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! Ciência Capital

Edição piloto - Laboratório do curso de Jornalismo da Unibrasil

Canibalismopodeenlouquecervocê

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Expediente

Sob muitos aspectos, Capital Ciência, segundo produto do grupo Midiabólicos, é uma espécie de síntese do modelo de formação que o curso de Jornalismo da Unibrasil vem se empenhando em oferecer. Um procedimento pedagógico que privilegia o talento, o esforço, o mérito, a recusa ao senso comum e às respostas prontas. Combina conhecimento técnico e formação humanística. E, principalmente, tenta apontar alternativas, correndo riscos (mesmo que sutis) normalmente sufocados no cotidiano da profissão. A proposta do Capital Ciência é explorar a linguagem do jornalismo científico, sem, com isso, desprezar modelos exteriores. Ele é pautado pelos projetos de conclusão de curso defendidos no curso de Comunicação Social/ Jornalismo da Unibrasil no segundo semestre de 2007. Os alunos-repórteres, no entanto, não têm compromisso com a abordagem das monografias e demais trabalhos de conclusão de curso. Por exemplo, uma das reportagens sobre autismo se inspira, simultaneamente, na problemática do agendamento, levantada tangencialmente no projeto “Almanaques para Jornalistas”, e em um livro-reportagem sobre a síndrome, “O autismo é outra história”. Veremos sinais do jornalismo literário, assimilado em pelo menos duas disciplinas do curso, do jornalismo popular, das influências de jornalistas tão distintos quanto o irônico Daniel Pearl, o preciso José Hamilton Ribeiro (que nos concedeu entrevista exclusiva para a reportagem sobre conseqüências psicológicas das amputações) e o meticuloso Joseph Mitchell, quanto autores da literatura ficcional contemporânea, como J. M. Coetzee e James Lee Burke. Há, também, textos assinados conjuntamente por professores e alunos – o que reforça o compromisso de pensar no aprendizado como um esforço de toda a comunidade acadêmica. O Midiabólicos é formado, por sinal, por seis professores orientadores e dez alunos, provenientes de praticamente todos os períodos do curso. A variedade de citações explícitas e cuidadosamente mimetizadas vai além dos textos e chega ao projeto gráfico, que já havia experimentado alguns elementos incomuns no Capital Literária, lançado pelo Midiabólicos no último semestre. O projeto visual é inspirado nas célebres capas de disco produzidas pelo designer Red Miles e o fotógrafo Francis Wolf para o selo de jazz Blue Note a partir dos anos 50. Este próprio editorial segue uma homenagem de terceira geração, se inspirando nos artigos de contracapa dos lps da gravadora, assinadas pelo produtor e crítico Alfred Lion. Poderíamos dizer: “Sob muitos aspectos, Live at Caverna, segundo disco ao vivo do Midiabólicos, é uma espécie de síntese do tipo de música que duas gerações de compositores e instrumentistas vinham praticando na costa leste da metrópole. Um som que privilegia a experiência, mas sobretudo o talento e a disposição de sair do boogie woogie que dominava Curitiba naqueles tempos”. Mais uma vez a variedade tem seu peso pedagógico: o que faz um profissional se tornar competitivo e sair da mera condição de “empregado” (ou desempregado) é a quantidade e qualidade de informações que consegue assimilar, manter e articular criativamente. Sem repertório, o estudante de Jornalismo é refém, no mínimo, de discursos provincianos, lotados da superstição do pensamento positivo, corporativismo e medo. O apelo à qualidade e ao compromisso inegociável com os princípios da Unibrasil Records pauta o álbum Capital Ciência. E esperamos que tenha a honra de influenciar novas experimentações, novos caminhos, novas esperanças.

me assusta

O silêncio eterno

desses espaços infinitos

Capital Ciência é uma edição especial do curso de Jornalismo da Unibrasil, e tem como proponentes os Midiabólicos, alunos do grupo de projetos especiais. São eles: Adriano V. Carneiro, Andressa Berkenbrock, Heitor Hayashi, Katy Mary de Farias , Rodolfo Stancki, Sheila Gorski e Thiago Lapa. Orientados pelo professor e jornalista bastante responsável Victor E. Folquening (RP 3411/13/25v), que também coordena o curso de Jornalismo das Faculdades Integradas do Brasil, a Unibrasil, dirigida academicamente pelo seu presidente, professor doutor Clèmerson Merlin Clève. A Unibrasil fica na rua Konrad Adenauer, 442, bairro Tarumã. O telefone da coordenação de Jornalismo é (41) 3361.4252 ou 4259. O endereço virtual: jornalismo@unibrasil.com.br O site do Cepjor: http://jornal.unibrasil.com.br O exemplar que tens em mãos se serve do projeto gráfico de Adriano V. Carneiro é um dos mil que foram prensados pela gráfica do jornal O Estado do Paraná.


