. Sem eletricidade, não podíamos acender as luzes na casa de Tessa, mas no carro havia uma lanterna que utilizávamos durante as excursões em busca de mantimentos. Seguimos o feixe estreito de luz até o quarto de hóspedes. RonRon estava parcialmente escondido embaixo da cabeceira. Meredith o pegou às pressas e o abraçou forte. Ótimo, pensei. Agora podemos voltar a dormir. Eu não tinha muita certeza de que aquilo não era um sonho. Estávamos quase na porta quando uma figura tremulou à nossa luz. Eu dei um passo para trás, Meredith gritou, e Tessa simplesmente congelou. A figura se aproximou, e o rosto de Quentin surgiu sob o facho de luz, magro e amarelado. Um odor azedo exalava dele — o cheiro de quem não toma banho

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há muito tempo. Ele segurava na mão direita algum objeto que brilhou. Um facão. “O que está fazendo?”, perguntei. A luz vacilou. Minha mão tremia. Quentin semicerrou os olhos para nos olhar, em seguida espirrou três vezes no dorso da mão. “Ah”, disse ele, com a voz rouca. “São só vocês.” “Você está doente”, observei, empurrando Meredith para trás de mim. “O que está fazendo na minha casa?”, perguntou Tessa. “Eles iam me matar”, respondeu ele. “Eu queria falar com Kaelyn. Não tinha ninguém, então resolvi esperar. Isso foi... já faz um tempo.” Ele olhou para mim de um jeito acusador e acrescentou: “Demorou muito.” Não tínhamos deixado nenhuma comida na casa. Fiquei imaginando o que ele estaria comendo. Se estaria comendo. Será que tinha levado consigo água mineral, ou estava bebendo da pia, sem ferver? Ele foi para o lado, cambaleando, e então me ocorreu que ele podia estar com outras doenças além do vírus. Talvez nem fosse o vírus. “Você precisa ir para o hospital”, falei. Quentin balançou a cabeça em negativa. “De jeito nenhum”, disse ele, e tossiu. “Tem muita gente doente lá. Sabe lá o que eu posso acabar pegando?” “Você já pegou alguma coisa”, afirmei. “Pelo menos lá tentariam ajudá-lo.” “Você vai me ajudar”, disse ele. “Seu pai sabe alguma coisa. Ele fez você melhorar. Você pode me dizer o que fazer.” “Eu não sei de nada!”, retruquei. “Já disse. Não posso fazer nada por você.” “Você tem que me ajudar! Eu estou doente!” Ele cambaleou na nossa direção, tentando me pegar com a mão que segurava a faca. No mesmo instante, o braço de Tessa se lançou para a frente. Faíscas estalaram e zuniram entre os dois, e Quentin gritou. Ele caiu no chão, os braços e pernas em espasmos, e a faca saiu rodando dos seus

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dedos. Tessa olhou para ele, em seguida para o objeto que estava segurando: parecia um barbeador elétrico. “O que é isso?”, perguntei quando recuperei a voz. “O que você fez com ele?” “Uma arma de choque”, respondeu ela. “Ou coisa do tipo. Não sei direito. Encontrei em uma das casas de veraneio quando fui sozinha. Achei que seria útil andar com isso, por via das dúvidas.” Ela olhou novamente para Quentin. Ele estava tentando se levantar, sem muito sucesso. “Achei que isso fosse me dar mais satisfação do que realmente deu”, disse ela. “Vamos embora.” Ela desviou dele e foi para a porta. Meredith foi atrás. Quentin estava dizendo alguma coisa, palavras tão embaralhadas que eu não conseguia definir. Ele se colocou de quatro, os braços tremendo com o esforço. Olhar para ele fez meu estômago embrulhar. Independentemente do que tivesse feito, de todas as decisões erradas que tivesse tomado, Quentin continuava sendo o garoto que estudou comigo desde o maternal. “Vamos deixá-lo aqui?”, perguntei. Tessa olhou para mim, o rosto sem expressão. “Por que não?” “Ele está doente”, disse eu, porém não podia condenála por não se importar com a saúde dele. Acrescentei: “Se o largarmos aqui, ele não vai ficar. Quando a doença piorar, ele vai sair e tentar encontrar outras pessoas, transmitir o vírus. Se o levarmos para o hospital, vão mantê-lo por lá.” “Hospital não”, murmurou Quentin. “Ninguém lhe perguntou nada”, falei. Sustentei o olhar de Tessa por um instante. Ela apertou os lábios e em seguida assentiu. Coloquei Meredith no carro antes, e peguei uma máscara para colocar em Quentin. Então o arrastamos para o banco de trás. Por sorte, ele já tinha se recuperado do choque o suficiente para conseguir ficar de pé, e a doença o impedia

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de oferecer resistência. Ele tentou fugir quando abri a porta, mas Tessa levantou a arma de choque. “Entre, ou vai levar mais uma”, disse ela. Tessa me entregou o aparelhinho quando estávamos prontas para partir, pois, como tínhamos ido até lá com o seu carro, ela precisava dirigir. Deixei aquilo apontado para ele durante todo o trajeto até o hospital. Ele ficou resmungando alguma coisa sobre seus direitos e armas ilegais, mas durante boa parte do tempo ficou apenas lá atrás encolhido, tremendo e tossindo. Começou a protestar novamente quando estacionamos em frente ao hospital, até que um dos voluntários nos viu pela janela e foi nos ajudar. Depois voltamos para casa e caímos na cama. Tive a sensação de que havia sido tudo um sonho quando acordei hoje de manhã. Mas eu ainda estava calçada, e Meredith apertava RonRon embaixo do braço. E quando desci para preparar o café da manhã, a arma de choque estava em cima da mesa de jantar. Porque isso é a nossa vida agora.

