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Escrito por C.Barreto Ilustração por C.Bonomi

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Capítulo 1. A Entrevista

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quele era um dos raros momentos em que o Sr. Douglas ficava sentado, sem mover, consertar ou reformar coisa alguma. Aos 89 anos, Douglas era do tipo raro de pessoa que precisa estar sempre ocupada com algo, desprezando fortemente os momentos de descanso e ociosidade. Naquele momento, entretanto, havia um motivo nobre para sua paciência estar sendo exercitada: seu ultimo projeto estava sendo escrito, e ele não era o autor. Durante a maior parte de sua vida, Douglas escreveu novelas e minisséries para uma emissora televisiva brasileira. Sua “fórmula”, entretanto, não seguia o padrão da época, de modo que, mais tarde, Douglas seria considerado o percursor de um gênero chamado de “Nova Teledramaturgia”. Quando era jovem, Douglas era um rapaz magricela, com cabelos cacheados e olhos vivos e brilhantes. Possuía, também, uma paixão secreta por explosivos, fogos de artifício, e qualquer coisa que envolvesse pólvora. Fora justamente esta paixão que o levaria, por puro acaso, a sentir o prazer de escrever histórias. Porém, Douglas não era mais jovem, já havia esquecido os explosivos, já não tinha mais os cabelos cacheados (estes foram substituídos por uma careca lisa) e seus olhos não possuíam o mesmo brilho, embora ainda apresentassem uma certa vivacidade juvenil. Sem dúvida, Douglas era um homem de espírito jovem. Porém, tinha consciência de que seu coração doente logo pararia de bater e seu espírito deixaria aquele corpo para... Para o quê? 4


Douglas não tinha uma ideia, apenas sabia que a morte viria e que dela não voltaria, ao menos não da mesma forma. Por estar ciente de sua condição, Douglas aceitou o convite de uma jovem jornalista que se mostrou interessada em escrever uma biografia sobre ele. A proposta era tentadora, Douglas tivera uma vida muito intensa e cheia de histórias curiosas para relatar, além disso, seu sempre presente ego gostava da ideia de ser eternizado num livro. Desta forma eles começaram, todos os dias (Douglas tinha muito tempo livre, agora que estava aposentado e morava numa espécie de asilo) se encontravam nos jardins por cerca de duas horas, onde se sentavam e a jovem começava a lhe fazer perguntas, que às vezes rendiam respostas de mais de uma hora. Ela se chamava Joana, tinha os cabelos longos, lisos e castanhos. Usava uma saia que, anos atrás, seria considerada curta demais para um jornalista, e sua cruzada de pernas fazia Douglas ter uma breve lembrança de sua já adormecida libido. Ela sorria com frequência e demonstrava muito interesse. Sem dúvida, não era uma jovem comum. Os dois estavam sentados próximos a uma pequena fonte japonesa que fora instalada na década de 60, era o local favorito de Douglas. - Bom, parece que estamos finalizando. – disse a jovem com um sorriso. – Sem dúvida sua vida fora mais interessante do que a de muitas estrelas do rock, Sr. Douglas. - Bondade sua. – respondeu Douglas, com seu jeito particular de sugerir falsa modéstia. Entretanto, desta vez, havia algo de diferente em seu semblante. Ele nunca parecera tão velho, nem tão cansado e ansioso ao mesmo tempo, com as rugas da testa completamente flexionadas, de fato, parecia que nunca mais voltariam a seu aspecto normal (que também possuía rugas, porém não tão acentuadas). A Jovem esperou que Douglas lhe dissesse algo, mas ele não o fez, até que ela decidiu quebrar o silêncio. 5


