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ENTRE AS FLORES E O ARCO-ÍRIS Camila Beaumord “Quero comprar-lhe flores... é uma pena que você é um menino. Pois quando não é uma menina, ninguém lhe compra flores”. Com esta afirmação, e o desejo de presentear seu amor com um artigo predominantemente feminino, a francesa Emilie Simon chamou minha atenção em 2006. Sua voz doce e seus simples versos, cantados em inglês, narram o resto da história com o desenrolar da canção. A garota pára em uma floricultura e se pergunta se o presente será bem-vindo. Com o buquê em mãos, ela descobre que seu amado conheceu outra menina. Para se consolar, compara o amor com suas flores, ao alegar que nenhum dos dois dura para sempre. O que parece durar, no entanto, é o talento incontestável da jovem cantora francesa. Três anos depois, com outros dois discos, um álbum ao vivo e uma trilha sonora no currículo, Emilie Simon presenteia seus ouvintes com o admirável “The Big Machine”, lançado em outubro de 2009. Assim como em seus trabalhos anteriores, a artista não poupa criatividade na escolha dos arranjos e na experimentação de diferentes instrumentos. O que muda dessa vez é que Emilie resolveu soltar a voz mais do que de costume, maravilhando seus fãs com seu alcance vocal. Filha de um engenheiro sonoro, é fácil compreender o que impulsionou Simon a entrar no mundo da música. Sua educação musical começou aos sete anos, quando a pequena Emilie se ingressou no Conservatoire para estudar canto. No final de sua adolescência, matriculou-se na Universidade de Montpellier para estudar Musicologia e concluiu seus estudos formais ao obter seu mestrado em Sorbonne. Com o diploma pendurado na parede, Emilie estava determinada em unir sua educação musical tradicional com ritmos mais contemporâneos. A cantora brincou um pouquinho com o jazz e o rock até se ingressar no IRCAM, uma escola de música moderna em Paris. Lá, Simon aprendeu sobre novas tecnologias musicais e experimentações em estúdio, o que a impulsionou a testar suas composições com a música eletrônica. Finalmente, Emilie encontrou seu caminho. Toda essa trajetória por escolas musicais atrasou um pouco a carreira de Simon se comparada com as divas do pop americano, que muitas vezes lançam seus CDs de estréia antes dos vinte anos. Contudo, é sua educação que faz de Emilie Simon uma artista experiente, polida e segura de si. Sua estadia em Paris lhe rendeu não só uma excelente formação pelo IRCAM – o único instituto do mundo dedicado a pesquisas e produção de ritmos contemporâneos – como também uma parceria (e amizade) com o músico Cyrille Brissot. Até hoje, Brissot colabora com a cantora no desenvolvimento de instrumentos específicos para as necessidades de Emilie. A francesa gosta de usar uma variedade de aparelhos eletrônicos no palco para poder controlar tudo que acontece em suas performances – desde os ritmos às modulações e harmonias vocais. Mas antes dos shows, vieram as canções e os discos. “Flowers” – aquela musiquinha do começo do texto - foi um marco para a cantora francesa, pois foi


o single que levou a carreira de Emilie para passear nos Estados Unidos. Embora lançado na França em 2003, como parte do disco “Emilie Simon” (que foi um hit europeu instantâneo, por sinal, conquistando tanto o público quanto a crítica), os norte-americanos só foram descobrir o talento da jovem cantora três anos depois. Com um vídeo clipe composto por uma animação sombria, no melhor estilo Tim Burton, “Flowers” trouxe reconhecimento internacional para Emilie Simon, o que lhe deu carta branca para compor seus próximos álbuns em inglês além de seu idioma natal. Enquanto os americanos se encantavam com “Flowers” e “Désert” (outro single do primeiro disco), a cantora estava ocupada com outros projetos, como a trilha sonora do aclamado documentário “A Marcha dos Pingüins” e seu segundo álbum francês, “Vègètal”. Em ambos os trabalhos, Emilie experimentou com sons da natureza para embasar suas canções. Para a trilha sonora, por exemplo, a artista quebrou vários pedaços de gelo e utilizou esta sonoridade como ritmo de fundo. Em “Vègètal”, como o próprio nome sugere, Simon usou sons de plantas e compôs todas as letras com menções à flora. Este último foi lançado em 2006, na mesma época em que seu disco anterior estava sendo descoberto pelo resto do mundo. Em vez de descansar, Emilie aproveitou o embalo e lançou a coletânea “The Flower Book” no mesmo ano. Com repercussão principalmente nos Estados Unidos, o álbum nada mais é que uma compilação de seus trabalhos anteriores, além de conter alguns materiais de seu tour internacional, inclusive apresentações em Nova York e Los Angeles. 2007 trouxe seu primeiro álbum ao vivo, “Á l’Olympia”. Depois de uma pausa de dois anos, o incrível “The Big Machine” foi lançado. A diferença mais notável deste disco para os demais são os poderosos vocais de Emilie. Antes, a voz de Simon parecia ser mais um dos muitos instrumentos com os quais a artista gostava de experimentar. Já em “The Big Machine”, seus vocais são a atração principal e Emilie impressiona todos com seu alcance. Faixas como a animada “Closer” e a divertida “The way I see you” – em que a cantora reclama de seus desentendimentos amorosos – mostram muito bem o poder de sua voz. E não se pode deixar de mencionar “Rainbow”, música que abre o disco. Já selecionada como single, a faixa muda de direção a cada etapa da canção e abre espaço para os mais variados instrumentos de fundo, o que mostra a experiência musical de sua compositora. Emilie Simon é, sem dúvida, uma artista excepcional. Embora conhecida por suas experimentações eletrônicas, a francesa nunca deixa de lado seu amor por outros gêneros, em especial o rock (ela já gravou versões de “I wanna be your dog”, de Iggy Pop, e “Femme Fatale”, dos Velvet Underground). Suas influências, sua educação musical e, principalmente, seu talento, fazem de Emilie uma compostiora singular. Ela é a prova viva de que a arte francesa pode ser encontrada em muitos outros lugares além do Louvre.

Entre as flores e o arco-iris  

Matéria sobre a trajetória musical da cantora/compositora francesa Emilie Simon. Publicada na edição 24 da Revista Catarina, em 2010.

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