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UmaVidaSecreta (A Dark Sicilian Secret)

JanePorter

Ela poderia fugir... Porém não se esconder! Vittorio D’severano fora tudo o que Jillian Smith sempre desejara até ela descobrir a vida secreta dele... E ver seus sonhos de "felizes para sempre" virarem pó. Com o coração partido, ela desapareceu. Mas Vittorio descobriu seu paradeiro, e surgiu de novo em sua vida para reivindicar o filho pequeno que Jillian jurara manter afastado dele! Mas para ficar com a criança, ela teria que voltar para Vittorio. O que poderia acontecer com um relacionamento construído sobre segredos e um desejo impossível de resistir?

Digitalização:Vicky Revisão:BrunaCardoso


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter

Querida leitora, Nesta edição de Harlequin Jéssica, embarque nos mistérios que o amor pode trazer! Em Uma vida secreta, de Jane Porter, o que Jillian deveria fazer após se ver envolvida numa teia de mentiras? Afinal, ela escondera um segredo de Vittorio, mas ele foi além nessa espécie de competição um tanto sórdida... Será que sonhos que viraram pesadelos poderiam voltar a serem sonhos? Em A bela viúva, de Helen Brooks, o luto de Toni George se transformou em luta quando ela se viu tendo que criar gêmeas pequeninas e, ao mesmo tempo, tendo que procurar um modo de quitar as dívidas de jogo do falecido marido. No meio desse turbilhão, ela vai trabalhar com Steel Landry. O que poderá acontecer? Equipe Editorial Harlequin Books

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Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter TUDO POR AMOR Tradução: Maurício Araripe Harlequin 2011 PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: A DARK SICILIAN SECRET Copyright © 2011 by Jane Porter Originalmente publicado em 2011 por Mills & Boon Modern Romance Título original: THE BEAUTIFUL WIDOW Copyright © 2011 by Helen Brooks Originalmente publicado em 2011 por Mills & Boon Modern Romance Arte-final de capa: núcleo-i designers associados Editoração Eletrônica: ABREU'S SYSTEM Tel.: (55 XX 21) 2220-3654 / 2524-8037 Impressão: RR DONNELLEY Tel.: (55 XX 11)2148-3500 www.rrdonnelley.com.br Distribuição exclusiva para bancas de jornal e revistas de todo o Brasil: Fernando Chinaglia Distribuidora S/A Rua Teodoro da Silva, 907 Grajaú, Rico de Janeiro, RJ — 20563-900 Para solicitar edições antigas, entre em contato com o DISK BANCAS: (55 XX 11) 2195-3186 / 2195-3185 / 2195-3182 Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4° andar São Cristóvão, Rico de Janeiro, RJ — 20921-380 Correspondência para: Caixa Postal 8516 Rico de Janeiro, RJ — 20220-971 Aos cuidados de Virginia Rivera virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

Jane Porter UMA VIDA SECRETA (A Dark Sicilian Secret) Tradução Maurício Araripe

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CapítuloUm Finalmente. Jillian Smith inspirou profundamente, ao caminhar ao longo do despenhadeiro acidentado, que dava vista para o tempestuoso Oceano Pacífico, deliciando-se com o ar fresco, a paisagem espetacular, e um raro instante de liberdade. As coisas definitivamente pareciam estar melhorando. Já fazia mais de nove meses que não via os homens de Vittorio e, estava certa de que, se tomasse cuidado, eles jamais a encontrariam ali, naquela pequena e reservada cidade costeira, apenas alguns quilômetros de Carmel, na Califórnia. Para começo de conversa, ela não usava mais o seu nome, Jillian Smith. Possuía uma nova identidade, April Holiday, e um novo visual, loura e bronzeada, como se fosse nativa da Califórnia em vez de uma bela morena de Detroit. Não que Vitt soubesse que ela era de Detroit. Nem poderia saber. Era vital que ela mantivesse Vittorio, o pai de seu bebê, o mais longe possível de si. Ele era tão perigoso. Uma grande ameaça para ela, Joe e tudo que ela prezava. Jillian o amara, chegara perto de imaginar um futuro com ele, apenas para descobrir que ele não era um herói, não era um cavalheiro em reluzente armadura, mas um homem como seu próprio pai. Um homem que fizera a fortuna com o crime organizado. Sentindo-se ficar tensa, Jillian esforçou-se para relaxar. Não havia motivo para ter medo. O perigo ficara para trás. Vitt não sabe onde você está. Ele não pode lhe tirar o bebê. Você está segura. Tudo vai ficar bem. Ela se deteve para admirar o mar, que parecia zangado, quase inconsolável, e, por um instante, sentiu-se da mesma maneira. Amara Vitt. Talvez houvessem passado apenas duas semanas juntos, mas, naquelas duas semanas, imaginara uma vida com ele. Imaginara tantas possibilidades. Contudo, então, a verdade viera à tona. Ele não era um herói, mas um aterrorizante vilão. As primeiras gotas de chuva começaram a cair, e ela afastou o cabelo do rosto, determinada a deixar o passado para trás e se concentrar no presente, assim como no futuro de Joe. E Joe teria um grande futuro. Ela se certificaria de que ele tivesse tudo que ela jamais tivera estabilidade, segurança e um lar feliz. Já encontrara uma adorável casa para alugar em uma tranqüila rua sem saída no final da estrada. Conseguira um trabalho fantástico no Highlands Inn, um dos melhores hotéis da costa da Califórnia, auxiliando-os com vendas e publicidade. E, melhor de tudo, encontrara a maravilhosa Hannah para cuidar de seu filho, de modo que pudesse trabalhar. Ela estava com Joe agora. Ela não pôde deixar de sorrir para o oceano e para o horizonte infinito, imaginando as possibilidades da vida. 4


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Pensando em pular, Jill? — disse uma grave voz masculina atrás dela. Reconhecendo o sotaque suave, seu sorriso desapareceu, e ela ficou paralisada. Vittorio. Fazia quase um ano desde a última vez em que escutara aquela voz, mas era impossível esquecer-se de Vitt. Vittorio Marcello D’severano era uma força da natureza, um ser humano capaz de, ao mesmo tempo, despertar medo e admiração nas pessoas. — Há outras soluções — ele acrescentou, falando tão baixinho que Jillian estremeceu e deu um passo nervoso para longe dele. Justamente quando estava se sentindo segura. Justamente quando pensara que estavam a salvo. Inacreditável. Impossível. — Nenhuma que eu consideraria aceitável — ela respondeu, sem emoção na voz, virando-se ligeiramente, mas evitando fitá-lo diretamente no rosto. Vittorio era como um mágico, um verdadeiro encantador de serpentes. Precisava apenas sorrir para conseguir que os outros fizessem o que quisesse. Ele era tão bonito assim. Tão poderoso assim. — É só isso que tem para me dizer após todos esses meses brincando de gato e rato? A chuva começou a cair com mais intensidade, encharcando o suéter de Jillian. — Acho que já foi dito tudo. Não consigo pensar em nada que possa ter esquecido — ela retrucou, erguendo o queixo em sinal de desafio, apesar das pernas trêmulas. Vittorio era apenas um homem, no entanto, se tivesse a chance, ele poderia e destruiria o mundo dela. E ninguém o impediria. — Eu consigo. Deixe-me sugerir que inicie com um pedido de desculpas — ele disse, quase gentilmente. — Seria um bom começo. Jillian jogou os ombros para trás e tentou resistir àquela voz profunda e rouca. Vittorio era uma verdadeira força primordial. Ninguém era mais poderoso. Ela fora para a cama com ele em uma questão de horas após conhecê-lo, algo que jamais acontecera antes. Pelo amor de Deus, jamais sequer chegara perto de fazer amor, contudo, algo em Vitt a fizera abaixar a guarda. Com ele, ela se sentira a salvo. Perto dele, sentira-se em segurança. — Se alguém precisa se desculpar é você. — Eu? — Você mentiu sobre quem você era Vittorio... — Jamais. —... E vem me caçando como a um animal pelos últimos onze meses — ela prosseguiu, em um tom de voz duro. Recusava-se a ficar de joelhos, a implorar. Resistiria até as últimas forças. Ele deu de ombros. — Você escolheu fugir. Você estava com o meu filho. O que esperava que eu fosse fazer? — Você deve adorar ter tanto poder sobre mulheres e crianças indefesas! 5


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Você está longe de ser indefesa, Jill. É uma das mulheres mais astutas e fortes que eu já conheci, com o talento de uma vigarista profissional. — Não sou uma vigarista. — Então por que o nome de April Holiday? E como é que foi capaz de criar tal identidade? É preciso dinheiro e conexões para conseguir o que você quase conseguiu... — Quase. Essa é a palavra-chave, não é? Ele voltou a dar de ombros. — Isso é outra discussão. Neste momento, eu quero sair desta chuva e... — Você pode ir. — Não vou a lugar algum sem você. E não gosto de vê-la tão perto da beirada do precipício. Afaste-se um pouco. Você está me preocupando — ele disse, estendendolhe a mão. Jillian a ignorou. — E você me apavora — respondeu com certa amargura em sua voz, rapidamente desviando o olhar, sabendo que aqueles lábios a haviam beijado em tudo quanto era lugar, explorando o seu corpo em detalhes. Ele lhe proporcionara o primeiro orgasmo com a boca e a língua, e ela gritara de prazer ao chegar ao clímax. Jamais imaginara um prazer tão intenso ou uma sensação tão forte. Por outro lado, jamais imaginara um homem como Vittorio. Mas a verdade não era que tinha medo dele. Tinha medo de si mesma, quando ele estava por perto. Por que, com apenas um olhar ele lhe enfraquecera a determinação. Um beijo e ele lhe estilhaçara a independência. Desde a primeira vez em que fizeram amor, ela o desejara por demais, dando-se conta de que precisava dele mais do que jamais precisara de qualquer outra pessoa. — Está sendo ridícula — ele censurou com irritação na voz. — Alguma vez eu a machuquei, ou sequer encostei o dedo em você... Senão não para lhe dar prazer? Ela fechou os olhos, sentindo as pernas bambearem. Durante aquelas duas semanas fantásticas juntos, ele apenas a tratara com gentileza, ternura e paixão. Sim, ele mostrara ter seus segredos. Fora misterioso. Mas Jillian ignorara as suas suspeitas e seguira o seu coração. — Não. — Mas você fugiu. E pior ainda, me impediu de ver meu único filho. Como isso pode ser justo? Ela não teve como responder, porque a voz de Vittorio já estava lhe minando as defesas, seduzindo. Exatamente como fizera no primeiro dia em que se conheceram em Istambul. Uma apresentação, uma breve conversa, um convite para jantar, e ela perdera por completo a cabeça. Ah, ele era perigoso demais. Ele a destruiria. E destruiria Joe. Não. Não permitiria que ele tivesse Joe. Não permitiria que Vitt transformasse Joe em um homem como ele. — Ele não é siciliano, Vittorio. É americano. E meu filho. — Fiz a sua vontade durante este último ano. Dei-lhes tempo juntos. Mas, agora, é a minha vez... 6


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Não! Você não vai ficar com ele, não vai. Ela oscilou na beirada do precipício, notando que a chuva havia encharcado o solo, deixando-o instável. Mas, jamais se renderia a Vittorio. Era melhor despencar no vazio do que permitir que Vittorio tivesse Joe. Pelo menos ele estaria a salvo com Hannah, que sabia que, se algo acontecesse com Jillian, ela deveria levar Joe para Cynthia, sua colega de quarto da faculdade, em Bellevue, Washington. Cynthia concordara em ser a tutora de Joe caso o pior acontecesse, e a papelada já havia sido preparada para a adoção. Porque o maior desejo de Jillian era que Joe fosse criado por uma família normal e amorosa. Uma família sem vínculos com o crime organizado. — Jill, me dê a sua mão, agora. A beirada pode ceder a qualquer instante. — Não me importo. Não se significar proteger o meu filho. — Protegê-lo de quem? Protegê-lo do quê? A preocupação na voz dele trouxe lágrimas aos olhos dela. Foi necessária toda a sua força para não ceder. Vittorio já a enganara uma vez, ela não permitiria que isso acontecesse novamente. Ela estava mais inteligente, mais experiente. Era mãe, e não se deixaria tentar pelo prazer, nem pela sedução. Isso dizia respeito apenas a Joe. A sua segurança, sua sobrevivência, seu futuro. Tudo isto poderia ter sido evitado, seu ao menos ela soubesse com quem estava lidando ao aceitar o convite para jantar de Vitt, meses atrás. Mas, não soubera. Imaginara Vittorio como o seu Príncipe Encantado, colocando-o em um cavalo branco e imaginando que ele fosse salvá-la. O jantar extravagante tornara-se o romance dos seus sonhos. Ele a fez sentir-se tão atraente e desejável que ela foi ansiosamente para a cama com ele. Vittorio não desapontara. Provara ser um amante inesquecível. Sabia como usar o seu próprio corpo fenomenal. Sabia como explorar o corpo de uma mulher. Em instantes, dominara totalmente o dela. Por duas felizes semanas imaginara-se se apaixonando por ele, e fantasiando sobre como seria dividir uma casa com ele, construir uma vida com ele, um lar. Sim, havia momentos em que Vittorio tinha de sair a pedido de outros, nas horas mais estranhas, mas ela se convencera de que eram apenas negócios e de que, como presidente de uma multinacional, era justificável ele ter de trabalhar nas horas mais incomuns. Ele também lhe falara de sua empresa, e ela ficara fascinada com a sua aquisição mais recente, três respeitáveis hotéis cinco estrelas no leste europeu, fantasiando deixar o seu emprego no hotel na Turquia para ir trabalhar com Vitt, ajudando-o a incrementar os novos hotéis. Afinal de contas, gerenciamento de hotéis era a sua especialização, e imaginara-os viajando juntos pelo mundo todo, trabalhando, fazendo amor. E, então, no décimo quarto dia, uma das jovens criadas de Vitt estilhaçou-lhe as ilusões, com a pergunta sussurrada: — Você não tem medo do mafioso? Mafioso. A palavra gelou o sangue de Jill. — Quem...? — perguntou, tentando dar a impressão de pouco caso. 7


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — O seu homem — a crida respondeu, passando para Jill a pilha de toalhas brancas, enquanto seu olhar dardejava cautelosamente na direção do banheiro, onde Vittorio tomava uma ducha. — Signor D’severano. — Ele não é... — Si. Todo mundo sabe. Em seguida, criada fora embora, apressadamente, como um ratinho amedrontado. Foi então que as peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar. É claro. Tudo fazia sentido. Por que ela não enxergara antes? A enorme riqueza de Vittorio. Seu luxuoso estilo de vida. Os telefonemas secretos e estranhos. Apesar da vontade de vomitar, Jillian preferiu usar o seu telefone para uma busca rápida na internet, enquanto Vittorio de vestia, e o nome D’severano deu acesso a várias páginas de links, histórias e fotos. A criada falara a verdade. Vittorio D’severano era um homem famoso. Famoso por todos os motivos errados. Jillian fugiu naquela mesma tarde, levando consigo apenas o passaporte e a bolsa, deixando tudo mais para trás. Roupas, sapatos... Podiam ser substituídos. Mas liberdade? Segurança? Sanidade? Não. Jillian abriu mão de tudo naquele dia. Do emprego no hotel, do apartamento, da Europa e dos amigos que fizera por lá, desaparecendo, como se jamais houvesse existido. Sabia como fazer isso. Fora algo que aprendera aos 12 anos de idade, quando a família entrara para o Programa de Proteção a Testemunhas do governo americano. Tomando-se Heather Purcell, no Canadá, ela trabalhou por quatro meses em um hotel. Foi ali, em Alberta, que ela descobriu estar grávida. — Você tinha de saber que, mais cedo ou mais tarde, eu a encontraria — ele acrescentou baixinho. — Tinha de saber que eu venceria. Encurralada. Foi à palavra que lhe veio à cabeça. — Mas, você não venceu — ela disse, por entre dentes que tremiam de frio. — Você não o tem, e pode me torturar, ou me matar, ou o que quer que seja que pessoas como você fazem, mas eu jamais revelarei onde ele está... — E por que eu haveria de querer lhe fazer mal? Você é a mãe do meu único filho, e, sendo assim, muito preciosa para mim. — Eu sei exatamente o que eu sou para você. Dispensável. Deixou isso bem claro para mim há onze meses, quando enviou os seus capangas atrás de mim. — Meus homens não são capangas, e, ao manter o meu filho longe de mim, você me transformou em um adversário, cara mia. — A voz de Vittorio endureceu por um instinto, antes de voltar a se suavizar. — Contudo, pelo bem do nosso filho, estou disposto a colocar de lado as nossas diferenças. Por favor, venha comigo. Não gosto de vê-la de pé tão perto da borda. Não é seguro. — E você é? — Suponho que isso dependa da sua definição. Mas, não estou interessado em semântica. Já é hora de sair do frio. 8


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter E, com um passo decisivo na direção de Jillian, ele estendeu sua mão em busca da mão de Jillian. Contudo, ela não podia permitir que ele a tocasse. Nem agora e nem nunca. Ela inclinou-se para trás, tão bruscamente que perdeu o equilíbrio, gritando ao cair. Vittorio, abençoado com reflexos rápidos, agarrou-lhe com força o pulso. Por uma fração de segundos, ela ficou pendurada no ar, sem nada para separá-la das rochas e das ondas arrebentando lá em baixo. Em seguida, seus dedos apertaram com força o pulso dele. Vittorio poderia salvá-la. E ele o fez, puxando-a de volta para a terra firme, e para os seus braços. Ela estremeceu quando o seu corpo entrou em contato com o dele. Seus braços a envolveram com força, apertando-a de encontro a si. A sensação era tão gostosa. Tão quente. Tão real. Por um instante, passou por sua mente que ele ainda podia sentir algo por ela. Por um instante, imaginou que pudessem encontrar um modo de criar Joe juntos, e, em seguida, a realidade se abateu sobre ela. Será que enlouquecera? Será que perdera completamente a razão? De modo algum poderiam ficar juntos, criar Joe juntos. Ela não podia permitir que Joe fosse arrastado para dentro do mundo dos D’severano, e, no entanto, como o primogênito de Vittorio, é o que seria esperado dele. E esperado de Vitt. Sentiu-se tomada de angústia. — Não posso fazer isto, Vitt. Não vou fazer parte de sua vida. Não posso. Com a mão quente, ele afastou o cabelo rosto do rosto frio de Jillian. A carícia a deixou toda arrepiada. — E o que há de errado com a minha vida? — ele perguntou baixinho. Por um instante, ela não conseguiu pensar em nada. O que poderia haver de errado, quando Vitt a abraçava daquele jeito? Ela esforçou-se para montar uma frase coerente. — Você sabe — sussurrou, pensando no pai e nas suas conexões com a máfia de Detroit, e as terríveis conseqüências que isto trouxera para todos, embora ninguém pagara mais caro do que a sua irmã. — Explique para mim. — Não posso. Ela tremia de encontro a ele, intensamente se dando conta de todos os lugares onde o seu corpo tocava no dele. O contato era, ao mesmo tempo, maravilhoso e doloroso. Apesar de o seu corpo querer muito mais, sua mente se rebelava. — E por que não? Ela afastou-se para fitá-lo nos olhos. Um erro. Vittorio era lindo. Mais do que lindo. Mas também era letal. Poderia destruí-la com um piscar dos olhos, e ninguém o impediria. — Você sabe quem você é — Jillian sussurrou. — Sabe o que você faz.

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Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter A beirada da boca sensual de Vittorio ergueu-se, e ele prendeu um fio do cabelo dela atrás de sua orelha, a ponta dos dedos roçando na parte de trás dos lóbulos sensíveis. — Aparentemente, você me julgou e condenou sem me dar uma oportunidade de provar a minha inocência, porque, eu sou inocente, cara mia. Não sou o homem que você imagina que eu sou. — Está negando que seja Vittorio D’severano? Chefe da família D’severano da Catania, na Sicília? — É claro que não nego minhas origens. Amo minha família e sou responsável por ela. Mas, como é que ser um D’severano tornou-se crime? Ela o fitou nos olhos. — A família D’severano ocupa páginas e mais páginas dos livros de história. Chantagens, extorsão, esquemas de proteção... E estamos falando apenas das contravenções. — Todas as famílias têm um segredo a esconder... — A sua tem, pelo menos, uns cem! Os olhos escuros de Vittorio brilharam. — Não deprecie a minha família. Tenho o maior respeito por ela. E, sim, somos uma família siciliana muito antiga. Nossa linhagem remonta há quase mil anos. Algo que eu não acho que você seja capaz de alegar, Jill Smith. Ela estremeceu ante o modo como ele disse o seu nome. Ele a fez se sentir como uma qualquer. Mas, não era esse o objetivo? Ele era Vittorio D’severano, e ela não era ninguém. Ele tinha razão, é claro. Ela era insignificante e não tinha ninguém a quem recorrer ninguém capaz de protegê-la da máfia. Quem enfrentaria Vittorio, quando mesmo o governo americano e italiano havia falhado em derrubá-lo. Mas mesmo sabendo disso, tinha de resistir. Jamais permitiria que Vittorio lhe tirasse Joe. Recuperando a sensatez, ela tentou se soltar dele. — Está se esquecendo que estamos nos Estados Unidos, e não na Sicília, e que eu não sou sua. Agora, me solte. Ele a soltou, e ela afastou-se em meio à chuva torrencial, na direção oposta à sua casa, pois, nem em um milhão de anos ela permitiria que Vitt a seguisse até lá. — Aonde você vai? — ele gritou para ela. — Vou continuar minha caminhada. O exercício me faz bem. — Eu a acompanharei. — Por favor, não. Mas ele a seguiu assim mesmo, embora mais lentamente. Jillian avançou pelas poças, tentando imaginar um modo de despistá-lo, impedindo que ele descobrisse o paradeiro de Joe. Não trouxera o celular consigo, de modo que não podia ligar para Hannah para avisá-la. Também não trouxera dinheiro, sendo assim, não poderia pegar um táxi da cidade. Tudo que pôde fazer foi continuar andado, e Vitt continuou a segui-la. 10


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Até onde está planejando ir, Jill? — ele perguntou, ao aproximarem-se de um cruzamento, e a trilha transformou-se em calçada. — Até eu ficar cansada. A limusine de Vittorio, que vinha seguindo-os bem devagarzinho, seguiu até a esquina do cruzamento, onde virou, bloqueando o caminho de Jillian. Subitamente, as portas do veículo preto se abriram, e dois dos guarda-costas de Vitt saíram de lá de dentro. Os dois homens bem-vestidos a fitaram com um interesse puramente profissional. Era óbvio que estavam aguardando um sinal de Vitt, um sinal que ele ainda não dera. — Diga-lhes para saírem da frente — Jillian falou, virando-se para olhar para Vitt. — Mas eu acabei de mandar que parassem aí. — Não posso atravessar a rua com eles bloqueando a passagem. — Eu sei. Mas não podemos passar o dia inteiro andado. Temos muito a discutir. Decisões precisam ser tomadas. — Tais como? — Como é que vamos dividir a custódia do nosso filho... — Não vamos. Ele é meu. — Em qual país ele vai cursar a escola. — Nos Estados Unidos. Ele é americano. — Também é siciliano. E ele também é meu. Legalmente, você não pode mantê-lo longe de mim. — E, legalmente, você não pode tirá-lo de mim. — O que eu não faria. — Ele levou a mão ao peito. — Felizmente, sou muito bem assessorado legalmente, e passamos os últimos meses trabalhando com os melhores advogados americanos e sicilianos. Tudo já foi providenciado. Já cuidei da papelada. Estou com a documentação. Você o teve durante os primeiros onze meses de vida. Tenho direito ao restante. — O quê? Ele assentiu. — Ou dividimos igualmente a sua guarda, ou, cara mia, você corre o risco de perdê-lo por completo. — Jamais! — Se tentar fugir com ele novamente, será julgada uma mãe inapta. E não vai querer desobedecer aos tribunais. Prejudicaria seriamente as suas chances de algum dia conseguir de volta à custódia. Horrorizada, Jillian fitou Vitt. — Você está inventando tudo isto. — Jamais mentiria para você. Jamais menti. Se pudermos entrar no carro, onde é seco, eu lhe mostrarei a papelada. Parecia tão simples. Entrar no carro... Examinar a papelada... Se Jillian desse esse pequeno passo, e subisse na limusine, ela receava que jamais se sentiria a salvo, ou sã, novamente 11


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Sem dúvida nenhuma Vittorio era atraente, mas, meses atrás, ela se apaixonara por mais do que apenas o corpo dele. Ele era brilhante. Provavelmente o homem mais inteligente que já conhecera, e se divertira mais conversando com ele do que com qualquer outra pessoa. Vitt era capaz de discutir política e economia, história e cultura, artes e ciências. Ele viajara extensivamente, e, obviamente, tinha um bocado de dinheiro, mas jamais fizera joguinhos. Fora carinhoso, sensual, e, com a exceção dos ocasionais telefonemas estranho e súbitas reuniões secretas, sempre estivera à disposição dela. Vê-lo novamente lembrava a Jillian o quanto ela gostara dele e o desejara. Vê-lo novamente a fazia se dar conta de que jamais seria imune a Vittorio. — Não confio em você — disse com a voz rouca de emoção. — Esse é o "xis" da questão. — Não zombe de mim. — Não estou zombando. Mas sua falta de confiança criou problemas terríveis para nós dois. Ela desviou o olhar, e mordeu o lábio inferior, com tanta força que chegou a tirar sangue. — Quero ver a papelada, mas me recuso a entrar no seu carro — ela afirmou, com determinação, reprimindo toda e qualquer emoção. — Não tente me forçar. Vittorio estava caminhando na direção dela, e enfiou as mãos nos bolsos do casaco preto. — Não queria que fosse deste jeito, cara mia. Não queria que fosse difícil para você. — Ela rapidamente chegou para o lado, e Vitt seguiu direto para a porta aberta da limusine. — Mas, já que insiste — acrescentou com um sugestivo dar de ombros —, que assim seja. Faremos isso do modo mais difícil. Vittorio inclinou a cabeça e entrou no carro. Jillian viu os guarda-costas se juntarem a ele no interior do veículo. Eles iam deixá-la em paz. Deveria ter se sentido aliviada. Em vez disso, sentiu medo e receio lhe arranhando a garganta. Havia algo errado. Algo muito, muito errado, pois Vittorio jamais desistiria, o que significava que, se a estava deixando ali, ele já vencera. Ele encontrara o seu filho. Ela correu na direção do carro, atirando-se na direção da porta para impedir que esta se fechasse. — O que você fez? Com uma expressão dura, Vitt a fitou de dentro do carro. — É o que você queria. — O que eu quero é o meu filho, o meu bebê, comigo. — Não, eu lhe ofereci tal oportunidade e você a recusou. Disse que queria que eu a deixasse em paz. É o que vou fazer Vou deixá-la em paz. Jillian não se recordava de se mover nem de se atirar em cima dele, contudo, de repente, estava dentro do carro e a limusine estava se movendo, e ela estava sentada no assento de couro ao lado de Vittorio, com seus dois capangas no banco diante deles. 12


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Acalme-se — Vittorio repetiu. — Joseph está bem. Ele está sob a minha guarda, e, com a permissão dos tribunais, voará comigo para Paterno, hoje à noite. Jillian sentiu um frio na boca do Estômago, e, em pânico, vasculhou os olhos de Vitt em busca da verdade. — Você está blefando. — Não, cara mia, não estou blefando. Almoçamos juntos, Joseph e eu. Ele é um menininho adorável, encantador e inteligente, embora eu evitaria vesti-lo de amarelo novamente. Não combina com ele. Por um instante, ela não conseguiu respirar. Nem pensar. Tudo em seu íntimo ficou paralisado, e morreu um pouquinho. Ela mesma vestira em Joey uma camiseta amarela naquela manhã. — O que você fez com ele? — Além de lhe oferecer um almoço saudável e pedir que ele fosse levado para tirar um cochilo? Nada. Era para eu ter feito alguma coisa? — Vittorio. — A voz de Jillian estava rouca, angustiada. — Isto não é um jogo. — Foi você quem tornou isto um jogo, Jillian. A culpa é toda sua. — E quanto a Hannah? — ela indagou, referindo-se à maravilhosa babá nova, uma babá que encontrara dois meses atrás, logo após ter alugado a casa. — Ela está com ele? — Está, mas não vai mais precisar dela. Arrumaremos outra babá na Sicília, alguém que ensinará a Joey a sua língua paterna. — Mas eu gosto de Hannah... — Eu também. Ela tem sido uma excelente empregada. Fez tudo que eu pedi. Uma sensação fria e nauseante apossou-se dela, deixando Jillian com vontade de vomitar. Com a mão trêmula, ela enxugou a chuva dos olhos. — O que quer dizer com ela fez tudo que você pediu? A boca de Vittorio curvou-se, o que apenas serviu para deixar mais feroz e dura a expressão do seu belo rosto. — Ela trabalhava para mim. Mas é claro que você não podia saber disso.