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RODOLFO


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a 0 2 00 C O corpo responde 0 20 0d C Acontece porque o cérebro recebe todas as informações sensoriais e constrói um mapa do corpo. Há pessoas que após seis meses da cirurgia deixam de sentir o membro inexistente enquanto outras permanecem com essa sensação para o resto da vida. “Tudo depende dos estímulos lançados”, conta Andrade. José Hamilton Ribeiro conta que às vezes acordava de noite para ir ao banheiro e se levantava como se fosse bípede. “O resultado era um belo tombo. Mas dificilA rainha Vishpla, o jornalista José hoje Hamilton Ribeiro e parte dos aciden- mente acontados com motocicletas enfrentaram tece um sonho uma batalha. A amputação. Segundo em que eu eso Rig-Veda, documento mais antigo teja com toda da literatura hindu, Vishpla perdeu a a integridade perna durante uma guerra, ganhou física”. Quando uma prótese de ferro e retornou à bamembro talha. Ribeiro escreveu sobre o fim da o própria perna em uma mina escon- fantasma se dida no Vietnã de 1968. Brasil, 2007: manifesta, é acidentes com motocicletas são res- o padrão perponsaveis por 70% das amputações ceptivo que está ativado. cirúrgicas. Todas as percepções e experiências “Eu parei de sentir a que esse membro viveu mão que não tenho mais”, estão gravadas no córpercebe o paciente. O tex cerebral. “O cérebro problema é que ele costu- parece agir por conta mava sentir, meses depois própria. Quando machude perder o membro. camos nossa perna sen“É um caso de sen- timos dor. Quando não sação fantasma”, indica se tem mais essa perna, Alceu de Andrade Junior, o cérebro acha que ela fisioterapeuta na Asso- está parada e estimuciação de Reabilitação do la coceiras e dores para Paraná (APR). “Tem gente que você a movimente”, que acha que ficou louca diz o psicólogo da APR, quando sente um mem- Edson Pancera. bro amputado e pergunAo contrário do que ta-se: ‘como eu sinto se se pensa, a origem dessa ele não existe?’”. sensação é muito mais de

gorski

à amputação

natureza física do que psíquica, como afirma a fisioterapeuta Lilian de Souza Alves, que há 16 anos trabalha com amputados na Clínica Ortopédica Catarinense. “Existe diferença entre sensação fantasma e dor fantasma. A sensação é a coceira, formigamento. Já a dor fantasma pode ser conseqüência de um nervo exposto, por exemplo, quando o paciente não teve uma cirurgia bem sucedida”. Os nervos são os maiores responsáveis pelas dores no coto – resto do membro amputado. Uma possível explicação para a dor é de que ela seja provocada pelos neurônios que controlam o envio de sinais químicos, ativam receptores de membrana e desencadeiam a contração muscular. Segundo Andrade, a sensação fantasma é esperada, a dor não. “Tratamentos como massagem, bandagens, compressas quentes no coto, diminuem a sensibilidade”. O trabalho corporal é parte mais importante do tratamento. Lílian afirma que a fisioterapia pós-amputação de um membro é baseada no fortalecimento, alongamento e encontro do novo eixo do corpo. “No caso da falta de um membro inferior os músculos do lado do membro

devem ser fortalecidos a fim de estabilizar o eixo e o lado oposto alongado”. Todos os músculos do corpo, principalmente do tronco, devem ser fortalecidos nessa etapa para a transferência de peso. Além de exercícios de tônus e trofismo muscular, a resistência à fadiga, flexão, extensão, são de igual importância, como afirma Alceu de Andrade Junior. “Colocamos a pessoa para trabalhar em frente ao espelho, ela vê como está”. Hamilton Ribeiro afirma: “Moleza não existe. Com duas pernas, ou com uma, cada um tem a sua ralação”. Pancera explica que os pacientes têm duas etapas de tratamento psicológico: a individual e a em grupo. “Na terapia individual existe o foco na vida da pessoa, problemas anteriores e o que mudou. Na terapia em grupo existe o foco da amputação, que é o problema em comum”. O trabalho em conjunto da fisioterapia com a psicologia é importante, pois o objetivo maior é a adaptação à prótese e a volta a capacidade de andar. Durante esse processo o fisioterapeuta verifica as mudanças do paciente e repassa as impressões ao psicólogo. Lilian Alves enumera as etapas pós-amputação.

