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MANUEL HENRIQUE PEREIRA O BESOURO MANGANGA Por Contramestre Jimmy Roger Caros amigos, mais uma vez estamos aqui reunidos para falarmos dos nossos grandes personagens , Mestres da arte de vadiar, a nossa Capoeira, hoje vamos falar de um Mestre que abalou o Reconcavo baiano anos 20, Manuel Henrique Pereira,o Besouro Mangangá, um de nossos herois na história da Capoeira, sua trajetória é cercada de verdades, mitos e lendas, “causos” que mechem com nosso imaginario ate os dias de hoje, muita controversias também; o que é real em sua trajetória? O que é mito? Fato é que sua história se mistura nos campos POLITICOS e RELIGIOSOS, tornando assim sua trajetória “teolitica” A partir deste momento juntos vamos tentar desvendar! Bom estudo a todos ESTA É A HISTÓRIA Um mito retira o homem de seu próprio tempo, de seu tempo individual, cronológico, “histórico” – e o projeta, pelo menos simbolicamente, no Grande Tempo, num instante paradoxal que não pode ser medido por não ser constituído por uma duração. O que significa que o mito implica uma ruptura do Tempo e do mundo que o cerca; ele realiza uma abertura para o Grande Tempo, para o tempo sagrado. ELIADE (1991, p.54) Manuel Henrique Pereira,o Besouro Mangangá, ou Besouro Cordão de Ouro. Assassinado aos 27 anos, em 1920, Besouro era um capoeirista famoso em sua época, muito hábil com as facas e que sempre jogava com uma navalha no pé. Diz em que seu apelido surgiu quando, após arrumar mais uma encrenca com a polícia, desapareceu misteriosamente. Atordoado, um policial perguntou para um dos que assistiram à cena:- "Você viu pra onde foi aquele negro?""Vi, sim senhor. Ele virou besouro e saiu avoando."A partir desse dia, Manuel Henrique já era Besouro. O Mangangá veio depois. E o apelido novo, Besouro Mangangá, é o nome de um inseto de picada venenosa,tão mortal quanto os golpes do mestre.Besouro era tão respeitado que costumava sair às ruas avisando aos comerciantes que fechassem as portas, pois tinha acabado de decretar feriado.Também era comum vê-lo presenteando um de seus compadres com penas de pavão, arrancadas dos chapéus dos valentões de Santo Amaro, sua

Postagem 7 10/02/2013 cidade.Mas a cultura das ruas não foi suficiente para Mangangá. A palavra capoeirista assombrava homens e mulheres, mas o velho escravo Tio Alípio nutria grande admiração pelo filho de João Grosso e Maria Haifa. Era o menino Manuel Henrique que, desde cedo aprendeu, com o Aílton Carmo (Besouro) 02 Mestre Alípio, os segredos da Capoeira na Rua do Trapiche de Baixo, em Santo Amaro da Purificação, sendo "batizado" como "Besouro Mangangá" por causa da sua flexibilidade e facilidade de desaparecer quando a hora era para tal. Negro forte e de espírito aventureiro, nunca trabalhou em lugar fixo nem teve profissão definida. Quando os adversários eram muitos e a vantagem da briga pendia para o outro lado, "Besouro" sempre dava um jeito, desaparecia. A crença deque tinha poderes sobrenaturais veio logo, confirmando o motivo de ter ele sempre que carregar um "patuá". De trem, a cavalo ou a pé, embrenhando-se no matagal, Besouro, dependendo das circunstâncias, saia de Santo Amaro para Maracangalha, ou vice-versa, trabalhando em usinas ou fazendas. Misto de vingador e desordeiro, Besouro não gostava de policiais e sempre se envolvia em complicações com os milicianos e não era raro tomava-lhes a arma,conduzindo-os até o quartel. Dizem que em certa feita obrigou um soldado a beber grande Baden_powell_1971 quantidade de cachaça. O fato registrou-se no Largo de Santa Cruz, um dos principais de Santo Amaro. O militar dirigiu-se posteriormente à caserna,comunicando o ocorrido ao comandante do destacamento, Cabo José Costa, que incontinente designou 10 praças para conduzir o homem preso morto ou vivo.Pressentindo a aproximação dos policiais, Besouro recuou do