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Escrito por C.Barreto Ilustração por C.Bonomi

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Prólogo “O Oficial Mathews ainda não se conformava com o que havia acontecido, tudo aquilo era surreal demais para ser verdade. Enquanto a chuva caia sem trégua sobre suas costas, o policial acendeu um cigarro de forro vermelho e ficou ali, perdido em seus pensamentos, olhando para os buracos abertos na terra, naquela terra que deveria ser sagrada...”.

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1.Expectativas (e a Sra. Fleming)

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eace era um daqueles lugares do qual ninguém sabia ao certo quando surgira ou por quê. A teoria comumente difundida é que a cidade trocara de nome em determinado momento de sua história, visando enterrar seu passado. De fato, seu passado estava enterrado vários metros abaixo da terra, uma terra úmida e pesada como uma montanha, impedindo que os sopros e gritos das lembranças floresçam perigosamente perto das pessoas que lá vivem. Peace era uma cidade sem um passado negro, ou ao menos, assim deveria parecer. O Festival de Culinária de Peace sempre foi a principal atração turística da região. A Cidade possuía apenas alguns milhares de habitantes, porém, chegava a abrigar quase um terço adicional desta quantidade durante o dia do festival. Grande parte do sucesso se devia ao fato de que os pratos apresentados eram extremamente raros e, em alguns casos, só poderiam ser encontrados naquele dia, durante todo o ano. Nem sempre esta raridade se devia a ingredientes difíceis de serem encontrados ou receitas secretas, o fato é que o Festival de Culinário de Peace era um dos poucos lugares onde qualquer prato poderia ser mostrado em público, mesmo os que ninguém, em sã consciência, julgaria apetitoso. O local era simples, porém, o publico alvo do evento era de classe alta, devido à raridade dos pratos e o alto preço, por consequência. Ainda faltavam alguns dias para o evento, mas já era possível ver as barracas, tendas e balcões instalados no centro da cidade. A disposição do festival nada mais era do que um grande corredor formado de barracas onde as pessoas caminhavam do começo ao fim, sendo o fim a praça central de Peace, onde as melhores atrações eram exibidas em horários pré-definidos.

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Caminhando pelas ruas, os turistas sentiam o odor dos pratos que estavam sendo preparados nas casas dos moradores, alguns comuns, como batatas, outros desconhecidos e alguns até desagradáveis. Era um turismo a parte navegar naqueles odores, e alguns o apreciavam muito, outros, nem tanto. Todavia, nada causava tanta expectativa quanto a nova criação da Governanta. A Sra. Fleming era conhecida por todos na cidade como “A Governanta”, isso porque serviu uma “rica e importante” família local, se é que havia famílias assim naquele lugar, durante toda sua vida, até o dia em que os últimos membros da família morreram num acidente de carro. Ainda sim, ela mantinha o uniforme de seus tempos de governanta, alguns diziam que ela tinha problemas para aceitar a morte dos patrões, outros, que ela ainda recebia ordens de um membro desconhecido da família, e também há aqueles que apenas acreditavam que ela não possuía outras roupas. A Sra. Fleming era viúva e muito velha, era difícil mensurar sua idade, mas certamente passava dos oitenta anos. Apesar disso, demonstrava uma vitalidade surpreendente, caminhava sem dificuldades, embora lentamente, e não tinha qualquer problema de saúde grave. Entretanto, sua pele não tivera a mesma sorte, possuía várias verrugas e manchas no rosto.

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Considerada por todos como uma mestra da culinária, todos os anos a Sra. Fleming apresentava uma de suas criações, que passava a ser vendida nos restaurantes mais caros do país. Naquele ano, entretanto, a Sra. Fleming prometeu superar qualquer resultado que já tivesse atingindo, apresentando uma obra prima que “as pessoas morreriam para comer”, segundo suas próprias palavras. Entretanto, nem tudo era expectativa na época do festival. Os turistas davam certo trabalho para o departamento de polícia, e os ladrões locais pareciam despertar em progressão geométrica. Especificamente neste ano, cogitou-se a possibilidade de cancelálo após a cidade passar por uma epidemia viral que matou alguns adultos mais frágeis e diversas crianças. Mas as pessoas pareciam dispostas a tentar amenizar a dor, ao menos a maioria delas. Por estes e outros motivos, o Oficial Mathews, ou Matt, como era conhecido, era um dos poucos habitantes a detestar o festival.

