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UMA PUBLICAÇÃO DO INSTITUTO DE COMUNICAÇÃO SOCIOCULTURAL CANTO DA IRACEMA | ANO 14 | Nº 90 |MAIO 2013

// PARQUE DA LIBERDADE CENTRO | FORTALEZA | CEARÁ

a cultura cearense pertinho de você!


EDITORIAL ○

ÍNDICE

O Brasil precisa explorar com urgência a sua riqueza porque a pobreza não aguenta mais ser explorada.| Max Nunes

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CARTILHA DA MULHER audifax rios...

DA POESIA 6 > ABC POPULAR E MARGINAL klevisson viana...

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MENINOS PERDIDOS NA TERRA DO NUNCA nilze costa e silva...

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PAIXÃO E TEATRO

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IMAGEM, PROSA, POESIA

walden luiz...

calé alencar...

No último mês de abril comemoramos 14 anos levando a cultura cearense para bem pertinho de vocês, caros leitores e leitoras. Sempre contribuindo na divulgação da arte cearense, partilhando culturas em todas as edições do nosso Canto, este é nosso pensamento. Sempre acreditando que não é necessário estar comprometido em produzir uma revista alternativa com meros anúncios comerciais somente. Nossa consciência é que, principalmente o poder público através de governos, administrações, instituições publicas em geral, tem sim a prerrogativa de apoiar iniciativas como esta em criar pequenos veículos de comunicação e alternativos para divulgação de artistas locais e de ações culturais, em todas suas instancias. Não é, e nunca foi nossa proposta criar uma publicação cultural conseqüentemente transformá-la em mais um veiculo comercial da cidade. Como todos têm observado nossas publicações sempre foram através do apoio de instituições como o do Banco do Nordeste do Brasil-BNB e da Prefeitura Municipal de Fortaleza, que nesses últimos anos nos tem ajudado através de patrocínio. Queremos antes de tudo agradecer a essa parceria pela confiança e principalmente por acreditarem em nossa proposta inicial. Em 2013 como sabemos houve mudanças nas Administrações do Município e na Superintendência do BNB. Isso fez com que as novas administrações nos desse a triste noticia de que era preciso parar com o apoio ao nosso “Canto”. Portanto, a partir de Janeiro último tivemos que parar com a produção do “Canto da Iracema em forma física (no papel), mas, acreditamos ser momentâneo esta fase. Estamos trabalhando na esperança de que em breve seremos contemplados com novos parceiros, alem de também estarmos de olho nos Editais da Cultura, da Secult, Secultfor, Coelce, etc... Mantemos também a esperança de que intuições como: Assembléia Legislativa, Câmara Municipal, etc., possam nos ajudar a dar continuidade em nosso trabalho e que nos honre com suas parcerias, estamos na luta. Ultimamente estamos produzindo nosso Canto da Iracema somente no formato de WEB, juntamente com nossos colaboradores fiéis, Audifax Rios, Nilze Costa e Silva, Calé Alencar Klévisson Viana e Walden Luiz, que nos honra nesta edição. Assim esperamos não esmorecer em enaltecer nossa cultura através de nossa pequena e singela contribuição e, no humilde trabalho desenvolvido por nossa equipe. Agradecemos a todos os leitores, leitoras, colaboradores e incentivadores do nosso trabalho. Logo, estaremos fisicamente em suas mãos bem como em locais fomentadores da cultura de nossa cidade. Um forte abraço e grande beijo no coração de tod@s. Tenham uma ótima leitura!

> QUEM SOMOS! realização instituto de comunicação sociocultural canto da iracema • coordenador geral zeno falcão • jornalista responsável sonara capaverde MTB 6553 • colaboradores nesta edição audifax rios | banda dona zefinha | calé alencar | kazane | klévisson viana | nilze costa e silva | walden luiz | wellington junior | ramon • conselho editorial audifax rios | erivaldo casimiro | kazane • diagramação artzen • contatos rua joaquim magalhães 331 | josé bonifácio | cep 60040-160 | fortaleza | ceará | brasil | fone (55 85) 3032.0941 | cantodairacema@hotmail.com

| AS MATÉRIAS PUBLICADAS SÃO DE INTEIRA RESPONSABILIDADE DOS AUTORES | FOTO CAPA > SALVINO LOBO // EDIÇÃO ELETRÔNICA | WEB

