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COMPORTAMENTO

OS PEQUENOS ESCOLHEM Determinadas e independentes, crianças exercem grande poder de decisão nas compras da família

TRABALHO

EM BUSCA DO MENOR PREÇO Síndicos procuram formas de economizar e optam por serviços de autônomos

PROFISSÃO

FALTAM PROFESSORES Desmotivados por baixos salários e condições de trabalho, docentes abandonam escolas do DF

BRASÍLIA, 5 A 11 DE NOVEMBRO DE 2013

NÚMERO 405 ANO 43

CAMPUS Paulo Caproni

TURBULÊNCIA NA CARREIRA

Dificuldades no setor aéreo põem em risco mercado de trabalho dos profissionais de aviação


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Brasília, 5 a 11 de novembro de 2013

CAMPUS

Carta do Editor

Recorte

Tamara Miranda

Paulo Caproni

Na edição 405 do jornal Campus, as reportagens estão mais descontraídas. A equipe deste jornal precisou tomar várias decisões ao longo do processo e os acertos garantiram boas pautas. Nos últimos anos, o Brasil viveu uma estabilidade econômica e uma constante queda no número de desempregados. Na contramão dessa tendência, alguns setores começaram a sofrer com a falta de profissionais ou com o excesso deles. Duas boas matérias do nosso jornal mostram esses problemas. Em Crise no ar os repórteres abordam de uma forma interessante a crise que atinge as empresas aéreas. Os repórteres, com a habitual curiosidade dos jornalistas, começaram a questionar o que acontece com as vítimas dessa crise. A repórter Ingrid Borges traz o outro lado, aqueles que não foram expulsos do mercado, mas optaram por sair. Desistiram de ser professores e saíram de um mercado já carente de profissionais. Decidiram não mais exercer uma das profissões mais importantes de todas. Uma opção para essas pessoas é procurar aperfeiço-

amento profissional. O repórter Douglas Lemos mostra como o coaching, técnica inspirada em treinamentos de resistência, pode elevar o nível dos profissionais. Com a diminuição do número de desempregados, aumentou o consumo das famílias. As crianças se tornaram ávidas consumidoras e cada dia mais influenciam as compras da família, independente do valor dos bens comprados. Você poderá conferir mais detalhes na matéria Crianças consumidoras. O texto do repórter Adriano Belmiro traz a discussão sobre um fenômeno que têm atraído os síndicos, as vantagens de contratar uma empresa para fazer as obras de manutenção dos prédios da capital. A última página do jornal traz a história de um campeão. Miura é um grande nome do judô brasileiro e foi o primeiro campeão olímpico de Brasília. Com seu jeito tradicional de ensinar a prática é um dos dois nono dan do DF, segundo maior título do judô. Confira essa história fascinante escrita por Pedro Silva.

Memória A edição 194 de abril de 1995 do jornal Campus trouxe, na página 7, a reportagem Professores: “a designar”. O texto de Leandra Peres mostrou os problemas de falta de professores na Universidade de Brasília. Na época os problemas foram causados pelas mudanças na previdência social que acabavam com a aposentadoria especial para professores, o que causou uma corrida pela aposenta-

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doria. Outro fator que desmotivava os professores era o baixo salário, um professor com dedicação exclusiva recebia cerca R$ 3.167. Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília

Rua exibe desvio curioso: à esquerda, um córrego; à frente, obras, e à direita, um aglomerado de motoristas confusos por conta do provável desvio de personalidade de quem colocou as placas

Ombudsman

*Termo sueco que significa "provedor da justiça". Discute a produção dos jornalistas sob a perspectiva do leitor. Alexandre de Paula é aluno do sétimo semestre de jornalismo da FAC

Alexandre de Paula Se as últimas edições do Campus pecavam pela presença de fotos fracas e com valor apenas ilustrativo, a edição 404 soube buscar alternativas. Encontrar boas imagens que complementem o texto é quase sempre problema. Não é fácil informar e manter o valor estético ao mesmo tempo. A edição, no entanto, começa a chamar atenção antes da leitura, boas diagramações e mais ousadia fizeram bem ao jornal. O leitor, seduzido de início pelos olhos, coloca-se mais aberto para o texto. Quando a reportagem o aproxima do assunto sem cair no tom burocrático, o bom trabalho está feito. Em geral, o último Campus conseguiu chegar lá.

