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Dois Pequenos Milagres TWO LITTLE MIRACLES

Caroline Anderson

Eles são fofinhos, risonhos, adoráveis... e vieram para ficar! Surpresas em dobro! Julia não tinha notícias de seu marido, Max, havia quase um ano, mas foi só ele passar pela porta para ela perceber que ele continuava maravilhoso como sempre! E ele estava de volta para propor uma reconciliação. Só que não esperava se deparar também com duas coisinhas fofas... Agora, Max terá duas semanas para provar que é capaz de ser o melhor marido - e pai de gêmeas - do mundo!


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Tradução Fabia Vitiello Harlequin 2011 PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: TWO LITTLE MIRACLES Copyright@ 2008 by Caroline Anderson Originalmente publicado em 2008 por Mills & Boon Romance Arte-final de capa: nucleo-i designers associados Editoração eletrônica: ABREU'S SYSTEM Tel.: (55 XX 21) 2220-3654 / 2524-8037 Impressão: RR DONNELLEY Tel.: (55 XX 11) 2148-3500 www.rrdonnelley.com.br Distribuição exclusiva para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil: Fernando Chinaglia Distribuidora S/A Rua Teodoro da Silva, 907 Grajaú, Rio de Janeiro, RJ — 20563-900 Para solicitar edições antigas, entre em contato com o DISK BANCAS: (55 XX 11)2195-3186/2195-3185/2195-3182 Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4o andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Correspondência para: Caixa Postal 8516 Rio de Janeiro, RJ — 20220-971 Aos cuidados de Virgínia Rivera virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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PRÓLOGO

— Eu não vou com você. A voz de Julia soou estranhamente alta. Max se endireitou e olhou para ela. — Como assim, não virá comigo? Você tem trabalhado nisto por semanas! O que diabos pode ser mais importante que isto? E, se você não vai comigo, quando irá? Amanhã? Quarta-feira? Preciso de você lá agora, Jules, há muito a ser feito! Julia balançou a cabeça. — Não. O que eu quis dizer é que eu não vou. Não vou ao Japão nem hoje, nem na próxima semana, nem nunca. Ela não conseguiria ir. Não poderia fazer as malas e ir para a terra do sol nascente. Ela não iria a lugar nenhum. Não de novo, não pela milionésima vez na vida agitada, imprevisível e tempestuosa que levavam juntos. Ela já fizera aquilo tantas, tantas vezes... E não agüentava mais. Max guardou mais uma de suas camisas cuidadosamente dobradas na mala e se virou para ela com uma expressão de incredulidade no rosto. — Você está mesmo falando sério? Ficou louca? — Não, não fiquei louca e, sim, estou mesmo falando sério. Não quero mais viver assim. Você diz, "Pule", e eu pergunto, "Que altura?". Acabou. — Nunca tratei você dessa forma! — Ah, é, você está certo, claro. Você me diz que quer pular, eu pergunto a altura e depois faço com que aconteça, em qualquer país, em qualquer idioma, sob quaisquer circunstâncias. — Você é minha assistente! Esse é seu trabalho! — Não, Max, eu sou sua mulher, e não agüento mais ser tratada como se fosse mais uma empregada. Não vou deixar você fazer isso nunca mais! Ele a encarou por um longo tempo. — Você escolheu uma hora péssima para discutir nosso relacionamento, Jules. — Não é uma discussão de relacionamento. É uma decisão clara, bem pensada. Não vou com você e não sei se estarei aqui quando você voltar. Preciso de tempo para pensar. Max socou a roupa dentro da mala, mas Julia não se importou. Ele que amassasse suas camisas impecáveis; a lavanderia se encarregava delas porque ela não tinha tem po. Estava ocupada demais mantendo as engrenagens do negócio funcionando. — Que droga, Jules, este não é um bom momento. Você sabe o quão importante este contrato é, o que significa para mim. Por que justamente hoje? — Não sei. Eu apenas... Cheguei ao meu limite. Estou exausta de não ter vida própria. — Você tem uma vida! Nós temos uma vida boa como o diabo! 3


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— Não, nós apenas trabalhamos. — E temos obtido imenso sucesso! — Sucesso profissional? Sem dúvida. Mas isso não é um casamento. Nossa vida em comum não é um sucesso, porque nós não temos uma vida em comum, Max. Não vimos nossa família no Natal, trabalhamos no Ano-novo. Pelo amor de Deus, vimos os fogos de artifício pela janela do escritório! E você sabia que hoje é o dia de desmontar a árvore e guardar as decorações de Natal!? Acontece que nós não tivemos uma árvore de Natal e não decoramos nossa casa. Max, nós simplesmente ignoramos o Natal! — Ela respirou fundo e continuou: — Nós não estamos aproveitando a vida ou o que construímos, Max. Quero mais que isso. Eu quero... uma casa, um jardim, tempo para cuidar das plantas, para enterrar minhas mãos no solo e sentir o perfume das rosas... Nós nunca paramos para sentir o perfume das rosas, Max. Nunca. Ele grunhiu. — Temos que ir. Vamos perder o voo, estamos atrasados. Tire algum tempo para você, faça o que precisar, mas venha comigo, Jules. Lá você pode fazer uma massagem, visitar um jardim zen budista, qualquer coisa, mas pare com essa maluquice e... — Maluquice? — perguntou ela, a voz alcançando algumas oitavas acima. — Não posso acreditar, Max, que você não tenha entendido nenhuma palavra do que acabei de dizer. Não quero visitar um jardim zen, não quero massagem. Não vou com você nessa maldita viagem. Preciso de tempo. Tempo para pensar no rumo que quero dar à minha vida, e não tempo para paparicá-lo enquanto você tem idéias mirabolantes, enquanto sua fome por poder aumenta mais e mais. Chega! Max correu a mão pelos cabelos. Depois enfiou os sapatos, pegou sua mala e se virou para ela. — Você está louca. Não sei o que deu em você, não sei se é aquele período do mês ou o quê, mas você não pode simplesmente resolver que não vai mais trabalhar. Você tem um contrato a cumprir, Jules. — Um con... — Ela começou a rir desconsoladamente. — Ora, então me processe, Max. Julia deu as costas para ele e foi até a janela, calando-se, com medo de dizer algo de que pudesse se arrepender. Ainda estava escuro lá fora, e ela olhou para as luzes de Londres refletidas na superfície do rio, antes de fechar os olhos. — Estou indo. Você virá? — Não. — Tem certeza? Porque, se você não vier, acabou. Não espere que eu corra atrás de você implorando. — Não se preocupe. — Estamos entendidos. Onde está meu passaporte? — Sobre a mesa, com as passagens — disse Julia sem se virar. Ela ouviu Max pegar os documentos, andar até a porta, parar e respirar fundo. Ele esperou por alguns segundos... Pelo que, exatamente? Que ela cedesse? Que pedisse desculpas? Que dissesse que o amava? Julia não se moveu. — Sua última chance. 4


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— Eu não vou, Max. — Tudo bem, faça o que quiser. E me avise quando mudar de idéia. Ela o ouviu se afastando e fechando a porta do quarto. Esperou até ouvir que a porta da frente também fosse fechada. Então, sentou-se e suspirou. Ele se fora. Ele realmente se fora. E os únicos motivos que ele dera para ela seguir com ele estavam relacionados a trabalho. Um contrato! — Maldito seja, Max! — gritou ela para o quarto vazio. E então, começou a chorar, sacudida por soluços de pura amargura. Sentindo-se subitamente mal, correu para o banheiro e vomitou, para depois deixar-se ficar no chão frio, desamparada. — Eu amo você, Max — sussurrou ela. — Por que você não me ouve? Por que você não quer nos dar uma chance? Teria ela ido com Max se ele tivesse parado um segundo, dito que a amava e que precisava dela para depois tomá-la em seus braços? Não. E, de qualquer forma, aquele não era o estilo de Max. Ela poderia facilmente começar a chorar de novo, mas não daria a ele essa satisfação. Assim, Julia se levantou, lavou o rosto, escovou os dentes e se maquiou. Depois, foi até a sala e apanhou o telefone. — Jane? — Julia, bom dia, querida! Como vai? — Bem. Acabo de deixar Max. — Como assim? — Eu o deixei. Bem, na verdade, foi ele quem me deixou... Depois de um breve silêncio, Jane respirou fundo e disse: — Certo. Onde você está? — Em casa, Janey, e não sei o que fazer a seguir. — E onde Max está agora? — A caminho do Japão. Eu deveria ir também, mas não pude. — Certo. Faça uma mala. Jeans, botas e um bom casaco, porque aqui está gelado. Estou a caminho. Você vem ficar comigo. Estarei aí em uma hora e meia. Julia vasculhou seu guarda-roupas atrás da calça jeans, apenas uma, que estava certa de ainda possuir, e um velho par de botas há muito abandonado, já que trabalhava usando roupas elegantes e saltos altos. A foto de seu casamento estava sobre a cômoda, lembrando-a de que eles não tiveram tempo para uma lua de mel. Depois de uma breve cerimônia civil, Max a levara para um hotel e fizera amor com ela, até que eles não agüentassem mais. Ela dormira em seus braços e até mesmo acordara abraçada nele, já que, pelo menos daque la vez, Max não a deixara sozinha na cama e não se levantara no meio da noite para trabalhar em seu laptop, tomado por uma energia que nunca parecia abandoná-lo. Ah, aquilo parecia ter sido há tanto, tanto tempo. Julia engoliu em seco e deu as costas para o porta-retratos olhando em volta. Não havia nada daquela casa que ela quisesse levar consigo. 5


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Ela pegou seu passaporte, mas apenas para que Max não o pegasse, não porque quisesse ir a algum lugar. Seu passaporte era um símbolo de liberdade, ela o queria com ela. E talvez ele fosse útil. Julia não podia imaginar para que, mas, de qualquer forma, guardou-o em sua bolsa. Em seguida, colocou sua mala junto à porta, jogou fora todos os perecíveis da geladeira e se sentou no sofá da sala para esperar Jane, ligando a televisão para se distrair. Segundo a repórter que aparecia na tela, aquele dia, a primeira segunda-feira do ano, era conhecido como "segunda-feira do divórcio". A repórter continuou falando, explicando que aquele era o dia em que, passados Natal e Ano-novo, milhares de mulheres respiravam fundo para tomar coragem e contratavam advogados, dando início aos seus processos de divórcio. Oh, meu Deus.

Duas horas mais tarde, ela estava sentada à mesa da cozinha de Jane em Suffolk. Jane ofereceu-lhe café, mas o cheiro a fez ficar enjoada novamente. — Desculpe... Não consigo — disse ela, recusando a xícara que a amiga oferecia e correndo para o banheiro para vomitar mais uma vez. Quando finalmente conseguiu se aprumar, Jane esperava por ela junto à porta, parecendo muito preocupada. — Você está bem? — Vou sobreviver. É só tensão, Janey, eu o amo e estraguei tudo. Ele foi embora. Jane abriu o armário do banheiro, apanhou uma caixa e entregou para a amiga. — Um teste de gravidez? Não seja louca. Você sabe que não posso engravidar. Tive problemas com a cirurgia do apêndice, lembra? Fiz milhares de teste, é impossível, não existe a menor possibilidade de... — "Impossível" é uma palavra que não existe e eu sou a prova viva disso. Faça o teste. Por mim. Jane saiu do banheiro e fechou a porta. Julia leu as instruções, achando aquilo tudo tolo e sem sentido. Ela não poderia estar grávida. Não havia possibilidade. — O que, em nome de Deus, vou fazer da minha vida? — Você quer ficar com ele? Ela sequer pensava naquilo. Mesmo chocada com o resultado, sabia a resposta e sacudiu a cabeça. — Não. Max sempre foi muito claro a respeito do fato de não querer filhos. E, de qualquer forma, ele teria que mudar muito, muito mais do que é possível um ser humano mudar, para conseguir cuidar de um bebê. Você acredita que ele me disse que eu não podia deixá-lo porque tínhamos um contrato? — Talvez essa seja apenas a forma dele de lidar com suas próprias emoções, Julia. — Max? Não seja ridícula. Ele sabe muito bem como lidar com o que quer que seja. Ele disse que, se eu não fosse com ele, estava tudo acabado, e ele não estava brincando. — Ela fez uma pausa. — Preciso encontrar uma casa, Janey, não posso ficar com você e Pete para sempre, especialmente porque você também está grávida. — Outra 6


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pausa. — Não posso acreditar que estou grávida depois de todos esses anos. Jane riu. — Acontece, querida, acontece. Sorte sua eu ainda ter um teste guardado. Refiz o teste várias vezes, mal podendo acreditar, como você. Mas estou feliz, as crianças também. Agora, me diga, onde você quer viver? Na cidade ou no campo? Julia tentou sorrir. — No campo, que tal? Acho que realmente não quero voltar para Londres. Você pode não acreditar e até mesmo rir de mim, Janey, mas quero ter um jardim. — Um jardim? — Jane pareceu lembrar-se de alguma coisa. — Espere aí. A amiga deixou a cozinha e Julia pôde ouvir sua voz abafada falar com alguém no telefone do escritório. Jane voltou para a cozinha cinco minutos depois, parecendo animada. — Pete tem um amigo, John Blake, que está de mudança para Chicago, onde viverá por um ano. John encontrou alguém para cuidar de sua casa, mas parece que a coisa não deu certo, e ele está desesperado atrás de uma pessoa que assuma esse compromisso. — Por que ele simplesmente não a deixa fechada? — Porque ele vai ter que voltar para cá algumas vezes nesse período, então vai precisar que a casa esteja em ordem. É uma casa maravilhosa, as despesas continuarão a ser pagas por ele e tudo que você tem a fazer é viver lá, cuidar um pouco das coisas, não dar festas malucas e chamar o encanador se necessário. Ah, e alimentar o cão, passear com ele, essas coisas. Você gosta de cães, não? Julia assentiu. — Adoro cães. Sempre quis ter um. — Ótimo. Murphy é um amor. Você vai adorá-lo, vai amar a casa. A casa-se chama "Chalé das Rosas" e tem um jardim absolutamente incrível. Fica perto daqui, assim nós poderemos nos ver sempre. Vai ser divertido. — Você acha que ele vai se importar com minha gravidez? — John? De jeito nenhum. Ele adora bebês. E, de qualquer forma, ele não passará tanto tempo por aqui. Venha, vamos até a casa dele, acertar os detalhes.

CAPÍTULO UM

— Eu a encontrei. Max congelou. Essa era a notícia que ele esperava desde junho, mas, agora que ela finalmente chegara, ele quase tinha medo de formular a pergunta necessária. 7


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— Onde? — Em Suffolk. Ela está instalada em um chalé. Instalada. Ele respirou fundo profundamente. Todos aqueles meses em que ele temera por ela... — Ela está bem? — Sim, está. Max teve que se obrigar a continuar tendo aquela conversa. — Sozinha? O homem fez uma pausa. — Não. O chalé pertence a um homem chamado John Blake. Ele está trabalhando fora do país no momento, mas, eventualmente, ele volta. Meu Deus. Ele se sentiu mal. Tanto que mal registrou o que o homem disse a seguir. — Julia tem o quê? — Bebês. Gêmeas. Duas meninas de aproximadamente oito meses. — Oito... — balbuciou ele, sem conseguir raciocinar direito. — Bem, então ele tem filhos? — Até onde pude apurar, não — afirmou, categórico, o investigador particular que Max contratara. — Deduzi que as meninas são dela. Ela está lá desde meados de ja neiro do ano passado e os bebês nasceram durante o verão, em junho, segundo a senhora que trabalha na agência do correio. Ela foi de grande ajuda. Acho que houve certa especulação no vilarejo acerca do relacionamento entre Julia e o tal homem. Max podia apostar que sim. Que Deus o ajudasse ou ele mataria Julia. Ou o tal Blake. Talvez ambos. — Claro que, examinando as datas, é possível imaginar que ela já estivesse grávida quando deixou você. Isso quer dizer que as meninas poderiam ser suas. Ou isso, ou ela já vinha tendo um relacionamento com Blake há algum tempo. Max encarou o imprudente investigador. — Atenha-se ao seu trabalho, deixe que as contas eu mesmo faço. Ele não queria nem pensar na possibilidade de Julia ter sido infiel a ele. — Onde ela está? Quero o endereço. — Todos os dados estão aqui — disse o homem, entregando a Max um grande envelope pardo. — Fiz relatórios de todas as etapas. — Vou examinar tudo. Muito obrigado. — Se houver mais alguma coisa que precise, sr. Gallagher, alguma informação adicional. — Entrarei em contato. — A senhora na agência do correio me disse que Blake está ausente por estes dias — disse o investigador antes de sair. Max encarou o envelope por alguns instantes antes de abri-lo. As fotos tiradas pelo investigador foram a primeira coisa que viu. 8


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Deus, Julia estava linda. Um pouco diferente, mas linda. Ele levou um momento para reconhecê-la, porque o cabelo dela crescera e ela o usava preso em um rabo de cavalo. Aquilo fazia com que ela parecesse mais jovem. Os tons alourados haviam desaparecido e ela voltara a ter os cabelos castanhos-dourados. Os cabelos que ele queria tanto afagar. Ela ganhara algum peso, mas aquilo só a deixara mais bela. Ela parecia bem, feliz, e continuava muito bonita, porém, estranhamente, considerando quão desesperado ele estivera por notícias dela no último ano; um ano, três semanas e dois dias, para ser exato. Mas não foi a imagem de Julia que prendeu a atenção de Max, passado o choque inicial. Foram os bebês. Em uma das fotos, elas estavam sentadas lado a lado em um cercadinho de supermercado. Duas lindas meninas. Idênticas. Seriam dele? Com a mais absoluta das certezas. Bastara apenas um olhar para o cabelo escuro e espetado das meninas para saber que elas eram dele. Era como olhar para uma foto sua quando menino. Julia estava bem. Bem e linda. E tinha duas filhas. Dele. Meninas que ele jamais conhecera, das quais não fora informado. Como ela ousara não contar a ele sobre as filhas? O peso de papel estilhaçou o vidro da janela, e os caquinhos de vidro se espalharam pelo chão. Ele escondeu o rosto nas mãos e contou até dez. — Max? — O investigador particular a encontrou. Em Suffolk. Preciso ir até lá. — Claro, claro que sim — disse sua assistente. — Mas espere um minuto, acalmese. Vou fazer uma xícara de chá para você e pedir que alguém faça sua mala. — Tenho uma mala pronta em meu carro. Cancele minha viagem para Nova York, Aliás, cancele tudo, pelos próximos dois dias. Desculpe-me, Andréa, mas não quero chá. A única coisa que quero é ver minha... mulher. E os bebês. Seus bebês. — Faz mais de um ano, Max. Dez minutos não farão diferença. Você não pode dirigir no estado em que está. Precisa se acalmar, refletir, pensar no que quer dizer. Do jeito que você está, vai deixá-la apavorada. Sente-se. Muito bem. Você almoçou? — Almoço? — Ele encarou sua assistente. Maternal, eficiente, mandona, organizada e, ele via agora, muito, muito bondosa. Ela pediu que mandassem comida para a sala dele e olhou as fotos sobre a mesa. — Essa é Julia? — Sim. — E os bebês? — Ah... Interessante, não? Ao que tudo indica, sou pai. E ela nem se deu ao trabalho de me avisar. Bem, ou isso, ou ela teve um caso com meu gêmeo idêntico que desconheço, porque as meninas são a minha cara. A comida chegou e Andréa colocou a bandeja sobre a mesa dele. Depois disso, ela se virou e o abraçou. Por um momento, Max não soube o que fazer. Fazia tanto tempo que ele não recebia um abraço que o choque não o deixou reagir. Mas, em seguida, ele ergueu seus braços e a abraçou de volta, e o calor do contato o envolveu e o confortou. Obrigando-se a não chorar, ele se afastou dela e voltou-se na direção da janela. — Meu Deus, elas são mesmo a sua cara! Bem, beba seu chá, coma seu 9


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sanduíche. Pedirei que David traga seu carro. O carro dele. Uma belezinha esportiva de dois lugares, baixo, sexy e com espaço nenhum para acomodar duas cadeirinhas de bebê. Tudo bem. Ele providenciaria um carro adequado.

Com o vento gelado de fevereiro soprando, durante as duas horas seguintes Max dirigiu na direção do lugarejo onde Julia vivia agora, vasculhando as teias de aranha em sua mente, tentando decidir que diabos diria a ela. Ao cruzar uma ponte antiga, de pedra, ele prendeu a respiração ao ver Mia, emoldurada pela janela da sala de estar de um chalé harmonioso, com telhado de sapé. Ela estava com um bebê em seus braços. — Shhh, Ava, que boa menina! Não chore, querida. Ah, olhe ali, alguém está vindo para cá! Vamos ver quem é? Pode ser a tia Jane! Ela se aproximou da janelão para enxergar melhor quem estava dentro do carro e foi então que achou que fosse desmaiar. Max? Mas como? Ela se sentou abruptamente no velho sofá, ignorando o bebê que choramingava em seu ombro e o outro bebê, que dormitava calmamente no cercadinho. Tudo que ela conseguia fazer era ficar sentada ali, encarando Max através do vidro, enquanto ele descia do carro, batia a porta, andava lentamente na direção da casa e entrava em sua varanda. Ele tocou a campainha, tenso, as mãos nos bolsos da calça. Ainda que ela chorasse durante o sono, de saudade dele, ainda que, cada vez que olhava as filhas, ela se lembrasse dele, ainda que sentisse uma enorme tristeza sabendo que elas não conheceriam o próprio pai, Julia sabia ter feito a coisa certa. Como contar a ele sobre os bebês, depois de tê-lo ouvido dizer tantas e tantas vezes que filhos eram a última coisa que queria? Murphy, o cão, foi até a porta e latiu. Ava parou de choramingar e deu um gritinho, o que fez com que Max olhasse pelo janelão enquanto esperava. Os olhos dele encontraram os de Julia. Ah, eles estavam tão próximos. Ela estava ali, do outro lado do vidro, com seu cão e seus bebês, e ele não sabia como agir. Max tentou sorrir, mas não conseguia se lembrar de como fazer isso. Ela parecia exausta, mas ele nunca vira ninguém mais bela. Ela veio até a porta, que foi aberta com um rangido. E lá estava Julia, pálida, linda, parecendo tão cansada, mais linda do que jamais a vira, com um bebê no colo e um enorme labrador ao seu lado. — Olá, Max. Olá, Max? Era tudo que Julia tinha a dizer depois de um ano e dois bebês? Max sentiu-se decepcionado, arrasado. Todo aquele ano de solidão, desespero e terror passou por ele em um segundo e ele quis reagir, brigar e armar uma cena. Mas as palavras de Andréa o alcançaram e ele tratou de se acalmar. Ele podia fazer aquilo, pensou. Ele era capaz de lidar com a situação. — Olá, Julia.

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Olá, Julia? Julia, e não Jules, ela notou. Bem, então seria assim. Era uma mudança. Ela se perguntava se algo mais mudara. Provavelmente, não o suficiente. Julia se recompôs, endireitou-se, tomando o controle da situação e de seu corpo, que tremia. — É melhor você entrar. — O que mais ela poderia fazer? Ele aparecera ali na sua porta, sem aviso nenhum, e era melhor lidar logo com a situação. — Feche a porta para que o calor não se perca — disse ela a ele.

Ele a seguiu até a cozinha, seus passos fazendo barulho, enquanto Murphy farejava em volta dele, batendo a cauda nas paredes e móveis. — Isso é tudo que você tem a dizer? Um ano sem uma palavra sequer e o que você me diz? "Feche a porta?" — Estou tentando manter os bebês aquecidos — disse ela, e os olhos dele imediatamente buscaram pelas crianças, enquanto seu rosto ostentava uma expressão indecifrável. Consciente da importância daquele momento, ela disse: — Esta é Ava. — E gesticulou com sua mão livre na direção na direção do bebê no cercadinho. — E aquela é Libby. Ao ouvir seu nome, Libby ergueu a cabeça e sorriu. — Ma-ma — disse ela, erguendo os bracinhos, abrindo e fechando as mãos, pedindo para ser pega no colo. Julia deu um passo na direção dela, mas então parou e olhou para Max, com o coração disparado. — Bem, vá até lá. Pegue sua filha no colo. Acho que é por isso que você está aqui, não é? Max estava muito abalado. Sua filha... Oh, meu bom Deus. Fazia séculos que ele não segurava um bebê no colo. Ele nem mesmo estava certo de ter segurado um bebê tão novinho. Ele estava apavorado, com medo de deixá-la cair. Max tirou o casaco, que pendurou nas costas de uma cadeira, depois foi até o cercadinho e ergueu a garotinha em seus braços. — Ela é tão leve! Pensei que fosse mais pesada. — Ela é apenas um bebê, Max. E, de qualquer forma, gêmeos são menores. Mas elas são muito saudáveis. Diga "olá" para o papai, Libby. Papai? — Pa-pa!— disse ela e, esticando a mãozinha, agarrou o nariz de Max e puxou-o com força. — Ai! — Libby, seja boazinha — disse Julia. Ela mostrou a ele como segurá-la e depois lhe entregou Ava. — Aqui estão. São as suas meninas. Ele olhou para elas, perguntando-se como, em nome de Deus, ela conseguia diferenciar uma da outra, porque, para ele, eram idênticas. E elas tinham um cheiro delicioso; ele nunca sentira algo assim. Ava e Libby, ao mesmo tempo, ergueram suas 11


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cabecinhas para encarar o pai com seus enormes olhos azuis, sorrindo para ele. Ele se sentiu zonzo de amor. — Max, aqui, venha, é melhor você se sentar — disse Julia com a voz carregada de emoção. Ela puxou uma cadeira e fez com que ele se acomodasse ali, antes que suas pernas, que tremiam, não pudessem mais sustentá-lo. Ele parecia atônito e as meninas também estavam claramente fascinadas por ele, passando as mãozinhas em seu rosto, puxando seu nariz e suas orelhas e sorrindo, enquanto Max se deixava ficar sentado ali, apaixonado demais para esboçar qualquer reação. Max olhou para Julia e ela notou que, por trás do encantamento, havia uma raiva surda e latente, uma espécie de força avassaladora que ela nunca vira. Ódio. Ele a odiava. — Vou fazer um chá — disse Julia, procurando desesperadamente por algo que a ocupasse. Mas, naquele momento, Ava começou a chorar de novo e Libby também choramingou, para acompanhar a irmã. Então, ela deixou o cadeirão de lado e pegou Ava do colo de Max. — Venha, querida — murmurou. A verdade era que seus seios já estavam cheios de leite, e doloridos e os bebês precisavam ser alimentados. E Max, que conhecia seu corpo melhor do que ninguém, estava sentado ali, encarando-a com seus olhos negros. — Tenho que alimentá-las — disse Julia, e Libby começou a gritar. — Vou ajudá-la. — Não acho que você possa. Você não tem o equipamento. — Ah... — disse ele, entregando Libby para ela. — Bem, nesse caso... — Sente-se, Max — disse ela, içando com um movimento de cabeça o banco acolchoado junto à janela da sala. Não havia por que adiar aquilo. E, de qualquer for ma, ele não veria nada que já não tivesse visto antes. Ela se sentou ao lado dele, ajeitou as almofadas do banco para acomodar os bebês e abriu seu sutiã de amamentação. Max não sabia para onde olhar. — A água da chaleira deve estar fervendo. Eu adoraria um chá. — Ah... Claro. Ele foi até a cozinha e se atrapalhou um pouco, sem saber onde apoiar a chaleira quente. No balcão. Bem, podia ser. Mas aquele era um sistema ridículo. Por que ela não tinha uma chaleira elétrica como a do apartamento deles? Apartamento deles? Será? Depois de um ano? — Onde estão as canecas? — No armário acima da pia. E o leite está no refrigerador. Ponha um pouco de água fria no meu, por favor. Ele colocou os saquinhos de chá nas canecas, espantou o cão para longe dele, achou o leite na geladeira e serviu-o, para depois tropeçar pela milésima vez no cão e, entrando na sala, tentar entregar uma caneca para Julia. — Obrigada, pode pôr em cima da mesa. Já vou beber. Ele hesitou sobre o que fazer a seguir, constrangido. As crianças mamavam com sofreguidão. Os seios de Julia estavam maiores do que de hábito, cheios de veias azuis, e ele estava fascinado. Aquela cena parecia tão maravilhosa para ele. E ele se sentiu excluído, privado de algo muito 12


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importante. Enganado. Furioso. — Max? Ele a encarou. — Você poderia pegar Ava para mim, por favor? Ela precisa arrotar, você pode andar pela sala com ela? Ah, sim, cubra seu ombro com esse paninho. Se ela regurgitar, pode sujar sua camisa. — E então ele a pegou, sua preciosa, preciosa menina. Sua filha. Ela estava sorrindo de novo, linda, dando risadinhas. Ele limpou sua boquinha e sorriu para ela. — Ei, gracinha! — disse ele, num tom pouco habitual, cheio de carinho, enquanto ela ria e agarrava o nariz dele. — Ei, coisinha fofa, devagar — murmurou Max. Ele pe gou sua caneca de volta e já ia levá-la à boca, quando o bebê agarrou a caneca, virando seu conteúdo sobre ele. Sem pensar sobre o que fazia, ele a segurou o mais longe de si que pôde, enquanto o líquido quente se espalhava por seu peito, fazendo-o abafar um grito de dor. Ah, meu Deus, eles precisavam de água fria. Bem fria. Ele correu para a pia e colocou a mãozinha dela embaixo da água da torneira. Julia colocou Libby no carrinho e correu atrás deles. — Dê o bebê para mim — disse ela. Ava não se ferira, mas poderia facilmente ter saído machucada. Julia se descontrolou. — Que diabos você pensou estar fazendo? Jamais pegue algo fervendo quando tiver um bebê em seu colo! — Perdão. Eu não pensei que... Ah, Deus, ela está bem? Ela precisa ir para o hospital? — Não, ela não foi atingida. E não graças a você. — Nunca me ocorreu que fosse tentar pegar a caneca de chá! — Você deveria ter pensado nisso! — Mas ela não se machucou! — Somente pela Graça Divina! Não, não querida, não chore. Calma. — Ah, perdão. Jules, desculpe-me, por favor. — Olhe, segure Ava um pouquinho, vou pegar roupas secas para ela. Ela se molhou com a água da torneira. Max, ela está bem. Ela só chorou de susto. E desculpeme por ter gritado, só de pensar no que poderia... — Oh, meu Deus. — Fique tranqüilo, Max. Foi um acidente. Aqui. Pegue o bebê. Max não moveu um músculo, apenas ficou ali parado segurando o bebê, até que Julia voltasse com roupinhas pequeninas e lindas e pegasse o bebê de volta. — Você pode dar uma olhada em Libby, por favor? Ele se recompôs. — Você confia em mim? — E por que não confiaria? Você é o pai delas. — Sou? — Ora, Max, é claro, quem mais seria? 13


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— Não sei, talvez pudéssemos fazer um teste de DNA. Ela ficou pálida. — Por quê? Eu não mentiria a respeito disso. E não quero seu dinheiro. — Eu não estava pensando sobre questões financeiras, estava pensando sobre paternidade. E eu não teria pensado que você mentiria sobre uma coisa dessas, mas também jamais passaria pela minha cabeça que você me deixaria sem aviso algum, e que viria morar no chalé de outro homem com duas crianças, sem se dignar a me dar uma explicação. Por isso, ficou claro para mim que eu não conhecia você como pensava conhecer e, sim, eu quero um exame de DNA. — Ele podia sentir a raiva se avolumando dentro dele. — Porque, fora qualquer outra questão, um exame de DNA vai ser bem útil no tribunal. — Tribunal? — Ela pareceu alarmada. — Por quê? Não vou proibi-lo de ver as meninas. — Eu não sei nada sobre isso. Não tenho como saber. Você pode simplesmente se mudar de novo. Você pegou seu passaporte. Além disso, se a certa altura você decidir que quer pensão, quero ter certeza de que são as contas das minhas filhas que eu estou pagando. Ela engasgou, seus olhos se encheram de lágrimas. — Nem se incomode em chorar — disse ele. — Havia me esquecido do bastardo que você é, Max. Você não precisa de um teste para provar que essas meninas são suas. Estivemos juntos a cada minuto de cada dia no período em que elas foram concebidas! Quem mais poderia ser o pai delas? — John Blake? Ela o encarou com vontade de rir. — John? Não, de forma alguma. John jamais faria isso, confie em mim. Ele tem quase 60 anos e eu não faço o tipo dele. Ele é gay. O alívio quase o deixou sem fôlego. Ela não tivera um caso e aquelas meninas eram mesmo dele. Definitivamente. E uma delas gritava por sua atenção. Ele ergueu Libby, quase que no piloto automático, e se aproximou de Julia, que estava vestindo Ava. — Você está ensopado. Está machucado? — Ah, eu vou sobreviver. Ela está mesmo bem? — Sim, Max, ela está bem! Foi apenas um acidente. Não pense mais nisso. Mais tarde, depois que as meninas tomaram uma sopinha de legumes e foram postas na cama, ela o fez tirar a camisa e vestir algo seco, e ambos viram a pele vermelha e machucada do peito dele. Max estremeceu. Se tivesse sido Ava... — Seu idiota. Você me disse que estava bem — disse ela a ele, para depois aplicar com grande delicadeza uma pomada esverdeada e refrescante em seu machucado. — O que é isso? — perguntou ele, abalado por sentir o toque dela depois de tanto tempo. — Gel de Aloe vera. Ele mal podia respirar, seu coração parecia estar na garganta. Ele a queria. Ainda estava furioso com ela, por deixá-lo sem aviso, por desaparecer da face da 14


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terra, mas nunca deixara de amá-la, nunca. — Jules... Ela se afastou dele, o encanto quebrado, mas parecia estar abalada também, o que deu a ele algum tipo de esperança louca. — Você precisa de uma camisa limpa. Trouxe alguma? — Sim, minha mala está no carro. Ela olhou para ele de olhos arregalados. — Ah, é? Você planeja ficar? Ele riu. — Ah, sim. Sim, Jules, vou ficar. Agora que a encontrei, não vou perdê-la de vista. E nem as meninas.