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audifaxrios@yahoo.com.br

Cartilha da MULHER

NÃO É QUE A MULHER NÃO PASSE DE UM VERBETE E POSSA, ASSIM, SER DISSECADA, (DES)CLASSIFICADA, CATALOGADA. LONGE DE MIM. É UMA FORMA QUE ESTE ESCRIBA ENCONTROU PARA HOMENAGRÁ-LA EM DIVERSOS ASPECTOS POIS, DEVIDO A SUA GRANDIOSIDADE, NÃO SE PODE ABORDÁ-LA APENAS PELO LADO MÃE COMO FOI ACONTECER NESTE MÊS DE MAIO QUE, OUTROSSIM, É DAS FLORES. E FALANDO EM LOUVOR AQUI VAI UM PREITO DE SAUDADE A UMA GRANDE MULHER QUE NOS DEIXOU RECENTEMENTE: MARIA DE CASTRO FIRMEZA QUE, NÃO SATISFEITA EM SER APENAS A DEDICADA ESPOSA DO PINTOR ESTRIGAS E A MÃE DE MARIA DE LOURDES, FOI TAMBÉM PROFESSORA, PINTORA, BORDADEIRA, DOCEIRA E JARDINEIRA. NICE, COMO ERA CONHECIDA, FALECEU NO DIA 3 DE ABRIL, AOS 91 ANOS DE IDADE. 04


AVA - A mulher no cinema. A fêmea entronizada como deusa para a nova indústria faturar mais à custa da beleza que do talento de interpretar. Nesse caso o cinema americano pecou mais que os concorrentes. Ava Gardner, Marilyn Monroe, Greta Garbo, Ingrid Bergman, Elisabeth Taylor, Jane Fonda, Nathalie Wood, Rachel Welch, Merril Strip, Angeline Jolie e muitas outras povoaram os varonis peitos dos adões por este planeta afora quando, fora dos sets, viviam conturbados momentos com os parceiros daquele mundo fabuloso. Fora dos cenários de Hollywood, Brifitte Bardot, Cláudia Cardinalle, Sophia Loren, Catherine Deneuve, Gina Lolobrigida, Melina Mercouri, Monica Vitti e a, também saudade, Sarita Montiel, versão romântica da florista do Chaplin que arrebatou os corações de machos na tela e no escurinho do cinema com sua latiníssima beleza, voz maviosa e corpo sensual.

EVA - Como seria mesmo a cara da matriz do Eden se naquele tempo já existisse máquina fotográfica? Segundo Darwin, estaria mais pra Chita que para as divas da literatura, mesmo a de cordel, onde a primeira mulher não era feita de barro e sim de madeira, num tamanco de xilogravura. E a maçã, por que uma maçã? Porque não uva ou o nosso caju?: suculento, multicolorido, de contornos variados e não aquela forma planetoide repetitiva do fruto proibido. E onde ficaria mesmo o Paraíso, um oásis em pleno deserto? O tal fruto, então, uma tâmara, e Adão, um sedento tuaregue que encantaria a serpente com um leve sopro de sua flauta. Evas nascem todos os dias, é a fábula da maternidade que os primitivos esculturavam em terracota com imensa barriga, fartos seios e exuberante sexo. Eva, aqui em Fortaleza, já foi nome de conhecida perfumaria popular que, nos anos sessenta, empestava os ares maresiados com seu cheiro de flor do mato.

