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Isabella Corrêa

Campus

Brasília, 08 a 14 de janeiro de 2013 | Número 389 Ano 43

Saúde em alerta vermelho Ministério Público investiga mortes de hemofílicos em 2012, dez anos após último registro. Suspeitas recaem sobre mudanças no tratamento da doença Quem chora mama

Imigrantes ilegais

Dinheiro reduzido

Três meses sem RU

Fiocruz aponta Brasília como modelo em coleta de leite humano (pág. 3)

Intercambistas são reprovados em teste e vivem sem visto (pág. 4)

Flanelinhas ganham menos em período de férias e chuvas (pág. 6)

Alunos acham alternativa para alimentação barata na Universidade (pág. 7)


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Carta do Editor Kelsiane Nunes Apesar da melhoria na área da saúde pública ter sido uma das principais bandeiras levantadas pelo atual governador do Distrito Federal, o médico Agnelo Queiroz, ao longo de sua campanha eleitoral em 2010, este é um dos calcanhares de Aquiles da administração do GDF. As denuncias recorrentes na mídia de falta médicos e materiais essenciais para o funcionamento de centros de saúde, servem para ilus-

trar como estão cenário da saúde na capital federal. Na matéria Hemofilia volta a assombrar Brasília, o Campus aborda questionamento do Ministério Público do DF (MPDF) a respeito da mudança no tratamento e no local de atendimento dos pacientes com esta doença pela Secretaria de Estado de Saúde do DF. Mesmo com as alegações do governo de que as mudanças foram necessárias para dar um tratamento mais adequado aos hemofílicos, o possível registro

de três mortes em 2012 por hemofilia após 10 anos sem essa ocorrência, fez com que o MPDF abrisse investigação para descobrir se essas mudanças afetaram a qualidade do tratamento desta doença. Ao contrário da anterior, a reportagem Líquido que nasce abundante ressalta um ponto positivo na área da saúde. A eficiência na coleta de leite materno, como aponta na matéria a coordenadora da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), Mirian Oliveira

Santos, é a prova de que quando há investimentos em recursos físicos e humanos aliados a uma administração eficiente o resultado é um bom atendimento à população. Verbas para Agnelo investir na área da saúde pública não vão faltar em 2013. A Lei Orçamentária, segundo dados divulgados pela assessoria do GDF, prevê um repasse do Fundo Constitucional, dado pela União ao DF, de 7% a mais do que o ano passado para as áreas de saúde, educação e segurança

pública. Juntando os investimentos previstos pelo fundo e pelo próprio GDF, a área da saúde receberá R$ 48,5 milhões a mais do que em 2012. Além disso, o governo conta agora com o recurso, aprovado pela Câmera Legislativa, de transferir, através de decreto, verbas para áreas consideradas essenciais. Resta acompanhar se neste ano o aumento da verba irá ajudar o governador a concretizar as promessas de melhorias na saúde feitas ao longo das campanha de 2010.

tinham de ilustrar o texto passou desapercebida. Ninguém é obrigado a saber o que são os tsurus espalhados pela página. A matéria vale pela curiosidade, especialmente ao desmistificar a arte do origami, mas expõe alguns preconceitos desnecessários. Arte não pode ser barata? Deixar as derradeiras palavras de uma reportagem na boca de uma fonte pode ser arriscado porque o assunto termina no discurso que o jornalista acatou. Punição desigual exagera no “segundo sicrano” e vacila ao cons-

truir alicerces em um levantamento que não é explicado. Como a UERJ chegou à conclusão de que a maioria das mulheres condenadas por aborto no Brasil é negra e vem da periferia? O caso anônimo e sem aspas da fonte não esclarece se o repórter chegou a ouvir, de fato, a pessoa. O jornal virou arena de debate em 10% é o bastante? e explorou muito bem a dimensão comparativa do jornalismo. Pragmático, o texto levou o leitor até o problema para depois situá-lo na discussão. Mesmo assim, o trajeto do di-

nheiro continua obscuro. Outra que também merece aplausos é a proposta de fazer literatura no jornal. Só tomem cuidado com o hermetismo sedutor da arte. Priorizar a erudição atrapalha algumas leituras. Quem desconhece a alma medrosa e angustiante de Kafka se perde e passa longe das intenções do conto. Deixei o melhor para o final. Surfe no carrinho é prova de que a memória pode ser grande fonte de pautas. Jornalismo é o maior observador da origem dos fenômenos

cotidianos. O relato simples e impecável dos repórteres só foi abandonado pelas imagens. A capa do jornal está de parabéns. Excelente casamento de fotografia com manchete. Chamadas claras e inteligentes também confirmam a suspeita de que dessa vez o leitor não parou na capa. Mantenham-no assim, curioso. A propósito, as belas ilustrações têm ganhado espaço no Campus. Só cuidado com vícios, tudoque é demais sobra.