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Se ao menos imaginassem o que estava prestes a ocorrer...


2.Vésperas (e o casal Arantes)

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ulia estava, como uma boa católica apostólica romana, de joelhos sobre seu confessionário, rezando pela alma de sua filha que fora uma das vítimas da epidemia. Seu relacionamento com o marido só piorara após o ocorrido, e Julia não via mais motivos para continuar a relação, exceto o mais definitivo de todos: era contra os princípios de Deus o divórcio. Intrinsecamente frustrada por sua prisão criada por seus próprios valores, Julia tentava encontrar algum sentido em tudo 11


de ruim que aconteceu em sua vida. Ora pensava que aquele sofrimento era um teste de sua Fé, ora pensava que seria recompensada futuramente, ora pensava que não podia entender a graça divina, mas deveria respeitá-la, e sempre pensava que não conseguia imaginar nenhum final que justificasse as coisas ruins que ocorrem no mundo... Este ultimo pensamento passava numa linha muito próxima de seu subconsciente, de forma que Julia poderia ignorá-lo para manter seus hábitos e provar que havia muita fé dentro dela. Julia era uma das críticas permanentes do Festival, sua carreira gastronômica já tivera considerável sucesso, até o dia em que ela se isolou numa cidade pequena e se recusou a exercer a profissão novamente. Peace caiu como uma luva para Julia, era uma cidade modesta e supersticiosa, onde poderia ter uma vida “santa” e humilde, além disso, Matt, seu irmão, era policial na cidade já havia alguns anos. O Festival desse ano tinha um gosto diferente para Julia, um gosto de sangue e culpa. Acreditava que a morte de sua filha era um castigo por Julia ter man12


tido um segredo nada santo, e isso a destruía. Tudo havia acontecido durante seus anos de juventude, o que não significava muito tempo levando em conta que Julia era uma mulher de trinta anos. Julia, até então com dezenove anos, estava “prometida” a um homem que não amava, seu atual marido, por decisão geral de todos que os cercavam, exceto deles próprios. Incrível algo assim nos dias atuais, mas coisas como essas ainda acontecem. Julia estava, como era de costume, conformada com a situação imposta, até que a chegada de um jovem do Sul trouxe novos rumos. Durante alguns meses, os dois tiveram um romance que foi cuidadosamente ocultado das demais pessoas, e ambos já tinham planos para deixar a cidade em segredo. Ironia do destino ou castigo divino, o jovem morreu afogado nas vésperas do dia em que deixariam a cidade. A situação só piorou quando Julia descobriu que estava grávida. Sem saber como agir ou o que esperar de seu futuro, Julia se casou com seu atual marido, ocultando o segredo no fundo de sua alma. Logo uma menina chamada Mary nasceria. 13


Mary era filha do jovem do Sul, por este motivo Julia acreditava que sua morte era um castigo, seu universo pessoal era governando mais por punição do que por justiça, mas não havia nada que pudesse fazer. Para piorar, Lawrence Arantes, seu marido, era, aos olhos dela, um homem repugnante. Dotado de uma aparência perfeita e quase desumana, não hesitava em usar seu corpo e sua capacidade manipulativa para conseguir o que queria. Era dono de uma boa fortuna e havia começado seus empreendimentos chantageando uma rica senhora casada com quem havia tido um caso. Somente aqueles com quem Lawrence já havia feito sexo conheciam sua verdadeira natureza, para o restante, era o representante da perfeição na terra. Lawrence não vivia na cidade de Peace, passava a maior parte do ano viajando e aproveitando os prazeres que o dinheiro pudesse lhe dar. Tinha uma esposa para manter as aparências e a visitava duas ou três vezes por ano, além de um período em que ficava durante um mês de “férias” na cidade. Julia sempre soube da personalidade distorcida de Lawrence, porém, ele aceitou se casar com ela, mesmo sabendo que Julia estava grávida de outro. Uma das coisas que havia aprendido sobre Lawrence é que ninguém poderia mentir para ele, mas ele conseguia convencer qualquer um, de qualquer coisa. Para o alívio de Julia, ele parecia ter perdido o interesse sexual nela logo nos primeiros meses de casamento, isso somado a quantia generosa que ele lhe enviava e ao status social que possuía na comunidade era suficiente para que Julia se mantivesse na mentira. Estes eram seus motivos para acreditar que merecia ser punida. 14


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att estava pensativo. Há uma semana havia recebido um chamado relatando que um membro humano já em decomposição fora encontrado próximo à região central da cidade.