bar e, encostando-se na cruz existente no largo, abriu os braços e disse que não se entregava.Ouviu-se violenta fuzilaria, ficando ele estendido no chão. O cabo José chegou-se e afirmou que o capoeirista estava morto. besouro manganga 01 Besouro então se ergueu, mandou que o comandante levantasse as mãos, ordenou que todos os soldados fossem e cantou os seguintes versos: Lá atiraram na cruz/ eu de mim não sei/ se a caso fui eu mesmo/ ela mesmo me perdoe/ Besouro caiu no chão fez que estava deitado/ A polícia/ ele atirou no soldado/ vão brigar com caranguejos/ que é bicho que não tem sangue/ Polícia se briga/ vamos prá dentro do mangue. As brigas eram sucessivas e por muitas vezes Besouro tomou partido dos fracos contra os proprietários de fazendas, engenhos e policiais. .Manuel Henrique, o Besouro Mangangá, morreu jovem, com 27 anos, em 1924,restando ainda dois dos seus alunos Rafael Alves França, Mestre Cobrinha Verde e Siri de Mangue. Hoje, Besouro é símbolo da Capoeira em todo o território gerardo vasconselos baiano, nacional e ate mesmo mundial sobretudo pela sua bravura e lealdade com que sempre comportou com SOCIAL CAPOEIRA WWW.CAPOEIRA.COM.CO


cena do filme besoouro 03

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Dona Canô 25 -12-2012 - mãe de caetano veloso Página 2

João Moniz, poeta nascido em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, deixou nas páginas do jornal A Tarde um relato das suas impressões acerca do famoso capoeira Besouro, personagem que até os dias de hoje é cantado nas rodas do jogo. Com palavras de evidente admiração, afirmou o poeta: “Besouro foi a maior atração de minha infância. Seus combates simulados com Doze Homens, Ioiô, Nicori e outros capoeiristas seus amigos, ao som do berimbau e do pandeiro, eram espetáculos magníficos de força, agilidade e delicadeza, em que os suarentos e leais contendores se aplicavam, mutuamente, os perigosos preceitos de ataque e defesa, cuidadosos de se não machucarem, por que não saíssem mal-avindos do brinquedo. E Besouro, então, primava por essas atitudes de nobreza, ele que era respeitado como o primus inter pares, no recôncavo e no costeiro baianos, da luta, que lhe levaria o nome, em situação privilegiada, ao nosso folclore. 'Conheci Besouro na pujança dos seus vinte e poucos anos. Era amável, brincalhão, amigo das crianças e ‘respeitador dos brancos’. De uma coragem pessoal que parecia loucura, gostava de ‘buli’ com a polícia. E não raro explodia um turundundum dos diabos em frente à cadeia velha, sua terra natal. Era Besouro, que, noite velha, havia acordado o destacamento para um ‘brinquedo’, que se prolongava em correrias e tiros, e de que ele saía ileso e sempre sorrindo, como entrava. 'Às vezes, no calor da luta, tirava um pouco de ‘tinta’ nos praças, mas nunca matou ninguém. Tinha tanto horror a palavra assassino quanto adorava o termo valente, que lhe cabia a rigor.” A respeito de uma versão - até hoje bastante acreditada - da morte de Besouro, onde este teria sido “morto traiçoeiramente pela polícia, por ter abatido oito praças com a capoeira, de uma só vez”, versão esta que foi publicada em reportagem assinada por Cláudio Tuiuty Tavares, em O Cruzeiro, afirmou João Moniz em sua crônica: “Aquele particípio - abatido - empregado pelo repórter, deixa entender que Besouro matou oito soldados e por isso foi morto. Não, já deixei dito que Besouro nunca matou ninguém, e posso afirmar, com absoluta segurança, que não foi morto pela polícia. 'Contam-se duas versões da morte de Besouro. Uma, inverídica, resultante de perfídia política, e a outra, verdadeira, em que Besouro, embriagado, fora ferido a punhal, traiçoeiramente, por um rapazelho subestimado por ele à vista de outros, quando bebiam numa venda. E não morreu propriamente do golpe, mas, de mau trato, que o deixaram no chão por mais de um dia, o intestino à mostra, antes que o trouxessem para a Santa Casa de Misericórdia de Santo Amaro, onde fechou os olhos para a vida, cercado de amigos, admiradores e curiosos.” José Gerardo Vasconcelos, Professor Associado III, do Departamento de Fundamentos da Educação, da Universidade Federal do Ceará. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Filosofia Política em seu trabalho que era parte dos estudos de pós-doutoramento desenvolvidos junto a Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia em 2002 sob o titulo ” MANOEL HENRIQUE PERIERA, VULGO BESOURO MANGANGÁ E O DISCURSO POÉTICO DA MORTE “. Aborda algumas versões sobre a morte de Manoel Henrique Pereira onde fica evidenciado em sua trajetória os aspectos políticos e religiosos a cerca de sua vida. É nesse jogo que Besouro, feito imortalizado, pela força de sua ação, com a arte da malandragem, o filho de querido de Ogum é incapaz de, simplesmente, morrer. Ele necessita ir muito além do inefável. É um corpus enigmático, uma tempestade de força e de resistência; uma sempre nova possibilidade de guerra e de combate que se renova para vazar o seu tempo. É que Besouro é uma estrela, uma estrela grande, que ilumina todos os tempos e encontra no infinito o céu e a terra. De acordo com AMADO(1973, 126-127), As mulheres dizem que ele está espiando os malfeitos dos homens (barões, condes, viscondes, marqueses) de Santo Amaro. Está vendo todas as injustiças que os marítimos sofrem. Um dia voltará para se vingar. De nada adiantaria colocar a polícia contra ele. Não importava a quantidade de homens. Todos seriam destruídos pelo rabo-de-arraia, rasteira e cabeçada braba. Em alguns casos, o recurso da surra de facão, ou quem sabe, a navalha no pé poderia ser utilizada no jogo da capoeiragem. Ele voltará para se vingar. Deve voltar como muitos homens do mar, reivindicando direitos, outras leis e igualdade social. Essa poética literária que AMADO (1973) entoa como um cântico, uma récita, uma beberagem capaz de embriagar, no silêncio, os mortais que se tornam ávidos e sedentos pela beleza discursiva reencontra a visibilidade da história, encobrindo um enorme campo retraído do invisível. Nos dias de hoje Besouro cantado, entoado, versejado ou descrito pela literatura; Besouro tomado de empréstimo como um nome dado ao capoeira é também físico. Mestre Burguês (1986:32) conta que certa vez Besouro estava desempregado e saiu em busca de trabalho. Conseguiu emprego na Colônia Santa Rita. No dia do pagamento, sabia que havia um costume do patrão de chamar só uma vez e, na segunda, dizia que havia “quebrado para São Caetano”. Isso significava dizer que o empregado não receberia. Não havia possibilidade de reclamar. Se o fizesse, era imediatamente espancado como correção pela audácia. Esse costume – imposto pelo patrão – era sinal de força e orgulho. Era comentado nas festas e rodas dos senhores de engenho da região. Conta mestre Burguês, que: SOCIAL CAPOEIRA WWW.CAPOEIRA.COM.CO


Besouro no dia do pagamento deixou que o patrão lhe chamasse duas vezes. Todos receberam naquele dia, menos Besouro. Então invadiu a casa do patrão pegou-o no cavanhaque e gritou: Pague o dinheiro de Besouro Cordão de Ouro. Paga ou não paga? E o patrão com as mãos trêmulas ordenou que lhe pagasse o devido e o mandasse embora. Besouro tomou o dinheiro e andou. Narra ainda BURGUÊS (1986: 33) que Besouro foi se empregar na fazenda do Dr. Zeca, o qual tinha um filho genioso que logo se desentendeu com Besouro. O fazendeiro tinha um amigo que era administrador da Usina Maracangalha de nome Baltazar. Mandaram então Besouro entregar uma carta. Baltazar recebeu a carta, leu, e disse para Besouro esperar pela resposta até o dia seguinte. No outro dia Besouro, quando foi buscar a resposta, viu-se rodeado por uns 40 homens armados. As balas nada fizeram contra ele. Um homem matou-o a traição com uma faca. Só assim é que