Duas boas matérias abrem o jornal com o tema da homossexualidade. A solução gráfica para o título da primeira pode até incomodar, mas vale pelo risco e pelo significado. Jornal-laboratório é o espaço ideal para se tentar novas possibilidades, desde de que se tenha consciência do que se faz. Com um bom texto, a matéria consegue deixar quem lê perto da história dos casais e das questões que envolvem o casamento homoafetivo. Coleta restrita apresenta um tema que não é novo, mas o desenvolve bem. A boa diagramação aliada à bela ilustração dão destaque à reportagem. Inimigo íntimo trata de um tema difícil e pesado. Dar

luz ao problema dos idosos agredidos por familiares é, no entanto, muito relevante. Apesar das dificuldades que há em se achar personagens dispostos a falar sobre assuntos como esse, as repórteres conseguiram encontrá-los. Ponto positivo, que se estende à ótima utilização da tela de Van Gogh. É de se esperar que os familiares não queiram ser fotografados, a equipe resolveu bem. Humans of somewhere discorre bem sobre o fenômeno da fotografia de pessoas comuns, mas a página ganharia se houvesse mais fotos. Por fim, um ótimo suplemento encerra a melhor edição produzida pela turma neste semestre.

Editora chefe: Tamara Miranda Editores: Ana Teresa Malta, Brunna Ribeiro, Gabriel Luiz Repórteres: Adriano Belmiro, Ana Teresa Malta, Douglas Lemos, Gabriel Luiz, Ingrid Borges, Maria Tereza Matos, Pedro Silva Fotógrafo: Paulo Caproni

Projeto Gráfico: Beatriz Ferraz, Hermano Araújo, Marianna Nascimento e Nadjara Martins Professores: Sérgio de Sá e Solano Nascimento Monitoras: Marinna Nascimento e Nadjara Martins Jornalista: José Luiz da Silva Gráfica: Palavra Comunicação

Tiragem: 4 mil exemplares Contato: 61 3107-6498/6501 E-mail: campus@unb.br Endereço: Faculdade de Comunicação, Campus Darcy Ribeiro, Instituto Central de Ciências - Ala norte, Brasília, Distrito Federal CEP: 70.910-900


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ECONOMIA

CRISE NO AR

Corte de gastos e demissões desestimulam emprego na aviação. Setor apresenta queda no registro de novos pilotos e comissários

Ana Teresa Malta Gabriel Luiz

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inco anos de preparo e um desembolso de R$ 100 mil. Apesar do tempo e dinheiro gastos na formação como piloto, Lincoln Brier desistiu de seguir em frente com a profissão. Ele não encontra oportunidade para começar a carreira. A crise na aviação civil — que envolve de demissões em massa à diminuição do número de tripulantes em voos — deixou de afetar somente o caixa das grandes empresas. As reduções de custo têm impacto direto sobre o mercado de trabalho dos aeronautas, categoria que engloba pilotos e comissários. E, a cada ano, menos pessoas se interessam em entrar no setor. Em 2010, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) emitiu 2.097 licenças para comissários de bordo. Em 2012, o número caiu para 646, e até setembro deste ano, apenas 332 novos comissários foram aprovados. No caso dos pilotos de linhas aéreas, em 2010 foram emitidas 392 licenças, chegando a 614 em 2011, com pequeno aumento em 2012 para 646 e depois queda para 158 em 2013. “Ainda há um interesse dos jovens em entrar na aviação, mas eles percebem que as empresas estão encolhendo e deixando de contratar”, avalia Marlene Ruza, ex-diretora do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA). A estagnação do mercado obrigou Brier a repensar o futuro. Ele já foi dono de restaurante e pensa em voltar a ser empresário, aos 26 anos. Ainda assim, busca manter a prática para não perder as

Arquivo pessoal

Felipe Saú foi comissário da Tam durante três anos. Afastado da empresa, ele ainda espera ser recontratado quando a situação do mercado melhorar

habilidades. “Só desejo continuar tentando o mercado de aviação se as condições melhorarem. Não pretendo seguir voando num sistema que põe em perigo passageiros e tripulação”, declara, referindo-se às medidas tomadas pelas aéreas a fim de economizar, como a diminuição do tempo gasto nos aeroportos e o corte no uso de ar-condicionado. A atual situação do mercado aéreo chegou aos cursos de formação. Coordenadora pedagógica de uma das 186 escolas credenciadas pela Anac, Regina Mariano rela-

ta que houve queda de 7% no número de inscritos no curso em 2013. “Com o alto número de demissões, principalmente no caso da Tam, a profissão de comissário de bordo ficou abalada.” Em agosto deste ano, a líder do setor afastou 780 funcionários. Felipe Saú, comissário de bordo que estava havia três anos na companhia, é um deles. Para ele, as demissões são injustas. “Quando companhias devem cortar, escolhem sempre a turma mais jovem. Alguns profissionais mais velhos são problemáticos, mas, mesmo assim, con-