Matt encontrou o que parecia ser um pé de uma criança, o membro era praticamente só ossos. A perícia mais tarde concluiu que a criança havia morrido de câncer, e não se trava de um assassinato, entretanto, não souberam explicar como o membro havia chegado até o local, o ponto de rompimento dos ossos parecia liso e conciso, como se nunca tivesse existido uma perna. A população em geral se acalmou quando entendeu que não se tratava de um assassinato, mas aquilo havia deixado um pressentimento em Matt, um pressentimento muito ruim. Podia sentir que algo estava diferente em sua amada cidade, mas não podia usar seus pressentimentos como fundamento para tomar alguma atitude. Só restava esperar.

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A Sra. Fleming estava animada com sua mais recente criação. Sua criatividade este ano superou as próprias expectativas que possuía, e o resultado final foi invejável. Mal podia esperar para mostrá-lo. Este ano era especial para a Sra. Fleming, isso porque seria o último ano em que participaria do Festival. Preocupada com sua idade avançada, a Sra. Fleming decidiu que viveria em sua terra natal, do outro lado do país, até o resto de seus dias. Estava se sentindo nostálgica enquanto lavava a louça, de frente para a janela que refletia a escuridão da noite. Por alguns instantes, ficou imóvel com o prato nas mãos, perdida em suas memórias. Despertada por algo que pensou ser um grito, a Sra. Fleming deixou o prato cair e se deparou com grandes e luminosos olhos amarelos. De início, parecia algum animal selvagem, mas, com um pouco de dificuldade, identificou um negro e imenso gato. Ela nunca vira um gato tão grande, mas talvez a escuridão se misturando a sua pelagem colaborasse para esta imagem assustadora. Aliviada pelo engano, abriu a janela e acariciou o gato, sentindo uma grande camada de pelos. O animal não se incomodou com o contato humano, após alguns minutos a observando com seus grandes olhos amarelos, saltou para os jardins e desapareceu na escuridão, não sem antes mostrar uma olhar profundo em direção à casa da Sra. Fleming, como só os gatos sabem fazer...

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3. Visitantes (e Isadora)

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cidade estava cheia. Por todos os lugares os moradores se deparavam com turistas, facilmente identificáveis. Alguns já eram muito conhecidos no local, devido à presença constante nos festivais. Mas mesmo os moradores já acostumados a receber tantas pessoas estavam estranhando a superlotação acima do habitual. Faltando poucas horas para o Festival, tudo já estava pronto. Ou melhor, tudo exceto o que acontecia todos os anos pouco antes do Festival começar: a chegada de Lawrence. Lawrence era filho de uma mãe americana e um pai espanhol, nascera nos Estados Unidos, mas vivera pouco tempo em seu próprio país. As mulheres da cidade sempre ficavam atentas para vê-lo chegar, Lawrence costumava impressionar a todos, embora ocasionalmente alguém enxergasse certa perversidade em seus atos, 18


isso era muito raro. Como de costume, antes de visitar sua mulher, Lawrence ia até a casa de Isadora, a única pessoa de Peace que considerava interessante. Isadora era ignorada por todos na cidade. Sua mãe era uma espécie de desafeto geral no passado daquelas pessoas, e elas pareciam dispostas a esquecê-la. Lawrence entrou na casa com suas chaves. Como esperado, o cheiro de álcool era forte. Havia algumas revistas jogadas pelo chão, mostrando homens nus em poses bastante descontraídas. Lawrence riu. Isadora nunca muda... Logo a encontrou deitada no sofá, os olhos cobertos e as pernas cruzadas, totalmente despreocupada com o resto do mundo. - Eu sinto cheiro de sexo. – disse Isadora, ainda com os olhos cobertos. – Isadora era como uma obra-prima tomada pelas traças. Dona de uma beleza incomum, tinha um longo cabelo ruivo que nunca estava penteado, grandes olhos castanhos que pareciam fotografar quem passasse por eles, um corpo perfeito e jovem, e uma enorme queda por álcool. - Desculpe, achei que meu banho tinha sido suficiente. – respondeu Lawrence rindo.