CapítuloDois 13


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Ela estava sentada o mais longe que podia dele, no assento de couro preto da limusine. Vitt estava esperando isso. Ela estava aborrecida. Era mesmo para estar. Ele acabara de lhe virar o mundo de pernas para o ar. Como ambos sabiam que aconteceria. Nada do que acontecera até agora o surpreendera. Era Jill quem estava em choque. Água pingava de seu suéter grosso e das pontas de seu cabelo, e seus dentes estavam batendo, apesar do aquecimento do veículo estar ligado. A limusine fizera uma curva de 180° e estava se aproximando da estrada reservada que emergia da auto-estrada costeira, levando à sua rua sem saída. A casa alugada de Jill era pequena, marrom e com uma arquitetura no estilo da década de 1950. Uma casa cercada por altíssimas sempre-vivas. Uma casa que não chamava muita atenção. Jill fora esperta, muito mais esperta do que ele lhe dera crédito. Porém, assim que Vittorio a entendeu, assim que entendeu como a mente dela funcionava, foi fácil fazê-la cair nas palmas de suas mãos. A casa. A babá. A oportunidade de emprego. Ele sempre soubera que, nos últimos quatro meses, ela estava no Condado de Monterrey, mas não queria afugentá-la, até que todas peças do seu plano estivessem no devido lugar. E, para ajudá-la a se sentir segura, ele estimulara a complacência nela, colocando o anúncio para alugar a casa no quadro de avisos da lanchonete aonde ela ia todos os dias tomar café. Ele dispensara trinta pessoas que ligaram interessadas, antes de receber o telefonema de Jill para ver a casa. Uma adorável mulher chamada Susan, que trabalhava para Vittorio na sua imobiliária em São Francisco, mostrou a casa para ela. Foi Susan quem mencionou a oportunidade de trabalho no Highlands Inn, uma oportunidade criada especialmente para ela, haja visto que ele era o dono do hotel, assim como de trinta outros espalhados pelo globo. Durante a entrevista para o emprego, a gerente de recursos humanos casualmente introduziu na conversa que estava para dispensar a sua babá, pois seus filhos já estavam todos em idade de cursar a escola, e perguntou se Jillian não conhecia alguém que precisasse de uma pessoa excelente, e não muito cara, para cuidar de crianças. Jillian não deixou passar a oportunidade. A armadilha fora armada. Jillian era dele. Agora, pode até ter parecido fácil, mas não foi. Vittorio teve de aguardar, lutando contra a própria impaciência, contra a vontade de ir logo buscar o filho. Sabia que tudo que fazia era observado. O nome D’severano era uma faca de dois gumes. As pessoas conheciam e temiam a sua família. Seu avô fora o chefe de uma das famílias criminosas mais poderosas e influentes do mundo. Por gerações, sua família estivera intimamente envolvida com a 14


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter máfia. Mas isso era passado. Os negócios de Vittorio eram completamente lícitos, e continuariam assim. — Devemos seguir para a sua casa, para que possa se trocar? — Eu estou bem. — Mas, não estamos perto? — Não. — Você não mora aqui perto? — Não — ela repetiu, olhando para a rua, através do vidro escurecido da janela. Ele também olhou para a rua. A chuva continuava intensa. Também estivera chovendo muito no dia em que ele a conhecera, na Turquia. Sendo assim em vez de pegar o carro para seguir para o seu próximo compromisso, Vittorio se demorara no saguão do Ciragan Palace Hotel em Istambul, aguardando que a chuva diminuísse de intensidade. Foi enquanto estava esperando que avistou Jill cruzando o saguão, seus saltos altos ecoando ao baterem no piso de mármore. Desde aquele primeiro instante soubera que ela era linda, e ela demonstrara sua notável inteligência durante o seu primeiro jantar no restaurante russo Caviar Bar, mas ele não fazia ideia de que ela pudesse ser tão despachada. A mulher sentada ao seu lado sabia se virar muito bem nas ruas. Era astuta. Muito mais astuta do que muitos dos executivos com quem ele costumava lidar regularmente. — Eu sei que sua casa fica aqui perto, mas, se prefere não entrar e reunir algumas coisas para levar... Ela ergueu o queixo. — Não. — Nesse caso, podemos seguir direto para o aeroporto. Eu mandarei que esvaziem a sua casa e armazenem suas coisas. Isso chamou a atenção dela. Jill virou a cabeça, com os olhos dardejando fúria. — Minha casa não é da sua conta! — ela retrucou, furiosamente. — Ah, mas é sim. Quem mais teria reduzido o aluguel de uma casa com vista para o mar de cinco mil e seiscentos por mês para mil e quatrocentos para uma mãe solteira sem referências ou crédito, e para o seu filhinho? Sou o dono da casa. E você, cara mia, é minha inquilino. Ele notou o instante em que suas palavras foram registradas. Viu no arregalar dos olhos de Jill, e no cerrar de seu queixo. — Sua casa? Vitt deu de ombros. — Minha casa, minha babá, meu hotel. — O que quer dizer com seu hotel? Jamais fiquei em nenhum hotel caro... — Mas trabalhou em um durante os últimos sessenta dias, não trabalhou? — Ele sorriu ligeiramente. — O Highlands Inn é parte do meu grupo internacional. Ou será que não se deu ao trabalho de verificar isso na internet? — Você armou para mim — ela sussurrou. 15


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — E o que esperava? Que eu fosse permitir que se desse bem seqüestrando o meu filho? — Eu não o seqüestrei. Eu o carreguei na barriga, dei-o à luz, amei-o... — Ótimo. E, agora, vai poder amá-lo do conforto e da segurança de meu lar na Sicília. — Não vou morar na Sicília. — Tudo bem. Pode ir e vir, e nos visitar sempre que quiser, mas os tribunais concordaram que, levando em conta o seu comportamento errático, e a sua incapacidade de prover financeiramente à criança, o lar permanente de Joseph será em Palermo, comigo. — Mas tenho provido a Joseph! Sempre consegui... — Com a minha ajuda, sim. Você se esquece que os tribunais estão sabendo que eu lhe forneci um lar, um emprego e uma babá. Eles entendem que você não teria conseguido sobreviver sem a minha ajuda. As mãos dela se cerraram. — Isso não é verdade. Eu estava me virando muito bem. Nós dois estávamos nos virando muito bem! — Se é o que diz. Ela largou-se de encontro ao assento. — Você me enganou. — Fiz o que foi preciso para estar com o meu filho. — E, agora que o tem? — Ele morará em Palermo, no lar da minha família. — E quanto a mim? — Poderá viver conosco até ele completar 18 anos de idade, e, então, quando Joseph for para a universidade, também poderá ir embora. Será livre para viajar, comprar uma casa nova, começar uma vida nova, contudo, até então, morará conosco na minha casa. Jillian fincou as unhas nas palmas da própria mão. — Sou prisioneira? Seu olhar se fixou no rosto pálido dela, estudando-o. — De modo algum. É livre para ir e vir, porém, Joseph permanecerá comigo, para ser criado por mim. — Quer dizer que ele é o prisioneiro? — Ele é uma criança, e meu filho. Precisa de orientação e proteção. — Contra os seus inimigos? A expressão do rosto de Vittorio ficou séria. — Não tenho inimigos. — Se não contar comigo — Jill retrucou baixinho. — Não costumava ser o caso. Ele pronunciou as palavras em um tom igualmente baixo, e ela enrubesceu um indício claro de que se recordava de como se mostrara suscetível na cama dele. 16


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Vittorio notou que as mãos de Jill estavam tremendo ao enxugar uma gota de água que lhe desceu pelo rosto. Ela estava inquieta. Ótimo. Era mesmo para estar. Ele estava furioso. Muito mais do que furioso. Jillian ocultara a sua gravidez, até acidentalmente esbarrar com uma de suas funcionárias ao dar uma volta com o bebê. Ao saber da novidade, ele fez as contas na cabeça, e ligou imediatamente para ela. A princípio, Jillian teve a ousadia de negar que o filho fosse dele, e, quando Vittorio exigiu um exame de DNA, ela fugiu dele, impedindo que ele tivesse qualquer contato com o filho durante todo o primeiro ano da vida de Joseph. Jill precisava ser castigada, e enfrentar as conseqüências. — Na realidade, ainda consigo vê-la atrás da direção de minha nova Ferrari em Bellagio — ele acrescentou. — Você adorava dirigi-la, não é? Por outro lado, você adorava praticamente tudo durante o tempo em que passamos juntos na propriedade em Lake Como. Incluindo gastar o meu dinheiro. — Você faz parecer que eu estava interessada no seu dinheiro. — E não estava? — Não! — ela respondeu enfaticamente, sentindo as faces arderem. — Seu dinheiro nada significava para mim. Continua não significando. — Quer dizer que não gostou do jatinho particular, da casa de campo, dos criados, do carro? — Coisas materiais não me impressionam — ela esbravejou, virando o rosto. Vittorio a observou. Já notara que seus olhos, outrora azuis, estavam agora castanhos. E o cabelo louro também era novidade. — Entendo. Estava interessada em mim. Ele continuou a estudá-la lentamente, como se tentando se decidir se gostava mais de Jill como morena, ou como esta loura da Califórnia, mas o seu comportamento tranqüilo não passava de uma encenação, porque, por dentro, Vittorio estava prestes a explodir. Jamais, em toda a sua vida, fora enganado tal qual ela o enganara. Jamais. Ainda se assombrava com isso. Jill Smith parecera tão inocente. Tão doce. Tão pura. Deus, como se enganara com ela. Porém, agora que sabia com quem estava lidando, jamais cometeria o mesmo erro novamente. — Você gostava de mim? Erguendo o queixo, ela o fitou nos olhos. — Eu gostava mesmo de você. — No passado? Apesar dos olhos arregalados, ela não recuou. — No passado. — E, então, o que foi que mudou Jill Smith? O nome foi enfatizado, visto que seu nome, como o resto de sua vida, não passava de uma invenção. Jillian Smith não existia. Jillian Smith era uma fabricação. Uma muito boa, mas, mesmo assim, uma fabricação. 17


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Suas mentiras apenas dificultaram o trabalho de localizá-la, mas Vittorio fora persistente, e acabara sendo bem-sucedido. Agora, restava apenas forçá-la a obedecer a sua vontade, garantindo a saúde e a felicidade do seu filho. — Nada mudou. — Não? Não aconteceu nada? Ele ergueu inquisitivamente uma das sobrancelhas. — Não. — Ninguém lhe disse algo que a fez fugir? Ela ficou boquiaberta por um instante, mas, mesmo ao se conter ainda parecia nauseada. Amedrontada. Deve ter sido assim que se sentiu quando a jovem criada lhe disse que ele fazia parte da Máfia. Jovem tola, falando de coisas que desconhecia. Jovem tola por achar que ele não descobriria. Os empregados deviam saber que havia câmeras de segurança em tudo quanto era lugar. — O que você fez com ela? — Jill sussurrou raucamente. — Eu a despedi. — Vittorio revirou os olhos ante a expressão de Jill. — Acha mesmo que eu machucaria uma moça de 18 anos de idade por dizer a palavra mafioso! Ridículo. Isso só prova como você sabe tão pouco ao meu respeito. Não sou um homem cruel. Não machuco as pessoas, nem dou ordens para que machuquem pessoas. Isso é barbarismo. Ainda assim, ela o fitava com desconfiança. — Quer dizer que realmente pretende me levar para a Sicília com você? — Pretendo. — E não vai impedir que eu tenha contato com Joe? — Não enquanto você cooperar. — O que quer dizer com isso? — Quero dizer que você vai cooperar. Vai fazer o que eu pedir, de boa vontade e prontamente. Ao que tudo indicava isso não a agradou, visto que Jill lhe lançou um olhar fulminante. — E se eu me recusar? — Será mandada embora. — Não pode fazer isso. — Não posso? — Seu olhar sombrio se fixou no dela por tensos e demorados segundos. — Você estará vivendo na minha casa, no meu país, em meio à minha família e o meu povo. Quem é que vai me impedir? Ela inspirou profundamente. — Não pode usar Joe como uma arma contra mim — sussurrou, debilmente. — Não foi o que fez comigo? — Eu estava tentando protegê-lo... — De mim, eu sei. Mas, Jill, foi um terrível erro tático. Franzindo a testa, ela voltou a fitá-lo nos olhos. — E se eu cooperar durante 17 anos? 18


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Permanecera conosco, e poderá desfrutar de minha proteção, riqueza e todos os privilégios provenientes de fazer parte da família D’severano. — E, no entanto, se eu ficar parada e cooperar, você será bem-sucedido em transformar Joe em um de vocês. — Fala como se fossemos uma horda de vampiros. — Não há muita diferença, não é? — De acordo com a cultura popular, os vampiros estão muito em voga, hoje em dia. — Não no que me diz respeito. — É contra vampiros? — Sou contra ladrões, valentões e assassinos. Sou contra predadores. Contra o crime organizado. Contra qualquer um que impõe a sua vontade ao outro. — È gran pazzia lu cuntrastari cu Du nun pô vinciri nè appattari — ele citou, e, em seguida, traduziu para ela o provérbio siciliano. — É insanidade fazer oposição quando não há possibilidade de vitória ou acordo. — Ele sorriu. — Não sei se você é muito corajosa, ou incrivelmente tola, Jill, considerando o quanto tem a perder. — Tenho muito a perder. Estamos falando da vida de um menininho. O que fizermos agora afetara a vida dele para sempre. — Isso mesmo. — É por isso que não posso simplesmente desistir, Vittorio, e fingir que quem você é e o que faz é algo bom. Seus valores e a sua moral não são os meus... Ele já escutara mais do que o suficiente, e ignorando o resto do discurso, através do retrovisor, gesticulou para o motorista, que encostou o carro. — É uma pena que não conseguimos chegar a um acordo, mas suponho que tenha sido melhor termos chegado a tal conclusão agora do que mais tarde — ele disse baixinho, sabendo que estava prestes a destruir o que restava do mundo dela. — Eu queria que isto tivesse dado certo. Infelizmente, estou vendo que não vai acontecer. Não há por que continuarmos a discutir — Ele abriu a porta do carro. — Adeus, Jill. Seus lábios se entreabriram de surpresa. — O quê? — Sua casa fica a cerca de um quilômetro lá para trás. Não é longe, embora não vá ser uma caminhada muito agradável na chuva. Tenha cuidado. A calçada deve estar meio escorregadia. Com uma expressão apavorada, ela encolheu-se no assento. — Vittorio — protestou debilmente. Ela parecia confusa, arrasada. Mas ele estava cansado da desonestidade de Jill e de suas distorções da verdade. Detestava mentiras, e trabalhara duro demais para restaurar a respeitabilidade do nome da família para permitir que qualquer um, quanto mais Jill Smith, com a sua moral duvidosa e o seu passado secreto, desonrasse a família D’severano. — Ora, Jillian, vamos ser sinceros. Como é que poderemos criar o nosso filho juntos, quando você me despreza tanto? Quero que ele se sinta seguro e amado, não 19


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter dividido entre nós. Você me transformou em um monstro e tentaria virá-lo contra mim... — Não, não tentaria. Ela estava desesperada, e ambos sabiam disso. — Você já fez isso. Mentiu para mim. Fugiu de mim. Prometeu se encontrar comigo, e jamais apareceu. Nunca teve a intenção de aparecer. Tudo não passava de uma desculpa para fugir, com o meu filho. — Ele inspirou profundamente, tentando conter a fúria, a vergonha por ter se deixado enganar. Ninguém fazia isso com ele e escapava ileso. Por que haveria de ser diferente com ela? — Joseph completará um ano de idade no mês que vem, e hoje foi à primeira vez em que eu o segurei. E você ainda tem a coragem de me chamar de monstro? Visivelmente abalada, ela estremeceu. Por um instante, Vittorio quase sentiu pena dela. Quase. Ela o magoara demais, humilhara demais para que isso acontecer. Jill transformara a sua vida em um inferno. Ele fez um gesto de pouco caso com a mão. — Faça um favor para nós dois, Jill, e desça do carro... — Nunca. — Eu vou direto para o aeroporto — ele prosseguiu, como se ela nada houvesse dito. — O avião está esperando. Não tenho tempo a perder. Ela empertigou-se no assento. — Não vou descer. — Jill. Ela sacudiu a cabeça. — Não vou deixá-lo. Jamais o deixaria. — Não vou participar de joguinhos. — Não haverá joguinhos. Eu prometo. — Você já fez promessas antes... — Eu estava com medo. — E não está agora? — ele retrucou, zombando dela. Os dentes de Jill estavam batendo novamente, e ela abraçou a própria barriga, como se estivesse com receio de se desfazer, a qualquer momento. — Não estou com medo — disse, por entre os dentes. — Estou apavorada. Por favor. Por favor. Nada de joguinhos. Nada de problemas. Eu cooperarei. Farei isto funcionar. Farei tudo que você quiser, eu prometo. — A minha paciência se esgotou, Jill. — Eu sei. Seu tom de voz ficou ainda mais baixo. — Não haverá segundas chances. Um erro, uma pequenina besteira, e você vai embora. Para sempre. Ela estava assentindo, freneticamente assentindo, e lágrimas escorriam de seus olhos.

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Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Ele se recusava a sentir qualquer coisa por ela. Jill estava colhendo o que plantara. Cada pouquinho de sofrimento. Confiara nela. Gostara dela, mais do que gostara de qualquer outra mulher, em anos. Vinte meses atrás, chegara a pensar que ela fosse o seu alguém especial. A sua eterna e única. A mulher com quem ele se casaria e amaria pelo resto da vida. O que era um absurdo, visto que jamais fora do tipo impulsivo. Jamais encontrara outra mulher que pudesse imaginar como esposa, mas, de algum modo, quisera Jill. Quisera amá-la, protegê-la, para sempre. E, então, ela fugira mentira, e lhe destroçara o coração. — O que você quiser — ela choramingou. — Tudo que disser. Estava praticamente implorando. Vittorio supôs que isso o faria se sentir melhor. Não estava funcionando. Jamais tratara nenhuma mulher tão duramente. Jamais reduzira uma mulher a isto. Mal conseguia olhar para ela. O lábio inferior de Jill tremia, e lágrimas rolavam pelas suas faces. Ela o estava fazendo sentir-se um selvagem, um monstro, como o que ela imaginava que ele fosse, mas Vittorio não era nenhum monstro. Passara a vida inteira tentando curar feridas infligidas por gerações passadas. Batalhara para reconstruir a empresa do pai, depois que este fora tragicamente ferido, e a empresa fora forçada a pedir falência. Mas, ele batalhara pelo pai, batalhara pela família. Provaria para o mundo que os D’severano eram boa gente. — Não a levarei para fora do país à força. — Não está me tirando do país a força. Estou escolhendo ir. Por favor, Vitt. Deixe-me viajar com o meu filho. Em um rompante de fúria, ele agarrou-lhe o pulso com uma das mãos, enquanto a outra se posicionou atrás da nuca de Jill, forçando-a a fitá-lo nos olhos. — Nosso filho — rugiu. — Ele não é seu. É nosso. Nós dois o fizemos. Nós o fizemos em um ato de amor, não de violência, e ele será criado com amor, não violência. Está me entendendo? — Estou. Castanhos ou azuis, os olhos dela eram hipnóticos, reluzentes de pura emoção. Vittorio pensara que ela fosse tudo que ele jamais quisera. Pensara que envelheceriam juntos. — De agora em diante, não há mais meu e nem seu — prosseguiu. — Apenas nosso. Uma só família. A D’severano. Ela assentiu. — Está bem. E, então, porque havia tanta tristeza nos olhos dela, ele fez a única coisa que lhe passou pela cabeça. Ele a beijou. Mas não foi um beijo carinhoso e de consolo. Ele a beijou ferozmente, apossando-se de seus lábios como já se apossara de sua vida. Jill tivera a sua chance. Havia tentado do jeito dela. Agora, era a vez de Vittorio. O beijo não lhe aliviou a raiva. Só o fez querer mais.

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Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Com as mãos espalmadas no peito dele, Jillian estremeceu, e quando Vitt lhe tomou a língua na boca, sugando-lhe a ponta, ela gemeu, arqueando as costas, sentindo sua resistência desaparecer. Ele soube o instante em que ela se rendeu. Se quisesse, poderia tê-la possuído ali mesmo. Caso estivessem sozinhos, ele a teria despido só para provar que podia. Em vez disso, acariciou-lhe o seio uma única vez, fazendo-a contorcer-se e, em seguida, a soltou, observando quando ela recostou-se bruscamente no assento de couro. — Aeroporto — ordenou, ajustando as abotoaduras nas mangas da camisa. — Estamos atrasados. Ao aproximar-se do aeroporto de Monterrey, Jillian sentiu como se houvesse engolido cacos de vidro. Cada vez que inspirava, sentia dor. Cada vez que engolia, queria gritar. Falhara para com Joe. Falhara em protegê-lo. Falhara em salvá-lo. Sua vida jamais seria a mesma, agora, e a culpa era toda da estupidez dela. Jamais deveria tê-lo deixado com Hannah. Jamais deveria ter confiado nela. Mas Hannah parecera à resposta às suas preces. Perfeita, em todos os sentidos. Seu currículo mostrara que ela havia sido professora primária formada, com anos de experiência com bebês e crianças pequenas. As cartas de recomendação, impecáveis. Melhor de tudo, Hannah era barata, o que fez Jillian contratá-la na hora. Mas a trapaça de Hannah nem se comparava com o desprezo que Jill estava sentindo de si mesma. Quando Vitt a beijara, ela praticamente se derretera em seus braços. Enojada com o próprio comportamento, ela fincou as unhas nas palmas das mãos. Será que não aprendera nada? Como podia reagir daquele jeito a Vittorio quando sabia o tipo de homem que ele era? Seu pai fora igualzinho, embora aliado ao crime organizado de Detroit, não o siciliano. A ambição de seu pai destruíra a família dela. Como poderia pensar que com Vittorio seria diferente? Ela sentiu um frio na barriga, e inspirou profundamente, tentando controlar a histeria, quando a limusine estacionou ao lado do Boeing 737 branco na pista de decolagem, o jato particular de Vitt. Vitt era dono de meia dúzia de aviões, incluindo jatos menores, mas aquele era o seu preferido. Gostava de poder viajar com seus empregados e a sua própria equipe de segurança. Quando estavam viajando para Lake Como, naquele mesmo avião, ele lhe dissera que conforto era essencial para viajar, daí os alojamentos dos empregados, os dois quartos de dormir, a sala de jantar e a pequena, porém, completa cozinha. As portas da limusine se abriram, e Vittorio desceu do veículo, porém, não esperou por ela. Seguiu na direção da escada que levava ao jato, sabendo que ela não tinha muita escolha, senão segui-lo. Ela foi tomada de apreensão ao se dirigir para a escada. E se Joe não estivesse ali? E se Vittorio simplesmente estivesse brincando com ela? Contudo, encheu-se de alívio ao chegar à sala de estar do avião. Ali estava o seu bebê. O seu mundo. 22


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Ainda usando a camisa amarela e os jeans, ele estava sentado no chão, brincando com blocos de espuma, rindo enquanto uma mulher de cabelos escuros para que ele os derrubasse. Subitamente, ele levantou a cabeça, sorrindo ao avistá-la. — Mama. Jillian correu até ele e o tomou nos braços. Ele era pequeno e quentinho, e encaixava-se com perfeição no corpo de Jillian. O simples ato de tê-lo nos braços aquietou as chamas ardendo no interior do seu peito. Sentiu-se completa novamente. A criança era tudo para ela. Mesmo que Vitt não acreditasse nela, todas as decisões que tomara foram para assegurar a segurança de Joe, o seu bem-estar. Pela primeira vez em uma hora, foi capaz de respirar. Contanto que Joe estivesse com ela, tudo ficara bem. Ela seria capaz de agüentar qualquer coisa, menos perder Joe. Percebendo que estava sendo observada, Jillian olhou para o rosto de Vitt, a expressão do rosto dele indecifrável, e ela enfim se deu conta de que, na última hora, tudo havia mudado radicalmente. A vida de Joe, a sua vida, jamais seriam as mesmas. Como se pudesse lhe ler os pensamentos, Vittorio gesticulou para que a jovem pegasse o bebê. Jillian fez menção de protestar, mas Vitt ergueu um dedo de alerta. — Não é à hora para isso — disse em um tom de voz brusco que não dava margem para discussões. — Estamos ambos molhados, e precisamos nos trocar para que possamos partir. Assim que estivermos no ar, conversaremos sobre o que diremos às nossas famílias.

CapítuloTrês 23


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Jillian estava de pé no interior do luxuoso quarto de dormir no interior do jato, escutando a porta fechar-se gentilmente atrás de si, sabendo que o som não passava de um sussurro, no entanto, na sua cabeça, ecoou com a força da porta da cela de uma prisão. Estava em sérios apuros. E colocara Joe em apuros também. E agora, estavam em rota para Paterno, na Sicília, lar da família D’severano, e o centro de seu poder. Todo mundo em Paterno seria leal a Vittorio. Todo mundo na aldeia a espionaria, a vigiaria, e relataria tudo a Vittorio. No seu íntimo, escutou o som de uma chave girando, trancando. Aprisionada. Estava aprisionada. E o pior de tudo é que Vittorio não sabia quem ela era, e Jill não podia permitir que ele descobrisse a verdade. Deus sabe o que ele, o chefe de uma das famílias mais poderosas do crime organizado, faria caso descobrisse o seu nome verdadeiro. A sua verdadeira identidade. Ele a destruiria. Teria de fazê-lo. Era o código. A lei deles. Seu pai traíra a família D’severano, e a família D’severano exigiria vingança. Exigiria sangue. Já tomara o da sua irmã, Katie. Insistiria também no de Jillian. Mas, e quanto a Joe? O que aconteceria com ele em meio a essa disputa pelo poder? Pensar em Joe despertou Jill do seu transe de infelicidade. Não podia entrar em pânico. Tinha de pensar com clareza. Ser esperta. E ela já provara que era capaz de ser esperta, de que herdara a astúcia do pai. De pé, Jill abriu a sua surrada mala preta sobre o porta-bagagem do quarto. Todas as suas roupas haviam sido meticulosamente dobradas ao serem colocadas na mala. Quem poderia ter feito isso? Não querendo pensar em ninguém mexendo nas suas coisas, ela sacudiu a cabeça. Tirando as roupas molhadas, vestiu calças pretas secas e uma blusa bordada cinza. Jill fitou com intensidade o seu reflexo no espelho, ao passar a escova pelo cabelo ainda úmido. Ela fora ruiva até os 12 anos de idade, e adorara o seu cabelo. Era comprido e sempre chamara muita atenção. Seu pai costumava enrolar-lhe as mechas nos dedos e chamá-la de Rapunzel e sua mãe chorou quando o governo insistiu em cortar-lhe o cabelo e tingi-lo de castanho. Ela também chorara, porém, em segredo. Porque perder o seu cabelo fora doloroso, porém perder a si mesma fora ainda pior. Pois não fora apenas do cabelo que eles a privaram. Também levaram embora todo o resto. Seu nome. Seu lar. Sua identidade. Ela não era mais Alessia Giordano, mas sim um nome inventado. Ela não era ninguém, e assim permaneceria pelo resto da vida. 24


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Escutou uma batida na porta. — Já se trocou? Era a voz grave de Vittorio, e um arrepio de alarme lhe percorreu o corpo. — Já — forçou-se a responder. — Decolaremos em dois minutos. Quer dizer que isto realmente ia acontecer. Nenhum agente do governo invadiria o avião para resgatá-la. Não haveria salvação de última hora. A mão de Jill tremia ao pousar a escova na cômoda. — Eu já vou — respondeu. Erguendo o queixo, ela endireitou os ombros e empertigou as costas. Podia fazer isto. Já passara por coisas piores. Podia fazer o jogo de Vitt. Desde que Joe estivesse feliz e saudável, não havia nada que Vitt pudesse fazer que ela não pudesse encarar. Deixando a serenidade do quarto, ela adentrou a luxuosa sala de estar. Vitt já estava ali, de pé em meio a um aglomerado de poltronas na outra extremidade do aposento. Estava muito elegante, usando um temo escuro com uma camisa branca. Parecia ter tido meia hora para tomar banho e se arrumar, em vez de poucos minutos. — Você parece estar à vontade — ele disse, lançando um olhar crítico para as calças pretas e a blusa simples que a fez corar. — Roupas de mãe — ela respondeu, defensivamente, detestando o fato de, subitamente, sentir vergonha da própria aparência, sabendo que estava usando roupas velhas e baratas. Ele conseguira acertar em um dos seus pontos sensíveis, pois Jill sempre gostara muito de moda. Adorava roupas finas, lindas e feitas sob medida, capazes de fazer uma pessoa se sentir linda, também. — Muito prático — ele comentou tranquilamente. — Agora, venha se sentar — ele disse, gesticulando na direção da poltrona ao seu lado. Ela hesitou por uma fração de segundos, notando os cantos da boca de Vittorio se repuxando. Não era um sorriso. Era um desafio. — Com prazer — Jill respondeu, forçando um sorriso, e graciosamente desusando para dentro da poltrona de couro macio. Sentiu o escrutínio dele ao prender o cinto de segurança e cruzar as pernas. Estava se esforçando para dar uma impressão de indiferença, mas o alto, forte e devastadoramente atraente Vittorio parecia estar sugando todo o oxigênio do aposento, deixando-a sem fôlego. Ele era forte demais. Físico demais. Imponente demais. O fato de também ser um dos homens mais poderosos e influentes no mundo também mal parecia justo, considerando todos os seus outros atributos. — Eu pedi um pouco de champanha — Vitt disse, sentando-se à esquerda dela. — Tomaremos uma taça agora, e outra para comemorar, assim que estivermos nivelados. 25


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Como ele era frio. Como era cruel. Mas, por que não haveria de comemorar? Fora bem-sucedido em encurralá-la e em apossar-se de seu filho. Dolorosamente, ela esforçou-se em esboçar um sorriso. — Desde o Bellagio que não tomo champanha. Suponho que tenhamos voltado ao ponto de partida. — Só que, naquela época, você era uma curvilínea e estonteante morena, com cabelos castanho-claros e olhos azuis-violeta, como os de Elizabeth Taylor. Agora, transformou-se na própria garota de praia da Califórnia. Loura, magra e bronzeada. Uma transformação impressionante. É uma verdadeira Perita em disfarces. — Fique feliz que minha engenhosidade o tenha impressionado — ela respondeu, antes de virar o rosto para fitar através da janela do avião. Jamais quisera ser engenhosa. Fora uma menininha sonhadora, mimada, protegida. Seus pais, americanos de classe média alta. Cursara uma escola católica particular. Nada na sua vida a preparara para a revelação de que seu pai não era simplesmente um membro de uma organização do submundo, mas um traidor dentro dessa organização. Era desprezado por todos, e, quando testemunhara contra a organização, colocara toda a família em perigo. De um dia para o outro, com doze anos de idade, Jillian fora tirada de sua escola, de seus amigos, de sua comunidade. A nova vida, as novas identidades foram um desafio para Jillian. As mudanças foram difíceis. O isolamento, às vezes, insuportável. Mas, ao longo dos anos, ela se acostumara a ser essas outras pessoas, a fazer o papel necessário. Sua irmã mais nova, Katie, não foi tão habilidosa, nem tão disciplinada e focada. Dois anos e meio atrás, apenas oito meses antes de Jillian conhecer Vitt na Turquia, Katie se apaixonara por um belo desconhecido, um aluno da Universidade de Illinois, e, sentindo-se segura, revelara quem ela realmente era. Acabara pagando pelo erro com a própria vida. Jillian não cometeria o mesmo erro. Ela aprendera a não confiar em belos desconhecidos, ainda mais em homens com ligações com o crime organizado. A lembrança encheu Jillian de emoção. Ela ficara arrasada com a morte de Katie. O telefonema da mãe, dando-lhe a notícia, fora o telefonema mais terrível que já recebera. Mesmo agora, Jillian ainda se sentia destroçada. Ela havia sido a irmã mais velha. Proteger Katie havia sido o seu trabalho. Contado, ela falhara. E, agora, Jillian tinha Joe, só que, desta vez, ela não falharia. Desta vez, faria a coisa certa, e protegeria Joe com a própria vida. — Jill. Sua taça. Jillian virou a cabeça para de deparar com a comissária de bordo estendendo-lhe uma taça de champanhe. Vittorio já estava com a dele. Implacavelmente, reprimiu as lembranças de Katie e da sua família, sufocando em seu íntimo as emoções. Não podia mudar o passado. Podia apenas seguir em frente. Ela pegou a taça. — Obrigada. A comissária de bordo desapareceu, deixando-os a sós, e Vittorio ergueu o seu copo, com um sorriso devastadoramente sensual. 26