tinuam na firma.” O jovem de 28 anos distribuiu currículos em outras empresas e tirou férias até janeiro do ano que vem. “Se até lá nada aparecer, talvez eu faça outra faculdade”, cogita Saú, também formado em Arquitetura. Na opinião de Jorge Dias, de 37 anos, a idade não ajuda a conseguir um emprego. Ele concluiu o curso de comissário de bordo em 2011 e lamenta não haver “nenhuma perspectiva boa para essa área”. De acordo com o mineiro, menos de 20 vagas foram abertas no ano passado para o aeroporto de Confins, em Belo Horizonte. “É mais difícil do que passar num concurso federal ou tentar medicina. Só depois que entrei percebi o quão triste isto é.” O presidente do SNA concorda. “O mercado não é promissor e não existe previsão de contratação a curto prazo”, expõe Marcelo Ceriotti, que diz ter conseguido negociar com 26 empresas estrangeiras — sobretudo da China e do Oriente Médio — a contratação de pilotos e comissários brasileiros. Embora haja dificuldades, a profissão de comissário — rodeada de glamour e associada a rígidos padrões de beleza — ainda consegue atrair novos trabalhadores. O estudante de 18 anos Douglas Lupo não desanima. “Eu me motivo porque sou apaixonado por aviação. Não me vejo fazendo outra coisa.” Ele acredita que profissionais mais capacitados terão espaço no mercado, embora o quadro de demissões persista. É o caso de Danielli Ban-

deira, há nove anos na Gol. A comissária, que sobreviveu a duas crises na companhia, viu vários colegas sendo mandados embora. A filha de piloto reclama da carga horária, de 85 horas mensais. “Comparado ao período em que entrei, trabalhamos muito mais e descansamos muito menos.” Mesmo assim, ela aconselha interessados a não desistirem. Segundo Danielli, as empresas demitem funcionários com a promessa de reintegrá-los quando a situação melhorar. “A crise vai passar. Enquanto isso, as pessoas devem se especializar, cursar idiomas e ir atrás do sonho”, orienta a comissária, que chega a ganhar até R$ 7 mil por mês. Professor de Economia da Universidade de Brasília e especialista em economia do trabalho, Carlos Alberto Ramos enxerga pela frente quase um céu de brigadeiro. “O setor aéreo tem tendência de crescimento muito grande a longo prazo. Claro que há choques pontuais devido ao preço do querosene ou à alta do dólar, mas o Brasil é um país continental e ainda há muito espaço para crescer.” Apesar dos problemas de regulação que o país deve resolver, como as tarifas aeroportuárias que subiram mais de 30% no último ano, o economista estima que em 2014 o setor já deve voltar a se expandir. A coordenadora Regina Mariano faz a mesma previsão de melhora para o ano que vem, em função da Copa do Mundo. “Essa é como qualquer outra crise na economia: tem altos e baixos.”


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PROFISSÃO

EDUCADORES EM EXTINÇÃO Pesquisadora da UnB analisa realidade dos professores do DF. Baixa qualidade nas condições de trabalho causa evasão na área

Ingrid Borges

“...a

inda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra que o reconhecimento do trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados”. A citação de Paulo Freire, considerado o patrono da educação brasileira, trata da situação do docente no Brasil. Salários baixos, falta de perspectiva na carreira e situações precárias de trabalho são alguns fatores que influenciam o afastamento de professores do magistério público. Dados do Ministério da Educação (MEC) revelam que nem tão cedo esse problema será resolvido, já que o número de interessados em lecionar no ensino básico está caindo a cada ano. Entre 2006 e 2011, o número de alunos dos cursos de licenciatura e pedagogia caiu 7,5% em todo o país. Na dissertação de mestrado Porque desisti de ser professora: Um estudo sobre a evasão docente, a pedagoga Mônica Padilha analisa as razões que levam um professor a abandonar a profissão. Quando se formou em 2008, Mônica tinha o desejo de se tornar professora. “Foi por isso que escolhi pedagogia”, diz. Bastou um ano e meio nas escolas públicas do Distrito Federal para ela mudar de ideia e abandonar a docência. Para a pesquisadora, a falta de estrutura dos colégios, a grande quantidade de alunos por sala de aula e os métodos educacionais arcaicos foram fundamentais na hora de to-

Paulo Caproni

Ana Paula Severino desistiu de ser professora. A assistente social está satisfeita com a nova profissão. “Hoje eu tenho qualidade de vida.”

mar a decisão. Mônica fez um levantamento com os 151 alunos da Universidade de Brasília que passaram no concurso para professor do DF em 2008. Em janeiro de 2013, Mônica constatou que 89 deles, o equivalente a 59 %, ainda estavam nas escolas. Porém, nem todos atuavam como professores em sala de aula. Muitos estavam exercendo cargos de coordenador, diretor, supervisor ou pedagogo em salas de apoio. Dos 62 pedagogos que não estavam nos colégios (41%), 13 tinham cargos administrativos na própria Secretaria de Educação. O restante, 49 pedagogos (32%), estava atuando em outras áreas. Para investigar os motivos

da evasão de mais de 40%, a pesquisadora aplicou um questionário sobre as condições de trabalho no ambiente escolar. O resultado não foi outro: segundo o estudo, a estrutura na qual a escola está organizada é o que mais influencia a saída do professor. “A maneira como a escola está configurada impede os professores de continuar”, aponta a pesquisadora. Opressão e desgastes físicos e psicológicos também são fatores decisivos na hora de desistir da docência. A assistente social Ana Paula Severino foi uma das entrevistadas. Ela chegou a lecionar em três colégios do DF. “Não valia a pena, era extremamente desgastante, eu não estava bem nem física nem emocional-

