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Jornal-laboratório da Faculdade de Comunicação da UnB | De 19 a 25 de junho de 2012

42 ano

CAMPUS

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À LUZ De LaMPiÃo Os improvisos de quem vive sem energia elétrica


opinião Quebraram as pernas da imprensa brasiliense. E há boatos de que foi o próprio médico. O ano de 2012 com certeza ficará marcado pela Lei da Transparência. Varrer sujeiras para debaixo do tapete sempre foi qualidade de políticos mas jornalistas eram melhores em achá-las. De uns tempos pra cá os papeis se inverteram. Políticos acham as sujeiras e jornalistas as escondem. Anúncios de página inteira são valiosíssimos e pagam o salário de muitos daqueles que detêm o poder das palavras. Mas me assusta(va) a falta de informação sobre o Governo do Distrito Federal na grande mídia. Na prestação de contas do GDF, verificou-se que apenas no primeiro trimestre de 2012 foram gastos mais de R$ 30 milhões com publicidade. Não que isso seja novidade, mas até onde é permitida a isenção dos jornais em relação à informação que deveria chegar ao povo? Não só os grandes portais, emissoras, rádios e veículos impressos são beneficiados. Blogs e sites com menos de 50 mil visualizações recebem R$ 30 mil. Os maiores

patrocínios chegam aos seguintes veículos: TV Globo Brasília (R$ 2.685.740,92), jornal Correio Braziliense (R$ 2.364.050,61), rádio Atividade FM (R$ 793,086,47) e, na internet, o site Correioweb (R$ 163,900,97). Quem decide o tamanho da “Liberdade de Acesso à Informação” são os anunciantes, não os jornalistas. Pesquisa divulgada pelo Ibope no início deste ano revelou que apenas um em cada dez eleitores do DF estava satisfeito com a gestão de Agnelo. O governador prometeu construir mais escolas e hospitais: quantos realmente foram colocados em pé? Prometeu mais quatro creches até o final de abril, mas nenhuma foi entregue. No entanto, concordo que nem todo o dinheiro gasto com publicidade é em vão. Há campanhas contra a dengue, violência doméstica etc., que são de grande valia para a população. Mas sabemos que a questão não é essa. A história caminha para uma imprensa cada vez mais marrom e mais chapa branca. A imprensa agora, além de manca, também precisa se fazer de surda e muda.

ombudskvinna* O Campus é todo produzido pelos alunos de jornalismo da UnB. E, para ser um jornalista, é preciso saber escrever, se pautar, fotografar, diagramar e editar. Apesar dos avanços, na última edição, percebemos a falta que um fotógrafo, com técnica e experiência, faz. É aqui que se aprende e, em algumas matérias, era difícil conseguir boas imagens (porque os personagens não queriam ou não podiam se identificar). Mas a equipe podia ter se dedicado mais e pensado em alternativas. A Opinião estava bem argumentada, mas faltou dizer que a UnB utiliza o Enem apenas para vagas remanescentes. O Fala, Rovérsio trouxe um dado interessante sobre as crianças, mas a relação entre a capacitação prevista na lei e a greve dos professores não ficou clara. Mães e mulas teve uma apuração completa, com números e casos que retratam bem a situação. O interesse que nos despertou deixou uma única pergunta: para onde elas vão? A maioria fica no Brasil ou retorna para seu país? Uma maior dimensão do problema das interrupções ilegais traria quantos abortos “naturais” são registrados

por | PaULo PiMeNta

por | aMaNDa Maia

e um perfil das mulheres que chegam ao hospital com gravidez interrompida. A hora certa cita o crescimento de interessados em adotar, mas não revela o quanto cresceu o número de adotantes acima de 40 anos. E, das três personagens, duas têm menos de 41 anos. A matéria sobre a paralisação também se contradiz, porque o título diz uma coisa e os posicionamentos contra, outra. A intenção era expor a fragilidade e divergências do movimento grevista ou afirmar o apoio dos estudantes à causa da educação? E, a não ser que o leitor se interesse pelas ações de marketing dos partidos, dificilmente ele chegará na parte sobre o que está sendo discutido nessas redes sociais. É preciso mostrar o que acontece na prática. Por último, foi interessante conhecer a rotina dos Dragões da Independência. Uma pena que não apareceram mais histórias curiosas e engraçadas. *Feminino de ombudsman, termo sueco que significa “provedor de justiça”, a ombudskvinna discute a produção dos jornalistas a partir da perspectiva do leitor.

colunista fictício criado para ironizar situações cotidianas Para aqueles que, ao terminar o sexto semestre em Jornalismo, já se acham jornalistas, eu tomo licença e informo que esta é a última edição do jornal Campus do semestre. Podem comemorar e esperar as férias como se ainda fossem crianças querendo ir para a casa da avó. Fico feliz por quem conseguiu aproveitar o aprendizado de um laboratório. Pelo que vimos nas edições do semestre, é fácil notar avanços, mas também falhas, e por total preguiça de agir. Não sabiam se escreviam o que o público gostaria de ler ou o que precisavam escrever. Acabaram falando sobre o que queriam. E aí houve quem percebesse um lado publicitário que insistia em deixar de lado ou até renegar, outros admitiram que o jornalismo que lhes cai como missão é o impresso. Escreveu-se como literatura, seja na beleza das palavras ou na perigosa ficção. Olha, eu torço para que não tenham mentido para os leitores. Criatividade e ideologia são riscos, ainda mais juntas. A greve que pingou na UnB precisou ser assunto ao cair nas mãos de vocês. O espaço que o tema ocupa tira chances de outras novidades que poderiam contar aos leitores. Se fosse aparecer algo realmente bom, algo novo, algo que marcasse história no jornal para as gerações futuras, eu lamentaria ter tido que ler matérias que estavam aqui somente para ocupar espaço e cumprir protocolo.