IVA - No Livro dos Nomes de Regina Obata, uma pequena bíblia tira-teima e quebra-galho para situações vexatórias como a que agora enfrenta o escriba, a coisa mais parecida que encontramos com o verbete proposto foi Ivete e Ivone, este, a forma feminina francesa de Ivo que vem do alemão e significa “o arco feito da madeira do teixo”. Já nos pontos riscados da Umbanda, arco e flecha estão presentes em todos os símbolos de orixás como também das caboclas Jurema, Jussara, Jandira, Jacira e Jupira. Há também o termo Ivã, adaptação para o português do russo Ivan que é João e quer dizer “o glorioso”. E cuja derivação feminina é Ivana ou Ivanete. E a digressão etimológica foi mais além e gerou Ivani, Ivanira, Ivanilde, Ivanilse, Vania e Vanessa. E fica difícil encher o espaço, a coisa vinha tão bem, mas nem tudo é perfeito, batizem de Iva mesmo a esperada filhota mesmo que pareça sigla universitária. Melhor que as invencionices tipo os nomes dos jogadores de futebol. Conselho: Invicta não adianta, a cidadela vai ceder de qualquer forma.

OVA - Segundo o Houaiss, é o conjunto de ovos de um peixe ainda envolvidos pela membrana. Taí a mais simplória definição da fertilidade, maternidade e procriação. É o fenômeno do ovo que, ainda segundo o dicionarista que desbancou o Aurélio, é a estrutura expelida do corpo da mãe, outra conceituação igualmente singela. Só que ova, como a nossa língua é riquíssima, tem outros significados: são pequenos tumores que surgem no boleto (?) dos equinos; negação (uma ova!); ovação, aclamação pública e... o próprio ato de ovar; ainda, alguma coisa que tenha a forma elíptica como pista de corrida, etecetera e tal. O que nos conduz ao enigma mais antigo da humanidade: Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Não que a gente imagine as homenageadas deste maio com o estigma da galinhagem. É que nosso idioma, como dissemos acima, é tão generoso que ovo tanto é célula reprodutora feminina madura de animais e plantas como rotula igualmente os testículos, eminentemente masculinos. UVA - Socorremos novamente ao Houaiss na falta do Gustavo Barroso, Hildebrando Lima, Antenor Nascentes ou Caldas Aulete. Lá diz que é fruto da videira, uma baga ovóide (tem a ver) verde, rosada, rubra, azulada ou preta. Comestível e bebestível em refrescos ou vinhos. Veja bem, se o fruto proibido fosse uma uva a Eva estaria embriagada na primeira de copas e o crau não teria tido graça nenhuma. Ou não. Lá na frente o lexicólogo acrescenta: mulher muito bonita. Aí lembro uma musiquinha de carnaval que usa feliz trocadilho: “eu vendo ovo; ovo e uva boa”. Uva é também a primeira radiação dos raios ultravioletas e sigla da Universidade do Vale do Acaraú. Lá mais embaixo do mapa, no Rio Grande do sul, acontece, anualmente, a Festa da Uva, quando, mais que os produtos, turistas vãoapreciar a beleza das rainhas que, geralmente, são umas uvas. Foi numa dessas festas que o Samuel Wainer resolveu dar um pulinho na estância do Getúlio e ganhou o jornal Última Hora. E de quebra uma mulher que ainda hoje balança os galhos das parreiras.

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Hoje vive intensamente

Tal vivendo o último dia Declama seus versos livres O mundo é sua moradia Carrasco da própria dor Num gesto de tirania

ABC DA POESIA POPULAR E MARGINAL

As musas que me inspiram

Da região divinal Conduzindo a minha pena De maneira magistral Inspirem meu ABC Da Poesia Marginal.

Busco agora mergulhar

Na lira de nossa gente Do povo que vive a margem Que na pele tudo sente Que vai buscar liberdade Na fonte que vem da mente

Cordel, poesia da gente

Com origem sertaneja De um povo lutador Que não tem quem o proteja São rimas que riscam a mente Quando uma idéia lampeja

Do alto do arranha-céu

A megalópole reclama Dos políticos indecentes E com bom censo conclama Seu filho que luta à margem Que trabalha, escreve e ama

Estro, essência da lira

Do poeta sonhador Que labuta na palavra O seu verso vingador Ergue a bandeira da luta Contra o vil explorador

Fantasia é a linguagem Que o poeta se apropria Prega a paz, a igualdade Num gesto de rebeldia Formador de opinião Contra a vil demagogia Guarda a pureza da mente

> Por: KLÉVISSON VIANA

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Defende seu ideal Na poesia popular Ou na lira marginal Colhe a semente da alma E extrai da terra o sal

