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MEMÓRIA. Sidney Wanderley envia e-mails para deus e o mundo. Cartas, porém, para mais ninguém. Bancário aposentado e ex-professor de Biologia, durante sete anos o revisor que renega a função e prefere ser chamado ‘apenas’ de poeta se correspondeu com Carlos Drummond de Andrade. Com exclusividade, a Gazeta teve acesso às cartas trocadas por Sidney com o poeta-maior, que tomou a iniciativa de escrever ao jovem viçosense após ler um artigo no qual ele analisava o suicídio em sua obra. Num momento em que todas as atenções estão voltadas para o autor de Sentimento do Mundo – Drummond é o homenageado do maior evento literário do país, a Flip, que termina hoje –, nada melhor do que revisitá-lo. É o que os leitores poderão fazer nesta edição

Domingo 08/07/2012

CARLA CASTELLOTTI REPÓRTER

Rio de Janeiro, 14 de abril de 1980. Eis o local e a data da primeira carta que Sidney Wanderley recebeu de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Aos 21 anos, o jovem nascido em Viçosa, a 85 quilômetros de Maceió, trabalhava como professor de Biologia no Colégio Marista – e não imaginava o que havia no envelope trazido pelo carteiro. No remetente, o endereço que jamais esqueceria: Conselheiro Lafayette, 60, apartamento 701. Foi assim, sem aviso e por iniciativa do próprio Drummond, que teve início a correspondência entre um então iniciante poeta e seu ídolo maior. A ‘descoberta’ do autor, contudo, havia se dado muito antes, em 1973, quando Sidney cursava o 1º ano científico e cruzou com o célebre poema Mãos Dadas numa prova de Literatura. “Eu caminhava a largos passos para inteirar os meus 15 anos. Adorei nesse poema os versos ‘não nos afastemos/ não nos afastemos muito’, a revelar companheirismo e solidariedade, mas sem abrir mão da individualidade e da diferença”, recorda ele ao falar dos versos contidos no livro Sentimento do Mundo, de 1940. A partir daí, tornaria-se um “leitor maníaco” da obra do poeta mineiro. “Li Drummond de forma recorrente em minha adolescência, ao lado de Fernando Pessoa e João Cabral de Melo Neto. Uma paixão dos diabos”, conta Sidney Wanderley, ao anotar outro momento flagrante de identificação: “Me deparei com dois outros versos, estes do poema Explicação, do livro Alguma Poesia: ‘No elevador penso na roça,/ na roça penso no elevador’. Isso era eu: em Viçosa penso em Maceió, em Maceió penso em Viçosa, em mim mesmo penso em algum outro, etc”. Terminado o colégio e cursando o primeiro ano de Medicina, o autor do recém-lançado Dias de Sim, então com 17 anos, era um estudante entediado – “Fazia o curso sem vocação alguma”. Foi nessa época e sob nítida influência da poesia de Drummond que cometeu seus “primeiros desatinos poéticos”. Nesse tempo, ele conta, tudo era um bom motivo para, diante da máquina de escrever, registrar o que desse na telha. O ímpeto de escrever era tamanho que, numa sentada só, Sidney redigiu Poesia, Canção Suicida, artigo no qual analisava a ideia do suicídio nos primeiros dez títulos da obra poética de Drummond, que compunham o volume Reunião. Dedicado ao amigo Paulo (“que numa noite de março de 1980 abreviou sua vida e antecipou seu repouso com um discreto balaço no ouvido esquerdo”), o material, conta o

viçosense, foi inscrito num concurso da Academia Alagoana de Letras (AAL) que acabou por premiar textos sobre a produção de Graciliano Ramos e Raul Pompéia, além do próprio Drummond.

