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AMOR TOTAL BETROTHED FOR THE BABY

Kathie DeNosky Ele assumiu a paternidade do filho de outro homem… Temendo que a família abastada de seu ex tentasse ficar com a guarda da criança que crescia em seu ventre, Callie Marshall recorreu ao único homem com poder para ajudá-la: Hunter O’Banyon, seu chefe. Quando ele lhe oferece sua proteção e seu nome, ela aceita, certa de que é o melhor para o bebê. Mas os beijos de Hunter fazem Callie esquecer que o acordo é apenas de fachada. Será que poderia se tornar algo mais?

Digitalização: Simone R. Revisão: Carmita

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Tradução Leandro Santos HARLEQUIN 2013

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: BETROTHED FOR THE BABY Copyright © 2006 by Kathie DeNosky Originalmente publicado em 2006 por Silhouette Desire Título original: BOSSMAN BILLIONAIRE Copyright © 2009 by Kathie DeNosky Originalmente publicado em 2009 por Silhouette Desire Projeto gráfico de capa: Nucleo i designers associados Arte-final de capa: Ô de Casa Editoração eletrônica: EDITORIARTE Impressão: RR DONNELLEY www.rrdonnelley.com.br Distribuição para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil: FC Comercial Distribuidora S.A. Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171,4° andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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De Emerald Larson, proprietária e diretora executiva da Emerald, Inc. Para: Meu assistente pessoal, Luther Freemont Re: Meu neto Hunter O’Banyon Meu neto, Hunter, chegou a Devil’s Fork, Texas, para assumir o Resgate Médico Life. Tenho certeza de que ele não vai ficar nem um pouco feliz quando descobrir que sua enfermeira de voo é uma futura mãe solteira que não tem intenção nenhuma de sossegar até a hora do parto. Se nossas fontes estiverem corretas — e não tenho dúvidas de que estão —, Lucien não apenas fará as pazes com seu passado, como encontrará seu futuro. Isso posto, espero que você o ajude no que for necessário a fim de que ele encontre uma solução completa e satisfatória para o dilema dele. Como sempre, confio em sua total discrição sobre o assunto. Emerald Larson

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CAPÍTULO UM

Quando Hunter O’Banyon olhou para a linda loura que ele acabara de conhecer, a adrenalina começou a correr por suas veias. As faces de porcelana dela estavam coradas com um misto de calor e empolgação, e, pelo brilho de urgência em seus olhos violeta, ele soube que seria uma experiência e tanto. — Espero que não se importe, porém isso vai ter que ser mais rápido do que eu tinha planejado — disse ela, um tanto quanto arfante. Sorrindo, ele assentiu. — Vamos com tudo. Aguento a velocidade que você quiser. — Gosto do seu jeito de pensar. — O sorriso dela fez o coração dele disparar. — Aguente firme, grandão. As coisas podem ficar meio loucas. Hunter inspirou fundo e se preparou. — Não se contenha, querida. Ao mesmo tempo em que ela pressionou o pedal até o chão, estendeu a mão para ligar um interruptor no painel. Luzes e uma aguda sirene competiram com o som de pneus derrapando e levantando uma nuvem de cascalho e poeira do sudoeste do Texas quando a picape saiu da pista do Campo Aéreo Comunitário de Devil’s Fork. Quando Hunter descobrira que não havia nenhum serviço aéreo comercial que levasse até a minúscula cidade, ele se perguntara por que o piloto do pequeno avião que ele tinha fretado para levá-lo de El Paso até Devil’s Fork rira como uma hiena quando Hunter chamara aquilo de aeroporto. Agora, ele sabia por quê. O local consistia numa pista de asfalto que mal atendia às normas de aviação, um galpão que estava precariamente tombado para um dos lados e uma vara de madeira com um cata-vento preso ao topo acima das bandeiras dos Estados Unidos e do Texas. Pelo que Hunter podia ver, não havia nenhuma luz para pousos noturnos. Ele só podia torcer para que a operação do Resgate Médico Life fosse melhor que aquilo. — A propósito, sou Callie Marshall, enfermeira de voo da equipe Resgate II — disse casualmente a loura. Um belo nome para uma bela mulher, pensou ele enquanto chegavam aos limites da cidade. — Sou Hunter O’Banyon. — Graças a Deus. — Ela sorriu. — Quando meu pager tocou, não dei tempo para que você se apresentasse, e acabou de me ocorrer que você podia não ser o homem que eu estava esperando. O coração dele deu um salto, e Hunter precisou pigarrear. Quando sorria, Callie Marshall não era apenas bonita; era incrivelmente linda. — Quais eram as chances de outra pessoa chegar de avião a Devil’s Fork? — perguntou ele. A maravilhosa risada dela foi um dos mais belos sons que ele já ouvira. — Bom argumento — disse ela. — Acho que você é primeira pessoa que vi chegar 6


de avião a Devil’s Fork desde que cheguei, há dois meses. — Por algum motivo, isso não me surpreende. Você veio de avião? — De jeito nenhum — Ela balançou a cabeça, fazendo seu rabo de cavalo sacudir. — Vim de carro de Houston. Ao descerem a mil por hora pela rua principal, Hunter percebeu que, se tivesse piscado, não teria visto a cidade passar. Além do fato de que Callie estava dirigindo a uma velocidade que tornava tudo um borrão, o distrito comercial só continha alguns quarteirões e não havia muito mais que dois ou três na parte residencial. — Mary Lou, nossa operadora de rádio, disse que você é da região de Miami. Talvez demore um pouco para se acostumar a Devil’s Fork. Fica a novecentos quilômetros da praia mais próxima e não é exatamente um centro de atividade social. — Não diga. — Ele fez cara feia quando passaram por um cruzamento sem sequer reduzirem a velocidade. — Eu sabia que este lugar era pequeno, mas esperava algo maior que isto. — Eu também — concordou ela. — Quando cheguei, tive dificuldade para acreditar que houvesse necessidade de uma base de operação de resgate médico aqui. Mas estava enganada. Hunter se lembrou do que lera no arquivo que recebera de sua avó sobre a empresa que ele iria administrar. — Pelo que sei, somos o único serviço de emergência disponível nas cinco comarcas mais próximas. Ela assentiu. — A população é tão esparsa nesta parte do Texas que não é uma boa relação custo-benefício que as comunidades tenham sua própria ambulância. — Dando de ombros, ela entrou com a picape numa estrada de terra que levava até um grande hangar com “Resgate Médico Life Serviço de Helicóptero” escrito na lateral. — Além do mais, se eles tivessem uma unidade em terra, demoraria demais para chegar à maioria das pessoas e ainda mais para levá-las a um hospital. Somos a melhor esperança de cuidados médicos emergenciais para eles. Quando ela contornou a lateral da construção, Hunter suspirou, aliviado. A base do Resgate Médico Life parecia estar em condições muito melhores que o campo aéreo de Devil’s Fork. Além do conservado hangar, havia dois helicópteros novos sobre os helipontos pintados com cores berrantes, e toda a área estava equipada com o que parecia uma iluminação de última geração para decolagens e pousos noturnos. — Vejo você quando voltarmos — disse ela, pondo a picape em ponto morto, desligando o motor e abrindo a porta do motorista. — Tenho um voo para pegar. — Obrigado pela carona — gritou Hunter ao sair da picape. Virando-se, ela abriu outro daqueles incríveis sorrisos para ele. — Quase me esqueci de avisar. Cuidado com o café de Mary Lou. Ela vai dizer que é o melhor que você já tomou, mas não acredite. — Ela fez cara feia. — É horrível. Parado ali, olhando fixamente para Callie, que corria lentamente na direção do helicóptero, Hunter não conseguiu identificar o que era, mas algo nela o incomodava. Além do fato de que ela guiara a picape pela cidade como se fosse o diabo fugindo da cruz e, agora, movia-se como se tivesse todo o tempo do mundo, havia algo na justa maneira como o macacão de voo azul-marinho dela abraçava sua cintura que não parecia 7


certo para Hunter. Entretanto, quando ela desapareceu dentro da cabine e a porta se fechou, ele deixou rapidamente de lado suas preocupações quando o helicóptero Resgate II decolou do heliponto. Ainda que Emerald Larson tivesse lhe garantido que se certificaria de que todos os equipamentos estivessem atualizados e cumprissem as exigências estaduais, ele pretendia encomendar novos macacões de voo, numa cor que fosse mais facilmente discernida das dos outros profissionais que pudessem estar no local quando a equipe do Resgate Médico Life chegasse. E ele se certificaria de que todos usassem o tamanho correto. — Você deve ser Hunter O’Banyon, o novo chefe daqui. Com o som da voz feminina atrás de si, Hunter se virou para uma mulher que ele diria ter 60 e poucos ou 70 anos. Com cabelo branco encaracolado, um rosto perfeitamente redondo e um par de estreitos óculos de leitura empoleirados no nariz, seria fácil para ela fazer o papel de Mamãe Noel numa peça de Natal. Hunter sorriu ao estender a mão. — Eu mesmo. E você deve ser Mary Lou Carson. — A própria. — Sorrindo, ela apertou firmemente a mão dele. — Vá para a sala de operações e descanse um pouco. Vou servir o melhor café que você já tomou. Depois vou lhe mostrar suas acomodações. Hunter pegou sua bagagem na picape e seguiu Mary Lou, saindo do calor do fim de agosto e entrando no escritório com ar-condicionado do hangar. Quando ela o levou para a sala de operações, ele olhou para as medalhes militares emolduradas na parede ao lado da porta. — Eram do seu marido? — perguntou ele casualmente. — Algumas. — Mary Lou foi até uma pequena área de cozinha do outro lado do recinto para mexer o conteúdo de um imenso pote, com cheiro delicioso, que estava sobre um fogão elétrico. — As outras são minhas. Quando ela foi até onde ele estava, entregou-lhe uma xícara de café e gesticulou para que Hunter se sentasse numa das diversas cadeiras do outro lado de uma surrada mesa de madeira. — Relaxe, Hunter. — De qual área das Forças Armadas vocês faziam parte? — perguntou ele, sentando-se. — Lester e eu éramos da Marinha. — Ela passou entre a mesa e uma bancada equipada com aparelhos de rádio, um computador e vários telefones para se acomodar numa velha cadeira de madeira que parecia ser da época da Segunda Guerra Mundial. — Ele era mecânico de aeronaves, e eu era enfermeira. Ele morreu num acidente a bordo de um avião cargueiro poucos antes de nos aposentarmos. — Sinto muito. — Hunter sabia muito bem como era perder alguém inesperadamente. — Não sinta — disse ela, surpreendendo-o. — Lester morreu fazendo o que mais amava, trabalhando em caças de combate. É o melhor jeito que podemos esperar ir embora deste mundo. — Antes que ele pudesse responder, ela deu de ombros. — É por isso que sou operadora aqui. Depois que minha artrite me obrigou a parar de trabalhar em hospitais, aceitei este emprego. Às vezes, quando as pessoas ligam com alguma emergência, fico na linha e as oriento sobre como tratar de uma crise médica até que uma 8


de nossas equipes chegue. É quase tão gratificante quanto a enfermagem. Hunter deu um gole no café enquanto pensava no que Mary Lou dissera. Contudo, quando o amargo sabor se espalhou por sua língua, ele precisou se forçar a engolir. Pondo rapidamente a xícara na mesa, ele mal conseguiu controlar um calafrio. O que Callie lhe dissera sobre o café não era nada perto da realidade. O negócio era espesso como xarope e tinha gosto de quinino. Tossindo, ele ergueu os olhos para ver Mary Lou a olhá-lo, esperando. Hunter percebeu que ela estava esperando que ele dissesse como o café estava bom. — Você gosta de café forte, não? — perguntou ele. Ela deu de ombros. — Gosto do meu café como gosto de um homem: forte e o melhor de todos. Se o café de Mary Lou não tivesse sido suficiente para deixá-lo em choque, a espontaneidade dela teria completado o serviço. Hunter estava embasbacado. Incapaz de pensar em algo para dizer, ele esperou para ver o que ela falaria em seguida. A menos que ele a tivesse julgado mal, isso não demoraria a acontecer. O sorriso de Mary Lou lhe disse que ela soubera que sua declaração o deixaria sem palavras. — É melhor você ficar sabendo logo de algumas coisas a meu respeito, Hunt. Não meço palavras. Digo exatamente o que penso, porque tenho idade suficiente para sair ilesa disso e nunca fui do tipo que faz rodeios. — Respeito isso. — Hunter não fazia ideia de aonde Mary Lou queria chegar com aquilo, mas percebia que havia mais coisas na mente dela. — Fico feliz por isso, porque o que vou dizer agora pode não soar bem. — Estou ouvindo. — Vou tratar você como trato todos por aqui, porque não me impressiono mais com muitas coisas. E isso inclui o fato de você ser neto de Emerald Larson. Hunter franziu o cenho. Ele pedira especificamente que Emerald não revelasse seu parentesco com ele. Em primeiro lugar, porque ele não precisava da pressão de ter que corresponder às expectativas de ninguém. E, em segundo, porque ele ainda não aceitara totalmente o fato de ser neto dela. — Como soube que... — Emerald e eu nos conhecemos há muito tempo. Ela nem sempre foi a rainha da cocada. Quando ela era adolescente, trabalhava no balcão da farmácia do meu pai. — Mary Lou sorriu. — Era como uma irmã mais velha para mim, e mantivemos contato ao longo dos anos. Hunter não ficou muito feliz por ter uma amiga de longa data de Emerald trabalhando para ele. Não gostava da ideia de não poder fazer nada sem que sua manipuladora avó ficasse sabendo. — Se estiver preocupado com a possibilidade de eu relatar a Emerald tudo que você fizer, não perca seu tempo. Não sou fofoqueira. Se ela quiser saber o que você está fazendo, vai precisar perguntar diretamente a você. — É bom saber disso. — Ele não sabia se deveria ou não, mas Hunter acreditou na mulher. Bebendo o resto de seu café, Mary Lou pôs a xícara na mesa e se levantou. 9


— Agora que já resolvemos isso, vou lhe mostrar suas acomodações e deixar você se acomodar enquanto termino o cozido de carne que estou fazendo para o nosso jantar. — Ele apontou para a xícara dele. — Quer que eu esquente? Hunter balançou rapidamente a cabeça. — Não costumo tomar muito café. — Ele não queria ferir os sentimentos dela, mas ficaria feliz se nunca mais bebesse outra gota daquele amargo líquido. Ela balançou a cabeça. — Não sei qual é o problema de vocês, jovens. Sou a única daqui que gosta de café. Quando Hunter pegou sua mala e a seguiu por um corredor rumo aos fundos do hangar, suspeitou de que a relutância dos outros em tomar o café de Mary Lou tinha tudo a ver com autodefesa e nada a ver com não gostar de café. — Este é o seu escritório — disse ela, passando por uma porta enquanto ia para os fundos da construção. Apontando para outra, do outro lado do corredor, acrescentou: — E aqui são as acomodações da equipe que está em serviço. Temos três equipes trabalhando em sistema de revezamento em turnos de 24 horas. Dois dias de serviço e quatro de folga. Claro, na remota possibilidade de recebermos um chamado enquanto uma equipe estiver fora, outra pode ser chamada durante os dois primeiros dias de folga dela. — E você? Quais são seus horários? — Fico aqui o tempo todo. Quando não estou enviando uma equipe, estou cozinhando e dando conselhos que ninguém parece ouvir. — Ela riu ao apontar para a porta ao lado das acomodações da equipe. — Este é o meu quarto. Tenho uma campainha que me acorda quando recebemos um chamado noturno ou quando resolvo tirar um cochilo. Hunter franziu o cenho. — Quem é a operadora nos seus dias de folga? Ela continuou caminhando rumo à porta no fim do corredor. — Nas raras ocasiões em que tiro um dia de folga, um dos membros da equipe que não está de serviço me cobre. — Você não tem folga programada regularmente? — Ele não gostou daquela ideia. Além do fato de que Emerald estava se aproveitando de Mary Lou, Hunter nem sequer sabia se a lei permitia que a mulher trabalhasse tanto. — Não se preocupe, Hunter. Não tenho família, e o trabalho aqui no Resgate Life é o que me deixa feliz e me faz viver. Amo o que faço. Então, não vá inventar de me obrigar a tirar folgas regularmente, porque não vou fazer isso. — Ela abriu a porta para o quarto dele. E, recuando, apontou para a bagagem — Todas as suas coisas estão nesta mala? Ele assentiu. — Guardei o resto até encontrar um lugar para morar em Devil’s Fork. — Boa ideia. Agora, vá guardar suas coisas enquanto falo com a equipe Resgate II por rádio para saber a situação do paciente deles e a estimativa de retorno à base. Hunter olhou fixamente para Mary Lou enquanto ela saía e voltava pelo corredor, como se trabalhar sem folgas regulares não fosse nenhum problema. Ele, porém, não tinha tanta certeza disso. Não era apenas uma questão de legislação trabalhista. A idade

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e o bem-estar dela também precisavam ser levados em consideração. Ela poderia parecer um dínamo com energia infinita, mas trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana já seria duro para uma pessoa muito mais jovem, ainda mais para uma mulher perto dos 70 anos. Ao pôr a mala na beira da cama, Hunter concluiu que havia várias coisas que ele precisava fazer imediatamente. Não apenas precisava encomendar os macacões de voo do tamanho certo para todos, mas também teria que verificar as leis trabalhistas do Texas. Depois de guardar suas roupas, ele olhou em volta. Dera sorte de sempre levar poucas coisas em suas viagens. O quarto mal tinha espaço para o beliche, a pequena cômoda e a mesa de cabeceira. Ele não teria espaço para mais nada além de suas roupas. Por outro lado, não precisava de muito espaço. Nos últimos cinco anos, ele não se importara com o tamanho ou a localização de suas acomodações. Depois de trabalhar tão duro todos os dias no mercado de construção a ponto de ficar cansado demais para pensar, tudo que ele precisara fora um lugar para dormir, tomar banho e trocar de roupa. Com sorte, haveria trabalho suficiente para que ele se mantivesse igualmente ocupado no Resgate Médico Life. Com o som de um helicóptero pousando lá fora, ele foi até a sala de operações. — Não demoraram muito. Mary Lou assentiu. — Juanita Rodríguez achou que teria o bebê, mas acabou sendo alarme falso. — Sorrindo, ela acrescentou: — Ela só tem 19 anos, e é a primeira gravidez. Ela e o marido, Miguel, estão preocupados com a possibilidade de não chegarem ao hospital a tempo. — Ouvi dizer que essa é uma grande preocupação para pais de primeira viagem — Uma pontada de arrependimento atingiu Hunter. A expectativa da chegada de um filho era algo que ele jamais vivenciaria. Entretanto, ele não teve tempo para remoer aquele perturbador pensamento, pois a equipe do Resgate II entrou na sala de operações. Além de Callie, ela era composta de um homem de cabelo louro-claro que parecia ter por volta de 40 anos e um garoto de cerca de 20. — Meu nome é George Smith — disse o homem, sorrindo ao se aproximar para apertar a mão de Hunter. Quase com o 1,90m de Hunter, George tinha a constituição de um boxeador peso pesado e, a julgar por sua pegada, também a força de um. — Sou o piloto da equipe Resgate II. — Com a cabeça, ele indicou o jovem. — E o garoto ali é Corey Timmons, o paramédico da nossa equipe. — É um prazer conhecê-lo, sr. O’Banyon — falou Corey, avançando para apertar entusiasmadamente a mão de Hunter. — Estávamos ansiosos pela sua chegada. — Pode me chamar de Hunter. — Ele não ficou surpreso por ouvir que os funcionários tinham estado ansiosos pela mudança na administração. Pelo arquivo que ele recebera, quando Emerald comprara o Resgate Médico Life, os funcionários estavam sem receber seus salários fazia meses. Sorrindo, o garoto o olhou com maliciosos olhos castanhos. — Estamos felizes por ver que você sobreviveu ao caminho pela cidade com Callie dirigindo.

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Hunter riu. — Vocês tinham alguma dúvida? — Depois que chegou a Devil’s Fork com Jenson Colisão pilotando aquele avião de brinquedo, ficamos nos perguntando se o estilo de direção dela não iria acabar com você — acrescentou George, rindo. — Se vocês continuarem fazendo piadinhas com o meu jeito de dirigir, vou parar de fazer aqueles biscoitos de aveia com gotas de chocolate que tanto amam — avisou Callie de forma bem-humorada enquanto ia até a área da cozinha, onde Mary Lou estava dando os últimos toques no jantar da equipe. — Retiramos tudo que dissemos — falou Corey honestamente enquanto pegava um prato para que Mary Lou o enchesse com uma generosa porção de cozido. — Pode crer — disse George, assentindo vigorosamente. — Só estávamos brincando, Callie. Haja o que houver, não pare de fazer aqueles biscoitos. — Voltando-se para Hunter, ele confidenciou: — Você nunca provou nada como os biscoitos dela em toda a sua vida. — Estou ansioso para experimentá-los — comentou Hunter, gostando da conversa tranquila. Enquanto George ia se servir do cozido, Hunter observou Callie abrir a geladeira para tirar uma embalagem de suco de laranja e, novamente, percebeu a forma como o macacão de voo dela se ajustava ao corpo. O tecido azul-marinho ficava bem folgado em todos os pontos, a não ser na cintura... Uma repentina e fria sensação de terror começou a preencher o peito de Hunter, e ele precisou engolir em seco para conter a bile que subia para sua garganta. Callie Marshall não estava apenas gordinha na região da cintura. Estava grávida de vários meses.

CAPÍTULO DOIS

Ao passar por Hunter para se sentar numa das cadeiras diante da mesa de Mary Lou, Callie se perguntou que diabos ela fizera para receber uma análise tão minuciosa. O intenso olhar dele a seguira desde o momento em que ela adentrara o recinto e fizera a pele dela formigar como se Hunter a tivesse tocado. Balançando a cabeça para clarear seus pensamentos, ela concluiu que sua nada característica reação a ele só podia se dever a seus hormônios, enlouquecidos por causa da gravidez. Era a única explicação razoável que ela conseguia imaginar. Provavelmente, o concentrado olhar de Hunter não fora nada além do resultado de ele ter percebido a crescente barriga dela. Sem dúvida, ele tentava entender se ela estava um pouco rechonchuda ou se estava esperando um bebê. Com cuidado para manter a voz baixa e evitar chamar a atenção dos outros para o 12


fato de que flagrara Hunter a olhando fixamente, Callie sorriu ao se virar e retribuir o intenso olhar verde dele. — Caso você esteja se perguntando o motivo da minha forma estranha, estou grávida de quatro meses e meio. Passando uma agitada mão por seu cabelo castanho-escuro, ele pareceu um pouco desconfortável. — Eu... Não foi minha intenção. — Não se preocupe. — Ela sorriu, esperando deixá-lo relaxado. — Isso não é nenhum grande segredo. E, como você pode ver, não estou tentando esconder minha gravidez. — Seu marido não acha ruim você voar estando grávida? — Ele balançou a cabeça. — Desculpe. Isso não é da minha conta. Era uma pergunta estranha, mas a preocupação no lindo rosto dele e em sua profunda voz era genuína. — Não se preocupe. Não tenho marido. Então, isso não é problema. — Ela deu de ombros. — Sou solteira, não tenho compromisso e estou feliz assim. — Não quis ser enxerido. — Ele parecia mais desconfortável que antes. — Sem problema. Na verdade, estou ansiosa por ser uma mãe solteira. Ele pareceu querer dizer algo, mas Corey escolheu aquele momento para chegar e desabar na cadeira ao lado dela. — Já puxamos o seu saco o suficiente para ganharmos mais biscoitos ou precisamos bajular mais? Callie riu do simpático e jovem paramédico. — Não, acho que vocês já se redimiram o suficiente para outra fornada. — Se me derem licença, acho que vou dar uma olhada no meu escritório — disse Hunter repentinamente, virando-se para descer pelo corredor. Olhando fixamente para as costas de seu novo chefe, Callie se perguntou o que causara aquela abrupta mudança. Quando ela o encontrara no campo aéreo, ele fora simpático e extrovertido. Contudo, no intervalo de poucos minutos, seu humor se tornara pensativo e atormentado. Estaria preocupado com a possibilidade de que ela não fosse capaz de realizar seu trabalho? Ela se levantou para segui-lo até o escritório e lhe garantir que era perfeitamente capaz de cumprir suas responsabilidades, mas o rádio bipou. — Parece que temos outra missão — disse Mary Lou, indo atender. Enquanto Callie ouvia o patrulheiro rodoviário dar a localização de um acidente na Interestadual 10 e avaliar os ferimentos do motorista, ela, George e Corey foram para a porta. — Diga que estamos a caminho. — Cerca de 15 minutos para chegarmos — disse George. — Deixe o cozido quente — acrescentou Corey. Pelo canto do olho, Callie viu Hunter entrar novamente no recinto. Sua expressão preocupada reforçou a determinação dela de deixá-lo tranquilo. Mas a conversa deles precisaria esperar. Havia uma vítima de acidente dependendo dela para cuidados 13


médicos emergenciais. E ela não deixaria seu paciente na mão.

