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VIDAS (D)ESCRITAS

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QUINTA-FEIRA

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DE DEZEMBRO DE 2013 CAMPEĂƒO DAS PROVĂ?NCIAS

Varela Pècurto

Ia morrendo em trabalho cinco vezes BENEDITA OLIVEIRA

“Sou do alto Alentejo, de uma terra chamada Ervedal, pertencente ao concelho de Avis. Aos oito anos fui para Évora, onde completei a primĂĄria. A minha mĂŁe ĂŠ que me ensinou a ler. Era domĂŠstica, mas como o meu pai estava empregado numa quinta muito grande, que tinha fĂĄbrica de moagem, lagar de vinho e de azeite e nĂŁo havia escolas ali, ela ensinou muita gente a ler e a escrever. Quando fui para a escola comecei logo na segunda classe. No liceu, e como a semanada era curta, fazia nĂŁo sĂł o gosto ao dedo (comecei ORJR D JRVWDU GH IRWRJUDĂ€D no liceu) como vendia ainda DV IRWRJUDĂ€DV DRV FROHJDV Declaradamente nĂŁo me virei para mais coisa nenhuma. Uma vez decidido, avisei a famĂ­lia contrariando o que os meus pais queriam. Abdiquei de continuar os estudos e dediquei-me 100 por cento jIRWRJUDĂ€D A minha mĂŁe queria que eu fosse para um banco. Eu entrava com facilidade, porque tinha dois primos que eram directores de bancos. Fazia um simples exame e HQWUDYD(XĂ€]OKHDYRQWDGH e fui fazer o exame a Lisboa. Mas eu resolvi o problema muito facilmente: considerei que 9x3 eram 28 e chumbei. As contas estavam todas mal! Em Évora tive os primeiros dois contactos Ă HVFDODSURĂ€VVLRQDO3ULPHLUR com um senhor, onde estive um ano e tal. Mas os conhecimentos desse senhor eram um pouco limitados. Eu fiquei sempre amigo dele, mas um dia disse-lhe: ÂŤsr. Freitas, desculpe, mas eu quero aprender maisÂť. E passei para um outro fotĂłgrafo de Évora, que era um profissional muito batido. AĂ­ eu jĂĄ era sĂłcio do Grupo Câmara (Grupo de AmadoUHVGH)RWRJUDĂ€DH&LQHPD 

“Fui sĂłcio-gerente da Hilda, onde estive 50 anosâ€?

e concorri a uma exposição aqui em Coimbra, feita por esse grupo. Tive o primeiro prÊmio e a Atlântida Livraria Editora, que era na rua Ferreira Borges, querendo montar uma secção fotogråÀFDHVDEHQGRTXHHXHVWDYD disponível, convidou-me para vir para Coimbra. Jå cå estou hå 63 anos. Cerca de um ano depois fui convidado para ser sócio-gerente da Hilda, onde estive 50 anos. A Hilda começou com o dr. Moura Relvas (que tinha sido governador civil e presidente da Câmara), o dr. Carlos Gonçalves (mÊdico pneumologista que tinha um consultório na rua da 6RÀD HDVHQKRUDTXHHVWDYD empregada na tabacaria na Portagem, para quem foi feita realmente a casa e que se FKDPDYD,OGD$ÀUPDWLQKD H no nome por sugestão do dr. Moura Relvas, porque as pessoas depois iriam discutir se em português levava ou não H. E assim aconteceu. Quem inicialmente fazia ainda parte da sociedade era um fotógrafo, que ainda o estabelecimento não estava aberto jå estava à briga com a Ilda. Por uma questão muito simples: mandaram fazer umas caixinhas com a palavra Hilda e ele queria tambÊm o nome dele por baixo. O nome que lå estava era o da loja e não da senhora. Ele não estava de acordo e saiu. O dr. Carlos Gonçalves, que jå me conhecia, convidou-me e eu fui para a Hilda.