ACASO E se não está claro o que essa história tem a ver com as cartas enviadas a Sidney por Drummond, vale notar que a correspondência estabelecida entre o alagoano e o mineiro só foi iniciada após Poesia, Canção Suicida chegar às mãos do autor de A Rosa do Povo. Na era pré-internet, porém, o caminho percorrido pelo artigo foi (bem) mais longo, e contou com a ajuda do acaso. Era 1980 quando Sidney Wanderley, recém-casado e já desistente do curso de Medicina, recebia em sua casa o escritor e sociólogo alagoano Fernando Batinga, amigo próximo de Drummond que depois de anos exilado na França estava de volta ao Brasil. “O Fernando disse que queria ver meus poemas. E aí passei para ele uns poemas e uns contos – nessa época eu era metido a contista também – e, no meio desse material, foi junto o ensaio sobre o Drummond, que nem lembrava de ter colocado”, conta ele. “Seguramente, o Fernando não gostou dos poemas nem dos contos. Mas nessa brincadeira, o cara disse: ‘Gostei muito do ensaio sobre o Drummond. Posso levar para ele?’. Ao que eu respondi: ‘Claro!’”, lembra Sidney, ao afirmar não ter nutrido expectativas em relação a uma resposta do poeta-maior. Passados três meses da conversa, o carteiro entregava a Sidney a primeira de uma série de cartas enviadas pelo itabirano. “Nesse dia, eu estava no Marista quando abri a correspondência e vi uma carta de Drummond falando que minha análise [sobre o suicídio em sua obra] estava corretíssima. Meu pseudônimo [no artigo] era Viçosense Inculto, e ele me mandou uma carta escrita ao ‘Viçosense (in)culto e perspicaz’”, rememora Sidney, com orgulho. Conhecido pela disposição de responder a todos, dos amigos aos desconhecidos, Drummond estabeleceu uma correspondência de fôlego com muitos interlocutores. Para se ter uma ideia, somente na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, há o registro de 1.812 correspondentes do autor de Sentimento do Mundo. Neste domingo em que chega ao fim a 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que homenageia Drummond, a Gazeta apresenta aos leitores as mensagens trocadas entre ele e Sidney Wanderley.

MARCEL GATHEUROT/REPRODUÇÃO

CARTAS A UM JOVEM POETA Drummond era conhecido pela disposição em responder por carta a quem quer que fosse: dos amigos escritores aos desconhecidos

DO PAPEL PARA OS TELEFONEMAS Foram sete anos, dez cartas e um diálogo estabelecido. Esta é a conta de Sidney Wanderley, para quem a correspondência evidencia “um diálogo real, não era delirante”. Questionado sobre a influência do contato com Drummond na sua formação como poeta, o viçosense afirma que a aproximação foi “determinante para que saísse dos poemas panfletários”. Isso porque Sidney, talvez influenciado pela própria experiência de Drummond (que passou brevemente pelo Partido Comunista), resolveu se politizar e, em 1981, ingressou no PCdoB. “Nessa época, fiz um livro pavoroso que eu ‘sacudi’ no rio Paraíba, atrás da casa que comprei em Viçosa – até hoje tem schistosoma comendo aquela literatura de péssima qualidade”, graceja. A correspondência prossegue até fevereiro de 1981, quando Drummond envia a Sidney A Paixão Medida, então seu mais novo livro de poemas. “Eu estava no auge da militância, então escrevi um artigo (A Paixão mais que Medida) panfletário e duríssimo com o livro, e mandei para ele. Eu era muito dogmático e marxista – e falava isso para um cara que já havia passado por todas as desilusões políticas”, observa. “Era um atrevimento meu e Drummond se feriu com isso”, resigna-se Sid-

ney, que continua: “Ele me presenteou com um livro e levou um cacete em troca. Isso é muito um jeito meu, que não faço muito conta da política das relações”, reconhece o viçosense cuja empáfia juvenil pôs, ainda que temporariamente, um fim na comunicação com o mineiro. “Eu sabia que tinha feito merda”, reconhece Sidney Wanderley, a quem Drummond volta a escrever somente em 1984, após receber uma carta, digamos, mais emotiva, na qual o viçosense compartilha com o poeta mineiro a notícia do falecimento de seu irmão, Sandro. “Nesse ano, morreu meu irmão de um AVC. Ele fazia mestrado em Matemática no Recife. Aí eu voltei a ler Drummond e escrevi para ele”, conta.