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Proponho um brinde. Ela ergueu o próprio copo. Pesado, tão pesado quanto o seu coração, e aguardou que ele terminasse o brinde. Após alguns instantes de suspense, sorrindo sem estar sorrindo, Vittorio encostou a taça na borda da dela. — Ao futuro — disse. — E às nossas vidas juntos. Jill sentiu um aperto no coração. Será que ele estava brincando? Que tipo de vida teriam quando não havia amor, confiança e nem respeito entre eles? Mais uma vez sentiu os olhos arderem, e disfarçou a mágoa com um sorriso frio e duro. — A Joe — disse, mudando o brinde. — A Joe — ele concordou. — Ao filho que fizemos juntos. Eles beberam. Após engolir o líquido delicioso, ela fitou a própria taça, observando as pequeninas bolhas vindo à superfície. Outrora, adorara como uma taça de champanha de boa qualidade era capaz de fazê-la sentir-se elegante. Linda. Confessara isso a Vitt, e, por uma semana, ele pediu para ela uma taça de champanhe antes do jantar. Será que ele se lembrava? Fora por isso que pedira champanha agora? Ela virou a cabeça para fitá-lo nos olhos. Sua expressão era reservada. Jillian não conseguiu ver nada ali. — Está se sentindo bonita agora? — Vittorio perguntou, preguiçosamente, observando-a com aqueles misteriosos olhos escuros. Quer dizer que ele realmente se lembrava. — Como uma princesa — respondeu. — E estamos vivendo um conto de fadas — ele retrucou zombeteiramente. Ela desviou o olhar. — Posso ir buscar Joe, por favor? — disse, esforçando-se para manter um tom de voz neutro. — Estamos prestes a decolar, e eu me sentiria mais à vontade voando, se ele estivesse aqui comigo. — Mas ele está bem onde está. Maria está cuidando bem dele. Jillian inspirou lentamente, e, em seguida, expirou. Será que escutara direito? Vitt estava tomando decisões por ela? Estava decidindo quando e sob que circunstâncias ela veria o próprio filho? Ela lutou contra a onda de náusea que ameaçou apossar-se dela. — Estou com saudades dele, Vitt. Não passei muito tempo com ele hoje... —... Porque você o deixou para trás. Você regularmente o deixava para trás. Mais uma vez ela sentiu o seu íntimo se retorcer. — Eu tinha de trabalhar. — Não, não tinha. Poderia ter me procurado. Eu a teria sustentado, teria garantido que você pudesse ter ficado em casa com ele. O piso vibrou sob os pés de Jill. — Eu queria o melhor para Joe. Queria que ele tivesse o que eu não tive... Segurança. Estabilidade. 27


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — E acha mesmo que fugir, e se esconder, e viver sob falsa identidade era o modo de conseguir isso? — Joe não teria uma identidade falsa. — Ele já tinha! Você contou para Hannah que todos os registros médicos o identificavam como Michael Holiday. Que quando o matriculasse na escola, ele seria chamado de Mike. Jillian corou, e mexeu-se no seu assento. Vittorio tinha razão, e, quando colocado daquela forma, realmente parecia horrível. — Isso ainda não aconteceu — disse baixinho, sentindo-se pouco à vontade. — Foi só uma ideia. — Não, não foi só uma ideia, foi o que você pensou ser um bom plano. Ela estremeceu ofendida com o seu tom zombeteiro. Vittorio não entendia que, para proteger Joe, ela tivera de pensar como uma sobrevivente tivera de considerar todas e quaisquer possibilidades. — Posso ter cometido alguns erros — ela admitiu, com a voz carregada de emoções, mas recusando-se a dar vazão às lágrimas. Recusava-se a chorar diante do inimigo. — Mas eu só queria o melhor para ele. — E é o que ele tem agora. A mãe e o pai, juntos, sob o mesmo teto. Que menino de sorte. Deus, como ele era odioso e cruel, determinado a fazê-la sofrer. Ela cerrou os dentes, controlando as emoções. — E será que o nosso menino de sorte pode se juntar a nós? Será que ele pode sentar-se com o pai e a mãe, enquanto o avião decola? Vitt estudou-lhe o rosto pálido por um longo instante, depois, sorriu, quase gentilmente. — Nosso filho está muito confortável e dormindo profundamente na cama de armar nos aposentos dos empregados. Maria o trará para nós, quando ele acordar. O avião começou a se movimentar, taxiando pela pista. — Por favor, Vitt. Por favor, deixe-me ficar com ele. Eu o quero. Preciso dele comigo. — Apesar de ele estar dormindo na sua cama de viagens? Ela teve a vida inteira destroçada pelas mentiras do pai. Sua única irmã morrera em um acidente que a polícia classificara de "suspeito", no entanto, ninguém jamais fora preso. A mãe, temendo futuras represálias, rompera contato com ela. A única âncora na vida de Jillian era Joe. Ele era a razão, a única razão, pela qual ele sobrevivera a tantos golpes. — É. Vittorio a estudou por um demorado e silencioso instante. — Realmente quer que eu mande acordá-lo, apenas para que possa segurá-lo no colo? Ela notou o tom de voz condescendente. Além de um pouco de incredulidade. Afinal de contas, que tipo de mulher colocaria as próprias necessidades antes das do filho? 28


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Não — respondeu, erguendo a mão diante dos olhos, para que ele não pudesse enxergar as lágrimas. — Não. Você tem razão. Não quero acordá-lo. Está na hora do soninho dele. É melhor ele dormir. Mais uma vez, Vitt submeteu-a ao seu escrutínio. — Às vezes, é difícil fazer a coisa certa, porém, eu descobri que, difícil ou não, fazer a coisa certa é a única opção real. O jato estava se movimentando mais rápido, agora, acelerando pela pista de decolagem, adquirindo mais velocidade a cada segundo que passava. Em poucos instantes, eles levantaram vôo. Em 11 horas estariam na Sicília, no mundo dele, e Joe, seu filho, seu bebê, estaria morando no lar de Joe. E se Joe iria morar na casa de Vitt, onde é que ela ia morar? Será que Vittorio a manteria por perto, ou lhe montaria um apartamento ou uma casa nos arredores de sua residência? — Minha família é antiquada — Vitt disse, rompendo o silêncio. — E minha mãe é extremamente religiosa. A princípio, ela poderá parecer fria e inacessível, contudo, com o tempo, ela aprenderá a aceitá-la. Mas, você terá de lhe dar tempo. Ela demora a aceitar mudanças. Isso não parecia muito encorajador, Jillian pensou, desviando a sua atenção da vista do Oceano Pacífico para fitá-lo. — Ela está aborrecida com você por ter tido um filho sem ter se casado? — Ela não sabe. Os olhos de Jillian se arregalaram. — O quê? Ele sacudiu a cabeça. — Eu não lhe contei. Nem a ninguém mais na minha família. — Notando-lhe a expressão, ele deu de ombros. — Não havia motivo para compartilhar a notícia. Você estava fugindo de mim. Eu ainda não tinha acesso legal ao menino. A situação agora é outra. — E agora? — Agora é uma ocasião alegre. Minha esposa e filho estão retornando para casa comigo. Tudo está bem. Tudo está como deveria ser. Sua esposa e filho... Sua esposa e filho... Sua esposa. Seu coração bateu forte no interior do peito, e sua mão tremeu ao apertar a taça. Será que fora por isso que ele pedira champanha? — Quer dizer que será essa a história que contaremos? — Não será uma história. Ela suspirou profundamente. Ao mesmo tempo, um protesto e uma prece. — Vittorio. — O comandante tem a autoridade para nos casar durante o vôo, permitindo que aterrissássemos na Sicília amanhã como marido e mulher. — Isso é loucura — ela sussurrou. 29


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Por que é loucura? Nós chegamos casados, descendo do avião como uma família. Joseph não será mais ilegítimo. Você será minha esposa. Problema resolvido. Problema resolvido? Problema multiplicado. A cabeça dela girou. Estava zonza devido ao choque. Casamento era algo sério, algo definitivo, ainda mais entre os mafiosos. Uma vez tendo se juntado à família, não havia mais escapatória. Pelo menos, não com vida. — Sua família jamais ouviu falar de mim, e, de repente, do nada, você aparece comigo, me apresentando como a sua esposa, e Joe como seu filho...? — Seria a verdade. — Jamais nos aceitarão desse jeito, Vittorio. Deve saber disso. Ainda mais a sua mãe. Ela ficará magoada por você ter escondido tudo dela, e desconfiada por apenas agora estar nos apresentando. Ela terá tantas perguntas... Por que não houve noivado ou casamento propriamente ditos? Por que não lhe contou sobre a gravidez, ou sobre o nascimento de Joe? Você o está trazendo para a Sicília com quase um ano de idade. Sabe que isso não vai cair bem. Os olhos dele jamais se desviaram de seu rosto, um ligeiro sorriso brincando nos cantos da boca. — E o que prefere que eu conte para ela? A verdade? Que você fugiu quando a minha criada de dezoito anos de idade lhe disse que eu fazia parte da máfia? Que, então, você escondeu de mim a sua gravidez, e não me deixou ver o meu filho após o seu nascimento? Acha que isso seria melhor, Jill? — Não — ela respondeu, após um instante. — Sendo assim, temos de inventar uma história aceitável, uma que comprometa o mínimo possível a nossa integridade, porque eu não gosto de mentir para a minha família. Não acredito em mentiras, muito menos em enganar meu pai e minha mãe. Mas, tenho de pensar no meu filho, e sacrificaria qualquer coisa para lhe garantir o bemestar. E vendo a determinação implacável naqueles olhos escuros, ela acreditou nele. Mas também acreditava que havia mais de uma maneira de conseguir as coisas. A vida era repleta de possibilidades. Sempre havia opções, e estas precisavam ser consideradas. — Você não precisa se casar comigo para apresentar Joe como seu filho. Ele é o seu filho. Sempre será o seu filho... — Aonde quer chegar? — Que seria mais fácil para você e Joe se não se casasse comigo. Apresente-me como a mãe de Joe. Que sua mãe pense o pior de mim... Que sou uma sirigaita, uma interesseira, ou o que quer que seja. Pelo menos, desse modo, ela ficará furiosa comigo, não com você. Ele ergueu uma das sobrancelhas escuras. — É muita gentileza sua se sacrificar por nossa causa. É gratificante saber que ainda tem sentimentos por mim. — Não é o que eu quis dizer. — E o que é que quis dizer? Jillian enrubesceu. 30


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Que ela ficará furiosa. — Sem dúvida. — Ele filosoficamente deu de ombros. — Mas eu já sou adulto, um homem e o chefe da família. Não presto contas à minha mãe e você não precisa temêla. Contanto que faça o seu papel de esposa dedicada, ela, mais cedo ou mais tarde, ficará feliz. As palavras esposa dedicada ecoaram na cabeça de Jill. E o que mais ela seria? Afinal de contas, era a filha mais velha de um mafioso de Detroit. Por que não deveria se casar com o chefe do crime organizado da Sicília? Foi então que imaginou a irmã, acompanhada de uma explosão de cores. Os olhos azuis da irmã. As chamas vermelhas e douradas do carro queimando. A tinta preta do artigo de jornal noticiando a morte de Katie Smith, de 21 anos de idade. Pelo menos a irmã morrera rapidamente. Pelo menos nem se dera conta do que estava acontecendo. — Decerto, há outras possibilidades que possamos explorar disse, após um instante. — Papéis que exigissem menos atuação... Papéis mais fáceis de acreditar. E que papeis seriam esses? Babá do meu filho? Minha amante? Minha o quê, Jill Smith? Que papel escolheria representar na minha vida? — O da mãe de Joe. — E pode representá-lo. Desde que esteja casada com o pai de Joe. Minha família tem uma história desonrosa, uma história que você jogou na minha cara — Vittorio prosseguiu, em voz baixa, após alguns instantes. — Mas meu pai trabalhou duro para mudar o passado, e eu continuei a sua luta. Nós trabalhamos duro demais, sacrificamos demais, para ver Joseph herdar escândalo e desprezo. Ninguém jamais saberá que ele nasceu fora do matrimônio. Ele não crescerá marcado pela vergonha. Engolindo o restante do champanha, ele ficou de pé. — A cerimônia será realizada daqui a meia hora, antes que o menino acorde — disse, olhando para ela. — Encontre algo adequado para a cerimônia na sua mala, algo elegante e festivo. Algo que dê para passar como comemorativo. Não espero que vá usar branco, mas prata, bege ou dourado seria ótimo. Afinal de contas, queremos boas lembranças deste nosso dia especial.

CapítuloQuatro

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Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Jillian estava fumegando na sua cabina ao fitar a mala aberta prata, dourado ou bege? Algo comemorativo para a cerimônia? Há! Ele estava fora de si. O poder claramente lhe subira à cabeça. De modo algum ela iria usar um reluzente vestido de festa para os votos dos dois. Porque isto não era uma ocasião especial, e ela não estava comemorando. Era Vittorio quem estava insistindo no casamento. Era ele quem a estava forçando a levar isto adiante. Muito bem. Ele podia forçá-la. Mas ela se recusava a ir ao encontro dele vestida como uma bonequinha de porcelana, incapaz de pensar por si mesma. Não, ela se vestiria para a ocasião ao seu próprio modo. O que significava que encontraria o vestido mais escuro, simples e pouco atraente que tinha e o usaria para os seus votos. Jillian permitiu-se um ligeiro sorriso ao tirar uma blusa preta de gola alta e uma comprida saia cinza do fundo da mala. Perfeito. Cinza e preto. As cores perfeitas para o luto. Trinta minutos mais tarde, Vittorio estava postado no centro da sala de estar do jato, segurando a mão de Jill, enquanto recitava os votos. O comandante do avião celebrou a cerimônia simples Ele notou que Jill vestira-se como se estivesse indo para um enterro, com a estreita e comprida saia cinza, a blusa preta de gola alta abotoada até o pescoço e o cabelo claro puxado para trás, preso em um coque na nuca. Não estava usando jóias e nem maquiagem, e nem que quisesse poderia ter dado maior impressão de tristeza. Mas ela levou a cabo a cerimônia, proferindo com clareza os votos, em um tom quase desafiador, e estendendo firmemente a mão, para que ele pudesse colocar a aliança no seu dedo. E, agora, o comandante concluía a cerimônia, declarando-os marido e mulher. O homem não se demorou. Tendo concluído a sua missão, ele retornou a cabina, permitindo que Jill e Vitt comemorassem por conta própria. A comissária de bordo apareceu trazendo mais champanha, e uma bandeja de prata contendo delicados aperitivos. Vittorio comeu e bebeu, mas Jill sequer tocou na comida e na bebida. Isso não o incomodou. Não se tratava de um casamento por amor. Dizia respeito ao dever, ao compromisso e a responsabilidade. Uma maneira de restaurar a honra de sua família. — Jill D’severano — ele experimentou dizer, estudando-lhe o rosto. — Senhora Vittorio D’severano. Com uma expressão sofrida, ela ergueu o queixo. Aparentemente, não gostava muito do nome. — Gostaria de poder dizer que o pior já passara — Vittorio acrescentou pensativamente —, mas amanhã não será fácil. Nem o dia seguinte. Mas, após uma semana, o choque começará a ser absorvido, e a aceitação terá início. — Vai levar mais do que apenas uma semana para eu me acostumar com a ideia de ser sua esposa. Ele riu. 32


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Eu estava falando da minha mãe, e qual será a reação dela com relação a você. Mas, suponho que tenha razão. Você também deve estar chocada. Como poderia saber, quando acordou, esta manhã, que doze horas mais tarde, estaria em um avião rumo a Sicília, casada comigo? Chamas arderam nos olhos dela. — A sua empatia é tocante. — A minha empatia me permite protegê-la, em vez de esmagá-la. Deveria ser grata por isso. Ela abriu a boca para falar, mas voltou a fechá-la, sacudindo a cabeça em silêncio, fumegando de frustração. — E desabotoe essa sua blusa — ele disse, em um tom duro. Afinal de contas, era o dia do casamento dele, e Vittorio não permitiria que ela bancasse a vítima, quando fora ela que criara a situação. Uma situação que ele dera duro para consertar. — Está parecendo uma ameixa seca. Ela o fitou nos olhos. — Gosto de ameixas. — Eu não. — Eu só lamento. — Se eu fosse você, desabotoaria a blusa um pouquinho, sorriria um pouquinho, e fingiria que este não é o pior dia de minha vida. — Quando, na verdade, é. — Eu deveria tê-la deixado na beira da estrada quando tive chance. — Tarde demais. Você me trouxe junto. Casou-se comigo. Agora, somos marido e mulher. — E mulheres são submissas aos maridos. — Para acreditar nisso, também deve acreditar que os maridos são submissos à igreja. Mas, de algum modo, eu duvido que você se submeta a alguém — ela retrucou, cerrando os dentes. — Obedeça — Vittorio ordenou, bruscamente, tomado de fúria. — Desabotoe alguns botões, antes que eu mesmo o faça. — É para consumarmos o casamento aqui? — ela retrucou. — Agora mesmo? — Não havia sido a minha intenção, mas se está ansiosa... — Nem um pouco. —... E desejosa de ser a minha esposa obediente e prestativa... — É a última coisa que me passa pela cabeça. —... Pode me dar prazer. Fico feliz de que esteja tão preocupada com minhas necessidades. Ela corou furiosamente, suas faces pálidas assumindo uma tonalidade carmesim vibrante. — Se me lembro bem, você tem muitas necessidades. Ele avançou um passo na direção dela. — E você implorou todas às vezes. Sem se deixar intimidar, ela avançou um passo na direção dele. 33


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Não seja convencido. — Não estou sendo convencido. Se não se lembra, você ficava admirada com o que o meu corpo era capaz de fazer e como eu a fazia se sentir. Queria saber se todos os homens eram tão bem dotados quanto eu, e se outros eram capazes de agüentar tanto tempo. Você era quase reverente ao me tomar na boca... — Eu estava cansada de ser virgem. Queria conhecimento e experiência. Você me deu isso. Mas, já estive com outros homens, agora. Sei o que os outros são capazes de fazer, e, ah, o que eles não fazem. Ele deu outro passo na direção de Jillian, e, mais uma vez, ela avançou com o queixo erguido e o desafio no olhar. Ela estava deliberadamente provocando-o, desafiando-o a perder o controle. Vittorio também estava chegando perto de perder o controle. — E o que eles fazem? — murmurou altamente excitado. — Eles me fazem gemer e gritar — ela retrucou suas faces um vívido tom rosado. — É mesmo? — H-hum. E os melhores me fazem chegar ao clímax várias vezes. — Você realmente já rodou um bocado. — E por que não? Não era a sua mulher. — Mas é agora. — Vittorio estendeu o braço, e agarrando-a pela cintura, puxou-a para si. Com o corpo quente, e a virilha rija, ele enfiou os dedos por baixo dos botões na altura do esterno de Jillian, abrindo o primeiro. — Exatamente como sempre será — disse, arrancando o segundo botão da casa. — Sendo assim vamos nos livrar desta blusa, está bem? Os lábios de Jillian estavam quase tão rosados quanto às faces. — Por que não levanta logo a minha saia e acaba de uma vez com isto? Ela cuspiu as palavras, como se para constrangê-lo. Mas Vittorio não permitiria que isso acontecesse. Lembrava-se de como os dois eram quando juntos. Intensos. Físicos. Passionais. — Para que apressar o nosso prazer? — perguntou, estendendo a mão na direção de uma mecha loura que caía por sobre o ombro de Jill. Com uma expressão de desdém, ela o fitou nos olhos. — Nem que tentasse você saberia como me dar prazer. — Está tentando me provocar? — Não. Apenas deixando claros os fatos. Fatos. Os lábios dele curvaram-se ligeiramente. Apesar de tudo, ela ainda estava determinada a fazer joguinhos com ele, algo que Vittorio, ao mesmo tempo, achava perturbador e intrigante. Ou Jill era incrivelmente corajosa, ou ridiculamente tola. Independente do que fosse ela o intrigava. Dos motivos para isso era o fato de tão poucas pessoas ousarem desafiá-lo, quanto mais um fiapo de mulher, que mal lhe alcançava os ombros. Jill Smith era um completo enigma. Era pequena e esbelta, no entanto era tão impetuosa. Ele pôde enxergar o fogo nos olhos de Jill, quando ela jogou a cabeça para trás, como se fosse uma tigresa, e, para feri-lo, ela falou de outros homens. 34


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Vittorio deveria estar com vontade de esmagá-la, de ensinar-lhe uma lição. Mas, não era o caso. Pois também sabia que sob toda aquela fúria havia uma terrível tristeza. Pressentira isso na primeira noite que passaram juntos, e, em seguida, em quase todas as noites, após terem feito amor, ela o abraçaria com força, agarrando-se a ele como se sua vida dependesse disso. Ele a envolveria apertadamente com os braços e lhe acaricia-ria os cabelos até Jill adormecer. Algumas noites, Vittorio sentiu lágrimas no seu peito. Algumas noites, ele a sentiu inspirar profunda e tremulamente. Mas sempre a tristeza, despertando nele a necessidade de ajudá-la, de salvá-la, de protegê-la. Fora então que descobrira amá-la. Fora então que se imaginara desposando-a. Casar-se-ia com ela e lhe daria uma vida nova, uma vida melhor. Poderia recomeçar como uma D’severano, ao lado dele. E, agora, ela era sua esposa, mas sob circunstâncias completamente diferentes. O que lhe intrigava a mente, mas deixava o seu coração frio. — Entendo — disse tranquilamente. — Está é a sua ideia de preliminares. Quer que eu fale obscenidades, que a trate com rudeza antes de dominá-la na cama. As faces dela arderam. — Como você é grosseiro. Um sorriso desprovido de emoções desenhou-se no rosto dele. — Foi você quem sugeriu que eu lhe levantasse as saias e acabasse logo com isso. Será que prefere que eu faça isto aqui, de encontro à parede, ou prefere que eu a curve sobre a poltrona e a possua por trás? Pelo que me lembro, você adorava ficar de quatro... — Adorava — ela o interrompeu, bruscamente. — Passado. Pois, agora, jamais gostarei de fazer sexo com você... — Pare. Poupe seus protestos para alguém que vá acreditar neles. Eu conheço a verdade. Sempre adorou vir para a minha cama, e, mesmo se já esteve com cem homens desde então, sei que está ansiosa para fazê-lo novamente. Os olhos dela arderam. Suas faces ficaram vermelhas. — Eu não poderia... — Você poderia sim. Facilmente. Como se para provar que tinha razão, Vittorio levou a mão ao queixo de Jill e lhe inclinou o rosto para roçar os lábios na pele acetinada de sua face, descendo até o canto de sua boca. A boca de Vittorio mal tocou na de Jillian, no entanto, ele pôde lhe sentir o lábio inferior tremer, escutá-la inspirar tremulamente. Ele a beijou novamente, um beijo rápido, provocante. Podia perceber que ela estava se esforçando para permanecer imóvel, esforçando-se para fingir indiferença, e, no entanto, podia notar a veia no seu pescoço pulsando mais rápido, e o ardor de sua pele. Ela estava quase febril ao toque, e os 35


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter lábios, ainda há pouco cerrados, agora, estavam entreabertos, respirando ofegantemente, de um modo que ele sempre achara erótico. Em vez de beijá-la novamente, enfiou a mão para dentro da blusa rasgada, afastando-lhe o sutiã para agarrar um dos seios. Sua pele quente sob o cetim, e seu corpo, já duro, latejou. Quando apertou o mamilo entre os dedos, Jillian arqueou, inspirando profundamente, e Vittorio a puxou de encontro a si, roçando os quadris nos dela, para que ela pudesse sentir a intensidade e o ardor de seu membro ereto roçando entre as coxas. Ela estremeceu, arqueou, e gemeu. O gemido foi o que o enlouqueceu, eliminando qualquer pensamento racional, destruindo o controle. Erguendo-lhe a saia, enfiou a mão entre as suas coxas, sentindo-lhe as pernas tremerem, enquanto a palma de sua mão acariciava a musculatura lisa e tesa. Deslizou a mão para cima, até alcançar o elástico da calcinha. Jillian era tão sensível quanto ele se recordava, Bastou uma carícia sob o clitóris intumescido para ela choramingar e se contorcer. Ela o queria. E ele era marido dela. Apesar de não ter planejado possuí-la ali, naquele instante, daquele modo, o macho primitivo em seu íntimo admitiu que podia e devia fazê-lo. Porque ela era dele. Porque, agora, seria sempre dele. Ele enfiou os dedos para o interior do sexo úmido de Jill, escutando o suspiro dela e sentindo os músculos apertando-se ao redor dos dedos. Ficou imóvel, deliciando-se com sua maciez, sua tensão, mas ela era impaciente, e começou a se movimentar de encontro a ele, precisando senti-lo. Ele a acariciou. Ela arqueou-se e choramingou, e ambos sabiam que não era o suficiente. Jamais seria o suficiente. Não entre os dois. Ele a possuiria agora. E começaria com a boca. Com um movimento rápido, puxou a saia cinza até os pés dele. A calcinha veio logo em seguida, e, após despi-la, retirou-lhe os sapatos. Jill estava seminua, e tremendo, mas não estava com medo. Vittorio sabia que ela estava tremendo de desejo. Erguendo-a, posicionou-a de barriga para baixo sobre o braço da poltrona, erguendo-lhe o bumbum no ar. Ele passou a mão sobre as nádegas de Jill, na direção de sua fenda, e, em seguida, desceu até os lábios macios entre as coxas. Ela voltou a se retesar e a estremecer quando ele acariciou novamente a fenda, provocando a carne intumescida até ela girar os quadris em um ato de desespero. Afastando-lhe mais as pernas, ajoelhou-se atrás de Jill e tomou na boca o seu clitóris latejante, alternadamente lambendo e sugando, até ela começar a implorar para que ele a montasse, para que a possuísse. Ele recusou. Queria que ela esperneasse e gemesse até se despedaçar de encontro a sua boca, e ele pudesse sentir na língua a sua rendição. — Por favor, Vitt — ela ofegou. — Por favor, por favor. Mas ele se recusava a preenchê-la, a satisfazê-la até que houvesse satisfeito a si mesmo, fazendo-a chegar ao clímax daquele modo. Sendo assim, continuou a lambê-la, cobrindo-lhe a pele macia e úmida com a boca, sugando com mais força, estalando a 36


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter ponta da língua sobre as dobras delicadas, até ela ceder, gritando ao chegar ao clímax, em ondas consecutivas que lhe sacudia indefesamente o corpo. Sem se dar ao trabalho de tirar a própria roupa, ele retirou o membro através do zíper e introduziu para o interior do sexo quente e úmido de Jill, enquanto ela ainda estava tremendo. Era primitivo, primordial, montá-la daquela maneira, mas seu corpo estava teso e duro, e prestes a explodir. Com as mãos nos seus quadris, ele a segurou com firmeza, possuindo-a com profundas e demoradas estocadas. Gemeu de prazer, ao mesmo tempo em que se odiava por ser tão implacável. No seu íntimo, sabia que uma mulher precisava de mais gentileza. No seu íntimo, quisera amá-la, e não simplesmente possuí-la. Mas possuindo-a estava. Sentiu-se ainda mais selvagem ao aproximar-se do próprio clímax, e, quando estremeceu, sentindo a pressão se acumular, Jill arqueou-se para trás, chegando novamente ao apogeu, gritando mais alto do que antes. Ele chegou ao clímax no íntimo dela, descarregando sua semente, e passou pela sua cabeça que fora assim que acontecera antes. Não usaram proteção da primeira vez, embora houvessem usado todas as outras vezes. Porém, bastava uma vez. Talvez houvesse acontecido novamente. Saciado, ele lentamente retirou-se de dentro dela, as emoções tão esgotadas quanto o seu corpo estava exausto. Esperava sentir alguma coisa. Prazer, remorso, alívio. No entanto, sentiu dor. Dor. Como isso era possível? E, por quê? Por que haveria ele de se sentir mal, quando fora ela a fazer a coisa errada? Furioso com as sombrias emoções que tentavam se apossar dele, Vittorio deu um tapa nas nádegas empinadas de Jill. — Acho que vou gostar da vida de casado. Sentindo as emoções em conflito, pôs-se de volta para dentro das calças, subiu o zíper, e foi embora, deixando-se sozinha para recompor-se. Por um instante, após ele sair, Jill nada fez. As pernas estavam bambas. Os braços tremiam. Era como se uma bomba houvesse explodido em seu íntimo. Alguns segundos se passaram, e ela se levantou, forçando-se a se mexer. Mordendo os lábios, Jill endireitou-se, e começou a reunir as roupas espalhadas pelo chão. Entorpecida, tão entorpecida, ela caminhou rapidamente até o seu quarto, sentindo a garganta arder de tantas emoções reprimidas. Mas, no seu quarto, as lágrimas rolaram, e ela as enxugou furiosamente. Odiavase por chorar, mas não estava chorando de dor, ou impotência, ou desespero, mas de fúria. Estava furiosa consigo mesma. Furiosa com ele. Furiosa por ter gostado tanto de ter feito amor. Porque ela gostara. Muito, muito mesmo. No entanto, como era possível? Como ela podia se permitir sentir qualquer coisa com Vittorio, ainda mais prazer? E, que Deus a perdoe. Fora sublime. Ela era fraca. Era patética. 37


