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Escrito por C.Barreto Ilustração por C.Bonomi

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“Oh, it’s torture And I am almost there It’s torture But I am almost there…” Torture, The Cure

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Capítulo 1. O velho amigo Will

H

á alguns dias, enquanto conversava com um velho amigo no restaurante Belgo, em Earlham Street, Londres, ele tirou dos bolsos de um bonito casaco marrom que usava um bloco de cerca de 10 páginas manuscritas. Eu poderia ter imaginado qualquer coisa sobre aquilo, qualquer coisa que poderia estar escrita à mão naquelas páginas amarelas e borradas que pareciam ter mil anos, qualquer coisa. Mas, ao ver os olhos de meu amigo brilharem de forma tão sinistra, sua boca adquirir uma rigidez mórbida e sua testa ser tomada por fortes linhas de expressão, eu tive certeza que se tratava de algo relacionado Àquela Coisa. Instantaneamente, eu tive raiva. Por que diabos ele decidira reviver este assunto que me causara tanta dor no passado e me tirara tudo o que valia a pena ter? Eu senti tanta raiva quanto era possível sentir em 10 segundos de profundo silêncio.

Ele decidiu falar primeiro.

“Matt, eu sei que...” ele não terminou a frase, provavelmente detido pela expressão de profundo rancor que se formou em minha face. Mais tarde, após ler aquelas páginas e me sentar com uma boa xícara de chá, eu confessaria a mim mesmo que toda aquela raiva nada mais era do que uma autodefesa, uma forma de preencher todo o espaço disponível em minha mente, impedindo que o medo se alojasse nos pequenos orifícios, nos pequenos e mais escuros orifícios. Mas não naquela hora. Naquele momento eu estava fora de mim. Por que meu amigo estava fazendo aquilo comigo? 6


Não era correto, não era humano, e eu queria lhe dizer isso, queria lhe gritar parar guardar aquelas páginas e ir embora. Mas eu não pude. Talvez, por ter me lembrado dos momentos terríveis em que lutamos contra Aquela Coisa, de como nos salvamos mutuamente e de como saímos daquilo vivos, ou quase. Talvez, fosse a simples natureza da situação, é possível que eu não fosse capaz de deixar, propositalmente, alguma peça solta neste grande quebra cabeça, pois durante muitos anos juntar todas elas e matar Aquilo eram meus únicos objetivos no mundo. Desta forma, eu hesitei. Minha raiva voltava para o lugar de onde viera e só uma velha e inconfundível tristeza preencheu minha existência. “Isso é mesmo importante, Will?” Fui capaz de dizer. “Porque se não for, eu...”. “Nunca te perturbaria com isso, caso não fosse”. Respondeu-me Will. “Sei que você mantém um arquivo documentando tudo que encontrou sobre... Aquilo. Inclusive um diário relatando o que nós fizemos quinze anos atrás”. Não sei dizer como Will descobriu sobre meu arquivo, mas não seria impossível que, quinze anos atrás, ele tivesse me surpreendido escrevendo num pequeno diário de couro durante a madrugada, ou mesmo remexendo coisas numa velha caixa de televisão que usei (até dois anos atrás, quando as transferi para algo mais moderno) para guardar meus artefatos sobre Aquela Coisa. “Acha que essas páginas deveriam ser acrescentadas à minha ‘coleção’? “ pronunciei esta ultima palavra com um desprezo tão grande que não sei como meu amigo Will teve forças para 7


continuar me olhando nos olhos. Ele assentiu. Pela primeira vez até então, examinei com calma aquelas paginas, presas nas mãos de meu amigo, como se ele estivesse disposto a escondê-las e desistir de me mostrá-las, caso decidisse que eu não suportaria vê-las. De fato, pareciam ter mil anos, estavam amaçadas, frágeis, amarelas (ou quase marrons) e o cheiro que emanava delas lembrava o antigo cemitério de Peace em dias de chuva, quando a terra ficava ensopada e o barro negro descia para a Rua das Orquídeas, carregando pequenas partículas dos mortos. “Onde encontrou isso?” não era essa a pergunta que eu pretendia fazer, de fato, eu queria dizer “Isso não veio do cemitério de Peace, não é?” Mas eu não pude, não pude... “Matt, eu sei que essas páginas parecem ser muito antigas, mas não podem ter mais de quinze anos”. Quinze anos, novamente o período de tempo que marcara o fim de minha busca, bem como minha grande perda. “A Sra. Fleming me entregou há pouco menos de um ano. Segundo ela, estavam numa tumba violada de Peace, e não passaram mais do que três semanas enterradas”. Will fez uma pausa, como se estivesse esperando minha permissão para continuar. Eu assenti. “A Sra. Fleming sabia quem era o autor, porém, mesmo se não soubesse, com poucas horas de pesquisa eu poderia ter chegado ao nome correto. O autor era um garoto de 19 anos, registrado com o nome de Oscar Stewart, nome de seu pai, que preferiu não incluir o nome Fleming, de sua esposa, no filho. Sim, este garoto era neto da velha senhora Fleming, em8


