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REDES SOCIAIS INFINITO PARTICULAR Páginas na web divulgam retratos e histórias de transeuntes em diversas cidades do mundo e suscitam a empatia de seguidores

TERCEIRA IDADE MAUS-TRATOS Familiares são os principais acusados pelas mais de duas mil queixas de agressão contra idosos no DF em 2012

CIDADANIA DIREITO CONQUISTADO Aprovação do casamento civil homoafetivo deixa casais satisfeitos e amplia as garantias dos cônjuges

BRASÍLIA, 29 DE OUTUBRO A 4 DE NOVEMBRO

NÚMERO 404 ANO 43

CAMPUS Jhésycka Vasconcelos

PROFISSÃO

PANFLETEIRO

SANGUE NEGADO

Homossexuais relatam enfrentar dificuldades na hora de doar no Hemocentro de Brasília Homossexuais relatam casos de preconceito na hora da doação nos bancos de coleta


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Brasília, 29 de outubro a 4 de novembro de 2013

CAMPUS

Carta do Editor

Recorte

Jéssica Moura

Jhésycka Vasconcelos

Nesta edição do Campus, o leitor vai perceber que o preconceito à diversidade sexual ainda perdura no imaginário da população. A reportagem de capa retrata a discriminação que enfrentam os homossexuais que tentam doar sangue no DF. Nos anos 1980, o mundo testemunhou a disseminação do vírus HIV, que esteve associada à homossexualidade. Quase trinta anos depois, essa relação parece ainda estar presente. O repórter relata as experiências de gays que foram impedidos de fazer a doação em bancos de coleta em virtude da orientação sexual. Mas apesar de ainda ocorrerem no Brasil abusos aos direitos dos homossexuais, mudanças na legislação contribuíram com a luta dos grupos LGBTs por igualdade. A matéria da página 3 ressalta que, desde maio deste ano, casais do mesmo sexo podem celebrar matrimônio em cartórios de todo o país. Dessa forma, são asseguradas a eles garantias de que dispõem casais heterossexuais, como direito à herança e à adoção do sobrenome do parceiro.

As páginas 6 e 7 denunciam problema que aflige outro grupo que não tem seus direitos plenamente assegurados: os idosos. As repórteres destacam o levantamento feito neste ano pela Central Judicial do Idoso, que evidencia o aumento no número de denúncias de agressão contra idosos. As acusações de negligência, abandono e maus-tratos recaem, principalmente, sobre os próprios familiares. Num mundo que cultua a fama, pessoas comuns jamais imaginariam se tornar conhecidas na internet. Fotógrafos de diversas cidades ao redor do mundo capturam retratos e histórias desses anônimos e os publicam nas redes sociais. É o que leitor vai encontrar na página 8. Mas esta edição não termina na última página. No encarte especial do Campus, a repórter se coloca em primeira pessoa para traçar o perfil dos trabalhadores que não assinam (ou sequer possuem) na carteira de trabalho a profissão que exercem – são os panfleteiros da plataforma superior da Rodoviária.

Memória A edição 171 do Campus, de novembro de 1992, trouxe a matéria Mercado informal, opção para a crise, da repórter Denise Nakamizu. A reportagem mostrou a solução encontrada por quem perdeu o emprego devido à crise econômica da década de 1980: trabalhar no mercado informal. Em 1984, o GDF legalizou a ação dos camelôs por meio de um Decreto-Lei e, em 1992,

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o número de trabalhadores da categoria já era três vezes maior que na década anterior. Encarte especial desta edição mostra a rotina de quem distribui panfletos nas ruas.

Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília

O Beco das Artes, em Taguatinga Sul, é onde moradores e artistas trabalham com música, artes plásticas e visuais, que fazem da ruela uma referência cultural

Ombudskvinna

Termo sueco que significa "provedor da justiça", discute a produção dos jornalistas sob a perspectiva do leitor