Ombudsman Tiago Amate Acertos e erros se inverteram na edição 389 do Campus. Bons textos agora contrastam com fotografias que deixam a desejar. Relegadas aos cantos de página, fotos das fontes em formato de paisagem não complementam as reportagens. Alguém aí pensou no leitor, aquele que vai catar nas fotos as pessoas mencionadas na matéria? Imagens assim não fazem falta. É o caso gritante de Amizade desdobrada em papel. A chance que

Memória Na 2ª quinzena de 1991, os estudantes estrangeiros na UnB foram assunto na matéria de Rodrigo Roal no Campus nº 151. A ideia era discutir assuntos relacionados aos estudantes de outros países, já que correspondiam a cerca de 10% dos alunos da universidade - mil alunos que vinham principalmente da Ámerica Latina e da África. Algumas das dificuldades desses alunos, na época, ainda continuam e se somam à burocracia para continuar no Brasil.

Acesse www.fac.unb.br/campusonline e conheça o jornal laboratório virtual da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília.

Expediente: Campus Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília Editora chefe: Kelsiane Nunes; Secretária de redação: Camila Rodrigues Editores: Fellipe

Matheus Bernadino, Iasminny Thábata e Isabella Corrêa; Repórteres: André Vaz, Camila Rodrigues, Irina Adão, João Paulo Neves Cabral, Lucas Vidigal e Paulo Figueiredo Júnior; Diretora de imagem: Lorena Soares; Fotógrafos: Elis Tanajura, Ezequiel Trancoso e Isabella Corrêa; Diagramadores: Celina Guerra, Ivan Sasha Stemler e Laila Leite; Projeto gráfico: Celina Guerra, Ivan Sasha Stemler, Lorena Soares, Rafaela Lima, Ramilla Rodrigues e Vanessa Arcoverde, Professores: Sérgio de Sá e Solano Nascimento, Jornalista: José Luiz Silva Gráfica: Palavra Comunicação Tiragem: 4 mil exemplares Campus Darcy Ribeiro, Faculdade de Comunicação, ICC Ala Norte. Contato: 61 3107-6498/6501 CEP: 70.910900 E-mail: campus@unb.br Diagramação: Ivan Sasha Stemler


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Cidade campeã

Líquido que nasce abundante Considerada referência internacional na coleta de leite materno, Brasília atinge primeiro lugar mundial em doação do alimento. Conquista é atribuída a pioneirismo da cidade Elis Tanajura

André Vaz Brasília é considerada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) – organização responsável pelos bancos de leite humano do Brasil, África e Caribe – a cidade que mais coleta leite materno no mundo. Em 2011, mais de 16 mil litros desse tipo de leite chegaram a recém-nascidos que precisavam do alimento. Até novembro de 2012, 15,9 mil litros já haviam sido doados. Para a coordenadora de amamentação e banco de leite humano da Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), Mirian Oliveira Santos, Brasília possui características únicas que a difere de outras localidades. A cidade é uma das pioneiras de bancos de leite no país. “Mais que isso, implementamos o disque-amamentação na época em que telefones utilizavam uma tecnologia cara, além de termos lei distrital e estrutura governamental operante, no que se refere à amamentação”, explica Mirian. O Distrito Federal possui atualmente 16 bancos de leite humano. A coleta, no entanto, pode ser feita em casa. A responsabilidade de buscar o líquido é do Corpo de Bombeiros. Para a nutricionista do banco de leite do Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB), Aline Barbosa, é imprescindível a atenção do doador. “Nem todas as doações são aproveitadas. Muitas chegam com sujeira, cabelo, ou mal condicionadas. Em novembro, de 199 litros, 52 foram descartados.” Em várias ocasiões, o simples caminho do leite contido nos seios de uma mãe até a boca de uma

A Rede Brasileira de Banco de Leite Humano é considerada a maior e mais complexa do mundo pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O Banco de Leite Humano (BLH) é responsável pela promoção do aleitamento materno e execução das atividades de coleta, processamento e controle de qualidade do leite produzido nos primeiros dias após o parto (o colostro), leite de transição e leite humano maduro, para posterior distribuição sob prescrição do médico ou nutricionista. Fonte: Fiocruz

Após dificuldades para amamentar a filha Beatriz, Tatiana Ferreira virou doadora de leite materno: gratidão

criança é bem maior do que se imagina. Quem doa o alimento precisa, além de bastante cuidado com o líquido colhido, ter muita disposição. Da preparação inicial – colocação de touca e máscara – até a coleta – descarte do primeiro jato de leite e acondicionamento em recipiente esterilizado –, vários processos garantem qualidade ao leite.