Memória Na segunda quinzena de junho de 1990, reportagem do Campus assinada por Aléssia Nunes noticiava a paralisação das atividades de professores e funcionários da Universidade de Brasília em reivindicação a uma nova política salarial. O movimento grevista, cujo motivo central se repete hoje, foi apontado pelo então presidente da ATA-FUB (hoje Fundação Universidade de Brasília – FUB), Edmilson Lima, como a maior mobilização na UnB até aquele período. A edição de número 137 apontava ainda como motivo da greve a busca pela estabilidade da carreira de professores e técnicos do quadro da universidade e o temor de corte de verbas pelo governo federal, que também assombrou as faculdades recentemente. Da mesma forma como se vê hoje, setores discordavam da mobilização e não viam possibilidade de resultados efetivos a partir dela. Na edição, o reitor Antônio Luiz Ibañez defendia que interromper as atividades naquele momento não ajudava em nada a universidade.

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Editor-chefe Paulo Pimenta Secretário de Redação Daphne Arvellos Diretor de Arte Patrick Cassimiro Diretora de Fotografia Janaína Montalvão Foto de capa Jéssica Paula Projeto Gráfico Carolina Pereira, Ellen Rocha, Luisa Bravo, Mariana Capelo, Patrick Cassimiro e Thiago Lima Professores Sérgio de Sá e Solano Nascimento Jornalista José Luiz Silva ISSN 2237-1850 Brasília/DF - Campus Darcy Ribeiro Faculdade de Comunicação - ICC Ala Norte CEP 70.910-900 Telefones (61) 3107.6498/6501 E-mail campus@unb.br Gráfica Palavra Comunicação Tiragem 4 mil exemplares ACESSE O CAMPUS ONLINE WWW.FAC.UNB.BR/CAMPUSONLINE

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Universidade

Pesquisas continuam mesmo com a greve Atividades que têm compromissos com agências de financiamento precisam manter prazos. Professores e estudantes envolvidos com pesquisas e empresas juniores trabalham durante a paralisação reportagem | Mario cesar e thamara pereira diagramação | LUCAS ALVES edição | INGRIDY PEIXOTO

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m meados de maio começou a greve nacional dos professores universitários federais. A Universidade de Brasília aderiu ao movimento no dia 21 de maio. A greve logo foi apoiada pelos estudantes da UnB, que em assembleia também decidiram parar. Por último, os servidores e funcionários da instituição entraram em greve fechando almoxarifado, biblioteca, restaurante e garagem. Todavia, as atividades da pós-graduação e de bolsas de pesquisa foram mantidas. O coordenador da pós-graduação do Departamento de Economia, Roberto Ellery, afirma que nenhum dos projetos foi interrompido e explica que a pesquisa é um processo contínuo. Em sua opinião, parar as atividades é ruim para os alunos que têm a bolsa como renda. “Também é importante frisar que existem prazos de pesquisa que devem ser respeitados, pelo cumprimento de acordos e para a reputação do grupo. Uma instituição que firmar um acordo de levantamento de dados socioeconômicos, por exemplo, não vai esperar a greve”, esclarece. Segundo o professor Carlos André Ricart, coordenador do Laboratório de Bioquímica e Química de Proteínas, os trabalhos no Instituto de Biologia (IB) continuam. “Aqui todos os professores estão em atividade. Na pesquisa experimental, uma interrupção pode inviabilizar a retomada”, conta. Um exemplo é a cultura de microorganismos, que deve ser mantida diariamente. O risco de validade de certos reagentes e a necessidade de treinamento intensivo de animais impedem a paralisação da pesquisa. A professora Alba Valéria Rezende é vice-diretora da Faculdade de Tecnologia (FT) e presidente do Conselho dos Cursos de Pós-graduação da FT. Uma de suas pesquisas no departamento de Engenharia Florestal recebeu apoio do CNPq em 2009 para estudar o bioma cerrado em áreas de transição no Tocantins. O trabalho precisa ser apresentado em outubro deste ano e Alba está preocupada com os efeitos da greve dos servidores. A pesquisa ne-

cessita de apoio técnico para equipamentos de coleta e de transporte dos alunos. “Se não tiver jeito, vou ter que custear para os alunos irem a campo, não posso adiar porque o levantamento é periódico e tem os meses para coleta já definidos”, ilustra. A decana de Pesquisa e Pós-graduação (DPP), Denise Bomtempo, explica que as pesquisas não param porque são financiadas por organismos externos, como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e têm um cronograma que deve ser respeitado. “Os pesquisadores têm um compromisso junto às agências de fomento. Se pararem significa também um atraso no processo científico”, diz. Os laboratórios de pesquisa, por exemplo, não são financiados pela universidade. Esse é um fator que inviabiliza a greve como mecanismo de pressão. Os equipamentos e itens laboratoriais são obtidos pelos professores por meio de programas de pós-graduação e pesquisa junto às agências de financiamento. “Essa competição por recursos ocorre entre projetos a nível nacional. Então, um professor que consegue um financiamento e traz um equipamento valioso para o instituto não pode depois simplesmente interromper a pesquisa”, afirma Ricart.

