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Olhares da percepção: Das telas de Hollywood para o inovador cinema Indiano Camila Teixeira Barros Resumo: O objetivo deste trabalho é analisar a partir de concepções da Indústria Cultural e da linguagem cinematográfica as diferenças existentes entre o cinema americano e a crescente indústria bollywoodiana, a partir do filme Phir Bhi Dil Hai Hindustani. Averigua-se-á a importância de se construir debates que despertem o interesse do espectador a adquirir um novo olhar sobre o cinema contemporâneo. Palavras- chave: Cinema indiano. Linguagem cinematográfica. Análise. Hollywood.

Introdução

O surgimento do cinema Indiano no século XIX, representou um marco para a arte cinematográfica, já que incorpora a excentricidade da cultura, costumes e tradições do povo oriental. Com o passar do tempo a capital, Bollywood, se tornou centro de produção de filmes, com desejável numero de espectadores. Hoje a produção internacional arrecada bilhões de dólares e atrai espectadores de diversas localidades do mundo. Assim como Hollywood, o cinema indiano é uma “fábrica do sonhos”, na qual a

estética e a narrativa, na maioria das vezes, atrativa e ilusória desperta a atenção do espectador, por meio de um cenário familiar, mas que é também espetacularizado. Críticos e sociólogos preferem considerar que o cinema hollywoodiano era pura alienação, era a "fábrica de sonho” (...) Eles propunham sonho e fantasia contra as agruras da vida? Certo. Mas, para esses sonhos e fantasias terem efeito, era necessário que eles tocassem numa vontade de sonhar, em aspirações, em medos, angústias e inseguranças que as pessoas realmente tivessem. (BERNARDET, 1985, p.41-42)

Voltado para a massa a produção do cinema indiano, une drama e comédia. Com alternância entre as cenas, o espectador observa durante a narrativa, musicalidade e coreografia entre os atores, semelhante a espetáculos musicais. Observa-se no filme “Meu Coração bate pela Índia” (2001), diversos cenários entre um corte e outro, nos


quais, atores interagem entre si, através da música e da dança, evidenciando os traços culturais indianos. Propositalmente, filmes indianos e americanos, são voltados para o público de massa, que possuem o objetivo de agradar e atender os anseios da população, para assim, conquistar o maior número de espectadores. A escola de Frankfurt vê a massificação dos meios, como uma Indústria Cultural corrompida pelo sistema, que trata o cinema, por exemplo, como mercadoria. A prática da indústria cultural segue a linha da menor resistência, não deseja mudar as pessoas: desenvolve-se com base nos mecanismos de oferta e procura explorando necessidades e predisposições individuais que não são criadas por ela, mas, sim pelo processo histórico global da sociedade capitalista. (RUDIGER, 2001. p. 143)

Entretanto, o argumento contra a indústria cinematográfica em contraponto ao cinema alternativo, não deve ser tomada como referência para designar estudos cinematográficos, pois os dois são fundamentais para compreendê-los. (AUMONT, et al. 1994)

1. O mundo de fantasias de Bollywood A película “Meu Coração Bate pela Índia”, é um longa-metragem de aproximadamente 150 minutos de duração, que apresenta a história de um apresentador e jornalista de TV, que está em constante afronte com o canal concorrente. Durante a trama se apaixona por uma jornalista, que enfrentam, juntos, o governo local para lutar contra o enforcamento de um indiano inocente, com auxilio da população e da mídia televisiva. Este filme faz parte do Star-System, forma marcante de representar a identidade do cinema indiano, na qual vai muito mais além do que a simples presença de um “atorastro”. Os musicais, os filmes mais populares são fabricados a partir de uma fórmula ditada pelo “Star System”: um astro, seis canções, três danças. Trata-se de películas longas, em média três horas de duração, cujos temas variam da corrupção ao papel subalterno da mulher na sociedade. (ORTIZ, 1994.p. 198)

Os cortes do filme são rápidos, e as cenas mudam completamente do drama para os cenários musicais, recurso este utilizado para despertar o interesse do espectador e provocar proximidade para com este.


Outro recurso adotado é a repetição, utilizada tanto no enredo do filme, que possui uma narrativa linear composta por uma estrutura de sucessão, desencadeando um beneficio realizado, tanto no cenário e nas falas dos personagens, como o jargão “I am the Best”, utilizado sempre pelo protagonista. O filme é uma história de ficção baseada em fatos da realidade, organizado a partir dos moldes do cinema clássico, pois detém de uma narrativa fechada, na qual o espectador já prevê o enlace da trama. O cinema indiano também se utiliza de grande quantidade de recursos sonoros e câmera lenta durante as cenas. Especificamente, neste filme visualizamos nos personagens uma atuação exagerada, com certo teor apelativo, principalmente durante os musicais. Com isso um ator pode iniciar uma canção a qualquer momento, e em qualquer lugar. Um casal, saltitando num parque, canta acompanhado por uma orquestra de cordas invisíveis; ou durante uma canção, o ator é mostrado em seu apartamento em Bombaim, e, em seguida, numa queda dágua no Cachemir. Este uso da música parece implausível para os indianos educados, para não mencionar os ocidentais, acostumados com uma gramática da verossimilhança. Mas para a maioria dos expectadores tais efeitos parecem naturais. (ORTIZ, 1994.p. 198)

O roteiro não deixa de abordar a temática social, na qual os personagens dotados de poder impõem certa autoridade às camadas inferiores da população, através, por exemplo, da manipulação da informação pelos grandes veículos midiáticos. Entretanto, o dualismo entre bem versus mal, é evidente na narrativa, que permite aos menos favorecidos a vitória ao final da trama, e neste caso é representada pelo povo que se une para conter a injustiça da condenação. Em relação aos tipos de plano, estes estão diversificados no filme. O plano geral (PG), ocorre principalmente nos instantes iniciais e finais à condenação, sem a possível identificação dos personagens. O primeiro plano (PP) ou big close, é referência de cenas românticas entre os protagonistas e o plano médio (PM) ocorre ao longo do drama.