“Primeiro vem a revolta, depois o luto e a aceitação”. O luto, por exemplo, é muito importante e é como o luto pela perda de um ente. Há quem faça de conta que está tudo bem, que nada aconteceu. “Tive a princípio três medos. morrer, me tornar uma pessoas incapaz de ganhar a vida com meu trabalho e o medo profissional de ser conhecido apenas como o repórter que esteve no Vietnã e não fez mais nada”, conta Hamilton Ribeiro, que passou 11 dias com médicos americanos no hospital de campanha. “Me movimentei com cadeiras de rodas e muletas e vi que, mesmo com limitação, teria energia para continuar minha profissão”. Superar o terceiro medo, para Hamilton, foi o mais demorado. Manterse como um repórter competitivo era um desafio. O corpo pode responder negativamente ao trauma da amputação, mas com força de vontade empregada pelo paciente a recuperação será menos dolorosa e mais rápida. “Está vendo aquele senhor ali? Ele logo vai melhorar, não duvido”, conta Andrade apontando para um senhor que acabara de chegar trazendo um pacote de balas para os médicos.


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Ondas

ciência e música lapa

Ondas sonoras e o cérebro. Robert Jourdain, autor de “Música, Cérebro e Êxtase” (Editora Objetiva, 1998), diz que, para aproveitar “de verdade” a música, precisamos estar atentos aos processos básicos que ocorrem no ouvido humano ao som do ritmo e da melodia. As ondas sonoras, que chegam ao tímpano do ouvido, fazem vibrar três ossinhos, que são ligados a uma estrutura chamada cóclea. A cóclea é cheia de líquido por dentro. Os sons fazem esse líquido balançar e se transformar em impulsos químicos e nervosos, que registram em nossa mente as diferentes qualidades dos sons que estamos ouvindo. O que muitos não sabem é que “as raízes dos nervos auditivos – os nervos do ouvido – são distribuídas mais amplamente e têm conexões mais extensas do que os de qualquer outro nervo no corpo...[Devido a essa extensa rede] dificilmente existe uma função no corpo que possa não ser afetada pelas pulsações e combinações harmônicas de tons musicais”. A investigação da influência da música no corpo humano foi conduzida, em grande parte, por um ramo da medicina conhecido como “musicoterapia.” Em 1944, “The Music Research Foundation” (A Fundação de Pesquisa da Música) foi estabelecida em Washington, D. C., com objetivo de explorar e desenvolver novos métodos para controlar o comportamento humano e as emoções. O governo americano financiou esta pesquisa por causa da necessidade premente de tratamento psiquiátrico para os veteranos de guerra, que sofreram lesões ligadas às ondas de choque dos bombardeios durante a Segunda Guerra Mundial. Estudos mostraram que o impacto da música no sistema nervoso e as mudanças emocionais provocados direta ou indiretamente pelo tálamo afetam processos tais como a freqüência cardíaca, a respiração, a pressão

sangüínea, a digestão, o equilíbrio hormonal, o humor e as atitudes. Isto nos ajuda a entender por que a batida impulsionadora e incessante do rock e da música eletrônica, exercendo um impacto diretamente sobre o corpo, pode ter uma gama tão extensa de efeitos físicos e emocionais. Os neurônios são células nervosas que têm suas extremidades separadas por um espaço mínimo (chamado sinapse). Para que uma célula possa transmitir um simples impulso elétrico para outra, ela emite substâncias químicas chamadas neurotransmissores (NT), responsáveis pela passagem do impulso elétrico.