Suando frio, Hunter acordou subitamente e se sentou na beira da cama. Apoiando os cotovelos nos joelhos, ele aninhou a cabeça nas mãos enquanto tentava afastar os resquícios de seu pesadelo. Fazia quase seis meses que ele não sonhava com o acidente. Contudo, era tão real agora quanto fora cinco anos antes, quando ele o vivenciara. Ele e sua noiva, Ellen Reichert, uma médica residente do Centro Médico Monte Sinai, em Miami, tinham ido à América Central para entregar suprimentos médicos e prestar primeiros socorros a alguns dos vilarejos remotos atingidos por um furacão de categoria quatro. Tudo na viagem fora de rotina e sem problemas até ele contornar o local de pouso da última parada deles. Foi quando a desgraça acontecera e o curso da vida dele mudara para sempre. O helicóptero de duas turbinas que ele pilotava perdera subitamente a pressão do óleo. Então, antes que ele pudesse pousar em segurança, o helicóptero começara a cair. Hunter não se lembrava de muitos detalhes do que havia acontecido, apenas que lutara com os controles, sem muito sucesso. O helicóptero acabara se inclinando precariamente em pleno ar, caindo em seguida. O primeiro pensamento dele fora se certificar de que Ellen estava bem e, em seguida, tirá-los do que restara do helicóptero. Mas o sangue em suas veias tinha congelado quando ele chamara o nome dela sem receber resposta. Hunter pusera os dedos na lateral do pescoço dela e, detectando uma fraca pulsação, correu para soltar o cinto de segurança. Abrindo a porta do helicóptero, ele a erguera com cuidado e a carregara para uma distância segura dos destroços. Quando ela recuperara a consciência, os dois perceberam que ela não teria muito tempo de vida, e a devastadora dor no coração de Hunter se tornou um completo desespero. Ela havia lhe dito que estava esperando o momento perfeito para contar que descobrira recentemente estar grávida. Com seu último suspiro, ela lhe dissera quanto o amava e como sentia por ter que ir embora. Então, fechando os olhos, ela partira em silêncio. A investigação sobre o acidente mostrou que fora causado por uma falha mecânica e que não houvera nada que Hunter pudesse ter feito para impedir. Contudo, naquele dia, ele tinha desistido de pilotar e sofrido durante os cinco anos seguintes, sentindo-se culpado por ter saído do incidente apenas com cortes e hematomas, culpando a si mesmo por ter sobrevivido enquanto a mulher que ele amara e o futuro filho deles haviam morrido. Hunter passara incontáveis horas repassando cada detalhe do acidente, perguntando a si mesmo se podia ter feito algo de forma diferente, algo que pudesse ter abrandado os ferimentos dela ou salvado sua vida. Entretanto, por mais que ele tentasse, não conseguira pensar em nada que teria mudado o resultado. Ele inspirou fundo, trêmulo, e tentou relegar as perturbadoras lembranças para o fundo de sua mente. Não havia dúvida de por que o horrendo sonho retornara, e ele não podia dizer que estava surpreso. Depois de descobrir que Callie estava grávida, tudo em que Hunter conseguira pensar fora novamente em sua responsabilidade pelas vidas de uma mulher e do filho no ventre dela. Ainda que ela não estivesse na equipe de voo dele, sendo sua funcionária, era o dever dele garantir a segurança dela. Felizmente, o turno dela havia terminado logo depois que a equipe Resgate II retornara após levar a vítima do acidente automobilístico para um hospital em El Paso. Isso significava que ele tinha quatro dias para pensar num argumento convincente para 14


fazê-la ficar em terra. E, a menos que a equipe dela fosse chamada para substituir a Resgate III, Callie e o bebê estariam em segurança. Agora, tudo que Hunter precisava fazer era pensar num jeito de mantê-los assim

— Só um segundo — gritou Callie quando pareceu que a pessoa à sua porta a arrancaria das dobradiças com as insistentes batidas. Limpando a farinha das mãos no avental, ela baixou a música e correu para abrir a porta. — O que é tão importante que... Ela parou imediatamente ao ver Hunter O’Banyon em sua minúscula varanda. Que Deus tivesse misericórdia, mas ele era um dos homens mais bonitos que ela já vira. Estava de camiseta preta e jeans desbotado. Os tecidos leves se ajustavam a ele como uma segunda pele e enfatizavam ombros largos e cintura estreita. Quando ela olhou para os braços dele, os bíceps protuberantes que esticavam as mangas da camisa lançaram um calafrio pela espinha dela. Callie deu a si mesma uma sacudida mental. O que diabos havia de errado com ela? E por que raios estava olhando para o homem como se ele fosse um brownie com cobertura de chocolate? — Tudo bem com você? — A expressão dele era de profunda preocupação. — É... — ela engoliu em seco — ... claro. Por que não estaria? — A não ser pelo fato de se sentir envergonhada por seu cabelo parecer totalmente bagunçado, de seu short e sua camisa serem as coisas mais velhas do armário e de ela estar coberta com uma fina camada de farinha, ela estava perfeita. — Bati durante cinco minutos antes de você abrir. Achei que pudesse haver algo errado. — Ele esfregou a própria nuca. — Deixe para lá. Você tem uns minutos? Precisamos conversar. O que ele poderia pensar que eles precisavam discutir? E por que tivera que aparecer logo depois de um telefonema da mãe dela? Ao menos uma vez por semana, desde que Callie contara à sua mãe que estava grávida, as duas passavam pela mesma rotina, na qual a mãe dela queria saber quem era o pai do bebê de Callie e por que ela insistia tanto em manter a identidade do homem em segredo. Indescritivelmente frustrada com a persistência de sua mãe, quando o telefonema fora encerrado, Callie já medira os ingredientes para várias dúzias de biscoitos de aveia com gotas de chocolate. Algumas mulheres faziam faxina quando estavam irritadas. Callie fazia biscoitos. — Você se importa se eu entrar? — perguntou Hunter. — Desculpe. Por favor, entre. — Ela recuou para que ele entrasse em seu pequeno chalé. — Eu só estava fazendo... ah, não! Meus biscoitos! — Lembrando-se dos biscoitos de pasta de amendoim que pusera no forno pouco antes de ouvi-lo bater na porta, Callie foi diretamente para a cozinha, com Hunter a segui-la. — Caramba! Quando você faz biscoitos, leva o negócio bem a sério, não? — falou ele, olhando à volta. Retirando a travessa do forno, ela a pôs em cima do fogão e olhou para a mesa e para as bancadas. Todas as superfícies disponíveis estavam cobertas de pratos de biscoitos. Balançando a cabeça ao ver aquilo, ela mordiscou o lábio inferior. Devia ter ficado 15


mais irritada do que imaginara com a ligação de sua mãe. — Quer um pouco de leite e biscoitos? — Ela sorriu. — Tenho bastante. — Não diga. — A profunda risada dele fez uma onda de arrepios percorrer a pele de Callie. — O que vai fazer com todos eles? — Não vão durar muito perto de George e Corey. Ela abriu um armário para pegar um pote e guardar os biscoitos, mas a sensação do amplo peito de Hunter pressionado contra a lateral de seu corpo quando ele avançou para pegar vários dos recipientes de plástico na prateleira de cima fez a excitação percorrer cada nervo do corpo dela. Quando ele os entregou a Callie e recuou, ela teve dificuldade de respirar. Sua mão tremia quando ela pegou os potes dele. — O-obrigada. Ele fez um curto movimento de cabeça e recuou ainda mais. — Acho que vou aceitar sua oferta de leite e biscoitos. Servindo um copo de leite para cada um, Callie pôs um deles numa ponta da mesa e foi se sentar do outro lado. Hunter apareceu imediatamente atrás dela, segurando a cadeira, e a proximidade dele a abalou tanto que Callie quase virou seu copo. Que bicho a mordera? Não apenas estava assustada como um coelho, mas também se tornara uma completa desastrada. Quando ele se sentou diante dela, analisou o prato de biscoitos entre eles. — Por qual você sugere que eu comece? — Gosto dos de aveia, mas deve ser porque uso gotas de chocolate, em vez de frutas secas — disse ela, pegando um dos saborosos doces. Ele assentiu ao pegar um biscoito. — Gosto bastante de pasta de amendoim — Quando ele mordeu, seus olhos se arregalaram. — Corey e George não estavam exagerando. É um dos melhores biscoitos que já provei. Enquanto comiam, Callie se perguntou o que ele achava que eles precisavam discutir. Não conseguia pensar em nada que fosse tão importante a ponto de ele lhe fazer uma visita em seu dia de folga. — O que queria conversar comigo? — perguntou ela, torcendo para que quanto antes ele dissesse a finalidade de sua visita mais cedo ele fosse embora. Ela precisava desesperadamente recuperar a compostura. Inspirando fundo, Hunter pôs seu copo vazio na mesa e a olhou nos olhos. — Estou preocupado com a possibilidade de o seu emprego ser demais para uma mulher na sua condição. Ela riu. — Ao contrário do que você pode pensar, gravidez não é uma doença. — Entendo isso. Mas tenho certeza de que, às vezes, é extremamente cansativo. — Não vou fingir que não é. — Ela se levantou para colocar os copos na lavadora. Em seguida, começou a empilhar biscoitos nos recipientes para congelar. — Mas também tem momentos em que passo um ou dois dias sem nenhum chamado de emergência e 16


fico esgotada de tédio. Além do mais, minha obstetra não vê problema no meu trabalho como enfermeira de voo. Então, se estiver preocupado com o cansaço, não fique. Corey e George são muito conscientes e não me deixam fazer nenhum esforço físico. E, quando não estamos atendendo a um chamado, eu me certifico de tirar cochilos com regularidade. — Sim, mas você precisa considerar outras coisas, como turbulência ou erro do piloto — disse ele ao lhe entregar os pratos cheios de biscoitos. — Confio em George. É um bom piloto. — Não estou dizendo que não é. Ela fechou a tampa do pote e começou a encher outro. — Então, o que está dizendo? Hunter massageou a própria nuca, como se para aliviar a tensão. — Você não se preocupa com a possibilidade de um pouso forçado ou uma possível queda? — Na verdade, não. — Ela não conseguia entender por que ele estava tão exageradamente preocupado. Todo piloto que ela já conhecera considerara o voo a forma mais segura de transporte. — Caso algo assim aconteça, não vou correr um perigo maior só por estar grávida. — Mas... — Não vejo motivo para você se preocupar tanto, mas, se acha que é tão importante, por que não reorganiza os registros dos funcionários e me põe na equipe com o melhor piloto? Para a surpresa de Callie, Hunter pôs suas grandes mãos nos ombros dela e a virou para si. Contudo, em vez de continuar com seu argumento, ele a olhou fixamente durante vários longos segundos antes de resmungar um palavrão e baixar a cabeça para capturar os lábios dela com os dele. Com a boca dele se movendo numa delicada carícia, a pulsação de Callie disparou, e seu íntimo começou a vibrar. A última coisa que ela esperara fora que ele a beijasse. Porém, em vez de afastá-lo, como ela deveria ter feito, ela colocou as mãos nos bíceps dele para se equilibrar. A sensação dos rígidos músculos se flexionando sob suas palmas lançou um calafrio de excitação pela espinha dela e fez seus joelhos tremerem Se ela tivesse bom-senso, daria um fim àquele beijo imediatamente e exigiria que ele fosse embora. Entretanto, os lábios firmes e quentes estavam fazendo Callie sentir coisas que ela apenas lera a respeito em revistas e romances femininos, e ela não queria que as deliciosas sensações terminassem. Quando ele a envolveu com os braços e a puxou contra si para aprofundar o beijo, a sensação da força superior dele a cercá-la lançou pequenas faíscas pelo corpo dela. Abrindo-se para ele, Callie sentiu seu coração palpitar várias vezes quando Hunter deslizou a língua para dentro para provocá-la e explorá-la com uma ternura que tornou impossível qualquer pensamento coerente. Pondo a mão na base das costas dela, ele a impeliu à frente, mas a sensação da pequena e redonda barriga dela pressionada contra seu abdômen o trouxe de volta à realidade. Ele parou imediatamente. Então, soltando-a, afastou-a cuidadosamente de si e recuou alguns passos. — Isso não deveria. ter acontecido. — Ele passou uma agitada mão por seu farto 17


cabelo castanho-escuro. — Acho que é melhor eu ir embora. — Não se preocupe. Envergonhada e confusa com seu comportamento nada característico, Callie começou a guardar mais biscoitos nos potes de plástico. Por que não o impedira, em vez de se agarrar nele como se estivesse desesperada pela atenção de um homem? Hunter O’Banyon podia ser alto, moreno e lindo como um astro de cinema, mas ela não estava interessada nele e em homem nenhum Mas, santo Deus, como ele beijava bem! Com as faces inflamadas por seu pensamento desvirtuado, ela pôs um dos potes com biscoitos nas mãos dele. — Leve para o hangar, para Mary Lou e a equipe de serviço. — Callie, eu... Se ele não fosse embora logo, ela passaria a noite inteira fazendo biscoitos. — Está ficando tarde, e tenho certeza de que você precisa voltar. — Ela entrou na sala e abriu a porta da frente. — Obrigada por ter vindo. Agradeço a preocupação e vou pensar nisso. — A propósito, sei que é um aviso em cima da hora, mas vou fazer uma reunião com os funcionários depois de amanhã, às dez da manhã — disse ele, não parecendo nada feliz. — Você vai poder ir? Ela balançou a cabeça. — Tenho uma consulta. Mas passo lá depois dos exames, e alguém pode me contar o que foi dito na reunião. Ele a olhou durante o que pareceu uma eternidade antes de assentir. — Boa noite, Callie — falou, saindo para a varanda. — Tenha um bom resto de noite, Hunter — disse ela, fechando a porta. Indo diretamente para a cozinha, ela empilhou os recipientes com biscoitos numa prateleira do congelador e, em seguida, pegou os ingredientes para uma fornada de brownies. A conversa telefônica com sua mãe fora frustrante e a fizera preparar várias fornadas de biscoitos. No entanto, o perturbador beijo de Hunter a lançaria num frenesi de confeiteira, e, por algum motivo esquisito, ela só queria fazer coisas de chocolate. Enquanto media o chocolate e a farinha, algo que ela ouvira num programa de culinária lhe ocorreu e a fez derrubar uma xícara de açúcar. Comer chocolate liberava no cérebro as mesmas endorfinas liberadas ao se fazer sexo. — Isso não é bom, Callie. Não é nada bom. Abrindo às pressas um pacote de gotas de chocolate, ela pôs um punhado na boca e, quando o rico sabor se espalhou por sua língua, ela concluiu que, apesar de o chocolate a fazer engordar demais, era muito menos perigoso para sua paz de espírito do que Hunter O’Banyon.

Ao descer os degraus e ir até a picape branca que tinha “Regaste Médico Life" pintado na lateral, Hunter balançou a cabeça. Não culpava Callie por tê-lo praticamente expulsado dali. Droga, ele merecera até algo pior. Agira como um adolescente tarado em 18


seu primeiro encontro. Mas a verdadeira dificuldade que Hunter estava tendo era de saber por quê. Entrando na picape, ele deu a partida no motor e atravessou a cidade. Contudo, em vez de virar na estrada que levava ao hangar, seguiu em frente até que as luzes de Devil’s Fork desaparecessem atrás dele. Precisava pensar e, apesar da possibilidade de entrar em seu quarto e ficar sozinho, ele sabia que olhar para a vastidão de uma noite estrelada sempre o ajudava a pôr as coisas em perspectiva. Quando estacionou a picape e olhou para as estrelas através do para-brisa, Hunter não conseguiu evitar se perguntar o que diabos acontecera com ele. Havia ido até a casa de Callie apenas para tentar fazê-la ter bom-senso, fazê-la enxergar que era mais sensato ficar em terra até o nascimento do bebê. Contudo, quando ele pusera as mãos nos ombros dela e olhara em seus belos olhos violeta, fora impossível evitar provar a doçura dela. Ele inspirou fundo. Embora não sentisse muito orgulho disso, sua vida não fora exatamente como a de um monge desde a morte de Ellen. Mas ele sempre tomara cuidado para ficar apenas com mulheres que não quisessem algo além de satisfação mútua, que não quisessem que o encontro levasse a algo mais. E Callie Marshall, definitivamente, não era esse tipo de mulher. Em vez de boates, coquetéis e uma insignificante noite de sexo, ela era como um pequeno e aconchegante chalé, biscoitos caseiros e um compromisso de longa duração. Entretanto, quando ele parou para pensar, percebeu que passara os últimos meses tão ocupado que abandonara completamente qualquer tipo de vida social. E, ainda que estivesse longe de estar desesperado como um garoto de 17 anos, um homem de 32 tinha determinadas necessidades que não podiam ser ignoradas. Ele franziu o cenho. Mas nunca, em toda a sua vida, achara irresistível uma mulher grávida. Hunter olhou para uma estrela cadente que riscava o céu. Achava que era natural se sentir atraído por Callie, apesar de ela estar esperando um bebê, levando-se em consideração seu atual estado celibatário. Era uma mulher muito bonita, com um lindo sorriso, uma deliciosa risada e um par de pernas que levariam um santo ao pecado. Unindo todas essas características à negligenciada libido dele, não era de se admirar que ele tivesse se sentido compelido a beijá-la. Satisfeito por ter descoberto o motivo de seu comportamento troglodita nada característico, ele voltou rumo à base. Agora que tinha as coisas em perspectiva, não havia motivo para que ele e Callie não pudessem deixar no passado o que acontecera naquela noite e seguir em frente como patrão e funcionária. Talvez até pudessem ser amigos. No entanto, muito depois, deitado em sua cama e tentando se obrigar a dormir, Hunter não conseguia esquecer o doce sabor dos macios lábios de Callie, nem do calor no sangue dele quando ela reagira ao beijo. E, gostando disso ou não, amizade era a última coisa na mente dele.

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CAPÍTULO TRÊS

No caminho de volta de sua consulta com a obstetra, Callie pensou na visita de Hunter e em como ela fora tola. O beijo havia sido muito bom, mas não significava nada. Ela sabia que ele ficara frustrado quando ela se recusara a ficar em terra, e o próprio Hunter se vira tão surpreso quanto ela com as ações dele. Não havia motivo para ela ficar tão abalada e interpretar como algo além disso. Mas ela passara o resto da noite confeitando tudo, de brownies de chocolate com castanhas até um bolo de chocolate. E, quando Callie fora para a cama, a fraca luz da alvorada já começava a espantar as sombras da noite. Ela balançou a cabeça. Não confeitava tanto desde que descobrira que estava grávida. Pensando naquele dia, ela ainda conseguia se lembrar de quando saíra do consultório de sua ginecologista em total estado de choque. Sempre quisera filhos, mas se visualizara casada e feliz, esperando o abençoado evento com o homem que ela amava e que retribuía esse amor. Não deveria ter engravidado de um homem que punha o status social acima de um relacionamento importante. Quando ela havia conhecido Craig Culbertson, ficara encantada com seu charme e sua consideração. Contudo, não demorara muito para descobrir que ele não era o homem que ela pensava. Ele ocultara sua verdadeira natureza por trás de um conquistador sorridente e charmoso, e, quando eles tinham se separado, fútil, egocêntrico e egoísta haviam sido as melhores palavras que ela conseguira invocar para descrever aquela víbora arrogante. Então, quando ela descobrira que estava grávida, um mês depois do fim do relacionamento deles, sua desilusão com Craig se transformara em medo. Um dos principais fatores para que ela tivesse encerrado o relacionamento havia sido o nojo que sentira quando Craig lhe contara que, aos 19 anos, ele engravidara sua namorada e que seu irmão, de 12 anos, era, na realidade, filho dele. Dissera que, quando seus pais tinham ficado sabendo da gravidez e descoberto que a garota não era do nível social deles, usaram o dinheiro e sua posição na sociedade de Houston para conseguir a custódia do bebê, adotá-lo e criar o menino como se fosse filho deles. Um gelado calafrio percorreu Callie. Ela mal podia imaginar a devastação e a impotência que a jovem mãe devia ter sentido ao perder todo o contato com seu filho. E esse fora o motivo pelo qual Callie decidira deixar seu emprego como enfermeira no pronto-socorro em um dos hospitais de Houston e aceitar o cargo de enfermeira de voo no Resgate Médico Life. Se Craig ficasse sabendo da gravidez dela, Callie não sabia ao certo se ele e os pais tentariam fazer com ela o mesmo que tinham feito com a mãe do primeiro filho dele. Callie não nascera em meio à riqueza e o privilégio e, portanto, seria considerada uma candidata indesejável para criar um herdeiro dos Culbertson. Eles levariam aquele caso ao tribunal, e ela perderia. Não tinha o dinheiro necessário para travar uma batalha por custódia contra os poderosíssimos advogados deles. Callie vinha de uma família de classe média, composta apenas por ela e sua mãe e em que não houvera um infinito suprimento de dinheiro e as atividades sociais tinham consistido em idas ao shopping ou à matinê do cinema. E, mesmo se seu pai não houvesse desaparecido no mar durante uma tempestade enquanto trabalhava numa 20


plataforma de petróleo no golfo do México, o status social dela não teria sido muito diferente. Ao entrar com o carro na pista que levava até o hangar, ela pôs a mão em sua redonda barriga. Podia não ter nascido em berço de ouro, mas amava seu menininho de todo o coração, e ninguém o tiraria dela. Estacionando, ela inspirou fundo e se forçou a esquecer Houston e os implacáveis Culbertson. Estava prestes a encarar Hunter O’Banyon e lhe dizer que pensara muito no pedido dele para que ficasse em terra. Ela até discutira suas limitações físicas com sua obstetra, e, juntas, haviam concluído que não existia motivo para que ela tirasse licençamaternidade nos próximos meses. Agora, tudo que ela precisava fazer era explicar isso a Hunter. — Oi, Mary Lou — disse Callie ao entrar na sala de operações. — Hunter está no escritório dele? A mulher assentiu. — Imagino que esteja compilando uma lista com o tamanho dos novos macacões de voo que ele vai encomendar. — Ela riu. — Você fica bem de vermelho? — Vamos usar macacões vermelhos? — É o que ele está dizendo. — Mary Lou pareceu pensativa. — Pensando bem, vai ser mais fácil identificar nossas equipes em meio a outras equipes de emergência no local de um acidente. — Às vezes, fica mesmo confuso quando funcionários de outros serviços usam o mesmo tom de azul-marinho que usamos — concordou Callie. — Foi tudo bem no consultório? — perguntou Mary Lou. Desde que ficara sabendo da gravidez de Callie, a mulher tomara para si a responsabilidade de monitorar o progresso e o bem-estar de Callie. Sorrindo, Callie assentiu. — A obstetra fez um ultrassom e disse que o tamanho do bebê está perfeito para quatro meses e meio. — Ela riu. — Mas duvido que eu consiga culpar meu filho pelos quase três quilos que engordei. — Não, a culpa disso é de todos aqueles biscoitos que você faz — falou Mary Lou, sorrindo. Enquanto descia o corredor do hangar até o escritório de Hunter, Callie concluiu que Mary Lou tinha razão. Se ela não parasse de confeitar, não existiria um macacão de voo suficientemente grande para acomodar sua forma em expansão, grávida ou não. Batendo na porta do escritório, ela esperou um momento antes de entrar. — Tem tempo para me dizer o que foi discutido na reunião ou é melhor eu voltar depois? Ele balançou a cabeça e apontou para a poltrona de couro marrom diante de sua mesa. — Sente-se. Estava esperando você. — Isso soa macabro. — Na verdade, não. — Os intensos olhos verdes dele capturaram os dela quando Callie se sentou na grande poltrona e tentou não perceber como Hunter estava bonito ou que o som de sua profunda voz fazia o íntimo dela começar a vibrar. — Antes de poder 21


encomendar novos macacões de voo para todos, preciso saber se você pensou na minha sugestão de ficar em terra até o nascimento do bebê. — Pensei, sim — Ela olhou fixamente para ele. — Até discuti suas preocupações com a minha obstetra hoje de manhã. — E? Hunter não tinha muita esperança de que ela tivesse mudado de ideia, mas, como aquilo fora a coisa mais importante em sua mente nos últimos dois dias, ele precisava saber. — A médica e eu concordamos que, contanto que eu evite fazer esforço físico, tenha uma dieta saudável e descanse bastante, não existe motivo para que eu não continue como enfermeira de voo da equipe Resgate II. — Mas... — Mas nada. — A expressão determinada dela avisava que não cederia. — Não apenas sou capaz de fazer meu trabalho, mas também preciso do dinheiro que vou receber entre agora e o dia do parto para pagar os médicos e o hospital. Hunter precisou se concentrar para manter sua mente longe do fato de que Callie tinha os olhos violeta mais lindos que ele já vira. — E não há nada que eu possa dizer para fazer você mudar de ideia? — Não. Mas, como falei na outra noite, se o fato de eu estar nos voos incomoda você tanto assim, pode me botar junto do seu melhor piloto. Isso deve eliminar parte das suas preocupações com erros. Hunter inspirou fundo, e soltou lentamente o ar ao se resignar. — Já imaginava sua decisão e já providenciei para que você e Corey sejam alterados para a Resgate I. — É a sua equipe. — A julgar pela perplexidade no belo rosto dela, Hunter a deixara chocada. Nada feliz com a situação, Hunter assentiu. — George e Mike, o piloto da Resgate III, são bons, mas eu sou melhor. — Não acha isso um pouco arrogante? — Ela também não parecia nada feliz com a decisão dele. Hunter balançou a cabeça. — Nem um pouco. É questão de experiência. Tenho mais horas de voo num helicóptero desse tipo do que George e Mike juntos. Antes de se aposentar da Aeronáutica, alguns anos atrás, George pilotava outro tipo de aeronave. Assim como Mike. Eu piloto nosso tipo de helicóptero há 12 anos. — Quando essa mudança vai ser feita? — Imediatamente. — Baixando o olhar para a lista com o tamanho dos macacões de todos, ele perguntou: — Qual tamanho de macacão você acha que vai usar até ter o bebê? Enquanto ele a observava mordiscar pensativamente o lábio inferior, o suor surgiu na testa de Hunter. A lembrança da maciez e do doce sabor de Callie quando ele a beijara estava enlouquecendo sua libido. Depois de dizer a ele o tamanho, ela perguntou: 22


— Vocês discutiram algo mais durante a reunião que eu deva saber? Ele se recostou na cadeira. — Mary Lou serviu seus biscoitos, e todos concordaram que, se você decidir largar a enfermagem um dia, devia abrir uma confeitaria. Ela abriu um fraco sorriso para ele ao se levantar. — Acho que isso não seria uma boa ideia. Só confeito quando estou... — Ela parou subitamente e balançou a cabeça. — Não importa. Qual é o meu cronograma novo? Hunter se pôs de pé. — Em vez de vir esta noite, você vai precisar vir depois de amanhã. — No horário de sempre? Ou você mudou isso também? — Seis da tarde — disse ele, assentindo. Quando Callie se virou para a porta, ele falou: — A propósito, na outra noite, percebi que tem uma tábua solta num dos degraus da sua varanda. É melhor pedir que o senhorio conserte. Você não vai querer correr o risco de cair. — Se eu tivesse um senhorio, eu pediria que ele resolvesse o problema. — Ela deu de ombros. — Mas, como comprei aquele lugar quando me mudei para Devil’s Fork, acho que vou ter que comprar um martelo e alguns pregos e ver o que posso fazer sozinha. Por motivos que ele não queria imaginar, Hunter não gostou da ideia de que ela tentasse fazer o conserto por conta própria. — Eu passo lá hoje à noite para consertar o degrau. — Não se preocupe com isso. — Ela foi lentamente na direção da porta. — Manutenção faz parte do trabalho de um proprietário. Acho que martelar uns pregos numa tábua não vai ser tão difícil. Hunter achou que sabia qual era o problema e, contornando a mesa, foi até ela e pôs as mãos em seus magros ombros. Percebeu que cometera um grande erro no instante em que a tocou. Uma carga elétrica subiu por seus braços, e ele precisou combater um avassalador ímpeto de puxá-la para perto. — Callie, sobre aquela noite... — Por favor, não. Foi só um simples beijo, e tenho certeza de que significou para você o mesmo que significou para mim. Diante do orgulho abalado, ego ferido ou fato de que ele não conseguira esquecer a maciez e a complacência dela em seus braços, a declaração de Callie atingiu Hunter como um golpe físico, e ele se sentiu determinado a provar que ela estava enganada. — Querida, aquele beijo foi tudo, menos simples. — Baixando lentamente a cabeça, ele achou que poderia se afogar naqueles olhos violeta. — E acho que você sabe disso tão bem quanto eu. No momento em que os lábios dele tocaram os dela, foi como se uma faísca fosse disparada em algum ponto dentro dela, e o calor se espalhou por seu corpo. Se ele tivesse bom-senso, telefonaria para Emerald Larson, diria que mudara de ideia com relação a administrar o serviço de resgate aéreo e poria o máximo de distância possível entre si e Callie Marshall. Contudo, ao invés de afastá-la de si e pedir desculpa por agir como um adolescente tarado, Hunter a envolveu com os braços e a puxou. O pequenino corpo de 23


Callie se aninhou contra a silhueta muito maior dele e fez o coração de Hunter martelar seu peito. Quando os perfeitos lábios dela se entreabriram num leve suspiro, ele se aproveitou do consentimento dela e aprofundou o beijo. Deslizando a língua para dentro, ele provou a doçura que era unicamente de Callie e se familiarizou novamente com os ternos recônditos internos dela. Para a satisfação de Hunter, ela envolveu sua cintura com os braços e se derreteu contra ele, enquanto ele a incentivava delicadamente a explorar também. Entretanto, com cada movimento da língua dela na dele, o incêndio que começara a arder no abdômen dele desceu, e seu corpo se contraiu de desejo com uma velocidade que ele jamais poderia ter imaginado. Chocado com aquela intensidade, Hunter se afastou lentamente do beijo. Olhando para a confusão no lindo rosto dela, teve a sensação de que devia estar tão perplexo quanto Callie. — Eu... hã... acho... que talvez seja uma boa ideia... se não fizermos isso de novo — disse ela, resfolegante. — Acho que você tem razão. — Soltando-a, Hunter massageou a própria nuca tensa. Por que ele se transformava num homem das cavernas sempre que estava perto dela? — Eu... vejo você mais tarde... quando for consertar o degrau. Ela correu até a porta. — Não precisa, de verdade. Posso consertar. — Eu disse que ia resolver. — Ele balançou a cabeça. — Consigo pilotar um helicóptero com um dedo inchado. Mas, se você martelar o polegar, vai ter dificuldade de fazer uma infusão intravenosa ou fixar um membro quebrado. Ela o olhou durante vários segundos antes de assentir e sair rapidamente do escritório. Hunter fechou os olhos e contou até dez. Depois, até vinte. O que diabos ele pensara que precisava provar, a não ser o fato de que era delicado como uma retroescavadeira? Já não pensara no que acontecera na outra noite e chegara a uma conclusão racional com relação à sua atração por ela? Ele não ficava com uma mulher fazia quase um ano, tempo suficiente para deixar qualquer homem adulto subindo pelas paredes. No entanto, ao pensar em encontrar uma mulher disposta a resolver seu problema, ele rejeitou a ideia. Uma noite de sexo talvez o ajudasse com suas necessidades básicas, mas um encontro insignificante não preencheria o vazio da companhia em sua vida. Balançando a cabeça, Hunter voltou para sua mesa e afundou na cadeira. Não estava procurando nenhum tipo relacionamento romântico, e Callie não estava, mas ele não via motivo para que não pudessem ser amigos. Os dois eram recém-chegados à cidade, estavam sozinhos, e ela precisava de alguém para ajudar na manutenção da casa de vez em quando. Se ao menos ele conseguisse manter isso na cabeça e parar de agarrá-la como um troglodita e beijá-la até que os dois precisassem de ressuscitação cardiopulmonar, tudo ficaria bem. Enquanto ele tentava convencer a si mesmo de que era capaz de fazer isso, o telefone tocou. Hunter grunhiu ao reconhecer um dos números particulares de Emerald Larson no identificador de chamada. 24