- Senhor Douglas, está tudo bem? Douglas pareceu ser despertado de uma espécie de transe, mas tratou de responder rapidamente. - Sim, sim... - Então, há algo que queira acrescentar? – Seus instintos a guiavam a fazer-lhe esta pergunta, de fato, eles não estavam errados, e o tempo excessivo que Douglas ficou em silêncio antes de responder já haviam confirmado isso. - Bem, na verdade receio que esta biografia esteja incompleta sem um episódio crucial para minha vida. Mas, se eu lhe contasse, iria dizer que não passam de delírios de um velho louco. Joana pareceu um pouco chocada com o comentário, mas não hesitou. - Eu nunca diria isso, Sr. Douglas. Por que não me conta sobre isso? É algo recente? - Muito pelo contrário, é algo que me motivou a contar histórias logo na infância. Mas, como eu disse, não é uma história fácil de acreditar. - Ora, Sr. Douglas, aqui há muitas histórias difíceis de acreditar e ainda sim eu não duvido da autenticidade de nenhuma delas. - Cara Joana, você acredita no sobrenatural? - Como disse? - Você acredita em forças ocultas? Em magia? Em bruxas? - Mas é claro que não. O Senhor acredita? - Evidentemente, pois não haveria outra forma de explicar o que me aconteceu quando eu tinha apenas 13 anos. - Conte-me. - Muito bem... Embora eu duvide que esta parte possa, um dia, ser publicada como um acontecimento real. “Acho que não poderia me lembrar tão bem do que aconteceu se não fosse algo tão... Peculiar.”. 6


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Capítulo 2. Memórias em fragmentos

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em, a algumas quadras de minha antiga casa havia uma rua longa e estreita que terminava com um velho depósito repleto de caixas que pareciam estar lá há séculos. Embora eu tenha estado naquela rua milhares de vezes, não saberia lhe dizer o nome dela, nunca soube. Não que eu não tivesse jamais ouvido alguém dizer seu nome, ou que nunca tivesse lido a placa de sua esquina, mas aquela era uma informação completamente irrelevante para minha mente, que tratou de nunca memoriza-la. É engraçado como essas coisas nunca acontecem na ficção, não acha? Nos filmes e livros as pessoas sempre se lembram dos lugares pelo nome, além de lembrarem exatamente há quanto tempo estiveram lá pela ultima vez. E quando encontram algum conhecido, não visto há muito tempo? Elas sempre têm na ponta da língua a quantidade de anos que se passou desde que se viram. Curioso... Enfim, eu conhecia aquele lugar como Rua do Depósito, onde ficava o Deposito Abandonado, que era o local perfeito para se soltar algumas bombinhas. E lá estava eu, naquele dia do qual não me lembro a data (somente me recordo que eu tinha 13 anos), pronto para me divertir estourando algumas caixas, quando um veículo parou exatamente na frente da porta do depósito. Lembro-me de ter pensado que aquele poderia ser o dono do local e eu estaria encrencado caso ele me surpreendesse lá, porém, não poderia sair pela porta da frente sem dar de cara com o sujeito, nem havia outra forma de escapar, pois as outras portas estavam trancadas. Desta forma, fiz a coisa mais sábia 8


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que um garoto de treze anos poderia fazer: me escondi atrás das caixas. Pude ver, vagamente, que o veículo era grande, de fato, tenho quase certeza que se tratava de uma van preta. Ouvi o barulho de portas batendo e dois homens entraram logo em seguida, carregando uma maca. Na maca havia algo coberto por um pano negro, parecia bem improvisado e feito às pressas. Um dos homens era moreno, usava roupas negras e tinha um chapéu na cabeça. O segundo era um homem pequeno, usava óculos e eu acho que era loiro. Os homens deixaram a maca no chão, sem qualquer cuidado, e então o de chapéu disse: - Will, tem certeza de que podemos usar este lugar? O homem de óculos assentiu, respondendo com a voz mais serena que eu já ouvi sair de um homem: - Eu conheci o dono, o local está abandonado há décadas. Agora, pode me dizer o que aconteceu, Matt? - Ainda não. Preciso voltar e falar com o garoto, se ele ainda estiver lá... Você pode ver se descobre algo, enquanto isso. O homem de óculos, que acredito podermos chamar de Will, concordou e logo estava sozinho com o corpo (e comigo). Bom, o que se seguiu então foi extremamente perturbador. O homem de óculos tirou o pano negro e revelou o corpo de um homem gordo, ou, pelo menos, que já fora gordo. Naquele momento ele parecia gelatinoso e amassado, sangue saía de cada orifício possível e seus olhos haviam saltado das órbitas. Posso dizer que eu nunca vi alguém tão morto. O homem de óculos, entretanto, não parecia surpreso, ao invés disso, deu um suspiro de cansaço, como se dissesse: “De novo isso?”. E então ele abriu uma grande mala de viagem que deixara no canto na sala e tirou de dentro dela uma maleta e um avental branco, que vestiu logo em seguida. Com um controle remoto, ativou uma espécie de dispositivo na maca que a fez se erguer e ficar com o aspecto de uma mesa de raios-X. 10