Gratidão Internada há quase dois meses no Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB) e com o mesmo tempo de vida, Isabela Ribeiro é cardiopata e só pode receber leite materno por sonda. A mãe, Juliana Ribeiro, não pensou duas vezes

em virar doadora. “Apesar de não a amamentar, ajudo outras crianças que necessitam do leite. Isso é tão gratificante quanto estar amamentando.” Segundo a SES-DF, mais de seis mil pessoas doaram leite materno em 2011. Mirian Oliveira acredita que o interesse em ajudar é passado de geração em geração. “Muitas filhas que necessitaram de leite enquanto recém-nascidas, ou cujas mães eram doadoras, hoje também doam.” É o que espera a professora Tatiana Ferreira, mãe de Beatriz Porto, de um mês e meio de vida. A pedagoga teve dificuldades iniciais para amamentar a filha e procurou o HMIB. “Não conseguia

alimentá-la. Tiveram que dar leite artificial. Me cortou o coração”, lembra. Tatiana recebeu acompanhamento do hospital, e de paciente, tornou-se doadora. Apesar do protagonismo em doações, Mirian Oliveira acredita que Brasília ainda não se tornou autossuficiente em prover leite a todos os recém-nascidos. “Ainda temos que estipular prioridades para a doação do leite. Recémnascidos com baixo peso e prematuros invariavelmente terão preferência. Um pai cuja esposa morreu e que deseja alimentar a filha sadia com leite materno enfrentará dificuldades, em virtude da existência de casos mais graves”, explica.

No entanto, para a nutricionista Aline Barbosa, a boa interação entre bancos de leite faz com que não falte o alimento aos mais necessitados. “Um acaba ajudando o outro”, detalha. “Se aqui (HMIB) falta, tenho outros 15 bancos para solicitar. O ‘intercâmbio’ de leite é real e necessário.” Há cerca de um ano trabalhando com assistência a recém-nascidos e mães, Aline garante que o serviço é recompensador. “Antes, trabalhava em UTIs, com pacientes no fim da vida. Agora, trabalho com pequenos no começo de suas jornadas. É muito gratificante e o retorno é imediato: basta ver uma criança no peito da mãe que me sinto realizada.”

Edição: Iasminny Thábata

Diagramação: Celina Guerra


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Ilegalidade

De estudantes a clandestinos Alunos de intercâmbio reprovados no Brasil em teste de proficiência de língua portuguesa se negam a voltar aos países de origem e viram imigrantes ilegais Irina Adão O ex-estudante congolense intercambista da Universidade de Brasília (UnB) Herithier Kanku, de 25 anos, conseguiu uma vaga para estudar no Brasil por meio do Programa Estudante Convênio (PECGraduação). No entanto, a reprovação em uma prova de português o impediu de continuar no curso de Engenharia Elétrica e o visto de permanência dele expirou, mas Kanku resolveu permanecer ilegalmente no Brasil. Em 2011, dos 14 alunos do PEC-G que fizeram a prova, dois

foram reprovados. Já em 2012, cinco dos 13 estudantes que fizeram o teste não conseguiram aprovação. A prova é exigida para que a proficiência na língua e, consequentemente, as condições adequadas para se estudar no país sejam comprovadas. O teste é realizado em outubro do primeiro ano em que o estrangeiro está no Brasil, e os meses anteriores devem servir para que ele se prepare para a prova. Quando é reprovado, o aluno é automaticamente desligado do PEC-G e, teoricamente, volta ao país de origem. Na prática, a realidade é diferente. “Tenho medo de contar para os meus pais sobre a minha reprovação e quero continu-

ar aqui no Brasil para procurar um bom emprego”, diz Kanku. Ao perderem a vaga na universidade, intercambistas perdem o status de estudantes e os vistos, e muitos acabam fazendo bicos para se manter e vivem em condições inapropriadas para não voltar aos países em que nasceram. “Passei fome e dormi na Rodoviária do Plano Piloto por dois dias”, lembra Kanku. “Agora estou morando em uma quitinete de dois cômodos com seis pessoas.” O estudante preferiu ficar ilegal no Brasil porque no Congo há menos oportunidades profissionais e as condições de sobrevivência são precárias. Atualmente, ele trabalha Ezequiel Trancoso

