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Time Out - Porto ID: 67138115

01-12-2016

Tiragem: 12500

Pág: 16

País: Portugal

Cores: Cor

Period.: Mensal

Área: 18,30 x 25,60 cm²

Âmbito: Lazer

Corte: 1 de 4


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01-12-2016

Tiragem: 12500

Pág: 17

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EDUARDO PAZ BARROSO

"O COLISEU NÃO SEAUGA PORQUE AS INSTITUIÇOES NAO SE ALUGAM." Eduardo Paz Barroso é presidente da Associação Amigos do Coliseu e vem tratando de um presente importante para oferecer à casa que cumpre este mês 75 anos: uma vida e programação próprias, para lá da cedência de espaços. Entretanto, o renovado circo de Natal, peça-chave da programação anual, monta a pista de sábado 3 a 1 de Janeiro. Jorge Lopes entrevistou, Marco Duarte fotografou. O que acha que as pessoas pensam quando pensam no Coliseu? Numa sala que se aluga para realizar espectáculos? O Coliseu não se aluga porque as instituições

não se alugam. Cede espaças e equipamentos, mediante contratos que têm a ver com preocupações ligadas à música e à actividade comercial na área da música. Não se aluga a Biblioteca Municipal do Porto... Há duas coisas que fazem parte da vida das instituições, que é não se alugarem nem estarem à venda. Refundam-se, reformulam-se, procuram melhorar o desempenho, mas também respondem a novos desafios. O Coliseu tem um novo desafio, que é também um pouco o que a cidade e a região têm, e está a procurar ser melhore mais coerente. Mas a ideia de que o Coliseu é, basicamente, uma sala para acolher eventos externos ainda predomina.

Num certo sentido ultrapassou todas as expectativas. Foi uma situação que surgiu de uma forma muito espontânea. Tem a ver com algumas preocupações pessoais, mas que também são do meio artístico e cultural. Há imensos músicos que têm uma atitude bastante firme nessa matéria, e houve alguns que, no passado, estiveram para vir . cantar e tocar ao Coliseu e que, quando souberam que se fazia circo com animais, rejeitaram. Ao falar com pessoas do circo, com artistas, e ao fazermos pesquisas, percebi que podíamos ter excelentes espectáculos sem animais. A cidade tem-no demonstrado, nas últimas décadas, com uma quantidade razoável de sessões de novo circo. Há uma coisa no circo que é coincidente como

teatro: a dimensão irrepetível do que está a acontecer. São números que se renovam em h lá uma frase do presidente Rui Moreira, que cada momento. Não sou, de todo, entendido na antecede a chegada desta direcção ao Coliseu e matéria, mas quando aqui chegámos que hoje já não é necessário usar, que diz que percebemos, quer as pessoas que cá estavam, "o Coliseu não é uma barriga de aluguer". O quer as que chegavam, que era preciso que o Coliseu fez ao longo destes dois anos [de reinventar circo no Coliseu. A cidade, do direcção liderada por Paz Barroso] foi olhar ponto de vista dos conteúdos, na história das para si próprio e à sua volta e ir ao encontro de últimas décadas, não se faz sem o circo do muito tipo de pessoas e organismos. Como a Coliseu. Tem uma dimensão ritual, festiva Santa Casa da Misericórdia, que nos permite (por causa do Natal, obviamente), e marca viabilizar programas específicos. gerações consecutivas. Que programas?

°projecto Trifonia Clássica, que lançámos em parceria coma Orquestra Metropolitana de Lisboa, no qual se inscreve um concertachave na programação de 2017, comemorativo dos 75 anos [a 6 de Maio], feito com a Orquestra Sinfónica do Porto—Casa da Música. Como reagiu o público do circo do Coliseu à decisão, em 2015, de abandonar os espectáculos com animais enjaulados?

Além do concerto com a Orquestra Casa da Música, de que outras formas se vão assinalar os 75 anos do Coliseu?