Nathalia Zôrzo Reportagem simples e interessante, Sem mais prejuízos surpreende pelo trabalho de apuração e diversidade de fontes. No entanto, um infográfico explicando a maneira como funciona o dispositivo criado seria uma boa solução para tornar a matéria mais didática e atraente. Maré de gastos no Senado tem boas fotos e uma denúncia relevante, mas erra quando o repórter coloca esclarecimentos importantes na boca de assessores de imprensa da Casa. Assessores não são e, graças a Deus, nunca serão porta-vozes oficiais. A título de reflexão: assessores de imprensa são jornalistas. Sonho interrompido é outra reportagem importante, daquelas que revelam o

lado mascarado das políticas públicas e que, quando narradas pelas personagens, tornam as informações mais verdadeiras. Coisa que falta a Sofrimento amenizado – que parece ter deixado as emoções apenas no título. A explicação sobre cuidados paliativos, além de aparecer apenas no quarto parágrafo, diz muito pouco. A infeliz escolha por usar um conceito engessado da OMS deixa escapar uma excelente oportunidade de valorizar a prática médica. Magia contemporânea é curiosa e teatral, convida o leitor a esboçar no imaginário um cenário místico e provoca empatia. Expectativas e decepções vale muito pelo conteúdo, mas não diz nada com o título – tão va-

Editora chefe: Jéssica Moura Secretária de redação: Caroline Bchara Editores: Eduardo Barretto, Nívea Ribeiro , Thiago Amâncio e Washington Luiz Repórteres: Alessandra Azevedo, Beatriz Ferraz, Jéssica Gotlib, Johnatan Reis, Hermano Araújo, Laura Tizzo e Marina Carlos Diretora de arte e foto: Emily Almeida

Fotógrafa: Jhésycka Vasconcelos e Gabriel Lopes Colaboração: Camila Menezes Projeto gráfico: Beatriz Ferraz, Hermano Araújo, Marianna Nascimento e Nadjara Martins Professores: Sérgio de Sá e Solano Nascimento Monitoras: Marianna Nascimento e Nadjara Martins Jornalista: José Luiz Silva Gráfica: Palavra Comunicação

zio e genérico que poderia ter sido adotado por outras matérias do jornal sem pecar na coerência. E aqui cabe uma reflexão geral: já que a opção editorial é por títulos que dizem pouco, cabe ao sutiã a importante função de explicar tudo o que aquele não é capaz. Assim sendo, é necessário pensar com mais cuidado nessa etapa, lembrando-se sempre de que, aguardando o jornal, há um leitor sempre apressado e curioso, que quer saber do que se trata a reportagem sem que precise ler os primeiros parágrafos.

Nathalia Zôrzo é aluna do 7º semestre de Jornalismo na FAC

Tiragem: 4 mil exemplares Contato: 61 3107-6498 / 6501 E-mail: campus@unb.br Endereço: Faculdade de Comunicação, Universidade de Brasília, Campus Darcy Ribeiro, Instituto Central de Ciências - Ala Norte (Minhocão), Brasília, Distrito Federal CEP: 70.910-900


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IGUALDADE

Após seis meses da resolução do CNJ que obriga cartórios a realizar casamentos homoafetivos, casais do DF se sentem mais respeitados Beatriz Ferraz Laura Tizzo

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o dia 5 de maio de ca de 2009, Campos passou 2011, Claudia Gurgel a viver ao lado do jornalista foi pedida em casa- Buriti, em Brasília. Em 2011, mento, após 11 anos de rela- entraram na justiça em buscionamento. A médica estava ca do direito da união estável. em seu consultório quando Conseguiram em setembro. recebeu a ligação da jornalista Mas, de acordo com CamSilvia Gomide, que também pos, não era suficiente. No dia trabalhava naquela hora. A 14 de junho de 2012, Camansiedade pelo pedido se jus- pos e Buriti estavam casados. tificava: naquela quinta-feira, Apesar do avanço signio Supremo Tribunal Federal ficativo, os dois casais ainda (STF) reconhecia, por una- eram exceção à regra. Até ennimidade, a união estável en- tão, apenas era reconhecida a tre pessoas do mesmo sexo. união estável entre pessoas de Naquela mesma ocasião, mesmo sexo. Somente em 16 o casal foi orientado a não de maio deste ano o Conselho somente Nacional registrar a de Justiça união ho(CNJ) apromoafetiva, vou a Resocomo tamlução 175, bém a dar obrigando entrada com Thiago Rodrigues, casado há cartórios de o pedido de dois meses com Rodrigo Souza todo o país matrimôa celebrar nio. No dia 28 de junho, pouco casamentos homoafetivos, mais de um mês depois, foram com base na decisão do STF. chamadas a uma audiência no A procura pelo direito era Tribunal de Justiça, em que tamanha que, entre maio e estavam presentes duas advo- junho, 231 casamentos hogadas, duas testemunhas, um moafetivos foram realizaamigo e o chefe de Silvia. Foi dos no Brasil, incluindo os assim que aconteceu o pri- do Distrito Federal. A capimeiro casamento entre duas tal brasileira registrou um mulheres no país e, até então, dos maiores índices de cao único do Distrito Federal. samento: 14 em trinta dias. Simultaneamente ao proPrestes a completar seis cesso de Claudia e Silva, cor- meses, a aprovação da Resoria, pelos tribunais, o proces- lução 175 trouxe resultados so de Antônio Buriti e Carlos significativos. Em 13 dos 15 Campos. Após se apaixona- cartórios que realizam regisrem e, depois, se conhecerem tro civil no DF, foram fei(pois esta foi a ordem de um tos 31 casamentos desde a amor à primeira vista, como resolução do CNJ. Thiago alegam) no carnaval cario- Rodrigues e Rodrigo Souza

