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Kelsiane Nunes

Campus

Brasília, 18 a 24 de dezembro de 2012 Número 388 Ano 42

Medo na comunidade kalunga Quilombolas de Goiás suspeitam que mercúrio contaminou o rio Paranã. Morte de peixes e problemas de saúde assustam moradores como Adaelson (foto) Educação em família

Preconceito revelado

Sarau une rock e poesia

Pais e pedagogos lutam pela regulamentação do ensino domiciliar no Brasil (pág. 6)

Número de denúncias de injúria racial aumenta quatro vezes em Ceilândia (pág. 7)

Evento cultural abre espaço para músicos e artistas independentes de Brasília (pág. 8)


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Campus | Brasília, 18 a 24 de dezembro de 2012

Carta da Editora Elis Tanajura Nesta edição, o Campus escalou duas repórteres para ir à comunidade quilombola dos kalungas, situada entre os municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre (GO). Com um parente que conhecia a região, máquina fotográfica e bastante disposição, a dupla procurava pela região alguém que quisesse conversar sobre a suspeita de contaminação das águas por

mercúrio devido a mineração do ouro. Contudo, ali o silêncio parecia ser regra. Nos hospitais, nos postos de saúde, no município. Não demorou muito para que as repórteres fossem alertadas: “Não andem sozinhas por aí, vocês estão perguntando demais”. Há diversos interesses no garimpo e não se sabe ao certo a extensão desse poder. Mineradoras exploram ouro na área desde o século 18, mas, lembram os kalungas, a comunidade não é beneficiada.

Ainda assim, alguns moradores crêem no desenvolvimento da região por meio da extração legal. Com tanto assunto para falar, o Campus faz uma exceção e abre três páginas para abordar o tema – que, entretanto, não se esgota. Na reportagem, a dupla conta como a possível contaminação pelo mercúrio das águas do rio Paranã, utilizado diariamente na pesca, lavagem de roupas, banho e consumo, pode prejudicar essas comunidades. Não menos polêmica, a re-

Ombudsman* Tiago Amate A nova cara do Campus é bonita e traz poucas novas. Na edição 387, promessas de “outro lado para cada história” recaem no chavão. Apesar de belas imagens, algumas matérias sobre o cotidiano do DF deixam a desejar nos pontos de vista. A vida não é uma bolacha de dois lados como pintam por aí. Jornalismo e maniqueísmo rimam, não combinam. Na página 2 o Campus fala de si mesmo. Uma louvável e in-

portagem sobre educação domiciliar questiona a legislação brasileira relativa ao tema que prevê a matrícula obrigatória de crianças a partir de seis anos no ensino fundamental. Em outros países, pais podem educar ou contratar instrutores para ensinar seus filhos em casa, mas no Brasil essa prática é proibida. Também não deixamos de fora o aumento dos casos registrados de injúria racial em Ceilândia - o maior índice do Distrito Fede-

ral. A reportagem mostra as razões desse crescimento e as formas usadas para combater esse tipo de violência, como por meio do movimento negro e hip hop da cidade. E, por fim, a página8 traz olhar da cena underground brasiliense através de Cida Carvalho e seu sarau psicodélico. Com esta edição lembramos que o jornalismo tem papel fundamental na mudança da sociedade. É por meio de denúncias e questionamentos que há transformação.

*Termo sueco, que significa “provedor de justiça”, discute a produção do jornal a partir da perspectiva do leitor.

teligente alteração na Memória lembra Niemeyer. Já a Carta do Editor não parece boa opção para um jornal de oito páginas. Cuidado para não transformá-la numa conversa direta com o ombudsman, justificando as escolhas da redação. Talvez essa fosse a chance de contar o que repórteres vivem e infelizmente não vai ao papel. Fotografia impecável marca Catadores ficam de fora. Matéria chama atenção para descaso do Estado e falta de emprego. Logo a arena se arma para digladiar opi-

niões: representante dos catadores versus governo. Nenhum catador é a favor da mudança, mesmo trabalhando em condições desumanas hoje? Aliás, que condições desumanas são essas? O leitor fica sem saber o que seria o ideal para trabalhar num lixão e é levado a acreditar que os problemas apenas mudarão de lugar. Mais zelo na hora de identificar fontes e falas. Acima da Média é bem resolvida ao criticar a falta de infraestrutura do programa para alunos superdotados,