Era uma tabacaria com XPDVHFomRIRWRJUiÀFD(P Coimbra não havia uma loja espaçosa, onde os amadores conversassem e trocassem opiniþes. Era um centro de acolhimento para esses amaGRUHVGHIRWRJUDÀD2IDFWR Ê que a fotografia passou a ser a actividade reinante e as outras passaram para segundo plano. Fotografias percorreram os cinco continentes

Como na altura os jornais não tinham fotógrafos, Êramos nós, e outros fotógrafos, que servíamos os jornais. Aquilo começou com o Diårio de Coimbra, O Despertar e depois passåmos para Lisboa, para o SÊculo, Diårio de Lisboa; no Porto foi o Jornal de Notícias, o ComÊrcio, o Janeiro. Tive de formar uma equipa, porque não WLQKD JHQWH VXÀFLHQWH SDUD as solicitaçþes. Depois apareceram tambÊm os jornais desportivos nacionais... Nós eståvamos 24 horas por dia à disposição dos jornais. Depois apareceu ainda a televisão (a RTP), onde trabalhei como câmara-man durante 20 anos, principalmente na região Centro. Paralelamente continuei sempre a concorrer, colectiva e individualmente, DVDO}HVGHIRWRJUDÀD,VVR tambÊm contribuiu para me DÀUPDUSRUTXHDVPLQKDV

fotografias correram os cinco continentes. Tenho umas 20 taças nacionais, muitas medalhas e cerca de 100 mençþes honrosas internacionais. A Federação InternaFLRQDOGH$UWH)RWRJUiÀFD que tem sede na Suíça, reconheceu os meus esforços dentro do Grupo Câmara (cujo boletim começou com uma folha dactilografada e acabou quase como uma revista) atribuindo-me XPJDODUGmRKRQRUtÀFR2 título que me outorgaram foi de excelente. Era uma honra. A parte da televisão tambÊm foi muito movimentada. Ia morrendo em trabalho cinco vezes e escapei por segundos. Em desabamentos, atropelamentos nos ralis, incêndios... Uma vez sai com um repórter do Diårio de Coimbra para um incêndio, em Ceira. Andåmos pela parte queimada, com PXLWDGLÀFXOGDGHHGHSRLV chegåmos à zona por arder e ele diz: Eu vou para ali. Ali Ê a frente da linha de fogo. Isso não se faz, respondi eu. Eu jå tinha muita experiência e sabia que se houvesse uma rabanada de vento a encosta desaparecia em três minutos. Eu não fui. Fui para uma aldeia que estava a ser ameaçada. E aconteceu exactamente o que tinha previsto. Veio uma rabanada de vento, o fogo galgou a encosta, ele estava no meio da linha de fogo e começou a gritar, porque ao fugir pisou uma cova com silvas e ficou preso. Morreu queimado. Um bombeiro voluntårio de Coimbra ouviu-o e tentou acudi-lo. TambÊm lå morreu. Uma vez tambÊm ÀTXHLFHUFDGRSHORIRJRH como tinha o carro atestado, achava que aquilo ia explodir... É, por isso, que estou convencido que vou morrer muito velho.

BI

Fotógrafo de mÊrito reconhecido Varela Pècurto, 88 anos de idade, Ê uma personalidade marcante do fotojornalismo. Venceu múltiplos prÊmios a nível nacional e internacional e foi homenageado com o título de H[FHOHQWHSHOD)HGHUDomR,QWHUQDFLRQDOGH$UWH)RWRJUiÀFD com sede na Suíça. (VWiUHSUHVHQWDGRHPYiULDVFROHFo}HVIRWRJUiÀFDVHQWUHDV quais se conta o Museu Nacional de Arte Contemporânea e a Fundação Museu Nacional Ferroviårio. Foi operador de câmara

da RTP na região Centro e fotógrafo de livros. É ainda autor de livros sobre Penacova (84), Ervedal (2006) e Lousã (2010), este último traduzido em vårias línguas. 2V&77UHSURGX]LUDPHPVHORXPDIRWRJUDÀDGDVXD autoria, no âmbito da sÊrie comemorativa dos 150 anos do caminho-de-ferro em Portugal. 'RRXRVHXHVSyOLRIRWRJUiÀFRDFkPDUDVGRVGLVWULWRV de Coimbra e Viseu.

Quem me dĂĄ apoio ĂŠ a minha mulher, que ĂŠ a eterna VDFULĂ€FDGDSRUHXQmRWLQKD vida social. SĂł quando comecei a ter empregados para me substituir na televisĂŁo ĂŠ que

comecei a viajar. Não fui um Marco Pólo, mas conheço boas partes do mundo. Mas DVPLQKDVIRWRJUDÀDVYLDMDram muito mais, porque elas iam sozinhas, pelo correio�.