"A atitude das pessoas mudou"

fazem parte desse número. Os agora esposos foram apresentados pela irmã de Rodrigo em 2005 e começaram a namorar dois anos depois. No dia 9 de setembro de 2013, eles trocaram alianças em uma cerimônia simples e rápida no Cartório do 2º Ofício de Notas e Protesto, na 504 sul. Alexandre Feitosa e Jean Charles caminham para aumentar o índice de casamentos homoafetivos no DF. Não somente por serem noivos há um ano, os pastores da comunidade cristã inclusiva Apascentar ajudam a formar casais na igreja que fundaram. “Onde eu conduzia cultos anteriormente, aconteceram vários casamentos. Aqui, houve um noivado na semana passada, mas eu espero que logo haja matrimônios”, deseja Alexandre. Especificidades à parte, há algo que une todos esses casais: a percepção do que mudou após conseguirem o casamento civil. Conforme relatos, o que mais chama atenção é a maneira como a sociedade passou a lidar com o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. “A atitude das pessoas ao nosso redor mudou. Agora que somos oficialmente um casal, tudo ficou mais claro. A principal diferença, pelo menos por enquanto, está nos detalhes”, conta Silvia. “Sinto que o respeito aumentou”, confessa Rodrigues. Para Buriti, isso é um sinal de que vivenciamos um momento histórico. “Quando

eu era adolescente, foi aprovada a Lei do Divórcio. E, na época, havia muita pressão dos mesmos grupos que hoje são contrários ao casamento igualitário. Até os argumentos eram iguais. Assim como as pessoas que se divorciaram, na década de 70, mudaram o rumo do país, os homens e mulheres que hoje estão casando entre

si estão fazendo uma história.” Apesar das recentes conquistas, a comunidade LGBT afirma que ainda há muito a se fazer. “A gente vai chegar num ponto em que o casamento será casamento, apenas. Um substantivo sem adjetivo. Não haverá categoria à parte pra casamento homoafetivo”, sonha Buriti. Laura Tizzo

Antônio Buriti e Carlos Campos: amor de carnaval se tornou um dos primeiros casamentos homoafetivos do Brasil


artazes publicitários espalhados por várias partes informam sobre a importância de se doar sangue. Quem vê, pensa que praticar a boa ação é tarefa fácil, mas não imagina os empecilhos que pode encontrar pelo caminho. Linniker Conrado, estudante, 23 anos, viu uma dessas campanhas e ficou interessado em ajudar. Acompanhado por cinco colegas, foi até o posto de coleta móvel do Hemocentro que estava estacionado no campus Darcy Ribeiro, da Universidade de Brasília. Dentre todos do grupo, apenas ele foi impedido de doar sangue. O motivo: ele mantinha relação sexual com outro homem, seu namorado à época. O que restou da vontade de fazer o bem foi o constrangimento, alega. A proibição pela qual Linniker passou ocorre com qualquer homem que tenha se relacionado sexualmente com alguém do mesmo sexo nos 12 meses anteriores à doação. A determinação é da portaria 1.353 do Ministério da Saúde, de 2011, que também considera inaptas as pessoas que mantiveram relações sexuais com mais de um parceiro em curto período de tempo. Esse é o ponto de desacordo dos LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) brasileiros em relação à lei que regulamenta os processos de hemoterapia. Por isso, grupos de diversos estados relatam os casos de impedimento de doação sanguínea às Comissões de Direito Homoafetivo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Cada unidade da federação tem