puderam acabar com Besouro e sua saga de homem valente. Outra versão dentre tantas apresentadas sobre a morte de Besouro corrobora esta descrita pelo mestre Burguês. REGO (1968:265) descreve um possível desentendimento entre Besouro e Dr. Zeca (Jeca) e, ao mesmo tempo, amplia com a inclusão do filho Memeu, que entrou em desentendimento com Besouro. Mandaram então uma carta para Baltazar, pelo próprio Bezouro, pedindo ao administrador que desse fim do Besouro por lá mesmo. Baltazar recebeu a carta, leu, e disse a Besouro que aguardasse a resposta até o dia seguinte. Besouro passou a noite na casa de uma mulher da vida; no outro dia foi buscar a resposta. Quando chegou na porta foi cercado por uns 40 homens, que o iam matar. As balas nada fizeram; um homem o feriu à traição, com uma faca. Foi como o cosseguiram matar. A linguagem poética de VIEIRA (2001:13) sobre a morte de Besouro refere-se ao castigo aplicado ao filho do dono da usina. Besouro teria feito o jovem Memeu – filho do patrão montar em um burro brabo, como forma de punição e justiçamento aplicados por Besouro. Isso foi motivo suficiente para o patrão mandar executar Besouro Cordão de Ouro. E o rapaz que não tinha/ traquejo com montaria/ Mal montou e foi pro chão/era assim que acontecia/ No burro, mal se montava/ Ela todo se encolhia/ Burro de primeiro salto/ Derrubava e não saía. O rapaz adoeceu/ Seu pai ficou irritado/ Não atirou em Besouro/ pois tinha o corpo fechado/ então tramou sua morte/ Com jagunço contratado/ não demorou, o serviço/ Foi logo executado (VIEIRA 2001:13-14) Raimundo José das Neves, Mestre Macaco, 36 anos, 28 de capoeira. Iniciou seus estudos de capoeira com Mestre Ferreirinha, na década de 1970. Entretanto, teve que mudar para a Regional - no horário das aulas do mestre Ferreirinha, Mestre Macaco estava na escola. Concluiu o ensino médio e, no momento atual, é um profissional da capoeira, em Santo Amaro da Purificação-BA. Mestre Macaco ao se referir à história da morte de Besouro Cordão de Ouro, sobre uma determinada usina em Maracangalha - zona canavieira – que o proprietário tinha o

hábito de deixar de pagar aos trabalhadores, alegando que havia quebrado para São Caetano – padroeiro da Usina. Ao saber dessa história, Besouro, que gostava de tomar o partido dos desfavorecidos, alistou-se na referida usina. Na segunda semana, quando foi receber o salário- relata Mestre Macaco - com os outros funcionários, o patrão disse que havia quebrado para São Caetano. Mestre Macaco afirmou: Besouro segurou o patrão pelo cavanhaque, neutralizou os outros capangas e fez com que o salário dele e dos outros fossem pagos. Nesse mesmo dia tinha dado uma surra no filho desse proprietário de terra, próximo a usina de Maracangalha. Ele se desloca para Santo Amaro e quando passa um período ele volta para rever as mulheres de programa que ele conhecera. Ele tinha um chamego daquele lado. Essa mulher foi paga, teve a relação sexual com ele. Nesse caso quebrou os encantos que ele tinha. Foi tudo já armado. Quem pagou isso foi esse proprietário que ele tinha dado uma surra. Mestre Macaco analisa o conflito que se instaurou em torno da morte de Manoel Henrique muito mais do ponto de vista político, embora inclua a versão do corpo fechado, da faca misteriosa e da mulher que passou a noite com Besouro. Amplia a versão incluindo a personagem que fora contratada pelo usineiro. De acordo com o Mestre, o rapaz contratado era muito mais novo do que ele, talvez nem fosse maior de idade. Foi preparada uma outra tocaia. Contam que quando ele atravessou a cerca a camisa rasgou-se. Ele falou que não estava no dia dele. Quando ele chegou nas proximidades do bar, foi feita a emboscada e, segundo contam, ele foi perfurado com uma faca preparada para esse tipo de situação, que é a faca de Ticun. Besouro mesmo assim caminhou e foi trazido de Maracangalha - em uma canoa - até Santo Amaro. Chegando em Santo Amaro, na Santa Casa de Misericórdia não houve muito interesse em atende-lo. Ele tinha muitos inimigos e ele morre no hospital. Esse relato aproxima-se ao do mestre João Pequeno, com a diferença de que o discípulo de Pastinha concentra mais sua versão em torno da mandinga quebrada quando Besouro mantve relação sexual no período que deveria obrigações aos orixás. João Pequeno assinala que seu pai era primo de Besouro. Todavia insiste na idéia de que o corpo fechado pode ser quebrado quando esse corpo se encontra sujo pela sexualidade. Pessoa de corpo sujo são as que têm relações sexuais, eles estão despreparados e com o corpo aberto a qualquer luta, e foi aí que aproveitaram do finado Besouro (PEQUENO, 2000: 17). O Mestre insiste na versão do corpo sujo proporcionado pela impureza da atividade sexual. Relata o acontecimento que antecede a morte de Besouro: Ele dormiu na casa de uma mulher no outro dia quando ele vinha para a casa passando debaixo de uma cerca de arame, o arame arranhou nas costas dele e ele chamando disse: “estou mal, se qualquer pessoa me atacar hoje estou perdido”. E foi nesse dia que furaram ele em uma briga, que durou o dia inteiro. Então, o capoeirista que usa essas rezas não pode ter relações sexuais senão perde o efeito (PEQUENO, 2000: 17). Mestre Dimas relata o fato a partir de histórias que ouviu e de pesquisa realizada por ele na região. Garante que Besouro estava bebendo em uma venda, não sabe exatamente onde. Tinha acabado de retornar de alguma festa ou da casa de


alguma mulher. Isso mantém a versão do corpo aberto pela sexualidade. Nas palavras do Mestre, ele era justiceiro e os senhores de engenho não gostavam dele. Um misto trafega entre um campo político e outro que se expressa na religiosidade e nas obrigações com os santos protetores. Ninguém podia disputar na mão com ele – quem era doido de sair na mão com Besouro ou na faca. Não tinha jeito. E ele vinha de uma tradição de jogar com a navalha do pé. Ele tinha a sina dele – a mandinga – que não poderia ter relações sexuais em determinados dias. Tinha o dia certo. Foi então que apareceu no local um garoto que estava contratado para atacar Besouro. Essa mesma versão aparece no discurso do Mestre Macaco. Alguém deu a faca de Ticum. O garoto estava preparado para mata-lo. Brincou com o garoto que, inesperadamente, sacou da faca e furou Besouro. Cortado caiu, gofando, bebendo o próprio sangue. O ticum além de cortar, solta uma tinta que infecciona. O Garoto furou e logo fugiu. Ele que estava com o corpo aberto, tinha acabado de ter relações sexuais com a tal mulher. Mestre Dimas argumenta que Besouro foi levado para o hospital. Entretanto, embora fosse um negro muito forte, não resistiu à distância e à falta de socorro da Santa Casa de Misericórdia. Da Usina de Maracangalha até Santo Amaro é muito longe. Ele ainda resistiu. Entretanto sua fama era muito grande, os proprietários automaticamente foram ao hospital e dificultaram ou impediram o socorro. Se fosse prestado socorro de forma adequado – ele era muito forte – teria escapado. Foi perdendo muito sangue e veio a falecer. Mestre Atenilo, em entrevista concedida ao Mestre Itapoã (Raimundo César Alves de Almeida ), ilustra a possibilidade de criação. Nesse relato já transmitido por outros capoeiristas, Besouro morreu em Cumbaca. Morreu com uma facada. Todas as versões são categóricas em afirmar que foi facada. Nesse aspecto, encontro unanimidade, o que se encaixa perfeitamente com o documento expedido pela Santa Casa de Misericórdia. Entretanto, no relato organizado por ALVES (1988: 48), o entrevistado – Atenilo – diz que Besouro, mesmo furado, não morria. Ele era um além-humano. Não poderia morrer de qualquer jeito. Uma morte simples não seria tolerada. Caberá ao mito – no mínimo – uma morte espetacular. Ele não morria, porque ele depois de furado, dizem, ele meteu a mão na faca e cortou os intestinos, ele cortando e comia. E ele vivo, até quando levaram ele pró hospitá, quando chegou no hospitá o médico disse: se ele não tivesse cortado os intestinos... Mestre Itapoã pergunta novamente, como se quisesse se certificar do que acabara de ouvir: Ele comeu os intestinos, que história é essa?