- Eu tenho um bom faro.

- Como você está, Isadora? – perguntou Lawrence abaixando-se e retirando a venda dos olhos de Isadora. Seus olhos eram sempre uma surpresa para Lawrence, por mais que tentasse, nunca se acostumava com o castanho tão intenso, que parecia enxergar até o fundo da alma.

- Bêbada, eu acho... Vejo que você continua tão bonito como sem19


pre. - Você também. Embora o álcool e as drogas estejam começando a te envelhecer.

- Foda-se.

- E então, o que aconteceu nesta cidade enquanto estive fora?

Isadora olhou para Lawrence com uma intensidade que o fez sentir calafrios, demorando mais do que o necessário para responder a pergunta. - Nunca acontece porra nenhuma neste lugar. Lawrence dou.

concor-

- Acho que somos o que de melhor acontece aqui. Isadora empurrou Lawrence para o chão e deitou, lentamente, em cima dele. - Hoje quero brincar de dominadora. – disse ela. - Você sempre é a dominadora. 20


- Não finja que não gosta...

Isadora passou suas mãos pelo corpo de Lawrence e parou acariciando seu membro já rígido.

Lawrence deixou a casa de Isadora satisfeito. Ela era a única pessoa que não o entediava naquele lugar. A história de Isadora era um tanto trágica. Oficialmente, sua mãe havia morrido num incêndio acidental de uma fábrica. Na realidade, Lawrence e a própria Isadora sabiam que isso era uma farsa, mas nem mesmo o impuro jovem podia imaginar que esta informação teria consequências tão graves. **** Tudo estava pronto, o grande dia iria começar. As pessoas mal podiam esperar...

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4. O Grande Dia

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sol nasceu junto ao festival de aromas que invadiu a cidade, as pessoas saíam de suas casas logo cedo para contemplar as maravilhas do ano. Conforme os pratos iam sendo apresentados, mais e mais pessoas se aglomeravam em busca de um pedaço de felicidade comestível. Conforme as horas passavam, mais perto aqueles pessoas estavam de passarem pela pior experiência de suas vidas.

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awrence estava se sentindo melancólico, o que não era tão incomum, embora ninguém soubesse disso, e talvez sua preocupação com Isadora agravasse as coisas. Lawrence estava preocupado com ela, principalmente após o que haviam descoberto. Aquele era o momento de fazer as obrigações: visitar sua esposa, ser visto na cidade, galantear as moças, mas algo estava errado, algo estava muito errado. Cansado de sentir este incômodo, Lawrence parou e resolveu voltar à casa de Isadora novamente. Lawrence bateu à porta. Se lhe perguntassem por que fez isso, provavelmente não conseguiria responder satisfatoriamente, já que sempre entrava na casa de Isadora com as próprias chaves, sem se anunciar. Porém, se tivesse prestado atenção, diria que, naquele momento, sentiu que aquela casa não era mais de Isadora. Não houve resposta. Ele lembrava-se de ter fechado a porta quando saiu, porém, agora estava aberta, então não hesitou em entrar. Isadora não estava onde ele a deixou, alguns minutos antes. Lawrence a procurou pelo quarto, nem sinal dela. No lugar onde deveria ser sua cozinha, havia apenas uma série de freezers posicionados um ao lado do outro: nenhuma mesa, nenhuma pia, nenhuma louça. As janelas estavam fechadas e a casa estava escura, Lawrence tentou abri-las, mas estavam emperradas. O interruptor foi acionado e uma luz roxa invadiu a sala, Lawrence ainda se sentia no escuro. O que é que Isadora precisava guardar em sua casa? E por que em tão grande quantidade? Lawrence não sabia se deveria descobrir, mas não achava que poderia sair de lá sem dar uma espiada. Aproximou-se do primeiro freezer e, como quem desembrulha um presente, abriu a porta para ver o que havia lá dentro. 23


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Foi uma explosão de sensações: nojo, repulsa, medo, surpresa...