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Johnatan Reis de realizar uma boa ação, mas são impedidos”, diz a advogada. A comissão declarou, neste ano, que a portaria do ministério é ultrapassada, ambígua e de cunho preconceituoso. Impõe a homossexuais o período de abstenção sexual que não é exigido para um doador heterossexual. Para Chyntia, ninguém pode ser impedido de doar sangue por sua orientação sexual. Ela afirma, ainda, que as restrições impostas a LGBTs fazem com que a lei infrinja os princípios de igualdade, liberdade e dignidade da pessoa humana. Ao tentar doar sangue pela terceira vez, Silas Amadeu, estudante, 22 anos, foi barrado por motivo semelhante ao de Linniker. “Já tinha doado duas vezes no hemocentro e nunca perguntaram sobre minha orientação sexual, então não vi motivos para omitir”, diz. Amadeu conta que a médica com quem fez a triagem informou, de forma gentil, que não era recomendável prosseguir a doação e avisou sobre a portaria do ministério. Ela explicou que o sexo anal aumenta a possibilidade de contaminação por doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Para Mário Ângelo, professor do Departamento de Serviço Social da UnB, que estuda sexualidade e DSTs, a lei é embasada em argumentos cientificamente inválidos, como o fato de considerar que somente homossexuais praticam sexo anal e por isso são mais suscetíveis às doenças. “Hoje qualquer ser humano com vida sexual ativa pode ter um comportamento sexual de risco. Por receio de ouvir o “não”, alguns homossexuais omitem a orientação sexual na hora da coleta. É o caso de Pedro (nome fictício), que considera o processo de doação de sangue preconceituoso. Ele tem parceiro fixo e diz que sempre usa camisinha nas relações sexuais. Pedro afirma que “a omissão é um mal necessário ao bem do próximo” e diz que doa sangue com a consciência tranquila, pois preza pela saúde antes de tudo. Por outro lado, há quem não queira omitir informações e prefere não doar sangue por discordar da legislação. É o que faz João Lucas de Moraes, bancário, 24 anos. “Não doo sangue por não concordar com a lei e não acho justo ter que negar quem eu sou para fazer o bem ao próximo”, afirma. O professor Mário Ângelo alerta para os males que a legislação atual pode causar ao reforçar o estigma de um grupo específico: “Quando o conceito de grupo de risco era vigente, as pessoas que não se enquadravam nele se sentiam livres da possível contaminação, o que fez o número de casos de aids crescer entre homens e mulheres heterossexuais, por exemplo”. O especialista garante que as

CONSEQUÊNCIAS

de risco” por “comportamento sexual de risco”, já que se adequa melhor à realidade sexual. “Pessoa com vários parceiros que não use preservativos, por exemplo, pode ser contaminado por alguma DST e isso não tem nenhuma relação com a orientação do indivíduo.”

Legislação que rege doação de sangue dá margem a condutas discriminatórias contra homossexuais

COLETA RESTRITA

PRECONCEITO

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Silas Amadeu conseguiu doar por duas vezes. Na terceira, foi barrado após perguntarem sobre a sua orientação sexual

dias, o que torna o processo de doação ainda mais seguro. O pensamento, porém, não anda na mesma velocidade que a tecnologia. Isso porque em diversos países ainda vigoram leis que foram criadas nas décadas de 80 e 90, quando o vírus HIV explodiu como ameaça e estava intimamente relacionado à figura do gay como principal vítima do vírus HIV. Em Portugal, por exemplo, homossexuais não podem doar sangue desde 2009. No Canadá, é necessária abstenção sexual de cinco anos para o doador ser considerado apto à coleta. , o Reino Unido aboliu a lei que proibia os homossexuais de doar em 2011. Para Chyntia Barcellos, o Brasil é tão contraditório quanto a lei em questão. “Como um país que é referência mundial em políticas públicas de enfrentamento e conscientização sobre as DSTs pode

Linniker Conrado não teve o sangue coletado , apesar de afirmar que mantinha uma relação sexual segura com o namorado