Trabalhos na graduação

Exigências da bolsa Outro mecanismo que afeta a autonomia nesse sentido é o quesito prazo de conclusão dos cursos de pós-graduação. Para os alunos de mestrado, o prazo esperado é de 24 meses, enquanto no doutorado é de 48. Mesmo com a greve, a bolsa não é interrompida porque o prazo é definido entre o aluno e o programa. O tempo para obtenção do título conta pontos para o conceito Capes da faculdade ou instituto. TAYNARA PRATA

TAYNARA PRATA

“Acho que uma greve de pesquisadores não teria visibilidade para a sociedade em geral”, diz Ricart

“Não estou a par dos acontecimentos políticos, tenho me concentrado em terminar o último ano do programa de Biologia Molecular”, diz a doutoranda Diana Paola Gómez. Ela é colombiana e está no Brasil com visto de estudante, a bolsa que recebe do CNPq desde 2009 é de modalidade exclusiva, o que impede outra fonte de renda. Ela precisa se formar no final do ano e está apreensiva com a greve dos servidores: “Nossas atividades ficam um pouco mais limitadas com a paralisação, porque temos que fazer funções técnicas, como lavar e repor material, e isso atrapalha o rendimento”. O aluno Augusto Charan, 26 anos, é mestrando em Música. Ele conta que suas atividades da pós-graduação no Departamento de Música funcionam normalmente. Sua bolsa de mestrado foi concedida ano passado, portanto a vigência é até agosto de 2013. Ele diz que já ouviu falar em casos de prorrogação para concluir o mestrado. “Mas, se houver desistência por algum motivo que não seja justificado pelos professores, eu terei que devolver com juros e correções todo o dinheiro que recebi”, diz.

Mestrandos do IB trabalham durante a paralisação. O tempo da vigência da bolsa que recebem é determinado

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O Departamento de Artes Cênicas aderiu à greve, mas alguns alunos continuam em atividade com ensaios. Entretanto, a edição do primeiro semestre deste ano do Cometa Cenas, festival em que os alunos expõem peças de conclusão de disciplinas e diversas outras apresentações, será afetada. De acordo com Ramayana Regis, coordenadora do festival, ele está adiado e será retomado só após o fim da greve, juntamente com o calendário acadêmico. Da mesma forma, na Faculdade de Comunicação (FAC), as empresas juniores Facto, Pupila e Dois Nove Meia não pararam suas atividades. Esse tipo de empresa tem certa autonomia já que possui clientes fora da universidade. O jornal-laboratório Campus também manteve suas atividades durante a greve, pela manutenção da cobertura e devido à licitação da gráfica responsável pela impressão. Assim como o jornal Campus Online, que pode ser acessado em http://www.fac.unb.br/campusonline.

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Especial

Das tribos ao pelotão reportagem | PAULO PIMENTA E DAPHNE ARVELLOS diagramação | LUCAS ALVES edição | INGRIDY PEIXOTO

Indígenas do município de São Gabriel da Cachoeira, na Amazônia, compõem 70% do efetivo do Exército local. Eles veem o serviço militar como forma de sobrevivência

TIAGO AMATE

Índios de quatro das 23 etnias locais saúdam convidados em formatura na 2ª Brigada de Infantaria de Selva

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vilégio dos homens. As indígenas também fazem parte do contingente – ainda que em menor escala. É o caso da sargento Genézia Prado, que atua na função de técnica de enfermagem. Segundo ela, o grande problema é a falta de oportunidade de estudos na cidade e a dificuldade em fazer especializações em outros lugares. “A gente sofre por estar em São Gabriel e não ter cursos pra fazer, ganhamos qualificação trabalhando. Temos gente para trabalhar, mas um currículo bom, com especializações, não temos.” Genézia conta que, pelo fato de as pessoas de comunidades indígenas serem muito vinculadas à família, as experiências longe de casa são mais complicadas. Além disso, se defende ao dizer que correm atrás de melhorias profissionais, mesmo com os entraves. “Não vou dizer que a gente não tem força de vontade. A gente tem. A gente não tem é coragem. Eu não posso ir pra Manaus pra estudar porque eu não tenho quem me ajude. ‘Lá fora’ é ter dinheiro, e eu não tenho.” A volta para a comunidade após o tempo de serviço é marcada por festa, mesmo que o trabalho da maioria seja o cumprimento de ordens como servir aos oficiais mais antigos, manter o quartel em ordem e fazer o patrulhamento das fronteiras. Segundo Duarte, o respeito por aqueles que serviram e defenderam a pátria justamente no local em que vivem é algo que cresce naturalmente e é comum que os “ex-militares” se tornem líderes das tribos. O general ainda diz que os ensinamentos transmitidos a eles são de enorme valia e vão além dos armamentos. “Eles aprendem muitas coisas que levam para a comunidade de volta, como usar a privada, escovar os dentes e coisas simples.” Duarte acredita no crescimento profissional dos soldados indígenas, mas diz que isso não pode ser alcançado apenas com ações do Exército. “O grande obstáculo não é a falta de informação, mas sim a deficiência educacional”, lembra. O subcomandante do Comando Militar da Amazônia, general José Luiz Jaborandy Júnior, não tem medo de falar que falta interesse do governo brasileiro na região. “Há poucos votos nessas áreas. É mais fácil fazer um ‘peladão’ na periferia de Manaus e ganhar milhões de votos, do que se empenhar em chegar a essas regiões.” Mesmo considerados vítimas do esquecimento, os integrantes do pelotão bradam alto: “Aqui se defende o Brasil, tudo pela Amazônia! Selva!”. *Os repórteres viajaram a convite do Exército Brasileiro

Carreira estagnada A maioria dos soldados hoje é indígena. Alguns deles já chegaram a cabo, e raros ultrapassaram patentes maiores. Entre o posto de cabo e o seguinte (de sargento), é preciso fazer um concurso público. Com a baixa escolaridade da maioria – muitos concluíram apenas o ensino fundamental – poucos avançam na carreira militar. Alguns se contentam com tal condição e acreditam que como soldados estão na linha de frente da defesa nacional. Outros esperam um futuro mais próspero. O ingresso nas fileiras do Exército, porém, não é pri-

