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Onde se Domina a PlanĂ­cie Megan Maxwell

Guerreiras Maxwell 02


Gillian é conhecida entre os membros de seu clã como a Desafiadora por seu caráter indomável, que sendo um de seus maiores atrativos é também sua grande maldição. Apaixonada por Niall desde a infância, juntos viveram uma bonita história de amor que acabou quando este partiu para lutar junto ao rei da Escócia sem despedir-se dela. Gillian jurou então que jamais o perdoaria. Niall, por sua parte, é tão teimoso e orgulhoso como sua amada. Agora que retornou e voltam a encontrar-se, nenhum dos dois está disposto a dar o braço a torcer. Cada um sofreu a sua maneira a ausência do outro. Mas a vida é caprichosa, e a paixão que sentiram no passado começa a apoderar-se novamente deles. Serão capazes de resistir?

Disp em Esp: não tinha Envio do arquivo e Formatação: Δίκη Revisão Inicial: Freyja Revisão Final: Matias, o Marujo Imagem: Elica Talionis


Para todas as mulheres guerreiras sejam da época que forem. E em especial às guerreiras Maxwell, por serem como são e não deixarem-se vencer nunca. Amo-vos. Comentário da Revisora Freyja: Adorei a primeira parte do livro, super emocionante onde a Gillian e o Niall são como rato e gato. A segunda parte do livro gostei menos, acho que faltou algo. A Gillian é uma moça guerreira e teimosa, por vezes teimosa de mais. O Niall é um guerreiro teimoso. Por acabar nem sei do qual dos dois eu gostei mais, só que às vezes me dava vontades de esganar a Gillian e o Niall por tanta teimosia. Espero que gostem, boa leitura. Comentário do Revisor Matias Jr.: — ... Picuinhas... picuinhas... e picuinhas de um casal infante... Um livro inteirinho de picuinhas e um final digno de Barbara Cartland... Que horror... Minha diabetes foi para as estrelas... Claro que se eu fosse diabético... Esse seria o meu fim. Boa leitura.


Capítulo 01

Castelo de Dunstaffnage, 1348 As risadas e os aplausos soavam enquanto a luz das tochas iluminava o salão do castelo de Dunstaffnage. Os histriões amenizavam a asa direita do salão, as pessoas falavam e bebiam, e uns malabaristas entretinham aos menores no pátio de armas. Uma vez acabada a atuação para as crianças, o som das gaitas de fole tomou o pátio de armas, e onde até há pouco tempo carinhas embevecidas observaram aos malabaristas, agora riam, dançavam e cantavam os guerreiros com suas mulheres e as criadas do povoado. Aquela celebração se devia a que o laird Axel McDougall e sua encantadora esposa, Alana, tiveram seu segundo e esperado filho. Cinco anos atrás nasceu uma menina, a que chamaram Jane Augusta McDougall, e apesar de que Axel enlouquecia de amor pela pequena, que era uma preciosidade, como guerreiro e laird de suas terras desejava um varão. Seu sucessor. Assim, quando Darren Alexandre McDougall, nome que impuseram ao pequeno, chegou ao mundo, sua felicidade foi completa. Para o batismo se organizou uma grande festa. Axel queria mostrar o futuro laird McDougall, e em apenas uns dias, o castelo de Dunstaffnage se encheu de luz, clãs, guerreiros e vizinhos. Lady Gillian, a jovem irmã do laird McDougall, ria junto ao bom e complacente avô, Magnus. — Era um impertinente, avô — zombou. — Esse parvo aproveitou minha distração para tentar me beijar, e não restou outra opção que brandir a espada e lhe dar seu castigo. — Moça, outra vez? Divertido pelo que lhe contava, Magnus sorriu. Sua intrépida neta era uma mulher de uma coragem incalculável, e não só porque seu próprio sangue corresse pelas veias dela. Aquela pequena beldade tinha a coragem de um guerreiro, e isso fazia que se metesse em incessantes problemas. E da mesma forma que atraía aos homens por sua beleza, os fazia fugir por seu caráter. Com uma cristalina gargalhada que inchou o coração do ancião, ela assentiu. — Avô, não ficou mais remédio. Foi repulsivo! Gillian era uma jovem de cabelo claro como o sol, e tinha uns expressivos e maravilhosos olhos azuis. Mas para desgraça de seu irmão e inclusive de seu avô, era muito rebelde, e a conhecia pelo apelido de Desafiadora. Seu irmão Axel, apesar de adorá-la, zangava-se com ela todos os dias ao ver e sentir em sua própria pele as contínuas provocações que Gillian lhe lançava. Em mais de uma ocasião, depois de treinar com a jovem, Axel, desesperado, falava com o avô, e juntos reconheciam que a mimaram em excesso. Mas o aborrecimento durava pouco. Gillian era esperta e enganadora, e sabia que com um incrível sorriso, ou um doce pestanejo, voltava a tê-los a sua mercê. Os guerreiros, quando chegavam a Dunstaffnage, caíam rendidos a seus pés. Mas depois de


serem testemunhas de sua soberba, seu caráter desafiante e sua altivez durante um par de jornadas com ela, fugiam espavoridos, e o que não o fazia se arrependia de não havê-lo feito cinco dias depois e escapava, para deleite da jovem e desespero próprio. Só um guerreiro, alguns anos atrás, foi capaz de chegar ao coração de lady Gillian, mas depois de se sentir traída por ele, seu caráter se endureceu e fechou a porta ao amor. Aquela tarde, enquanto as pessoas do castelo se divertiam, Axel McDougall, seus homens e dois de seus grandes amigos, os lairds Duncan McRae e Lolach Mckenna, bebiam cerveja em suas jarras, e Alana, esposa do Axel, Megan, mulher do Duncan, e Shelma, irmã da Megan e consorte do Lolach, faziam-se confidências. — Acredito que Johanna é muito pequena para ter seu próprio cavalo. Por Deus, Megan! Só tem seis anos — disse Alana. — Eu tinha a mesma idade quando meu pai me deu de presente Lorde Draco. Acredito que é bom que Johanna saiba montar a cavalo, e não demorarei muito em subir à garupa de Lorde Draco à pequena Amanda. — Ao notar o olhar escandalizado de Alana, Megan lhe indicou com um sorriso: — Não me olhe assim, Alana! Minhas filhas, em uns anos, serão duas mulheres, e quero que saibam defender-se em um mundo de homens, porque nunca se sabe o que pode acontecer. E me permita que te diga que deveria deixar que Gillian ensinasse a Jane certas coisas que cedo ou tarde lhe virão muito bem. Ouvindo aquilo, Alana se esticou. Ainda recordava com horror a sua cunhada Gillian, com sua pequena filha, galopando através do bosque em uma corrida enlouquecida. — Axel e eu falamos muito seriamente com a Gillian. Não queremos que nossa filha se mate pelos ensinos de sua amalucada tia. E mais, desejo criar a Jane como uma dama, e embora adore a Gillian, não estou de acordo com o que às vezes pretende lhe inculcar. Shelma suspirou. Gillian lhes contou amargamente como seu irmão e Alana lhe proibiram de ensinar à pequena Jane algo que não fosse próprio de uma delicada dama. Megan, Shelma e Gillian se conheceram anos atrás, quando as duas irmãs chegaram ao castelo fugindo da maldade de seus tios ingleses. Desde o primeiro momento, Gillian se sentiu atraída por aquelas duas moças, e depois de forjar uma verdadeira amizade entre elas, cada uma ensinou às outras artes como o manejo da espada, o arco e flecha ou a rastrear. Mas Alana não era como elas. Alana era uma boa, doce e delicada mulher. Todos a adoravam por seu plácido caráter, mas sua visão da vida e do que supunha ser uma mulher era completamente diferente a das outras três. — Por São Ninian, Megan! — queixou-se Alana, escandalizada. — Amanda tem quatro anos e já a quer montar a um cavalo. E a Johanna, com seis, pretende lhe ensinar a arte da guerra. Por quê? Para que? Acaso duvida de que Duncan e seu clã sejam capazes de protegê-las dos perigos que em um futuro as possam espreitar? Megan olhou ao céu, e suspirou com moderação, voltou a vista a sua irmã, que sorria. — Sei que meu marido e meu clã — disse, — deixariam a alma e a vida antes de permitir que ocorresse algo a minhas filhas... Mas eu... Quero que saibam defender-se por si mesmas e que aprendam por mim o que ninguém lhes vai ensinar.


Shelma, ao ver a cara de horror de Alana, sorriu, enquanto observava a Gillian sentar-se a seu lado. — Alana, deve entender que os ensinos que nossos pais e avós proporcionaram a minha irmã e a mim nos ajudaram muito. Acredita que meu pai pensou alguma vez que minha irmã ou eu correríamos os perigos aos quais finalmente tivemos que enfrentar? Alana negou com a cabeça, e ia responder quando Gillian disse: — OH, Deus! Imagino do que falam, e sinto lhes dizer que minha querida cunhada e meu adorado irmão não as entenderão. Para eles qualquer das coisas que nós habilmente com o tempo aprendemos são indecentes e pouco adequadas para uma doce e fina donzela. Incomodada, Alana levantou o queixo para olhar a aquelas três que riam entre cotoveladas, e apostilou: — É óbvio. Eu não aprovo essa classe de educação. Minha filha será educada como fui eu. Aprenderá a arte de costurar, e todo senhor que aprecie a sua delicadeza e feminilidade, e você goste ou não, Axel e eu o deixamos muito claro que não queremos que ensine a Jane nenhuma de suas loucas habilidades. Gillian, depois de olhá-la com seus espetaculares olhos azuis, esboçou um sorriso que deu a entender muito a suas duas amigas, e com carinho, indicou a sua cunhada: — Não se preocupe querida Alana; ficou muito claro e... Nesse momento, ouviram-se umas fortes gargalhadas e vozes que provinham do portão de entrada, de modo que as jovens deixaram sua conversa e prestaram atenção à origem daquele alvoroço. Com curiosidade observaram que entravam duas mulheres e uns highlanders escandalosos, barbudos e com jeito de bestas. Depois de saudar-se entre eles com impropérios que turvaram a doce Alana, o grupo se dispersou. Então, Gillian blasfemou ao reconhecer a um dos homens que chegou com aqueles guerreiros. — Maldito seja! Era só o que faltava — murmurou, voltando-se para não olhar. Chegara Niall McRae, irmão do Duncan e cunhado da Megan. Esta cruzou um sorriso com ele, embora esfriasse ao ver as jovens que o acompanhava. — Quem são essas? — perguntou Shelma com curiosidade. — A do cabelo vermelho e sorriso de corvo é a insuportável Diane McLeod — respondeu Megan. — E a loira é Christine, sua irmã. Por certo, uma jovem encantadora. — OH! Mas se são minhas primas — disse Alana, sorrindo ao reconhecê-las. — Que ilusão! — grunhiu Gillian, incomodada. Diane McLeod era a parva e insípida filha do laird Jesse McLeod, casado em segundas núpcias com uma tia de Alana. Aquela moça possuía uma grande beleza. Tinha um cabelo acobreado maravilhoso e uns olhos verdes incríveis, mas infelizmente era insuportável: queixava-se por tudo. Era justamente o contrário da Christine, sua meia-irmã, uma jovem de bonitos olhos castanhos e cabelo claro, divertida e sorridente. — Quer que saiamos fora a tomar ar? — ofereceu-se Shelma. Gillian se limitou a negar com a cabeça. Odiava ao Niall McRae. Durante muitos anos sonhou


com seus beijos, seus abraços, sendo sua mulher e lhe dar filhos. Mas o dia em que ele, a poucas jornadas de suas núpcias, partiu sem despedir-se à Irlanda para servir e lutar junto ao Edward the Bruce, irmão do Robert, rei de Escócia, decidiu odiá-lo o resto de sua vida. — Gillian... — sussurrou Megan ao notar que a jovem respirava com força. — Tranquila. Estou bem — indicou, sorrindo com alguma dificuldade. Megan nunca esqueceria o incrédulo olhar da Gillian quando esta leu a nota que um highlander lhe entregou da parte de Niall. Só tinha: "Voltarei". Mas tampouco esquecia o desespero de Niall ao retornar, depois de dois anos de dureza extrema na Irlanda, e saber que Gillian, "sua Gillian", não queria saber nada dele. Gillian inspirou e, depois de assumir que ali estava o homem a quem odiava, levantou o queixo com soberba e perguntou: — Acredito que esta noite vamos passar muito bem, não lhes parece? Alana levou as mãos à boca. Aquele olhar e, em especial, aquele gesto de sua cunhada não auguravam nada bom, e agarrando-a pelo braço, sussurrou: — Por todos os Santos, Gillian. Recorda que é uma McDougall e que deve respeito a teu irmão e ao clã. Eu não quero que te incomode, mas são minhas primas e me chatearia muito que nos deixasse em evidência. Ao escutar aquela advertência, a jovem olhou com um brincalhão sorriso a sua cunhada e, depois de se levantar, alisar o vestido e arrumar seu bonito cabelo loiro, apontou com gesto altivo: — Alana McKenna, quero-te muito e te respeito porque é minha cunhada, mas que seja a última vez na vida que você me recorde que sou uma McDougall — e endurecendo a voz, chiou enquanto Megan se levantava: — Sei muito bem quem sou, e não necessito que ninguém me esclareça isso. E quanto a suas primas, tranquila, sei me comportar. Pálida e a ponto de que lhe saltassem as lágrimas por causa daquelas duras palavras, Alana se levantou e, sem dizer nada, saiu correndo pela porta ogival ante o olhar de surpresa de seu marido. Shelma, olhando a sua amiga, murmurou: — Certamente, Gillian, às vezes é... Mas antes que pudesse terminar a frase, o marido de Alana se aproximou até elas e Shelma, agarrando a saia, partiu. — O que ocorre aqui? Por que Alana se foi chorando? — perguntou Axel cruzando um rápido olhar com a Megan. Gillian o olhou e, torcendo o gesto, espetou: — O que faz ele aqui? Axel entendeu a pergunta e cabeceou. Sabia que sua irmã não o poria fácil, mas não estava disposto a entrar em seu jogo, e aproximando-se mais a ela, sussurrou-lhe ao ouvido: — Niall McRae é meu amigo, além de um excelente guerreiro. E tanto ele como seus homens visitarão minhas terras sempre que eu queira. Entendeste-o? — Não — bufou a jovem, desafiando-o com o olhar. Incapaz de seguir ali sem fazer nada, Megan se interpôs entre os dois e, pegando a mão de Gillian, disse:


— Axel, desculpa meu atrevimento, mas acredito que é melhor que leve a Gillian a tomar ar. Necessita-o. Depois de uns instantes em que os olhares dos irmãos seguiram desafiando-se, Axel assentiu, e Megan de um puxão levou a Gillian ao exterior sob o atento olhar de alguns homens, entre eles seu marido e seu cunhado. — Intuo que alguém não está feliz de verte — brincou Lolach, aplaudindo as costas de Niall para desconcerto deste e deleite de seu irmão Duncan.

Capítulo 02

A festa continuou até altas horas da madrugada, e como era de se esperar, os guerreiros de Niall McRae, aqueles barbudos, foram os mais escandalosos. Não tinham maneiras nem delicadeza, e as donzelas do Dunstaffnage fugiam espavoridas. Lady Gillian, com uma máscara de felicidade instalada em seu rosto, não parou nem um só momento de rir e dançar, algo que ninguém estranhou, porque a jovem era uma perita bailarina. Mas quem verdadeiramente a conhecia, como seu avô, seu irmão ou a própria Megan, sabiam que aquele sorriso escondia seu verdadeiro estado de ânimo, e mais quando observaram que seus olhos ardiam de fúria ao olhar ao Niall McRae e a jovem Diane. Junto aos grandes barris de cerveja os homens de diferentes clãs bebiam, cantavam e diziam fanfarronadas. Duncan, feliz porque seu irmão finalmente tivesse ido ao batismo do filho do Axel, olhou-o e se orgulhou dele. Adorava ao Niall. Era um bom irmão e um valoroso guerreiro. Depois de retornar da Irlanda, o rei lhe ofereceu por sua dedicação à causa umas terras na costa norte da ilha de Skye, onde Niall, agora laird e senhor do castelo do Duntulm, trabalhava duro junto a seus ferozes guerreiros. Anos atrás, ao explodir a primeira guerra na Escócia, os nobres anglo-irlandeses se viram pressionados e levados à ruína pelo Eduardo II. Robert the Bruce, o rei da Escócia, aparentado com alguns chefes gaélicos do Ulster, decidiu tirar partido do descontentamento irlandês, e sem perda de tempo, enviou delegados a corte e ao clérigo lhes oferecendo sua colaboração. Naquela época, Dohmnall Mac Brian O'Neill, rei de Terone, aceitou prazerosamente a ajuda do Robert, e em troca lhe ofereceu ao irmão deste, Edward, a Coroa suprema da Irlanda. Aquilo não oferecia garantias para a Escócia, mas aos irmãos Bruce pareceu bem. Em um primeiro momento, vários lairds escoceses ficaram à frente de suas terras e sua gente, mas um ano depois o rei os mandou chamar e, sem que pudessem despedir-se de suas famílias, à exceção de uma simples missiva, tiveram que empreender viagem. Naquela época, lady Gillian McDougall e Niall McRae se prometeram. Eram dois jovens ditosos e felizes que iriam celebrar suas núpcias em apenas duas semanas. Mas depois da chamada do rei, aquilo se truncou. Duncan McRae tentou interceder por seu irmão, apoiado pelo Axel McDougall e Lolach McKenna. Sabiam o importante que era para o Niall seu matrimônio com a jovem Gillian. O rei, entretanto, não quis escutar e ordenou que todos seus homens partissem para a Irlanda. À noite em que se afastavam da costa escocesa, Niall soube que Gillian, a doce e sorridente


mulher a que adorava, nunca lhe perdoaria. E não se equivocou. Quando pôde retornar a Escócia meses depois, não houve maneira de conseguir que ela o quisesse ver. Tudo o que fez foi inútil. Ferido em seu orgulho, decidiu retornar a Irlanda com seu amigo Kieran O'Hara. Ali despejou toda sua raiva lutando junto ao Edward, e ganhou o apelido entre seus homens de O Sanguinário. Durante dois longos anos lutou na Irlanda; nem a fome nem as inclemências do tempo conseguiram aplacar suas ânsias de guerra. Organizou seu próprio exército de homens e liderou com eles as mais selvagens incursões. Mas em uma de suas viagens à Escócia para falar com o rei, Edward se apresentou na batalha em Faughart, e sua atuação impaciente o levou a derrota e à morte. Aquilo pôs fim à guerra e, passados uns meses, o rei entregou a Niall umas terras na ilha de Skye como agradecimento por seus serviços. Muitos dos homens que lutaram com ele na Irlanda perderam as suas famílias, estavam sozinhos e não tinham aonde ir. Niall lhes ofereceu um lar em Skye, e eles aceitaram encantados. A partir daquele momento, Niall se converteu no laird de Duntulm, e em chefe dos mais ferozes guerreiros irlandeses e escoceses que se conheciam. Com a ajuda daqueles highlanders, Niall se centrou em suas terras e em reconstruir um castelo em ruínas. Seu lar. Também contou com a colaboração dos clãs vizinhos, entre os quais estavam os McRae. Um daqueles vizinhos era o laird Jesse McLeod, pai da Diane e Christine. A primeira se sentia fascinada por ele, mas Niall foi sincero e lhes deixou muito claro a jovem e ao pai desta que não procurava esposa e não estava interessado nela. Não obstante, parecia que Diane não se deu por vencida. Os outros vizinhos eram os McDougall da ilha de Skye, família longínqua de seu grande amigo Axel McDougall, com quem este e seu clã nunca chegaram a confraternizar. Aqueles McDougall de Skye jamais aceitaram que a já falecida mulher do ancião Magnus tivesse sido inglesa. Por isso, à noite em que o laird Frede McDougall zombou daquilo em presença de Niall, este, sem lhe importar as consequências, fez uso de seu forte caráter e lhe deixou muito claro uma coisa: Axel McDougall e os seus eram como sua própria família e não estava disposto a escutar nada ofensivo sobre eles. Mas, Niall, possuindo um forte caráter também sabia ser conciliador e conseguiu aplacar os ânimos de guerra de seus vizinhos, os McDougall e os McLeod, inimigos acérrimos desde muitos anos atrás e sedentos de contínuas lutas. Inclusive, em muitas ocasiões, teve que pôr paz entre os homens de seu próprio clã, valentes e fornidos para as guerras, mas muito toscos e rudes em suas formas e ações. Nas terras de Niall, não havia mulheres, à exceção de um par de velhas. Nenhuma moça recatada queria viver com aqueles selvagens. Nas aldeias próximas ou por onde os highlanders passavam, as donzelas decentes se escondiam. Assustavam-se. Afinal, esses homens só tratavam com prostitutas desbocadas ou mulheres de má índole. Depois de vários anos de duro trabalho no Duntulm, as terras e o gado começaram a dar seus frutos. Aqueles homens toscos pareciam ter se acomodado a esse selvagem estilo de vida e os via felizes em seu novo lar.