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter E adorara tudo. A selvageria, a primordialidade, a paixão. Fora primitivo, carnal e ardente. Tão, tão ardente. Horrível. Por um instante, Jillian sentiu-se como o pai. Uma traidora. Seu pai traíra a sua família no crime organizado. Ela traíra a si mesma. Demonstrara a mesma fraqueza de caráter. Sentiu um aperto no coração ante o pensamento. Não suportava a ideia de ser como o pai. Ele magoara tantas pessoas. Destruíra a própria família. Jill recusava-se a ser como ele. Seguindo para o banheiro, ela entrou no chuveiro estreito, ligando a água a toda potência. Estava fria, mas antes frio do que os efeitos prolongados de seu desejo febril. Pegando o sabonete, esfregou a pele, lavando de seu corpo o cheiro e a presença de Vittorio, tentando se convencer de que não pertencia a ele, embora tudo dentro de si sussurrasse: sempre vai desejá-lo. Receava ser a verdade. Mordendo o lábio inferior, enxaguou as coxas, sentindo-se dolorida no seu íntimo, onde Vitt estivera. Ele era grande e a possuíra com força, e esta fora a primeira vez que ela fizera sexo desde o nascimento de Joe. Mas Vittorio não sabia disso. Vittorio pensava que ela estivera com dezenas de homens, pois fora o que Jillian lhe dissera. Sentiu os olhos arderem, mas recusou-se a permitir que mais lágrimas escorressem. Chega de lágrimas. Precisava estar focada e esperta e pensar no que aconteceria quando alcançassem a Sicília. Amanhã de manhã, entraria no mundo de Vittorio, chegando a Catania como sua esposa. Isso deveria fazê-la sentir-se protegida. Respeitada. Infelizmente, a cerimônia às pressas a fazia sentir exatamente o oposto. Não parecera permanente, quanto mais honrosa. Talvez houvesse concedido a Joe o sobrenome de Vittorio, mas nada contribuíra para lhe aliviar os medos, ou a sensação de isolamento. Ela ainda estava vulnerável. Na Sicília, precisaria da proteção de Vittorio. Como conseguiria a sua proteção e o respeito da família dele? Sabia que não seria com um casamento às pressas. Se a mãe de Vitt era tão religiosa quanto Vittorio descrevera, ela jamais aceitaria Jill como nora, a não ser que acreditasse que a união deles fora abençoada pela igreja. Mas como isso poderia ser verdade quando sequer foram casados por um padre, ou em uma igreja? Precisariam de um casamento na igreja, e rápido. Jillian trocou-se e secou cuidadosamente os cabelos. Estava colocando os brincos, quando escutou uma batida na porta. Ao abri-la, deparou-se com Maria e Joe no corredor. — Mamã — ele disse, sorrindo e estendendo os braços para ela. Mas que surpresa maravilhosa! Jillian tomou o bebê dos braços de Maria e deu-lhe um abraço apertado. — Signore, Signor D’severano disse que o jantar será servido em 15 minutos. 38


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Vamos jantar com Joe? Maria sacudiu a cabeça. — Acho que não. Acho que serão apenas os dois, embora pensei que Joseph pudesse fazer-lhes companhia por alguns minutos. — Entre. Estou quase pronta. Só preciso terminar de escovar o cabelo. Diante do espelho no banheiro, Jillian examinou-se. O coque, somado à blusa prateada e as calças escuras dava-lhe um ar quase elegante. Ela parecia sofisticada. Serena. Forte. Serena e forte era bom, pois, tinha um propósito. Ia convencer Vittorio de que precisavam se casar novamente, mas, desta vez, em uma linda cerimônia em sua cidade natal, na igreja da comunidade, diante da família e dos amigos. Não sabia como ele reagiria à sugestão. Sabia apenas que precisaria convencê-lo de sua necessidade. Vittorio juntou-se a ela e a Joe na sala de jantar, e estava lindo como sempre, usando calças escuras e camisa branca. O cabelo úmido estava penteado para trás. Ela deveria odiá-lo. Mas não conseguia. Porque, só de olhar para ele, Jillian já o desejava. Bastava olhar para aquele rosto lindo para sentir o seu corpo arder. Fazia apenas uma hora que ele lhe abrira as pernas e lhe cobrira as partes mais sensíveis com os lábios? Fora maravilhoso fazer amor com ele. Quem poderia dizer que tamanho prazer fosse possível? No entanto, o desejo tinha o seu preço. E, será que ela ainda não aprendera que aqueles que precisavam dos outros abriam mão do poder? E ela não estava cansada de tanta impotência? Desde quando era criança estivera à mercê de outros. Primeiro, do pai. Depois, do governo. Entre as idades de 12 e 20 anos, moraram em cinco estados diferentes com quatro identidades distintas. Cada nova identidade exigia uma nova aparência, uma nova história. A princípio, fora difícil lembrar-se do enredo. Lee Black de Ashford, Oregon. Carol Cooper de Fountain Hills, Arizona. Anne Johnson, Fredericksbürg, Texas. Jillian Smith, Visalia, Califórnia. E, então, passou a não ser difícil, pois ela parou de se importar. Passou a ser mais fácil não tentar se encaixar. Mas fácil não fazer amigos, afinal de contas, não teria logo de deixá-los sem qualquer explicação, ou qualquer esperança de voltar a vê-los? No Programa Federal de Proteção a Testemunhas não havia troca de novos endereços ou números de telefone. Você simplesmente desaparecia da noite para o dia. Tal falta de estabilidade, de controle, transformou-a de uma garota mimada e inocente, uma garotinha que adorara o pai, que sempre se sentira segura, na mulher que era hoje. Desde o instante em que saíra de casa para ir para a faculdade, tivera um único objetivo, ser completamente independente. Após a universidade buscara um mestrado em gerenciamento de hotéis, acreditando que o estado prático lhe catapultaria a 39


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter carreira até o topo. Porque o que sempre quisera fora ter seu próprio poder. Poder de escolha. Poder de viajar. Poder de se tornar outra pessoa. E chegara tão perto de ter tal poder e liberdade. Em Istambul tinha o seu trabalho, seu próprio apartamento, um bom círculo de amizades. Fora então que conhecera Vittorio, e aceitara o seu convite para jantar, e sua vida jamais fora a mesma. Naquela única noite, sem nem mesmo saber, abrira mão de tudo. — Ainda não consigo me acostumar com o fato de você estar loura — ele disse, aproximando-se dela. — Não lhe agrada? — ela perguntou, ajeitando Joe nos braços — Não foi feito para me agradar. — Ele a fitou nos olhos. — Foi feito para escondê-la de mim. Para escondê-lo de mim. — acrescentou, assentindo na direção de Joe. Ela recusou-se a se deixar intimidar. — Verdade. — E você não se sente mal por isso? — Fiz o que pensei ser necessário. Mas o que passou, passou. Agora, você é meu marido. Meu protetor. Nada tenho a temer com você ao meu lado. Ele a fitou por um longo instante. — E você nada tem a temer desde que seja sincera comigo. — Seus intensos olhos escuros pareciam queimá-la. — Desde que eu possa confiar em você. Em seguida, ele estendeu as mãos para o próprio filho.

CapítuloCinco Quando Jillian soltou Joe, seus lábios se curvaram em um terrível sorriso de escárnio dirigido a si mesma. Nada tinha a temer desde que fosse sincera com Vitt. O que significava que tinha muito a temer, pois jamais poderia ser sincera com ele. Jamais poderia compartilhar seu passado com ele, pelo menos, não antes de ter 40


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter certeza de que estaria segura com ele. Não até que soubesse que poderia confiar nele, pois estaria lhe confiando à vida. Era simples assim, visto que seus segredos eram igualmente Perigosos. Bastava lembrar-se do que acontecera com Katie. Ela compartilhara a coisa errada com a pessoa errada, e acabara morta, Jillian não podia correr o mesmo risco. Não quando Joe precisava tanto dela. Mas, ao observar Vittorio com o filho dela, com o filho deles, Jillian não pôde deixar de se maravilhar com o fato de Joe não ter chorado, nem estranhado, quando Vitt o pegara. Parecia estar muito confortável e satisfeito nos braços de Vitt. Era algo incomum para Joe ficar tão relaxado com alguém desconhecido. Era notável. Extraordinário. Vittorio e Joseph já se davam bem. — Você leva jeito com crianças — Jillian comentou, tentando reprimir suas emoções contraditórias. — Tenho quatro sobrinhas e três sobrinhos, e peguei todos eles no colo poucas horas após seus nascimentos — ele respondeu. — Quer dizer que seus irmãos e irmãs moram perto de você? — ela indagou, sabendo que iria conhecer a família dele muito em breve, e que teria de aprender a conviver com ela. Vitt inclinou a cabeça, e deu um beijo na têmpora de Joe. — Duas moram, os outros dois moram em diferentes países. Contudo, sempre estou presente para a chegada de um bebê. Nada é mais importante para mim do que a família. Ela engoliu em seco, atingida pela sensação de perda. Eram as mesmas palavras que seu pai costumava dizer quando ela era criança. Suas duas expressões favoritas eram: "Não há nada mais importante do que a família" e "Família é tudo." Pena que não estivesse sendo sincero. Ou talvez estivesse antes de ser consumido pela ganância e pela ambição descomedida. — Concordo — ela disse, em voz baixa, odiando as terríveis emoções em conflito no seu íntimo. Ao crescer, sempre fora a garotinha do papai. Ele a adorara e ela, em troca, o amara profundamente. Sempre fora um pai encantador, extrovertido, cheio de bom humor. E, então, praticamente da noite para o dia, tudo mudara. O pai, descobrindo que seria preso e acusado de uma longa lista de crimes, fez um acordo com os federais, confessando sua participação e a de todos os outros no crime organizado. Salvou a si mesmo, mas entregou a sua família do crime. Ele deveria ter ido para a prisão, pois mesmo 14 anos após ter confessado tudo para o governo, revelando tudo que sabia, e entregando todos que conhecia, o pai continuava sendo um homem odiado e caçado. Ele fizera o impensável, e a máfia se virara contra ele. 41


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Está se sentindo bem? — Vitt perguntou. Ela tentou sorrir, mas seus olhos ardiam. Descobrir aos 12 anos de idade que o pai que amava mais do que a própria vida era um ladrão, um traidor, e um covarde, partira-lhe o coração. Desde então, convivera todos os dias com a vergonha. — Estou bem. — Precisa de um pouco de água mineral? Se precisava de água mineral? Não. Precisava de perdão. De paz. E, mais do que tudo, precisava esquecer de que era filha de Frank Giordano. Porém, casada com Vittorio, jamais poderia se esquecer disso. Casada com Vittorio, jamais seria perdoada. — É uma boa ideia. Ele apertou um botão na parede, e, segundos depois, uma comissária de bordo apareceu. — Sim, senhor? — Uma água mineral, e algumas bolachas de sal. A comissária desapareceu para ir atender ao pedido, e Vitt puxou uma das cadeiras da mesa. — Venha, Jill. Sente-se antes que desmaie. Talvez, se ele soubesse a verdade agora. Se ela confessasse tudo, talvez Vittorio pudesse perdoá-la. Talvez até entendesse... A imagem de Katie lhe veio à cabeça. Será que a irmã pensara o mesmo a respeito do novo namorado, Marco, o lindo estudante de direito que ela quisera trazer Para casa, para conhecer o pai e a mãe? Será que Marco a fizera sentir-se segura? Será que, pensando enfim ter encontrado alguém que fosse protegê-la, ela se abrira com ele? Jill foi possuída por uma desesperada determinação de sobreviver. E de garantir também a sobrevivência do filho. Sendo assim, mesmo que Vittorio não fosse machucá-la, Jillian sabia que não haveria confissão. Faria o papel que concordara fazer. Lançou um olhar tranqüilo para Vittorio, mantendo a fachada impassível que cultivara com tanto cuidado ao longo do último ano e meio. — Está se sentindo culpado por ter me tratado com tanta insensibilidade antes? — perguntou, aceitando a cadeira oferecida. Ele a fitou, erguendo ligeiramente uma das sobrancelhas. — Você praticamente chorou de prazer. Fico feliz de ter podido satisfazê-la. Ela cruzou as pernas, as partes internas delas ainda sensíveis. — É assim que a nossa relação vai ser? Você toma o que quer, quando quer, e eu obedeço? — Mas é claro. Você é minha esposa. — No entanto, você me faz sentir como se eu fosse a sua meretriz. No instante em que as palavras deixaram seus lábios, ela soube que dissera a coisa errada. As palavras desagradáveis pairaram no ar. Será que realmente se sentia como uma meretriz? 42


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Ou será que ele simplesmente a possuíra como sabia fazer. Total e completamente. Abriu a boca parta se desculpar, mas foi interrompida pela chegada da comissária de bordo. A morena bonita pousou a bandeja de prata com a água e as bolachas ao lado de Jill, e Vittorio lhe passou Joe. — Peça a Maria que lhe dê o jantar — disse, acariciando as costas do filho. — Diga para Maria que iremos vê-lo antes que ele vá para a cama. E, então, ficaram sozinhos novamente, e o silêncio encheu Jill de pânico. Falara demais. Com a mão trêmula, serviu a água no copo de cristal. — Meretriz? — Vittorio repetiu baixinho. Ela não conseguia falar. Não sabia para onde olhar. — Que coisa terrível de se dizer — ele prosseguiu. Ela abaixou a cabeça. — Jamais volte a usar essa palavra — Vitt acrescentou, furiosamente. — Você é a mãe do meu filho, e minha esposa, e não permitirei que deprecie a si mesma, e o nosso relacionamento dessa maneira. Relacionamento? Que relacionamento? Jill pensou, lutando contra a náusea que ameaçava apossar-se dela. Não havia relacionamento. Ele era o ditador. E ela sua prisioneira. Sua escrava. O controle era totalmente de Vittorio, e ela teria sorte se sobrevivesse à próxima semana, quanto mais ao próximo mês com ele. — O que temos não é exatamente um relacionamento. — Nesse caso, construiremos um. Começaremos do zero. Esta noite. Agora. Ela o fitou, surpreendendo-se com a intensidade de seu olhar. Lembrou-se de quando fizeram amor, ainda há pouco, e sentiu o seu corpo reagir ao ardor e ao desejo contidos naqueles olhos escuros. — Falar é mais fácil do que fazer — disse, espantada com a química que havia entre os dois. Ele sorriu preguiçosamente. — Por que não usou isso para a cerimônia? — perguntou, levando a mão à blusa prateada. — Teria sido muito mais apropriado — acrescentou, deixando que o dedo deslizasse para baixo, acariciando-a do ombro até um dos seios intumescidos. Jill inspirou profundamente ante a sensação que se manifestou entre as suas pernas. — Não para mim — disse. — Por que não? — Eu estava zangada. Garotinhas não sonham em se casar em segredo, vergonhosamente, em pleno vôo. — Vergonhosamente? — Não houve testemunhas. Nada de amigos, família. Nem mesmo nosso filho estava presente. Franzindo a testa, Vitt abaixou a mão. — O objetivo não foi ter um casamento formal, mas nos unir. O objetivo foi proteger Joseph, e lhe dar o meu nome. 43


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Eu entendo. Mas você me perguntou por que eu não usei algo mais festivo, e eu respondi. Não me senti bem quanto ao casamento. Não me pareceu certo. Ele a estudou por um longo instante. — E o que lhe pareceria certo? Um casamento de igreja? — É. — Não pensei que fosse religiosa. — Fui criada católica. — Nunca me contou. — Você nunca perguntou. Por um longo instante, ele nada disse. Depois, levantou-se e andou de um lado para o outro no interior da sala. Por fim, deteve-se e a fitou. — Os votos valem independente de onde possamos tê-los dito. — Eu sei. Ele a fitou, visivelmente constrangido. — Mas ficou decepcionada com a nossa cerimônia? Ela lambeu os lábios. — Fiquei. — Você usou a expressão vergonhosamente. — Foi à impressão que me deu. Foi tudo tão às pressas. Sequer temos fotos para mostrar para Joe, quando ele estiver mais velho. Não posso deixar de pensar que, um dia, ele vai querer saber como foi que nos conhecemos e como foi o nosso casamento. O que acha que ele vai pensar quando não houver fotografias para lhe mostrar? — Isso é ridículo. — Eu sei. Estou sendo tola. Nem todos os casamentos têm música, velas e flores, com todos os amigos e a família reunidos. Imaginei certo tipo de casamento. Não significa que preciso dele. Joe é o que importa. Ele deveria ser a nossa única preocupação... Ela interrompeu-se ao sentir o avião chacoalhar ao passar por uma área de instabilidade. Após alguns instantes, tão inesperadamente quanto começara, a turbulência cessou. Tudo estava tranqüilo novamente. — Detesto turbulência — Jill sussurrou. — Já passou. — Eu sei, mas, ainda assim, eu detesto. — Se não tivéssemos turbulência, jamais poderíamos apreciar um vôo tranqüilo. O jantar foi uma refeição quase dolorosamente civilizada, com Vittorio fazendo o papel de anfitrião atencioso. A conversa se restringiu a assuntos seguros. O amor mútuo pela Turquia, as cidades européias favoritas, e coisas do gênero. Será que podiam recomeçar do zero? Poderiam fazer o relacionamento dar certo? — Não somos completamente incompatíveis — ele disse instantes mais tarde, como se fosse capaz de ler seus pensamentos. — Ambos gostamos de sexo, e, aparentemente, ainda gostamos de desfrutar dele juntos. Ela sentiu como se houvessem virado um balde de água gelada sobre a sua cabeça. 44


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — E isso basta para você? Os olhos escuros dele fitaram os dela. — Não bastaria, mas ainda temos Joseph, e compartilhamos a responsabilidade por ele. — É verdade. Vitt não desviou o olhar. — Talvez outra cerimônia não seja má ideia. Talvez devêssemos renovar os votos na capela, e incluir as nossas famílias. Seria bom tê-las ao nosso lado. — Elas não estarão agora? — Não. Não completamente. — Por que não? Ele sorriu. — Você não é Siciliana. Deixando a sala de jantar, seguiram para os aposentos dos empregados, onde encontraram Joe brincando com um dos guarda-costas de Vitt. Maria os observava de uma poltrona próxima. Foi naquele instante que Jill se deu conta de que, no mundo de Vitt, Joe era realeza. Era tratado como um prínci pe. Era protegido. Mimado. Era o herdeiro do trono do pai. Ele não era mais apenas o bebê dela. Tomara-se Joseph D’severano, herdando todo o poder e riqueza que acompanhavam o nome D’severano. Permaneceram nos aposentos dos empregados por alguns minutos, e Vittorio conversou com os guarda-costas como se fossem bons amigos. Talvez fossem mesmo. Terminada a conversa, ele tomou Joe nos braços e seguiu para o quarto de Jillian, onde a cama de armar fora montada. Com Vittorio ali dentro, o pequeno e luxuoso quarto pareceu claustrofóbico. Ela esforçou-se para não deixar na cara que estava acompanhando todos os movimentos dele e para agir com naturalidade. Após um banho, vestiu em Joe o pijaminha de peça única, que lembrava uma ceroula. Vitt sorriu, e, em seguida, ficou sério. — Foi difícil criá-lo sozinha? — Foi. — Ela o fitou com uma expressão triste. — Especialmente no início. Fiquei tão cansada. Quase não dormia. — Não tinha ninguém para ajudá-la? Ela sacudiu a cabeça. — Não. — Nem mesmo a sua mãe? — Há anos que não a vejo. Vittorio a viu habilmente equilibrar Joe no quadril enquanto preparava a mamadeira. — Mas não houve nenhuma preocupação? Ele jamais lhe deu sustos? — Não disse isso. Preocupava-me com ele todas as noites. Durante os seus primeiros seis meses de vida, eu acordava várias vezes ao longo da noite, para me certificar de que ele estivesse bem, de que estivesse respirando. Ficava apavorada cada vez que fechava os olhos de que algo pudesse acontecer com ele. — Tipo SMSI? Ela assentiu. 45


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Você deve achar isso tolice. — De modo algum. Um dos meus primos perdeu o filho para a Síndrome de Morte Súbita Infantil. Foi terrível. — Não consigo imaginar algo pior — ela disse, abraçando o filho. — Eu também não. — Seu primo tinha outros filhos? — Uma menininha. Ela estava com quase três anos de idade na época. — Vittorio sacudiu a cabeça. — Christopher perdeu a vida seis meses mais tarde. Fui um período difícil para a família. Jillian estremeceu ante o rumo tomado pela conversa, as palavras de Vitt despertando uma lembrança. Anos atrás, um jovem imigrante siciliano chamado Christopher morrera em Detroit, após o pai dela o acusar de trair o crime organizado de Detroit. Christopher alegara inocência, insistindo não ter vínculos com o crime organizado, mas isso não o salvara. — Como... Como foi que ele morreu? — Foi baleado. —... Onde... Onde foi que aconteceu? — Nos Estados Unidos. — Eu sei, mas onde? Vitt lançou-lhe um olhar duro. — E importa? Ela sacudiu a cabeça, mas, no íntimo, sabia que importava. E muito. — Estava falando sério sobre renovarmos nossos votos na capela D’severano? — Jill perguntou, subitamente, desesperada para mudar de assunto. — Estava. — Ele sorriu. — Contanto que você não use novamente preto. Ela não resistiu ao sorriso. — Não usarei. Eu prometo. — Ótimo. Suponho que isso signifique que teremos de lhe arrumar um vestido apropriado. — Não... — Sim. Já que vamos fazer isso de novo, é melhor fazermos direito, o que significa fazer deste o casamento com que toda garotinha sonha. Ele deixou o quarto, alegando ter trabalho a fazer, e após dar de mamar a Joe, Jill o colocou para dormir. Após diminuir as luzes, Jill deitou-se na cama de armar para observar o filho dormir. Era difícil acreditar que um ano atrás, estava grávida dele. Difícil acreditar que a vida pudesse mudar tanto em um ano. Do nascimento até se tomar um menino em apenas onze meses. Impossível. Mágico. Embora as primeiras semanas de gravidez não houvessem sido mágicas. Foram semanas repletas de pânico, de negação. No início, não quis acreditar que estivesse grávida. Não se sentia grávida. Houve ocasiões em que quase se convenceu de que não estivesse. Não perdeu as roupas. Não sentiu desejos. Não se sentiu nauseada nem emotiva. Mas, a regra jamais veio, e os 46


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter seios progressivamente foram começando a ficar maiores, e a barriga mais arredondada. Por fim, procurou um médico que lhe contou tudo que precisava saber. Naquele instante, deitada ali, olhando para a tela da máquina de ultrassom, descobrindo que estava esperando um menino, um pequeno D’severano, ela jurou que seu filho jamais sairia ao pai. Jurou também que seu filho também não se tornaria o pai dela. Seu bebê, o filho ainda por nascer, teria uma vida normal e feliz. Uma vida o mais distante possível do crime organizado. Durante o restante da gravidez, sentiu-se segura, confiante de ter tomado a decisão acertada. Tão confiante que voltou para os Estados Unidos ao chegar ao sétimo mês de gravidez, para que Joe pudesse nascer um cidadão americano. Jillian assentou-se em Bellingham, uma cidade universitária no estado de Washington, e o nascimento de Joe ocorreu sem maiores complicações. Foi então que o destino interveio. Um mês após o nascimento de Joe, Jillian estava passeando com ele, quando deu de cara com uma mulher com quem trabalhara em Istambul. A princípio, Jillian ficara alarmada com o encontro, mas se deu conta de que a colega nada sabia a respeito de seu relacionamento com Vittorio, e que, sendo assim, nada teria para contar. Jillian estava enganada. Menos de uma semana depois, recebeu o primeiro telefonema de Vittorio. Ele soubera do bebê, e queria saber se o filho era dele. Ela dissera que não. Mas ele insistiu, exigindo um exame de DNA. Ela fugiu. Ele a perseguiu. E foi assim que começou a brincadeira de gato e rato que durou dez meses. A porta do quarto abriu-se ruidosamente, e Vittorio apareceu no vão da porta, com o rosto oculto pelas sombras. — Ele dormiu? — indagou, em voz baixa. — Dormiu. — Nesse caso, venha comigo. Maria estará aqui a qualquer instante para passar a noite com ele... — Eu não quero deixá-lo! — ela sussurrou. — Ele ficará bem. — Vitt, por favor. Eu nunca dormi longe dele... — Mais cedo ou mais tarde, terá de fazê-lo. Ela sentiu um aperto no coração ao olhar para o seu bebê. — Mas ainda não. Ele a estudou por um instante, a expressão do seu rosto impassível. — Tudo bem. Dormiremos os dois aqui, então. A princípio, Jillian pensou que ele estivesse brincando. Vittorio era um homem que adorava o seu conforto. Mas, ele, estava falando sério, e foi até o seu quarto colocar o pijama. 47


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Enquanto ele não vinha, ela vestiu uma camisola comprida de flanela cor-de-rosa que tinha. Os botões que desciam pela frente da camisola a tornavam perfeita para a amamentação, mas estava longe de ser sexy. Jillian escovou rapidamente os dentes, e estava subindo n cama, quando Vittorio voltou usando calças de pijama acinzentadas, e um roupão de seda preto. Nervosamente, ela deitou-se de lado, virada para a cama de Joe. Com os olhos fechados, escutou a aproximação de Vitt. Sentiu a cama ceder um pouco ao seu lado, quando ele puxou as cobertas para se deitar e, em seguida, o calor de seu corpo poderoso se acomodando junto ao dela. Por um instante, não conseguiu respirar. Sonhara com isso com ele, tantas vezes desde que fugira da residência dele em Bellagio, querendo tanto o que não podia ter. Porque não podia tê-lo. Não era são. Ele representava perigo para ela, de tantas maneiras. — Você pode respirar — Vittorio disse, em voz baixa. — Eu estou. — Mal e porcamente. Ela sorriu na escuridão. Este era o Vittorio que sempre quisera. Este homem que a fizera sentir-se extraordinariamente amada. — Não precisa se preocupar comigo. — Ah, mas eu me preocupo. — O braço de Vitt deslizou ao redor dela, puxando-a para perto de si. Jillian sentiu os lábios dele roçarem na nuca. — Agora, relaxe. Durma. Amanhã estará aqui antes que se dê conta. Por um milagre, ela, de fato, dormiu. Quando despertou, estava sozinha na cama. Franzindo, Jill olhou para o relógio sobre a estreita mesinha de cabeceira, e viu que haviam se passado seis horas desde que fora para a cama. Escutou uma batida de leve na porta, que, em seguida, se abriu. Maria entrou trazendo uma bandeja. — O signor achou que poderia querer um pouco de café e algo para comer antes de aterrissarmos. Sentando-se na cama, Jillian olhou para Joe, que começava a despertar na cama de armar. — Vamos aterrissar em breve? Maria assentiu. — Em menos de uma hora. Maria levou Joe para os aposentos dos empregados, para alimentá-lo e arrumá-lo, de modo que Jillian tivesse um pouco de privacidade para tomar o seu desjejum e se vestir. Vestida, seguiu para a cabina onde Vittorio a aguardava. — Dormiu bem? — ele perguntou, quando ela se sentou na Poltrona diante dele. — Dormi. Melhor do que já dormi em muitos meses. Obrigada. — Não me recordava de você ter um sono tão agitado. Você chutou e se debateu durante metade da noite. — Foi por isso que você levantou tão cedo? 48


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Eu só levantei um pouco antes de você, para pedir que Maria lhe levasse o desjejum. Ela corou. — Eu não sabia. — É. Aparentemente, há um bocado que você não sabe. Ele se interrompeu, estudando-a pensativamente. — Assim como há muitas coisas que preciso entender a seu respeito.