como vendedor ambulante de cosméticos, sem carteira de trabalho. Joseph Yannick Zumbila, 26 anos, também da República Democrática do Congo, entrou para o curso de Ciências Biológicas. No seu país de origem, nunca aprendeu uma palavra em português. Deixou família e amigos e interrompeu os estudos iniciados no Congo para ir atrás da formação superior no exterior. Após a reprovação, entrou com recurso, mas o MEC e a UnB não ofereceram a ele uma segunda chance. Zumbila não queria voltar para o seu país porque, além de ter de começar tudo outra vez, não tinha dinheiro para comprar a passagem de avião. Como solução, tentou ingressar no ensino privado. Foi aprovado em dois vestibulares, mas não conseguiu entrar em nenhuma faculdade por não ter visto. Decidiu sair de Brasília e ir para o Espírito Santo em busca de trabalho. Começou a trabalhar, mas não conseguiu permanecer no emprego por estar irregular no país. Ele também diz ter sido alvo de preconceito. “Resolvi voltar a Brasília para tentar pegar visto de refugiado. Consegui há quatro meses, e agora estou correndo atrás do emprego para me manter no Brasil”, conta Joseph Zumbila.

Causas

Mesmo com recurso, Joseph não pode concluir o curso de biologia após a reprovação no teste de proficiência

Doutoranda em Linguística Fonológica pela UnB e professora de português dos alunos do PEC-G até o final de 2012, Eugenia Fernandes acompanhou os problemas enfrentados por intercambistas. Além de ajudá-los com a pronúncia, ela fornecia alimentação, rou-

pas e até óculos de grau para os estudantes. “Eles são meus filhos. Quando eles foram embora, fiquei muito mal”, recorda. Para ela, apesar de o programa beneficiar estudantes carentes e ser relevante para estimular a troca de culturas, o desempenho de parte dos alunos na prova de português é prejudicado pela escassez de auxílio para alimentação, moradia, saúde, transporte e material didático para os estudantes são alguns exemplos. “Tem tudo pra dar certo, mas está dando errado justamente por causa da falta de apoio aos alunos na UnB”, explica Eugenia. Os alunos estrangeiros selecionados cursam gratuitamente a graduação. Em contrapartida, devem atender a alguns critérios. Entre eles, provar que são capazes de custear suas despesas no Brasil, ter certificado de conclusão do ensino médio ou curso equivalente e proficiência em língua portuguesa, no caso dos alunos de nações fora da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Assim que são inseridos no programa, os alunos têm alguns benefícios, como Bolsa de Mérito, Projeto Milton Santos de Acesso ao Ensino Superior (Promisaes), moradia estudantil e bolsa alimentação. “Para terem esses benefícios, os alunos têm que ter uma boa nota e uma renda abaixo da média”, observa a coordenadora do PEC-G na Assessoria de Assuntos Internacionais, Maria Lucia Batista. Segundo ela, os acordos determinam a adoção pelo aluno do compromisso de regressar ao seu país e contribuir com a área na qual se graduou.

Edição: Isabella Corrêa

Diagramação: Laila Leite


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Sangue derramado

Hemofilia volta a assombrar o DF Após mais de uma década sem cadastros de mortes por hemofilia, levantamento mostra três mortes pela doença apenas em 2012. Casos são investigados pelo Ministério Público João Paulo Neves Cabral O Distrito Federal (DF) passou mais de 10 anos sem registrar mortes por hemofilia. Levantamento feito pelo Campus no Datasus, o banco de dados do Ministério da Saúde, mostra que os últimos casos de pacientes mortos pela doença ocorreram em 1998 e 2000, com uma vítima em cada ano. Em 2012, porém, três hemofílicos morreram em hospitais do DF entre abril e outubro. Uma delas, a de Geremias da Silva Cavalcante, provocou crise entre o Governo do Distrito Federal (GDF) e o Ministério Público em razão de mudanças na política de assistência aos hemofílicos. A transferência do antigo centro de atendimento do Hospital de Apoio para o Hemocentro e a forma de distribuição da medicação foram os principais pontos. O MP acusa o GDF de ter interrompido o atendimento especializado e fracionado medicamentos que os hemofílicos recebiam. Além dessa morte, a Segunda Promotoria de Saúde investiga os óbitos de Givanildo Sampaio da Costa e de Josemilson da Conceição dos Anjos. “Se concluirmos que as mortes foram potencializadas por falta de medicação, tratamento ou atendimento adequado, entraremos com novas ações”, afirma o promotor Moacyr Rey Filho. O embate ocorre desde 2008 e em 2011 um mandado de prisão chegou a ser expresso

Isabella Corrêa

Jonas e Bernadete Ferreira, pais de Givanildo da Costa, morto após complicação por hemofilia: indignação

contra o secretário de saúde, Rafael Barbosa.

