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BRASÍLIA, SETEMBRO 2018

Campus

NÚMERO 445, ANO 48

Quem merece ficar? Saiba como foi a atuação dos três parlamentares que tentam a reeleição na Câmara dos Deputados pelo DF

QUEM VOTA EM NANICO

SUICÍDIOS PREOCUPAM UNIVERSIDADES

EJs EM TODO O PAÍS


CAMPUS, SETEMBRO 2018

CARTA AO LEITOR

A

eleição mais conturbada dos últimos anos se aproxima. A impugnação da candidatura de Lula deixou o resultado da disputa difícil de ser previsto, e o atentado contra Jair Bolsonaro mexeu ainda mais com o rumo das eleições. Do outro lado, candidatos nanicos, aqueles com pouca expressividade nas pesquisas eleitorais, cativam sua parcela de eleitores independentemente dos números. O Campus foi tentar descobrir o que motiva essas pessoas a apostarem suas fichas mesmo com chances mínimas de vitória. No Distrito Federal, apenas três dos oito deputados federais pleiteiam a reeleição. Augusto Carvalho, Erika Kokay e Laerte Bessa, juntos, aprovaram somente três projetos de lei nos últimos quatro anos em que representaram o povo na Câmara.

EXPEDIENTE

Para o leitor do Campus que procura subsídios para escolher um candidato, separamos o histórico de cada um desses parlamentares. Contamos quais foram as principais ações de cada um, como votaram nos episódios mais relevantes da política dos últimos anos e qual a assiduidade dos candidatos à reeleição. No fim, a decisão é sua: eles merecem ficar? Nesta edição, o Campus também foi conhecer as principais medidas que estão sendo implantadas nas universidades brasileiras para se debater saúde mental e tentar evitar o suicídio de jovens estudantes. Os relatos recentes do sofrimento de estudantes nessa fase da vida, causado por pressão social, ansiedade e incertezas quanto ao futuro, alertam para um problema generalizado.

OMBUDSKVINNA*

A

PROFESSORES Sérgio de Sá Solano Nascimento EDIÇÃO Caroline Zampiron Cristina Kos Filliphi da Costa REPORTAGEM Iara Santos Mariana Santos Natasha Nascimento Robson G. Rodrigues Victor Farias DIAGRAMAÇÃO Filliphi da Costa ILUSTRAÇÃO Ana Clara Rabello

*A “provedora de justiça”, profissional que discute a produção dos jornalistas pela perspectiva do leitor.

última edição do Campus trouxe um diferencial em relação a anteriores. Foram todas centradas em um único tema: a inclusão. Se por um lado o jornal abre mão de tratar de outros temas importantes para a sociedade, por outro conseguiu dar visibilidade a organizações que são pouco conhecidas e que, apesar das dificuldades, são um exemplo de cidadania. Além disso, procurou-se por instituições fora do centro do Distrito Federal, o que torna essa edição mais inclusiva ainda, considerando que muitas vezes as cidades-satélites, que não estão na região do Plano Piloto, são mostradas pela imprensa de forma negativa. É bom saber que nessas regiões existem lugares que procuram melhorar a realidade e o bem-estar de seus habitantes. Ficou clara a melhora na apuração em todas as reportagens em comparação à edição anterior. Tanto a matéria Um tambor, dois acordes e um sonho de criança, como a Fazer tapetes, andar e escrever apresentam um relato completo, com diversidade de fontes e bons personagens. A reportagem Um crime, um tratamento e um azulejo fala sobre o Instituto de Saúde Mental e seu papel de ressocialização de condenados com transtornos psiquiátricos. Embora a matéria tenha um bom texto, boas fontes e personagens, sua diagramação deixou a desejar, apresentando erros em

CAMPUS Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB)