Irmão da vida boêmia

Perambulando nas praças Vende versos mão em mão Toma trago com compassas Seus poemas são fadados Virar comida das traças

Jardim de pedra e cimento Nasce a poesia concreta Nenhum coração de pedra É atingido pela seta Recusa a musa, não sente O valor que tem o poeta

Lança um olhar descontente Contra tal indiferença Não obedece a rituais Mas possui a sua crença O poeta é quem primeiro Sente de Deus a presença

Musa divina e dileta

Que alimenta a esperança Conduz a pena do vate Do passado traz lembrança E ele brinca com o verso Como se fosse criança

Nasce o verso pequenino

Cresce o valor do poeta Todo amigo ou conhecido Tem sua obra completa Trocar versos por comida Esta é a sua meta

Ouve a platéia na rua

O vate com eloqüência Nos poemas o povo aprende Filosofia e ciência É a cultura popular Mostrando sua essência

Patativa é expressão

Da poesia popular Nasceu no meio do povo E com ele vai estar Vê no campo todo dia Sua poesia brotar


Quando vejo um camarada Com uma bolsa de lado Com um monte de papeis Andando tão despojado Lendo e recitando versos Esperando algum trocado

Repentista cantam tudo

Muito bem metricicado Faze o verso de improviso Seu discurso é bem rimado Sua genialidade deixa O doutor desconcertado

Sua mente é um enigma

Deixa a ciência indefesa A rapidez do juízo Traduz a maior riqueza Quem vê já diz:-Como é grande O poder da natureza

Tem na vida do poeta

Uma musa que lhe inspira Afaga o peito do vate Fortalece sua lira A moça que ouve o verso Fica corada e suspira

Uma coisa eu não esqueço O que quer dizer poeta Consultando velhos tomos Digo a platéia dileta O poeta vê o futuro E é o mesmo que profeta

Vate palavra singela

Tão antiga e tão bonita Tem sentimento e externa A sua lira bendita Uma boa trova tem O valor de uma pepita

Xilogravura que ilustra Esse ABC em cordel Imprime grande beleza Da madeira pro papel Da vida do nordestino É uma cópia fiel

Zomba da vida que leva Caçoa da própria sorte Poetisa para vida Faz poema para morte É livre tal passarinho É um fraco e é um forte

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Meninos perdidos na terra do nunca > Por: NILZE COSTA E SILVA

Quando seu moço nasceu meu rebento não era o momento dele rebentar (Chico Buarque)

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A “Terra do Nunca” não tem endereço e que só existe na imaginação das crianças. Consta que nessa terra elas nunca ficam adultas, não falta comida, nunca adoecem e nunca são maltratadas.

A miséria fez crescer um menino sujo de cabelos e vestes. Corpo doído, barriga vazia, saiu a perambular pelas ruas. Às vezes pensava em voltar ao barraco onde morava, mas não se animava.

Era assim que a mãe de Luizinho iniciava a história bonita que lhe contava, os dois sentados na rede armada no pequeno terreiro do barraco onde moravam. Quando o barraco foi destruído pelas águas da chuva, apareceu um homem que os convidou a participar da ocupação de um terreno baldio.

As surras que o padrasto lhe aplicava não compensava a decisão. A escola não prestava, a professora tinha nojo dele e sempre falava que Luizinho era um caso sem jeito. Às vezes sentia falta do jogo de bola com os amigos no descampado que ficava próximo à nova favela que se formara. Lá era bastante conhecido, pois a mãe era lavadeira das boas.