mas relega ao discurso indireto a explicação do governo. Afinal, por que nada será feito? Problemas de clareza no texto não tiram o mérito de Sem ter para onde correr. O enfoque destaca o caráter cumulativo do problema de alagamentos em Brasília. Fotos fazem falta na hora de ilustrar os estragos. Eles têm direitos resolveu falar sobre dois temas delicados: reforma no código penal e direito animal. As boas intenções se perdem na menção de acusações sobre um canil cujos donos não são ouvi-

dos. Faltou clareza para explicar a legislação ambiental. A página 8 que virou “espaço para livre criação” corre risco ao abrir espaço para a publicação de fracos artigos de opinião. Não é o caso de Marionetes do Governador, que levantou dados e criou identificação popular nos argumentos. Ademais, é uma pena que as equipes do Campus ainda tenham medo de arriscar. Leves alterações no projeto editorial fazem da nova cara muito do mesmo.

Memória As edições 75 e 76 do Campus, de junho de 1985, trouxeram uma reportagem sobre identidade étnica de uma população de negros na comunidade de Mesquita, a 40 km do Plano Piloto. A princípio, imaginou-se que a comunidade provinha de um quilombo, composto por escravos fugidos. No entanto, segundo pesquisa desenvolvida por aluno de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), constatou-se que a população de Mesquita teve origem na mineração.

Acesse www.fac.unb.br/campusonline e conheça o jornal laboratório virtual da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília.

Expediente: Campus Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília Editora chefe: Elis Tanajura; Secretária de redação: Celina Guerra Editores: André Vaz,

Ezequiel Trancoso, Lucas Vidigal e Camila Rodrigues; Repórteres: Iasminny Thábata, João Paulo Cabral, Fellipe Bernardino, Kelsiane Nunes e Laila Leite; Diretor de imagem: Ivan Sasha Stemler; Fotógrafos: Isabella Corrêa; Paulo Figueiredo Júnior e Kelsiane Nunes, Diagramadores: Lorena Soares, Irina Adão e Ivan Sasha; Projeto gráfico: Celina Guerra, Ivan Sasha Stemler, Lorena Soares, Rafaela Lima, Ramilla Rodrigues e Vanessa Arcoverde, Professores: Sérgio de Sá e Solano Nascimento, Jornalista: José Luiz Silva Gráfica: Palavra Comunicação Tiragem: 4 mil exemplares Campus Darcy Ribeiro, Faculdade de Comunicação, ICC Ala Norte. Contato: 61 3107-6498/6501 CEP: 70.910900 E-mail: campus@unb.br Diagramação: Lorena Soares e Irina Adão


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Kalunga

Desconfiança dos quilombolas Kalungas relatam problemas de saúde que atribuem ao garimpo. Suspeita põe em alerta prefeitura de Cavalcante, e UnB faz pesquisa reservada para verificar se há contaminação Kelsiane Nunes

Kelsiane Nunes Laila Leite Dominga Ferreira de Oliveira, 60, mora em uma casa de barro e sapé no Vão de Almas, uma comunidade kalunga. Atualmente ajuda a filha grávida a cuidar dos netos enquanto o genro trabalha na roça. Há tempos ouve histórias de pessoas que têm alguma ligação com o garimpo e começaram a se sentir mal. Um amigo próximo já foi várias vezes ao médico, e não melhorou. “Tá ruim que só.” Esses relatos estão deixando a comunidade atemorizada. “A gente fica com muito medo de adoecer”, explica Dominga, enquanto ajeita o cabelo. O território dos descendentes de escravos, que tem o nome de Kalunga, é considerado um sítio histórico. Fica a nordeste do estado de Goiás, dentro dos municípios de Cavalcante, Monte Alegre e Terezinha de Goiás, e abriga cinco comunidades remanescentes de quilombolas: Vão de Moleque, Ribeirão dos Bois, Vão das Almas, Contenda e Engenho II. Há cerca de duas décadas a região recebe constantes visitas de grupos de pesquisadores e turistas interessados em conhecer as riquezas naturais e culturais da região. Além disso, organizações não governamentais, organismos internacionais e o governo federal passaram a fornecer subsídios financeiros para melhorar a agricultura, saúde e educação das comunidades. Há aproximadamente três meses, moradores de Vão de Almas e Vão de Moleque buscaram o líder da Associação Kalunga de Cavalcante, Florentino Xavier da Silva, para relatar casos de morte de peixes