bora a própria não tivesse conhecimento sobre sua existência, até ser tarde demais. Sua filha havia fugido de casa quando completou dezoito anos, para se casar com um rapaz com sérios problemas com álcool, e veio a falecer 5 anos depois, enquanto dava a luz. A Sra. Fleming nunca recebeu qualquer noticia da filha.” “A Marca do Sangue...” murmurei mais para mim mesmo do que para Will. “Sim, Aquilo seguiu o sangue da Sra. Fleming até o garoto, e as consequências foram trágicas. O que não posso explicar é o fato de haver uma tumba com seu nome em Peace, levando em conta que o garoto supostamente morreu queimado no Brasil”. E então, veio o sentimento que eu tanto temia: o medo, a culpa, as lembranças amargas. Não eram sensações isoladas, eram conjunto de uma só coisa, que só Aquilo era capaz de provocar em mim. Eu já tinha ideia do que encontraria naquelas páginas. “O jovem garoto de programa?” perguntei. Will confirmou. “Matt, você viu o corpo, não duvido disso. Mas a forma como ele desapareceu é...”. Surpreendendo mais a mim mesmo do que a Will, eu bati na mesa em que estávamos com os punhos cerrados. As pessoas em volta nos olharam por alguns momentos e eu enrubesci, Will havia perdido a coragem.

“Will, nós já discutimos sobre isso. Em quinze anos, não 9


houve qualquer indicio de que ele se tornou parte Daquilo. Provavelmente matá-lo era o único objetivo”. “Eu concordaria com você, Matt, até alguns meses atrás eu concordaria. Se não fossem estas páginas... Começo a pensar que estivemos procurando os indícios errados”. “O que quer dizer? Acha que Aquela Coisa esteve ou ainda está ativa no garoto?” “Receio que sim, mas quero deixá-lo tirar suas próprias conclusões. Se você julgar que isso é bobagem, prometo nunca mais tocar no assunto”. O que veio a seguir não é relevante, não até o momento em que me despedi de Will, prometendo encontra-lo na próxima semana. Não até o momento em que, sentado em minha poltrona, leria aquelas paginas.

Escrito por Matt em 18 de dezembro de 2017.

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Capítulo 2. Doze horas, quinze anos atrás.

A

credite, não há nada como um banho gelado para fazer uma pessoa se sentir viva. Se este banho acontecer em plena madrugada, e se você estiver sem energia elétrica, melhor ainda. Eu estou no meio do nada, e nunca pensei que faria o que acabo de fazer, muito menos que me sentiria tão... Feliz? Porém, antes do grande momento, sinto-me tentado a contar como meu mundo mudou drasticamente em poucas horas. Doze horas, este foi o tempo que levou para que eu me transformasse num assassino, não que eu fosse algo muito melhor antes, mas ao menos não havia sangue em minhas mãos. Agora, por mais que eu as lave, isso continua lá, acompanhado pelas memórias surreais e pela voz que me guia desde então.

12h01min p.m. – Não perguntar é um bom sinal

Eu estava saindo da minha tediosa aula de segunda-feira, a aula havia sido prática então eu estava soado e cansado, mas não tão soado e cansado quanto os outros caras pareciam estar. Afinal, nem todos praticavam exercícios com a mesma freqüência que eu pratico. Cursar Educação Física foi uma escolha natural, é claro que com minha mente fértil eu poderia ter escolhido milhares de coisas, mas há algo em mim muito mais forte do que minha mente. 12