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12 de dezembro Merda, merda, merda. Meredith está quente e chorando porque a parte interna do seu cotovelo não para de coçar. Ela gritou ainda mais alto quando fui vestir meu casaco, então continuo aqui e Tessa foi avisar ao meu pai. Se existe um Deus, eu daria um soco na cara dele dez vezes mais forte do que o chute que dei em Quentin. Quando é que esse vírus vai se dar por satisfeito? Quando isso vai acabar? Por que essa doença não pode nos deixar em paz?

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14 de dezembro Meredith não para de pedir desculpas. Ela tossiu tão violentamente que vomitou o chá que estava tomando e pediu desculpas sem parar enquanto eu limpava. Pediu desculpas quando eu comecei a tossir porque fiquei com a garganta seca por ter lido três livros seguidos para ela. Ela pede desculpas quando tenho que lhe trazer uma caixa nova de lenços, quando meço sua temperatura e vejo que mesmo com o Tylenol ela continua quatro graus mais quente do que deveria estar, e por não conseguir parar de chorar porque quer os pais. Cada vez que ela pede desculpas, sinto o peso terrível de todas as coisas que não estou fazendo — que não posso fazer. Queria que ela não ficasse dizendo isso. Mas me sinto ainda pior por me incomodar quando é ela que está *** Sinto como se a morte dela fosse inevitável se eu escrever “morrendo”. Pode ser que não aconteça, certo? Teve um sujeito que se recuperou mesmo não tendo tido a febre do ano passado.

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Meredith pode ser a segunda pessoa a ter essa sorte. É possível. Nem uma única partícula de meu corpo acredita que isso vá acontecer. Mas é possível. Gav voltou do hospital com Tessa e papai ontem. E veio de novo hoje de manhã. Ele lê para ela no meu lugar e prepara o chá quando estou muito ocupada. Ele me abraçou na cozinha, e meus olhos se encheram d’água, mas não chorei. Chorar também me parece uma forma de condená-la à morte. Gav não disse nada, o que significa que Warren não melhorou. O que significa que Warren pode muito bem estar morto. Não tenho forças para perguntar. É isso o que fazemos. Preparamos chá, lemos livros e vemos as pessoas morrerem.

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15 de dezembro A maioria das pessoas pensa que o mais assustador é saber que vai morrer. Não é. É saber que você pode ter que assistir a todo mundo que você já amou — ou mesmo apenas gostou — definhar e não poder fazer nada. Isso tem que acabar em algum momento, fico repetindo para mim mesma. E é verdade. Daqui a pouco não vai sobrar mais ninguém. E aí não vai fazer diferença se eu sobrevivi ou não, porque qualquer pessoa que pudesse se importar com isso estará morta.

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17 de dezembro Só consegui passar uma hora com Meredith hoje antes de me descontrolar. Ela está no estágio dois agora. Fica me abraçando, pegando nas minhas mãos, tagarelando que vamos nos divertir muito, perguntando por que não podemos convidar Tessa e Gav para brincar também. Mesmo sabendo que não é totalmente seguro, tenho tirado a máscara quando fico lá dentro, porque ela detesta me ver com o rosto coberto. Acho que estava me saindo bem na função de distraíla. Soltei Mowat e Fossey e deixei os dois correrem um pouco com ela, depois usamos as últimas miçangas para fazer um colar enorme, que ela colocou no meu pescoço e deu várias voltas, até que o comprimento estivesse bom. Ainda o estou usando. As miçangas fazem barulho sempre que me mexo. Então ela olhou pela janela e de repente ficou com o semblante sério. “Por que a mamãe não volta, Kaelyn?”, perguntou. “Ela não sabe que eu morro de saudade? Ela sempre disse que me amava. Se a mamãe me ama, por que ela não está aqui?” “Tenho certeza de que ela estaria se pudesse”, respondi, e engoli em seco.

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Por um segundo temi que, se tentasse dizer mais alguma coisa, tudo sairia como um mero ganido. “Vou buscar um lanche para você”, consegui falar, e saí do quarto. Papai colocou uma tranca do lado de fora da porta hoje de manhã, exatamente como fez com mamãe, e provavelmente por mim. Eu o ouvi mexendo na pia lá embaixo; ele encontrou uns filtros que talvez possam pelo menos melhorar o gosto da água, mesmo que ainda tenhamos que fervê-la. Respirei fundo algumas vezes enquanto tirava a capa de proteção que uso quando estou com Meredith, e a pendurei na maçaneta. Depois de ganhar mais um pouco de tempo lavando exageradamente as mãos, decidi que era melhor preparar logo o lanche, antes que ela ficasse inquieta demais. Gav, sentado no sofá da sala, ergueu o olhar para mim quando desci as escadas. “Kaelyn”, disse ele, “o que é isso?” Ele estava segurando uma pilha de papéis amassados. Demorei alguns segundos para reconhecer o que era. Todas aquelas fichas que eu tinha preenchido e analisado na sala dos arquivos. Eu enfiara tudo na gaveta da mesa de centro. Quando me sentei ao lado de Gav no sofá, ele se aproximou de mim e nossas pernas se tocaram. “Eu estava comparando as fichas médicas das pessoas que melhoraram com as das que não resistiram”, respondi. “Queria descobrir qual tinha sido a diferença.” “E não descobriu nada?” “Na verdade, até que sim”, respondi. “Mas nada de útil para os médicos.” Expliquei sobre a febre, e sobre como tinha sido provocada praticamente pelo mesmo vírus. “Quando você fica doente, seu organismo cria anticorpos, certo?”, falei. “Para combater a doença. Então eu já tinha anticorpos extras que conseguiram atacar o vírus

