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"COMO SEGURAR UMA NUVEM NO CHÃO" 6o tratamento

MARCO AURÉLIO PAIVA


2. CENA 01 - EXT/DIA - BEIRA DO LAGO Vemos ISABELA (25 anos), uma garota de longos e ondulados cabelos vermelhos e delicados traços de boneca. Ela está de olhos fechados e segura uma tulipa cor preta com as suas duas mãos. Um agrupado de várias borboletas formam o seu vestido. Uma antiga moldura de porta-retrato enquadra a menina. NARRADOR (V.O.) Vou te contar uma história sobre encontros, despedidas e memória. E uma garota chamada Isabela e o amor que traz desde criança. Amava a arte acima de tudo e fazia da vida uma dança. Que se inicia em terras distantes. Além de qualquer vizinhança. Isabela abre os olhos. CENA 02 - INT/DIA - QUARTO ISABELA Um grande tecido branco cobre vagarosamente todo o corpo de Isabela. NARRADOR (CONT.) Isabela embarcou em nova viagem com outra forma de comunicação. Onde não se lê com visão. Nem se ouve com audição. Em vez de usar os sentidos, a conversa é pela emoção. O rosto de Isabela está coberto pelo tecido. O tecido se eleva até nos perdemos nas sombras das dobraduras. Tudo preto. Uma luz se acende no fundo e uma frase iluminada na escuridão: "CAPÍTULO 1: SOMBRA". A sombra de Isabela passa diante da frase e a enxergamos como num Teatro de sombras. Ela Não Até que

NARRADOR (CONT.) não sabia onde estava. entendia a situação. que sentiu alguém por ali, lhe disse em alto e bom som.

Uma monstruosa sombra com gigantescas asas surge por detrás da sombra de Isabela, como que engolindo a menina. O tecido onde as sombras estão sendo projetadas cai. Atrás dele, vemos de perto o rosto de Isabela.


3. Ela está em um espaçoso cômodo com uma cama de solteiro, um criado-mudo e uma poltrona com um livro infantil. SOMBRA "Esperei sua chegada!" NARRADOR Bradou o ser estranho. Era a Sombra, conhecedora de nossas formas e tamanhos. Olhando pela janela, a garota está alheia ao vulto que se aproxima por trás. NARRADOR (CONT.) A Sombra aproximou-se de Isabela com uma estranha informação. SOMBRA (V.O.) "Sua viagem começa agora, mas peço que preste atenção. Veja como está pesada: as pernas, o rosto e até o levantar da mão. Mas não falo de bolo, brigadeiro ou que fez dieta em vão." Sombra pega na mão de Isabela que retira rapidamente. SOMBRA (CONT.) "Esse peso é a carga energética do seu corpo carnal. Peço que deixe essa bagagem para trás e fique com o que lhe é essencial.” NARRADOR Como uma mãe, com certeira intuição, a Sombra tocou seu coração. A Sombra se afasta como quem vai se ocupar de outros afazeres. Ela se senta na poltrona. SOMBRA “Descubra sua verdadeira essência. Uma, só uma! Sem negociação! Vai perceber que é melhor viajar com poucas coisas em mãos." NARRADOR Com o rosto sério de uma madrasta de contos de fadas, a Sombra indicou uma porta dando o início daquela jornada. Sombra olha para uma porta aberta no meio do quarto. Ela dá


4. para um lugar completamente escuro. Isabela vai até a porta e hesita. A garota volta a olhar para a Sombra. NARRADOR (CONT.) Isabela perguntou o que aconteceria ao final. ISABELA (V.O.) "E depois? O que vai acontecer?". SOMBRA "Nunca voltaram para contar. Isso é familiar a você?". Isabela continua olhando para a Sombra por um momento. Ela volta a encarar a porta aberta e a atravessa. CENA 03 - INT/NOITE - ESPAÇO BRILHO Isabela anda por um lugar escuro, até que a luz vinda do seu quarto suma completamente e ela mergulhe na escuridão. NARRADOR Engolida pela escuridão, as memórias vinham como ondas de luz iluminando sua percepção. Segue-se uma série de cenas de Isabela se movendo no espaço em movimentos dilatados e com lisérgicos jogos de luz. Ao fim, a imagem de Isabela se confunde com a de uma marionete, vestindo as mesmas roupas e com o mesmo cabelo vermelho. CENA 04 - INT/NOITE - SALÃO DE DANÇA Vemos a cabine do palco de um Teatro de Marionetes. Sobe uma cartela, "CAPÍTULO 2: ALEGRIA". Em sequência, vemos a marionete de Isabela andando por uma pista de dança ainda nos limites do palco do teatro. Ela observa casais de marionetes dançando. A marionete da menina continua a andar até ver uma marionete de um senhor dançando sozinho com roupas brancas. NARRADOR (CONT.) Isabela ficou feliz. ISABELA "Alguém que pode me ajudar!" NARRADOR Mas enquanto se aproximava, estranhou ele sozinho a dançar. A marionete de Isabela se aproxima do homem dançante,


5. evitando atrapalhar a sua coreografia. ISABELA "Tudo bom?" NARRADOR Perguntou no ritmo de uma canção. ISABELA "Procuro minha verdadeira essência. Você tem essa informação?". Alegria encerra a dança e faz um exagerado cortejo. ALEGRIA (V.O.) "Quanto a verdadeira essência..." NARRADOR Disse o dançarino, compartilhando sua história. ALEGRIA "Penso em minha filha, minha melhor memória." Vemos que ALEGRIA (50 anos) e Isabela estão manipulando seus próprios bonecos. Eles se afastam do teatro e iniciam uma valsa sem jamais se tocarem. As outras marionetes dançantes retornam e dançam ao redor deles. ALEGRIA (CONT.) "Nós dois, cheios de energia. No baile de formatura. Valsando em sintonia. E então decidi o que faria: dentre todas as emoções, escolhi a Alegria." Ao final do passe, eles dão as mãos. Ouvimos o barulho de um disjuntor queimando e o espaço mergulha em escuridão. CENA 5 - INT/NOITE - ESPAÇO REFLEXÃO Isabela está em pé sozinha em um lugar escuro. NARRADOR E no tocar das mãos, Isabela sentiu-se em uma nova dimensão. Ela ainda estava com o dançarino, mas em sua mente a conversa era particular. (MAIS)


6. NARRADOR (CONT.) Era como se a menina agora fosse duas: Isa e Bela, dois corpos em um só lugar. Há uma réplica do próprio rosto de Isabela iluminado por cima do seu e ela conversa consigo mesma. ISABELA "Alegria, é uma escolha bonita, mas será a sua verdadeira essência? É preciso ser honesto e olhar com transparência. A dor está nas curvas e sem isso a alegria é uma linha reta. E você, como pai, lidou com mais do que alguns arranhões e quedas de bicicleta". Como em um duelo de filmes de faroeste, vemos Sombra em frente a Isabela. Novamente, ouvimos o som do disjuntor e a iluminação do ambiente retorna ao que era. Mas no lugar da Sombra, agora vemos Alegria. CENA 06 - INT/NOITE - SALÃO DE DANÇA Isabela e Alegria estão em pé um diante do outro. NARRADOR O dançarino percebeu que Alegria lhe dava apenas um único ponto de vista e que precisava olhar além. Não queria aceitar seus defeitos. Nem ele, nem ninguém. Alegria se aproxima de Isabela. NARRADOR (CONT.) E com um nó na garganta, o dançarino sentiu-se culpado. ALEGRIA "Tenho que aceitar meus ressentimentos". NARRADOR Falou, com vergonha dos erros do passado. ISABELA "Tenho certeza que vai te ajudar"


7. NARRADOR Disse Isabela. ISABELA "Será um grande aprendizado". Alegria tira uma passagem de trem do bolso de sua calça e entrega a Isabela. NARRADOR E como um rei preocupado com sua princesa, o dançarino deu a ela uma passagem sem nenhuma despesa. Um trenzinho de brinquedo entra em cena. O trem vai crescendo até adquirir proporções reais e Isabela embarca. CENA 07 - INT/NOITE - MAPA O trem anda por uma trilha pontilhada que percorre diferentes regiões. Ele passa por uma área escura e nebulosa onde a luz do trem ilumina um letreiro: "CAPÍTULO 3: CONFORTO". CENA 08 - INT/NOITE - SALA DE CHÁ A névoa do espaço se confunde com a fumaça do trem e ele diminui de tamanho até um trenzinho de brinquedo novamente. Isabela está em uma sala com uma comprida mesa vertical. Em cima: bule, xícaras, pires e colheres em estilo clássico e tradicional. Ao lado, há cadeiras com antigas bonecas de porcelana sentadas em cadeiras dispostas ao longo da mesa. Isabela vai até a mesa onde também há um livro. Ela abre e encontra ilustrações de um ser deformado. Um desenho de uma criatura com traços de cobra envolve uma menina. NARRADOR (CONT.) E num virar de páginas, a figura se entortou como as linhas de um jogo de labirinto. Ela desvia o olhar por cima do livro e, na ponta da mesa, agora vemos CONFORTO (40 anos). Ela veste um interminável e longo vestido que parece dar voltas no quarto e um largo adereço em sua cabeça com tiras de cristais que escondem seu rosto. O cômodo todo está envolto em névoa. CONFORTO (V.O.) "Entre menina".


8. NARRADOR Pediu a viajante misteriosa. CONFORTO "Sente-se comigo! Vamos aproveitar essa tarde deliciosa." Com uma mão, Conforto fuma um cigarro com uma longa piteira. Com a outra, ela faz um gesto convidando Isabela a entrar. A madame tem centenas de anéis em seus dedos e compridas unhas que atravessam suas luvas. Isabela se aproxima com receio. NARRADOR Isabela perguntou fraquejando a voz. ISABELA "Estou em busca da minha identidade. O que define cada um de nós." Conforto apaga a ponta do cigarro dentro da xícara de chá. NARRADOR E a madame respondeu. CONFORTO "Talvez eu possa ajudar." Conforto finca sua gigantesca unha no lençol da mesa e, puxando a mão para si, ela aproxima a xícara e pires de Isabela da sua cadeira. Isabela se assusta, mas segue a xícara, curiosa. NARRADOR A fumaça que saiu da má intenção de suas palavras entrou no corpo de Isabela. Ela se aproveitou da porta de insegurança da menina que estava entreaberta Isabela chega até Conforto. Ela serve a xícara da menina. NARRADOR (CONT.) Sentiu-se vazia, mas o ar estava carregado. Uma energia caótica em tom muito pesado E assim, o caos a invadiu por todos os lados. Conforto afasta as tiras de cristais que escondem seu rosto, e revela sua face. Ela tem olhos completamente negros e uma pele dividida em rachaduras, como se estivesse se partindo.


9. CONFORTO “Para mim o mais importante é o Conforto. NARRADOR Ouviu Isabela, tentando equilibrar esse peso morto. CONFORTO "Nada vale mais do que a beleza de um rosto". Conforto estende a mão e arranha a ponta de suas unhas na bochecha de Isabela até sair uma gota de sangue. CENA 9 - INT/NOITE - SALA DE CHÁ A fumaça sobe do chão e começa a cobrir Isabela NARRADOR Engolida pela nebulosidade da sua mente, a cabeça de Isabela estava em frenesi. Até que seus olhos endureceram e logo caiu em si. ISABELA "Estou sendo consumida pelo caos. Uma energia que se aproveita de viajantes espiritualmente pobres. Pessoas superficiais que desconhecem os sentimentos mais nobres". A fumaça se intensifica ao redor das duas a ponto de não conseguirmos enxergar mais nada. Isabela derruba sua xícara de chá. De repente, vemos Isabela sozinha. Não há mais fumaça. Ao seu redor, as vestes de Conforto estão jogadas ao chão. Seu vestido e luvas estão largados, como se sua dona tivesse simplesmente evaporado. CENA 10 - INT/NOITE - ESPAÇO SONHO Andando a esmo, Isabela vê a superfície de um lago no teto. Há uma movimentação na água e ela se aproxima olhando para cima. A menina tenta tocar na água e uma mão a puxa para dentro. CENA 11 - EXT/NOITE - CAIS Isabel volta de um mergulho de um mar de pedaços de papel celofane. Ela avista um barquinho de papel de proporções reais e nada até ele. Um marinheiro a vê e acena com as mãos. Ele é SONHO (25 anos). Ele veste um blusão com conchas de broches e uma calça bem folgada, amarrada com uma corda de


10. navio. NARRADOR Segundo Isabela, a sensação era de mergulhar no fundo de um mar. Ela ia e voltava à superfície, como em uma coreografia pendular. E essa dança chegou a um fim, lhe clareando um mundo peculiar. Ela sobe em cima do barco e vai até o marinheiro. SONHO Isabela encontrou um marinheiro que contou sobre seu mar de sonhos e as noites estreladas que espantam seus dias tristonhos. No barco, Sonho mostra uma concha a Isabela. NARRADOR Ele lhe deu um presente. SONHO "Ouça os segredos que escondemos dentro das conchas." Bolhas cobrem a garota até não a vermos mais. NARRADOR A viagem de Isabela deu várias voltas, como a roda de um carrossel. Um girar sem ponteiros. Onde o tempo é como uma ampulheta, medido por grãos de areia. CENA 12 - INT/NOITE - FUNDO DO MAR Ela está deitada na areia e bolhas de sabão passam por seu rosto. Sonho vai até ela e deita ao seu lado. ISABELA "Sonhos são divertidos, mas alguns são correnteza. E as pessoas preferem viver neles quando não enxergam com clareza." SONHO "O que quer dizer?" NARRADOR Perguntou ele com estranheza. Isabela senta-se de frente a ele.


11. ISABELA "Seu mar tem mais mágoa do que água" NARRADOR Disse Isabela com franqueza. ISABELA "Você é mais que seus lamentos. Isso com certeza." Sonho se vira e fica de costas para Isabela. SONHO "Eu trabalhava animando festas, mas nunca achei que minha vida foi uma." NARRADOR E Isabela o mirou com um olhar altruísta. ISABELA "Seja generoso consigo mesmo! Reconheça suas conquistas. Elas estão dentro de ti, enterradas como um tesouro de um pirata egoísta." Isabela acaricia o rosto do Sonho. NARRADOR Os olhos do marinheiro ficaram vermelhos, como se na água tivesse cloro. E envergonhado disse: SONHO "O que não digo, às vezes choro". Os dois estão ajoelhados um a frente do outro e se inclinam para dar um selinho. NARRADOR E deram um beijo de um casal apaixonado. Feitos um para o outro, como a inspiração e o inspirado. CENA 13 - INT/NOITE - QUARTO ISABELA Isabela está de volta ao seu quarto. Sombra está em pé. NARRADOR Em uma só lágrima, seu arrependimento vezes que partiram (MAIS)

(CONT.) Isabela chorou e as três seu coração.


12. NARRADOR (CONT.) Não lhe interessava essas histórias. O que mais prezava era a paz da sua compreensão. Isabela anda até a Sombra. Ela chora uma lágrima solitária. As duas se dão as mãos, mantendo um espaço entre si. NARRADOR (CONT.) Tinha o rosto frio, o único calor que sentia vinha da lágrima que escorria pelo seu rosto. SOMBRA "Vem, eu te esquento". Sombra abraça Isabela e a menina repousa a cabeça em seu ombro. Uma luz contorna a silhueta das duas abraçadas. NARRADOR Pensando no que viveu, uma luz brilhou em incandescência e atravessou seus olhos. Memória. Era essa sua essência. CENA 14 - INT/DIA - BEIRA DO LAGO Isabela levanta a cabeça dos abraçando sua mãe. Ela tem o mesma cor. Ao seu lado, está Do outro lado da mãe, está o do Sonho e roupas parecidas.

ombros da Sombra, mas agora está rosto da Sombra e roupas de seu pai, com o rosto de Alegria. namorado de Isabela, com o rosto Todos estão emocionados.

Eles se abraçam e olham para a câmera, posando para um quadro em família. Enquanto se posicionam, uma moldura de um portaretrato emoldura todos. NARRADOR (CONT.) Isabela me ensinou que pessoas amadas dizem adeus, mas isso não precisa ser assustador. Nós podemos sempre usar nossas memórias, para visitá-las seja onde for. Além disso, temos tantas pessoas ao nosso redor, com quem podemos nos relacionar! Podemos até encontrá-las de novo. Quando for a nossa vez de viajar. Isabela desaparece, deixando um buraco no quadro em família.

Roteiro curta "Como segurar uma nuvem no chão"  

Roteiro do curta fantasia "Como segurar uma nuvem no chão"

Roteiro curta "Como segurar uma nuvem no chão"  

Roteiro do curta fantasia "Como segurar uma nuvem no chão"

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