mente. Não tinha liberdade, as pessoas cobravam muito.” Questionada sobre qual profissão ela preferiria, não pensou duas vezes: “A atual, com certeza, hoje eu tenho qualidade de vida”. A ex- professora não é a única a preferir o emprego mais recente: segundo a pesquisa, todos os entrevistados afirmaram estarem mais felizes hoje. Outra questão abordada foi a distância entre universidade e mercado. Para Mônica, os estudantes deveriam ter mais noção de como é o ambiente escolar. “Essa realidade tinha de estar mais presente na rotina dos alunos de pedagogia e licenciatura”, sugere. Ana Paula concorda. “Pelo currículo da UnB é muito difícil se aproximar da escola pública. Ela (a escola) não aceita a universidade, suas ideias, não prepara para o mercado, ainda está muito distante”, lamenta. A assistente social também se queixa da falta de amparo dos diretores e coordenadores das escolas. “Não tem apoio, é uma grande bagunça, cada um para o seu lado, tem diretor que só serve para receber pais”. O vice-diretor do Centro de Ensino Fundamental 08 do Gama, Wilson Tiago, discorda. “A gente tenta decidir tudo em grupo, temos feito muita coisa boa, mas às vezes falta verba. Como gerir se você não recebe?”, indaga. Apesar das dificuldades, a estudante de pedagogia Letícia Vieira não se arrepende da escolha que fez. “Gosto do que faço, acho que o que faz o serviço ser prestado com qualidade é o prazer em exercê-lo. Há uma falta de valorização

desse profissional”, opina a aluna do 5° semestre. Quando terminar o curso, Letícia quer trabalhar em escolas. Em dezembro haverá concurso público para provimento de 804 vagas no cargo de professor de educação básica. As inscrições já foram encerradas.

REMUNERAÇÃO BAIXA

O salário é outro aspecto que conta na hora de escolher o magistrado. Os professores do DF têm o maior do Brasil. Mas, segundo Mônica, não é razão suficiente para permanecer na profissão. “Isso (salário) não prende ninguém, é muita coisa para suportar” dispara. Reajustado em janeiro deste ano, o piso salarial nacional dos docentes é de R$ 1.567,00. Já no DF, o salário inicial é de R$ 4.226,47, devendo aumentar para R$ 5.423,13 até 2015. O diretor de Assuntos Culturais do Sindicato dos Professores do DF (Sinpro), Jairo Mendonça, concorda que seja o maior salário, mas ressalta que, se comparada a outra carreira de mesma formação, é um dos piores. “O professor é o que ganha menos, muitas pessoas abandonam por um concurso que pague mais”, afirma. Outra questão levantada por Mendonça é o plano de carreira do educador. “Você demora muito para chegar ao maior (salário)”, acrescenta. Professor há 15 anos e atualmente dando aula na Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Centro de Ensino Médio 03 do Gama, ele afirma nunca ter pensado em fazer outra coisa. “Sempre gostei de ensinar”, conta Mendonça.


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TRABALHO

O JEITINHO DOS SÍNDICOS

Empresas perdem espaço na prestação de serviços a prédios. Condomínios recorrem à mão de obra mais barata e autônoma Adriano Belmiro

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onheço vários síndicos que contrataram empresas, tiveram problemas e, como se não bastasse, gastaram muito mais.” Marilda Flores, 67, é síndica há oito anos do bloco A da 402 Norte, função que também exerce no prédio onde reside. Marilda fez várias obras para manter a segurança, a estrutura e a imagem dos dois prédios sob a sua administração. Como forma de economizar e poupar os moradores da tendência desenfreada do aumento de taxas extras, em vez de empresas ela prefere contratar equipes independentes para os trabalhos de manutenção dos prédios. “Vou atrás do mais barato, mas também há muito picareta por aí”, adverte. Segundo a síndica, é equivocado pensar que empresas têm sempre funcionários competentes. Além de aproximarem mais contratante e contratado, as equipes autônomas são mais flexíveis e cedem facilmente a pedidos de descontos de quem as procura. “Não pago o preço que eles querem. O menino galego, que faz o serviço pra mim, já vem rindo pra dar o preço, porque sabe que vou pechinchar”, diz Marilda. O piso de granito foi orçado por R$ 330 mil por uma empresa. Confiado a trabalhadores independentes, o orçamento da obra caiu para R$ 250 mil – 25% abaixo do valor inicialmente cobrado. Segundo Marilda, a preferência por esse tipo de mão de obra é uma tendência dos síndicos de prédios de pequeno e