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ão Gabriel da Cachoeira – “Estado de uma cidade só.” Assim é visto o Amazonas. Enquanto a capital Manaus ganha espaço cativo em noticiários de todo o país, outras partes importantes ficam à mercê da boa vontade de poucos. A 852 quilômetros dali, o município de São Gabriel da Cachoeira é o terceiro maior do país em extensão e com o maior número de indígenas. Lugar onde nove a cada dez habitantes são indígenas e a esperança de sustento da maioria é ingressar nas fileiras do Exército brasileiro. Mais de 70% do efetivo da força armada local é composto por indígenas e seus descendentes. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), eles são de 23 etnias e de cerca de 800 comunidades existentes na região. O ensino superior é desejo de muitos, mas a situação financeira não contribui para a realização desse sonho. Ainda que aspirasse ser professor de matemática, o soldado Angélico Lopes decidiu se alistar para ajudar no sustento da família, já que a realidade local não oferece muita escolha. Em processo de formação desde o ano passado, o membro da comunidade indígena de Querari, na fronteira do Brasil com a Colômbia, largou o trabalho na roça com a esperança de crescimento na carreira militar. Os baixos índices de escolaridade e renda da população fazem com que a carreira progressiva, a estabilidade e a missão de defender a terra em que vivem sejam mais que boas razões para servir ao Exército. Em São Gabriel da Cachoeira só há uma estrada – que ainda não atende completamente as necessidades dos moradores. Para chegar até lá há dois meios: aéreo e fluvial. O alto custo de vida na cidade, resultado dos longos deslocamentos dos mantimentos até chegar ao extremo noroeste do país, desvaloriza os salários obtidos por meio

da agricultura de subsistência, principal fonte de renda da região. Atualmente, um recruta que chega ao serviço militar recebe R$ 590 e, quando promovido a soldado, o salário passa a ser de R$ 1.180. Mas nem sempre foi assim. O soldado Robson Fernandes, 22, entrou para o Exército em 2008 e conta que, na época, ganhava apenas R$ 240. Motivado pela família, o jovem decidiu seguir a carreira para auxiliar nos gastos em casa e também por curiosidade. Robson também tinha outros sonhos, como o de iniciar os estudos no ensino superior. Chegou a passar para o curso de Processamento de Dados, mas não deu continuidade devido às dificuldades. “Se eu não tivesse entrado aqui [no Exército] eu tinha estudado mais um pouquinho e teria me preparado melhor pra procurar fazer outro tipo de coisa. Eu queria entrar em uma faculdade, mas minha renda era muito baixa”, relata. Há pouco tempo o irmão também entrou para o “militarismo” e hoje a renda familiar é mais alta. Apesar do serviço pesado, Robson não reclama do trabalho e acredita que ser da região ajuda bastante. “A gente já cresceu andando pela selva. O que me ensinaram, desde minha formação, é que a gente passa por muitas coisas. Às vezes a gente acha que é ruim, mas tudo tem uma finalidade”, lembra. Para incorporá-los às Forças Armadas, por vezes são quebradas algumas regras de seleção, a exemplo da altura mínima exigida, incompatível com a média indígena. Esse incentivo é justificado pela importância em tê-los no efetivo. O comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva, general Sergio Duarte, conta que essa população é de importância estratégica para o Exército. “Eles são os melhores guerreiros da selva.” O conhecimento dos nativos é absorvido e repassado para os demais. “Eles conhecem cada planta da região, sabem onde há pedras nos rios”, aponta. O diferencial é usado para fortalecer a guarda local, localizada na fronteira com a Venezuela e a Colômbia. Por isso, o município é classificado como área de segurança nacional pela Lei Federal número 5.449, de 1968.

Além de ser uma das poucas mulheres do Exército, Genésia chegou à patente de Sargento


Sociedade

A fronteira sem luz A 80 quilômetros da capital federal, famílias ainda vivem no escuro

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JÉSSICA PAULA

assa, Chinchila!” É assim que Luisa começa o dia: dando bronca na cadela que insiste em comer os ovos que as galinhas acabaram de botar. Chinchila sai correndo e vai para sua casinha, um forno elétrico já colocado no chão porque nunca teve utilidade. Não é de hoje que Luisa tem vontade de usar o forno, as três geladeiras, a máquina de lavar e a TV 20 polegadas novinhas. Na Chácara das Alegrias, a 17 km de Planaltina de Goiás, na região conhecida como Capão das Nêga, o que não falta é eletrodoméstico. Mas os aparelhos não podem ser usados. Por lá não há tem energia elétrica. Tem sido assim há mais de 20 anos. Chico precisa buscar água no poço da vizinha Gertrudes. Ele caminha debaixo de sol por pelo menos 40 minutos para trazer os pesados galões cheios d’água. Chico até tem um poço artesiano novinho na chácara. Pagou R$ 15 mil para perfurar a terra, mas a bomba que “puxa” a água para dentro da casa necessita de energia para funcionar. O Governo de Goiás insiste em jogar a responsabilidade da área para o Governo do Distrito Federal, e este, por sua vez, responde que já não tem controle sobre a região que ultrapassa o famoso “quadradinho”. A Chácara das Alegrias ocupa 34 km², bem ali, na fronteira do esquecimento. Chico e Luisa vivem sozinhos na casa que até pouco tempo era coberta de lona. Hoje, a telha do tipo eternit ajuda a deixar o lugar ainda mais quente e o movimento por lá continua grande. Juntos eles criaram dez filhos, acumularam 28 netos e em todo aniversário tem festança.