AVANÇOS E RETROCESSOS

Mário Ângelo defende que a tecnologia existente hoje não justifica ações tão invasivas em relação à orientação sexual do indivíduo. Além disso, ele acredita que o foco do Ministério da Saúde deve ser ampliar e intensificar a educação sexual e conscientização de toda a sociedade, pois a prática do sexo sem camisinha em relacionamentos heterossexuais e a vulnerabilidade social da mulher ao negociar o uso do preservativo dentro do casamento são fatores que potencializam a propagação de DSTs. Um dos avanços mais notáveis na tecnologia médica é o uso do Teste de Ácido Nucleico (NAT, em inglês) no Brasil. Esse exame diminuiu a “janela imunológica” (tempo necessário para detecção de vírus em exames) da aids e da hepatite C, que era de 30 e 60 dias, respectivamente, e hoje é de dez

E é um equívoco considerar que apenas os homossexuais praticam sexo desta maneira.” O professor explica que o ministério trocou o termo “grupo

uma. Chyntia Barcellos preside a de Goiás e assumirá em novembro deste ano a Comissão Nacional de Diversidade Sexual da OAB. “Eles querem apenas exercer um direito

restringir a liberdade dos cidadãos desta maneira?”, questiona. A advogada assumirá em novembro deste ano a Comissão Nacional de Diversidade Sexual da OAB e tem como principal meta debater com o Ministério da Saúde uma maneira de adequar a legislação brasileira sem diminuir a segurança necessária à coleta sanguínea. Os especialistas concordam que uma legislação menos ambígua pode ser mais eficaz. Isso impediria, por exemplo, a omissão por parte dos doadores e evitaria que se repita o episódio retratado pelo programa Custe o que Custar, da TV Band, que foi ao ar em 11 de junho de 2012. Naquela ocasião, um homem se passou por gay,que vivia em união estável, e não conseguiu doar sangue. Já uma mulher que praticava sexo anal pôde, sob o argumento de estar em um relacionamento estável.

Por discordar da legislação, João Lucas nunca tentou doar sangue. Para ele, não vale a pena omitir informações para praticar o ato

Jhésycka Vasconcelos

regras não devem ser baseadas em preconceitos infundados e que a orientação sexual não é medida de segurança quando o assunto é a prática sexual.

Camila Menezes


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ABUSO

INIMIGO ÍNTIMO

Denúncias de maus-tratos contra idosos no DF aumentam três vezes em um ano. Agressores são parentes em 85% dos casos Alessandra Azevedo Marina Carlos

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enunciaram, tentaram acordos e fizeram até macumba. Nada adiantou”, conta Reginaldo Gomes, que acompanha o drama vivido pela tia há dois anos. Em uma casa no Gama, região administrativa do Distrito Federal, moram ela, hoje com 68 anos, e quatro filhos. Reginaldo afirma que Antônio, o mais velho, a quem os traços autoritários renderam o apelido de Capitão, agride a mãe desde que se mudou para lá, em 2011. “Ele não apenas xinga, como já a empurrou e bateu nela”, desabafa. Foi em 2012, com agressões recorrentes, que a família levou o caso à polícia. No mesmo ano, a Central Judicial do Idoso (CJI), órgão vinculado ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), recebeu outras 2.088 denúncias de violência contra idosos no DF. Isso significa um aumento de 328% em relação a 2011, que teve 487 registros. Em 85% das ocorrências, os agressores são filhos, netos ou outros parentes da vítima – e, em 80% dos relatos, moram na mesma casa. Segundo a família, Antônio é usuário de drogas desde 1985, quando tinha 14 anos. A irmã mais nova, mãe de dois filhos, acredita que o vício piora o comportamento agressivo: “Ele já chegou a fazer ameaças de morte quando estava drogado”, conta. Para a psicóloga do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) Miriam de Araujo, é comum

encontrar situações parecidas. Ela afirma conhecer histórias de muitos adultos que agridem os pais por envolvimento com drogas ilícitas ou álcool. “No Creas, a gente atende muitos tipos de violações, inclusive físicas. Quando isso acontece, encaminhamos para a delegacia e para a CJI”, explica. Para o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Vicente Faleiros, as agressões, muitas vezes, se devem à falta de controle observada em dependentes químicos. Ele destaca, ainda, outro fator que causa violência: a necessidade de dinheiro para sustentar o vício. “Disputa pelos bens da família também pode ser motivo para agressões”, acrescenta Faleiros. A CJI aponta que, em 16,27% dos casos relatados no país, a violência é financeira – quando os bens do idoso são usados de maneira imprópria, sem o consentimento dele. Reginaldo lembra que, em 2011, a tia, então com 66 anos, foi internada com problemas no coração devido aos maus-tratos sofridos em casa. O episódio resultou em uma cirurgia de emergência e 22 dias no hospital. “Antônio dizia estar doido para que ela morresse, pois assim poderia ficar com a casa”, declara o primo, revoltado. Coordenadora-geral dos Direitos do Idoso da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), Neusa Pivato atribui o aumento das denúncias à instalação do módulo do idoso no Disque