O sangue do homem gordo pingava no chão e criava uma pequena poça. Se eu fosse mais velho, ou se não estivesse tão assustado, entenderia logo de imediato que aquilo iria se transformar numa autópsia. O homem de óculos tirou um gravador da mesa, ligou, e começou a narrar o que estava fazendo. Eu estou certo que muitos se sentem enojados com esse tipo de coisa, eu mesmo me sentiria ao ver uma autópsia comum, mas aquela era muito pior. Estou certo de que o corpo humano não deveria ficar daquele jeito, a menos que você tenha sido atingido por uma bomba nuclear. O médico abriu a caixa torácica do homem e mais sangue jorrou. Então, ele começou a retirar seus órgãos, mas eles estavam viscosos, quase derretidos. O intestino dele se despedaçou e, por Deus, me recordo de ter visto seus testículos caírem, sozinhos, na poça de sangue no chão. Logo o gordo cadáver estava aberto e vazio, e o depósito era um pequeno mar de sangue. O homem de chapéu voltou a entrar alguns minutos depois. - Oque aconteceu aqui? – perguntou fitando o sangue no chão. A essa altura, os órgãos do homem morto haviam sido colocados em recipientes transparentes que o homem de óculos tirara da mala. - Agora sabemos por que nunca conseguimos um corpo antes. Eles simplesmente vão se desmanchando, aposto que logo não sobrará nada, mas eu peguei algumas amostras. O homem de chapéu assentiu. - Matt, você ainda não me disse o que aconteceu lá dentro. - O garoto era um michê. - Isso quer dizer que esse sujeito... - Era um cliente. Enquanto faziam... Coisas, a lâmina se materializou nos intestinos dele. - Uh... Isso deve ter doído. Mas não havia nenhuma lâmina... - Está comigo. A Bruxa fez o garoto puxá-la de dentro dele. - Como? 11


- Através do ânus. - Oh... Mas isso reforça minha teoria de que aquela Bruxa está profundamente ligada ao sexo, embora eu não saiba como podemos usar isso. - Sim, havia indícios em Lawrence de que ele fora submetido ao ato sexual. Encontramos seu esperma no porão da casa de Isadora. Também havia vários cortes no seu corpo, inclusive no ânus. - Pobre rapaz... Ao menos ele sobreviveu. - Sim, mas sua mente não teve a mesma sorte. - Bem, onde está a lâmina? - Está no porta-malas. Não me sinto muito seguro em tocála depois do que houve ontem. - Você se refere ao homem da Rua Condor? - Sim. Um sujeito de cinquenta anos, histórico exemplar. Como alguém assim de repente mata a mulher e os dois filhos, esquarteja os corpos e depois se suicida engolindo uma lâmina exatamente igual a que está comigo? - São mesmo idênticas? - Sim, semelhantes a um naipe de espadas, porém sua ponta é prolongada, 28 centímetros exatos. - Isso, é claro, se o homem que morreu for mesmo o autor do crime. - Eu duvido. Talvez suas mãos tenham executado o ato, mas ele não estava em si. Bom, vamos vê-la. Os dois homens saírem então, e eu sabia que iriam até o carro. Eles deixaram a porta entreaberta, se eu fosse rápido e silencioso o suficiente poderia abrir a porta com cuidado, apenas o bastante para que eu pudesse passar por ela, e então me lançar na escuridão da Rua do Depósito, correndo o mais depressa possível. Foi o que tentei fazer. Dei passos silenciosos, porém rápidos, em direção à porta. Passei pelo corpo aberto e pude ver seu interior, ensopado em sangue. Tive de fazer força para não vomitar, mas consegui. 12