2. Hollywood por Frost/ Nixon

Após renunciar ao cargo de presidente, Nixon concede uma entrevista exclusiva a Frost, apresentador de um talk show australiano. De 2008, o filme revela os anseios e as inseguranças de um jornalista na busca de uma entrevista bem feita e a preocupação


do entrevistado em resgatar seu prestígio. A carga ideológica presente no personagem de Nixon é forte, e carrega a expressividade do povo norte-americano. Apesar de seguir os moldes de um filme americano tradicional, Frost/ Nixon apresenta a diegese de um jornalista “comediante” obcecado pelo poder, e pela consequente veiculação do material. Mesmo contrastando esteticamente com a película indiana, “ Meu coração bate pela Índia”, os dois revelam a importância que a televisão, possui como propagador de informação. A narrativa é linear, com alguns flashbacks entre os protagonistas. O personagem principal, Frost é reconhecido por todos como artista e não passa credibilidade e seriedade, de um jornalista preocupado em noticiar casos de notória importância social. Um ponto a ressaltar é que a dinâmica entre o olhar e cena na esfera dos meios de comunicação e nas estruturas da informação social (telejornalismo) é uma versão mais complexa e difusa daquilo que, dentro da sala escura, marcou de forma mais nítida a experiência do espectador do filme clássico. (XAVIER, 2003, p. 10).

O filme possui 122 minutos de duração e se baseia em fatos reais. Em relação a linguagem cinematográfica, os cortes são mais lentos, porém seguem um ritmo de acordo com o desenrolar da narrativa, além disso as cenas são na maioria das vezes, limitadas em estúdio. Após uma ligação telefônica ameaçadora de Nixon para Frost, ocorre uma mudança narrativa, típico dos filmes hollywoodianos, que desponta para o embate final entre esses dois personagens. Destaca-se o plano americano (PA) principalmente entre os protagonistas e closes nos momentos de reflexão de Nixon e Frost durante a entrevista e nas cenas individuais.

3. Conclusão comparativa: Bollywoody versus Hollywood

Grandes produções cinematográficas despertam interesse mundial. Atualmente o cinema indiano alavancou bilheterias e ultrapassou o hollywoodiano, devido ao grande número de filmes que são produzidos em curto prazo.

Além disso, hoje a hegemonia se sustenta pelo modelo de produção dos estúdios (propriedade das empresas majors) e a conseqüente curva de aprendizado (learning curve) das empresas baseadas em Hollywood. Já a pobreza da população e a forte barreira cultural representada, entre outras


questões, pela cultura milenar e pelas dezenas de línguas existentes fazem do emergente indiano um país atípico. Cabe salientar que a natureza da produção bollywoodiana faz do cinema indiano uma ampla opção de entretenimento – o filme indiano é um combo cinematográfico, musical e de dança em si. (SROULEVICH, 2008, p. 9)

Diferente do cinema americano, os filmes indianos são extremamente longos chegando, a duração de 4 horas. O colorido, representativo da vivacidade indiana é presente na maioria das películas.Os cortes rápidos, a música e a coreografia presentes em um filme dramático, como “Meu coração bate pela Índia”, é a identidade dos filmes indianos e se distanciam das películas clássicas americanas. No caso dos filmes anteriormente citados, os atores principais apresentam uma simpatia, que direcionam o espectador a admirá-los. A temática jornalística explícita em ambos os filmes revela a importância de se divulgar notícia de interesse geral. Além disso, observa-se como os jornalistas Frost e Ajay Bakshi encaram a ética, como valor fundamental para o exercício da profissão.

4.

Referências Bibliográficas

HOHLFELDT, Antonio; MARTINO C. Luiz; FRANÇA Veiga Vera (org.). Teorias da Comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001. GOLIOT-LÉTÉ, Anne; VANOYE, Francis. Ensaio sobre a análise fílmica. 5ª ed. Campinas, SP: Papirus 2008. AUMONT, Jacques et al. A Estética do Filme. Campinas, SP: Papirus, 1994. BERNARDET, Jean-Claude. O que é cinema? 2ª ed. São Paulo, SP: Brasiliense, 1985. ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura. 3ª ed. São Paulo, SP: Brasiliense, 1994. EARP, Sá Fábio et al. Dois Estudos sobre Economia do Cinema no Brasil. Instituto de Economia da UFRJ. Disponível em < http://www.ie.ufrj.br/publicacoes/discussao/TD08_09_25_Fabio_Sa_Earp.pdf >. Acessado em 19 set. 2010. XAVIER, Ismael. O olhar e a cena - Melodrama, Hollywood, Cinema Novo, Nelson Rodrigues. São Paulo, SP: Cosac & Naify, 2003.

Artigo com 480