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com mutação, pelo menos em maior quantidade do que a maioria das pessoas tem.” “Por isso que todo mundo que melhora fica mais protegido que os outros”, disse Gav, assentindo. “Porque vocês têm os anticorpos certos para combater o vírus se forem expostos a ele outra vez. Você me disse isso quando insistiu em ser a responsável por levar os doentes ao hospital.” “Sim”, concordei. “Só que a imunidade só funciona se o vírus for o mesmo. Se ele sofrer mais mutações, como sempre acontece com o da gripe...” Ficamos sentados durante um tempo contemplando essa terrível possibilidade. Então Gav observou novamente os papéis e comentou: “Pena que não dá para pegar alguns dos seus anticorpos e dar para quem precisa.” Abri a boca, mas não saiu nenhum som. Meu coração de repente acelerou. Eu li uma história, há muitos anos, em um livro de criança que mostrava as contribuições dos animais para a ciência, da qual só fui me lembrar quando ele disse essas palavras. Contava sobre médicos que tinham colocado um tipo de vírus em um cavalo, para que seu organismo produzisse anticorpos. E aí eles utilizavam esses anticorpos para curar pessoas que contraíssem o mesmo vírus. Se podiam realizar um procedimento como esse em um cavalo, pensei, por que não poderiam fazer o mesmo comigo? Assim que tive essa ideia, percebi que não adiantaria nada. Se eu conseguira pensar nisso, alguém no hospital já teria tentado há muito tempo. Será que isso queria dizer que o procedimento não tinha dado certo? Que já tinham desistido de tentar quando me recuperei? Por quê? “Tenho que falar com o meu pai”, declarei. Gav foi comigo até a cozinha. Papai estava curvado sobre a pia, olhando para o acessório que havia instalado na torneira. Tinha acabado de abrir o registro, e começou a sair uma corrente de água que talvez fosse um pouco menos marrom. Infelizmente, vários filetes d’água bem menores

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também estavam saindo, escapando do ponto onde o acessório fora afixado. Ele franziu o cenho e fechou a torneira. “Sua mãe sempre levou mais jeito para isso do que eu”, disse ele. “Aqui”, pronunciou-se Gav. “Acho que estou vendo o problema.” Papai chegou para o lado e deixou que ele ajustasse o acessório. “Pai”, falei, enquanto ele secava as mãos com um pano de prato, “Gav me fez pensar em uma coisa.” Repeti a conversa sobre os anticorpos, e a história do cavalo. “Vocês tentaram isso, não foi?”, perguntei, e, quando ele confirmou, quis saber: “O que aconteceu?” Seu rosto assumiu uma expressão de grande desânimo. “Já houve certo sucesso com esse tipo de procedimento em outros casos envolvendo vírus desconhecidos”, disse ele. “Quando nosso primeiro paciente recuperado estava bem o suficiente para acreditarmos ser seguro coletar seu sangue, tentamos dar um soro a alguns pacientes em estágio inicial. Mas conseguimos apenas retardar a progressão da doença.” “Se vocês tentaram usar uma única amostra para vários pacientes, talvez não tenham dado muito a nenhum deles”, observei. “Já tentaram oferecer uma dose maior?” “Utilizamos uma quantidade razoável, Kaelyn”, disse papai, como se estivesse tentando me convencer. “E depois de contribuir com aquela amostra, nosso paciente começou a se sentir fraco e teve que ser readmitido ao hospital no dia seguinte. Vocês são só seis, talvez sete agora. Sem falar...” “Tudo bem”, disse, antes que ele pudesse argumentar mais, “sei que vocês não podem fazer tudo pelos pacientes. Mas talvez possam conseguir o suficiente para uma só pessoa. Meu sangue é O negativo; sou doadora universal. Falamos sobre isso na escola no ano passado. Então podem

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me usar. Vou dar o máximo de sangue que puder para Meredith.” Estendi o braço. Ele olhou, e pegou minha mão nas suas. “Não podemos”, disse papai. “Isto não é tão simples quanto uma transfusão de sangue comum, Kae. Meredith já está muito doente. Se injetarmos uma grande quantidade de uma substância estranha em seu organismo, ela corre um risco muito maior de sofrer uma reação alérgica. É quase certo que isso elevaria a febre ainda mais. Existe a chance de que o corpo dela rejeite imediatamente as novas células. E, mesmo que isso não aconteça, o resultado mais provável é que ela apenas sofra mais ainda. Além disso, não sabemos como a retirada do sangue afetaria você.” Puxei minha mão das dele. “Então não é porque não podemos”, falei. “É porque você está com medo.” Fiquei com tanta raiva por ele se recusar a tentar, por rejeitar mais uma ideia, que meu corpo todo se contraiu. “Não é questão de ter medo”, retrucou ele. Mas quer saber? É, sim. Eu nunca tinha pensado nisso, mas papai tem medo de muita coisa. Teve medo de Drew beijar meninos. Teve medo de que Meredith fosse comida por coiotes. Teve medo que saíssemos de casa antes mesmo de saber que o vírus era perigoso. Tem medo que eu vá sozinha a qualquer lugar da cidade, apesar de eu já ter feito isso mais de uma vez e de estar acompanhada todas as vezes em que tive problemas. O pior é que isso não quer dizer que ele esteja errado. Essa é a área de conhecimento dele. Ele deve saber qual é a melhor maneira de lidar com um vírus. “Kaelyn!”, gritou Meredith lá de cima, quebrando o silêncio que se instalara entre nós. “Kaelyn, cadê você? Tio Gordon?” Ela conseguia soar atrevida e apavorada ao mesmo tempo. Meu estômago se contorceu. Porque imaginar deixá-la ainda mais doente não só me assustava: me petrificava.