Reprodução

Homem velho com a cabeça em suas mãos, de Van Gogh. 1882

Direitos Humanos (Disque 100). Desde 2009, o serviço permite que qualquer cidadão comunique, pelo telefone, casos de violência contra pessoas de idade avançada, sem que seja necessário se identificar. “Em 2011, esse sistema foi muito divulgado, o que justi-

fica o número expressivo de denúncias”, acredita Neusa. Quando alguém liga para o Disque 100, o relato passa primeiro pela SDH, que analisa o tipo de abuso. Se houver agressão física, é encaminhado diretamente para a Polícia Civil. Outras situações, como

violências financeira e psicológica (insultos, ameaças e outros tipos de gestos que afetam a autoestima), são investigadas pelo Ministério Público. É muito raro recebermos acusações mentirosas”, garante Neusa. Depois de confirmado, o caso vai para os centros de


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SURPRESA NOS ABRIGOS

assistência social, que adequam o atendimento de acordo com a situação. Existem 79 delegacias e centros especializados em atendimento à população idosa no Brasil, mas nenhum deles se encontra no Distrito Federal. Por isso, no DF, as ocorrências devem ser feitas em delegacias comuns, onde os idosos não têm prioridade. Devido à falta de direcionamento, eles podem ser deixados por último ou até esquecidos, o que explica a necessidade de locais específicos. De acordo com a SDH, membros da família raramente apontam os maus-tratos. Isso ocorre porque eles se responsabilizam pela educação dada ao agressor – quando o próprio filho ou neto age de maneira violenta, o idoso sente culpa e vergonha, o que dificulta que ele vá até a polícia. A vítima, por não querer perder o laço familiar com o parente que a agride, muitas

vezes não o denuncia, mesmo que tenha consciência da gravidade do problema. “Há um medo de que a denúncia demonstre fracasso na relação”, explica Faleiros. “Ver um filho ser condenado é difícil para os pais.” As acusações costumam ser feitas por pessoas próximas, como amigos ou vizinhos, que observam mudanças no comportamento. Durante três anos, em Santo Antônio do Descoberto, no Entorno do DF, as agressões sofridas por uma senhora foram testemunhadas pela vizinhança. O morador da casa em frente conta que desde 2009, quando tinha 10 anos, o neto “batia, dava murro e jogava pedra na avó”, de 80. Apesar dos constantes avisos dados pelos vizinhos, o pai, que morava na mesma casa, não impedia as agressões. “Ele é o próximo. Se o menino faz isso com a avó, quando o pai ficar velho, também vai sofrer”, prevê o vizinho, que pediu para não ter o

nome revelado. Um conhecido da família conta que todos os moradores do local sabiam dos conflitos, mas ninguém denunciou. “Eu já tinha discutido com ele por causa disso, não quis mais entrar no meio”, justifica. Segundo Faleiros, o ditado “em briga de marido e mulher não se mete a colher” também cabe nessas relações: as pessoas não querem se envolver em casos familiares, ainda mais quando há consequências policiais ou na justiça. Apesar de o processo ser sigiloso, o agressor pode deduzir quem fez a denúncia, o que abre margem para brigas. É uma responsabilidade que as pessoas nem sempre estão dispostas a assumir. Histórias como essa ilustram a necessidade de se discutir temas como o envelhecimento. Segundo Neusa, a exposição na mídia, centrada em pessoas jovens, dá uma imagem distanciada dos idosos para as crianças.