Enfim, lá estava eu, dando um tempo até os outros caras saírem do banho, como sempre fazia. Eles costumavam dizer que provavelmente meu pênis era tão pequeno que eu tinha vergonha de ficar nu em publico. Bem, o problema era quase o oposto, meu medo era que meu pênis não permanece pequeno quando eu visse os deles. Nunca fui um cara que participa de conflitos. Minha vida já tem ação o suficiente no meu trabalho, então passo o resto do tempo tentando não me envolver com nada nem ninguém. Para alguém do meu tipo, não é o melhor a se fazer? Bem, lá estavam eles, saindo mais cheirosos e com cabelos molhados. Eles me olhavam com um riso irônico tentando me causar raiva, isso fazia meu pênis formigar e eu sentia vontade de fode-los até não sobrar nada deles. Até aí nada de diferente em relação às outras pessoas. Eu estava nu, prestes a ligar o chuveiro quando escuto meu celular tocar. O piano do velho tema de Halloween preencheu todo o vestiário. Bom, era preciso atender, pessoas do meu tipo nunca podem deixar de atender o celular, principalmente quando é seu número ‘comercial’ que está sendo chamado. De fato, eu não possuía um número pessoal, não haveria ninguém que me ligasse. “Olá Gui, o que acha de sairmos hoje?” Não, aquilo não existia no meu mundo. Aliás, “Gui” é como me chamam agora. Não se espante se encontrar por aí pessoas que me conhecem por outros nomes, já fui Jhon, Bruno, Lucas e até Arthur. Se contarmos as vezes em que usei nome de figuras conhecidas para atender certas exigências profissionais, eu seria quase um Fernando Pessoa. Quando atendi, confirmei que não era um desperdício ter adiado meu banho. Uma voz masculina com um pesado sotaque alemão estava na linha. Em poucos minutos nós marcamos 13


nossa ‘reunião de negócios’ e ele desligou, sem perguntar nada sobre preços. É, sorte grande, não perguntar sempre é um bom sinal. Aquilo significa que ele tinha dinheiro e eu poderia fazer uma pequena alteração na tabela de preços. É claro que teria de manter segredo dos meus colegas de profissão, mas era um preço pequeno a pagar.

Então, finalmente tomei o meu banho.

12h32min p.m. - Observado É incrível o efeito da luz sobre as pessoas. Ao sair do campus universitário e me deparar com o sol do meio dia eu me senti, digamos, enojado. Não sou uma pessoa de luz, as sombras e a escuridão sempre me pareceram mais aconchegantes. Porém, mesmo em meio ao mais claro sol do ano inteiro, pude encontrar um pedaço de escuridão a poucos metros de mim. 14


Ele não era da cidade, duvido que fosse sequer do país. Nada havia de tropical naquele homem. Ele tinha a pele muito branca, com cabelos negros e alguns fios grisalhos. Sua testa possuía algumas marcas de expressão. Seria uma pessoa preocupada? Deveria ter um metro e oitenta, 90 quilos bem distribuídos e pouco mais de 30 anos. Estava usando um sobretudo preto, um chapéu sobre sua cabeça lhe dava uma curiosa aparência de detetive do início do século passado. Talvez tivesse passado tempo demais atrás do Jack Estripador. Estava fumando um cigarro vermelho que parecia estar muito apetitoso. Ele olhava para mim, não da forma que geralmente me olham, mas com certa curiosidade e... Algo que não pude decifrar, mas não era bom. Então, o telefone dele tocou, ou ele percebeu que eu o havia visto e resolveu disfarçar, não importava. Aprendi a não me interessar pelas coisas, curiosidade pode ser algo muito perigoso. De forma que após passar pelo carro em que ele estava encostado, já havia perdido o interesse pela cena, e talvez agora já houvesse esquecido completamente, não fosse o que se seguiu nas próximas horas.

01h45min p.m. – Família, ou algo do tipo Lar, doce lar! No meu caso, um tanto azedo e cheirando a álcool. Meu pai estava no chão, como de costume. Desta vez ele quase conseguiu chegar até o sofá antes de cair bêbado, era um progresso. Eu não tenho nem nunca tive mãe, às vezes me pergunto se não nasci de uma masturbação, mas acho que apenas alguns deuses são gerados desta forma. Eu, com certeza, não sou um, embora já houvesse interpretado alguns. Não tinha problemas com o estado deplorável do meu pai, afi 15


nal, ele não tivera muito sorte na vida e saíra bem me criando. Ou estarei delirando por dizer isso? Bom, ao menos eu não era um assassino, ainda. Para meu azar, meu pai era um homem bonito. Isso nunca tinha tido qualquer importância até a primeira vez em que tive que dar um banho nele. Em minha defesa, posso dizer que eu vomitei de repulsa a mim mesmo quando fiquei excitado. Perdoado. Pode parecer um bizarro caso de incesto, mas ele era um corpo como qualquer outro. Enfim, 12 minutos e havíamos terminado o banho. Precisava dormir o máximo possível até a noite para garantir que seria financeiramente satisfatória. Não tive trabalho, assim que deitei dormi quase no mesmo segundo.