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Então falei “Eu sei” e “Me desculpe” para papai. Em seguida, Gav abriu a torneira e soltou um pequeno grito de comemoração. Continuo não podendo ajudar Meredith, mas temos uma água ligeiramente mais limpa. Oba.

18 de dezembro Hoje pedi a Gav para não voltar. Eu tinha acabado de almoçar com Meredith no quarto dela e estava descendo com os pratos; ele estava remexendo nas caixas do porão para ver se tio Emmett tinha algo que pudesse ser útil. Eu estava entrando na cozinha quando ele soltou um espirro tão alto que dava para ouvi-lo do quintal. Gelei. Os pratos se desequilibraram na minha mão, e o copo de plástico de Meredith caiu no chão. Os degraus da escada do porão rangeram. “Está tudo bem”, disse Gav, enfiando a cabeça pela entrada. “Foi só a poeira. Eu estou bem.” Ele abriu os braços, como se isso provasse alguma coisa. Mas não espirrou outra vez, e não tossiu, e não parecia estar se segurando para não fazer nada disso. Além do mais, o porão é realmente empoeirado. A camisa dele já estava cheia de manchas cinzentas.

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Peguei o copo do chão e coloquei tudo na bancada. Nem percebi que estava chorando até começar a enxergar tudo borrado. Gav esticou o braço para me tocar e eu falei: “Pare!” Virei-me e dei um passo para trás ao mesmo tempo, cruzando os braços. “Kaelyn”, disse ele, avançando. “Eu falei para parar!”, gritei, e funcionou. Ele me olhou, confuso. “Eu estava lá em cima com Meredith agora”, falei. “Mexi no prato e no copo dela. Ainda nem lavei as mãos.” E de repente me lembrei de todas as vezes em que Gav se sentou perto de mim e me tocou depois que Meredith pegou a doença, e tive vontade de vomitar. Fui muito descuidada. De que adiantava a capa de proteção e a neurose de lavar as mãos quando o vírus podia estar nos meus pés ou no meu cabelo? Faz semanas que não podemos nem tomar banho direito. Tenho colocado roupas usadas que parecem limpas, porque toda vez que usamos a máquina de lavar eu tenho medo de que o gerador sofra um curto-circuito. E estive envolvida demais nesta situação miserável para levar em conta o quanto poderia ser perigoso para os outros. Simplesmente ficava feliz em tê-lo por perto. Como pude ser tão egoísta? Eu nunca deveria ter permitido que ele entrasse na casa depois que Meredith ficou doente. “Você tem que ir embora”, falei. “Kaelyn”, disse ele calmamente, como se sua vida não corresse perigo, “eu tenho falado com pessoas doentes na ronda da comida e entrado e saído do hospital há meses. Se fosse para pegar o vírus, eu já teria pegado.” “Como pode saber? Meredith ficou bem durante meses, e agora está doente. Você não se contaminou porque estava tomando cuidado. Não pode simplesmente esquecer as precauções e achar que vai continuar bem. Não é seguro você ficar aqui. Não é seguro ficar comigo.”

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“Então eu resolvi correr esse risco”, disse ele. “Eu não quero isso”, falei, a voz tremendo. “Quero que vá embora. Agora.” Ele abriu a boca para insistir, mas alguma coisa na minha expressão deve tê-lo convencido de que eu não ia mudar de ideia. “Tudo bem. Eu vou. Mas volto amanhã.” “Não vou deixar você entrar”, falei. “Aí eu fico falando pela porta até você abrir para mim. Foi assim que começamos, não foi?” Vê-lo atravessar o corredor e calçar os sapatos me machucou, bem no meio do peito. Porque ele estava falando sério. Continuaria voltando. Como se eu... como se alguém valesse esse risco. “Gav”, comecei. “Estou indo, estou indo”, disse ele, levantando as mãos. “Até amanhã.” “Não”, falei. “Quando Meredith... Quando isso acabar. Até lá, não volte. Não venha aqui. Tudo bem?” Ele não me respondeu. Apenas me olhou uma última vez e saiu. Foi a coisa certa a se fazer. Eu sabia disso. Não deveria estar me sentindo tão mal agora. Hesitei por alguns segundos depois que ele saiu, e em seguida tranquei a porta. Quando me virei, Tessa estava me olhando da sala. “Eu não vou embora”, disse ela, com o mesmo tom de quando ameaçou dar um choque em Quentin. Eu não tinha pensando nisso. Nem sei se teria me ocorrido se ela não tivesse mencionado. Moramos com Tessa há tanto tempo — puxa vida, ela praticamente nos deu sua casa — que não consigo me imaginar pedindo para que fosse embora. Para onde ela iria? “Eu sei”, falei. “Claro.” Isso faz de mim uma péssima amiga, por querer proteger Gav mais do que estou disposta a proteger Tessa? Ou uma ótima amiga, por deixá-la decidir sozinha?