Pondo no viva-voz, ele saudou sua avó. — Olá, Emerald. — Boa tarde, Hunter. Como vai meu neto mais velho? Ele quase riu. Não era tolo o suficiente para achar que a velhota telefonara apenas para dizer “oi” e ficar de conversa fiada. Havia um propósito por trás de tudo que Emerald Larson fazia. — Estou bem. E você? — Planejando um pequeno jantar para meus netos e suas esposas no fim do mês que vem — Ela parou. — Você virá, não? — Claro — disse Hunter, sentindo-se subitamente mais solitário do que nunca. Só ficara sabendo de seus irmãos poucos meses antes, e, ainda que eles tivessem formado um vínculo de amizade que ele sabia que duraria por toda a vida, Caleb e Nick haviam se casado recentemente. E isso tornava Hunter o diferente. Infelizmente, ele sempre fora o diferente. Casamento e família não estavam em seu destino. Amar alguém apenas deixava uma pessoa exposta a mais dor e mágoa do que valia a pena. Sua mãe amara Owen Larson e acabara por sofrer uma vida de solidão. Owen a abandonara para ser mãe sozinha e jamais olhara para trás ao voltar para Harvard depois de deixá-la nas nuvens durante suas férias em Miami. Então Hunter quase enlouquecera de culpa por ter sobrevivido ao acidente de helicóptero que tirara as vidas de Ellen e do filho deles. Não, o investimento emocional e os riscos que acompanhavam o amor não valiam o alto preço que um homem precisava pagar. — Hunter, você está aí? — Desculpe. — Ele inspirou fundo. — O que estava dizendo? — Disse que estou voltando de Wichita para Houston e que pensei em parar aí para ver você e minha velha amiga Mary Lou. Ele devia ter imaginado que ela não resistiria a verificar como ele estava se saindo de tempos em tempos. Ela fizera o mesmo com os irmãos dele e as empresas que lhes dera. Por que seria diferente com ele? Apesar de Emerald ter lhe dado o Resgate Médico Life para que ele administrasse como bem entendesse, a empresa fazia parte da Emerald Inc. E a avó não se tornara uma das empresárias mais ricas e bem-sucedidas do mundo deixando que outros supervisionassem seus investimentos. — Quando você chega? — perguntou ele, mal resistindo à vontade de soltar uma série de palavrões. — Meu piloto disse que devemos pousar no campo aéreo de Devil’s Fork em cinco minutos. Hunter suspirou pesadamente. — Vou para lá daqui a alguns minutos para buscar você. — Não há necessidade. — Ele até imaginou Emerald balançando sua mão cheia de joias, descartando a ideia. — Pedi que um serviço de limusine enviasse um carro de Odessa para me levar até o hangar. — Então, acho que nos vemos em breve — disse ele, resignado a seu destino de passar a tarde com sua indomável avó. 25


Quinze minutos depois, quando ele encontrou a limusine no estacionamento, Hunter não ficou surpreso por ver Luther Freemont, o confiável assistente pessoal de Emerald, totalmente ereto ao lado da porta traseira aberta de uma sofisticada limusine preta. — E aí, Luther? Como vai? — Muito bem, senhor — respondeu o homem, formal como sempre. Depois de ajudar Emerald a sair, ele fez um curto movimento de cabeça para Hunter. — Foi bom vêlo novamente, senhor. Quando a avó de Hunter deslizou a mão para a curva do braço dele e começou a caminhar na direção do escritório, ele percebeu que o assistente tinha voltado para dentro da limusine. — Acha que o velho Luther vai ficar bem aqui sozinho? Afinal, este lugar não se parece em nada com uma sede corporativa. — O pobre Luther é um cavalheiro e muito determinado em suas maneiras. — Emerald riu. — Não sabe bem o que acha de você e seus irmãos. — O sentimento é mútuo. — E não sabe bem o que acha do sudoeste do Texas. Hunter abriu a porta e esperou que ela entrasse primeiro. — Luther é sempre tão formal? Quando Emerald riu, seus olhos acinzentados reluziram alegremente. — Sim, sempre. — Aposto que ele devia ser uma diversão quando era mais novo — disse Hunter ao acompanhar Emerald para a sala de operações. Apresentou-a à equipe Resgate III, que estava de serviço, no caminho para seu escritório particular, mas, propositalmente, evitou dizer que ela era sua avó. Ainda não se sentia totalmente confortável pensando nela como parente e não precisava da pressão que vinha com o fato de os outros saberem que ele era neto dela. — Onde está Mary Lou? — perguntou ela, sentando-se na poltrona diante da mesa dele. — Quando ela soube que você vinha, resolveu ir à cidade comprar bebidas. Já deve estar voltando. — Ótimo. Não a vejo há um bom tempo e estou ansiosa para pôr a conversa em dia. Ao se entreolharem, Hunter não conseguiu evitar pensar como Emerald Larson parecia fora de seu ambiente. Ela era a elegância profissional em pessoa, do topo de seu cabelo prateado perfeitamente arrumado até as solas de seus sapatos italianos. A mobília do escritório dele estava a anos-luz da opulência que cercava Emerald na sede da Emerald Inc. — Há alguns meses, quando você ficou sabendo que eu era sua avó e eu lhe contei a respeito do seu pai, você não expressou tanto seus sentimentos quanto seus irmãos. Ela o olhou de uma forma que Hunter não teve dúvidas de que intimidaria qualquer um que a enfrentasse numa reunião da diretoria. Ele, porém, não era um dos leais lacaios dela, e Emerald estava no ambiente dele agora. 26


— Vim para lavarmos a roupa suja de uma vez por todas — disse ela francamente. — Precisamos mesmo? — perguntou ele antes que pudesse evitar. Sabia que ela não gostaria de ouvir o que ele pensava da interferência em sua vida. — Sim — Havia uma ferrenha determinação na voz dela. — Tenho certeza de que você gostaria de saber por que insisti para que sua mãe mantivesse em segredo a identidade do seu pai até que eu mesma estivesse pronta para lhe contar. Hunter olhou irritadamente para a mulher que, até três meses atrás, ele só conhecera por notícias de jornais e revistas. Detestava fazer o jogo dela. No entanto, como sua mãe ressaltara antes de ele sair de Miami, se Hunter não tivesse aceitado a proposta de Emerald de lhe dar uma de suas empresas para administrar, os sacrifícios que ela fizera para garantir os direitos dele teriam sido em vão. Manter a identidade do pai dele oculta de sua unida família irlandesa causara uma rixa que nunca fora resolvida. Hunter cerrou os dentes com tanta força que seu maxilar doeu. — Ainda tenho problemas com isso. O que deu a você o direito de coagir minha mãe a assinar um documento declarando que ela não contaria a ninguém, nem mesmo a mim, quem era o meu pai? — Sei que você está amargurado com a maneira como lidei com as coisas — disse Emerald pacientemente. — Provavelmente, eu sentiria a mesma coisa. Mas acredite em mim: foi o melhor para todos. Uma raiva veloz e quente ardeu no estômago dele. — Para quem? Você ou seu filho? — Nunca pensei no efeito que isso teria sobre mim ou Owen. Minha única preocupação era com você e sua mãe. — O que você fez com a minha mãe, e com a de Caleb e a de Nick, foi chantagem — Ele não quisera soar tão ríspido, mas a verdade nem sempre era algo bonito. Para a surpresa de Hunter, Emerald não pareceu nem um pouco ofendida com a acusação. — Você vê como chantagem. Eu via como uma forma de proteger meus netos e as mães deles dos perigos de lidar com paparazzi e um estilo de vida corrompedor. — Ela suspirou. — Eu estava determinada a garantir que você e seus irmãos não se tornassem nada parecidos com seu pai. Talvez Owen estivesse vivo hoje se eu tivesse dado mais tempo e atenção a ele, em vez de tudo que ele queria. Hunter inspirou fundo, tentando controlar seu temperamento. — Ele nem sequer sabia que tinha engravidado três mulheres? Pela primeira vez desde que conhecera a poderosa Emerald Larson e descobrira que ela era sua avó, Hunter a viu baixar a cabeça como se estivesse envergonhada de seu mulherengo filho. Ele quase sentiu pena dela. Quase. — Sim, Owen sabia que tinha três filhos. Mas, como de costume, precisou que eu o aliviasse de assumir a responsabilidade por suas ações. — Quando ela ergueu os olhos, havia uma petulância nada apologética neles. — Admito que cometi muitos erros, e tenho meus arrependimentos, mas, aprovando ou não meus métodos para garantir que vocês não ficassem como ele, você não tem como negar que deu certo. E não coagi sua mãe a assinar o acordo. Apenas deixei claro que, caso fosse revelado que eu era sua avó, eu precisaria negar o fato para proteger você do frenesi que isso criaria na mídia. 27


Hunter entendia o raciocínio dela, mas isso não mudava o fato de que ela esperara 32 anos para lhe dizer quem era seu pai, nem o de que ela mantivera detetives particulares relatando cada ação dele e dos irmãos dele durante todo aquele tempo. — Por que demorou tanto para nos contar? — Eu queria que vocês três tivessem experiências de vida próprias, em vez de terem que conviver com a reputação de playboy internacional do seu pai. Isso teria sido um imenso fardo para todos vocês. E teriam sido afetados se ficassem sabendo que tinham um fundo fiduciário de vários milhões de dólares e que herdariam uma parte considerável dos meus investimentos. Ao pensar no que ela dissera, Hunter não conseguiu evitar concordar. Lidar com a ideia de que se tornara um milionário da noite para o dia e dono de seu próprio negócio já fora difícil aos 32 anos de idade. Ele mal podia imaginar o efeito que isso teria lhe causado se fosse mais novo. No entanto, antes que ele pudesse comentar, Emerald acrescentou: — E, antes que você pergunte, foi extremamente difícil ler suas realizações num relatório de um detetive particular enquanto vocês cresciam, sem que eu estivesse presente para vê-las por conta própria. — Ela se curvou à frente, como se para enfatizar seu argumento. — O que fiz foi por amor. Acredite, nada teria me deixado mais feliz do que ter tido um relacionamento tradicional de avó com você e seus irmãos. Mas precisei abrir mão disso para proteger vocês. Pensando naquilo, Hunter percebeu que, por mais difícil que tivesse sido para ele crescer sem saber quem era seu pai, devia ter sido muito mais difícil para Emerald. Ela soubera tudo sobre ele e seus irmãos, mas não pudera dizer a nenhum deles o que sentia. — Acho que tudo que podemos fazer agora é seguir em frente — disse ele, pensando em voz alta. — Creio que isso seria algo sábio — concordou Emerald. — Assumir o comando do Serviço de Helicóptero de Resgate Médico Life é um bom ponto de partida para você, e espero que se saia muito bem — Ela o surpreendeu ao se levantar da poltrona e contornar a mesa para lhe dar um beijo no rosto. — Está na hora de você voltar a fazer o que faz de melhor: pilotar helicópteros e ajudar os que precisam. Deixe o passado para trás, Hunter. Ele não pode ser alterado. Mas o futuro é uma página em branco que pode ser encontrada onde você menos espera.

CAPÍTULO QUATRO

— Se não parar de deixar Hunter O’Banyon beijar você, vai ficar igual a uma baleia — resmungou Callie, pondo outro biscoito na boca enquanto media os ingredientes para uma fornada dupla de biscoitos de aveia com chocolate. No instante em que ela chegara à sua casa depois da conversa com Hunter, fora diretamente para a cozinha, vestira o avental e começara a confeitar. Várias fornadas 28


depois, ainda não conseguia esquecer a sensação dos lábios dele nos dela. Quente, firme e deliciosamente máscula, a boca de Hunter podia ser classificada como arma letal. Ao menos para ela. Pondo colheradas de chocolate nas travessas de biscoito, ela se perguntou o que havia em Hunter que a fazia abandonar todo o bom-senso. Tudo que ele precisava fazer era tocá-la, e ela se agarrava a ele como um pedaço de filme plástico num prato quente. Callie deslizou a travessa para dentro do forno e ligou o timer. Então, sentando-se à mesa enquanto esperava os biscoitos assarem, olhou para o nada. Não era incomum que uma mulher no segundo trimestre de gravidez se sentisse mais sensual do que nunca antes, mas Callie não achava que seus hormônios fossem responsáveis pela irresistível atração que sentia por Hunter. Com apenas um olhar, ele fazia o coração dela palpitar. E, quando a tocava, ela praticamente se derretia numa poça aos pés dele. Não tivera aquele tipo de reação com Craig, e ele era o pai do bebê dela. Absorta em pensamentos, ela precisou de um momento para perceber que havia alguém batendo na porta. Correndo para tirar os biscoitos do forno, quando foi para a sala e abriu a porta, encontrou Hunter agachado ao lado dos degraus. Ele tinha trocado a tábua solta por uma nova e estava fixando pregos na madeira com apenas um ou duas marteladas. Ela engoliu em seco quando percebeu a maneira como o bíceps e os músculos do antebraço dele se flexionavam com cada golpe. — Isso deve aguentar por um tempo — disse ele, levantando-se. — E vai ser muito mais seguro para você. Quando finalmente encontrou sua voz, Callie assentiu. — Obrigada. Ele enxugou o suor da testa com a manga da camiseta. — Algo mais que precise de conserto ou que eu precise ver, já que estou aqui? — Não consigo pensar em nada. — Ela gesticulou para a porta. — Quer entrar para se refrescar e tomar um chá gelado? Sorrindo, ele assentiu. — Sem dúvida. — Hunter colocou o martelo e um pequeno saco de pregos na caçamba de sua picape e subiu os degraus do chalé de Callie. — Não é tão úmido aqui quanto na Flórida, mas continua sendo muito quente. Callie riu ao entrarem na casa. — Estamos no fim de agosto. O que você queria? — Verdade — disse ele, sorrindo. Quando eles entraram na cozinha, ela serviu um copo de chá gelado para cada um. — Tendo vivido a minha vida inteira perto do golfo, não estou acostumado a este calor seco. — Agradeça a Deus pelo ar-condicionado. — Amém — Ela sorriu ao pôr a mão em sua barriga redonda. — Senti mais calor neste verão do que em toda a minha vida. — Não é de se admirar que você esteja com calor, com o forno ligado o tempo todo. — Rindo, ele olhou para os pratos de biscoitos e brownies sobre a bancada. — Vejo 29


que você fez mais. Ela sorriu melancolicamente. Não diria a Hunter que pensar nele beijando-a já a lançava num frenesi de confeiteira. Ele pegou um brownie. — O que vai fazer com tudo isto? Pensando rapidamente, ela deu de ombros. — As escolas sempre fazem vendas de bolos. Pensei em doar parte das coisas que fiz para os eventos beneficentes delas. E, depois que o bebê nascer, duvido que eu vá ter muito tempo. Então congelei grande parte do que fiz. — Boa ideia. — Ele sorriu. — Tenho certeza de que Corey vai adorar. — Vai mesmo. Não para de comer, mas parece que nunca engorda. — Ela franziu o cenho. — Todos os meninos comem como se o estômago não tivesse fundo? — Basicamente isso. — Hunter pegou um dos biscoitos. — Minha mãe disse que, quando cheguei à puberdade, passei a comer tudo que estava na minha frente. — Acho que isso é algo para me deixar ansiosa. — Callie sorriu ao sentir o movimento dentro de sua barriga. Era como se o bebê soubesse que ela estava falando dele. — Vai ter um menino? Ela assentiu. — Foi o que o ultrassom indicou. — Quando vai ser o parto? — Por volta do dia primeiro de janeiro. — Ela se virou para pôr massa de biscoito numa travessa. — Claro, isso não significa que ele não vai resolver chegar umas semanas adiantado ou atrasado. — O que daria qualquer dia de antes do Natal até o meio de janeiro. Ela se perguntou por que Hunter estava tão interessado na data do parto até que lhe ocorreu que ele precisaria encontrar alguém para fazer os turnos dela. — Estou planejando tirar licença-maternidade na Ação de Graças e voltar ao trabalho, no máximo, no meio de fevereiro. Mary Lou sugeriu que eu levasse o bebê para o trabalho comigo, que ela podia cuidar dele quando eu saísse num chamado. Algum problema nisso? Ele balançou a cabeça. — Mas você tem certeza de que é uma boa ideia esperar tanto tempo para tirar a licença? — Ele franziu o cenho. — Não quero ofender, mas não vai ser difícil entrar e sair do helicóptero quando você estiver tão... avançada? — Não é ofensa nenhuma. Sei que vou ficar bem grande. — Ela deslizou a bandeja de biscoitos para o forno e se virou para ele. — Se eu achar que é um problema, vou tirar minha licença antes do planejado. Hunter deu um passo na direção dela. — Tudo bem? Rindo, ela assentiu. — É só o bebê se mexendo. Ele parece especialmente ativo hoje. 30


— Dói? — Ele parecia genuinamente preocupado. — Não. No máximo, faz cócegas. — Com amor, ela pôs a mão na barriga. — Neste estágio da gravidez, é como ter uma borboleta batendo as asas dentro de mim. Depois, disseram que vai ser como se eu tivesse um boxeador aqui dentro. — Aposto que vai ser esquisito. — Quando o timer do forno disparou, Hunter pegou uma luva de forno. — Por que não se senta e relaxa? — Estou bem Ele apontou para uma das cadeiras da cozinha. — Sente-se. Ele percebeu que ela não estava feliz com aquilo, mas, quando ela se sentou e apoiou os pés em outra cadeira, Hunter tirou os biscoitos do forno. — Droga! Está quente! — gritou ele quando as costas de sua mão tocaram o topo do forno. Callie apareceu imediatamente ao lado dele. — Deixe-me ver. Permitindo relutantemente que ela examinasse sua mão, ele tentou ignorar a ótima sensação das macias palmas dela segurando as calejadas dele. — Não é nada. — Já está começando a formar uma bolha — disse ela, pegando um frasco de algum tipo de loção transparente. — O que é isso? — Aloe vera. Vai evitar que doa e ajudar a sarar mais rápido. — Ela abriu o frasco, olhou para Hunter e sorriu. — E não se preocupe. Não vai deixar você com cheiro de flor. Enquanto Hunter observava Callie espalhar delicadamente o gel na pequena queimadura, um calor começou a lhe preencher o peito. Fazia um longo tempo desde que uma mulher cuidara dele. E, fosse isso algo inteligente ou não, ele gostou mais da sensação do que estava disposto a admitir. — Isso deve resolver — disse ela, fechando o frasco. Maravilhado com a melhora de sua mão, ele a flexionou. — Funciona mesmo. Obrigado. — Sem. problema. Callie soava ligeiramente arfante, e Hunter percebeu que a proximidade tinha sobre ela o mesmo efeito que causava nele. Estava tendo sérias dificuldades para evitar tomá-la nos braços e beijá-la loucamente. — Acho que é melhor eu ir. — Quanto estou devendo por você ter consertado o degrau? — perguntou ela, pegando a bolsa na mesa. — Comi biscoitos e brownies mais do que suficientes para pagar pelo serviço. Ele foi lentamente na direção da porta. Se não saísse logo dali, ele a tomaria nos braços, e isso poderia ser um desastre para suas boas intenções. E Hunter teria conseguido se ela não o tivesse tocado.

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— Hunter, pare de ser tão teimoso. A pequena mão dela repousando no antebraço dele lançou uma onda de calor por todo o corpo de Hunter. Sem pensar uma única vez nas consequências ou no fato de ter prometido a si mesmo que conseguiria manter suas mãos longe de Callie, ele a puxou para os braços. — Querida, amigos ajudam uns aos outros o tempo todo. — Ele lhe deu um beijo na testa. — E não pedem nada em troca. Ela o olhou fixamente durante vários longos segundos antes de balançar a cabeça. — Não sei se nós conseguiríamos ser só amigos um dia. E, no momento, não estou procurando nada além disso. — Somos dois, Callie. — Ele roçou os lábios perfeitos dela com os dele. — Mas acho que, contanto que tenhamos isso em mente, ficaremos bem — Ele a beijou avidamente. Em seguida, obrigou-se a afastá-la de si e foi até a porta. Virando-se, sorriu. — Vejo você amanhã à noite no trabalho, amiga.

— Onde está Corey? — perguntou Callie ao chegar ao trabalho na noite seguinte. — Não vi a picape dele no estacionamento. — Ele telefonou para dizer que se atrasaria uns minutos — respondeu Mary Lou ao abrir o pote de brownies que Callie pusera sobre a mesa. Tirando um quadrado de chocolate com castanhas, ela o mordeu e deu de ombros. — Eu disse a ele que, se recebêssemos um chamado antes de ele assumir o turno, eu passaria um sermão que ele não esqueceria tão cedo. Callie franziu o cenho. — Não é do feitio de Corey se atrasar. Ele disse o que aconteceu? — Ele e a namorada estão voltando de uma conversa com os pais dela em Odessa. Ele deve chegar em meia hora. — Mary Lou baixou a voz e se curvou à frente. — Você guarda segredo? — Claro. A mulher mais velha sorriu. — Corey vai ser papai daqui a sete metes. — Está brincando. — Callie riu. — Ele mesmo não é muito mais que um menino. — O que houve? — perguntou Hunter, entrando na sala de operações. O coração de Callie parou e, em seguida, disparou. Se ela o considerara bonito de jeans e camiseta, aquilo não fora nada comparado à aparência dele de macacão de voo. A peça única enfatizava a impossível largura dos musculosos ombros dele e a finura de sua cintura. — Conversa feminina — disse Mary Lou dando uma piscadela para Callie. — Qual de nós, homens, vocês estão dissecando? — perguntou Hunter, sorrindo. O comentário fora tanto para ela quanto para Mary Lou, mas, quando o olhar dele se fixou no de Callie, ela sentiu o calor até as pontas dos pés. Ela achava que, se ele quisesse, Hunter O’Banyon poderia fazer uma senhora tirar sua anágua com aquele sorriso. 32


E ele achava que poderiam ser só amigos? Ela quase gargalhou. Pela maneira como ele a olhava, seria mais provável que elefantes fizessem ninhos em árvores. — Não se preocupe, grandão — falou Mary Lou. — Não estávamos falando mal de você. Desta vez. Ele arqueou uma escura sobrancelha. — Desta vez? — Estávamos discutindo quando Corey apareceria — acrescentou Callie. A expressão cética de Hunter se transformou numa de compreensão. — Corey tinha questões particulares a resolver em Odessa. Vai chegar assim que puder. — Você sabe o que está acontecendo, não sabe? — falou Callie. — Ele apareceu ontem à noite para perguntar a mim e a Mike o que achávamos que ele devia fazer — disse Hunter, assentindo. — Aquele gambazinho me disse que só tinha contado a mim — falou Mary Lou, claramente chateada pela confidência não ter sido algo tão grande quanto ela imaginara. — Esperem só até eu... — Mary Lou parou abruptamente quando o telefone de emergência tocou. Callie ouviu enquanto ela fazia várias perguntas em espanhol. Ótimo. Corey ainda não voltara, e ele era o único fluente em espanhol na Resgate II. — Vamos, Callie. Não temos tempo de esperar Corey — falou Hunter, indo para a porta. — Vamos precisar apostar corrida com a cegonha até o hospital. — É Juanita Rodríguez de novo? — perguntou Callie, agradecida por Hunter ter claramente compreendido o que se passava na conversa e ser capaz de servir de intérprete para ela. Ele assentiu enquanto entravam no helicóptero e colocavam os fones que lhes permitiriam se comunicar acima do ruído. — Desta vez, ela está em trabalho de parto, sem dúvida. Pelas perguntas de Mary Lou, entendi que a bolsa de Juanita estourou e que ela está sozinha em casa. — Onde está o marido dela, Miguel? — Em El Paso, numa reunião da Guarda Nacional. Podemos falar por rádio com o arsenal onde ele está, para que ele nos encontre no hospital. Enquanto Hunter ligava o motor, Callie se sentou num dos bancos de trás e ouviu a voz de Mary Lou dando as coordenadas para o rancho dos Rodríguez. Seria um voo de cerca de 15 minutos até o destino deles e, em seguida, mais 30 minutos até El Paso. Mary Lou ficaria no telefone com Juanita até eles chegarem, e, com sorte, o bebê Rodríguez esperaria até que eles chegassem ao hospital para sua triunfal chegada ao mundo. Quando eles decolaram, Callie começou a repassar mentalmente o procedimento emergencial de parto caso ela precisasse fazê-lo, e ela precisou de um momento para perceber que Hunter falara com ela. — Desculpe. O que disse? — Perguntei se você já tinha feito algum parto antes. — A profunda voz de barítono dele que chegava pelo fone estava estranhamente íntima e lançou um calafrio pela espinha dela. 33


Callie tentou clarear sua mente. Ouvir a voz de Hunter pelo fone não era nada diferente de quando ela se comunicava com George ou Corey durante um voo. — Já fiz alguns... um deles, no banco de trás de um táxi quando os médicos do pronto-socorro estavam ocupados tratando as vítimas de um acidente de ônibus. — Mas você não fala espanhol? Ela suspirou. — Não. Eles ficaram em silêncio, e, no que pareceu um tempo recorde, Hunter já estava pousando o helicóptero num campo ao lado da casa dos Rodríguez. Tirando o fone e soltando o cinto de segurança, Callie pegou um dos estojos médicos que continha curativos estéreis, luvas de látex e outros suprimentos médicos e abriu às pressas a porta lateral. Curvou-se levemente para passar longe das pás do rotor e, em seguida, correu até a casa. Felizmente, a porta da frente estava destrancada, e ela entrou sem pensar duas vezes. — Por favor ayúdeme! Callie seguiu os gritos frenéticos e encontrou Juanita num dos quartos. Encharcada de suor, a jovem estava praticamente histérica e, em vez de trabalhar junto das contrações, ela parecia resistir a elas. — El bebé está listo! — repetia Juanita, segurando as mãos de Callie. — O que ela está dizendo do bebê? — perguntou Callie a Hunter quando ele apareceu. — Ela disse que o bebê está pronto. — Diga a ela que preciso verificar para ver se ela está perto de ter o bebê — falou Callie, ponto um par de luvas de látex estéreis. Enquanto Hunter garantia a Juanita que tudo ficaria bem, Callie verificou a dilatação da mulher. — A cegonha vai vencer esta — disse ela, pegando braçadeiras, gaze esterilizada e antisséptico no estojo. — A cabeça já está aparecendo. Ao organizar os suprimentos médicos de que precisaria para o parto, Callie ouviu Hunter reconfortar a mulher. Não fazia ideia do que ele estava dizendo, mas aquilo pareceu acalmar Juanita e fez o corpo de Callie se aquecer. Ela sempre considerara o espanhol um idioma lindo e achava que nunca tinha ouvido um som mais sexy que a profunda voz de Hunter pronunciando impecavelmente as palavras. — Você tem alguma experiência para ajudá-la com a respiração? — perguntou Callie enquanto preparava Juanita para o parto. Ele balançou a cabeça. — Não. Só vimos isso de passagem no treinamento de paramédico. — Você vai se sair bem — Usando o rádio comunicador preso ao ombro de seu macacão, ela informou a situação ao hospital de El Paso e, em seguida, concentrou toda a sua atenção na tarefa. — Diga a Juanita para respirar e, depois, mostre como fazer. Ela está ficando tensa, em vez de relaxar a pelve e permitir que o bebê passe. Quando Hunter mostrou à jovem o que ela devia fazer, ela olhou de forma 34


confiante nos olhos dele e começou a se concentrar em fazer o que ele pedira. Quando ela parou de resistir à dor, progrediu rapidamente à fase do parto. Posicionando-se para levantar os ombros dela quando chegasse a hora de fazer força, Hunter continuou a lhe garantir que tudo ficaria bem. — Todo será bien, Juanita. — Diga a ela para parar de respirar de forma curta e começar a fazer força — orientou Callie, mostrando à mulher como posicionar as mãos nos joelhos para ter apoio. Incentivando Juanita a empurrar com toda a sua força, Hunter apoiou os ombros dela, e, depois de apenas duas tentativas, a escura cabeça do bebê emergiu do corpo da jovem. Hunter viu Callie realizar uma rápida e eficientemente sucção no nariz e na boca da criança antes de Juanita trazer o resto de seu bebê para o mundo. Com mais um poderoso empurrão de Juanita, o bebê deslizou para as mãos de Callie. Sem precisar de incentivo, a menininha abriu a boca e chorou a plenos pulmões. — Mi bebé — murmurou Juanita em meio às lágrimas. — Você tem uma linda filha, Juanita — falou Callie, pondo o bebê sobre a barriga da mãe. Maravilhado com o milagre que ele acabara de presenciar, Hunter não teria conseguido dizer nada nem mesmo se sua vida dependesse disso. Apesar de estar feliz pela família Rodríguez e seu novo membro, ele jamais saberia como seria ver o próprio filho ou filha chegar ao mundo. Depois de perder Ellen e o filho deles, não pretendia se pôr nunca mais na posição de amar uma pessoa e assumir o risco de perdê-la. Já vivera aquilo antes e mal sobrevivera. Jamais passaria por tudo aquilo outra vez. — Hunter, pode, por favor, segurar o bebê enquanto preparo Juanita para ser transportada? — perguntou Callie, interrompendo os perturbadores pensamentos dele. A última coisa que Hunter queria era segurar um bebê. Sabia com toda a certeza de que aquilo só aumentaria sua sensação de perda e arrependimento por jamais poder segurar o próprio filho. Entretanto, antes que pudesse protestar, Callie pôs o bebê nos braços dele. Ao olhar para a menininha de rosto avermelhado envolta por uma macia manta branca, em vez da tristeza que ele esperava, Hunter não conseguiu evitar ficar maravilhado com o pequenino tamanho dela e com sua perfeição. Tocando delicadamente a mãozinha dela, ficou totalmente perplexo quando o bebê fechou seus dedinhos em torno de um dos dele. — Ela está se segurando em mim — Bebês fazem isso — disse Callie, sorrindo. Ele observou Callie e Juanita trocarem um olhar indulgente. Aparentemente, não havia barreira de idioma no tocante às opiniões que as mulheres tinham dos homens. Devia ser algo universalmente aceito que eles não sabiam nada sobre aquelas coisas. Mas, por ele, não havia problema. Os homens não entendiam as mulheres. Sendo assim, Hunter achou que isso tornava os dois sexos basicamente iguais. Enquanto Callie se comunicava pelo rádio com o hospital, relatando um parto sem complicações, Hunter pensou em como eles poriam Juanita no helicóptero sem Corey. Ele não deixaria Callie levantar nada mais pesado que a bolsa de enfermeira dela ou o bebê, e a porta e o corredor eram estreitos demais para que uma maca fosse levada até o quarto. Restava apenas uma opção. — Estamos prontos para o transporte? — Quando Callie, assentiu, ele lhe entregou o bebê. — Leve sua bolsa e o bebê enquanto carrego Juanita para o helicóptero. 35