Os filhotes da cadela Chinchila ocupam o lugar da mãe na hora do almoço

reportagem | JÉSSICA PAULA diagramação | BÁRBARA ROMUALDO edição | GABRIELA CORREA

JÉSSICA PAULA

Na chácara ao lado, Gertrudes e o marido Graciliano (todos o conhecem como Seu Nêgo) preferem ficar quietos por lá. Depois de um infarto, ele já não tem mais forças sequer para tirar a água do poço. Precisam pedir ajuda ao Chico. “Pior é quando a água acaba no início da noite; o jeito é dormir com sede”, conta Seu Nêgo. À noite, a Chácara das Alegrias ainda fica acesa. Luisa prepara o jantar com auxílio de um lampião pendurado na parede perto do fogão à lenha. A comida vem da própria terra. A abóbora, o frango e os temperos são recolhidos ali mesmo no quintal. Os alimentos não duram mais do que dois dias guardados, já que a caixa de isopor usada como substituta da geladeira não é assim tão eficiente. A comida é servida do lado de fora da casa, para aproveitar a luz da noite de lua cheia. Com frequência surgem clarões no céu. São as luzes dos aviões que cruzam o ar em direção à Brasília. Como se fossem flashes, também ajudam a iluminar o quintal de casa. Olhando para o alto, Luisa diz que nunca vai andar em um desses. Nem mesmo tem vontade de sair de lá. Com 57 anos de muito trabalho, fáceis de reconhecer no corpo miúdo de 35 kg, só quer “sossego pra continuar a vida por aqui”. O GOLPE A vontade de que a energia elétrica chegasse era tão grande que Chico nem pensou quando recebeu a proposta. Um homem chamado Edilson foi até a chácara e prometeu instalar energia para a família. O valor cobrado era alto: R$ 12,3 mil. Para ficar mais barato, o serviço foi dividido para as casas de Chico e de Seu Nêgo. Chico passou anos juntando o dinheiro ganho nas diárias como pedreiro. No final da poupança, foram recolhidos R$ 6.150 de cada família, “tudo nota de R$ 50, dentro de uma sacolinha azul”, como ele mesmo lembra. Edilson foi trabalhar num feriado. Instalou poste, transformador, “puxou fiação para botar luz”, e colocou até o aparelho para acionar a tão sonhada bomba que puxaria água pra dentro de casa. Como comprovante do serviço, Chico só ficou com o cartão de visita da tal empresa. O sonho durou dois dias. A Companhia de Energia Elétrica de Goiás (Celg) logo declarou que a instalação era clandestina e cortou o fornecimento de energia. “Chamou a gente de ladrão e tudo. Agora não tenho nada, mas tá tudo pago”, lamenta Chico. “É assim mesmo”, completa Luisa em tom de ironia e resignação. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizada em 2010, 0,08% das famílias do DF ainda não têm acesso à energia elétrica. Somado às

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Luisa se queixa das dificuldades da vida sem energia elétrica: “A casa suja, comida perdendo... Essa vida é mesmo tirana”

cidades do chamado Entorno, o número sobe para 2,02%. Só nessa região, mais de 200 mil domicílios têm ligações irregulares, como a que era a de Chico, mas ele não teve sorte. “Às vezes acho, sim, que Deus é para todos – para todos os ricos”, desabafa Luisa. Um dia desses, ela abriu um buraquinho na caixa que guarda a TV que ganhou do marido: “queria ver pelo menos qual era a cor dela”. Entretenimento por ali são mesmo os bichos que se encarregam do barulho durante todo o dia – cachorros, galinhas, porcos, patos e até perus. Junto aos bichos, o rádio à pilha deixa a casa mais alegre, mas “até as pilhas do radinho acabaram”, diz Chico, já sorrindo da própria tristeza. No início da tarde, Luisa deixa o marido avisado. “O querosene da lamparina tá acabando. Tenho R$ 3 no bolso. Vamos ter de pegar fiado lá na dona Zilda.” Zilda é uma antiga amiga da família e dona da “vendinha” mais próxima da chácara. Sempre vende fiado quando eles precisam. Ultimamente andam precisando muito e a dívida já ultrapassa R$ 700. Chico ainda não sabe como vai pagar. O casal agora trabalha catando milho para um outro vizinho do Capão das Nêga. Metade dos sacos de milho fica para o dono da roça, a outra metade serve para tratar os bichos da Chácara das Alegrias. Chico e Luisa não têm lucro em dinheiro. E a vida pelo Capão segue assim. No escuro. Luisa segue indignada, sonhando com energia e água dentro de casa. Chico dando um jeito de negociar as dívidas. Gertrudes e Seu Nego contando com ajuda dos vizinhos. Por enquanto, a cachorrinha Chinchila é a única que vai continuar em vantagem, sem precisar sair de sua casinha. Mas é assim mesmo.