CAPITULO DOIS

Ele deixou o chalé para pegar uma camisa seca no carro, e ela olhou para ele através da janela, com a mão sobre a boca. Ele iria ficar? Oh, Deus. Ficar ali? Não, ele não podia ficar ali, não com ela! Ela não poderia deixá-lo ficar porque ela o conhecia, conhecia aquela expressão em seus olhos, sabia o quanto era vulnerável ao seu fascínio. Ele só precisava tocá-la para que ela cedesse. Mas a verdade era que Julia estava chocada com a mudança de Max. Ele perdera peso; ela estava certa disso, sentira seus músculos tesos sob seus dedos enquanto passava o gel sobre a pele avermelhada dele. Alguns fios de cabelo grisalho nas têmporas haviam aparecido, e ele aparentava cada um de seus 38 anos. Max envelhecera no último ano mais do que envelhecera em todos os anos em que estiveram juntos, e ela sentiu outra pontada de culpa, apesar de dizer a si mesma que não era sua responsabilidade se ele não se cuidava. Julia não esperava vê-lo tão, tão desolado. — Há um pub ou algum lugar onde eu possa ficar? — perguntou ele, voltando para a cozinha e abaixando-se para abrir sua mala, tirando dela um suéter macio e vestindo-o, depois de tirar sua camisa molhada. Ela abriu a boca para dizer que sim, mas algum gênio do mal assumiu o controle, porque tudo que conseguiu dizer foi: — Não seja bobo, você pode ficar aqui, há quartos sobrando. — Mesmo? Você não está preocupada em comprometer sua reputação na aldeia? Ela riu. — É um pouco tarde para se preocupar em me comprometer, Max. Você fez isso quando me engravidou. E, francamente, não ligo para o que os outros pensam; 15


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Ele franziu a testa, e voltou sua atenção outra vez para a mala, fechando o zíper e deixando-a de pé em um canto. — E quanto a Blake? — perguntou ele. — Quanto a ele? Apenas cuido da casa dele. Estou autorizada a receber visitas, está no meu contrato. — Você tem um contrato? — Bem, é claro que tenho um contrato! — disse ela. — O que você acha, você pensa que eu estaria vivendo na casa de um homem sem um propósito? Ele é amigo de Jane e Peter, e estava procurando alguém para cuidar da casa. Não se preocupe, está tudo sob controle. — A senhora na agência do correio pareceu pensar diferente. — A senhora na agência do correio precisa cuidar da própria vida — disse ela. — De qualquer forma, como eu já disse, ele é gay. Você está com fome? Ele franziu a testa. — Com fome? — Max, é hora de jantar — disse ela, sentindo-se mal ao pensar que ninguém cuidava dele, obrigava-o a trabalhar menos e a comer nos horários certos. Ninguém estava cuidando dele, aquilo era claro. E mais claro ainda: ele não se cuidava sozinho. Max parecia exausto, havia círculos negros ao redor de seus olhos, seus rosto estava encovado e aquele sorriso fácil e adorável se fora sem deixar vestígios. Ela sentiu lágrimas surgirem em seus olhos e se virou. — Temos frango na geladeira. — Nós não podemos sair? — Aonde iríamos com as gêmeas? Não posso apenas sair, Max. Isso é uma operação militar e não tenho acesso instantâneo a uma babá. — Servem comida no pub? — Sim. E boa, por sinal. Você poderia ir até lá. — Eles fazem comida para viagem? — Duvido muito. Por que você não vai até lá? Fica do outro lado do rio. Você vai levar dois minutos a pé. Ou você poderia comer lá, se você estiver preocupado que eu vá envenená-lo. Ele ignorou a tentativa de piada dela. — Eles têm um cardápio? — Têm. Eles são muito bons, a comida é excepcional. Você poderia escolher alguma coisa e tomar um drinque enquanto eles preparam. Deve levar uns 20 minutos. E ela poderia tomar um banho e vestir algo que não cheirasse a vômito de bebê e pomada de assadura, pentear seus cabelos e colocar alguma maquiagem. Não, maquiagem não; ela não queria parecer muito desesperada. — É um pouco cedo. Eu poderia ir mais tarde. — Acontece que mais tarde os bebês podem ter acordado, e, acredite em mim, é mais fácil comer quando elas estão dormindo. Além disso, o pub só fica aberto até as 9h da noite e, de qualquer forma, estou faminta; me esqueci de almoçar. 16


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Ele continuou hesitando, mas então deu em breve aceno de cabeça, encolheu os ombros, vestiu sua jaqueta e foi até a porta. — Alguma sugestão? — Ah, Max, você sabe do que eu gosto. No pub, Max bebeu uma cerveja lentamente e examinou o cardápio. Ele sabia do que ela gostava. Bem, costumava pensar que sim. Café com leite desnatado e com um toque de essência de baunilha, chablis bem gelado, chocolate amargo, filé de peixe com legumes ao vapor, sanduíche de bacon, croissants de amêndoas, pudim de leite com muito creme e acordar nas manhãs de domingo para fazer amor com ele até a hora do almoço. Ele sabia como arrancar até o último suspiro dela, como fazê-la suplicar e pedir por mais, por aquele último toque, por aquele último movimento que a levaria gemendo ao êxtase. — Está pronto para pedir, senhor? Ele apertou os olhos brevemente, e então olhou para a garçonete. — Humm... Sim. Eu vou querer o filé, por favor, e o salmão. Para viagem, você pode fazer isso para mim? Eu sei que vocês não costumam fazer isso habitualmente, mas não temos uma babá e, bem, vocês já terão fechado quando conseguirmos sair para jantar. — Ele deu a ela seu melhor sorriso. — Certamente podemos fazer isso, senhor — disse ela, um pouco sem fôlego, e ele odiou a si mesmo pela pequena pontada de orgulho que sentira, porque ainda podia fazer as garotas ficarem encantadas com um simples sorriso. — Oh, e eu poderia dar uma olhada na carta de vinhos? Gostaria de levar umas duas garrafas, se possível. — Claro, senhor! Vou levar isso para a cozinha e trago a carta de vinhos. Ela estava de volta em alguns minutos, e ele escolheu um tinto e um branco, pagou a conta e esperou. Engraçado. Ainda ontem, ele estaria muito ocupado para esperar pela comida. Mas, esta noite, depois de ter dado alguns telefonemas e checado seus e-mails em seu Smartphone BlackBerry, ele estava satisfeito em sentar em um pub lotado e pensar sobre o que fora o dia mais importante da sua vida. Exceto... Mas ele não queria pensar naquele outro dia, então enterrou esse pensamento, bateu os dedos de leve e esperou...

— O jantar estava ótimo. Obrigada, Max. Foi realmente uma boa idéia. — Estava tudo bom? Meu bife estava sensacional, mas fiquei inseguro sobre o que você gostaria, confesso. Ela sentiu um sorriso chegando e não pôde impedir. — Você não é o único. Freqüentemente também não sei o que quero. Os olhos dele voltaram a ficar sombrios enquanto ele a observava. — Foi por isso que você não entrou em contato comigo? Por que você não conseguiu decidir se era a coisa certa a fazer? — Provavelmente. Mas você apenas não me ouviria, então não consegui achar um bom motivo para tentar entrar em contato com você. Mas você também não tentou falar comigo. 17


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— Eu tentei! Seu número estava bloqueado e eu não fazia idéia do porquê. — Meu telefone foi roubado. Mas foi o mesmo até junho. — Eu estava esperando que você me ligasse. Pensei que se eu lhe desse espaço você me procuraria. E, quando você não ligou, uma parte de mim pensou: "dane-se". Não sabia onde você estava, o que estava fazendo. Isso estava me matando. Então, liguei e não consegui falar com você. E você não estava gastando nenhum dinheiro, não estava usando a nossa conta. — John paga as minhas despesas com a casa e o carro. — Muito generoso — rosnou ele. — Ele é. É um bom homem. Ele trincou os dentes ao pensar que outro homem a estivesse sustentando. Bem, pensou, era apenas um trabalho. — Ele foi maravilhoso comigo — continuou ela. — Foi realmente compreensivo quando os bebês nasceram, e conseguiu um amigo para ficar aqui em meu lugar até que eu estivesse apta a voltar para casa. — Casa? — Sim, casa. Este lugar é uma casa para nós; por enquanto, pelo menos. Ela não contou a ele que John retornaria em breve e ela teria que encontrar outro lugar. Deixou que ele pensasse que estava tudo certo e que ela não tinha preocupações, ou ele usaria isso para tentar algum tipo de reconciliação. E ela não poderia aceitar tê-lo de volta à sua vida até que tivesse certeza de que estava pronta. — E eu disse a mim mesmo que você entraria em contato se precisasse de mim. Eu me obriguei a lhe dar espaço, a dar um tempo para que você escolhesse o que queria. Você disse que precisava de tempo para pensar, mas eu não perguntei de quanto tempo. Caso precisasse de muito, então nós provavelmente não tivemos nenhuma importância para você, e eu seria rejeitado se fraquejasse e lhe telefonasse. Mas, como você não entrou em contato, contratei um detetive. — Um detetive?! Você mandou me espionar? — Eu estava muito preocupado com você. E, de qualquer forma, como diabos você pensa que eu a encontrei? Não foi por acidente, de jeito nenhum. — Bem, não pelo seu próprio esforço, com certeza — disse ela, elevando a voz, ignorando outra pontada de culpa. — Você devia estar muito ocupado para fazer esse tipo de coisa por si mesmo. Estou surpresa por você estar aqui agora, na verdade. Você não deveria estar em algum lugar mais importante? Ele deu a ela um olhar frio. — Bem, Max, quando você descobriu que eu estava aqui? — Hoje. Esta tarde, às 14h30 ou algo assim. — Hoje? — disse ela surpresa. — Então você veio direto para cá? Ele encolheu os ombros. — O que você pensou que eu faria? Esperaria você desaparecer outra vez? É claro que eu vim direto para cá, eu queria respostas. — Respostas? — Sobre quem é o pai das meninas. 18


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— Você sabe que elas são suas! Você não deveria estar nem um pouco surpreso. Eu espero que seu detetive particular tenha tirado muitas fotos. E, de qualquer forma, por que você se importaria? Você me disse tantas vezes que não queria filhos. O que mudou, Max? O que levou você a percorrer todo esse caminho em pleno inverno para me perguntar sobre o pai das meninas? — Você venceu — disse ele, bruscamente. — Senti sua falta, Jules. Volte para mim. — Não é assim tão simples. — Oh, você vai começar com aquela história do meu estilo de vida outra vez, não vai? — disse, revirando os olhos e deixando escapar um suspiro de irritação, — Bem, sim. Você obviamente não mudou, está com uma aparência horrível, Max. Quantas horas você dormiu na noite passada? — Quatro horas— admitiu ele de má vontade, parecendo um pouco desconfortável. — Quatro horas de sono, ou quatro horas no apartamento? — De sono — disse ele, mas parecia desconfortável novamente, e ela teve a intuição de que ele estava escondendo alguma coisa, e sentiu que sabia o que era. — Max, quantas horas você está trabalhando em média? Quinze, dezoito, vinte? — acrescentou ela, olhando cuidadosamente para ele, e percebeu um movimento rápi do nos olhos dele quando acertou. — Max, seu idiota, você não pode fazer isso! Você precisa de mais do que quatro horas de sono por dia! E onde você está dormindo? No apartamento ou no escritório? — Por que você se importa? — perguntou ele, sua voz repentinamente amarga, então levantou a cabeça e a fulminou com os olhos. — Que diabos importa para você se estou tentando acabar comigo mesmo? — Tentando? — caçoou ela, mas em seguida desejou não ter feito isso, porque, com a voz rude, ele respondeu com uma honestidade que lhe partiu o coração. — Tentando esquecer você. Tentando ficar acordado tempo o suficiente para cair no sono completamente exausto e não pensar sobre você, se está viva ou morta. Ela respirou fundo. — Max, por que você pensou que eu estava morta? — Porque eu não soube mais nada sobre você! — ralhou ele, jogando-se em uma cadeira e olhando ao redor da cozinha, as emoções contidas fazendo seu corpo estremecer. — O que eu ia pensar, Julia? Que você estava bem e tudo estava bem sei lá onde? Não seja tão ingênua. Você não estava movimentando nosso dinheiro, seu telefone não estava funcionando, você poderia estar jogada numa vala. Passei dias procurando por você, telefonando para qualquer um de quem eu me lembrasse, fazendo o detive investigar mais e mais, trabalhando até chegar ao fim do dia tão cansado que não tinha mais nenhuma energia ou emoção. — Ele parou e olhou em volta, girou sobre os calcanhares e bateu a mão contra a parede, enquanto ela olhava para ele, espantada com a dor em suas palavras, dor que fora causada por ela. Não ter energia ou emoção para o quê? Ele também chorava sozinho, como ela fazia? Não. Não Max. Será que não? Ela se levantou e foi até ele, seus passos silenciosos no chão de pedras, e colocou a mão em seu ombro. 19


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— Max, sinto muito — sussurrou ela. — Por que, Jules? — perguntou ele, sua voz como pedra. — Por quê? O que eu fiz de tão ruim para que você me tratasse desse jeito? Como você pôde não me contar que eu ia ser pai? — Eu quis, mas você sempre foi contra ter filhos. — Porque você não podia ter e porquê... — Porquê...? Ele sacudiu a cabeça. — Não importa. Isso é irrelevante agora, mas nós estamos falando na teoria, aqui, não na prática. Quando você descobriu que estava grávida, quando você soube? Ela engoliu em seco. — Quando você estava indo para Tóquio. Jane meio que adivinhou e me deu um teste de gravidez. Os olhos dele ficaram arregalados. — Todo esse tempo? Você soube desde o primeiro minuto e escondeu isso de mim? Jules, como? Por quê? — Eu não imaginei que você quisesse saber. Eu quis contar a você. Eu quis muito que você estivesse aqui comigo, para participar disso. — Eu poderia ter estado — disse ele asperamente, seus olhos atormentados. — Eu poderia ter estado com você cm cada momento se você tivesse me dado a chance. — Mas só quando você não estivesse muito ocupado. Ele olhou em volta. — Eu não estaria muito ocupado nesse caso. — É claro que estaria. — Não, não para algo assim. Você deveria ter me dado chance de escolher, Julia, e não ter tomado a decisão sem o meu conhecimento. Você não estava certa em fazer isso. Ele estava certo, claro. Tão certo, e sua raiva e mágoa naquele último momento a atravessaram. Ela quis abraçá-lo, colocar seus braços em torno dele, mas não tinha mais direito de fazer isso. Como confortá-lo por uma dor que ela mesma causara? E, de qualquer forma, não havia garantias de que ele não a rejeitaria, e ela não teria supor tado uma dor daquelas. Então, ele buscou e encontrou os olhos dela, e ela soube que ele jamais a rejeitaria. Ela estava presa em seu olhar triste, incapaz de respirar por causa das emoções que fluíam através dela. Ele estendeu a mão e tocou em sua face ternamente, e ela sentiu que os dedos dele estavam trêmulos. — Eu preciso de você — disse ele em voz baixa. — Eu a odeio pelo que você me fez, mas, maldita seja, ainda preciso de você. Volte para mim. Por favor, volte para mim; vamos construir uma vida juntos. Nós podemos recomeçar. Ela deu um passo para trás, suas pernas parecendo geleia. Se fosse tão simples... — Não posso. Não para aquela vida. — Para qual vida, então, Jules? Ela encolheu os ombros. — Eu não sei. Ainda não sei. Apenas não aquela. Não para aquelas viagens sem 20


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fim ao redor do mundo, aquela corrida por dinheiro, a excitação do mercado de ações, as aquisições arriscadas, o desespero para estar no topo da lista dos mais ricos. Não quero isso nunca mais, Max, e mais importante: não posso fazer isso. Não quando tenho dois bebês que precisam de mim. Foi por isso que eu deixei você e nada mudou, não é? Você deveria estar em algum outro lugar agora. E, apesar de estar aqui, aposto o que for que você estava dando telefonemas agora há pouco lá do pub, para checar se está tudo bem na empresa. E aposto que, mais tarde, depois que eu for para a cama, você ainda irá fazer mais telefonemas, cuidar de outros assuntos. Estou certa? — Ela deu um passo para trás e ele suspirou e concordou com a cabeça. — Sim, droga, você está certa, claro que você está certa, mas eu tenho um negócio para tocar. — E uma equipe. Uma boa equipe. Algumas pessoas excelentes, que são mais do que capazes de manter as coisas funcionando. Se você deixar, Max. Dê uma chance para que eles possam provar, e tire um tempo para conhecer suas filhas. — Tempo? — perguntou ele com cautela. — Duas semanas. Duas semanas aqui, comigo, sem telefones, sem notícias, sem papéis, sem computador ou e-mails ou correspondência, apenas nós. Umas férias, você sabe, uma daquelas coisas que você nunca teve? Você, eu e os bebês, para ver se há algum jeito de sermos uma família. Ele estava balançando a cabeça. — Não posso tirar duas semanas, não assim. Não sem ter alguma espécie de contato com minha equipe, meus negócios. — Max, a única coisa que sei é que, se vamos tentar, tem que ser assim. Olhe, não tenho mais forças para discutir sobre isso. Foi um dia terrível, estou exausta. Estou indo para a cama e sugiro que você faça o mesmo. Fique com o quarto ao lado do quarto dos bebês, já está tudo pronto. E pense sobre o que eu disse. Se você real mente está falando sério sobre nós voltarmos a ficar juntos, quero essas duas semanas. Sem compromissos, sem trapacear, sem quebrar as regras. Apenas você, os bebês e eu. Telefone para sua assistente e resolva isso pela manhã. — Ei, isso pareceu ser uma ordem! — Apenas cumpra o regulamento. Ou você está comprometido com isso ou não está. — Apenas me dê um único motivo. Ela riu suavemente. — Posso lhe dar dois. E, se você quer fazer parte da vida delas, fará isso. Porque eu não vou sujeitá-las a um pai ausente que não tem compromisso com sua família e não sabe a diferença entre casa e trabalho. Max olhou para ela por um longo momento e, então, cedeu. — Tudo bem, vou ligar para Andréa de manhã e formalizar a coisa toda. Você terá suas duas semanas. Mas não se engane, estou fazendo isso pelas crianças, elas mere cem mais do que um pai ausente. Mas vai levar muito tempo antes que eu possa perdoar você por me privar dos seus primeiros meses, e por manter algo tão imensamente importante escondido de mim. Não espere que eu seja sempre doce e compreensivo. Ainda estou com tanta raiva de você que nem consigo encontrar palavras para descre ver o que sinto. Os olhos dela se encheram de lágrimas. — Eu sei. E sinto muito. Não machuquei você por maldade. Eu ainda amo você. 21


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— Então volte para mim. — Não. Não dessa forma. Isso não é o suficiente. Quero saber se podemos ser uma família. Se podemos reconstruir nossa vida, cuidar dos bebês juntos, criar nossas filhas em um lar feliz. Vamos ver, Max. Vamos ver.

CAPÍTULO TRÊS

— Andréa, aqui é... — Max! Você está bem? Ele piscou, espantado com a preocupação dela. — Estou bem. Olhe, preciso que você faça algo para mim. — Claro. Mas... Max, como estão as coisas? Bizarras. Confusas. — Não tenho certeza. Preciso de um tempo para descobrir. Você pode deixar a minha agenda livre durante as próximas duas semanas? — Já fiz isso, chefe. Transferi tudo o que pude e deixei a maior parte do seu tempo livre. Ainda estou esperando que Yashimoto dê um retorno. Droga. Ele se esquecera de Yashimoto. Ele deveria estar indo de Tóquio para Nova York, para assinar o novo contrato. — Talvez... — Max, eu cuido dele. Não é nenhum problema. Ele pode negociar com Stephen... — Não. Stephen não sabe todos os detalhes. Faça com que os dois liguem para mim — Max...? A voz de censura às suas costas o fez se virar, e ele viu Jules encostada ao batente da porta, segurando uma xícara de chá. Ela olhava para ele atentamente, e sua expressão era irredutível. — Nada de telefonemas — disse ela, e Max deu um grunhido baixo de frustração. — Tudo bem, esqueça, negocie com ele você mesma e deixe Stephen cuidar de tudo. Eu preciso... Bem, existem... — Regras? — disse Andréa suavemente, e ele suspirou. — Duas semanas, nada de negócios, nada de distrações. — Bem, aleluia! Acho que vou gostar da sua mulher. Não estrague tudo, Max. Deus, o que teria acontecido com ela? Ela deveria estar do lado dele! — Farei o melhor que puder — resmungou ele. — Olhe, eu sei que é contra as regras, mas, se realmente houver um problema... 22


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— Se realmente houver um problema, é claro que eu telefonarei para você. Dê-me o número da sua mulher. — O quê? — Você me ouviu. Telefonarei para ela. — Você não precisa incomodá-la. — Não, e nem devo, mas darei a ela o poder de veto. Ele disse algo rude, mas se desculpou em seguida, e entregou o telefone a Julia. — Ela quer o seu número para o caso de emergências. — Certo — disse ela, tomando-lhe o telefone das mãos e se afastando com o aparelho, fechando a porta com o pé. Ele soltou outro palavrão, passou as mãos pelos cabelos e então ouviu um choro vindo do quarto dos bebês. Suas filhas. Aquilo era tudo o que importava, ele disse a si mesmo, e, atravessando a sala, ainda descalço, foi até lá e tirou a menina que estava acordada do berço, sorrindo para ela. Ava? Ele não tinha certeza. — Você é Ava? — A garotinha virou a cabeça e olhou para o outro berço. — Libby? — Ela se virou, o rostinho radiante, e estendeu a mãozinha para puxarlhe a orelha. Oh, bem, pelo menos seu nariz poderia descansar. Ele a virou levemente, para que ela não pudesse alcançá-lo, e então franziu o nariz. Humm. Ela estava com um probleminha que felizmente estava além da experiência dele, mas estava tudo bem... Jules não demoraria. Ou demoraria? — Max? — Estou aqui — disse ele, saindo do quarto dos bebês com Libby nos braços. — Você está feliz, agora? — Humm. Ela parece ótima. Dei meu número e as outras informações de contato para ela, em todo caso. — No caso de quê? De o escritório pegar fogo? — Isso seria inútil. O que você poderia fazer, cuspir nele? Você acordou a Libby? — Não, ela já estava acordada. Ela... bem... precisa de você. Julia riu e apanhou o bebê, beijando-a e esfregando o nariz em seu pescoço. — Oi, monstrinha. O papai não é mesmo um covarde? Bem, claro que parte do processo de ligação entre pais e filhos é aprender a trocar fraldas — disse ela, sem aviso prévio, e Julia poderia jurar ter visto o rosto de Max empalidecer. — Está tudo bem, vou deixá-lo praticar com algo inofensivo — disse ela com um sorriso, e quase riu alto quando os ombros dele relaxaram de alívio. Max se encostou à soleira da porta e observou a uma distância segura enquanto ela cuidava de Libby; quando terminou, Julia colocou a garotinha de volta nos braços dele, e lavou as mãos. Em seguida, ela apanhou Ava do berço e a embalou enquanto procurava uma fralda limpa; Julia trocou a outra menina e colocou a fralda suja em um balde. 23


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— São fraldas de pano? — perguntou ele, olhando um pouco mais de perto, agora que as coisas estavam sob controle. Ela virou a cabeça e ergueu uma sobrancelha para ele. — Não fique tão chocado. — Eu... eu não estou chocado. Só estou surpreso. Você poderia usar fraldas descartáveis. — Humm... São oito milhões de fraldas sendo jogadas fora por dia, e tudo indo para os aterros sanitários. — Oito milhões? Santa Mãe de Deus! — Só neste país. E elas não são biodegradáveis, ou seja, permanecem ali por centenas de anos. — Como diabos você dá conta das duas de uma só vez, quando está sozinha? — Você aprende. Cuida da que estiver precisando mais primeiro, e a outra espera um pouco. Normalmente, é Libby quem espera, porque Ava tem pavio mais curto. — Então, ela já aprendeu a manipular você? — Claro que sim. Puxou a você. Ele ergueu a cabeça repentinamente, olhando para ela com uma expressão de dúvida. — Não estou certo de que isso seja um elogio. — E não é. Mas bebês são impressionantes. São pequenos sobreviventes, e não levam muito tempo para aprender as coisas. Certo, meninas, hora do café. — Chega daquela gororoba nojenta — implorou ele. — Não. Elas tomam um mingau instantâneo de cereais no café da manhã. É gostoso e faz muita sujeira. Vou deixar você limpar tudo. Ele pareceu horrorizado, e ela quase deu outra risada. Max teve que aprender do jeito mais difícil, naturalmente, a não deixar a tigelinha perto o suficiente de Libby para que ela pudesse colocar a mãozinha lá den tro. E, então, teve que aprender a segurar a mãozinha dela antes que ela esfregasse mingau no cabelo e no rosto dele enquanto ele se inclinava para limpá-la. Oh, céus, ele precisaria de um banho quando terminassem a refeição. — Certo, monstrinha, vamos tentar de novo — disse ele. — Abra a boca. Ele conseguiu fazer com que ela comesse a maior parte do mingau, antes de Libby decidir que já era o suficiente e cuspir nele com um sorriso alegre. — Você é uma pequena dama — ele disse a ela, agarrando-lhe as mãozinhas sujas e limpando-lhe os dedinhos um a um, e ela riu e tentou descer da cadeira. — E agora? — perguntou ele a Jules. — Hora do banho. — Banho? Parece complicado. — E é. Vou deixar por sua conta. — Dar banho nelas? — Você consegue. 24