O plano é tão imodesto que se torna simples. No fundo, é c.elebrar o Coliseu todos os dias, de uma forma particularmente mais enérgica e intensa ao longo de 2017. Articulando grandes momentos, que começam agora com o circo. Vamos ter uma companhia melhor que a do ano anterior— não que essa não fosse suficientemente boa, mas porque

conseguimos algumas coisas únicas e extraordinárias.

Quais? Por exemplo, uma troupe de artistas colombianos [The Gerlings], que, entretanto, foram convidados a participar no Festival de Circo de Monte Carlo de 2017. Se estivéssemos a falar de ()scares, isto seria quase urna antevisão de quem iria ganhá-los. Depois, temos um número, que é um conjunto de números, que ganhou um prémio em Monte Carlo no ano passado, de uma troupe do Circo de Cantão-Guangzhou. A ideia é ter um sortido do circo que se faz no mundo inteiro?

Desde o ano passado que temos a ambição de, na medida do possível, fazer convergir as grandes tradições do circo (a escola de Paris, a escola do Circo de Moscovo e a escola chinesa) para a pista do Coliseu, a partir de uma companhia que montámos de origem. Vamos ter com os representantes de um conjunto de artistas, criamos uma narrativa para cada ano, e depois fazemos um encadeamento dos números. Quando entrou pela primeira vez no Coliseu?

Teria cinco, seis anos. Vim como meu pai ao circo. É o que 90% das pessoas, da minha geração e não só, acabampor dizer. Consegue escolher os três espectáculos vistos no Coliseu que mais o marcaram?

Um foi o circo, em concreto a primeira vez [no Coliseu] do [artista soviético] Oleg Popov. Outro momento foi o concerto de piano do [Sviatoslav] R ich ter [em Janeiro de 1995], único, de que nunca me esquecerei, uma coisa para se ver de joelhos. Mais recentemente, os concertos da Adriana Calcanhoto [em 2008],


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01-12-2016

por quem tenho uma particularíssima admiração musical. Conta chegar ao fim de 2016 com mais ou menos espectadores do que em 2015? Nesse ano ultrapassaram os 223 mil.

Não acho que seja impossível suplantá-lo, mas há um número interessante: em 2016, contabilizados até Setembro, já tivemos 143.017 pessoas em 77 espectáculos. É um óptimo indicador. Um dos factores-chave na questão dos números é sempre o circo, mas este ano o calendário não jogou muito a nosso favor porque nos roubou um fim-de-semana [o do Natal]. Mas teve aquela série excepcional de 13 concertos do Miguel Araújo com o António Zambujo.

E um daqueles fenômenos nacionais. Com características diferentes, lembro-me, há uns bons anos, quando estava nos teatros, da história do Passa Por Mim no Rossio. O que é importante é que as coisas se reinventem. O que mais me interessa em relação a isso é que esse fenómeno pode repetir-se com outros músicos portugueses. Como assim?

O que se descobriu [com os concertos Araújo-Zambujo] foi um registo muito intimista de artistas que têm o seu público e sucesso. Gostava muito de ver outros músicos a fazerem algum trabalho nesse sentido. Tenho a certeza que iam ter excelentes resultados. Mas os músicos têm os seus projectos e nós andamos atrás da agenda deles, o que é óptimo sinal. Estou a falar de grandes músicos portugueses como o Pedro Abrunhosa, o Rei Reininho, etc. Eles foram contactados para criar um espectáculo nos moldes do de Miguel Araújo e António Zambujo?

Não se trata de os contactar. Trata-se de urna reflexão pessoal que fiz a partir dessa experiência e que tenho partilhado no meio. E acho que o Coliseu do Porto podia ser um bom ponto de partida para novas realizações desse género. ideias não faltam, mas dizer mais do que isto, neste momento, é muito prematuro. É verdade que, ao contrário do que se dizia até há poucos anos, neste momento não há espaços desaproveitados no edifício?

Procuramos aproveitar tudo. O projecto do Balleteatro como companhia residente permite uma ocupação e animação muito polivalentes do Coliseu. Tem sido uma aposta bastante bem sucedida.