Mas Niall não o era. A ferida que Gillian deixou em seu coração ainda sangrava, apesar de ser um homem ao qual as mulheres lá onde fosse nunca lhe faltavam. — Outra jarra de cerveja? — ofereceu Duncan a seu irmão. — É óbvio — sorriu o outro McRae. Com rapidez, Niall afastou o olhar de Gillian e se centrou em seu irmão, sua bonita cunhada e o jovem loiro que chegava junto a eles. Ao reconhecê-lo, Niall sorriu. — Zac! — exclamou. O moço assentiu, e Niall soltou a cerveja para abraçá-lo. Estava sem vê-lo há três anos, e aquele jovem revoltoso, que sempre colocava a suas irmãs em confusões, era já quase um homem. — Niall, com essas barbas parece um selvagem — disse Zac com um pícaro gesto. — Por todos os infernos, moço — sorriu Niall, incrédulo, — a que classe de conjuros e torturas o submeteram suas irmãs para que tenha crescido tanto. Megan, imediatamente, deu em Niall um seco golpe no estômago com o punho. — Está me chamando de bruxa? — perguntou-lhe. Ante a cara de zomba de Duncan, Niall agarrou a Megan pelo braço. — Cunhada... Nunca pensaria algo tão horrível de ti — disse fazendo-os rir. Aquilo fez que Megan voltasse a acertá-lo de novo no estômago, e Niall sorriu, encantado. Nesse momento, ouviram-se uns gritos que provinham dos guerreiros de Niall. Várias criadas passavam com comida, e os homens, levantando suas toscas vozes, começaram a dizer indecências. Niall prolongou seu sorriso enquanto os escutava, mas ao ver o gesto de sua cunhada, perguntou: — O que acontece? Por que me olha assim? Megan, ofendida pelas barbaridades que aqueles homens diziam, respondeu lhe assinalando com o dedo: — Não sei como permite que seus homens se comportem como selvagens. Não os está ouvindo? Niall olhou a seu irmão em busca de ajuda, mas este desviou os olhos para outro lado. — Por São Fergus, que asco! — gritou Megan ao ver um deles cuspir. — Te juro que se fizer isso quando passar por seu lado, faço-lhe engolir os dentes. Niall encolheu os ombros e sorriu, e sem lhe dar importância, perguntou ao Zac: — Já tem quantos anos? — Quase quinze. — Há, quanto cresceste, moço — murmurou ao ver como este olhava a umas jovenzinhas de sua idade que levavam umas flores. — O tempo passa para todos — sorriu Zac. E piscando o olho, disse: — E agora, se me desculparem, tenho coisas que fazer. Com gesto alegre os dois highlanders e Megan observaram ao Zac, que caminhou para as moças e, com a galanteria que lhe ensinou Duncan, apresentou-se. — Acredito que temos ante nós o futuro rompe corações dos McRae — sussurrou Duncan, com alvoroço ao ver como aquele se pavoneava ante as jovenzinhas. — Meu irmãozinho já não é um menino... — suspirou Megan. — Acredito que Zac continuará te dando muitas dores de cabeça — zombou Niall ao


perceber que ele olhava com dissimulação o decote de uma das moças. — Só espero que não se torne um descarado como você e seus homens — replicou Megan, incrédula ao comprovar que seu irmão pegava às moças pelo braço e desaparecia. Depois de aguentar as zombas de seu marido e seu cunhado, pegou-lhes pelo braço e se dirigiram para onde conversavam os anciões Magnus e Marlob com o Axel. Estes, ao vê-los a seu lado, calaram-se. Megan e Niall, estranhando, olharam-se. O que estava ocorrendo? Instantes depois, Megan com a extremidade do olho, viu como seu marido e Axel assentiam com a cabeça, enquanto Marlob olhava ao céu com fingida dissimulação. Com picardia, Megan retirou seu escuro cabelo do rosto e, dirigindo-se ao idoso, perguntou-lhe: — Marlob, encontra-te bem? Ele tossiu e respondeu: — Perfeitamente, moça. Viu que lua mais bonita há hoje? Com gesto desconfiado, Megan intuiu que ali acontecia algo, e aproximando-se de seu marido, perguntou-lhe ao ouvido: — O que ocorre? Sei que algo acontece, e não pode me dizer que não. Duncan e seu avô se olharam. — Se inteirará a seu devido tempo, impaciente — respondeu Duncan, lhe dando um carinhoso beijo no pescoço. Aquilo a pôs de sobre aviso. E quando ia replicar seu marido, que a conhecia muito bem, olhou-a com olhos implacáveis e endureceu a voz. — Megan... Agora não. Não quero discutir — murmurou. Se Megan odiava algo eram os segredos. Por isso, depois de franzir as sobrancelhas e olhar a seu marido com irritação, afastou-se com gesto contrariado. — Uf, irmão! — soprou Niall, — não sei o que disse a sua mulher, mas acredito que te trará consequências. Duncan, divertido, olhou-a. Adorava sua mulher, especialmente por seu caráter combativo, algo que em muitas ocasiões o incomodava, mas não o queria quebrar. Depois de sorrir e ver que Megan se aproximava de sua irmã voltou-se para o Niall, que olhava a jovem Christine dançar, e com gesto sério lhe disse: — Precisamos conversar.

Capítulo 03

Aquela noite, na parte de trás do castelo, Gillian ria com sua sobrinha Jane; as filhas da Megan, Johanna e Amanda; o filho da Shelma, Trevor, e Brodick, o filho de Anthone e Briana. Se havia algo que apaixonava a Gillian eram as crianças, e elas deviam sentir o carinho da jovem porque todos, cedo ou tarde, terminavam em seus braços. — Então, tia Gillian, subiu à árvore para buscar o gatinho? — perguntou Jane, abrindo muito os olhos, incrédula.


— Claro docinho. Era o gatinho mais bonito do mundo, e eu o queria para mim. — E não te deu medo o lobo? — perguntou a pequena Amanda enquanto brincava com sua espada de madeira. Mas antes que Gillian pudesse responder, o pequeno Brodick disse: — Com certeza que sim. É uma mulher. — E por que ia a dar medo? — Repôs Johanna. Aquele arranque atraiu a atenção da Gillian. Johanna tinha todo o temperamento de sua mãe, e isso a fez sorrir. Trevor, que conhecia sua prima, olhou-a e sorriu também, enquanto Brodick respondia: — Enfrentar lobos e subir as árvores são coisas de homens, não de meninas. Johanna pôs os olhos em branco enquanto sua pequena irmã, Amanda, os olhava com o dedo na boca. — Minha mamãe diz que as damas não devem fazer coisas de homens — soltou Jane para desespero de Gillian. Então, Johanna, levantando-se, retirou os cachos de cabelo negros que lhe caíam pelo rosto e, aproximando-se do Brodick, cravou seus olhos verdes nele. — Desafio-o a ver quem sobe mais alto a essa árvore. Vejamos quem tem medo. Gillian levou a mão à boca para não soltar uma gargalhada e se levantou para ficar junto à menina. — Não, docinho, não é momento de provocações nem de que suba às árvores. Isto é uma festa e... — Lady Gillian! A jovem se voltou e viu se aproximar o Ruarke Carmichael, um pesado com olhos de rato agonizante chegado das Terras Baixas uma semana atrás. Ruarke e seu pai, Keith Carmichael, foram amigos de seu defunto pai, e desde que chegaram, não paravam de observá-la. "Maldito seja! Esse pesado outra vez." Ainda recordava que, no dia anterior, aqueles dois, quando ela regressou de seu passeio matutino despenteada e com as faces avermelhadas pela cavalgada, a reprovaram que sua atitude não era própria de uma dama McDougall. Gillian sorrira e, os ignorando, afastou-se. Aquilo não agradou ao velho Carmichael nem a seu filho. — Levo procurando-a toda a noite, milady. Prometeu-me bailar comigo um par de danças e venho cobrar essa promessa. Incômoda pela existência do Ruarke, e em especial como a olhava, pensou que o melhor seria bailar com ele para que a deixasse em paz. Por respeito à amizade que uniu aos Carmichael com seu pai, Gillian tentou não ser excessivamente desagradável com o Ruarke, mas sua paciência começava a se acabar. Depois de olhar as crianças, disse não muito convencida: — Em seguida retorno, crianças. Fiquem bem. Agarrada ao braço do Ruarke, Gillian, com gesto de chateio, dirigiu-se à zona onde todos dançavam, e quando a música das gaitas de fole começou de novo, entrou em movimento e, esquecendo-se do rosto de camundongo do homem, desfrutou do baile, alheia ao triste olhar de


seu avô e à angústia de seu irmão. Enquanto dançavam, observou com curiosidade aos guerreiros de Niall. Todos eram enormes e suas barbas mal deixavam ver as feições de seus rostos. Usavam os cabelos longos e mal penteados, e suas maneiras eram nefastas. Pareciam divertir-se, mas quando viu um cuspir ante os outros, enrugou o cenho e amaldiçoou em silêncio. — Hei-lhe dito quão bela está esta noite? — perguntou Ruarke, olhando-a com seus olhos de rato açucarado. Aquele homem reunia tudo o que a uma mulher das Terras Altas não gostava. Era justamente o contrário aos toscos guerreiros do Niall. Ruarke era baixinho, meio calvo, tinha o rosto manchado pela varíola e seu fôlego cheirava mal. Se a tudo isso somavam sua fina afetação e o afeminado que podia chegar a se pôr, era a antítese de um highlander. — Não, esta noite não, Ruarke — respondeu, zombando, — me disseram esta manhã, depois da refeição, quando me viram no salão, nas cavalariças, no lago, e acredito que alguma vez esta tarde; mas esta noite ainda... Não. Ele não respondeu a sua ironia. Limitou-se a observá-la. Aquela jovenzinha descarada, de cabelo claro, vestida com aquele fino e delicado traje azulado, era deliciosa. Só teria que limar suas toscas maneiras e encontraria nela a mulher que procurava. — É uma criatura altamente desejável, milady. E já que sei que não está comprometida, decidi vir mais frequentemente visita-la. Aquilo revolveu o estômago da Gillian. O que pretendia aquele imbecil? Mas sem querer lhe dar maior importância, respondeu: — Em nossas terras sempre serão bem recebido. Tomando aquilo como algo positivo, Ruarke lhe apertou a mão, e aproximando-se mais dela do que devia, murmurou: — É melhor ser bem recebido por você, milady — ela se tornou para trás. — Não gostaria de saber mais nada que me deseja tanto como eu a você. "Por São Ninian, que repugnante!" pensou Gillian. De um puxão, afastou-se dele e manteve a calma para não tirar a adaga que levava em sua bota. Então, desenhou um frio sorriso em seu angélico rosto. — Quem lhe disse que não estou comprometida? — perguntou. Ruarke sorriu. Conhecia sua fama de assusta homens, e aproximando-se de novo a ela, adotou um tom altivo enquanto lhe cravava seu sujo olhar nos seios: — Está comprometida, lady Gillian? — Essa é uma pergunta cuja resposta a você não interessa — respondeu ao som da música. E lhe torcendo a mão até fazê-lo mudar o gesto, chiou: — Tire seu pecaminoso olhar de meu corpo se não quer que lhe arranque a mão neste instante. Ruarke se soltou e tocou a mão dolorida. Teria gostado de esbofetear aquela malcriada, mas não era o momento nem o lugar. Então viu que seu pai o observava com olhos inquisidores, de modo que agarrou a Gillian com inapetência pela mão e continuou dançando. Christine, a prima de Alana, estava sentada observando aos que dançavam enquanto bebia cerveja, e percebeu o que ocorria ao cruzar um olhar com uma zangada Gillian. Como a esta, não gostava daquele tipo, mas não se moveu. Continuou observando-os. — Acredito que logo será seu aniversário — disse Ruarke. Gillian soprou, mas se obrigou a ser cortês por sua família e respondeu:


— Sim, dentro de cinco dias, para ser mais exata. — Magnífico. Poderei esperar — assentiu Ruarke com gesto triunfal. Aquela resposta soou estranha a Gillian. Entretanto, decidiu não lhe dar mais importância e continuou dançando, sem perceber que não longe dela Duncan e Niall McRae discutiam, e este último a olhava com gesto grave.

Capítulo 04

Depois de a Gillian ter partido, as crianças continuaram sentadas no mesmo lugar, até que Brodick olhou a Johanna e lhe perguntou: — Segue em pé a provocação? Johanna sorriu, e levantando-se, disse-lhe olhando a copa da árvore: — Desafio-te a subir o mais alto possível. — O tio Duncan se zangará e te castigará — advertiu Trevor a sua prima. — Tranquilo, Trevor; mamãe me defenderá — lhe respondeu Johanna com um pícaro sorriso. — Johanna, as damas não se comportam assim — a repreendeu a pequena Jane. A temerária Johanna sorriu de novo e, deixando a Jane com a boca aberta, respondeu: — Eu não quero ser uma dama. Quero ser um guerreiro. Brodick, surpreso pela coragem da menina, falou: — Como prêmio exigirei um beijo. Jane levou as mãos à cabeça, escandalizada, mas Johanna a olhou e, depois de lhe mostrar a língua, apontou: — De acordo, mas se ganho eu, se jogar ao lago com roupa. Brodick sorriu. Não pensava perder. E para zangá-la ainda mais, disse: — Está segura, garotinha, de que poderá subir com esse vestido? — É óbvio, garotinho — respondeu Johanna, o que fez rir a seu primo. Jane, nervosa, levantou-se. — Não, não o façam! Podem cair e se machucarem! — exclamou com um gesto de horror. Mas nenhum a quis escutar. E depois de contar até três, os dois começaram a subir pela árvore. Brodick subia mais depressa, pois a Johanna incomodava a saia. Isso a zangou ainda mais, mas então o tecido se rasgou e viu-se mais livre e começou a subir a uma velocidade que surpreendeu ao próprio Brodick. — Estão muito acima; não subam mais — gritou Jane, que estava junto à Amanda e Trevor. — Nem o pense! — gritou Johanna, animada. Se de algo gostava era do perigo e isso o sabia bastante bem. Mas de repente se ouviu o ruído de uns ramos ao rachar e Johanna se paralisou. Amanda, a menor, assustada, correu em busca de ajuda. Brodick percebeu que o ramo que Johanna estava segura era o que começou a rachar e tentou ir para ela. — Não te mova, ou o ramo terminará de partir — disse o menino.


Johanna olhou para cima e, com um sangue-frio que deixou sem palavras ao Brodick, deu um salto e se apoiou no mesmo ramo que ele. — Hei! Como fez isso? Johanna, com um sorriso muito parecido com o de seu pai, olhou-o e disse: — A ti precisamente não vou contar isso. E nesse momento, Amanda chegou com Gillian pela mão, e esta, ao ver a Johanna e Brodick quase no cimo da árvore, gritou enquanto seu acompanhante, Ruarke, incomodado pela intromissão das crianças, olhava-a. — Maldita seja! — gritou Gillian para horror do Ruarke. — desçam agora mesmo os dois, ou se eu subir ides lamentar. E crianças não era momento de fazer fanfarronadas. — Mas tia... — protestou Johanna. — Se agarrem com força! — gritou Gillian ao ver como o ramo em que se apoiavam os pés das crianças se dobrava. Instantes depois, o ramo partiu e os dois ficaram suspensos no ar. Com agilidade, Gillian saltou e subiu à árvore. Depois, balançou-se e ascendeu quase até onde estavam os meninos. — Te balance e vem aqui — disse, olhando ao Brodick. O menino o tentou, mas suas pernas não chegavam ao seguinte ramo. — Brodick, não te mova, céu — murmurou Gillian ao ver o perigo. E depois de comprovar a passividade do estúpido do Ruarke, olhou ao Trevor e gritou: — Vá procurar a sua mãe ou a tia Megan. O menino saiu correndo enquanto Jane, tão fina e delicada como sua mãe, soluçava separada da árvore. — Está bem, Johanna? — Sim, tia Gillian — respondeu. — Mas as mãos começam a me doer. Gillian, com o coração apertado, arregaçou o vestido. Incomodava-a para seguir subindo. Ruarke, ao ver aquilo, escandalizou-se. — O que se supõe que ides fazer? — perguntou-lhe. A jovem, com os olhos acesos pela fúria, respondeu sem olhá-lo: — Vou fazer o que você deveria estar fazendo. E sem perder um instante seguiu subindo pela árvore, até chegar junto ao menino, que fazia esforços por segurar-se. — Me dê a mão, Brodick, e não olhe para baixo. Johanna, te segura bem, docinho, que em seguida agarro a ti. O pirralho estendeu sua mão até agarrar a da Gillian e uma vez que esta o teve bem seguro o atraiu para ela. Nesse momento, chegaram Duncan e Niall, e imediatamente, começaram a subir à árvore. Depois deles vinha a Megan e Shelma com Trevor. Com cuidado, Duncan subiu até sua filha e depois de agarrá-la em seus braços a desceu. Niall foi até a Gillian, e esta, sem olhá-lo, entregou-lhe o menino para que o descesse. Uma vez que deixou ao menino nos braços de Duncan, que já estava em baixo, Niall foi agarrar se a um ramo para ajudar a Gillian, mas esta lhe pisou na mão. — Está me pisando — protestou, olhando-a.