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Cotidiano

Nadando contra o consumo TAYNARA PRATA

Veganos e straight edgers mostram que é possível viver fora dos padrões considerados normais na sociedade contemporânea reportagem | LUISA BRAVO diagramação | MARCELA NÓBREGA edição | GABRIELA CORREA

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omer carne diariamente, tomar cerveja ou drinks em eventos sociais e até fumar cigarros são atividades consideradas comuns à rotina dos brasileiros. Mesmo assim, existem aqueles que não concordam com esses hábitos. A reportagem do Campus conheceu de perto dois grupos que têm atitudes consideradas incomuns e seus estilos de vida rotulados como radicais por viver “sem os prazeres da carne” e alguns outros. Pedro “Poney” Matos não come nenhum tipo de carne há seis anos e também não consome nada de origem animal. Alimentos como ovo, leite e derivados de leite em geral são itens que não fazem parte da dieta do rapaz. Evita vestir roupas de lã, couro ou seda, não utiliza cosméticos testados em animais e não gosta de usar travesseiros feitos de plumas de ganso. Pessoas como Pedro se consideram veganas. O veganismo, do inglês vegan, surgiu em 1944, criado por um grupo de vegetarianos liderado por Donald Watson nos Estados Unidos. O grupo acreditou que era preciso dar um passo além de apenas parar de comer carne na luta pelos direitos dos animais. Para Pedro, o veganismo não é um movimento e sim um modo de vida no qual se evita o consumo de qualquer produto de origem animal, desde a comida até o vestuário. “O veganismo é uma prática de exercer solidariedade, uma política do cotidiano. São atitudes que você toma no seu dia a dia tentando causar menos dano possível aos seres vivos”, diz. Com a necessidade de encontrar

lugares com boas opções de comida vegana e procurando ser solidário aos outros veganos de Brasília, Pedro criou o blog Distrito Vegetal. Desde 2009 o site disponibiliza uma lista de restaurantes na cidade que servem opções de comida vegana. Marina Corbucci é dona e chefe de cozinha do Café Corbucci, o único estabelecimento completamente vegano de Brasília. Segundo a chef, ser vegana é uma prática para evitar o sofrimento dos animais da indústria de produção. Quando perguntados pela reportagem do Campus se seu estilo de vida é radical ou extremo, Marina e Pedro respondem que não. “Eu acho que radical é um termo errado. Mas se consideram radical aquele que trabalha na raiz do problema, então eu sou. E eu acho que o problema é a indústria de consumo animal”, argumenta Marina. Outro estilo de vida que envolve atitudes que parecem extremas é o straight edge. A filosofia do grupo é ser responsável por si e pelos seus atos e estar livre de drogas, como explica Rodrigo Elizio, vocalista da banda straight edge Lost in Hate. O conceito surgiu em Washington, nos Estados Unidos, no final dos anos 1970 junto à cena punk/hardcore da capital norte-americana. Os jovens adeptos do movimento punk, mas que não se identificavam com o uso abusivo

É comum que straight edgers tatuem as mãos. A tatuagem é forma de expressão do estilo de vida hardcore sem vícios

Ao pé da letra A religião também é um fator que dita o modo de vida de quem a segue. A partir da fé e da moral, o seguidor adapta a sua vida ao que sua religião define. Assim como os adventistas do 7º Dia não podem sair aos sábados, judeus não comem carne de porco e mulheres islâmicas usam a burca, as testemunhas de Jeová chamam atenção por seguir a Bíblia à risca. São cristãos que interpretam as escrituras do livro sagrado literalmente, e o consideram historicamente correto. Esse seguimento do cristianismo começou como um pequeno grupo de estudos religiosos em 1890 nos Estados Unidos e hoje conta com mais de seis milhões de seguidores espalhados em mais de 230 países. As testemunhas de Jeová estudam a Bíblia e têm como função principal propagar a palavra de Deus de porta em porta. A partir dos estudos, interpretam e adaptam suas vidas ao que está escrito: não comemoram aniversários, nem feriados (religiosos ou pagãos), não bebem ou consomem qualquer tipo de droga, não fazem transfusões sanguíneas, e sexo só é permitido depois do casamento. Para Francisco Françuá, ministro do Salão do Reino das Testemunhas de Jeová em Ceilândia, a Bíblia é que dita as regras e responsabilidades da vida do homem. “Acreditamos que, quando se é cristão, temos que sê-lo 24 horas por dia. Aprendemos e ensinamos ao próximo o padrão de vida cristão, que está nas escrituras e deve ser seguido.” Para Françuá, a testemunha de Jeová não é radical, apenas mal interpretada. “Por seguirmos uma moral diferente da sociedade moderna, como, por exemplo, condenar o sexo antes do casamento, acabamos por nadar contra a correnteza. Mas levamos uma vida normal, como qualquer outra pessoa”, garante.

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de drogas, resolveram adotar um estilo de vida que fosse parte do hardcore, mas sem o consumo de substâncias. Menores e maiores de idade pediam para que fosse marcado um “X” em suas mãos, antes de entrar em shows ou pubs, para representar que eles não beberiam. A partir de então o “X” foi adotado como símbolo do straight edge. Raphael Kenji é guitarrista da banda Lost in Hate, tatuador da Gringo’s Tattoo e straight edge desde adolescente. Para ele, a escolha do estilo de vida não é apenas social, mas política. “O punk surgiu como um movimento de contestação ao sistema e à massa. Mas como eu vou contestar alguma coisa se eu não estiver no meu estado de consciência normal? Ser straight é não fazer parte dessa cultura de autodestruição.” Raphael diz não se considerar radical. Para ele, é uma escolha pessoal de fazer o que é melhor para si, mas acredita que, para quem não entende o straight edge, ele pode ser interpretado como extremo.