Adriano Belmiro

médio porte, cujas obras de manutenção são igualmente proporcionais. Assim como Marilda, Solange Miranda, 54, é uma das síndicas que prefere trabalhadores independentes porque, segundo ela, há menos problemas de rotatividade dos funcionários. Há 15 anos como síndica de um prédio comercial da Asa Norte, Solange revela que até agora só contratou uma empresa. Para mudar toda a fiação elétrica do prédio erguido há 28 anos, a síndica pagaria R$ 12 mil. Feito por um funcionário aposentado da própria CEB, o trabalho ficou por um terço do valor inicial – R$ 4,7 mil. “Nunca tive problemas com os autônomos e com certeza as empresas cobram quatro ou cinco vezes mais.” Algumas corporações têm tomado determinadas iniciativas para mudar a tendência de busca por autônomos. É o caso de uma empresa que ofereceu a Solange Miranda a prerrogativa de escolha do trabalhador para fazer a obra. Se o serviço prestado pelo funcionário não for satisfatório, ela tem o privilégio de escolher outro, até alcançar o nível de satisfação desejado. Outra das estratégias para frear a preferência por serviços não empresariais está na isenção de alguns pagamentos. Quando determinado síndico usufrui do trabalho de uma empresa multisserviços, ela pode chegar a oferecer gratuitamente uma segunda atividade, como forma de instigar fidelidade entre as duas partes.

Flávio Gonçalves (à esquerda) trabalha há 20 anos como autônomo e realiza cerca de duas obras de manutenção por mês, como pinturas e trocas de vidro

Dimas Lopes de Meneses, 70, é um dos síndicos que prefere contratar empresas sempre que a possibilidade de acidentes em uma obra é maior. A opção do aposentado, síndico do bloco D da 402 Norte, vem atrelada a dificuldades de natureza burocrática neste tipo de serviço. Entre os profissionais que trabalham com obras, vários ainda preferem trabalhar para uma empresa. É o caso de Mudesto José dos Santos, 53, pai de quatro filhos e encarregado de obras no Plano Piloto. “O dinheiro que ganho por mês eu conseguiria em uma semana se trabalhasse por conta própria, mas na minha idade uma empresa é sempre melhor por causa da aposentadoria, e em casos de doença continuo recebendo.” O exercício da profissão começou na empresa Mendes Júnior Engenharia S.A. Após oito anos de trabalho, Santos decidiu trabalhar por conta própria. “Estava trabalhando

de graça para as empresas.” Passados 20 anos, para garantir o fundo de aposentadoria, ele chegou a contribuir para o INSS, mas depois de quatro meses deixou de fazê-lo. “Achei que estava dando dinheiro de graça ao governo.” Em 2009, Santos voltou a trabalhar para outra construtora. Trabalhar como autônomo não é uma tarefa fácil. Além de correr vários riscos por não contar com o suporte de uma empresa, é preciso se ter bom conhecimento técnico e conhecer o mercado de trabalho no qual se está inserido. Por uma obra que uma empresa cobraria R$ 1 milhão, Santos calcula que cobraria não mais do que R$ 30 mil, valor altíssimo, se comparado aos R$ 3,1 mil que atualmente ganha por mês. As equipes autônomas são, muitas vezes, bastante competentes e por serem enxutas permitem que as respon-

sabilidades não se dispersem. Segundo a advogada Milene Ozório Fernandez, o exercício desse tipo de atividade não constitui ilicitude. “Assim como os síndicos poderiam contratar uma empresa que tenha o CNPJ, existem profissionais que são autônomos e que têm o mesmo knowhow para fazer o serviço que uma empresa faria. Desde que haja um contrato e cada uma das partes envolvidas cumpra o seu papel, não há irregularidades, ainda que se trabalhe sem carteira assinada por conta do caráter de trabalho temporário e específico.” A opinião é compartilhada por Ricardo Pereira, professor e pesquisador de Direito do Trabalho na Universidade de Brasília (UnB). Ele faz uma ressalva. “Em caso de tolerância zero no cumprimento de horários pelos trabalhadores, o síndico deve assinar a carteira para poder exigir pontualidade”, afirma o docente universitário.


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FORMAÇÃO

UM PASSO PARA A LIDERANÇA Treinamento inusitado prepara funcionários para se destacarem na carreira. Corrida de aventura quebra a rotina das empresas Douglas Lemos

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ue tal juntar os colegas de trabalho em uma competição cujo objetivo é um treinamento que irá beneficiar a todos na empresa? Conhecido como uma poderosa ferramenta de desenvolvimento humano, o coaching é utilizado hoje como um processo de treinamento com objetivo de desenvolver competências profissionais. A palavra inglesa que em uma tradução livre significa “treinamento” tem sua origem ligada a Kocs, uma cidade húngara localizada às margens do rio Danúbio. Ali, no século XV, eram produzidas as mais cobiçadas carruagens da Europa, batizadas de kocsi szeker, ou apenas kocsi. Mais familiar, a palavra continua como uma analogia a um meio de transporte. O treinamento tem a função de levar as pessoas de um patamar de performance a um degrau mais elevado. Não é à toa que a palavra coach é utilizada até hoje para designar o sistema de transporte em países de língua inglesa. Aos poucos, o termo migrou para os técnicos de equipes esportivas, dando significado conhecido no inglês norte-americano: treinador.