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Tem afirmado e mostrado que o edifício necessita de obras de requalificação com urgência. Já há data para essas obras?

Não há sequer obras no horizonte, a não ser pequenas intervenções que temos feito, nem temos meios para fazer face a esses investimentos. São cada vez mais inadiáveis vários tipos de obras de manutenção e preservação e elas terão de ser equacionadas, provavelmente já num próximo mandato, que poderá ser meu ou de outra pessoa ou direcção. Não gostava que isso acontecesse durante o seu mandato?

Feliz ou infelizmente, o meu mandato termina daqui a muito pouco tempo. O mandato da actual direcção termina quando for a próxima Assembleia Geral.

O PORTO EM TRES PAIXOES

TEATRO NACIONAL SAO JOAO "Tenho uma ligação fortíssima, quase psicanalítica, com o TNSJ. Onde quer que esteja, e tratando-se de palcos, de cultura e de espectáculos, o TNSJ é uma espécie de lugar de entrega. Pelo trabalho que lá fiz e porque, sobretudo num período em que se é particularmente jovem, assumi responsabilidades imensas, numa altura em que havia uma série de preconceitos em relação à cultura que hoje, felizmente, não há."

Que vai acontecer...

As Assembleias Gerais são em Abril, mais ou menos. Não tenciona prosseguir nestas funções?

Não é o momento de colocar essa questão. Sou indicado para este mandato pelo Conselho Metropolitano do Porto. Os "accionistas de referência", os associados institucionais com responsabilidades máximas no Coliseu Porto, devem entender-se sobre o Coliseu e financiar o projecto de forma consistente. A Câmara Municipal do Porto tem tido uma atitude exemplar. O Estado, através do Ministério da Cultura, tem apoiado actividades embora com um valor muito modesto. A Área Metropolitana do Porto nunca contribuiu para o projecto do Coliseu Porto. A clarificação do papel destas instituições no futuro do Coliseu é fundamental e apenas o Município do Porto está permanentemente envolvido, como se constata nas declarações regulares de Rui Moreira.

PARQUE DA CIDADE

"Há uma série fabulosa, Os Sopranos, com uma imagem recorrente em que o James Gandolfini/ Tony Soprano estava com a Dra. Melfi, que lhe vinha recorrentemente uma imagem duns patos a voar. O Parque da Cidade devolve-me esse lado de um provável mafioso escondido [risos]."

Onde estava a 4 de Agosto de 1995 [dia da manifestação à porta do Coliseu contra a alienação do espaço à «D]?

Era director do Teatro Nacional São João, estava no meu gabinete, e o arquitecto Gomes Fernandes, então vice-presidente da Câmara, telefonou-me a dizer que havia umas movimentações [junto ao Coliseu]. E vim para aqui. Não tinha grande jeito para falar em público e tive de fazê-lo num registo muito de improviso, de comício, que não faz de todo o meu género. A dada altura estaria provavelmente a gaguejar, ou um pouco hesitante, e o Valentim Loureiro tirou-me o microfone da mão e começou a gritar, "É nosso! É nosso! E nosso!". Senti-me aliviadíssimo porque já não sabia muito bem o que dizer.

CAFÉ LUSITANO "Conheço e estimo o Mário Carvalho desde o tempo em que passava noites memoráveis no Indústria. Hoje, o Café Lusitano, onde o Mário também pontifica, é, de certo modo, um herdeiro daquele espaço noctívago. Quanto mais não fosse por causa da liberdade e da boa música. As noites sucessivas que lá passei com o Paulo Cunha e Silva e outras pessoas muito especiais permanecem para sempre."


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01-12-2016

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"Não tinha grande jeito para falar em público e tive de fazê-lo num registo muito de comício, que não faz o meu género. A dada altura estaria provavelmente a gaguejar e o Valentim Loureiro tirou-me o microfone da mão Qcomeçoii a gritar, `E nosso! E nosso! E nosso!'. Senti-me aliviadíssimo:' P. 1 6


Entrevista de Eduardo Paz Barroso à Time Out