TIAGO AMATE

Ministro há 12 anos, Françuá não comemora aniversários. Só responde a idade após calcular seu ano de nascimento

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O desafio de

Comportamento

dormir menos

MARIANA VIEIRA

A necessidade de ficar mais tempo acordado leva as pessoas a buscar novas estratégias para descansar reportagem | THIAGO LIMA diagramação | MARCELA NÓBREGA edição | DANIELA ABREU

MENOS TEMPO E MAIS VEZES

O sono polifásico é um método para contornar o cansaço e aumentar o período acordado. Nele dorme-se entre duas e quatro horas por dia, com a promessa de não causar grandes prejuízos para a saúde e o rendimento mental. A prática procura adaptar o corpo a descansar em múltiplos blocos durante as 24 horas, ao invés de um único de cerca de oito horas durante a madrugada. A técnica consiste em condicionar o sistema cerebral a pular os três primeiros estágios do sono, chamados de períodos NREM (sigla em inglês de Non Rapid Eye Movement – Movimento Não Rápido dos Olhos) e seguir direto para o REM (Rapid Eye Movement – Movimento Rápido dos Olhos), aquele responsável pela consolidação da memória e do descanso profundo. Com isso, a expectativa é aproveitar melhor o curto período destinado à dormir. “Não gosto, acho perda de tempo”, essa é a resposta do estudante de Ciências da Computação da Universidade de Brasília João Paulo Apolinário dos Passos, de 20 anos, quando alguém lhe pergunta o que acha sobre dormir. “Desde pequeno eu nunca gostei, fazia de tudo para ficar acordado”, justifica. Apolinário conseguiu em sites e fóruns da internet as informações que precisava para colocar em pratica a divisão Everyman do sono polifásico. Segundo a experiência de quem tentou a técnica, leva cerca de 30 dias para o organismo se adaptar às alterações de comportamento. “Eu falei que ia desistir caso não sentis-

se mudança no cansaço, mas antes de um mês deu certo e me sentia bem só com o que dormia”, lembra. O estudante conta que passou três meses no Everyman, tentou os outros dois tipos e agora segue um ritmo próprio de descanso, em três etapas: um sono principal de quatro horas na madrugada, um cochilo de 30 minutos durante o almoço e outro de uma hora à noite, após sair do serviço, resultando em pouco mais de cinco horas de sono por dia. As primeiras observações científicas do padrão polifásico surgiram na década de 1920, com animais. Nos anos 1990, o neurologista Claudio Stampi documentou o efeito em grupos de humanos que dispõem de pouco tempo destinado a dormir, no caso, marinheiros e velejadores. Os resultados da experiência foram publicados no livro Why We Nap, em 1992. Entre os possíveis praticantes do sono polifásico se destacam figuras históricas como o ex-primeiro ministro britânico Winston Churchill. Outra estratégia, comum entre concurseiros que buscam estudar mais, é sacrificar os momentos de descanso e consumir estimulantes para se manter acordado. Ana Carolina, 28 anos, trabalha como enfermeira e reserva as noites para se dedicar aos concursos públicos. Ela diz que já teve que compensar as noites mal dormidas com pequenos cochilos durante o dia, nos intervalos do emprego. “Conheço estudantes que tomam de café a Ritalina [remédio utilizado para tratar sonolência em casos de distúrbios de sono, como narcolepsia] para poder ficar acordado”, comenta.

RISCOS

Apesar de cada vez mais comum, dormir menos pode não ser saudável a longo prazo. Mesmo com a melhoria da sensação de cansaço após o período de adaptação da prática polifásica, suprimir os estágios iniciais de sono (NREM) para cair direto no final (REM) pode trazer consequências aos usuários. “Cada uma das três etapas do NREM é responsável por parte da regeneração celular. Por exemplo, pular o N3 prejudica a produção do GH (Hormônio de Crescimento) que é responsável tanto pelo crescimento físico como pela manutenção do sistema imunológico”, explica a pneumologista Elizabeth Oliveira Rosa e Silva, especializada em tratamento de distúrbios do sono. Outro problema que pode ocorrer é o da privação de sono, que causa distúrbios de atenção, dificuldade de processar o que foi aprendido durante o dia e alterações de humor e de peso. A pessoa pode ficar mais suscetível a sentir fraqueza, cansaço e adoecer. “Se a pessoa não dorme a quantidade necessária para o organismo regenerar, ela vai sofrer com os problemas de privação, mesmo que tenha tomado algum estimulante para ficar acordada”, esclarece Elizabeth.

CAMPUS | Brasília, de 19 a 25 de junho de 2012

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E

dilvan Dias da Silva, 38 anos, porteiro e eletricista, precisou aprender a lutar contra uma etapa que representa, em média, um terço da vida humana: o sono. Em geral, os médicos aconselham a dormir de seis a oito horas por noite, entretanto, o ritmo de trabalho de Silva não dá brechas para seguir esse modelo. À noite ele é vigia e durante o dia faz bicos como eletricista. No total, dorme menos de quatro horas, divididas em dois momentos. “Tem dia que eu nem durmo, mas quando faço é entre 18h e 21h [antes do trabalho noturno] e depois tiro um cochilo de 40 minutos pela manhã”, explica. O porteiro diz que segue esse ritmo há cerca de 15 anos sem tomar nenhum medicamento ou estimulante para ficar acordado. “Não me faz falta dormir longos períodos, mas sinto que estou cada dia mais estressado”, conclui. Modificar o tempo destinado a dormir é algo cada vez mais comum. Para aumentar a produtividade, algumas pessoas fazem como Edilvan e desenvolvem sua própria estratégia de descanso, outros tomam estimulantes para se manter acordado e alguns buscam técnicas de condicionamento corporal.

