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especial

“As pessoas estabelecem que todos têm direito à felicidade e elas se sentem frustradas se não forem. As redes sociais magnificaram a fantasia de que todos nós somos felizes, o que é absolutamente falso” Leandro Karnal

do, ataques de ódio virtuais que se convertem em reais. Um grupo intelectual produziu a ideia de que o País é uma pátria generosa, aberta e tranquila. Isso é uma falsidade histórica.

Fotos:Tatiana Ferro

O que acontece no Rio de Janeiro é apenas mais um capítulo? L.K.: Há um colapso do Estado, fruto de corrupção, incompetência administrativa e falta de ética. Hoje, a experiência que temos não é o surgimento de uma violência, mas sim o fato de ela não estar mais concentrada onde sempre esteve. Antes era possível constituir bolsões de prosperidade e de relativa paz, mas isso terminou. O crime, tanto o avulso das ruas, como o organizado, assim como as milícias e o estado criminoso, saiu de controle e ganhou visibilidade. A escalada de ódio, sobretudo nas redes sociais, é mais um exemplo? L.K.: É possível entrar nas redes sociais com nome falso, como um personagem. Isso tira a responsabilidade do “eu” e dá espaço para expressar o que cada um sempre pensou e atingir milhões de pessoas. E como nem todo mundo é feliz e bem-sucedido, a melhor coisa é odiar o mundo. A internet é o escape de dezenas de frustrações. Há muita crença, mas

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pouco argumento. É como se estivéssemos divididos em grandes torcidas de futebol, ninguém querendo ouvir o outro e todos fazendo do ódio ao outro a sua identidade. A internet não inventou o ódio, mas deu voz aos odiosos. Além de frustração, o que mais está por traz dessas mensagens? L.K.: Há a justa frustração com a incompetência e corrupção do Estado, com o caos nas cidades brasileiras e contra opressões variadas. Se há 500 anos era natural não ser feliz, hoje isso mudou. As pessoas estabelecem que todos têm direito à felicidade e elas se sentem frustradas se não forem. As redes sociais magnificaram a fantasia de que todos nós somos felizes, o que é absolutamente falso. Vingança também alimenta a cultura do ódio? L.K.: O que é chamado de “vendetta” no sul da Itália, ou seja, a vingança direta de uma família contra a outra, é uma tradição pré-estado e pré-democracia. Cada um resolve sua vida de acordo com sua força pessoal, guarda-costas e capangas. A partir do Estado de Direito, isso muda, mas, à medida em que o Estado não prende as pessoas certas, libera muitos criminosos e estes

chegam ao poder, retorna a tradição sociológica e histórica da “vendetta”. O linchamento é a volta de uma espécie de lei direta em que as pessoas desacreditadas do Estado de Direito e da justiça, exercem sua vingança. O estado brasileiro está desacreditado como instrumento de justiça social. Qual é o caminho do ódio para o amor? L.K.: Eu acho suficiente que consigamos a tolerância mútua. Dali a amar é um salto, algo mais complicado. Basta que eu tenha tolerância ativa e reconheça a possibilidade da diferença. Não necessariamente encontrar o amor no outro. Amor é uma boa meta, mas sou um pouco mais realista.

Campinas Cafe | edição 282 | abril 2018  
Campinas Cafe | edição 282 | abril 2018  
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