PELO TELEFONE Feitas as pazes, tem início uma nova fase, a dos telefonemas. “Uma vez por semestre, fazemos uma ligação e fico ventilando a ideia de uma viagem para o Rio. Em 1985, passei uma semana lá, fiquei num hotel vagabundo ali na Glória, e não tive coragem de dizer a Drummond que estava na cidade”, rememora Sidney. A correspondência entre os dois se estende até 1987, ano da morte de Drummond, e coincide com um período no qual Sidney programara uma

nova ida ao Rio de Janeiro. Já como funcionário do Banco do Brasil, o viçosense passou suas férias, no mês de agosto, viajando por diferentes cidades do sul do país. A ideia era fazer uma parada na capital fluminense antes de voltar a Maceió, e quem sabe conhecer pessoalmente o interlocutor epistolar. “Cerca de uns dois ou três meses antes de viajar eu tinha falado com Drummond, mas já sabia que a coisa não estava boa. A filha dele, que foi o grande amor de sua vida, estava com um câncer terrível. E Drummond andava muito para baixo. No meio da viagem, eu estava em Porto Alegre, passei por Foz de Iguaçu, e li que morria a filha de Drummond. Na mesma hora eu pensei: ‘Morreu Drummond’”, diz Sidney. De fato, a passagem de Drummond não tardou. Dono de um coração fraco e doente, os registros médicos apontam que o poeta teria parado de tomar os remédios que controlavam a doença cardíaca. Doze dias após a morte da filha, não resistira e partira também. “Foi um choque”, recorda Sidney Wanderley, que decreta: “De Drummond para cá o mundo está cada vez mais difícil da gente ler”. CC Continua nas págs. B2, B5 e B10


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GAZETA DE ALAGOAS, 08 de julho de 2012, Domingo

CONTINUAÇÃO DA PÁG. B1. Sidney Wanderley abriu o baú. Nesta edição, ele apresenta aos leitores da Gazeta as dez cartas que Drummond lhe enviou. Na correspondência, conselhos de um poeta no fim da vida a um escritor em formação

“DESABAFOS, ANTES DE TUDO” Em um dos raros momentos de abertura, o mineiro confessa que não possuía um projeto literário CARLA CASTELLOTTI

‡ 1ª CARTA 14 DE ABRIL DE 1980 “Caro Viçosense (In)culto e perspicaz: grata, muito grata surpresa, a leitura do seu trabalho, tão discretamente enviado, e a revelar a existência de um amigo distante, cheio de simpatia compreensiva para com a minha ver-

salhada, a remota e a de agora. Achei realmente interessante o ângulo sob o qual você considerou os meus livros. O aspecto analisado, que me lembre, não fora ainda objeto de exame. Seu trabalho, pondo de lado a inclinação benévola que o inspirou, me parece correto. A propósito, e para confirmá-lo, mando-lhe xerox de

SIDNEY COMENTA: “Em resposta ao ensaio Poesia, Canção Suicida, escrito no início de 1978 e remetido dois anos depois ao mineiro pelas mãos do sociólogo e escritor Fernando Batinga – que retornara do exílio, por motivos políticos, na França, e era amigo do Drummond. ‘Viçosense inculto’ foi o pseudônimo que utilizei no malfadado concurso da AAL. Acompanha o poema Convite ao Suicídio, dedicado a Mário de Andrade.”

REPÓRTER

Autor reservado que não falava a respeito de sua vida pessoal, Carlos Drummond de Andrade costumava dizer que tudo que precisava ser dito podia ser encontrado em seus poemas. “Desabafos, antes de tudo”. É assim que o poeta itabirano descreve sua obra para Sidney Wanderley, numa carta de abril de 1984. Embora tido como um autor cioso e exigente a ponto de ser capaz de cuidar de sua própria antologia, o poeta mineiro que passou a maior parte da vida no Rio de Janeiro afirmava não se orgulhar do que escreveu. “Tudo resultado de um impulso interior, e não de um projeto deliberado de criação literária”, escreveu, modesto. Concedida ao jornalista Geneton Moraes Neto, em sua última entrevista Drummond reafirma suas considerações ao observar: “Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético”.

um poema que nunca aproveitei em livro. Saiu na revista Verde, de Cataguases, e a dedicatória fez sofrer o meu amigo Mário de Andrade (foi, de fato, uma ideia infeliz de minha parte). Obrigado, amigo Sidney. O abraço cordial e todo o apreço do seu grato Carlos Drummond de Andrade.”