IMPRESSÃO Gráfica Coronário

algumas palavras, e o alinhamento entre o título, foto e texto praticamente não existe, parecendo que cada pedaço foi jogado aleatoriamente no papel. A matéria Cascalho, telhas e idosos, embora tenha mostrado a preocupação dos idosos com a reforma do Centro de Convivência do Guará, poderia ter explorado um pouco mais as histórias das pessoas que frequentam aquele lugar para exemplificar melhor como aquele espaço é importante para a comunidade. A última reportagem trata dos moradores que vivem em áreas de preservação ambiental. Embora fale dos aspectos jurídicos que envolvem as moradias, faltou o olhar de um especialista ou um estudo sobre o impacto ambiental que tais edificações podem trazer à flora e à fauna daquele lugar. Fazendo um balanço geral, a última edição do primeiro semestre de 2018 do Campus teve altos e baixos. As reportagens têm temas interessantes e com boas histórias, no entanto, houve um descuido com a revisão final do jornal em relação à diagramação. A parte visual do produto é importante porque ajuda na leitura e promove o interesse do leitor no material. É preciso ter cuidado com essa área.

TIRAGEM 3.000 CONTATO nascimento@unb.br

CAPA

ILUSTRAÇÃO Ana Clara Rabello

Por Isabella Veloso

MEMÓRIA Em 2011, o Campus apresentou os números alarmantes de suicídios entre idosos. Informações dos anos anteriores apontavam oito casos em cada grupo de 100 mil idosos brasileiros. A média em todas as faixas etárias é de 5,7 a cada 100 mil. Apesar de escassos, os dados mostravam uma realidade mundial. Nunca haviam sido registrados tantos suicídios de pessoas com mais de 60 anos. Além disso, a violência autodirigida nesses casos costuma ser definitiva. A decisão, segundo os especialistas, é estabelecida de forma racional, diferentemente de outras fases da vida, em que se pode agir impulsivamente, por fúria ou tristeza. Diante disso, a reportagem alertava para a necessidade de se pensar medidas que atinjam o problema em suas particularidades. Solidão, sentimento de impotência, doenças como a depressão, mais comum nessa população, quando tratadas devidamente, com atenção às especificidades da idade, podem evitar prejuízos físicos, mentais e sociais aos idosos.


CAMPUS, SETEMBRO 2018

REPORTAGEM | VICTOR FARIAS

Buscando a prevenção Na luta contra o suicídio, universidades mudam abordagem e tentam evitar casos em vez de controlar danos

“Neste ano, aconteceram alguns casos de suicídio em escolas [da educação básica] de Curitiba”, relata com pesar a psicóloga e professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Dione Maria Menz. “Suicídio não é nada de novo. O que chamou atenção foram dois casos seguidos na mesma escola”, conta. Cerca de 11 mil brasileiros cometem suicídio anualmente, segundo dados do Ministério da Saúde. Em Curitiba, de 2007 a 2016, a média de casos foi de 76 por ano, número percentualmente abaixo da média do Brasil – 4 casos para cada 100 mil habitantes contra 4,9 casos para cada 100 mil habitantes. No Paraná, entretanto, o número nesses dez anos foi maior que a média nacional – 5,7 casos para cada 100 mil habitantes. Para tentar melhorar esse quadro, neste mês Menz irá coordenar o primeiro curso semipresencial de prevenção de suicídio voltado para professores do Paraná. A capacitação é uma parceria da UFPR com a Secretaria da Educação do estado. Cerca de 200 profissionais da educação básica participarão do curso. Preparar professores também foi uma das formas que a Universidade Federal de Goiás (UFG) encontrou para investir em mecanismos de prevenção. Na UFG, o principal projeto relacionado a suicídio é o Saudavelmente, que atende cerca de 500 alunos na área da saúde mental, de forma terapêutica. Desse total, aproximadamente 30% têm ideação suicida, isto é, qualquer pensamento ancorado no desejo de pôr fim ao intenso sofrimento psíquico que um sujeito esteja vivenciando. Nos últimos três anos, o crescimento do número e o aumento da gravidade dos casos chamaram a atenção da iniciativa, e o projeto resolveu mudar a abordagem. De acordo com a psicóloga e coordenadora do Saudavelmente, Viviane Ferro, o programa agora prioriza a prevenção. Para isso, promove rodas de conversa sobre suicídio e mapeamento de casos. Outra iniciativa que atua dessa forma é o projeto de extensão Luto e Prevenção do Suicídio, da UFPR. Também coordenado pela professora Menz, a extensão universitária promove seminários dentro e fora da instituição, com enfoque em estudantes e profissionais da saúde e da educação. A coordenadora do projeto acredita que a capacitação de educadores é “estratégica”, devido ao tempo que os professores passam com as crianças e aos benefícios a longo prazo que a abordagem durante o ensino fundamental pode provocar. “Nossa hipótese é que isso possa ser impactante no futuro deles”, explica. Mesmo com o esforço de iniciativas como o Saudavelmente e o Luto e Prevenção, a cada ano aproximadamente 1,7 mil jovens de 15 a 24 anos cometem suicídio no Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, no caso das mulheres, o suicídio é a oitava maior causa de morte nessa faixa etária. Já no caso dos homens, a terceira. Em 2004, ano em que 106 jovens cometeram suicídio no Ceará, um dos primeiros programas

Campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília: na capital do país, aproximadamente 25 jovens cometem suicídio por ano, segundo dados do SUS

de prevenção ao suicídio universitário do Brasil foi criado: o Programa de Apoio à Vida (Pravida), projeto de extensão da Universidade Federal do Ceará (UFC). A psicóloga Sara Lavor, ex-participante do projeto, acredita que o Pravida provoca mudança de pensamento na abordagem do suicídio. Segundo ela, existe uma cultura no Brasil de trabalhar com o problema de forma terapêutica, após o surgimento da necessidade de tratamento. O programa da UFC inverte esse raciocínio ao focar na prevenção. Na Universidade de Brasília (UnB), essa mudança de raciocínio começou em 2017, com a criação de uma comissão interna responsável por propor políticas de atenção à saúde mental e ao sofrimento psicossocial dos estudantes. Neste ano, o suicídio de uma aluna no principal campus da instituição acelerou o processo. Foram promovidas palestras sobre o tema, realizadas tanto pela instituição quanto por alunos e pelo Diretório Central dos Estudantes. Também foi criada uma disciplina, chamada de Felicidade, com o intuito de apresentar estratégias para auxiliar os estudantes a lidar com adversidades do dia a dia. C

ALUNOS ESTÃO PREOCUPADOS

Segundo a UnB, todos os esforços para identificar e integrar à rede de acolhimento as pessoas em situação de adoecimento estão sendo feitos. “A criação do grupo de intervenção em crise permitiu a identificação e imediato acolhimento de 14 casos de pessoas em risco, para o devido encaminhamento seja à rede interna ou à rede pública de saúde”, destaca a Universidade em nota. A instituição elabora outros mecanismos de prevenção, como o Núcleo de Estudos, Pesquisas e Atendimentos em Saúde Mental e Drogas e a Política da Vida Estudantil Integrada. A preocupação de alunos da UnB, no entanto, é que as iniciativas não sejam o suficiente. Thaís Lima, graduanda de Artes Cênicas, perdeu um amigo, estudante da Universidade, em 2017. Ela acredita que as universidades precisam dar suporte aos estudantes, mesmo que parte dos problemas não sejam ligados à instituição. Matriculada na disciplina Tópicos Especiais em Engenharia de Software – Felicidade, a estudante de Engenharia de Energia Talyta Viana entrou na matéria com receios. “Fiquei pensando: será que isso não é tapar o sol com a peneira?”, lembra. Mas sua experiência com Felicidade tem sido boa. “Eu, pessoalmente, sempre saio da matéria com uma reflexão positiva”, garante. Viana acredita que a disciplina não basta para resolver os problemas da Universidade. “Existem professores que banalizam problemas psicológicos dos alunos e não entendem o quão grave isso é”, explica.