Existem formas de estimular a liberação dos neurotransmissores. O ritmo definido por uma freqüência sonora – uma marcha militar, por exemplo - age como efeito biopsicoeletroacustico e cria uma sensação completamente diferente da criada por uma marcha fúnebre. Uma outra forma de estímulo são as “ambientações” urbanas para a música eletrônica. Um outro tipo de freqüência é unido à sonora: a cromática. As cores também têm freqüências muito particulares que estimulam diretamente a liberação/captação dos NTs e dos neuroreceptores (NR) pelos neurônios. A música eletrônica buscou inspiração nos efeitos psicológicos despertados por tambores em rituais indígenas/ africanos. A exposição à música com ritmos “desarmônicos” – quer seja a “tensão” causada pela dissonância ou “barulho” ou os balanços antinaturais de acentos rítmicos deslocados, síncopes, e

polirritmos, ou tempo impróprio – pode resultar em uma variedade de mudanças no indivíduo, incluindo uma freqüência cardíaca alterada com sua correspondente alteração na pressão sangüínea; uma estimulação excessiva de hormônios (especialmente os opióides ou endorfinas) causando uma alteração no estado da consciência, desde mera estimulação num extremo do espectro até a inconsciência no outro extremo. O que a propósito foi feito pelo rock alguns anos antes. O rock é uma mistura do jazz, do blues e da música country, Hitler quis acabar com as influências da música negra (jazz, sobretudo), estabelecendo normas para determinar o que constituía a música ideal para o povo alemão. Interessante é que exatamente após sua queda surgiu o rock’n’roll com ritmos mais sincopados que o próprio jazz... E também com um caráter mais agressivo.


Talvez você evite picanha depois dessa:

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Sandra Sousa trabalha com ração e não conhece os ruminantes

canibalismo faz mal à saúde! hayashi

Nas embalagens de ração para cães consta uma advertência que soa misteriosa para a maioria das pessoas – proibido uso na alimentação de ruminantes. O recado é fruto de um estudo sobre as doenças que surgem durante o processo de criação animal. Poucos sabem que o alerta está diretamente ligado à doença da “vaca louca”. Sandra Santos Sousa não sabe. Ela é dona de Toby – cachorrinho que, aliás, nem come ração, “só arroz misturado com comida” Apesar de trabalhar como encarregada da seção de ração de um supermercado, Sandra não conhece o significado de “ruminante”. Toby e Sandra até poderiam se dar ao luxo de desprezar a advertência, pois não são ruminantes. Mas as vacas são. Em 1986, a encefalopatia espongiforme bovina, depois celebrizada como “vaca louca”, apareceu na

Inglaterra, depois nos Estados Unidos e Canadá. A população chegou a repensar o consumo de carne. Não conhecia a doença, não fazia a mínima idéia de como ela havia surgido e, principalmente, não sabia quais eram os riscos. Os animais do Reino Unido haviam sido alimentados com rações à base de restos de animais, neste caso carneiros, o que é proibido. A utilização de proteína de origem animal é permitida somente para o trato de animais não ruminantes. Farinha de ossos, sangue, e outros restos são usadas principalmente por dois fatores: custam mais barato que as vegetais (soja, milho) e produzem um maior ganho de peso e, por conseqüência, menor tempo de confinamento. Porém, o fato de a matériaprima ser proveniente de inúmeros fornecedores dificulta o controle sanitário efetivo nas indústrias. A principal suspeita é a de que aqueles carneiros,

utilizados na ração dos bovinos, estariam contaminados com o “scrapie”. Essa é uma doença no sistema nervoso causada pela combinação de príons similares do hospedeiro e do invasor (canibalismo direto ou indireto). O príon é uma proteína presente no sistema nervoso dos seres vivos. Não é um vírus já que não apresenta ácido nucleico. Possivelmente, esses ovinos consumiram restos de animais da mesma espécie, ou semelhante, não processados devidamente, ou seja, aquecidos a 121°C durante 20 minutos em um equipamento chamado autoclave. Como em uma reação em cadeia, o que aconteceu aos bovinos da Inglaterra, que consumiram carneiros com o “scrapie”, também pôde ser observado em humanos que comeram carne contaminada com a “vaca louca”. Alguns desenvolveram a síndrome de Creutzfeldt-Jacob, doença que já havia sido estudada em tribos canibais da Nova Guiné. Novamente, príons invasores encontraram similares no hospedeiro (canibal), se uniram e formaram uma nova estrutura dentro do cérebro. Essa nova “parte estranha”, ao ser eliminada pelo sistema imunológico da própria pessoa, deixava “vácuos” que prejudicavam as conexões cerebrais e causavam a morte. Para evitar o problema, o pesquisador da Embrapa, Carlos Bellaver, diz que os criadores podem ajudar no controle sanitário. O consumidor deve conferir se as marcas asseguram a qualidade ISO e se respeitam o Manual de Boas Práticas de Fabricação, do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal e do Sindicato Nacional dos Coletores e Beneficiadores de Sub-produtos. Um problema mais próximo Além das doenças citadas, a alimentação ina-