-Mestre Atenilo responde: Ele cortava rapaz, era maluco, cortava um pedaço e botava na boca. Quando chegou no hospitá não tinha mais ar, o ar já tinha saído e ele morreu (...)Até ele não queria escapar. Sr. Danilo do Acupe, 67 anos, assegura, que Besouro tinha o corpo fechado. Mas o afilhado dele encontrou o ponto fraco. Pegou o Mestre no dia fraco; no dia em que ele estava desprotegido pela atividade sexual. Não tem mandingueiro

que resista. Além disso, Cordão de Ouro foi furado com uma faca de ticum, que é a árvore dos mistérios. Dia de sexta-feira o homem não pode ter relação com mulher. Besouro caiu porque o afilhado o ajeitou, pegou o dia fraco dele e ajeitou ele com uma faca de que? De Ticun. Não tem mandingueiro que resita. Só basta bicar, só basta tocar. Aquele que tem um espinho, que dá aquela frutinha. Mesmo tendo passado a noite com uma mulher não haveria problema. Sr. Danilo é categórico em afirmar que só pela mulher Besouro não seria derrubado. Besouro é vítima da inocência. A potência transmudada em maldade. Besouro morre no da 8 de julho de 1924. De acordo com o calendário de 1924, o dia 8 de julho é uma terça-feira, que segundo VERGER (1997) é dia dedicado a ogum. Coincidência ou não a possibilidade de articulação entre sexualidade, mandinga, corpo fechado preenchem de possibilidades a linguagem poética. Foi o menino – afilhado – que estava com maldade com ele. O que contam é que Besouro foi traído pelo afilhado. Isso ocorreu na toga do saveiro. O menino ficou esperando. Quando ele voou já era tarde. O punhal já tinha cravado nele. Caiu no próprio barco. Quando o cara botou nele, já estava preparado. Ali tem um veneno. O ticum solta um veneno. Quando botou nele acabou o home. A irmã de Besouro– Dona Dormelina Pereira dos Anjos, Dona Adó, em entrevista gravada em Santo Amaro no dia 18.06.2002, garantiu que Besouro estava dormindo. Não entrou em detalhes sobre os motivos de sua morte. Provavelmente por causa de uma mulher. Ele estava dormindo. Mataram ele dormindo. Ninguém sabe quem matou. Morreu em Maracangalha. Contestou a possibilidade de Besouro estar em alguma festa ou bodega. Foi uma morte construída pela força da traição. Ao mesmo tempo integrou à linguagem poética dois arquétipos importantes da mitologia: o sono e a morte, que são irmãos gêmeos; filhos da noite, que habitam para muito além dos lugares que o Sol pode iluminar. São lugares onde os galos nunca anunciam a chegada da aurora, chorando o orvalho pela decrepitude de seu amado Titão. De acordo com MÉNARD (1991, p. 119), (...) o falecimento, filho da noite, habita perto do sono, seu irmão. Este, amigo dos mortais, passeia calmamente no meio deles, na terra; mas o falecimento não conhece piedade e tem um coração de bronze. Nunca deixa o infeliz de que se apodera, e inspira horror aos próprios deuses imortais. Besouro põe em conflito os dois irmãos. O sono que passeava livremente pela vida e rompeia o fio da existência com a traição e crueldade humana; do enfraquecimento da mandinga, movido pela força da sexualidade e, ao mesmo tempo, o que se torna indispensável - proteção ao mito. Nada poderia abatêlo. Nem a força da mandinga, impureza, o ticum ou interferências políticas. Na realidade, é como se dissesse: só poderiam matar Besouro dormindo. Não haveria outra forma. O sono impediria a força do mito; imobilizaria a cabeçada, a navalha no pé, o rabo-de-arraia, a rasteira ou a surra de facão. Não haveria força humana disponível para detê-lo. Besouro só poderia morrer à traição.