Dominga Oliveira (à esquerda) teme ficar doente por causa da possível contaminação do rio: “Precisaria ir à cavalo até a cidade para me tratar”

no rio Paranã, que corta o sítio histórico. No segundo mandato como chefe da entidade, Silva demonstra preocupação. “Os kalungas vivem contaminados há muito tempo”, afirma Silva. “Estão matando os peixes e certamente podem matar a gente.” Ele suspeita que o rio esteja contaminado por conta da recorrente utilização do Paranã para atividades de garimpo. O sub-secretário do Meio Ambiente de Cavalcante, Roberto Massarra, afirma que há diversos relatos de moradores da região vítimas de

contaminação. “Apesar de não ter comprovação científica, há muitos casos de doenças de pele que são relacionados à contaminação”, afirma. O rio Paranã faz parte do cotidiano dos kalungas, principalmente os que moram nas comunidades de Vão de Almas e Vão do Moleque. “Os peixes são consumidos pela comunidade e são a principal forma de sobrevivência da população”, conta Sirilo Rosa, presidente da Associação Quilombo Kalunga. Moradora de Engenho II, Eva Sirléia dos Santos, 20, faz visitas esporádicas às comuni-

dades que margeiam o rio Paranã. Ela conta que, além do uso para alimentação, os kalungas utilizam o rio para lavar roupa, vasilhas e tomar banho. “Eles utilizam o Paranã pra tudo.” Doutoranda em Enfermagem pela Universidade de Brasília (UnB), Débora Gurgel investiga as condições sanitárias de kalungas desde 2010. A ideia é, ao final do estudo, sugerir alternativas para melhorar essas condições. Durante o levantamento, a pesquisadora ouviu relatos da comunidade que podem indicar contaminação da água. Ela

enfatiza, no entanto, que são necessários estudos mais detalhados para averiguar se realmente os sintomas relatados estão relacionados à qualidade da água. “Vamos fazer uma relação de causa e efeito”, diz. Há exames agendados para janeiro, mas a pesquisadora não dá detalhes porque o estudo é tratado em caráter reservado dentro do Departamento de Enfermagem. “Há a suspeita de contaminação”, confirma o professor Pedro Sadi Monteiro, orientador da pesquisa. “Não podemos falar sobre isso.”

Edição: André Vaz

Diagramação: Ivan Stemler


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Kalunga

Mercúrio é o principal sus

Possível presença do metal do rio Paranã, fonte de sustento de comunidades kalungas, põe Cardes Amâncio/Rota do Sal

Kelsiane Nunes Laila Leite A relação dos kalungas com ouro é antiga. Segundo Aline Cântia e Leonardo Boloni, autores da publicação Projeto Brasil Quilombola, a história destes descendentes de escravos remete ao século 18, quando Bartolomeu Bueno e João Leite da Silva, atraídos pelo ouro, deixaram o litoral do Brasil e iniciaram a colonização do nordeste de Goiás. O minério em abundância trouxe a escravidão para a região e as consequências da mineração perduraram ao longo dos anos. Antes escravizada, hoje, a comunidade vive insegura por conta de uma possível contaminação por mercúrio, oriunda de atividades garimpeiras, que acontecem de tempos em tempos na região. Garimpo, grilagem de terra e exploração do território clandestinamente são as principais preocupações destacadas por Sirilo dos Santos Rosa, presidente da Associação Quilombo Kalunga, responsável pelas comunidades de Engenho II, Vão de Moleque e Vão de Almas.