06h42min p.m. - Acordar Acordei algumas horas depois. Sou um garoto que troca o dia pela noite, então não se assuste com o tamanho da minha soneca da tarde. Meu pai já estava acordado, provavelmente calculando quanto perdeu na ultima semana. Ele era dono de uma loja de peças automotivas e estaria tudo bem, se não fosse a bebida. A verdade é que ele estava prestes a falir, e eu já havia colocado dinheiro no caixa duas vezes, então, desta vez, ele não poderia contar comigo. Acho que me sentia triste por ele ser um fracasso, mas eu não era muito melhor.

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Era hora de sair.


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08h00min p.m. – Sangue nas mãos

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heguei exatamente na hora. Confesso que já estava acostumado com aquele tipo de cliente, mas ainda sim fiquei decepcionado. Era de fato um alemão, um enorme alemão de mais de 100 quilos, tinha medo de pensar o que ele iria pedir, mas tinha mais medo ainda de ir embora sem meu dinheiro. Quando entrei em sua casa, uma bela casa, aliás, decoração digna de... Bem, não importa, era um tédio. Ele não falava muito, o que era bom, não gosta de conversar no ambiente de trabalho. Quando paramos no quarto, pensei que ele iria me pedir para me agachar ou algo do tipo, mas, ao invés disso, ele se sentou na cama e apontou para um grande pote de lubrificante. “Do it”. Ele falava em inglês, pois era o único idioma que tínhamos em comum. “What do you want me to do?” – perguntei, me fazendo de inocente.

“You know what I mean”

Ele estava certo, eu sabia o que ele queria dizer.

Se você já viu um fisting, não deve ter boas lembranças, se você nunca viu um fisting, recomendo que continue assim. Com aquele traseiro enorme, é claro que ele iria querer algo... Digamos, maior. Então, logo minha mão estava melada de vaselina. Cinco centímetros, e tudo estava indo bem. Aliás, se quiser sair com boas lembranças, é melhor parar por aqui, embora 18


talvez seja um pouco tarde. Quando achei que estava chegando ao limite, aquilo começou. Seu ânus se fechou sobre minha mão e ele começou a tremer. De repente, seu corpo começou a ficar quente, absurdamente quente. Quando olhei para cama vi que saia muito sangue de sua boca. Ora, eu já ouvira casos de pessoas que tiveram sua parede intestinal violada, agora, sangrar pela boca? Não, algo estava errado. Eu tentei, em vão, retirar a minha mão, mas ela não saia.

Os gritos começaram.

Tenho dificuldades para lembrar exatamente de como eram, mas tenho certeza que aquele homem não era o único a gritar. Era como se milhares de almas em agonia se reunissem naquele quarto para me fazer perder a razão. De fato, elas conseguiriam. Então, no que me pareceu uma eternidade depois, a porta foi arrombada e um homem entrou. Pode imaginar a minha surpresa quando vi o “detetive” do cigarro vermelho parado diante de mim? Ele levou apenas uns 3 segundos para assimilar a cena e desfazer sua careta de nojo, impressionante. Naquele momento, eu já era um garotinho indefeso, desesperado e com vontade de se esconder embaixo da cama. Mas aquele traseiro gordo e enorme continuava me prendendo, e agora também expelia sangue. Não sei em que momento o enorme alemão morreu, mas com certeza demorou mais do que deveria, e eu ainda não estava livre.

- Você precisa continuar. – ele me disse isso como se me 19


pedisse para lhe emprestar o isqueiro. Eu não entendi de imediato, continuar o quê? Eu só queria sair dali.

- Você precisa ir mais fundo.

- O quê!? Você só pode estar brincando? Eu quero sair daqui! – gritei. - Você não vai conseguir sair enquanto não fazer o que ela quer, e ela quer que você tire algo de dentro dele. De dentro dele? – Aquilo não poderia estar acontecendo. Era o limite para minha sanidade, eu achei que estava no inferno, mas logo entenderia que aquilo, na verdade, fora uma benção. Eu finalmente percebi que estava encostando em algo frio. Parecia metálico e tinha uma ponta afiada. Com cuidado para não me cortar, eu envolvi meus dedos na ponta da coisa e comecei a puxar. Eu estava conseguindo retirar minha mão de dentro dele. Nunca vi minha pele tão vermelha pelo sangue, e logo estava segurando o que parecia uma agulha em tamanho gigante. Ou talvez uma lança em tamanho reduzido. Infelizmente, alguns metros de intestino vieram enrolados na coisa.