Considerado o maior poeta brasileiro (título que renegava), além de uma extensa produção – foram mais de 80 livros de poesias, contos e crônicas – Drummond deixou uma vasta correspondência. As cartas trocadas com escritores como os amigos Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Mário de Andrade são verdadeiros documentos, mas a relação epistolar que o poeta estabeleceu com desconhecidos também merece atenção.

Em 29 de maio de 2010, o jornal Folha de S.Paulo trouxe uma matéria na qual pedia a leitores que tivessem (ou soubessem de quem tinha) cartas trocadas com Carlos Drummond que as enviassem à redação. Responderam ao chamado 12 pessoas, entre elas Sidney Wanderley, que enviou ao matutino paulista uma das missivas recebidas de Drummond. Nesta edição, o leitor da Gazeta confere com exclusividade a íntegra dessa correspondência.

‡ 3ª CARTA 08 DE FEVEREIRO DE 1981 “Poeta e amigo Sidney: de forma pausada e bem, li A Vida Assim se Passando, e apreciei o toque de individualidade visível em tantos poemas do livro. Individualidade e não individualismo. Sua poesia é comunicante, exprimindo embora um jeito muito pessoal de ser e de reagir diante da vida. Você se afirma, se define, e ao mesmo tempo dá a dimensão geral do homem, na complexidade do ser pensante e sentinte. E compõe um verso forte, provocador, que não deixa o leitor indiferente. São qualidades a registrar, pelo que valem e significam. Sou grato a você pelo oferecimento dos originais e pelas palavras amigas de sua carta. O abraço do Carlos Drummond de Andrade” /// “P.S. − Segue pelo correio A Paixão Medida − C.D.A.”

‡ 2ª CARTA

finitiva de seu trabalho, que muito apreciei. Este ano um herpes danado 27 DE NOVEMBRO inutilizou boa parte de DE 1980 meu tempo, atrasando ou “Caro Sidney Wanderley: num abraço, vai meu agra- anulando a comunicação com os amigos. Abraço decimento pela remessa cordial e grato do Carlos de seus poemas, de níDrummond de Andrade.” tida personalidade. Claro que terei prazer em abraSIDNEY COMENTA: “O traçá-lo, por ocasião de sua balho a que Drummond projetada viagem ao Rio. se refere é o ensaio E, finalmente: perdoe-me Poesia, Canção Suicida, não ter acusado o redevidamente revisado.” cebimento da versão de-

SIDNEY COMENTA: “A Vida Assim se Passando, dez anos depois, se converteria no meu primeiro livro, Poemas post-húmus.”

‡ 4ª CARTA 19 DE MAIO DE 1981 “Prezado Sidney: achei divertido o caso do jovem Abud, que você me conta. Sempre considerei o plágio uma prova de admiração, que de certo modo lisonjeia o autor plagiado. Mas... não convém que o rapaz continue cultivando essa forma de admiração, não acha? Cordialmente, abraça-o o Carlos Drummond.” SIDNEY COMENTA: “Promovi um concurso de poesia no Colégio Marista, onde ensinava Biologia. Como os poemas inscritos apresentaram baixíssimo nível, premiei um aluno afoito que teve a cara de pau de copiar o poema Confissão, do livro As Impurezas do Branco, do Drummond. Remeti-o para o Drummond, que o devolveu corrigido.”