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19 de dezembro Falei para Nell que queria ir para casa, então ela me trouxe para cá. Mas aqui não é a minha casa. Isto é uma cama em um quarto onde Meredith deveria estar, mas não está. Minha casa não existe mais. Não existe mais nada. Ela estava gritando. Eram dez da noite. Tive que levá-la ao hospital. Ela rasgou o vestido da Pequena Sereia com as mãos e arranhou meu braço, mas eu não queria chamar ajuda, queria cuidar dela sozinha. Falei para Tessa não se preocupar, que eu dava conta. Levei-a para o carro e a prendi no banco de trás, e ela se contorcia e gritava, mas não lembrava como soltava o cinto. Então chegamos lá. Ela começou a gritar outra vez quando viu o hospital, e mordeu minha mão para me obrigar a soltá-la, mas eu a levei para dentro e achei papai, que lhe aplicou uma injeção. Exatamente como deve ter feito por mim e por mamãe.

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Ela está sozinha em um quarto. A essa altura, todos os outros pacientes já morreram. Não há mais necessidade de enfiar gente em cada espaço possível. Colocaram-na em um pequeno leito no que deveria ser um depósito no segundo andar. Normalmente não subo até lá, onde ficam os pacientes no estágio três. Os gritos são mais altos. Quando o efeito da injeção passar, Meredith também vai gritar daquele jeito. Só temos remédios suficiente para acalmar os pacientes quando estão dando entrada. Prenderam-lhe os braços e as pernas para que ela não se machuque, nem a outras pessoas, quando sucumbir às alucinações. Deixei que papai me acompanhasse até o carro. Deveria ter dito que não precisava. Mas não teria feito diferença. Não teria feito diferença se eu quisesse meu pai ali comigo por apenas mais alguns minutos se eu não tivesse visto pelo canto do olho alguma coisa se movendo na escuridão. Se eu não tivesse me virado para ver o que era. “O que foi?”, perguntou papai, e eu respondi: “Pensei ter visto alguém ali.” E até apontei a direção, porque não pensei. Não mesmo. Em seguida ouvi o ruído de algo sendo arrastado junto à lateral do prédio, e papai correu para ver, e eu fui atrás, porque não sabia o que estava acontecendo, e então ele estava correndo mais rápido e gritando: “Pare! Pare aí mesmo!” Eu deveria ter acelerado também. Não sei por que não fiz isso. Vi a mulher com a lata de gasolina, e ela girou na direção de papai e eu congelei. Tantos movimentos que Gav me ensinou, e nada me ocorreu. Então não havia ninguém perto o bastante para detê-la quando papai tentou alcançá-la e ela levantou a lata e a bateu com força na cabeça dele. Eu gritei. Papai cambaleou e caiu. A mulher largou a lata no chão e fugiu. E foi quando minhas pernas voltaram a funcionar.

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Pessoas começaram a chegar correndo, vindo do hospital. Devem ter me escutado. Gritei tão alto que minha garganta ainda está doendo. Ajoelhei-me ao lado de papai. Tudo cheirava a gasolina. O sangue escorria pelo cabelo dele muito rápido. Pressionei a ferida com a mão, mas não consegui estancar a hemorragia. Quis acreditar que tinha sentido um movimento de respiração, mas os olhos dele continuaram fixos, muito fixos, e ele não piscava. Nell falou que estavam tentando incendiar o hospital. Havia dois homens além da mulher. Alguns voluntários procuraram em volta do prédio depois que viram papai e espantaram os homens antes que eles conseguissem fazer alguma coisa. Nell acha que eles devem ter pensado que se livrariam do vírus se incendiassem o lugar onde basicamente todos que o contraíram foram parar. Ela disse que papai é um herói porque os impediu. Falou: “Sinto muito mesmo, querida.” Mas eu é que estou com o sangue de papai nas mãos. Não sei para onde o levaram. Em algum momento no meio da confusão, Nell me afastou dele e me abraçou, e então ele se foi. Todos se foram. Agora estou sozinha.

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20 de dezembro Está frio aqui na beira do penhasco. A geada brilha nas pedras, e o vento vindo do mar entorpeceu meu nariz em cinco segundos. Eu queria respirar o ar do oceano uma última vez, mas agora não consigo sentir nenhum cheiro. Usei minhas luvas sem dedos para poder escrever, mas minhas mãos já estão ficando dormentes, então não sei até onde vou conseguir chegar. Só achei que deveria dar alguma espécie de explicação antes de fazer isto. Para deixar claro que pensei bem. Sempre que li sobre pessoas saltando de pontes ou telhados, sempre achei que fosse um acesso melodramático, isso de se atirar no nada. Mas não é bem assim. Olhando para a beira do penhasco, posso me imaginar saltando no espaço vazio sem hesitar, sem medo. Como um ato perfeitamente razoável. Como se dar esse passo não representasse nada mais do que descer uma escada.