Adepto do sono polifásico, João Apolinário aproveita o horário do almoço para cochilar

PERÍODOS DO SONO estágio

N1 %

%

10

REM

N3

N2 45

%

%

25

20

duração do ciclo

* Cada ciclo tem o tempo de duração entre 90 a 110 minutos. Ao dormir cerca de oito horas, o ser humano desenvolve de quatro a cinco ciclos de sono. Cada ciclo é composto por quatro estágios responsáveis por uma fase fisiológica de regeneração do corpo. Efeitos no organismo a cada estágio: +NREM - de N1 a N3 - (Non Rapid Eye Movement – movimento rápido dos olhos) O corpo economiza energia e começa a relaxar: há diminuição do batimento cardíaco, da temperatura corporal e da contração muscular. O sistema imunológico trabalha na reparação dos danos causados durante o dia, hormônios como o de crescimento (GH) e do controle do peso são liberados lentamente. +REM (Rapid Eye Movement – movimento rápido dos olhos) Caracterizado pela movimentação dos olhos, este é um estágio com atividade cerebral e fisiológica similares às registradas pelo organismo, quando o corpo está desperto. Os músculos ficam imóveis, há aumento na pressão sanguínea e no batimento cardíaco. No REM ocorrem os sonhos mais intensos, a consolidação da memória e do que foi aprendido durante o dia. É o período de sono com maior restauração corporal.

TIPOS POLIFÁSICOS:

Atualmente existem três padrões:

DYMAXION

dorme-se a cada seis horas:

ÜBERMAN

seis cochilos por dia de:

um cochilo de

30 minutos

20 a 30

minutos a cada

quatro horas

cada

EVERYMAN

período de sono em quatro vezes um sono principal de:

duas horas e 30 minutos

e três de

20 a 30 minutos

7


perfil Engenheiro do próprio destino MARIANA VIEIRA

CARLOS

MALTZ

reportagem | PEDRO PAULO diagramação | BÁRBARA ROMUALDO edição | DANIELA ABREU

MARIANA VIEIRA

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Essa formação – GLM – permaneceu até 1995, quando Licks saiu da banda. Um ano depois foi a vez de Maltz deixar os Engenheiros. Assim que saiu do grupo, Carlos Maltz fundou a banda Irmandade Interplanetária e lançou dois álbuns, em 1996 e 1997. A banda não fez o sucesso que Maltz esperava, e logo terminou. Céu estrelado Em maio de 1999, Carlos Maltz veio com a mulher visitar um amigo em Brasília. “Era uma noite linda, o céu estrelado, virei para minha esposa e falei: Vamos morar aqui?” Em três meses, juntaram tudo e vieram morar em Brasília. Maltz se mudou para uma chácara perto da capital, nos arredores do Vale do Amanhecer. Na cidade, Maltz se viu sem dinheiro, estava sem banda, mas sempre tocando bateria. Ele afirma que toca o instrumento todos os dias, quando possível: “Toco bateria em casa, por volta de uma, duas horas por dia”. Maltz, que sempre teve fascinação pelo céu, ganhou um livro de astrologia quando tinha 30 anos, de lá para cá conta que leu tudo que saía a respeito. Começou a fazer mapa astral de amigos próximos, e esses amigos falavam para outros, que falavam para outros. No fim, ele viu que aquilo tinha se tornado uma ocupação e passava a tomar maior parte do tempo. Saiu da chácara, se mudou para Asa Norte, e abriu um consultório. Da astrologia, passar para psicologia pareceu normal para Maltz. “As pessoas pediam referências, contatos de psicólogos, eu passava. Depois voltavam e diziam que não era aquilo que esperavam, que queriam se consultar comigo.” O fundador dos Engenheiros do Hawaii se formou em Psicologia em 2008, e em seguida fez uma pós-graduação. Como psicólogo Maltz segue a doutrina de Carl Jung, a psicologia junguiana, com conceitos do inconsciente coletivo. Tamara Goes, 33, conta que era muito fã de Maltz nos Engenheiros, e soube que ele tinha uma clínica em Brasília. “Fiquei sabendo que estava morando em Brasília e que era também psicólogo e astrólogo. Foi aí que fiquei curiosa e resolvi marcar uma consulta com ele em 2008.” Tamara se consulta com Maltz desde então. Ela conta que ele faz um estudo aprofundado da personalidade da pessoa e oferece uma direção para as condutas que o cliente deve tomar em várias áreas da vida. Ela afirma que ele é um profissional sério e com uma linha incomun dos outros profissionais. “A linha do Maltz é diferente, aborda o

lado espiritual e também as outras encarnações da pessoa, tentando fazer o cliente enxergar que repetir os erros do passado pode ser extremamente nocivo”, diz. Em seu consultório há uma mistura de astrologia e religiosidade. Na parede quatro quadros de girassóis, símbolo que segue sua vida artística desde a carreira solo. E na estante do roqueiro uma fotografia com as três filhas. A família é seu palco e as filhas, suas estrelas.

MARIANA VIEIRA

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arlos Maltz não é mais aquele baterista que ganhou fama com os Engenheiros do Hawaii e que suportava as viagens amalucadas de uma banda de rock. Com quase cinquenta anos, Maltz encontrou em Brasília um porto seguro e convive muito bem com o passado de fama. Dos anos de sucesso, Maltz afirma não sentir falta: “Vivi muito bem durante aquele período, não fico olhando para trás, eu sempre olho para frente”. Na música, Maltz começou por acaso. Tocar bateria era um hobby. Ele fazia arquitetura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) quando o diretório acadêmico resolveu comemorar o fim do ano letivo com uma festa. Para a festa, formou-se uma banda somente com estudantes de arquitetura. Era para tocar apenas naquele 11 de janeiro de 1985. Estava formado os Engenheiros do Hawaii. Após aquela apresentação, os Engenheiros receberam convites para lançar o álbum, fazer novos shows, e assim estouraram nas rádios do dia para noite. Os Engenheiros se modificaram ao longo dos anos. Carlos Maltz junto com Humberto Gessinger e Augusto Licks fizeram parte da formação clássica, dita pelos fãs.


Campus 385