Sem controle A hemofilia é uma doença genética e hereditária caracterizada pela incapacidade de o corpo controlar sangramentos. Os hemofílicos não produzem, ou produzem em pouca quantidade as proteínas que ajudam o sangue a coagular. A doença se manifesta em três níveis. Na forma mais grave, ocorrem sangramentos espontâneos e sem motivo aparente. Os sangramentos podem levar o hemofílico à morte ou causar sequelas, já que o sangue fora das veias é corrosivo. Por isso, é preciso fazer a reposição das pro-

teínas com medicamentos derivados do sangue ou sintetizados em laboratório. O tratamento é realizado de forma preventiva ou por demanda. Em ambas, é feita a reposição do fator deficiente no corpo. O primeiro caso é feito com aplicações periódicas e, em casos de emergência, o paciente toma o suficiente para curar a hemorragia. Foi o caso de Givanildo da Costa, que precisou de uma dosagem de proteína emergencial enquanto esteve internado no Hospital de Base (HBDF). Em 28 de outubro de 2012, mesmo com doses pra 15 dias de tratamento, Costa morreu no Hospital, por complicações respiratórias, infecção e hemofilia. O MP suspeita de falta de medicamento. “Ele era forte e sadio, estava animado porque viajaria na semana

seguinte. Foi tudo muito rápido”, relembra a mãe Bernadete Ferreira.

Embate Em 2011, quando o GDF fechou o antigo centro de tratamento do Hospital de Apoio e concentrou os atendimentos no Hemocentro, que fazia apenas exames e distribuição de medicamento, o MP denunciou a interrupção dos serviços. Ainda assim, pacientes ficaram sem acompanhamento especializado até agosto do ano passado, quando o Hemocentro passou a oferecer ambulatório e acompanhamento. A diretora da Fundação Hemocentro de Brasília, Beatriz Mcdowell, afirma que o Hospital não tinha estrutura apropriada e

não seguia os protocolos e recomendações do Ministério da Saúde. De acordo com ela, foram encontrados indícios de irregularidades durante auditorias de equipes do SUS e do Tribunal de Contas do DF. “Quem geralmente cuida desses pacientes em todo Brasil são os Hemocentros”, afirma. O MPDFT, por outro lado, entrou com ação de improbidade contra o secretário de saúde, Rafael Barbosa, acusando-o criminalmente pela morte de Geremias da Silva Cavalcante. O paciente era hemofílico grave e deu entrada no Hospital Regional do Gama (HRG) após convulsão. Foi orientado a voltar para casa. Horas depois, retornou ao hospital onde morreu de parada cardíaca causada por hemorragia cerebral em 12 de julho de 2012. Na manhã seguinte à morte, a prima dele Janaete Cavalcante denunciou a negligência na delegacia. “Denunciei para mostrar que isso acontece e não pode acontecer mais”, explica. A história de Josemilson da Conceição é similiar. A esposa Cristiane Sousa, que o acompanhou durante os últimos momentos, não quis falar sobre o caso, mas permitiu que o Campus acessasse o depoimento prestado à investigação. Em 27 de abril de 2012, Conceição teve fortes dores de cabeça e foi para a emergência do HRG. Com laudo da suspeita de hemorragia em mãos, o médico não soube o que fazer. Levaram-no para o HBDF sedado, onde precisaria fazer cirurgia, mas não estava consciente. A morte encefálica foi constatada momentos depois. Nem o Hemocentro, nem a Secretaria de Saúde se pronunciaram sobre as mortes.