Dragas O presidente da Associação Kalunga de Cavalcante, Florentino Xavier da Silva, 66, afirma que é comum encontrar garimpos na região e que, mesmo sabendo dos riscos, muitos membros da comunidade aceitam trabalhos na mineração. “O kalunga é que nem índio, tem hora que eles ajuntam com gente de fora a troco de mínimas coisas”, relata Silva.

Dragas, as embarcações que tiram a areia do fundo do rio em busca de ouro, são vistas com frequência no local

Recentemente, segundo informações da Secretaria de Meio Ambiente de Cavalcante e do presidente da Associação Kalunga, a Polícia Federal de Goiás dinamitou dragas, embarcações utilizadas na extração de ouro, que estavam espalhadas na bacia do rio Paranã, perto das comunidades Vão do Moleque e Vão de Almas. Silva encaminhou a denúncia junto à secretaria e ao presidente da Associação Quilombo Kalunga, Sirilo dos Santos Rosa. O sub-secretário do Meio Ambiente de Cavalcante, Roberto Massarra, informou que o córre-

go Lava Pés, que corta a cidade de Cavalcante, foi contaminado pela mineradora Penery. “Este córrego está contaminado pela mineração, a água usada na mineradora ia direto para ele”, relata o nativo da região Vilmar Soares da Costa, 51. Geraldo Macedo, engenheiro da Penery em Goiânia, disse ao Campus que a empresa comprou a mineradora nos anos 1990 e que a contaminação ainda não foi comprovada. “Nós iremos drenar a água para comprovar a existência de mercúrio, para assim tomar as devidas providências”, explica. A mineradora encontra-se fechada,

mas segundo o engenheiro, há interesse de retorno das atividades.

Regulamentação O mercúrio é utilizado na purificação do ouro extraído em garimpos. De acordo com o professor do Instituto de Geociências da UnB Claudinei Gouveia de Oliveira, 50, o metal separa o ouro de outras substâncias, fixando-se a ele. Dissociado das impurezas, é queimado para deixar o ouro na forma pura. Durante o processo, quantidades variáveis de mercúrio são perdidas na forma metálica

para rios e solos, e rejeitos contaminados são deixados a céu aberto na maioria dos sítios de garimpo, de acordo com Luiz Drude de Lacerda, do Departamento de Geoquímica da Universidade Federal Fluminense (UFF). A utilização do mercúrio na extração do ouro foi regulamentada pelo decreto 97.507/89. De acordo com o decreto, seu uso é controlado e apenas atividades licenciadas pelo órgão competente têm permissão para existir. “As dragas eram clandestinas, havia garimpeiros para todos os lados”, declara Santos. A lei 11.685, de 2008, institui o estatuto do garimpeiro. Segundo a lei, garimpo é a localidade onde é desenvolvida a atividade de extração de substâncias minerais garimpáveis, como o ouro. Essa atividade só pode acontecer mediante a posse de título minerário, que é outorgado pelo Departamento Nacional de Produção Mineral. Além disso, o decreto 97.632/89 obriga os responsáveis pelo garimpo a realizarem a recuperação das áreas degradadas pela atividade. Apesar das consequências, alguns kalungas e moradores de Cavalcante vêem na mineração a esperança de progresso. “Temos muito minério, queria que fosse explorado em prol do desenvolvimento, mas que corrigissem os erros e fizessem tudo dentro da lei”, comenta o presidente da Associação Kalunga de Cavalcante, Florentino Xavier da Silva. Por outro lado, há ainda aqueles que temem a ação de grandes empresas. “Esse povo vem, tira o que é bom e deixa só as coisas ruins, por isso a revolta dos kalungas”, afirma Luiz Henrique da Silva Moreira, 23, morador de Cavalcante.