dequada oferece outros riscos à saúde humana e animal. As aves urbanas são um bom exemplo. Algumas já se acostumaram a se alimentar dos restos de comida. Embora a probabilidade de elas desenvolverem doenças semelhantes ao “scrapie” ou à “vaca louca” seja mínima, o consumo prolongado pode acarretar outros tipos de danos à saúde. A médica veterinária Vanessa Yuri de Lima utiliza os pombos que salpicam as praças (Columbi livia) como exemplo. “A alimentação inadequada, como pipoca, arroz e pão, contribuiu para que a expectativa de vida desses animais, que em seu habitat natural seria de até 15 anos, caísse para 3, no máximo 5 anos”. O desequilíbrio, além de demonstrar a piora na saúde da espécie, também traz riscos ao ser humano. Quando as aves são alimentadas, o processo de seleção natural deixa de existir, pois, não há mais competição pela comida. A conseqüência é o aumento populacional com a posterior degradação do meio. As secreções e excreções dos pombos carregam uma quantidade muito alta de creatinina, fonte de nitrogênio para um fungo extremamente patogênico, o Criptococus neoformans. Vanessa alerta: “Esse fungo, principalmente quando há uma alta concentração de aves, pode levar a uma enfermidade que acomete o sistema respiratório e até a uma meningite”. Os exemplos citados indicam que a intervenção humana na natureza pode produzir efeitos não previstos e de difícil recuperação. A necessidade de produção de alimentos em larga escala, o estresse e a poluição, interferem na fisiologia animal e são responsáveis diretos pelo surgimento de novas doenças. “O Toby não é ruminante, com certeza”. O que não é garantia, convenhamos.


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c A R lo u Hospital em Piraquara é um dos últimos a isolar a insanidade

fendrich

convivendo no mesmo lugar. O hospital aceita maníacos, depressivos, esquizofrênicos, psicóticos, suicidas em potencial, e até mesmo obesos. Somos alertados de que essa parte do hospital não é muito agradável para se visitar. As pessoas vêm cumprimentar você. As pessoas querem atenção. E isso é constrangedor. Michel Foucault estudou descobriu que os primeiros loucos a serem isolados da sociedade foram os árabes, no século VII. Quando eles ocuparam a Espanha, séculos mais tarde, o costume se espalhou pela Europa. Mas esses “hospícios” não recuperavam os internos. A intenção era apenas isolá-los. O tratamento aos loucos em geral era pior do que aos prisioneiros. Durante a Revolução Francesa, o alienista Philippe Pinel assumiu uma dessas casas e decidiu acabar com os costumeiros maus-tratos. Começou a tratar os loucos como doentes, e passou a estudar e classificar seus problemas mentais. E formaram-se assim os primeiros “manicômios”. No Brasil, começou-se a aceitar todo o tipo de indesejáveis nos manicômios, e não apenas os loucos. A exemplo do que acontecia nos primeiros hospícios, os pacientes ficavam ali pra sempre. Em outras palavras, eles não se recuperavam. O Hospital San Julian age de forma diversa. Ainda que

as enfermeiras afirmem que “transtorno mental não tem cura”, o paciente pode sair de lá depois de 80 dias. Só que alguns pacientes retornam. Contraem o que chamam de “hospitalismo”. Não vivem mais sem o hospital. As enfermeiras garantem que há “elevado índice de recuperação”, embora só se tenha certeza do índice de altas. Os internos fazem suas atividades diárias numa área de 110 mil m². Pela manhã, os viciados fazem a oração da serenidade, admitindo a impotência diante da droga. Depois cantam o Hino Nacional. São eles mesmos os responsáveis pela higiene e pelas atividades cotidianas. Os pacientes formam pequenos grupos e se revezam para cuidar do varal, do corredor, do banheiro, etc. A intenção dos administradores do hospital é fazer com que larguem o vício, mas sem sempre é possível. Às vezes é a própria visita que traz drogas escondidas. Para evitar isso, as roupas dos pacientes são revistadas quando eles tomam Francis Bacon - 1986