— Acho que seria melhor assim mesmo — falou Callie, levantando a alça da bolsa até o ombro. — Provavelmente, você teria que carregá-la até a porta da casa antes de poder colocá-la na maca. Dizendo a Juanita o que ele faria, Hunter levantou o leve corpo dela em seus braços e a carregou até o helicóptero. Depois de ser posta na maca e de Callie lhe entregar o bebê, Juanita adormeceu juntamente com sua filha. O voo até El Paso transcorreu sem nenhum problema, e, depois de porem Juanita e sua filha no hospital em segurança, Callie e Hunter embarcaram no helicóptero e voltaram para a base do Resgate Médico Life. — Você fez um trabalho maravilhoso acalmando Juanita — disse Callie enquanto olhava pelo para-brisa para o vasto céu azul diante deles. Indo no banco da frente ao lado de Hunter na viagem de volta até Devil’s Fork, ela desfrutava da vista das montanhas do Texas da qual ela sentia falta quando ia na parte de trás com um paciente. — Não pareceu que eu não tinha a menor ideia do que estava fazendo? — perguntou ele, sorrindo envergonhadamente. Também sorrindo, ela balançou a cabeça. — Nem um pouco. Juanita é jovem e não sabia o que esperar quando as contrações começaram. Se juntar a isso o fato de ela estar sozinha em casa e a quilômetros de distância de qualquer ajuda, não era de se admirar que estivesse morta de medo. Você conseguiu deixá-la tranquila, e isso facilitou tudo para ela. Hunter deu de ombros. — Só fiz o que achei que ajudaria. — Os dois ficaram em silêncio durante um tempo antes de ele perguntar: — Quem vai estar com você quando tiver o bebê? Era a última coisa que ela esperava que Hunter perguntasse. — Está se oferecendo para o trabalho? — De jeito nenhum. Ela riu da expressão horrorizada dele. — Mas você é um ótimo instrutor de parto. Ele grunhiu. — Só porque Corey não estava presente para assumir no meu lugar. Sou o piloto, lembra? — E é um paramédico qualificado. — Só porque minha avó sugeriu fortemente que isso seria uma boa ideia, já que eu assumiria um serviço de ambulância aérea. — Ele deu de ombros. — Além do mais, apesar de você não estar com o pai do seu filho, tenho certeza de que ele vai querer estar presente quando o filho dele nascer. Ele pode ser seu instrutor de respiração. Um calafrio a percorreu ao pensar em Craig Culbertson perto dela ou de seu filho. — Posso lhe garantir que ele não vai estar por perto quando eu tiver meu filho. — Talvez ele mude de ideia. — Não é esse o problema. Hunter ficou em silêncio por um momento. Então virou sua cabeça para olhá-la de 36


forma questionadora. — Ele nem sabe que vai ser pai, sabe? — Com a boca se afinando numa reprovadora linha, ele balançou a cabeça. — Esqueça que eu perguntei isso. Não é da minha conta. Ela não discutira com ninguém, nem mesmo com sua mãe, o motivo de ter tomado a decisão de não contar a Craig a respeito do bebê. Contudo, Callie precisava fazer Hunter entender, sem revelar muitos detalhes, por que ela achara que não tinha escolha a não ser guardar o segredo. — Acredite, é melhor assim — Pondo a mão de forma protetora sobre o filho, ela balançou a cabeça. — Mesmo se eu contasse, ele não ligaria. — Não acha que deve a ele a oportunidade de provar que você está enganada? — Não. Ele é egoísta e egocêntrico demais para se importar com alguém além de si mesmo. Hunter olhou fixamente à frente, e Callie percebeu que ele estava pensando no que ela dissera. — Deve haver alguma substância no homem, ou você não teria se envolvido com ele — disse Hunter por fim. Callie suspirou pesadamente. — Nos últimos meses, passei incontáveis horas me perguntando por que me permiti ser enganada pela falsidade dele. Ela sentiu o intenso olhar de Hunter. — E? — Cheguei à conclusão de que ele era o típico conquistador que estava mais interessado na caça do que num relacionamento que significasse alguma coisa. — Conheço esse tipo — falou Hunter, enojado. — Vou adivinhar, ele chamou você para sair várias vezes, e você recusou. Foi quando ele resolveu usar tudo que tinha e fazer tudo que podia para convencê-la de que ele estava louco por você. — Foi exatamente o que aconteceu. Eu me tornei um desafio que ele estava determinado a vencer. — Ela inspirou fundo. — E, como uma idiota, permiti que ele minasse a minha resistência e me encantasse para acreditar que poderíamos ter um futuro juntos. Quando Hunter pegou a mão dela para apertá-la delicadamente, um calor diferente de tudo que ela já sentira lhe dominou até a alma. — Não seja tão dura consigo mesma, querida. Não foi a primeira vez que uma mulher foi enganada por um conquistador. E, por pior que seja dizer isso, não será a última. Ela sabia que ele tinha razão, mas isso não a fazia se sentir menos idiota por ter permitido que aquilo acontecesse, especialmente agora, que ela seria uma mãe solteira. — Então você entende meu raciocínio de manter minha gravidez em segredo? — Não totalmente. — Hunter soltou a mão dela e permaneceu em silêncio durante vários longos segundos. Em seguida, acrescentou: — Não acha que ao menos devia dar a ele a oportunidade de se redimir? Se eu estivesse no lugar dele, ficaria com raiva se descobrisse que uma mulher me negou o direito de conhecer meu próprio filho. Callie sabia que não poderia arriscar contar a Craig. Porém, ela não estava 37


disposta a descrever seus motivos para Hunter. — Ele só veria o bebê como uma inconveniência, e meu filho merece mais que isso. — Você pretende dizer ao seu filho quem é o pai dele? — Vai ser melhor para ele não saber. — Toda criança tem o direito de saber quem é e de onde veio — disse ele enfaticamente. Seu tom não deixava dúvida de que ele tinha sentimentos muito acalorados a respeito daquele assunto. — Ele vai crescer perguntando a si mesmo se cada homem que passa na rua é o responsável pela existência dele. — Por que você dá tanta importância a isso? Callie o viu inspirar fundo. Quando ela achou que ele lhe diria que não era da conta dela, Hunter falou: — Cresci sem saber nada sobre o meu pai, e só fui saber recentemente quem ele era, seis meses depois da morte dele. — Ah, Hunter, eu sinto muito. — Ela começava a compreender por que ele achava tão importante que ela informasse a Craig a respeito do bebê. — Sua mãe não falou de você para ele? — Ele sabia. — Havia uma tensão na voz dele. — Simplesmente escolheu ignorar o fato de que era pai de três filhos com três mulheres diferentes. Mas a questão é que elas deram a ele a oportunidade de saber de nós. Foi ele quem tomou a decisão de ficar fora de nossas vidas. — Mas ela não contou a você — adivinhou Callie. Ele balançou a cabeça. — Ela teve seus motivos e sabia que, um dia, eu saberia quem ele era. Mas isso não tornou as coisas mais fáceis para mim quando eu era mais novo, nem me impediu de me ressentir por não ter podido escolher se queria saber ou não sobre ele. Callie entendia por que Hunter se sentia daquele jeito, mas as circunstâncias eram diferentes. Se ela contasse a Craig, havia uma boa chance de que ele e os pais tentassem separá-la de seu filho como tinham feito com aquela pobre garota e seu bebê 12 anos antes. Era um risco que Callie não estava disposta a correr. — Vou contar ao meu filho sobre o pai dele quando achar que ele está pronto — disse ela cautelosamente. — Mas, até lá, ficaremos bem sozinhos.

CAPÍTULO CINCO

Durante os dias que se seguiram, Hunter não conseguiu parar de pensar na conversa que tivera com Callie no caminho de volta de El Paso. Houvera algo na voz dela que o alertara para o fato de que havia mais do que ela deixara transparecer em sua recusa a informar sua gravidez ao pai do bebê. Ele não sabia exatamente o que era, mas 38


parecia algo sério o suficiente para Callie achar que o silêncio era sua única opção. O coração de Hunter disparou. O homem teria abusado dela? Uma fúria mais forte do que ele jamais poderia ter imaginado correu por suas veias. Ele não era um homem violento por natureza, mas, só de pensar que o desgraçado pudesse ter maltratado Callie, Hunter já se sentia pronto para destroçá-lo. Ele pegou seus óculos escuros e pôs o boné na cabeça. Sentia-se como se houvesse adrenalina suficiente em seu corpo para levantar um 747 lotado de passageiros e carga. Estava precisando de um bom e duro trabalho físico para ajudá-lo a superar a raiva. E sabia exatamente o que fazer. Indo de carro até a madeireira, ele repassou mentalmente todas as coisas que precisavam ser consertadas ou trocadas na casa de Callie. Além dos degraus que ele consertara alguns dias antes, percebera que o lugar precisava de uma demão de tinta e um novo deque na porta dos fundos para substituir o que se deteriorava rapidamente. Comprando tudo de que precisava para fazer as reformas, Hunter marcou a entrega da madeira e, em seguida, pôs uma nova escada em sua picape, vários baldes de tinta, pincéis e raspadeiras. Em seguida, foi para a casa de Callie nos arredores da cidade. Pensara em falar com ela antes de começar a comprar suprimentos e fazer planos, mas, a julgar pelo protesto dela com relação ao simples conserto que ele fizera no degrau, ela recusaria sua proposta. E ele não aceitaria um “não” como resposta. No caso do deque dos fundos, era uma questão de segurança. Quando Hunter estacionou a picape e posicionou a escada contra a lateral da casa, não ficou surpreso quando ela saiu para olhá-lo furiosamente. — Por que diabos você está fazendo tanto barulho, e o que está fazendo com a minha casa? Com seu cabelo louro indo até o ombro e deliciosamente bagunçado, os olhos semicerrados de sono e os pés descalços, ela parecia ter acabado de rastejar para fora da cama. E estava incrivelmente sexy. — Bom dia para você também — Ele sorriu ao pegar uma das raspadeiras. — Ficou acordada até tarde fazendo biscoitos? — Na verdade, fiquei. — De que tipo? Ela balançou a cabeça. — Não mude de assunto. O que está fazendo aqui a esta hora horrível, sete e meia da manhã? E por que essa escada está apoiada na minha casa? — Uma coisa de cada vez, querida — disse ele, subindo na escada. — Ao contrário do que as pessoas pensam, sete e meia não é tão cedo. Sabia que a madeireira e a loja de ferramentas daqui de Devil’s Fork abrem às seis? Clhando-o fixamente, ela apoiou os punhos em seus belos quadris. — Como nunca tive a oportunidade de ir a nenhuma das duas, não, eu não sabia. Ele raspou uma longa tira de tinta que se descascava perto do telhado. — No outro dia, percebi que a tinta aqui tinha começado a rachar e descascar. — Então você simplesmente resolveu tomar para si a responsabilidade de pintar a minha casa? — Claramente irritada, ela estava muito bonita com sua grande camisa rosa 39


e seu short verde, batendo com o pé no chão de terra batida. — Você não pode fazer isso — falou ele enquanto continuava a remover as tiras de tinta surrada. — E precisa ser feito antes de o inverno chegar. — Pode esperar até depois do parto. Ele balançou a cabeça. — Você vai ficar ocupada demais depois que o bebê chegar. Além do mais, é bom que eu faça algo construtivo nos meus dias de folga. — Mas não tenho como pagar por isso agora. — Não precisa. — Preciso, sim — Já resolvi tudo. Ela fez um som que se parecia estranhamente com um rosnado. — Diga quanto você gastou, e eu devolvo o dinheiro. Ele sorriu. — Não. — Você é sempre tão... — ela parou como se estivesse procurando a palavra certa — ... enxerido? Ele parou de raspar para olhá-la. — Você é sempre tão teimosa quando alguém está tentando ajudar? Massageando as têmporas com as pontas dos dedos, ela balançou a cabeça. — Agradeço por você tentar ajudar. Mas não tenho como pagar por todas as reformas agora e não posso deixar você pagar por elas. — Considere isso um presente de boas-vindas — disse ele, lançando mais flocos de tinta ao chão. — Isso é absurdo. Você é mais novo na cidade que eu. Ele riu. — Isso é só um detalhe. — Não posso deixar você fazer isso. — Não pode me impedir. — Ele desceu da escada. Então, pondo a raspadeira na caçamba da picape, foi até Callie. — Olhe, tem coisas aqui que precisam ser resolvidas, e você não tem como fazer isso na sua condição. Ela revirou os olhos. — Eu já disse. Estou grávida, não incapacitada. — Tanto faz. Você não tem como fazê-las, e eu preciso de algo para me manter ocupado nos dias de folga. Ele percebeu que estava minando a resistência dela quando Callie suspirou pesadamente. — Sim, mas não é justo que você pague o material para reformar a minha casa. Incapaz de resistir a tomá-la nos braços, ele sorriu ao puxá-la para si.

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— Se isso deixa você tão incomodada, por que não fazemos um acordo. Ela pareceu suspeitar. — Que tipo de acordo? — Eu faço alguns trabalhos na sua casa, e você pode fazer comida caseira para mim — Ele usou o dedo indicador para levantar o queixo dela até que os olhares se encontrassem — Parece justo para você? — Não muito. Ainda acho que estou levando a melhor nesse acordo. O suave corpo dela pressionado ao dele estava dificultando as boas intenções de Hunter, e, antes que pudesse evitar, ele baixou sua boca para a de Callie. — Se acrescentar mais umas duas dúzias de brownies. — ele roçou sua boca nos perfeitos lábios dela — ...uns biscoitos de aveia com chocolate. — ela se abriu para ele com um leve suspiro — ...e estamos quites — completou Hunter ao aprofundar o beijo. A combinação do doce sabor de Callie e do fato de que ela estava reagindo ao beijo fez o sangue disparar nas veias de Hunter e a parte inferior de seu corpo se contrair com um desejo que ameaçava deixá-lo de joelhos. Em todos os seus 32 anos, nunca ficara excitado com tamanha velocidade. No entanto, quando ela levou os braços até o pescoço dele e entrelaçou os dedos no cabelo de sua nuca, o levíssimo toque fez um choque de sede preencher cada fibra do ser dele, tornando insuportável a necessidade de tocá-la. Ele deslizou a mão por baixo da parte de trás da camisa dela, e, quando a palma calejada encontrou a pele acetinada da lateral do corpo dela, o coração de Hunter disparou. Eles tinham estado tão absortos na discussão sobre os consertos que ele não prestara atenção ao fato de que Callie não estava de sutiã. Quando ele tomou o farto seio na mão e deslizou o polegar sobre o rígido mamilo, o gemido de prazer dela se misturou ao grunhido de frustração dele. O que diabos ele pensava que estava fazendo? Não apenas estava se agarrando com sua enfermeira de voo para que o mundo inteiro visse, mas, além disso, ela esperava o filho de outro homem. Ele não estava procurando um relacionamento duradouro. E Callie não era do tipo de mulher que se envolvia em casos passageiros. Retirando relutantemente a mão de baixo da camisa dela, Hunter interrompeu o beijo para olhar fixamente nos olhos de Callie. — Querida, acho que é melhor você voltar para dentro, e eu vou voltar a trabalhar. As faces de porcelana dela se coloriram de um profundo tom rosado, e Callie recuou. — Eu vou... sair... um pouco — disse ela, arfante. — Preciso ir... ao mercado. Ele franziu o cenho. — Por quê? Os armários e a geladeira estão cheios de comida. Ela recuou vários passos. — Preciso ver se eles têm sacos de 25kg de farinha. Hunter observou enquanto ela contornava rapidamente a casa, indo na direção da varanda da frente. Nunca vira uma mulher confeitar tanto quanto Callie. Talvez fosse algum tipo de reação hormonal. Ele balançou a cabeça ao pegar a raspadeira na caçamba da picape e subir na 41


escada. Fosse o que fosse, contanto que ela estivesse dentro da casa confeitando, e ele estivesse do lado de fora pintando, não haveria mais nenhum contato como o que acabara de acontecer. E, se ele repetisse isso várias vezes para si mesmo, talvez acabasse acreditando.

Ao ouvir alguém bater em sua porta, Callie olhou de relance para o relógio do fogão. Seria impossível que Hunter tivesse saído do hangar, tomado banho, mudado de roupa e voltado todo o caminho até a casa dela em tão pouco tempo. Depois de terminar a árdua tarefa de raspar a tinta que se descascava, ele lhe dissera que voltaria ao hangar para se limpar enquanto ela terminava o jantar. Embora ela não conseguisse imaginar o que poderia ser, Hunter só podia ter esquecido alguma coisa. Limpando as mãos numa toalha, ela verificou o assado que pusera no forno mais cedo e correu para abrir a porta. — Infelizmente, o jantar ainda não está... — A voz dela desapareceu quando um gélido medo congelou suas cordas vocais e a preencheu por completo. — Oi, Callie. — Craig Culbertson abriu seu treinado sorriso ao passar por ela. — Como você não sabia que eu vinha fazer uma visita, eu não esperava que fizesse um jantar para mim. Mas tenho certeza de que o que você está cozinhando vai ficar delicioso. — O q-que faz aqui? — perguntou ela, segurando a maçaneta com tanta força que não seria nenhuma surpresa se deixasse suas digitais marcadas no metal. — Senti sua falta. — Ele olhou pela pequena e organizada sala de estar. — O que estava pensando quando foi embora de Houston para ter isto? Não é nem tão bom quanto aquele apartamento minúsculo que tinha. Ela ignorou o insulto dele e repetiu a pergunta. — Por que está aqui, Craig? Ele se virou para ela, e seu sorriso encantador desapareceu, substituído por uma expressão de completo nojo. — Deus do céu! Você está grávida. Usando cada gota de coragem que tinha, ela empertigou os ombros e pôs uma protetora mão em sua barriga. — Estou, sim — É meu, não é? — perguntou ele com um tom acusador. Sabendo perfeitamente bem que ele não acreditaria nela, Callie balançou a cabeça. — Não. O bebê é... — Meu. Em toda a sua vida, Callie nunca sentira tamanho alívio ao ver Hunter atravessar a porta aberta e envolver os ombros dela com o braço. E nunca ficara tão chocada quanto ficou ao ouvi-lo dizer que era o pai de seu bebê. — Este é Craig Culbertson, de Houston — disse ela, agradecendo a Hunter em silêncio a intervenção. — Hunter O’Banyon é meu... — Marido — interrompeu Hunter, lançando para Callie um olhar que pedia a 42


confiança dela. — Você se casou? — Craig balançou a cabeça. — Não pode ser. Sua mãe disse que você se mudou para cá há poucos meses. Não é tempo suficiente para encontrar um marido e arrumar um filho. — Não gostei da expressão “arrumar um filho” para se referir à gravidez da minha esposa — disse Hunter com a voz dura como granito. — Desculpe. — O tom dele não era nada apologético, mas, aparentemente, Craig percebera que Hunter estava falando sério e que não seria bom brincar com ele, pois recuou imediatamente. — Foi só uma expressão, não quis ofender. Uma nova onda de medo percorreu Callie quando ela pensou em sua última conversa com sua mãe e como ela tentara fazê-la contar quem era o pai do bebê. A mãe dela teria inadvertidamente feito com que Craig pensasse que o filho era dele? — Por que ligou para a minha mãe? — perguntou ela, surpresa por sua voz parecer consideravelmente estável, levando-se em consideração seu estado de nervos. Craig abriu um sorriso que Callie costumava achar que o deixava adoravelmente lindo. Agora, tudo que ela sentia era náusea. — Quando descobri que seu telefone antigo não estava mais funcionando, eu me lembrei do nome da sua mãe, procurei o número dela e telefonei para perguntar como eu poderia entrar em contato com você. — Ele deu de ombros. — Ela ficou relutante em me contar sobre a sua mudança para o Texas, mas eu disse a ela que estávamos saindo juntos antes de você ter ido embora e que sentia muito a sua falta. Foi quando ela sugeriu que, se eu passasse pela região de Devil’s Fork algum dia, devia procurar você. Resolvi cancelar minha agenda para o resto da semana e vir até este fim de mundo para ver como você estava. A raiva de Callie estava crescendo lentamente. Não tanto por sua mãe quanto por Craig. Claramente, ele inventara uma mentira para a mãe dela, dizendo que se importava, e ela acreditara. Infelizmente, Nancy Marshall não conhecia Craig e não fazia ideia da víbora que ele era. Não estava interessado na vida de Callie. Era seu ego que continuava dolorido por ter sido Callie a rejeitá-lo, e não o contrário. — Na verdade, conversei com a sua mãe durante um bom tempo e a achei uma senhora muito agradável — acrescentou Craig solicitamente. — Ah, é? — Callie balançou a cabeça. — Acho incrível que você tenha tido uma conversa longa com a minha mãe, já que nunca se deu o trabalho de conhecê-la quando nós estávamos namorando. — Você sempre foi próxima da sua mãe, não é, Callie? — perguntou Craig. Ela cerrou os dentes. — Você sabe que sim — Foi por isso que achei estranho ela não saber nada sobre o seu casamento. — Ele apontou para Hunter. — Acho que ela seria a primeira pessoa a quem você contaria sobre seu casamento com O’Banyon. Quando o timer do fogão disparou, indicando que o assado estava pronto, Callie deixou relutantemente os dois homens na sala, um olhando furiosamente para o outro. Não fazia ideia do que aconteceria nem de como resolver aquilo. A expressão de Hunter, desde o momento em que ele entrara pela porta, estivera sombria e ameaçadora. E Craig, como de costume quando se sentia ameaçado, ficara arrogante e condescendente. 43


Tirando o assado do forno, ela correu de volta para a sala antes que os socos começassem a ser dados. — Craig, tenho certeza de que você tem coisas melhores para fazer com seu tempo do que ficar aqui discutindo meu estado civil. Ele balançou a cabeça. — Na verdade, não. Mas vou aceitar o convite que você me fez para jantar. — Eu não... Hunter a puxou para seu lado e deu um rápido beijo em seus lábios. — Tenho certeza de que temos o suficiente para três, não é, querida? Hunter enlouquecera? A última coisa que ela queria era passar mais tempo na presença de Craig Culbertson. — Bem, sim, mas... — Ótimo. — Hunter se virou para Craig, — Por que não se senta enquanto ajudo minha esposa a terminar de pôr a mesa? Craig abriu um triunfante sorriso para ela ao se sentar na ponta de uma poltrona para dois. — Vou fazer exatamente isso. Assim que ela e Hunter entraram na cozinha, Callie se virou para ele. — O que diabos você estava pensando? — exigiu saber, tomando cuidado para manter a voz baixa. — Quero Craig fora desta casa, deste estado e da minha vida. Para sempre. Hunter assentiu. — Esse é o plano. Ela o olhou como se ele tivesse um parafuso a menos. — E vamos fazer isso jantando com ele? — Acredito que sim Hunter ainda não conseguia acreditar que afirmara ser o marido de Callie e o pai do bebê dela. Contudo, quando ele subira os degraus da varanda e ouvira o nojo na voz de Culbertson e o medo na de Callie, ele fizera a única coisa em que conseguira pensar que não envolvia dar um soco na cara do homem. — Quer explicar seu raciocínio? — perguntou ela ao pegar um par de luvas de cozinha. — Porque estou tendo dificuldades para entender. Quando Hunter percebeu como as mãos dela estavam tremendo, ele pegou as luvas de Callie e retirou a travessa do assado do forno. Colocando-a sobre um suporte, ele jogou as luvas sobre a bancada e segurou o rosto dela. — A primeira coisa que quero é que você se acalme, Callie. Prometo a você que, enquanto eu viver, não vou deixar que ele faça nada para prejudicar você ou o bebê. Entendeu? Ela o olhou fixamente durante vários longos segundos, e o medo que Hunter viu nos olhos dela quase o destruiu. — Sim — disse Callie por fim, assentindo.

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— Ótimo. — Ele pegou um prato no armário. Entregando-o a ela, explicou: — Está claro que Culbertson precisa se convencer de que estamos casados. — Isso também foi uma surpresa para mim — disse ela, cortando o assado. Hunter massageou sua nuca para afastar a tensão que crescia ali. — Então é unânime, porque fiquei bastante chocado com isso. Mas foi a única coisa que consegui pensar para fazê-lo deixar você em paz. E é isso que você quer, não é? — Com certeza. — Não havia nem um pingo de hesitação na voz dela, e Hunter não teve dúvidas de que Callie não queria Craig Culbertson perto dela. — Na minha opinião, se conseguirmos convencê-lo de que estamos felizes e ansiosos para termos nosso primeiro filho, ele vai entender o recado, voltar para Houston, e você nunca mais terá notícias dele. — Hunter carregou o prato com o assado para a pequena mesa da cozinha enquanto Callie arrumava outro lugar. — Agora, tudo que temos a fazer é esclarecer algumas coisas. — Tipo o quê? Hunter tirou três copos de uma das prateleiras, encheu-os com gelo e pegou uma jarra de chá gelado que estava sobre a bancada. — Ele vai querer saber como nos conhecemos, quando nos casamos e que nome daremos ao bebê. Boquiaberta, ela o olhou. — Não temos tempo de combinar tudo isso. Pensando rapidamente, Hunter falou: — Só me diga o nome que você pretende dar ao seu filho e quando descobriu que estava grávida. Eu cuido do resto. É só me acompanhar e concordar com o que eu dizer a Culbertson. — Isso não vai dar certo — falou ela, pondo uma tigela de purê de batata na mesa. — Ele tem muitas formas de expor nossa mentira. Hunter a segurou pelos ombros e a fez virar de frente para ele. — Confie em mim, Callie. A menos que você consiga pensar em outra coisa, esse é o único jeito. Ele a viu fechar os olhos e inspirar fundo. Então, abrindo-os novamente, ela lhe deu as informações que ele pedira. — Acho bom que você tenha razão, Hunter. Não vou permitir que ele tire o bebê de mim — De jeito nenhum, querida — disse ele, dando-lhe um rápido abraço. O coração de Hunter se contorceu com o medo que ouvira na fraca voz de Callie. Ele queria saber o que a fizera ter tanto medo de que Culbertson tentasse conseguir a custódia, já que o homem claramente não queria nada com filhos. Entretanto, isso precisaria esperar. No momento, eles precisavam enganar o homem para que deixasse Callie em paz de uma vez por todas.