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— Vou me vestir — disse ele, e ela riu. — Eu não me incomodaria com isso. Você provavelmente vai ficar ensopado. Ele cerrou os dentes para não retrucar, carregou Libby para o andar de cima e parou ao lado da porta do banheiro. — E agora? — Coloque-a de bruços no chão para que ela possa engatinhar um pouco, e abra a torneira. Tome aqui, você pode cuidar de Ava, também. Vou buscar roupas para elas. Mas não tire as fraldas delas ainda; elas vão sentir frio. Frio? Como seria possível elas sentirem frio? O banheiro estava cheio de vapor. Mas elas eram muito pequenininhas. O que ele sabia sobre bebês? Quase escaldara Ava na noite anterior. Tinha de abrir a torneira, ele pensou, e se lembrou de algo que sua mãe sempre lhe dizia: "abra a água fria primeiro, para que nunca haja apenas água quente na banheira". Mulher sábia. — Ava? O que você está fazendo? Ele arrancou a escova do vaso sanitário das mãos dela antes que a colocasse na boca, e virou o bebê para o outro lado. Então, gritou: — Já enchi a banheira. — Está quente? — Não! — retrucou ele com uma ponta de sarcasmo, e ouviu-a rir. — Tire as roupinhas delas, então. Estarei aí em um segundo. Então, ele tirou as roupinhas de Ava, que estava indo na direção da escova novamente, e depois fez o mesmo com Libby, colocando-a de volta sobre o tapete. Em seguida, teve de resgatar Ava mais uma vez, porque a garotinha já se aproximava do vaso sanitário, e colocou-a cuidadosamente na água. E ele a retirou da banheira imediatamente, quando ela deu um grito estridente. — O que foi, agora? — Jules voou para o banheiro e arrancou o bebê dos braços de Max. — Pensei que você tinha dito que a água não estava quente! — E não está! Ela se inclinou e tocou na água. Julia sacudiu a cabeça e riu fracamente, sentandose na, beirada da banheira. — Não. Você está certo. Pobrezinha. A água está gelada. — Gelada? Gelada. Ele suspirou. — Eu não queria — Escaldá-las? Ah, Max, veja, use a parte interna do seu pulso. A temperatura deve estar nem muito quente, nem fria demais. É o melhor teste. Inferno. Ele jamais sobreviveria àquelas duas semanas. Sem falar no resto de sua vida. — Como pode ser tão difícil? — resmungou ele, baixinho, afastando Libby da 25


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escova do banheiro desta vez e colocando-a na banheira ao lado da irmã. — Você vai chegar lá, Max — disse ela, gentilmente. — Certo, e agora? — perguntou ele, forçando-se a se concentrar na próxima aula de seu curso de pai. Finalmente, as meninas estavam limpas, secas e vestidas com pequeninos macacões jeans e suéteres quentinhos, e Jules declarou que, assim que ele estivesse vestido, eles sairiam para passear, já que o dia estava lindo. — Elas sabem andar? — perguntou ele, e ela revirou os olhos. — Claro que não. Levaremos o carrinho. Ele tomou um banho rápido para tirar o mingau dos cabelos. E dos olhos. E do nariz. Em seguida, vestiu-se e desceu para a cozinha. — Certo, estamos todos prontos? Você não deveria estar usando jeans, Max? Ela olhou para ele com uma expressão pensativa. — Não tenho calça jeans, não preciso dela. — Oh, você precisa, sim, é claro que precisa. Como você vai engatinhar pelo chão com as meninas e o cachorro vestindo as calças de seus ternos italianos feitos à mão? — Poderíamos ir comprar uma — sugeriu ele. — E, enquanto estamos na cidade, poderíamos ir à oficina da Mercedes e ver se podemos trocar o carro por algo mais apropriado para bebês. — Não há nada de errado com o meu carro, Max. E, de qualquer forma, ele não é meu, é do John! — Não o seu carro — explicou ele, pacientemente. — O meu. — Mas, Max, você adora aquele carro — disse ela, suavemente. — E daí? Preciso de um carro apropriado para crianças, Jules. Independentemente do que acontecer entre nós, vou precisar de um carro mais adequado. — Você poderia deixá-lo aqui. E levar o meu, quando estiver com as meninas. — Pensei que o carro fosse de Blake. — Oh. Humm, sim, é sim. Não posso realmente emprestá-lo a você. Julia olhou para o carro dele e mordeu o lábio, em dúvida. Ela nunca dirigira nenhum dos carros esporte de Max. — Bem, você pode comprar outro carro, e deixá-lo aqui, para quando vier nos visitar. Max olhou para Julia, e desviou o olhar para esconder sua expressão, porque subitamente percebera que eles estavam falando como se ela fosse permanecer ali, e ele fosse voltar para Londres sem elas. E ele não gostava nada daquilo. * * * Eles compraram jeans e um par de sapatos casuais, além de alguns suéteres, em uma das lojas de departamentos da rua principal. — Melhor? — perguntou ele, um tanto ranzinza, e ela sorriu. — Muito melhor. Certo, vamos resolver o assunto do carro. 26


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E resolveram. Foi fácil, porque a concessionária tinha um antigo modelo de demonstração disponível, que Max poderia adquirir imediatamente, e foi o que ele fez.

Em casa, Julia não resistiu; ela precisava perguntar: — Como é Andréa? Ela parecia amável no telefone. Ele sorriu ao ouvir aquilo, um tanto ironicamente. — Não sei se a chamaria de "amável". Ela tem 53 anos, é magra e elegante, e assustadoramente eficiente. Ela me controla com mãos de ferro. Você provavelmente a adoraria, mas não é a mesma coisa que ter você por perto, Jules. Você sabia exatamente o que eu queria, o tempo todo, e tudo estava lá, ao meu alcance. Eu raramente tinha que lhe dizer no que estava pensando, e às vezes nem sequer precisava pensar. Sinto sua falta. — Eu não vou voltar só porque a sua nova assistente não é tão boa quanto eu. — Oh, ela é muito boa, mas, no fim do dia, quando terminamos o trabalho, ela não me olha como você fazia — disse ele, abaixando a voz. — Como se quisesse rasgar as minhas roupas. E eu não tiro as roupas dela no chuveiro e faço amor com ela contra os azulejos, enquanto a equipe de segurança tenta descobrir se alguém está sendo assassinado, com todos aqueles gritos. Ela sentiu o rubor lhe tingir as faces ao ouvir aquilo, e sacudiu a cabeça. — Max, pare com isso. Foi só uma vez. — E foi fantástico — disse ele, suavemente. E, estendendo a mão, tomou-lhe o rosto vermelho e ergueu-lhe o queixo, e suas bocas se encontraram em um beijo suave e terno que poderia levar tão facilmente a... Ela deu um passo para trás, as pernas transformadas em geleia. — Max, não! Pare. — Desculpe-me — murmurou ele, sem parecer nem um pouco arrependido. Ele se parecia com um gato que encontrara um pote de creme, e ela sentiu vontade de gritar de frustração. — E quanto àquele passeio que iríamos dar? — disse ele, o que mostrava muito bem o quanto Max sabia sobre bebês e seus horários. — As meninas precisam almoçar e tirar uma soneca, e eu também. Podemos dar uma caminhada mais tarde, se o tempo ainda estiver bom. — E o que eu devo fazer, então? — perguntou ele. Julia percebeu que ele estava totalmente perdido, com tanto tempo livre nas mãos, e deu um sorrisinho malicioso. — Você pode lavar as fraldas.

Ele jamais teria mexido na bolsa dela. Era uma daquelas regras não escritas, como falar palavrões na frente de senhoras, e deixar a tampa do vaso sanitário levantada, que sua mãe lhe ensinara quando ele era criança. Mas, com a casa silenciosa e todas dormindo, ele ficou ali parado, de braços cruzados, olhando para a bolsa. Era onde o celular dela estava. Era apenas um tele fone. 27


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Apenas uma ligação. Ele poderia escapulir para o jardim, ou para o carro, e ela jamais saberia. Ele podia ver a ponta do celular, em meio a todas as bugigangas que ela parecia carregar na bolsa. E aquilo era uma mudança. A bolsa de Julia sempre fora imaculadamente organizada antes, e agora parecia uma lixeira ambulante. Que continha um celular. Cuidadosamente, ele apanhou o celular com o polegar e o indicador, e tirou-o da bolsa como se o aparelho fosse mordê-lo. Ele precisava falar com Andréa, disse a si mesmo tentando justificar seu ato. Max examinou a agenda de telefones, e então, em um impulso, avançou até a letra "M", e lá estava ele: Max, e número de seu celular. E o do apartamento. E o do trabalho. Ele verificou a lista de números de emergência e encontrou suas informações repetidas ali. No telefone novo de Julia. Por causa das meninas, ele lembrou a si mesmo, abafando a onda de esperança que sentia, e teve uma idéia. Se ele telefonasse para seu próprio número, o celular tocaria e ele conseguiria encontrá-lo... Julia levantou a cabeça, olhou para o travesseiro e o afastou para o lado. O celular de Max estava tocando; no modo silencioso, mas a vibração a alertara. E o número que aparecia no visor era o do seu próprio celular. Que estava em sua bolsa. — Você está trapaceando -— disse ela, atendendo a ligação; ela ouviu um xingamento abafado e a linha emudeceu. Reprimindo um sorriso, ela afastou as cobertas e levantou da cama, colocando o jeans e o suéter, correndo os dedos pelos cabelos e, descendo as escadas. Ele estava parado ao lado da bolsa, com o celular dela na mão, com uma expressão ao mesmo tempo desafiadora e culpada, e ela sentiu uma súbita pena dele. Max parecia tão deslocado. Julia percebeu o quanto havia mudado, ao ponto de nem mais se reconhecer. — Está tudo bem, Max, eu não vou morder. — Só vai me dar uma bronca. — Não, não vou nem mesmo dar uma bronca em você. Vou lhe pedir, mais uma vez, para levar isto a sério. Para dar o melhor de si, e para ver se podemos fazer isto dar certo. Senão por nós, ao menos pelas meninas. — Preciso fazer uma ligação, Jules. Há algo importante que me esqueci de dizer a Andréa. — Alguém vai morrer? — Claro que não. — Então, não é realmente importante. — Mas as coisas vão se atrasar por alguns dias, até que o pessoal perceba. — Perceba? — Há um documento que eu iria enviar por fax para Yashimoto. — E o que é o pior que pode acontecer? Você pode perder alguns milhares de 28


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libras? — Talvez mais. — E isso importa? Quero dizer, não é como se você estivesse passando dificuldades, Max. Você nunca precisaria trabalhar novamente, se não quisesse. Algumas libras, alguns dias entre uma vida inteira, não é muito a pedir, é? — Pensei que tivéssemos tudo. Pensei que fôssemos felizes. — E nós éramos. Mas as coisas saíram do controle, Max. E eu não vou voltar para aquela vida. Então, se você não for capaz de fazer isto, não conseguir delegar tarefas e tirar um tempo de folga para passar com sua família, nós não temos um futuro. E, para ter um futuro, precisamos ser capazes de confiar um no outro. Ele não se moveu por um momento, e suspirou suavemente, atirou o celular dela dentro da bolsa e se endireitou. — Então é melhor você me mostrar como a máquina de lavar funciona, não é? — Seria um prazer — respondeu ela, quase tonta de alívio. E, levando-o para a lavanderia, apresentou-o ao novo conceito de lavar as roupas em casa.

CAPÍTULO QUATRO

Os bebês eram lindos. Doces, bagunceiros, temperamentais, lindos. E entediantes. Não quando estavam acordados, mas quando estavam dormindo, e Jules tirava uma soneca, e a casa ficava tão silenciosa que Max sentia vontade de gritar. E, de repente, ocorreu-lhe que ele era o único que se esforçava para se ajustar. Aquilo era justo? Não era justo, de jeito nenhum, pensou ele, irritado; e, além disso, não fora idéia dele ser cortado das vidas delas. Até aquele momento, depois de trinta e poucas horas, ele aprendera a preparar um banho na temperatura certa, a lidar com a máquina de lavar, a acertar uma colherada de mingau na boca do bebê. Mas agora, às 11h da noite, quando ele normalmente trabalharia por mais duas ou três horas, Julia já fora para a cama, as meninas dormiriam até o dia seguinte, e não havia nada a fazer. Nada na televisão, nenhum modo de entrar em contato com Yashimoto e nenhum modo de entrar em contato com o pessoal em Nova York, que ainda estaria trabalhando. Tudo estava tão quieto! Exceto pelos gritos que Max podia ouvir ao longe. Ele os ouvira um minuto antes, e agora que estava perto das portas francesas podia ouvi-los claramente, um barulho de gelar o sangue que lhe causou um arrepio até os ossos. Murphy levantara as orelhas e estava rosnando baixinho, e Max o chamou de volta para dentro de casa, fechando a porta. Em seguida, ele foi até o andar de cima e bateu na porta do quarto de Julia. Ela a abriu um segundo depois, vestindo um pijama com estampa de gatinhos e com o rosto amassado de sono, e ele precisou se forçar a ir direto ao ponto. — Eu ouvi um barulho — disse ele sem mais preâmbulos, sem se permitir olhar 29


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para os pequenos gatinhos que corriam pelo corpo dela. — Gritos. Acho que alguém está sendo atacado. Ela inclinou a cabeça para o lado, ouviu e então sorriu. — Deve ser um texugo — disse ela. — Ou uma raposa. Ambos gritam à noite. Não sei bem qual é qual, mas, nesta época do ano, acho que provavelmente é um texugo. As raposas fazem mais barulho na primavera. O ruído o acordou? Você precisa dormir. Está exausto. — Não estou exausto. Nunca durmo a esta hora da noite. — Bem, você deveria. Chá? Ele não queria chá. A última coisa que ele queria era chá, mas beberia ácido puro só para ter a companhia dela. — Chá parece uma ótima idéia — disse ele, resmungando, e a seguiu até o andar de baixo. Não podia ser fácil para ele, estar preso naquele fim de mundo, e ainda por cima com gêmeas. Max nunca fora do tipo que precisava de muitas horas de sono, e, sem ter nada para fazer durante a noite a não ser pensar, ele deveria estar analisando aquela situação repetidamente. O que era bom, Julia disse a si mesma. — Há alguma lenha no fogo? — perguntou ela, e ele deu de ombros. — Não sei. Havia. Coloquei a grade para cima. A lareira fica acesa a noite inteira? — Não costumo acendê-la — confessou ela. — As meninas e eu passamos a maior parte do tempo na cozinha. — Então, por que você perguntou? — Porque pensei... tenho alguns DVDs das meninas, desde que elas nasceram. Na verdade, desde antes. Eu tenho um DVD em 4-D do ultrassom. É fascinante. — 4-D? — Humm. 3-D, em tempo real. Eles chamam de 4-D. Você pode vê-las se movendo, e é incrivelmente real. E eu tenho muita coisa delas quando elas estavam na terapia intensiva, e registros de tudo o que eles fazem com os bebês, como impressões das mãozinhas e dos pezinhos, e as pulseirinhas com os nomes, as tabelas de peso, coisas assim. Pensei que se estivesse quente na sala, poderíamos assistir, mas você provavelmente vai achar tudo muito chato... — Não! Não, não vou. Eu gostaria de ver. — Ótimo — disse ela, suavemente. — Vá ver se você pode reavivar o fogo, e eu vou preparar um chá. E biscoitos de chocolate maravilhosos, que eram mais chocolate que biscoito, e queijo com bolachas, porque ela sabia que ele estaria com fome, e ele francamente precisava engordar um pouco. Ele estava agachado perto da lareira quando ela voltou, soprando as brasas e tentando devolver alguma vida ao que sobrara do fogo. E, quando ela colocou a bandeja na mesinha, as chamas finalmente se acenderam e um adorável brilho laranja tomou conta da lareira. — Oh, isso é ótimo. Muito bem. Tome, coma um pouco de queijo com biscoitos — instruiu ela, remexendo no armário ao lado da televisão em busca dos DVDs. — Ultrassom primeiro? — sugeriu Julia. Max assentiu, e ela colocou o DVD no aparelho, sentando-se encostada ao sofá ao 30


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lado das pernas dele, e segurando a xícara de chá nas mãos enquanto as imagens dos bebês ainda não nascidos passavam diante deles. — Com quantos meses de gravidez você estava quando estas imagens foram feitas? — Vinte e seis semanas. Uma sombra percorreu o rosto dele, e Max apertou os lábios, olhando para a tela como se sua vida dependesse disso. Julia se virou novamente para a televisão e assistiu ao DVD com ele, mas estava profundamente consciente de uma tensão nele que jamais sentira antes. Quando o DVD terminou e ela o retirou do aparelho, Julia sentiu que a tensão o abandonava, e, enquanto ele se recostava nó sofá para beber seu chá, suas mãos tremiam um pouco. Estranho. As mãos de Max nunca tremiam. Sob nenhuma circunstância. E, mesmo assim, ele sempre fora tão irredutível ao dizer que não queria filhos, que as vidas deles estavam completas sem crianças. E por que as imagens de suas filhas antes de nascerem eram tão comoventes para ele? O fogo estava crepitando com força agora, e Murphy se levantou de sua posição na frente da lareira e se aproximou deles, deitando-se contra as pernas de Max. Ele se inclinou e coçou o pescoço do cão, puxando-lhe as orelhas, com uma expressão ausente no rosto; e Murphy ergueu a cabeça, olhando com adoração para Max como se tivesse encontrado sua alma gêmea. — Acho que você encontrou um novo amigo. — Aparentemente. Acho que ele sente falta de John. — E eu acho que ele quer os biscoitos do seu prato — brincou ela, e Max riu. — E agora? — perguntou ele, e ela colocou no aparelho de DVD o primeiro filme das meninas depois de nascidas. — Aqui estão elas, com dois dias de idade. Elas nasceram com apenas 33 semanas, porque o meu útero tinha dificuldades de se expandir, por causa das cicatrizes; e elas pararam de crescer. Jane e Peter vieram, e filmaram as duas para mim. Eles foram maravilhosos, e me deram muito apoio. — Eu teria lhe dado apoio. — Eu não sabia disso, Max. Você sempre foi tão contrário à idéia de ter filhos. Se eu sequer mencionasse uma inseminação artificial, você saía correndo. Como eu poderia saber que você queria se envolver? — Você poderia ter me perguntado. Você poderia ter me dado a escolha. Ela poderia. Poderia, mas não havia, e era tarde demais agora para mudar aquilo. Mas ela podia pedir desculpas, Julia percebeu, e virou-se para ele, tomando sua mão. — Eu sinto muito — disse ela, forçando-se a olhar nos olhos dele e se preparando para enfrentar a raiva que ela sabia que veria neles. Mas, em vez da raiva, havia dor. — Max? — sussurrou ela, e ele afastou a mão, levantando-se. — Talvez possamos fazer isso outra hora — disse ele, e, sem uma palavra, foi para a porta. Ela o ouviu subindo as escadas, e a porta do banheiro se fechando, e a água correndo. Com um suspiro, ela desligou o aparelho de DVD e a televisão. Ela ouviu o chuveiro ser desligado, enquanto ia para seu próprio quarto e fechava a porta; e, alguns minutos depois, ouviu Max sair do banheiro e atravessar o corredor até o quarto de hóspedes, fechando a porta suavemente. 31


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Na manhã seguinte, Max correu pela estrada, sempre acompanhado por Murphy. Eles saíram do vilarejo para tomar outra trilha pequenina e sinuosa, cortaram caminho por um campo e atravessaram o rio por uma ponte de ferro. Em seguida, tomaram um atalho que levava novamente ao vilarejo, quase em frente à entrada "Chalé das Rosas". A corrida levara 20 minutos, e Max calculava que tivesse percorrido uns cinco quilômetros. Não longe o suficiente para entorpecê-lo, mas o exercício diminuíra sua tensão e lhe distraíra da confusão sem fim em sua mente. As luzes estavam acesas na cozinha quando ele chegou em casa, e Jules o estava observando, seu rosto indecifrável a distância, sob as lâmpadas antigas. Ele reprimiu um grunhido e subiu os poucos degraus até a porta dos fundos, com Murphy molhado e enlameado a seu lado. — Cama! — ordenou ela, e o cão se virou, indo direto para sua cama que ficava no vão sob as escadas. — Essa ordem foi só para ele, ou eu tenho que ir para a cama, também? — perguntou Max, e ela sorriu, um pouco incerta, observando o rosto dele com olhos perturbados. — Você está bem? — Estou. Demos uma boa corrida... — Você está bem mesmo? — Estou bem — disse ele, com um pouco mais de sinceridade, porque realmente estava. Fora somente aquele DVD que o perturbara, fazendo-o sentir-se triste e emocionado de novo, e ele odiava aquilo. Ele odiava perder o controle de seus sentimentos; odiava seus sentimentos, ponto final. — Eu fiz um chá — disse ela. — Obrigado. Os bebês já acordaram? Ela sacudiu a cabeça. — Não, mas vão acordar em breve. Por quê? — Oh, eu só estava perguntando. Preciso de um banho, mas não quero incomodálas. Vou tomar o meu chá e esperar um pouco, se você não se importa de eu estar suado e enlameado. Os olhos dela o percorreram, e ela deu uma risadinha, mas, quando Julia se virou, ele notou um leve rubor em suas faces. Mesmo? Ele ainda podia fazer aquilo com ela? — Tenho certeza de que posso suportar enquanto você toma o seu chá — disse ela. Ele pensou no beijo que eles haviam trocado, só um toque suave dos lábios dela nos dele, e uma onda de calor o invadiu. Porque ele queria fazer aquilo de novo; queria puxá-la contra si, enterrar os dedos nos cabelos embaraçados dela e explorar-lhe a boca com a sua até que ela estivesse gemendo de desejo e pedindo mais... — Pensando bem, talvez seja melhor eu ir dar uma olhada nas minhas roupas e procurar algo para vestir depois do banho — disse ele, correndo para a porta antes que envergonhasse a si mesmo. — O que há de errado com as roupas novas de ontem? — perguntou ela, e ele hesitou na soleira, com um pé no primeiro degrau das escadas, olhando para ela por sobre o ombro. — Nada, eu só não tenho certeza de que elas são apropriadas para o que vamos fazer hoje. 32


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— E o que vamos fazer hoje? — Vamos levar as meninas para a praia — respondeu ele, pensando rápido. — Está um dia lindo, e a previsão do tempo é de sol e temperatura amena. — Nesse caso, o seu jeans e suéter serão perfeitos. Volte aqui, sente-se e tome o seu chá. Se você começar a fazer barulho no quarto ao lado do delas, elas vão acordar e, francamente, os momentos de paz já são muito poucos. Max engoliu em seco, tentando reprimir o desejo que ameaçava dominá-lo. Mas ele não precisava ter se preocupado, porque ela apanhou a roupa suja e a levou para a lavanderia, enquanto ele levava seu chá para o sofá junto à grande janela. Quando ela voltou, eleja recuperara o controle. Ou quase.

Ele estava certo, estava um dia lindo. Eles levaram as meninas a Felixstowe, estacionaram o carro no final do píer e caminharam até a outra extremidade. — Você sabia — comentou ela —, que, exceto pelas viagens de trabalho, quando fomos ao exterior, esta é a primeira vez que vamos à praia, em seis anos? — Acho que você está certa. Isso não é algo que eu pensasse em fazer; não na Inglaterra, pelo menos. E eu nunca fui do tipo que gosta de feriados na praia. — Não estou falando de feriados na praia — disse ela. — Estou falando de caminhar junto ao mar, com uma brisa forte nos cabelos e o gosto de sal na pele. É lindo, saudável, e... oh, maravilhoso! Ele não tinha o direito de fazer aquilo com ela; trazer de volta tantas lembranças com apenas um sorriso preguiçoso. Eles poderiam não ter caminhado na praia, mas haviam feito amor muitas, muitas vezes no terraço de casa, com vista para o Tâmisa, com o cheiro do rio e o ar salgado os envolvendo. E ela soube, apenas com um olhar, que ele também estava lembrando. — Eu só vou ver se as meninas estão bem — disse ela rapidamente, e contornando o carrinho até o outro lado, cobriu os bebês novamente e o seguiu. Agora ele era um pai de verdade, com uma mulher e duas lindas filhas, e não um homem sob pressão que fora forçado a se submeter a passar algum tempo com suas recém descobertas crianças. — Jules? Ela percebeu que parará, e ele parará também, e se virará para olhar para ela, seus olhos perturbados. Ele soltou o cercadinho e aproximou-se dela. — O que há de errado? Ela deu de ombros, incapaz de falar. E, com um pequeno suspiro, ele a tomou nos braços e apertou-a contra o peito. — Ei, vai ficar tudo bem — murmurou ele, mas ela não tinha tanta certeza. Menos de dois dias haviam se passado, e ele já quebrara as regras, roubando o celular dela e tentando encontrar o dele. Deus sabia o que mais ele faria, quando ela virasse as costas. Ele ficara acordado metade da noite; teria usado o telefone? Ela se importava? Desde que ele estivesse lá durante o dia, tentando, importava se 33


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ele trapaceasse? Sim! Ou não, não realmente, desde que ele aprendesse a lição sobre equilibrar a vida e o trabalho. — Venha, vamos tomar um café. Há uma pequena cafeteria perto de onde estacionamos o carro. Trouxe bebidas para as meninas, e talvez eles possam esquentar as mamadeiras lá. — Aquela gororoba? — disse ele, parecendo desconfiado, e ela pensou no suéter novo dele, e sorriu. — Tudo bem, eu as alimentarei, se você quiser — prometeu ela. — Mas vou deixar você pagar. — Será um prazer — disse ele com um suspiro de alívio.

As meninas estavam prontas para a cama cedo naquela noite. — Deve ter sido o ar marinho — disse Jules, enquanto esquentava o jantar delas; potinhos de comida feita em casa desta vez, ele notou, perguntando-se se aquilo era o melhor para elas. — Isto tem todos os nutrientes certos? — perguntou ele. — Isto é comida, e não uma fórmula química. Frango assado, brócolis, cenouras, batatas, molho... claro que tem todos os nutrientes corretos. — E foi você quem cozinhou? — Ora, claro que fui eu quem cozinhou! — disse ela com um suspiro exasperado. — Quem mais? Ele deu de ombros. — Desculpe-me. É só que... eu raramente a via cozinhar, e não me lembro de tê-la visto fazer um assado. — Não, claro que não. Nós nunca tínhamos tempo de fazer algo tão sem importância — Jules, pare com isso! Eu só estava... — O quê? Criticando a maneira como cuido das minhas filhas? — Elas são minhas filhas, também! — Então aprenda a cozinhar para elas — disse ela rispidamente, e atirou um livro de culinária para ele. — Aqui está. Há peito de frango, filés de salmão, frutos do mar e costelas de porco no congelador. Escolha o que quiser. Você pode preparar o jantar para nós, enquanto eu coloco as meninas na cama. E, saindo da cozinha com um bebê em cada braço, ela o deixou lá, olhando para o livro com uma expressão perplexa. Jesus. Ele sabia fazer café e torradas, e ovos mexidos, mas isso se fosse obrigado. E sabia desembrulhar comida pronta e colocá-la no micro-ondas, ou pegar o telefone e pedir o jantar. Mas... cozinhar? Ingredientes de verdade? Que inferno, ele não fazia aquilo havia anos. Quinze anos? Talvez... 34


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Droga! Era simples. Ele pediria o jantar. Nem mesmo Julia poderia reclamar se ele usasse o telefone da casa para pedir comida. O problema era que ele deveria cozinhar, e recuar frente a um desafio não era algo que ele fazia normalmente. Então... paella. Não podia ser tão difícil assim.

— Oh! Risoto? — disse ela, hesitante, abrindo a panela e cheirando a comida. — Paella — ele corrigiu. — Quanto alho você usou? — Não sei. A receita dizia dois dentes. Parecia muito, então usei apenas um. — Dente, ou bulbo? Ele franziu a testa, confuso. — Qual é a diferença? — Humm, o bulbo é o alho inteiro, uma coisa esbranquiçada, com textura de papel, com um talo no meio. Os dentes são as partes que formam o bulbo. — Bem, você deveria estar aqui, se vai reclamar. — Ei, eu não reclamei. — Você ainda nem provou. — Tudo bem, pode ter alho demais, mas e daí? Eu não vou beijar ninguém, vou? — Isso pode ser providenciado — murmurou ele, os olhos percorrendo-a lentamente, como se estivesse tentando remover as roupas dela. — Nos seus sonhos — resmungou ela, e apanhou dois pratos. — Aqui está, sirvase. Vou pegar uma bebida. Você quer um pouco daquele vinho? — Acho que o branco seria melhor. O tinto talvez seja um pouco pesado. — Oh, eu não sei — disse ela, perfidamente. — Pode contrabalançar o alho. Garota estúpida. Ele atirou a colher de volta na panela e foi para o corredor, desaparecendo pela porta da frente e batendo-a com força, vestindo o casaco ao sair. Opa. Ela fora cruel ao provocá-lo. Ela sabia que ele não sabia cozinhar, e ele fizera o melhor que podia. E, com exceção do alho e do fato que a comida parecia um pouco cozida demais, estava até bom. O carro de Max, aquele carro esporte, tolo, veloz e perigoso, saiu pela estrada em meio a uma chuva de cascalho, e ela suspirou, cobrindo a panela, afastando-a para o lado e sentando-se para esperar. Ou ele voltaria, ela pensou, e nesse caso ela se desculparia, ou não voltaria; e, nesse caso o quê? As meninas perderiam seu pai, e ela perderia o único homem que já amara, porque não conseguia manter sua boca atrevida fechada. Oh, que droga. E ela nem podia telefonar para ele para pedir desculpas.