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speito por contaminação

e em risco a qualidade da água. Denúncias de garimpos ilegais são frequentes na região

Os efeitos no organismo Os efeitos no organismo 1

Água e alimentos Água e alimentos

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Vanessa Arcoverde

Apontadas por estudos como a maneira mais comum de contaminação, a ingestão de mercúrio ocorre após o consumo de alimentos e contato com água contaminados Apontadas por estudos como a maneira mais comum de contaminação, a ingestão de mercúrio ocorre após o consumo de alimentos e contato com água contaminados

Mercúrio líquido e vapor de mercúrio líquido e vapor mercúrio OMercúrio mercúrio entra em contato comde a pele e vias respiratórias

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O mercúrio entra em contato com a pele e vias respiratórias

A contaminação pode ser aguda ou crônica A contaminação pode ser aguda ou crônica Crônica: quando há um tempo longo de exposição ao mercúrio Tratamento: depende sintomas, que ade lesão já está instalada Crônica: quandodos há um tempojálongo exposição ao mercúrio

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Tratamento: depende dos sintomas, já que a lesão já está instalada

Aguda: quando há uma proporção elevada de mercúrio no corpo Tratamento: utilizados quelantes, que sequestram os íons metálicos, formando Aguda:são quando há uma proporçãoantídotos elevada de mercúrio no corpo

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quelatos que possibilitam sua eliminação organismo Tratamento: são utilizados quelantes,pelo antídotos que sequestram os íons metálicos, formando quelatos que possibilitam sua eliminação pelo organismo

Metal causa danos a saúde O grande problema da utilização de mercúrio em garimpos de ouro é a ação que derivados do metal podem desenvolver dentro do organismo humano. Doutora pelo Centro de Informação Toxicológica e professora do Instituto de Medicina da Universidade de Brasília (UnB), Andréia Amoras Magalhães explica que quando há alta concentração de mercúrio no organismo o indivíduo pode desenvolver distúrbios. “Doenças renais, lesões ou inflamações no encéfalo e alterações no sistema nervoso central estão entre os

efeitos do mercúrio”, afirma. Existem duas formas de intoxicação por mercúrio ocasionadas por atividades garimpeiras, a ocupacional e a ambiental. “A primeira é mais conhecida e está ligada ao ambiente de trabalho, como a mineração”, diz Andréia. A contaminação ambiental, por sua vez, “é provocada pela dieta alimentar, comumente pela ingestão de peixes de água doce ou salgada”, conforme os pesquisadores Jurandir Rodrigues de Souza e Antonio Carneiro Barbosa, no livro Contaminação por mercúrio e o caso da Amazônia. Andréia Amoras explica que o aquecimento do mercúrio pro-

duz o metilmercúrio, que pode contaminar o garimpeiro, o solo e os rios pela vaporização e futura precipitação. “A metilação do mercúrio é o passo mais importante para a sua entrada na cadeia alimentar de organismos aquáticos, maiores bioconcentradores desse metal”, segundo Souza e Barbosa. A intoxicação é detectada por exames clínicos e laboratoriais. O diagnóstico clínico analisa os sintomas e os relatos do paciente, enquanto o diagnóstico laboratorial mostra a dosagem de mercúrio, e pode ser obtido pela urina, sangue, unha e cabelo. (KN) (LL)

Edição: André Vaz

Diagramação: Ivan Sasha e Lorena Soares


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Opção

A casa como sala de aula

A educação em casa faz a família repensar suas prioridades”

Famílias brasileiras trocam escolas pelas residências para instruir os filhos. Apesar de antiga, prática não é reconhecida no país Iasminny Thábata Bombeiro por formação, Thiago Lacerda Duarte e a mulher, moradores de Belo Horizonte, optaram por ensinar a filha Maria Luiza, de 4 anos, em casa. A mãe deixou o emprego e começou a se dedicar exclusivamente à educação da menina. “É uma escolha, sobretudo, de amor, cuidado, paciência e muita dedicação. Nossa opção é a de não passar para outra instituição o que é nossa obrigação: educar os filhos”, defende Duarte, que preside interinamente a Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned). Conhecida como educação doméstica ou educação domiciliar, a prática de oferecer aos filhos a instrução escolar em casa é milenar na sociedade. Até o século 19, era comum que crianças e adolescentes recebessem o conhecimento em casa, com pais ou instrutores. Mesmo com o surgimento de escolas, a educação continuou a ser feita dentro do âmbito familiar. No Brasil, pelas estimativas da Aned, cerca de 400 famílias adotam a prática, apesar de ela não ser legalizada. No entanto, os dados são imprecisos por não haver levantamentos oficiais. Fábio Schebella, pedagogo especialista em educação domiciliar e que acompanha diversas famílias no país, estima que há pelo menos mil casos. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê como dever dos pais a efetuação da matrícula de menores, a partir dos seis anos, no ensino fundamental. A mesma exigência é feita pelo Ministério da Educação. Dessa forma, um pai que não faça isso pode ser criminalizado.