Monclair Cammarota, coach credenciado pela Federação Internacional de Coaching (IFC) e diretor executivo da Ekoá Jogos Empresariais, utiliza uma citação de Confúcio para justificar o método diferenciado proposto pela sua empresa: “O que ouço, esqueço. O que vejo, lembro. O que faço, aprendo”. Para ele, a prática proporciona uma percepção sensorial mais aguçada. “Para desenvolver uma habilidade, não basta ter o conhecimento. Você precisa da prática”, explica. CORRIDA DE AVENTURA Trabalhar com o inusitado está relacionado ao histórico de vida do diretor executivo. Formado em Engenharia Florestal pela Universidade de Brasília (UnB), nunca exerceu a profissão. Em 1998 conheceu a corrida de aventura quando trabalhava com amigos, de forma voluntária, em Israel. Um ano depois, sua equipe — chamada Oskalunga — competia pela primeira vez. Pouco tempo passou e o time figurava entre os cinco melhores do mundo. E assim, entre os anos de 2001 e 2005, Cammarota percebeu que poderia adaptar essa Douglas Lemos

Flávio Resende acredita que esse tipo de atividades desenvolve o espírito de liderança nos profissionais

Divulgação

Trabalhar em equipe é um dos benefícios do treinamento oferecido para as empresas. Como em uma caça ao tesouro, o objetivo final é o sucesso no ambiente de trabalho

modalidade para vários tipos de treinamentos realizados fora do ambiente corporativo. Para que a categoria — que envolve canoagem, ciclismo e caminhadas por desníveis topográficos — se tornasse uma ferramenta de treino focada no trabalho de equipe, bastava um ajuste para uma realidade que alcançasse, inclusive, os sedentários. A atividade já foi aplicada em grupos que possuíam de 12 a 350 pessoas e funciona como uma verdadeira competição. Primeiramente, são separadas as equipes: nessa fase, o ideal é misturar integrantes de vários tipos físicos num mesmo grupo. Cada equipe recebe um mapa com pontos a serem alcançados — que possuem variados níveis de dificuldades de chegada. Os jogadores de cada time precisam se reunir para definir sua rota e, então, expor a decisão para todos os outros grupos. De acordo com Monclair, aspectos como capacidade de tomar decisões e reação — quando um membro da equipe

passa por dificuldades de ação — são desenvolvidos nessa metodologia, que pode durar dois dias, e é realizada em locais como hotéis fazendas ou de estrutura semelhante, que deem direito ao contato com a natureza. Uma segunda característica utilizada com muita força é estabelecer o resultado desejado como uma meta real e analisar o que foi feito, comparando com o que foi almejado no começo de todo o processo. “O que as pessoas desenham na hora do planejamento é muito mais simplista do que o que acontece na realidade”, esclarece. Para Flávio Resende, diretor executivo da Proativa Comunicação, que já participou de processos de coaching, essa ferramenta facilita a compreensão de onde um grupo quer e pode chegar. “Cada um acaba entendendo o que precisa fazer para atingir um único resultado”, revela. Ele ainda aponta a responsabilidade pelo que cada um assume, o foco no resultado, o desenvolvimento da liderança e o trabalho em equipe

como algumas das competências trabalhadas pelos métodos da Ekoá. Conforme Samuel Germano, relações públicas da Proativa, o treinamento foi capaz de mostrar, de uma maneira diferente, situações que desafiavam suas habilidades no dia-a-dia. “Pude desenvolver, de forma lúdica, minha capacidade de tomar decisões que impactam no resultado final de um processo”, conta. Ao final da corrida, os treinadores sentam com cada equipe para analisar o plano inicial e comparar com o que foi mudado no meio do percurso. “Analisamos a probabilidade de acerto do planejamento e o que poderia ter sido melhor”, conta o coach. Depois de todo o desafio, o grupo retorna para o ambiente corporativo e a equipe da Ekoá conecta os pontos vividos na prática e os relaciona às dificuldades enfrentadas no dia-a-dia. Cada uma das pessoas treinadas passa por uma autoavaliação e recebe, então, um feedback dos colegas.