Muitas vezes corria atrás do garoto para dar-lhe banho, o que detestava. Limpar o corpo pra quê? Para apanhar do padrasto quando chegava bêbado todas as noites? Agora era apenas mais um pivete das ruas. Às vezes pensava muito na mãe e se perguntava: por que alguns meninos viraram pivetes e outros continuaram crianças? Será que eles moram na Terra do Nunca? Não sabia responder. Rapidamente aprendeu a usar crack e a roubar. “A vida nas ruas é horrível. Há muita violência, e todo mundo nos trata mal” – falou certa vez a um repórter policial no dia em que esteve preso. Roubara a carteira de um idoso na saída do banco. Pouco tempo depois foi solto. Quando Luizinho completou 12 anos, completou também 1 ano de morador de rua. Só lembrou do aniversário porque a mãe sempre comprava uma fatia larga de bolo na quitanda e fincava ao centro um toco de vela aceso. Até cantava parabéns e o abraçava. A vela era apagada e os dois batiam palmas. Onde estaria ela agora, por que não o procurara depois que fugira das surras do padrasto? Por que aceitava que ele, bêbado, surrasse tanto os dois? Neste seu aniversário o chão estava coberto de lixo e um forte cheiro de urina aflorava nas calçadas do beco. Cães vira-latas perambulavam por todos os lados. Lembrou do seu barraco, feito de sacos plásticos, sem água corrente ou eletricidade. Mas era melhor do que dormir na calçada, forrada por jornais. No barraco não tinha cobertor, mas ele se enrolava com as bordas de uma velha e encardida rede.

Exatamente no seu aniversário de 12 anos foi pego roubando na feira. Amarraram suas mãos e pés e ameaçaram botar fogo nele. Quando alguns começaram a chutar seu corpo, a polícia chegou. Nunca chorou tanto, nem com as surras do padrasto. Nunca tivera tanto medo do abandono. Perguntou ao policial se podia levar o cachorro. Ele apenas riu e deu-lhe um tapa na cabeça. Ouvia os comentários dos passantes sem entender direito o que diziam: - Não tem que ter tratamento especial pra bandido, só porque é menor... - Temos que reduzir a maioridade penal! - Esse negócio de direitos humanos não pode existir... Por que só vale quando o bandido está sendo maltratado? Ele não queria saber daquela conversa, que não lhe dizia respeito. Só queria levar seu cachorro Pirata que, perto dele, balançava o rabo, aflito. Diante da pergunta do Juiz, sobre se teria alguém responsável por ele, respondeu. - Tenho, sim senhor. Tenho o Pirata. Como na história que a mãe contava, Luizinho nunca chegou a envelhecer.

Agora só tinha o cachorro Pirata, um cachorro vira lata e primeiro amigo da rua. Logo se solidarizou com Luizinho e o abraçava nas noites de frio. Afeiçoou-se ao cão e com ele dividia os restos de comida que catava no lixo dos restaurantes.

NILZE COSTA E SILVA > é escritora, integrante da AJEB (Associação de Jornalistas e Escritores Brasileiros), fundadora e coordenadora do grupo Poemas Violados. Autora de vários livros de contos, crônicas e romances, entre eles A Mulher sem Túmulo, biografia romanceada da beata Maria de Araújo, protagonista dos milagres de Juazeiro em 1889. Integra o dicionário de Mulheres Brasileiras de Nelly Novais Coelho.

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Paixão e Teatro > Por: WALDEN LUIZ

É tradição herdada dos portugueses celebrar a Semana Santa, com muita contrição, respeito, devoção e participação nos atos litúrgicos da igraja católica. Entre os cristãos, celebra-se em comemoração da ressurreição de Jesus Cristo, isto é, da sua passagem da morte para a vida eterna. Neste período, os santos católicos são cobertos com pano roxo em sinal de pesar. Os sinos silenciam, e nos atos, como a procissão do Senhor Morto, só se escuta e estridente estalar das “matracas”, peça de madeira equipada com aldabras de metal que quando agitada manualmente, produz um barulho funesto. Muitas são as superstições que envolvem a Semana Santa como: não cortar o cabelo, não varrer a casa, não ligar o rádio, não cantar e nem dar gargalhadas, porque tudo isso faz mal.

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A partir da quarta-feira de Cinzas o jejum era absoluto durante todas as sextas-feiras da quaresma pois eram tempos de muito respeito e muita fé.

Outra tradição da Semana Santa é a montagem da “Paixão de Cristo” ou da “Via Sacra”, como ato de fé. Os mais antigos tinham por obrigação assistir ao filme sobre a vida de Cristo ou ir ao teatro ver “O Mártir do Golgota”, peça sacra que segundo J. Cabral, diretor do Conjunto Teatral Cearense, de saudosa memória, foi encenada pela primeira vez em 1933, no palco do Centro Artístico Cearense que ficava na avenida Tristão Gonçalves esquina com a Duque de Caxias. Um belo Teatro que foi demolido para o surgimento de uma loja de materiais de construção. Jesus era desempenhado por J. Oliveira, o qual não tive o prazer de ver representar, mas que segundo os atores da época foi um dos melhores interpretes do papel de Cristo nos palcos cearenses. Nesta encenação J. Cabral fazia o papel de Malco. A peça era apresentada durante toda a Semana Santa e em 1937 passou a ser encenada no Teatro José de Alencar, tendo Gasparina Germanom no papel de Madalena e José Julio Barbosa no papel de3 Judas, duas grandes estrelas de talento inigualável, coforme a crônica da época. Dez anos depois, o espetáculo passa a ser produzido por Abel Teixeira, José Limaverde e Afonso Jucá, com o título de “O Golgata”. A peça passou pelas mãos de vários diretores, como B. De Paiva, Clóvis Matias, Marcus Fernandes e Misael Fernandes, bem como o papel de Jesus Cristo teve muitos interpretes, entre eles: José Narbal, Olegario Holanda, Oliveira Filho, José Maria Cunha, Roberto César e Walden Luiz, que fazia São João e assumiu o papel com a ida de Roberto César para o Rio de Janeiro.


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O Teatro José de Alencar superlotava todos os dias e na quinta e na sexta-feira Santa e no sábado De Aleluia eram apresentadas duas seções, com uma fila na bilheteria que dobrava a esquina do “Centro de Saúde”, onde hoje é o jardim do teatro. Existiam outras encenações espalhadas pelos diversos teatros dos bairros (Circulos Operários de Trabalhadores Cristãos , patronatos e circos) com os mais variados nome: “Jesus no Calvário”, “O Mártir do Calvário”, “O Mártir do Gólgota”, “A Paixão de Cristo”, sempre com platéias lotadas e público visivelmente emocionado e contrito. Eram comuns as cenas de choro copioso na platéia nas cenas da “Rua da Amargura” e durante a “Crucificação” e de muitos aplausos nas cenas do “Sinédrio”, quando Nicodemus defende Jesus, no “Enforcamento do Judas “ e na “Ascensão”, quando Jesus Cristo era içado por cabos de aço, do porão do teatro até sumir da vista do público entre as bambolinas.

numa produção da Comédia Cearense, reunindo no elenco antigos atores como:Marcus Fernandes, Walden Luiz, Hiramisa Serra, Ary Sherlock, Fernanda Quinderá, Haroldo Serra, integrantes de outas montagens do Martir do Golgota. A peça que reune cinquenta atores foi apresentada no ano 2000 no Teatro de Arena Aldeota, tendo que ser transferida, no ano seguinte para a quadra do Colégio Chistus, devido o grande numéro de espectadores que lotava a platéia do Teatro de Arena. Em 2011, o espetáculo teve que mudar mais uma vez. Desta feita para a Praça Verde do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, uma vez que a quadra do colégio se tornava pequena para acomodar o público que desejava assistir a encenação da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo

A tradicional montagem resistiu de 1933 até 1983, quando seus produtores, na época Marcus Fernandes e Misael Fernandes, resolveram parar com o espetáculo, ressurgindo no ano 2000 pela iniciativa de Haroldo Serra, que se dispos a montar o espetáculo com o titulo de “A Paixão de Cristo”, WALDEN LUIZ > é ator, autor, diretor, figurinista e cenográfo. Estreou em 1962 no Conjunto Teatral do Ceará, participou de diversos grupos como o Teatro de Amadores Gráficos. Em 1969 ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante do Festival de Teatro de São João do Rio Preto, premiado também pela Associação Paulista de Críticos de Artes (AFCA), em São Paulo.

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Picadeiro dos Bufões

Banda Cearense Dona Zefinha - “O Circo Sem Teto da Lona Furada dos Bufões” O Circo Sem Teto da Lona Furada dos Bufões é uma comédia musical infantil que retrata a história de um circo mambembe nordestino tentando sobreviver no midiático mundo contemporâneo. O circo dos Bufões que no passado fora palco maior de fantásticas apresentações de mágica, malabares, contorcionismos, trapézio, animais ferozes e tantas outras, perdera suas atrações. O circo sem teto da lona furada e sem recursos, sobrevive do incansável desejo dos palhaços ”Bufão”, “Panfeto” e “Pafim” de não deixar que a magia e a beleza do circo cheguem ao fim, pois o espetáculo não pode parar! O elenco, homogêneo, que dança, canta e interpreta, conduz a platéia por um maravilhoso jogo de cena. Os palhaços, utilizando as diversas possibilidades cênicas, revelam grande domínio da técnica e despertam o interesse da criançada. A comédia, o canto e a dança dialogam com empolgante entusiasmo em um musical de grande beleza e ritmo. Os elementos do espetáculo são acima de tudo, educativo, criativo e prazeroso, o que desperta a imaginação de crianças e adultos através das linguagens visuais, do gestual, da simbologia, da sonoridade, do riso, da fantasia, do caráter de jogos, dos brinquedos cantados e dançados e do divertimento. A oralidade revela-se como característica marcante no trabalho. O palhaço nordestino retratado na narrativa, subvertedor da lógica do senso comum, é capaz de transformar a realidade. 12

Ao ver o mundo de maneira inocente e lírica, encanta e faz rir desmascarando as verdades ocultas do ser humano. O cenário e figurinos especiais contribuem para consolidação da linguagem lúdica e poética, formando uma áurea de encantamento mambembe. Além do cuidado estético que envolve o trabalho, há ainda uma preocupação pedagógica com as mensagens transmitidas pelo espetáculo. O desafio de criar um espetáculo que contemple a criança dentro de seu universo, que a trate como criança, respeitando seu espaço, realizando suas vontades e desejos, resultou num longo e bem elaborado trabalho musical, teatral e circense. | MÚSICAS | Circo sem teto da lona furada (Orlângelo Leal) A Folha (Orlângelo Leal / João Edson) Sapo Cururu (Júnio Santos) Baratatômica (Orlângelo Leal) Palhaço da Perna de Pau (Orlângelo Leal) Vaia pro Palhaço (Orlângelo Leal) Aula de Ballet (Orlângelo Leal / Gerson Moreno) Hey Hou Tcha Tcha (Orlângelo Leal) Marimbondo Azul (Orlângelo Leal / Flávio Paiva) Comilão (Orlângelo Leal) Romance da Lua (Orlângelo Leal) Pinóquio e Emília (Flávio Paiva) | CONTATOS | Casa de Teatro Dona Zefinha (88) 3631.3863 | 9972.2871 | casadeteatrodonazefinha.blogspot.com.br/ bandazefinha@gmail.com osbufoes.wordpress.com


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> Por: CALÉ ALENCAR

Nossa Senhora do Rosário me abençoe me proteja me ilumine me guarde me guie me dê forças pra brincar o maracatu. O maracatu me dê forças pra brincar. Tempo de negros pisando pela cidade pisa o chão da igrejinha devoção pela irmandade na coroação de reis realeza e atitude. São os serviçais da terra coroados nesse dia são negrinhos são caboclos são nossos reis já ungidos soberana majestade reis rainhas e batuques em desfile pelas ruas becos praças e vielas mapas desta Fortaleza índia bela suburbana tem pastel caldo de cana tapioca com café. No baticum se alegra o povo enche de gente vai um pulando na frente a mundiça vai atrás. E no que vai engrossa o caldo arrastando seu tamanco de piúba tem índio tem preto e branco tudo junto e misturado.

| Nossa Senhora do Rosário

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É loa reza é axé e comunhão é também celebração dos reis negros da cidade. Toca tambor bate no toque do batuque coisa que me dá coragem é poder ser o que quero quando quero e porque quero. E já que quero pego gosto crio jeito faço do peito um tambor do tambor faço um terreiro faço dia bater asa passarim criar horário sapo ler dicionário pulga alugar a casa bodega vender juízo velhaco entregar no prazo desse negro faço um rei dessa negra uma rainha.

transeuntes unidos pelo brinquedo e lá se vão batucando com muita graça e orgulho e vão com gosto de gás quem quiser que conte outra quem quiser que cante mais. Os que somos negrinhos cantamos nessa ocasião a loa do Auto dos Congos, conforme nos ensinou o mestre Gustavo Barroso: Pretinhos do Congo pra onde é que vão vamos ao rosário festejar Maria festeja festeja com muita alegria vamos ao rosário festejar Maria.