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- Então é verdade... – disse o homem. - O que é isso? Como veio parar dentro do corpo dele? Foi isso que o matou? - Sim, e não. De fato, este foi o instrumento usado para matá-lo, porém, isso não entrou sozinho aí, nem foi ele quem colocou. - Você quer dizer que alguém fez isso? - Não sei se diria alguém, talvez algo. - Isso é loucura... O que farei agora? Você vai chamar a polícia? Eu estava em pânico, devo admitir. Me dá certa vergonha me lembrar disso, mas eu era só uma criança imatura. Uma pervertida criança imatura. - Eu sou a melhor polícia para esta situação, garoto. Fique aqui por alguns minutos enquanto eu retiro o corpo. - Você quer que eu fique aqui!? - Enquanto eu retiro o corpo. Você não pode ir embora ainda. Eu sabia que ele não era da polícia, mas não pretendia levar a culpa num bizarro... As21


sassinato? Aos poucos, a razão começou a voltar a mim.

- Como você irá carregá-lo sozinho? – perguntei

- Garanto a você que ele está mais leve do que nunca. De fato, não posso explicar como, mas ele conseguiu carregar o corpo para fora.

08h59min p.m. - O cliente sempre sai primeiro Pensando melhor agora, tudo ocorrera como em qualquer outro programa. Uma interação nojenta, secreções, e o cliente era o primeiro a sair. No estado em que eu estava naquele momento, eu não poderia escrever o que escrevo agora, provavelmente, eu teria ficado ali eternamente, sentado chorando num canto, se Matt não tivesse voltado. Oh sim, foi neste momento que ele se apresentou.

- Quem é você? – eu perguntei.

- Alguém que já enfrentou o que você enfrentou hoje.

- Você também tirou um pedaço de metal do ânus de alguém? – Pode parecer engraçado, mas eu não estava brincando na hora.

- Não, eu só comi alguns cadáveres.

Eu fiz um chiado, sintoma de negação. Aquilo não podia estar acontecendo. Ficamos alguns minutos em silêncio, então ele se sentou do meu lado, parecia estar se esforçando para parecer gentil. 22


- Quatro anos atrás, durante um festival na minha cidade, alguém serviu pedaços de cadáveres de crianças para as pessoas e ninguém percebeu até que fosse tarde demais. Talvez, se eu tivesse o conhecimento que tenho hoje, eu poderia ter notado os sinais de que Aquilo estava agindo, mas eu era só uma pessoa comum... Muitas pessoas, nem saberia dizer quantas... Muitas pessoas que estavam presente morreram de forma bizarra ou se suicidaram algum tempo depois. Desde então, eu e minha irmã temos caçado Aquilo. Eu não disse nada, o que poderia dizer? Ainda não aceitava o que estava acontecendo.

- Qual o seu nome, garoto?

- Gui. – Em uma situação normal eu não responderia aquela pergunta, mas acho que estava em choque. Também não dei meu nome verdadeiro, e sim o que estava usando no “trabalho” atualmente. “ - Gui, algo muito importante aconteceu esta noite. – Eu o encarei, sem entender o que ele queria dizer. – Você foi escolhido, e este objeto é a prova disso. – Ele estava com a coisa metálica nas mãos. – Mas isso não é uma coisa boa. Você pode ser um fantoche dela, mas também pode dar o troco e ser como eu.

- O que você quer dizer?

- Todos os que sobrevivem têm uma escolha a fazer.

- Sobrevivem a quê?

- Alguns a chamam de bruxa, mas talvez demônio seja a palavra certa. O que fez isso é uma força muito antiga, que to23


dos acreditavam estar morta há séculos. Aquilo afeta a mente das pessoas de uma forma específica, fazendo-as reviverem seus medos mais infantis e profundos. Ela, se é que aquilo tem um sexo, te reduz a uma criança tremendo de medo no escuro quando está presente. Provavelmente agora você se sente indefeso e mutilado. Sim, eu me sentia indefeso e mutilado, mas eu sentia muitas outras coisas, e não queria um estranho fingindo que me entendia, muito menos com uma história tão absurda. - Gui, você não deve ficar sozinho nos próximos dias. Vo cê tem alguém pra lhe fazer companhia?