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Quando o jantar terminou, os nervos de Callie estavam à flor da pele. Sentada entre os dois homens, ela os ouvira discutir de tudo, desde recordes de jogadores de beisebol até o tamanho do motor de carro que preferiam Ela não sabia ao certo se ficava aliviada ou decepcionada pelo assunto do casamento dela com Hunter ainda não ter surgido. Isso, porém, não impedira que Hunter fizesse seu papel de marido dedicado. Durante todo o jantar, ele sorrira para Callie de formas que ameaçavam derretê-la por completo e encontrara todos os motivos imagináveis para tocá-la. Ela havia percebido que Craig observava tudo com grande interesse, mas ele não fizera nenhuma das perguntas que ela sabia que ele devia estar pensando. — Por que não comemos a sobremesa na sala? — perguntou Craig quando Callie se levantou de sua cadeira para cortar pedaços de torta alemã para eles. — Pode ir se sentando lá enquanto ajudo Callie a tirar a mesa — disse Hunter, levantando-se para juntar os pratos. — Nós já vamos. — Não está acontecendo como planejamos — sussurrou Callie quando Craig saiu do cômodo. — Tenha paciência, querida. — Hunter enxaguou os pratos para pô-los na lavadora. Em seguida, separou o pó para fazer o café. — Se ele não perguntar, eu mesmo toco no assunto. — Eu não devia ter deixado você me convencer a fazer isso. — Ela balançou a cabeça para sua própria tolice. — Tenho certeza de que ele está ciente desta farsa. — Não se preocupe. Tudo vai ficar bem. Ao deixar Hunter levar para a sala a bandeja que ela arrumara com os pratos de sobremesa, xícaras, pires e um bule de café, Callie rezou para que ele tivesse razão. Seus nervos não aguentariam muito mais. Ela já estava com uma incontrolável vontade de preaquecer o forno e começar a medir o açúcar e a farinha. — Tenho uma pergunta para vocês — disse Craig quando pôs seu prato de sobremesa vazio de volta na bandeja. — Se vocês se casaram, por que Callie não está usando aliança? Sentada ao lado de Hunter no sofá de dois lugares, ela acabara de tomar um gole de leite do copo que trouxera da cozinha e precisou de toda a sua força para evitar se engasgar com a pergunta direta dele. O pânico a dominou. Ela estava com a razão. Craig sabia que eles só estavam fingindo. O que fariam agora? — Ela precisou tirar a aliança quando os dedos começaram a inchar — disse Hunter sem hesitar. Ele pegou a mão esquerda dela e a levou aos lábios. — Depois que ela tiver o bebê, a aliança volta para o lugar. Uma onda de calor formigante subiu pelo braço dela, espalhando-se pelo resto de seu corpo com o gesto amoroso. Ela ficou feliz por Hunter ter conseguido pensar rápido, pois, naquele instante, ela nem sequer sabia se conseguiria pensar de qualquer forma que fosse. — Quando e onde vocês se conheceram? — perguntou Craig. Hunter levantou a mão. — Está vendo esta cicatriz na minha palma? Tive que ir a um pronto-socorro em Houston quando me atrapalhei com um anzol. Quando vi Callie, soube que ela era a mulher da minha vida. — Abrindo para ela um sorriso que fez o íntimo de Callie se transformar em pudim quente, Hunter beijou delicadamente o rosto dela. — Nós nos 46


casamos poucos dias depois, e ela engravidou algumas semanas mais tarde. — Por que a pressa? — perguntou Craig, parecendo suspeitar. — Quando sei o que quero, não deixo escapar de mim — Hunter envolveu os ombros dela com o braço e a segurou junto de si. — Infelizmente, você vai ter que encarar a realidade, Culbertson. Ela está comigo agora, e não vou abandonar Callie e o nosso bebê. Callie observou Craig. Ela o conhecia bem o suficiente para saber que não estava totalmente convencido. Havia um imenso buraco na história deles, e, apesar de Craig não ter perguntado novamente por que ela não falara de seu casamento à sua mãe, Callie sabia que era o que ele estava pensando. No entanto, tirando forças do homem que a abraçava de forma tão possessiva, ela concluiu que, se o assunto surgisse novamente, ela simplesmente diria a Craig que não devia explicações a ele nem a qualquer outra pessoa. — Bem, acho que é melhor eu ir — falou Craig ao ficar de pé. — Como sempre, sua comida estava deliciosa, Callie. Quando Hunter se levantou e a ajudou a se erguer do baixo sofá, ela começou a acreditar que talvez eles tivessem conseguido convencê-lo da farsa. Craig iria embora da cidade e, com sorte, ela nunca mais precisaria ver ou falar com ele. — Tenha uma boa viagem de volta a Houston — disse Hunter enquanto todos iam até a porta. Craig balançou a cabeça. — Ah, ainda vou passar mais vários dias aqui na região. Enquanto vocês terminavam o jantar, olhei a lista telefônica e encontrei uma pequena pousada nesta rua. — O arrogante sorriso dele fez Callie querer berrar de frustração. — Pensei em passar mais um tempo aqui e bancar o turista. — Ele riu ao abrir a porta. — Pelo que sei, dá para descobrir muitas coisas conversando com as pessoas de uma cidade do tamanho de Devil’s Fork. Enquanto Craig descia os degraus e ia até seu sofisticado carro esportivo vermelho, Callie teve vontade de chorar. Como sua vida podia ter fugido tanto do controle em tão pouco tempo? Virando-se para Hunter, ela suspirou pesadamente. — Mais alguma ideia brilhante? Assim como ela, Hunter não parecia nada feliz com a situação. — Acho que não temos muitas opções. Vou precisar me mudar para cá até que aquele projeto de ser humano vá embora da cidade.

CAPÍTULO SEIS

Duas horas mais tarde, depois de ajudar Callie a limpar a cozinha, Hunter se 47


flagrou tentando pôr seu 1,90m numa posição confortável para dormir no sofá de dois lugares dela. Resmungando uma palavra que ele reservava para situações extremas, ele se sentou, apoiou os cotovelos nos joelhos e a cabeça nas mãos. No que diabos ele se metera? E por quê? Se tivesse ficado de boca fechada, estaria dormindo numa cama consideravelmente confortável, ainda que estreita, no hangar, em vez de se torturando no móvel mais desconfortável que alguém já criara. E, definitivamente, não estaria comprometido a bancar o marido de uma mulher da qual ele já estava achando impossível manter suas mãos longe. Entretanto, mesmo ao se censurar por ter se envolvido, Hunter sabia que fizera a coisa certa. Depois de conhecer Culbertson e ouvir Callie explicar como ele e os pais dele tinham usado o dinheiro e a influência para tirar o bebê da primeira garota que Craig engravidara, Hunter tinha certeza de que os Culbertson não pensariam duas vezes antes de tentar fazer o mesmo com Callie. Balançando a cabeça, ele não conseguiu acreditar na arrogância deles. O que lhes dava o direito de tirar um bebê da mãe simplesmente por ter o sangue dos Culbertson nas veias? Que tipo de gente achava que o fato de ter uma conta bancária pobre tornava uma mãe inadequada? Sentado ali, pensando no egoísmo deles, Hunter percebeu que, se Emerald Larson tivesse querido, poderia tê-lo tirado, juntamente com seus irmãos, das mães deles a qualquer momento. Sem dúvida, ela possuía mais dinheiro e poder do que os Culbertson jamais sonhariam e não teria encontrado muita dificuldade para conseguir a custódia de seus netos. Contudo, em vez de considerar os três como posses, Emerald se importara o suficiente para se contentar apenas em ver em fotos e saber por relatórios de detetives particulares como Hunter e seus irmãos cresciam, garantindo que eles se tornassem pessoas normais e ajustadas. E, pela primeira vez desde que ficara sabendo dos detalhes de sua família, Hunter começou a apreciar os sacrifícios que tinham sido feitos por Emerald pelo bem dele. Todos os resquícios de raiva que ele ainda guardava por não ter tido o direito de saber quem era seu pai se dissiparam. Ainda que Hunter fosse sempre achar ruim qualquer homem que abandonasse uma mulher quando ela mais precisasse dele, chegou à conclusão de que Emerald e seu mulherengo filho não eram totalmente responsáveis pela raiva e pela confusão com as quais ele crescera. Fora uma escolha de Marlene O’Banyon concordar com os termos de Emerald. E, embora Emerald não tivesse exigido que a mãe dele permanecesse solteira, Hunter às vezes se perguntava se ela havia assinado o acordo de confidencialidade com uma esperança secreta de que, um dia, Owen Larson tivesse bom-senso e retornasse a Miami para Hunter e ela. Owen, porém, nunca pusera os olhos em nenhum de seus filhos, e nunca mais vira as mães deles. E, com sua morte num acidente de barco em algum lugar do Mediterrâneo oito meses antes, isso jamais aconteceria. Claro, sua mãe não fazia ideia de que o velho Owen plantara mais do que uma semente desgarrada. Ainda que ela tivesse sido a primeira mulher que ele engravidara, não fora a última. O próprio Hunter duvidava de que Emerald tivesse total certeza de que ele, Nick e Caleb fossem os únicos descendentes de Owen. Mas isso não importava agora. A questão era que, com a maneira como os Culbertson tinham lidado com uma situação semelhante, Hunter entendia e até era capaz de admirar sua avó por ter lidado com tudo da forma como ela lidara. 48


Perdido em seus pensamentos, Hunter demorou para perceber que Callie se levantara da cama e estava atravessando a sala nas pontas dos pés, indo para a cozinha. — Não está conseguindo dormir? — perguntou ele, tomando cuidado para manter a voz baixa e não assustá-la. O grito assustado dela foi alto o suficiente para despertar os mortos. E lá se ia a ideia de não assustá-la. — Sou só eu, Callie. — Deus do céu, você me matou de susto — disse ela, segurando algo diante de seu robe. — Desculpe. — Ele ligou o abajur ao lado do sofá. — Não foi minha intenção. — Ele parou para olhá-la fixamente quando percebeu o que ela estava carregando. — O que diabos você está fazendo com seu avental à... — ele verificou o relógio — ... meia-noite? — Estou tensa demais para dormir — disse ela defensivamente. — Pensei em encontrar algo para fazer. Ele franziu o cenho. — Então vai começar a cozinhar? Ela passou rapidamente por Hunter para entrar na cozinha. — Todos lidam com o estresse da sua própria maneira. Alguns bebem. Outros comem. Eu confeito. Aquilo explicava por que ela fizera o suficiente para abastecer uma rede de mercados, pensou ele ao segui-la. Desde que engravidara, Callie estava morta de medo de que Culbertson ficasse sabendo do bebê. Agora que ele sabia, parecia que ela faria biscoitos suficientes para alimentar todos os homens, mulheres e crianças do estado inteiro. — Nosso turno começa daqui a menos de 18 horas. — Ele bocejou. — Não acha que seria uma boa ideia estar descansada quando fôssemos trabalhar? Ela balançou a cabeça enquanto pegava um conjunto de medidas e o pote de farinha. — Não se preocupe comigo. Vou ficar bem. É você quem precisa descansar para pilotar o helicóptero. Volte para a sala e durma. — É mais fácil falar do que fazer — resmungou ele. — Prometo que não vou fazer muito barulho — falou ela, derrubando a xícara de farinha que acabara de medir. — O problema não é esse. — Ele puxou uma cadeira e se sentou à mesa. — Sou alto demais. — Como é? Ela parecia totalmente confusa e tão linda parada ali com sua roupa de dormir e seu avental que Hunter precisou se lembrar do que eles estavam falando. — O sofá mal tem 1,30m, e eu tenho 1,90m. Faça as contas. Os olhos de Callie se arregalaram — Oh, Deus. Desculpe. Não tinha pensado que seria pequeno demais para você. — Ela balançou a cabeça. — Mas não tem problema. Você pode ficar com a minha cama, e eu durmo no sofá. 49


— De jeito nenhum — Ele não dormiria numa cama confortável enquanto ela ficava aguentando aquele instrumento de tortura na condição em que estava. — Por que não? — perguntou Callie enquanto limpava a farinha que derramara. — Tenho pelo menos uns 25cm a menos que você e não devo ter tanto problema para ficar confortável. — Você está grávida. — E você é mandão. — Ela sorriu. — Mas estou tentando não pressioná-lo com isso. O belo sorriso dela lançou uma onda de calor pelo corpo dele, e Hunter pensou em várias coisas que gostaria que ela pressionasse contra ele; todas elas macias, quentes e deliciosamente femininas. Ele engoliu em seco. Pensar naquilo só resultaria em uma dentre duas coisas. Ou ele se envolveria muito mais do que se sentiria confortável ou ficaria completamente louco. E ele não tinha certeza de que ainda não havia ultrapassado os limites com relação às duas coisas. — Posso dormir numa das cadeiras e... — Acordar com um torcicolo terrível — interrompeu ela, deixando um ovo cair na bancada. — Droga. — Pegando uma toalha de papel, ela limpou a sujeira. — Se vou voar com você, não só quero que descanse bem, mas também que consiga se mexer direito. — Eu aguento ficar na cadeira. — Hunter se levantou e começou a rumar para a sala de estar, mas a macia mão dela em suas costas o fez parar imediatamente, lançando um choque elétrico por seu corpo. — Acho que não estamos percebendo o óbvio — disse ela, virando-se para medir mais farinha numa tigela. — Ainda devo ficar horas acordada até relaxar o suficiente para dormir. Não tem motivo para que fique desconfortável quando tem uma cama vazia onde poderia dormir. E, se eu quiser ir dormir antes de você se levantar, vou tomar cuidado para não acordá-lo quando me deitar. Callie tinha razão. Seria bem idiota que ele tentasse dormir na cadeira quando podia se esticar. No entanto, saber que ela poderia se deitar na cama com ele já era suficiente para lançá-lo em órbita. — Acho que pode dar certo — disse ele, pensando em voz alta. — E somos adultos. Não há motivo para não resolvermos isso. — Talvez, se repetisse aquilo várias vezes, ele próprio começasse a acreditar. — Exatamente. — Ela gesticulou, indicando o outro cômodo ao pegar a colher e derrubar o recipiente de fermento. — Você está me distraindo. Vá para a cama e me deixe começar a fazer estes biscoitos. Bocejando, ele coçou seu peito nu e foi para o quarto dela. Com sorte, apagaria assim que encostasse a cabeça no travesseiro. E, se ele acreditasse nisso, com certeza também seria idiota o suficiente para comprar uma casa de praia no centro do Arizona.

Poucas horas depois de Hunter ter ido se deitar na cama dela, Callie desligou a luz da cozinha e entrou em silêncio no quarto. Fazer vários biscoitos tinha ajudado, mas seus nervos continuavam à flor da pele, e ela imaginava que ficariam assim até que tivesse certeza de que Craig saíra de vez de sua vida. Ao tirar as sandálias de dedo e se virar para puxar as cobertas, ela esqueceu 50


totalmente seu problema atual com Craig e se concentrou na visão das amplas costas de Hunter. Pelo fraco luar que se filtrava pelas cortinas, ela via que ele estava deitado de barriga para baixo e coberto da cintura para baixo com o lençol. O coração de Callie deu um salto, e ela engoliu em seco quando aquela visão fez com que se lembrasse de momentos anteriores na cozinha, quando ela vira o peito nu de Hunter pela primeira vez. O movimento dos músculos perfeitamente definidos debaixo de uma leve cobertura de pelos escuros a deixara incrivelmente fascinada e distraída a ponto de perder toda a coordenação. Como diabos ela conseguiria dormir com toda aquela masculinidade crua a meros centímetros de distância? E por que sua cama de casal parecia ter se reduzido subitamente para o tamanho de um catre? Desejando que tivesse comprado uma casa de dois quartos em vez do charmoso chalé com apenas um, ela balançou a cabeça ao calçar novamente as sandálias. Iria até a cozinha, pegaria um punhado de gotas de chocolate e se deitaria no sofá. — Vai ficar aí o resto da noite ou vai vir para a cama? Ela deu um salto ao ouvir a voz de Hunter, e suas faces se aqueceram de vergonha por ter sido flagrada a olhá-lo. Graças aos céus, não havia luz suficiente no quarto para que ele visse sua expressão de culpa. — Eu... não quis incomodar você. Ele rolou de costas e a olhou. — Eu não estava dormindo. — O que houve? — Pela forma como ele bocejara antes de ir para a cama, ela teria imaginado que Hunter dormiria antes mesmo de conseguir fechar os olhos. — O colchão é macio demais para você? — Não, é bastante confortável. Ela franziu o cenho ao se sentar hesitantemente na beira da cama. — Então qual é o problema? — Estava pensando. — Não sei bem se quero ouvir isso — interrompeu Callie, preocupada. — Da última vez que você compartilhou suas ideias, nós nos metemos nesta encrenca. — Não vai tirar o robe e se deitar? Ela engoliu em seco. Já teria sido difícil se deitar ao lado dele se ele estivesse dormindo. Acordado, então. Só de pensar naquilo, ela já sentia um formigamento em todo o seu corpo. — Era nisso que você estava pensando? — Não. — A profunda risada dele lançou um calafrio pela espinha dela. — Mas você passou a noite toda funcionando à base de adrenalina, e acho que, pelo bem do bebê, seria uma boa se tentasse relaxar. Callie sabia que ele tinha razão. Mas não sabia ao certo se aquilo seria uma opção, especialmente com Hunter tão próximo. — Vai me deixar tentando adivinhar ou vai me contar o que você inventou dessa vez? — perguntou ela. Ele balançou a cabeça. 51


— Só depois de você se deitar. Incrivelmente irritada, ela balançou a cabeça. — Acho que seria melhor se eu dormisse no sofá. — Por quê? Não tem medo de dormir na mesma cama que eu, tem? — Ela não conseguia ver direito a expressão dele no quarto escuro, mas ouvira a risada e o desafio bem-humorado na voz dele. — Não seja bobo — mentiu ela. — Só acho que, como claramente nós sentimos atração um pelo outro, talvez isso não seja uma boa ideia. — Lembre-se de que nós dois somos adultos — disse ele levemente. — Dou minha palavra de que não vai acontecer nada que você não queira que aconteça. Aquilo não devia ser um problema, disse Callie a si mesma ao se levantar para tirar o robe. Não sabia ao certo por que, mas confiava nele. E tinha certeza de que não precisava se preocupar consigo mesma. A última coisa que ela queria ou de que precisava era se envolver com outro homem. Quando ela se deitou na cama, ele se virou de lado, apoiou o cotovelo no travesseiro e repousou a cabeça na palma. A proximidade fez uma deliciosa sensação descer do topo da cabeça dela até as pontas dos pés. Callie se esforçou para ignorá-la. — Acho que devíamos nos casar. A voz dele estava grave e íntima, e ela precisou de um instante para se dar conta do que ele dissera. Quando isso aconteceu, seu coração martelou as costelas. — Você não está falando sério. Quando ela começou a sair da cama, a mão de Hunter em seu braço a fez parar. — Pense nisso, querida. Não precisa de muito esforço da parte de Culbertson para descobrir que não somos casados ou que eu nunca estive em Houston. — E você só pensou nisso agora? — Ela massageou suas têmporas, que tinham começado subitamente a latejar. — Por que fui deixar você me convencer? Eu disse que não ia dar certo. — Foi por isso que sugeri que nos casássemos — disse ele pacientemente. — Não importa quando nos casamos. Seremos marido e mulher de qualquer forma. — Não entendo como isso resultaria em algo que não fosse mais complicações para uma situação que já está impossível. — Um repentino pensamento a fez sentir um calafrio, e Callie precisou inspirar fundo para fazer as palavras passarem por sua embargada garganta. — Ele pode pedir um teste de DNA para provar a paternidade. — Pode, mas algo me diz que ele não vai fazer isso. A respiração dela ficou presa num leve choramingo. Se Craig e os pais dele soubessem que o filho dela também era dele, os Culbertson interviriam e tirariam o bebê dela; não porque amavam a criança, mas porque o veriam como uma de suas posses. Encontrariam um motivo para considerá-la indigna ou inadequada para criar o herdeiro deles, assim como tinham feito com aquela pobre menina 12 anos antes. — Não há saída para isso. — Um calafrio percorreu a espinha dela. — Eles vão tomar meu filho de mim, e não há nada que eu possa fazer para impedir. Hunter a envolveu com seus fortes braços e a aninhou junto a si. — Enquanto eu estiver por perto para impedi-los, não.

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— Não entendo como. — Tirar uma criança de uma mãe solteira não é tão difícil quanto tirar de pais casados. — Sim, mas os Culbertson são muito ricos e podem contratar os melhores advogados. Tenho certeza de que eles vão garantir que o caso seja julgado por um juiz do mesmo círculo social deles. — Ela pôs a mão na barriga. — Seria uma batalha perdida. — Deixe que contratem quem eles quiserem ou que escolham o juiz que eles acharem que atenderá ao pedido deles. — Ele lhe deu um beijo na testa. — Também tenho minhas conexões. Recuando para olhá-lo, Callie balançou a cabeça. — Não sei bem quem você pensa que conhece, mas vai ser necessário mais do que uma conexão ou outra para impedir que eles levem meu filho embora. — Talvez você se surpreenda. — Ele afastou delicadamente uma mecha de cabelo do rosto dela. — Deixe que eu me preocupe com os Culbertson e os advogados deles. Vou verificar algumas coisas, mas suspeito de que haja outros motivos para essa visita dele. A raiva e a frustração a preencheram — É exatamente por isso que detesto gente rica. Acham que, por terem dinheiro, eles têm o direito de fazer o que quiserem. — Nem todas as pessoas de posses são como os Culbertson, Callie — disse ele tranquilamente. — A família do meu pai tinha dinheiro, mas nunca houve a ameaça de que eles me tirariam da minha mãe, ou meus irmãos das mães deles. Lembrando-se da conversa deles na viagem de volta de El Paso, Callie mordeu seu lábio inferior para impedir que ele tremesse quando uma nova onda de medo a percorreu. — Eu diria que a família do seu pai é uma exceção, não a regra. — Talvez, mas aposto que é o contrário. — Ele passou levemente a palma pelo braço dela, lançando uma onda de calor formigante para todas as partes do corpo de Callie. — De qualquer forma, prometo que você não tem nada a temer dos Culbertson enquanto eu estiver por perto. — Espero que você tenha razão — falou ela, tapando um bocejo com a mão. Hunter beijou o alto da cabeça dela. — Conversaremos mais de manhã. No momento, nós dois precisamos descansar. Em poucos instantes, a respiração profunda e lenta dele indicou que Hunter adormecera. Porém, por mais cansada que estivesse, Callie não conseguia parar de pensar na ameaça que Craig representava e na proposta de casamento de Hunter. Tudo que ele dissera fazia perfeito sentido e poderia resolver o problema dela. Contudo, a amizade só ia até determinado ponto. Ela não conseguia acreditar que ele estivesse disposto a se envolver com algo sério como um casamento apenas para ajudála. O que ele esperava conseguir em proveito próprio? E o que aconteceria se conseguissem impedir que os Culbertson tirassem o bebê dela? Quanto tempo levaria até que Hunter pedisse a anulação ou o divórcio? Completamente esgotada da tensão da visita inesperada de Craig e da

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especulação do que aconteceria se ela aceitasse a insana sugestão de Hunter, Callie começou a ser dominada pelo sono. Entretanto, em vez de ter pesadelos com seu bebê lhe sendo tirado por Craig e a família dele, sonhou com seu casamento com um homem lindo, alto e de cabelo escuro, com uma voz sexy como o pecado e beijos devastadores.

A sensação de um cabelo leve e macio contra seu rosto, das estáveis batidas de um coração sob sua orelha e do perfume da pele masculina limpa atacou os sentidos de Callie enquanto ela flutuava no mundo surreal entre o sono e o despertar. Quando um par de fortes braços se apertou em torno dela, Callie sorriu e se aninhou contra o rígido corpo masculino a seu lado. — Bom dia, dorminhoca. O som da voz de Hunter fez os olhos de Callie se abrirem imediatamente, e ela inclinou a cabeça para encontrar os incríveis olhos verdes dele. Estava deitada com a cabeça no largo peito dele, o braço jogado por cima de seu abdômen definido. Contudo, foi o fato de perceber que sua perna estava passada por cima da musculosa coxa dele que lançou um calafrio de excitação pela espinha de Callie e a deixou se perguntando se seria capaz de continuar respirando. — Há q-quanto tempo você está acordado? — Cerca de uma hora. Arrepios dominaram a pele dela com a vibração do tom de barítono dele, trovejando do fundo de seu peito. No entanto, foi a sensação da rígida ereção dele forçando a cueca que fez Callie afastar sua perna da de Hunter. Aquele era um território perigoso, e, sem dúvida, seria melhor pôr um pouco de distância entre eles. — Aonde você vai? — A quente respiração dele eriçou os finos cabelos da têmpora dela e fez seu coração palpitar. — Eu. hã... acho que é melhor me levantar e preparar algo para o café da manhã. Ele a segurou firmemente contra si quando Callie tentou sair de seus braços. — Estou com fome, mas não de comida. Um delicioso calor diferente de tudo que ela já sentira começou a fluir por suas veias com o franco comentário dele. — N-não seria uma boa ideia deixar as coisas mais complicadas do que já estão. A profunda risada de Hunter fez o calor dentro de Callie se acumular em seu ventre. — Querida, beijar não é complicado. — Ele roçou seus lábios nos dela, enviando uma deliciosa sensação formigante até as pontas dos pés. — É uma das formas mais puras de prazer que um homem e uma mulher podem compartilhar. O som da voz dele, suas provocantes palavras e a sensação da palma calejada acariciando a lateral do corpo dela através do fino algodão da camisola eram como uma droga, e Callie já tinha dificuldade até de lembrar qual era seu próprio nome, ainda mais de pensar por que aquilo tornaria a situação deles bem mais difícil. Contudo, deixou de pensar por completo quando a boca de Hunter se assentou sobre a dela e ele contornou ternamente seus lábios com a língua. — Isto é... loucura — murmurou ela, tentando puxar o ar para seus pulmões.

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Ele beijou e mordiscou em torno do maxilar dela, indo até a parte logo abaixo da orelha. — Quer que eu pare? — Eu devia exigir que você parasse e saísse imediatamente da minha casa. Os lábios dele marcaram a fogo uma trilha descendo pelo pescoço dela. — Mas você não vai fazer isso? Com uma infinidade de deleitosas sensações a percorrê-la, Callie precisou se concentrar na pergunta dele. — N-não. — Por que não? — perguntou Hunter enquanto descia com a palma pela lateral do corpo dela, deslizando a mão por baixo da barra da camisola. Os dedos planando na pele nua dela tornaram impossível que Callie respirasse e intensificaram o calor em seu ventre. — O q-que você está fazendo... é muito bom. — Quer que eu pare? Incapaz de pensar com clareza, ela balançou a cabeça. — Não ouse. Ele acariciou o quadril dela, e o abdômen ao subir lentamente. — Você sabe o que vai acontecer se eu continuar? Quando Hunter cobriu um dos seios dela com a mão e roçou o mamilo enrijecido com o polegar, o desejo a percorreu e se assentou profundamente na parte mais feminina de Callie. — V-vamos fazer amor. A mão dele continuou a acariciar a pele exageradamente sensível dela. — É isso que você quer, Callie? Enquanto olhava fixamente nos escuros olhos verdes dele, o coração de Callie martelava em seu peito. Desde o momento em que tinham se conhecido, houvera uma atração magnética que os unira, uma química que ambos tinham tentado negar e fracassado. E, com cada beijo, a tensão entre eles aumentara até se tornar uma força irresistível. Fosse aquele desejo, mais do que tudo que ela já sentira, fruto de seus hormônios da gravidez ou não, Callie não queria que ele parasse. Queria sentir o calor dos beijos de Hunter e a paixão de seu toque amoroso. — Isto é pura loucura. Mas sim, quero fazer amor com você, Hunter.