CapítuloSeis Jillian não perguntou o que ele queria dizer, e Maria chegou com Joe, justamente quando o sinal para apertar os cintos acendeu. Jillian tomou Joe de bom grado no colo, e o envolveu com os braços. Assim que aterrissaram, ela deu um beijo no topo da cabeça do menino, feliz por terem chegado em segurança. Sentindo o olhar de Vittorio, ela ergueu a cabeça, fitando-o nos olhos. — Você está com olheiras — ele disse. — Não deveria estar. Dormi bem esta noite — Parece que isso não costuma acontecer. 49


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Bebês costumam acordar muito durante a noite. E eu sempre tenho a necessidade de ver como ele está. — Deveria ter tido mais ajuda com ele. Jillian sabia que o que Vittorio queria dizer era que, se ela o tivesse procurado, teria tido ajuda. — Será mais fácil para você dormir, quando Joseph estiver no seu próprio berço, no seu próprio quarto. — Gosto de ter Joseph por perto. Não consigo imaginá-lo longe. — E eu não consigo imaginar fazer amor com a minha mulher com o meu filho presente. — Seu tom de voz foi firme e decisivo. — Joseph ficará bem no seu próprio quarto. Confie em mim. — Quer dizer que você já teve outros filhos? — ela retrucou furiosa por ele ter começado novamente a tomar as decisões, não só por Joe, mas também por ela. — Não. Mas sei ler um livro sobre a criação de filhos tão bem quanto você. E ainda tenho a vantagem de ter todos aqueles sobrinhos. Ela mordeu o lábio inferior para conter uma resposta, e ainda lutando contra a raiva, virou a cabeça para olhar pela janela. O sol ainda estava se erguendo no céu azul. — Você disse que eu estou com uma aparência cansada — disse. — Será que devo colocar um pouco de maquiagem? — Não é necessário. Você está ótima. Apenas seja você mesma. Ah, mas aí é que estava o problema. Após cair nos braços de Vittorio, após tantos meses fugindo dele, e temendo-o, Jillian sequer sabia mais quem ela era. — Como se fosse fácil. — E não é? Os lábios dela se retorceram. — Não. — Por que não? Ela queria lhe contar que vivera muitas vidas diferentes em diversos lugares. Queria lhe dizer que, mais de uma vez, ficara paralisada em uma sala de aula, ou em um refeitório, apavorada com a perspectiva de abrir a boca e dizer a coisa errada. Apavorada de esquecer o seu papel. Lee. Carol. Anne. Jillian. — Por que não é? — Vitt insistiu, repetindo a pergunta. — Você sempre morou no mesmo lugar, e cresceu rodeado pelas mesmas pessoas. Jamais teve de ser ninguém além de Vittorio D’severano. Para mim, foi diferente. — Você se mudou várias vezes quando estava crescendo? — Mudei. — Seu pai era militar? Ela quase riu. Seu pai, servindo o país? Um homem honrado? — Não. — O que ele fazia? Mentia. Enganava. Traía. Não podia dizer isso. 50


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Comércio. Vendas. Coisas do gênero. O jato parou de taxiar e deteve-se ao lado de um pequeno terminal executivo. — Jamais teve vontade de trabalhar com ele? — Vittorio indagou, ignorando a tripulação que se preparava para o desembarque. — Não. E quanto a você? — ela perguntou, quando Vitt desafivelou o cinto de segurança e ficou de pé. — Seu pai quis que fosse trabalhar para ele? Por um longo instante, Vitt a fitou em silêncio, com uma expressão séria no rosto, antes de sacudir brevemente a cabeça. — Não. Na verdade, justamente o contrário. Ele me implorou para ir fazer algo diferente, em algum outro lugar, mas eu não quis. Ela franziu a testa. — Por que não? Vitt deu de ombros, inclinando-se para tomar Joe nos braços. — Sou um D’severano. E meu pai precisava de mim. A porta se abriu, e a luz do sol preencheu a parte da frente da cabina. Após descerem as escadas, Vitorrio pousou a mão nas costas dela, conduzindo-a na direção de uma fileira de carros pretos com vidros escuros. Vittorio quase sempre viajava com escolta e guarda-costas. Era rico e um D’severano. Não podia se dar ao luxo de correr riscos. Estavam quase chegando aos carros, quando a porta de um dos sedans pretos se abriu, e uma mulher loura e esbelta desceu dele. Vittorio deteve-se onde estava a expressão de seu rosto endurecendo. — Ela jamais escuta — disse, sacudindo a cabeça. — Eu lhe disse para não vir. Jillian olhou rapidamente na direção da sofisticada loura usando um terninho azul claro. — Quem é ela? Ele suspirou. — Minha mãe. Jillian estremeceu. — Sua mãe? — Ela é o que eu costumo chamar de pensadora independente. Até aquele instante, Jillian estivera quase empolgada de chegar a Catania. Mas toda a sensação desapareceu abruptamente. A mão de Vittorio permaneceu nas costas dela. — Isto poderá ser difícil — disse. — Apenas lembre-se de que você vai sobreviver. Ela sentiu um aperto no coração. A mãe dele parecia terrível. — Está me dizendo ela ladra, mas não morde? — Não. Estou dizendo que ninguém até agora morreu com a mordida dela. — Isso não é muito reconfortante. Ele sorriu antes de dar-lhe um beijo nos lábios. — Ah, ela também acha que estamos muito felizes e completamente apaixonados. Será que consegue dar conta disso? Com os lábios ainda formigando do breve beijo, Jill desejou que Vittorio a beijasse novamente. Sua boca era perigosamente inebriante. 51


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Eu tentarei. Ele voltou a sorrir. — Boa sorte. Em seguida, voltaram a avançar na direção dos carros. Jillian permaneceu um pouco afastada, quando Vitt abraçou calorosamente a mãe, e a apresentou ao filho. Como era possível aquela mulher de aparência tão jovem ser a mãe de Vittorio? — Madre, esta é minha esposa, Jill — Vitt disse, estendendo a mão para Jillian. — Jill, minha mãe, Theresa D’severano. De perto, Jill pôde conferir que Theresa D’severano não era tão jovem quanto pensara, a princípio, contudo, também não parecia uma mulher de cinqüenta e poucos anos de idade. Jill não saberia dizer se era genética ou tecnologia, mas Theresa poderia facilmente ter passado por irmã de Vitt. De repente, ela arrependeu-se de não ter passado ao menos um batom. Reunindo toda a sua autoconfiança, e sorrindo calorosamente, Jillian estendeu a mão. — É um prazer conhecê-la, Sra. D’severano. Theresa a examinou demoradamente com os frios olhos azuis. Ela ignorou a mão de Jill. — Você é a mulher que armou para Vittorio. Quer dizer que era isso que achavam que havia acontecido. Vittorio, o adorado primogênito, e o queridinho da mamãe, fora seduzido pela desprezível americana interesseira. Quem dera ela fosse tão ardilosa e manipuladora como a família dele imaginava, Jillian pensou. Ela abaixou a mão, e esforçou-se para manter o sorriso. — Ouvi falar muito ao seu respeito. O sorriso da mãe de Vittorio tomou-se positivamente glacial. — Estranho. Eu jamais ouvi uma palavra que fosse ao seu respeito. Vittorio gesticulou na direção do carro. — Mamãe, por que não continuamos a conversa a caminho de casa? — sugeriu, amavelmente, embora a expressão de seu rosto fosse dura. Sua mãe acariciou-lhe o braço. — Por que você e o bebê não seguem em um dos carros, quanto Jill e eu tomamos o outro? Desse modo poderemos conhecer um pouco melhor. Jillian engoliu em seco, achando que era uma das piores idéias que já escutara, mas sabendo que não poderia dizer isso. — Jill? — Vitt perguntou, olhando para ela. — O que prefere fazer? Foi gentileza dele lhe oferecer uma escolha, apesar de ser óbvio que ela não poderia recusar a sugestão de Theresa sem parecer indelicada. Ela forçou um sorriso. — Parece divertido. — Provavelmente é uma boa ideia — ele concordou. — Desse modo, você terá uma aliada ao seu lado antes de conhecer o restante da família. Jillian não teve opção a não ser seguir a mãe dele até o sedan preto, apesar de seu olhar não se desviar da criança nos braços de Vitt. Deveria estar com Vitt e Joe, não com a mãe de Vitt. 52


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Já esteve na Sicília? — Theresa perguntou, quando se acomodaram no interior do carro. O motorista deu a partida no motor e arrancou suavemente com o veículo. — Não. Infelizmente, não. — A sua família é siciliana? — Não. — Italiana? Seu pai era, mas Jill não podia contar isso para Theresa. — Alemã e escocesa, com uma pitada de sangue irlandês e francês acrescentado à mistura. Theresa a fitou com seriedade. — Já esteve em Bellagio. — Já. — A propriedade é linda. — Extraordinária. — Dirigiu o Lamborghini? — Não, a Ferrari. — É uma vida boa, não é? Os carros, as propriedades, as jóias caras. Haviam retornado à noção de que Jillian era uma interesseira. Jillian não sabia se ria ou chorava. Importava-se com muitas coisas, mas dinheiro não era uma delas. — Está menosprezando Vittorio. Ele é brilhante, devastadoramente atraente, e, sem sombra de dúvida, o homem mais complexo que já conheci. — Mas o dinheiro é agradável. Jillian tentou manter uma expressão simpática. — Se eu quisesse um marido rico, poderia ter arrumado um sem as complicações de uma família difícil. Theresa estremeceu seus olhos se estreitando, quando ela ficou em silêncio. Jill se deu conta de que cometera um terrível erro tático, mas não havia como voltar atrás, agora. — Minha família não é melhor — disse, tentando reparar o estrago. — Assim como à senhora não me aprova, eles não aprovam Vitt. — Fala como se vocês fossem dois amantes perseguidos pelo infortúnio. Ela deu de ombros. — Suponho que haja um quê de Romeu e Julieta na nossa história, mas, eu espero, sem o final trágico. — Por que os seus pais não aprovam Vittorio? Ah, Theresa não gostou disso, não é? — Eles sabem que Vittorio e eu temos origens diferentes, e que, talvez, tenhamos valores diferentes. Theresa ficou imóvel, sentada com as mãos no colo. — Valores diferentes? — Como acabou de salientar, não sou siciliana ou italiana e, apesar de ser criada católica, hoje em dia, raramente vou à missa. No entanto, pelo que eu soube, sua família é muito religiosa. 53


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Se é assim, por que ele se casou com você? — Amor. Theresa a fitou, demoradamente, antes de sorrir, zombeteiramente. — E espera mesmo que eu acredite nessa conversa furada? Jillian abriu a boca para protestar, mas Theresa se inclinou na sua direção e, calma e implacavelmente, prosseguiu: — Acha mesmo que não tenho os meus próprios contatos? Acha que não pergunto por aí? Sei que acabaram de se casar. E sei que não queria se casar com o meu filho. Apenas casou-se com ele para não perder o seu filho. Atordoada, Jill mordeu o lábio inferior. Contudo, Theresa ainda não terminara. — Pode fazer o joguinho que quiser com Vittorio, Jill, mas comigo, não. — Ela hesitou, antes de afirmar, sem rodeios: — A relação de vocês não passa de uma mentira, não é? — Não. — É o que parece ser... — Só que a relação não é sua. É minha. Eu adoro Vittorio. Sempre adorei. — Se é assim, por que só estou conhecendo-a agora, um ano após o nascimento do meu neto? Jillian ergueu o queixo. — Não vejo como isso possa ser da sua conta. — Sou a mãe dele! — E eu sou a esposa. O resto do trajeto foi percorrido em tenso silêncio. Vinte e cinco minutos após terem deixado Catania, chegaram a Paterno, a cidade natal de Vittorio. Jillian e Theresa chegaram primeiro ao castelo normando que servia de lar para a família D’severano, e estavam descendo do veículo, sem olhar uma para a outra, quando um segundo sedan preto chegou. Descendo da parte traseira do seu carro, Vitt pegou Joseph e veio se juntar à mãe e a Jillian, diante dos degraus de pedra que levavam as enormes portas da frente do castelo. — Como foi o passeio? — ele perguntou, notando a expressão carrancuda da mãe e os lábios cerrados de Jillian. — Ótimo — Jillian respondeu com a voz trêmula. — Não é exatamente a expressão que eu teria usado, mas estamos ambas aqui, não é? — Theresa retrucou, erguendo uma das elegantes sobrancelhas, antes de lhes dar as costas e afastar-se com as costas empertigadas. Vittorio observou a mãe subir a escada, antes de virar-se para Jill. — Parece que foi um passeio muito interessante — comentou com um brilho no olhar. — E foi — ela concordou, tomando Joe dos seus braços e lhe dando um beijo. — Ela fez muitas perguntas? — Fez. — Foi direta? 54


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Assim como rude. — Inspirando profundamente, Jill sacudiu a cabeça. — Ela não gosta nem um pouco de mim. — Ela não a conhece. — Bem, com certeza não acha que devêssemos estar juntos. — Ontem, você pensava o mesmo — ele retrucou com um sorriso. — Bem, chega de falar da minha mãe. Deixe-me mostrar-lhes o seu novo lar. A julgar pelas imensas muralhas do século XII, Jill imaginara que o interior do castelo fosse ser escuro e deprimente. No entanto, o castelo parecia uma arejada casa de campo do mediterrâneo. Tudo era claro e muito bem iluminado, com estofamentos e pisos em cores claras e frias. Como Joe já devia estar ficando cansado, o passeio pelo castelo foi breve, mas foi o suficiente para deixar Jill maravilhada com o lar de Vitt. Após visitar as torres, os terraços e os jardins, chegaram ao terceiro piso, onde ficavam os aposentos de Vitt e os recém modificados aposentos para o filho deles. Jillian ficou admirada ao se deparar com o amplo recinto decorado de acordo com o encantador tema marinho, com as grandes janelas que deixavam entrar abundantemente a luz do sol. — Você fez tudo isto para Joe? — E, por que eu não faria? — Está tudo tão perfeito... — Acha que eu não daria o melhor para o meu filho? — Não! Claro que não. Jamais questionei o seu desejo, ou a sua capacidade de ser um bom provedor para Joe. Sei que poderia lhe dar qualquer coisa. — Desde que seja material. Ela calou-se, dando-se conta de que dissera a coisa errada. — Porque é só para isso que eu sirvo — ele acrescentou, no mesmo tom aveludado. — Dinheiro. Conexões. Prestígio. Ela corou. — Você está colocando palavras na minha boca — Jill protestou, colocando Joe no chão, que engatinhou na direção de um golfinho de brinquedo no canto do aposento. — Mas a parte do dinheiro e prestígio não é verdade? Você me queria, gostava de mim, até descobrir que eu não era o seu príncipe perfeito, quando então fugiu de mim, desaparecendo sem dizer uma palavra. — Eu sinto muito. Perdoe-me. — Desculpas rejeitadas. — Por favor, Vitt. — Por favor, o quê? Este quarto ficou aqui, vazio, por dez meses. Por dez meses eu procurei vocês, gastando centenas de milhares de dólares com investigadores e detetives, e seguindo cada pista possível. Por dez meses eu esperei para conhecer o meu filho. — Ele apoiou-se em uma estante ao lado de uma das janelas. — E, todos os dias, eu pensei que a única razão de meu filho não estar aqui era porque você, Jill Smith, não permitia. 55


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Ela sentiu o rosto arder. Dito daquela forma, Jillian era uma pessoa horrível. Mas Vittorio não conhecia a história toda, e por mais que ela quisesse lhe contar, não achava que poderia fazê-lo. Pelo menos, ainda não. Não até ter certeza de que poderia confiar nele. — Eu lamento tanto, Vittorio. — Vamos ser sinceros. Não lamenta ter fugido com Joe. Lamenta que eu a tenha encontrado. Só que é covarde demais para admitir isso. O rosto de Jill ardeu de vergonha. Em parte, por Vittorio ter razão. Ela era uma covarde, Uma covarde patética. Mas, em se tratando de proteger Joe, e ficar com ele, estava disposta a fazer o que fosse necessário. — Pode ser — admitiu, em voz baixa. — Por que fugiu com o meu filho, Jill? Tinha de saber que eu seria bom para ele? Tinha de saber que eu o amaria. Sempre a tratei bem. Você também costumava confiar em mim, e quando dormia sempre se aconchegava junto a mim. — Isso foi antes — ela respondeu, em voz baixa, lutando com a lembrança de como ele a fizera se sentir amada, segura. — Antes? Antes do quê? Jillian inspirou fundo, sabendo que estava pisando em gelo fino, e sem saber como fazer para sair daquela situação. Mas Vittorio parecia disposto a ele mesmo quebrar o gelo. — Antes que inventasse um mundo no qual eu era o vilão, não é? — ele disse com um sorriso que não tinha nada de bem-humorado. — Eu não inventei nada. Está tudo ali, Vittorio. Está tudo na Internet. — Não é verdade. — Existem dezenas de histórias e artigos, Vitt. — E você acredita em tudo que lê na Internet? — Nem sempre. — Mas acreditou no que quer que tenha lido a meu respeito? — E por que as pessoas haveriam de mentir? Ele estudou-a com aqueles olhos escuros e sensuais. — É. Por quê? — ele zombou. Ela aguardou que ele dissesse mais alguma coisa. Aguardou que ele se explicasse se defendesse ou a ajudasse a entender a vida dele. Mas Vittorio não o fez. Jillian cerrou os punhos. — Pois, agora é a sua chance. Conte-me a verdade. Você é...? — Eu sou o quê? — Você sabe. Ele inclinou a cabeça para o lado. — Você já se deu conta de que está correndo o risco de parecer obsessiva? A zombaria a enfureceu. — Isto é sério — esbravejou. — Você assistiu filmes demais de Hollywood. — Eu sei o que eu sei. 56


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — E o que é exatamente que você sabe Jill? Você parece ser perita em mentiras, joguinhos e charadas. Ela estremeceu ante o tom dele. E se Vittorio soubesse mais do que ela pensava? E se ele soubesse o que ela não queria que ele soubesse? Era melhor não acreditar nisso agora. Ainda não. Em vez disso, reuniu toda a sua coragem. — Sei que a Sicília possui uma longa e complicada história com a máfia. Sei que há anos o governo italiano vem tentando sem sucesso livrar a Sicília da máfia. — E, por que acha que é assim? — Porque, de acordo com as notícias, os líderes da máfia são muito espertos. Ele a fitou nos olhos. — Ou, talvez, seja porque a máfia não existe. Quer dizer que era assim que ia ser. Fingiriam que ela estava enganada, confusa, errada. Ele queria que ela acreditasse que a máfia não existia. Estava pedindo que ela aceitasse que o crime organizado era uma invenção hollywoodiana. Estava pedindo o impossível. Ela conhecia a verdade. Jillian passara por coisas que a maioria das pessoas apenas lia nos livros, ou via na TV. O pai dela, ao mesmo tempo em que exibia uma máscara encantadora para o mundo, tinha o coração cruel de um assassino. O pai dela. — E nisso que quer que eu acredite? — perguntou. — Você deve ter tido uma infância muito infeliz, visto que é completamente incapaz de confiar em outra pessoa. — Sou completamente incapaz de confiar em você. — Só em mim? — Só em você — ela retrucou, embora fosse mentira. Ela não confiava em muitas pessoas. Certamente não confiava em homens poderosos, e não sabia por que decidira confiar em Vitt, quase dois anos atrás. — Por quê? — Você sabe o por que. — A história de mafioso, de novo? — Isso mesmo. Nunca vou conseguir deixar isso para lá. — O que nos leva a um dilema, não é? Porque agora, você é minha esposa. Casada com a máfia. O que vai fazer? — Não sei — ela respondeu, jogando a cabeça para trás. — Nada disto deveria ter acontecido. É a pior coisa que poderia ter acontecido. — Por quê? — Porque me mataria, Vitt, se o meu filho crescesse para se tomar alguém como você.

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CapítuloSete Porque me mataria se o meu filho crescesse para se tornar alguém como você. Já fazia duas horas desde que Jillian dissera as palavras, mas elas ainda ecoavam na cabeça de Vittorio. Palavras inacreditavelmente cruéis, ainda mais vindas da mãe de seu filho. O pior de tudo era que ela não o conhecia. Não sabia quem ele era de verdade. Mas Vittorio não estava acostumado a explicar-se para os outros, nem a expor a sua família e a sua vida ao escrutínio alheio. Para falar a verdade, não dava a mínima para o que as pessoas pensavam a seu respeito. E não prestava contas a ninguém. Porque ninguém era capaz de fazer nada contra ele, embora, no início, todo mundo tentara. Primeiros-ministros, presidentes, parlamentos, governos. Polícias de todo quanto é país. Mas, o que poderiam fazer com ele? Com a família D’severano? Que crime ele cometera? De que crime poderiam acusar o seu pai? Nenhum.

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Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter No entanto, Vittorio ainda era temido, odiado, amado e desprezado. Agora, sequer se dava ao trabalho de contradizer os rumores e as mentiras. Era perda de tempo, desperdício de energia. A vida era curta. Era melhor aproveitá-la. No entanto, as palavras de Jill magoaram. Muito. Por que ele não era um homem mau, nem um homem cruel, nem um homem violento. Como o pai, Vittorio dedicara a vida a corrigir os erros do passado, assim como a construir novos relacionamentos com as pessoas, com negócios, com líderes mundiais. Havia membros de sua família com ligações com a máfia, mas ele não era um deles. Nem era o seu pai. Nem seria o seu filho. Porque não era preciso ser criminoso para ser poderoso. Não era necessário recorrer à pressão nem a violência para ser influente. Seu sucesso era fruto de sua ética de trabalho, de seu foco, e de seu senso de valores. Sendo assim, que Jill Smith, a americana de 26 anos de idade que ele acabara de tomar a sua esposa, dissesse o que bem entendesse. Ele sabia a verdade. Sabia quem ele era. Sabia o que era. Contudo, lá no seu íntimo, as palavras de Jillian ainda magoavam. Jillian segurou a mãozinha de Joe enquanto caminhavam pelo jardim de rosas após o cochilo da tarde do menino. Ele caminhava balouçando, de arbusto para arbusto, desfrutando da luz do sol e do doce perfume das rosas antigas. Jillian agachou-se para ajudá-lo a cheirar as flores e conversou um pouco com ele, contudo, por dentro, estava com o coração apertado. Dissera algo horrível para Vittorio e não conseguia tirar isso da cabeça, nem a expressão do rosto de Vitt ao escutar suas palavras. Porque me mataria se ele crescesse para se tornar alguém como você... Palavras tão cruéis e odiosas. Mas não fora a sua intenção magoá-lo. Estava apenas sendo sincera. Apenas compartilhando seus receios. Os crimes do pai ainda a horrorizavam, e Jillian acreditava que, mais do que nunca, o mundo precisava de pessoas boas. Precisava de homens fortes. Corajosos. Compassivos. Era o tipo de homem que ela queria que Joe um dia fosse. Era o tipo de homem que pensara que Vitt fosse. Até pesquisar o nome dos D’severano na Internet e descobrir a verdade. Devia um pedido de desculpas a Vittorio. Precisava que ele soubesse como fora errado ela dizer algo tão indelicado, ainda mais diante do filho deles. Esperava poder falar com ele antes do jantar com o restante da família dele. Não se sentiria melhor até ter se desculpado. Escutando o som de passos, Jillian ergueu o olhar, e viu Maria se aproximando. — Já está na hora do jantar? Maria sacudiu a cabeça. — O Signor me enviou para lhe avisar que ele não comerá em casa esta noite. Disse que pedirá para que levem o jantar da signora e de Joe para os seus aposentos e que a signora conhecerá a família dele amanhã. Jillian se endireitou. 59


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Ele disse quando estaria de volta? A babá sacudiu a cabeça. — Não. Mas é possível que ele não retorne esta noite. Talvez permaneça em Catania até amanhã. Jillian sentiu um aperto no coração. — O quê? — Ele tem um enorme apartamento por lá, perto do escritório. É o que no seu idioma, se não me engano, chamam de cobertura. Inclinando a cabeça, Maria pediu licença e voltou para a casa. Por um instante, Jill apenas observou Maria se afastar. Em seguida, movida por algum sentimento indefinido, pegou Joe no colo e foi atrás da babá. — O Signor ainda está aqui? — perguntou ao alcançá-la, já dentro de casa. — Acho que sim — Maria respondeu. — Talvez ainda esteja lá em cima. Jillian deixou Joe com Maria e subiu correndo as escadas. Ela chegou ao quarto de dormir no exato instante em que Vittorio estava apagando a luz. — Aonde você vai? — perguntou ofegante. — A Catania. Tenho alguns negócios a resolver. — Vai ao seu escritório? — E importa? Ela vasculhou-lhe os olhos escuros, contado, sua expressão era tão indecifrável, que Jillian não fazia ideia do que ele estava pensando. — Importa. — Vou ao meu escritório sim, entre outros lugares. — Você conduz a maioria de suas reuniões no seu escritório? — Não necessariamente. — Ele a fitou com um sorriso sardônico curvando-lhe os lábios. — Preocupada que eu estarei conduzindo negócios ilícitos em becos escuros, Jill? — Não. Houve um instante de silêncio tenso, antes que Vittorio sacudisse a cabeça. — E você ainda me chama de mentiroso. — Seu sorriso se alargou, contado, seus olhos brilharam de raiva. — Mas, não tenho tempo para isso, por mais interessante que possa ser. Tenha uma boa noite. Não me espere. Não sei ao certo quando estarei de volta. — Não vai voltar esta noite? — Não sei. Ainda não decidi. — Vitt — ela protestou, pousando a mão na manga do seu casaco. Ele olhou para a mão no seu braço, depois, para o rosto de Jill. — Nem tente fingir que vai sentir a minha falta, Jill. Ela enrubesceu. — É a nossa primeira noite aqui. Eu não conheço ninguém. Mal sei me virar aqui dentro. — Você tem o nosso filho. Conhece Maria. Deverá ser o suficiente. — Ele hesitou. — Terá de ser o suficiente, visto que é tudo que realmente tem. Ela sentiu como se tivesse levado uma bofetada. Seus olhos lacrimejaram. Ficou ainda mais ruborizada. 60


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Não precisa ser cruel. — Entendo. Você pode dizer o que bem quiser, mas eu tenho de ser bonzinho? — Eu lamento muito que eu disse antes... — Não. Não lamenta, não. Você jamais lamenta nada. É mimada, egoísta e incrivelmente egocêntrica. E, já que gosta tanto da verdade, deixe-me lhe dizer a verdade. Você é, sem dúvida, a última mulher no mundo que eu teria escolhido para ser a minha esposa. — Não costumava pensar assim... — Por que eu não a conhecia. Mas, agora, conheço. Ela jogou as mãos para trás, e lágrimas lhe encheram os olhos, quando Jill cerrou os lábios, tentando impedir que tremessem. — A verdade dói — ele disse, amargamente. — Não dói? — Jamais tive a intenção de magoá-lo — ela retrucou. — Mas você está gostando de ser cruel. — Não gosto de ser cruel. Mas digo a verdade. Este não é o tipo de casamento que imaginei, assim como você não é o tipo de esposa que eu queria. Mas, isso não importa agora. Eu lido com a realidade, não com fantasias ou contos de fadas. Nós dormimos juntos. Você ficou grávida. Aceito a minha responsabilidade. Como ele podia ser tão frio, quando o coração dela parecia estar em chamas? — Quanta bondade sua — ela murmurou. — Que atitude mais madura. Ele deu de ombros. — Não há amor algum entre nós. Jamais haverá, pelo menos, não agora. Sendo assim, nós nos concentraremos no nosso filho. Dormiremos juntos muito raramente. Faremos sexo apenas quando tivermos vontade. Para a família, manteremos as aparências. Mais nada. Está entendendo? É tudo que terá de mim, e é tudo que quero de você. Ela desviou o olhar, esforçando-se para manter o controle, pois se sentia como se houvesse acabado de ser esfaqueada, várias vezes. — Pare. — Parar o quê? — De me torturar. — Torturá-la é a última coisa que me passa pela cabeça. Simplesmente estou explicando a nossa relação, definindo os parâmetros, antes que tenhamos de aparecer diante de minha família e do resto do mundo. — E que parâmetros são esses? — No quarto de dormir, você é minha. O resto da sua vida pertence a você mesma. — Não sou um objeto. — Concordo. Você é minha esposa. Cumprirá os seus deveres conjugais. Mas é livre para comprar, viajar e fazer amigas a seu bel-prazer. — Amigas?

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Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Apenas amigas. Eu acabo com qualquer homem que chegue a menos de três metros de você. Você é minha esposa. É uma D’severano. E melhor não se esquecer disso. — Deve ser bom ter tanto poder, quando eu não tenho nada. — Não precisa de poder. Tem a mim. — Para pensar por mim, falar por mim, e me forçar a deitar na sua cama! — Jamais terei de forçá-la a se deitar na minha cama. Provei isso ontem. Mas, se está interessada em um lembrete... — Não é necessário, obrigada. Ele sorriu de modo zombeteiro, levando a mão à gravata, e afrouxando-a ligeiramente. — Talvez tenhamos tempo para uma rapidinha. — Não. — Não? Ela sentiu-se encurralada. — Quero dizer, não deste jeito. Não uma rapidinha. Não seria certo. — E o que seria certo? Romance? Velas? Música lenta ao fundo? — Você está tão zangado. — Estou sim. Ela tremeu por dentro. Mas não de medo, e sim de surpresa e dor. Não o queria zangado com ela, não quando já haviam sido tão felizes juntos. Talvez houvessem sido apenas duas semanas, mas foram às melhores duas semanas de sua vida, e ela não podia deixar de imaginar se, um dia, conseguiriam ser felizes novamente. Tinha de ter esperança, tinha de acreditar que conseguiriam tomar o deles um casamento de verdade. Caso contrário, como é que conseguiria sobreviver os próximos 17 anos? — Não quero que fique zangado, Vittorio. E quero consertar isto... Desculpar-me. Ainda não sei como, mas, será que, pelo menos, me deixará tentar? Por um instante interminável, ele nada disse. Em seguida, levou a mão à sua face. — E como é que fará isso? — ele disse, acariciando-a atrás da orelha. O coração dela disparou. Sentindo a boca seca, passou a língua pelos lábios. — Tentarei lembrá-lo do que podemos ser bons juntos. Que podemos ser felizes. — Aonde? — Em qualquer lugar. — Isso inclui na cama? — Sim. — Está me oferecendo o seu corpo? — Estou — Jillian respondeu, em voz baixa. — E o que faria por mim quando estivesse na minha cama? Ele estava lhe acorrentando o coração. — O que quer que queira que a sua esposa faça. A mão de Vitt deslizou pelo pescoço dela, descendo até o decote em "V" entre os seios. — O que eu quiser? 62


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter A mão dele era tão quente no seu peito. Seus seios se intumesceram, os mamilos enrijecendo. — Você disse que eu teria de ser obediente. — Que esposa boa você pretende ser — ele provocou, emoldurando-lhe as faces com ambas as mãos, erguendo-lhe o rosto em direção ao seu, examinando cada detalhe dele, como se ela tosse algo bonito que ele adquirira no mercado, e agora estivesse ansioso para inspecionar a sua compra. Após intenso e interminável escrutínio, ele inclinou a cabeça, cobrindo-lhe os lábios com os seus, e a beijou profundamente. A língua de Vitt explorou-lhe a boca, provando, saboreando a maciez e o ardor em seu interior. Ela se derreteu nos braços dele, quando Vitt puxou a língua dela para a sua boca, sugando-lhe a ponta. As mãos dele deslizaram para dentro dos cabelos de Jill, os dedos massageando-lhe o couro cabeludo. Ele a estava despertando, incendiando-a, instigando-lhe a voracidade. Ele jamais deixou de beijá-la, seu joelho separando-lhe as coxas, fazendo pressão na sua intimidade sensível, que, em resposta, ficava mais quente, mais úmida, mais voraz. Longos instantes se passaram antes que ele erguesse a cabeça, fitando-a nos olhos. — Acho que reivindicarei o que é meu. Ele desabotoou o vestido, puxando-o por sobre a cabeça de Jillian antes de abrir o fecho do sutiã e jogá-lo sobre as roupas descartadas. A calcinha foi à próxima, junto com os sapatos. Assim que ela estava nua, ele a derrubou, sem muita gentileza, sobre a enorme cama. Com o olhar fixo nela, Vittorio tirou as próprias roupas, e juntou-se a ela na cama. Desta vez, não houve preliminares. Era uma lição de propriedade, uma demonstração de posse. Com as mãos segurando-lhe os pulsos acima da cabeça, o peito esmagando os volumosos seios, e as fortes coxas mantendo as pernas dela afastadas, ele a possuiu, arremetendo repetidamente para dentro daquele corpo em chamas. Ela estava quente e úmida, seu membro grosso e duro, e ele arremetia implacavelmente, gerando a fricção enlouquecedora que era tão prazerosa que chegava a quase provocar dor. À medida que ele a ia preenchendo, Jillian ia ficando cada vez mais zonza de prazer. Fazer amor com ele sempre deixara as suas emoções fora de controle. Hoje não era diferente. Ela o desejava. Ela o odiava. Precisava dele. Queria Vittorio como jamais quisera qualquer um, ou qualquer coisa. E, quando estavam daquele jeito, pele com pele, ela achava que jamais seria capaz de querer algo mais. Isto era intimidade, uma conexão como ela jamais conhecera igual. Faziam amor com tanta perfeição que seus olhos ardiam e seu coração doía. Queria que aquilo jamais tivesse fim. Não demorou muito para chegar ao ponto, seu corpo traindo-a, nervos e músculos se retraindo em um explosivo clímax físico que deflagrou o dele. Ela suspirou quando 63