- Sim. – eu respondi, apenas para me livrar dele.

- Escute, eu conheço alguém que se recuperou de algo parecido. E conheço pessoas que não tiveram a mesma sorte, também. - Eu só quero ir embora. – eu respondi. – Me deixe sair. Ele pareceu refletir por um momento, e então assentiu.

- Muito bem, você pode ir.

Eu não esperei, já estava quase na porta quando ele me chamou, me senti tentado a correr, mas ainda me sentia entorpecido.

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- Só mais uma coisa. Não confie em sua mente hoje.


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10h13min p.m. – Liberdade. Eu estava em casa, e tudo era diferente. Por que aquilo aconteceu comigo? Coisas começaram a vir à minha mente. Coisas injustas e que eu já não pensava desde criança. De repente, todos os meus momentos de infância vieram à tona. E que momentos! Como se já não bastasse nunca ter conhecido minha mãe, ter um pai bêbado e uma profissão dessas... Eu estava destinado ao inferno? Quantas vezes implorei por socorro e só tive palavras banhadas em álcool? É, não havia esperança para mim, nunca ouve, por que demorei tanto tempo para perceber? Ou será que sempre soube? O que poderia se esperar de uma criança que viveu como eu vivi? Acho que nada além do que me tornei.

E então, no meio do desespero, eu ouvi uma voz.

Eu não tenho certeza disso, mas acho que era a minha mãe. Sua voz estava serena e eu podia ouvi-la como se estivesse dentro de minha mente. Ela me disse que tudo ficaria bem, porém, antes disso, eu deveria me livrar de tudo que me fazia sofrer, e então, renasceria como o mais feliz dos “homens”. Fui tomado por uma sensação de prazer nunca antes vista. Me masturbei diversas vezes enquanto jogava álcool em tudo e então, esperei que ele acordasse. Não era óbvio? Ali estava o culpado por toda minha desgraça. Eu queria por um fim naquilo, mas queria que ele soubesse que eu estava fazendo isso.

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Quando seus olhos abriram e ele me reconheceu, pareceu que iria dizer alguma coisa, mas eu já havia acendido a faísca que colocaria fim em sua vida. Eu saí logo que as chamas começaram. Pude ouvir gritos, duraram mais do que eu esperava. Morrer sempre demorava tanto? Achei que após a morte do meu pai o ciclo estaria completo, mas eu ouvi a voz novamente. Ela me lembrava de suas primeiras palavras “tudo que te faz sofrer”. Ainda faltava algo. Meu corpo era minha fonte de renda e meu maior motivo de sofrimento, eu precisava destruí-lo.

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12h23min a.m. - Renascer Eu peguei o carro do meu pai e dirigi até o lugar mais deserto que pude encontrar. Uma velha mata onde passava um rio, vários quilômetros longe de minha casa. Acabaram de me ligar para avisar que um incêndio havia matado meu pai. Eu fingi estar triste, de forma que acharão perfeitamente natural quando encontrarem meu corpo, “O coitado se suicidou!”. Não sei por que me importo com o que pensarão, mas aquela voz me disse que todos precisam acreditar que estou morto. Mas não, eu não iria morrer, iria apenas iniciar meu ciclo de ressurreição. Logo encontraria a dona daquela voz e juntos seriamos eternos. Ainda não sei como colocarei um fim na minha vida humana, mas tenho certeza que encontrarei um jeito menos demorado. Já tive gritos demais para um único dia. Neste momento, nada pode afetar meu humor. Logo nascerei de novo, logo serei o mais feliz dos... Monstros?

Escrito em 28 de maio de 2002.

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Epílogo: Velhos demônios Quando terminei minha leitura liguei imediatamente para Will e adiantei nosso encontro para hoje à tarde. Em seguida, me pus a pensar. Será que as vozes que o garoto Oscar ouvia eram, de fato, vozes daquele demônio ou apenas delírios de uma mente insana? Será que eu poderia ter salvado ele? E, mais importante do que isso, será que eu poderia viver acreditando que havia derrotado para sempre aquele demônio, diante desta possível ultima respiração ainda viva?

Não, eu não poderia. Se havia algo ainda vivo, ou sequer perto de estar vivo, envolvendo Aquela Coisa, eu tinha de matálo.

19 de dezembro de 2017

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III

Michê  

Segundo conto da série escrita por C.Barreto e ilustrada por C.Bonomi

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