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CAPÍTULO CINCO

Ele já estava na autoestrada M25 quando recuperou o bom-senso; tomou o primeiro retorno, parou em um estacionamento, desligou o motor e esmurrou o volante. Que diabos ele estava fazendo? Ela só o estava provocando! Era só isso. Nada drástico. Ela sempre o provocara, mas ele se esquecera disso. Max se esquecera de muitas coisas. De como era a sensação de abraçá-la, de tocá-la, de se perder nela... Ele engoliu em seco. Não, não podia se permitir pensar naquilo. Era cedo demais; ele não tinha a menor chance de chegar tão perto dela. Mas ele a queria; queria tocá-la, abraçála, sentir seu calor. Deus, ele se sentia sozinho. Sozinho demais, sem ela. E não podia fazer aquilo, não podia jogar a toalha, desistir de suas lindas filhinhas e fugir, só porque ela o provocara por causa do maldito alho! Com um suspiro trêmulo, ele ligou o motor, saiu do estacionamento, tomou o retorno e a rodovia A12, e voltou para a mulher. Ele não iria voltar. Ela se sentara perto da janela, encolhida contra o vidro, com um cobertor sobre os ombros, e esperou até o pub fechar, mas ainda não havia sinal dele. E se o carro tivesse quebrado? E se ele tivesse saído da estrada, numa crise de fúria? Ele parecia tão zangado ultimamente, mais zangado do que ela jamais o vira. Seria culpa de Julia? Deveria ser. O que mais poderia ser? E, agora, ele estava Deus sabia onde, talvez deitado de bruços em uma vala cheia de água. As luzes iluminaram o jardim, cegando-a com o brilho dos faróis, enquanto ele parava o carro e desligava o motor. A luz de segurança se acendeu quando ele saiu do carro, e então ela ouviu a porta bater e o barulho dos pés dele sobre o cascalho, enquanto ele se aproximava da porta da frente. Ele parou e olhou pára ela através da janela, com uma expressão sombria; e, em seguida, sacudindo a cabeça levemente, caminhou até a entrada, e ela o ouviu abrir e fechar a porta. E então, ele estava ali, enchendo a soleira da porta com sua presença dominadora e silenciosa. — Eu sinto muito — disse ele. — Não, eu é que sinto muito — respondeu ela, levantando-se e indo até ele, sentindo os pés um pouco doloridos depois de ter se sentado sobre eles durante tanto tempo, esperando por Max. — Eu não devia ter sido tão cruel com você. — Está tudo bem. Não é sua culpa. Eu exagerei. — Não, não exagerou. Você estava fazendo o melhor que podia. Sei que você não sabe cozinhar, e deveria ter ajudado mais, e não simplesmente atirado você às feras e esperado que você se virasse, só porque me criticou. — Eu não a critiquei. Ou, pelo menos, não tive a intenção. Eu só estava perguntando. Desculpe se fiz parecer uma crítica. 36


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Tantos pedidos de desculpas. De Max? Ela sacudiu a cabeça lentamente, e foi até o fogão. — Esqueça. Você já comeu? — Não, eu estava indo para casa. Cheguei à M25 antes de recuperar o bomsenso. Ela franziu a testa. — São mais de 80 quilômetros! — Eu sei. Eu estava... bem, vamos apenas dizer que levei algum tempo para me acalmar. O que é ridículo. Então, respondendo a sua pergunta, não, não comi nada, e sim, por favor, se a comida não estiver arruinada. Não que eu ache que você poderia arruiná-la. Eu já cuidei disso. — A comida está boa — disse ela, determinada a comer tudo mesmo que se engasgasse. — Bem, eu acredito que ia lhe servir uma taça de vinho? Ele deu uma risada abafada. — Parece bom. — Tinto ou branco? Ele sorriu. — Vou terminar o tinto. Vai neutralizar o alho — disse ele com ironia, e ela sorriu de volta, entregando-lhe a garrafa e uma taça. Julia voltou-se para a paella, tirando a tampa da panela e piscando com o cheiro forte, mas serviu os pratos sem dar uma palavra, e eles se sentaram à mesa e comeram em meio a um silêncio civilizado e levemente tenso, até que Max finalmente afastou o prato e olhou nos olhos dela. — O tempero está um pouco forte para o meu gosto — disse ele, e ela abaixou o garfo e sorriu para ele. — Eu não estou com muita fome — mentiu Julia. — Devo fazer um pouco de chá? — Não precisa. Estou satisfeito com o vinho, mas poderia comer algumas torradas, ou algo assim. — Queijo e biscoitos? Ou talvez eu possa pegar uma torta de maçã na geladeira e colocá-la no forno? — Parece ótimo. Podemos comer mais tarde, depois do queijo e dos biscoitos. Ela riu e tirou a mesa, colocando o queijo e os biscoitos à frente de Max e a torta de maçã no forno, e então apanhou uma taça e se serviu de um pouco de vinho. — Desculpe-me, eu não imaginei que você quisesse um pouco. — Está tudo bem. Eu não bebo vinho normalmente, porque ainda estou amamentando as meninas, mas hoje... bem, pensei que poderia beber um pouco com você. — Fique à vontade. Julia girou o líquido na taça e olhou-o nos olhos por sobre ela. — Então... por que você ficou tão zangado? — perguntou ela, hesitante. — Não foi só por causa do alho. — Eu não sei, é... Bem, é este lugar, na verdade. — O chalé? Mas ele é adorável! 37


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— Oh, tenho certeza de que é, mas simplesmente odeio a ideia dele. Você é minha mulher, Jules. Eu não quero ver você morando na casa de outro homem. Ela se recostou na cadeira, olhando para ele por sobre a mesa e se perguntando se havia sido rápida demais ao perdoar. — Não é uma sorte, então, que isso não tenha nada a ver com você? Porque nós somos felizes aqui. — E você não poderia ser feliz na sua própria casa? — Você quer dizer a sua própria casa? Ele suspirou. — Não, a sua. Eu poderia comprar uma para você no seu nome. Deus sabe que eu lhe devo isso. Pelo menos, se você não voltar para mim. Estamos falando sobre onde as minhas filhas vão morar, pelo amor de Deus. — Eu posso dar um lar para as suas filhas. — Sim, na casa de outro homem, vivendo da generosidade dele! Eu não gosto disso, Jules. Não gosto nada disso. Não gosto de ficar aqui, não gosto da ideia de ele poder voltar a qualquer momento e de ter o direito de ficar aqui. Quero ter privacidade enquanto resolvemos tudo, e me sinto o tempo todo como se estivesse esperando pelo golpe final. — Bem, talvez seja bom que você queira comprar uma casa para mim, porque ele vai voltar dentro de um mês e eu estarei sem teto. — Você poderia voltar para mim. — O quê? Para o apartamento? Eu acho que não. — Poderíamos comprar uma casa em Londres. Em Hampstead, ou algo assim. Barnes, ou Richmond... — Ou eu poderia ficar aqui em Suffolk, perto dos meus amigos. — Você tem amigos aqui? Ele parecia tão chocado e surpreso que ela quase riu. — Ora, é claro que tenho. Jane e Peter, para começar, e também conheci algumas pessoas no hospital, e através do grupo de apoio das gêmeas, e da rede "Fralda de Verdade"... — O quê? — A rede "Fralda de Verdade". E há um grupo de encontro para jovens mães que eu freqüento no vilarejo. Nós nos reunimos para tomar café. — Então... você quer ficar aqui? — Sim. Pelo menos até sabermos o que vai acontecer conosco. Não tenho nenhuma infraestrutura em Londres, Max. Eu ficaria muito sozinha lá, e sei que, se formos para Londres, você vai estar longe o tempo todo, indo para o escritório por um minuto ou algo assim, e antes que eu me dê conta você estará em Nova York, ou Tóquio, ou Sydney. — Tudo bem. Então, você quer uma casa aqui. Há alguma à venda? — Eu não faço idéia, Max. Não andei procurando. — E o que você planejava fazer? — Não tenho certeza. — Voltar para ele? Não. Deveria contar a ele? Telefonar 38


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para ele? Estava quase certa de que sim, porque não fazê-lo seria muito injusto. — Como está a torta? — Oh. Eu não sei. Ela abriu o forno e retirou a torta; estava crocante e dourada, e a fragrância das maçãs enchia a cozinha. — Está pronta. — Então vamos comer, e nos preocuparemos com a casa mais tarde. Inferno. Ela queria ficar ali, no meio de Suffolk? Com seus amigos, amigos que ele não conhecia, amigos de quem mal ouvira falar porque ela os via tão raramente; ele não conseguira encontrá-la através deles porque não tinha idéia de como entrar em contato com eles. Ela se encontrara com Jane na cidade algumas vezes, e passara um fim de semana ou dois com ela, quando eles moravam em Berkshire. Ele se lembrava vagamente de ouvi-la dizer que eles estavam se mudando, mas não para onde; só que era para mais longe. E, como ele não tinha a menor idéia de qual era o sobreno me de Jane, aquilo não o ajudara muito. E eles eram mais importantes para Julia do que ele? Não. Pare. Ela não tinha dito aquilo. Ela só dissera que, até que soubessem o que aconteceria a eles, precisava ficar perto de sua infraestrutura. Bem, ele podia entender aquilo. Ele se sentia totalmente perdido sem a sua, também. — Está boa? Ele franziu a testa. O quê? — A torta. Está boa? A torta. Ele olhou para seu prato, quase vazio, e percebeu que mal sentira o gosto da torta. Max piscou, surpreso. — Sim, está boa. Está ótima. Obrigado. — Você estava a quilômetros de distância. — Na verdade, não. Eu estava bem aqui, pensando no que vai acontecer agora — confessou ele. — Agora? — A respeito da casa, quero dizer. — Oh. Humm... certo. Bem, acho que eu preciso começar a procurar. Do que diabos ela achava que ele estava falando? A menos que... Não. Ela não estava interessada, e deixara aquilo bem claro. Ela estava enviando sinais de "mantenha distância" praticamente desde que ele chegara. Além daquele beijo roubado que ela interrompera, Julia mal o tocara, exceto por acidente. Então, por que ela estava corando? — Poderíamos procurar na Internet — disse ela, e ele sentiu seu radar voltar à vida. — Internet? — Sim, temos acesso aqui em casa, no escritório. O computador pertence a John, 39


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mas ele não se importa que eu o use. Ele me envia e-mails freqüentemente, e eu respondo, contando como as coisas estão indo e enviando-lhe fotos de Murphy e dos bebês. Os bebês? Ela enviava a John fotos das filhas dele? E, então, Max parou de pensar em John Blake e começou a pensar no que importava. Havia um computador na casa. Um computador com acesso à Internet. O que significava que ele poderia checar sua caixa de e-mails; manter contato com seus colegas e funcionários, e ficar de olho no que estava acontecendo nos mercados financeiros. — Boa idéia — disse ele. — Vamos colocar a louça na máquina e depois daremos uma olhada. — Claro. Ela foi até a pia e jogou os restos da refeição deles no triturador; em seguida, virouse para apanhar o resto das coisas, bem no momento em que ele se aproximava dela, segurando outro prato e uma panela. — Opa! — disse ele com um sorrisinho, tirando a panela do caminho antes que Julia esbarrasse nela; e, em vez disso, ela colidiu com Max, seus seios macios e cheios apertados contra ele, e seus olhos se ergueram para encontrar os dele, arregalados e espantados. — Cuidado — murmurou ele, colocando a panela na pia e o prato de volta na mesa. E, subitamente relutante em perder aquele contato suave, ele passou os braços ao redor dela e a puxou contra si. — Max? — sussurrou ela, num fiapo de voz. Mas foi o suficiente; aquela palavra suave lhe dissera tudo o que ele precisava saber sobre o quanto ela o queria, e, sem esperar convite, ele abaixou a cabeça, fechou os olhos e colou os lábios nos dela. Ela não podia deixá-lo fazer aquilo. Não podia... Ela deveria estar cheirando a alho. Como ele poderia perceber, depois da paella, Julia não sabia, mas pensou novamente na briga dos dois, no comentário dela sobre aquilo não importar porque ninguém iria beijá-la. Mas Max a estava beijando como se sua vida dependesse disso; e, de repente, ela não se importou mais com o alho, e simplesmente retribuiu o beijo, sentindo a força dos braços dele ao seu redor, as coxas poderosas que esmagavam as dela, o som pesado da respiração dele contra seu rosto enquanto ele lhe explorava a boca, os lábios e a língua famintos, o corpo rígido contra o dela, encurralando-a contra a pia para que ela não tivesse dúvidas sobre sua reação. Uma de suas mãos deslizou por sob o suéter dela e lhe acariciou um dos seios, e ela gemeu baixinho. O som se perdeu na boca de Max, que emitiu um som parecido, profundo e primitivo, que parecia arrancado de seu corpo. — Jules, eu preciso de você — sussurrou ele, sua boca contornando o maxilar dela, seus dentes mordiscando-a, não o suficiente para machucar, mas o suficiente para deixá-la ainda mais excitada. E, então, ele correu a língua sobre a pequena marca, suavemente, sentindo-lhe o gosto, e seus lábios deslizaram pela pele de Julia, deixando um rastro de fogo. Ele a estava deixando louca, e sabia disso, mas ela não podia impedi-lo. Não havia como impedi-lo, porque ela precisava daquilo tanto quanto ele. Ou foi o que Julia pensou, até que a pequenina voz que gritava do fundo de seu subconsciente conseguiu chegar à superfície, e ela percebeu que um dos bebês estava chorando. De repente, Max foi chutado do topo de sua lista, e ela sentiu a paixão se desvanecer, substituída pelo fato 40


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fundamental da maternidade. — Max — disse ela, virando a cabeça, e ele grunhiu e deitou a cabeça no ombro dela. — Não, Jules. Não me peça para parar, pelo amor de Deus, por favor. — As crianças — disse ela, e ele ficou parado por um segundo, e então suspirou pesadamente e se afastou, o rosto vermelho, os olhos escuros com a excitação, enquanto olhava para ela. Seu peito arfava e, depois de um longo momento, ele fechou os olhos e se virou. — Vá cuidar delas — disse ele. — Eu espero por você. Mas Julia sabia que aquilo seria a coisa mais estúpida que poderia fazer. — Não, Max. Não acho que seja uma boa idéia. Eu vou dormir. — Não! — Sim, sinto muito. Não é... Nós não estamos prontos ainda. Max deu uma risada rude e, sem esperar que ele dissesse alguma coisa, ela correu para as escadas. — Ela não está pronta, Murphy. O que você acha disso? Murphy bateu com a cauda no chão e olhou para Max com adoração, e ele suspirou, coçando as orelhas do cachorro gentilmente. — Pois é, eu concordo. Que droga, não é? O que eu ou fazer se ela nunca estiver pronta, Murphs? Isso está me deixando louco. Toda esta maldita situação está me deixando louco. — Ele se serviu de uma última taça de vinho com o que restava na garrafa e olhou para o líquido, melancólico. Se ao menos ele tivesse alguma coisa para fazer! Algo melhor do que levar sua mulher para a cama e fazer amor com ela até que ela estivesse tão desesperada que não conseguisse falar, respirar, nem fazer nada a não ser gritar e soluçar de desejo. Ele soltou um palavrão, curto e direto, e, apanhando o controle remoto da TV, ligou o aparelho e começou a pular de canal em canal. Não havia nada para ver. Até mesmo o noticiário era entediante, e nada o interessava; ele já estava a ponto de atirar o controle pela janela, quando Jules apareceu na soleira da porta, vestindo seu pijama de gatinhos e aquele roupão fofinho, os pés descalços aparecendo sob a barra, parecendo vulnerável e irresistível. Ele queria beijar cada um daqueles dedos, tomá-los na boca e chupá-los lentamente. — Posso entrar? É seguro? Ele suspirou roucamente. — Sim, é seguro. Desculpe-me. É que já faz muito tempo. Ela assentiu e entrou, sentando-se na beirada da cadeira na frente dele, olhando para ele com um ar cansado. — Eu não estou sendo muito justa com você, estou? Você não está acostumado com tudo isso, e deve estar morrendo de tédio. — E estou. Não há nada para eu fazer, a não ser pensar em você e imaginar o que eu posso ter feito de tão errado. — Nada. Você não fez nada. E esse foi o problema, Max. Você continuou a agir como sempre, e me levou junto. E não era o suficiente. — Era o suficiente para mim. Eu adorava trabalhar com você, e observar sua incrível habilidade em organizar e resolver as coisas. As coisas simplesmente 41


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funcionavam quando você estava por perto, e era impressionante. Eu não percebi o que tinha, até que perdi você. Ela suspirou suavemente, e se enrolou mais ainda em seu roupão. — Max, se quisermos fazer isso funcionar, você vai ter que diminuir as horas no escritório; você sabe disso, não sabe? E diminuir o tempo que passa viajando, principal mente. Isso não combina com a vida em família. — A minha família conseguiu se virar. Meu pai trabalhava tanto quanto eu. — E ele morreu de um ataque cardíaco aos 49 anos! Só onze anos mais velho do que você é agora, Max. Suas filhas ainda estariam na escola, e eu seria viúva aos 44 anos. Isso não é algo para esperar da vida. Deus. Onze anos? Só isso? Não era de admirar que sua mãe tivesse encontrado outro homem para compartilhar a vida. Ela só tinha 62 anos agora, e estava em plena forma, era ativa e cheia de vida. E seu marido morrera jovem demais; Max conseguia ver aquilo, agora. Seria aquilo que o esperava? Ele iria ao trabalho um dia, e encontraria não sua assistente esperando por ele, mas a Morte e seu cajado, como acontecera com seu pai? — Estou fazendo tudo isso por nós — disse ele, mas suas palavras soavam vazias, e ela sacudiu a cabeça. — Não. Você está fazendo tudo isso por você mesmo, porque pode, porque é movido pela necessidade do sucesso, mas há outras formas de sucesso, Max; outras coisas que você pode fazer. — Como? Ela deu de ombros. — Como ser um bom pai para as suas filhas. Aproveitar a vida. Ter um hobby, praticar algum esporte. Não apenas correr. Isso é só um exercício solitário que você faz para parar de pensar. Inferno. Havia alguma coisa que aquela mulher não percebesse? — Que tal uma partida de xadrez? — perguntou Julia, aparentemente do nada, e ele olhou para ela, rindo baixinho. — Sim, por que não? Embora eu provavelmente vá destruir você. — Duvido. Andei praticando. Eu sempre jogo com John, quando ele está aqui. John, de novo. — Ele ganha de você? — Nem sempre. Bem, ali estava um desafio. Max relaxou e sorriu. — Traga o tabuleiro — disse ele, suavemente. Oh, céus. Ela reconhecia aquele olhar. Bem, pelo menos não seria entediante. Ela foi buscar as peças de xadrez e abriu a mesinha de centro, revelando um tabuleiro; em seguida, apanhou um peão preto e um branco, misturando-os atrás das costas, e mostrou os punhos fechados para Max. — O da direita — disse ele, e ela abriu a mão direita, suspirando ao ver o sorrisinho satisfeito no rosto dele. — Tudo bem, você começa — disse ela, entregando-lhe as peças brancas. A coisa 42


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foi ladeira abaixo dali por diante, na verdade, porque ela estava com enormes dificuldades de concentração. — Xeque. Ela olhou para o tabuleiro, incrédula. Que diabos acontecera? Ela perdera completamente o foco. Julia moveu a rainha; ele deu um muxoxo, tomou-lhe o bispo, e disse: — Xeque. — Você tem certeza de que quer fazer isso? Ela olhou para o tabuleiro, resmungou algo por entre os dentes e mudou de idéia, recostando-se na poltrona. — Tudo bem. — Oh, céus. — Ele moveu a última peça, deu um sorriso malicioso e murmurou: — Acho que você vai concordar que é xeque-mate. O quê? — Oh, droga — disse ela, jogando-se de volta na poltrona. — Eu tinha me esquecido de como você é bom nisso. — Vou considerar isso um elogio — disse ele com um sorriso, arrumando as peças novamente. — Oh, não — respondeu ela, rindo e erguendo as mãos, rendida. — Não esta noite. Estou cansada e não consigo e concentrar. Jogaremos outra partida amanhã. — Naquela altura, ela já teria recuperado o autocontrole e conseguiria pensar direito novamente. — Certo, acho que está realmente na hora de ir dormir disse ela, olhando nos olhos dele. — Max, por que você não vai deitar cedo hoje? — E ficar deitado a poucos metros de distância de você, pensando em você? Acho que não. Já faz mais de um ano, Jules. Isso é muito tempo. E então ocorreu a ela que, naquele ano, poderia ter havido outra mulher. Várias, na verdade. Ela queria saber? Sim. — Você... você teve — Ela se interrompeu, incapaz de dizer as palavras, mas ele compreendeu e respirou fundo, expirando com incredulidade. — Você realmente pensa isso de mim? Julia, nós somos casados. Eu posso não ter sido o melhor marido do mundo, mas meus votos foram sinceros. Eu não olhei para outra mulher, nem toquei em outra mulher, e nem sequer pensei em outra mulher desde que a conheci. E, desde que você me deixou, não penso em outra coisa. Então, perdoeme se eu não quero ir lá para cima e ficar deitado educadamente, a pouca distância de você, e ir dormir! Ela sentiu o rubor lhe colorir as faces, levantou-se rapidamente e foi para a porta. — Eu sinto muito. Eu não tive a intenção de ser tão insensível. Só para você saber, senti sua falta também. — Jules! Julia, espere! Ela parou, com a mão na maçaneta, e ele se aproximou dela por trás, virando-a gentilmente para tomá-la nos braços. — Eu sinto muito. Estou irritado, porque preciso de você. Estou me sentindo como 43


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um leão enjaulado neste momento, e estou descontando em quem estiver por perto. E acontece de ser você, todas as vezes. E isso é uma droga, porque tudo o que eu quero fazer é abraçá-la... — E, sem dar mais uma palavra, ele a apertou cuidadosamente contra o peito e encostou a cabeça na dela. Ela podia sentir o coração dele batendo, a tensão que irradiava de seu corpo, mas sabia que as coisas não iriam além daquilo; que ele não a beijaria, nem a tocaria, nem faria qualquer coisa que ela não provocasse diretamente, porque, apesar de todos os seus defeitos, ele a amava. — Oh, Max — suspirou ela, e, passando os braços ao redor dele, abraçou-o com força. — Sinto muito por tudo ser tão difícil. — Não precisa ser. Você pode voltar para mim. — Já conversamos sobre isso — ela lembrou a ele, desvencilhando-se de seus braços. — Não vou voltar, não antes de ter provas concretas de que você está mudando para melhor. E, até agora, não vi prova nenhuma disso. Ele olhou para ela seriamente, e assentiu. — Tudo bem. Então, amanhã, vamos para Londres. Iremos ao escritório, farei algumas ligações e verei o que posso fazer. E eu gostaria de ir ver a minha mãe. A mãe dele! Claro! Julia sentira falta dela. Linda Gallagher era o mais próximo que ela possuía de uma mãe agora, e Julia sabia que a mulher lhe daria todo o apoio para tentar fazer Max trabalhar menos. Afinal de contas, ela perdera o próprio marido cedo demais, e não iria querer que o mesmo acontecesse com seu filho. E ela adoraria as crianças. — Você já contou a ela? Max sacudiu a cabeça. — Não. Como eu poderia? Não tenho um telefone — disse ele com ironia, e ela suspirou. — Você poderia ter usado o telefone da casa para ligar. — Só que eu não tenho o número dela. — Você deveria saber o número do telefone da sua mãe — ralhou ela, e ele deu de ombros. — Por quê? Está gravado no meu celular. Só que eu não tenho mais o meu celular, porque, ao que parece, ele foi confiscado. — Eu lhe daria o celular de volta, se achasse que poderia confiar em você — disse ela francamente, e ele torceu os lábios. — É melhor ficar com ele, então — disse ele suavemente. E, abaixando a cabeça, encostou os lábios nos dela. — Vá dormir, Jules. Eu a verei pela manhã, e então decidiremos o que fazer e resolveremos tudo. Se ao menos ela pudesse acreditar naquilo.

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CAPITULO SEIS

— É melhor eu fazer algumas ligações — disse ele, quando eles se sentaram para tomar café, na manhã seguinte. — Avisar Andréa. — E quanto à sua mãe? Ele fez uma careta. — Ah, sim. Ela também. — Vou pegar o seu telefone — disse ela, e correu para o andar de cima para apanhar o celular na segurança de seu quarto. Ela voltou para baixo e o entregou a ele. — Você parece ter algumas chamadas perdidas que escaparam ao radar de Andréa — disse ela. — Preciso lidar com algumas dessas chamadas. — Não duvido. Você tem uma hora — disse ela. E, pegando os bebês no colo, levou-os para cima, deu-lhes banho e os vestiu. — Vocês vão conhecer a sua avó hoje — ela lhes contou com um sorriso. — Ela vai adorar vocês. — Mas Linda poderia não ser muito simpática com a nora, Julia perce beu com tristeza, e seu sorriso desapareceu. Um ano inteiro, mais de um ano na verdade, sem contato com Max enquanto ele procurava por ela não poderia ter causado uma boa impressão em sua sogra, e Julia lamentava por isso. Mas como ela poderia ter mantido contato sem informar Max de seu paradeiro? Não poderia, e aquilo a fez sentir outra pontada de culpa. Max podia não ser o mais razoável dos maridos, mas nunca escondera nada dela, e Julia estava começando a perceber o quanto agira errado ao não contar a ele que estava grávida. — Oh, Ava, não! — gritou ela, estendendo o braço e segurando a menininha antes que ela caísse para trás. — Quando foi que você aprendeu a ficar de pé? Você vai ser uma pestinha, não é? — Ava sorriu e deu uma gargalhada, e, segurando a beirada do cobertor nas mãozinhas gordas, levantou-se novamente. — Você é uma encrenqueira — disse Julia, e percebeu que Libby estava engatinhando pela porta e indo em direção ao topo das escadas. — Libby! — chamou ela, e correu atrás da filha, encontrando Max sentado no primeiro degrau com a menina nos braços, esfregando o nariz no dela e rindo. — Acho que você precisa de um portãozinho — ele disse, e ela assentiu. — Preciso, sim. Eu comprei um, mas não encaixa. Não é largo o suficiente. Eu estava mesmo pensando em procurar outro. — Vou me encarregar disso — disse ele, e, levantando-se, ergueu Libby no ar, jogando um beijo para a filha. Céus, Max jogando beijos? Talvez houvesse esperança, afinal de contas... Andréa era incrível. Rápida, eficiente, velha demais para Max, caso Julia estivesse preocupada, e quase tão temida quanto um peixe carnívoro; mas ela só precisou olhar uma vez para os dois, naquela manhã, e sorriu. — Ótimo — disse ela para Max. — Você finalmente está parecendo um ser humano. Você precisava mesmo de umas férias. — Estou ficando louco — disse Max com sinceridade, mas Andréa simplesmente sorriu para ele, e voltou sua atenção para Julia. 45


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— E então, ele está se comportando? Julia revirou os olhos. — Mais ou menos. Ele continua a tentar roubar o celular de mim. — Bem, era de se esperar. Ele joga duro, e você deveria saber disso. — Mas não se trata de um jogo. — Não, e eu acho que ele sabe disso. Se não soubesse, não estaria aqui com você. Agora, se eu puder tomá-lo emprestado por algum tempo, há várias coisas urgentes que ele precisa resolver, e então você poderá tê-lo de volta. — Você pode vir — ele disse a Julia. — Ver com seus próprios olhos o que estamos fazendo. — Ficaremos bem — disse ela, decidindo confiar nele, e acomodou-se em uma cadeira em seu antigo escritório, com os bebês a seus pés, olhando ao redor. Era estranho como tudo lhe parecia distante, e ao mesmo tempo familiar. Nada mudara realmente, apenas ela; e ela mudara a ponto de não ser mais reconhecida, aparentemente, se o olhar sem expressão do homem que colocou a cabeça para dentro da porta significava alguma coisa. — Oh, desculpe-me. Eu estava procurando por Andréa — disse ele. Ela sorriu para o rosto familiar. — Olá, Stephen — disse Julia, e ele olhou com mais atenção para ela. — Julia? — Eu mesma — disse ela com leveza, imaginando se deveria se sentir Iisonjeada ou não, e Stephen deu uma risada alta. — Ora, como você está? Eu pensei... — ele se interrompeu, claramente incerto do que dizer, e pela primeira vez ela se perguntou sobre o impacto público que seu de saparecimento tivera na vida de Max. — Andei ocupada — disse ela secamente, e ele olhou para as meninas, e deu outra risada. — Estou vendo. É incrível. Eu não fazia idéia. Max também não, mas ela não iria discutir sua vida pessoal com um dos funcionários dele, mesmo que ele tivesse sido seu amigo um dia, e fosse um dos braços direitos de Max que ele mais confiava. O mais confiável. — Então, como está Yashimoto? — Espantado. Você sabia que Max está vendendo a empresa de volta para ele? Foi a vez dela olhar para Stephen com atenção. — Está? — Sim, aparentemente. Eu não pude acreditar. Ele lutou tanto para virar o jogo, e agora parece estar se entregando. Ainda assim, a empresa está em situação muito melhor agora, e Yashimoto fará um trabalho bem melhor com os conselhos de Max. E ele está feliz. Mas é Max que eu não consigo entender. Pensei que você estivesse sabendo de tudo, já que estava tão envolvida com o acordo inicial. Ela sacudiu a cabeça. — Max e eu não conversamos mais sobre negócios. 46