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter ele se aliviou em seu íntimo, seu corpo estremecendo de prazer. Como o sexo podia ser tão bom com Vittorio, quando tudo mais parecia tão errado? Por um instante, permitiu-se relaxar, saboreando a sensação do seu corpo rijo e magro. Em seguida, Vittorio recuou. Como sempre, ela se sentiu abandonada. Ele deitou-se do lado dela, envolvendo-a com os braços e puxando-a para si. Ela permitiu. Quando Vittorio a amava, mesmo que apenas com o corpo, Jillian sentia-se bem, e segura. Mais segura do que com qualquer outra pessoa. Mas sexo não durava para sempre. E, quando acabava, ela se via tomada pelas mesmas emoções devastadoras. Vazio. Dor. Impotência. Tristeza. Como podia não confiar nele, e, ainda assim, precisar tanto de Vitt? Como ele conseguia fazê-la sentir-se tão vulnerável? Ninguém mais era capaz. Por que Vittorio era? Deitado na penumbra do quarto de dormir, com os últimos raios de sol desaparecendo no céu, Vittorio sentia o peito de Jill subir e descer, um silencioso soluço de emoção que ela jamais admitiria, e que sempre recusaria discutir. Reprimindo um suspiro, puxou o corpo de Jill mais para perto de si, os seios macios e arredondados roçando no seu braço. Ela tinha tantos segredos. Conhecia muitos homens que residiam nas sombras, com vidas clandestinas cheias de mistérios. Contudo, tais homens se divertiam com o próprio comportamento furtivo, deliciando-se com o perigo, com o poder. Jill não era assim. Já desejara que ela lhe contasse o que a perturbava. Não ligava mais. Ou, pelo menos, era disso que tentava se convencer. Porém, seu coração se apertava cada vez que sentia o peito dela estremecer com um profundo soluço. Em Bellagio, tudo fora fácil para eles. Não apenas o sexo, mas a conexão, a conversa, a amizade que estavam construindo. Confiara nela. Acreditara que Jill era sincera, verdadeira e real. No final das contas, nada nela provou ser sincero e nem real. Nem o nome, nem o passado, e muito menos a cor dos cabelos. Sua reunião daquela noite era com um de seus detetives. O detetive descobrira o que descrevera como "detalhes significativos" do passado de Jill. Naquela noite, em Catania, descobriria quem ela realmente era. Aquela era a noite que poderia mudar tudo. Sendo assim, a abraçou com força, como se isso pudesse impedir que as más notícias modificassem o vínculo frágil entre eles. Talvez, ao seu próprio modo, ele ainda a amasse um pouquinho. — Quando a vi no despenhadeiro, pensei que, talvez, estivesse usando peruca — disse, em voz baixa, tomada por uma paixão e emoção que jamais admitiria. — Mas, na verdade, você tingiu os cabelos. — É. 64


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Como foi que aperfeiçoou tantos disfarces diferentes? — Teatro. Participei de algumas peças e musicais na escola. Gostei tanto, que estudei teatro. — Pensei que tinha estudado hotelaria. — E estudei. Eu me formei em hotelaria. Contudo, inicialmente, pensei em ser atriz. — Por quê? Ela inspirou profundamente. A voz titubeou um pouco. — Queria ser outra pessoa. Vittorio ficou com ela mais meia hora, depois, sem dizer uma palavra, afastou-se e desceu da cama. Ela permaneceu deitada, virada para a parede, escutando Vittorio vestir-se. Ele estava indo embora. Estava deixando-a. Jillian procurou se convencer de que não se importava. Em um instante de silêncio, pôde sentir a hesitação de Vitt. Sentiu-o curvar-se sobre ela, observando-a. Jill não se virou e nem falou. Manteve os olhos fechados, e fingiu dormir. Depois, ele afastou-se, e ela abriu os olhos ao escutar a porta se abrir e fechar novamente, mergulhando mais uma vez o aposento na escuridão. Ela virou-se e ficou deitada de barriga para cima, esforçando-se para fechar a porta diante dos próprios sentimentos. Não podia se dar ao luxo de sentir. Não podia analisar qualquer emoção. Não podia, pois isso levaria à sua mina. Em Catania, Vittorio encontrou o investigador particular americano no seu escritório. Já passava das 9h e o escritório estava fechado, todas as luzes apagadas com a exceção da suíte executiva onde ficava o escritório de Vittorio. O detetive, um ex-agente do FBI, estava sentado diante de Vitt, do outro lado da mesa, com um bloco de anotações no colo, contando tudo que descobrira para Vitt. E ele descobrira um bocado. Foi necessário todo o autocontrole de Vitt para permanecer sentado, com a expressão neutra, enquanto o detetive revelava tudo que ele sabia sobre a nova esposa de Vittorio. April Holiday não era o único pseudônimo de Jillian. Jillian Smith também era um pseudônimo. Havia três outros antes de ela se tomar Jillian Smith, aos 16 anos de idade. Há 14 anos que ela estava no Programa Federal de Proteção a Testemunhas dos Estados Unidos, mudara-se várias vezes e mudara seu nome e aparência porque a segurança da família fora repetidamente comprometida. — Ela tem quatro identidades registradas nos arquivos do governo — disse o detetive, olhando por um instante para as suas anotações. Ela estava criando a quinta, April Holiday, quando a localizamos em Carmel. Mas foi uma identidade que ela criou sozinha, sem intervenção do governo, para fugir de você. — Ela ainda faz parte do programa de proteção a testemunhas? — Deveria fazer. O resto da família ainda faz. 65


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Onde está a família dela. — Os pais estão na Flórida. Não sei a localização exata. — Quem são eles. O detetive sacudiu a cabeça. — Essa é a informação que não está na pasta dela. — Ele passou o arquivo completo para Vittorio. — Nada que eu tenha conseguido encontrar mostra o nome de batismo dela, nem o dos pais. Como Jillian, sua família usa Smith, e vem usando Smith há anos. Sabemos que a família de quatro, mãe, pai e duas filhas, foi colocada no programa há 14 anos, mas não sabemos por quê. Vittorio calmamente estudou os documentos em suas mãos. Era esse o motivo de Jillian ter fugido dele em Bellagio. Escutara a palavra mafioso sussurrada, e desaparecera na mesma hora. E continuara fugindo, até ele encontrá-la. Mas permanecera apavorada dele. Deixara bem claro que não confiava nele, e que não acreditava que ele não fosse conectado à máfia. Ela mesma devia ter algum vínculo com o crime organizado. Alguma experiência pessoal. Por que outro motivo seria tão incapaz de confiar nele? — De acordo com esta documentação, poderia se acreditar que ela nem existia antes dos 12 anos de idade — ele disse, olhando para o investigador. — Eu sei. Tudo na pasta dela que pudesse levar à sua identidade original foi apagado. — Isso é protocolo para o programa de proteção americano? — Não. — Mas você já viu isto antes? O Detetive hesitou. — Já. Em duas ocasiões distintas. Quando o governo está protegendo um espião estrangeiro, ou um membro do alto escalão de uma família do crime organizado. Ali estava a conexão com o crime organizado. — Com o que acha que estamos lidando? — Ela é filha de um chefão americano. — Há muitos no programa de proteção a testemunhas americano? — Meia dúzia. — Algum que você considere uma grande ameaça? — Um ou dois, embora Frankie Giordano seja o que o governo tenha mais interesse em proteger. Ele entregou toda a operação de Detroit, e Detroit tinha vínculo com quase todas as outras operações. Vitt assentiu, lentamente. — O que significa que Giordano entregou todo mundo. — É. — Se o seu paradeiro fosse descoberto, ele seria um homem morto. O detetive fechou o seu caderninho de anotações. — Ele e toda a sua família.

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CapítuloOito Jillian acordou com a luz do sol entrando pela janela. Não fechara as cortinas, antes de ir para a cama. Ficara acordada até tarde, lendo, enquanto aguardava o retorno de Vittorio. Mas ele não voltara. Ficara fora a noite toda, ou, pelo menos, dormira em algum outro lugar. Jillian tomou banho, e se vestiu antes de ir ver como estava Joe. Não o encontrou no quarto, de modo que, foi ver se ele estava com Maria. Não estava com Maria. Estava com o pai, tomando o café da manhã, no terraço que dava para a sala de jantar. — Bom dia, — Jill cumprimentou. — Bom dia — Vittorio respondeu, quebrando um pãozinho para dar para Joe. Ele mal olhou para ela, e seu tom de voz foi quase frio. — Posso me juntar a vocês? — A casa é sua — ele retrucou, em um tom de pouco caso. Ela inspirou profundamente, antes de sentar-se à mesa. — Quando foi que voltou? — Jillian perguntou, esforçando-se para manter o tom de voz calmo, após pedir um pouco de café a uma das criadas. — Ontem à noite. Ela sentiu um aperto no coração, e lágrimas ridículas arderam nos seus olhos. Onde é que ele dormira? Por que não voltara para o quarto deles? — Como foi a sua reunião? — Interessante. 67


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Que bom. — Conte-me sobre a sua família — Vitt pediu, abruptamente, recostando-se na cadeira. — Você nunca fala sobre eles. — Eu... Eu não sei ao certo o que você quer saber. — Fale-me de seu pai. Você disse que ele era um homem de negócios. Vendas, se não me engano. Ela assentiu, mecanicamente. — É. — E vocês se mudaram muito quando estava crescendo? — É. Os olhos dele se estreitaram ligeiramente. — Onde foi que nasceu? — De... — Jillian interrompeu-se, mordendo a língua, dando-se conta de que chegara perigosamente perto de lhe revelar justamente o que o governo insistira para que ela jamais revelasse. — Dallas. — Dallas? — ele repetiu, inclinando a cabeça para o lado. — Em que hospital. — Não lembro, Teria de perguntar à minha mãe. — E onde ela está? — Aposentada na Flórida. — Devemos convidá-los para o nosso casamento? — Eles não... Não gostam de voar. — Não quer que seu pai a leve ao altar? Ela se contorceu. — É claro que quero, mas eles não têm o hábito de viajar, e não se sentiriam à vontade aqui. Ele sorriu. — Aqui, na nossa casa? — Não. — Quer dizer aqui na Sicília? — Não. — Então, o que quer dizer, Jillian? Totalmente frustrada, ela mordeu o lábio inferior. — Meus pais e eu não somos muito chegados — admitiu, por fim. — Há anos que não os vejo. — Quer dizer que eles jamais conheceram Joseph? Ela sacudiu a cabeça. — Sequer sabem de sua existência. — Estou chocado. — Nem todos temos uma enorme família siciliana que janta junta todas as noites. — Aquelas refeições barulhentas realmente unem as gerações. — Eu só imagino. — Jillian jamais tivera contato com o restante da família, além dos pais. A família da mãe rompera com ela depois que esta fora contra a sua vontade, e se casara com o pai de Jillian. O pai fora filho único e deixara sua casa aos 18 anos de idade para ir tentar a sorte no mundo. — Nem sei se tenho primos, e nunca conheci meus avôs. 68


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Ainda estão vivos? — Não sei. Acredito que ambas as minhas avós e um dos meus avôs ainda estejam vivos, mas eles jamais fizeram parte de nossas vidas. — Por que não? — Não tenho certeza, mas acho que meu pai tinha ego e orgulho demais. Minha mãe perdeu os pais ao se casar com meu pai contra a vontade deles, sendo assim, ela o apoiava em todas as decisões, o que significava que jamais víamos avós e não tínhamos feriados em família. Éramos sempre nós quatro. Mamãe, papai, Katie e eu. — Onde é que ela mora? — Ela... Ela... — Jillian interrompeu-se e desviou o olhar, incapaz de completar a frase. — Está morta. Ela morreu. Alguns anos atrás. Katie tinha 21 anos de idade. — Lamento. Ela o observou com a dor nos olhos, revelando mais do que pensava. — Eu também. Vittorio observou a expressão de Jill enquanto ela falava sobre a família. Mais do que tudo, seus olhos revelavam perda. — Acho que deveríamos nos esforçar para incluir seus pais no nosso casamento. Se marcarmos a cerimônia para o próximo sábado, poderemos providenciar a viagem deles. Quer ligar para eles antes do jantar? — Não sei se estarão em casa. Podem estar... Viajando. — Pensei ter dito que eles não gostam de viajar. — Não gostam de voar. Ou viajar muito para longe. Ele sorriu gentilmente. — Você parece nervosa. Por que estaria nervosa? — Não estou. É só... Muita mudança ao mesmo tempo. Confesso que estou um pouco atordoada, Vittorio. — Acho que você precisa de algo com o que se ocupar, tipo escolher flores, bolo e um vestido para a cerimônia. Minha mãe se encarregará da lista de convidados. Eu cuidarei do jantar. Fora ela quem sugerira o casamento formal, para publicamente firmar-lhes a relação, contudo, subitamente, parecia tão arriscado. — Não vai ser um casamento grande, vai? Apenas algo pequeno, aconchegante e elegante? — Posso estar enganado, mas acho que a lista de convidados está bem extensa. Como Catania é um lugar pequeno, e todo mundo conhece todo mundo, minha mãe teve dificuldades em limitar a lista. Podemos tentar manter a cerimônia na igreja, íntima, e convidar todo mundo para a recepção. — Talvez devêssemos adiar um pouco mais a cerimônia, para nos dar mais tempo para planejar. — Com todo mundo ajudando, uma semana será o bastante... — Vittorio interrompeu-se ao ver a mãe aproximar-se, e levantou-se para puxar a cadeira para ela, à mesa. — Bom dia, mamãe — disse, dando-lhe um beijo na face. Não podia ter chegado em hora melhor, estávamos falando sobre os planos para o sábado. 69


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Já lhe contou sobre à hora marcada com os estilistas? — Theresa perguntou, ao sentar-se. — Ainda não sei de nada — Jillian retrucou. — Você vai se encontrar com três dos melhores estilistas italianos — Theresa informou, calmamente. — Um deles chegou ontem à noite, e os outros dois estão vindo de Milão. Cada um a receberá por meia hora, e trabalhará em um modelo. Cada estilista terá um desenho para lhe mostrar antes de partir, amanhã. Você selecionará o favorito, que será confeccionado a tempo para a cerimônia, no sábado. Os olhos de Jillian se arregalaram. — Isso parece tão extravagante. — É uma cerimônia extravagante — Theresa retrucou. — Mas, pelo que eu soube, era o que você queria. Jillian virou-se para Vittorio. — Jamais disse que queria um casamento caro. E, certamente, não preciso de três estilistas diferentes vindo trabalhar em três modelos distintos para eu escolher. Um deles teria sido mais do que suficiente. Ele deu de ombros. — Você disse que queria um vestido lindo. — Disse, mas até um vestido de loja pode ser bonito. — Isso porque você compra as suas roupas em lojas — Theresa comentou, erguendo o nariz. — Se tivesse uma costureira profissional, saberia a diferença. — Mas não tenho, e sou grata a todos por tentar fazer o casamento algo especial. Mas simples é bom. Simples pode ser adorável. — Jillian estendeu a mão para Vitt. — Podemos fazer simples, não podemos? — O casamento é seu — ele afirmou, levantando-se. — É livre para fazer o que bem quiser. — Pensei que o casamento fosse nosso — ela contra-argumentou, notando o modo carinhoso com que ele olhava e tratava Joe. Jill deu-se conta de que ele realmente amava Joe, realmente queria ser pai. — O casamento é nosso — ele respondeu. — Mas deveria ser o casamento dos seus sonhos. Contanto que você, eu e o padre estejamos lá, não ligo para os detalhes. — Notando o sorriso no rosto angelical do filho, Vitt completou: — Melhor dizendo, você, eu, Joseph e o padre. Após acariciar a face do menino, ele foi embora. Jill ficou observando Vittorio afastar-se, antes de se dar conta do olhar de Theresa sobre si. Corando ligeiramente, ela empertigou-se na cadeira. — Obrigada pela ajuda em providenciar tudo. Eu agradeço sinceramente. — Foi tudo ideia de Vittorio — Theresa respondeu, fazendo um gesto de pouco caso com a mão. — Eu lhe disse que os estilistas de Catania seriam adequados, mas ele tinha suas próprias idéias. Sempre teve. Sem saber o que responder, Jill pegou Joe na cadeirinha. — O que achou da casa? — Theresa perguntou, tentando preencher o silêncio. — Você tem uma bela casa — Jill respondeu, pousando Joe no seu colo. 70


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — É a casa de Vittorio. Ele apenas é gentil o suficiente para permitir que moremos em uma das alas da casa. — Eu pensei que o castelo estivesse na família por quase cem anos? — E estava. — Theresa cerrou os lábios por um instante, escolhendo as palavras. — Meu marido sofreu um revés nos negócios há 15 anos. Perdemos tudo, incluindo este lugar. Vittorio largou a faculdade para arrumar um emprego para nos ajudar. Ele trabalhou muito, muito duro. Houve muitos problemas e muitas dívidas. Contudo, seis anos atrás, ele foi capaz de comprar de volta o castelo, assim como aquela linda propriedade em Bellagio. — Eu não fazia ideia. Theresa deu de ombros, — Vittorio jamais lhe contaria algo como isso. Ele jamais assume o crédito pelo bem que faz, e ele faz muito o bem. O pai dele é igual. Meu marido, Salvatore, jamais pensa em si. A família sempre vem primeiro. — Você parecem ter um bom casamento. Pela primeira vez, desde que Jill a conhecera, Theresa sorriu com sinceridade. — Eu não poderia viver sem ele. Tendo dito isso, ela levantou-se e seguiu de volta para a casa. Jill passou algum tempo com Joe, e, quando ele foi tirar o seu cochilo, foi ao encontro do primeiro dos estilistas. Um dos estilistas acabou sendo uma mulher, os outros dois eram homens, e os três esbanjaram cortesia ao lidar com Jill. Cada estilista tirou suas próprias medidas. Dois perguntaram o que ela gostaria em um vestido de casamento, e o terceiro, um dos homens, disse ter o modelo perfeito em mente, e que o mostraria assim que terminasse o croqui. Após terminar com os estilistas, Jill foi chamada à cozinha para se encontrar com o famoso chef trazido de Nova Iorque para confeccionar o seu bolo. Ele trouxera amostras de seis tipos diferentes de bolo, com vários recheios e coberturas. Limitando suas escolhas a três, Jill não quis tomar sua decisão sem consultar Vittorio, que havia saído. — Tradicional, clássico, arquitetural, incomum? — o chef perguntou, tentando determinar o estilo pessoal de Jill e a visão para o casamento. — Não sei — ela confessou. — Não planejei um casamento grande, mas pelo jeito vai ser bem formal. De modo que, suponho que o bolo deva ser clássico. Elegante. Assim como Vittorio. O chef fez algumas anotações e mostrou um álbum contendo fotografias de vários bolos. Enquanto ela o analisava, Theresa veio avisar que a florista a estava aguardando na sala de jantar para discutir as flores para o casamento e para o jantar de recepção. Jillian sentiu-se mais à vontade conversando com a florista do que com o chef. Ao longo da sua carreira no meio hoteleiro ela trabalhara com muitas floristas. Tendo decidido as flores para a cerimônia, ela arrastou a florista para a cozinha para comparar anotações com o chef. Theresa juntou-se a eles, logo em seguida, para avisar que os estilistas estavam prontos para falar com ela. 71


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Ao subirem as escadas até a sala de estar no segundo andar, Theresa alertou Jill para não tomar nenhuma decisão antes de ter visto os três modelos. — Fique à vontade para mudar de ideia. Estude cada croqui e pense bem no que quer, pois é o seu dia. — Obrigada — Jillian disse, ao se deterem diante da porta da sala. — A senhora tem feito tanto por mim, que não tenho como expressar minha gratidão... — É por ele — Theresa informou, sem rodeios. — Isto é o que Vittorio quer para você, sendo assim, eu o apoio e me esforço para providenciar um belo casamento. Mas, você, eu não conheço, e não sei por que manteve Vittorio longe do filho pelo último ano. Mas ninguém pediu, e nem vai pedir, a minha opinião. Vittorio é um homem, e toma as suas próprias decisões. Contudo, deixe-me dar-lhe um conselho materno. Não desrespeite Vittorio, e não desrespeite esta família, pois isso não será tolerado. Indiscrições também não serão perdoadas. Como esposa de Vittorio, cabe a você trazer honra e respeito para a família. Se for incapaz de fazer isso, aqui não é o seu lugar. Está entendendo? Jill assentiu. — Estou. — Ótimo — Theresa disse, em um tom de voz mais suave. — Agora, vamos ver qual é o vestido que você prefere. Apesar de passar a próxima hora cuidadosamente estudando os modelos criados pelos estilistas, sua empolgação desaparecera. Por um breve instante, ficara animada com o casamento. Mas o aviso de Theresa a derrubara das nuvens. Esse não era um casamento normal. A cerimônia no sábado não ia comemorar um dia feliz. — São todos lindos — Jillian disse incapaz de se decidir. — Qualquer um deles seria perfeito. — Eu sei querida, mas você só pode usar um deles, e os estilistas precisam voltar para casa para começar a trabalhar nele — Theresa disse, calmamente. — Qual deles vai ser? Os três vestidos eram tão chiques, tão vistosos, que ela não foi capaz de se imaginar usando nenhum deles. No entanto, não podia dizer isso para os estilistas. Ela folheou o bloco de desenho da estilista de moda, detendo-se por um instante em um desenho que não fora mostrado. Era um vestido de seda marfim sem alças, com uma saia rodeada de seda cujo único detalhe era um discreto laço na cintura feito com uma fita de seda verde, cujas pontas caíam até a bainha da saía. Era simples, talvez simples demais, o que justificava não o terem mostrado para Jillian, mas ela o adorara. — Gostei mais deste — uma grave voz masculina disse, vinda de trás dela. — É a sua cara. Com lágrimas nos olhos, ela olhou por sobre os ombros, para Vittorio. — Acha mesmo? Ele assentiu, e estendeu a mão para enxugar uma das lágrimas, antes que esta rolasse. 72


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Por que está triste? — Ela não está triste — Theresa apressou-se em dizer. — E você não deveria estar aqui. O vestido deveria ser segredo... — Nós já somos casados, mamãe. Esta renovação de votos é para o benefício da família. — Ele inclinou-se para pegar o bloco de desenhos que continha o desenho do vestido cor de marfim e a fita verde, e o ergueu. — Quem fez este? A estilista ergueu a mão. — Ele é meu. — Este é o que Jill quer — Vitt informou. — Ele assentiu para os outros estilistas. — Obrigado por terem vindo. Como combinado, serão bem recompensados pelo seu tempo. Obrigado a todos. Agora, se nos derem licença, Jill e eu temos outro compromisso. — Aonde vamos? — Jill murmurou, ao chegarem ao corredor, e começarem a descer as escadas. — Sair. Acho que um pouco de ar fresco e um pouco de tempo só faria bem a nós dois. Gostaria disso? — ele indagou, olhando para ela quando chegaram ao pé da escada. — Muito. — Ótimo. Eu também.

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CapítuloNove Vittorio abriu a porta da frente, que levava à escada diante da mansão, e a luz do sol preencheu a entrada da casa. O ar parecia agradável, o céu azul, quase sem nuvens, e um carro esporte conversível reluzia na circular estrada de acesso a casa. — Que carro lindo — ela disse, descendo os degraus para examiná-lo. — Pelo estilo, eu diria que é da década de cinqüenta. — Bom olho. 1955 — ele disse, sorrindo. — Um Lancia Aurélia. — Não é o que chamam de B24 Spider? Vittorio riu, abrindo a porta do carona para ela. — É. Como sabe? — Meu pai adorava carros. Ele estava sempre comparando carros novos, e morando em Detroit... — Ela interrompeu-se, horrorizada com o que acabara de revelar. Em pânico, continuou a falar. — Papai ainda assiste a leilões de carro na TV. Vittorio fechou a porta atrás dela e seguiu para o assento do motorista. — Você não falou do interesse do seu pai quando estávamos em Bellagio. — Não me dei conta de que você também gostava de carros antigos — ela retrucou, supondo pela falta de reação de Vitt que o seu deslize sobre Detroit não fora notado. — Todos os carros na propriedade do lago eram novos. — E o que você prefere? — Gosto mais de carros clássicos. — Parece que puxou ao pai — Vittorio disse, dando a partida no motor. — Quando estava crescendo, eu era muito chegada a ele — ela disse, em voz baixa. — Sentia orgulho de ser a filhinha do papai. — E o que mudou? Seguiu-se um instante de silêncio, em que Vittorio arrancou com o carro, e tomou a estrada que levava à cidade. — O trabalho dele — Jill por fim respondeu, erguendo a mão para proteger os olhos do sol forte. — Ele teve alguns problemas de trabalho. — Que tipo de problemas? — Financeiros. Vitt olhou para ela. — Ele defraudou a empresa?

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Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Não. Pelo menos, eu acho que não. Jamais falávamos sobre isso em casa. Meus pais tinham um casamento muito tradicional. Ele era o chefe da família, e tomava todas as decisões, e a função da minha mãe era concordar com ele. — Você não puxou nada à sua mãe. Ela não pôde deixar de rir. — Não, não puxei. Talvez seja por isso que não somos muito chegadas. Por outro lado, minha irmã e mamãe conversavam freqüentemente. Mesmo quando estava na faculdade, Katie ligava para pedir conselhos à mamãe. Elas se falavam, às vezes, três ou quatro vezes por dia. Eu costumava dizer a Katie para crescer e se tomar independente, mas ela insistia que mamãe precisava dela. Pensando bem, Katie tinha razão. Mamãe jamais tivera uma grande vida. — Quando foi à última vez em que os viu? No enterro da sua irmã? Jill fincou as unhas nas palmas das mãos e desviou o olhar. — Não pude ir ao enterro. — O quê? Ela sentiu a intensidade do olhar de Vitt, e deu de ombros. — Eu estava na Suíça, trabalhando. Não houve velório, nem enterro. Papai e mamãe simplesmente levaram as cinzas de Katie para casa. — Que estranho. — Como eu disse, não somos chegadas. — Ela virou-se para fitá-lo. Seu rosto estava pálido. — Não os vejo desde que me formei na faculdade, cinco anos atrás. — Não quer vê-los? — Quero. Mas há motivos para não nos reunirmos, e tenho de respeitar tais motivos. Não estou dizendo que é fácil, porque não é. Eu quis voltar para casa para vêlos, após a morte de Katie. Queria estar com pessoas que amavam Katie tanto quanto eu a amava, mas não pude ir. Chorei sozinha a sua morte, e foi horrível. — Ela tentou conter as lágrimas. — Mas, então, troquei de emprego, e me mudei de Zurique para Istambul, o que ajudou um pouco. Ajudou-me a não pensar o tempo todo em ter perdido Katie. Apesar dos seus olhos estarem ocultos atrás dos óculos escuros, Jill podia ver que ele estava pensando em cada palavra que ela dissera. E ela dissera um bocado. — Será que podemos falar sobre alguma outra coisa? — ela solicitou com a voz rouca. — Falar sobre a minha família só me faz sentir mais saudades de Katie. Após dirigirem mais um pouco, eles pararam em algumas minas romanas à uma hora e meia de Palermo. — Será que você consegue imaginar assistir uma peça ou um espetáculo musical aqui — ela perguntou ao chegarem ao centro de um enorme anfiteatro, rodeado de assentos de pedra que subiam pela colina verdejante. — De vez em quando, ainda realizam espetáculos aqui. Não acontece com muita frequência. O último foi há dez anos, Mas é uma visão mágica, com os atores iluminados pelo luar e pela luz de velas. Jillian sentou-se em um dos bancos que ainda estava praticamente intacto. — Estamos em um campo com um anfiteatro romano que fica à uma hora da sua casa. Estou com inveja. 75


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — É mesmo lindo. E o mais impressionante é que temos ruínas como estas espalhadas por toda a Sicília, inclusive nas cidades. Temos dois mil anos de história nesta ilha, o que contribuiu para criar a personalidade forte da Sicília moderna. — Você tem orgulho de ser siciliano — Jill comentou, fitando-o. Vittorio assentiu. — Muito orgulho. Sicilianos não foram moldados apenas por milhares de anos de diferentes culturas e governantes, mas também pela terra e pelo clima. Aqui na Sicília, temos seis meses de maravilhoso clima quente, seguido de meses de chuvas torrenciais. O interior da ilha é árido e pedregoso, enquanto o litoral é composto de intermináveis praias pitorescas. Estamos cercados por água, no entanto, no centro fica o nosso Mount Etna, o maior e mais ativo vulcão da Europa. — Um lugar de extremos. — Isso mesmo. — Ele lhe estendeu a mão. — Venha. Há mais que eu quero lhe mostrar. Após pararem para uma refeição simples em Bronte, onde compararam um cachecol e um par de óculos escuros para Jillian, seguiram para Paterno. — Foi realmente uma tarde muito agradável — Jillian comentou, quando estavam voltando para casa no conversível. — Ainda é — ele retrucou, fitando-a com os intensos olhos escuros. Continuaram em silêncio, admirando o passeio cênico. Vittorio só voltou a falar quando chegaram aos arredores de Paterno. — Quero ligar para os seus pais quando chegarmos, e convidá-los pessoalmente para o casamento. Avisarei que tomarei todas as providências e que colocarei um avião à disposição deles... — Vitt, isso de novo, não! — Jill, você é a única filha que lhes resta. — Pode ser mais eles não virão. Simplesmente não virão. — Como sabe se ainda não os convidou? — Por que eu os conheço. — Mas eu não. E, se vamos ser uma família, quero conhecê-los. E acho que eles vão querer me conhecer. — Não vão. Sei que é horrível escutar isto, mas, não querem conhecer ninguém, não depois do namorado de Katie... Ela interrompeu-se, e mordendo o lábio inferior, voltou a abaixar a cabeça, surpresa por, mais uma vez, ter falado demais. — O que foi que o namorado de Katie fez? Jillian fechou os olhos, odiando a si mesma. — Jill? — Vitt insistiu. Ela o fitou com uma expressão triste. — Marco a machucou. — Foi ele quem a matou? — Foi. De modo que, agora, meus pais não querem ir a lugar algum, nem conhecer ninguém. Por um instante, Vittorio nada disse, depois, em voz baixa, falou: 76