Quando um idoso é agredido, o governo tem a opção de encaminhá-lo a um abrigo. É o que explica o secretário Especial do Idoso do Distrito Federal (SEI-DF), Ricardo Quirino: “Trata-se de albergues, casas de passagens, residências inclusivas e casas lares”. O Campus entrou em contato com oito dos 14 asilos do DF. Em apenas dois há relatos de idosos amparados por terem sofrido agressão física em casa. Enfermeira da Comunidade de Renovação Esperança e Vida Nova, conhecida como Lar do Idoso, em Planaltina, Raiane Formiga conta que, no último ano, foram abrigados cinco idosos que haviam passado por esse tipo de violência. O Lar Francisco de Assis, no Núcleo Bandeirante, afirma amparar, atualmente, dois. Nos outros asilos, a resposta mais ouvida foi: “Aqui não tem nenhum caso desses”. Também foram encontrados relatos de famílias que deixam os idosos em abrigos durante o dia, enquanto trabalham. Na Associação São Vicente de Paulo, em Taguatinga, a funcionária Maria do Carmo conta que isso acontece principalmente pelo medo da família de agressões por parte dos cuidadores. A preocupação tem fundamento: de acordo com a Secretaria de Direitos Humanos, esses profissionais

estão em terceiro lugar na lista dos que mais agridem idosos – perdem apenas para filhos e outros parentes. No entanto, foi percebido que casos assim são exceção – o mais comum é o abandono definitivo. No Lar São José, em Sobradinho, que abriga 44 idosos, essa é a realidade de pelo menos 30. É o que afirma a psicóloga Julliana Rodrigues, que trabalha na casa há um ano: “A maioria veio porque já sofreu violência psicológica ou porque a família não tem condições financeiras para cuidar”. De acordo com Raiane, o contexto é parecido no Lar do Isoso de P lanaltina. Lá, as visitas de parentes são acontecimentos raros. “Ninguém tomava conta deles. Por isso foram deixados aqui”, explica. Além do abandono, a tentativa de contato com abrigos expôs o silêncio que envolve a questão da violência contra idosos no Distrito Federal. Apesar de o número de denúncias ter aumentado mais de três vezes de 2011 para 2012, nota-se que o assunto ainda é tratado com ressalvas e é, muitas vezes, ignorado, até mesmo pelas casas de acolhimento. De acordo com os dados obtidos, as vítimas das mais de 2 mil denúncias registradas no ano passado não estão nos abrigos. Ainda são desconhecidas informações sobre quantos idosos que sofrem maus-tratos continuam em casa, e a respeito da punição ou afastamento dos agressores.

"A denúncia é a ponta de um iceberg, de uma realidade profunda que não aparece" Vicente Faleiros, vice-presidente da SBGG


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FOTOGRAFIA

HUMANS OF SOMEWHERE

Registros de pessoas comuns em cidades de todo o mundo, com legendas sobre cada uma delas, são fenômeno em páginas da internet Hermano Araújo

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magine que você está no lugar mais movimentado da sua cidade. Ao redor, centenas de pessoas caminham. Algumas com pressa, outras com passos relaxados. Você para e começa a observálas. Cada rosto conta um caso. Cada movimento, um mistério sobre o dia que estão tendo. Você percebe, então, que todos à sua volta têm histórias tão vívidas e intensas como a sua. Por algum motivo, elas te chamam tanta atenção que você sente como se precisasse registrá-las e age: “Oi, posso tirar uma foto sua?”. Agora você pode estar muito perto de ser um sucesso na internet. Em novembro de 2010, o fotógrafo norte-americano Brandon Stanton teve a ideia de construir um catálogo de pessoas de Nova York. Ele saiu para fotografar desconhecidos com a meta de distribuir no mapa da cidade pelo menos 10 mil habitantes que lhe chamassem atenção. Em algum momento, no entanto, o projeto que ele intitulou Humans of New York (HONY), Humanos de Nova York, em tradução literal, foi agregando características diferentes.

Marco Massa, Humans of Rome “A foto do homem tocando flauta foi o ponto de virada. Foi a primeira vez em que alguém me contou toda sua vida.” Roma/ Julho de 2012