- O que é isso? O que é isso? É um homem quem diz. Mas não prestamos muita atenção. Ele está deitado numa cama típica de hospital. Move-se inutilmente de um lado para o outro, tentando se levantar. Está amarrado. Faz perguntas e a gente o observa de olhos virados. Aquele homem é um inconveniente. Está em crise de abstinência, e foi preciso medicá-lo e reduzir seus movimentos. Algumas pessoas inconvenientes conseguem ser inconvenientes inclusive numa clínica psquiátrica. Passemos adiante. O Hospital de Neuropsiquiatria San Julian, em Piraquara, tem 35 anos, e os últimos tempos têm sido uma loucura. Conta com 450 leitos que aceitam todo o tipo de homens indesejáveis, desde que voluntariamente. Nisso se incluem drogados e alcoólatras, grupos que ocupam 350 camas. Há uma ala especial para que não perturbem a sociedade. Nas palavras de quem trabalha lá, é a parte mais pacata do Hospital. Os viciados podem até relaxar numa área destinada ao consumo do tabaco – uma droga que não diz respeito ao hospital. Os outros 100 leitos são para os doentes mentais, que ficam separados dos outros. São pessoas com as mais diversas enfermidades psicológicas

07 banho. Alguns pacientes recebem alta e voltam na semana seguinte, com medo dos traficantes. Para os loucos, as melhores atividades são as festas de aniversário, onde eles podem dançar à vontade, sem se preocupar com o que os outros irão pensar. Também existem gincanas, filmes e atividades culturais. Há uma sala com uma televisão e uma placa alertando que não se deve usar o aparelho durante a hora do almoço e após a novela das oito. E dessa forma os pacientes tentam suavizar a sua estadia, em meio a uma ou outra visita familiar. Mas só essas diversões podem não bastar quando se tem algum problema mental. É preciso mais, é preciso conversar sempre que puder, e cumprimentar todas as pessoas, mesmo que elas se recusem. Em alguns casos, é preciso puxar assunto com qualquer pessoa diferente que aparecer pelos corredores. Ou falar que hoje

à noite voltaremos pra casa, mesmo que seja o nosso primeiro dia. Convidar as pessoas a visitar a nossa família, ainda que não as conheçamos. Dormir no primeiro lugar que encostarmos. Andar com o nariz sujo. Murmurar coisas que ninguém entende, reclamar que não estão tendo mais tantas danças como antigamente. E ouvir das enfermeiras apenas um sorriso de complacência. Afinal, não tem cura. Basta que se diga um “aham”, um “tá bom”, e o louco pára de perturbar as 170 pessoas que trabalham no hospital. É bom não contrariar, afinal. Mexem a boca para mostrar que estão falando, mas ninguém ouve som algum, ninguém sabe o que querem realmente, e ninguém quer realmente saber. Em 2001 foi aprovado o projeto de lei que propõe a extinção gradual dos manicômios, e a substituição por outros mecanismos de assistência. No Hospital San Julian houve a diminuição do número de leitos. E o que se critica por lá é que não há realmente uma rede de ajuda para solucionar o problema – a psiquiatria é considerada por eles mesmos como “o patinho feio da Saúde”. O Conselho Federal de Psicologia diz que há ao menos 60 mil pessoas internadas em quase 300 manicômios pelo Brasil. A intenção é desinstitucionalizar a loucura, dividindo o problema entre Estado e sociedade. E invocar os direitos humanos para tirá-los do cárcere privado. Enquanto o processo da Reforma Psiquiátrica não se conclui, a sociedade pode dormir tranqüila, sabendo que os indesejáveis estão devidamente isolados do nosso convívio.


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Otorpordo oelho Vermelho, Verde, fotografado por Beto Carminatti. O vídeo foi vencedor do I Festival do Minuto de Curitiba, em 2002. Depois disso, o cineasta passou quatro anos se dedicando a orientar os alunos nas produções dos documentários. Durante esse período, recebeu duas encomendas: Recordações e Ações, em 2004, que conta a história de pessoas portadoras do vírus HIV; e Camaleão, em 2005, que recolhe depoimentos sobre a condição social do homem homossexual, e também aborda a questão do uso de banheiros públicos em terminais de ônibus para relações sexuais. “Na verdade, o Vida de Balcão é a minha retomada como diretor”. Na reinauguração da Cinemateca de Curitiba, em 29 de maio de 2007, os vídeos ganhadores do I Edital Digital da Fundação Cultural de Curitiba foram apresentados pela primeira vez ao público. Nos últimos minutos de Vida de Balcão - Antiga Curitiba de Hoje, a pla-