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Quando estava a meros três passos da porta, senti uma espécie de frio, semelhante ao que sentimos quando estamos numa montanha russa, porém, aquele não era prazeroso, não tinha adrenalina, era apenas medo, medo em sua mais pura forma, e eu nem sabia do quê, ainda. Algo em meu subconsciente gritava ferozmente para que eu corresse e não olhasse para trás, algo me dizia que se eu olhasse veria coisas terríveis. E então, antes que eu pudesse agir, eu ouvi uma voz. Era fria, mecânica, quase desumana, mas era uma voz feminina. Ela me disse “Hey, pequeno Douglas!” como um amigo chamando o outro, “Não quer brincar aqui dentro?”. Eu não pude evitar e olhei para trás, porém, lá não havia nada, exceto o corpo do homem gordo, que ainda parecia morto. Eu estava pronto para me convencer de que fora minha imaginação, quando ouvi a voz de novo “Qual o problema? Não gosta de brincar? Aqui tem muitas coisas para você estourar”. E então, com um calafrio que me fez tremer até os ossos, eu pude identificar de onde vinha aquela voz. Ela vinha de dentro do corpo, mais precisamente, do buraco aberto no tórax do homem. Em momentos como esse, quando você tem provas de que algo sobrenatural está acontecendo bem a sua frente, sua primeira reação não é o medo, este vem depois, primeiro você entra numa espécie de transe, que mistura curiosidade com perplexidade, como se todos os seus neurônios estivessem trabalhando para encontrar uma explicação plausível para aquilo. Os meus não encontrariam. Em algumas pessoas este estado dura apenas um segundo, porém, no meu caso, ele durou vários segundos, e eu fiquei lá, encarando o corpo. Foi então que, de dentro do tórax do homem, começou a emergir algo negro e pontudo. A coisa emergia lentamente e seu diâmetro ia ficando cada vez maior. Só pude reconhecer as formas de um chapéu quando os olhos da... Coisa que o usava apareceram. E que olhos eram aqueles? Completamente negros, negros como o céu noturno, porém muito mais brilhantes. 14


Logo um rosto envelhecido, impossivelmente velho, me encarava com um enorme sorriso de dentes pontudos e amarelos. Um rosto de bruxa, sorridente e todo manchado de sangue, saindo de dentro de um corpo aberto que se desmanchava... “Não quer brincar, Douglas?” Sua voz era mais suave dessa vez, “O que você acha de uma chupada? Eu posso te dar uma chupada!”. Os olhos dela mudaram nesse momento, enchendose de pontos brancos de luz, como se ela estivesse tentando parecer amigável, e aquilo só me deu mais horror. Ela estava colocando seus dedos para fora quando eu finalmente corri. Corri tanto e tão rápido que, antes de perceber, já estava em frente a minha casa. Não sei dizer se os dois homens me viram sair, mas, se viram, não resolveram me perseguir. E então eu esperei que qualquer coisa sobre aquilo fosse noticiado, esperei por dias, esperei até não poder mais e finalmente voltar ao Depósito Abandonado. Não havia sinal de corpo, dos dois homens, de sangue, ou daquela bruxa que me aterrorizara, parecia que nunca haviam estado lá. E, veja bem, eu teria acreditado que tudo fora um sonho, se não fosse pelo fato do crime da Rua Condor realmente ter acontecido, e eu não tinha ciência disso até ouvir o homem de chapéu falando sobre. Aquele crime foi comentado durante semanas, impedindo que eu esquecesse aquele dia no Depósito Abandonado, de fato, eu não o esqueceria de forma alguma.

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Capítulo 3. Sorriso

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oana permanecia em silêncio, não parecia ser capaz de dizer nada sobre o relato que Douglas acabara de fazer.

- Eu sabia que ninguém acreditaria em mim. – disse ele, por fim, - Então escrevi uma história contando o que acontecera, e, desde então, nunca mais parei de contar histórias. - Senhor Douglas, não é possível que isto tenha sido só um sonho, de fato? Douglas sorriu. Um sorriso que ficaria marcado para sempre na mente de Joana, toda vez que se lembrasse dele. - É o que eu havia dito, Joana. É uma história difícil de acreditar. Joana não publicaria esta parte da história, mesmo que acreditasse nela, não via como publicá-la sem parecer que, ao invés de uma biografia, estava escrevendo um conto fantástico. Após alguns anos, se tornaria uma jornalista bem sucedida e se casaria com um médico. Nunca, porém, se esqueceria da história de Douglas. Às vezes, enquanto sonhava, veria um rosto extremamente velho olhando para ela, com olhos brilhantes e um grande sorriso amarelo, deixando escapar um hálito putrefato que ela quase podia sentir nos sonhos. “Hey, Joana, você não quer alguns doces? Ou prefere uma chupada?”

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III

Voyeur  

"Um velho depósito abandonado. Um garoto que assiste, por mero acaso. Três homens, dois vivos, um morto. E... Algo mais, esperando nas sombr...