CAMPUS, SETEMBRO 2018

REPORTAGEM | MARIANA SANTOS

Quem merece permanecer? Três deputados federais pedem o seu voto novamente. Saiba o que fizeram e como votaram nos últimos quatro anos

A

ugusto Carvalho (SD), Erika Kokay (PT) e Laerte Bessa (PR), os únicos deputados federais do Distrito Federal que concorrem à reeleição, aprovaram apenas três projetos de Lei nos últimos quatro anos. Dos três projetos aprovados, dois são de autoria de Erika Kokay e o outro, de Augusto Carvalho. O deputado e delegado Laerte Bessa não aprovou nenhum Projeto de Lei entre 2015 e 2018. Em 2015, Erika aprovou, junto com Paulo Teixeira (PT/SP) e Jean Wyllys (PSOL/RJ), um projeto de lei que prevê realizar anualmente o “Dezembro Vermelho”, mês dedicado à realização de atividades relacionadas ao enfrentamento da Aids e à prevenção do vírus HIV. Erika também aprovou um Projeto de Lei que alterou a redação do art. 22 da Lei nº 8.935, dando maiores responsabilidades a notários e registradores nos cartórios brasileiros. O único Projeto de Lei aprovado por Augusto Carvalho contou com a autoria de outros 16 deputados e instituiu que o dia 19 de agosto seja o Dia Nacional do Ciclista. Além da elaboração e aprovação de projetos de lei, um bom deputado também exerce outras funções na Câmara, como a relatoria de projetos e a presença em debates e votações, por exemplo. Para os deputados do Distrito Federal, a boa assiduidade nas sessões, seja nas Comissões Permanentes de debates ou no Plenário, pode ser justificada por já residirem na mesma cidade em que trabalham. Entre os deputados que se elegeram em 2014 e não têm planos de continuar na Câmara dos Deputados, há os candidatos ao governo do Distrito Federal Alberto Fraga (DEM) e Rogério Rosso (PSD). Izalci Lucas (PSDB) é candidato ao Senado Federal. Além deles, estão fora das eleições de 2018 o pastor Ronaldo Fonseca (Pode), atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, e Rôney Nemer (PP), que sofre ação de improbidade administrativa e está inelegível. C

Augusto Carvalho, SD (Foto: Luis Macedo - Câmara dos

TRÊS PERGUNTAS PARA O EX-SECRETÁRIO-GERAL DA MESA DA CÂMARA MOZART VIANNA Além da apresentação de projetos de lei, quais são as outras principais funções de um parlamentar? A atuação do parlamentar não se circunscreve apenas à apresentação de projetos. O parlamentar pode ser relator de projetos e apresentar propostas de forma indireta via substitutivo, que é um projeto aperfeiçoado. Outra forma de atuação do parlamentar é a participação nas comissões e no plenário, momento em que ele pode participar dos debates, ainda

MANDATO EM DADOS

Augusto Carvalho (SD) sociólogo

Erika Kokay (PT) bancária, vice-líder do PT na Câmara

Laerte Bessa (PR) delegado de polícia

Propostas apresentadas (Proposta de Emenda Constitucional e Projetos de Lei)

Propostas relatadas

Propostas apresentadas (Proposta de Emenda Constitucional e Projetos de Lei)

114

13

1

61

63

2

R$ 4

40

11

-

R$ 2,13

B decla

R$ 1,0


Fotos: Câmara dos Deputados

CAMPUS, SETEMBRO 2018

s Deputados)

Erika Kokay, PT (Foto: Ananda Borges - Câmara dos Deputados)

mais se é uma matéria que diz respeito ao conhecimento dele e tendo como referencial o seu eleitorado e o segmento social que ele representa. Por exemplo, um parlamentar que é presidente de um sindicato, em uma discussão de um projeto que diz respeito às leis trabalhistas, provavelmente vai participar e debater a matéria com energia. Foram apresentados mais de 200 projetos e PECs pelos três deputados federais do DF que concorrem à reeleição, mas apenas três foram aprovados. Qual a maior dificuldade para a aprovação de projetos? Aprovar um projeto consiste em atingir uma maioria de votos, ou seja, consenso. O parlamentar precisa convencer uma comissão e convencer o

Bens arados

Presença em sessões plenárias e comissões

Propostas apresentadas 05 milhão 90,5% ostas (Proposta de Emenda adas Constitucional e Projetos de Lei)