Era como se tivesse encontrado os escombros de um terrível acidente. Guardados como pedaços de carne, estavam membros e crânios humanos, ainda com carne, mas claramente em decomposição. Alguns vermes congelados saiam dos mais diversos lugares, como se surpreendidos em seu banquete. Não era só a visão, definitivamente havia uma presença naquele lugar, algo podre e mal cheiroso, algo velho e imenso. Lawrence soava frio, a única certeza que tinha é que precisava sair logo daquele lugar, porém, antes que pudesse fazer qualquer coisa, sua visão ficou escura e seus sentidos, perdidos. A ultima coisa que Lawrence ouviu foi o som de passos, alguém se aproximava.

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ulia se perguntava o que havia acontecido a seu marido, não que se importasse realmente, mas aquilo era estranho, ele fazia questão de ser visto nos festivais.

Durante as horas que se passavam, algumas pessoas, especialmente mulheres, vieram perguntar a Julia se ele não apareceria. Ela sabia que Lawrence era a figura mais cobiçada daquela cidade. Matt também estava lá. Mesmo não gostando da ideia, precisava estar presente para lidar com eventuais problemas.

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E assim as horas passaram tortuosamente, até que a Sra. Fleming chegou com seu prato especial para o ápice do evento. Uma enorme forma de alumínio reluzente trazia algo volumoso coberto por um pano. Com muito orgulho a velha senhora depositou sua obra sobre a mesa, e esperou o discurso de encerramento do responsável pelo evento.

“Hoje estamos novamente reunidos...”.

Julia sequer ouvia o que estava sendo dito, estava pensativa olhando para o pedaço de ave que estava comendo, parecia hipnotizada, como que entrando numa espécie de transe. Os minutos do discurso passaram sem que Julia sentisse, até o momento que ouviu a deixa para que a Governanta apresentasse seu prato. Julia finalmente entendeu: não estava entrando em transe, estava acordando. Não que estivesse dormindo, mas com certeza ela e aquelas pessoas não estavam despertas, não até aquele momento. Foi a coisa mais bizarra que aquela cidade já vira. Amontoados numa forma havia vários pedaços de corpos mutilados em decomposição, com gordos vermes mostrando seus corpos amarelados. As pessoas 26


surtaram, mas o horror estava apenas começando. De repente os pratos cheirosos e deliciosos que estavam em suas mãos se tornaram membros humanos igualmente decompostos e cobertos de vermes. Não, não haviam se transformado, eles de fato sempre foram assim, mas e o cheiro e os pratos deliciosos que haviam visto? O que estava acontecendo? De fato, a Sra. Fleming havia superado todas as expectativas. O desespero tomou conta, a presença de Matt foi inútil, a cidade estava no caos.

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5. Post mortem

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or algum motivo, as pessoas consideraram que a única culpada deveria ser a Governanta, não importava que todos tivessem comido aquela refeição bizarra, acreditando que estavam provando pratos maravilhosos. Os mais supersticiosos começaram a falar de magia negra e satanismo: ela tinha de ser uma bruxa, um demônio. Mesmo que em setenta anos a Governanta fosse uma pessoa exemplar, alguém precisava ser culpado, e a culpa lhe caiu como uma luva, estereótipos sempre surpreendem com sua força.

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Legalmente, não havia como dizer que a Governanta era a culpada, e logo uma investigação começou a ser realizada. A situação só piorou quando se tornou público que os corpos eram todos de crianças. As coi-


sas só não ficaram ainda mais caóticas porque os exames comprovaram que elas já estavam mortas quando, quem quer que tenha feito isso, as mutilou. Todas haviam morrido de causas naturais, o que trouxe uma terrível suspeita para Matt. Temendo comprovar sua teoria, o oficial foi até o cemitério da cidade, somente para encontrar uma série de tumbas violadas. Aquelas não eram só crianças, eram as crianças da própria cidade, que haviam morrido nos últimos anos. O Oficial Matthews ainda não se conformava com o que havia acontecido, tudo aquilo era surreal demais para ser verdade. Enquanto a chuva caia sem trégua sobre suas costas, o policial acendeu um cigarro de forro vermelho e ficou ali, perdido em seus pensamentos, olhando para os buracos abertos na terra, naquela terra que deveria ser sagrada... Aquilo era grande demais para a polícia local de uma cidade tão pequena e, até então, pacífica. Como proceder depois do que descobrira? Como avisar as pessoas? Elas deveriam mesmo ser avisadas? Só então sua mente deixou as consequências do que estava vendo e se concentrou no crime em si, quase no mesmo instante, Matt vomitou na terra molhada do cemitério, perplexo, sem entender o que no mundo levaria alguém a fazer aquilo. 29