Gillian se fez de surpreendida e levantou o pé. — Pois saia do meu caminho, McRae. Incomoda-me. Niall, sem desanimar, subiu até o ramo onde estava Gillian e, aproximando sua zangada e barbuda cara a dela, espetou-lhe: — É teimosa como uma mula, mulher. Estavam a mais de cinco anos sem se verem. Gillian amadurecera como mulher, e estava mais bonita que antes, e embora sentisse que se desfazia por dentro ao tê-lo tão próximo, dissimulou sem alterar seu gesto altivo. De sua parte, Niall, depois de retornar da Irlanda, converteu-se em um forte highlander, como seu irmão Duncan, e apesar de que seus olhos a observavam com dureza, não podia deixar de pensar no que seu irmão lhe contou fazia um momento. — E você, McRae, é um idiota infame — disse ela. — Você? — perguntou, surpreso, e sem afastar seu olhar dela, sorriu. — Milady, seria tão amável de me dar sua delicada mão para que possa ajuda-la a descer sem que quebre o pescoço? Gillian não respondeu; ela não necessitava ajuda para algo tão banal como descer de uma árvore. Mas Niall, cansado daquele absurdo, agarrou-a pela cintura, por isso a jovem rapidamente gritou: — Não me toque, McRae. Não o necessito. Niall, entretanto, ignorou, e agarrando-a mais forte, atraiu-a para ele e, para desespero de Gillian, desceu-a da árvore. Uma vez que chegaram ao solo, Niall a soltou sem nenhuma cerimônia, e a olhou com gesto azedo. Então, todos os da festa estavam ali pendentes do que ocorria. — Por todos os Santos, Johanna! O que estava fazendo lá acima? — rugiu Duncan, zangado, a sua temerária filha. A menina olhou a sua mãe, que, atrás do pai, observava-a. — Papai, não te zangue. Brodick me desafiou, e eu... — Que Brodick te desafiou! — gritou, voltando-se para o menino, que se encolheu. — Que você desafiou a minha menina? — Sim... Sim, senhor... M... Mas... — sussurrou o menino, assustado. — Como te atreve a desafiar a minha filha? Moço, dar-te-ei uma boa lição. — Toma minha espada, papai, assim pode lutar com ele. Amanda ofereceu sua espada de madeira e Niall, esquecendo a proximidade da enfurecida Gillian e empolgado por aquele oferecimento de sua sobrinha, agarrou-a nos braços e murmurou: — Vem aqui, pequena, e não dê ideias a seu pai. Suas sobrinhas, aquelas duas preciosas meninas as quais adorava, possuíam o temerário caráter de sua mãe, e seu irmão Duncan ia sofrer eternamente. Johanna, ao ver a cara pálida do Brodick, sentiu-se culpada, e atraindo o olhar de seu pai, confessou: — Realmente, papai, fui eu quem desafiou a ele. — Como diz?! Duncan a olhou com dureza. Por que aquilo não era raro... E antes que pudesse dizer nada, a menina, retirando o cabelo do rosto, murmurou: — Por favor, papai, não grite assim. Não vê que o está assustando? Mamãe tem razão.


Quando te converte no Falcão, assusta — e lhe cravando seus olhos verdes iguais aos dele, continuou: — Por que vai dar uma lição ao Brodick se fui eu quem o desafiei? E você, Amanda, guarda a espada porque aqui não vai se necessitar. — Vale, tio — disse a pequena, nos braços de seu tio. Muitos dos ali presente, entre eles Niall, olhou para outro lado para sorrir dissimuladamente enquanto Duncan, aquele fornido guerreiro, ficava desarmado ante o que sua revoltosa filha disse. Sem saber se ria ou lhe dava umas boas palmadas, olhou-a. Aquela menina, sua menina, ia leva-lo pelo caminho da amargura, e justo quando ia arreganhá-la, Megan, sua menina grande, aproximou-se até ele e perguntou as crianças. — E qual era a provocação, docinho? Duncan bufou e a Johanna lhe iluminou o rosto. — Mami, a provocação era ver quem dos dois subia ao mais alto da árvore. Então, Megan sorriu a seu marido, que a olhava carrancudo. Mas o conhecia muito bem e sabia que estava desfrutando da coragem de sua pequena, por isso voltou a perguntar: — E quem chegou mais alto? A menina, depois de olhar a seu companheiro de diabruras, que estava branco pelos gritos do Duncan, disse para surpresa de todos: — Brodick. Foi ele quem chegou mais alto — e foi até ele, e lhe deu um beijo na bochecha. — Ganhaste esta vez, mas não espere que a próxima te deixe ganhar. — Johanna, não haverá próxima vez — rugiu Duncan, incrédulo. — Mas, papiiiiiiiiiiiiii... Megan, interpondo-se entre os dois enquanto via como alguns observavam a situação, piscou o olho a sua filha e lhe disse com voz séria: — Johanna, como diz seu pai, não haverá próxima vez! Entendido? — Sim, mami. Com um radiante sorriso, Megan olhou a seu cunhado e a seu marido. — Gostaria de beber algo? — perguntou. — Sim, toneladas de cerveja — riu Niall, divertido pela estratégia de sua cunhada. — E você, Duncan, quer algo? Ele a olhou e negou com a cabeça. A Megan se formava umas rugas na comissura dos lábios quando aguentava o sorriso. Adorava a essa mulher a cima de tudo em sua vida. Segundos depois, após lhe piscar um olho com picardia, esta partiu com Gillian e as crianças, e as pessoas se dispersaram. — Duncan- suspirou Niall com a pequena Amanda nos braços, — acredito que sua vida, com as mulheres que o rodeiam, será uma eterna guerra. — Sei, irmão... Sei — respondeu o homem, observando a sua mulher com deleite. — Tranquilo, papai. Eu te defenderei com minha espada — disse Amanda. Duncan e Niall começaram a rir, e depois de agarrar a sua filha dos braços de seu irmão e lhe dar um sonoro beijo na bochecha, soltou-a, e esta correu atrás de sua mãe. — Deste-te conta do valente e guerreiras que são minhas mulheres? — disse com orgulho Duncan. — Sim, irmão, sim. São joias difíceis de encontrar.


Capítulo 05

Depois do episódio da árvore e quando todos pareciam ter se esquecido do ocorrido, Gillian e Megan conversavam com tranquilidade sentadas em um grande banco de madeira. — Mas você viu como bebem essas bestas — sussurrou Gillian, olhando como bebiam os homens do Niall. — São highlanders, Gillian. Que esperas deles? Aquele comentário as fez sorrir, até que várias jovens do Dunstaffnage passaram junto aos homens e estes começaram a gritar as maiores grosserias que jamais ouviram. — Por todos os Santos! — grunhiu Gillian, — a essa turma de barbudos lhes falta educação. Que vulgares! Megan os conhecia e assentiu. Em mais de uma ocasião, visitaram o Niall em Skye e sofreu seus mordazes comentários, até que um dia Duncan lhe pôs o aço no pescoço a um deles; a partir desse momento a respeitaram. — Sim, Gillian, tens razão. Os homens de Niall não têm modos. Em Duntulm não há mulheres decentes. Nenhuma quer viver ali, e só tratam com as fulanas que vão visitar. — E às vezes elas são mais grosseiras que eles, o posso assegurar — disse Christine, aproximando-se. Megan sorriu. A diferença de sua irmã Diane, Christine era encantadora e uma moça de ação como elas. A apresentou a Gillian. — Sente-se aqui conosco. Dizíamos que os guerreiros do Niall são terríveis. — Eu ouvi, faz tempo que a grande maioria são assassinos — indicou Gillian sem lhes tirar o olho de cima. Christine sorriu. — Dou-lhes a razão em que têm umas maneiras deploráveis, mas, Gillian, não acredite em tudo o que se diz. Esses homens, com esses jeitos tão horríveis, essas barbas e esses maus modos, são boas pessoas. Não são assassinos desumanos como dizem. Todos eles, tanto irlandeses como escoceses, tinham uma família que perderam lutando por seus ideais e só necessitam de um pouco de carinho para voltar a ser os homens judiciosos que certamente foram. — Conhece-os bem para falar assim deles? — perguntou, surpreendida Megan. Christine olhou para aqueles selvagens e sorriu. — Mal os conheço, Megan, mas pude comprovar que as desgraças de um são de todos. E as poucas vezes que os necessitei me ajudaram sem pedir nada em troca. E isso diz muito em seu favor para mim. Subitamente, se ouviu a voz irritante da Diane. Parecia muito zangada com sua criada. — Desculpem-me, mas preciso ir salvar a pobre Alice. Certamente que a boba de minha irmã quebrou uma unha, e a está culpando a ela — disse Christine com rapidez fazendo-as sorrir. Depois de trocar uma graciosa careta com elas, se levantou e se foi, Megan e Gillian voltaram a centrar sua atenção nas vozes obscenas daqueles homens. Então a pobre e assustada


Lena chegou até elas. — Lady Gillian, seu irmão a requer em sua sala privada. — Agora? — perguntou, incomodada. — Isso me há dito. Gillian soprou e disse à criada: — De acordo, Lena. Diga ao Axel que assim que acabe com uns assuntos irei. Quando se foi, Lena passou correndo junto aos homens do Niall, que voltaram a vozear. — Juro-te que, se me dizem algo que não goste, lhes arranco os dentes — indicou Gillian, levantando-se. Com um sorriso no rosto, Megan a agarrou no braço. — Tranquila, sou a mulher do Falcão e me conhecem. Passaram junto a eles, e os homens não levantaram a voz, entretanto Gillian aguçando o ouvido ouviu: — A loura, se a encontrasse em um bosque, lhe subiria o vestido e a faria minha uma e outra vez. Ofendida, Gillian se voltou para eles rapidamente. — Quem disse semelhante obscenidade? — perguntou. Todos ficaram calados. Junto a aquela pequena mulher estava a mulher do Falcão e sabiam o que ocorreria se esta se sentisse ofendida. Ao ver que nenhum dizia nada, Gillian agarrou uma espada que havia sobre um dos barris de cerveja, e depois de uma cutilada arremessada ao ar, pousou o aço contra o pescoço de um dos barbudos e repetiu entre dentes: — Perguntei quem disse semelhante barbaridade. Os homens, ao ver que aquela moça miúda, mas com cara de poucos amigos, apertava a espada contra o pescoço do bom Sam, rapidamente reagiram e vários ao mesmo tempo se culparam do dito. — Eu. Fui eu. — Não. Fui eu — disse outro. — Nada disso — reagiu outro de cabelo vermelho. — Fui eu. Durante uns instantes, um atrás do outro assumiram a culpa, e Gillian recordou as palavras da Christine: "... As desgraças de um são de todos". Por isso, baixou a espada, mas gritou: — Tomem cuidado com suas línguas, se não querem que vos as corte. Deixando a espada onde estava, se voltou e, depois de piscar um olho a Megan começaram a caminhar. — Pobrezinhos, nunca teriam esperado que uma pequena mulher como você os assustasse! Ufanas, se olharam e riram. Mas antes de chegar a seu destino se surpreenderam quando viram o Niall entrar com passo rápido pela porta do castelo e ao Duncan enfadado, atrás. A uma distância prudencial delas, pararam e começaram a discutir. — Verdadeiramente parece um homem das cavernas — sussurrou Gillian ao observar o jeito tosco do Niall, cuja barba era tão parecida com as de seus homens. — Mas sabemos que sob todo esse pelo há um homem bonito e atraente — riu Megan. — Não exagere. Tampouco é para tanto. Então, Megan lhe deu um tapa no traseiro.


— Ah! — queixou-se Gillian, e Megan sorriu. Niall era tão alto como seu irmão. Seus largos ombros, seu amplo torso e suas pernas fortes o faziam imponente. E embora Gillian não o quisesse reconhecer, vestido com aquela camisa branca e essas calças de couro escuro, era desejável. Mas aquelas barbas que ocultavam seus carnudos lábios e aquele cabelo recolhido em um rabo-de-cavalo não lhe faziam justiça. Ele era um homem de cinzeladas e marcadas feições masculinas, de nariz reto, e uns olhos amendoados de um tom marrom delicioso. Mas tudo ficava oculto debaixo dessa enorme e espessa barba. Aguçaram o ouvido, mas não conseguiram entender nada. Discutiam, mas falavam tão perto um do outro que não se podia ouvir nada. Ao final, Niall, irado, entrou no castelo, e Duncan, depois de amaldiçoar, foi atrás dele. — Você sabe o que acontece? — Não faço nem ideia — respondeu Megan, encolhendo os ombros. Não sabia que ocorria, mas pelo gesto do Duncan e o aborrecimento do Niall intuiu que não era nada bom. — Vamos, te acompanho. Com passo rápido, chegaram até a arcada da sala, e depois de bater com os nódulos entraram para encontrar-se com o Axel, Magnus, Duncan e Marlob. — Ocorre algo? — perguntou Gillian, preocupada, aproximando-se a eles. — Sente-se! — ordenou-lhe Axel com voz grave. As mulheres se olharam, e Gillian, incomodada, perguntou: — Por que me fala assim? O que fiz agora? — Sente-se — repetiu seu avô Magnus para desconcerto da jovem. Gillian olhou a Megan e pegando-a pela mão a obrigou a sentar-se junto a ela. Passados os primeiros momentos nos quais só se ouviam as risadas de fora e o crepitar do fogo, Gillian, ao ver que nem seu avô nem seu irmão diziam nada, disse: — Não sei a que vem isto, mas se for porque subi à árvore para descer as crianças, penso que minha atitude é mais que compreensível — como nenhum dizia nada continuou: — Se for por brandir a espada e golpear ao mequetrefe do August Andersen, já contei ao avô que o fiz em defesa própria. Esse idiota tentou me beijar e Deus, quase morro de asco. Megan, ao ver que nenhum contestava, saiu em sua defesa. — Em seu caso, eu teria feito o mesmo. — Duncan a olhou e sorriu. — Não tem que ver com isso — sussurrou Axel, que não parava de dar voltas pela sala. Cada vez mais confundida, Gillian gritou: — Maldito seja, Axel! Quer me dizer de uma vez o que ocorre? Seu irmão, com gesto contrariado, ia falar, mas Magnus, seu avô se adiantou e se sentou em frente à moça lhe agarrando a mão. — No dia de seu batismo, há vinte e seis anos, teus pais chegaram a um acordo com Keith Carmichael do qual nunca mais se voltou a falar, e que tanto seu irmão como eu desconhecíamos — entregou-lhe um papel velho e enrugado para que ela o lesse. — O acordo era que, se ao dia seguinte de seu vigésimo sexto aniversário fosse viúva ou não tivesse contraído casamento, e seu filho Ruarke Carmichael não tivesse se casado, vossos destinos se uniriam em matrimônio. Megan, com a boca aberta, observou a sua amiga, que com a cabeça agachada lia o papel. Sem que pudesse pestanejar, Gillian olhou a assinatura de seu pai, e o estômago lhe encolheu. — Não, não, não...! — gritou, tirando o papel. Levantou-se e encarou seu irmão que estava


apoiado na mesa. — Não pensará nem por um momento que vou me casar com esse ridículo e absurdo idiota do Ruarke, verdade? Axel não contestou, o que zangou ainda mais a Gillian, que voltou a gritar: — Não, não me casarei com esse homem. Antes prefiro me casar com, com, com... — Com quem, Gillian? Com algum dos moços dos estábulos com os quais em ocasiões a viram te divertindo? — perguntou Axel, mal humorado. Ela o olhou, mas não respondeu. Estava farta dos boatos que sobre sua pessoa se propalavam pelo simples feito de que treinava com aqueles homens, inclusive com os guerreiros McDougall no campo de treinamento. A Axel não achava engraçado pensar em sua irmã casada com o Carmichael. Não gostava nem dele nem seu pai. Mas aquele maldito papel assim o ordenava e pouco se podia fazer. Megan olhou a seu marido em busca de ajuda, e imediatamente viu o Niall sentado no fundo da sala as olhando. Então, seu esposo levou o dedo aos lábios para lhe indicar que se calasse. Incrédulo, Duncan comprovou que ela assentia e não dizia nada. Com rapidez, Gillian começou a pensar em alguns de seus ridículos pretendentes. Mas só de pensar neles lhe revolvia o estômago; entretanto, seu avô Magnus a olhava com ar triste. O silêncio se apossou da sala e todos a contemplavam, até que ela, desesperada, levantou a vista e olhou a sua amiga. — Maldita seja! Megan, o que faço? — sem lhe dar tempo a responder murmurou apoiando-se na mesa enquanto os homens a olhavam. — Com o Robert Moning não me posso casar porque é meio tolo e não, não... Posso. — É-o — afirmou Megan. — Sinclair McMullen é, é... Um descarado... Encantador, mas... É um descarado. — Não há dúvida — voltou a assentir Megan, ganhando um olhar de seu marido. — Homer Piget... É um ser desprezível. E antes de me casar com ele, ingresso em uma abadia. — Eu o faria também — assentiu Megan, fazendo rir seu marido. — Wallace Kinsella me odeia. Lembro que... Megan recordou que Gillian se atreveu a lhe rasgar as calças pelo traseiro com a espada e sorriu. — Sim, Gillian... Wallace; esquece-o. — James Culham já se casou. Darren O'Hara... Oh, Deus, que asco de homem! — Exclamou, olhando a sua amiga. — Não sei quem é pior, se Ruarke ou Darren. Gregore Pilcher... Não, não, esse cheira a toucinho rançoso. — Sim — assentiu de novo Megan. — Scott Campbell foge de mim desde o dia em que o amarrei e o deixei a mercê dos lobos. — Sim... Melhor não pensarmos nele — riu com picardia Megan. — Kevin Lancaster... Não pode nem me ver. Roarke Phillips me odeia tanto como eu a ele. Kudran Jones... — Não, esse não — disse Megan. — Kudran se casou faz um tempo. — Oh! ... Verdade — assentiu Gillian. E cobrindo o rosto com as mãos, grunhiu: — Maldita seja! Não me ocorre mais nenhum.