Para AMADO (1973, p. 127): cortaram seu corpo todo. Foi preciso catar os pedaços para o enterro. Mas, como poderia ser cortado à faca o ilustre filho de Ogun? Ele não poderia morrer de ferro. Temos ainda uma retaliação poética, uma mutilação que lembra o menino Dioniso. O ritual da criança cortada em postas pelos titãs e cozida no vinho, formando uma macabra beberagem e, ainda assim, escapou o divino coração do deus que renasceu na coxa de Júpiter. Pela força da paixão representada pelo coração, o deus-menino sobreviveu embriagando a todos em todos os lugares. Besouro trafega entre a vida e a morte como um deus que sempre viverá, porquanto é imortal. Outro “causo” envolvendo Manuel Henrique Pereira foi uma contenda com Antônio José Diogo, que fustigando Besouro com o cipó caboclo, ordenou: “Feche a porteira, nego descarado! Besouro não o obedeceu e revidou a agressão com seu facão. Mas a denúncia que transcrita literalmente a seguir, que foi extraída do Arquivo Público de Santo Amaro-BA, mostra-nos que “os homens da lei” faziam as versões para as ocorrências da forma que lhes conveniente: “Exmº Sr. Dr. Juiz de Direito O Promotor Público d’esta Comarca abaixo firmado, usando de suas atribuições e firmado no inquérito policial junto, vem trazer a V. Exª denúncia contra Manoel Henrique, vulgarmente conhecido por “Besouro”, brazileiro, empregado no Engenho Santo Antônio do Rio Fundo, onde rezidente, pelo fato criminoso seguinte: No dia 31 de Dezembro de 1921, em terreno do Engenho Santo Antônio do Rio Fundo, no distrito do mesmo nome, o denunciado depois de uma troca de palavras com Antônio José Diogo, que passava pela estrada, investe contra este, armado de um facão, produzindo-lhe os ferimentos graves descritos no corpo de delito, dos quais lhe resultaram a amputação do dedo mínimo da mão direita. Como d’esse modo, tendo o denunciado praticado o crime previsto no Art. 304 do Código Penal, apresenta a Promotoria esta denúncia para, julgada provada, ser o mesmo punido com a pena do referido artigo. Assim, P. or. de V. Exª que se proceda a todos os termos para a formação de culpa, inquerindo-se as testemunhas arroladas em dia e hora que forem designados com sciencia d’esta Promotoria e fazendo-se as necessárias intimações: Testemunhas Rezidência José Maria da Paixão Engenho Novo Francisco Alves Soares Rio Fundo Pedro Antonio Pereira Rio Fundo Antônio Joaquim de Oliveira Rio Fundo Francisco Florêncio da Silva Rio Fundo Santo Amaro, 4 de fevereiro de 1922. É notório que as forças policiais que já não simpatizavam com a imagem e pessoa de Besouro em momento algum lhe dariam razão, e sempre estariam pendendo para a outra parte!!

Que ele morreu de faca, é quase certo. Há até testemunhas, ainda vivas, que lembram de ver Besouro sendo levado ao hospital, ensanguentado. Uma delas, inclusive, é ninguém menos que a mãe de Caetano Veloso, Dona Canô, que ate os 105 anos de idade viveu em Santo Amaro. No Arquivo Público da Prefeitura Municipal de Santo Amaro da Purificação – BA, encontra-se a certidão de óbito de Manoel Henrique Pereira: “Santa Caza da Mizericórdia da Cidade de Santo Amaro, em 5 de Setembro de 1925. Certidão passada a pedido verbal do Dr. João de Cerqueira e Souza, Promotor Público da Comarca e por determinação do Chefe do Serviço Clínico do Hospital da Mizericórdia e etc. Certifico que, por determinação do Chefe do Serviço Clínico d’este Hospital da Santa Caza da Mizericórdia, revendo os livros nº 3, linha 16 cito 418, consta o seguinte lançamento: Manoel Henrique, mulato escuro, solteiro, 24 anos, natural de Urupy, rezidente na Uzina Maracangalha, profissão vaqueiro, entrada no dia 8 de Julho de 1924, às 10 e meia hora do dia, fallecendo às 7 horas da noite, de um ferimento perfuro-inciso do abdômen. É o que consta, que para aqui copiei fielmente como n’elle se contem. Eu, Jerônymo Barboza, enfermeiro, que o escrevi e assigno. Jeronymo Barbosa - Enfermeiro. Jorge Amado, em seu romance “Mar Morto”, dedica um capítulo a Besouro: “Essa cidade de Santo Amaro