6. Dias que vieram

D sível.

urante todo o festival, ninguém havia percebido que estavam comendo carne em decomposição, ninguém havia visto as tumbas violadas no cemitério, ninguém pôde explicar como isso era pos-

O único resultado da investigação foi aumentar a crença de que havia uma bruxa na cidade, e ela só poderia ser a Governanta. Matt não acreditava nisso, nem mesmo acreditava que a Sra. Fleming fosse capaz de algo do tipo, mas temia por sua segurança. 30


Tudo estava em ruínas. Lawrence e Isadora estavam desaparecidos, a Governanta não podia sair de sua própria casa, as pessoas estavam beirando a loucura, os turistas cheios de ódio e o departamento de polícia trabalhando 24 horas por dia.

Logo todo o mundo enxergava a velha cidade.

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7. O sonho

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o sonho, Matt estava nu e com um terço de sua idade atual. O chão estava gelado e ele tremia. Ao seu lado, outras doze crianças esperavam, na mesma situação, entreolhando-se como se, em algum momento, um ser iluminado fosse surgir para salvá-las. Mas não seria desta forma. No canto da sala havia “alguém” usando vestes negras, em frente a um grande caldeirão. Ela estava mexendo uma colher gigante dentro dele, freneticamente, fazendo um líquido de cor verde borbulhar. Matt sabia o que ela era, mas sabia que ela não deveria existir, não neste mundo. Durante anos ele vira aquela imagem representada em diversos filmes, desenhos, quadrinhos, lendas... Mas ali, diante dele, quase podia sentir dor de tão assustado. 32


Era uma velha bruxa, no mais perfeito visual de bruxa. Seu rosto era tão velho que parecia madeira rachando, seu nariz, alongado, torto, e com verrugas. Seus olhos eram negros, não somente onde olhos têm cores, mas em todo o globo ocular, dando a bizarra impressão que suas órbitas oculares estavam vazias. Seus dentes eram afiados como presas, amarelados, ou talvez dourados, Matt sentiu que aqueles dentes poderiam cortar qualquer coisa, ou qualquer um. Seu cabelo, extremamente longo, caia, prateado, até sua cintura: era a única luz no ambiente. Uma capa negra era suas vestes, terminando em botas igualmente escuras e começando num chapéu pontudo e inclinado. Era uma perfeita bruxa velha. Ela virou-se para as crianças, e seus olhos eram maldade pura. Uma a uma, as crianças esperavam sua vez de serem jogadas no caldeirão, parte da sopa, afinal, bruxas comem criancinhas...

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M

att acordou molhado de suor. Demorou até perceber que era um homem crescido, e não uma criança esperando para ser cozida na sopa. Ou, talvez, ele estivesse numa situação muito parecida, suas bruxas, entretanto, eram as lembranças do que havia acontecido. Matt levantou-se, despiu-se, e entrou no chuveiro, deixando a água gelada cair sobre seu corpo. Seus pelos estavam arrepiados, seria pelo frio ou pelo medo? Uma coisa ainda gritava em sua mente, uma única frase, repetida várias e várias vezes: bruxas comem criancinhas.

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De repente, tudo fez sentido, Matt sabia onde procurar respostas.