Os idosos Magnus e Marlob se olharam, e Megan entendeu o que ambos pensavam. Assim, apesar do olhar de horror de seu marido e do Axel, disse: — Gillian, eu conheço um pretendente e não o nomeaste. Axel e Duncan se olharam e amaldiçoaram. Niall, ao entender o que ia fazer Megan, a olhou e negou com a cabeça do fundo da sala. Matá-la-ia mais tarde. — Quem? — perguntou Gillian. Mas antes que sua amiga mencionasse o nome, gritou: — Niall?! Oh, Megan! Como pode te ocorrer algo assim? Esse, esse... Bufão barbudo é o pior de todos os homens que conheci. — Não é um bufão barbudo — negou Megan. — Muito bem dito, moça — assentiu Marlob, defendendo a seu neto. Mas Gillian, mais histérica que instantes antes, gritou fora de si. — Nunca! Não me casarei com ele. Nunca! Antes me caso com o Ruarke, me interno em uma abadia ou me tiro a vida. Ele é um ser desprezível, ao que odeio e não suporto ver. Nunca; repito: nunca me casarei com ele. Incrédula, Megan a olhou. Como era possível que Gillian dissesse aquelas barbaridades? Com decisão, se voltou para onde Niall estava sentado e o viu sorrir. Mas Megan o conhecia, e sabia que, apesar de seu sorriso, o que escutou lhe doía. Duncan, ferido pelo que havia dito Gillian, se aproximou da jovem desesperada e chiou: — É óbvio que não te casará com meu irmão. Mas não porque você não queira, e si porque ele rechaçou a proposição. Niall tampouco quer ter nada que ver contigo. Megan, com rapidez, olhou a seu cunhado, e este, com o mesmo sorriso absurdo assentiu. Gillian gemeu; agora entendia a discussão que presenciaram. Ao ver seu gesto derrotado, Megan pegou suas mãos. — Me parece que Niall poderia ser um bom marido. Seja judiciosa e pensa. Ele sempre te quis e acredito que ainda te pode querer — ouvindo aquilo, Niall ficou em pé. Que fazia Megan dizendo aquelas mentiras? Mas não podia dizer nada, assim continuou escutando. — Niall é um bom homem; sempre o foi e sempre o será. Sei que agora pensa que ele está mudado, mas... Não é assim. Niall segue sendo o moço que conheceu outrora, e estou segura de que se você o pedisse, ele aceitaria. Levantando-se como uma flecha, Gillian agarrou a sua amiga pelo braço e, afastando-se dos curiosos olhares e ouvidos dos homens, bufou: — Ficaste louca, Megan? Como pode dizer isso depois do que aconteceu com ele e eu? — Não, não me tornei louca. — Oh, Megan! ... Como pode estar me fazendo isto? — Recorda quando te parecia boa ideia que eu me casasse com o Duncan e a mim não? Duncan sorriu. Nunca esqueceria aquele dia. Megan estava deliciosa com sua cara de enfado, negando uma e outra vez que queria ser sua mulher. — Não é o mesmo, Megan — se defendeu Gillian. — Por que não é o mesmo? Gillian não podia acreditar que sua melhor amiga lhe estivesse propondo aquilo. — Em seu caso — contestou, — eu sabia perfeitamente que Duncan e você eram um para o outro — isso fez sorrir a Megan. — Mais, recorda que seu avô e Mauled lhe fizeram prometer que


cuidaria de ti. E te, nesse momento necessitavas do amparo do Duncan para que não te ocorresse algo pior. — No que se diferencia o que eu necessitava ao que você necessita agora? Acaso deseja te casar com o Ruarke? — Oh, Deus, que asco! Revolvem-me as tripas de só pensá-lo. — Lógico, não é para menos — assentiu sua amiga. — Não, não quero me casar com esse, nem quero que me toque nem me beije — então, ao pensar no Niall, murmurou: — Mas, Megan, Niall veio acompanhado por uma mulher, não o recorda? — Sim. E sei perfeitamente que essa boba não significa nada para ele. E agora deixa de dizer e fazer tolices, e assume que Niall é o que você necessita, como eu necessitava a seu julgamento do Duncan. — Duncan acaba de dizer que Niall disse que não — cuspiu Gillian. — Mas eu acredito que... — Impossível! — gritou Gillian, voltando junto aos homens para se sentar. — O cretino, mal educado e estúpido de seu cunhado está descartado como o estão todos os que nomeei. Antes morta que ser sua mulher. Depois de um silêncio sepulcral, se elevou a voz de Niall e a deixou petrificada. — Milady, poderia me indicar por que estou descartado de tão encantadora proposição? Megan e Gillian se olharam, e esta última amaldiçoou antes de voltar-se para ver Niall sentado em um cadeirão no fundo da sala, junto a lareira. Como Gillian não respondia, Niall se levantou e se aproximou lentamente dela. Parou e a contemplou de sua imponente envergadura. — Devo pensar, milady, que cheiro a rançoso? Ou possivelmente sou um descarado encantador? — perguntou com brincadeira. Duncan, ao compreender a ironia de seu irmão e ver a cara da Gillian, supôs que aquilo não terminaria bem. Gillian se levantou para encarar ao Niall e este se acendeu. Sempre havia gostado daquela mulher com olhar descarado e piores maneiras, e ainda continuava gostando; mas olhando-a com fingida indiferença disse: — Ah, Desculpe! Lembro ter escutado que para você sou um bufão barbudo e um cretino! — e agachando-se em frente a sua cara, murmurou: — O que não escutastes é o que eu penso de você... que é uma malcriada, uma consentida, uma mal educada e um sofrimento como mulher, do mais insuportável. Raivosa pelo que Niall dizia, engoliu saliva e encarou-o. Não lhe importava que fosse mais alto ou maior que ela. Com sua estatura sabia perfeitamente defender-se e pondo as mãos nos quadris e estirando-se, disse: — Bufão! Sim, sois um bufão e um cretino! E um descarado! Mas em seu caso não é nada encantador oh, não...! — gritou, furiosa. — E prefiro me casar com qualquer um inclusive com um desses selvagens que têm como guerreiro, antes que com você. Só de pensá-lo põe-me doente. Niall, com uma mescla de fúria e diversão, sorriu, e depois de olhar a seu irmão, disse: — Sabeis, milady? Nisso estamos de acordo. Eu me casaria com qualquer uma antes que


com uma mimada como você. Portanto, podem procurar um parvo que vos aguente, porque eu não estou disposto a isso. Valorizo muito minha vida, minha paz e minha tranquilidade para me casar com uma grosseira e desconsiderada como você. "Desde quando se tratam com tanto formalismo?" pensou Megan desconcertada. Procurou ajuda nos homens, mas nenhum moveu um dedo. Com raiva na cara, Gillian levantou os braços e lhe golpeou no peito. Estava furiosa com ele desde que partiu a Irlanda. Niall, ante aqueles golpes mal se moveu e a agarrou pelo braço com gesto tosco. Axel se moveu ligeiramente, mas seu avô Magnus, segurando-o, lhe indicou que não se metesse. Com o aborrecimento nos olhos e na voz, Niall olhou a Gillian, e agachando-se para aproximar seu rosto ao dela, disse enquanto a segurava com força: — Nunca! Repito: nunca volte a fazer o que fez! E por suposto nunca volte a me tocar sem que eu lhe dê meu consentimento. Porque se voltar a fazê-lo, juro que não importará quem esteja presente, Gata. — Escutar aquele apelativo a desconcertou. Só ele a chamava desse modo. — Porque a agarrarei e a açoitarei até que aprenda que a mim não me trata assim. — Soltando-a com desprezo olhou aos que ali estavam e disse: — Agora, se não vos importa, regressarei à festa. Há uma bonita mulher me esperando e que não lhe pareço um tosco bufão, e não quero que se impaciente nem mais um instante. Sem dizer nada mais nem olhá-la, Niall se voltou, e depois de cruzar um olhar muito sério com sua cunhada, abriu a porta e partiu dando uma portada. Duncan, com gesto duro, pegou a mão de Megan, que não protestou, e seguido por seu avô Marlob, saíram também da sala. Gillian ficou tão petrificada por aquela reação do Niall que quando Magnus, seu avô, passou por seu lado e não a olhou, não soube o que dizer. Só ouviu a voz de seu irmão, que antes de fechar a porta e deixá-la só, disse: — Você o desejou, Gillian. Anunciarei seu enlace. Dentro de seis dias te casará com o Ruarke Carmichael.

Capítulo 06

À manhã seguinte, despertou, pôs um vestido acinzentado, calçou as botas e guardou ali a adaga. Odiava recordar como, a noite anterior, depois do ocorrido na sala do Axel, Niall se divertiu com a prima da Alana, Diane. E Ruarke, uma vez que seu irmão anunciou o compromisso matrimonial, se pavoneou como um idiota ante todos, olhando-a como uma posse. Depois de uma terrível noite em que não pôde dormir, ao descer ao salão o encontrou vazio, e suspirou, aliviada. Não desejava receber nenhuma só felicitação mais. Odiava ao Ruarke tanto como as bodas. Depois de tomar o café da manhã que Helda obrigou a engolir, se encaminhou para as cavalariças. Precisava dar um passeio para limpar a cabeça. Quando entrou, olhou a seus magníficos cavalos, Thor e Hada. Ao final se decidiu pela preciosa


égua branca de crina escura. — Bons dias, Hada. Gostaria de correr um pouco? A égua moveu a cabeça, e Gillian sorriu, entretanto Thor, impaciente, bufava. Agarrando-se às crinas do animal com uma agilidade incrível, se impulsionou e subiu sobre ele. — Hoje não utilizaremos sela. Preciso me desafogar para me esquecer de minha futura horrível vida, de acordo, Hada? A égua chutou o solo, e quando Gillian saiu dos estábulos, se dirigiu para o bosque. Começou a garoar. Mas sem lhe importar as inclemências do tempo, cravou os calcanhares nos flancos da égua e esta começou a galopar. Conforme se internavam no bosque, Hada acelerava seu passo. A Gillian adorava saltar riachos e qualquer obstáculo que encontrasse, e aquele caminho o conhecia muito bem. Durante bastante tempo, Gillian galopou como uma temerária amazona pelas terras dos McDougall, consciente de que estava se afastando muito e se encharcando com a chuva. Sabia que daquilo, quando retornasse ao castelo, não ia gostar, mas dava igual. De fato, não queria retornar ao castelo. Não queria pensar que em cinco dias, se não fizesse algo para remedia-lo, seu destino ficaria unido ao papa-moscas do Ruarke e a sua tediosa existência. Finalmente, se acercou de um riacho, se jogou da égua e a deixou descansar. O merecia. Resguardou-se da chuva sob uma árvore e, sacando a adaga que levava na bota, colheu um pedaço de madeira e o começou a esculpir. Mas como não dormiu a noite anterior, suas pálpebras cansadas lhe pesavam, e antes que percebesse, adormeceu. Não soube quanto tempo havia passado quando o barulho de suas vísceras a despertou. Sobressaltada, se esticou e se levantou. Era de noite. E olhando a sua volta procurou sua égua. Onde estava? — Hada!- gritou. Instantes depois, Gillian ouviu um ruído a suas costas e, voltando-se, a viu aparecer. Mas soltou um grito de horror ao ver que coxeava. — Maldita seja, Hada! O que te aconteceu? Angustiada, correu para ela. — Tranquila, preciosa, tranquila... — disse, beijando-a no focinho. Com cuidado, se agachou e olhou o sangue que brotava de uma de suas patas. Com rapidez lhe limpou a ferida com a saia e compreendeu que se tratava de um corte limpo que foi feito com algo, mas com o que? Cravando a adaga na saia, rasgou o tecido para poder enfaixar a pata do animal, e uma vez enfaixada, empreendeu a volta a casa devagar. Sabia que estava muito longe e que a noite caíra, mas não pensava nem montar na égua nem abandoná-la. Ver o animal assim e não poder fazer nada a mortificava. Sentia-se culpada. Certamente que sofreu o corte em sua amalucada corrida. Horas depois, Gillian estava encharcada, esgotada e congelada de frio. Não tinha parado de chover. Agachando-se, observou a vendagem da égua, e que cada vez coxeava mais. Ouviu ruído dos cascos de vários cavalos aproximando-se, e antes que pudesse reagir, Niall e seu selvagem exército a olhava.


Ao vê-la, ele suspirou, aliviado. Quando se inteirou de que ela havia desaparecido pensou no pior. Levavam parte do dia procurando-a. Dado o ocorrido a noite anterior, temia que aquela louca tivesse feito uma tolice. Por isso ao encontrá-la seu coração se tranquilizou. No entanto, com gesto sério e de seu cavalo perguntou: — Milady, está bem? Cansada e tiritando de frio, o olhou e, em um tom nada altivo, disse: — Minha égua está ferida e mal pode andar. Niall, comovido, desmontou do cavalo, entretanto seus homens olhavam a cena com gesto impassível. Aquela era a mulher que pôs uma espada na garganta de Sam. O highlander, aproximando-se até ela, que ainda continuava agachada, se preocupou com a ferida do animal, e depois de tirar a vendagem e comprovar que era um corte profundo, disse olhando-a: — Acredito que deveria retornar ao castelo. Seu irmão e seu prometido estão intranquilos — ao dizer aquilo lhe azedou a voz, mas continuou: — Não se preocupe com sua égua, um de meus homens a levará de volta. — Não, não quero deixá-la. Quero retornar com ela. A preocupação que viu em seus olhos fez que o sangue do Niall se esquentasse. Levantando-se foi para seu cavalo, e depois de cruzar um olhar com o Ewen, seu homem de confiança, pegou o plaid, o levou a Gillian, e o jogou por cima para que deixasse de tremer. — Se permanecer aqui a única coisa que fará será adoecer. Seu cavalo deveria descansar um momento antes de continuar. Essa ferida é bastante feia e, se segue adiante, pode se complicar. — Acredito que Hada se feriu por minha culpa... Eu tenho a culpa. — Não deve se culpar — a interrompeu Niall. — As coisas, às vezes, acontecem sem saber por que. Possivelmente sua égua tenha tropeçado com algo e você não teve nada que ver com isso. Agora se abrigue; vê-se que têm frio. O tom de voz do Niall e sua masculina presença fizeram que Gillian se estremecesse. Tê-lo tão perto a fazia rememorar momentos passados e sem saber por que o olhou e sorriu. Ele, consciente daquele sorriso, começou a curvar seus lábios justo no momento em que aparecia Ruarke, que ao vê-la encharcada, com o vestido rasgado e naquelas circunstancias, sem desmontar do cavalo, espetou: — Por todos os santos, querida! Onde se meteu, e o que lhe aconteceu? Gillian estava tão perturbada pela proximidade do Niall que não soube o que responder. Por isso foi este quem falou. — Sua égua sofreu um acidente e... — Não acha estranho! — interrompeu-o o estúpido do Ruarke. — Seguro que ela teve a culpa do ocorrido. Só terá que ver como montava. — E repreendendo-a ante todos, — isso digo, dentro de cinco dias se acabará. Quando retornarmos a minhas terras, não voltará a montar sem sela, e menos sair sozinha a cavalgar. Gillian soprou. De pronto, suas forças haviam voltado, e Niall, conhecedor daqueles ruidinhos, se afastou a um lado. — Ruarke! — gritou, enfurecida, — cala essa boca odiosa que têm se não quer ter


problemas comigo. E quanto a que dentro de cinco dias me casarei com você, ainda está por se ver! Os selvagens homens do Niall gargalharam ao escutá-la. Ruarke, incomodado, desmontou com estupidez do cavalo e se dirigiu para a Gillian com passo decidido. Niall cravou seu olhar nele. O que ia fazer aquele idiota? Gillian não se moveu, e Ruarke, aproximando-se dela, murmurou com raiva: — Seu irmão anunciou ontem nosso enlace para dentro de poucos dias. Peço-lhe respeito quando me falar. Gillian, levantando o queixo e apertando o plaid do Niall contra seu corpo replicou sem deixar de olhá-lo: — Quando você respeitar a mim, pensarei se vou respeitar a você. Os homens do Niall riram disso novamente, e zangou ainda mais ao Ruarke, que desejou acertar a cara da Gillian com um bofetão mas não se atreveu. Aqueles highlanders que o olhavam sem pestanejar o intimidavam, e mais que ninguém, aquele que foi anos atrás prometido de sua futura mulher, que com a mão no punho da espada o observava. Contendo sua raiva, se voltou para o cavalo, pegou seu plaid e o atirou de maus modos a Gillian. — Tome meu plaid e devolva esse aos McRae — vozeou. Niall, surpreendido por aquela atitude, olhou ao Ruarke com gesto duro. Teria gostado de lhe chutar o traseiro ali mesmo, mas um olhar de advertência de um judicioso Ewen o deteve. — Vamos, o que está esperando? — apressou-a de novo Ruarke. — Devolva esse plaid. Gillian se sentia furiosa, mas tirou o plaid dos McRae. Ao devolvê-lo a Niall, roçou a mão do highlander, o que lhe provocou esquecidas e prazenteiras sensações. Assustada, colheu rapidamente o do Ruarke e se abrigou. Niall, sem deixar ver suas emoções, colheu o plaid e o atirou sobre o cavalo. Depois sem olhá-la, disse a Gillian: — Milady, creio que deveria retornar ao castelo. — Essa é uma excelente ideia. Está molhada até os ossos — murmurou Ruarke montando com estupidez em seu cavalo, coisa que fez sorrir a mais de um guerreiro. Uma vez que conseguiu montar, olhou ao Niall e disse: — Que algum de seus homens leve a lady Gillian até o castelo. Ou melhor, que algum lhe deixe seu cavalo — e olhando-a com desprazer, disse: — Está encharcada. Ewen pestanejou, surpreendido. Como era possível que aquele bufão não queria levar na garupa a sua futura mulher para lhe dar calor e proteção? Olhou ao Niall e viu que este negava com a cabeça; ia dizer algo quando seu amigo, sem prévio aviso, pegou a Gillian pela mão e, a puxando, se aproximou até o cavalo de seu prometido. — Carmichael! — vociferou, atraindo sua atenção, — estou seguro de que a sua futura mulher adorará cavalgar com você. Está congelada de frio e necessita calor. Gillian o olhou horrorizada e, de um puxão, se soltou de sua mão. "É odioso, Niall McRae, pensou". Consciente do olhar furioso da Gillian e do desgosto do Ruarke porque ia o ensopar, Niall, com um sorriso nada inocente, a pegou pela cintura e a elevou até posá-la sobre o cavalo de seu prometido.


Ruarke a segurou com estupidez. Gillian se esticou e tentou não roçar naquele homem, entretanto Niall, com um sorriso fingido, regressava a seu cavalo amaldiçoando-se a si mesmo por ter feito aquilo. No que estaria pensando?

Capítulo 07

Os nervos da Gillian se alteravam a cada momento enquanto se torturava pensando que só restavam três dias para suas bodas. Olhando o alto teto de pedra de seu quarto, pensou no Niall. Ele e seus selvagens homens decidiram esperar que passasse as bodas para partir quando Duncan e Lolach fossem. Mas a diferença destes, em lugar de dormir dentro do castelo, preferiam dormir fora. Ainda não amanhecera, e Gillian não conseguia dormir. À luz das velas que havia no quarto, levantou-se e se sentou em frente ao espelho. Depois de agarrar um pente de madrepérola começou a pentear sem muitas vontades seu comprido e loiro cabelo. De repente, uns golpezinhos na porta chamaram sua atenção. Era Christine, a prima de Alana. — Olá, posso entrar? — perguntou baixinho. Com um sorriso, Gillian assentiu e se surpreendeu ao ver sobressair a ponta de uma espada sob a capa. — O que faz acordada a estas horas? — perguntou Gillian. A moça, sem se mover da porta, encolheu os ombros. — Não consigo dormir — disse. — Então somos duas! — Em seu caso, não é estranho. Como pode dormir com tantas velas acesas? Há tanta luz aqui dentro que parece de dia — comentou Christine, assinalando as velas. — Odeio a escuridão e tento evitá-la com velas — esclareceu Gillian. Mal se conheciam, mas Christine olhando-a nos olhos disse: — Decidi ir dar um passeio pelos arredores e, ao ver luz sob sua porta, pensei que possivelmente gostaria de vir comigo. — Sempre passeia com uma espada? — perguntou-lhe ironicamente Gillian. Com um sorriso encantado Christine soprou. — Realmente, a história do passeio é uma desculpa. Tenho os músculos duros. Não estou acostumada a tanta inatividade, e como Megan me disse que você também conhecia o manejo da espada, pensei que possivelmente conhecesse algum lugar onde pudesse praticar longe dos olhos de minha irmã e os ouvidos do castelo. — Que maravilhosa ideia, Christine! — Me chame Cris, por favor. Gillian assentiu sorrindo e, com rapidez, vestiu-se. Calçou umas botas, guardou a adaga em uma delas, agarrou uma capa e, abrindo um baú, lhe piscou o olho ao tirar a espada. Uma vez que saíram do castelo sem ser vistas por ninguém, foram com cautela às cavalariças, onde montaram e


com sigilo partiram. Gillian teve a precaução de tomar a direção contrária ao lugar onde sabia que dormiam Niall e seus homens. Não queria problemas com esses barbudos. E quando estavam o suficientemente longe para que ninguém as ouvisse, começaram uma crepitante corrida através do bosque de carvalhos. Com as faces avermelhadas pelo galope, chegaram a uma pequena clareira rodeada por centenas de carvalhos quando começou a clarear o dia. — Huaaaaa! — suspirou Cris. — Que lugar mais bonito! Orgulhosa, Gillian olhou a seu redor e, desmontando de Thor, assentiu. — Sim... é um lugar muito formoso. O que não lhe contou era que aquela clareira, no passado, foi o lugar preferido de Niall e dela. — Posso te perguntar algo, Gillian? — É óbvio, pergunte. — Por que te vais casar com o Ruarke? Você não o ama nem ele a ti. Além disso, em seus olhos leio que esse afetado te desagrada tanto como a mim. — Meu pai fez um trato com o pai do Ruarke — murmurou, — e por honra a minha família... — mas algo nela se revolveu e, lhe tirando importância, esclareceu: — Te juro por minha honra que, antes que me ponha uma mão em cima, esse amaneirado e estúpido bobo cairá morto. — Ai, Gillian! Não diga isso — disse Cris, preocupada. Se o fizesse, no momento em que descobrissem o cadáver do Ruarke, seria enforcada ou encarcerada por toda vida. — Pois me diga o que posso fazer? — replicou, olhando-a. — Só restam três dias e não encontro outra solução. — Busca outro marido. Gillian sorriu e, em tom de humor, respondeu: — Para que? Para matá-lo também? E então ambas puseram-se a rir. Gillian, recolhendo o cabelo com uma tira de couro marrom, disse: — Que tal se treinarmos um pouco? Realmente o que preciso é temperar meus nervos. — Perfeito! Desataram os cordões das saias, e quando estas caíram ao chão, apareceram as calças de couro marrom. Uma vez liberadas de tais objetos, tiraram as capas e, afastando-se dos cavalos com as espadas na mão, olharam-se nos olhos. — Não usa manopla, Gillian? — perguntou-lhe Christine ao ver que levava a espada à mão descoberta. — Não, me impede de segurar bem o aço. — Importa-te se eu o uso? — É óbvio que não, Cris... Vou ganhar da mesma forma — respondeu com um alegre sorriso. A risada fresca das duas se fez mais intensa. — Bom, Gillian, por fim vou comprovar se é tão boa como Megan diz. — Comecemos — respondeu a outra, desfrutando do momento.