Durante a abordagem, Stanton começou a coletar citações que surgiam nas conversas e histórias curtas que as pessoas contavam de suas vidas: crianças e seus planos incríveis para o futuro, uma idosa e as palavras que o marido proferiu antes de morrer, pedidos de casamento e conselhos sobre a vida. São histórias que nocauteiam por serem rápidas como o tempo da internet e profundas como são as vivências humanas. Brandon Stanton tem, hoje, mais de 1,5 milhões de curtidas no Facebook, 30 mil seguidores no Twitter e uma seleção de fotos de HONY recém publicada em um livro de mesmo nome. Sobre o sucesso dessas histórias na internet, o fotógrafo italiano Marco Massa comenta que nunca antes viu estranhos de maneira tão sem filtros. “O melhor aspecto de retratos de pessoas tirados nas ruas é que são sempre novos e únicos e, ao mesmo tempo, sempre familiares. Outras pessoas podem contar vivências muito parecidas, porque são reais, comuns”. Massa criou, em abril de 2012, a página Humans of Rome. Inspirado no formato lançado por Brandon Stanson, ele sai às ruas de Roma à procura de humanos e de boas narrativas. “Ando aleatoriamente, aproveitando meu tempo na cidade. Pode ser um momento bacana, uma cor ou uma pessoa que parece ter algo para contar – a qualquer instante que algo me chama a atenção, paro e peço uma foto.” A página italiana tem mais de 46 mil curtidas e não é a única iniciativa do tipo na Europa. Na França, dois amigos

de escola gerenciam Humans of Paris. A ideia é a mesma: “As pessoas querem ver como é a vida em cada cidade. É exatamente isso que fazemos mostrando os rostos de Paris”, conta Eytan Levi, um dos administradores. Levi e Marco Hazan, seu parceiro, têm 76 mil curtidas e apenas 16 anos de idade. Os garotos dizem se surpreender com as reações das pessoas às imagens. Certa vez postaram o retrato de uma garota que encontraram em um festival de moda. No Facebook, muitos comentaram sobre ela ser demasiadamente magra, levantando hipóteses de que devia estar doente. Em certo momento, Teddy Quinlivan – a menina – surgiu nos comentários da publicação para se defender. “Eu não poderia ter um transtorno alimentar nem se tentasse, gosto muito do Duplo Cheeseburguer do McDonalds”, retrucou. Por toda a situação, Eytan considera essa foto sua preferida. “O comentário dela teve 174 curtidas. Pra mim, a forma como ela reagiu foi incrível e, por isso, eu provavelmente não vou esquecer nunca essa imagem e a história por trás dela.” Na Europa, além de Paris e Roma, Amsterdã (Holanda) e Vilnius (Lituânia) têm retratos de seus habitantes publicados em páginas de mesmo formato e número semelhante de curtidas. Mas a ideia percorre outros continentes. Megha Majumder tem 17 anos. Nasceu e mora em Nova York, mas passa suas férias com familiares em Calcutá, na Índia. Confessa nunca ter feito aulas de fotografia e sequer acredita que um dia

fará. Megha comenta ter se apaixonado por uma palavra que afirma nortear o Humans of India, página que fundou no Facebook: sonder. Não há tradução para o português, mas significa a percepção de que todo passante aleatório vive de forma tão intrigante e complexa quanto você. “Sonder ampliou minha consciência – as pessoas não são mais apenas estranhos. Todas as vezes que conheço alguém, me apaixono um pouquinho”, diz Megha. NO BRASIL De fato, o formato Humans of se espalhou pelo mundo. A maioria das páginas, no entanto, ou são descontinuadas ou têm frequência de postagem irregular e pequena. No Brasil, existe um projeto diferente, mas que trata da mesma essência: humanos. A fotógrafa paulista Camila Svenson clicava pessoas na rua sem pedir. Começou a chamar as fotos de “achados humanos”. Mais tarde, passou também a abordar as pessoas e conferir suas reações. Para Camila, o comportamento surpreende e fala talvez mais que conhecer as pessoas fotografadas. Sua imagem preferida é também o primeiro achado humano que colocou no Facebook. Mostra uma criança na praia. “Ela não falou nada, mas o jeito que ela posou... supertímida, como quem está desconfortável com o corpo”, relembra. A respeito do sucesso de páginas como HONY, Camila comenta que é uma ideia inesgotável. “Cada pessoa é um miniuniverso. E todos os lugares estão cheios de humanos para serem fotografados.”

Eytan Levi, Humans of Paris: “Ela apareceu como um raio, do nada, falou muito pouco e sumiu entre as pessoas. Mas foi de tirar o fôlego” Paris/ Setembro de 2013

Camila Svenson, Achados Humanos: “Posso tirar uma foto da sua filha?” “Sim, mas por quê?” “Porque ela tem o maiô mais incrível do mundo” Nova York/ Julho de 2011

Campus - nº 404, ano 43  

Edição 404, ano 43, de Campus, de 29-10 a 04-11 de 2013

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