Edição: Isabella Corrêa

Diagramação: Laila Leite


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Informalidade

Com chuva e sem renda Guardadores de carro do Distrito Federal passam por dificuldades financeiras nas festas de final do ano por causa de estação chuvosa Lucas Vidigal Para os guardadores, chuva é realmente mau tempo. A noite de Natal de Leonardo Gomes de Almeida, de 38 anos, não teve a fartura que se espera de uma ceia natalina. Ele é um dos 1.650 lavadores e guardadores de carro cadastrados na Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda do Distrito Federal (Sedest) e sofre com chuvas, que atrapalham a lavagem de carros, e o recesso, que deixa estacionamentos vazios no fim do ano. Almeida vigia e lava carros há 13 anos no mesmo ponto, no Setor de Rádio e Televisão Norte (SRTVN). Em meses de muito sol, comuns entre maio e setembro, ele chega a ganhar até R$ 80 diariamente apenas com lavagens, que custam R$ 10 cada. Esse preço é praticamente tabelado entre todos os lavadores. “Com vigiadas, a gente tira de R$ 25 a R$ 30 por dia”, conta. Quando chegam as chuvas do fim do ano, motoristas param de pedir que Almeida lave os carros. “Não adianta lavar se eles ficam sujos logo depois”, diz. Sem lavagens, ele fica sem a maior parte da renda justamente na época do Natal, quando, além disso, estacionamentos ficam mais vazios por causa das férias. “Entre dezembro e janeiro temos de ficar sem trabalhar porque não compensa o gasto do ônibus para sair de casa.” Para chegar ao Plano Piloto, Almeida leva duas horas no trajeto desde Valparaíso (GO), onde vive com a família. Ele é

A gente depende da solidariedade dos motoristas” Rosenilton Borges, guardador de carros

Ezequiel Trancoso

um dos 495 guardadores cadastrados que residem no Entorno. Outro é Rosenilton Borges, de 28 anos, colega de ponto de Almeida e morador de Planaltina de Goiás. Segundo ele, a solidariedade dos motoristas é fundamental para garantir a ceia. “Ganhamos cestas de Natal”, conta. O presidente do Sindicato dos Guardadores e Lavadores de Veículos do DF (Sindglav), Valdivino Diogo da Silva, afirma que os trabalhadores deveriam economizar por saber das dificuldades desta época do ano. “Como é que eles querem ter dinheiro se gastam tudo o que recebem?”, questiona. Silva também afirma que o sindicato oferece ajuda, como cestas básicas. “Mas temos apenas cem inscritos na associação, pois ninguém quer contribuir com a mensalidade.” Porém, economizar não é tarefa fácil para quem precisa sustentar família apenas com o que recebe com lavagem. Borges e Almeida, que não são filiados ao sindicato, rebatem a fala de Silva e dizem que não há como guardar todo ano o suficiente. “Gastamos nosso dinheiro todo dia para levar comida para casa e garantir o mínimo de conforto”, conta Almeida, que sustenta sozinho a esposa e duas filhas. Garantir o Natal em casa também foi difícil para Evangivaldo Nery Freitas, que lava carros há seis anos em um dos estacionamentos do Setor Comercial Sul (SCS), uma das áreas mais movimentadas de Brasília em dias úteis. Segundo ele, a regularização não garante melhorias nas condições de trabalho. “Não há o que fazer em época de chuvas e recesso”, afirma. O analista financeiro Wilson

Lavadores como Leonardo Gomes de Almeida aguardam ansiosos por dias ensolarados em épocas de chuva

75% dos guardadores

cadastrados na Sedest atuam no Plano Piloto

Amador trabalha no SCS e é um dos que têm costume de deixar que guardadores lavem o carro. “Menos quando chove”, reconhece. Ele afirma que já chegou a permitir que realizassem o serviço após se sentir coagido. “Prefiro gastar com lavagem a ser obrigado a pagar ainda mais caro com o conserto da lanterna que eles quebram.”

Intimidação A coação dos guardadores aos motoristas é o principal alvo de queixas a esses trabalhadores. De janeiro a outubro de 2012, 368 pessoas foram abordadas em operações promovidas pela Secretaria de Estado de Ordem Pública e Social (Seops) por conta da vigilância de

carros. Procurada pelo Campus, a secretaria informou por meio de nota que o motorista que se sentir ameaçado deve acionar as polícias Civil ou Militar. Evangivaldo Freitas confirma que há coação, mas também ataca condutores que pouco contribuem. “Não justifica ameaçar, mas é ruim quando recebemos apenas moedinhas por vigiada”, afirma. De moeda em moeda conquistada nas poucas vigiadas em meses chuvosos, o fim do ano dos guardadores é bem diferente dos que recebem salário com direito a 13º. “É nossa pior época do ano”, afirma Almeida, enquanto olha para um dos carros que acabou de lavar em um dos poucos dias de sol no verão brasiliense.