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CAPÍTULO SETE

Quando Callie admitiu que queria fazer amor, o coração de Hunter esmurrou suas costelas com tanta força que ficou surpreso por ele não ter pulado para fora do peito. Durante toda a noite, ele ficara deitado com ela em seus braços, e, com cada segundo marcado pelo relógio, o macio corpo e o doce perfume feminino dela haviam aumentado a tensão à qual ele vinha resistindo desde o instante em que pusera os olhos nela. Contudo, quando ela acordara e o olhara com seus sensuais olhos violeta, ele ficara mais rígido do que nunca em sua vida, e impedir a si mesmo de prová-la e tocá-la seria tão impossível quanto impedir que o sol nascesse no leste todas as manhãs. Porém, por mais que ele quisesse afundar nela, ouvi-la chamar seu nome enquanto lhe dava prazer, Hunter não conseguia suportar a ideia de que ela pudesse se arrepender de um minuto sequer do que eles fariam. — Tem certeza de que fazer amor é mesmo o que você quer, Callie? O coração dele parou, e Hunter se flagrou prendendo o fôlego quando ela fechou os olhos e permaneceu em silêncio durante vários longos segundos. Então, para o alívio dele, Callie os abriu e assentiu. — Acho que vou me derreter totalmente se não fizermos. Inspirando fundo, ele tentou ralentar o fogo líquido que corria em suas veias. — Sei que eu devia ter perguntado isso antes de as coisas terem ido tão longe, mas sua médica acha que não tem problema fazermos amor? As faces de porcelana dela se coloriram de um lindo rosa quando ela assentiu. — A obstetra me deu permissão para atividades normais, sem restrições. E isso inclui fazer amor. Hunter não conseguia acreditar no tamanho do alívio que o dominou. Se ela tivesse lhe dito que havia até mesmo a menor possibilidade de um problema ou menor dos desconfortos, ele teria dado um jeito de sair dali, por mais difícil que fosse. No entanto, saber que não havia nada que os impedia de ter uma experiência prazerosa e satisfatória enviou uma nova onda de calor diretamente à virilha dele. Infelizmente, aquilo durou pouco. Ele não planejara passar a noite com Callie, muito menos fazer amor com ela, e sequer pensara em preservativos quando saíra do hangar na manhã anterior. Mas estava pensando neles agora. Ou, mais precisamente, na falta deles. Contudo, ao olhar para a mulher em seus braços, ele percebeu que não havia possibilidade engravidá-la. E, verdade fosse dita, não faria diferença para ele se Callie já não estivesse esperando um filho. A ideia dela carregando o bebê dele o atraía mais do que Hunter jamais teria imaginado e devia tê-lo deixado morto de medo. Era algo que ele não compreendia, com que não se sentia confortável, mas, no momento, ele não pretendia analisar aquilo. Tudo que importava era dar prazer a ela, dar a Callie o valor que ela merecia. Sem hesitar por um momento sequer, puxou-a para perto e cobriu sua boca com a dele. Os macios lábios dela se moldaram aos dele com um desespero sedento que se igualava e causou um incêndio dentro das veias dele, alastrando-se com a velocidade de 56


um rio selvagem. Quando ela entreabriu a boca para que ele aprofundasse o beijo, Hunter achou que sua cabeça cairia dos ombros quando ela acariciou ousadamente a língua dele, envolvendo-os num erótico jogo de avanço e recuo. Estava lhe mostrando que sentia uma paixão tão profunda quanto a dele, que o queria tanto quanto ele a queria. Interrompendo o beijo, Hunter desceu mordiscando até a base do pescoço dela enquanto segurava a barra da camisola. — Levante os quadris, querida — sussurrou ele contra a pele acetinada. Depois de tirar a calcinha e a fina camisola de algodão dela, Hunter tirou rapidamente a cueca e a puxou novamente para seus braços. Quando ele sentiu a pele de cetim dela contra ele, o desejo percorreu suas veias, e Hunter precisou lutar contra um ímpeto quase incontrolável de cobri-la com seu corpo e se enterrar profundamente dentro dela. Todo o seu ser pulsava com a urgente necessidade de tomá-la para si, mas ele estava determinado a não apressar as coisas, por mais que seu corpo exigisse. — Você é tão macia. — Ele traçou uma trilha de beijos até a base do pescoço dela, descendo até a subida do seio. — Tão doce. Ao provocá-la com um leve movimento giratório, o fogo do desejo cresceu dentro dele quando Callie entrelaçou os dedos em seu cabelo e o puxou para perto. Arqueando as costas, ela lhe deu um melhor acesso ao pico enrijecido. Tomando-o na boca, Hunter acariciou com a língua e com os lábios. — P-por favor, Hunter. — Ainda não, querida. — Descendo com a mão pela lateral do corpo de Callie, ele envolveu o ápice das coxas dela. — Quero garantir que você esteja pronta para mim. — Se eu ficar mais pronta que isso, vou torrar. — A voz dela estava sussurrante e arfante, e Hunter não teve dúvida de que Callie estava tão excitada quanto ele. Abrindo-a, ele a acariciou e a tocou intimamente. O úmido calor e o gemido de prazer de Callie garantiram a Hunter que ela precisava tanto dele quanto ele precisava dela. — Quero que me prometa uma coisa — disse ele ao continuar a acariciá-la. — Qualquer coisa. — Ele a viu fechar os olhos e morder o lábio inferior por um momento antes de ela choramingar. — Você está me. enlouquecendo. A reação dela ao toque aumentou a própria paixão de Hunter, e ele precisou respirar fundo várias vezes para se obrigar a ir mais devagar. — Quero que me prometa que, se você sentir o menor desconforto, vai me dizer. — Prometo. — Quando ela abriu os olhos, o desejo naquelas profundezas violeta tirou o fôlego de Hunter. — Por favor... faça amor comigo, Hunter. Incapaz de negar aquilo a qualquer um deles dois, ele afastou os joelhos de Callie e se posicionou sobre ela. Ao mover seu corpo para a posição, Hunter acomodou sua boca sobre a de Callie no mesmo instante em que avançou. Lenta e cautelosamente, ele a penetrou, e a sensação do apertado corpo dela se derretendo em torno dele enquanto se afundava cada vez mais fez Hunter cerrar os dentes enquanto buscava o controle. Porém, quando ela levantou os quadris para tomá-lo ainda mais, o fino fio de controle se rompeu, e Hunter se enterrou completamente nas

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profundezas femininas de Callie. Com todos os músculos de seu corpo contraídos com a necessidade de finalizar o ato de amor, Hunter se forçou a permanecer completamente imóvel. Ela precisava de tempo para se ajustar a ele, e ele precisava de tempo para saborear a sensação de estar totalmente unido à mulher mais desejável que já conhecera. Puxando-a para si, ele beijou seus doces lábios. — Vou tentar ir devagar, mas quero tanto você que não sei se vou conseguir. O sorriso dela deixou fora de controle o incêndio que ameaçava consumi-lo. — Quero você do mesmo jeito. Ele olhou nos olhos dela ao recuar e avançar os quadris, investido para dentro dela várias vezes. Ao sentir Callie reagindo, encontrando-o no meio de cada investida, ele aumentou o ritmo com cada movimento e logo sentiu o corpo dela se apertando em torno do dele, indicando que Callie estava pronta para encontrar seu clímax. Quando ela envolveu a cintura dele com as pernas para segurá-lo junto de si, a pressão no corpo de Hunter foi multiplicada por dez, e ele precisou de toda a sua força para se controlar. Não encontraria sua satisfação sem ela e, deslizando a mão entre eles, tocou-a ao investir pela última vez. O gemido de prazer de Callie e o tremor de seus pequenos músculos internos ao encontrar a satisfação desencadearam o próprio orgasmo dele. O calor e a luz lampejaram por trás dos olhos fortemente fechados dele quando Hunter se rendeu à tempestade e, sentindo-se como se o mundo tivesse se reduzido a apenas eles dois, ele se esvaziou dentro dela. Quando Hunter voltou lentamente à realidade, uma emoção que ele não ousava identificar preencheu seu peito. Jamais sentira algo tão incrível quanto o que acabara de compartilhar com Callie. A apaixonada reação dela ao toque dele o excitara de maneiras com as quais ele apenas sonhara, e ele se sentia mais vivo do que nunca. — Tudo bem com você? — perguntou ele quando finalmente encontrou forças para se postar ao lado dela. — T-tudo. Uma leve hesitação na voz dela o fez se levantar para olhar seu lindo rosto. As lágrimas que ele viu nos olhos de Callie o assustaram como poucas coisas seriam capazes de assustá-lo. Se ele a tivesse machucado, jamais perdoaria a si mesmo. — Callie, querida, o que há de errado? — Nada. Fazer amor com você foi uma das experiências mais lindas que já tive. — Ela segurou o rosto dele, e seu sorriso iluminou os cantos mais escuros da alma dele. — Obrigada. Fraco de alívio, ele balançou a cabeça. — Era eu quem devia estar agradecendo. Você foi incrível. Quando ela abafou um bocejo com sua delicada mão, Hunter beijou o alto da cabeça dela. — Você ficou acordada até muito tarde, e ainda está cedo. Por que não tiramos um cochilo e, depois, conversamos enquanto tomamos o café? — As palavras mal tinham saído da boca dele, mas a fraca respiração dela já indicava que Callie adormecera. Enquanto observava as sombras que precediam a alvorada se derreterem com a 58


luz do dia, Hunter abraçou Callie junto a si e pensou no que eles conversariam depois. Após o acidente e a morte de Ellen, ele jamais pretendera pedir a mão de outra mulher em casamento. Mas aquelas eram circunstâncias diferentes. Ele e Callie não se casariam por amor. Fariam a única coisa que ele conseguia pensar que talvez demovesse Craig Culbertson da ideia de tentar tirar o bebê dela. Hunter fechou os olhos e tentou pensar em algum outro jeito de ajudar Callie. Desde o momento em que ele tinha ido para a cama até o instante em que ela entrara no quarto, algumas horas depois, tudo em que ele havia sido capaz de pensar fora uma maneira de impedir Culbertson e a família dele. Não fazia ideia de qual seria a motivação do homem, mas ele devia ter ficado sabendo da gravidez de Callie pela mãe dela e aparecido para confirmar suas suspeitas de que fosse o pai. A julgar pelo nojo na voz de Craig quando, de forma acusadora, ele perguntara a ela se a criança era dele, Hunter estava surpreso por Culbertson não ter agarrado a chance de outra pessoa assumir a responsabilidade. E Hunter tinha total intenção de fazer tudo para descobrir por quê. E sabia exatamente com quem falar para ajudá-lo a investigar a questão. Ele iria pegar o nome do discreto detetive particular com o confiável assistente de Emerald, Luther Freemont, e veria o que eles seriam capazes de descobrir sobre Culbertson. Se quisesse, Hunter poderia pedir diretamente a Emerald para que interviesse em nome de Callie, e não havia dúvidas de que ela faria isso. Contudo, esse não era seu estilo. Fosse orgulho ou teimosia, ele travava as próprias batalhas. Oferecera-se para ajudar Callie, e seria ele a levar aquela questão até o fim. Outro motivo para ele não querer envolver Emerald era o fato de Hunter não estar disposto a deixar ninguém do Resgate Médico Life, especialmente Callie, saber de seu parentesco com a indomável sra. Larson. Em primeiro lugar, ele ainda precisava provar seu valor nos negócios que recebera para administrar. E, em segundo, Callie tinha problemas para confiar em qualquer pessoa que tivesse dinheiro. Se ela descobrisse que ele era neto de Emerald Larson e que recebera fundos suficientes para afetar a dívida nacional, além de ser herdeiro de parte da Emerald Inc., ela presumiria imediatamente que ele era como os Culbertson e recusaria a ajuda. E isso era algo que ambos sabiam que ela não poderia se dar o luxo de fazer. Vendo-a dormir de forma tão pacífica em seus braços, Hunter se perguntou se o casamento seria uma ameaça aos corações deles. Mas deixou a preocupação imediatamente de lado. Não se casariam por amor, e, contanto que mantivessem as coisas em perspectiva e as emoções sob controle, não haveria problema. Satisfeito por ter tudo pensado, Hunter relaxou e fechou os olhos. Eles ficariam juntos pelo tempo que fosse necessário para resolver a questão com Culbertson de uma vez por todas. Depois, avaliariam a melhor forma de lidar com a dissolução do casamento. Uma inesperada pontada de culpa apertou o peito dele com aquele pensamento, mas ele a ignorou. Ele e Callie eram amigos agora e continuariam sendo depois que se separassem E era exatamente assim que as coisas deveriam ficar.

— Onde está seu marido, Callie? Ela ficou totalmente imóvel ao ouvir a conhecida voz. Precisando de um novo suprimento de vitaminas pré-natais, ela parara na farmácia no caminho para o Resgate

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Médico Life. Não estava com tempo nem vontade de lidar com gente como Craig Culbertson naquele momento. — Não que seja da sua conta, mas Hunter é dono do serviço de ambulância aérea e precisava ver uns documentos — disse ela, voltando para o carro. Ela poderia comprar as vitaminas outra hora. No momento, tudo que queria fazer era pôr o máximo de distância possível entre si e Craig. No entanto, antes que Callie pudesse abrir a porta do motorista, ele a segurou pelo braço. — Por que a pressa? Você deve ter tempo de conversar com um velho amigo. Desvencilhando-se da pegada, ela se virou para Craig. — Não somos amigos e nunca seremos. Agora, se me der licença, preciso ir trabalhar. O sorriso arrogante dele foi suficiente para fazer Callie querer gritar. — Se o seu marido é o dono da empresa, chegar tarde não vai ser problema. Ela levou à maçaneta da porta do carro. — Preciso chegar na hora para render a equipe que está em serviço. Ele balançou a cabeça ao pôr a mão na porta do motorista para mantê-la fechada. — O que você precisa fazer é responder a algumas perguntas. — Não preciso, não. — Ah, acho que precisa, sim — Ele estendeu a mão para passar o dedo indicador pelo rosto dela. — Parece que nenhuma das pessoas da cidade sabe do seu casamento com O’Banyon. Na verdade, o sr. Jones, do mercado, ficou bastante surpreso quando ficou sabendo da notícia. Um calafrio subiu pela espinha de Callie com o toque de Craig. Ela devia ter sido cega por não ter visto que o charme dele era uma arma, não uma qualidade cativante. Como pudera se sentir atraída por um homem tão repugnante? Dando um tapa na mão dele, Callie balançou a cabeça. — Nunca mais toque em mim. — Você gostava de quando eu tocava em você, Callie — disse ele, tentando encenar uma expressão magoada. — Isso é passado. — Ela tentou tirar a mão dele da porta. — Tudo que quero de você agora é que me deixe em paz. Os olhos dele se semicerraram, e um arrogante sorriso substituiu a expressão magoada. — Isto é jeito de falar com o pai do seu bebê? — O fato de você ser capaz de fertilizar um óvulo não o torna apto a ser pai. É necessário alguém especial para isso. — Ela abriu a porta e começou a entrar. — Alguém que seja de fato capaz de amar uma criança. — Como O’Banyon? — Sim. Exatamente como Hunter. A risada sarcástica dele fez Callie cerrar os punhos até os nós de seus dedos 60


doerem. — Por que não desiste dessa farsa, Callie? Nós dois sabemos que você é tão solteira quanto eu. Se voltar para Houston agora, talvez eu consiga esquecer que você e O’Banyon tentaram me fazer acreditar que o bebê era dele. — Craig deu de ombros. — Quem sabe? Talvez você até consiga me convencer a lhe dar o direito de visitar a criança. Um medo tão forte que ameaçou fazer os joelhos de Callie cederem a percorreu. — Enquanto eu viver, você não vai tirar esta criança de mim — disse ela, dando o melhor de si para manter sua voz estável. O sorriso dele a deixou arrepiada. — Veremos, minha querida. Quando Callie finalmente entrou no carro, suas mãos tremiam tanto que ela precisou de algumas tentativas para encaixar a chave na ignição. Tudo que ela temera nos últimos meses estava se tornando realidade. Enquanto saída da vaga e dirigia pelo curto caminho até o hangar, o corpo dela tremia e lágrimas escorriam livremente por suas faces. Por motivos que Callie não tinha tempo nem vontade de analisar, tudo em que ela conseguia pensar era chegar até Hunter. Sabia que isso não fazia sentido, levando-se em consideração o pouco tempo que se passara desde que eles tinham se conhecido, mas, com ele, sentia-se mais segura do que se sentira em toda a sua vida. E, embora ela detestasse ficar vulnerável e dependente, a presença reconfortante dele lhe dava forças. Estacionando o carro ao lado do hangar, ela correu para a sala de operações. Felizmente, a equipe de serviço e Mary Lou estavam ocupados num jogo de pôquer. Ela sabia que parecia mais do que um pouco chateada e não queria suportar a torrente de perguntas que viria de Mary Lou. — Hunter está no escritório dele? — perguntou ao passar rapidamente por eles. — Passou a tarde toda lá, dando telefonemas — respondeu Mary Lou sem sequer erguer os olhos das cartas. Quando Callie chegou ao escritório de Hunter, nem sequer hesitou ao abrir a porta e entrar. Craig podia achar que estava com a vantagem, mas ela não ficaria parada, não deixaria que ele levasse o filho dela embora sem resistir. E, se isso significasse se casar com um homem que ela mal conhecia, seria exatamente o que ela faria. — Se você ainda estiver disposto a se casar comigo, minha resposta é sim.

CAPÍTULO OITO

Num piscar de olhos, Hunter já estava de pé, contornando a mesa. Callie parecia ter visto um fantasma, e as lágrimas que desciam por seu rosto quase o destruíram — O que houve? 61


Quando ele a tomou nos braços, ela se enterrou no abraço dele. Depois que ela lhe contou sobre o encontro com Culbertson e a arrogante atitude do homem, o estômago de Hunter ardeu com pura fúria. — Acha mesmo que teríamos chance de impedi-lo se nos casássemos? — perguntou ela, tremendo contra ele. — Não tenho a menor dúvida, querida. Se ele pudesse pôr as mãos em Culbertson naquele momento, Hunter o teria esganado por tê-la deixado daquele jeito. Sem dúvida, o homem era o pior ser humano que ele já tivera o desprazer de conhecer, e Hunter sentiria um grande prazer por mostrar a realidade àquele idiota arrogante. Hunter passara a tarde inteira ao telefone com o assistente pessoal de Emerald, Luther Freemont, e o detetive particular que a Emerald Inc. contratava para investigar o passado de potenciais funcionários das diversas empresas de Emerald. Depois de falar com o homem durante um longo tempo, Hunter estava confiante de que, se houvesse algo que eles pudessem usar para combater a tentativa de Culbertson de conseguir a custódia do bebê de Callie, o detetive descobriria. E, para o improvável caso de Culbertson ter um passado totalmente limpo, o que Hunter sabia perfeitamente bem que não era verdade, ele e Callie se casariam e estabeleceriam um lar estável que advogado, juiz ou assistente social algum poderia dizer que não era perfeito para criar um filho. — Não quero que você gaste mais tempo se preocupando com Culbertson ou com o que ele vai fazer — falou Hunter ao massagear de forma reconfortante a tensão na coluna dela. Callie recuou para olhá-lo, e a ansiedade que Hunter viu nos expressivos olhos dela lhe deu um nó no estômago. — É m-mais fácil falar do que fazer. — Você confia em mim, Callie? — Sim — Não havia sequer um toque de incerteza na resposta dela. — Dou minha palavra que tudo vai se resolver. — Ele abriu um reconfortante sorriso para ela. — Quando isso terminar, Craig Culbertson vai voltar correndo para Houston com o rabo entre as pernas. — Espero que você tenha razão. — Eu tenho. Ele selou sua promessa com um beijo e, quando ergueu a cabeça, seu corpo estava rígido como um pedaço de granito. Inspirando fundo, ele apoiou a testa na dela. Não fazia ideia de como ela conseguira deixá-lo tão envolvido tão rapidamente, mas não havia como negar que ele a achava a mulher mais excitante que já tivera a sorte de conhecer nos últimos cinco anos. E a ideia de fazer amor com ela todas as noites e, em seguida, abraçá-la enquanto ela dormia foi suficiente para lançar um raio de calor pelo corpo dele. — Por que... você está disposto a fazer isso por mim, Hunter? — perguntou ela, tão arfante quanto ele. — O que você ganha com isso? Ele fizera a mesma pergunta a si mesmo ao menos uma dúzia de vezes, e a resposta fora surpreendentemente simples. — Apesar de a família do meu pai ter uma boa vida, minha avó achou que seria 62


melhor que meus irmãos e eu fôssemos criados por mães amorosas que nos ensinassem um conjunto de valores consistentes, em vez de nos dar tudo que quiséssemos, como ela dera ao nosso pai. — Ele sorriu. — A lógica da minha avó deve ter funcionado, porque todos nós acabamos nos tornando bem-ajustados e produtivos, em vez de egoístas e irremediavelmente irresponsáveis como o filho dela. — Sua avó deve ser uma senhora muito especial e sábia. — Definitivamente, ela é única — disse ele evasivamente, achando que aquela descrição era até pouco. — Mas a questão é que acredito que todas as crianças merecem a mesma oportunidade que ela deu a mim e a meus irmãos. — Em outras palavras, você está fazendo isso pelo meu filho? Hunter assentiu. — Sei que você vai ser uma ótima mãe e que vai criá-lo com o amor e a orientação de que ele precisa. Ele não vai receber isso de Culbertson e da família dele. Callie balançou a cabeça. — Ele acabaria ficando igual a Craig: hedonista, egoísta e fútil. — Exatamente. — Hunter beijou a testa de Callie. — E, para responder à sua segunda pergunta, a única coisa que espero ganhar com o nosso casamento é a satisfação de saber que impedi que isso acontecesse. — Quanto tempo. Pondo o dedo nos lábios dela, Hunter balançou a cabeça. — Um dia de cada vez. Depois que resolvermos a questão com Culbertson, discutiremos como vamos lidar com as coisas. — Ele não sabia por que, mas não conseguia se forçar a dizer anulação ou divórcio. Hunter a viu mordiscar o lábio inferior enquanto o olhava durante vários segundos. — Isso significa que você vai passar um tempo morando comigo? — Maridos e suas esposas costumam morar juntos, querida. — Ele sorriu. — Claro, se você quiser, pode se mudar para o meu quarto aqui no hangar. Pela primeira vez desde que entrara no recinto, ela sorriu. — Acho que isso não daria muito certo, já que a sua cama é muito estreita. — Ah, acho que daria muito certo. — Compartilhar qualquer cama com Callie lhe parecia uma boa ideia. Ele tocou seus lábios nos dela. — Quando não estivermos fazendo amor, posso ficar abraçado com você enquanto dormimos. Ele viu uma faísca de excitação substituir a preocupação nos olhos violeta de Callie. — Talvez isso desse certo durante um tempo. Mas o que vai acontecer quando a minha barriga ficar grande como um balão? — Bom argumento — disse ele, perguntando a si mesmo como seria a sensação do bebê se mexendo sob as mãos dele. Uma lancinante pontada de pesar pelo fato de que jamais sentiria o próprio filho se mexendo dentro dela o atingiu, mas Hunter se esforçou para ignorá-la. Sentindo-se subitamente como se estivesse se afogando, ele acrescentou: — Talvez a sua cama seja melhor. — Quando você quer fazer isso? Ele riu, aliviando parte de sua tensão. 63


— Se dependesse de mim, eu nem teria saído da cama hoje de manhã. O rubor do rosto dela o fascinou. — Quis dizer quando você acha que devemos nos casar? — Eu sei. — Ele deu um rápido beijo nela e recuou antes que pudesse ceder à tentação de levá-la para a sua cama. — O que acha de amanhã à tarde? — Impossível. — O som da risada na doce voz dela foi como um bálsamo para a alma dele. — Além de estarmos em serviço, existe um período de espera de três dias no estado do Texas entre conseguirmos a licença e podermos nos casar. — Não existe período de espera no Novo México. — Ele pegou a mão dela e a levou até a porta. — E não se esqueça, eu sou o chefe. Posso pedir que a equipe Resgate II venha ficar de prontidão no dia em que fizermos a viagem para Carlsbad. Ela parecia um tanto quanto perplexa quando eles saíram para o corredor. — Está tudo acontecendo tão rápido. — As coisas vão desacelerar depois de amanhã. — Ele envolveu os magros ombros dela com o braço e a segurou junto a si. — Agora, abra seu melhor sorriso, querida. Temos um comunicado a fazer aos nossos colegas de trabalho.

— Você, Calantha Marshall, aceita este homem como seu legítimo marido? Na alegria ou... O rotundo juiz continuou falando, mas Callie não fazia ideia de se ele recitava as palavras da cerimônia de casamento tradicional ou se tentava leiloar um monte de terra. Estava nervosa demais para pensar em algo que não o fato de que ela não apenas permitira que Hunter a convencesse a se casar com ele, mas que estava de fato fazendo aquilo. Quando o meritíssimo Juan Ricardo pigarreou e a olhou, esperando, Callie engoliu em seco e se obrigou a se concentrar no que ele perguntara. — Sim — disse ela, surpresa por sua voz soar consideravelmente estável, levandose em consideração seu estado de nervos. O juiz Ricardo assentiu, aprovando, e se virou para Hunter, fazendo a mesma pergunta. Abrindo para ela um sorriso que a enlouqueceu, Hunter falou com uma voz forte e certa ao responder. — Sim — Está com a aliança? — perguntou o juiz, olhando para Hunter. As bochechas de Callie se aqueceram quando Hunter balançou a cabeça. Eles deviam ser o casal mais mal preparado para se casar que o juiz já vira. — Quando ela disse que queria se casar comigo, não quis esperar para escolher uma aliança — falou Hunter, sorrindo de forma conspiratória para o homem — Fiquei com medo de que ela mudasse de ideia. O juiz Ricardo riu. — Sendo assim, pelo poder em mim investido pelo estado do Novo México, eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva, filho. 64


Quando Hunter a tomou nos braços para selar a união deles, seu beijo fez a cabeça de Callie girar e os joelhos dela parecerem feitos de borracha. Levantando a cabeça, ele a olhou durante vários longos segundos antes de se virar, agradecer ao juiz, pegar a mão dela e levá-la para fora do tribunal. Ao entrarem na picape do Resgate Médico Life para o caminho de volta a Devil’s Fork, ela ainda não acreditava na velocidade com que tudo acontecera. — O que fizemos? Quando ele estendeu a mão para cobrir a dela, uma sensação de bem-estar percorreu Callie. Foi algo completamente inesperado e a fez perder o fôlego. Santo Deus, a atração que ela sentia por Hunter seria mais do que um caso de hormônios pré-natais hiperativos? Por ser enfermeira, ela sabia que, por causa de um desequilíbrio hormonal, durante o segundo trimestre, algumas grávidas se sentiam mais sensuais do que nunca. Naturalmente, presumira que fosse esse o motivo de ela ter cedido ao desejo e à paixão do momento ao fazer amor com Hunter. Mas e agora? Ela estaria se apaixonando por ele? Não, não era possível. Fazia pouco tempo que ela o conhecia, e, ainda que sua atração por ele fosse mais forte que tudo que já sentira, isso não significava que ela o amava. — Você está muito quieta — disse ele, levando a mão dela aos lábios para beijar a parte de trás. Pensando rápido, ela sorriu. — Estava pensando se vou manter meu sobrenome, se vou juntar com um hífen ou se vou trocar para o seu. Ele assentiu. — Fiz uma busca na internet hoje de manhã e encontrei um site com uma lista de coisas que uma noiva precisa fazer depois do casamento. Alterar os documentos estava na lista. — Ele abriu um sedutor sorriso para ela. — A decisão é sua, querida. Mas acho que Callie Marshall-O’Banyon ou simplesmente Callie O’Banyon fica muito bonito. — Como nosso casamento é só temporário, acho que faria mais sentido usar com hífen. — Então vamos de Callie Marshall-O’Banyon. — Por enquanto. — Certo. Por enquanto. Enquanto ficavam em relativo silêncio no caminho de volta a Devil’s Fork, Callie não conseguiu evitar se perguntar por que o fato de a mudança de seu nome não ser algo permanente a deixava profundamente triste. Ela soubera desde o início que eles se casariam para frustrar os esforços de Craig de tirar o bebê dela. Sendo assim, por que se sentia tão melancólica? Contudo, ao analisar sua reação, ela imaginou que fosse natural se sentir um pouco deprimida. Sempre pensara que, ao se casar e assumir o nome de seu marido, isso seria para o resto de sua vida. Olhando para Hunter, Callie não conseguiu evitar pensar que ele tinha todas as qualidades que ela sempre sonhara num marido. Era bondoso, atencioso e, acima de tudo, carinhoso. Poucos homens teriam se importado o suficiente com a possibilidade de 65


uma mãe solteira perder seu filho a ponto de abrir mão de sua liberdade por tempo indefinido. Suspirando, ela olhou pelo para-brisa da picape. Não sabia ao certo o que o futuro lhes reservava depois que voltassem a Devil’s Fork, nem por quanto tempo eles seriam marido e mulher. Porém, em sua mente, não havia dúvidas de que ela poderia contar com a presença de Hunter a seu lado para enfrentar qualquer coisa que Craig Culbertson tentasse fazer.