Laerte Bessa, PR (Foto: Alex Ferreira - Câmara dos Deputados)

plenário para conseguir aprovar um projeto. Além de apresentada, a proposição deve ser debatida, discutida, relatada, votada e aprovada e, muitas vezes, é apresentada e não consegue aprovação. Há mais de 25 mil projetos que estão tramitando, paralisados, desde a década de 1980. Para se ter uma ideia, mais de 300 projetos estão em urgência urgentíssima, alguns projetos com votação paralisada há anos. Isso tudo para ver a dificuldade que é transformar uma proposição em lei. De que maneira o mandato dos últimos quatro anos influenciou na atuação dos parlamentares? A aprovação de projetos tem muito a ver com o momento que está vivendo o país, por exemplo. A pauta do Congresso, o conteúdo do que é ou

não falado, é muito carregada de matérias vindas do Executivo, como medidas provisórias, PECs e a aprovação de orçamento da União. O governo, sob os cuidados da presidenta Dilma, tinha uma direção e agora tem outra sob o comando do presidente Michel Temer. Ou seja, às vezes uma matéria que em um governo pode andar, em outro pode não andar. Também deve se levar em conta a vontade do plenário, a posição dos partidos políticos e a posição do governo. É importante lembrar que o governo atua, através de seus ministros e junto ao Congresso, para aprovar ou não aprovar matérias de seu interesse. Então, tudo tem a ver com o momento político, o momento que vive a sociedade e o posicionamento do Congresso, se ele é mais progressista ou conservador.

PEC do Teto de Gastos (25/10/2016)

Aberturas de processos contra Temer (02/08/2017 e 25/10/2017)

Reforma Trabalhista (26/04/2018)

declarados

Presença A favor em sessões plenárias e comissões

Impeachment A favor de Dilma (23/04/2016)

PEC do Contra Teto de Gastos (25/10/2016)

Impeachment de Dilma (23/04/2016)

A favor Bens

Aberturas de processos contra Temer (02/08/2017 e 25/10/2017)

417 mil 3

98,3% 1

Contra R$ 1,05 milhão

Contra 90,5%

A favor A favor

Contra A favor

A favor

3 milhões

77,2% 2

A R$ favor 417 mil

A98,3% favor

Contra A favor

AContra favor

A favor


CAMPUS, SETEMBRO 2018

REPORTAGEM | NATASHA NASCIMENTO

Um voto por convicção Eleitores de candidatos a presidente sem chances de vitória explicam as razões de suas escolhas

T

odos os anos de eleição presidencial existem aqueles candidatos a presidente nos quais poucos votam. Geralmente são candidatos de partidos pequenos ou novos, que sabem que não vão ganhar. O objetivo deles é dar visibilidade a suas siglas e ideias. Até o fechamento desta edição do Campus, seis dos candidatos à Presidência da República estavam com 2% ou menos das intenções de voto em pesquisas eleitorais. São eles: Cabo Daciolo, do Patriota; Guilherme Boulos, do PSOL; Henrique Meirelles, do MDB; João Goulart Filho, do PPL; José Maria Eymael, do DC e Vera Lúcia, do PSTU. Muita gente se pergunta por que votar em candidatos considerados “nanicos” se eles não têm chance de ganhar. Há pessoas que não se importam com isso. Eleitores desses candidatos acreditam que eles têm propostas diferentes dos outros. Para eles, o mais importante é seguir suas convicções e votar em quem tem as melhores propostas. O Campus entrevistou alguns desses eleitores para entendê-los melhor. A maior parte dos entrevistados dizem que não querem votar em um candidato só por ele ser o “menos pior”. Eles preferem votar no candidato de sua preferência. Não se importam com voto útil, que seria o voto em candidatos com chances de ganhar. Até mesmo porque acreditam que haverá segundo turno nestas eleições. Por isso, primeiro eles preferem votar de acordo com as propostas com as quais mais se identificam. O professor de inglês Francisco Romano, eleitor de Vera Lúcia, reforça: “Voto útil é o voto em um candidato que realmente me represente”. O contador Wagner Souza, eleitor de Henrique Meirelles, diz que neste primeiro momento vai votar em quem melhor atende suas expectativas. A maior parte dos entrevistados julga que seus candidatos são prejudicados com a ausência nos debates na televisão e também com o pouco tempo no horário político. O mestrando em Psicologia Escolar e Desenvolvimento Humano Matheus Asmassallan, eleitor de Boulos, acredita que as grandes alianças e interesses econômicos dominam a política dos grandes partidos e os eleitores não são representados. Rodrigo Manzano, professor de filosofia e também eleitor do candidato do PSOL, comenta que o seu candidato tem um programa complexo e que precisa de tempo para ser apresentado. A microempresária Luciane Fernandes reclama que seu candidato, João Goulart Filho, não é convidado para participar de debates na TV: “Impedem o eleitor de conhecer um homem patriota, com capacidade de ser o novo estadista das Américas”. Luciano Pita, eleitor de Vera Lúcia, diz que o PSTU é boicotado nos debates e no tempo da