Foto: divulgação Foto: divulgação

Foto: divulgação

O novo documentário produzido por alunos do Projeto Olho Vivo, sob coordenação do cineasta curitibano Luciano Coelho, retrata a imposição religiosa na vida de cinco crianças. “O trabalho deles é de romper com a postura social que prevalece”. A frase é do também cineasta paranaense Eduardo Baggio, que se declara fã dos vídeos do Projeto. Mesmo negando a ação social como objetivo principal de sua produção cinematográfica dos últimos quatro anos, Coelho é reconhecido pelas ácidas críticas sociais. “Acho que romper com preconceitos é uma conseqüência. Os filmes nascem muito mais de uma curiosidade de ver como vive o outro”. O Olho Vivo é fruto da parceria com o ator Marcelo Munhoz, iniciada em 2003. Apoiada na proposta de revitalização do bairro Rebouças, lançada pela Prefeitura de Curitiba, o espaço se propôs a oferecer cursos de formação cinematográfica a baixo custo e a intervir nas causas de comunidades carentes e marginalizadas. Depois se desvencilhou do projeto municipal. “Prefiro o Luciano menos engajado, confesso. Entendo, no entanto, sua necessidade de dar voz a seu lado mais político, com preocupações sociais”. Paulo Camargo é jornalista, mestre em cinema e editor do Caderno G da Gazeta do Povo. Na estréia de O Fim do Ciúme (2003) escreveu uma matéria que se esmerou em dar conta de toda a produção cinematográfica de Coelho. Falou de todos os filmes que o cineasta havia produzido até então, oito. Antes do Projeto, o último filme de autoria de Coelho foi Amarelo,

cesar

téia emudeceu: o vilão da história, opressor dos senhorinhos donos dos sobreviventes armazéns da cidade, é representado pela figura de Beto Richa, atual prefeito de Curitiba e presente ao evento. Em seguida, palmas. E mais palmas. Vida de Balcão foi o filme mais ovacionado da noite. A platéia se comoveu com o sr. Darif que, enrugado e dono de uma barba totalmente grisalha, conseguiu vencer os 80 anos de idade, mas perdeu o armazém da família e a casa em que morava há pelo menos 60. Por detrás do cercado de cimento, as paredes brancas da fachada de uma pequena casa. A luz nublada do dia ajuda a construir o ar melancólico, proposto já nas primeiras notas do violão que compõe a trilha sonora. A porta se abre, discretamente. Esperamos Darif colocar-se para o jardim. Olha para os


09 Uma das grandes questões, defendidas pelos autores considerados fundamentais na chamada Screen Theory, é a suposta perda de consciência do indivíduo durante o espetáculo cinematográfico. Ainda que não se possa negar essa vocação particularmente mimética, sob a qual o cinema proporciona uma representação icônica especialmente verossímil, não é apenas ele que possui o poder de construir objetos e cenários no imaginário humano, ou de produzir a sensação do real. No teatro, Brecht chamou de “dramatismo aristotélico” todo aquele que provoca a identificação emotiva do espectador com os personagens do drama. E relacionou esse processo a uma perda de consciência, que por sua vez provocaria um “não-engajamento” do espectador. Contra essa entrega emocional, Brecht construiu o conceito de “estranhamento”: causar o distanciamento das questões sentimentais para que retome o controle e se posicione crítica e racionalmente em relação à obra apresentada. “A minha intenção é emocionar” Nos últimos quatro anos, Luciano Coelho tem se dedicado à produção de documentários que retratam indivíduos de grupos marginalizados na sociedade: negros, pobres, prostitutas, umbandistas, soropositivos, homossexuais, transexuais... O discurso de responsabilidade social impresso nas obras é explícito. Os personagens são, sem exceção, vítimas de suas condições sociais. Figuras que nunca transgrediram a legislação do país, que nunca desobedeceram aos fundamentos da ética kantiana, mas que, como

nas tragédias gregas, são impiedosamente condenadas pelo destino. O argumento narrativo desses objetos se baseia, principalmente, no depoimento de cada personagem. Coelho desfaz a massa. Cada entrevistado, embora represente um grupo social, fala de si. Conta sua própria vida, divide sua intimidade. A intenção do autor em emocionar a platéia é clara. Dos 27 filmes produzidos sob a direção ou coordenação de Coelho, 16 deles – o que corresponde a 59 % do total – se encaixam na descrição acima. O que nos permite