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Domingo, 08 de julho de 2012, GAZETA DE ALAGOAS

CONTINUAÇÃO DA PÁG. B1. Sidney Wanderley abriu o baú. Nesta edição, ele apresenta aos leitores da Gazeta as dez cartas que Drummond lhe enviou. Na correspondência, conselhos de um poeta no fim da vida a um escritor em formação

‡ 5ª CARTA 27 DE MAIO DE 1981 “Prezado Sidney: muito bom o texto sobre poesia no contexto de miséria e opressão. Os conselhos aos jovens são sábios, mas, se quisermos liberdade é preciso deixar-lhes a escolha de seus próprios caminhos, sem muitos preceitos e regras, incluindo as do bem-fazer. “Recebi, sim, Com os Pés no Chão, poesia certeira e comunicativa, mas, na vida que levo, sem secretário e sem tempo para dar conta das minhas obrigações, cadê folga para escrever, agradecer, comentar? Releve o silêncio, não omisso, mas cordial, do

‡ 6ª CARTA

seu, com um abraço amigo, Drummond.” SIDNEY COMENTA: “Esta carta se refere a um texto panfletário que escrevi, intitulado Poesia no Contexto de Miséria e Opressão, para uma palestra a estudantes secundaristas. Na época – e isso foi de março a dezembro de 1981 –, eu era um militante dogmático e raivoso do PCdoB. Durou nove meses essa cachaça. Já Com os Pés no Chão era um agrupamento de poemas panfletários que o editor Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, teve o bom senso de se recusar a publicá-los e a franqueza de me recomendar rasgá-los imediatamente.”

03 DE JUNHO DE 1981 “Prezado Sidney: obrigado por A Líquida Lembrança − aproximação e articulação engenhosa de elementos, que minha poesia lhe ficou devendo. Abraço do Drummond.” SIDNEY COMENTA: “A Líquida Lembrança é o título de um breve ensaio que escrevi em maio de 1981. Em

‡ 7ª CARTA

com atraso, do CDA.”

‡ 8ª E 9ª CARTAS

02 DE ABRIL DE 1984 “Sidney: sua carta é fruto de ultragenerosa avaliação dos versos que andei fazendo pela vida afora e a propósito dos quais costumo interrogar-me, duvidoso de que eles signifiquem mais do que um desabafo pessoal. Obrigado! e o abraço cordial do Carlos Drummond de Andrade” “P.S. – O comovido agradecimento, embora

SIDNEY COMENTA: “Esse tardio ‘agradecimento comovido’ refere-se ao poema Nos Oitenta Anos do Poeta Drummond, com o qual, em outubro de 1982, ganhei algumas moedas ao vencer um concurso literário em Brasília. Como já explicitei, estávamos então no período da Guerra Fria, graças àquela atrevida sova que apliquei no livro A Paixão Medida.”

22 DE ABRIL DE 1984 “Sidney, só hoje posso responder sua carta, submergido, como andei, no preparo de originais para a minha nova editora (a Record). Não preciso dizer quanto suas palavras me tocaram: foi a reação natural de qualquer pessoa sensível, nem por isso, entretanto, deixo de avaliar o que há de pura generosidade intelectual (e emocional) no juízo altamente honroso de minha poesia. Meus versos são o que são, como produto espontâneo de uma insatisfação de ver as coisas como elas se apresentam diante de mim. Desabafos, antes de tudo. A parte artística é discutível e sujeita a modismos – sou o primeiro a reconhecer, sem humildade falsa. Também não me orgulho do que escrevi. Tudo resultado de um impulso interior, e não de um projeto deliberado de criação literária. Nem dou importância superior à literatura, como uma das artes da vida.

‡ 10ª CARTA 16 DE ABRIL DE 1987 “Prezado Sidney: acho que você exagera, e muito, nos termos generosos de sua carta de fevereiro, a que uma doença rebelde só agora me permite responder. Confesso-lhe que não sou dos maiores admiradores de mim mesmo, e tenho frequentemente a sensação de que os louvores a mim dirigidos se referem antes a uma pessoa imaginária. De qualquer

modo, o agradecimento é grande e comovido. O abraço cordial e penhorado do Carlos Drummond de Andrade.” SIDNEY COMENTA: “Após a morte do Drummond, em 17 de agosto de 1987, dois meses antes de completar 85 anos, o homem pegou a mania de não mais responder às minhas cartas. Pouco importa. Carta mole em lápide dura, tanto bate até que...”

julho desse ano escrevi outro artigo intitulado A Paixão mais que Medida, sentando o pau no livro A Paixão Medida, que Drummond havia me presenteado em fevereiro. Ficamos quase três anos sem ‘cartinha vai, cartinha vem’. E, convém observar, nas duas próximas cartas Drummond suprimiu o ‘Prezado’ e me tratou apenas por ‘Sidney’. Raiva de mineiro é fogo!”