Fábio Schebella Pedagogo

Isabela Corrêa

Entre globos, mapas e tabelas personalizados, Pita e Maddy recebem instrução em casa: escola não é opção

A Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned) luta pela regulamentação do ensino domiciliar no país. Uma alternativa é o Projeto de Lei nº 3179, do deputado Lincoln Portela (PR-MG), que tramita na Câmara. Alfabetizado pela avó, Portela quer dar amparo legal a esse tipo de ensino. O PL precisa passar pelas comissões de Educação e Cultura, de Fiscalização Financeira e Controle, e de Constituição, Justiça e Cidadania antes de estar pronto para ir a plenário.

Alexandre Magno Moreira, consultor jurídico, adverte que nem o ECA, nem a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que rege o ensino no Brasil, preveem a realização da educação domiciliar. “Hoje, há pais processados por abandono intelectual”, explica. “Mas a verdade é que quando essas leis foram criadas não se pensou em outra possibilidade de educação que não fosse a escola, por isso não existe uma proibição expressa e os pais dependem de interpretações de juízes.”

Desafios e críticas Segundo Schebella, diversos motivos levam os pais a preferirem a prática. As razões variam entre geográficas, didáticopedagógicas, ideológicas ou religiosas.

Geralmente são famílias de pais que viajam muito – como diplomatas e artistas de circo–, que moram distantes de escolas, que querem ensino personalizado para os filhos, que prezam por ensinamentos ligados às crenças da família ou que não acreditam mais no sistema educativo atual. Ele lembra que a Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que “os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.” Para Duarte, a escolha dos pais é legítima: “Os pais saíram para trabalhar e não têm mais tempo para os filhos. Queremos o direito de escolher entre a instrução formal nas escolas e a instrução em casa.”

Maddy, 6 anos, e Pita, 4, acordam às 7h e antes de saírem do quarto arrumam a cama. Com os pais, diplomatas americanos, e dois irmãos, fazem a oração da manhã e tomam café antes de o pai sair para trabalhar. A mãe, Mary, é quem passa a maior parte do tempo com os filhos. Professora, ela é responsável pela educação e instrução das crianças, que não vão à escola e estudam em casa em sistema de homeschooling. Em casa, as crianças pintam, desenham, fazem mapas, aprendem os fonemas, história, geografia, inglês e português. Maddy, que nunca frequentou escolas convencionais e já sabe ler, entusiasma-se com as possibilidades de estudar em casa. “Gosto daqui porque a gente tem horários diferentes dos meninos da escola e aprende muitas coisas legais”, explica, em inglês. Diferentemente de países como Estados Unidos e Japão, o Brasil não possui material didático específico para pais que querem ensinar os filhos em casa. Muitos optam por acompanhar os livros escolares de determinado colégio ou fazer o próprio material. As críticas feitas aos adeptos do homeschooling são de que as crianças teriam problemas de socialização e de que os pais não estariam preparados para se tornarem tutores dos filhos. Schebella refuta as críticas e explica que em outras situações, que não aquelas geradas pela escola, as crianças se relacionam na sociedade. Quanto ao preparo dos pais, o pedagogo pondera que seria preciso avaliá-los para que mostrem ter capacitação. “Nem todos podem, mas é um equívoco dizer que nenhum pode.”