E AINDA

“Quando cheguei a Coimbra, pensei em vĂĄrias maneiras de me salientar no meio da minha classe. Foi por isso que escrevi uma crĂłnica semanal no ÂŤJornal de CoimbraÂť, com o compromisso de ser sempre ligada a Coimbra. Como tĂ­nhamos bons jornalistas em Coimbra, assim como agora, eu tinha de me agarrar a algo que eles nĂŁo ventilassem. Comecei a conhecer a cidade ao nĂ­vel do solo, sob o solo e pelo ar.â€? “Por exemplo, sob a avenida SĂĄ da Bandeira passa um regato das nascentes que estĂŁo, ainda hoje, a verter ĂĄgua no Jardim da Sereia. Eu entrei no tĂşnel perto do Mercado do peixe e fui sair Ă Sereia, com dois bombeiros, sempre por baixo do chĂŁo. Descobri coisas muito engraçadas, que estĂŁo Ă  vista de toda a gente e ninguĂŠm repara nelas.â€? “As pessoas de Coimbra sĂŁo um pouco apĂĄticas em relação ao que de bom tĂŞm. HĂĄ pessoas que nascem, vivem e morrem sem nunca irem ao Museu Nacional Machado Castro, Ă  Biblioteca Joanina, Ă  SĂŠ Velha... como ĂŠ possĂ­vel? Acho que viver num mundo que se ignore ĂŠ muito mau. A gente tem de conhecer o sĂ­tio onde vive.â€? “Todas estas coisas todas foram contribuindo e somando-se de tal forma que a Câmara Municipal de Coimbra atribuiu-me a medalha de mĂŠrito cultural. Toda a minha vida ĂŠ resultante de um princĂ­pio que estabeleci a mim prĂłprio quando decidi ser fotĂłgrafo: eu tinha de fazer mais qualquer coisinha que os meus colegas, se nĂŁo era mais um nome anĂłnimo no mundo GDIRWRJUDĂ€DÂľ “O Miguel Torga pensou em fazer uma exposição de textos HSRHPDVLOXVWUDGRVHYLHUDPWHUFRPLJR(HXĂ€]DVIRWRJUDĂ€DV A exposição foi inaugurada no Chiado, depois foi para Lisboa, Porto, Europa, EUA e atĂŠ a Pequimâ€?. ´2XWUDFRLVDTXHWDPEpPĂ€]TXHQLQJXpPFiID]LDHFRQWLQXDDQmRID]HUpIRWRJUDĂ€DDpUHDÂľ ´)L]YiULDVH[SRVLo}HVLQGLYLGXDLVPDVMXOJRTXHĂ€]DPDLRU que alguma vez se tenha feito sobre as nove ilhas dos Açores. $TXHĂ€]VREUHD0DGHLUDWDPEpPIRLPXLWRERD7HYHXP catĂĄlogo esplĂŞndido, com o texto em portuguĂŞs, francĂŞs, inglĂŞs, alemĂŁo e sueco.â€? “A exposição dos Açores era espectacular. AtĂŠ agora nĂŁo conheço ninguĂŠm que tenha feita uma exposição tĂŁo completa. O catĂĄlogo dos Açores foi pago pela Secretaria de Estado do Turismo. Era na altura primeiro-ministro o Mota Pinto, que me disse: ÂŤesta exposição ĂŠ excepcional. Vamos inaugurĂĄ-la em LisboaÂť. E eu respondi-lhe: ÂŤĂł dr. eu nĂŁo tinha isso nos meus planos. É em Coimbra que eu vivo; É lĂĄ que gostava que fosse inauguradaÂť. O entĂŁo ministro da Marinha ĂŠ que veio cĂĄ inaugurĂĄ-la. Publiquei uma medalha comemorativa dessa exposição, tal como jĂĄ tinha publicado da Madeira. Ambas foram executadas pelo Vasco Berardo.â€? “Para mim, no capĂ­tulo da polĂ­tica, todo aquele que ultrapassa as exigĂŞncias de servir Portugal, substituindo essa função em nome do partido polĂ­tico a que pertence nĂŁo estĂĄ no caminho certo. Acima de tudo estĂĄ o bem da Nação. Depois ĂŠ que podemos pensar na polĂ­tica.â€? “Estou convencido que o dr. Manuel Machado pode fazer uma governação boa da cidade pelo simples facto de ele nĂŁo ser um principiante. Estou muito esperançado na presidĂŞncia do dr. Manuel Machado.â€?

Campeão das Províncias (31/12/2013)  
Campeão das Províncias (31/12/2013)  

Edição em PDF do semanário Campeão das Províncias n.º 705, publicado a 31/12/2013

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