Durante um momento se moveram em círculos enquanto estudavam os movimentos, até que Cris lançou um grito e investiu com a espada a frente. Gillian, com rapidez, parou sobre sua cabeça o aço, e Cris, fluentemente, fê-la cair de traseiro ao chão. Divertida por aquilo, Gillian se levantou e, soltando um bramido, atacou com um golpe vertical que Cris repeliu saltando com habilidade para trás. Rapidamente, Gillian girou o pulso, para lhe dar um golpe horizontal, e quando viu o aço da Cris bater contra o solo, fez uma perita cambalhota com a arma dela a pegando. — Pilhei-te! — gritou Gillian, com as duas espadas apontando a Cris. — Vá! É boa — soprou, surpreendida por aquele lance. — Você também — e lhe atirando a espada, gritou: — Vamos, ataca! Aquilo era o que necessitava. Ação. Levava tempo sem que pudesse praticar com ninguém que tivesse aquela soltura, e saltar, gritar e sentir como o aço passava perto de seu corpo fazia que desfrutasse. Os aços voltaram a se chocar, dessa vez com mais força e mais técnica. As garotas, com cada golpe, e a cada grito enfurecido, animavam-se mais. Giravam e saltavam dirigindo a espada como autênticos guerreiros, atacando e parando, e lançando cutiladas à direita e esquerda uma contra a outra. Cris brandia uma e outra vez sua espada contra Gillian, e esta rechaçava energicamente os golpes contra-atacando com mestria. Era tal seu desfrute que se esqueceram do que havia ao redor, e não perceberam que mais de cinquenta pares de olhos as observavam com incredulidade, até que se ouviu um bramido. — Por todos os Santos! O que se supõe que estão fazendo? Parando em seco se voltaram para o lugar de onde provinha a voz e se encontraram com um furioso Niall e seus barbudos, que ocultos entre as árvores foram testemunhas de como aquelas duas jovens brandiam suas espadas com arrojo. Com o coração ainda lhe pulsando com força, Niall olhava às moças. Sabia pela Diane que sua irmã Christine às vezes media suas forças com algum de seus homens no campo de treinamento do castelo, mas o que ignorava era aquele manejo tão destro da Gillian. A Gillian que ele conheceu sabia usar a espada, mas não com essa ferocidade. Agora entendia por que no Dunstaffnage e arredores a chamavam a Desafiadora. Cris, ao ver aparecer ao Niall, sorriu. Dava-se muito bem com ele, e depois do caminho para Dunstaffnage, por fim, entendeu quem lhe quebrou o coração. Só precisaria ver como observava a Gillian para entender tudo. Gillian, em troca, amaldiçoou para si mesma, mas tentou manter a compostura enquanto respirava agitada. O highlander se aproximou a grandes pernadas com gesto impassível enquanto elas, esgotadas, suavam e sopravam. — Como lhes ocorre fazer algo assim? Estão loucas ou o que? Podiam ter se prejudicado gravemente ou inclusive morrer. As moças se olharam e, sem que pudessem evitá-lo, sorriram. Isso irritou mais ao highlander, que desejou agarrá-las pelo pescoço e retorcê-los. Quando um de seus homens o despertou para lhe dizer que duas mulheres lutavam não muito longe de onde eles dormiam, em nenhum momento podia ter imaginado que fosse se encontrar com aquelas. — Tranquilo, Niall — lhe disse sorrindo uma acalorada Cris, — ambas sabemos o que fazemos. Assombrado por essa resposta, o homem abriu os braços.


— Como diz?! — gritou. E ao ver que elas não respondiam, mas seguiam com seus malévolos sorrisos, vociferou: — Pelas chagas de Cristo! Se realmente soubessem o que estavam fazendo não o teriam feito. Pusestes em jogo suas vidas. É antinatural que duas mulheres combatam; seu encargo na vida é outro muito diferente. Acabam-me de demonstrar para mim e a todos meus homens que são umas imprudentes e insensatas estúpidas que... "Acabou-se", pensou Gillian, trocando o peso de seu corpo de um pé a outro. — O único estúpido que há aqui é você — gritou, atraindo sua atenção e a de todos. — Por isso, fecha seu bico, McRae, de uma maldita vez, ou vou fechar isso eu com a espada — gritou, cansada de ouvi-lo gritar como a um possesso. Os homens se olharam uns aos outros, atônitos. Ninguém gritava, e muito menos falava assim a seu laird. Niall, soprando como um lobo por como Gillian gritou, caminhou para ela, mas esta, o surpreendendo de novo, levantou a espada com rapidez e apoiou a ponta afiada sobre a garganta do highlander. — Onde acredita que vai, McRae? — chiou, olhando-o. — Tire-me sua maldita espada do pescoço se não quer que te retorça seu delicado pescoço, Gillian — bramou Niall, enfurecido pelas liberdades que tomava aquela maldita mulher. Sabia que podia lhe dar um tapa ao aço, mas com segurança esse gesto a faria cair para trás e não queria machucá-la. — Ordena-me você? — zombou ela sem mover-se. — Vá! Voltamos para você? — zombou ele. — É óbvio. Com cretinos e bufões quanta mais distancia melhor. — Gillian... — bufou Niall, cada vez mais zangado, — juro-te que... Mas não o deixou terminar. — OH! Estou tremendo de medo! — ironizou Gillian, e Niall pôde ouvir alguma risada de seus guerreiros. "Maldita mulher!" Cris, ao ver o curso que estava tomando a situação e o aborrecimento do Niall, decidiu intervir, e aproximando-se do ouvido de sua nova amiga, sussurrou-lhe: — Gillian, acredito que deveria baixar a espada. Por favor. Ao sentir a voz quebrada da Cris, a jovem repensou e baixou o aço. Que estava fazendo? Niall, ao sentir-se liberado, tirou a espada da Gillian. — Está louca, mulher... Louca! — gritou. E de um tapa também arrancou a espada a Cris, que nem se moveu. Nos anos que fazia que conhecia o Niall, nunca o viu comportar-se de semelhante maneira. Ao contrário, costumava a ser um homem afável e divertido. Aquela arrogância acendeu de novo a Gillian, que, com uma rapidez que Niall não esperava, deu uma cambalhota, passou por debaixo do seu braço, tirou-lhe a espada e sorriu. O highlander, ao sentir-se provocado pelos atos e o olhar da jovem, sem afastar os olhos dela, perguntou: — Está me desafiando? Gillian mal podia acreditar no que Niall lhe perguntou, mas realmente era o que dava a entender ao estar ante ele com a espada na mão. Sem intimidar-se, inclinou a cabeça e respondeu:


— Se se atrever. A resposta provocou uma gargalhada geral de todos os barbudos. Aquela miúda e ousada mulher estava verdadeiramente louca. Niall era um excelente guerreiro e acabaria com ela antes que levantasse o aço. A Cris, entretanto, sentiu muitas coisas menos vontade de rir. Por sua parte Niall, indignado pela altivez da Gillian, percorreu com o olhar o corpo da jovem de cima abaixo; então, voltou-se para seus homens e, com cara de diversão, perguntou-lhes com um maléfico sorriso: — Devo me atrever? Todos começaram a animar a seu laird, enquanto Cris se aproximava da Gillian e lhe cochichava: — Ai, Gillian! O que fez? Como te ocorre desafiar ao Niall? Tremendo como uma folha, Gillian desejou correr. Nunca poderia ganhar a um highlander como aquele. Era muito grande em todos os sentidos para ela; mas sem dar seu braço a torcer, e tentando parecer serena e tranquila, olhou a sua amiga e contestou: — Não se preocupe. Não vai me matar nem eu vou ganhar. Mas esse idiota receberá um golpe ou outro meu. Estou-o desejando, me acredite. Olhando ao Niall, que ria com seus homens, deu um passo à frente e lhe deu um golpe horizontal com a espada no traseiro para chamar sua atenção. — Aceita, McRae? — gritou. Ante tamanha desfaçatez, o highlander se voltou e a olhou como olhava a um competidor no campo de batalha. — É óbvio; claro que aceito. Mas só se o ganhador escolher seu prêmio. Gillian se lamentou em silêncio enquanto ouvia o que aqueles toscos homens gritavam. Mas cravou seus olhos no Niall e perguntou: — De que recompensa falamos, McRae? "Garota inteligente, além de valente", pensou ele observando-a. E sem baixar a guarda, respondeu: — Milady, todo guerreiro merece um prêmio, e já que você é uma tenra e doce donzela — zombou, — não lhe pedirei nada que você não esteja disposta a dar de presente, isso serve? — Não, Gillian, diga que não. Nem te ocorra! — murmurou Cris enquanto lhe chegavam as indecentes coisas que gritavam os homens. Gillian engoliu saliva, e depois de levantar o queixo, gritou: — De acordo, McRae. Os homens gritaram como loucos, e Cris mordeu o lábio quando viu que Niall, com a espada na mão, sorria como um lobo. Nunca o viu olhar assim a uma mulher. — Muito bem, milady; comecemos. A jovem deu um passo para trás para separar-se dele, e equilibrando as mãos, pisou com força o chão. Com cuidado começou a andar em círculos enquanto vigiava seus movimentos. Niall, que estava se divertindo, seguiu lhe o jogo. Não pensava atacar antes dela. — Por que não ataca, McRae? Têm medo? Ele sorriu com descaramento. Estava tão maravilhado olhando-a que começou a notar que sua virilha se excitava. — Não, milady — sussurrou com dissimulação.


— Então? — voltou a perguntar, flexionando as pernas. Não confiava nele. O highlander sorriu de tal maneira que Gillian tremeu. Ela se inclinou para defender-se de um possível ataque, e ele, levantando a perna sem nenhum esforço, deu-lhe um pontapé no traseiro que a fez cair. — OH, milady! Tenho lhe feito mal? — zombou, olhando-a de cima com as pernas abertas. Ouvir as gargalhadas dos homens enquanto estava no solo foi o que provocou que se levantasse com um olhar assassino. E sem responder à brincadeira, elevou a espada e, depois de dar com fúria um grito, lançou-lhe um ataque ao abdômen que Niall, retrocedendo com rapidez, esquivou. Aquela força surpreendeu ao Niall, que recuperando seu espaço, deu um passo adiante e soltou uma estocada, e logo outras mais, até conseguir que os aços soltassem faíscas, enquanto combatiam com excessiva violência. Niall era consciente do que estava fazendo e tinha cuidado, mas estava convencido de que ela atacava disposta a feri-lo. O via nos olhos. Com virulência, Gillian lançou um golpe baixo que ele esquivou livrando-se de um bom talho no abdômen. Isso o fez sorrir e a ela blasfemar em voz alta. Minutos depois, Gillian estava esgotada. As palmas das mãos lhe doíam, mas precisava fazer saber a esse presunçoso que ela não era fácil de vencer. Sem haver tirado os olhos de cima, percebeu que em um par de ocasiões Niall ficou olhando fixamente sua boca quando ela ofegava, e decidiu experimentar algo. Soltou um ofego, tirou sua úmida língua com sensualidade e a passou lentamente pelos lábios. Como imaginou, Niall se distraiu e baixou a guarda, e ela aproveitou o momento para girar e lhe devolver o pontapé no traseiro. O homem caiu de bruços contra o chão. Os homens do Niall se calaram de repente, e então foi Cris quem saltou e aplaudiu, embora ao ver a cara enfurecida do highlander ao levantar-se conteve-se. Então, Gillian, ainda soprando pelo esforço, encarou ele e disse: — OH, McRae! Tenho-lhe feito mal? Com um sorriso do mais temerário e cansado daquele absurdo jogo, o highlander soltou um bramido e levantou a espada para lançar uma estocada feroz, o que fez que Gillian perdesse o equilíbrio e caísse rodando pelo chão. Com rapidez, Niall foi até ela, e antes que pudesse ficar em pé, sentou-se sobre suas costas e a agarrou pelo cabelo. De um puxão, soltou-lhe o cabelo, e depois de ficar com a tira de couro entre as mãos, obrigou-a a levantar a cara do chão. Enquanto seus homens gritavam encantados, sussurrou-lhe ao ouvido: — Dá-me igual se me chame Niall, bufão ou como te da na gana. Isto acabou, entendeste? Esgotada pelo esforço quase não podia nem respirar, e movendo a cabeça, assentiu. Nunca poderia ganhar a um guerreiro como aquele. Soltando-a, se voltou para seus homens, que como era de esperar, gritaram como animais. Rapidamente, Cris foi até ela e a ajudou a se levantar. — Está bem, Gillian? — Sim, tranquila — suspirou entre ofegos, retirando o cabelo do rosto. — Feriu-me em meu orgulho, mas poderei superar. Depois de dizer aquilo, com curiosidade, olhou para onde estava Niall e viu como o felicitavam seus homens. Depressa, procurou uma fuga e agarrou a Cris pela mão. — Vamos daqui — disse.


Tinha começado a andar para os cavalos quando Christine comentou: — Por todos os Santos, Gillian! Lutarão os dois com uma paixão incrível. Tanto se odeiam? — OH, sim! Certamente — bufou, incomodada. — Ouvi que entre vós houve algo no passado, e embora te zangue comigo, depois de presenciar o que acabo de ver, preciso te dizer que acredito que onde houve fogo ainda restam rescaldos. — Não diga tolices — murmurou sem olhá-la. Quando estavam a ponto de chegar aos cavalos, ouviu-se: — Milady! Foge sem me entregar meu prêmio. Fechando os olhos, Gillian blasfemou e, depois de cruzar um olhar com sua amiga, voltou-se para encará-lo. — Muito bem, o que quer? Nesse momento, os selvagens começaram a gritar de novo todo tipo de obscenidades, enquanto Niall, com um sorriso pecaminoso que denotava perigo, caminhava ao redor dela, olhando-a com tal descaramento que o baixo ventre da Gillian tremia. Quando deu várias voltas observando-a como se observa a uma prostituta, Gillian incomodada e desejosa de terminar com aquilo, colocou as mãos nos quadris e gritou: — McRae, não tenho todo o dia. Diga-me que maldito prêmio quer. — Hum... o estou pensando com atenção — zombou com voz rouca e sensual, lhe olhando os seios como se fosse devorá-los. — Estou entre duas opções e não sei realmente de qual gostaria mais. Aproximando-se dela, que se esticou, murmurou perto de sua boca: — Acredito que já sei o que quero: beijar, milady. Gillian engoliu com dificuldade e, a ponto de uma apoplexia, nem se moveu. Sentir seu fôlego nos lábios era o melhor que lhe ocorreu em muitos anos, e quando estava preparada e convencida de que o prêmio daquele descarado era sua boca, Niall se retirou e, com comicidade e brincadeira, pegou a mão da Christine e, depois de lhe piscar um olho, a beijou. Ante aquele gesto, Gillian desejou levantar sua espada e lançar-se de novo ao ataque, mas fechou os punhos para conter-se. — Beijar sua preciosa mão, Christine — disse Niall, — é o mais apetecível que há para mim. Sua só presença já é um prêmio e beijar sua mão, uma honra. "É mau", pensou Cris, mas calou-se. Gillian se voltou e, depois de colher com raiva sua saia, que estava no chão, saltou agilmente em cima do cavalo e esperou que Christine fizesse o mesmo. Uma vez que esta montou, Gillian cravou os calcanhares no Thor e partiu a galope sem olhar para trás. Niall, ainda rindo com seus homens, observou como se afastava, enquanto em sua mão apertava a tira de couro marrom que lhe tirou do cabelo.

Capítulo 08

Sentada no parapeito, Gillian olhava pela janela de seu quarto. Passaram-se os dias sem que


nada pudesse fazer para remediar o seu horrível destino, entretanto era testemunha de como o bufão do Niall e a prima da Alana, Diane, riam, passeavam juntos e desfrutavam de intermináveis conversas. Aquele dia era seu vigésimo sexto aniversario, mas não se sentia feliz. Como podia sentir-se feliz ante seu horrível destino? Abaixo, no pátio de armas, seu futuro marido Ruarke, falava com seu odioso pai, e isso lhe pôs arrepios. Só restava um dia para ter que cumprir sua terrível missão. Odiava seus olhos de rato, seu cheiro a mofo, seu hálito e só em pensar que breve aquele homem teria direitos carnais sobre ela a adoecia. Depois de amaldiçoar e fazer um talho na madeira da janela com a adaga, se fixou em dois cavaleiros que se aproximavam. Seu coração se acelerou quando comprovou que eram Niall e Diane. Sem lhes tirar a vista de cima os observou enquanto chegavam sorridentes até o pátio de armas, donde Niall com rapidez desmontou e ajudou a Diane a desmontar pegando-a pela cintura. Furiosa, Gillian começou a brincar com a adaga entre os dedos, e teve que conter seus desejos de lançá-la quando observou como lhe dizia algo e ele, encantado, sorria. Nesse momento, abriu-se a porta de seu quarto e entraram Megan, Cris, Alana e Shelma. Rapidamente, se afastou da janela. — Feliz aniversário! — gritaram todas ao entrar. "Oh, sim, fantástico! Aniversario eu, pensou", mas com um fingido sorriso as recebeu e aceitou seus beijos. Ao ver a tristeza em seus olhos, as mulheres se olharam umas a outras. Deviam atuar já! Shelma foi primeira em falar enquanto deixava um precioso vestido de noiva sobre a cama: — Vamos a ver, futura senhora Carmichael. — Gillian lhe dedicou um olhar assassino, mas ela continuou: — Necessitamos que prove de novo o vestido para ver se acertamos. Megan percebeu a cara de aborrecimento de sua amiga. Estava abatida e a via cansada. Sabia pela Cris o que aconteceu uns dias atrás com o Niall, mas calou-se. O melhor era deixar que Gillian se curvasse e, como sempre, explodir. — Estará preciosa... — sorriu Alana com fingida indiferença. — Quando Ruarke a veja aparecer com este vestido, cairá rendido a seus pés. — Ruarke e qualquer um — assentiu Cris. Gillian olhou a Megan. Estava sem falar com ela há vários dias. Parecia distante, e disso não gostava. — Ocorre-te algo, Megan? — perguntou-lhe. — Deveria me ocorrer algo, Gillian? — respondeu com ironia. Durante uns segundos ambas se olharam nos olhos, mas nenhuma deu o braço a torcer. Alana e Cris, que se aproximaram até a janela, trocaram um olhar, e a primeira, emocionada, atraiu a atenção de todas. — Não pensam que minha prima Diane e Niall fazem um bonito casal? — perguntou. — Oh, o amor, o amor! Megan e Shelma se aproximaram também à janela e comprovaram que os dois jovens sorriam junto aos cavalos. — Que bonito casal! — mentiu Megan. — Sim, a... verdade é que ambos são tão bonitos... — riu Shelma.