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— Não. E uma boa idéia, não levar o trabalho para casa. Isso não se parece com Max, mas filhos mudam as pessoas. Você sabia que tivemos um menininho? Ela sorriu. — Não, não sabia. Parabéns, e certifique-se de passar bastante tempo com ele. — Farei isso. Por enquanto, é melhor eu ir para a reunião. — Eu acho que eles estão no escritório de Max. — Obrigado. Foi ótimo vê-la de novo. Ele fechou a porta e a deixou lá, pensando na bomba que ele jogara em seu colo. Quando Max decidira vender a empresa de Yashimoto de volta para ele? No dia anterior? Hoje? Ou muito antes, e ela não soubera simplesmente porque eles não discutiam negócios, como dissera a Stephen? Ela não fazia idéia, mas estava confusa da mesma forma. Aquilo significaria que ele a estava levando a sério e diminuindo seus compromissos de trabalho? Ou era algo que ele já estava planejando? Ela precisava saber, porque a diferença era crucial. Não queria começar a pensar que ele estava fazendo mudanças importantes em sua vida, quando ele poderia estar apenas seguindo um de seus incríveis palpites. Oh, bem. Ela descobriria mais tarde. Enquanto isso, tinha coisas mais importantes com que se preocupar, porque dentro de pouco tempo estaria reencontrando sua sogra, e estava se sentindo curiosamente apreensiva. Ela não precisava ter se preocupado. Linda Gallagher olhou apenas uma vez para ela e as meninas, levou a mão à boca e irrompeu em lágrimas. — Oh, Julia, minha menina querida... minha querida, minha querida! — E, sem dar mais uma palavra, tomou-a nos braços e abraçou-a com força. Julia tentou controlar as próprias lágrimas e a abraçou de volta, e, quando as duas se separaram, Linda começou a soltar exclamações de surpresa para os bebês, e chorando nos braços de Max, apertando-o contra si até que Julia pensou que as costelas dele fossem se partir. — Entrem, entrem, todos vocês. Richard? Olhe, é o Max, e ele trouxe a Julia, e... E ela começou a chorar de novo. — Julia? Richard, o novo companheiro de Linda, a observou por um momento, deu um sorriso tímido e beijou-lhe o rosto. — É bom vê-la de novo. E você tem estado ocupada. — Um pouco — disse ela. — Sinto muito por jogar uma bomba dessas no colo de vocês. Parece ser um dia cheio delas. Porque Max decidira vender a empresa para Yashimoto naquela manhã, pelo que ela descobrira. Então, ele estava mesmo levando Julia a sério, e tomando medidas extre mas para mudar as coisas. Max estava tomando conta dos bebês, carregando um sob cada braço e entrando em casa ao lado da mãe, que paparicava as meninas, dava gritinhos de alegria e enxu gava as lágrimas; e Richard a ajudou a tirar as cadeirinhas do carro e levá-las para dentro, para que as crianças pudessem se sentar e almoçar. 47


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— Estou tão feliz por você estar aqui — disse Richard baixinho, ao fechar a porta. — Linda sentiu muitas saudades suas, e Max tem sido... bem, difícil nem sequer começa a descrever. Ela sacudiu a cabeça. — Eu lamento muito. — Não, não se preocupe comigo. Mas Linda provavelmente merece uma explicação, quando você estiver pronta para lhe dar uma, e... bem, isso é entre você e Max, realmente. Mas é ótimo ver você de novo, e ver Max feliz. E um pai. Isso não é algo que pensássemos ver um dia. — Não, nenhum de nós imaginava isso. Bem, não enquanto ele estivesse casado com ela, pelo menos, com os problemas médicos dela. Mas, aparentemente, milagres aconteciam, e ela tivera dois. Três, se o fato de Max estar mudando sua vida fosse algo em que confiar. Ela ainda não tinha certeza, mas só o tempo poderia dizer. Enquanto isso, Julia seguiu Richard até a sala de estar e encontrou Linda no chão, encostada no sofá, e Libby subindo no colo da avó, enquanto Ava ia direto para a mesa de canto, sobre a qual havia um vaso de plantas. — Não, acho que não — disse ela, desvencilhando os dedinhos da filha das pernas de cerejeira da mesa. — Você precisa ser amarrada, mocinha. Venha dizer "oi" para a sua avó. — E, virando Ava para o outro lado, ela a conduziu pela sala segurando-lhe os dedinhos, enquanto a menina tentava valentemente se manter em pé sobre as perninhas. — Ela vai andar logo — disse Linda, sacudindo a cabeça. — Como Max. Ele era um pesadelo. E esta aqui não vai ficar muito atrás — disse ela, segurando Libby, que estava tentando subir em seus ombros e chegar ao sofá. — Como você consegue dar conta das duas? Julia deu uma risada cansada. — Oh, eu não tenho idéia. Está ficando pior a cada dia. Eu pensei, quando estávamos na UTI depois da minha cesariana, que não poderia ficar pior... — Você fez uma cesariana? A expressão no rosto de Max era de choque, e Julia percebeu que não lhe contara nada a respeito do nascimento das gêmeas. — Sim — disse ela suavemente. — Eu precisei. As aderências estavam muito sérias e eles não me deixaram nem pensar em ter um parto normal, especialmente com 33 semanas. O rosto dele estava cinzento. Ela não imaginava por que a idéia de uma cesariana o chocara tanto, mas ele obviamente estava perturbado, e ela percebeu que fizera mais uma coisa errada. Oh, Max. — Ei, está tudo bem, estamos todas bem — ela garantiu a ele, mas Max continuava pálido. — Você deveria ter me telefonado — disse Linda, gentilmente. — Eu teria ido ajudá-la. — E contado a Max? O rosto de Linda se contorceu, e ela engoliu em seco, mordendo os lábios. — Desculpe-me. Não é da minha conta. 48


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— Não é você — disse Julia rapidamente. — Nós estávamos tendo problemas... — Você estava tendo problemas. Eu estava focado demais na minha própria vida para perceber — disse ele, sua sinceridade e honestidade surpreendendo-a mais uma vez. — Julia comentou comigo ontem que eu sou apenas 11 anos mais novo do que papai, quando ele morreu. E eu não quero ter o mesmo destino. — Ótimo — disse Linda, seus olhos se enchendo de lágrimas. — Ele era um homem bom, o seu pai, mas não sabia quando parar, e eu andava tão preocupada com você. Talvez isso tenha sido exatamente o que você precisava para cair em si. — Bem, esperemos que sim — disse Julia baixinho. — Linda, eu gostaria de aquecer um pouco de comida para elas. Elas vão começar a gritar daqui a pouco; tiveram uma manhã bem longa. — Claro que sim. Venha até a cozinha; os homens podem cuidar das crianças por um minuto. E, Julia pensou realisticamente, aquilo daria a Linda a chance de ralhar com ela pelo que fizera. Mas ela não o fez, pelo menos não logo; Linda simplesmente colocou a chaleira no fogo, a comida dos bebês no micro-ondas, e então se virou e deu um abraço em Julia. — Oh, eu senti sua falta — disse ela, soltando-a. — Eu compreendo que você não podia entrar em contato comigo, se achava que não devia falar com Max, mas eu senti saudades. — Eu senti sua falta também — disse ela com um nó na garganta. — Teria sido bom ter uma mãe, quando elas estavam no hospital. Eu tinha Jane, mas ela acabara de ter seu próprio bebê, e era difícil para ela. O rosto de Linda tinha uma expressão perturbada e, depois de um momento, ela disse: — Você se importa se eu lhe perguntar algo? Por que você não disse a ele que estava grávida? Foi por causa de Debbie? — Debbie? — perguntou Julia, uma sensação ruim de presságio invadindo-a. — Quem é Debbie? O rosto de Linda era uma mistura de emoções conflitantes. — Ele não lhe contou? — disse ela por fim, e Julia sacudiu a cabeça. — Eu não sei nada a respeito de alguém chamada Debbie. Quem é ela? Não me diga que ele está tendo um caso... — Não! Pelo amor de Deus, não, nada desse tipo. Oh, meu Deus... — Ela cobriu a boca com a mão e olhou para Julia, e então sacudiu a cabeça e agitou as mãos como se estivesse procurando uma saída. — Humm... eu sinto muito, eu não devia ter dito nada. Não sou eu quem deve lhe contar essa história. Você vai ter que perguntar ao Max. Oh, meu bom Deus, eu não posso acreditar que ele não lhe contou. — Isso tem algo a ver com o fato de Max não querer filhos? — perguntou Julia, observando Linda cuidadosamente, mas ela obviamente achava que já tinha dito o bastante, e sacudiu a cabeça, erguendo a mão. — Não, eu sinto muito, querida. Não posso lhe contar nada. Você vai ter que conversar com Max, mas... vá com cuidado. Naquela época... não, você vai ter que 49


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perguntar a ele, não posso lhe dizer mais nada. — Ela se endireitou, com os potes de comida dos bebês nas mãos, e deu um sorriso. — Venha, vamos alimentar as meninas. Eu nunca pensei que seria avó, e não pretendo perder nem mais um minuto. Eles tiveram uma tarde maravilhosa. Depois do almoço, que Linda preparara depois de uma visita rápida ao supermercado mais cedo, quando Max telefonara para di zer que lhe fariam uma visita, eles levaram os bebês para um passeio em Hampstead Heath. — Deveríamos ter trazido Murphy — disse ele, mas Julia apenas riu. — Eu acho que não. Ele está melhor em casa. Ele seria um pesadelo com toda essa lama, e a casa da sua mãe não é exatamente projetada para cachorros, com todo aquele carpete branco. — Tudo bem — disse Max com um sorrisinho. — Talvez você esteja certa. — Claro que eu estou certa. Eu estou... — Ela se interrompeu, e ele a observou, pensativo. — Sempre certa? — arriscou ele, e Julia sacudiu a cabeça, e as lágrimas que ela evitara derramar antes daquela semana encheram seus olhos pela centésima vez. — Eu sinto muito. — Ei, pare com isso. Estamos tendo um dia feliz. — Ele estendeu a mão e, depois de um instante, ela entrelaçou os dedos com os dele e os apertou, mas havia uma parte dela que se perguntava se ele estava fazendo um teatro, por causa de sua mãe. Mas ele não continuou segurando a mão dela por muito tempo, porque o carrinho ficou preso e ele teve que ir ajudar Richard a erguê-lo para subir os degraus; então, sua mãe lhe tomou o braço e começou a conversar com ele, e Júlia ficou sozinha com Richard e os bebês. — Ele está com uma aparência melhor. — Tinha que estar. Max estava acabado, quando chegou na segunda-feira. Eu fiquei chocada. Eu já havia convencido a mim mesma de que ele não se importava... — Não se importava? — Richard deu uma risada abafada. — Oh, não. Ele se importava. Eu nunca vi um homem tão torturado. Ele ficou arrasado quando não conseguiu encontrá-la. Eu realmente acho que ele imaginou que você estivesse morta. Oh, Deus. Ela fechou os olhos por um segundo e tropeçou, mas Richard seguroulhe o braço, apertando-o afetuosamente. — Vocês vão resolver tudo juntos — ele disse, confortando-a. — Dê tempo ao tempo. Ela estabelecera um prazo de duas semanas, e quase um terço daquele prazo já se passara. Era quinta-feira agora, e ele aparecera na segunda. Então, restavam mais dez dias. Aquilo seria suficiente para convencê-la de que ele mudara? Ou para ele saber na que estava se envolvendo? Ela não sabia. Mas Yashimoto estaria fora da jogada muito em breve, e aquilo significava que não haveria mais viagens a Tóquio. Se Max pudesse fazer o mesmo com as operações de Nova York, e só tivesse seus negócios no Reino Unido para administrar, talvez tudo ficasse bem. Enquanto isso, contudo, ela precisava encontrar um meio de perguntar a ele sobre Debbie. E, até que Julia soubesse exatamente quem ela era e o que significava para ele, não fazia idéia do que o futuro lhes reservava. Ela só sabia que, se Linda estivesse certa, Debbie era extremamente importante. 50


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Se ao menos ela soubesse o que exatamente estava perguntando a ele... — Pobrezinho do Murphs. Nós o abandonamos, não é, amigo? Max cocou as orelhas do cachorro e lhe acariciou o flanco, e Murphy se aconchegou a ele, batendo a cauda no chão entusiasticamente. — Acho que isso quer dizer "estou com fome" — disse Julia, ironicamente, e ele riu e apanhou a tigela do animal. — Você está com fome? — perguntou ele, e Murphy bateu a cauda com mais força. — Devemos alimentá-lo? — Humm, sim. Mas, se você puder levá-lo para uma caminhada primeiro, seria ótimo. Eu vou dar banho nas meninas. — Tem certeza de que não precisa de ajuda? — Estou bem. Vá, vá logo. Max levou o cão para uma caminhada pelo rio, apenas por alguns minutos, porque estava escurecendo rápido, e, quando eles chegaram em casa, as luzes já estavam acesas e Julia estava na cozinha, preparando o jantar das meninas. — Chá? — ofereceu ele, sabendo agora que ela gostava de tomar chá quando alimentava as gêmeas, e Julia sorriu em agradecimento, sentando-se no sofá com os bebês. Ele colocou o chá, misturado com água fria, ao alcance dela e se sentou com sua xícara do outro lado da mesa, observando-a alimentar as filhas enquanto Murphy perseguia sua tigela pelo chão de cerâmica. — Eu deveria comprar uma tigela com fundo de borracha — disse ela tristemente, e Max riu, bebericando o chá, olhando para a mulher e as filhas e pensando que sua vida jamais fora mais complexa e desafiadora... ou mais plena. Famílias felizes, ele pensou, e imaginou o quanto aquilo iria durar. Ele fizera o seu melhor; Yashimoto fizera o acordo do século. Mas Max não se importava, e aquilo na verdade o fazia se sentir bem, porque o homem trabalhara muito duro para reerguer sua velha empresa e, com um pouco de ajuda, ele ficaria bem agora. Só que aquela era apenas a ponta do iceberg, obviamente. Havia uma infinidade de outros investimentos que ainda precisavam de sua intervenção, e, com a atenção desviada, quem poderia dizer o que aconteceria com eles? Ele precisara agir rápido naquela manhã, porque não estivera presente em uma determinada negociação, e Stephen estava ocupado em Tóquio, e por algum motivo Andréa não o chamara. Oh, bem, tudo estava solucionado agora, mas ele não tinha certeza de poder fingir por muito mais tempo que seu império era capaz de manter-se sozinho. — Você está com fome? — perguntou ele a Julia, observando enquanto ela tirava Libby do peito e colocava a menina no sofá. — Morrendo de fome. Por quê? O que você tem em mente? Ele riu. — Nada com alho. Eu estava pensando que poderia ir até o pub buscar algo para comermos. — Oh, isso seria ótimo. Eles fazem um prato maravilhoso com muçarela e manjericão, um tipo de torta. E fabuloso. E pudim de caramelo açucarado. — Isso parece horrível — disse ele com uma gargalhada. — Não, é maravilhoso. Você precisa experimentar. — Posso experimentar um pouco do seu. 51


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— Se sobrar alguma coisa. — Oh, vai sobrar — disse ele, tomando Ava dos braços dela e fazendo uma careta ao ouvir o arroto ensurdecedor. — Eu a convencerei. — Você pode tentar — disse ela, mas seus olhos brilhavam, e ele sentiu uma súbita pontada de desejo. Droga. Depois da conversa da noite anterior, não havia a menor possibilidade de Max se aproximar dela, e era melhor não pensar no assunto. — Vamos, sua pestinha. Vamos levar você lá para cima e trocar suas fraldas e colocá-la na cama, para que sua mãe e seu pai possam ter uma conversa civilizada. — É melhor deixá-las aqui, então — disse Jules, às suas costas, e ele se virou e viu o sorriso provocante dela, sentindo o desejo percorrer seu corpo novamente, como uma lança em brasa. Aquela seria uma longa, longa noite. Ela acendeu o fogo enquanto ele ia ao pub buscar o jantar deles, e, quando Max chegou em casa, a lenha já estava ardendo alegremente por detrás da grade, e a mesa estava posta. — Estou sentindo cheiro de lenha queimada? — perguntou ele, entrando na cozinha, e ela assentiu. — Eu acendi a lareira. Pensei que poderíamos jogar outra partida de xadrez, ou assistir a alguns DVDs dos bebês. Ela viu o sorriso dele desaparecer. — Tudo bem. Seria ótimo — disse ele, fazendo uma tentativa corajosa de sorrir de novo, mas ela não se deixou enganar. Da primeira vez em que assistiram a um DVD dos bebês, ele se aborrecera. Mas por quê? — Max? — Você gostaria de uma pequena taça de vinho? Ainda há um pouco do branco, e eu comprei uma garrafa de vinho rose. — Oh. Rose seria ótimo. Obrigada — disse ela, deixando o assunto morrer por enquanto.

Ela o estava observando. Ele a ignorou, entregando-lhe os pratos com as tampas, e abrindo o vinho com habilidade. Enquanto ele servia duas taças e se sentava de frente para ela, Julia se ocupou com a comida. E, ao sentir o cheiro do pudim de caramelo que vinha de cima do fogão, Max imaginou que tivesse escapado. Por enquanto. Mas aqueles DVDs eram um campo minado, que o faziam sentir-se incomodado, e ele não tinha certeza de conseguir assistir a um vídeo filmado na UTI, e ver o quão perto elas chegaram de... — Uau, isso estava delicioso. Obrigada, Max. Ele afastou os pensamentos sombrios e sorriu para ela. Julia estava adorável naquela noite, os cabelos soltos sobre os ombros e uma expressão quente e gentil nos olhos. Se ao menos... Não, ainda não. Ela lhe pedira um tempo. Mas, se Max conseguisse se aproximar dela, talvez pudesse convencê-la a voltar para ele. — Foi um prazer — disse ele. — Agora, que tal você me deixar arrasá-la no xadrez de novo? 52


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— Tudo bem. Se você não se importar em ser derrotado. Eu me lembrei de como a sua mente funciona. — Mais rápido do que a sua — comentou Max, e ela estirou a língua para ele, levantando-se. — Vamos ver, não é? — Vamos. Melhor de três? — Você acha que será preciso? — Não. Duas vezes serão mais que suficientes para que você saia correndo e chorando com o rabinho entre as pernas — retrucou ele, seguindo-a, com o cachorro em seus calcanhares. Aquilo foi um erro, porque ele estava quase vencendo pela segunda vez quando Murphy se levantou e contornou a mesa; aproveitando sua chance, Julia chamou por ele alegremente, e a cauda de Murphy bateu no tabuleiro, derrubando todas as peças. — Oh, mas que pena, vamos ter que começar de novo — disse ela com um sorriso malicioso, mas ele não estava convencido. — Eu me lembro da posição de cada uma das peças — disse ele, começando a recolocar as peças no tabuleiro. — O seu cavaleiro não estava ali. — Estava, sim. — Não. Estava aqui. O seu bispo estava ali. — Besteira. Como o meu bispo teria chegado ali? — Vamos enfrentar os fatos, Jules. Eu acabei com você — disse ele, recostandose no sofá e apoiando um tornozelo no outro joelho. — Admita. — Nunca. — Eu nunca imaginei que você fosse uma trapaceira — disse ele suavemente, e ela parou e olhou para ele. — Eu não estava trapaceando! Eu só estava brincando, Max. Tentando deixar a atmosfera mais leve. Ele engoliu em seco. — O que há de errado com a atmosfera? — Eu não sei, mas, desde que mencionei os DVDs, você está agindo de forma estranha. Por que você não quer vê-los? — Eu quero. — Tudo bem, vamos lá! — disse ela baixinho. — Este aqui é o próximo; os bebês no hospital. Nós estávamos começando a vê-lo na outra noite, quando você se afastou. — Coloque o DVD, Jules — disse ele com a voz rouca, a mão esquerda segurando com força a base da taça de vinho. E, antes que ele soubesse o que ela iria fazer, Julia já colocara o DVD no aparelho e tomara a mão esquerda de Max nas suas, aconchegandose contra seu ombro. — Tudo bem, aquela é Ava. Ela era mais forte. Ela nasceu primeiro e, embora fosse menor, era mais desenvolvida, e agora está mais pesada que Libby. E ali está Libby. Ela precisou de mais ajuda para respirar, e houve alguns dias em que... em que 53


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pensamos que iríamos perdê-la — disse ela, um pouco trêmula, e Max percebeu que ela estava lutando tanto quanto ele. Seus dedos apertaram os dele, e ele apertou os dela de volta; tanto para confortá-la quanto para acalmar a si mesmo. — Elas parecem tão pequenas. — Elas eram mesmo. Gêmeos são sempre menores. E elas não tiveram muito espaço. E, levando isso em consideração, elas se desenvolveram bem, mas, quando elas nasceram, o meu útero estava no limite e corria o risco de uma ruptura. Eu precisei de duas operações para melhorar as aderências, mas finalmente não havia mais nenhum espaço e os médicos tiveram que fazer o parto. Mas eu agüentei o máximo que pude. — Parece horrível — disse ele, franzindo a testa ao pensar em tudo aquilo. Deveria ter sido tão doloroso. Por que diabos ela não lhe avisara? Embora só Deus soubesse como ele poderia tê-la ajudado, assombrado por seus próprios fantasmas. — E foi. Eu estava tão assustada. Eu quase telefonei para você. Se você tivesse telefonado antes, eu o teria feito, mas meu celular foi roubado e tudo o que eu podia fazer era agüentar, minuto a minuto, até a crise passar. — Eu teria vindo — disse ele com a voz rouca. — Teria? Ela se virou e olhou para ele, e ele olhou nos olhos gentis e curiosos dela por um breve instante, antes de se virar. — Sim — disse Max com convicção. — Teria. — Ainda que aquilo o matasse. — Max, eu posso lhe perguntar uma coisa? Ele olhou novamente para ela, e seu coração começou a martelar. — Claro. — Quem é Debbie? O vinho derramou por sobre a beirada da taça, molhando a mão de Max e escorrendo pelo braço do sofá. Ele se levantou de um pulo e apanhou um pano, tentando diminuir o estrago, até que ela o retirou de suas mãos e o puxou gentilmente de volta para o sofá, a seu lado. — Max, esqueça isso. Fale comigo. Quem é ela? Por que a sua mãe ficou tão surpresa com o fato de eu nunca ter ouvido falar dela? E o que ela fez a você, que o tornou tão fechado? Ele olhou para ela, com a respiração entrecortada; fechou a boca e engoliu em seco. Ele conseguiria fazer aquilo. Ele devia aquilo a Julia, e deveria ter contado a ela anos antes. — Ela era minha namorada — disse ele, sua voz soando estranha a seus próprios ouvidos. Tensa e incerta. Como seus sentimentos. — Ela estava grávida, mas teve préeclampsia. Eles fizeram uma cesariana de emergência, mas ela teve uma parada cardíaca ao entrar na sala de cirurgia, e morreu. O bebê também. Meu filho. Ele viveu por quinze horas e sete minutos. Ela estava com 26 semanas de gravidez. Foi por isso que o DVD... — Max cerrou os dentes, reprimindo as lágrimas, tentando se controlar. Durante um longo tempo, ela não disse uma palavra, mas então respirou fundo e perguntou: — Ele tinha um nome? O seu bebê? — Si... — Ele engoliu em seco e tentou novamente. — Sim. Eu o chamei de Michael. Era o nome do meu pai. 54


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— Oh, Max. — As lágrimas encheram os olhos dela e lhe escorreram pelas faces, e ela cobriu a boca com a mão, tentando abafar o soluço. Ele não conseguia olhar para ela. Não podia vê-la chorando por Debbie e seu filhinho, ou por ele, tão cheio de dor que não era capaz de assistir a um vídeo de suas próprias filhas sem reviver as curtas, desesperadas horas de vida de seu bebê. Ele não conseguia olhar para o vídeo, ou para Julia, porque, se o fizesse, se deixasse que as emoções voltassem à superfície, elas o dilacerariam como antes, e ele não agüentaria. — Oh, Max — murmurou ela novamente, e ele sentiu os dedos dela enxugando as lágrimas que lhe escorriam silenciosamente pelas faces. — Está tudo bem, Max, eu estou aqui — disse ela gentilmente, e ele percebeu que, longe de se sentir dilacerado, ele estava aliviado por desabafar, porque Jules estava a seu lado, e ele não estava mais sozinho. E, por fim, com um suspiro baixo, ele se aconchegou nos braços dela, e, pela primeira vez em 15 anos, deixou as lágrimas correrem livremente.

CAPÍTULO SETE

Max dormiu até as nove horas na manhã seguinte, algo que ele jamais fazia. Preocupada, Julia entrara no quarto dele às 9h da manhã, para checar como ele estava. Ele roncava. As cobertas haviam caído para um lado, mas o quarto estava aquecido, então ela pensou que, mesmo que ele estivesse nu, não estaria com frio. O desejo de se enfiar na cama e tomá-lo em seus braços quase a dominara, mas, em vez disso, ela se afastara na ponta dos pés, tirara as meninas de seus berços e voltara para baixo, pra lavar roupa e deixar Murphy sair para o jardim para brincar. — Jules? O que um homem tem que fazer aqui para conseguir uma xícara de chá? — Oh, bom dia! Que tal colocar a chaleira no fogo? — sugeriu ela. Ele fez isso e depois se abaixou é disse "olá" para os bebês, que estavam bem-humorados no cercadinho. E olhou as meninas e riu. A primeira risada de verdade que ela ouvira dele em anos, e então o riso enfraqueceu e os olhos deles se encontraram, e ele prendeu a respiração. Ela soube disso, porque podia ver seu peito paralisado e o coração dele estava batendo forte, o pulso visivelmente acelerado no pescoço, pulsando ao mesmo compasso que o dela. Ela fez um bule de chá e preparou algumas torradas. — Então, o que vamos fazer hoje? — perguntou ela. — Como está o tempo lá fora? — Frio. Brilhante e ensolarado, mas frio. O vento está gelado. — Vamos às compras? — É uma boa idéia. E podíamos comprar algumas roupas para elas. Essas 55


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meninas crescem como plantas. — Julia estava encantada com a idéia, não pelas coisas que comprariam em si, mas porque nunca houvera tempo para compras na vida antiga deles, ou para nada que não fosse trabalho. — Bem, vamos a Lakeside — sugeriu ela. — Há todos os tipos de lojas lá, e é tudo coberto. Podemos tirar o dia para isso.

Eles compraram um portão de proteção para a escada, roupas, fraldas e tantos brinquedos que ele acabara tendo que fazer mais de uma viagem até o carro para levar tudo. Numa das idas e vindas, surpreendeu Jules, que observava ardentemente uma loja de roupas. Para mulheres. — Quando foi a última vez que você comprou alguma coisa nova? — perguntou ele, e ela sorriu de modo estranho. — O que, sem contar jeans e suéteres? Não me lembro. Mas não preciso de mais nada. — Sim, você precisa — disse ele para ela. — Claro que você precisa. — Para usar quando? — Quando eu levar você para jantar fora? — Com os bebês a tiracolo? — Não. Quando tivermos uma babá. — Não conheço uma babá; bem, com exceção de Jane, e ela não está acostumada a servir de babá para mim durante as noites. Normalmente deixo as meninas com ela se preciso ir a algum lugar aonde não possa levá-las. — Minha mãe? — Linda? Ela mora em Londres. — Ela pode vir. — O que, apenas para que você possa me levar para jantar? — Nós poderíamos ir para Londres. — Por que não comprar um vestido? Algo bonito. Você pode levar tudo para experimentar em casa se quiser. — Eu não quero. — Ela soou um tanto áspera e Max se surpreendeu. — Oh, Jules, não seja orgulhosa. Eu não estava criticando suas roupas, só pensei que você quisesse algo bonito... — Ele se interrompeu. — Não importa. Esqueça isso. Desculpe. E, sem esperar pela resposta dela, ele se afastou. Droga. Ela o interpretara mal? Porque ela amava comprar roupas novas, algo bonito que caísse bem em seu corpo novo e diferente e a fizesse se sentir uma mulher novamente, em vez de uma máquina de leite. Lingerie. Lingerie linda e sexy. Para Max? 56


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Ela agarrou-se ao carrinho de bebê e correu atrás dele. — Max? Max, pare! Por favor! Ele parou e ela o alcançou e tentou um sorriso. — Desculpe, você está certo. Adoro comprar coisas novas. E, na verdade, preciso comprar coisas novas. Você pode carregar isso? — Só se eu puder ver o que você vai escolher. — Oh, eu estava falando sobre lingerie, na realidade. Os olhos dele se iluminaram, em seguida escureceram. — Melhor assim — murmurou ele, e ela corou. Ele suspirou. — Por que eu não levo as crianças comigo e volto para pagar as compras e buscála em uma hora? — Você não tem que pagar! — ela protestou, mas ele apenas levantou uma sobrancelha. — Jules, você é minha mulher — disse ele com firmeza. — E eu ficarei muito feliz em pagar pelas suas roupas. — Desculpe. Certo, eu vou ser o mais rápida que puder. Não as deixe sozinhas. Ele olhou para ela, e então se virou e se misturou à multidão, fazendo com que ela se sentisse repentinamente de mãos vazias e perdida. Vamos lá, Julia, disse a si mesma. Organização. Lingerie primeiro, depois uma blusa, depois calças.

— De quanto tempo ela pode precisar, meninas? Ele deu uma risada, um pouco arrependido, e Ava alcançou sua mão e gorgolejou para ele. — Pa-pa — disse ela, e ele sentiu seus olhos marejados. — Oh, garotinha esperta — disse ele, fazendo um esforço para não passar vergonha em público, mas então ela disse "mama" e ele concluiu que ela estava apenas tagarelando. Que idiota. Claro que ela estava. Ele ficou em pé e olhou em volta. O que poderia entretê-las? Havia uma livraria no centro comercial ele foi até lá e viu um livro de culinária pra iniciantes. Ele ia cozinhar para ela. Mas o quê? Peixe. Ela amava peixe. Atum fresco? Ele folheou o livro de receitas e escolheu uma receita que parecia promissora, com atum e batatas.

Uma hora depois, ele a encontrou junto ao balcão de uma loja cara, com uma braçada de roupas, esperando por ele. Ele pagou pelas compras e, com suas meninas seguras nas cadeiras especiais para carros, ele foram para casa. Tão felizes que mal podiam acreditar.