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COMPORTAMENTO

CRIANÇAS CONSUMIDORAS Elas têm mais controle do que você imagina Gabriel Luiz

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uciano Attias tem apenas 13 anos, mas possui influência suficiente para escolher o carro da família. Cacia Attias, 40 anos, gerente hoteleira, assume que escutou o filho na hora de fazer a compra do automóvel. Ela tinha uma marca em mente há um ano e mudou de ideia depois de Luciano propor outro modelo. “Ele me apresentou argumentos válidos sobre coisas que não havíamos notado — como presença de freio ABS e trava elétrica. Coincidiu de o preço também ser bom, então decidimos aproveitar”, conta. Luciano teve de insistir por três meses para conseguir fazer a cabeça de Cacia. “Minha mãe foi à primeira concessionária, onde foi mal atendida. Saindo de lá, ela se lembrou de tudo o que eu havia dito e resolveu dar uma chance à minha opinião”, explica o estudante do oitavo ano do ensino fundamental. Na família de Marta Lúcia Alencar, o filho Pedro José Lima também tem voz. O garoto de 12 anos é presente nas decisões referentes às compras em casa, da marca do chocolate na sobremesa à linguiça no

churrasco. “Eu procuro sempre pedir a opinião do meu filho quanto às decisões da família. Saber o que ele pensa sobre uma reforma em casa é tão importante quanto sobre o material escolar: se é da família, ele vai ser obrigado a conviver com aquilo”, diz Marta. Ela acredita que a criança da geração atual é privilegiada. “Como a renda média aumentou e a vida é mais prática — por exemplo, não preciso mais enfrentar filas para pagar uma conta no banco — , temos muito mais tempo à disposição dos filhos. Paparicamos demais”, continua a mãe. Pedro José deixa claro que não se acha mimado. Ele lembra que Marta sempre tem a palavra final: “Eu sei que sou exigente com algumas coisas, mas eu penso muito antes de comprar e sugerir algo. Às vezes ela não concorda e eu tenho de aceitar”. O que pode parecer capricho infantil, na verdade, é uma tendência observada por uma pesquisa defendida há sete meses no Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília. Em sua tese de doutorado em ciências do comportamento, a Ingrid Borges

Marta Lúcia Alencar admite: “Paparicamos demais os nossos filhos”. Pedro José dá pitacos até sobre a marca da carne do churrasco de domingo

psicóloga clínica e especialista em terapia infantil Raquel Ávila comprovou que crianças recebem cada vez mais oportunidade de se comportar como consumidor, isto é, escolher, descartar, trocar marca, tipo de produto ou local de compra. A pesquisadora de 33 anos entrevistou 56 estudantes de 8 a 12 anos e seus pais sobre o quanto os filhos participam na decisão de compra de biscoitos, sucos de fruta, tênis e celulares. Ela descobriu que em todos os produtos, independentemente do valor, os menores tiveram envolvimento direto na aquisição. “As crianças estão mais independentes e autônomas. A escolha da marca pelos pais agora é influenciada por elas, que têm mais tempo de exposição aos apelos comerciais do que o restante da família”, avalia Raquel. A mãe de Luciano concorda: “Os nossos filhos estão cada vez mais antenados. Enquanto ficamos na nossa zona de conforto, eles têm contato constante com todo tipo de inovação”. Raquel ressalta que a participação infantil no processo de tomada de decisão é positivo, mas acredita ser necessário que a criança desenvolva senso crítico com ajuda da escola e da família. “O consumo consciente é saudável e importante. No entanto, o diálogo é essencial para proteger o menor do consumismo — o pecado pelo excesso.” É o que também sustenta a psicóloga Lais Pereira, do Instituto Alana, uma ONG que briga pelo controle da publicidade infantil. “Quem deve decidir sobre a compra do carro não é o filho”, diz a especialista. “Não é ele quem vai dirigir”, afirma.

Gabriel Luiz

Luciano e Cacia Attias mostram o carro que acabaram de comprar. A criança de 13 anos teve participação ativa na escolha do veículo da família

Lais critica a falta de regulamentação sobre o consumo por crianças. “O mercado sabe que o público infantil, além de ter ação sobre os pares, influencia em 80% o processo decisório de compra na família. O Brasil carece de leis que regem a questão. A regulamentação que existe é insuficiente e feita pelo próprio

mercado”, afirma a psicóloga. Enquanto o Congresso Nacional não se posiciona sobre o assunto, o especialista em educação financeira Álvaro Modernell dá dicas de consumo responsável. Ele sugere que desde cedo os pais criem nos filhos a capacidade de saber esperar e ensinem a diferença entre desejo e necessidade.

DICASDE DECONSUMO CONSUMO DICAS - A decisão final é sempre dos pais. - Os pais devem dizer não com a mesma naturalidade que dizem sim. - Os filhos devem participar da escolha dos produtos que lhes interessam. - Não basta só falar em linguagem simples. Fale apenas o que interessa à criança. Assuntos como inflação ou juros não recebem atenção e podem provocar efeito de repulsa quando o assunto é dinheiro. Fonte: Álvaro Moderenell, especialista em edudação financeira


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LEGADO

GUARDIÃO DA DOUTRINA A vida de Takeshi Miura revela a trajetória do judô em Brasília. Apesar das mudanças no esporte, ele ensina a técnica tradicional