onde Guma está com o saveiro foi pátria de muito barão do Império, viscondes, condes, marquesas, mas foi também de gente do cais, a pátria de Besouro. Por esse motivo, somente por esse motivo, não é por produzir açúcar, condes, viscondes, barões, marqueses, cachaça, que Santo Amaro é uma cidade amada dos homens do cais. Mas foi ali perto, em Maracangalha, que o cortaram todinho a facão, foi ali que seu sangue correu e ali brilha a sua estrela, clara e grande, quase tão grande como a de Lucas da Feira. Ele virou estrela porque foi um negro valente” (...) Alem de Jorge Amado, Paulo César Pinheiro e Baden Powel, na musica “Lapinha” também prestam justa homenagem a Besouro: “Quando eu morrer me enterre na Lapinha Quando eu morrer me enterre na Lapinha Calça, culote, paletó, almofadinha (...) Adeus Bahia, zum-zum-zum, cordão de ouro, Eu vou partir porque mataram meu Besouro” (Paulo César Pinheiro e Baden Powel). Em 2006 é lançada a peça “ Besouro Cordão de Ouro” sob a direção teatral de de João das Neves. Elenco: Alan Rocha, Anna Paula Black, Cridemar Aquino, Gilberto Santos da Silva (Laborio), Ilea Ferraz, Letícia Soares, Marcelo Capobiango, Maurício Tizumba, Raphael Sil, Sérgio Pererê, Valéria Monã, Victor Alvim (Lobisomem), William de Paula e Wilson Rabelo. O compositor criou cada música tendo como base os diferentes toques de capoeira. A direção musical é de Luciana Rabello.


Assim como Antônio Vieira em sua poesia de cordel intitulada “O Encontro de Besouro com o Valentão Doze Homens” também presta seus respeitos a nosso herói: “Esta é uma história De natureza baiana Que envolve o recôncavo O massapé e a cana O engenho, a usina O candeeiro de manga O carreiro que conduz A junta de boi de canga” (...)

nacional “Besouro o filme” que conta seus feitos heroicos e lendarios sob a direção de João Daniel Tikhomiroff e elenco: Sérgio Laurentino (Exu); Aílton Carmo (Besouro); Anderson Grillo (Quero-Quero); Sérgio Pererê (orixá Ossaim); Adriana Alves (Oxum); Jessica Barbosa (Orixá Iansã/Dinorá) ;Zebrinha (Orixá Ogum); Macalé dos Santos (Mestre Alípio); Flávio Rocha (Coronel Venâncio); Seu João Feio;Irandhir Santos (Noca de Antônia); Geisa Costa (Dona Zulmira); Miguel Lunardi; Antônio Fábio (Serafim); Nilton Júnior (Cobra Criada); Denise Correia; Servílio de Holanda (CGenival); Leno Sacramento (Chico Canoa) Huen Chiu Ku, coreógrafo de Kill Bill, é o responsável pelas cenas de luta do filme Meus amigos,como pudemos observar a vida e trajetória de Manuel Henrique Pereira “Besouro Mangangá”, apesar de ser um personagem verídico em nossa história, se mistura entre a realidade e ficção, política e religião, fato é que sim ele existiu e por tudo que fez se tornou se não maior CAPOEIRA de todos os tempos, o maior de seu tempo. Suas peripécias, aventuras e desventuras ate os dias atuais são contadas, cantadas , versadas enfim; mas o processo de desconstrução da imagem do negro é gritante ao longo dos anos. E Manoel Henrique Pereira, não seria uma exceção. Sob o pretexto de apenas abordá-lo como uma entidade mística e não sob uma perspectiva mítica, a história oficial acaba por não incluí-lo como uma expressão legítima de resistência da luta dos negros. Essa desconstrução cresce ainda mais quando Besouro é associado a forças demoníacas, principalmente quando fugia da polícia, sumindo repentinamente por entre os matos e canaviais (os quais conhecia como ninguém), ou por declararse filho de Ogum e ter o “corpo fechado”. ASÉ E PAZ PRA TODOS!!

“Ela envolve uma cidade Bem antiga da Bahia Um de seus protagonistas A ela é que pertencia Me refiro a Santo Amaro A cidade de Besouro Negro valente danado Que não levava desaforo”. “Dizem que Besouro Ainda propôs pra Doze Homens Suspenderem a peleja Enfrentar juntos os homens Botá-los pra correr, Mostrar que ‘o couro come’ E depois de os vencer Lutar de homem pra homem” (...) Em 2009 é lançada nos cinemas mais uma justa homenagem a Manuel Henrique Pereira e sua memória com a produção

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