— Oh, sim, Niall é um homem muito, muito... bonito — particularizou Cris. Gillian se afastou mais das outras quatro. Não queria estar com ninguém. Não queria ouvir falar desses dois. Só queria estar sozinha para compadecer-se da vida que a esperava. — A verdade, Alana, é que sua prima é uma garota encantadora e muito educada — mentiu Shelma. — A noite, durante o jantar, tive o prazer de falar com ela e me comentou que adora Niall e que acredita que entre eles pode haver algo mais. — Oh, sim, disso não há dúvida — apostilou Cris, divertida. — Sério? — aplaudiu Alana, encantada. — Isso disse — assentiu Shelma, entretanto com a extremidade do olho observava a Gillian. — Confessou-me que o acha extremamente atraente e interessante. "Maldita seja! Por que preciso seguir ouvindo falar disto, pensou?" Gillian cada vez mais zangada. Megan a viu cravar a adaga com força em um pequeno baú e sem que pudesse evitá-lo sorriu. Sua encantada Gillian lutava contra o impossível e, mais cedo ou mais tarde o perceberia. O problema era que já começava a ser tarde. Por isso, todas elas decidiram açulá-la até que explodisse, e aproximando-se de sua irmã Shelma murmurou: — Oh, sim! Duncan e eu estamos encantados pelo Niall. Levávamos anos sem vê-lo tão feliz. — Shelma ouvindo soprar a Gillian sorriu, e Megan continuou: — E mais, ontem à noite mesmo me disse se me parecia bem convidar a Diane ao Eilean Doam. Uma vez ali, quem sabe Niall tome a iniciativa e lhe peça por fim em matrimônio. "Ai, Deus, como! Continuem falando e vou explodir." — Bom, bom, isso... voltaria louca a minha irmã — zombou Cris, sabedora da verdade. — Oh, outras bodas! Que lindo! — aplaudiu Alana com muita devoção. — E seguro que logo terão preciosos filhos — acrescentou Shelma rindo. — Oh, sim! — assentiu Megan. — Niall quer ter vários; adora as crianças. Só precisa vê-lo como está com a Johanna e Amanda. — Já basta! — gritou Gillian. — Se vão continuar falando do Niall e Diane, é melhor que partam. Não quero ouvir falar deles, entendem-me?! Alana, fazendo-se de surpreendida por aquele arranque de fúria, olhou às outras e com voz inocente, perguntou: — Mas, Gillian, por que te põe assim? — ao ver que a jovem não contestava prosseguiu: — Estou feliz por suas bodas, e só digo que me faria muito feliz que entre a Diane e Niall pudesse haver outras bodas. Além do mais, bonito como são os dois, estou segura de que terão uns filhos preciosos e... Soltando um grito de guerra, Gillian se lançou contra sua cunhada, mas Megan e Shelma, que a conheciam bem, estavam alertas. Seguraram-na a tempo enquanto gritava insultos, até que por fim chorou. Precisava chorar. Comovidas pela raiva e as lágrimas da Gillian, todas suspiraram. Sem tempo a perder lhe explicaram que tudo o que disseram foi encenado para saber se realmente ainda sentia algo pelo Niall. E não se equivocavam. Seguia amando ao Niall McRae. Uma vez que conseguiram clamá-la, se sentou em frente a essas mulheres que a adoravam e


sussurrou: — Odeio ao Niall! Megan lhe limpou uma lágrima. — Não, não o odeia. Ama-o e não pode negá-lo — sussurrou. E Gillian prorrompeu de novo em terríveis soluços. — Olha, tesouro — disse Shelma, levantando-lhe o queixo. — Acredito que já vai sendo hora de que lhe perdoe por algo que ele não pôde evitar. Niall e nossos maridos são highlanders, guerreiros que lutam pela Escócia e que nunca abandonariam a seu rei. Ainda não percebeste? — Já é tarde... Odeia-me. Sei. Conheço-o. — Ora vamos, Gillian — murmurou Alana com carinho. — Niall não te odeia. Acontece-lhe como a ti. Tenta esquecer-te, mas em sua cara se vê que é impossível. Gosta de minha prima porque é uma jovem bonita, mas te adora. — Mas nos deixe te dizer — continuou Megan, — que o fez pagar muito caro seu serviço e lealdade a nosso rei. Ele não pôde retornar depois daquela reunião para despedir-se de ti, como não o fizeram Duncan, Lolach nem seu irmão sequer. Mas a diferença é que nós, e centenas de mulheres na Escócia, recebemos a nossos maridos com os braços abertos, e você te afastou dele e anulou seu compromisso. Como pensa que se sentiu ele? — Uff! Digo-lhe isso eu? Fatal — assentiu Shelma. — Passou uma época terrível. — Mas Diane é uma mulher bonita, e eu vejo como a olha, e... — sussurrou Gillian com a voz quebrada depois de um lamentoso gemido. — E Niall ama a ti — sentenciou Alana, tocando-lhe com carinho o rosto. — Por minha irmã não te preocupes, Gillian — murmurou Cris. — Ela não tem nada que fazer com ele, e sei de primeira mão, acredite-me. — Escuta-me, Gillian — interveio Megan imediatamente para não deixá-la pensar, — conheço meu cunhado e sei que só tem olhos para ti. Sua Gillian, es... sua Gillian. E embora não falei com ele, estou segura de que está sofrendo cada instante do dia vendo como se aproxima seu enlace com o pateta do Ruarke — ao ver que Gillian sorria, murmurou: — E por muito que te empenhe em dizer que ele é um bufão barbudo, e que ele te diga que é uma malcriada, sois feitos um para o outro. E como disse faz uns dias, ele é seu homem. Consciente de que não podia seguir lutando contra o impossível, Gillian soprou e entre gemidos, murmurou: — Mas... Somos tão diferentes que terminaríamos por nos matar. Shelma gargalhou e, olhando a sua irmã, disse: — Gillian, se Duncan não matou a minha irmã, não acredito que Niall mate a ti. Isso as fez rir, em especial a Megan, que assentiu. — Esses highlanders do clã McRae gostam das mulheres com caráter, céu — apontou Megan. — E por muito que se empenhem a amaldiçoar e recordar em ocasiões a todos os Santos, nos adoram, e gostam que lhes apresentemos batalha. — Ora vamos, Gillian, o tempo passa — disse Alana. — Você não deseja te casar com o Ruarke, verdade? — É óbvio que não. Repugna-me — respondeu, limpando as lágrimas.


— Uf, que abominação de homem! — sussurrou Shelma, horrorizada. — Nem o diga — assentiu Cris. — Pois então deve convencer ao Niall para que se case contigo antes que termine o dia de hoje, ou já não poderá fazer nada mais para impedir suas bodas — sentenciou Megan de um puxão. Ante aquela loucura, Gillian quis protestar, mas Cris a cortou: — Uma coisa mais, Gillian: chama o Niall por seu nome e deixe de tanto formalismo. Não cai bem; ao contrário o irrita. Pronuncia seu nome olhando-o nos olhos e comprova por ti mesma se o que lhe dissemos é verdade ou não. — Pois, Cris...! Comprovo que é uma mulher muito experimentada em homens — riu Shelma. — Algo sei... — respondeu a jovem sorrindo. — Consegui que o homem ao que amo me olhasse e derrubei suas defesas, mas por desgraça ainda ficam mais por derrubar. Mas não era o momento de falar da Cris, e Megan, olhando a sua amiga, repetiu: — Deve conseguir que o tolo do Niall se case contigo antes do amanhecer, Gillian, ouviste bem? Gillian olhou às outras com olhos assustados e, cobrindo a boca com uma almofada, gritou. Quando acabou seu comprido e agonizante grito, tirou a almofada do rosto e perguntou a Megan: — E como pretende que consiga isso? Amordaço a esse selvagem e o obrigo a se casar comigo? — É uma opção — assentiu Cris, entretanto as demais riam e Gillian punha os olhos em branco. Alana ficou em pé. — Gillian, levanta-te — lhe ordenou. — Deve voltar a ser a moça que ele conheceu e da qual se apaixonou. Por tanto, descemos ao salão e tenta por todos os meios que se fixe em ti e te siga como te seguia tempo atrás — ao ver que todas a olhavam, Alana disse: — Como última opção sempre o podemos amordaçar, ou possivelmente Megan, com algumas de suas ervas, o possa atordoar. — Alana! — gritaram as mulheres, alegres. E sem esperar um momento mais, traçaram um plano. Gillian devia casar-se aquela noite com o Niall, e ponto.

Capítulo 09

Gillian vestiu o vestido cor bordéus que seu avô lhe ofereceu por seu aniversário e que, segundo suas amigas, fazia ressaltar sua bonita figura. Também soltou os preciosos e dourados cabelos. Os homens gostavam de admirar os longos cabelos das mulheres, e ela sabia que o Niall sempre gostou. Depois de tomar ar e sentindo um molho de nervos, fez uma entrada triunfal no salão. Saudou com um encantador sorriso a todos os que a felicitavam. Devia deslumbrar.


Com uma careta olhou para onde estavam sentadas Megan e as demais, e levantando o queixo, encaminhou-se para onde falava seu irmão Axel com seus amigos. Sem que pudesse evitá-lo, Gillian se fixou em Niall. Raspou a barba. A horrorosa barba que levava dias atrás desaparecera e parecia outro. Ali estava ele com seus penetrantes olhos, seu cinzelado queixo e seus tentadores lábios. "OH, Deus, que bonito está!" pensou enquanto sentia que as pernas lhe afrouxavam. Seu avô Magnus, ao ver sua preciosa neta, sorriu. — Felicidades, meu tesouro! — disse levantando os braços. — Obrigada, avô — respondeu com um espetacular sorriso. E dando uma coquete volta, perguntou-lhe: — Fica bem seu presente? Magnus gargalhou e assentiu, enquanto Niall sentia que lhe secava a boca. Aquela mulher era deliciosa, mas não mudou seu tosco gesto nem se moveu. — Está preciosa — assentiu com orgulho o ancião, cujos olhos se umedeceram. — Cada dia te parece mais a minha preciosa Elizabeth. Gillian o abraçou e o beijou. Haviam passado anos desde a morte de sua avó, mas seu avô não a esquecia. Voltando-se para seu irmão, que a olhava junto ao resto dos homens, levantou o cabelo coquetemente com as mãos e deixou seu fino pescoço a descoberto. — Axel, obrigada pelos pendentes. São magníficos! Com um carinhoso sorriso seu irmão a beijou. — Me alegro de que você tenha gostado; escolheu-os Alana. — Isso comentou — assentiu ela com um sorriso encantador. E olhando ao resto dos homens, perguntou: — Ficam bem? Os highlanders, desconcertados por aquela pergunta, assentiram. Niall, não obstante, mal pôde mover-se, pois ficou como um tolo olhando o suave e sedutor pescoço que Gillian expunha gloriosamente ante ele. Levando as mãos a um pequeno pendente de madrepérola que repousava sobre seus turgentes seios, olhou ao Lolach e, ao ver que este sorria, assinalou: — Muito obrigada por este precioso detalhe, Lolach. Shelma me deu isso antes de descer e queria agradecer isso a ti também. É precioso. — Alegra-me saber que gostou. Shelma me enlouqueceu até que encontrou algo para ti. — Uf! Imagino. — E depois de uma graciosa careta que o fez sorrir, murmurou: — É horroroso ir às compras com ela. Não conheço ninguém que duvide mais na hora de comprar algo, verdade? Lolach, agradado, assentiu. Gillian conhecia bem a sua mulher. — Parece-lhes bonito o pendente? — perguntou olhando ao Niall e ao avô deste. Marlob se sentia entusiasmado com a espontaneidade daquela jovenzinha. — Realmente, moça, como diz meu grande amigo Magnus, está preciosa. — Que tal se encontra hoje seu joelho? — perguntou Gillian ao ancião. — Ando vexado e não acredito que possa estar muito tempo de pé — respondeu, tocando a perna. — Avô — murmurou Duncan, — acredito que o melhor é que fique em Dunstaffnage até que esteja melhor. O caminho de volta até o Eilean Doam não te beneficiará nada e...


— É óbvio que ficará comigo — cortou com segurança Magnus. — Dois velhos amigos sempre têm algo de que falar, verdade, Marlob? O idoso assentiu, e Gillian, impaciente por continuar o que se propôs fazer, com um deslumbrante sorriso olhou ao jovem que, incômodo, estava junto a Marlob. — Niall, você gosta do pendente? — perguntou-lhe. Sem que pudesse evitá-lo, o homem se fixou no pendente que descansava naquele decote tão provocador e, acalorado, bebeu um bom gole de cerveja antes de assentir. Contente pelo atordoamento que percebeu no Niall voltou-se para o Duncan, que a observava com curiosidade, e se aproximou dele. — Pode sentir meu perfume, Duncan? Gillian ficou nas pontas dos pés e, lhe fazendo um gracioso sinal, obrigou-o a aproximar-se dela. Ao agachar-se, Duncan olhou a sua mulher e ao ver que sua expressão era de deleite, intuiu que tramavam algo. — Cheira muito bem, Gillian — disse, separando-se dela. — Me alegra saber que Megan acertou na escolha. Sem perder tempo se aproximou de seu irmão, logo ao Lolach e os idosos, e por último, ao Niall. E recordando o que Cris lhe aconselhou, perguntou: — O que acha do meu perfume... Niall? Estranhou que Gillian o chamasse por seu nome, inclusive se assustou ao vê-la nas pontas dos pés ante ele; por isso, deu um passo atrás e, ante o risonho olhar de seu avô, disse sem mudar seu modo duro: — Cheira muito bem, milady. Gillian, ignorando o passo que Niall dera, voltou a aproximar-se dele e, ficando nas pontas dos pés, olhou nos olhos e bateu as pestanas. — Acredita que este perfume é bom para mim? — perguntou-lhe. Niall, quase sem respiração, voltou a olhá-la. Gillian estava preciosa e tê-la tão perto era uma tentação e uma tortura. Desde que dias atrás lutou com ela no campo, sua mente só pensava em beijá-la até que os lábios lhe doessem. Mas quando acreditava que lhe ia ser impossível continuar mantendo aquele duro olhar, viu entrar a formosa embora tediosa Diane no salão. Sua salvação! — Me desculpe, milady, mas chegou à pessoa que esperava com ânsia — disse com rapidez para desconcerto da Gillian. E partiu deixando-a a ela e aos outros boquiabertos. Com sua galanteria, seu magnífico porte e um espetacular sorriso, Niall chegou até Diane, que estava preciosa com aquele vestido cor bege e seu adorável cabelo recolhido no alto da cabeça. Pegando-a pelo braço, levou-a até o outro lado do grande salão, e sentando-se em uns bancos, começaram a conversar. Aquilo agradou a Diane, que não o esperava, e sorrindo olhou a Gillian e se sentiu vencedora. Gillian soprou e, com dissimulação, despediu-se dos homens e partiu até onde estavam as mulheres. Uma vez ali, sentando-se com uma careta na boca, olhou-as a todas. — Acabou-se! — disse. — Não penso ir atrás dele quando ele vai atrás da Diane como um cão. Não há nada a fazer. Megan, que se surpreendeu, observou a seu cunhado. Parecia concentrado na conversa, mas algo em seu olhar a fez duvidar. Nesse momento, entrou o parvo do Ruarke, junto com seu


pai, no salão, e aproximando-se até o grupo de homens começou a falar. — Não o entendo — protestou Alana. — Juraria que Niall sente algo por ti, mas vendo como correu para minha prima... não sei. — Eu sim, sei — esclareceu Cris. — Ele está fazendo para dar ciúmes a Gillian, não o veem? — Maldito cabeça dura! — grunhiu Shelma, e Megan assentiu. — OH, Deus! Acredito que me dói o estômago — sussurrou Gillian ao ver o Ruarke. — É vê-lo, e me começam as náuseas. Shelma e Megan se olharam, compreendendo-a. Ruarke era delicado, covarde, rechonchudo e com cara de roedor, enquanto Niall era força, sensualidade, inteligência e beleza. — Tranquila, algo nos ocorrerá — sussurrou Megan, lhe acariciando o cabelo. — Não me casarei com ele. Nego-me! — sentenciou Gillian. — Antes me tiro a vida, se suporto a esse rato a noite de bodas. Todas a olharam com incredulidade, e Megan lhe puxou o cabelo. — Serei eu quem te tire a vida se voltar a repetir uma tolice dessas, ouviste-me, Gillian? A jovem, sem muita convicção, encolheu os ombros, mas não respondeu. — Vamos ver, Alana — disse Shelma, — sua prima é uma moça muito bonita, mas não é mulher para o Niall. É muito delicada, boba e... De repente, Shelma se calou ao perceber que Cris era sua irmã, mas esta, rapidamente e com um magnífico sorriso, esclareceu: — Não se preocupem. Diane é minha meio-irmã, e ela me quer tanto como eu a ela. E sim... é delicada, boba, insípida e tudo o que queiram dizer. Megan olhou a seu marido, e quando viu que a este lhe enrugavam as comissuras dos lábios, soube que descobrira o jogo, mas não pensava dar-se por vencida. E depois de levantar o queixo e lhe dedicar um sinistro sorriso, disse olhando a Gillian: — Gillian, sei que Niall te adora e o demonstrará. — OH, sim! Não o duvido — respondeu a jovem enquanto via o Niall, tão bonito, rindo por algo que a delicada da Diane lhe contava. Nesse momento, abriram-se os portões do salão e apareceram o jovem Zac e um grupo de homens que diretamente foram saudar o Axel, Duncan e Lolach. Megan reconheceu a um em particular e sorriu. E depois de cruzar um olhar divertido com o Duncan, que franziu o cenho, voltou-se para as mulheres e disse: — Gillian, acredito que acaba de chegar à solução que necessitava. Todas a olharam e sorriram quando viram o valoroso e atraente Kieran O'Hara. Megan e Shelma piscaram mutuamente um olho. Kieran era um excelente sedutor e um maravilhoso amigo, e com segurança, lhes daria uma mão. Aquele highlander era um dos mais desejados pelas mulheres, embora nenhuma conseguiu chegar até seu coração. Seu cabelo era loiro, quase acobreado, e seu sorriso e seus olhos azuis como um lago na primavera causavam estragos entre as fêmeas. Com afabilidade, Axel apresentou ao Ruarke, e Megan pôde ver o gesto do Kieran ao inteirar-se de que aquele era o futuro marido da doce e divertida lady Gillian. Movendo as mãos, atraiu a atenção de seu marido, e quanto este sorriu, ela levantando-se disse:


— Kieran O'Hara, quando pensa saudar as damas do salão? Então, Kieran se voltou. Adorava a Megan. Sentia debilidade por aquela intrépida e descarada mulher que no passado o meteu em mais de um problema. Com um deslumbrante sorriso, o highlander cruzou um olhar de cumplicidade com Duncan, que assentiu, e se aproximou lentamente às damas. Deteve-se ante elas e murmurou: — Hei-lhes dito que são as mulheres mais belas que meus cansados olhos já viram em sua vida? Ouvindo a voz do Kieran, Johanna e Amanda, as filhas da Megan, atiraram-se a seu pescoço, como o Trevor, o filho da Shelma. Quando conseguiu que as crianças o soltassem, voltou-se para saudar as respectivas mães daqueles pirralhos e pôs os olhos em Cris, embora esta rapidamente lhe deixasse claro que não havia nada que fazer. Com uma galanteria pouco usual nos homens daquelas terras, Kieran as saudou uma a uma. Gostava de recrear-se no sexo feminino, e mais naquelas fantásticas amigas. Kieran, que era um homem observador, fixou-se em que seu grande amigo Niall estava afastado, falando com uma bonita mulher que não era Gillian. Isso o surpreendeu. Ainda recordava as bebedeiras que participaram juntos na Irlanda e como Niall gritava uma e outra vez que a única mulher que lhe importava era sua Gillian. Por isso, quando as damas se sentaram e começaram a atender as crianças, Kieran com dissimulação perguntou a Megan: — Como é possível que Niall permita que sua intocável Gillian se case com esse mequetrefe? E o que faz ali tonteando com aquela preciosa mulher? — Não sei — respondeu Megan com dissimulo ao ver seu cunhado rir de novo, — mas necessitamos de sua ajuda, ou Niall dará cabeçadas o resto de sua vida. Kieran fez gesto de levantar-se. Não queria meter-se em confusões, e Megan sempre conseguia lhe complicar a vida. Mas a mulher, lhe cravando as unhas no braço, não o deixou mover-se e lhe sussurrou com um espetacular sorriso carregado de sarcasmo: — Por culpa de um trato que o pai do Axel e Gillian fez com os Carmichael, se Gillian não se casar com alguém antes que finalize o dia de hoje, amanhã terá que se casar com o pateta do Ruarke, e Niall declinou a oferta. — Como? — sussurrou, incrédulo. — O que ouve. — Mas se esse tolo a ama. Cansei-me de ouvir o muito que adora a... Mas o que está fazendo? — Agindo como tolo, Kieran. Agindo como tolo. Por isso necessito de sua ajuda para solucionar isto — sussurrou Megan. Kieran ficou boquiaberto. — Pretende que os McRae me voltem a pôr um olho arroxeado, ou que me matem diretamente? — perguntou-lhe sorrindo. Megan gargalhou e voltou para o ataque. — Kieran, hoje é o aniversário de Gillian e acredito que... — Necessita-me para fazer ciúmes a esse tolo? — perguntou Kieran, divertido. — Exato.