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Não sou Marco. Jamais faria mal a você ou à sua família... — Pode ser. Mas não vamos ligar para eles. Eu não vou ligar para eles. — Nesse caso, eu ligo. — Ele a fitou. — Eu tenho o número deles, Jill. Tanto o do celular quanto o da casa. Ela virou o rosto. Vittorio não sabia. Não entendia. — Não faça isso Vitt. Não é uma boa ideia. Tem de confiar em mim quanto a isso. — Como você confia em mim? Ela estremeceu. — Seus pais são importantes — ele acrescentou. — Não são apenas os seus pais. São os avôs de Joseph, e deveriam fazer parte da vida dele. — Mas eu não os quero na vida de Joseph! Ele não estará seguro com eles em sua vida. Deixe-os na Flórida, que é o lugar deles. — Como pode ser tão amarga? — Por que você não faz ideia de pelo que o meu pai nos fez passar. — Pelo que ele as fez passar? — O inferno. — Você está batendo os dentes — Vitt observou. E estava mesmo. — Estou com frio — Está fazendo 29 graus. — E daí? — E daí que você não está com frio. Está com medo. — Por que eu haveria de estar com medo? Vittorio abruptamente parou o carro no acostamento. Soltando o cinto de segurança, voltou-se para ela. — Está com medo porque, se eu ligar para os seus pais, todas as suas mentiras e segredos virão à tona... — Não tenho segredos! — Você tem uma hora para ligar para eles, ou eu ligarei — ele retrucou com uma expressão furiosa. Engatando a marcha, Vittorio voltou para a estrada com o carro esporte. Instinto e auto-preservação disseram a Jill que aquela não era uma ligação de cortesia. Vittorio descobrira alguma coisa. Ele estava cimentando o seu poder. Estava indo atrás da verdade, Porque não confiava nela. Assim que Vittorio encostou diante do castelo, Jillian abriu a porta e saltou do veículo. — Você agora tem 40 minutos para decidir o que fazer Jill. Estarei aguardando-a na biblioteca. — Não tenho nada para lhe dizer! — É uma pena. Por que você tem tanto a perder. Jillian virou-se e subiu correndo os degraus do castelo. Só parou de correr quando chegou ao quarto de Joe, onde ele estava dormindo. Jillian olhou para o filho adormecido. Ele jamais parecera tão angelical. — Ele teve um bom dia? — sussurrou para Maria que estava sentada em uma poltrona no canto do quarto escuro. 77


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Teve — ela respondeu. — Brincou um bocado e demos um longo passeio. Jillian sentiu um aperto no coração. Por mais que quisesse tocar no filho, não queria acordá-lo. Sendo assim, sorrindo para Maria, ela seguiu para o seu quarto, onde trocou de roupa, colocando um simples vestido de linho branco. De lá, seguiu para a biblioteca no segundo andar. Inspirando profundamente, em busca de coragem, ela abriu as portas do aposento. — O que quer saber? — perguntou. — Tudo — foi à resposta de Vitt, quando ela adentrou o recinto. Ela fechou as portas atrás de si, antes de se aproximar da mesa, onde ele estivera digitando algo no laptop. — Mas você sabe tudo. — Sei mesmo, Jill? — Sabe. Eu não tenho segredos. Meu pai é um cretino. Minha mãe é fraca. Minha irmã está morta. O que mais há para se contar? — Que tal quem é Anne? Ou Carol? Ou Lee? — Notando-lhe a expressão do rosto, ele sorriu sombriamente. — Isso mesmo, minha esposa de tantas identidades. Quem é você na verdade? — Há quanto tempo sabe sobre as diferentes identidades. — Desde ontem. Mas eu tinha as minhas suspeitas. Ela assentiu. — Quer dizer que você sabe tudo... — Não sei o por que, e não sei quem você era antes de se juntar ao Programa Federal de Proteção a Testemunhas, mas tenho minhas suspeitas. Jill estremeceu, e Vittorio assentiu. — Aposto este castelo como o seu pai está ligado ao crime organizado — ele prosseguiu. — E aposto meu Lancia que ele é um chefão de Detroit, um homem que confessou tudo ao FBI para se salvar da prisão. — Ele sorriu, e gesticulou na direção do telefone. — Agora, só preciso que confirme isso para mim. — Não posso Vitt. — Não pode ou não quer. — Os dois. — Nesse caso, eles o farão, quando eu ligar para eles e lhes informar que você está que comigo. Estou certo de que me contarão tudo que eu preciso saber... — Não contarão. — Nem mesmo se acharem que você está em apuros? Ela riu. — Deus, Não! Não o fizeram quando Marco raptou Katie, por que o fariam por mim? — Foi assim que a sua irmã morreu? — O mais trágico é que jamais quiseram Katie. Queriam o meu pai. Mas ele jamais sonharia em se sacrificar por outra pessoa, quanto mais pela filha. — E ela morreu. — Em uma explosão de carro. Dá para acreditar? Ela achou que estava livre para ir. Pensou que escapara do perigo. Em vez disso, explodiu assim que deu a partida no veículo. — Jillian passou os punhos cerrados pelo rosto, enxugando as lágrimas antes 78


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter que estas rolassem. — A polícia classificou como acidente. Mas todo mundo sabia que não fora acidente. O governo interveio e minha mamãe e meu papai foram relocados. Não mudei meu nome, mas mudei de emprego, indo da Suíça para a Turquia. — Onde você me conheceu. Ela assentiu. — Pensei que você fosse perfeito para mim, até descobrir quem você era. De modo que fugi. Como tenho feito desde os 12 anos de idade. Ele levantou-se e caminhou até ela, tomando-lhe as mãos e puxando-a para si. — Você não precisa ter medo. Não mais, não aqui. — Eu realmente queria poder acreditar em você. — E por que não pode? — Porque coisas ruins acontecem quando abaixamos a guarda. Katie abaixou a sua guarda... — Você não é Katie — ele a interrompeu. — Jamais será, e prometo que nada lhe acontecerá se confiar em mim. Posso protegê-la, e minha família a protegerá. Sempre. Ela queria acreditar nele, precisava acreditar em alguém. E, quando estava com Vitt, sentia-se segura. — Beije-me — sussurrou. — Beije-me e mande embora todos esses pensamentos ruins. Ele a beijou, lenta e profundamente, seus lábios arrancando dela uma resposta imediata e quase febril. Jill precisava de Vitt. Precisava desesperadamente dele. Acreditou que ele fosse capaz de salvá-la. A esperança incendiou-se em seu íntimo, transformando-se em desejo. Com a boca cobrindo a dela, Vittorio avançou na direção da porta, até ela sentir as costas de encontro aos painéis de madeira. Após trancar a porta, Vittorio puxou para cima a bainha do vestido dela e enfiou a mão entre as suas pernas. Jillian sentiu-se incendiar por dentro. Seus nervos explodiram. Ela arqueou-se de encontro a Vittorio, exigindo mais. Ele a acariciou por sobre a calcinha de seda, acariciando-lhe seu sexo. Erguendo a beirada da calcinha, ele deslizou os dedos para debaixo do tecido, chegando à parte mais quente do corpo de Jill. Ela estava úmida. Muito úmida. A boca de Jill ficou seca quando ele começou a esfregá-la entre dois dos seus dedos, e ela começou a se contorcer impotentemente de encontro à mão de Vittorio, respondendo não apenas com o seu corpo, mas também com o coração. Com ele, estava segura. Com ele, estava em casa. — Você é minha — ele rugiu, com a voz rouca, no ouvido de Jill. — E vou preenchê-la e possuí-la, e você será minha para sempre. — Sim. Porque, é claro que era dele. Sempre fora dele.

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Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Ela o escutou baixar o zíper das calças, e se libertar, e, em seguida, com uma das mãos, pressionou a cabeça de seu membro rígido e quente de encontro à entrada úmida do corpo dela. Ele a provocou, por um instante, roçando o membro sobre a macieza. Mas, quando ela lhe gemeu o nome, Vittorio arremeteu para dentro dela, preenchendo-a por completo. Seu coração pareceu explodir no seu íntimo. Jill o amava. De verdade. Vitt e Joe eram tudo para ela. Vida, ar, esperança. Envolvendo-lhe o pescoço com os braços, ela cobriu-lhe os lábios com os seus. — Preciso de você, para sempre — sussurrou. — Pois, me tem, para sempre — ele respondeu. Lágrimas arderam nos olhos dela. — Promete. — Prometo. Ele a ergueu de encontro à parede, para arremeter ainda mais profundamente para dentro dela, tomando-se um só com Jill. Fazer amor com Vittorio sempre a fazia sentir-se amada, mas ela jamais precisara tanto disso como agora, quando tudo parecia tão imprevisível, quando a conexão entre os dois parecia tão frágil. Com cada arremetida, ele os levava cada vez mais próximo ao apogeu, até Jill se estilhaçar em milhares de pedaços. Vitt chegou ao clímax junto com ela, e, inclinando a cabeça, cobriu-lhe a boca com a sua, engolindo-lhe o grito com um beijo.

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CapítuloDez Com um dos braços apoiado na parede, Vittorio lentamente retirou-se de dentro dela, esforçando-se para recuperar o fôlego, enquanto Jill deslizava até o chão. Devolvendo-se para dentro das calças, ele subiu o zíper, sabendo que o corpo encontrara alívio, mas as emoções ainda estavam em conflito, o prazer atenuado pela tristeza. Ela já passara por tanta coisa. Sobrevivera ao caos e à traição, à tristeza e ao sofrimento. A dor dela fazia-lhe mal. Vitt deveria tê-la confortado, não a possuído de encontro à parede. Ele olhou para ela, a própria imagem da vulnerabilidade, largada ali no chão, com os cabelos louros em desalinho, e o vestido branco todo amarrotado. Porque ela estava vulnerável. Devastadoramente vulnerável. E, agora que entendia os seus segredos e a sua dor, ele não podia deixar de se perguntar como ela fora capaz de suportá-los. Como ela pudera perder tanto, família, amigos, seu lar, e ainda ser tão forte tão determinada a dar uma boa vida para o filho. Sua frustração transformou-se em admiração, e Vittorio sentiu um aperto no coração quando o olhar dela encontrou o seu. Quer fossem castanhos, azuis ou roxos, não importava. Seus olhos eram lindos. Ela era linda, e Vitt jamais a desejara tanto. Nem precisara tanto protegê-la. Agora, entendia que ela também precisava dele. Não apenas para proteção, mas para amor, paciência e compaixão. Jill estava marcada por 14 anos de medo e intimidação. Levaria tempo para ela aprender a confiar novamente nas pessoas. Com sorte, poderia confiar nele. Poderia entender que estava segura com ele, que estava finalmente a salvo aqui em Palermo. Estava em casa. Agachando-se ao lado dela, virou-lhe o rosto para si. Os olhos de Jill brilhavam, reluzindo devido às lágrimas. — Não chore minha querida. Ninguém voltará a machucá-la. Jamais. Eu prometo. Eu a protegerei. Sempre a protegerei. — Mas você nem sabe quem eu sou. Ele fitou aqueles olhos carregados de emoção, com tanta intensidade que sentiu como se pudesse enxergar a garotinha dentro da mulher. — Você é Jillian D’severano. Mãe de Joe e minha esposa. — Será que ainda pensaria assim se soubesse que meu pai é Frank Giordano?

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Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Por um instante, Vittorio não conseguiu respirar. Frank Giordano era a maior das escórias. Um traidor egoísta que entregara a própria Organização para não ir para a cadeia. — Frankie é o seu pai? Ela assentiu seus olhos enchendo-se de lágrimas. — Eu sinto muito. — A culpa não é sua. Durante os últimos dois dias, Vittorio rezara para que ela não tivesse parentesco com Frankie Giordano. Havia muito sangue ruim entre a sua família e Frank Giordano. Muito sangue ruim. Seu pai ficaria enojado por Vitt ter desposado a filha de Frank. — Você está aborrecido — ela sussurrou, notando a expressão do seu rosto. — Você não cometeu nenhum crime, Jill. Não é responsável pelos do seu pai. — Mas eu sou. — Ela cerrou os dentes. — Sou tão responsável pelo nome da minha família quanto você é pelo da sua. E sei que não sou o tipo de pessoa que a sua família iria querer que se cassasse com você. Sei que ficarão horrorizados de descobrir que Joe é neto de Frank Giordano... Ele lhe interrompeu as palavras torturadas com um beijo, porque não suportava escutar mais. Porque ela tinha razão. Sua família lutara por vinte anos para apagar a mácula de ser conectada à Máfia, e ter a filha do mais infame chefão do crime organizado de Detroit como esposa de Vittorio não ajudaria muito a reputação dos D’severano, mas Vitt a escolhera por que a amava. Ele a amava. A verdade explodiu em seu íntimo, marcando-lhe a mente e o coração. Todo esse tempo, ele a amara. Fora amor que o fizera procurá-la após ela ter desaparecido em Bellagio. Fora amor que se misturou a dor quando descobrira que Jill dera à luz um filho. O filho que sabia ser dele. Os lábios dela tremeram sob os seus, e Vitt pôde sentir o gosto salgado das lágrimas. Acariciando-lhe a face, ele a confortou. — Está tudo bem. Eu prometo. Está tudo bem. — Sempre serei um perigo para a sua família — ela sussurrou. Ele a fitou nos olhos. — Você não é perigo... — Mas há pessoas ruins por aí, Vittorio. Pessoas ruins determinadas a encontrar o meu pai. — Neste caso, terão de passar por mi, cara mia. Porque, não poderão tê-la. Doulhe minha palavra como um D’severano. E os D’severano sempre cumprem com a palavra. — Será que sua família pensará o mesmo? — ela indagou dividida entre a esperança e a preocupação. — Está é a minha casa. Você é minha mulher. Se alguém da minha família tiver um problema com você, ou o seu passado, não precisa vir aqui... — Vittorio! 82


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Estou falando sério. Eu trabalhei duro para restaurar a honra e a fortuna dos D’severano, e jamais me arrependerei dos sacrifícios que fiz para cuidar de minha família, mas minha lealdade é para com você e nosso filho. — Está falando sério? — Estou. — Ele assentiu, e ficou de pé, ajudando Jill a também se levantar. — E, apesar de não guardar segredos de minha família, não vejo necessidade de compartilhar o seu passado com todo mundo no jantar desta noite. Eu acharei um jeito de dar a notícia, e será em breve, mas não acho que hoje à noite seja a ocasião. — Vou conhecer a sua família hoje à noite? Ele assentiu, sorrindo. — Minhas irmãs estão se queixando de que ainda não a conhecem, e meu pai está muito ansioso para conhecer a minha esposa. Será um grupo grande. Tios, tias, primos. Acha que dá conta do recado? Ela assentiu. — Ótimo. — Ele destrancou a porta, e fez menção de abri-la, mas se deteve. — Agora que sabemos que não é Jill Smith, qual é o seu nome verdadeiro? — Alessia — ela sussurrou. — Mas há 14 anos que não sou Alessia. Sou Jillian agora, e é quem eu quero ser. — Então, é quem você será. Agora, vá se lavar e descansar um pouco, porque eu tenho de avisar, minhas irmãs puxaram à minha mãe. São falantes e têm personalidade forte, embora sejam um pouco mais amigáveis. Jillian seguiu para os seus aposentos, no terceiro andar. Ela conseguira, pensou, fechando a porta do quarto atrás de si. Contara para ele. Contara para ele a verdade, e nada de terrível acontecera. Talvez todas as coisas ruins houvessem ficado para trás, ela pensou ao despir-se e entrar debaixo do chuveiro. Talvez tudo fosse ficar bem. Após secar-se, Jill escovou os cabelos, fazendo um penteado, aplicou maquiagem e colocou um vestido preto. Por que não confiara em Vitt antes? Por que achara que ele seria como o seu pai? Ela sentiu-se como uma mulher diferente ao fechar o zíper do vestido. Era um alívio tão grande ter compartilhado a verdade com alguém, saber que não estava sozinha. Vittorio sabia a verdade a seu respeito, sabia que ela era a filha de Frank Giordano, e, ainda assim, não a tratara com revulsão. Mas isso não era o suficiente. Além de querer que ele aceitasse a verdade, queria o seu amor. Queria o coração de Vittorio. No entanto, como ele podia amá-la, se não a conhecia? Ele precisava conhecer a verdadeira Jillian, a mulher que estava se apaixonando por ele. Olhando para o seu reflexo no espelho, ela inspirou profundamente e retirou as lentes de contato castanhas, revelando a verdadeira cor dos seus olhos, um estonteante verde turquesa. Esta é você, disse para o seu próprio reflexo. Esta é a você que Vitt precisa ver. Vittorio bateu na porta. 83


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Minha família já está reunida lá embaixo, e aguardando. — Estou pronta — ela respondeu, abrindo a porta e deixando o banheiro, perguntando-se quanto tempo ele levaria para notar o que ela fizera. Ele inclinou a cabeça, estudando-a. Notara na mesma hora a mudança. — Você parece... Diferente. — É o cabelo? Eu posso soltá-lo. — Não é o cabelo. — Talvez seja o vestido. Está um pouco grande. — Tudo no seu guarda-roupa está grande. — Nunca comprei roupas após ter Joe. Mas não ligo. Não é como se alguém fosse mesmo me notar hoje à noite, não é? — Procure se convencer disso, se a faz sentir-se melhor. — Em seguida, ele retirou um saquinho de veludo do bolso. — Talvez isto acrescente um pouco de brilho ao seu vestido preto. Timidamente, ela inclinou a cabeça para frente, para que ele pudesse dar conta do complicado fecho de ouro da gargantilha justa com suas pedras preciosas. — Vire-se — ele disse. Ela obedeceu, e, por um instante, ele nada disse, em seguida, com um dos dedos, inclinou a cabeça dela para cima. — Olhos verdes esta noite. Ela assentiu. — Como é que você sabia que ia ganhar esmeraldas? — ele indagou, com um tom de voz divertido. — Não sabia. — Apenas resolveu trocar as lentes coloridas esta noite? — Decidi que estava cansada de me esconder, sendo assim, joguei fora as lentes. — Verde é a cor verdadeira dos seus olhos? Ela assentiu. — E o seu cabelo? Ruivo? — Vitt adivinhou. — Como é que sabe? O sorriso desapareceu dos lábios de Vittorio. — É a única cor de cabelo que você jamais usou. — Vitt estendeu a mão para lhe ajeitar o coque, alisando-lhe os cabelos na nuca. — Minha esposa é ruiva e tem olhos verdes. É estranho não conhecê-la de verdade. — Ah, mas você conhece. Esta — ela gesticulou na direção do rosto e do corpo — é a verdadeira eu. A única eu. A que você conheceu em Istambul. A que teve o seu filho. — Ótimo. Porque é você quem eu quis em Istambul, e quem eu quero que ajude a criar o nosso filho. Juntos, de braços dados, os dois desceram as escadas e adentraram o enorme salão de jantar. Jillian estremeceu, quando todos se voltaram para eles. — Eu sei, é um bocado de gente — Vittorio murmurou. — Contudo, basta ser você mesma que todos a adorarão. Ela assentiu, apertando o braço dele com mais força. Mal haviam adentrado o aposento, quando duas mulheres atraentes vieram em sua direção. 84


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Minhas irmãs — Vitt sussurrou. — Puxaram à minha mãe. Faça o melhor que puder. — Isso não é lá muito reconfortante — foi à resposta sussurrada de Jill. Vittorio encarregou-se das apresentações. — Bianca e Carlina, quero que conheçam minha esposa. Jill esta é Carlina, a caçula de minhas irmãs, e Bianca, a mais velha. Guiliana não está aqui. Ela mora na Europa com a família. Os quatro conversaram por alguns minutos antes que Bianca e Carlina inventassem uma desculpa para ficarem sozinhas com Jill. Conhecendo as irmãs, e sabendo que não desistiriam até conseguir o seu intento, Vitt permitiu que a arrastassem até um canto reservado. Enquanto isso foi cumprimentar a avó paterna, que já estava sentada à mesa, no seu lugar de costume. — Nona, como está? — perguntou, após beijá-la, e sentou-se em uma cadeira próxima. — O sol brilhou hoje, e estou viva. O que poderia ser melhor? Vitt sorriu. — Como foi que isso aconteceu? — a avó perguntou, assentindo na direção de Jill, ainda conversando com as irmãs de Vittorio. — O bebê? Ela estreitou os olhos. — Sei como bebês são feitos. Eu tive nove. Mas como é que só estamos conhecendo a sua família agora? Ele deu de ombros. — Houve alguns problemas. Estamos tentando consertar. — Ótimo. Crianças precisam do pai e da mãe, juntos na mesma casa. — Eu concordo. Ela inclinou a cabeça, observando Jillian. — Ela é italiana, não é? Dá para ver no rosto. Sua avó era esperta. Com um tapinha na mão dela, Vittorio perguntou: — Quer conhecê-la? — Por que acha que eu estou aqui? Rindo baixinho, ele levantou-se para buscar Jill, mas antes que pudesse chegar até ela, sua mãe adentrou o salão de jantar, empurrando a cadeira de rodas do seu pai. Vitt não vira o pai desde que chegara a casa, e, na mesma hora, seguiu até ele, curvando-se sobre a cadeira de rodas para lhe dar um beijo na face. — Pai, você está com uma aparência ótima. O que tem feito? Corrido atrás de madre ao redor da cama? Os olhos escuros do seu pai brilharam e um sorriso apareceu no seu rosto. — Cão imprudente — o pai respondeu sua voz distorcida pelo respiradouro que o ajudava a respirar. Vittorio sempre admirara o pai, mas o senso de humor dele sempre fora uma das suas coisas favoritas. — Todo mundo diz que puxei a você. Salvatore revirou os olhos, antes de olhar para o canto do aposento. 85


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Aquela é a sua esposa, conversando com suas irmãs. — É. — Vá buscá-la. Estou ansioso para conhecê-la. Jillian sobressaltou-se quando Vittorio tocou nas suas costas. — Meu pai quer conhecê-la — ele informou, puxando-a para longe das irmãs. — Ele fala com dificuldade, e nem sempre é fácil entendê-lo, sendo assim, peço paciência. Jill estremeceu ao ver o homem que tanto lembrava Vittorio sentado em uma cadeira de rodas, com os músculos do corpo magro atrofiados pelo desuso. Seus olhos, contudo, ainda espelhavam sagacidade e intensidade. — Ele teve um derrame? — ela perguntou, nervosamente. — Não. Levou um tiro que o deixou paralisado. — Ele é quadriplégico? — É. Quando alcançaram Salvatore, Vittorio voltou a se encarregar das apresentações. — Pai, está é minha esposa, Jill. Jill, meu pai, Salvatore D’severano. — Como vai, Sr. D’severano. E um prazer conhecê-lo. — O senhor está no céu — ele retrucou, com a voz áspera. — Você agora é minha filha. Seja bem-vinda à família. — Obrigada. Não faz ideia do quanto isso significa para mim. Ele a examinou com os olhos escuros. — Se está feliz, por que está chorando? — Não estou chorando — Jill retrucou, piscando aceleradamente para conter as lágrimas. — Meu filho a fez infeliz? — Não. — Posso estar paralítico, mas não sou nenhum tolo. — Prometo que não é Vitt. Ele tem sido muito bom comigo, considerando... Considerando... — Considerando todo o drama — Salvatore completou por ela, seus olhos lacrimejando devido ao esforço de falar. Ela assentiu. Ele franziu a testa. — Você me parece tão familiar. Tenho a impressão de já conhecê-la. Ela sacudiu a cabeça. — Eu lembraria. — Talvez eu conheça a sua família. Você é siciliana, não é? — Não. Americana. — Ah, mas a sua família é da Itália, da Sicília, eu tenho certeza. Mais uma vez, Jillian sacudiu a cabeça, porém, perdeu a compostura, e murmurando um pedido de desculpas, saiu correndo do salão, seguindo para o terraço. 86


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Jillian andou nervosamente de um lado para o outro, até apoiar-se no corrimão de pedra, esforçando-se para inspirar. É claro que a família dela era italiana, e ela se orgulhava da herança italiana. Mas o seu pai... Tinha tanta vergonha do seu pai. Ele sacrificara Katie para salvar a própria pele. Será que faria o mesmo com ela? Que tipo de monstro ele era? — O que foi que meu pai disse? — Vittorio perguntou. Ele aproximara-se tão silenciosamente, que ela sequer o escutara. — Nada — respondeu, sacudindo a cabeça. — Então, por que está triste? Ela voltou-se para ele. — Seu pai foi gentil comigo, mas não teria sido se soubesse quem é o meu pai. — Provavelmente, não iria ficar muito satisfeito, mas não deixaria de gostar de você por conta disso. — Como foi que ele se feriu? Vittorio encostou-se no corrimão, ao lado dela. — Ele decidiu deixar a máfia. — E atiraram nele por causa disso? — É. — Quantos anos você tinha quando aconteceu? — Dezessete. — Deve ter sido terrível para você. — E foi. Ela esperou que ele falasse mais, algo que a ajudasse a entendê-lo, mas ele não o fez. Em vez disso, endireitou-se e lhe estendeu a mão. — Venha cara mia, vamos nos juntar novamente aos outros. Esta noite é para lhe dar as boas-vindas à família, não para falar do passado. De mãos dadas, voltaram para o salão, onde todos estavam se acomodando ao redor da mesa comprida. Jill ficou um tanto quanto desapontada de descobrir que não se sentaria ao lado de Vittorio, mas na extremidade oposta a ele da enorme mesa retangular. Mas Vittorio jamais deixou de lhe dar atenção durante a demorada refeição, o tempo todo lhe lançando olhares sedutores. Enquanto a família conversava, alternando entre italiano, siciliano e inglês, para o benefício de Jill, ela tentou imaginar sua vida sem Vittorio, e falhou. Olhando para ele, agora, com a avó, e lembrando-se do modo como ele segurava Joe, assim como quando fazia amor com ela, Jill não conseguiu entender como fora capaz de achá-lo perigoso, como fora capaz de duvidar de sua integridade. Horas mais tarde, quando enfim estavam sozinhos no quarto, Vittorio trancou a porta e abaixou as luzes, e Jillian sorriu timidamente. — Leu os meus pensamentos — ela disse, caminhando até ele, e abaixando o zíper do vestido. 87


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Vittorio já estava desabotoando a camisa, mas interrompeu-se quando o vestido dela deslizou até o chão. Sua pulsação se acelerou, quando ele desabotoou o sutiã de renda preta e o deixou cair aos seus pés, ao lado do vestido, seguido da calcinha. Seus olhos escuros arderam sobre ela, quando Vitt a empurrou para trás, na direção da cama. As mãos de Jill tremiam ao terminar de desabotoar a camisa, e empurrá-la por sobre os ombros, e braços abaixo. Ao libertar uma das mãos, ele espalmou um dos seios de Jillian, que estremeceu de prazer, as pernas parecendo feitas de gelatina. Ela quisera seduzi-lo, quisera lhe mostrar que era capaz de lhe proporcionar o mesmo prazer que Vitt proporcionava a ela, porém, Vittorio a tomou nos braços e a beijou, profundamente. Ela adorava o modo como ele a beijava. Adorava-o. — Vittorio — sussurrou, de encontro à sua boca, enterrando as mãos nos seus espessos cabelos escuros. Vittorio era tudo que ela queria e precisava. Ele afastou-se para tirar as calças, e, assim que ficou nu, estendeu-se sobre ela, voltando a beijá-la, em seguida, descendo pelo pescoço, até chegar aos seios, onde a língua trabalhou em um dos mamilos, e, em seguida, no outro. Ele estendeu a mão para entre as pernas dela, descobrindo que Jill estava úmida, e, em seguida, usou os dedos molhados para acariciá-la, brincando com o botão sensível até ela se contorcer de encontro à sua mão. — Você é sempre tão ávida — ele murmurou, acariciando-a novamente. — É avidez querê-lo? — É avidez me apressar — ele respondeu. — Não posso evitar. Quero você. Não um orgasmo. Apenas você. — Isso eu posso providenciar. Ela fechou os olhos, e as poderosas pernas de Vitt afastaram ainda mais as suas. Sua ereção era comprida e dura, e ela sentiu Vittorio adentrando-a, alargando-a para acomodá-lo. Ela adorava este instante, quando se tornavam um, adorava a sensação de posse, de vínculo. Passara tanto de sua vida sozinha, porém, quando estavam assim, sentia-se completa e em paz. Vitt começou a se mover lentamente dentro dela, e suas mãos começaram a lhe acariciar as costas. O corpo dele era rijo e esbelto, lindamente musculoso, e ela se deliciava com a largura de seus ombros, a fineza da cintura e os músculos fortes das nádegas. Ela enterrou a boca no seu peito, subindo para o pescoço, para o queixo. Ele cheirava tão bem. Eu amo você, pensou, sentindo o corpo duro e potente de Vitt levála ao pináculo do prazer. E sempre o amarei.