Quando Callie e Hunter entraram na sala de operações do Resgate Médico Life, Mary Lou e a equipe de serviço os receberam com uma ovação. — Parabéns! Com um imenso sorriso, Mary Lou se aproximou. — Todos nós discutimos isso e resolvemos dar a vocês a noite de folga. — É, concluímos que é impossível vocês terem uma noite de núpcias decente aqui no hangar, com todos nós por perto — acrescentou Corey. O sorriso dele fez Callie corar de vergonha. — Vou assumir no seu lugar, Hunter — disse George. — E Mark, o paramédico da Resgate III, vai vir para substituir Callie. — E a equipe de reserva? — perguntou Hunter. — Precisamos ter uma equipe de prontidão caso haja dois chamados ao mesmo tempo. — Já demos um jeito nisso — falou Mary Lou, postando-se entre eles. Deu os braços aos dois e começou a levá-los até a porta. — O resto do pessoal vai cuidar disso. Agora, acho que vocês deviam ir para a casa de Callie e passar o resto da noite se divertindo em estilo lua de mel. Callie achou que o calor em suas bochechas a incendiaria a qualquer momento. Ela sabia que Mary Lou seria direta e lhes diria exatamente como ela achava que eles deviam passar a noite. — Hunter? — Ela estava se sentindo mal por todos abrirem mão do dia de folga para substituí-los. O mínimo que ela podia fazer era protestar um pouco. No entanto, o sexy sorriso dele lançou uma onda de calor pelas veias dela e lhe mostrou que a ideia dos funcionários tinha sido excelente. — Por mim, está ótimo — disse ele, assentindo. Pegou a mão dela e a levou porta afora. Então, virando-se, acrescentou: — Voltaremos às oito da manhã para terminarmos nosso turno. Ao entrarem na casa dela vários minutos depois, Callie inspirou fundo e se virou para Hunter. — Não acho que isso seja certo. Ele franziu o cenho ao tomá-la nos braços. — Somos casados, querida. Fazer amor é algo normal para maridos e suas esposas. Ela balançou a cabeça e tentou se lembrar do que estava dizendo. Com ele a abraçá-la, o processo de raciocínio dela parecia ter entrado em curto-circuito.

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— Eu estava falando dos nossos colegas de trabalho abrirem mão do dia de folga. — Por quê? — Ele baixou a cabeça para mordiscar a sensível pele na nuca de Callie. — Eu achei um belo gesto. — E... foi. — Um calafrio de excitação subiu pela espinha dela quando Hunter trilhou com beijos o caminho até a base do pescoço dela. — Mas eles não fazem ideia de que... não estamos nos comprometendo... pela vida toda. Levantando a cabeça, ele a olhou fixamente enquanto segurava o rosto dela com sua grande palma. — Não se preocupe com isso, Callie. Estamos comprometidos um com o outro agora e pelo tempo que for necessário para garantir que Culbertson nunca mais incomode você. — Mas... — Dar a noite de folga para nós foi algo que eles quiseram fazer, e sabem que faremos o mesmo por eles quando precisarem A profunda e suave voz dele e o olhar em seus olhos verdes a fez esquecer rapidamente a culpa e o motivo dela. A sensação das mãos dele deslizando pelas costas dela enviou calafrios de deleite pelo corpo de Callie, e, subitamente, já não importava mais o motivo de eles terem se casado ou o fato de não ser para sempre. Que Deus a ajudasse, mas ela queria passar a noite novamente nos braços de Hunter, queria sentir as mãos dele nela, sentir-se valiosa quando unissem os corpos. Ela teria lhe dito isso, mas, quando a boca de Hunter se acomodou sobre a dela, o contato foi tão terno que fez lágrimas se acumularem nos olhos de Callie, tirando-lhe a capacidade de falar. Ele aprofundou o beijo, e, enquanto sua língua acariciava a dela, a união se encheu de promessas do que estava por vir. Ele a desejava e estava mostrando exatamente quanto. Quando ele a ergueu nos braços e foi para o quarto, os lábios deles não perderam o contato. E, quando Hunter baixou delicadamente os dois na cama, o coração de Callie palpitou várias vezes. Com as pernas dele entrelaçadas às dela, a força da ereção foi pressionada contra sua coxa e fez o corpo de Callie reagir com inconsequentes pulsações de desejo. Os lábios dele se fixaram nos dela um instante antes de ele levantar a cabeça para sorrir para Callie. — Quero você demais. — E eu quero você do mesmo jeito. — O corpo dela formigava com tamanho desejo que ela tremia. — Por favor, faça amor comigo, Hunter. O tranquilo olhar dele a deixou extremamente excitada quando ele se levantou da cama para tirar os sapatos e as meias deles. Então, pegando a mão dela, Hunter a pôs de pé. Pondo as mãos dela em seu peito, ele abriu um sorriso que fez os joelhos de Callie bambearem. — Vamos fazer isto juntos, querida. Excitada com a ideia de tirar as roupas dele, Callie ficou nas pontas dos pés para beijar a pele logo acima da gola da camisa vermelha dele ao mesmo tempo em que puxava a parte de trás para fora da cintura do jeans. Deslizando as mãos por baixo do tecido de algodão, ela sentiu os músculos dele se contraírem enquanto ela levantava lentamente a camisa. Quando Hunter ergueu os braços para ajudá-la, Callie permitiu que ele tirasse a peça e a jogasse para longe. 67


— Seu corpo é perfeito — disse ela, passando levemente as pontas dos dedos nos músculos peitorais bem-definidos dele. Quando ela desenhou círculos em torno dos mamilos dele, Hunter inspirou fundo. — Por melhor que seja sentir as suas mãos no meu peito, é a minha vez. Suavemente, ele soltou o rabo de cavalo dela e entrelaçou os dedos nas mechas que iam até o ombro. — Seu cabelo parece seda dourada. Ele inclinou a cabeça de Callie para um rápido beijo. Então, com muito cuidado, abriu os três botões da grande camisa polo dela. Lenta e cautelosamente, ele ergueu a peça por cima da cabeça dela, mantendo o olhar cativo enquanto estendia as mãos por trás de Callie para soltar o sutiã. Quando ele deslizou a seda e a renda dos ombros dela para jogar o sutiã em cima das camisas, os dois já respiravam como se tivessem disputado uma maratona. A expressão nos olhos dela o aqueceu por inteiro quando Hunter encheu suas mãos com os seios dela e, com os polegares, roçou as sensíveis pontas, transformandoas em rígidos picos. — Você é tão bonita, Callie. Ele baixou a cabeça para capturar um dos mamilos dela na boca, e Callie precisou se apoiar nos ombros dele para evitar se derreter. Ele provocou um e, em seguida, o outro ponto enrijecido com a língua, e foi como se o sangue dela tivesse se transformado em mel quente enquanto os tentáculos do desejo se estendiam por seu corpo e se acumulavam entre suas coxas. Quando Hunter finalmente levantou a cabeça, seu olhar sedento a deixou sem fôlego. Sem dizer nada, ela abriu rapidamente o cinto dele. Entretanto, quando abriu o jeans, Callie se obrigou a ir devagar. Erguendo os olhos para ele, sorriu ao passar a unha por cada dente de metal do zíper, pressionado pela ereção. — Isso parece meio desconfortável. Acho que você se sentiria melhor se eu tirasse. — Eu não acho, querida, eu sei que me sentiria melhor — disse ele com a voz rouca. Abrindo o zíper, ela baixou a calça pelos esbeltos quadris dele, descendo pelas coxas e panturrilhas musculosas. Quando ele tirou o jeans por completo, ela subiu as mãos na pele salpicada de pelos, indo até a cueca boxer azul- marinho, adorando a sensação de senti-lo se contrair com seu toque. — Melhorou? O sexy sorriso dele lançou o calor diretamente ao íntimo dela. — Ah, sim — disse ele, segurando a cintura do jeans dela. O cálido olhar de Hunter a manteve cativa enquanto ele deslizava os dedos por baixo do elástico. A sensação das palmas quentes dele roçando na pele dela era maravilhosa, e Hunter se ajoelhou para baixar a calça pelas pernas de Callie, passando lentamente as mãos pelas pernas dela ao subir até a calcinha de seda. Tocando-a entre as pernas, ele aplicou uma leve pressão no ponto mais sensível do corpo dela, enviando ondas de prazer. — Isto é bom, Callie? — perguntou ele quando um pequeno gemido de prazer

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escapou dela. Incapaz de formar um pensamento coerente, tudo que ela conseguiu fazer foi assentir. Quando Hunter se levantou, seu olhar capturou o de Callie, e, como num tácito acordo, os dois levaram as mãos às últimas barreiras que os separavam Sem interromper o contato visual, juntos, eles tiraram a cueca e a calcinha. Os olhos de Callie se arregalaram quando ela viu o magnífico corpo dele. Quando tinham feito amor na outra manhã, não houvera luz suficiente para que ela visse o físico dele. Contudo, ao olhá-lo agora, estava maravilhada com a perfeição dele. Os ombros largos, o peito e as coxas eram compostos por músculos definidos que ela sabia que, inexplicavelmente, não tinham sido fruto de um treino em academia. Quando seu olhar baixou mais, passando pelos esbeltos flancos dele, Callie perdeu o fôlego ao ver a majestosa e completa ereção. Hunter tinha um corpo impressionante, estava totalmente excitado e, quando ela lhe ergueu o olhar, ele a admirava como se a achasse a criatura mais linda do planeta. — Você é incrível — disse ele, a voz pesada de paixão. — Eu estava pensando o mesmo de você. — Talvez ela tivesse se sentido um pouco incerta com relação à sua forma em expansão, não fosse pelo brilho de apreciação nos olhos dele e a reverência que ela detectava em sua voz. Estendendo a mão, ela o tocou hesitantemente. Calafrios de desejo ardente e faminto a percorreram quando ela o envolveu com a mão, fazendo a força quente e grossa dele latejar com seu toque. Medindo a extensão e a maciez logo abaixo, ela ergueu o olhar para ele quando um grunhido trovejou nas profundezas do peito de Hunter. Os olhos dele estavam fechados, e um músculo se repuxava em seu maxilar, como se ele tivesse cerrado os dentes para aguentar as intensas sensações que o toque dela criava. — Isto é bom, Hunter? Quando ele abriu os olhos, a primitiva luz nas profundezas verdes a fez estremecer com um desejo mais forte que tudo que ela já vivenciara antes. Contudo, quando ele segurou os seios dela e baixou a cabeça para circundar cada mamilo com a língua, espirais de calor a percorreram, e Callie abandonou sua exploração para pôr as mãos nos ombros dele, buscando apoio. — P-por favor. — O que você quer, Callie? — A cálida respiração dele na pele dela a fazia achar que lamberia em chamas a qualquer momento. — Você. — Quando? — Agora! — Ele a estava enlouquecendo e queria ficar brincando de perguntas? Rindo, Hunter levantou a cabeça e, envolvendo-a com os braços, puxou-a para si. No instante em que a macia pele feminina encontrou a rígida carne masculina, Callie gemeu de prazer. — Vamos para a cama enquanto ainda temos forças — disse ele com a voz rouca. Quando Hunter a ajudou a subir na cama e se estendeu ao lado dela, ondas de puro desejo dançaram por todo o corpo de Callie quando ela sentiu as palmas calejadas dele acariciando seu abdômen e a parte abaixo dos seios. Sentindo-se como se fosse se

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incendiar de dentro para fora, ela pressionou uma perna na outra num esforço para aliviar o latejamento que ele criara ali. Hunter devia ter percebido que ela estava precisando, pois estendeu a mão para envolvê-la delicadamente, um instante antes de seus dedos a abrirem para acariciar o pequeno ponto de prazer oculto. Ondas de calor a dominaram, e Callie achou que enlouqueceria de desejo. Enchendo de beijos a base do pescoço dela e, em seguida, subindo pela lateral, ele levou os dedos mais para dentro, para acariciá-la internamente. — É aqui que você me quer, Callie? — S-sim. — Agora? — Hunter... por favor. — Só um pouco mais, querida — disse ele enquanto seus implacáveis dedos continuavam a acariciar o íntimo dela. — Eu não... aguento mais. Quando ele afastou a mão, afastou imediatamente as coxas dela com o joelho e se posicionou. Cobriu os lábios de Callie com os dele, e ela fechou os olhos com a maravilhosa sensação da ponta dele contra si um instante antes de senti-lo deslizar lenta e precisamente para dentro. — Olhe para mim, Callie. Quando ela abriu os olhos, o cálido olhar dele se fixou no dela enquanto ele estabelecia um ritmo lento, e Callie logo sentiu seu corpo buscar a doce liberação da tensão que Hunter criara dentro dela. Percebendo que ela se apertava em torno dele, Hunter acelerou suas investidas até que a espiral de desejo dentro de Callie estourasse e ela fosse lançada num reino de intenso prazer. Ela ouviu Hunter chamar seu nome ao mesmo tempo em que o grande corpo dele enrijeceu e estremeceu dentro dela quando encontrou a própria liberação. Envolvendo as largas costas de Hunter com os braços, ela o abraçou junto de si enquanto seu corpo pulsava com uma doce satisfação. Quando os corpos começaram a esfriar, Callie mordeu o lábio inferior para evitar chorar. Fizera o impensável. Resistira a isso desde o instante em que eles tinham se conhecido, mas não havia mais sentido em negar. Ela se apaixonara por Hunter O’Banyon.

CAPÍTULO NOVE

Na manhã seguinte, quando Hunter e Callie entraram na sala de operações, Mary Lou apontou para um pedaço de papel em sua mesa. — Hunter, você recebeu uma mensagem de alguém que tem o sobrenome Barringer. — Ela balançou a cabeça, reprovando. — Ele não quis me dizer qual era o 70


assunto, mas disse que era importante que você ligasse de volta assim que possível. — Ela indicou uma imensa caixa no canto. — E os novos macacões de voo que você encomendou foram entregues ontem à tarde. — Ótimo — disse Callie, indo olhar a caixa. — Mal consigo fechar o meu atual. Reconhecendo o nome do detetive particular que ele contratara, Hunter assentiu. — Enquanto retorno a ligação, por que você e Callie não separam os novos macacões de voo para o tamanho de todos os funcionários? — Ele deu um beijo no rosto de Callie. — Volto daqui a uns minutos para ajudar. As faces dela se coloriram de um profundo rosa, e Hunter achou que nunca a tinha visto tão linda. — Mary Lou e eu cuidamos disso. Vá dar o seu telefonema. — Dá para perceber que vocês são recém-casados — falou Mary Lou, rindo. -Se não aguenta ficar longe dela por tempo suficiente para dar um telefonema, você está caidinho. Hunter não sabia ao certo por que, mas não conseguiu parar de sorrir ao pegar o pedaço de papel com o telefone de Barringer e rumar pelo corredor até seu escritório. Talvez fosse porque o detetive já estivesse ligando tão rápido. Contudo, ele sentia que tinha mais a ver com o fato de ele ter passado a noite mais incrível de sua vida com sua maravilhosa esposa. Callie era a mulher mais sensual e empolgada que ele já conhecera, e Hunter mal podia esperar até o fim do dia, quando o turno deles terminasse e eles pudessem voltar para a casa dela. A menos que fossem chamados para ficar de prontidão, eles teriam quatro dias para retomar a lua de mel, e ele tinha total intenção de aproveitar ao máximo o tempo de folga. O corpo de Hunter se enrijeceu com aquele pensamento, e ele amaldiçoou o fato de que ainda havia 18 horas entre aquele instante e a folga deles. Quando fechou a porta do escritório ao entrar, ele inspirou fundo várias vezes para acalmar sua libido descontrolada. Em seguida, foi até a mesa e discou o número de Barringer. Logo depois de dizer seu nome à secretária do homem, Joe Barringer atendeu. — Descobri várias coisas sobre Culbertson que acho que você vai achar muito interessantes — disse ele sem preâmbulos. — Já tem a minha atenção — falou Hunter, afundando na cadeira. — Craig Culbertson está falido. Perdeu no jogo todo o dinheiro que o avô deixou para ele e parece que começou a tirar dinheiro do fundo que estava reservado para o filho dele. — Mas não são os pais dele que controlam esse dinheiro? — perguntou Hunter. Ele poderia jurar que Callie lhe dissera que os Culbertson tinham adotado o filho de Craig e criado o menino como se fosse deles. — Eram — respondeu Barringer. — Mas havia uma estipulação no testamento do avô dele que dizia que, quando Craig completasse 30 anos, ele receberia o controle desse dinheiro também. — Algo mais? — perguntou Hunter, imaginando como ele poderia usar aquela informação para ajudar Callie. Até então, ele não ouvira nada de útil. — Sim. Parece que foram feitas provisões para futuros filhos.

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Hunter ficou ereto na cadeira. Tinha a sensação de que estava prestes a saber o motivo por trás da ida de Culbertson a Devil’s Fork. — Que tipo de provisões? — Só um segundo. — Barringer pareceu folhear papéis. — Qualquer outro filho que Craig Culbertson venha a ter será dono de um fundo fiduciário de um milhão de dólares e... — Vou adivinhar — falou Hunter. — Culbertson é o administrador. — Exatamente. — O desgosto na voz de Joe Barringer estava evidente. — O avô dele deve ter imaginado que Culbertson plantaria mais sementes por aí. Em vez de deixar para ele a maior parte de seu espólio, o velho estipulou que isso fosse mantido para os futuros herdeiros. — Ele parou, como se estivesse consultando suas anotações. — E Culbertson precisa ter a custódia de cada filho para que o fundo seja passado para o nome do filho em questão. — Isso explica muita coisa — disse Hunter, pensando em voz alta. — Você talvez ache isso interessante. Culbertson tem umas figuras bem esquisitas correndo atrás dele para recuperar as dívidas do jogo. Não sei bem se ele pode esperar até que a srta. Marshall tenha a criança. Ele precisa do dinheiro imediatamente — completou Barringer. — E os pais dele? Culbertson não pode pedir dinheiro a eles? — Para Hunter, aquela seria a escolha óbvia se o homem estivesse tão encrencado. — Basicamente, Harry e Alice Culbertson lavaram as mãos com relação ao filho — falou Barringer. — Já o tinham tirado de enrascadas várias vezes, e, pelo que pude apurar, bateram o pé na última vez e disseram que bastava. Que não pagariam mais nenhuma dívida de jogo. — Em outras palavras, ele está desesperado para conseguir dinheiro e, se for capaz de enrolar os agiotas até que Callie tenha o bebê, ele terá mais um fundo de onde roubar — falou Hunter, balançando a cabeça com a tolice do homem. — É basicamente isso. Se eu descobrir mais alguma coisa, ligo novamente — acrescentou Barringer. — Mas acho que você já tem as informações mais relevantes. Quando Hunter desligou, telefonou imediatamente para o banco, para Luther Freemont, o assistente de Emerald, e, em seguida, para a pousada onde Craig Culbertson estava hospedado. Satisfeito por ter tudo sob controle, assim que o fax da sede da Emerald Inc. chegou, ele saiu do escritório e voltou à sala de operações. — Tenho algumas coisas que preciso resolver — disse ele, envolvendo Callie com os braços. — Quando eu voltar da cidade, preciso contar uma coisa a você. A preocupação marcou a testa dela. — Parece sério. — Nada com que se preocupar, querida. — Sem se importar com o fato de Corey e Mary Lou estarem vendo tudo, ele deu um rápido beijo nela. — Volto assim que puder. — Se precisarmos de você, mandaremos uma mensagem pelo pager — disse Mary Lou, servindo para si uma xícara de seu horrível café. Enquanto Hunter dirigia até Devil’s Fork, mal conseguia conter sua ansiedade para confrontar Culbertson. Ele estava prestes a lhe fazer uma oferta que Culbertson não poderia recusar. E, dali a poucas horas, Hunter esperava que Craig Culbertson já estivesse em seu caminho de volta para Houston, saindo de vez da vida de Callie. 72


— Tenho que admitir que sua exigência para que nos encontrássemos foi uma surpresa, O’Banyon. Sentado numa cabine nos fundos do Longhorn Café, Hunter olhava para o outro lado da mesa, para o ser humano mais desprezível que ele já tivera o desprazer de conhecer. Com uma bela e sofisticada aparência e seu sorriso inocente, Hunter entendia por que as mulheres achavam Craig Culbertson atraente. Hunter, porém, conhecia aquele tipo. Homens como Culbertson usavam seus dotes para ocultar sua verdadeira natureza, e Hunter nunca pensara que iria admitir isso, mas o homem sentado diante dele era ainda mais podre que Owen Larson. Por mais irresponsável que Owen tivesse sido ao engravidar as mulheres e abandoná-las para que fossem mães solteiras, ele nunca usara seus filhos como instrumentos para se safar de uma enrascada. — Vou lhe fazer uma proposta única, Culbertson. E, se você for tão inteligente quanto tenta fazer as pessoas acreditarem que é, vai aceitar. — É mesmo? — A expressão de desdém do homem fez Hunter querer esganá-lo. — Vou fazer um cheque de quinhentos mil dólares, e você vai assinar um documento abrindo mão de todos os direitos com relação ao bebê de Callie. — No momento em que falou de dinheiro, Hunter soube que tinha capturado a atenção do homem. — Você vai embora da cidade e nunca mais incomodará Callie e o filho dela. — O que faz você pensar que posso ser comprado tão facilmente? — perguntou Culbertson sem sequer se dar o trabalho de soar ofendido com as exigências de Hunter. — E quem pode me garantir que, depois que eu assinar o documento, não vou descobrir que seu cheque não tem fundos? — Acredite, o cheque tem fundos. — Curvando-se à frente, Hunter baixou a voz para um ameaçador rosnado. — E, por acaso, sei que, se você não conseguir algum dinheiro bem rápido, sua vida não vai valer nada. Culbertson ficou visivelmente pálido. — Por que diz isso? — É incrível o que um bom detetive particular consegue descobrir, como agiotas perseguindo você pelas suas dívidas no jogo. — De um de seus bolsos, Hunter tirou o fax que ele recebera do departamento jurídico da Emerald Inc. e o empurrou pela mesa. — É um acordo de confidencialidade e custódia. Assine, aceite meu cheque e vá embora da cidade, ou corra o risco de não só perder o fundo que ficaria no nome do bebê de Callie, mas também a sua vida. — Isto é uma ameaça, O’Banyon? Hunter balançou a cabeça. — De jeito nenhum. Apesar de eu ter vontade de destroçar você membro a membro, não vou precisar fazer nada. Seus agiotas vão cuidar disso por mim — Ele levantou a mão para chamar a garçonete. — Vou pedir uma xícara de café. Quando eu terminar, acho bom já ter assinado este documento, ou vou retirar a oferta e você pode se arriscar com os agiotas e o tribunal. Depois que a garçonete chegou com o café de Hunter, Culbertson abriu um convencido sorriso. 73


— Por que eu deveria me contentar com meio milhão? Se eu quisesse, poderia conseguir a custódia do fedelho de Callie num piscar de olhos e acabar com um milhão inteiro à minha disposição. — Eu não contaria com isso. — Hunter sorriu, confiante. — Em primeiro lugar, Callie e eu somos de fato marido e mulher. Isso vai contar muito a favor dela. — Ah, essa é boa — riu Culbertson. — Você é dono de um serviço de ambulância área falido no meio do nada, que tenho certeza de que mal consegue se sustentar, e quer que eu acredite que meus advogados e meu bom amigo, o juiz Howell, prefeririam ver uma criança ser criada por você e por Callie, em vez do estilo de vida que eu posso dar? Hunter deu um gole em seu café e pôs lentamente a xícara de volta no pires. — Você não entende, não é, Culbertson? — O que tem para entender? Posso travar essa batalha no tribunal durante anos e tenho certeza de que Callie não tem dinheiro para isso. — Com uma expressão condescendente, ele balançou a cabeça. — E duvido muito que você tenha. — Você se surpreenderia com o que eu faria com você no tribunal. — Hunter soltou uma ríspida risada. — Além do mais, duvido que seus agiotas vão querer esperar todo esse tempo para começarem a recuperar o dinheiro. Hunter percebeu que Culbertson parara para pensar naquilo. Mas o homem era mais arrogante e convencido do que Hunter imaginava. — E se eu disser que meio milhão não é suficiente? E se eu quiser mais? — É você quem sabe. — Hunter deu um grande gole em seu café. — Mas estou quase terminando o café. Se você não tiver assinado esse papel quando eu acabar, Callie e eu encontraremos você no tribunal. — Ele sorriu. — Quero dizer, se tiver sobrado algo de você até o caso começar a ser julgado. Quando Hunter começou a pegar sua xícara, viu Culbertson olhar de relance para o conteúdo e, em seguida, para o documento diante dele. — E você tem certeza de que o cheque tem fundos? Hunter assentiu. — Eu garanto. — Como vou saber se posso confiar em você? — Vai ter que arriscar — disse Hunter, levantando a xícara. Quase soltou uma gargalhada quando Culbertson pegou rapidamente uma caneta-tinteiro do bolso interno de seu casaco esportivo e assinou às pressas seu nome na linha designada antes que Hunter pudesse tomar o último gole. Empurrando o papel de volta para ele, Culbertson olhou furiosamente enquanto Hunter o dobrava e o punha no bolso. — Agora, onde está o meu dinheiro? Hunter retirou um cheque de um bolso com zíper de seu macacão de voo. Então, antes que pudesse impedir a si mesmo de fazer aquilo, segurou Culbertson pelo colarinho. Puxando-o para a frente até que os narizes se tocassem, ele se certificou de que a ameaça em sua voz fosse inconfundível. — Nunca mais use esse tom de voz quando se referir à minha esposa ou ao nosso bebê. Entendeu?

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— Você a ama de verdade, não? — Sim, amo. — Quando Hunter percebeu o que dissera, soltou o casaco de Culbertson e o empurrou para longe. Então, deslizando para fora da cabine, ele jogou o cheque sobre a mesa. — Agora, dê o fora de Devil’s Fork e não me deixe mais ver você. Ao sair do café e entrar em sua picape, Hunter sentiu o coração martelando com força no peito e precisou se obrigar a respirar. Ele amava Callie. Quando perdera Ellen, jurara nunca mais amar outra mulher e correr o risco de perdê-la. Contudo, por mais que ele gostasse de sua noiva, seus sentimentos por ela não se comparavam à profundidade do que ele sentia por Callie. Nas últimas semanas, ele se sentira mais vivo do que em toda a sua vida e tinha certeza de que, se a perdesse, jamais sobreviveria. Como diabos ele se permitira ficar tão envolvido? Quando aquilo acontecera? E por que ele não percebera? Em algum momento entre aquele louco caminho de carro do campo aéreo, quando ela o buscara no dia em que ele chegara a Devil’s Fork, e o dia anterior, quando eles tinham feito seu juramento matrimonial, ele se desapegara do passado e buscara o futuro. Um futuro com Callie e o filho dela. Entrando com a picape na rua principal, ele balançou a cabeça. Não era tolo o suficiente para achar que, só porque percebera que a amava, eles poderiam fazer tudo dar certo e manter o casamento. No momento em que ele sugerira que eles se casassem, Callie fizera ressalvas demais, talvez até mais que ele. E o único motivo de eles terem se casado, para início de conversa, fora para evitar que Culbertson tirasse o bebê dela. Agora que ele já não era mais uma ameaça, o motivo para que eles ficassem juntos tinha ido embora. Ele inspirou fundo ao virar na pista que levava até o hangar do Resgate Médico Life. Sabia que Callie gostava dele. Sua reação aos beijos dele e a paixão que eles compartilhavam ao fazer amor eram prova disso. Mas ela o amava? Callie lhe dissera que confiava nele, mas isso não significava que ela queria ficar com ele pelo resto da vida. E Hunter se lembrou distintamente de, ela ter lhe dito, no dia em que eles tinham se conhecido, que estava feliz por ser solteira. Também se lembrou de que Callie tinha problemas com qualquer pessoa que tivesse dinheiro. Como ela reagiria quando descobrisse que estava casada com um homem com uma conta bancária multimilionária e que herdaria uma considerável parte da Emerald Inc., a empresa que valia muitos bilhões de dólares e que sua avó paterna construíra do zero? Ao estacionar a picape, sair e caminhar até o hangar, ele não sabia ao certo como as coisas aconteceriam para eles. No entanto, tinha total intenção de descobrir. Diria a Callie o que estava sentindo, explicaria tudo a respeito de si e rezaria para que ela compreendesse e o amasse mesmo assim — Eu ia mandar uma mensagem para você neste exato instante pelo pager — falou Mary Lou, pondo o fone no gancho. — Houve um acidente no rancho dos Thompson, e eles precisam de nós lá o mais rápido possível — acrescentou Callie ao passar rapidamente por ela, saindo pela porta. — Onde está Corey? — perguntou ele, seguindo-a. — Bem aqui, chefe — gritou Corey, correndo atrás deles. Quando estavam todos com o cinto de segurança preso, Hunter decolou com o 75


helicóptero. Não estava feliz por ter que adiar sua conversa com Callie, mas não havia como evitar aquilo. Havia uma vítima de acidente dependendo deles, e isso era mais importante que as questões do coração.