Pedro Silva

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pedido da esposa, o sensei Takeshi Miura, 70 anos, se aventura entre os galhos de um jambeiro para apanhar uma porção do fruto amarelo. As mãos calejadas, que após a colheita amarram a faixa ao kimono, carregam parte da história do judô no Distrito Federal. Sobre o tatame, o responsável pelo primeiro ouro internacional de Brasília dá início ao primeiro dos três treinos daquele dia. Do menino de 12 anos que conheceu o judô nos idos de 1954, em São Paulo, o nono dan conserva a disposição e os cabelos negros. Não é tinta. “É a água lá da chácara”, costuma dizer. Dos poucos protagonistas ainda vivos da primeira geração de judocas de Brasília, apenas ele mantém o hábito de treinar e dar aulas todos os dias. Exceto aos sábados e domingos. “Nos fins de semana, nem o presidente da federação me acha”, brinca. A partir de 1964, quando a arte se tornou esporte olímpico, a prática passou a visar a eficácia do combate. Miura soube, contudo, preservar o judô puro. “Ele retomou o treinamento tradicional para provar que mesmo o judô primitivo funciona”, explica o jornalista e judoca Marcelo Gonçalves. Segundo Gonçalves, o judô era considerado tesouro nacional japonês, e na Segunda Guerra Mundial, muitos mestres mataram oficiais americanos. “Para não sofrerem por crimes de guerra, foram levados a outros países para divulgar aquilo que era

Pedro Silva

Na academia de Miura (branco), na 912 Sul, ele prepara mais que competidores. “Formar artistas dá trabalho. Adquirir técnica leva tempo, exige refinamento”, conta

uma arte rara”, revela. Pioneiro do judô em Brasília, o piloto kamikaze japonês Michio Ninomiya sofreu, na guerra, um problema de saúde que o impediu de voar para uma missão suicida.

Ninomiya deixou o Japão e passou a divulgar o judô no estrangeiro, e após três anos no Brasil, veio para a capital, em 1959. Quando a Federação Metropolitana de Judô (Femeju) foi

"O bronze é uma vitória. Mas, como meta, temos que trabalhar sempre com o ouro. O resultado que vier será bem-vindo depois do combate. Antes, nunca" Takeshi Miura

criada, em 1963, promessas da arte foram convidadas para competir por Brasília, carente de grandes esportistas. Entre os que responderam o chamado estava o jovem Miura, então com 21 anos. No ano de 1964, o recém-chegado se hospedou durante três meses na casa de Ninomiya. O plano de divulgar a cidade por meio do esporte trouxe resultado. Em 1967, o peso leve Miura alcançou a final dos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá. Após quatro confrontos, ele venceu o quinto adversário, um norte-americano que o havia derrotado dois anos antes, e trouxe para Brasília o primeiro ouro da cidade em competições internacionais. Aos 27 anos, o medalhista sofreu um acidente de carro e parou de competir. “Mudei o comportamento. Fiquei mais voltado para o lado filosófico do judô”, conta. Passou, então, a se concentrar na atividade de professor. As conquistas no tatame vieram através de alunos. “O importante é participar. E vencer. O bronze é uma vitória. Mas, como meta, temos que trabalhar sempre com o ouro. O resultado que vier será bem-vindo depois do combate. Antes, nunca”, afirma. O sensei sempre manteve a qualidade técnica do judô tradicional. Em 1999, já sem as virtudes do corpo jovem, Miura participou de treino coletivo entre delegações durante um torneio na Itália. Integrantes da equipe do Cazaquistão ignoraram a idade do técnico brasileiro. “Tem que haver respeito. O pessoal

treinou não como se eu fosse um mestre, mas um colega. Eram três competidores. Coloquei eles para dormir”, lembra. Ao fim de cada aula, Miura se senta com os alunos no centro do tatame. Um judoca compartilha a superação da perda da mãe, falecida na semana anterior. Outro fala do pai, de 85 anos, que está com grave problema no coração e sem perspectivas de melhora, mas diz que entende que cada um tem sua hora. DÉCIMO DAN Após uma vida de conquista de medalhas e de manutenção da tradição, Miura agora almeja a maior honraria que um judoca pode receber: o 10° dan. O pedido está sendo enviado para a Femeju e, segundo o presidente da entidade, Luiz Gonzaga, será encaminhado à Confederação Brasileira de Judô (CBJ). A regra exige a idade mínima de 78 anos para se receber a honraria, mas uma comissão da CBJ vai avaliar se a graduação pode ser concedida a Miura por mérito à contribuição ao judô. Gonzaga reconhece a dificuldade em se receber o 10° dan, que é muito raro. A graduação máxima, quando concedida, é dada a judocas em idade bastante avançada, ou mesmo de maneira póstuma. Para Miura, o judoca contemplado não usufrui da faixa. “É uma conquista pessoal. Se um dia for agraciado, quero estar em plena capacidade física, motora e mental. As pessoas devem ser valorizadas em vida.”

Campus - nº 405, ano 43  

Edição 405, ano 43, de Campus, de 5-11 a 11-11 de 2013

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