TV. Ele afirma que o fato de sua candidata ter apenas alguns segundos na televisão o incomoda, mas não o paralisa. “Nossa tarefa vai para além das eleições.” Já o estudante de Direito Lucas de Almeida, que vai votar em Eymael, não se importa que seu candidato tenha pouco tempo no ar. Para ele, hoje em dia a internet consegue substituir a televisão com eficiência. Alguns dos eleitores têm consciência de que muitas pessoas acham as propostas do seu candidato estranhas ou inviáveis. Porém, para eles essas são as propostas que vão fazer um país melhor. O vigilante Amós Schmidt, eleitor do Cabo Daciolo, se indigna com as pessoas que se deixam influenciar pelas opiniões dos outros ou pelo que a imprensa diz. O jogador de futebol Daniel Rocha vota em Boulos por acreditar que ele tem as melhores propostas para inclusão social, mas admite que seus amigos, eleitores do ex-presidente Lula ou de Jair Bolsonaro, acham estranha sua escolha para presidente. “O ruim de votar no Boulos é que todo mundo te chama de doido”, afirma. Alguns eleitores votam seguindo suas inclinações políticas, mais de direita ou mais de esquerda. Outros, como Wagner Souza, dizem não levar isso em consideração. “É difícil definir quais candidatos adotam perfis de direita ou de esquerda e respeitam isso em suas propostas ou convicções”, explica. O músico David Matheus, que votará em Cabo Daciolo, afirma que não está preocupado com as posições de seu candidato, mas sim com as suas propostas. Parte dos eleitores enfatizam que votarão pelas posições revolucionárias de seus candidatos. Esse é o caso de quem vai votar em Vera Lúcia e Cabo Daciolo. Romano diz que votará em Vera Lúcia por ela defender um programa socialista revolucionário. Pita, também eleitor de Vera, diz que votará nela por suas “posições revolucionárias”. Schmidt acredita que as propostas de Daciolo são “revolucionárias”. Todos os entrevistados, até os eleitores de candidatos que falam abertamente sobre suas convicções religiosas, afirmam que religião não deve interferir na política. Schmidt diz que compartilha da mesma religião que seu candidato, porém que isso não interfere na sua escolha de voto. “Penso que quem vota em Daciolo por acreditar que ele é um profeta deveria avaliar melhor os seus conceitos.” Lucas de Almeida, eleitor de Eymael, diz que não se deveria escolher um candidato baseado em sua religião: “O Brasil é um país laico, o que importa são as propostas para economia, segurança, educação e saúde”. C


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REPORTAGEM | IARA SANTOS

Profissionalização incentivada no Norte do país Com a institucionalização de empresas juniores em mais dois estados, o Brasil completa o mapa com todas as cinco regiões federadas e se consolida como líder na iniciativa

O

Movimento Empresa Júnior (MEJ) surgiu no Brasil em 1988, com a fundação da Empresa Júnior Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Trinta anos depois, o movimento está em todo o país. Durante o Encontro Nacional de Empresas Juniores (Enej), realizado em Ouro Preto (MG) de 29 de agosto a 2 de setembro, foram oficializadas as duas federações que faltavam para completar os 27 estados do Brasil. Ambas estão localizadas na região Norte: a Roraima Jr e a Federação de Empresas Juniores do Amapá (Fejeap), a primeira com cinco EJs federadas e a segunda com três. No Amapá, a primeira empresa júnior surgiu em 2003, em uma faculdade particular. Após um ano, porém, foi fechada. Em 2004, também em uma instituição privada, surgiu a Famap Consultoria Empresarial, que também só durou um ano. Dez anos depois, em 2014, na Universidade do Estado do Amapá (UEAP) foi fundada a Integra Jr, EJ multidisciplinar, que está ativa até hoje. Naquele ano, o empreendedorismo virou tema no estado. “A principal