O highlander sorriu ante o que aquela mulher lhe propunha, e depois de olhar a Gillian e ver seu triste olhar, aproximou-se de sua amiga e murmurou: — Sabe que Niall se zangará muito comigo, verdade? — Sim. Sei. — Com segurança, ele ou seus brutos quererão me matar. — Não o permitirei. A segurança de Megan fez voltar o sorriso em Kieran. — Duncan sabe algo? — Nãaaaaaooooooooo. — Genial! — e voltando-se para a jovem Gillian, perguntou-lhe: — É certo que hoje é seu aniversário? Esta, olhando-o, assentiu. — Por desgraça para mim, assim é — sussurrou desinteressada. Kieran jogou uma olhada ao Niall e viu que este já o olhava de esguelha. Então, aproximou-se mais a jovem. — Tenho entendido que você adora cavalgar — disse, e ela assentiu. — Gostaria de dar um passeio comigo pelos arredores? Megan sorriu ouvindo a proposta e, empurrando-a com o cotovelo, animou-a: — Né? Eu... Kieran, sem perder seu sorriso, aproximou-se um pouco mais a uma desconcertada Gillian e lhe piscou o olho com cumplicidade. — Em primeiro lugar, mostre-se feliz, e fique tranquila, não pretendo nada. Se faço isto é para ajudar a ti e ao tolo de meu amigo Niall, e porque Megan me pede isso — lhe explicou e esta última sorriu, satisfeita. — Sei que ele te adora, e apesar de que quererá me matar quando vir que desfruto de sua companhia, e seguramente me porá um olho arroxeado, estou seguro de que em um futuro não muito longínquo me agradecerá isso. Portanto, querida Gillian, façamos que Niall morra de ciúmes. O que te parece? Assustada, Gillian olhou a sua risonha amiga. — Megan, não permita que Niall faça mal ao Kieran. — Hum... isso não o posso assegurar — respondeu Megan. — OH, Deus! — suspirou Gillian. — Diante dele te chamarei preciosa, de acordo? — insistiu Kieran, fazendo rir a Megan. Segundos depois, o bonito escocês se levantou com um sorriso, desdobrou todo seu encanto e, pegando à moça pelo braço, disse-lhe para atrair o olhar do Niall: — Gillian, vamos dar um passeio. Açulada pela Megan, a jovem se levantou e, sem olhar ao Niall, que os observava com o cenho franzido, chegaram até o Axel e os outros homens. — Axel, Magnus, se não lhes importar, como faz uma manhã preciosa e é o aniversário da Gillian, vou convidá-la a dar um passeio — disse Kieran. Olharam-lhes surpreendidos, e Axel, ao ver o gesto jovial de Alana, desconcertou-se. O que estava ocorrendo? — Parece-me uma excelente ideia, moço. Ide vos divertir — repôs Magnus, ao comprovar


que sua neta sorria. Ruarke, incomodado pelo atrevimento daquele enorme highlander, olhou a seu pai, e este, com voz dura, disse ante a impassibilidade de seu filho: — Sinto lhes dizer, laird McDougall, que não me parece boa ideia. Não me agrada absolutamente que a futura mulher de meu filho vague por suas terras com um homem a sós. — É incrível sua desfaçatez! — acrescentou Ruarke, olhando a Gillian. Esta lhes dedicou um gesto que deixou claras suas intenções e os fez calar a ambos. — Senhor Carmichael, seu filho e eu não nos conhecemos em nada, e se me encontro nesta absurda situação é por um trato que fez meu pai, não eu — expôs Gillian. E olhando a seu irmão, que assentiu, continuou: — Isso de que sou sua prometida, Ruarke, ainda está por se ver. Supõe-se que se no dia seguinte de meu vigésimo sexto aniversário não me hei desposado, terei que casar contigo. Mas hoje é meu aniversário, e ainda posso escolher com quem quero me casar ou não. O trato de meu pai não começa até o término deste dia, portanto, se a meu irmão e a meu avô não parece mal que passeie com o Kieran O'Hara, fá-lo-ei. Megan, que estava junto a eles, dirigiu-se a seu marido: — Duncan, poderíamos acompanhá-los? Hoje é dia de feira e eu gostaria de comprar algumas coisas antes de retornar ao Eilean Doam. — Ide vós, que são jovens e podem — os animou Marlob. Duncan ofereceu com galanteria o braço a sua mulher. — Desejo concedido. Shelma e Alana se levantaram com rapidez. E depois de olhar a seus maridos e estes assentirem, sorriram. Antes de sair, Megan olhou para trás e perguntou a seu marido ao ouvido: — Duncan, crê que Niall quererá nos acompanhar com a Diane? Este a olhou com gesto divertido e a beijou com adoração. — O que está tramando, Megan? — repôs, convencido de que ali ocorria algo. Ela sorriu e lhe olhando com aqueles olhos negros que tanto gostava assentiu e com descaramento lhe confessou: — Nada, docinho. Por que pensa assim de mim? O imponente highlander soltou uma gargalhada e, ante o insistente olhar de sua mulher, voltou-se. — Niall, vamos dar um passeio. Vem? Com um gesto, Niall rechaçou o convite. Mas Megan não se conformou com aquela resposta e, com um encantador sorriso, disse a Diane, apesar de que a odiava: — Diane, passaremos por uma fantástica feira, e estou segura de que haverá tendas de joias que te agradará ver. Diane aplaudiu. E levantando-se, pediu a seu sério acompanhante: — Niall, vamos, por favor. Desejaria com toda minha alma ver essas tendas. Com um fingido sorriso, Niall se levantou e seguiu a Diane, embora antes cravou um duro olhar em sua cunhada, que com gesto triunfal agarrou a seu marido e sorriu.

Capítulo 10


Quando chegaram às cavalariças, Gillian foi até sua égua, Hada, que ainda estava ferida. — Bonito animal — assinalou Kieran, olhando-a. — Sim — sorriu. — Hada é um bonito presente de meu irmão. Ao ver que lhe beijava o focinho, mas não montava, perguntou-lhe: — Não vais montá-la? Gillian ia responder, mas Niall, aproximando-se até eles, adiantou-se: — Não, não deve montá-la. Sofreu uma ferida faz uns dias e deve descansar. — Levantando a mão, a estreitou ao Kieran. — O que faz você por estas terras? Acreditava que estava em Stirling ou em Aberdeen. Ao perceber o desconforto de Gillian, Kieran se aproximou mais a ela e, deixando pasmado ao Niall, respondeu: — Sim, amigo, estava em Aberdeen quando ouvi que esta preciosa mulher procurava marido. E como já a visitei este último ano em varias ocasiões, me propus convencê-la de que esse idiota do Carmichael não a poderá fazer tão feliz como posso fazê-la eu. Gillian gostou de ver a tensão no rosto do Niall. A jovem, com uma risada tola, olhou ao Kieran, e este, levantando uma mão, passou-a com delicadeza pelo rosto dela. A raiva por aquele atrevimento se centrou no estômago do Niall. Desde quando Kieran cortejava a Gillian? Nesse momento chegou até eles Diane, segurando seu cavalo. — E você quem é, milady? — interessou-se Kieran ao vê-la aparecer. Niall, ainda transtornado pelo que acabava de escutar e ver, olhou a Gillian, mas esta não o olhava, só tinha olhos para o Kieran. Incomodado, voltou-se para seu amigo, enquanto Duncan, Axel, Lolach e as mulheres destes esperavam fora das cavalariças. — Kieran O'Hara, apresento a Diane McLeod — disse em um tom rude. — Vive perto de minhas terras no Duntulm. É prima de Alana. — Encantado de lhes conhecer, milady — saudou com cortesia Kieran. — O mesmo digo — respondeu Diane, que olhou de esguelha a Gillian e se surpreendeu ao vê-la sorrir. Diane, ao ver como Niall olhava à outra moça, tossiu, incomodada, e para chamar a atenção do homem disse com voz açucarada: — Niall, seria tão amável de me ajudar a montar? O cavalo é tão alto e eu tão fraca que sou incapaz de fazê-lo sozinha. "É uma tola", pensou Gillian, mas calou-se. Com um deslumbrante sorriso, Niall assentiu, e agarrando a Diane pela cintura a elevou como se fosse uma pluma até deixá-la sobre a sela. Com um flerte que fez que Gillian sentisse vontades de matá-la, Diane montou de lado fazendo uso de sua elegância e feminilidade. — Obrigada, Niall. É tão galã e forte — suspirou Diane. "OH, Deus! Não a suporto", pensou Gillian, dando a volta. Niall montou em seu cavalo True que estava junto à pobre e ferida Hada, e sem afastar seus inquietantes olhos da bela Diane, seguiu-a para fora do estábulo, onde estavam esperando os demais.


Gillian, com a raiva instalada em seus olhos, suspirou. Então, Kieran, pondo um dedo em seu queixo, fez que o olhasse. — Você é mais bela que ela; não o duvide. — Isso não me preocupa, Kieran. A beleza é algo que o tempo murcha. — Posso te perguntar algo e será sincera comigo? — Sim. — Por que foi tão dura com o Niall e não quis perdoá-lo? Ele morria por ti. Gillian encolheu os ombros. — Não sei. Comportei-me como uma néscia, uma parva, uma malcriada. A raiva me cegou e fui incapaz de pensar em nada mais. Mas te asseguro que me arrependi disso todos os dias de minha vida, embora seja a primeira vez que o reconheça. Depois, o tempo passou, ele não voltou a me falar e... — Me escute, Gillian. Desde que conheço o Niall sempre lhe iluminou o olhar ao falar de ti. Na Irlanda foi o motivo de sua existência, e quando rompeu o compromisso, sentiu-se desfeito. Não sei se ele te perdoará ou não, mas te asseguro que o conheço e sei que não te esqueceu e que você é, foste e será sempre a única mulher capaz de lhe roubar o coração. — É muito bonito o que diz, Kieran, mas como viu, já o roubou outra. — Duvido-o — sorriu o homem com segurança. — Conheço o Niall, e essa jovem não é a classe de mulher que quer para ele. — E que classe de mulher quer para ele? — Uma como você. Gillian sorriu, mas ao olhar para o exterior viu aquele pelo qual suspirava brincando com a Diane. Furiosa pela intimidade que parecia existir entre eles encaminhou-se ao fundo das cavalariças e Kieran, consciente do que acontecia, seguiu-a. — Que cavalo montará? — perguntou, lhe dando tempo a serenar-se. Depois de soprar, a jovem mudou de expressão. — Levarei ao Thor. É meu melhor cavalo. Ele não é precioso? — Sim, Gillian, tão precioso e bonito como você — assentiu Kieran, olhando-a. — Estamos esperando — apontou nesse momento Niall com voz grave atrás deles. Gillian, ao ver que Kieran sorria, agarrou-se às crinas do Thor e, depois de tomar impulso, subiu. Ela não necessitava ajuda como a tola da Diane. — Kieran, te espero fora — indicou, passando junto ao Niall. — De acordo, preciosa. Em seguida te sigo. Ouvindo de novo aquele qualificativo, Niall olhou a seu amigo, que com um divertido sorriso na boca caminhava para seu cavalo. — Sinceramente, amigo, não sei o que está fazendo. Niall guiou seu cavalo para o Kieran, e enquanto o via montar, perguntou-lhe: — E você? O que está fazendo? Kieran, face à raiva que detectou nos olhos do outro, não se intimidou. — Cortejar a uma preciosa moça para que antes que acabe o dia queira ser minha mulher. E sem dizer nada mais, esporeou seu cavalo para sair das cavalariças. Durante o curto trajeto até a feira, Niall não pôde deixar de olhar a Gillian.


Boquiaberto e incomodado, comprovou que aquela malcriada não lhe dirigia nenhum olhar. Desde que Kieran chegou ao Dunstaffnage parecia que ele não existia, e isso o irritava. Embora mais o chateasse perceber que a proximidade daquela consentida começava a lhe nublar a razão. Por todos os Santos! Não estava disposto a voltar a cair no feitiço da McDougall; outra vez não. De uma posição privilegiada, Megan os observava a todos. Era consciente de tudo o que ocorria entre eles, e inclusive se fixou em que Diane um par de vezes olhou a Gillian mostrando desconforto. Quando viu o Niall cabecear com gesto sério, esporeou o Storm, seu cavalo, para aproximar-se de seu cunhado, e depois de piscar o olho a uma divertida Cris, disse sabendo que Diane escutaria: — Que bonito casal fazem Kieran e Gillian, não acreditam? Niall a olhou com cara de poucos amigos e amaldiçoou ao vê-la sorrir. Sua cunhada era uma bruxa! Mas mais lhe incomodou quando a parva da Diane respondeu: — Dou-te a razão. Se ambos formalizarem sua união terão uns filhos preciosos. — Megan, com um sorriso, assentiu. — Kieran é tão atraente e Gillian tão loira que estou segura de que seus filhos serão autênticos querubins loiros de olhos azuis. Niall cravou seu olhar no chão. Não ia responder. Negava-se. — OH, Deus! Que sorte tem Gillian! Kieran é um guerreiro espetacular — aplaudiu Cris, ganhando um olhar de aceitação de sua irmã. — A verdade é que Kieran é um guerreiro incrível, além de divertido e terrivelmente bonito — rematou Megan. Nesse momento, Niall, sem que pudesse evitá-lo, blasfemou. — O que te passa? — perguntou-lhe Diane. — Intento recordar algo que meu avô me rogou que comprasse — replicou Niall com rapidez, depois de cruzar um olhar com a descarada de sua cunhada. Pouco depois chegaram a feira, um lugar cheio de tendas, trovadores e gente buliçosa e com vontades de passar bem. Niall, carrancudo, ajudou a Cris e Diane a desmontar de seus respectivos cavalos, e então o sangue lhe ferveu quando viu que Kieran colocava suas mãos com delicadeza na cintura da Gillian para ajudá-la a desmontar. "Maldito seja, O'Hara! Gillian não necessita ajuda para desmontar", pensou. Depois de posá-la no chão, Kieran lhe retirou do rosto com a mão uma mecha loira como o trigo, e Niall sentiu que se engasgava. Mas afastando o olhar tentou serenar-se. Não devia lhe importar o que ocorresse entre eles. Ele tinha muito claro que nada queria com a Gillian; ou sim? Mas o humor do Niall foi de mal a pior ao comprovar que tudo o que Gillian olhava em qualquer posto Kieran o comprava. Aquele martírio lhe estava fazendo liberar uma terrível e dolorosa batalha interior. "Deus, me dê força ou os matarei", pensou uma e outra vez, tentando manter o controle.

Capítulo 11


No meio da manhã, depois de visitar várias tendas da feira, decidiram entrar em um botequim para refrescar suas gargantas. Niall voltou a amaldiçoar ao ser testemunha de como Gillian bebia da taça de Kieran. Acaso não podia pedir ela uma própria? Cansado da visão que aqueles dois, com seus tolos sorrisos, se ofereciam, escapou da Diane e saiu do botequim sem dizer nada a ninguém. Necessitava de um pouco de ar; se continuasse presenciando cenas desse tipo desembainharia a espada e mataria ao Kieran e, com segurança, a essa bruxa da Gillian. Enquanto os homens terminavam suas bebidas e as mulheres conversavam, Megan e Gillian se dirigiram a uma tenda onde vendiam uns preciosos pendentes e anéis. Niall, ao vê-las sair com dissimulação, e sem que elas o vissem, seguiu-as. — Por Deus, Gillian! — sussurrou Megan. — Se Niall não reagir com tudo o que estão fazendo Kieran e você, não sei que mais vamos fazer! — A verdade é que Kieran é um homem encantador. Acredito que inclusive poderia chegar a me apaixonar por ele — sussurrou Gillian com picardia. — Ai, Deus! Não me assuste! — murmurou Megan. Niall viu como Gillian gargalhava e sorriu. Sempre gostou de sua cristalina risada. Adorava ver como seus preciosos olhos azuis brilhavam ao sorrir, e atraído como um ímã caminhou para ela, desviando das pessoas que se moviam a seu redor. — Megan, não se preocupe. Kieran só tenta me fazer feliz ante os olhos do bufão do Niall, nada mais. Mas também digo uma coisa: preferiria mil vezes me casar com Kieran antes que com o odioso do Ruarke. Kieran ao menos é bonito e sensual, algo que o outro não é. Niall ouviu as últimas palavras, e ficou petrificado a escassos centímetros delas. "Bonito e sensual?" pensou cada vez mais indisposto. Nesse momento, Gillian parou ante uma das tendas, e alargando a mão, agarrou um bonito e delicado anel com uma preciosa pedra em cor marrom clara. Durante uns instantes, Gillian, com um sorriso sonhador, olhou-o e, acreditando que era Megan quem respirava atrás dela, sussurrou: — Que bonito anel! A pedra tem a cor dos olhos do Niall. Ao escutar aquele doce tom de voz e a confidência, Niall engoliu com dificuldade e, dando um passo atrás, afastou-se dela. Que lhe ocorria? Por que as palavras doces daquela malcriada lhe faziam sentir-se tão mal? Depois de admirar o anel durante uns instantes, ao final, e apesar da insistência do vendedor, Gillian o deixou onde estava com pesar. De nada serviria recordar sua cor dos olhos a não ser se pudesse tê-lo. E depois de sorrir ao vendedor e lhe indicar pela décima vez que não o compraria, continuou com a Megan visitando as bancas. Uma vez que acabaram as compras na feira, o grupo decidiu retornar ao castelo do Dunstaffnage para comer. Diane parecia enfurecida. Niall não lhe prestava atenção alguma. Só observava a tola da Gillian e seu amigo.