Para mim, ela tem sido um processo de expressão de ideias e sentimentos não propriamente literários. Uma terapia verbal... “Obrigado por tudo de bom que há na sua carta. O abraço cordial do Carlos Drummond.” SIDNEY COMENTA: “Estas duas últimas cartas, Drummond escreveu-as em resposta a uma carta que lhe enviei logo após a morte, por AVC, do meu irmão Sandro, aos 23 anos, no Recife, onde concluía o mestrado em Matemática.” “De 1984 a 87, uma vez a cada seis meses, mais ou menos, eu ligava para o itabirano. Quando o homem estava no apê da rua Conselheiro Lafayette, conversávamos por breves minutos, e eu desfrutava daquele fio de voz rouquíssima e prestes a sumir. Quando o homem não estava em casa − andava em alguma livraria ou nos braços da amante Lygia Fernandes −, dona Dolores, a legítima, sugeria-me ligar mais tarde ou em outro dia.”


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GAZETA DE ALAGOAS, 08 de julho de 2012, Domingo

LIVROS & IDEIAS ARREDORES VIDA BOA CONTINUAÇÃO DA PÁG. B1. Jornalista que coleciona reportagens lendárias, Geneton Moraes Neto conta à Gazeta como um pingue-pongue ‘telefônico’ com Carlos Drummond de Andrade acabou por se transformar em livro

TOM CABRAL/DIVULGAÇÃO

A ENTREVISTA QUE VIROU TESTAMENTO CARLA CASTELLOTTI REPÓRTER

“A condição de repórter em Geneton é imbatível”. É assim que o correspondente de guerra Joel Silveira (1918-2007) descreve o autor de Dossiê Drummond. O elogio não é mera retórica. Profissional para quem a “reportagem é o melhor passatempo do mundo”, no livro Geneton apresenta a íntegra da entrevista que fez com o poeta e reúne relatos de 45 personalidades acerca do mineiro de Itabira. O jornalista pernambucano lembra que tudo aconteceu após ele ser desafiado pelo silêncio de décadas do poeta-maior. Mesmo sabendo que naquele 1987 Drummond enfrentava dois problemas

sérios (o coração doente e Julieta, sua única filha, presa a uma cama de hospital), o repórter cujo currículo arquiva entrevistas lendárias estava, como de costume, munido de sua implacável curiosidade. Assim, seguiu adiante. Como pretexto para o pingue-pongue, ele se utilizou da passagem dos 70 anos do poema No Meio do Caminho. Sabendo que seria mais fácil conseguir a entrevista por telefone, já que Drummond era tido como um sujeito “eminentemente telefônico”, Geneton preparou um questionário com 70 perguntas e arriscou o pedido. “Deu certo”, conta o repórter, que contabiliza: “Transcrito, o telefonema rendeu nada menos que duas mil linhas datilografadas”.

O que Geneton não podia prever é que aquela seria a última vez que Drummond, o autoproclamado urso polar, homem que fugia dos repórteres, falaria a um jornalista. Dezessete dias após a conversa, o poeta morreria. A seguir, o jornalista fala sobre a elaboração de Dossiê Drummond. Confira.

Gazeta. Qual o primeiro ‘estalo’ que o fez querer entrevistar Drummond? Geneton Moraes Neto. Durante décadas, o “silêncio” do maior poeta brasileiro serviu como desafio para os repórteres. Drummond repetia que tudo o que tinha a dizer poderia ser encontrado em seus poemas e crônicas, o que não deixa de ser verdade. Mas é claro que todo repórter cu-

Para Geneton, uma das funções do jornalismo é produzir memória: “Neste caso, dei por cumprida a tarefa”

rioso teria uma lista de perguntas a fazer a ele. Eu tinha. Preparei cerca de 70 perguntas. Como sabia que ele gostava de falar por telefone, mas fugia do contato pessoal, tentei uma investida telefônica. Deu certo. Ao todo, foram 76 perguntas e respostas, devidamente gravadas. Transcrito, o telefonema rendeu nada menos que duas mil linhas datilografadas. Dezessete dias depois, o poeta estava morto. A entrevista terminou se transformando numa espécie de testamento. A

NINHO DE COBRAS ∫ Autor: Lêdo Ivo ∫ Editora: Topbooks ∫ Preço: R$ 23 (184 págs.)