8. Infância

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oc! Toc! Toc! Três batidas. Ele não sabia por que estava fazendo aquilo, não acreditava, de forma alguma, que Isadora fosse aparecer, então sacou sua arma e atirou contra a fechadura, entrando na casa. Não havia nada de suspeito, tudo parecia normal, ou quão normal Isadora pudesse ser. Revistas jogadas no chão, cheiro de álcool, um gigante gato preto deitado no sofá, tudo no maior estilo Isadora. Mas agora Matt sabia o que procurar. Seu gato negro o fitava com olhos maliciosos, ou ao menos assim parecia a Matt. Como o gato continuava tão gordo e bem alimentado 35


se não havia ninguém em casa? Na cozinha, Matt viu marcas no piso, aparentemente vários objetos do mesmo tamanho e de forma retangular estavam, há algum tempo atrás, sobre aquele piso, e foram retirados recentemente. O mais estranho de tudo é que não havia marcas indicando que os objetos foram arrastados, e pareciam grandes demais para serem carregadas pelas mãos de um ser humano, era como se tivessem sido erguidos no ar e retirados cuidadosamente do local, um passe de mágica. Depois de algum tempo procurando, Matt encontrou o que esperava: no quarto de Isadora havia uma parede de cor diferenciada do resto da casa, de alguma forma Matt sabia disso, aquilo era uma porta, aquilo sempre fora uma porta. Matt empurrou com alguma força e a parede falsa foi ao chão, uma leve camada de um material fraco, mas visualmente convincente. Matt ligou sua lanterna, uma longa escadaria o aguardava. Os degraus o levavam a lugares cada vez mais escuros, até chegar a uma sala grande e circular, onde não havia somente o escuro. Era exatamente idêntico ao seu sonho. O caldeirão ainda estava lá, borbulhando o líquido verde, exatamente como se lembrava. Lembrava-se... Ele já havia estado ali, não havia dúvidas. Matt sentiu seu estômago revirar. Nojo novamente? Muitos moradores e turistas tinham vômitos frequentes após o ocorrido, mas Matt já havia tido sua dose de vômitos, principalmente quando sentiu os vermes em sua garganta. Aquilo era algo diferente: era surpresa, 36


talvez. - Me ajude, por favor! - Uma voz rompeu do escuro. Era uma voz conhecida. Matt se aproximou e viu Lawrence, amarrado numa parede e com o rosto coberto, ele estava nu e havia marcas de cortes superficiais em seu corpo. - Oh meu Deus! Lawrence!? - Matt! Me ajude! Matt lhe tirou a venda. Os olhos de Lawrence estavam repletos de pânico. Matt começou a desamarrá-lo. - O que aconteceu aqui, Lawrence? - Ela... Ela é... Droga! Eu não sei que inferno ela é. Mas, ela me obrigou... Matt ajudou Lawrence a se levantar, o apoiou sobre o ombro e ia saindo do local, rumo às escadarias novamente, estava com os olhos abaixados quando sentiu aquilo. O cheiro de velhice e sujeira, ou seria suor e sangue? Talvez fosse uma mistura de tudo que Matt odiava. Lawrence começou a tremer, com certeza já havia visto a coisa, mas era incapaz de reagir. Reunindo coragem, Matt abriu os olhos e a viu: a bruxa velha de seus sonhos. Classicamente bruxa. - Quem é você!? – gritou Matt.

E ela falou, com uma voz velha, fria, ecoante. - Não se lembra de mim, Matt? – seu sorriso revelou 37


um conjunto de dentes amarelos.

- Você fez aquilo?

- Por que fez isso?

- Evidentemente.

- Bruxas comem crianças, é isso que fazemos. Porém, eu decidi, apenas desta vez, proporcionar a vocês, pessoas comuns, a mesma sensação. - Isso é insanidade! Como fez isso? Como fez com que as pessoas comessem... Aquilo? - Acho que você sabe, caro Matt. Cuide bem dele, - disse olhando para Lawrence. - Ele é importante para o futuro. – A velha virou as costas e começou a subir as escadas. Sua capa se misturando às sombras. - Espere! Você não vai fugir! – Matt deixou Lawrence nas escadas e correu atrás da velha, correndo com toda a velocidade que sua coragem permitia, não havia parado para pensar se realmente queria alcançá-la, mas continuou correndo. Entretanto, foi em vão. A velha bruxa havia desaparecido na escuridão. Matt acendeu um cigarro, se não estava em choque, era algo muito parecido. Não sabia o que pensar, não sabia o que era sonho e o que era lembranças, porém, teve certeza, a sombra de uma velha senhora montada numa vassoura se projetava sob a lua, dominando o céu. E pensar que nos contos de fada as bruxas velhas sempre terminavam mal...

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III

Gourmet  

Primeiro conto de uma série escrita por C.Barreto Ilustração e diagramação por C.Bonomi

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