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Nem se pode dizer que estou louca. Filhotes de gorila se deixam definhar quando perdem ambos os pais. Param de comer e de brincar, e após um tempo adoecem e morrem. O que estou fazendo é uma resposta perfeitamente natural. Só que de um jeito muito mais eficiente. Não sou uma daquelas pessoas que brilham, cuja luz vai fazer falta no instante em que se apagar. Nunca fui. Papai cuidava do hospital, Gav distribui comida para a cidade inteira e Tessa vai desenvolver mudas melhores para todo o mundo. E eu, o que fiz? A única coisa em que sou boa é em observar. Pássaros na praia, coiotes na floresta, toda aquela gente morrendo. Mas eu tentei. Tentei sair e ajudar, e veja aonde isso nos trouxe. Coloquei ideias na cabeça de Quentin e acabei atraindo-o até Tessa e Meredith. Providenciei para que o grupo de Gav passasse a levar doentes para o hospital, e agora o melhor amigo dele morreu. Não tomei os cuidados necessários e acabei contaminada pelo vírus, fazendo com que Drew sentisse a necessidade de fugir em um plano louco que deve tê-lo matado. Talvez eu tenha até levado a doença para dentro de casa, para mamãe. Tem que ter sido alguém. E depois fiquei simplesmente assistindo a tudo — vendo mamãe morrer, Meredith piorar. Fiquei parada enquanto uma mulher golpeava papai na cabeça. Não sobrou nada. Não sei fazer nada além de machucar os outros. Quero por um fim nisso. Gav vai ficar bem. Vai ser melhor para ele — uma pessoa a menos por quem arriscar a própria vida. E Tessa sabe cuidar muito bem de si mesma. Só me sinto um pouco culpada por Meredith, mas ela nem vai saber. Se eu não fizesse isso, só haveria duas alternativas: ou eu ignoraria tudo que papai disse e convenceria Nell a tentar o tratamento dos anticorpos mais uma vez, tornando os últimos dias de Meredith pura agonia, ou ficaria sentada, vendo-a definhar, sem nunca saber se existia alguma coisa que eu pudesse ter feito e que não percebi.

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Então estou consertando as coisas. Eu nunca deveria ter sido um das sobreviventes. Talvez haja alguma espécie de poder superior, um poder que veja o que estou fazendo, que me permita abrir mão da minha sorte, transferindo-a para Meredith. Ela merece. Trocar a minha vida pela dela — parece justo, não? Nossa, que frio. Mal consigo sentir a caneta. Meu coração já está acelerado. Meu corpo sabe o que vai fazer. São só quatro passos daqui até a beirada. Vou deixar o diário no chão, e em menos de um minuto estará acabado. Não vou olhar para baixo. Não vou nem chorar. Aqui vou eu.

Ainda estou aqui, Leo. Voltei. Sinto como se devesse agradecer a alguém, como se tivesse ganhado um presente, embora a decisão fosse minha o tempo todo. Devo agradecer aos biguás. Fui até a beira do penhasco. E então não consegui não olhar para baixo. Todas aquelas pedras avermelhadas sob as ondas. Aquele emaranhado de gravetos e algas aninhado nas bordas. É difícil acreditar que alguma coisa possa se empoleirar ali, quanto mais criar uma família. O vento agredia o meu cabelo, brigava com o meu casaco, arrancava gravetos e plantas dos ninhos. Então pensei: quanto tempo deve ter levado? Quantas tentativas frustradas até o primeiro biguá descobrir a maneira correta de ajeitar aqueles gravetos de forma que o vento não os levasse dali? Quantos ovos escorregaram e quebraram nas pedras, ou caíram na rebentação? Eles podiam ter ido para outro lugar, algum lugar que parecesse mais fácil. Mas os lugares mais fáceis têm predadores com fome de aves e ovos, e outros pássaros

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competindo por espaço e alimento, e vários tipos de perigo. Eles ensinam que não é assim tão fácil. Se eles iam sobreviver, tinham que fazer a vida funcionar ali. Só não sabiam como. Cometeram erros. Devem ter cometido. Fizeram ninhos que se desmontaram. Perderam ovos. E lentamente, a cada tentativa, descobriram uma peça do quebra-cabeça, depois mais uma. É impossível não enxergar, depois que se percebe a realidade. Se não tivessem continuado tentando, mesmo quando estavam errando mais do que acertando, não haveria biguás. Se tivessem desistido, todos teriam morrido. Não importa quanto tempo demoraram para encontrar o caminho certo. O importante era tentar. Tudo isso passou pela minha cabeça quando olhei para os ninhos e para a enorme queda. Meu coração estava na garganta. E percebi que era isso que jogaria fora se pulasse. A chance de continuar tentando. Não importa se não brilho como Shauna. Shauna está morta. Não importa se não sou confiante como você, Leo, ou forte como Tessa. Estamos em um penhasco, todos nós, e a sobrevivência não é uma questão de ser melhor ou mais inteligente. É uma questão de resistir o máximo possível, de tentar, falhar e tentar novamente até se aproximar um pouquinho mais de uma solução. Se eu voltar, talvez erre outra vez. Mas talvez ajude, mesmo que minimamente. Se pular da beira do penhasco, será o fim de tudo. Serei omissa, deixando o vírus, a gangue e a desesperança vencerem, por toda a eternidade. Não consigo imaginar nada pior. Por mais dolorosas que sejam as tentativas. Talvez eu não seja boa em praticamente nada além de observar, porém às vezes, quando olhamos, vemos coisas que do contrário não teríamos percebido. Coisas importantes. Como o que realmente é assustador aqui, e o que a pessoa que sou pode fazer para ajudar.

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Tenho vontade de rir, chorar, abraçar alguém, mas antes preciso cuidar de Meredith. Papai entendia de vírus, mas não sabia tudo. E às vezes ele se permitia ter muito medo. Meredith vai morrer se não fizermos nada. Fato. Se eu puder lhe dar uma chance de sobreviver, por menor que seja, os riscos não significam nada.

21 de dezembro O dia de ontem parece ter sido há um milhão de anos. Como se tivesse percorrido um longo caminho depois de descer do penhasco, apesar de ter ido direto para o hospital. Quando vi as portas de entrada, por alguns segundos não consegui me mexer. Só conseguia me lembrar de ter descido aqueles degraus com papai na noite anterior, e uma dor me rasgou da barriga até a garganta, como uma faca. Meus olhos se encheram d’água e meu estômago se contorceu. Mas Meredith precisava de mim. Eu ainda sabia disso. Pensar nela foi o que me fez atravessar as portas.