dificuldade é realmente a cultura do estado, onde os jovens entram na faculdade simplesmente para obter o diploma e poder prestar concurso público’’, explica Ramon Rodrigues, diretor de Desenvolvimento da Fejeap e responsável pela reabertura da Empresa Júnior Famap em 2016. Em julho de 2017, o Amapá já tinha sua federação fundada, apenas aguardando ser oficializada pela Brasil Júnior, a Confederação Brasileira de Empresas Juniores. “Em 2018, realmente começamos a participar do MEJ, indo aos eventos nos conectando em nível nacional. No Enej fomos confederados perante cinco mil pessoas e outras 26 unidades confederativas”, diz Rodrigues. BUROCRACIA Já em Roraima, a primeira EJ surgiu efetivamente em 2018. Logo em seguida, foi fundada a federação do estado, a Roraima Jr. Ana Luiza Lacerda, diretora de Marketing da Admirar Consultoria e Assessoria, EJ de Administração e Ciências Contábeis, comenta

sobre a burocracia do processo para regulamentação da primeira empresa: “São muitas as dificuldades, sendo bem sincera. Em Roraima, não havia empresas juniores antes. Tinha uma, mas não estava regulamentada”. Ana Luiza compõe a diretoria da EJ com mais quatro pessoas. Juntas, estão consolidando a Admirar no mercado júnior. “Foi muito complicado regulamentar a nossa empresa. Aqui na Universidade as pessoas não entendem o conceito de empresa júnior.” Além desse fator, Ana Luiza ressalta que é desgastante lidar com esse modelo de negócios, não muito difundido e sempre a requerer maiores explicações entre alunos e até professores. “É bem complicado, bem chatinho, mas eu acredito que logo tudo se ajeita, tudo se explica, e a Admirar estará no topo.” A próxima meta da Brasil Júnior é terminar o ano de 2018 com 800 EJs federadas por todo o Brasil, com a inclusão de 130 EJs. O objetivo da confederação é aumentar o poder da rede, possibilitando mais experiências, conhecimentos a serem compartilhados, mais suporte e oportunidades. C

SAIBA MAIS SOBRE EJS

Atualmente o Brasil tem em torno de 670 empresas juniores (EJs), ultrapassando a França, país onde o movimento surgiu. Vale destacar a Federação de Empresas Juniores do Estado de Minas Gerais (Fejemg), que tem o maior número de EJs do mundo: 65 empresas federadas. A EJ pioneira foi criada pelo curso de Administração da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Com o intuito de fortalecer e auxiliar o MEJ, nasceu a primeira organização de EJs: A Federação das Empresas Juniores do Estado de São Paulo (Fejesp), fundada em 5 de junho de 1990.

Diretoria da Fejeap: a assessora de Negócios, Tamiris Nunes, o diretor de Desenvolvimento, Ramon Rodrigues, a diretora-presidente, Beatriz Cardoso e o presidente do Conselho, José Romão


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REPORTAGEM | ROBSON G. RODRIGUES

Música negra perdida Documentário em fase de produção levanta história esquecida do espetáculo Brasiliana e do maestro José Prates.