Edição: Fellipe Bernardino Diagramação: Celina Guerra


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Universidade

Comida para caber no bolso Demora para reabertura do RU faz alunos buscarem diferentes meios para garantir alimentação barata sem prejudicar o orçamento. Reitoria sugere que eles cozinhem Paulo Figueiredo Júnior A importância do Restaurante Universitário (RU) na vida dos estudantes da UnB mostra que não é só de projetos acadêmicos que se alimenta uma universidade. Enquanto o RU permanece fechado desde o fim de novembro para reparos, os estudantes se viram como podem: aprendem a cozinhar, economizam no orçamento, dispensam um almoço ou outro para comer salgado e até optam, por vezes, a pular refeições na tentativa de não ver suas economias gastas em alimentação mais cara. Dentre opções de almoço no campus Darcy Ribeiro e redondezas, a refeição mais barata sai por, no mínimo, R$ 6. “De R$ 2,50 no RU, eu passo a gastar de R$ 10 a R$ 15 por dia, sem contar que lá tem café da manhã e janta”, conta o mineiro Victor Dittz, estudante do primeiro semestre de Ciência Política. “No meu caso, que acabei de mudar para Brasília, o aumento de gasto com alimentação me priva de gastar com outras coisas, como, por exemplo, para montar meu quarto.” Danyelle Carvalho acaba de ser admitida no programa de auxílio-moradia, após três anos cursando Engenharia Florestal na UnB. Até então, a estudante não tinha direi-

Fotos: Ezequiel Trancoso

to a nenhum auxílio durante fechamentos do RU. Moradora de Ceilândia, trazia marmitas de casa nos períodos de fechamento anteriores. Porém, da última vez teve que economizar por problemas de moradia. “Comia as marmitas que as amigas levavam. Quando eu tinha dinheiro comia salgado e, quando não tinha, não comia”, recorda. O estudante de serviço social da UnB Mário Lima faz parte de um grupo de alunos que se articulam por melhorias na assistência aos estudantes da Universidade. Uma das últimas conquistas do grupo, em novembro, foi unificar dois níveis de carência sócio-econômica em um único, garantindo o valor de R$ 0,50 por refeição para todos. Victor Dittz não recebe nenhum auxílio, mas também não vê necessidade de pagar R$ 0,50 pela refeição, frente a outros alunos mais desfavorecidos. Se o restaurante fica inativo, porém, os valores gastos em alimentação geram problemas. “Quando ele fecha, não tem outra opção na faculdade”, conta. “Muita gente se virou no ultimo mês de aula comendo salgados e sanduíches, mas obviamente isto está longe de ser saudável”, completa.

Reembolso É a quarta vez desde 2010 que o restaurante do campus Darcy Ribeiro fecha por mais de um mês.

Para lidar com a situação, a Diretoria de Desenvolvimento Social (DDS) distribui aos alunos beneficiários do auxílio moradia, com menor poder aquisitivo, um valor de aproximadamente R$ 15 ao dia. A bolsa, distribuída apenas aos fins de semana e feriados, é acrescida de R$ 300 a mais durante um mês como o de dezembro de 2012, quando o RU não funcionou durante o período de aulas. Já o grupo de assistência a estudantes da Universidade colaborou para a criação do benefício que faltava a 1321 alunos não beneficiários do auxílio moradia, mas também considerados de vulnerabilidade sócio-econômica. “Entendemos que temos uma política até melhor do que em outros lugares. Mas a gente não entra na lógica do ‘menos pior’”, defende Mário Lima. O cálculo é baseado no gasto despendido pelo Restaurante Universitário no último ano, dividido pelos dias de funcionamento e número de alunos que, quando aberto, pagavam R$ 0,50 e R$ 1. O primeiro ressarcimento aos alunos pelos 80 dias parados durante a greve dos servidores técnicos administrativos chegou em dezembro. Já o repasse do atual fechamento considerou o período entre 28 de novembro, quando decidiu-se resolver o problema do mau cheiro causado pelas câmaras de conservação de alimento, até 7

Desde fechamento, solução encontrada por Danyelle é levar marmitas

de janeiro, data em que os alunos voltaram a ter aulas. Sem contar os domingos e o recesso de 14 dias, o estudante teve direito à R$ 4,95 ao dia. “O que fazemos é uma complementação para ajudá-los nas despesas com alimentação para que o aluno possa comprar e fazer”, explica Maria Tereza da Silva, diretora da DDS, que considera os recursos escassos para pensar em uma forma mais abrangente de ajudar todos os estudantes. Com auxílio-moradia de R$ 530 da UnB, o aluno de Arquitetura e Urbanismo Tiago Carmo divide apartamento com Dittz. Para controlar os gastos, ele prepara as

próprias refeições em casa por ser a alternativa mais barata sem o RU.