Diane conhecia o passado daqueles dois e não estava disposta a consentir que voltasse a repetir-se. Niall era para ela. Zangada, tentou atrair a atenção do homem queixando-se continuamente de dor nas costas por tão longo trajeto a cavalo. Não o conseguiu, mas ao menos viu que a olhava. — Quando se comporta assim não a suporto — sussurrou Cris. Sua meio-irmã era igual a sua madrasta. O que estava fazendo Diane era o mesmo que fazia a mulher de seu pai para que lhe prestasse atenção. Assim que seu pai elogiava algo que Cris fazia, rapidamente aquela bruxa se engenhava para que o que tivesse feito, fizesse que seu pai esquecesse e só tivesse olhos para a Diane. — Queixa-se igual à Alana — riu Shelma, olhando a sua irmã Megan. — Ambas desejando chegar para se sentar entre almofadas no castelo. Duncan sorriu. Era certo o que diziam de Alana e Diane. Levavam meio caminho queixando-se por tudo, inclusive do ar que respiravam. — São outro tipo de mulheres. Elas são mais delicadas — disse Duncan. Megan cravou seus olhos negros nele. — Teria gostado que eu tivesse sido esse tipo de mulher? — perguntou. Shelma olhou a seu marido, também a espera de resposta. Lolach e Duncan sorriram, e embora tentassem lhes fazer acreditar com seu primeiro gesto o que não era, finalmente prorromperam em gargalhadas, e Duncan se aproximou para beijar a sua mulher no pescoço. — Não, docinho — lhe sussurrou. — Eu gosto de você. Uma mulher que tem, entre outras muitas coisas, uma força e um caráter que me enlouquecem. Lolach, divertido pelo gesto da Shelma, disse, fazendo sorrir a sua mulher: — Mandona. Se não fosse assim, não te amaria tanto. Gillian, cansada de ir pelo caminho a trote, decidiu que já era hora de se afastar do grupo. Aproximou seu cavalo ao de seu irmão Axel, que nesse momento falava com Niall, e disse: — Kieran e eu nos desviamos aqui. Vemo-nos no castelo. Antes que Axel pudesse responder, Niall agarrou com força a mão da Gillian e, fazendo que o olhasse, chiou os surpreendendo: — Não me parece boa ideia. Continuem com o grupo. Gillian, pasmada, desfez-se de um puxão de sua mão. — Não falava contigo. Falava com o Axel. Deslumbrada ainda pelo suave tato de sua pele, Gillian deu a volta ao animal e se aproximou do Kieran; esporearam os cavalos e começaram a galopar como alma perseguida pelo diabo subindo a colina. Niall, com a fúria na cara, observou-os e não os perdeu de vista nem um instante, consciente da boa amazona que era ela. — Esta Gillian algum dia nos dará um desgosto se segue montando assim — suspirou Alana ao ver sua cunhada afastar-se daquela forma. — É como minha irmã. Não tem contenção! — manifestou Diane, feliz de que Gillian tivesse partido. Cris, de seu cavalo, gritou à sua irmã, fazendo rir a todos menos a esta: — Né! Diane, cuidado com o que diz, bonita.


— Acredito que uma moça deve saber comportar-se como uma dama — continuou Diane sem prestar atenção a Cris, — para que ninguém duvide de sua feminidade. — E olhando ao Axel, acrescentou: — Alana me comentou que sua irmã além de cavalgar como vimos, sabe manipular a espada, é certo? — OH, sim! Disso dou fé — brincou Cris olhando ao Niall, que sorriu. — Sim — assentiu Axel. — É uma guerreira excepcional, bastante mais hábil que muitos homens que conheci — concluiu para desgosto de sua mulher. Alana, com rapidez, disse a sua horrorizada prima: — Mas ambos proibimos a Gillian que ensine qualquer dessas coisas a nossa filha Jane. Eu adoro a Gillian, mas acredito que há certas coisas que só devem fazer os homens. — Estou de acordo contigo, prima — assentiu Diane. — Pois eu não — soltou Cris. — Nem eu — assegurou Megan, fazendo sorrir a seu marido. — Nem preciso dizer que eu tampouco — assinalou Shelma com cara de asco. Alana sorriu, e Diane acrescentou: — Pois sinto escutar isso de vocês. De minha irmã já esperava isso, mas acredito que deveriam saber que certas coisas não são dignas de uma dama. — Fecha o bico, Diane. Fica mais bonita — reprovou Cris. —Olhe, Christine — respondeu ela, — só lhe direi que, se algum dia Gillian ou você precisarem ser as senhoras de seu lar, duvido muito de que a seus maridos gostem dessas habilidades. Os homens procuram mulheres femininas e delicadas, não a mulheres embrutecidas. Zangando a sua irmã, Cris sorriu com sarcasmo, e Megan, depois de olhar a seu marido e este lhe piscar o olho, disse: — Diane... acredito que está muito equivocada. — Não, não o estou, verdade, Niall? — mas este não respondeu. Niall estava ocupado olhando com dissimulação aos cavaleiros que se afastavam, e quando desapareceram e se encontrou com a cara de zomba de seu irmão e sua cunhada Megan, sentiu um profundo ardor.

Capítulo 12

Depois de uma boa cavalgada pelas terras do Dunstaffnage, Gillian e Kieran retornaram ao castelo antes de comer. Com as faces acesas pela divertida corrida e a conversa que tiveram, a jovem foi direto às cavalariças para deixar a Thor, enquanto Kieran ficava conversando na entrada com um de seus homens. Uma vez que desmontou do enorme cavalo negro, dirigiu-se a ver sua égua Hada. Durante uns segundos, Gillian lhe prestou toda sua atenção, e depois de lhe fazer mimos, voltou-se para partir, mas tropeçou com alguém. Ao levantar a cabeça, encontrou-se com Niall, que a olhava com um brilho especial nos olhos. — OH! Perdoa, não te tinha visto — disse a modo de desculpa.


Sem mover-se de seu lugar, Niall lhe perguntou com voz dura: — Desfrutaste do passeio, milady? A jovem, levantando o queixo, assentiu e sorriu. Isso fez que o sangue do homem começasse a ferver. Não saber o que aconteceu entre seu amigo e ela o martirizava. — OH, sim! Hei-o passado muito bem. Gillian tentou passar, mas Niall não a deixou. Então, deu um passo atrás para separar-se dele. — O que ocorre? — Você o que pensa! — respondeu, zangado. As armas estavam prontas. Niall jogava fogo pelo olhar, mas Gillian não estava disposta a discutir. — Faria o favor de me deixar passar, McRae? — Não. — Como?! — Hei dito que não, malcriada! — Bufão! — Mimada! — Grosseiro! Niall mal a ouvia; só a observava. Como podia estar de novo naquela situação? Como podia ter caído outra vez no mesmo engano? Tê-la ante ele, com as faces avermelhadas, o cabelo emaranhado e o desafio no olhar. Deixava-o louco. Nunca a esqueceu. Nunca se permitiu. E depois de seu encontro dias atrás no campo, sua obsessão por ela aumentou. Vê-la brandir a espada com aquele ardor o excitou, e só podia pensar nesse ardor e essa entrega na cama. Sem meditar um instante, atraiu-a para ele e a beijou. Agarrou-a pela cintura e, sem lhe dar tempo a que protestasse, apanhou aquela boca sinuosa e a devorou. Levava dias, meses, anos desejando aqueles doces e suaves lábios, e quando Gillian lhe respondeu e começou a brincar com sua língua, endureceu-se e soltou um grunhido de satisfação. Pegando-a nos braços, e sem deixar de beijá-la, caminhou até o fundo das cavalariças. Ali ninguém os poderia incomodar. Consciente daquele momento de inesperado prazer, Gillian se deixou levar. Permitiu que a beijasse, que a abraçasse, que a levasse a semiobscuridade das cavalariças sem quase respirar. Sentir-se entre seus braços era o que desejava. Não queria falar. Não queria pensar. Só queria beijá-lo e que a beijasse. Mimá-lo e que a mimasse. Aturdida pela sensualidade do homem, sentiu que algo nela se desfazia ao notar seus lábios percorrer seu pescoço enquanto murmurava: — Gata... minha Gata... Que a nomeasse de uma forma tão íntima fez que reagisse. — Tua Gata!? — grunhiu ao recordar a Diane. E dando-lhe um empurrão o afastou. — E sua bonita Diane, o que é para ti? Como a chamas a ela? Ao ver seus olhos acesos pelo ciúme, Niall sorriu. Adorava a essa orgulhosa, gostasse dele ou não. Excitavam-no seus arrebatamentos, sua loucura, sua paixão. Realmente, o que não gostava dela? Desejoso de continuar beijando-a apoiou seu quadril em uma bancada e perguntou:


— Você não muda nunca, verdade? — Não, McRae — chiou ofegando, enquanto olhava aqueles lábios que de novo queria apanhar. Niall, incapaz de conter as centenas de recriminações que alojava em seu interior, aproximou-se um pouco mais a ela. — Ouvi que foste cortejada por muitos homens — lhe sussurrou com um rouco assobio. — Ouviste bem. Homens não me faltaram. Incomodado por sua soberba, fez um intento de intimidá-la lhe perguntando: — Se assim foi, por que os rechaçaste? "Por ti, maldito dourado", pensou. — Nenhum me agradava — assinalou, não obstante. — Nunca quis me desposar com um homem a quem não admirasse. Parece-te boa resposta? Niall gargalhou e, medindo seu nível de intransigência, disse: — Ah, claro! E por isso te deita com os moços do estábulo, verdade? — Vai para o inferno, McRae. Mas Niall continuou: — Não é por te desiludir, querida Gillian, mas acredito que Carmichael, seu futuro marido, deixa muito a desejar. Ou possivelmente devo acreditar que o admira? Ver a zomba em seus olhos e em suas palavras, e mais sabendo que ele rechaçou a oferta de casar-se com ela, fez que Gillian lhe desse um forte pisam, que ele aguentou sem mudar seu semblante. Sem alterar-se, tocou com delicadeza o rosto dela. — Gillian, eu... — sussurrou. Escutou-se a alguém entrar nas cavalariças, e nenhum dos dois se moveu. Não queriam ser descobertos. Isso fez sorrir ao Niall, e Gillian, agitada, sem querer conter seus impulsos, equilibrou-se sobre ele e o beijou com paixão. Ao diabo o que pensasse dela. De repente se ouviu a voz do Kieran. — Gillian, preciosa, está por aqui? Niall se esticou e a separou dele. Kieran ficou durante uns instantes e como ela não respondeu partiu. — Desde quando Kieran te visita e te chama preciosa? A jovem, ao se sentir rechaçada, levantou o queixo. — Desde quando flertas com a boba da Diane? — Me responda, Gillian — exigiu, furioso. — Não, não tenho que te dar explicações. — Não me zangue mais, mulher. Dando-lhe um golpe no estômago com todas suas forças, ela grunhiu. — Como que não te zangue mais? Levo dias sendo testemunha de como só presta atenção a essa tola da Diane e só te dirige a mim para me humilhar e me desprezar. Sei que não sou uma Santa nem a melhor pessoa do mundo, e também sei que mereço seu aborrecimento e alguma recriminação. Mas depois de tudo o que estou aguentando estes dias diante de minha família e minha gente, pretende que eu te dê explicações? Niall, surpreso por aquela revelação, deu um passo para trás. Ela estava enciumada por


causa da Diane e isso só podia ser porque ainda sentia algo por ele. Sem querer dar seu braço a torcer, apesar do muito que ansiava estar com ela, com gesto controlado, afirmou: — Sim, Gillian. Exijo explicações. — Do que? De agora? De faz anos? Do que? — De tudo. Alienada por haver revelado algo tão íntimo, chiou: — Pois não lhe darei isso, McRae. — Ah, não? — Não, não lhe darei isso. — Acredito que me deve isso, Gillian. Você... — Não te devo absolutamente nada — cortou ela, consciente de que se equivocava. Niall quis gritar e vozear. Aquele jogo estava acabando com sua pouca paciência e, pegando-a pelo braço com rudeza, disse em tom duro: — Maldita seja, Gillian! Rompeu nosso compromisso sem me dar opção de falar contigo. Desejei a morte no campo de batalha, sabedor de que minha vida sem ti se acabou. E agora, quando acredito que você e eu não temos nada do que falar, pretende que eu te dê explicações de quem é Diane, ou o que faço com ela? Gillian o olhou, e Niall, muito zangado, bramou, disposto a marcar para sempre a diferença: — Não, milady... não. Siga se deitando com seus moços de quadra. Você é a última mulher a quem eu daria explicações sobre algo porque não é ninguém para mim. O via tão zangado que Gillian não pôde responder. Quis lhe dizer tantas coisas, lhe pedir tantas desculpas, mas seu orgulho não o permitiu. Ela e só ela se comportou mal, e ambos levavam anos pagando-o. Aceso pela fúria, Niall se separou dela como se lhe queimasse, e antes de sair da cavalariça, acrescentou: — Não sei o que estou fazendo aqui a sós com você. E muito menos sei por que a beijei. Mas nenhuma dessas coisas voltará a ocorrer jamais! — gritou, colérico, fazendo que ela se encolhesse. — Só espero que amanhã a casem com esse Carmichael, e a leve longe daqui. Assim saberei com certeza que não a voltarei a ver em toda minha vida. Então partiu, deixando-a só e destroçada. Sem forças para sair, Gillian se sentou em um fardo de feno para acalmar sua excitação. Ele levava razão em tudo e nada podia fazer.

Capítulo 13

Aquela tarde Axel organizou uma festa de aniversário no castelo para sua irmã. Queria vê-la feliz. Precisava vê-la feliz. Ao dia seguinte, e sem que ele pudesse remediá-lo, teria que unir-se em matrimonio a esse idiota do Carmichael. Conhecia sua irmã e sabia que seria infeliz com aquele mequetrefe. Preocupava-lhe a sorte que correria ela depois do matrimônio, e isso não o permitia dormir.


Gillian não era uma mulher dócil, e temia que em um de seus arranques terminasse com a vida do Carmichael, e ela acabasse morta ou decapitada. Com curiosidade, procurou pelo salão a Niall. Viu-o falando com Ewen, seu homem de confiança, e com Duncan. Parecia relaxado, mas Axel o conhecia e sabia que quando Niall virava o pescoço para os lados era porque estava tenso. Aquele movimento era o mesmo que fazia sempre antes de entrar em batalha. Isso, em certo modo, fê-lo sorrir. "Ainda pode haver esperança", pensou, pegando de novo uma jarra. Nas habitações superiores do castelo, Megan falava com Gillian, enquanto esta terminava de vestir-se. — Não seja cabeçuda, Gillian; nego-me a pensar como você. Furiosa ainda pelo ocorrido àquela tarde, Gillian andava de um lado para outro como uma leoa enjaulada. Seu tempo se acabava e os resultados eram nefastos. Aquela tarde, depois de recuperar-se nas cavalariças, procurou o Niall por todos os rincões do castelo para falar com ele, mas não o encontrou. Precisava lhe pedir perdão e lhe dizer que estava certo. Ela foi a culpada de suas desgraças. Queria lhe gritar que o amava. Mas foi impossível. Ele estava ocupado com Diane. — Odeio-o! — gritou Gillian, atirando a escova contra a porta. — Por que está se comportando assim? — Você buscou isso, Gillian — arreganhou Megan. — Você sozinha conseguiu que a situação chegasse a isto. — Eu não conhecia o trato de meu pai com esses Carmichael! — Não me refiro a isso e sabe — gritou Megan, colocando-as mãos nos quadris. Gillian assentiu e apareceu à janela. Megan estava certa, e apoiando-se no batente, murmurou: — Sabe o que Niall me dizia quando estávamos prometidos? Megan notou a mudança do tom de voz de sua amiga e se aproximou até ela. Enquanto agarrava com carinho sua mão, disse-lhe: — Conhecendo meu cunhado, seguro que seria alguma tolice. Gillian sorriu. — Dizia: "Quando nos casarmos, nosso lar estará em um maravilhoso lugar de onde se domine a planície". — De onde se domine a planície? — repetiu, assombrada, Megan. Gillian assentiu. — Nosso lar estaria no alto de uma pequena colina rodeada por uma extensa planície. Lembro que lhe dizia que eu gostaria que essa planície estivesse coberta de flores multicoloridas, e ele ria e respondia que sua flor mais bonita era eu. Surpreendida por aquela revelação, Megan suspirou. Entretecia-lhe ver duas pessoas que amava naquela situação. Ia responder, mas nesse momento soaram golpes na porta e, ao abrir-se, ficaram atônitas ao ver que era Diane quem aparecia. — Posso entrar? — É óbvio, Diane, entra — disse Gillian com serenidade. Aquela era à última pessoa que queria ver, mas decidiu ser cortês. A moça não lhe fez nada.


Diane entrou. Estava preciosa. Usava um vestido vermelho vivo que se ajustava perfeitamente a seu esbelto e sensual corpo, e o cabelo escuro seguro com um diadema de flores. Era uma mulher muito bela, e isso não o podia negar ninguém. A recém chegada, depois de olhar a Megan, que a observava com descaramento, disse a Gillian: — Poderíamos falar um momento a sós? Megan jogou um olhar dos seus, e logo olhou a sua amiga. — Gillian, espero-te no salão. Não demore, de acordo? — Sim, Megan; não se preocupe. Descerei em seguida. Uma vez que ficaram sós no quarto, Gillian a convidou a falar: — Então? A moça se aproximou dela e lhe disse, surpreendendo-a: — Preciso saber se entre o Niall e você existe algo mais que amizade. Faz um tempo me inteirei de que no passado estavam prometidos, mas que seu compromisso se rompeu. — Sim, assim é — assentiu Gillian com o estômago encolhido. — Ainda o ama? Porque se for assim, quero que saiba que não vou permitir. Interessa-me Niall e acredito que eu sou uma excelente mulher para ele, não te parece? Sentindo-se perplexa e com o coração disparado, respondeu: — Em primeiro lugar, acredito que é uma desfaçatez que me fale nesse tom. E segundo lugar, você não é ninguém para me permitir fazer ou não absolutamente nada, e em terceiro lugar, o que eu sinta ou não pelo Niall não te incumbe. Diane, com desprezo, aproximou-se ainda mais de Gillian e deixando patente quão baixa era, chiou: — Incumbe-me. Hei dito que quero que ele seja meu, e sua presença me incomoda. O sangue de Gillian começou a ferver. Mas quem era ela para lhe falar assim? E sem que a altura da Diane a amedrontasse, perguntou-lhe: — Está com ciúmes, Diane? Com voz seca pela fúria, esta cravou seus olhos verdes nela. — Não vou permitir que estrague o que Niall e eu levamos forjando faz tempo. Se vim com ele é porque sabia que você estaria aqui. Aquilo fez Gillian sorrir. — É meu lar, Diane. Onde pretendia que estivesse? — Oxalá já estivesse nas terras dos Carmichael! Estou segura de que seu enlace com Ruarke fará que Niall se esqueça de ti. Aquilo desconcertou a Gillian. — Tanto medo tem do que ele sinta por mim? — perguntou-lhe, desafiando-a com o olhar. Diane a empurrou, e Gillian caiu sobre a cama. E antes que pudesse evitá-lo, agarrou-a pelo cabelo e lhe soltou perto da cara: — Te afaste do Niall. Não vou permitir que uma malcriada como você, neta de uma maldita sassenach, arrebate-me isso. Ele é meu. Meu! Gillian, furiosa, tirou a adaga da bota e, colocando-a no pescoço de Diane, gritou, desejosa de cravá-la. — Me solte ou o pagará, maldita cadela!


Assustada ao sentir aquele frio contato em seu pescoço, Diane se moveu com rapidez e a liberou. Gillian, com a adaga em uma mão, ergueu-se, e lhe cravando seus cristalinos e frios olhos azuis bramou fora de si: — Sai de meu quarto antes que te corte em pedaços. Você não é ninguém para me ordenar nem me exigir; absolutamente ninguém. E te advirto uma última coisa: a próxima vez que sua boca mencione a minha avó, te corto a língua. Recorda-o! Branca como a neve, Diane fugiu sem olhar para trás. