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Renascença I e II - São Luís MA


EDITORIAL E a canal.com continua sua trajetória como produto da disciplina Jornalismo de Revista, sempre procurando inovar, levando informação e mostrando os diversos aspectos da cultura local. Neste número a intenção foi mudar tanto o layout da revista, seguindo um padrão mais moderno, intercalando espaços em branco com fotos a cores e ilustrações, como na linguagem, que procurou trabalhar mais o estilo do jornalismo literário, mais coloquial e ameno. Os temas das reportagens foram escolhidos pelos alunos do 5º período de jornalismo que procuraram retratar personagens e cenários que compõem a realidade da cidade de São Luis. Aos poucos foi se delineando um mosaico com várias facetas; os hippies da Praia de São Marcos, os gatos que são recolhidos para serem castrados, o empreendedorismo que vem sendo levado em prática por segmentos da cultura negra, a educação domiciliar, a homossexualidade e a discriminação... Fotos também apareceram enriquecendo a parte visual revelando o aspecto da cidade que luta para preservar o seu patrimônio promovendo manifestações como o Abraço à Praia Grande ou mesmo projetos como o Semente Digital, que valoriza o Centro Histórico por meio da tecnologia virtual. Este processo, vem ao longo de dois anos sendo enriquecido pela contribuição dos alunos, que participam de todas as fases desde as pautas, redação, edição e revisão, e tem sido uma experiência gratificante. É importante ressaltar, que, desta vez, contamos com a colaboração do aluno do curso de graduação em Design da UFMA, Hermano Torres e sua equipe (TUDØS) a quem dirigimos nossos agradecimentos, pois gentilmente contribuiu no desenvolvimento do projeto gráfico da revista canal.com. Profª Drª Vera Lúcia Rolim Salles

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ÍNDICE

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“Muito prazer, me chamo BABALU ROSA” Por Jeyci Sá e Tainara Pestana Loira, cabelos cacheados, olhos pequenos, rosto arredondado, de sorriso fácil, unhas grandes e bem feitas. Sentada na porta da sua casa, usando um longo vestido estampado, demonstrava elegância e simpatia a todos que passavam pela avenida. Muito prazer, me chamo Babalu Rosa, travesti com muito orgulho! Foi assim que fomos recebidas pela ativista e militante do Movimento de Travestis e Transexuais do Maranhão. A inspiração do seu nome veio simplesmente de um chiclete. Na adolescência, todos insistiam em lhe chamar pelo nome de batismo mesmo quando já freqüentava a escola com trajes femininos. Servia de chacota tanto para os professores como para os alunos. A vida de Babalu é uma história comum entre as que envolvem travestis e transexuais. Desde os sete anos percebeu que seu sexo não condizia com seus sentimentos, pensamentos e preferências. Várias vezes foi vítima de agressões. Seus pais não aceitavam suas características femininas e tentaram impor o que entendiam como comportamento adequado para um menino. Babalu considera que ser travesti não é uma opção. “Você opta quando vai ao restaurante, olha o cardápio e escolhe alguma coisa para comer. Isso depende da orientação sexual de cada um, eu acredito na construção de gênero”. Logo aos quinze anos, o desejo de fazer penteados, usar maquiagem e roupas de mulher foi se tornando visível aos olhos de todos. Babalu foi expulsa de casa, teve que se virar sozinha, assumir a responsabilidade de uma vida completamente nova, um mundo novo. Algo que nunca esqueceu foram as palavras ditas naquele dia por seu pai que deixaram marcas profundas: “Saia da minha casa coisa ruim, eu não quero te olhar nunca mais na minha vida.”

Longe do amparo dos pais e familiares, ela foi muito discriminada. A falta de oportunidade no mercado de trabalho contribuiu para que encontrasse uma única solução: ir para a “pista” se prostituir. Essa não foi uma decisão fácil. Ao contrário do que muita gente imagina, vender seu próprio corpo era e continua sendo, para muitas, uma questão de sobrevivência. Com poucos recursos para se manter, passou fome, mas o anseio de conseguir algo melhor para o futuro fez com que mantivesse a vontade de vencer e isto lhe motivou a concluir os estudos. Apesar das dificuldades diárias que teve que superar, conseguiu conquistar o reconhecimento social e entrar na faculdade. O fascínio por assuntos que envolvem a beleza serviram de estímulo para a escolha do curso. Ela escolheu fazer Estética Capilar e considera que essa é a forma mais chique de nomear a sua profissão. O preconceito foi mais uma vez a barreira que Babalu teve que enfrentar quando desejou ampliar os seus conhecimentos. As pessoas lhe viravam o rosto ao passar, lançavam olhares indiferentes e, em certos casos, até maldosos. No dia mais feliz de sua vida, o dia da sua formatura, ela sentiu mais uma vez o peso da discriminação. Ao ser chamada para apresentação dos formandos não utilizaram seu nome social e, ao ouvir o nome Isael Rosa Lima, proferido em alto e bom som para todos ali presentes, Babalu foi tomada pela indignação. Mas Babalu nunca desistiu, e, apesar de tudo, encarou os obstáculos e seguiu em frente. E, como prova de que o fato de ser travesti não significa incapacidade, ela recebeu o certificado de honra ao mérito por ser considerada uma das melhores alunas do curso. Com a opinião formada e conhecedora de seus direitos, impôs sua presença e conquistou seu espaço.

Ela não se contentou com pouco e foi mais além. Babalu passou a atuar nos movimentos de defesa da população LGBT movida pelo desejo de transformar a visão da sociedade em relação a essa classe. Ela lamenta que o meio social não consiga enxergar a travesti ou a transexual como pessoa, e sim como objeto sexual. Babalu é também presidente do Grupo Solidário Lilás que realiza em todo o Estado um trabalho preventivo, com distribuição de panfletos informativos, preservativos, orientações jurídicas e realização de teste para constatar DSTs, incluindo o HIV. O grupo luta diariamente para que aconteça uma transformação no pensamento social, pois esta sociedade que empurra jovens para a prostituição é incapaz de se preocupar em fornecer apoio e estrutura. Para Babalu, essa situação de marginalidade é conseqüência do descaso da família, da sociedade e do governo. A falta de leis federais que garantam a integridade física e moral da população LGBT é um sintoma de quão deficiente é o nosso sistema.

“Ser travesti não é uma opção. Você opta quando vai ao restaurante, olha o cardápio e escolhe alguma coisa para comer. Isso depende da orientação sexual de cada um. Eu acredito na construção de gênero”. A respeito deste assunto, no final da entrevista, Babalu fez um apelo para que os atuais estudantes de direito, principalmente aqueles que estão se formando, sejam sensíveis o suficiente para olhar por essa causa, lutando para que, num futuro não muito distante, a classe LGBT tenha todos os direitos assegurados efetivamente e com isso o nosso ambiente de convívio seja mais igualitário.

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E o que diz a lei?

VOCÊ SABIA?

Atualmente, muitos estados possuem leis municipais e estaduais que garantem os direitos de igualdade e não discriminação, por motivos de sexo, orientação sexual ou identidade de gênero.

• Atualmente a palavra HOMOSSEXUALISMO foi substituída por HOMOSSEXUALIDADE, pois o sufixo “ISMO” é entendido como doença e desvio de conduta.

Mesmo que a Constituição de 1988 tendo consagrado os princípios da dignidade da pessoa humana, a não discriminação e a igualdade, até hoje nenhuma Lei Federal que garanta o direito da população LGBT foi aprovada no Congresso Nacional, como existe, por exemplo, leis que beneficiam a mulher, o negro, crianças e adolescentes, pessoas com deficiência, etc. Palavra do especialista: Para o Supervisor de Educação em Direitos Humanos, Guilhon Filho, “A população LGBT é a única minoria que não possui Lei Federal, pois tal assunto sofre diretamente influência de grupos religiosos conservadores e fundamentalistas, que por meio de uma interpretação particular dos seus dogmas, questionam o reconhecimento da cidadania e dos direitos da classe”. Os avanços conquistados pela cidadania LGBT ganhou força nos últimos anos, as discussões saem dos guetos e estão sendo debatidas em Conferências por meio da qual exigem do Estado à elaboração de políticas públicas eficientes no combate a discriminação, ao preconceito e à intolerância, além de promover direitos humanos e cidadania. Como exemplo disso aconteceu em novembro de 2011, em São Luís, a II Conferência Estadual de Políticas Públicas e Direitos Humanos de LGBT. Atualmente, o número de adeptos do movimento LGBT cresce de forma acentuada, segundo o Supervisor de Educação em Direitos Humanos. Isso ocorre porque “A partir do momento em que há realização de conferências, debates, seminários, as pessoas começam a perceber que não estão sós no mundo e que podem assumir a verdadeira orientação sexual, unir forças e lutar por seus direitos”.

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• Para pessoa travesti do gênero feminino o tratamento deverá ser precedido do artigo ‘O’, e o gênero masculino precedido do artigo ‘A’. Isso se justifica pelo fato dessas pessoas terem sua identidade de gênero do sexo oposto. MULHER – O TRAVESTI HOMEM – A TRAVESTI • A sigla LGBT foi adotada para fins de ativismo político e significa: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Antes se usava o “G” na frente, mas agora, com a intenção de reforçar o combate a dupla discriminação de que são alvos muitas mulheres homossexuais, por serem mulheres e serem lésbicas. • A sigla GLS, que significa Gays, Lésbicas e Simpatizantes é usada para fins comerciais, indicando que o estabelecimento tem uma clientela diferenciada. • O nome social de travestis e transexuais deve ser inserido nos documentos internos, como cadernetas escolares e provas, com exceção apenas do histórico escolar e do diploma - que devem conter o nome original e uma referência ao nome social.

TIRANDO AS DÚVIDAS CLASSIFICAÇÃO DE HOMOSSEXUALIDADE, SEGUNDO PADRÃO DE CONDUTA E/OU IDENTIDADE SEXUAL ORIENTAÇÃO SEXUAL – representa a direção ou a inclinação do desejo afetivo e erótico, que tanto pode ser homossexual, bissexual ou heterossexual. Homossexualidade: é a relação afetiva e sexual entre pessoas do mesmo sexo. Bissexualidade: é a relação afetiva e sexual por pessoas de ambos os sexos. Heterossexualidade: é a relação afetiva e sexual por pessoas do sexo oposto. IDENTIDADE DE GÊNERO – é a forma como a pessoa se coloca sexualmente perante a sociedade. Transexualidade: refere-se à pessoa que possui uma identidade de gênero diferente da designada no nascimento, tendo o desejo de viver e ser aceito como sendo do sexo oposto, portanto vive em conflito com o seu sexo biológico. Na maioria dos casos, deseja cirurgia de adequação genital. Travestilidade: é o indivíduo que assume a aparência física do sexo oposto, por meio da ingestão de hormônios, aplicação de silicone, realização de cirurgias plásticas, troca de nome e uso de acessórios (roupas, penteados, entre outros). Transgêneros: este termo entrou em desuso, pelo fato que o segmento das travestis e transexuais, tem um pensamento consensual que elas não estão transitando entre os gêneros. (FONTE: CARTILHA – Unidos pela liberdade, separados pelo preconceito, 2009, SEDIHC)


NÓS,

GATOS,

JÁ NASCEMOS LIVRES. PORÉM, JÁ NASCEMOS

POBRES

Por Jorge Martins

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Fim de domingo em São Luís e tudo transcorre como de costume nos finais de semana. Alguns aproveitam as últimas horas de folga pelos bares da cidade, outros para repousar e repor as energias antes de começar mais uma semana de trabalho e estudo. Enquanto isso, alguém se prepara para sair de casa carregando um equipamento que mais parece uma gaiola. Também fazem parte do estranho kit, um par de luvas bem grossas e algumas sardinhas em água quente. É noite de captura. Otávia Mello é professora de inglês, mas por muito tempo pensou em ser veterinária, tamanho o amor que sente pelos animais. E essa paixão lhe levou a fazer algo curioso e inédito mesmo entre os ativistas da cidade. Trata-se do Projeto Felinos Urbanos, que está introduzindo a prática do CED (Captura, Esterilização e Devolução) em São Luís. O objetivo é simples: evitar o nascimento de mais gatos de rua. Para isso, os animais são capturados, levados ao veterinário, castrados, e devolvidos ao local de origem. Atitude criticada por muita gente, incluindo alguns defensores de animais. De fato, devolver os felinos às ruas pode ser cruel, já que isso não os livra da fome e dos maus-tratos. Controvérsias à parte, o CED vem sendo utilizado no mundo inteiro. Em Nova York, a ONG Neighborhood Cats faz esse trabalho desde 1999, servindo de modelo para outros projetos ao redor do globo. A causa tem, inclusive, o apoio de um dos maiores grupos defensores de animais do mundo, a ASPCA (American Society for the Prevention of Cruelty to Animals). No Brasil, uma das maiores organizações do gênero, a Confraria de Miados e Latidos, também pratica o CED em São Paulo. Foi de lá que veio todo o suporte técnico para o projeto ludovicence, além da marca e do apoio moral. Durante a reportagem, acompanhei todo o processo de captura. Otávia me apresentou ao objeto que serve de armadilha, a gatoeira. Ao contrário do que o nome pode sugerir, o equipamento não machuca os animais. Coloca-se a isca no fundo da jaula para atrair os gatos. Quando um deles se aproxima da comida, aciona um mecanismo que fecha o equipamento. De gatoeira montada, tomamos uma certa distância e obervamos. Atraídos pelo odor do peixe, os felinos se aproximam desconfiados. Enquanto assistimos à cena, vamos conversando. Otávia conta de onde surgiu a ideia do projeto. A decisão de trazer o CED para São Luís aconteceu depois de participar de um workshop em julho de 2011, quando fazia intercâmbio em Toronto, no Canadá. Mas o amor pelos animais a acompanha desde muito cedo. Por 4 anos, Otávia se dedicou ao resgate de animais, mas os custos eram muito altos. Antes de virar ativista, ela lembra que já teve oito gatos diferentes. Todos eles morreram. “Como?”, pergunto. “Falta de posse responsável”, ela responde com sinceridade. “Não eram castrados, então cada um morreu de um jeito. Eles fugiam para reproduzir... Uma fêmea morreu de tanto parir.”. Mas com o nono gato, Arthur, ela prometeu que não deixaria o mesmo acontecer.


“Foi um gato que mudou a minha vida inteira”, revela. Ela conta que, há três anos, teve que passar por uma cirurgia na coluna. Durante o difícil período de recuperação, poucos humanos foram tão companheiros quanto o gato, que não saía de perto da cama da dona. Arthur morava na rua. Sobrevivia de restos num lixeiro e chegou a ser apedrejado. Quando Otávia o resgatou, ele se tornou um gato muito bonito. Muita gente pedia para adotá-lo. “Não”, ela respondia. “Por que você não o quis quando ele estava feio e cheio de vermes?”, completava. Ela reclama também que as pessoas procuram um bibelô em forma de animal. Um bicho adulto, vira-lata, preto e com problemas de saúde muito dificilmente conseguirá um dono. Não é muito diferente do que se vê em um orfanato. As crianças mais velhas, negras, agressivas ou com problemas de saúde não costumam ser adotadas. As sem-teto sofrem ainda mais por conta dos maus-tratos e do descaso. A vida na rua não é feliz nem para os humanos, nem para os animais. Pergunto o que Otávia acha das pessoas que não fazem nada pelos animais porque existe muita gente passando necessidade. “Quem diz isso geralmente não ajuda nem bicho, nem gente”, responde. Além disso, controlando a população de animais de rua, ajuda também os humanos, que se livram de zoonoses.

esterilização em massa.”. Ele critica ainda a ideia da devolução dos gatos às ruas, dizendo que o ideal seria a criação de um abrigo para eles. Já a presidente da Associação Maranhense em Defesa dos Animais (AMADA), Ilma Cerveira, diz que o trabalho do Felinos Urbanos é muito importante. Segundo ela, o principal objetivo de sua ONG é a castração. Apesar de muitos membros da AMADA criticarem o projeto de Otávia, Ilma garante que é impossível resgatar todos os animais que vivem nas ruas. Por isso, a solução mais eficaz é a esterilização. A AMADA oferece, inclusive, castração a preço popular aos donos de animais que entrarem em contato com a organização. Os preços variam de 50 a 80 reais. Ilma também reclama da falta de recursos. “Acho que 80% do trabalho que nós fazemos vem do nosso próprio dinheiro”. O Felinos Urbanos também se sustenta parcialmente do dinheiro da própria criadora. Durante o primeiro mês do projeto, 10 gatos de rua foram esterilizados, 2 deles inteiramente custeados por Otávia. Ela utiliza o Facebook e o blog do projeto para divulgar e incentivar as doações, que vêm principalmente de outros estados. Na noite em que acompanhei a captura, ela lamentou que muita gente apoia o Felinos Urbanos na Internet, mas não dá nenhum outro tipo de ajuda. “Acho que vou lançar a campanha: quem curtir o projeto no Facebook doa 2 reais”, brinca. Vai ficando tarde e eu descubro que a captura é mais difícil e demorada do que eu havia imaginado. Os felinos são naturalmente desconfiados, o que faz com que eles não caiam tão rápido na armadilha. Depois de mais de uma hora de tentativas, finalmente conseguimos capturar uma fêmea, a número 11, que faz bastante barulho tentando escapar. Essa noite, ela será alimentada para, no dia seguinte, ser esterilizada. A cirurgia é feita com a técnica do gancho, procedimento que envolve incisão mínima e recuperação rápida. A número 11 também receberá um pequeno corte triangular na orelha direita, símbolo internacional para identificação dos gatos de rua castrados. Acompanho Otávia no caminho de volta até sua casa. A gata que capturamos não demora muito para se mostrar calma e dócil, o que nos faz pensar que ela era doméstica e provavelmente foi abandonada pelo dono. Hora da despedida, ela me agradece pela companhia. Não consigo deixar de demonstrar um sentimento de pena pelo animal, e Otávia conclui com um ar de dever cumprido: “Pelo menos agora mais gatinhos vão deixar de nascer na rua”.

Quem diz isso geralmente não ajuda nem bicho, nem gente. É responsabilidade do Centro de Controle de Zoonoses não apenas sacrificar animais doentes, mas também evitar que eles contraiam essas doenças. E isso pode ser feito por meio da conscientização em torno da posse responsável. Ainda existem muitos preconceitos em torno da castração. O Dr. Nordman Wall, diretor do CCZ de São Luís afirma que pretende esterilizar 450 animais até o final de 2011. A ideia é castrar preferencialmente os gatos de proprietários de baixa-renda. Ele admite que o número ainda é pequeno, mas reclama da falta de verba. Sobre o projeto Felinos Urbanos, opina: “Eu sou a favor de tudo que você fizer para diminuir o número de animais que nascem. Porém isso é uma solução paliativa. A gente tem que organizar uma

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O Lar que um dia foi meu...

Por Gisele Carvalho

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“Nesses quase cinco anos, fiz do Lar minha casa. Das Luragbianas, minhas irmãs e muitas vezes, minha filhas. Quantas vezes ouvi e aconselhei. Quantas vezes tentei arrancar sorrisos mesmo nos momentos tristes. Quantas vezes tentei ser forte para ajudar mesmo precisando e me sentindo fraca... Quantas vezes queria poder ter feito mais, ter sido mais. Mas a certeza que tenho é que fui suficiente. O suficiente para ter feito da minha passagem pelo Lar um momento único, onde aprendi e ensinei”

Sentadas umas sobre o colo das outras em dois bancos de madeira na sala do Lar Universitário Rosa Amélia Gomes Bogéa - LURAGB, um grupo de sete moradoras da casa de estudante feminina aguarda apreensivo o início da conversa sobre as mudanças que enfrentaram desde a chegada no local. Para muitos, morar em uma república pode parecer uma experiência de aprendizado e amadurecimento, mas para as meninas do Lar, só pode usufruir desses benefícios quem virou adulto no momento em que saiu da casa dos pais.

A ex-moradora, Leidedaina Araújo.

Quando relembro o tema da conversa com o grupo

inicial, algumas outras moradoras se juntam a nós em cadeiras de plástico com seus nomes escritos com esmalte vermelho. Empolgadas, as meninas começam a falar para as recém-chegadas sobre as vantagens de se morar longe da supervisão dos pais. E os risos e piadas sobre o comportamento de algumas que estão presentes vão dando lugar à apreensão inicial. Nessa tarde de sábado, único dia possível de reunir toda a turma convidada, estão sentadas ao redor da mesa: Emmeline, Creusa, Juliana, Talita, Deuzilene, Marcela e Dayse. Atualmente, a casa de estudante


possui 21 moradoras e algumas das convidadas não puderam comparecer ao nosso encontro por terem ido ao IML à procura de uma das meninas que estava desaparecida. Para muitas, a idéia de morar em uma república parecia algo terrível pelos boatos que já tinham ouvido falar. E, hoje, a poucos meses de suas formaturas, algumas revelam que têm medo desse futuro próximo: o dia de suas despedidas do Lar. Mas também é unânime a certeza de que ganharam o diploma para a vida no LURAGB.

Despedidas A oportunidade única de viver essa experiência acaba trazendo bem mais benefícios do que só o aprendizado e responsabilidades. Permite também que as moradoras do Lar formem laços de amizade, muitas vezes até fraternais. Após serem obrigadas a deixar a casa em que foram criadas e se distanciar da família, as meninas precisam enfrentar novamente a separação das pessoas que se tornaram suas irmãs e até mesmo mães. Além de uma nova despedida da família que construíram, as moradoras têm que conviver também com a pressão do que fazer após sair da universidade. Para quem pode voltar para a casa dos pais e ter expectativa de emprego na cidade natal, a formatura representa realmente um momento de alegria e vitória. Mas, para muitas, que não podem contar com esse retorno, a incerteza de um emprego ou o ingresso em um mestrado influencia bastante o emocional de quem não se preparou para isso desde o seu ingresso na casa.

Experiências Cortar o cordão umbilical e se mudar para outra cidade é um dos desejos adolescentes mais recorrentes, mas administrar a própria vida pode acabar se tornando uma atividade mais complicada do que se pensa. Conciliar estudos, finanças, vida social e cuidar de si mesmo requer responsabilidade e força de vontade, pois problemas na adaptação, por exemplo, podem influenciar no convívio ao longo de todo o curso.

Ao mesmo tempo em que a vida sem a supervisão dos pais aparenta ter várias vantagens, é preciso delimitar a partir de que ponto a liberdade se torna libertinagem. Para Creusa, considerada a mãe do Lar, a idéia de que é impossível várias mulheres morarem em um mesmo lugar em harmonia é falsa. Como a vida em um espaço coletivo exige que as partes ao menos se respeitem, a convivência diária acaba obrigando as meninas a serem mais tolerantes e ensinando os limites desse tipo de relação. “As regras daqui impedem a agressão física, mas a maioria das brigas também é por motivo simples como uma panela deixada suja. E a gente espera rir um dia disso, mas quando se vive em grupo é um pouco difícil controlar os ânimos”, comentou. Ao mesmo tempo em que a vida sem a supervisão dos pais aparenta ter várias vantagens, é preciso delimitar a partir de que ponto a liberdade se torna libertinagem. Ao tocar no assunto sobre a ausência de cobranças quanto a horários de chegada e saída, todas as atenções do grupo se viram para Dayse, que assim como muitas outras moradoras, aproveitou a oportunidade para curtir a vida adoidada.

E numa dessas idas... “Poderia lembrar de cada momento importante que aqui vivi, desde o primeiro dia que adentrei este lar para participar da seleção de moradoras até os dias que se seguiram. As confraternizações, as atividades de interação (mutirões, festas de aniversário da casa), que querendo ou não, todas precisavam trabalhar juntas. Os aniversários surpresa, às vezes de manhã cedo, onde todas se reuniam despenteadas e com cara de sono. E tudo isso, apenas para fazer a aniversariante se sentir especial. As brigas e desentendimentos por um pequeno detalhe (balde, panela, uma roupa que pegaram do varal por engano ou de propósito) e por grandes detalhes também (uma que ficou com o namorado da outra, pela falta de caráter mesmo). Não seria o LURAGB se não tivesse tudo isso.” Mais um fragmento da carta de Leidedaina Araújo.

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A quem pertence a educação dos filhos? Por Taísa Machado e Jéssica Melo

Filhos que nunca deixam de ser filhos, pais que desejam assumir um papel a mais: o de professor. Será que eles não continuam sendo somente pais em tal situação? Um método bastante conhecido na Europa e nos Estados Unidos: a Educação Domiciliar, chamada pelos especialistas de “homeschooling” põe em discussão esta forma de ensino. A prática não regularizada no Brasil, mas adotada por algumas famílias, implica na não inserção de crianças no sistema escolar, e, consequentemente, a inserção dos filhos no ensino domiciliar. E quem são os professores? Os próprios pais. O problema desse método está em perceber que, no âmbito escolar, a criança assume inúmeros papéis que a educação domiciliar a impede de exercer. “Na escola a criança desempenha outros papéis sociais, pois ele é aluno, é colega. Neste ambiente se aprende a administrar conflitos, exercitar a cooperação, a partilhar saberes, emoções, o respeito às idéias”, afirma a psicopedagoga, Marialda Mendes. São observados vários papéis e funções da criança na escola, mas há um certo reducionismo dessas funções da mesma criança na educação domiciliar: nesta, ela assume o papel de filho, se privando do convívio social. Para a psicopedagoga não há vantagem nesta prática e, sem mostrar sinais de dúvidas, ela explica: “Os pais têm um papel preponderante na educação dos filhos, mas a maioria não tem preparo acadêmico nem mesmo para repassar conteúdos. A educação é bem mais abrangente, tem a ver com a formação global, pois o sujeito é um ser global. A escola e todo corpo que a compõe (diretores, professores, alunos, pais, comunidade, etc.) são instrumentos importantes nessa formação.” Na opinião de Marialda, projetar o futuro comportamento de uma criança que foi impedida

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de um convívio social, pode ter consequencias negativas: “Isso pode ocasionar uma problemática de relacionamento interpessoal e de exercer a cidadania, pois esta é algo que não se aprende em livros, mas com a convivência social e pública, no dia a dia, através das relações que estabelecemos com os outros”.

impor em sua educação domiciliar (moral) que negros e brancos (assim como outras raças) não se misturam. Querendo ou não ainda existe um preconceito muito forte a várias etnias e grupos sociais. Então como evitar que justamente essas pessoas não estejam pregando isso a seus filhos?”, questiona.

Mais importante do que o conhecimento científico que a escola pode oferecer, é o aprendizado obtido no convívio, na troca de valores entre os alunos, nas relações que eles exercem na sociedade. Esse conhecimento Elenice Pachêco, 46 anos, tem de sobra. Ela exibe a foto das duas filhas como troféus. “Educação sempre foi um ensinamento muito presente em minha casa. Minhas filhas são as primeiras da minha família a cursarem uma universidade”. Ela não esconde esse orgulho. Com os olhos cheios de lágrimas, conta que, antigamente, a idéia de ingressar em uma universidade era pouco explorada pelos pais. Mas ela tratou de mudar essa história acrescentando a escola em sua vida como modelo de mudança profissional.

O ponto de vista legal

Hoje, professora de educação infantil há 10 anos, mostra sua experiência docente quando esclarece a forma como as crianças reagem ao contato com o ambiente e como ela se torna sumamente importante para o desenvolvimento social e intelectual. “Quando uma criança chega à escola pela primeira vez, não deixa de ser algo bastante diferente. A criança está acostumada com a sua casa, seus pais por perto e familiares. O que vai fazer essa mudança ser tranqüila e confiável é a forma como as professoras e a escola acolhe esse aluno”.

Caso o projeto fosse aprovado, como a lei agiria? Do ponto de vista legal Saulo acredita que há um entrave jurídico a ser superado antes da eventual implantação do Projeto de Lei. O código penal brasileiro em seu art. 246 informa: “Deixar, sem justa causa, de prover à instrução primária de filho em idade escolar. Pena - detenção, de quinze dias a um mês, ou multa.”

E quem são os professores? Os próprios pais... No seu entender, o “homeschool” é algo que já existe há algum tempo, mas que foi pouco explorado e poucas pessoas têm conhecimento. Quando se trata de educação, o que vem em mente é a escolar. “A convivência com pessoas diferentes no ambiente escolar é algo que a educação domiciliar não irá suprir. Discutir com o colega que tem uma opinião diferente da sua, aprender a partilhar, por exemplo, são situações que acontecem, a principio, na escola.”

Mas o “homeschool” não é só um assunto familiar e educacional, é também de interesse jurídico e político. O advogado Saulo Gomes explica as conseqüências jurídicas dessa prática e informa que em 2008, a Câmara recebeu um projeto para modificar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. A proposta é que a lei admita a modalidade de educação domiciliar ministrada por membros da família ou guardiões legais e os serviços de uma escola institucional seriam utilizados como base anual para avaliação do progresso educacional.

A proposta é que a lei admita a modalidade de educação domiciliar ministrada por membros da família ou guardiões legais e os serviços de uma escola institucional seriam utilizados como base anual para avaliação do progresso educacional.

Para Saulo esse Projeto de Lei sofrerá grande resistência dos sindicatos de professores e da esquerda em geral. No entanto, pode ter o apoio de alas mais religiosas, que pretendem “proteger” seus filhos da influência da educação laica e liberal sobre o aprendizado destes. Em países como os EUA e Canadá, onde residiu durantes alguns anos, eles costumam adotar o “homeschooling”. O advogado não é totalmente contrário a idéia de educação domiciliar, mas se tivesse filhos concorda que poderiam ficar intelectualmente mais preparados através da presença de um tutor capaz de ensiná-los lógica, filosofia e artes desde pequenos,. Porém, a falta de socialização seria um preço muito alto a ser pago no futuro: “É fundamental que as crianças tenham contato com colegas de cor, origem social, sexo, culto etc. diferentes, pois o mundo que as aguarda é assim”, finaliza.

A professora teme que essa forma de educação domiciliar fique restrita ao que os pais da criança acham justo e coerente. “Um exemplo para isso é a questão do racismo. Alguns pais podem

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EMPREENDENDO UMA

IDENTIDADE Por Liliane Cutrim e Silvienne Pinto

como ficar mais bonito. Se alguém quiser um ajuste na roupa que está comprando, Têka faz o que for preciso para satisfazê-lo. Essa mulher cheia de talento e carisma desenvolveu desde pequena o gosto pela costura. Ainda criança, fazia roupas para as suas bonecas de madeira, pois a mãe não tinha condições de comprar “bonecas de verdade”. Ela pegava as colchas de cama da sua casa e fazia roupas que, aos poucos, foram ganhando espaço entre as colegas de escola, que incentivaram a pequena Têka a vender suas peças ousadas. A empreendedora começou a vender suas criações e foi guardando o dinheiro, até que conseguiu alugar o espaço que hoje é seu aconchegante ateliê.

A coleção

Com um brilho nos olhos, jeito de menina, atitude de quem sabe o que quer, sem medo de ser o que é. Uma mulher que desde cedo soube que queria ser bem mais que uma pessoa comum. Ela resolveu expandir a paixão por sua origem étnica e fazer as pessoas verem que é bonito reconhecer-se. Essa é Têka Castellano, que está entre os 3,8% dos negros brasileiros que conseguem ser empreendedores. Um percentual pequeno, revelando que o país ainda precisa evoluir muito em seus conceitos, perdendo seus preconceitos. Têka tem seu empreendimento no Beco Catarina Mina no Centro Histórico de São Luís. Ao nos depararmos com a lojinha simples, de cores vibrantes e estilos diferentes de roupas e acessórios, logo nos encantamos com o jeito diferente de Têka, que trata cada cliente de modo singular. Ela com toda atenção explica aos clientes o que é legal usar,

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Com roupas diferentes das que comumente são encontradas nas lojas da cidade, as peças coloridas de Têka seguem a tendência do “bom gosto”, do “sentir-se bem”. “Eu gosto de fazer minha própria moda. Nem tudo que fica legal em alguém, fica bem em outra pessoa. O importante é sentir-se bem com o que se está vestindo.” Ela é criativa e com apoio do Centro de Cultura Negra promove um desfile anual das suas peças. Têka conta com a participação de artistas locais e de pessoas comuns que desfilam a coleção. São crianças, jovens, adultos e idosos que gostam dos figurinos e desfilam na escadaria do Catarina Mina, em uma noite cheia de luz, alegria, e muito, muito colorido. “Eu faço tudo com muito carinho e quero que as pessoas vejam que é bom ser negro.” Assim segue Têka Castellano, que apesar da pele clara, ao ser questionada sobre sua etnia, afirma sem perda de tempo “Eu sou negra. Minha pele é clara, mas olha para o meu cabelo. Eu amo a minha raça, adoro ser negra”.

Dicy Rocha:

uma amante de sua história Quem compartilha da idéia de utilizar os utensílios que reafirmem a beleza da identidade negra é a cantora e pintora Dicy Rocha. Ao falar de sua história, Dicy não esconde a satisfação de ser negra e usar produtos específicos para a sua etnia. Ao vê-la na “lojinha”, no Beco Catarina Mina, é impossível não perceber a intensa felicidade que brota dos seus olhos. Sua avó Sebastiana, conhecida como mãe Sibá, é feliz por sua origem, e desde cedo, ensinou para a menina a história da sua raça. Mas, apesar da boa referência em casa, Dicy só começou a se reconhecer como negra quando passou a conviver com outras pessoas muito bem resolvidas e felizes por serem afrodescendentes. “Na minha infância não havia elementos nos quais eu me visse, como bonecas, produtos de beleza e roupas. Me lembro da minha mãe penando com meu cabelo e usando um pote de creme que tinha uma mulher loira na frente”, desabafa Dicy. Com a música e a pintura que retrata o negro, Dicy Rocha faz da sua arte um meio de propagar tranquilamente a beleza de ser negro e de se auto afirmar como negro. “Eu me incomodo de ser chamada de morena, cresci ouvindo meu pai me de chamar de pretinha. Adoro ser diferente, pois o que choca é o que modifica”.


As controvérsias Toda essa paixão de Têka, da Dicy e de tantos outros brasileiros que valorizam a sua o identidade é também alvo de discordância. Para alguns é um meio de aumentar as disparidades entre as raças mas, para outros, de mentalidade afirmativa, é uma forma de reconhecer que negros e brancos devem ter direitos iguais, mas que não há como não perceber as diferenças genéticas entre eles. Usar produtos específicos é ser livre para afirmar a identidade, que durante muito tempo, foi subjugada pelo modelo europeu de ser brasileiro. A luz que vem clareado a nossa sociedade, antes tão imersa na escuridão do preconceito, faz ver que nos próximos anos os negros brasileiros terão mais destaque no consumo e o mercado deve usar toda a sua criatividade para disponibilizar produtos diversificados. O que se espera de um país que tanto prega a liberdade de expressão, a igualdade racial e a correta distribuição de renda, é que motive os empresários, independentemente de sua etnia, a criar produtos que ajudem a sustentar a identidade do negro, do branco, do índio e de qualquer outra etnia e cultura. Temos o anseio de que as diferenças sejam respeitadas para que exista igualdade em um país tão cheio de diferenças.

... Na minha infância não havia elementos nos quais eu me visse, como bonecas, produtos de beleza e roupas... AFIRMAÇÃO DE IDENTIDADE Yulle Rabelo, 18 anos, estudante de Pedagogia. “Desde 12 anos eu sempre gostei de usar tranças de bonecas no cabelo. Acho atraente e me sinto mais bonita, fico diferente das outras mulheres, e ajuda o meu cabelo natural crescer. Já sofri muito preconceito, mas isso só faz com que a minha auto-estima aumente. Tudo que é diferente me atrai.” Têka Castelhano “Nós negros temos que nos reconhecer como negro e valorizar a nossa arte, a nossa história. O racismo muitas vezes está no próprio negro”. Reginaldo Santos, 23 anos “Meu cabelo sempre foi crespo, desde criança minha mãe passava um produto afro para deixá-lo enroladinho. Depois que foram feitos produtos especialmente para pessoas da cor negra, me senti muito feliz”.

O mercado O Brasil, nos últimos anos, tem deixado de lado o seu gosto pelo estilo europeu e vem despertando para um novo cenário no empreendedorismo, atendendo à demanda crescente de uma classe média negra estimada em 8 milhões de pessoas, que movimenta US$ 50 bilhões anuais. Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos, João Carlos Basílio, o crescimento é irreversível. “A autoestima dos afrodescendente aumentou. Com ela, veio a exigência de produtos próprios, ao indés de adaptações de produtos voltados ao padrão de beleza europeu”. Quando o negro cresce na escala social e se reconhece como afrodescendente, passa a consumir mais e as empresas tem que desenvolver produtos destinados a esse público, afirmando uma identidade há muito ofuscada pelo “jeito europeu”. Hoje há fabricações de bonecas negras, produtos de beleza e higiene, roupas, enfim uma infinidade de produtos destinados a um crescente número de negros e de brancos que também gostam desses produtos.

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É HORA DO ROCK, BEBÊ !

Por Jorge André Ferreira

Responda rápido: qual o gênero musical que mais caracteriza a juventude? Que a leva a protestar contra políticos, fazer novas amizades e amores ou apenas bater cabeça? A resposta é apenas uma: rock’n’roll. Ou apenas rock, para os íntimos. Aliás, para os íntimos mesmo, é uma centena de variações: do classic rock ao glam, passando pelo heavy metal ao punk, até o grunge e o emo. São muitas as fases do rock que conquistaram a juventude e mudaram o mundo. Foi numa tarde de julho de 1954, quando um caminhoneiro chamado Elvis Presley entrou num estúdio em Memphis, e gravou “That’s All Right, Mamma” que o rock começou sua história de influência no mundo. Sim, porque o rock já existia antes de Elvis. Apesar de ser considerado o rei do rock, ele não foi o inventor. Antes dele já arrebentavam em suas guitarras elétricas nomes como Chuck Berry e Bill Halley, artistas negros. O rock tem raízes negras. Assim como o blues, o samba e o hip-hop, o rock nasceu da escravidão e tem suas origens na imigração forçada de milhões de africanos, que foram tirados de suas aldeias e jogados em terras estranhas. E esse sofrimento todo foi representado na criação de sons, estabelecendo assim uma relação direta entre a música e a realidade social, grande característica do rock – de radiografar o presente. Com o passar do tempo, a sociedade americana começou a abandonar preconceitos seculares. Adolescentes brancos começavam a ouvir e pedir nas rádios música negra, antes regada a salões de baile em bairros pobres. Pela primeira vez, brancos e negros estavam gostando da mesma coisa. E os adolescentes passaram por uma mudança também. Eles comemeçaram a ser vistos como um público consumidor. Antes, a indústria cultural não os via como consumidores de seus produtos, pois, com as grandes guerras e a Grande Depressão, ser adolescente nos EUA significava trabalhar desde cedo para ajudar a família. Então, pais e filhos eram forçados a gostarem das mesmas coisas. Mas com a época de prosperidade econômica que veio depois, os jovens adquiriram poder aquisitivo e o cenário mudou. Filmes passaram a ser produzidos especialmente para os jovens, assim como músicas e o rock’n’roll de Presley e Berry passou a ser o símbolo dessa nova juventude. Foi então que, tão rápido quanto veio, o rock quase acabou: Elvis foi para o Exército, Chuck Berry foi preso e o futuro parecia incerto. Até que um grupo de jovens de Liverpool, Inglaterra, surgiu para salvá-lo.

Os salvadores do rock Os garotos de Liverpool foram os salvadores do rock. Assim como o gênero salvou e revolucionou os jovens dos anos 40 e 50, os Beatles revolucionaram o rock a partir dos anos 60. Eles elevaram o rock a um nível até hoje inigualado, estabelecendo parâmetros e modelos para toda a música pop. O rock democratizou a música pop. Subitamente, qualquer um podia subir no palco e cantar. Essa democracia teve um efeito imediato: os artistas ficaram cada vez mais parecidos com seu público, tanto em idade quanto em classe social. Os jovens identificaram-se com seus ídolos, estabelecendo uma relação mais direta com a música. O rock também passou a buscar na sociedade – especialmente nos jovens – os temas de suas canções. Essa troca fez do rock a música mais popular e culturalmente marcante do século 20.


Pela primeira vez, brancos e negros estavam gostando da mesma coisa. E foi assim que, ao ser misturado e modificado pelas mentes criativas da juventude, o rock foi salvo pelos adolescentes. O rock se tornou tão grande que passou a ser classificado e dividido em vários subgêneros, cada um com sua década de prosperidade. E, depois de uma geração regada a heavy metal, punk, gótico e hardcore, vivemos hoje uma nova fase do rock: o rock “enlatado”- ou dos anos 10. Nesse ambiente se concentram os novos roqueiros, que usam roupas coladas e produzem música nos computadores de casa. A partir do boom da internet, no começo dos anos 2000, ouvir e produzir música se tornou uma tarefa muito mais fácil. Mas a demanda passou a ser maior que a qualidade. “Fazer” música hoje em dia é tão simples que o computador já faz tudo sozinho. O indivíduo pode cantar e tocar mal, mas vários programas podem deixar sua música com a mesma sonoridade – até superior – que a dos Beatles. E graças a essa queda de qualidade, muitos já contam os dias para a morte do rock. Alguns até já o assassinaram. A revista

Blitz, grande publicação britânica sobre música, defende a tese apontada pelo jornal The Guardian, de que o rock morreu de novo. Para o apresentador de rádio e televisão Paul Gambaccini, da rede BBC, este é o “final da era rock, tal qual a era jazz acabou. Isso não quer dizer que vá deixar de haver bons músicos de rock, mas o rock enquanto estilo dominante já faz parte da história”. O rock na ilha No entanto, ainda existem aqueles que acreditam na sobrevivência do rock. Ramirez Costa, vocalista da banda ludovicense Página57, acredita que a salvação está no próprio ambiente virtual: “Eu acho válida a modernização ao se fazer música, porque, embora tenha muita sujeira a todo o momento, sempre tem a chance de sair uma coisa boa”, afirma. Por outro lado, a Página57 ainda prefere fazer tudo à moda antiga: “A única tecnologia que usamos é a pedaleira de Márcio Glam, nosso guitarrista. Quando queremos inserir algo como piano ou percussão, ou tocamos nós mesmos ou chamamos alguém. Por enquanto, nada de sample e essas coisas. No geral, achamos melhor assim, ao menos pra nós. Adoramos bandas tecnológicas, mas para a Página57 o lance é mais cru mesmo.” Outro que acredita que a música digital mais ajuda do que atrapalha ao rock é Jonas Sakamoto, estudante de Jornalismo e guitarrista nas horas vagas: “É a forma do artista ou música começar a se virar, porque nem todos possuem condições para custear uma gravação profissional, que é excelente, porém cara! Eu mesmo mexo com gravação e já tive bandas que gravaram assim, saiu um resultado muito bom e nos deu um retorno satisfatório.” Para ambos, o cenário rock em São Luís está crescendo bastante e só tem a ganhar com a quantidade de bandas e novos estilos que surgem no mercado. Graças à grande quantidade de shows, nacionais e internacionais, que a ilha vem sediando, como Scorpions, Blind Guardian e Angra, o cenário está mudado, e para melhor. “São Luís é uma cidade histórica conhecida como a Ilha do Metal e já está na rota dos grandes shows de bandas internacionais de rock”, registra o site de eventos Kamaleão. O rock ainda tem muito gás e, ao que parece, ainda vai sobreviver durante muito tempo. Ele já tem quase 60 anos de existência e já passou por maus bocados, além de ter sua morte decretada várias vezes. Mas como uma fênix que renasce das cinzas, ele sempre deu um jeito de escapar, sendo resgatado das trevas por algum adolescente talentoso e entediado. “O rock resiste há muito tempo e não acho que passará do prazo tão cedo”, sustenta Ramirez.

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NAMORAR É PRECISO

Somos diferentes, mas temos em comum a busca pela felicidade. A seguir, o relato de duas jovens com visões distintas sobre os relacionamentos.

Por Nathália Maciel

Era uma agradável noite de sábado. Saí da Cohab em direção ao Maranhão Novo. O engarrafamento era imenso. Todos queriam se dirigir para algum lugar, provavelmente ou festas. festas. Iria Iriame para bares ou me encontrar com Mageda Kara Ali, que conheci no Colégio Batista quando cursava o ensino médio. Precisava saber de de suas suas histórias históriasamorosase amorosas eo oque quepensava pensava sobre sobre os os relacionamentos modernos.Minha modernos. Minha missão missão era era desvendar se ocorreram mudanças na forma de um casal se relacionar e qual o porquê dessas mudanças. Cheguei em sua casa por volta das 20h. Cheguei sua casa por volta da dasminha 20h. Estacioneiem o carro e informei-lhe Estacionei o carro e informei-lhe da minha chegada pelo telefone. Não demorou muito chegada peloveio telefone. Nãoencontro. demorou Ela muitoé e Mageda ao meu eestudante Mageda deveio ao meu encontro. Ela é Fisioterapia, de ascendência estudante de Fisioterapia, de ascendência árabe, é fã da Banda Calypso,tem vinte e árabe, é fã Banda Calypso,tem um anos e éda cheia de histórias para vinte contar.e um anos e é cheia de ehistórias Atravessamos a sala fomos para paracontar. outro Atravessamos a sala e fomos para outro cômodo. Sentamos num confortável sofá cômodo. Sentamos num lá confortável azul bic. Sua irmã estava também esofá de azul bic. Sua irmã estava lá também e de relance acompanhava nossa conversa. Ouvia relance nossaPerry. conversa. Ouvia algo queacompanhava me lembrou Kate algo que me lembrou Kate Perry. Conversarmos sobre amigos em comum e logo perguntei: Conversarmos sobre amigos em comum e - Qual é a tua visão sobre os relacionamentos logo perguntei: modernos? -Após Qualum é alongo tua visão sobreum os relacionamentos silêncio, franzir de testa e modernos? um acesso de risos ela responde: Após um longo silêncio, franzir de não testasee -As coisas mudaram paraum pior, porque um acesso de risos ela responde: tem mais o respeito. Hoje ninguém mais quer -As coisas mudaram paraAspior, porque não se se prender a ninguém. pessoas preferem tem mais o respeito. Hoje ninguém mais quer ficar em vez de namorar... se prender a ninguém. preferem - Mas o que mudou foiAsopessoas comportamento ficar em vez de namorar... dos homens em relação às mulheres, das -mulheres Mas o que mudou aos foi homens o comportamento em relação ou ambos dos homens em relação às mulheres, das mudaram? mulheres aos homens ou ambos - São eles em querelação não querem nada sério! Hoje mudaram? as pessoas ficam, ficam, ficam, ficam e -depois, São eles que não querem nada sério! Hoje se aumentar o sentimento, o namoro as pessoas ficam, ficam, ficam, ficam e começa. depois, se aumentar o sentimento, o namoro As falas de Mageda revelam um verdadeiro começa. desencanto. Parte disso, ela atribui à educação

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As Mageda revelam Balançando um verdadeiro quefalas as de crianças recebem. as desencanto. Parte disso, ela atribuisentada, à educação longas pernas como se dançasse ela que crianças as revelaasque meninasrecebem. crescem Balançando acreditando no príncipepernas longas encantado, como seum dançasse príncipe sentada, que não ela revela que que meninas crescem no existe por sempre haveráacreditando imperfeições. príncipe príncipe que não Tateandoencantado, o celular um e meio inquieta ela existe por que sempre haverá imperfeições. aindarelata: Tateando o celular e meio inquieta ela ainda - Não há mais formalidades! Está chegando ao ponto da menina pediro menino em relata: -namoro. Não há O mais formalidades! Está chegando menino pensa que só porque já ao menina estáponto ficandodanão precisapedir pediroa menino menina em namoro. O menino pensa que só porque já está não precisa pedirhoje a menina em Ao ficando que parece, namorar em dia namoro. admite mais liberdade. Lembra de todas as formalidades que nossos avós obedeciam Ao parece,Elesnamorar hoje emsobdiaa para que namorar? se encontravam admite mais liberdade. Lembra todasnão as supervisão dos pais; e de mododegeral formalidades nossos avós doobedeciam havia contatosque físicos e, antes primeiro para namorar? Eles se encontravam sob oa encontro, o rapaz deveria conversar com supervisão dos pais; e de modo geral não pai da moça sobre “suas reais intenções”. havia contatosum físicos e, beliscão antes dosignificava primeiro Antigamente, simples

encontro, o rapaz deveriaeconversar com o carinho entre um homem uma mulher. Masdaaímoça pai o tempo sobrepassou “suas ereais novas intenções”. concepções foram sendo adotadas. Fatores econômicos Antigamente, um simples beliscão significava e sociais,por exemplo, redefiniram a relação homem-entre carinho mulher. um homem Hoje admite-se e uma mulher. maior Mas aí o tempo passou e novas prova concepções liberdade nos relacionamentos, disso foram adotadas. Fatores econômicos são os sendo estágios pré e pós namoro: ficante,e sociais, exemplo, redefiniram a relação peguete,por namorado,namorido e outros. A homemHojeinclusive, admite-serenunciou maior Legislaçãomulher. de família, parte do seu liberdade nosformalismo relacionamentos, ao reconhecer prova disso que são estágioscasamentos pré e pós namoro: ficante, nemossempre são celebrados, peguete, namorado,namorido e outros. A mas a intenção de viver maritalmente existe. Legislação de família, inclusive, Desse entendimento surgiu a uniãorenunciou estável. parte do seu formalismo ao reconhecer Percebendo todas essas mudanças, que o nem sempre casamentos sãoBauman celebrados, maso sociólogo polonês Zigmunt criou aconceito intençãodedeamor viverlíquido. maritalmente existe. Para ele, o amor se define atualmente como algo instável, Desse entendimento surgiu união estável. efêmero. Isso por que os arelacionamentos Percebendo todas essas mudanças, estão sempre inseridos no contexto social, ouo sociólogo polonês Zigmunt Bauman criou seja, as dificuldades enfrentadas por um casalo conceito amor com líquido. Para ele,é aceito o amore guardam de relações aquilo que


As dificuldades enfrentadas por um casal guardam relações com aquilo que é aceito e vivenciado pela sociedade que pertence. se define atualmente como algo instável, efêmero. Isso por que os relacionamentos estão sempre inseridos no contexto social, ou seja, as dificuldades enfrentadas por um casal guardam relações com aquilo que é aceito e vivenciado pela sociedade que pertence. Para ele, a globalização e a modernidade tornam os indivíduos mais inseguros e temerosos.

Sobre a Côrte O certo é que na sociedade contemporânea, muito se têm optado por se relacionar de outra forma. São parâmetros que, num primeiro momento, podem causar estranhamento. Trata-se da côrte. Taciane Silva é adepta desse tipo de relação. Ela é estudante do curso de Ciências Biológicas, tem 20 anos, tem um gênio alegre e extrovertido. Conversamos durante a noite do feriado de 15 de novembro. Sua irmã fez a nossa apresentação. Estávamos ambas ansiosas. Nosso primeiro contato foi um pouco tímido, mas logo o bom humor de Taciane quebrou o gelo. Há algum tempo ela foi a um seminário na IBA (Igreja Batista do Angelim, em São LuísMA) e ficou sabendo das diferenças entre o namoro convencional e a côrte. Pesou os benefícios e as dificuldades e fez uma decisão. Há quatro meses faz côrte. Ela me esclareceu melhor sobre essa opção. - Qual a principal diferença entre um namoro convencional e a côrte? Aos risos, ela responde: - Uma das principais diferenças é que se você não tiver convicção de que é a pessoa certa, você sofre menos por não ter tido contato físico. Além disso, sem ele não há motivo para fingir algo. Às vezes um relacionamento só se mantém por causa dessas “vantagens”. Na corte, geralmente, demonstra-se o que é

e no casamento não há surpresas!! Surpresa com essa declaração, pergunto como funciona a côrte. - É como se fosse uma amizade, só que você possui um compromisso com a pessoa, tem o objetivo de casamento. - E o que é permitido e proibido? Nesse momento, ela solta uma gargalhada. Ouço a voz de sua irmã. Ela também já namorou na côrte. Aliás, possui as duas experiências e afirma que a côrte é melhor, e mais eficiente quando o objetivo é conhecer o que a pessoa realmente é e não as performances que pode fazer. - Pode abraçar, andar de mãos dadas... É como se fosse um namoro, só que sem o contato físico! Ah, beijar não é permitido, revela calmamente. -E qual é a parte mais difícil de fazer côrte? - Hum, não ter contato físico e aprender a conviver com a pessoa do jeito que ela é. Isso é difícil e às vezes você fica decepcionado pelo que a pessoa é. Pensando dessa forma, a côrte pode ser uma boa opção.Atualmente, boa parte das pessoas nem casam mais, primeiro moram juntas. Sabe aquela coisa meio “test drive” das concessionárias de automóveis? Estamos fazendo assim com as pessoas. Isso por que exigimos parceiros sem nenhum defeito. Quando casamos e descobrimos quem a pessoa realmente é,já pensamos em divórcio. A diferença do outro nos afeta de maneira quase insuportável. Fiz então minha última pergunta:

- Seria possível que todos os jovens fizessem côrte no Brasil? - É pouco provável, é difícil. A maior parte das pessoas quer aproveitar sua vida. Nos relacionamentos as pessoas quase não conversam. Lembra da Mageda? Quando mencionei essa forma de relacionamento, ela arregalou os olhos escuros e indagou: - Isso existe? No Brasil? E afundou o rosto nas mãos como quem não acreditava no que ouvia. Para Mageda era impossível pensar num sistema como a côrte. Para ela não dá para conhecer o outro sem ficar. Pensando nisso, fiz algumas contas: se você fica com uma pessoa diferente cada semana, no fim de um ano, dá um total de, aproximadamente, 53 pessoas! A perspectiva piora se levarmos em consideração a higiene de cada uma dessas 53 pessoas, bem como de seus “ficas” anteriores.Lembrei-me de algo que ouvi: “quando você fica com alguém, fica também com todas as pessoas com as quais ela já ficou antes de você”. A côrte representa um novo paradigma de relacionamento, mas há a possibilidade de redefinir o modelo atual. Devemos lembrar que afeto de verdade vai além de beijos e toques. Revela-se em atitudes, em cuidar do outro para além da satisfação de nossas vontades. Afinal de contas, amor de verdade é tratar o outro como a si próprio, percebendo seus defeitos e reconhecendo suas virtudes.

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VIVENDO

ameno embaixo dos coqueiros que brotavam da areia branca da praia de São Marcos. Mas o que vi neste dia era um cenário diferente do que encontrei duas semanas antes. Lá havia um verdadeiro acampamento hippie em plena área nobre de São Luís. Acampamento mesmo com direito a barracas, redes e até uma cozinha e com panelas e tudo.

A FILOSOFIA

HIPPIE Em uma ensolarada tarde do dia 2 de novembro, conhecido pelas típicas visitas aos entes queridos em seus túmulos, o dia de finados parecia fora do comum. As pessoas queimando seus corpos debaixo do sol escaldante não pareciam pensar nos que descansavam em paz.

Falando em descansar, isso era o que fazia Neilton quando cheguei para entrevistá-lo,

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Tempo do Moreno

Por Eurico Oliveira

como combinado no dia anterior. Ele dormia em uma rede amarrada a dois coqueiros que se juntava a tantos outros formando uma espécie de abrigo natural. Ao som do chiado das folhas se digladiando na ventania e da bola sendo violentamente chutada logo ali na praia, o meu anfitrião era preguiça em pessoa. Confesso que senti uma ponta de inveja. Eram duas horas da tarde e o clima estava

Conversei com um rapaz de uns 28 anos, descontando as rugas causadas pela exposição diária ao sol. Moreno, como era conhecido, tinha uma companheira que morava também no acampamento e um filho. Isso mesmo, morava um menino de 2 anos entre aquelas barracas e redes. O pequeno balançava seus cachinhos queimados de tanto sol correndo de lá pra cá. Moreno era baiano e, enquanto eu tocava alguns acordes em seu violão cansado de tantas viagens, sua companheira chama o pequeno hippie: - Vem pra cá, Baiano. Fico curioso e pergunto: - Ele é baiano também? – Não! É do Alagoas. Baiano é o nome dele. Essa não é a sua primeira vez que Moreno


vem ao Maranhão, já esteve por essas bandas uma vez e gostou muito. Ele também passou por Barreirinhas, bem como por vários estados do nordeste. – Tô aproveitando esse tempo enquanto o meu menino não completa 5 anos, né? Vou precisar parar de viajar porque ele vai ter que ir pro colégio. Moreno era um sujeito tímido, mas olhava nos olhos. Contou que conseguiam levantar um dinheiro legal e que compravam comida no supermercado próximo dali, mas que faziam tudo lá. “Inclusive uns parceiros nossos saíram para comprar o café da manhã para o pessoal”. Sobre o começo do acampamento, ele ficou retraído no início, mas contou que as pessoas foram chegando e ficando por ali sem precisar pedir permissão para ninguém. Todos colaboram para comprar os mantimentos do grupo que ali está instalado. Termino a conversa quando chegam os companheiros de Moreno com o pão. Com Neilton, o teor da conversa foi diferente. Mas ele e Moreno tem uma simpatia e uma

receptividade que se mostra característica. Neilton não olhava nos olhos, escondidos entre seus longos e embaraçados dreads e fitavam uma armação de aço onde o artista entrelaçava fios vermelhos, amarelos e pretos de uma de suas obras-primas (bijuterias). “Não sou hippie, sou um artista de rua, mano” diz Neilton. Ele explica que não se considera hippie porque muitas pessoas ruins, que não seguem a filosofia hippie, tem usado isso e manchado a imagem das pessoas que realmente seguem a ideologia que surgiu no início da década de 60. Neilton confessa que não está nessa vida porque quis, mas que acabou se afeiçoando àquela filosofia de vida. Ele tem um sonho Deseja ter uma esposa e morar em um lugar certo. Neilton fez parte do acampamento. Tinha chegado ali há 3 meses. Contou que o acampamento sumiu porque as autoridades os mandaram sair, mas que já não se entendiam mais. “Pessoas ruins atraem coisas ruins. As coisas não estavam do mesmo jeito. Antes, eram como uma família mesmo”.

Os hippies de hoje não são tão diferentes daqueles dos anos 60 e 70. Só querem viver do seu trabalho e fazer do mundo uma palco para a sua filosofia e sua arte.

Naquele dia, não acordei Neilton. Deixei-o dormir. No dia seguinte, sua rede e seu quadro de bijuterias não estavam mais lá. Conversei com o último, e talvez com o primeiro dos integrantes daquele fenômeno que desafiou a sociedade, mas que segue seu rumo natural. Os hippies de hoje não são tão diferentes daqueles dos anos 60 e 70. Só querem viver do seu trabalho e fazer do mundo uma palco para a sua filosofia e sua arte. Paz e amor para todos nós!

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SEMENTE DIGITAL O Projeto Semente Digital objetiva conscientizar jovens e adolescentes sobre a importância de preservar o patrimônio histórico matérial de São Luís, criando a possibilidade de participar de ambientes virtuais interativos através da tecnologia. As experiências proporcionadas pelo projeto levam o público, mesmo não estando no local, a visitar becos e casarões da Praia Grande. A realização é do Laboratório de Convergência de Mídias da Universidade Federal do Maranhão, coordenado pelo professor Márcio Carneiro do Departamento de Comunicação Social.

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Praia Grande eu abraço, eu valorizo Um ato político-cultural para preservação do espaço público, o abraço à Praia Grande promovido pelo Movimento Nossa São Luis e o Programa Voluntariar uniram pela primeira vez empresas, artistas e a sociedade civil no dia 3 de dezembro de 2011, na Praça Nauro Machado. Foi um momento de descontração e exercício da cidadania que reuniu pessoas de diferentes idades, etnias, credos, movimentos sociais, culturais e artísticos em torno de um objetivo comum: a preservação do patrimônio artístico e cultural. A Praia Grande é o coração da Ilha. Neste espaço, existe o conjunto arquitetônico colonial mais valioso da América Latina, responsável pela conquista do título de Patrimônio da Humanidade, concedido a São Luís pela Unesco em 1997. Há mais de 20 anos recuperada pelo Projeto Reviver, é um local destinado ao lazer, ao entretenimento e às artes, que pode e deve ser desfrutado com segurança e paz por todos os que vivem nesta cidade.

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Caes da Praia Grande- São Luís MA


REALIZAÇÃO

DESIGN POR:

TUDØS

REVISTA CANAL.COM #06 2011.2  

Sexta ediçao da revista universitária "canal.com" (UFMA)

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