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— O que é isso? — perguntou pia entrando na cozinha, e ele sorriu. — Jantar. Vou cozinhar para você. — Mesmo? — Oh, Deus, aquilo soava formidável, mas ela ainda podia sentir o cheiro de alho em sua pele depois da paella e não tinha idéia do que ele iria fazer desta vez. — Não se preocupe, não tem alho — prometeu ele com um sorriso malicioso e ela riu, pouco à vontade. — Desculpe. Então, o que teremos? — Segredo — disse ele. — Estou cozinhando. Tudo que você tem que fazer é vestir algo bonito e fazer as honras da casa. Pouco depois, lá estava ela, limpa e arrumada, usando um leve toque de maquiagem pela primeira vez em meses, contemplando suas compras sem saber o que usar. Uma das novas blusinhas? A rendada, que tinha um minúsculo corpete por baixo, talvez? Ou a de seda lindamente bordada? Renda, decidiu ela, e então escolheu um conjunto de calcinha e sutiã combinando. Ela só trouxera apenas uma calça, mas lhe caíra tão bem que ela estava encantada com ela, e a vestiu para complementar o visual, afastou-se para olhar para si mesma e seus olhos brilharam. Uau. Ela estava mesmo muito bem, parecia feminina, elegante e, sim, bonita. E isso a fez sentir como se ganhasse um milhão de dólares. Com um toque de malícia, ela borrifou perfume no are andou através dele, então deslizou em seus saltos altos e desceu as escadas. Ele estava sentado à mesa, folheando uma revista, olhou para cima e seu queixo caiu. — Uau. —- Ele tomou fôlego, e, levantando, colocou a revista de lado e caminhou até ela, seus olhos fixos nela. — Vire-se — instruiu ele, com ansiedade em sua voz, e ela se virou, devagar, e então olhou para ele e encontrou seus olhos. Ele estava queimando por dentro, um fogo azul em seus olhos. Como azul poderia ser uma cor fria? Não em Max. Oh, não. — Estou bem? — perguntou ela, um pouco constrangida. — Oh, sim, você está — disse ele, sua voz levemente áspera e dura. Ele ficou ali por alguns segundos, analisando-a, então com outro sorriso malicioso ele deu um passo para trás e puxou uma cadeira para ela. — Gostaria de se sentar, senhora? — Obrigada. Ela sorriu para ele quando ele estendeu um guardanapo sobre o colo dela com um floreio. Julia farejou o ar. Atum? Max colocou uma colher de manteiga nas batatas e as polvilhou com cebolinha picada, para depois levá-las até a mesa, colocando lá as postas de atum, e colocou um prato em frente a ela com outro daqueles floreios, que ela concluiu fazerem parte da refeição. — Salada, senhora? — Obrigada. Murphy, para a cama, isso não é para você. Max, sente-se. — Eu não estou certo de que você deva me colocar no mesmo nível que o cachorro. 58


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— Claro que não. Bom garoto. Com um pequeno suspiro, ele serviu as batatas para ela. Estava tudo delicioso, preparado com perfeição. O vinho era delicado, não tão gelado que o sabor se perdesse, e de sobremesa tiveram petit gâteau com morangos frescos, com um cabernet escuro e encorpado que era um complemento perfeito. — Uau, Max, estava fabuloso — disse ela, afastando seu prato e sorrindo para ele, maravilhada. Para surpresa dela, ele corou levemente e deu um sorriso meio constrangido. — Obrigado. Apenas li as instruções. — Não, você fez muito mais que isso. Você teve muito trabalho para fazer tudo certo, e estava maravilhoso. Obrigada. — Café na sala de estar? — Seria adorável. — Vamos lá, então, vá e sente-se. Vou colocar a louça na máquina enquanto a chaleira ferve. Ela saiu e foi se sentar na sala de estar com Murphy, e colocou outro pedaço de lenha no fogo. Então, se sentou no sofá para esperar por ele. Murphy estava farejando a mesa e ela o afastou gentilmente com o pé e olhou para o pequeno prato que ele estava xeretando. Trufas? Max veio para a sala com a bandeja do café e deu uma trufa para o cão. — Chocolate para o cachorro, Max? — Só uma. O resto é nosso — disse ele, sentando ao lado dela no sofá e lhe entregando seu café. — Abra a boca. E ele colocou uma das trufas ha boca de Jules. — Humm. São maravilhosas — disse ela. Ele passou um dedo em seu rosto e sorriu meio maliciosamente. — Sabe, eu pensei que você estivesse linda hoje pela manhã, mas agora... O dedo dele baixou, deslizando ao redor do decote do top dela, seguindo o contorno do espaço entre seus seios, e ela sentiu o ar fugir de seus pulmões. — Max... Ela se inclinou e pegou um chocolate, e gentilmente colocou o doce na boca dele. Ele se aproximou mais e mais, seus lábios roçando os dedos dela, seus olhos fixos nos olhos dela, quentes, escuros e perigosos, e ela se sentiu derreter. Ela o queria. Agora. Esta noite. — Max... — sussurrou ela. — Leve-me para a cama.

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CAPITULO OITO

— Você tem certeza? — Tenho. Respirando fundo, Max se levantou lentamente e estendeu a mão, puxando-a de forma que ela ficasse em pé à sua frente, a centímetros de distância, mas sem tocá-la. — Você não precisa fazer isso. — Eu sei. Ele fechou os olhos, disse algo que ela não conseguiu ouvir e se virou. — Precisamos arrumar tudo isso e cuidar do cachorro. — Deixe que eu faça isso. — Não. Faremos juntos. Será mais rápido. — Max colocou tudo de volta na bandeja e levou-a para a cozinha, com Murphy em seus calcanhares, e levou o cachorro para fora enquanto Julia colocava o leite na geladeira e se certificava de que a comida estivesse fora do alcance de Murphy. E estava, com exceção dos chocolates. Max voltou com o cão, apanhou as trufas e olhou nos olhos dela. — Eu cuido delas — disse ele, e ela foi imediatamente levada para outro tempo, outro lugar, quando ele trouxera chocolates para a cama e os colocara em sua boca um a um, enquanto fazia amor com ela. Julia ainda podia sentir o gosto deles. — Não olhe para mim desse jeito — disse ele, com voz tensa —, ou eu perderei o controle completamente. Julia o ouviu murmurando algo para o cachorro e fechando a porta, e então sentiu a presença dele bem atrás de si, o calor de seu corpo a milímetros de distância. — O seu quarto ou o meu? — O meu. É mais longe dos bebês. Só um pouco, mas ela não tinha certeza, depois de tanto tempo, que seria capaz de controlar suas reações ao fazer amor com ele; o chuveiro no escritório não fora a única ocasião em que ele a fizera gritar. De jeito nenhum. Ela acendeu a luz, mas ele trouxera a vela, colocando-a sobre a cômoda ao lado dos chocolates, acendendo-a e apagando a luz em seguida. Ela apreciou o gesto, porque subitamente lhe ocorreu que Max não vira seu corpo desde que ela tivera os bebês. E, com os efeitos da amamentação, a cicatriz da cesariana e o aumento de peso, talvez ele precisasse ser apresentado à nova Julia de forma mais sutil. Mas parecia que ele não estava com a mínima pressa de tirar-lhe as roupas, afinal de contas. Em vez disso, ele correu os dedos pelos cabelos dela, abaixou a cabeça e tocou-lhe os lábios com os seus. Foi um toque levíssimo, um roçar suave de pele sobre pele, mas, quando ele moveu a cabeça de um lado para o outro, com os lábios colados ao leia, a pressão aumentou, intensificando a sensação, até que Julia sentiu um gemido lhe escapar da garganta. Oh, Max, beije-me, ela implorou silenciosamente, e como se a tivesse ouvido, ele segurou-lhe a cabeça mais firmemente entre as mãos e correu a língua por seus lábios, forçando-os a se abrirem. 60


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Eles não precisavam ser forçados. Ela os abriu para ele r, com um gemido abafado, Max colou a boca à de Julia e a explorou, faminto, curioso, agressivo, sua língua duelando com a dela, deixando-a louca. Só quando eles precisaram interromper o beijo para respirar, ele ergueu a cabeça, o ar parecendo raspar-lhe os pulmões, seus olhos brilhando à luz da vela. — Jules, preciso de você — sussurrou ele, sua voz rouca e urgente. — Eu também preciso de você. Por favor, Max. Agora. E, sem mais demora, ele tirou a camisa, arrancou a calças e as meias, e chutou os sapatos para longe em um único movimento. As cuecas não escondiam nada, e o tecido suave se colava à sua ereção. Julia sentiu a boca seca. Fazia tanto tempo. Seu corpo estava tremendo, seu desejo era tão grande que ela mal podia se mover, mas estava tudo bem, porque ela não precisava. Ele estava ali, suas mãos tirando-lhe a blusa gentilmente, cuidadosamente, por sobre a cabeça; quando viu o sutiã, fechou os olhos por um instante, e ela percebeu que os lábios dele se mexiam sem emitir um som. — Graças a Deus, você não me mostrou isso na loja — disse ele finalmente, e ela riu, um tanto sem fôlego. — E tem mais — respondeu ela, e ele grunhiu, abrindo o zíper de sua calça. Ela encolheu o estômago, mas ele fez um som de desaprovação e correu os dedos por ele, sua palma quente e seca acariciando-lhe a pele, seus dedos deixando um rastro de fogo. Um dedo percorreu o elástico do delicado short de renda. — O que é isso? — perguntou ele, a voz trêmula. — Pensei que você iria gostar. — Você vai me matar — sussurrou ele, e, tomando-a nos braços, fez com que seus corpos se tocassem pela primeira vez. Ambos soltaram uma exclamação abafada, e respiraram, e se aproximaram ainda mais um do outro, até que finalmente ele ergueu a cabeça e olhou nos olhos dela. — Jules, eu preciso de você agora, ou vou morrer, juro — disse ele, hesitante. — Preciso tanto de você. — Seus olhos estavam brilhando, e seu peito arfava contra o dela; a luz da vela acentuava a definição de seus músculos e transformava sua pele em ouro, enquanto ele a erguia gentilmente nos braços e a colocava na cama. Ele a seguiu, seus olhos jamais abandonando o rosto dela, e finalmente percorrendo-a, seguindo o percurso de suas mãos enquanto lhe acariciava a pele, deixando uma trilha de fogo. Ele correu os dedos pela renda do sutiã, acompanhando a linha do decole, e então acariciou-lhe os seios, os polegares tocando-lhe levemente os mamilos até que ela achou que fosse gritar. — Eu quero sentir o seu gosto — murmurou ele com a voz rouca. — Todos os dias, eu vejo as meninas mamando, e... Ela queria, também. Ansiava por isso. Julia abriu o fecho frontal e pensou que era conveniente, mas imaginou agora se ele não tivera aquilo em mente o tempo todo. Ele afastou os bojos, tomou-lhe um seio na mão e o levou aos lábios. O leite escorreu pelo mamilo, e ele o apanhou com a língua, provando-o; em seguida, fechou a boca sobre o seio dela e o sugou com força. Ela emitiu um ruído abafado, e uma onda quente de desejo a atingiu com uma intensidade fatal; ele ergueu a cabeça, seus olhos escuros agora, e a boca rígida. Por um longo momento, eles permaneceram assim, os olhos fixos um no outro. E então, com um som desesperado, ele arrancou o pequeno short de renda que ela usava e as próprias cuecas, e se moveu sobre ela, suas coxas sólidas e musculosas contra as 61


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pernas dela, abrindo-as. — Jules — ele sussurrou. E, em seguida, estava lá, dentro dela, preenchendo-a, e Julia sentiu a tempestade que se aproximava, a sensação que a dominava, até que finalmente tudo explodiu e o clímax pareceu cortá-la ao meio. Ele abafou o grito dela com a boca, misturando-o ao gemido selvagem que lhe escapou do peito. E, em seguida, rolou para o lado, levando-a consigo, seus corpos ainda colados e os corações martelando; e, quando Julia finalmente abriu os olhos, Max estava olhando para ela com uma expressão maravilhada, os cílios molhados de lágrimas. — Eu amo você — sussurrou ele, e, puxando-a para mais perto, aconchegou-lhe a cabeça sob o queixo e envolveu-a nos braços, suas mãos acariciando-lhe a espinha lentamente, ritmicamente, até que por fim ela adormeceu em seus braços. Ele sentira tanta falta dela. Max nunca lhe dissera isso; jamais revelara o inferno que o último ano havia sido. Oh, ele lhe dissera algumas coisas, mas nada comparado ao que estava trancado em seu coração. Mas ela estava de volta agora e, mesmo que isso o matasse, ele se certificaria de não falhar com ela novamente. Seu braço estava ficando adormecido, mas ele não queria perturbá-la. Ele estava simplesmente aproveitando o privilégio de abraçá-la, e não tinha certeza de como ela estaria quando acordasse. Distante? Arrependida? Diabos, ele esperava que não. E então, ela se mexeu, abriu os olhos e sorriu para ele, e Max sentiu a tensão se esvair dele como o ar que sai de um balão estourado. — Oi. — Oi — respondeu ele, beijando-a suavemente nos lábios. — Você está bem? — Sim. E você? — Oh, sim, estou muito bem. — Minha perna está adormecida. — Grande coisa. Acho que o meu braço caiu. — Isso vai doer. — Aham. Ela sorriu. — Um, dois, três... Ele deu um pequeno grunhido e se afastou um pouco dela; em seguida, riu e a puxou novamente para si, e eles ficaram deitados com os dedos entrelaçados e as cabeças juntas no travesseiro. — Melhor? — Sim. Max? — Sim? — Eu amo você. — Oh, Jules. — Ele rolou na direção dela, sem se importar com a sensação de formigamento no braço, e a beijou gentilmente. — Eu amo você, também. 62


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— Ótimo — murmurou ela, e um segundo depois Max ouviu um ronco suave e quase imperceptível. Max sorriu. Ele poderia zombar dela de manhã, pensou, e, movendo-se para mais perto de Julia, passou o braço por sua cintura e voltou a dormir.

Os bebês a acordaram, e ela rolou de costas, abriu os olhos e piscou. Já era dia claro, e ela podia ouvir a voz de Max no quarto das meninas. Saindo da cama e fazendo uma careta ao sentir dor nos músculos desacostumados, ela vestiu o roupão apressadamente e foi até eles. — Oi, meus amores — disse ela, entrando no quarto, e as meninas sorriram para ela de seus berços. — Estou incluído nisso? — perguntou ele, parecendo sexy demais para seu próprio bem usando nada mais que cuecas, e ela riu. — Pode ser. Há quanto tempo elas estão acordadas? — Alguns minutos. Eu troquei as fraldas delas e dei uma mamadeira de suco, mas acho que elas querem a mãe e algo mais substancial. — Tenho certeza de que sim. Vamos lá, minhas pequeninas. Vamos para baixo dizer "oi" ao Murphy? Ela tirou Ava do berço e a entregou a Max, e então tomou Libby nos braços. — Oi, danadinha. Você vai se comportar hoje? — Provavelmente não, se ela for como a irmã. Vou instalar o portãozinho delas esta manhã. — Ah, sim, faça isso, por favor. Oi, Murphy! Como você está, garoto? Achou algo gostoso para comer? — Tenho certeza de que ele tentou. Não foi, seu velho malandro? Murphy bateu e abanou a cauda, sorrindo para ele, e Julia riu. -— Ele é um tremendo puxa-saco. Você é um cão horroroso, sabia? Vamos, Libby, vá com o papai. — Pa-pa — disse ela, e os dois ficaram paralisados. — Eu sonhei com isso? — perguntou Julia, e Max riu, dando de ombros. — Só se eu sonhei, também. Pensei ter ouvido Ava dizer "pa-pa" ontem, mas achei que ela só estava balbuciando. — Pa-pa! — gritou Ava do cercadinho, apoiando-se na beirada e sorrindo furiosamente para ele, e Julia sentiu seus olhos se encherem de lágrimas. — Elas disseram o seu nome — sussurrou ela, apertando a mão contra a boca, e Max engoliu em seco e sorriu, e parecia prestes a chorar a qualquer minuto.

O café da manhã terminara, as meninas haviam tomado banho e trocado de roupas, e Max tentava não pensar no fato de que não podia levar Julia de volta para a cama por algumas horas. A menos que as gêmeas tirassem uma soneca durante a tarde, 63


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obviamente. — Vamos procurar uma casa? — sugeriu ele, para desviar seus pensamentos de Julia. — Claro. Se eu trouxer o computador, podemos fazer isso aqui. Temos conexão sem fio. — E ela desapareceu, voltando em seguida com um laptop. O computador pertenceria a John Blake? Não. Não comece com isso. Ele deu um lar para a sua família. — Vá mais para lá — disse ela, acomodando-se no sofá com o laptop. — Tudo bem. Este é um dos sites das grandes imobiliárias. O que estamos procurando, e em que faixa de preço? — Eu não estabeleceria um limite. Comece por cima, e depois poderemos descer. — Mesmo? — Bem... sim. Por que não? Você quer morar em algum lugar horrível? — Não, eu quero morar em um lugar normal — retrucou ela, e ele suspirou. — Digite a área em que você está interessada, e vamos ver o que há disponível. Nada. Aquela era a simples resposta. Não havia nada que não fosse pequeno demais, ou longe demais, ou exagerado demais, ou totalmente inadequado. E nada, absolutamente nada se comparava ao "Chalé das Rosas". — Eu gostaria de poder ficar aqui — disse ela, tristemente. — Ele não venderia a casa? — Você a iria querer? — Não depende realmente de mim, não é? Estamos falando sobre a sua casa, a sua escolha, um lugar para você e os bebês. E acho que tudo o que farei será visitar vocês. Os olhos dela se enevoaram, e ela os desviou rapidamente. O que foi agora? — A menos que eu trabalhe de segunda a sexta e volte nos finais de semana. Não gosto muito de todo esse deslocamento. Prefiro trabalhar menos dias. — Como? Seis dias ao invés de sete? Ele suspirou. — Podemos começar de novo? Julia desviou os olhos e mordeu os lábios. — Desculpe-me. É só que... parecíamos estar nos dando tão bem, e então o futuro se intromete e não há jeito de contorná-lo. E as meninas estavam impacientes e entediadas. — Vamos vesti-las e sair para uma caminhada — sugeriu ele. — Podemos usar os cangurus. Eles haviam comprado cangurus no dia anterior, para poder carregar as meninas junto ao peito sem levar o carrinho, e dividiram as tarefas: Os dois se revezavam com as meninas todo o tempo, ele percebeu, como se não quisessem criar um laço mais forte com uma ou outra. Era estranho como aquilo simplesmente acontecera, sem que Julia e Max discutissem o assunto; mas sempre fora assim com eles, que dificilmente precisavam discutir as coisas: simplesmente concordavam. Até aquele momento, pelo menos, e 64


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parecia que dividir as tarefas relacionadas com as gêmeas igualmente era a única coisa sobre o que conseguiam concordar. Bem, fora da cama, ao menos. Aquilo ainda era tão fantástico como antes, Max ficou aliviado em descobrir. Mas ele não queria pensar sobre o assunto agora. Eles caminharam pela margem do rio por algum tempo, enquanto Murphy corria de um lado para o outro, farejando tudo, e cavava alguns buracos furiosamente em busca de algum roedor ou alguma outra criatura desafortunada; depois do passeio, todos voltaram para casa. — Algum desses celeiros pertence à casa? — perguntou Max, e ela assentiu. — Sim, todos eles. Isto costumava ser uma fazenda, a "Fazenda Rose", mas os campos foram todos vendidos, juntamente com o nome, e a casa foi rebatizada de "Chalé das Rosas". O que é uma bobagem, na verdade, porque ela é grande demais para ser um chalé. Mas você entendeu. Max olhou em volta com curiosidade. Havia várias construções que eram pequenas demais para que se pudesse fazer algo específico com elas, mas outras, como a fileira de antigas cocheiras de tijolos, abertas na frente, poderiam ser transformadas em acomodações para o pessoal do escritório. Se ao menos eles pudessem encontrar alguma coisa parecida à venda, haveria a possibilidade de ele trabalhar de casa. Não apenas ele, mas outros dois ou três membros de sua equipe; seria um tipo de "escritóriosatélite". Max conhecia muitas pessoas que haviam diminuído o alcance de suas operações e "virado empresários rurais", como um deles havia descrito, mas ele jamais vira atrativo algum naquilo. Até agora. — Venha ver o jardim — disse ela, e o levou pelo portão até a lateral da casa. Max estivera ali com o cachorro, obviamente, mas nunca examinara o local atentamente. E, enquanto ela lhe mostrava o jardim e falava sobre ele, Max começou a vê-lo pelos olhos dela. E era lindo. Um pouco árido, naturalmente, já que eles estavam no meio do inver no; mas mesmo agora havia narcisos e pés de açafrão nascendo, e os botões estavam se formando nas roseiras. Se Max olhasse com atenção, poderia imaginar o jardim em pleno verão. — Eu tenho fotos deste lugar com as roseiras florescendo — disse ela. — É encantador. Ele imaginava que fosse. Podia ver. E se lembrou do que ela lhe dissera no dia em que o deixara. Eu quero... uma casa, um jardim, tempo para cuidar das plantas, para enterrar minhas mãos no solo e sentir o perfume das rosas... Nós nunca paramos para sentir o perfume das rosas, Max. Nunca. Bem, ela possuía seu jardim agora, e suas rosas. Observando-a falar sobre eles, Max podia ver a mudança em Julia, o brilho em seus olhos, o calor em sua pele, a vida que havia nela. Vida real, não apenas a onda de adrenalina após uma grande conquista, mas uma satisfação e um contentamento genuínos. E o que mais o chocava era perceber que ele queria aquilo, também.

— Por que você não tira um dia de folga com Jane? — O quê? 65


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— Você me ouviu. Eu posso cuidar das meninas. Ficaremos bem. — Você tem certeza? — Sim, ficaremos ótimos. Você não confia em mim? — Ora, claro que confio em você. Só não tenho certeza de que você sabe no que está se metendo. — Um total inferno, imagino, mas tenho certeza de que sobreviveremos. Julia pensou no assunto e sacudiu a cabeça. — Não. Mas posso ir encontrá-la para tomar um café — sugeriu ela, transformando a oferta dele em algo mais fácil de administrar. — Além disso, ela está com o bebê, e vai precisar levar as outras crianças para a escola e ir buscá-las, e está sempre muito ocupada. Mas perguntarei a ela. Quando você estava pensando em ficar com as meninas? — Quando você quiser. Que tal amanhã? O dia seguinte era uma segunda-feira. Uma semana desde que ele chegara, e dois dias depois deles terem acabado na cama. E fora incrível, mas ela estava se deixando viciar, e havia outras coisas em que pensar. Como Max em Londres e ela ali, com as crianças. Ela o amava. Desesperadamente. Julia só precisava encontrar uma forma de fazer o relacionamento funcionar, pelo bem de todos. — Eu vou telefonar para ela —- disse Julia. — Julia? Como você está? Eu andava com medo de perguntar! — Oh, estou mais ou menos. Bem, na maior parte. — Muito bem, mas ela não queria falar sobre aquela parte; e as partes ruins, bem, essas eram difíceis demais para discutir. — Olhe, Max se ofereceu para ser a babá, para podermos tomar um café. O que você vai fazer amanhã? — Nada que eu não possa cancelar. Estou louca para vê-la e ficar sabendo de tudo. Onde, e a que horas? — No The Barn. Às dez e meia? — Está ótimo. Quanto tempo você tem? — Quanto eu quiser. Ele se ofereceu para ficar com as gêmeas o dia inteiro, mas não quero que ele tenha uma experiência ruim e que fique traumatizado para sempre. — Não, claro que não. Garota esperta. Certo, vamos marcar às dez e meia, amanhã, e eu direi a Pete que estarei em casa por volta da uma. Ele está em casa, e pode cuidar das crianças. Está bom para você? — Está ótimo — disse Julia, desligando com um sorriso. Ela estava realmente ansiosa para aquele encontro. Seria a primeira chance que teria de ver Jane a sós desde que saíra do hospital com as crianças, e ela estava ridiculamente excitada. Julia voltou para a sala de estar e encontrou Max deitado de bruços, com Libby deitada de costas a seu lado, rindo enquanto ele fazia besourinhos, em seu estômago. Max olhou por sobre o ombro, e Julia parou de admirar seu traseiro musculoso para sorrir para ele. — Está tudo combinado. Vou encontrar Jane amanhã às dez e meia, em uma 66


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cafeteria perto do centro de artesanato, a alguns quilômetros daqui. Estarei de volta perto da uma hora. Está bem assim? — Está bem. Está ótimo. Ficaremos bem, não é, coisinha? — disse ele, sorrindo e voltando-se para Libby, e Julia ficou livre para admirar aquele traseiro lindo sem interrupção.

— Então, conte-me tudo! Eu andei tão preocupada com você — disse Jane, depois que elas já estavam acomodadas na cafeteria. — Não, você só quer saber os detalhes sórdidos — provocou Julia. — Bem, claro que eu quero os detalhes sórdidos — disse Jane. — Bem... eu não sei. Às vezes, eu acho que tudo está indo bem, e outras vezes... bem, ele trapaceia um pouco. — Trapaceia? — Não como você está pensando. Nós temos regras. Duas semanas: nada de telefonemas, nada de acesso à Internet, nada de escapulir para Londres ou ficar a noite inteira acordado, trabalhando. E, na maior parte do tempo, Max tem sido ótimo. Mas ele tentou pegar o celular escondido; ele ligou para o próprio número usando o meu, e acho que ele esperava ouvi-lo e encontrá-lo, mas eu tinha escondido o aparelho debaixo do meu travesseiro no modo silencioso. Atendi e dei uma bronca nele. — Opa. — Pois é. E estávamos procurando na Internet uma nova casa para mim. Max se sente desconfortável pelo fato de eu estar morando na casa de outro homem, e, se ele quer comprar uma casa para mim... — Ela deu de ombros. — Mas não conseguimos encontrar nada por aqui que fosse totalmente adequado para, nós. Bem, para mim, na verdade, porque, como Max diz, ele estará em Londres, e eu quero estar perto dos meus amigos. E esse é o problema, é claro. Ele não quer viver aqui; não pode, na verdade, trabalhando do jeito que trabalha, e eu não vou voltar para Londres antes de ter certeza absoluta de que ele está levando tudo isso a sério e vai se comprometer em longo prazo. É um pouco parecido com uma dieta relâmpago: você pode agüentar por alguns dias, mas depois algo acaba interferindo. Julia empurrou o prato com uma fatia de um bolo de chocolate perturbador de tão bom na direção da amiga, entregando-lhe o garfo. Jane deu de ombros, roubou outro pedaço de bolo e o devolveu para Julia. — Sinta-se livre para me mandar para o inferno, mas ele realmente precisa trabalhar? Quero dizer, trabalhar para viver? Para ganhar dinheiro? — Não. Absolutamente não. Ele nunca mais precisa trabalhar, se não quiser. Mas Max ficaria louco. Ele é viciado em adrenalina. Não consegue viver sem a emoção. — E, por falar nisso — disse Jane, com um brilho malicioso nos olhos —, você está parecendo toda apaixonada no momento. Devo presumir que essa parte da reconciliação está indo bem? Mia sentiu uma onda de rubor lhe colorir as faces. — Isso — disse ela, apontando o garfo coberto de chocolate para a amiga — não é da sua conta. 67


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— Isso é um "sim", então. Graças a Deus por isso. — Por quê? — Porque ele é o homem mais sexy vivo! Não me entenda mal, eu adoro o Pete, mas o seu Max é um pedaço do mau caminho, e seria um grande desperdício não aproveitar. Julia suspirou. — Isso é parte do problema, obviamente. Se ele se parecesse com um ogro e fosse um desastre na cama, seria mais fácil deixá-lo. — Mas você não quer deixá-lo — comentou Jane, de forma razoável. — Você só quer viver com ele em algum lugar que não seja a conexão para seu próximo voo. Você só precisa encontrar um jeito de mantê-lo ao seu lado. Julia revirou os olhos. — E o jeito de fazer isso é...? — Que tal se ele trouxesse o escritório para cá? — O quê? — Você me ouviu. Muita gente está fazendo isso. Ou ele poderia trabalhar em casa. — Se ele pudesse trabalhar em casa, não estaria em Tóquio ou Nova York o tempo todo. — Ah, mas existe uma diferença entre querer e poder. Ele pode trabalhar em casa. Só não queria, até agora. Este é o "xis" da questão. Você vai comer o resto do bolo? — Você deveria ter pedido uma fatia — disse Julia, empurrando o prato novamente na direção de Jane. — Não. Estou de dieta. — Sei, sei. Então você acha que eu deveria encontrar um modo de manter Max aqui no interior? — Aham. A não ser que você queira algemá-lo na cama, o que obviamente também é uma boa opção. — Você é incorrigível. É tão bom ver você assim, novamente. Se ao menos eu não tivesse que me mudar tão logo. Você sabia que John está voltando em um ou dois meses, e eu preciso encontrar outro lugar para morar? — Não — disse Jane, sacudindo a cabeça. — Pois é, mas ele está. — Não, não está. Ele conheceu alguém. Ele não lhe contou? Um cara de Chicago, 15 anos mais novo, que quer que ele se mude para lá permanentemente. Mas John está dividido. — A respeito do cara? — Não, tenho certeza de que não. A respeito de Murphy, eu acho. Se não fosse por aquele cachorro, acredito que ele se mudaria, mas você sabe como ele adora o animal. E o chalé. Mas o cachorro é o grande obstáculo. — Então... se ele ficar — disse Julia lentamente —, o que você acha que ele vai fazer com o chalé? 68


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Jane deu de ombros. — Vendê-lo, suponho. Eu não sei. Não falei com ele, foi Pete quem atendeu o telefone na noite anterior, quando eu estava no banho. Isso é tudo o que eu sei. Já era bem tarde, e foi provavelmente por isso que ele não telefonou para você. Por que você não liga para ele? — Talvez eu ligue — disse ela. — É bem provável que eu faça isso. Qual é a diferença de fuso para Chicago? Seis horas a menos? — Algo assim. — Então, quando eu chegar em casa, serão apenas sete horas. Cedo demais. — E você pode querer falar com Max. — Ou não. Eu posso querer apresentar a ele uma solução definitiva e ver o quanto ele tenta escapar dela. É fácil falar em teoria, mas, quando se trata da coisa real, eu posso ter uma resposta mais honesta se ele puder ver tudo, preto no branco, e tiver que tomar uma decisão, de um jeito ou de outro. Se ele se sentir encurralado, não vai funcionar, e pelo menos eu saberei. E, se Deus a ajudasse, as coisas não chegariam naquele ponto.