Depois de estabilizar a fratura exposta na perna de Carl Thompson e transportá-lo até o hospital em El Paso, Callie estava mais do que pronta para voltar para a base. Ela e Corey tinham precisado se esforçar loucamente para convencer o homem de que ele não estava passeando e não podia se sentar para olhar pela janela durante o voo de trinta minutos. — Espero que o velho Carl não se acostume a se acidentar demais — disse Corey quando voltaram para o helicóptero. Callie assentiu. — Se tivéssemos demorado mais para chegar até aqui, eu teria me comunicado com um médico via rádio para pedir uma prescrição de sedativo para ele. — Bem, isso é algo que você não vai precisar me dar — disse Corey, tirando seu fone de ouvido e se acomodando em seu assento. — Pretendo tirar um cochilo no voo de volta. Quando Corey fechou os olhos e ficou em silêncio, Callie voltou sua atenção para Hunter. Enquanto ela observava, ele pôs seu fone e mexeu nos interruptores do painel de controle. O coração dela palpitou, e ela precisou lembrar a si mesma de respirar. Mesmo que vivesse até os 100 anos, ela achava que jamais veria um homem tão sexy quanto Hunter de macacão de voo e óculos escuros estilo aviador. Por outro lado, pensou, ele ficava sexy vestindo qualquer coisa, ou nada. Callie inspirou fundo. Por mais que ela tentasse resistir a seu amor por ele, Hunter conseguiu vencer as defesas dela e preencher um vazio em sua vida que ela nem sequer soubera que existia. Infelizmente, isso não significava que eles pudessem ter um futuro juntos. Ele deixara bem claro que só estava se casando com ela para ajudar a manter a custódia de seu filho e que, assim que a ameaça de Craig terminasse, o casamento deles também terminaria. Além do mais, fingir ter um casamento feliz e ficar na expectativa do nascimento de um filho eram uma coisa. Aceitar permanentemente o papel de marido amoroso e pai ansioso era algo completamente diferente. Callie sentiu um aperto no peito ao pensar em sua vida sem Hunter. Ela não queria pensar na possibilidade de não ver o lindo rosto dele todos os dias, de não ouvir sua risada nem sentir o calor de seu toque. Entretanto, ela teria coragem de lhe dizer o que sentia, que queria continuar casada mesmo depois de seus problemas atuais serem resolvidos? — Droga! — O veemente resmungo de Hunter vindo pelo fone dela interrompeu sua atormentadora introspecção. — O que houve? — Tem um mau tempo chegando aí, e não estou gostando dele — disse Hunter, apontando para um aglomerado de nuvens. Enquanto ela o ouvia se comunicar pelo rádio para obter a previsão do tempo da torre de comando no aeroporto de El Paso, Callie ficou aliviada ao ouvir que a tempestade estava se afastando deles. Nunca tivera um medo exagerado de turbulência em aviões, 76


mas não sabia ao certo se queria vivenciar aquilo dentro de um helicóptero. — Parece que vamos ficar bem — disse ele, decolando do heliponto e guiando o helicóptero de volta para Devil’s Fork. — Você resolveu o que tinha para fazer hoje de manhã? — perguntou ela casualmente. Ele assentiu. — Quando voltarmos à base, precisamos discutir umas coisas. — Isso parece bem ameaçador. — Pelo tom sério da voz dele, Callie não sabia ao certo se queria ouvir o que Hunter tinha a dizer. — Não se preocupe, querida. Não é tão ruim quanto parece. O carinho dele a reconfortou, e eles voaram num agradável silêncio durante algum tempo antes de Hunter soltar uma série de palavrões, terminando com uma palavra que a maioria dos homens reservava para circunstâncias extremas. — Estou até com medo de perguntar, mas por que isso? — perguntou ela. — Os ventos mudaram e estamos prestes a entrar no meio daquela frente fria — disse ele quando uma rajada de vento atingiu o helicóptero. Enquanto Hunter lutava com o controle, Callie apertou seu arnês de ombro e se esforçou ao máximo para não gritar quando eles balançaram precariamente. Rezando para que estivessem perto da base, ela sentiu seu coração afundar quando olhou pela janela lateral e viu os picos escarpados das montanhas. — Espero que eu consiga encontrar um lugar para pousar — falou Hunter enquanto continuava a lutar com os controles. — Precisamos esperar isto passar no solo. — Parece uma boa ideia — concordou ela prontamente. Olhando de relance para Corey, ela não conseguiu acreditar que ele ainda estivesse dormindo. Não era de se admirar que Mary Lou reclamasse toda vez que tentava acordá-lo quando a equipe tinha um chamado noturno para atender. — Isso vai ser arriscado — disse Hunter, falando como se seus dentes estivessem cerrados. — Quero que você e Corey se segurem bem. Ela apertou as laterais do assento. — Não sei como, mas Corey continua dormindo. — Ele está com arnês de ombro preso? — Sim, mas desconectou o fone. — Tudo bem — disse Hunter tensamente. — Só importa que ele esteja preso. Callie sentiu seu coração na garganta. Conhecia o suficiente a respeito de helicópteros para saber que pousar numa área montanhosa era algo traiçoeiro na melhor das hipóteses. Contudo, durante uma tempestade com fortes rajadas de vento, seria extremamente perigoso. Ela sentiu o helicóptero dar uma súbita guinada para o lado e, fechando os olhos, rezou enquanto esperava o que aconteceria em seguida.

Quando Hunter avistou uma área relativamente nivelada na base de uma das 77


montanhas, cerrou os dentes e usou toda a sua força para manter o máximo de estabilidade possível no helicóptero. Rápidas imagens de outro pouso de emergência e do devastador resultado lampejaram em sua mente. Essa vez, porém, seria diferente. Ele estava determinado a garantir a segurança da mulher que ele amava e do filho em seu ventre. Quando o trem de pouso bateu com força no solo e quicou para descer novamente com um baque horripilante, Hunter desligou o rotor e soltou seu arnês de ombro. Fazendo uma silenciosa prece de agradecimento pelo pouso seguro, ainda que turbulento, ele saiu da área da cabine para verificar seus passageiros. Tomando Callie nos braços, ele a segurou junto a si. — Você está bem? Ela se agarrou a ele enquanto assentia. — S-sim. Virando-se para Corey, Hunter perguntou: — E você? Tudo bem? Pálido como um fantasma e de olhos arregalados de choque, o jovem assentiu. — Uau! Que pouso cabeludo! Onde estamos? Hunter olhou pelas janelas para as montanhas que os cercavam. — Mais ou menos na metade do caminho entre El Paso e Devil’s Fork. O pico de adrenalina que o dominara desde que ele percebera que estavam em curso de colisão com a tempestade começou a se dissipar, e Hunter sentiu seus músculos se transformarem em gelatina. Segurando o rádio que ficava no ombro do macacão de voo de Callie, ele comunicou a situação a Mary Lou. Em seguida, depois de garantir a ela que todos estavam bem, ele lhe disse que voltariam assim que a tempestade cessasse. Incapaz de parar de pensar em quão perto ele chegara de reviver o pesadelo no qual ficara preso cinco anos antes e sem querer que Callie visse que suas mãos estavam começando a tremer, Hunter inventou uma tosca desculpa, dizendo que faria uma verificação nos sistemas, e voltou para a cabine do piloto. Ele estava vagamente ciente de que Callie e Corey estavam discutindo os hábitos de sono de Corey, mas Hunter prestou pouca atenção à conversa. Estava ocupado demais pensando no que poderia ter acontecido se ele não tivesse sido capaz de pousar o helicóptero em segurança. O que faria se tivesse perdido Callie como perdera Ellen? Como conseguiria conviver consigo mesmo? Hunter respirou fundo. A resposta era simples. Ele não conseguiria. E, com uma repentina epifania, ele soube exatamente o que precisava fazer. Assim que eles retornassem ao hangar, ele entregaria a Callie o documento que Culbertson assinara, diria que ela estava livre para dar entrada na anulação e rescindiria o contrato dela com o Resgate Médico Life.

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CAPÍTULO DEZ

Quando ela Hunter e Corey retornaram ao hangar, já estava no fim do turno deles, e Callie estava mais do que pronta para passá-lo à equipe Resgate II e ir para casa. Seus nervos ainda estavam abalados por ela ter escapado por pouco de um acidente aéreo, e precisava conversar com Hunter. Ele não dissera mais do que um punhado de palavras desde o incidente, e ela sabia que ele estava incomodado com alguma coisa. Bem, sendo assim, eles eram dois. Enquanto esperavam a tempestade passar, Corey conversara sobre tudo, desde sua dificuldade de acordar até a gravidez de sua namorada e o iminente casamento, mas Callie não prestara muita atenção. Estivera ocupada demais pensando em seu bebê e em como ela quase o perdera. — Tenho algumas coisas para resolver aqui no escritório — disse Hunter, chegando por trás dela. — Se não se importar, eu vou mais tarde. Quando Callie se virou para ele, seu sorriso desapareceu com a séria expressão dele. — Algum problema? Hunter hesitou antes de balançar a cabeça. — Não. Só não estou ansioso para fazer o trabalho burocrático que tenho que fazer. — Deixamos meu carro aqui ontem à noite, e preciso levá-lo para casa mesmo. Vejo você daqui a mais ou menos uma hora. — Quando ele fez um curto movimento de cabeça para ela e começou a se virar para voltar para o seu escritório, Callie perguntou: — O que vai querer para o jantar? — Não se preocupe comigo. Não estou com fome. — Então, sem dizer mais nada, ele desapareceu pelo corredor. Ela só o conhecia fazia duas semanas, mas isso não importava. Na mente de Callie, não havia dúvidas de que havia algo terrivelmente errado, e tinha plena intenção de descobrir o quê. Entretanto, um hangar cheio de gente não era o melhor lugar para uma conversa pessoal com seu marido, e Callie concluiu que seria melhor esperar. Quando Hunter chegasse, ela descobriria o que o estava incomodando e lhe daria a notícia. Ela satisfaria o pedido dele e ficaria em terra, ao menos até seu filho nascer. E, a menos que ela mudasse de ideia, havia uma grande possibilidade de que ela desistisse permanentemente de ser uma enfermeira de voo. Enquanto dirigia pela curta distância até sua casa, ela pôs a mão em sua redonda barriga. Sabia que Hunter precisaria de algum tempo para encontrar uma substituta para ela, mas isso era algo impossível de se evitar. Ela se demitiria imediatamente de seu cargo no Resgate Médico Life para se concentrar em ser mãe e estar presente para seu filho.

Estacionando sua picape na entrada da garagem de Callie, Hunter ficou sentado 79


durante vários minutos, olhando fixamente para a pequena casa dela. Nas últimas duas semanas, ele ficara mais feliz visitando o pequeno e aconchegante chalé do que em cinco longos anos, e o despedaçava pensar que, depois daquela noite, ele não seria mais bemvindo ali. Contudo, o que ele estava prestes a fazer seria o melhor para todos os envolvidos, e Hunter sabia que Callie acabaria entendendo isso. E, ainda que ela não entendesse, ele ao menos conseguiria dormir à noite sabendo que fizera tudo em seu poder para proteger tanto ela quanto o bebê. Ao sair da picape, ele segurou com força a pasta que continha os documentos que estava prestes a entregar a ela e subiu lentamente os degraus para bater na porta. Assim que acabasse com aquilo, tinha total intenção de pegar o carro e ir até um lugar que ele encontrara alguns dias antes, depois de chegar a Devil’s Fork, onde poderia ficar olhando as estrelas. Se passasse um bom tempo lá, talvez conseguisse fazer as pazes com o fato de que, para proteger a mulher e a criança que ele amava com todo o seu coração, ele precisava abrir mão delas. — Por que você bateu? — perguntou Callie quando abriu a porta e recuou para que ele entrasse. — Por que simplesmente não entrou? Parada ali, com seu sedoso cabelo louro caindo em torno dos ombros, sua blusa azul suja de farinha e o sorriso mais bonito que ele já vira, ela estava fazendo o coração de Hunter se contorcer dolorosamente dentro do peito e sequer sabia disso. Passando por ela e entrando na sala de estar, Hunter esperou que Callie fechasse a porta e, em seguida, virou-se para ela. — Precisamos conversar. O sorriso dela desapareceu. — Isso tem algo a ver com o que aconteceu hoje à tarde? Porque, se tiver... — Tivemos muita sorte hoje à tarde — disse ele, interrompendo-a. Não fora sua intenção soar tão ríspido, mas ele estava usando todas as suas forças para não tomá-la nos braços e abandonar o curso de ação que ele sabia que precisava tomar. — Hunter? Ela levantou a mão e deu um passo na direção dele, mas, balançando a cabeça, ele se afastou. Hunter sabia sem a menor dúvida que, se ela o tocasse, ele perderia a batalha interna. E aquela era uma batalha que ele sabia que precisava vencer. — Acho que é melhor você se sentar para isso — disse ele, temperando o tom de voz. Afundando no sofá de dois lugares, Callie o observou com olhos atormentados. — Você está começando a me deixar com medo. — Não é a minha intenção. — Ele inspirou fundo e abriu a pasta em sua mão para retirar o documento que Culbertson assinara mais cedo naquele dia. Entregando-o a ela, Hunter explicou o que ficara sabendo por intermédio do detetive particular e falou de seu encontro com Culbertson. — Craig Culbertson não vai mais entrar em contato com você. Ele voltou para Houston e não vai mais incomodar nem você nem o seu filho. Incrédula, ela o olhou. — Você pagou para que ele fosse embora? Hunter deu de ombros.

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— Acho que podemos dizer que sim. — Meu Deus, não posso deixar você fazer isso. É uma quantia exorbitante. — Tarde demais, querida. Já está feito. Olhando fixamente para o documento durante vários segundos, quando Callie ergueu o olhar para ele, balançou a cabeça. — Você pode se dar o luxo de gastar esse dinheiro, e eu não tenho como pagar a você. — Não estou pedindo que pague — disse ele firmemente. — Considere isso um presente para o bebê. — Um presente para o bebê é um conjunto de babadores ou uma cadeirinha. Definitivamente, nada tão extravagante quanto meio milhão de dólares para fazer alguém me deixar em paz. — Não se preocupe com isso. Eu não estou me preocupando. — Hunter, por favor. Quando ela começou a se levantar do sofá, ele balançou a cabeça. — Ainda não terminei. Agora que a ameaça de Culbertson já terminou, você está livre para dar entrada no pedido de anulação. Ela inspirou rispidamente. — É isso que você quer? Era a última coisa que ele queria, mas não podia dizer aquilo a ela. — Creio que tenha sido nosso acordo. Levantando-se, ela foi até ele. — Você não respondeu à minha pergunta. — O que eu quero não importa. — Ele lhe entregou a pasta. — Depois de dar uma olhada nisto, tenho certeza de que vai concordar que a anulação será o melhor. Quando ela analisou os documentos de rescisão de contrato que ele elaborara e o cheque que continha um ano de salários dela, Callie o olhou, furiosa. — Por que estou sendo demitida? E por que você está me dando tanto dinheiro? — Porque é o único jeito de impedir você de voar. Tem dinheiro suficiente para pagar pelo parto e passar vários meses em casa com seu filho. — Ele sabia que ela não ficaria feliz, mas aquilo não poderia ser evitado. Era para o bem dela e a paz de espírito dele. — Isso não vai me impedir de voar — disse ela, jogando tudo sobre a mesa de centro. — Sou uma enfermeira de voo experiente. Se eu quisesse, poderia conseguir um emprego em outro serviço de ambulância aérea. Mas decidi. — É melhor não fazer isso. — Antes que ele pudesse evitar, estendeu as mãos para segurar os braços dela. — O que aconteceu hoje foi só um vislumbre do que pode acontecer toda vez que você entrar num helicóptero para atender a um chamado de emergência. Prometa que vai encontrar um emprego em algum hospital. — Hunter, por que... você está... fazendo isto comigo? — perguntou ela de forma interrupta. Ele fechou os olhos por um instante e, quando os abriu, as lágrimas nas faces de 81


porcelana de Callie fizeram uma lancinante dor perfurá-lo, ameaçando derrubá-lo de joelhos. Ele não gostava de falar sobre o acidente, mas precisava fazer com que ela entendesse por que ele não suportava a ideia de ela voar. — Cinco anos atrás, eu estava no comando de um helicóptero que caiu na América Central. Foi um problema mecânico e não havia nada que eu pudesse fazer para impedir a queda. Naquele dia, perdi minha noiva e o filho que estava na barriga dela. — Envolvendo Callie com os braços, ele a puxou para si. — Não posso e não quero deixar isso acontecer com você. — Foi por isso que você quis que eu ficasse em terra desde o dia em que chegou aqui. Incapaz de fazer as palavras vencerem a sensação de algodão que forrava sua garganta, ele assentiu. Inclinando o corpo para trás, ela o olhou. — Por que, Hunter? Por que você não pode deixar isso acontecer outra vez? — Porque amo você, droga. — Percebendo o que dissera, ele a soltou imediatamente, recuou e, levantando as mãos, massageou a tensão que se acumulava em sua nuca. — Quando você puder, passe no hangar e pegue as coisas do seu armário. — Já terminou de me dizer o que você veio dizer? Esperando que ela exigisse que ele fosse embora, Hunter começou a ir para a porta. — Sim — Ótimo. — Ela foi até Hunter e pôs o dedo indicador no peito dele. — Agora, você vai me ouvir. — Não vou mudar de ideia. Os olhos violeta de Callie reluziam de raiva. — Não me importo. Você disse o que queria, e eu vou dizer o que quero. Ele achou que era justo, porém isso não tornou mais fácil ficar ali, querendo abraçá-la e sabendo que não podia fazer isso. — Certo. Seja rápida. — Em primeiro lugar, vou demorar quanto eu quiser para dizer o que penso. E, em segundo, você precisa parar de ser tão mandão e aprender a ouvir. — Ela gesticulou uma delicada mão, indicando a porta. — Desde o minuto em que entrou aqui, estou tentando lhe dizer uma coisa, mas você não me deixou dizer nem uma palavra. — Não vejo como isso vá fazer diferença. Ela cruzou os braços e bateu o pé descalço no chão. — Por que não se senta e ouve antes de começar a tirar conclusões? Ele balançou a cabeça. — Não acho que... — Vá se sentar! Baixando seu corpo para a poltrona, ele ergueu o olhar para ela. Callie estava bufando, e Hunter achou que nunca a tinha visto tão linda. Por outro lado, quando um homem amava uma mulher do jeito que ele amava Callie, não havia sequer um instante 82


em que ela não lhe parecesse linda. — Se tivesse me deixado falar antes, eu podia ter poupado a nós dois de toda essa angústia. — De pé diante dele, Callie pôs as mãos nos quadris. — Eu ia dizer que, depois do que aconteceu hoje, percebi que não quero mais ser enfermeira de voo. Então você pode pegar esse seu aviso de demissão e seu cheque e enfiá-los onde a luz do sol não alcança. Sentindo-se como se um grande peso lhe tivesse sido subitamente tirado dos ombros, ele ficou um pouco mais ereto na poltrona. — Não quer mais voar? — Não, não quero. — Ela levou a mão à barriga. — O que aconteceu hoje me fez lembrar o que é importante. Hunter não conseguia acreditar na intensidade do alívio que o percorreu. — Você não faz ideia de como estou feliz por ouvir isso. — E tem mais. — Ela começou a andar de um lado para o outro. — O que dá a você o direito de me dizer o que eu devo fazer com o nosso casamento? Chegou a lhe ocorrer que talvez eu não queira uma anulação? Hunter não conseguia acreditar que ela pudesse querer o mesmo que ele: tentar fazer o casamento deles dar certo. Quase temendo ter esperanças, ele perguntou com cautela: — Você não quer? — Não. Uma anulação é a última coisa que quero. — Ela balançou a cabeça. — Se bem que, no momento, estou questionando minha sanidade e o motivo de eu amar tanto você, seu lerdo. Hunter não conseguiria ter permanecido naquela poltrona nem se sua vida dependesse disso. Ficando de pé com um salto, ele a tomou nos braços e a segurou junto a si. — Graças a Deus! — Dando-lhe um beijo que deixou os dois arfando, ao levantar a cabeça, Hunter se sentiu como se sua alma tivesse sido libertada com o amor que ele viu brilhando nos belos olhos de Callie. — Quero viver o resto da minha vida com você, querida. — Ele pôs a palma da mão sobre a barriga arredondada dela. — E, se você concordar, quero ser um pai para o seu bebê. — Eu gostaria muito disso. — Lágrimas encheram os olhos de Callie quando ela levantou a mão para tocar o fino rosto dele. Quando ela chegara a Devil’s Fork, não fazia ideia de que, ao fugir do passado, encontraria seu futuro e o futuro de seu filho. — Você é um homem especial, Hunter O’Banyon. — Não sei se sou, mas prometo que vou ser o melhor marido e o melhor pai que eu puder — disse ele, beijando-a. — E a primeira coisa que vou fazer pela minha nova família é acrescentar alguns cômodos à casa. — Ele deu pequenos beijos mordiscados no espaço abaixo da orelha dela. — Ou, se você quiser, posso construir uma nova casa para nós, com muitos quartos para bebês e quartos de hóspedes para as visitas das vovós. — Temos dinheiro para algo assim? — Trêmula de desejo, ela fechou os olhos quando Hunter envolveu um dos seios com a mão para provocar o mamilo enrijecido através do tecido da camisa de Callie. — Você precisou gastar muito dinheiro para se livrar de Craig.

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Quando a mão dele ficou imóvel, Callie abriu os olhos para olhá-lo. — O que foi? — Tem mais uma coisa que você não sabe a meu respeito — falou ele, parecendo um pouco desconfortável. — Você hipotecou o Resgate Médico Life para dar o dinheiro a Craig — imaginou ela, detestando o fato de ele ter posto sua empresa em jogo por ela. — Não se preocupe. Sou uma enfermeira profissional registrada. Depois que o bebê nascer, vou ver se consigo outro emprego. — Isso não vai ser ne... — Prometo que vou garantir que o emprego seja em terra — jurou ela apressadamente. — Mas, querida... — Talvez tenha um cargo de enfermeira itinerante na secretaria de saúde da cidade. De qualquer forma, vou poder ajudar a pagar os empréstimos e posso poupar em algumas áreas e. A profunda risada dele lançou uma onda de calor diretamente para o íntimo de Callie quando Hunter pôs a mão sobre sua boca. — Agora, qual de nós dois não está deixando o outro dizer nem uma palavra? Brincando, ela tocou a ponta da língua na palma dele e viu os olhos de Hunter escurecerem — Amo você — murmurou ela, roçando seus lábios na pele calejada dele. Hunter estremeceu contra ela um instante antes de afastar a mão. — Também amo você, Callie. — A expressão dele ficou séria. — Mas tem outra coisa que preciso contar a meu respeito. O coração dela quase parou com a apreensão que ela detectou na voz dele. — O que foi? — Você lembra que eu disse que só fiquei sabendo quem era o meu pai há alguns meses e que a família dele tinha dinheiro? Ela assentiu. — Foi quando você descobriu que tinha dois irmãos e soube do motivo que a sua avó teve para manter a identidade do seu pai em segredo. — Certo. — O largo peito dele subiu e desceu contra os seios dela quando Hunter inspirou fundo, e Callie percebeu que ele estava relutante em dizer mais. — Não pode ser tão ruim assim. Ele balançou a cabeça. — A maioria das pessoas não acharia ruim, mas talvez você pense diferente. — Por que diz isso? Ele balançou a cabeça. — Porque você não gosta muito de gente rica. — Ele abriu um envergonhado sorriso para ela. — Querida, sou rico. — Ele balançou a cabeça. — Na verdade, não sou só rico, sou podre de rico. 84


— Você é o quê? — A possibilidade de que Hunter fosse rico não estava entre todas as coisas que tinham passado pela cabeça de Callie. Ele certamente não agia como as pessoas ricas que ela conhecia. — Quando minha avó finalmente contou a mim e a meus irmãos quem era nosso pai, ela também nos informou que cada um de nós tem um fundo fiduciário de vários milhões de dólares e que, um dia, herdaremos parte de uma empresa multibilionária. O queixo de Callie caiu, e ela não conseguia dizer uma sequência de duas palavras sequer. Quando finalmente encontrou sua voz, perguntou: — Quem é a sua avó? Ele sorriu. — Emerald Larson. — A Emerald Larson? — A primeira e única — disse ele, assentindo. — Espero que você não fique com raiva de mim por isso. Ela balançou a cabeça. — Não acredito. Quero dizer, você nunca agiu de um jeito diferente das outras pessoas, e eu não fazia ideia. Ele silenciou a tagarelice dela com um beijo e, quando Hunter levantou a cabeça, Callie já não dava a mínima para quanto dinheiro ele tinha ou para quem era a avó dele. Tudo que importava era que o homem que ela amava mais do que tudo na vida a abraçava junto a si. — Hunter, não me importo com o dinheiro que você tem, ou se você não tem dinheiro nenhum. Amo você, e isso é tudo que interessa. — E eu amo você. Nunca duvide disso. — O sorriso a aqueceu da cabeça às pontas de seus pés descalços. — A propósito, o que você planejou fazer no fim do mês que vem? — O mesmo que planejei para o resto da minha vida: amar você. — Com o nariz, ele acariciou a lateral do pescoço dela, enviando calafrios de deleite por todo o corpo de Callie. — Por quê? Quando ela beijou a forte coluna do pescoço dele, Hunter grunhiu e a ergueu nos braços. — Não importa. No momento, não consigo pensar em nada além de levar você para o quarto e começar o resto das nossas vidas. — Gosto do seu jeito de pensar, piloto. — Envolvendo os largos ombros dele com seus braços, Callie sussurrou no ouvido de Hunter enquanto ele a carregava para o quarto: — Amo você, Hunter. — E eu amo você, Callie. — Baixando-a delicadamente na cama, ele se deitou ao lado dela e a puxou para os braços. — E pretendo passar o resto da minha vida mostrando isso a você.

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EPÍLOGO

Enquanto Emerald Larson observava seu três netos e suas esposas circulando em meio aos convidados do jantar que ela organizara em homenagem a eles, parabenizou-se mentalmente por ter feito um bom trabalho. Escolhera especificamente as empresas que dera a cada um deles para administrar e providenciara para que conhecessem as mulheres que ela sabia que seriam perfeitas para eles. Emerald não tinha como estar mais satisfeita com os resultados de seus esforços. Olhando de relance para seu neto mais novo, Caleb, ela sorriu, feliz. Ele se revelara um gênio com sua inovadora e criativa abordagem à administração e não apenas melhorara o moral dos funcionários da Skerritt & Crowe Consultores Financeiros, mas também aumentara a produtividade em 50 por cento em poucos meses. Junto com a esposa, Alyssa, ele estava criando uma sólida reputação como uma força a ser batida no mundo das finanças. Voltando sua atenção para o neto do meio, ela se sentiu orgulhosíssima. Depois de seu retorno ao Rancho Sugar Creek, Nick não apenas recuperara seu direito de nascença, mas também enfrentara de forma corajosa seu arqui-inimigo e encontrara a vingança depois de 13 longos anos. Com a ajuda de sua esposa, Cheyenne, Emerald não tinha dúvidas de que os planos dele de transformar a companhia de gado numa operação orgânica seria um completo sucesso. E, na primavera, quando o primeiro filho deles nascesse, finalmente realizariam o sonho de criar uma família naquela grande e charmosa casa de rancho sob o amplo céu do Wyoming. Quando o olhar dela repousou sobre Hunter, seu neto mais velho, Emerald suspirou, contente. Fora com ele que ela mais se preocupara. Depois de perder sua noiva e o filho no ventre dela, Hunter desistira de pilotar os helicópteros que ele amava e construíra uma muralha em torno de seu coração, uma barreira que Emerald temera que jamais fosse derrubada. Contudo, quando ele chegara para assumir a administração do Serviço de Resgate Médico Life, não só havia recuperado seu amor por voar, mas também conhecera Callie, uma jovem grávida cujo amor o ajudara a se desapegar do passado e curara seu coração ferido. — Pediu que me chamassem, sra. Larson? — perguntou Luther Freemont chegando ao lado dela. Como assistente pessoal dela, Luther era altamente eficiente, e sua lealdade era sem igual. Contudo, como homem, ele era a pessoa mais formal que ela já conhecera. — Quero agradecer por ter me ajudado a atingir meu objetivo — disse ela, continuando a observar seus netos e as esposas deles. — Nossos esforços deram muito certo, não acha? — Eu diria que foram um retumbante sucesso — concordou Luther. — Gostei de ver meus netos provarem sua competência nos negócios que lhes dei para administrar e de vê-los encontrar o amor da vida deles. — Ela suspirou. — É uma pena que eu não tenha outros netos. Emerald perdeu o fôlego e seu humor melhorou consideravelmente quando Luther abriu um de seus raros sorrisos. — Bem, já que a senhora tocou no assunto... 86

Amor Total  

Kathie Denosky- Volume 03 - Herdeiros da Paixão - Este arquivo não pode ser comercializado. Não tenho ganho financeiro com a publicação dest...

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