Edição: André Vaz Diagramação: Lorena Soares


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Preconceito

O rap contra o racismo Paulo Figueiredo

Movimento negro faz denúncias relacionadas a preconceito quintuplicarem em Ceilândia Fellipe Bernardino Ceilândia teve o maior aumento de registros do crime de injúria racial em dois anos. De 2010 a 2012, o número de casos contabilizados pela Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) cresceu de dois para dez. O aumento em cinco vezes foi o maior entre todas as regiões administrativas. Adival Cardoso de Matos, delegado-chefe da Regional Oeste da Polícia Civil, responsável por satélites que incluem a Ceilândia, afirma que o crescimento das ocorrências de crimes de injúria racial não é indicativo de aumento no número de casos, mas de denúncias. “A população de Ceilândia é bem informada a esse respeito. Há ali movimentos sociais que pregam a não aceitação desse tipo de crime. Lá, as pessoas têm denunciado mais que em outras regiões”, afirma. Rafael Nunes, membro do movimento Enegre Ser, também acredita que as denúncias aumentam, em grande parte, graças às ações do movimento negro local. Para ele, existe na Ceilândia uma “atmosfera de pertencimento racial” ligada à ação de grupos focados na temática dos direitos dos negros. Por causa disso, há mais denúncias de crimes raciais. “Com tantos grupos organizados e a força do movimento hip hop local temos a oportunidade de colocar o debate na ordem do dia, no cotidiano de muita gente”, afirma.

Um dos meios mais importantes usados por movimentos negros para atingir jovens da região é o rap. Só em Ceilândia, estima-se mais de 300 grupos de rap em atividade. Roberto Barbosa, conhecido como Beto, é militante de movimentos locais pelos direitos dos negros e rapper desde 1997. O filho Robert, rapper no grupo infantil Som de Criança, já foi chamado de “macaco” enquanto brincava com colegas. Barbosa acredita que o crescimento das denúncias se deve a mais acesso à educação formal, que agora é realidade em Ceilândia. “Com mais esclarecimento, o cidadão percebe que não precisa aceitar certas ofensas”, diz. Iubiragibe Feliciano confirma a opinião de Barbosa. O responsável pela gravadora Candelabro diz que depois de ter ingressado no curso de Direito no Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), em Ceilândia, a polícia nunca mais entrou na empresa sem mandado judicial, como já aconteceu. Agora ele exige o documento antes das ações. A gravadora de Feliciano recebe, em média, seis grupos de rap de todo o Distrito Federal por dia para gravações de álbuns. “Se havia batidas policiais aqui era porque pessoas da vizinhança faziam denúncias infundadas”, conta. Grupos de rap se apresentam por bares e casas de festas de toda Ceilândia. Os discursos das músicas ajudam a ilustrar o sentimento de pertencimento racial entre os moradores da cidade que Rafael Nunes, do Enegre Ser, menciona. Joderlan Ferreira, serralheiro que

Injúria racial é o crime de ofensa pessoal a determinado indivíduo ou grupo de indivíduos pela etnia. O crime está previsto no artigo 140 do Código Penal que prevê crimes conta a honra. Ao contrário do crime de racismo, que atinge uma etnia em geral e não é de caráter privado, injúria racial não é crime inafiançável.

O rapper Beto é um dos militantes do movimento negro em Ceilândia

se mudou para a região em 1987 e desde 1988 está no rap, afirma: “Quando fizeram Ceilândia estavam pensando em mim. Aqui também precisava ter um lugar para os inconformados”. Apesar do aumento nos registros, o delegado-chefe da Regional Oeste crê que os dez casos registrados em 2012 são subestimados. Para Matos, os dados são pouco significativos se for levado em conta o tamanho da população local, apesar de ser o maior índice em todo o Distrito Federal durante o ano. O maior impeditivo de denúncias é a dificuldade de se provar o crime. Segundo

Matos, três testemunhas são suficientes para que se abra inquérito. O delegado diz que casos divulgados na mídia incentivam denúncias e que elas aumentam justamente quando há esse tipo de divulgação. Este ano um psiquiatra foi acusado de cometer injúria racial contra uma atendente de cinema em shopping da Asa Norte. Além disso, em Ceilândia houve um caso de uma estagiária que foi chamada de macaca pela chefe e apresentou denúncia. A reportagem do Campus tentou ter acesso aos boletins de ocorrência de injúria racial na cidade em 2012, mas os pedidos foram negados.

400 % Foi o aumento de denúncias de injúria racial em Ceilândia no período de 2010 a 2012.