CAPÍTULO NOVE

Max empurrou a cadeira para longe da escrivaninha, olhando para a tela do computador com uma mistura de raiva e frustração, e imaginou como iria encontrar uma casa onde todos pudessem viver enquanto resolviam aquela situação. Embora ele não tivesse uma idéia real de como resolver tudo. Max precisaria ter algumas discussões bastante sérias com sua equipe, antes de fazer qualquer mudança radical, mas, enquanto isso... O telefone estava tocando. — Gallagher. — Alô? Quem está falando? Max olhou para o telefone em sua mão, percebendo que o atendera automaticamente. — Humm... aqui é Max Gallagher. Posso ajudar? — Provavelmente não. Posso falar com Julia, por favor? A voz era cautelosa, e ele olhou para a tela que mostrava o número que estava chamando, vendo que era uma ligação internacional. Seria Blake? — Sinto muito, ela não está. Estou cuidando das meninas. Aqui é... ah... o marido dela. — Eu imaginei. Aqui é John Blake. Ela está cuidando da casa para mim enquanto estou fora. 69


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— Sim. Sim, eu entendo. Olhe, Julia estará de volta à uma hora, se você quiser falar com ela. Ela foi tomar um café com Jane. — Ah. Certo. Bem, nesse caso ela provavelmente já está sabendo, mas eu telefonei para dizer a ela que não vou voltar. Bem, acho que não. Existem... um... motivos pessoais, e... bem, eu conheci alguém e vou morar aqui, e preciso conversar com ela sobre a casa. E o cachorro. Murphy. Max olhou para baixo; Murphy estava deitado a seus pés como de costume, e imaginou quais seriam os planos de Blake para o cachorro. Ele descobriu, para sua surpresa, que realmente se importava com o cão. — Eu não imagino que você queira vender a casa para mim? — Para você? — Sim, por Julia. Nós estamos... — Diabos, ele detestava lavar a roupa suja em público, mas pensou que Blake já deveria saber sobre seus problemas conjugais, pelo menos superficialmente. — Nós estamos tentando resolver... ver se existe um modo... — Ela concorda com isso? — Oh, existem regras — disse ele com ironia. — Nós estamos na metade do período de experiência que dita "nenhum contato com o escritório", neste momento. Mas eu não posso simplesmente me afastar do trabalho, e tenho procurado um lugar para me estabelecer aqui, com um escritório e uma pequena equipe, e uma casa com a minha família, para que eu possa passar a maior parte do tempo com ela. E não há nada. — E você acha que poderia fazer isso com a minha casa? — Espero que sim. — As pessoas não gostam de modificações nas construções originais na aldeia para moradia, mas, se o objetivo for negócios, geralmente concordam. E, se for para o seu próprio uso empresarial, elas podem ser bem cooperativas. Na verdade, eu já tenho alguns planos desenhados. Provavelmente estão no armário. Você pode dar uma olhada neles. — Então... isso significa que você consideraria a possibilidade de vender a casa para mim? — perguntou Max, cuidadosamente. — Eu não sei — disse o homem. — Tenho um problema com isso. Pareço ter uma inquilina residente, e quero que ela fique feliz com seu novo senhorio, e preciso falar com ela. Max deu uma risada baixa. — Oh, eu acho que ela ficaria feliz. Ela tem repetido que não quer se mudar e eu posso ver o quanto ela adora esta casa. E... há a questão do cachorro. — Sim. Max sorriu, pensativo. — Mas nós amamos Murphy, não é, amigão? — disse ele, acariciando as orelhas do cão, que começou a bater a cauda. — Ele está aí com você? — Ele sempre está comigo. Está deitado aos meus pés. — E você ficaria com ele? Max riu. — Acho que Julia me mataria antes de deixar que algo acontecesse a Murphy. 70


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Além disso, ele é uma boa companhia numa corrida. — Oh, você corre? Ele adora correr. Ele sempre vai comigo, quando saio. — Então, você vai pensar no assunto? — Precisamos estabelecer um preço justo. Você poderia providenciar isso... chamar alguns corretores locais para avaliar a casa? — Ele sugeriu dois nomes, e Max os anotou. — Dê-me o seu número, também. — Ele o escreveu ao lado dos nomes dos agentes, e completou: — Você pode me fazer um favor, John? Você poderia manter tudo isso em segredo e não contar nada a Julia, por alguns dias? Preciso de algum tempo para ver se isso vai funcionar. — Se você vai ficar com o cachorro, o preço é negociável. — John, ficaremos com ele de qualquer forma. Não posso imaginar ficar sem ele, e gosto da ideia de Julia ter um cachorro com ela, quando eu não estiver por perto. Eu estava falando do conselho municipal. Preciso ter uma resposta não oficial deles, algum tipo de acordo informal que garanta que eles serão favoráveis antes de eu poder seguir em frente, mas não quero dar falsas esperanças a Julia. — Tudo bem, vou esperar até ter notícias suas. Mas preciso avisá-lo; eu conversei com Pete ontem à noite, e Jane pode ter dito a Julia que vou ficar aqui. Só para que você saiba. — Certo. Vou tentar distraí-la, e dizer a ela que há tempo de sobra para pensarmos no assunto. Encontrarei uma forma. Devo pedir a ela que telefone para você, quando ela voltar? — Se você puder. Obrigado. E dê um abraço em Murphy por mim. Max riu. — Darei. Ele desligou, olhou para o telefone por um minuto e então sorriu. — Ora, Smurfs, parece que conseguimos uma casa. O que você acha disso? O cão bateu a cauda no chão, e Max encontrou o número do conselho municipal de planejamento, e ligou para lá. Dez minutos mais tarde, ele tinha a sua resposta não oficial, e era um "sim" cauteloso e sujeito a condições. Ele esmurrou o ar, verificou como estavam as meninas, preparou outro café, voltou para o estúdio e telefonou para Andréa. — Precisamos marcar uma reunião — disse ele. — Tenho algo para dizer a você. E quero Stephen lá. — Para quando você quer marcar? — Para esta tarde. Talvez. — E quanto a Julia? — Isso é por Julia. Estou tentando encontrar uma forma de podermos ficar juntos, e isso depende, de certa forma, de vocês. Você pode me fazer um favor. Ligue para ela e diga que eu preciso ir ao escritório para resolver uma crise grave. Invente alguma coisa. Eu não me importo. Só não diga a ela do que se trata. Quero que seja uma surpresa.

— Andréa? 71


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— Oi, Julia. Olhe, detesto fazer isso com você, mas preciso de Max de volta ao escritório o mais rápido possível. Temos um problema, e ele é o único que tem todas as informações para resolvê-lo. Você sabe como ele é, guarda tudo na cabeça. — E não sei? Isso costumava me enlouquecer. Tudo bem. Eu o mandarei de volta a Londres. Você precisa falar com ele? Max estava olhando para ela com curiosidade, e ela sacudiu a cabeça em sua direção. — Certo. Andréa. Obrigada. Eu direi a ele. Ela desligou e olhou novamente para ele. — Andréa quer que você vá a Londres; houve um problema. Aparentemente, você guarda muitas informações na cabeça, e eles não conseguem resolvê-lo. Agora, onde foi mesmo que eu já ouvi isso antes? — Posso ir? Ela fingiu dar um suspiro, mas, secretamente, estava deliciada. Julia queria telefonar para John, mas não queria que Max soubesse, e se ele estivesse fora do caminho... — Eu acho que você precisa ir, não é? Vá, Max. Vá e acabe logo com isso. — Você é maravilhosa. E eu sinto muito. Ele lhe deu um beijo de despedida, e foi apertas depois que Max saiu que Julia percebeu que ele parecia bastante satisfeito em ir. Teria ele combinado tudo com Andréa, enquanto ela estava fora? Julia apanhou o telefone e verificou a última chamada realizada, mas fora para Jane. O outro telefone estava no estúdio, e ela foi verificá-lo também. Um número local, que ela não reconhecia. Julia apertou o botão de rediscagem e descobriu que era uma agência imobiliária. —- Desculpe-me, devo ter ligado para o número errado — disse ela, e desligou novamente o telefone, sorrindo. Então, Max estava procurando uma casa, não era? Que interessante. Bem, ela teria que se certificar de que ele não fizesse nada apressadamente. E ela sempre poderia vetar qualquer coisa que ele sugerisse, se John estivesse disposto a vender. Ela só precisava descobrir. Julia telefonou para ele. — Ei, seu cavalo velho, acho que preciso lhe dar os parabéns! — Ah, Jane lhe contou. Sim, e obrigado. — Então, presumo que você esteja feliz? — Oh, sim. O nome dele é Ryan, ele tem 42 anos e é arquiteto. Tem uma casa maravilhosa, e quer que eu viva com ele. E vamos ter uma cerimônia. Se você puder vir, ficaremos felicíssimos. — Oh, John! Estou tão feliz por você! — disse ela, seus olhos se enchendo de lágrimas. Ele era um homem tão bom, e merecia a felicidade. — Murphs vai sentir sua falta, mas não quero que você se preocupe com ele. As meninas o adoram, e eu não suportaria me separar dele, e você não o terá de volta mesmo que queira! John deu uma gargalhada. — Está tudo bem. Ryan tem cachorros, ou seja, ainda tenho minha parte de pelos 72


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de cachorro na comida. Sinto-me realmente em casa. Ela riu, e mordeu os lábios. — John, preciso lhe pedir algo. Meu... humm... meu marido está de volta. Max. Ele me encontrou. Eu não imaginei que seria tão difícil me encontrar, e não estava me escondendo, na verdade, só estava evitando a questão... Mas ele está de volta, e nós estamos tentando encontrar um modo de seguir adiante juntos. E eu quero que tenhamos uma casa, aqui no interior, perto dos meus amigos, porque eu sei que ele vai precisar viajar a negócios. E eu estava pensando, se você nos vender a casa, teríamos as cocheiras... e ele poderia ter um escritório ali. — Sim. — O quê? — Sim, eu venderei a casa. E claro que sim, se isso a fizer feliz. — Oh. — Aquilo fora rápido. — Mesmo? — Mesmo. E fico muito feliz em saber que vocês estão juntos novamente. Só de ouvir você falar sobre ele durante o último ano já me dava a certeza de que vocês deviam ficar juntos. Você obviamente o ama muito e, se isso ajudá-la a encontrar um modo de superar os problemas, estou com você até o fim. — Oh, John, obrigada. Nem posso lhe dizer o que isso significa para mim. — Ela sentiu uma onda de excitação percorrê-la, começando lá no fundo e se espalhando até que todo o seu corpo estava tomado por ela. — Vamos ter que mandar avaliar a casa. Eu posso telefonar para alguns corretores. — Não se incomode. Tenho um amigo aí que tem uma agência. Ele conhece bem a casa, e nos dará um preço justo, e eu ficarei feliz com ele, se vocês também ficarem. Vou conversar com ele. — Certo. Tudo bem, claro. — E aquilo significava que ela não teria o trabalho de tirar Max do caminho. — Avise-me quando você tiver falado com ele. E, se você telefonar e Max atender, não diga nada a ele, por favor. Quero que seja uma surpresa. John riu. — Certo. Ligarei para você quando tiver um preço. Como estão as minhas meninas? — Lindas. E impossíveis. Max precisou instalar um portãozinho nas escadas, porque elas engatinham por todo lugar, e Ava está tentando andar. E eu preciso ir, John, porque ela está tentando pular o cercadinho! Falo com você em breve. Amo você. — Também amo você, querida. Cuide-se. Julia resgatou Ava, apanhou o telefone novamente e colocou-o no bolso, e em seguida pegou Libby no colo e carregou as gêmeas para a sala de estar. — Nada de escalar — ela lhes avisou, e, derrubando uma pilha de brinquedos no chão, sentou-se no sofá e telefonou para Jane, para contar-lhe as novidades.

— Então, isso é o que eu pretendo fazer. E sei que é totalmente inesperado e, se não for isso que vocês quiserem, bem, irei compreender. Vou precisar de uma equipe competente e confiável no escritório de Londres, e não sei se seria realista realocar todos para o interior. No momento, só estou sondando as pessoas. 73


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Andréa e Stephen estavam em silêncio. Eles pareciam atônitos, e Max percebeu que fora rápido demais, deixando-se levar por uma onda de teorias mais uma vez, sem pensar nos efeitos que teria nas outras pessoas. Ele era bom naquilo, Max pensou com desgosto, e sacudiu a cabeça. — Desculpem. É uma idéia louca. Esqueçam. — Na verdade, não, eu não quero esquecer — disse Stephen, subitamente recuperando a fala. — Nós não precisamos ficar em Londres. As comunicações são internacionais hoje em dia, e muito simples. E Dana tem falado muito sobre sair de Londres. Se não fosse pelo trabalho, nós já o teríamos feito. Mas, agora que temos o bebê, estávamos conversando sobre comprar duas casas para que ela pudesse ir com o bebê para o interior, e eu me juntaria a eles sempre que pudesse. Mas isso pode ser ainda melhor. Isso pode realmente funcionar para mim. Uau. Max assentiu, pensativo, e desviou os olhos para Andrea. — Algum comentário? — Eu não posso me mudar. Minha filha vai ter um bebê em breve, e precisa de mim por perto. Ela tem uma deficiência física, e não vai ser fácil. — E ela mora em Londres? — Sim. Bem, no subúrbio. O marido dela é piloto de avião, e suas rotas saem do aeroporto de Stansted. Eles moram perto de Stratford, e eu posso visitá-los de metrô. — Eles considerariam a idéia de se mudar? Stansted fica a apenas uma hora do vilarejo, provavelmente menos. Quarenta minutos? Fica em Suffolk, na fronteira de Suffolk e Essex. Não é como se fosse a um milhão de quilômetros daqui. E eu me certificaria de que você recebesse uma generosa compensação pela transferência. Ela franziu a testa. — E eles? — Todos vocês. O que for preciso, Andréa. Se precisarmos transferir a operação inteira, principalmente levando em conta que quero diminuir o tamanho dela para algo bem mais administrável, para o bem de todos nós, eu preciso das minhas pessoas-chave. — Eu só trabalho para você há seis meses, Max. Como posso ser tão importante? Ele deu uma risadinha. — Você não faz idéia — disse ele, secamente. — Não sou um homem fácil para quem trabalhar. Ela sorriu. — Eu já tinha percebido. Você só precisa de gerenciamento. — É isso que Jules me diz. — Ele olhou rapidamente para o relógio. — Olhem, preciso voltar. Posso pedir para vocês pensarem no assunto? E, se acharem que conse guem trazer os principais membros da equipe, marcaremos uma reunião e discutiremos a mudança com o resto do pessoal. E eu não quero que Jules fique sabendo a res peito disso até eu ter algo concreto para dizer a ela. — E como poderemos entrar em contato com você? Ele deu um sorrisinho esperto para Andréa. — Eu tenho um número novo de celular. Comprei o telefone no caminho para cá. Se você puder sincronizá-lo com o meu banco de dados, e também me conseguir um laptop com conexão sem fio com as mesmas informações, seria ótimo. Eu vou telefonar 74


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para Gerry em Nova York. — Sim, e quanto a Nova York? — perguntou Andréa, e ele sorriu de novo. — Direi a você depois que eu falar com Gerry. — Ele não pode se mudar para Suffolk. Max riu. — Não, Stephen. Mas ele pode comprar a parte dele na operação. Ele tem falado nisso há anos. E eu só ficarei com uma pequena parte das ações. Eles olhavam para Max como se subitamente ele tivesse se transformado em um monstro de duas cabeças. E era de se esperar. A operação em Nova York era responsável pela metade do faturamento da empresa. Stephen soltou um assobio baixo. — Você está realmente falando sério, não está? — perguntou ele, e Max assentiu, levantando-se. — Oh, sim — disse ele, firmemente. — Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida.

Julia passara a tarde com um arquiteto, discutindo a conversão das cocheiras em escritórios. Ele morava no vilarejo e trabalhava em casa, e ela o encontrara algumas vezes; então, pôs os bebês no carrinho e foi andando até a casa dele. Ele voltou com ela, deu uma olhada no lugar e ouviu suas idéias. — Bem, é possível — disse ele. — Não vai sair barato, é claro; conversões de cocheiras nunca saem. Mas, dependendo do tamanho da obra em que você está pensando, acho que o conselho municipal vai ficar bem satisfeito. Os prédios estão caindo aos pedaços, e eles detestam isso. Então, teoricamente, sim, acho que pode ser feito. — Você poderia fazer alguns desenhos rápidos para mim? — perguntou ela, e ele riu. — Estou falando sério. O sorriso dele era divertido. — Ótimo. Não gosto que meus recibos não sejam pagos. Isso deixa o banco nervoso. Ela engoliu em seco. — Estamos falando de muito dinheiro? Milhares de libras? Ele riu ao ouvir aquilo. — Só para tirar algumas fotos e desenhar uma idéia ou duas? Não, nada disso. Mas acontece que John me pediu, há muitos anos, que lhe desse alguns conselhos, e eu tirei algumas fotos e as usei como base para a impressão de um artista, para lhe dar uma idéia de como ficaria. Eu desenhei alguns planos. Você pode usá-los como ponto de partida. — Oh, Trevor, você é brilhante! — disse ela, abraçando-o impulsivamente. Ela voltou com o arquiteto para a casa dele para apanhar os desenhos e, depois de colocar os bebês na cama, analisou-os até memorizá-los. Algumas das idéias não iriam funcionar, ela pensou, mas no geral o plano era bom. Então, ela precisava apenas de uma cotação de preço para a propriedade, e poderia elaborar um plano de ação, incluir alguns números sólidos e apresentar tudo para Max. Se ele voltasse para casa. 75


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Ele estava demorando. Demorando muito. Já eram quase dez horas; não que aquilo fosse tarde para Max, mas considerando as regras... Julia ficara feliz em mandá-lo para Londres na hora do almoço, mas agora, pensando melhor em como ele estivera ansioso para ir, ela se perguntava o quão comprometido Max estaria com tudo o que estavam fazendo. Ela estaria cometendo um grande erro, ao seguir adiante? Julia colocou os planos em uma gaveta no estúdio, verificou como estavam os bebês e pensou em tomar um banho. Se ao menos ela soubesse o quanto ele iria demorar. Oh, aquilo era ridículo. Ela o conhecia bem. Se Gerry estava com um problema sério em Nova York, Max poderia ficar conversando com ele durante horas, por causa da diferença no fuso horário. Poderia ser duas ou três da manhã quando ele voltasse. E ela não iria esperar tanto. Ela disse a si mesma que não estava sendo razoável. Max havia abandonado tudo em Londres por ela, sem aviso prévio. Aquilo era algo inédito. Mas também lhe dava uma idéia de como as coisas poderiam ser, se ela voltasse para ele. Mesmo vivendo e trabalhando ali parte do tempo, ele ainda teria que ficar em Londres durante a semana. Seria injusto da parte dela querer mais do que isso? Tantas mulheres viviam duas vidas; uma com seus maridos durante o final de semana, e a outra de segunda a sexta, enquanto eles trabalhavam na cidade. Mas não ela. Ela não poderia fazer aquilo; não com Max, que seria imediatamente sugado de volta para o trabalho no mesmo instante em que ela afrouxasse as rédeas um pouco. Oh, droga. Talvez um longo banho quente ajudasse. Ela tirou as roupas e foi para o banheiro, ligando o chuveiro e entrando no box. Oh, aquilo era bem melhor. Ela virou o rosto para a água, de olhos fechados, e deixou que caísse sobre seu corpo, lavando seus medos e dúvidas. Max estaria em casa logo, e ela se sentiria uma idiota por se preocupar tanto. Mas aquilo era um aviso, ela percebeu, e faria bem em levá-lo a sério. — Jules? Não havia sinal dela, mas as luzes ainda estavam acesas, e ele podia ouvir o barulho da água no andar de cima. Ela estava no chuveiro. Movido pela adrenalina, e sentindo a falta dela depois de um dia inteiro longe, ele correu pelas escadas, tirou as roupas e entrou no banheiro. Ela estava de costas para ele no box, e ele entrou no cubículo atrás dela, enlaçando-lhe a cintura com os braços. Ela deu um gritinho, e começou a rir; e ele a virou em seus braços e a beijou sob o jato d'água. — Você me assustou — disse ela, empurrando-o para poder respirar, e ele sorriu. — Eu sinto muito — retrucou ele, não parecendo, nem um pouco arrependido. Apanhando o xampu, ele espalhou um pouco nas mãos, massageando os cabelos dela firmemente. — Oh, isso é uma delícia — disse ela, encostando a cabeça no peito dele; e, quando ele terminou, colocou-a sob a água novamente e enxaguou-lhe os cabelos até que estivessem totalmente limpos. Julia enxugou a água dos olhos e sorriu para ele. — Ora, não pare — disse ela, entregando-lhe o gel de banho. Erguendo a sobrancelha, ele colocou um pouco de gel na palma das mãos, esfregou-as e então espalhou o produto carinhosamente pelo corpo dela: seus seios, seu estômago e o local 76


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suave escondido entre suas pernas. — Max! — Shhh. Venha cá — ele ordenou suavemente, e, erguendo-a, abaixou-a gentilmente em sua ereção dolorida. — Oh. Jules. — Sua boca encontrou a dela, e apoiando-se na parede, ele começou a se mover. — Max! — Está tudo bem, eu estou com você — disse ele, e sentiu o clímax dela começar, as contrações tomando seu corpo em ondas; e, com um gemido abafado, ele a seguiu.

CAPÍTULO DEZ

John não deu um retorno para Julia sobre a cotação de valor para a casa. Talvez ele não tivesse conseguido encontrar seu amigo, ela pensou, ou talvez tivesse outras coisas na cabeça. O amor tinha um jeito de distrair uma pessoa de suas prioridades, e ela deveria saber bem disso. Ela deixara Max distraí-la a semana inteira. Desde a noite da segunda-feira, quando ele finalmente voltara de Londres, ele andava distraindo Julia com seu sorriso sexy e preguiçoso e com suas promessas. — O que está errado? — perguntara ela a Max, familiar demais com as mudanças de humor dele para confiar naquela. — Conheço essa cara; você está tramando alguma coisa. E ele sorrira, aquele sorriso malicioso e sensual, batendo na lateral do nariz. — Sábado — prometera ele. — Então, você está aprontando alguma. — Seja paciente — dissera ele, e se recusara a dizer mais alguma coisa. Mas não era só isso. Quando ele lhe dissera que iria sair para correr, ela olhara da janela do quarto para o vale, e o vira parado, com a mão junto ao ouvido. Segurando um celular. Mas ela estava com o celular de Max, como ditava o acordo deles; portanto, ele deveria ter conseguido outro, e o estava usando em segredo. Trapaceando? Ou preparando uma surpresa? Mas, se fosse esse o caso, por que ele não podia simplesmente lhe contar, já que ela já sabia, e usar o telefone da casa fora do alcance de seus ouvidos? Porque aquilo não tinha nada a ver com ela, nada a ver com o sábado. Sábado, obviamente, era o Dia dos Namorados. Seria bastante atípico de Max se lembrar de uma data como aquela, mas talvez Andréa lhe tivesse avisado, e ele tivesse encomendado flores, ou algo assim. Eles não iriam sair para jantar, por causa das gêmeas. A menos que ele tivesse contratado uma babá, e ela não ficaria nada feliz com isso, a menos que verificasse os antecedentes da garota primeiro; e já era a tarde de quinta-feira, e não haveria tempo de pedir referências e entrevistá-la. E, de qualquer forma, levá-la para jantar 77


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não explicaria o motivo para aquele ar de excitação reprimida, que Max sempre tinha quando a adrenalina lhe corria nas veias. Ela deveria saber; já tinha visto aquilo centenas de vezes, quando ele estava prestes a fechar um acordo, acertando detalhes complicados com negociações delicadas. Max era brilhante, e aquilo lhe dava vida, mas também trazia um lado dele com o qual era impossível conviver. E Julia tinha uma sensação horrível de que tudo estava acontecendo de novo. Julia quase telefonou para Andréa, mas pensou melhor. Ela perguntaria diretamente a Max. Eles estavam chegando ao fim do prazo de duas semanas, na segunda-feira, e ela esperaria para ver o que ele faria no sábado, e qual seria a famosa surpresa que ele estava planejando. E, se Max achasse que poderia simplesmente pedir a ela que voltasse para ele, e continuar como antes, bem, ela teria que lhe dizer "não". Oh, Deus. Ela não queria pensar sobre aquilo. Ela se sentia doente só de pensar, mas algo definitivamente estava acontecendo, o que a fazia se sentir ainda pior. Além de tudo, ele não havia falado em procurar uma nova casa, ou em se mudar, ou em algo do tipo desde a segunda-feira; e, para ser honesta, ele não falara sobre nada daquilo então, apenas telefonara para um corretor, e ela descobrira aquilo acidentalmente. Fora só no final de semana anterior que ele estivera todo animado, procurando propriedades na Internet. E, desde então, não houvera nada sobre casas novas ou tentar equilibrar o trabalho e a vida; mas ele a paparicara a semana inteira, mimando-a durante o dia, preparando-lhe bebidas, brincando com as gêmeas, levando o cachorro para passear. E, todas as noites, ele a levara para a cama e fizera amor com ela até que Julia não conseguisse mais pensar direito. E, tola que era, ela ficara mais que feliz com tudo aquilo. Na terça-feira, ele levara Julia e as gêmeas para a praia novamente, para outra caminhada pelo litoral, e desta vez eles haviam levado Murphy. O cão ficara ensopado com a água do mar, mas parecera se divertir muito. E Max não se importara em carregar o animal molhado e coberto de areia no banco de trás do carro. Era curioso. Ele teria ficado louco, antigamente, só de pensar naquilo. E, na quartafeira, ele aspirara o pó da casa inteira e lavara o chão da cozinha, e depois eles passaram a tarde no jardim, trabalhando nas roseiras, enquanto as crianças dormiam. O tempo estava lindo novamente, e eles conseguiram adiantar bastante o trabalho, arrancando ervas daninhas, plantando novas mudas e organizando os canteiros. E, naquele dia, ele a mandara tomar café com Jane mais uma vez, enquanto lavava as roupas dos bebês. Todas aquelas atitudes eram inéditas. Seria porque ele a amava, ou porque estava tentando atraí-la de volta para sua vida sem ter que fazer as mudanças necessárias? Ela ficou parada ali, observando-o a distância, falando ao telefone, e se perguntou se ele a mandara tomar café com Jane duas vezes naquela semana só para tirá-la de seu ca minho. E se ele, cada vez que levara o cachorro para passear, ficara secretamente falando ao telefone, planejando uma nova fusão ou aquisição. Julia deu um suspiro profundo e se afastou da janela. Se era aquilo que ele queria dizer com diminuir as operações... Ela pensou nos planos para as cocheiras, guardados silenciosamente na gaveta do estúdio, e se sentiu traída. Eles poderiam ter tido tanto, ela pensou, mas ele não estava jogando de forma justa. Ele desobedecera às regras, e não estava levando as coisas a sério. E ela não poderia esperar até a segunda-feira. Ela não poderia esperar até o sábado. Queria respostas agora. Naquela noite. A campainha tocou, e ela foi para o andar de baixo para atender a porta. — Entrega para o sr. Gallagher — um entregador de capacete lhe informou. — 78


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Assine aqui, por favor. — Claro. Ela assinou, fechou a porta e colocou o pacote na mesa da cozinha. Em seguida, preparou uma xícara de chá e se sentou, olhando para a encomenda, desconfiada. O que seria aquilo? Era um pacote pequeno e muito leve. Parte do plano de sábado? Ou algo a ver com negócios? Não havia nada no pacote que revelasse o remetente, mas a procedência era Londres. Isso foi tudo o que ela conseguiu deduzir, por causa do número de telefone da empresa de entregas, na placa da motocicleta do entregador. E mesmo aquilo poderia estar errado. Ela não podia abrir o pacote. Ou ver o que tinha dentro, pensou ela, cheia de suspeitas. Precisou se controlar para não sacudi-lo. — Jules? — Estou na cozinha. Ele entrou, com o cachorro enlameado ao seu lado, e Murphy correu para ela, esfregando-se contra sua perna. — Oh, seu monstro, você entrou no rio! — gritou ela, e Max o puxou para sua caminha. — Desculpe-me por isso. Murphy, fique quieto. Está tudo bem? Ela olhou nos olhos dele, desafiadoramente. — Eu não sei, diga-me você. Sobre o que foi aquele telefonema? Droga. Droga, droga e droga. Ela deveria tê-lo visto. Oh, diabos. Ele pensara estar fora do alcance das vistas dela, mas começara a andar, como sempre fazia quando estava pen sando, e deveria ter se aproximado novamente de casa. E ela o vira. — Desculpe-me. Era Andréa. — Eu acho que não. Ela deveria entrar em contato com você através de mim. — Era urgente. — E você simplesmente tinha outro celular? Ele sentiu uma onda de calor lhe subir pelo pescoço, e desviou os olhos. — Jules, muita coisa está acontecendo. Eu não queria... — O quê? Obedecer às regras? Não minta para mim, Max! — Eu não estou mentindo. Estou tentando resolver as coisas. — Pensei que você tivesse uma equipe para fazer isso por você. — Eles precisam de orientação. — Precisam? Ótimo para eles. Você recebeu uma entrega. Eu assinei o recebimento. — Ela olhou decisivamente para a mesa, e ele viu um pequeno pacote sobre ela. 79


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O último elemento de seu plano. Ele o deixou ali. Do jeito que as coisas iam, ele talvez não precisasse do pacote. — Obrigado. Olhe, Jules, eu sinto muito pelo telefonema... — E quanto a esta manhã? Você também estava falando ao telefone? A verdade deveria estar escrita no rosto dele, porque ela deu um suspiro exasperado e se levantou. — Eu não posso fazer isso, Max. Não posso viver com as suas mentiras. Ou damos tudo de nós a esta tentativa, ou não damos. E você não está dando o seu melhor, então, é isso. Sinto muito. Quero que você vá embora. Agora. Oh, inferno. Ela estava à beira das lágrimas, e todos os planos dele estavam voando pela janela. Max xingou baixinho e estendeu a mão para ela, mas ela se afastou e correu para as escadas. Ele ouviu a porta do quarto dela bater às suas costas, e, um segundo depois, o som horrível, doloroso, dos soluços de Julia. E então uma das gêmeas começou a chorar. Droga. Justo quando as coisas pareciam estar indo tão bem.