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CapítuloOnze Voltaram a fazer amor durante a noite, e Jill acordou na manhã seguinte ainda envolta pelos braços de Vittorio. Era maravilhoso acordar nos braços dele, sentindo-se tão segura. Tão amada. Isto era perfeito. Ele era perfeito. Poderiam fazer isto dar certo. — No que está pensando, cara mia? — a voz profunda de Vitt perguntou. — Em você. Em mim. Em nós. Em tudo. — E sem café? — ele brincou, acariciando-lhe o cabelo. Ela se aconchegou mais nele. — Adorei a noite passada. Obrigada. ��� Minha família também adorou conhecê-la. Ela riu. — Sabe que não foi isso que eu quis dizer. Estava falando de fazermos amor. Foi bom. Foi como costumava ser. Em Bellagio Vittorio continuou a preguiçosamente acariciar-lhe o cabelo — Foi mesmo bom. — Contudo, eu adorei conhecer a sua família. Adorei conhecer a sua avó e o seu pai. Você lembra muito o seu pai. Já lhe disseram isso? — Já. — Onde ele foi baleado? — Levou uma bala nas costas. Bem, foram cinco, na verdade, mas foi uma que lhe partiu a coluna cervical, quase o matando. — Vitt interrompeu-se por um instante. — Graças a Deus não o matou. Mas ele passou os dois anos seguintes entrando e saindo de hospitais. Às vezes ele ainda fica muito doente. — Mas quem atirou nele? — Um homem dá máfia. Como eu lhe disse, ontem à noite, ele queria sair. Eu estava com 17 anos, a idade em que muitos homens se juntam à irmandade, mas ele deixou bem claro que eu não o faria, nem os meus filhos. — Não pensei que fosse possível simplesmente sair. — E não é. Ela pôde notar a dor na voz dele. — O que aconteceu? Ele estremeceu. — Meu pai anunciou que não faria mais parte de nenhuma atividade criminosa. Deixou claro que não extorquiria mais dinheiro e nem ofereceria subornos. — Vittorio interrompeu-se, olhando para o teto. — Certa noite, estávamos todos jantando em Catania. Meu pai, minha mãe, meus avôs, meus tios, suas esposas, alguns primos, e eu. Todos os homens foram chamados para fora do restaurante. Meu pai sabia o que ia acontecer. Afinal de contas, fora um membro durante anos, assim como o meu avô. Ele 89


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter mandou todo mundo ficar onde estava, pois iria sozinho. Meu avô e tio se recusaram a deixá-lo ir sozinho. Atiraram neles. Meu pai atirou-se sobre Giovanni, seu irmão caçula, Para protegê-lo, mas não adiantou. Uma das balas atravessou-o, matando Giovanni na hora. Só o meu pai sobreviveu. Foi um milagre. — E então, a sua família enfim ficou livre? — Jill indagou com a voz carregada de emoção. — A indignação pública foi imensa. Todo mundo nos conhecia em Catania. Todos sabiam o que acontecera. Até membros da Organização ficaram pouco à vontade com o que acontecera. Acho que tirar duas vidas e aleijar o meu pai satisfez a necessidade do clã de mandar uma mensagem. Sangue o suficiente fora derramado. Fomos deixados em paz. Ela ajeitou-se de modo a poder fitar Vittorio nos olhos. — Seu pai o salvou. Ele engoliu em seco. — Salvou. — Queria que seu pai fosse o meu pai. Um homem tão corajoso. — Mas, ele é o seu pai, agora. Você, agora, faz parte desta família. Precisa acreditar nisso. Eles se beijaram e fizeram amor lenta e demoradamente, antes de adormecerem por mais uma hora. Por fim, levantaram-se e tomaram banho, antes de pegarem Joe para descerem para o desjejum. Estavam no meio do café da manhã quando Theresa apareceu. Ela parecia zangada. — Você recebeu um telefonema, Jillian — a mãe de Vittorio informou bruscamente. — No telefone da casa. Não ia sair procurando-a pela casa, de modo que anotei o número. Ele disse para você ligar de volta. E rápido. — Ela entregou um pedaço de papel para Jillian. — Não é ninguém trabalhando no casamento. Eu perguntei. Para quem mais você deu o número? — Para ninguém. — Para alguém você deu, ou ele não teria ligado. — Theresa sorriu, friamente. — Ah, ele é americano. Aparentemente, um amigo em apuros. No futuro, eu preferiria que seus amigos usassem o seu celular. Sentindo o olhar de Vittorio, ela virou-se para ele. — Não faço ideia de quem possa ser. — Vá descobrir — ele disse, despreocupado. — Joe e eu a aguardaremos aqui. Jillian estava encucada ao discar o número que Theresa anotara. Ninguém sabia que ela estava ali. Ninguém poderia ter o número dos D’severanos. — Alô? — atendeu um homem. — Aqui é Jillian D’severano retornando o seu telefonema. Com quem falo? — Um amigo. Ela ficou arrepiada. — Meus amigos têm nome. Qual é o seu? — Pode me chamar de Mark, ou Marco, o que preferir. As pernas de Jillian bambearam. Marco era o nome do namorado de Katie. 90


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Marco, você disse? — Era como a sua irmã me chamava. Ela largou-se no sofá da sala de visitas, achando até que ia desmaiar. — Como... Como foi que me encontrou? — Tenho amigos importantes. Na polícia. Na CIA. No FBI. Ele riu. — Diabos, eu posso até ser um amigo importante. Acho que nunca se pode ter certeza. Daí ser tão importante você saber quem são os seus amigos. — O que você quer? — Eu sei que você sabe o que eu quero. O que eu... Nós... Sempre quisemos. Não é muito. Alguns números. O nome de uma rua. E pronto. — Lamento, não estou entendendo. — Quero o endereço do seu pai. — Eu não o tenho. — Acha mesmo que vou acreditar nisso? — É a verdade. — Mas você poderia consegui-lo para mim. — Não, não poderia. Ele não o compartilhou comigo. Não tenho contato com o meu pai. — Desculpas. Não estou interessado em desculpas. O que precisamos fazer é ser criativos. Convide-o para o seu casamento. Estou certo de que ele adoraria fazer um passeio até a Itália. Jill sentiu um frio na barriga. Marco sabia demais. O que a fez perguntar-se como ele a localizara ali. — Não falo com meu pai há anos. — É uma pena. Porque você tem tanto a perder. Seu bebê... Seu marido... Sua nova família. — Não venha me ameaçar. — Então não seja tola. Você sabe o que aconteceu com Katie. Por um instante, ela fechou os olhos, lembrando-se de Katie. Seu coração não suportaria a dor de outra perda. — Preciso de tempo — ela disse, em voz baixa. — Você não tem tempo. E não tente envolver o seu marido. Ele não faz parte disto. Ele não pode saber nada. E se vier a descobrir, acredite quando digo que as conseqüências serão devastadoras. Marco desligou. Jillian lentamente abaixou o telefone a ficou sentada, paralisada, no sofá. Pelos últimos 20 meses, estivera com medo de Vitt, apavorada com as suas ligações com a máfia, mas Vitt não era uma ameaça. Jamais fora. A ameaça era a família dela. O passado de seu pai. Suas escolhas, seus atos. O pai dela era o perigo. E, enquanto seu pai estivesse vivo, ele sempre colocaria a todos em perigo. Porém, Jillian sabia que jamais poderia trair o próprio pai. Algo mais teria de acontecer. 91


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Algo teria de mudar para garantir a segurança de Vittorio e do bebê. Jillian retornou à sala do café da manhã, mas Vittorio não estava mais lá, apenas Theresa e Joe. — Onde está Vitt? — Jillian perguntou, tomando Joe nos braços. — Não sei. Ele saiu pouco depois de você. Jillian beijou Joe. — Vamos encontrá-lo. Theresa olhou para Jill. — Esse amigo que ligou para você... Não é um antigo namorado, é? — Não. De modo algum. — Então, quem era ele? — Um conhecido de minha irmã. — Por que ele ligou? — Soube do nosso casamento. — Então estava ligando para lhe dar os parabéns? — É. — Que gentileza a dele. — É. Bem, contanto que seja a verdade. Você conhece Vittorio. Sabe que ele não tolera desonestidade. Tendo dito isso, Theresa levantou-se, acariciou a cabeça de Joe, e foi embora. Por um instante, após Theresa ter saído Jillian não conseguiu se mexer. Em menos de cinco minutos, Marcos virara o seu mundo de pernas para o ar. Em menos de cinco minutos, Marcos a privara de toda a segurança, de toda a esperança. Ainda com as pernas bambas, Jill seguiu para o quarto de Joe, no terceiro andar. O que faria agora? O que poderia fazer? Não fazia ideia de como Marco a encontrara. Mas, agora que ele o fizera, ela colocara todos ali em perigo. Não podia colocar em risco a segurança da família de Vittorio, e jamais poderia Permitir que algo de mim acontecesse a Vittorio. Não quando o amava. Não quando ele fora a única pessoa a ajudá-la, a amá-la. Porque, no fundo do coração, sentia-se amada, e sabia que ele faria qualquer coisa por ela. Mas precisava de Vitt vivo e forte por Joe. Pois, como D’severano, Joe precisaria da orientação, da coragem e da sensatez do pai. Só havia uma coisa que ela poderia fazer. Uma decisão que poderia tomar. Ela teria de ir embora. Era o único modo. Lágrimas embaçaram a sua visão, e ela piscou para limpar os olhos. Joe fitou o rosto da mãe com preocupação, e acariciou-lhe a face. — Mama. — Está tudo bem — ela disse, beijando-lhe a palma da mãozinha. — Papai ama você. Mama ama você. Todo mundo ama você.

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Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Ao adentrar o quarto do bebê, Jillian encontrou Maria dobrando as roupas de Joe. A princípio, Jill pensou que Maria houvesse lavado as roupas, mas, então se deu conta de que a babá estava colocando todos os pertences de Joe em uma mala. Será que Vittorio soubera a respeito do telefonema de Marco? Será que Vittorio os estava mandando embora? — O que está fazendo? — Jillian perguntou para Maria. — O Signor me mandou arrumar as coisas do bebê. As pernas de Jill bambearam. — Por quê? — Disse que iam viajar. — Quando foi que ele disse isso? — Cinco minutos atrás. Talvez dez. Ele disse que os três iam passar alguns dias em Capri, se não me engano. Jill foi tomada de alívio. — Capri? — repetiu. Maria assentiu. — Ele quer relaxar antes do casamento. É uma lua de mel antes da lua de mel. Uma lua de mel antes da lua de mel, e para Capri, ainda por cima. A consideração de Vitt era maravilhosa. Ele sabia que ela sempre quisera conhecer Capri. — Maria, posso deixar Joe um pouco aqui com você, enquanto vou falar com o Signor? Maria sorriu. — É claro. Jillian seguiu para o quarto que dividia com Vittorio. O quarto ainda estava com as cortinas fechadas, e sobre a cama havia uma mala aberta com as roupas empilhadas de Vitt ocupando metade dela. Ela escutou o som de água corrente vindo do banheiro. Vitt estava tomando banho. Cantarolando. Parecia feliz. O som da água corrente cessou. Vitt terminara a sua chuveirada. Cerrando os dentes, Jill abriu a porta e adentrou o banheiro. Vitt estava de pé na outra extremidade do recinto de mármore branco, nu, seus músculos rijos reluzindo, apenas com a toalha enrolada ao redor dos quadris esbeltos. Pegando outra toalha, ele começou a enxugar os cabelos. — Como está o seu amigo? — perguntou. — Bem. — Está tudo bem? Ela olhou para ele. Sabia que o amava. Sabia que faria qualquer coisa por ele, assim como faria qualquer coisa por Joe. Eles eram a sua família. Está. Vitt sorriu ao esfregar a nuca com a toalha. — Mamãe estava preocupada que se tratasse de um antigo namorado. Seu sorriso quase partiu o coração de Jillian. Ela esforçou-se Para também sorrir. — Ela estava errada. — Eu disse isso para ela. 93


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Na verdade, era um antigo amigo de Katie. Ele soube casamento. Queria dar suas felicitações. — Você o convidou? — Não. — Por que não? Sentindo uma terrível ânsia de vômito, Jill desviou o olhar. Não podia fazer isto. Não podia fingir que tudo estava bem quando seu coração estava quase partindo. — Não somos muito chegados. — Ela passou a mão trêmula pelos cabelos. — Maria está fazendo a mala de Joe. Ela disse que você estava planejando nos levar para Capri por alguns dias. Vitt pendurou a toalha que usara no cabelo. — Não era para você saber — disse. Ela fitou-lhe as costas musculosas, a pele ligeiramente dourada, amando-o mais naquele momento do que jamais o amara. — Ainda assim fiquei surpresa. E muito feliz. Realmente vamos a Capri? — Vamos. — Ele a fitou nos olhos através do espelho. — Você disse que jamais havia estado lá. — Você lembrou. — Eu me lembro de tudo. Seus olhos arderam com as lágrimas, mas Jill recusavase a chorar. Não agora, quando tinha de ser forte. — Obrigada. — A viagem parece uma boa ideia? — Maravilhosa — ela disse, com sinceridade, pois tudo que queria era estar com Vittorio. Tudo que queria era fazer amor com ele. Ter uma vida com ele. — Quando partimos? — Em breve. Tenho uma reunião rápida em Catania, e, em seguida, meu motorista a levará, acompanhada de Joe, ao meu encontro, no aeroporto. Levantaremos vôo ao meio dia. Está bom para você? — Ótimo. O que devo levar? — Nada. Compraremos um novo guarda-roupa para você por lá. — Está falando sério? — Suas roupas estão horríveis. E você é linda. Não posso ter minha linda noiva andando por aí com roupas de mãe... Mesmo sendo ela a mãe de meu filho. Ela engoliu em seco. — Não preciso de muita coisa. Alguns vestidos bonitos. Talvez uma saída para cobrir um maiô novo. Mas, não preciso mais do que isso. Não quando tenho você. Ele voltou a fitá-la através do espelho. — Está mesmo feliz comigo? — Estou. — Não acha que eu a forcei a isto? — Não. — Por dentro, ela sentia vontade de morrer. — Vou colocar algumas coisas na mala, e o verei no aeroporto.

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Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Em noventa minutos. Meu motorista a estará aguardando lá embaixo. Assim que estiver pronta, suba no carro. — Ele caminhou até ela e a beijou nos lábios. Depois, acariciou-lhe a face e voltou a sorrir. — Olhos verdes — murmurou. — Eu os adoro. — Obrigada. — Você vai adorar Capri. Ela ficou na ponta dos pés para beijá-lo. — Se você estiver lá, eu sei que vou. — Até breve — ele disse. — Até breve — ela respondeu, sentindo-se grata por ter sido capaz de disfarçar que seu coração estava partindo. Depois que Vittorio vestiu-se e partiu, Jillian colocou o pouco que tinha em uma antiga e surrada mala verde. Tentou não pensar no que estava fazendo ao fazer as malas, nem no que estava acontecendo e nem para onde estava indo. Porque não ia para Capri, e não ia se encontrar com Vittorio. Em vez disso, aproveitaria a oportunidade para deixar Vittorio. E deixaria Joe aqui com ele. A mera ideia a fazia contorcer-se de dor em seu íntimo. Sendo assim, não ia pensar. Ia apenas colocar um pé diante do outro, e fazer o que tinha de ser feito. A mala estava pronta. O carro a aguardando lá embaixo. Tudo que lhe restava fazer era sair pela porta e deixar o marido e o filho para trás. Ficava de pernas bambas só em imaginar-se abandonando Joe. Ela apoiou-se na parede e inspirou fundo. Você pode fazer isto, disse para si mesma. Precisa fazê-lo. Joe era inocente e puro demais para a vida que ela vivera durante os últimos quatorze anos, inocente demais para ser envolvido nas trevas e no caos da família dela. Jillian desceu as escadas até a porta da frente, onde Maria estava aguardando com Joe e a bagagem. Vittorio ficaria zangado. Ficaria furioso por ela os ter abandonado. Mas Jill torcia para que, um dia, ele compreendesse. Torcia para que um dia ele se desse conta de que ela estava fazendo aquilo para protegê-los, não magoá-los. — Tenho uma última coisa a fazer — Jillian disse para Maria, com a voz trêmula. — Será que pode levar o bebê para dar uma volta rápida no terraço? Jill não beijou Joe, nem deixou escapar um som quando Maria levou Joe embora, porque, Deus sabe que não seria capaz de ir embora se Joe começasse a chorar. Mas Joe não chorou. Estava feliz em ir passear, adorava as rosas do terraço, e, quando Maria o carregou embora, ele olhou por sobre o ombro da babá, sorriu e acenou adeus para a mãe. Adeus. Adeus, meu amor. Adeus, meu bebê. Por uma fração de segundos, Jillian quase gritou de dor. Não podia fazer isto. Não podia. Não havia como... E, então, ela ergueu a mão, sorriu, e acenou de volta para o filho. Adeus, meu coração. 95


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter E, quando a porta do terraço fechou-se atrás de Maria, Jillian pegou a sua mala, deixando as duas malas pequenas de Joe no chão reluzente, e saiu pela porta da frente, para subir no carro. Vittorio encerrou a sua reunião cedo e seguiu direto para o aeroporto executivo, ansioso para encontrar Jillian e Joe, e para partirem para as suas férias de três dias. Porém, ao chegar ao aeroporto em Catania, descobriu que o motorista ainda n��o chegara. Aguardou dez minutos, e, em seguida, usou o celular para ligar para o motorista, que atendeu na mesma hora. —Onde você está? — Vitt perguntou, olhando para o relógio. — Acabo de voltar para Paterno — o motorista informou. — Deixei a Signore no aeroporto. — Mas eu estou no aeroporto. O jato está pronto para decolar e aguardando. — Signore disse que era para levá-la ao aeroporto público. — O quê? — Ela disse que houve uma mudança de planos. Mudança de planos? Por que haveria uma mudança de planos? — Onde está o meu filho? — Aqui em Paterno. Em casa. Graças a Deus. Vittorio respirou aliviado. — Mas a Signore? — Foi embora. Vittorio na mesma hora pegou o seu carro e seguiu para casa, incapaz de acreditar que Jillian realmente houvesse ido embora. Ao atravessar os portões da propriedade, repassou na mente sua última conversa com Jill. Ela dissera que estava feliz com ele, ansiosa para ir para Capri. Como tudo pôde ter mudado tão rápido? Horas atrás tudo parecera tão perfeito. Contudo, agora, Jillian o abandonara. Abandonara o filho deles. Por quê? Algo deve ter acontecido. Algo deve tê-la afugentado. Mas o quê? Ou, mais precisamente, quem? Voltou a repassar os acontecimentos da manhã na cabeça. Acordaram, fizeram amor, tomaram banho, o café da manhã, a chegada de sua mãe... O telefonema. Alguém lhe dissera algo que a assustara. Alguém a ameaçara. Descobriria quem havia ligado. Havia maneiras de rastrear números de telefone. Inclusive números que não constavam da lista telefônica. Seguiu para a biblioteca, determinado a descobrir o que podia, quando escutou o som da cadeira de rodas do pai corredor abaixo. Detendo-se no topo das escadas, Vittorio avistou o pai aguardando-o diante da biblioteca. Joe estava no seu colo. — Aonde ela foi? — Salvatore perguntou a Vittorio. — Não sei. 96


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Por que ela haveria de abandonar o filho? — Também não sei. O pai o fitou com um olhar duro. — Ela já fez isto antes? — Nunca. — Então, por que agora? — Não sei. Mas acredite quando digo que vou descobrir. Jillian comprara uma passagem de última hora em um vôo de Catania para Heathrow. De Heathrow, pegaria o vôo mais barato que pudesse para os Estados Unidos. Onde os Estados Unidos não eram importantes. Uma comissária de bordo ofereceu algo para comer e beber para Jill, mas esta apenas sacudiu a cabeça, incapaz de falar. O que fizera? Como podia tê-los abandonado? Por que não contara tudo para Vittorio? Chegando a Heathrow, Jillian comprou a passagem mais barata que pôde em um vôo americano, que acabou sendo para Houston, no Texas. Não queria ir para Houston, mas não sabia para onde mais ir. A verdade é que não queria ir para Houston. Queria voltar para a Catania. Queria dizer para Vittorio que não podia viver sem ele, e que, no entanto, tinha medo que ele se ferisse. Deveria ter conversado com Vitt, pensou enquanto rondava distraidamente pelo terminal internacional, aguardando o seu vôo. Deveria ter confiado nele, porque, no fundo, sabia que ele era capaz de lidar com as coisas que a amedrontavam. Em vez disso, tentara resolver tudo sozinha, como vinha fazendo pelos últimos quatorze anos. Mas, o seu jeito não funcionava. O seu jeito significava ficar sozinha. Seu jeito significava deixar para trás todos que amava. Tinha de haver um jeito melhor, porque isto era o inferno. Era loucura. E estava lhe partindo o coração. Já sofrera demais com loucura e corações partidos. Já sofrera demais. Se ao menos pudesse falar com Vitt. Se ao menos pudesse ligar para ele antes que fosse tarde demais. Ele poderia ficar zangado, mas talvez entendesse. Talvez se desse conta de que ela estava tentando fazer a coisa certa. Estava tentando ser forte, ser independente, o que, neste caso, parecia ser completamente errado. Se ao menos ela soubesse como confiar. Se ao menos confiasse em Vitt. Foi então que se deu conta. Ela confiava. Jill tentou achar um terminal de telefones, mas não havia muitos no aeroporto, não com tanta gente carregando os seus próprios celulares hoje em dia. Por fim encontrou um, mas ao pegar o fone, percebeu que não sabia o número de Vittorio. Sequer sabia o telefone da casa. Ligou para informações e deu o nome D’severano, perguntando se havia algum nome comercial ou residencial listado. Não havia. Ficou sem idéias, pois não sabia o nome da empresa dele. Assim como jamais se preocupara em realmente conhecer Vitt. 97


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Havia tanto que ela teria feito de modo diferente, se tivesse chance. Tantas coisas que gostaria de saber, de fazer com ele. Viajar, conversar, fazer amor. Ter mais filhos. Escutou o seu vôo sendo anunciado. Com o coração na boca, observou os outros passageiros enfileirando-se diante do portão. Observou os duzentos passageiros embarcarem, mas suas pernas se recusaram a se mover. Ela não podia fazer isto. Não podia. Assim que o embarque terminou, ela escutou o seu nome sendo chamado nos altofalantes. — Jillian Smith. Chamada final para Jillian Smith. Jillian Smith, chamada final para o vôo 42 da Continental Airlines. Jillian olhou para a passagem amassada na sua mão, e, depois para a comissária de bordo no portão. E deu-se conta de que sua reação inicial de abandonar a família para protegê-la fora errada. Família não deixava família. Família não traía família. Família protegia família, E Jillian precisava da dela. Deu-se conta de que não precisava mais fugir. Não precisava mais ter medo. Tinha Vittorio. Ele era inteligente. Era forte. E ela podia confiar nele. Com os olhos lacrimejando, pegou a bagagem de mão e deu as costas ao medo. Ela determinadamente deixou o terminal. Já estava anoitecendo lá fora. Jillian se deteve diante do aeroporto, tentando imaginar como faria para voltar para Catania, e o que diria para Vitt, quando escutou uma voz masculina grave atrás de si. — Pensando em ir a algum lugar? Vittorio. Ela virou-se para se deparar com o homem que virara a sua vida de cabeça para baixo, no melhor sentido possível. Ele parecia preocupado. Nos seus braços estava o menininho que significava tudo para ela. — É — Jill disse, ao olhar para as duas pessoas que mais amava no mundo. — Eu quero ir para casa. Por quatorze anos precisara cuidar de si mesma, tivera de fingir que não precisava nada de ninguém, quando, na verdade, precisara tudo. Amor, carinho, apoio. — Quero voltar para casa com vocês. Por favor, me leve de volta para Paterno. A expressão angustiada desapareceu dos olhos de Vittorio, e ele sorriu lentamente. — Eu estava torcendo para que dissesse isso. — Ah, Vitt, eu não sei o que estou fazendo. Apenas tive medo, mas estou tão cansada de ter medo, tão cansada de fugir e viver olhando por sobre os ombros, preocupada, achando que os homens maus vão me encontrar. 98


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Suponho que um deles a tenha encontrado hoje de manhã — Vitt disse, envolvendo-a com o braço livre, e puxando-a para si. — É. — Ela se encostou ao marido, sentindo o calor dele e do seu filho. — Mas eu deveria ter lhe contado Vitt. Você não teria entrado em pânico. Teria sabido o que fazer. — Marco não poderá mais lhe fazer mal — Vitt retrucou, beijando-lhe a testa. — O FBI conseguiu rastrear a chamada. Veio de uma torre de celular no centro de Detroit, e a polícia de Detroit o prendeu há cerca de uma hora. Desde a morte de sua irmã que estão atrás dele, e, agora, eles o capturaram. Marco passará um bom tempo em cana. Jamais poderá voltar a ameaçá-la. Jillian sorriu, tristemente. — Quer dizer que você sabia mesmo o que fazer. — Sou um D’severano, cara mia. Sei como tomar conta da minha própria família. — Ainda faço parte da sua família? — Sempre. Lágrimas encheram-lhe os olhos. — Sinto muito não ter confiado em você. Eu estava com tanto medo que ele fosse machucar você, ou Joe, ou alguém da família. Vitt enxugou-lhe as lágrimas. — Eu entendo. Assim como entendo que, desde menininha, jamais teve alguém em quem confiar. Mas aprenderemos a ser uma família forte, juntos, não é? — É. Quer dizer que não está zangado comigo? — Claro que não. Joe contorceu-se nos braços de Vitt e estendeu os bracinhos para Jillian. — Mama. Jillian olhou para Vittorio. — Posso segurá-lo? — É melhor mesmo. Seu filhinho chorou sem parar por você durante o vôo até aqui. Ainda bem que o avião era meu, de modo que ninguém se queixou. Jillian não sabia se ria ou chorava. E, então, riu, pois Vittorio tinha um talento incrível para fazê-la sentir-se bem. Com ele, a vida seria como ela sempre sonhara. — Podemos ir para casa, agora? — perguntou. — Com certeza.

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Epílogo Joseph, de onze meses e meio, deveria levar as alianças, mas ele se recusou a caminhar até o altar da capela D’severano no seu minúsculo terninho preto, onde Vittorio aguardava no seu elegante fraque preto. Em vez disso, Joseph caminhou na direção do altar, balançando a almofada de um lado para o outro, antes de se deter diante da cadeira de rodas do avô. — Colo — disse para o avô. — Colo, vovô — repetiu, porque, nos nove dias desde que chegara a Paterno, aprendera a amar muitas coisas e muitas pessoas, mas o avô Salvatore, provavelmente, era a sua favorita. A avó, Theresa, pousou a mão no ombro de Joseph, e tentou conduzir o neto na direção do altar da capela, mas Joseph deu um gritinho em sinal de protesto. Reprimindo um sorriso, Vitt desceu os degraus de pedra que levavam ao altar e colocou o filho no colo do seu pai. — Vittorio — a mãe exclamou, em tom de reprovação, elegante como sempre no vestido cinza-prata feito sob medida. Vitt deu de ombros. — É o dia dele também. Ele deveria se sentar onde quer, e se ele quer o avô, quem sou eu para dizer não? Salvatore sorriu para Vitt, e, depois para Joseph que se aconchegou junto ao peito do avô. Vittorio voltou para o altar, e o quarteto de cordas começou a tocar as primeiras notas alegres de Vivaldi. Jillian apareceu na entrada da capela. Seu olhar fixo em Vittorio, que estava inacreditavelmente lindo no fraque preto com a gravata branca. Meu. Jill pensou brevemente. Ele era dela. E ela sabia que seria sempre dela. Ela seguiu para o altar sozinha, com o vestido cor de marfim, suas pernas tremendo com cada passo, no entanto, sabendo que, assim que chegasse ao altar, jamais ficaria sozinha nova-mente. Sempre teria Vittorio. Teria a família dele. Eles seriam uma família. Chegando ao altar, Vitt desceu para lhe tomar a mão. Quando ele sorriu, Jill sentiu-se tomada de amor, desejo e alegria. A cerimônia passou como um borrão, com Jillian enxergando apenas o lindo rosto de Vittorio, e seus olhos escuros. Eles proclamaram seus votos, trocaram alianças, e se beijaram o que fez o coração de Jill acelerar. Ela estava em casa. 100


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter Finalmente pertencia a algum lugar. E, então, a cerimônia acabou, e ela se viu descendo do altar ao lado de Vittorio, e atravessando a nave da igreja. A capela cheirava a gardênias e a suave luz das velas refletia no teto abobadado e nas altas paredes de pedra. Rostos sorriam para o casal quando este passava pelos bancos lotados de convidados, e, em seguida, se viram a sós em uma pequena câmara escura e fresca. Vittorio inclinou a cabeça, beijou-a, e, em seguida, beijou-a novamente. — Eu amo você — disse, enquanto os sinos da capela ecoavam lá fora. — Mesmo a sua família tendo ficado chocada quando lhes contou quem eu era ontem? — Eles ficarão bem. Estão acostumados com drama — ele respondeu, sorrindo. — Não sei o que faríamos sem um pouquinho de emoção. Jillian esforçou-se para sorrir, mas lágrimas preencheram os seus olhos. — Você é bom demais para mim. — Impossível. Você merece tanta felicidade. — Você me fez mais feliz do que eu jamais imaginei que poderia ser. — Ótimo. Fico feliz. — Ele inclinou-lhe o queixo para cima, de modo a poder fitála nos olhos. — Eu a amei desde o instante em que cruzou o saguão do Ciragan Palace no seu uniforme de gerente preto. Você era o retrato da própria eficiência, no entanto, capturou o meu coração. Jamais havia pensado em ter um relacionamento sério com uma única mulher, e, de repente, tudo que eu queria era desposá-la e cuidar de você para sempre, e eu falo sério, Jill Anne Carol Lee. Ela fungou e riu. — Basta me chamar de Jill. É mais curto. — Não de Alessia? Jillian estremeceu. — Jamais Alessia. Ela está morta. Ah, mas eu gosto de ser a sua Jill. Gosto muito. Mais do que tudo. Ele afastou o delicado véu branco do rosto dela, e acariciou um dos cachos ruivos que repousava na clavícula exposta. — Amo seus olhos verdes, seus cabelos ruivos e a sua infame história familiar — ele disse, antes de olhar por sobre o ombro, sabendo que, a qualquer instante, as portas se abririam e família e amigos invadiriam o aposento. — Amo tudo ao seu respeito. Jillian riu, e ergueu os lábios para que ele a beijasse, e, em seguida, a beijasse novamente. — Ótimo — murmurou de encontro aos lábios de Vittorio. — Porque, agora, você me tem. — Finalmente. — Ele olhou para ela, seus olhos escuros fitando os dela por um instante interminável, antes que Vittorio sussurrasse em siciliano: — T'amu bidduzza. Eu amo você, linda. Com os olhos lacrimejando, e o coração repleto de amor, ela levou a mão à face bronzeada de Vitt, repleta de amor. — Não consigo acreditar. 101


Jessica157.1 – UmaVidaSecreta– JanePorter — Acreditar no quê? — Eu voltei para casa. — Sua voz falhou, e a expressão de seu rosto era de admiração. — Finalmente voltei para casa, não é? — Voltou — Vittorio respondeu, curvando a cabeça para beijá-la profundamente, no instante exato em que as portas que levavam à capela se abriram e a família e os amigos invadiram o recinto para comemorar o amor dos dois.

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