Ao contrário dos teóricos que se basearam nas teorias derivadas do pensamento de Lacan e Althusser para entender o processo de interpretação do espectador, os cognitivistas defendem que os estímulos visuais e auditivos presentes nos filmes são os responsáveis por gerar significado na mente do receptor. O cinema, portanto, serviria como um dispositivo da imaginação, um detonador perceptivo. Embora os cognitivistas não neguem a importância da psicanálise, atribuem a ela a função de compreender apenas

“ver” os filmes de Coelho apenas pela perspectiva analítica. Desde os meados dos anos 80, alguns teóricos da Filosofia Analítica, mais voltados para o cinema, se apoiaram na ciência cognitiva para atacar as idéias da Screen Theory sobre a recepção cinematográfica. A idéia era apresentar argumentos menos obscuros que os oferecidos pelas teorias semióticas e psicanalíticas quando aplicadas ao cinema. Mais do que isso: teóricos como Nöel Carroll e Nöel Bursch rejeitavam a abordagem lingüística que analisava a arte cinematográfica como linguagem.

o que há de irracional e emocional na recepção dos filmes. David Bordwell afirma que não há qualquer razão para imputar ao inconsciente atividades que possam ser explicadas em outros termos. A decodificação do conteúdo dos filmes aconteceria através de esquemas mentais – dos quais, alguns, seriam natos e comuns a qualquer espectador, outros, construídos de acordo com o contexto sócio-cultural de cada receptor. A questão sobre o “contrato de leitura” é recorrente nas obras de Richard Allen, Murray Smith, David Bordwell,

Foto: divulgação

lados como se estivesse em busca de alguma coisa. Em off, começa a contação de sua história. A voz é enferrujada, as palavras pouco articuladas – são resmungos, doces. Se por vezes não se entende o que é dito, perdoa-se. Abre o portão, continua olhando para os lados, e vai atravessando o tapete de grama rala que se estende até a rua. O chinelo de pano não ajuda a manter os passos firmes. Darif segue calçada acima, deixando porta e portão abertos. Quando o plano se abre, um outdoor grita na tela: “Breve aqui mais uma Loja. Festval – o super especial”. Darif está indo ao encontro do antigo estabelecimento da família, trajeto que costumeiramente percorre, para visitar, não só na memória, o cimento e os tijolos que o abrigaram quase a vida toda. Os muros estão pichados. Ele arregala os olhos para admirar-se. Traz as mãos abraçadas por trás das costas, o que faz com que o corpo se curve ainda mais para frente. Força a cabeça para cima. Não aquieta os passos enquanto observa a antiga casa. Ensaiado? Bertolt Brecht desaprovaria. O teatrólogo alemão considerava a emoção fator alienante. Mesmo que a obra do cineasta paranaense esteja distante de ser chamada brechtiana, há de se considerar uma semelhança significativa entre as obras de um e de outro: a defesa das classes oprimidas. O fator moral da obra artística também causa desconfiança nos estetas que temem o comprometimento da autonomia da arte. Luigi Pareyson observa que existe uma idéia de que a intervenção moral poderia subjugar o papel da arte, tratando-a como ferramenta para uma outra tarefa.

Kendal Walton e Noël Carroll. Os debates sobre a credibilidade da obra de não-ficção, a provocação emocional dos filmes, a indicialidade do fato anterior à representação... Todas essas discussões são esclarecidas por esses autores através da idéia de que o espectador entra em acordo, conscientemente, com o autor, o cineasta, para que a leitura do objeto seja feita de maneira condizente com o contexto. Voltemos à pergunta do título: a intenção de Luciano Coelho em emocionar a platéia compromete o engajamento do espectador? Baggio diz que não: “Os recursos de imagem e som utilizados para causar uma certa melancolia funcionam muito bem”. Coelho poderia ser acusado de desviar o objeto artístico de seus princípios mais genuínos. Pareyson defende que o ato artístico já constitui um ato moral. A arte pode ser tanto moral quanto imoral, sem que isso coloque em xeque a sua essência. Murray Smith argumenta que responder emocionalmente não anestesia a disposição de intervir sobre questões sociais: pelo contrário, pode nos habilitar a apreender experiências que não as nossas e, desse modo, a utilizar esse conhecimento para agir sobre o mundo de um modo mais eficiente. A estratégia de Coelho parece funcionar à medida que desperta o poder imaginativo da mente e intensifica o processo de empatia com os personagens, proporcionando ao espectador a “quaseexperiência” de um outro ponto de vista. Nos próximos meses, o novo documentário dirá se o torpor ainda conduz Luciano Coelho à razão.


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ARTIGO


Jornal Capital Ciência #1