Reabertura De acordo com a diretora do Restaurante Universitário, Ygraine Hartmann, aguarda-se parecer da Procuradoria Jurídica da União para fechar contrato emergencial com a empresa G Nutris, que disponibilizará refeições a partir desta semana. A comida será servida pelos funcionários, mas a cozinha continuará fechada enquanto uma comissão de sindicância analisa as condições das câmaras frias. Até o fechamento desta edição, a data de início do serviço emergencial não foi definida.

Estudantes trazem almoço de casa e comem em locais improvisados Edição: Isabella Corrêa

Diagramação: Celina Guerra


Campus - Brasília, 15 a 21 de janeiro de 2013

Página 8 Conto

A arte de (querer) dormir Ilustração: Isabella Corrêa

Camila Rodrigues E esta mania de dormir tarde? Principalmente quando tinha que acordar cedo no outro dia. Era sempre assim, prometia dormir, mas sempre ficava acordado fazendo qualquer coisa que achasse mais interessante do que isso. Ou mais importante. Não importava o quanto prometia, dormia tarde. Bem tarde. Quando tudo já era silêncio e só o que podia escutar era o caminhão de lixo passando lá fora. Noite passada ficou acordado até tarde fazendo trabalho. Tinha prometido que não deixaria mais essas coisas para a última hora, mas era o que sempre acontecia. Era o que sempre acontecia também com muitos de seus colegas. Mas isso era mesmo mais importante do que dormir. Por isso, quando abriu os olhos parecia que tinha dormido apenas cinco minutos. Mas o despertador informava que era mesmo a hora de levantar. Nunca notava o quanto dormia tarde até ser hora de levantar. A hora que se arrependia. Sempre tinha vontade de dormir em aula. Não, talvez vontade fosse eufemismo. Era um ímpeto. Tinha tanto sono que não conseguia manter os olhos abertos. Era o que acontecia hoje também. Lutando contra o sono, tentava disfarçar e se distrair. Pensan-

do bem, era melhor dormir. Pelo menos assim aproveitava seu tempo, já que não prestava atenção de qualquer jeito. Essa era a hora que prometia, de novo: vou dormir cedo hoje! Mas claro que isso não acontecia. Mania terrível. Mas era quase incontrolável. Passava o dia na faculdade e no trabalho esperando a hora de chegar em casa e poder curtir a cama. Mas... Acordou. Na sala, claro. Tentou muito, mas não conse-

guiu aguentar. Pelo menos agora era tarde e ficava mais fácil se manter acordado. Quer dizer, no trabalho não ficava muito tempo sentado. Era a melhor distração de todas para o sono. Sempre estava ocupado. Quando voltava para casa naquele dia, parecia mais um zumbi. Os olhos estavam abertos,

mas parecia meio morto. Parecia dormindo em pé mesmo. Ainda assim, a felicidade de finalmente dormir fazia com que nada o incomodasse. Nem mesmo o ônibus cheio. Nem aquela música saindo do celular de alguém ali atrás. Mas ele sabia que não ia dormir. E sabia que a culpa era dele, apesar de culpar os trabalhos e as coisas interessantes. Chegou em casa e se preparou para dormir. Achou cedo demais. Resolveu ir

comer. Estava satisfeito, mas ainda achava cedo pra dormir. Quem ligava se estava com sono? Estava perdendo tempo. Lembrou que tinha um problema do trabalho para resolver. “Vou fazer logo pra poder dormir!”. Resolveu, continuava achando que iria perder tempo se fosse deitar. Tinha tantas coisas pra fazer. Engraçado que dormir não era uma das mais importantes. Foi ler um livro. Foi assistir a um filme. Foi usar a internet. Ah, o computador. O atrativo de quem não tem o que fazer. Foi ler o que tinha. Tirinhas, notícias, blogs de qualquer coisa. Só não queria ficar sem fazer nada. E a pergunta é: por que não dormir? Perda de tempo. Sempre arranjava outra coisa para fazer mesmo que tivesse passado o dia pensando em dormir. E escutou novamente o caminhão de lixo. Foi quando notou que ia dormir tarde de novo. Grandes promessas, hein? Foi só dessa vez. “Amanhã eu durmo mais cedo pra conseguir aguentar o dia seguinte”. Mas isso não vai acontecer e ele sabe disso. Mesmo assim, não custa prometer. Pois é, nem tinha dormido, nem tinha acordado, e já estava arrependido da hora que iria dormir. Sabia que quando abrisse os olhos no outro dia ia achar que, de novo, dormiu somente cinco minutos.

Edição: Fellipe Bernardino Diagramação: Celina Guerra


Campus impresso - ano 43 número 390