P

ouco se recorda da companhia de dança Brasiliana, apesar da colossal estrutura que viajou por cerca de 90 países entre 1950 e 1980. Eram mais de 150 bailarinos guiados pela banda que ecoava ritmos afrobrasileiros. Tinha à frente o maestro pernambucano José Prates, multi-instrumentista autodidata responsável pelas composições dos espetáculos. Onze músicas dos shows foram desmembradas para integrar o disco Tam… Tam… Tam…!, que completa 60 anos em 2018, mesma idade da celebrada bossa nova. “A única razão para isso não ter sido contado devidamente é preconceito, porque a cultura negra é julgada como menor”, considera Itamar Dantas, jornalista que resgata a memória da companhia no documentário Brasiliana – A história do Musical Afro, previsto para ser lançado no fim de 2019. Além do filme, em fase de captação de recursos, uma exposição está sendo planejada em São Paulo. Apesar da grandiosidade do espetáculo, destaca-se a similaridade entre a terceira faixa disco, “Nanã imborô”, e “Mas que nada”, de Jorge Ben Jor, ouvida pela primeira vez no disco Tudo azul, de Zé Maria e seu Órgão, em 1962, e exportada por Sérgio Mendes. É uma das músicas nacionais mais reconhecidas Brasil afora. Compartilha com a de José Prates a introdução identificada por Ed Motta numa visita à Tropicália Disco, no Rio de Janeiro. O jazzista repercutiu a história e fez do disco um item cobiçado entre colecionadores. Com o álbum, emergiu a companhia Brasiliana. “Conheci o Brasiliana graças à semelhança com “Mas que nada”. Depois, me dei conta do tamanho da história escondida ali. Tem uma riqueza imensurável, foi um grupo muito grande”, comenta o documentarista. Para ele, a curiosa similaridade ofusca o legado do espetáculo, que “divulgou a cultura afrobrasileira no mundo”. Prates chegou a ser presenciado por ilustres como Elizabeth Taylor, Marcello Mastroianni, Marlon Brando e pelos Beatles. Não fora, contudo, prestigiado no Brasil. Fizeram poucos espetáculos em São Paulo e no Rio de Janeiro. “Sinto que havia um complexo de inferioridade em relação à cultura negra no Brasil. As pessoas rejeitavam isso, enquanto ouviam a jovem guarda, com

O álbum Tam... Tam... Tam...! de 1958

músicos bem vistos. A geração se voltava muito para os Beatles”, queixa-se Nelson Lima, filho do maestro. Ele dedicou uma monografia em Ciências Sociais à memória do pai. Lançou, anos depois, em 2005, o livro Dando conta do recado – A dança afro no Rio de Janeiro e as suas influências, na tentativa de resgatar o que acredita ser um grande símbolo da cultura negra do Brasil no mundo. Nelson conta que Prates chegou a entrar com processo judicial contra Jorge Ben Jor sob acusação de plágio nos anos 1970. Perdeu. “Meu pai ficava mais fora do que no Brasil, enquanto Jorge Ben vivia aqui e já fazia enorme sucesso”. Ben Jor, cujo disco de estreia Samba esquema novo abre com a icônica “Mas que nada”, nunca se pronunciou sobre a suposta inspiração em “Nanã imborô”. Outra faixa de Tam… Tam… Tam…! com algum destaque é “Maracatu elegante”, que foi gravada por Inezita Barroso em três discos lançados ao longo da carreira. A obra foi utilizada como sample do DJ francês Gilles Peterson em suas discotecagens. Em entrevista

à revista Rock Brigade, o músico norueguês Fenriz, da banda de heavy metal Darkthrone, citou o LP de Prates como um de seus favoritos. De resto, a música do pernambucano segue pouco lembrada. Perguntados sobre o disco, cinco jornalistas e especialistas culturais disseram desconhecê-lo. Para o fundador do Bloco Cortejo Afro, Alberto Pita, existe uma “cultura de negação” da negritude, do candomblé, desde a escravidão e que se estende para a música. “Imagina quantos talentosos negros esquecidos como esse que você me descreveu existem por aí?”, indaga Pita. O grupo Brasiliana foi dissolvido no início dos anos 1980 em função de reivindicação do nome por direitos autorais. Falecido em 2004, José Prates passou as últimas décadas de vida na Austrália oferecendo aulas de dança. O registo mais recente que se tem dele foi feito nas Olimpíadas de Sidney, em 2002. Ele foi convidado para participar de eventos oficiais pela embaixada brasileira e regeu uma big band. C Reprodução Brasiliana – A história do Musical Afro

Entre os anos de 1950 e 1960, José Prates circulou o mundo como maestro do espetáculo Brasiliana.

Campus nº 445, ano 48  

A eleição mais conturbada dos últimos anos se aproxima. A impugnação da candidatura de Lula deixou o resultado da disputa difícil de ser pre...

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