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Vaguei pelos corredores até encontrar Nell em um dos quartos. Assim que terminou de conferir o estado dos pacientes, puxei-a de lado e contei-lhe sobre a transfusão de anticorpos. “Eu me lembro disso”, comentou ela. “Tentamos o procedimento com um soro sanguíneo em cinco pacientes, e no fim não deu certo.” “Você sabe preparar o soro?”, perguntei, e ela fez que sim com a cabeça. “Quero tentar a transfusão mais uma vez”, falei. “Com Meredith. Quero que você tire de mim todo o sangue que puder e dê a ela, tudo.” “Kaelyn, sei que você quer ajudar, e sei como deve estar se sentindo agora, mas não acho...” “Que mal pode fazer?”, eu a interrompi. “Só uma vez. Ao menos tente. É só o que eu peço. Preciso saber que fizemos tudo que podíamos.” Ela me olhou com tristeza por alguns segundos, e em seguida suspirou. “Tudo bem”, disse Nell. “Só me dê dez minutos para eu pegar o equipamento necessário. Encontro você na recepção.” Tirei sangue deitada atravessada nas cadeiras da recepção. Por duas vezes Nell disse que bastava, porém eu ainda não estava me sentindo tão mal, então insisti em continuar. Da terceira vez, fiquei zonza ao erguer a cabeça. “Pronto”, falei. “Ótimo”, respondeu ela. “Eu ia parar de qualquer jeito.” Ela me mandou tomar algumas caixinhas de suco, comer alguns biscoitos e continuar ali na recepção para descansar. “Se você se sentir um pouco mal nos próximos dias, venha direto para cá. Não hesite.” E então foi correndo preparar o procedimento. Sei que ela só está fazendo a transfusão porque sabe que Meredith vai morrer de qualquer jeito. O motivo não importa. Estou satisfeita por ela ter concordado.

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O sol já tinha quase se posto quando saí de lá. Ouvi os passos de Gav antes mesmo de vê-lo, ziguezagueando por entre os carros que bloqueavam a rua em torno do hospital. Hesitei nos degraus. Ele parou ao me ver. Seus olhos estavam escuros à pouca luz. “Kaelyn”, disse ele, parecendo preocupado e aliviado ao mesmo tempo. “Passei a tarde inteira procurando por você.” Ele fez menção de se aproximar, em seguida pareceu conter o impulso. Lembrei-me da última vez que havíamos conversado. Do que eu lhe dissera — para ficar longe de mim. Naquele instante, isso me pareceu tão ridículo quanto o que eu pretendera fazer no penhasco. Estendi a mão. E ele foi correndo. Gav me abraçou e me beijou intensamente, me puxou ainda mais para perto de si, de modo que minha cabeça repousou no seu ombro, e o maxilar dele encostou na minha orelha. “Onde você estava?”, perguntou ele. “Fui até a casa do seu tio, procurei por todo o hospital, dirigi pela cidade, e já ia começar tudo outra vez.” “Só fui dar uma volta”, respondi. “Precisava pensar.” Parar por aí seria como mentir. Deixar tanta coisa de fora... eu iria da omissão à desonestidade. Do que mamãe me acusou mesmo, há tanto tempo? De afastá-la, de bloqueá-la. Porque eu queria guardar para mim tudo que estava passando. Um nó subiu na minha garganta, ao lembrar. Obrigueime a engoli-lo. “Tem sido difícil”, falei baixinho. “Estou com muito medo.” “Eu também”, disse ele, e soltou uma espécie de riso áspero. “Vivo o tempo todo com medo. Com um pouquinho menos agora que sei que você está bem.” Ele recuou minimamente. “Soube do seu pai”, disse Gav. “O que aconteceu com ele. Vou falar com aqueles idiotas cheios de armas e gasolina como eles estão sendo babacas, e se não gostarem...”

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“Gav”, falei, interrompendo seu discurso. Agarrei o casaco dele com força. Todo o desespero que me abandonara ao descer do penhasco voltou a crescer dentro de mim. Eu tinha que fazer parar. “Não”, exclamei. “Sei que você quer ser o herói. E se for isso o que você precisa fazer pela cidade, tudo bem. Não quero que faça por mim.” “Não é uma questão de ser herói”, retrucou ele. “Mataram o seu pai. Você deve estar sofrendo tanto que eu nem consigo imaginar. Não posso simplesmente ignorar isso.” “Pode sim”, respondi, recuando para poder olhar nos seus olhos. “Sabe o que me faria sofrer ainda mais? Se você se arriscasse, na ilusão de poder me ajudar, e acontecesse alguma coisa com você. O mais importante para mim é que você esteja bem. Você entende isso, não entende? Mas se eu tentar protegê-lo, e você tentar me proteger, um vai cancelar o efeito do outro. E nenhum de nós dois vai ficar bem.” “Então o que você quer que a gente faça?”, perguntou ele, com dureza na voz. “Que não fiquemos juntos?” Respirei fundo. “Não”, respondi. “Claro que não. Talvez... Você se lembra do outro dia, quando disse que teria me notado mesmo que a epidemia não tivesse acontecido? Não podemos agir como se este fosse mesmo um mundo onde nossas vidas não vivem em constante perigo, e onde coisas horríveis não acontecem a cada minuto, e apenas ficarmos juntos normalmente? Não podemos parar de nos preocuparmos com quem precisa proteger quem?” “Normalmente”, repetiu ele. “Você quer dizer chocolate e flores, e bailes de escola, horário para voltar para casa, e discussões sobre se vamos sair com os seus amigos ou os meus?” “Bem, talvez não tão normalmente”, concluí. “Um meio termo.” Seus ombros se elevaram e despencaram, e em seguida seus lábios se curvaram em um sorriso fraco.