AMOR LÍQUIDO Autor: Zygmunt Bauman ∫ ∫ Editora: Zahar ∫ Preço: R$ 42 (192 págs.)

“Nunca lhe Apareci de Branco, de Judith Farr, um romance construído a partir de cartas fictícias de/para a poeta Emily Dickinson, muito criativo e intrigante; Tratado sobre a Tolerância, do Voltaire, que é quase tão chato quanto uma dissertação de mestrado, mas Voltaire é sempre genial; Amor Líquido, de Zygmunt Bauman, que é o meu mais novo livro favorito; e estou relendo Ninho de Cobras, de Lêdo Ivo, que é um romance eletrizante, com texto superafiado e questionamentos de arrepiar – principalmente para os ‘viventes das Alagoas’”. Lael Correa, dramaturgo

Você é fã de Drummond, não é? Sua admiração o motivou a escrever o livro? O projeto não era exatamente escrever um livro, mas entrevistar o poeta. Quando o procurei, disse que estava pensando em publicar um livro sobre os setenta anos do célebre poema No Meio do Caminho. Era um pretexto para abordá-lo. Sou admirador do Drummond – que era melhor como poeta do que cronista. Produziu algumas poesias descartáveis, coisas de ocasião. Mas é autor de uma extensa coleção de poemas definitivos, como Consolo na Praia ou A Máquina do Mundo – um poema que, sem exagero, é uma obraprima, um momento altíssimo da poesia. Você já disse que a regra número zero do jornalista é sempre duvidar. Acredita que é importante enfrentar todo entrevistado? Não é questão de “enfrentar”: a dúvida é uma qualidade que todo repórter deve cultivar. Porque duvidar é a melhor maneira de descobrir.

RICARDO LÊDO/ARQUIVO GA

TRATADO SOBRE A TOLERÂNCIA ∫ Autor: Voltaire ∫ Editora: L&PM ∫ Preço: R$ 15 (128 págs.)

NUNCA LHE APARECI DE BRANCO ∫ Autor(a): Judith Farr ∫ Editora: Rocco ∫ Preço: R$ 24,90 (257 págs.)

íntegra foi publicada no Dossiê Drummond. Digo que uma das funções do jornalismo é “produzir memória”. Neste caso, o repórter produziu “alguma memória” sobre o autor de Alguma Poesia. Dei por cumprida a tarefa.

minha estante

LUIS FERNANDO VERISSIMO

Você enfrentou Drummond em algum momento? Qual? Não houve um enfrentamento, mas um “interrogatório” de um poeta que sempre se resguardou. Só depois dos 70 anos é que ele começou a abrir “brechas” para os repórteres. Uma declaração reveladora que ele deu é aquela em que diz que fez poesia para tentar resolver um sentimento de inadaptação ao mundo. Em suma: a poesia de Drummond funcionou, para ele, como uma espécie de psicanálise.

Creio que, em duas rodadas de perguntas, fiz as perguntas que gostaria de ter feito. Preparei, com antecedência, um extenso questionário. Quando liguei, já tinha diante de mim a lista de perguntas. Não foi improvisado. Depois, voltei a ligar, para tirar dúvidas. Nesta segunda abordagem, ele me disse algo que posso tomar tanto como elogio quanto como queixa: Drummond disse que eu era “implacável”. Por via das dúvidas, tomei como “elogio”, mas sei que ele estava constatando, também, a insistência do repórter. É a vida.