Edição: Lucas Vidigal

Diagramação: Irina Adão


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Página 8 Perfil

Poetisa do subterrâneo Do emprego no Senado à organização de um festival independente, Cida Carvalho mostra sua devoção à cena underground de Brasília

Paulo Figueiredo

João Paulo Neves Cabral

Isabela Corrêa

O Sarau Psicodélico é um lugar onde artistas, poetas e bandas de rock do Distrito Federal e Entorno encontram a chance de se apresentar facilmente e obterem certa visibilidade na cena cultural de Brasília. É procurado principalmente por bandas iniciantes em busca de shows. Além de o espaço ser aberto para qualquer tipo de rock, o equipamento alugado é de bom nível. Há também a oportunidade de tocar ao lado de bandas experientes e fazer contato com outros músicos, inclusive de outras cidades do DF, já que o Sarau é itinerante. A banda The Barbiras existe há um ano e meio, tocou cinco vezes no Sarau este ano e passou por palcos em Taguatinga, Plano Piloto e Jardim Botânico. Para o baixista da banda, David Almeida, conhecer outras cidades é a maior vantagem. “O mesmo Sarau que acontece no centro do Plano Piloto acontece no Entorno Sul e nas cidades satélites”, afirma ele. O evento surgiu em 16 de março de 2003, como um projeto artístico voltado para promover a produção autoral e independente. Foi criado por Cida Carvalho, ex-funcionária pública que depois de enfrentar problemas de saúde causados pelo estresse, preferiu se dedicar exclusivamente à arte, ao invés de voltar para o Senado Federal. “Estava exausta do trabalho e muito envolvida com minha poesia”, desabafa. “Eles viram que eu não ia voltar e me aposentaram.” Cida enfrentou forte reação dos amigos e da família por ter largado a estabilidade do emprego para se envolver com projetos artísticos. Não teve o apoio de ninguém, nem da família, formada por artistas em sua maioria, nem do marido de quem se separou à época. Muitos parentes também deixaram de respeitá-la, não acreditavam em seu talento. Mesmo assim, ela seguiu firme, sem arrependimentos. “Uma das virtudes que eu admiro muito nela é a perseverança, nunca desistir de seus sonhos, e claro,o Sarau Psicodélico é um dos seus sonhos, um projeto livre, sem pretensão”,afirma o namorado João Torvax.

Confiscando

Davi Kaus, músico e poeta que acompanha o Sarau desde o início, conta que o projeto evoluiu muito desde 2003. Ele considera o Sarau um evento maduro atualmente, com a proposta de misturar música, arte e poesia consolidada e estrutura definida. “Teve um Sarau no Espaço Floresta (locaCida Carvalho lizado na Galeria dos Estados) que aconteceu em dois dias. O primeiro ocorreu bem, não houve problemas. Mas no segundo dia, não rolou o equipamento de som que a Cida tinha alugado. Aí foi uma correria. Todos os músicos se agitaram e o show acabou rolando com o equipamento que as bandas levaram”, conta o músico. “Não vejo isso acontecer mais hoje em dia.” De duas a quatro vezes por mês, Cida gasta aproximadamente R$ 600 com som e decoração. Apenas ela e o namorado organizam os sarais. Nunca tiveram lucro, tampouco fizeram divulgação para além da web ou cobraram uma entrada acima de R$ 10. O dinheiro arrecadado é abatido no valor das despesas e o público presente raramente é expressivo, por isso os artistas não costumam receber ajuda de custo. Desde o início do projeto se passaram quase dez anos e o Sarau Psicodélico está em sua 230ª edição. Já percorreu várias regiões administrativas e algumas cidades do Entorno. Segundo a produtora, cerca de 1200 bandas já passaram pelo evento. Ano que vem Cida pretende concorrer pela primeira vez ao Fundo de Apoio à Cultura (FAC) do GDF para melhorar a estrutura do Sarau.

a minha imaturidade e anseios

Louvai os contos e quadrinhos coloridos Louvai os palcos e a arte porque por ela Somos trazidos à terra e levados para o céu

Edição: Ezequiel Trancoso Diagramação: Lorena Soares


Campus impresso - ano 42 número 388  

Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação (FAC) da Universidade de Brasília (UnB)

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