Page 8

8

Brasília, 5 a 11 de novembro de 2013

CAMPUS

LEGADO

GUARDIÃO DA DOUTRINA A vida de Takeshi Miura revela a trajetória do judô em Brasília. Apesar das mudanças no esporte, ele ensina a técnica tradicional

Pedro Silva

A

pedido da esposa, o sensei Takeshi Miura, 70 anos, se aventura entre os galhos de um jambeiro para apanhar uma porção do fruto amarelo. As mãos calejadas, que após a colheita amarram a faixa ao kimono, carregam parte da história do judô no Distrito Federal. Sobre o tatame, o responsável pelo primeiro ouro internacional de Brasília dá início ao primeiro dos três treinos daquele dia. Do menino de 12 anos que conheceu o judô nos idos de 1954, em São Paulo, o nono dan conserva a disposição e os cabelos negros. Não é tinta. “É a água lá da chácara”, costuma dizer. Dos poucos protagonistas ainda vivos da primeira geração de judocas de Brasília, apenas ele mantém o hábito de treinar e dar aulas todos os dias. Exceto aos sábados e domingos. “Nos fins de semana, nem o presidente da federação me acha”, brinca. A partir de 1964, quando a arte se tornou esporte olímpico, a prática passou a visar a eficácia do combate. Miura soube, contudo, preservar o judô puro. “Ele retomou o treinamento tradicional para provar que mesmo o judô primitivo funciona”, explica o jornalista e judoca Marcelo Gonçalves. Segundo Gonçalves, o judô era considerado tesouro nacional japonês, e na Segunda Guerra Mundial, muitos mestres mataram oficiais americanos. “Para não sofrerem por crimes de guerra, foram levados a outros países para divulgar aquilo que era

Pedro Silva

Na academia de Miura (branco), na 912 Sul, ele prepara mais que competidores. “Formar artistas dá trabalho. Adquirir técnica leva tempo, exige refinamento”, conta

uma arte rara”, revela. Pioneiro do judô em Brasília, o piloto kamikaze japonês Michio Ninomiya sofreu, na guerra, um problema de saúde que o impediu de voar para uma missão suicida.

Ninomiya deixou o Japão e passou a divulgar o judô no estrangeiro, e após três anos no Brasil, veio para a capital, em 1959. Quando a Federação Metropolitana de Judô (Femeju) foi

"O bronze é uma vitória. Mas, como meta, temos que trabalhar sempre com o ouro. O resultado que vier será bem-vindo depois do combate. Antes, nunca" Takeshi Miura

criada, em 1963, promessas da arte foram convidadas para competir por Brasília, carente de grandes esportistas. Entre os que responderam o chamado estava o jovem Miura, então com 21 anos. No ano de 1964, o recém-chegado se hospedou durante três meses na casa de Ninomiya. O plano de divulgar a cidade por meio do esporte trouxe resultado. Em 1967, o peso leve Miura alcançou a final dos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá. Após quatro confrontos, ele venceu o quinto adversário, um norte-americano que o havia derrotado dois anos antes, e trouxe para Brasília o primeiro ouro da cidade em competições internacionais. Aos 27 anos, o medalhista sofreu um acidente de carro e parou de competir. “Mudei o comportamento. Fiquei mais voltado para o lado filosófico do judô”, conta. Passou, então, a se concentrar na atividade de professor. As conquistas no tatame vieram através de alunos. “O importante é participar. E vencer. O bronze é uma vitória. Mas, como meta, temos que trabalhar sempre com o ouro. O resultado que vier será bem-vindo depois do combate. Antes, nunca”, afirma. O sensei sempre manteve a qualidade técnica do judô tradicional. Em 1999, já sem as virtudes do corpo jovem, Miura participou de treino coletivo entre delegações durante um torneio na Itália. Integrantes da equipe do Cazaquistão ignoraram a idade do técnico brasileiro. “Tem que haver respeito. O pessoal

treinou não como se eu fosse um mestre, mas um colega. Eram três competidores. Coloquei eles para dormir”, lembra. Ao fim de cada aula, Miura se senta com os alunos no centro do tatame. Um judoca compartilha a superação da perda da mãe, falecida na semana anterior. Outro fala do pai, de 85 anos, que está com grave problema no coração e sem perspectivas de melhora, mas diz que entende que cada um tem sua hora. DÉCIMO DAN Após uma vida de conquista de medalhas e de manutenção da tradição, Miura agora almeja a maior honraria que um judoca pode receber: o 10° dan. O pedido está sendo enviado para a Femeju e, segundo o presidente da entidade, Luiz Gonzaga, será encaminhado à Confederação Brasileira de Judô (CBJ). A regra exige a idade mínima de 78 anos para se receber a honraria, mas uma comissão da CBJ vai avaliar se a graduação pode ser concedida a Miura por mérito à contribuição ao judô. Gonzaga reconhece a dificuldade em se receber o 10° dan, que é muito raro. A graduação máxima, quando concedida, é dada a judocas em idade bastante avançada, ou mesmo de maneira póstuma. Para Miura, o judoca contemplado não usufrui da faixa. “É uma conquista pessoal. Se um dia for agraciado, quero estar em plena capacidade física, motora e mental. As pessoas devem ser valorizadas em vida.”

Profile for Jornal Campus

Campus - nº 405, ano 43  

Edição 405, ano 43, de Campus, de 5-11 a 11-11 de 2013

Campus - nº 405, ano 43  

Edição 405, ano 43, de Campus, de 5-11 a 11-11 de 2013

Profile for campusunb
Advertisement