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“Tudo bem”, disse Gav. “Posso tentar. Já sei o que eu estaria fazendo agora em um mundo meio que normal.” Ele me puxou para si e me beijou. Naquele instante, não senti mais tanto medo. Naquele instante senti que talvez tudo pudesse dar certo, afinal. Agora entendo melhor o que Drew disse em setembro, quando falou que não adiantava nada nos escondermos do mundo apenas para nos mantermos a salvo. É o resto do mundo que faz a vida valer a pena. Jamais quero que Gav se sinta como eu me senti, atraído para o penhasco, culpandose por não conseguir salvar todo mundo. Por não me salvar. Se eu precisar ser salva, eu mesma vou cuidar disso. Acho que dou conta.

22 de dezembro Ontem, quando Gav veio para o almoço, comecei a me sentir fraca, escorreguei na escada e quase caí, então pedi para ele me levar ao hospital. Nell estalou a língua para mim em reprovação e me mandou deitar na recepção, com um monte de suco e sopa ao lado para ir tomando. Antes de anoitecer eu já estava me sentindo melhor, mas ela me fez passar a noite lá. Além de alguns funcionários do hospital e voluntários, ninguém passou por lá. De manhã, falei para Nell: “Aqui não está mais tão cheio.” 294 | P á g i n a


“Não”, disse ela, apertando meu ombro. “Não precisamos admitir nenhum paciente novo ontem. Os números têm decrescido, porém é a primeira vez que isso acontece desde o início da epidemia.” Sei que não é uma grande vitória. Sobrou muito menos gente para adoecer. Mas a cidade não está vazia. Aqueles que sobreviveram durante todo esse tempo devem estar tomando todas as precauções, e as preocupações devem estar mantendo-os protegidos. Se o vírus não fizer novas vítimas, vai começar a desaparecer. Fui ver Meredith antes de sair. Ela continua perdida em um delírio, contudo em alguns momentos se acalmava. Acho que isso é pelo menos uma pequena melhora. Quando voltei para casa, Tessa estava à janela da sala enchendo de terra os vasos de flores. “Acho que aqui deve pegar sol suficiente para cultivar alguma coisa”, disse ela, e tive vontade de abraçá-la. Em vez disso, me contentei em preparar um chá para nós duas. Ficamos sentadas na sala de jantar por um tempo, tomando lentamente nosso chá sem dizer nada. Dois esquilos começaram a brigar lá fora, perto da janela, provavelmente algum desentendimento sobre quem era o verdadeiro dono de um estoque de nozes. Olhamos uma para a outra no mesmo instante e sorrimos. Foi perfeito. Um momento tranquilo, de entendimento mútuo sem necessidade de palavras. Tessa uma vez me disse que conseguia seguir em frente porque se concentrava nas pessoas que tinha consigo, e não nas que não tinha. A dor da falta de mamãe e de Drew não passou, e agora, em cima disso, ainda tem uma dor mais aguda, por papai. Porém eu tenho pessoas à minha volta. Pessoas que se importam comigo, com quem eu me importo. Talvez não sejam as que eu escolheria se tivessem me dado a chance de escolher quatro meses atrás. Isso não significa que não sejam exatamente aquelas de quem preciso.

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23 de dezembro Mais um dia, e Meredith continua lutando. A febre cessou por volta de meio-dia, e por alguns instantes sua mente pareceu clarear. Ela segurou minha mão, falou meu nome e sorriu quando beijei sua bochecha. Nell diz que é muito cedo para dizer se ela vai continuar melhorando. “Tente não criar muitas esperanças, querida”, disse ela quando saí.

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Pareceu-me um péssimo conselho. Por que seria preferível esperar o pior a ter esperança? Esperar o pior quase me fez pular de um penhasco. Também não espero o melhor. Mas torço por Meredith com todas as minhas forças. O que provavelmente explica por que ainda faço isto: sentar junto à janela do quarto dela e observar o continente. A água do estreito é mais violenta no inverno. Acho que os barcos de patrulha se deslocaram outra vez. Comecei a fazer um registro de tudo que vejo lá, o que quer dizer que basicamente faço anotações do tipo “três luzes acesas no extremo sul da costa às nove horas”. Fico imaginando se *** Alguma coisa está se movendo no porto do continente, vindo na nossa direção. Quase parece a barca. Espere um pouco. *** É a barca! Os barcos patrulheiros estão deixando-a passar. Não dá para ver quem está dirigindo, nem com os binóculos, mas definitivamente é a nossa barca, atravessando o estreito. E não é só isso. Estou vendo você, Leo. De pé no convés, parecendo prestes a mergulhar e vir nadando se a barca não andar mais rápido. Alguém está vindo até nós. Não sei o que isso quer dizer, mas deve significar algo bom. Talvez estejam trazendo mais remédios, ou peças para consertar os telefones e a eletricidade. Talvez tenham uma vacina. Talvez Drew esteja lá. E você está vindo para casa. Tenho que contar a Tessa. Não consigo parar de sorrir. Logo, logo você vai ver. Finalmente poderemos conversar,

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cara a cara, como eu prometi que faria. E aí estaremos a menos um passo de recuperarmos o mundo que tínhamos antes.

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O fim de todos nós fallen world – megan crewe