Ainda faço aquele padre rezar missa com a multidão na praça com a graça do cortejo com a bênção do rosário valei-me nossa senhora entre reis e açafatas com o molejo das meninas e a precisão da cena captada em fotogramas como imagens de poemas. Juro que faço da vontade um compromisso da chuva faço um feitiço sem botar os pés na grama. Se a aranha tece puxando o fio da teia vou pegar minha candeia pra luzir no teu caminho pra benzer o teu destino ouvir como toca o sino cantar em dia de sol sorrir para o céu azul abraçar minha cidade meu berço e fortaleza que a Senhora do Rosário nos conserve abençoados cantadores encantados como frutos do quintal cajus cajás e oitis tabajaras janduís somos tupis guaranis todas as tribos amém. Esta cidade tem cheiro de maresia praia duna ventania jangadas velas ao mar. Esta paisagem tem gosto de melancia murici manga coité pitanga seriguela jatobá e graviola cajarana carambola sapoti coco-babão são frutos deste quintal de formigas tanajuras e capotes e calangos.

E foi-se o tempo e o tempo trouxe as loas e as loas trazendo versos e versos dizendo assim: Cariongo e Gingana pra onde é que vão vamos ao rosário benzer a nação. Teia teia de engomar nossa rainha vai se coroar vira de banda torna a revirar. Bate o bumbo Iaiá, bate o bumbo. E bate o bumbo bate corpo pé pisada bate passo e caminhada bate com ferro e tambor. Um baticum bate pandeiro batucada bate ferro faz zoada ressoa nessa pancada que tu segura a macumba e eu sustento a pisada. Ó Virgem do Rosário já deu meianoite levanta a bandeira e vamos embora.

| FLÔR DO LÁCIO...

E foi-se o tempo e a igreja definhando veio gente veio tinta veio a restauração veio a reinauguração da igreja do rosário daí veio a precisão de se coroar de novo os negrinhos dos batuques os negrinhos da nação renovando o compromisso de fazer dia de festa com os tambores da alegria pra encher de luz a praça e a igreja de magia pra acender quem vai passando saudando Ginga N’Bandi com o rosário de Maria. E aí se deu a coroação de negros pela vontade do povo da cidade dos brincantes uma ruma de contentes cidadãos e 13

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FEITO arte

UM CERTO TREZE

BENIGNO Por: AUDIFAX RIOS

ZENO FALCÃO, INQUIETO AGITADOR CULTURAL E AMANTE DA PRAIA DE IRACEMA, JÁ FAZIA UM FUZUÊ DANADO PELOS ARREDORES DA ANTIGA PRAIA DO PEIXE. QUERIA MAIS. QUANDO DA CHEGADA DO CENTRO DRAGÃO DO MAR DE ARTE E CULTURA ANCOROU OU SENTOU PRAÇA EM DUAS ESQUINAS ESTRATÉGICAS DA RUA DO BORIS. NA DRAGÃO DO MAR MONTOU BAR; NA AQUIDABAN, CASA DE FORRÓ QUE FEZ HISTÓRIA: ALFORRIA, ONDE PINTEI PAINEL COM ESCRAVAS LIBERADAS E LIBERTINAS. NO BAR DA ESQUINA LIMITAVA-ME A ALINHAVAR A CRÕNICA PARA O JORNALZINHO QUE NASCIA JÁ BATIZADO COM O NOME QUE OSTENTA: CANTO DA IRACEMA. JÁ SE VÃO PRA MAIS DE TREZE ANOS. EU JÁ CRUZARA OS CINQUENTA E AQUELAS MANGUEIRAS ERAM AS DERRADEIRAS CACHAÇAS QUE SABOREAVA. 15


Revista Canto da Iracema - Edição Maio2013  
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