Ele correu para o andar de cima, foi para o quarto das crianças e tirou Ava do berço. — Shhh, querida, está tudo bem. Venha cá, não acorde a Libby. — Mas Libby estava acordada, e começou a choramingar, e ele a pegou no colo, também. Max carregou as gêmeas para o andar de baixo e lhes preparou uma mamadeira, dando-lhes um pedacinho de banana para mastigar enquanto isso, e procurou algumas fraldas secas perto do fogão. Ele não queria levá-las de volta para cima, mas também não iria embora; não enquanto Jules ainda estivesse chorando, e nem quando ela parasse. Max podia ouvi-la em seu quarto, e os soluços dela o estavam dilacerando. Ele queria ir até ela, mas não podia deixar as crianças sozinhas. As duas eram aventureiras demais, e provavelmente aprontariam alguma, cairiam e se machucariam, e ele jamais se perdoaria se isso acontecesse. Mas os soluços de Julia eram agonizantes, e ele não podia deixá-la sozinha por mais tempo. Max correu para o andar de cima, bateu na porta do quarto e entrou. — Jules, por favor, deixe-me explicar — disse ele. — Não há nada para explicar. Você teve sua chance. E a desperdiçou. — Foi só um telefonema! — Dois, pelo menos — disse ela, sentando-se na cama e virando-se, seu rosto lavado em lágrimas. — E estes são apenas os que eu descobri! — Tudo bem, foram três, na verdade. Mas, até onde eu sei, cuidar dos negócios para que a família não seja prejudicada não é uma ofensa mortal... — Não distorça as minhas palavras. — Não estou distorcendo. Só estou dizendo que foram apenas alguns telefonemas. Não posso parar de trabalhar para sempre, só porque você decidiu que não quer mais participar dos negócios! Você sabia o que eu fazia, e o que o meu trabalho envolvia, antes de se casar comigo. 80


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— Mas nós temos os bebês, agora. — E você me abandonou antes de saber que estava grávida, portanto não as envolva nisso. Elas não têm nada a ver com isso — estourou ele. E, de repente, Max percebeu que não agüentaria mais, e que talvez ela estivesse certa. — Eu fiz tudo o que pude para fazer isso funcionar, e o que você fez? Você me espionou, não confiou em mim, no meu empenho de fazer o melhor por nós, e se recusou a se comprometer. Bem, eu sinto muito, não posso mais continuar com isso, e como obviamente nada será suficiente para você, talvez você esteja certa. Talvez eu deva voltar para Londres e recuperar o que sobrou dos meus negócios. E não precisa se mudar desta casa — completou ele, apontando um dedo na direção dela para maior ênfase. — Vou pedir ao meu advogado que entre em contato com você. Tomarei as devidas providências para que você fique numa posição confortável, mas não por você. Isso é pelas crianças. E eu as verei, e farei parte das vidas delas. Mas não farei parte da sua, e você vai ter que conviver com isso, e eu também. Sem dar mais uma palavra, ele foi para o quarto, atirou suas coisas na mala e desceu as escadas. As gêmeas estavam brincando no cercadinho, e olharam para ele, sorrindo. — Papa! — gritou Ava, levantando-se, e ele respirou fundo, controlando o soluço que ameaçava escapar-lhe do peito. — Adeus, meninas — ele sussurrou baixinho e, abaixando-se, deu um beijo em cada uma, acariciou a cabeça de Murphy e saiu. As chaves do carro utilitário estavam na cozinha, mas ele jogou a mala no carro esporte, bateu a porta e saiu pela estrada antes que se enfraquecesse e voltasse, implorando a ela para mudar de idéia... Ele se fora. Ele realmente se fora. Entrara em seu lindo e sexy carro, apanhara suas roupas e se fora sem olhar para trás. E ele estava certo. Ela fora terrivelmente injusta, esperando que somente ele fizesse todas as mudanças, desistisse de tudo para que ela não precisasse abrir mão de nada. E, agora que ela possuía tudo, exceto ele, se sentia arrasada. E, como Julia não sabia mais o que fazer, telefonou para Andréa e lhe contou tudo. — Oh, Julia! Oh, não! Oh, eu não acredito! Ele não lhe contou o que estava planejando? — Planejando? Pensei que tivesse algo a ver com o Dia dos Namorados. — Oh, bem, talvez fosse então que ele estivesse planejando lhe contar tudo. Você conhece Max; ele gosta de fazer tudo a seu próprio modo. Mas, Julia, você precisa lhe dar uma chance de se explicar. Você não faz idéia do que ele abriu mão por você... tanto! Estamos todos espantados. Você precisa ouvi-lo, precisa lhe dar uma chance. Ligue para ele. Anote o telefone novo dele e ligue para ele agora. Se ele aparecer por aqui, farei com que ligue para você. Mas Max não atendeu, nem telefonou, e ela não podia deixar as coisas assim. — Venham, meninas — disse ela, e, agasalhando-as com seus macacõezinhos e casacos, ela as colocou no carro, acomodou Murphy na traseira e seguiu para Londres, com o pacote que havia sido entregue para ele no banco da frente, junto com os planos para as cocheiras. Só por precaução. 81


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Max foi direto para o escritório, mas, depois de estacionar o carro, permaneceu sentado por vários minutos antes de perceber que não podia continuar daquela forma. Não assim. Não com um controle tão frágil das próprias emoções. Então, voltou para o apartamento, abriu a porta para o terraço e ficou ali, com as mãos enfiadas nos bolsos do jeans de que jamais precisaria novamente, olhando tristemente para as águas turvas do Tâmisa, lá embaixo. O Tâmisa não se parecia nada com o riacho pequenino e cristalino que corria paralelo ao jardim do "Chalé das Rosas". Aquele era um rio de verdade, com peixes, salamandras e aves, com texugos, raposas e coelhos bebendo de suas águas à noite, e garças pescando durante o dia. E ele nunca viveria ali com ela, agora. Nunca teria a chance de sair pela porta do escritório às 5h da tarde e caminhar pela estrada até sua casa, sendo recebido por seu cachorro e abraçado por suas filhas e sua linda, amada mulher. Oh, droga. Ele não iria chorar. Aquilo já passara. Ele havia chorado todas ás noites, durante um ano inteiro, e não o faria novamente. Estava acabado. Terminado. Ele tomou um banho, vestiu algo que seu alfaiate reconheceria e jogou o jeans no lixo. Não, aquilo era uma estupidez. Ele precisaria do jeans quando estivesse com as meninas, pensou, e os jogou na cesta de roupa suja, saindo de casa em seguida. Max não sabia para onde estava indo, ou por que, mas não podia mais ficar ali, pensando nela. Ele não estava lá, mas o carro dele estava. Julia falara com o administrador do prédio e estacionara em uma vaga de visitante. Ele não a reconhecera, mas reconhecia o desespero quando o via, e ela parecia bem desesperada. O rapaz ainda lhe ajudou a tirar o carrinho dos bebês do carro, desdobrá-lo e colocar as crianças nele, e segurou o cachorro até Julia estar pronta para subir. — Ele está esperando a senhora? — Não, mas eu tenho a minha chave. Está tudo bem. Obrigada pela sua ajuda. Durante a subida pelo elevador, o coração de Julia estava martelando, mas, ao chegar ao apartamento, ela viu que estava vazio. Ele estivera em casa, entretanto. Ela podia sentir o cheiro do sabonete dele, e sua mala estava jogada sobre a cama, o conteúdo espalhado por toda parte. A geladeira estava vazia, exceto por algumas garrafas de vinho branco e um pouco de alface murcha em um saco plástico. Ele nunca comia? Ou talvez tivesse desligado a geladeira antes de ir para Nova York, que era o que ele deveria ter feito na segunda-feira anterior. Céus, apenas dez dias antes. Parecia muito, muito mais tempo. Talvez ele tivesse ido fazer compras? As meninas estavam impacientes e Murphy estava correndo pelo apartamento, farejando tudo. Ela o soltou no terraço, e esperou que ele tivesse o bom-senso de não pular. Por favor, Deus. Ela jamais poderia telefonar para John Blake e contar-lhe aquilo. Voltando para dentro de casa, Julia olhou ao redor na sala de estar, que parecia um campo minado. Se ela tirasse as meninas do carrinho, elas se meteriam em todo tipo de encrenca. A mesinha de centro de vidro, para começar, tinha pontas afiadas e duras, e havia todo tipo de coisa na sala que as gêmeas poderiam apanhar. Controles remotos, fones de ouvido, vasos altos, peças de decoração que poderiam cair em cima delas e matá-las facilmente. E o piso de madeira encerada era muito pouco adequado para duas garotinhas aventureiras. Portanto, elas ficaram onde estavam, no carrinho, e Julia aqueceu o jantar delas no microondas, alimentando-as ao mesmo tempo. Em seguida, ela as tirou do carrinho, uma de cada vez, amamentou-as e trocou suas fraldas. Ela estava colocando Libby de volta no carrinho quando ouviu a porta da frente se 82


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abrir, e os pés de Max pararam bem na frente de sua linha de visão. Julia apertou o cinto de segurança da garotinha e se sentou nos calcanhares, encontrando os olhos dele, vazios e sem expressão. — Que diabos você está fazendo aqui? Ela não sabia. Só sabia que estivera errada, e disse a única coisa que parecia fazer algum sentido: — Eu sinto muito. Por um instante, ela pensou que ele fosse se virar para ir embora, mas Max deu um passo em sua direção. — Pelo quê? Quero dizer, especificamente? — Por ter sido uma idiota egoísta, irracional e exigente? — disse ela com os olhos cheios de lágrimas. — Por me recusar a me comprometer? Por esperar que você fi zesse todas as mudanças? Por não confiar em você, nem lhe dar a chance de se explicar? Eu não sei — continuou ela, a voz trêmula. — Eu só sei que não posso viver sem você, e sinto muito se o magoei, sinto muito se arruinei tudo para você. Andréa me disse que não podia acreditar... — Você andou falando com Andréa? Ela assentiu. — Ela me deu o número do seu celular, o número novo. Eu tentei telefonar, mas estava desligado. — A bateria descarregou, e eu não estava com o carregador no carro. Então... o que ela lhe contou? — Nada. Só o quanto todos ficaram chocados com o que você tinha feito, mas eu não sabia o que você tinha feito, porque você não me contou, e ela também não, e eu ainda não sei, Max. Que diabos você fez de tão horrível por minha causa? O que eu o fiz fazer? Por favor, conte-me! Ele deu um suspiro trêmulo. — Você não me fez fazer nada. Eu escolhi fazer. Eu quis fazer. Eu só estava desabafando, porque tudo deveria ser tão maravilhoso, e mais uma vez parece que eu fiz tudo errado. — Ele se virou e foi até a porta, abrindo-a e saindo para o terraço. — Murphy? — disse ele, parecendo surpreso, e o cachorro agitou a cauda e lambeu as mãos de Max, que se abaixou, abraçando o animal enquanto Julia observava e esperava. — Oh, Max, por favor, diga-me o que você fez — sussurrou ela, e, como se tivesse ouvido, ele voltou para dentro e sentou-se, puxando o cachorro pela coleira e segurandoo. — Isso não vai funcionar. Não há nenhum lugar para as meninas dormirem, o cachorro vai destruir a casa em um minuto, e eu já a vendi... e, de qualquer forma, eu quero me sentar com você e discutir isso direito. Vamos para casa. — Casa? — Ele vendera o apartamento? Max deu um sorriso cansado. — Sim, Jules. Casa. Foi uma viagem terrível, e apenas aquela palavra a mantivera sã. Não que algo ruim tivesse acontecido, mas Julia estava com os nervos à flor da pele o tempo todo, ansiosa para chegar em casa e descobrir o que ele havia feito, do que ele estava falando, e se, depois de tudo o que fizera e dissera, ela ainda tinha uma chance. A palavra "casa" continuava a ecoar em sua mente, entretanto, e o fato de que ele vendera o apartamento a sustentara durante todo o trajeto de volta ao chalé. 83


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Eles colocaram as meninas na cama, trancaram o cachorro na cozinha e foram para a sala de estar. Estava frio, e Max acendeu a lareira e apagou as luzes. E, sentandose no chão, encostado ao sofá, ele a puxou para si e passou os braços em torno dela. Julia podia sentir o calor do corpo dele de um lado e o brilho do fogo do outro; a mão de Max acariciava seu ombro ritmicamente. Mas ela também podia sentir que ele tremia, e soube que Max não estava nem perto de sentir a calma que aparentava. — Tudo bem. Vamos imaginar que é a noite de sábado e eu acabei de cozinhar o jantar para você. — Oh, Max... — Shhh. E estamos aqui, com café e chocolates, e foi um dia adorável, e as meninas estão dormindo. Certo? — Certo. — E eu vou lhe fazer uma proposta, e quero que você pense sobre ela, e me dê uma resposta quando tiver tido tempo de examiná-la e certificar-se de que vai ser boa para você. Certo? — Certo — ecoou ela, novamente. — Então... qual é a proposta? — Bem, em primeiro lugar, John está vendendo a casa. — Eu sei. E... — Shhh. Escute. E eu obtive uma cotação de preço. — Quando? — Na terça-feira, enquanto estávamos na praia, e hoje, enquanto você estava tomando café com Jane. Falei com dois corretores. E falei com John, passei as informações para ele, e concordamos a respeito do preço. — Mas... — Shhh. Você vai ter sua chance de falar em um minuto. Bem, John me disse que consultou um arquiteto no passado, e que falou com ele sobre uma possível conversão dos prédios. Na verdade, ele disse que já tinha alguns planos desenhados, e que achava que eles estavam no armário do estúdio, mas ele está trancado, e eu não pude olhar. De qualquer modo, isso é irrelevante, porque os planos provavelmente, estarão obsoletos, mas teoricamente os membros do conselho municipal estão dispostos a dar um parecer favorável para a conversão dos prédios em escritórios, e eu posso transferir o escritório de Londres para cá. E vendi minha parte da operação de Nova York para Gerry. Ela olhou para ele, confusa. — Você vendeu a operação de Nova York? — Não posso ir andando para lá, portanto é muito longe — disse ele, com um pequeno sorriso. — Esse era o meu parâmetro. E não posso ir andando até Londres, portanto estou transferindo o escritório para cá e trazendo todos que querem vir. Stephen, a mulher e o bebê, Andréa, a filha e o marido, e vários outros membros da equipe. E os que não quiserem vir terão boas cartas de referência e um generoso pacote de transferência para poderem se reestruturar. Ela olhou para ele, atônita. Não era de admirar que Andréa estivesse chocada. — Nova York e Tóquio? Ele deu um sorriso cansado. — Ah, bem, Yashimoto e eu já havíamos conversado a respeito disso, e eu já estava disposto a vender. De alguma forma... — Ele se interrompeu e engoliu em seco, e 84


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seus dedos apertaram-lhe o ombro com um pouco mais de força. — De certo modo, depois de todos os problemas que o acordo nos causou, eu nunca me senti bem a respeito dele. E eu reergui a empresa dele, e ela está indo bem, então eu fui bemsucedido. E não perdi dinheiro; apenas não o arruinei quando vendi a empresa de volta para ele. Julia inclinou a cabeça e olhou para Max. — Você realmente iria vendê-la de volta para ele? Porque eu estava me sentindo tão mal a respeito disso tudo, depois de todo o trabalho que você teve, preparando-se para a fusão, e agora Nova York também... Ele sacudiu a cabeça, pressionando um dedo contra os lábios dela para silenciá-la, e sorriu. — Está tudo bem. Estou feliz. Então, tudo depende de você, agora. Andréa diz que virá me ajudar com a transferência, mas não pode trabalhar em horário integral, porque sua filha é deficiente física e está para ter o primeiro bebê. Portanto, isso só vai funcionar se você dividir as tarefas com ela. Mas a vantagem é que você terá o controle da minha agenda — completou ele, com um sorriso. — Então, o que me diz, senhora Gallagher? Quer tentar? Ou ainda lhe parece muito? Porque, se você realmente quiser, eu largo tudo, me aposento e vou aprender tecelagem, se isso for preciso para que eu possa ficar com você e as meninas. Porque eu percebi hoje, depois de deixar você, que não poderia fazer isso, não poderia deixá-la, porque a amo demais. O sorriso dele desapareceu por um instante, e ela percebeu que ele estava sendo totalmente honesto. Julia ergueu a mão e lhe acariciou o rosto com ternura. — Oh, Max. Eu o amo, também. E você não precisa aprender tecelagem. Eu adoraria voltar a trabalhar com você. Sinto saudades. Eu só não podia continuar fazendo apenas isso, excluindo todos os outros aspectos da minha vida, mas uma divisão de tarefas... isso soa interessante. E gosto da idéia da agenda. Ele deu uma risada trêmula, e apertou-lhe o ombro gentilmente. — Eu pensei mesmo que você gostaria. — Max a apertou ainda mais contra si, ergueu-lhe o queixo e beijou-a, lenta e ternamente. Então, levantou a cabeça e sorriu para ela. — Há só mais uma coisa, mas não sei onde está o pacote que foi entregue mais cedo. Espero que ainda esteja com você. — Está no carro. Eu vou buscá-lo. E, levantando-se, ela correu até o carro, apanhou o pequeno pacote e os planos, que estavam no banco da frente, e levou tudo para dentro, ajoelhando-se ao lado dele. — Aqui está. E estes são os planos. Eu consegui uma cópia com o arquiteto, outro dia. Ele mora aqui no vilarejo, e eu conversei com ele. John deveria entrar em contato comigo sobre um possível preço para a casa, para que eu pudesse falar com você. E aqui está uma estimativa do preço da conversão e das reformas, também, mas isso era apenas para um escritório pequeno. Max franziu a testa. — Mas... por que você está com tudo isso? Eu fiz John jurar segredo. Ela sorriu para ele. — Eu também, e ele não me disse uma palavra sobre você, a não ser para dizer que achava que deveríamos ficar juntos e que, se isso fosse nos ajudar, ele ficaria mais do que feliz em nos vender a casa. Foi tudo. E eu pensei que poderia lhe dar a opção de transferir parte da sua operação para cá, para você poder dividir o tempo entre Suffolk e 85


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Londres, para que você não se sentisse infeliz, e, se não desse certo, pelo menos eu saberia. Ele colocou os planos de lado. — Eu não me sinto infeliz — disse ele firmemente. — Nem um pouco. Eu me sinto incrivelmente abençoado. Sei que foi um ano difícil, mas acabou, e agora estamos juntos, e não quero que jamais nos separemos de novo. — Nem eu — murmurou ela. — E eu sinto muito por não ter dito a você que estava grávida. Eu deveria ter contado. Eu queria contar, mas realmente não pensei que você gostaria de saber. Se eu tivesse alguma idéia do que você tinha passado com Debbie, não teria hesitado. Ele a beijou gentilmente. — Eu sei. E a culpa foi minha. E também foi culpa minha você ter se aborrecido hoje, quando me viu escapulir com o telefone para falar com John. Se eu tivesse compartilhado tudo com você... mas não, você sabe como eu sou. Eu queria fazer-lhe uma surpresa. Eu queria chegar para você, e tirar os planos da cartola como um mágico faz com um coelho, mas o tiro saiu pela culatra e explodiu na minha cara. Então, nada mais de segredos, certo? Nada mais de guardar nossos sentimentos, e nada mais de suspeitas. Temos que confiar um no outro, mesmo que não saibamos o que está acontecendo. Ela assentiu lentamente. — Eu confio em você. Quero confiar em você. Era só que... eu conheço a expressão no seu rosto quando você está prestes a fechar um acordo, e você estava assim a semana inteira, e eu sabia, sabia que havia alguma coisa acontecendo. Algo grande. Algo importante. — E estava. Eu estava planejando o nosso futuro. Não posso pensar em nada mais excitante do que isso. Aqui está. Tenho algo para você. — E ele abriu o pacote, reti rou dele uma pequena caixa, e abriu a caixa cuidadosamente, retirando uma pequenina bolsa de couro amarrada por uma fita. Em seguida, virou-se, e ficou ajoelhado diante dela. — Estenda a sua mão — disse ele suavemente, e ela a estendeu, pensando que fosse um anel. Ele nunca lhe dera um anel, exceto a aliança de casamento, e fora ela quem a comprara. — Do outro lado. — Oh. Não era um anel, então. Escondendo o desapontamento, ela virou a mão, e ele sacudiu a bolsinha sobre a palma da mão de Julia, até que algo caiu dela. Alguma coisa fria e brilhante, e incrivelmente linda. Três coisas, na verdade. — Max? — Você nunca teve um anel — disse ele, com a voz rouca. — Só a sua aliança de casamento, porque nós casamos tão depressa e tão silenciosamente que não houve tempo ou necessidade, ou... bem, não. Havia necessidade, mas eu não a via na época. Mas deveria ter visto, e deveria ter percebido que você merecia uma cerimônia mais pública. Mas, como eu pareço fazer tudo errado, pensei que você deveria dar sua opinião sobre isso, e lhe comprei três diamantes. Um para nós, e os outros dois para comemorar o nascimento de nossas lindas filhas. E eu não sei o que você vai querer fazer com eles, mas pensei que poderia ser um anel, ou um par de brincos, ou um anel da eterni dade, ou um colar... eu não sei. Você decide. — Eles são lindos — disse ela, encantada. — Maravilhosos. — São diamantes brancos perfeitos. Foram cortados em Antuérpia, da mesma pedra, e, se você quiser mais, podemos comprar alguns, para fazer outro anel, ou o que 86


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você quiser. Eles têm outros, pequeninos, também da mesma pedra. Mas pensei que poderíamos mandar fazer uma jóia, para que eu possa dá-la para você em junho. — Em junho? — Quando as roseiras florescem — disse ele, suavemente. — Eu sei que pode parecer um tanto sentimental, mas realmente quero renovar nossos votos. Eu quase perdi você, Jules, e foi só então que percebi o quanto você significa para mim, Eu quero uma chance de contar aos nossos amigos o quanto a amo, e como tenho sorte de ter você, e quero ficar ao seu lado no nosso jardim, sentindo o perfume das rosas. — Oh, Max. — Os olhos dela se encheram de lágrimas. — Eu disse isso a você. — Eu sei, e você estava certa. Nunca tivemos tempo de sentir o perfume das rosas, mas teremos tempo agora. Poderemos fazer isso todos os verões, pelo resto das nossas vidas, se você me quiser. — Oh, Max. Claro que eu quero você. Eu o amo. Ele deu um sorriso trêmulo. — E eu a amo, também, e sempre amarei. — E, tomando-lhe as mãos nas suas, ele a puxou para si, abaixou a cabeça e a beijou.

EPÍLOGO

Ava e Libby, e todos os convidados, estavam reunidos no jardim de rosas do chalé, para vê-los fazerem seus votos. Os amigos queridos estavam lá, assim como a mãe dele, Linda, e Richard; Jane e Peter com os filhos; John Blake e seu companheiro; Andréa, com a filha e o gen ro; e Stephen, Dana e o filhinho deles; além das outras pessoas do trabalho que conseguiram ir até lá, como Gerry, de Nova York, e o sr. Yashimoto, de Tóquio. As meninas usavam vestidinhos lindos e, apesar de estarem sob os cuidados de uma babá, eram mimadas por todos os convidados. Julia usava seus diamantes, o maior como um pingente em uma correntinha curta e dourada e os outros dois como brincos. Havia rosas em seus cabelos para lembrar a ambos que a vida deveria ser apreciada. Eles estavam juntos afinal, frente a frente, debaixo do arco de rosas em seu jardim, enquanto John Blake pedia a atenção de todos os presentes. Aquela não era uma cerimônia formal, eles queriam que tudo fosse muito simples: apenas duas pessoas que se amavam falando uma para a outra sobre a verdade em seus corações, tendo como testemunhas seus entes queridos. Julia não estava nervosa, pois tudo aquilo parecia tão certo, tão belo e perfeito. Max ali na sua frente segurando suas mãos, os olhos fixos nos dela, o amor que ele sentia por ela transparecendo em cada pequeno gesto, mais brilhante que qualquer diamante. — Prometi que iria amar você — disse ele —, mas eu não sabia o que isso realmente significava até que a perdi. Prometi que a honraria e depois não valorizei sua 87


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presença ao meu lado. Prometi que iria apreciar a sorte de tê-la em minha vida e não notei que estava partindo o seu coração. Mas, agora, sou capaz de entender isso tudo. Sou capaz de apreciá-la, de dar valor à pessoa incrível que você é, e juro, perante nossos entes queridos, nunca mais cometer esses erros. Vou cometer outros, provavelmente, ser falível que sou, e peço desculpas adiantadas. Mas espero nunca mais feri-la ou desapontá-la. Espero nunca mais magoá-la, Jules. E prometo que sempre terei tempo de parar e sentir o perfume das rosas com você. E vou amá-la sempre, sempre, com todo meu coração, enquanto viver. Ele enfiou a mão no bolso de seu paletó e tirou de lá um anel de diamante que era o perfeito complemento para o pingente e os brincos. — Ah, Max! — disse ela, quase sem fôlego. — Eles são da mesma pedra, devem ficar juntos — disse ele de forma simples. — Como nós, juntos pela eternidade. Eu amo você, Julia. Ela sorriu, então respirou fundo e disse: — Eu também o amo, Max. Sempre o amei, mesmo quando pensei odiá-lo. Tomei de você algo que jamais poderei devolver, o nascimento de nossas filhas. E sinto muito por isso. E juro, perante nossos entes queridos, que agora finalmente aprendi que posso e devo confiar em você, não importam as circunstâncias, que sem você não sou nada. Você é minha vida, meu amor, meu coração, Max. E eu sempre, sempre o amarei. Ambos com lágrimas nos olhos, eles sorriram para o futuro que os aguardava e para essa nova vida que acabara de começar. Max tomou Julia nos braços e, ainda sorrindo, selou os votos deles com um terno beijo, cheio de promessas felizes.

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Próximo Lançamento

AMOR PERDIDO Rebecca Winters — Também te amo, papai. Agora você tem de colocar o seu colete. Tanto Stella quanto Theo caíram na gargalhada. Ele retirou dois coletes adultos do closet. — Não vale o velho ditado "faça o que eu digo, não faça o que eu faço", certo? — Ele começou a caminhar até ela com traves-sura brilhando nos maravilhosos olhos negros. Stella teria posto o colete sozinha, mas Theo insistiu em fazer as honras. O toque enviou ondas de calor delicioso por todo seu corpo. Com as costas voltadas para as crianças, e olhos ardentes fitando os dela, Theo pôs-se a amarrar, muito lentamente as pontas das correias perto do pescoço de Stella. Ela estava com uma vontade tão grande de que ele a beijasse que chegou a sentir dor nas palmas das mãos. Precisando fazer alguma coisa antes que o desejo a levasse a fazer alguma besteira, Stella pegou o outro colete e o ajudou a vesti-lo. Ele sempre tivera ombros largos e músculos rijos? Ao tocar o peito dele, Stella ouviu-o arfar. — Podemos ir brincar de shuffleboard? — Sim — respondeu Theo enquanto ela ainda estava amarrando a correia dele. — Daqui a pouquinho vamos descer para brincar com vocês. — Tá legal. Vamos, Dax! — Os meninos pegaram alguns doces e saíram da cabine. Quando a porta fechou, Theo puxou-a para si. — Nosso filho acaba de nos prestar um favor. Sem esta armadura, você não estaria a salvo de mim neste exato momento. Vamos experimentar, para caso eu esteja errado. Antes que se desse conta do que estava acontecendo, Stella se viu envolvida pelos braços dele, incapaz de se mover. — Vou te beijar, queira você ou não. Ela achou que ele iria começar por sua boca, mas ele iniciou uma exploração do rosto dela, movendo-se lentamente até ela achar que iria morrer se Theo não satisfizesse o desejo que crescia feroz dentro dela. Um gemido escapou da garganta de Stella, a forma que seu corpo encontrou para pedir a Theo que parasse de torturá-la e realmente a beijasse. E quando isso aconteceu, ela quase desmaiou de êxtase. De algum modo, que ela realmente não compreendeu como, eles acabaram na cama, num beijo que pareceu não ter nem começo nem fim. Ela perdeu completamente a noção do tempo. Eram apenas eles dois se comunicando numa explosão de desejo. De repente a porta foi aberta. 89


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— Ei, mamãe? Papai? Não vão brincar com a gente? Theo foi o primeiro a se recuperar. Ele mordeu gentilmente o lóbulo de Stella, e então rolou para fora da cama. — Vou subir agora. A sua mãe vai se reunir a gente daqui a pouco. Que tal um refrigerante? — Sim. Legal. Depois que eles saíram, Stella sentou-se na cama, mas estava tão tonta por causa do beijo que precisou se levantar com cuidado para não tropeçar e cair. O colete salvavidas dificultou ainda mais isso. Uma olhada no espelho sobre a penteadeira foi um doloroso testemunho da situação. Tinha a impressão de que era, de novo, uma adolescente. Depois do beijo de Theo, estava com os lábios inchados e os cabelos desgrenhados. O perfume das rosas enchia todo o quarto. No futuro, sempre que sentisse cheiro de rosas, lembraria deste dia. Mais uma vez, Theo fizera sua mágica.

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