A busca por nomes que pudessem falar sobre Drummond se deu após a morte do poeta. Você estabeleceu algum critério para a seleção? Se sim, por quê? Obtida a entrevista, caí em campo para ouvir gente que – de uma maneira ou de outra – era ligada ao poeta. Ao todo, foram 45 entrevistas. Num certo momento, tive de parar, porque, senão, terminaria escrevendo uma Enciclopédia Drummond. Mas o Dossiê Drummond, creio, é um retrato interessante do maior poeta brasileiro, uma maneira de tentar entender o homem e o poeta. Aos que não conhecem a obra de Drummond, pode ser uma boa maneira de começar a descobri-lo.

Serviço DOSSIÊ DRUMMOND Autor: Geneton Moraes Neto Editora: Globo Livros Preço: R$ 37 (472 págs.)

Foram mais de 70 perguntas dirigidas ao poeta. Faltou alguma coisa?

“Daqui a 200 anos ninguém mais vai saber quem eram Tom Cruise, Katie Holmes e Armani. A Igreja da Cientologia não existirá mais”

TOM E KATIE

Tom Cruise e Katie Holmes estão se separando. Me lembrei do que escrevi quando eles se casaram, pelos rituais da Igreja da Cientologia. Armani fez não só a roupa do noivo e da noiva para o casamento como a da filhinha de meses do casal – e eu fiquei com a vaga impressão de ter feito um resumo da nossa civilização numa frase. Se me pedissem uma frase para colocar em alguma cápsula do tempo, para ser aberta daqui a 200 anos, eu submeteria o que escrevi. Daqui a 200 anos ninguém mais vai saber quem eram Tom Cruise, Katie Holmes e Armani, embora a filha deles talvez tenha alcançado alguma forma de eternização científica e ainda viva, ela também dentro de uma cápsula. A Igreja da Cientologia não existirá mais – ou será a principal igreja do mundo, tendo crescido muito depois que 100 islamitas disfarçados de cardeais explodiram-se ao mesmo tempo dentro da catedral de São Pedro, arrasando o Vaticano. Mecca foi arrasada em represália, e o público

perdeu um pouco do entusiasmo pelas religiões maiores. O casamento de Tom e Katie, vestindo Armanis, se deu numa pequena cidade à beira de um lago, perto de Roma, escolhida pela sua paisagem romântica, e foi assistido só por convidados. Tom e Katie e a filhinha não apareceram para o público e é provável que nem tenham visto a paisagem, já que não chegaram perto de nenhuma janela. Na nossa civilização era assim, as celebridades escolhiam cuidadosamente e anunciavam os lugares em que não queriam ser vistas, e não eram vistas. Em outros tempos isto seria considerado, no mínimo, um desperdício de Armanis. No nosso tempo as celebridades tinham se tornado uma espécie de abstração. Eram apenas projeções de si mesmas, o que garantia a exposição controlada sem o risco de esbarrão ou perguntas cretinas sobre a criança, por exemplo. Mas nem mais em pequenas cidades italianas era incomum a noiva casar de barriguinha, ou com o filho já nasci-

do e vestido. Para que daqui a 200 anos não pensassem mal de nós lendo sobre o casamento ostensivamente fechado de Tom e Katie, eu incluiria na cápsula o recorte de outra notícia que li mais ou menos na mesma época. Num hotel de Las Vegas uma sucursal do Museu de Cera da Madame Tussauds tinha planejado fazer o casamento de Angelina Jolie e Brad Pitt, ou de reproduções em cera e tamanho natural dos dois, numa cerimônia que não só o público poderia ver de perto como seria assistida por convidados especiais como John Wayne, Elvis Presley, Liberace, Ronald Reagan e outros, além de, provavelmente, Tom Cruise e Katie Holmes, todos feitos de cera. Alguém achou que seria de mau gosto e a ideia foi abandonada. Pena. O casamento real de Angelina e Brad também foi num lugar conspicuamente à prova da nossa curiosidade, mas no futuro saberiam que pelo menos tentamos trazê-lo para a realidade. Ou coisa parecida.

Literatura - Cartas a um jovem poeta  

Por sete anos, o poeta Sidney Wanderley manteve uma correspondência com Carlos Drummond de Andrade. Aqui, você confere as cartas e a relação...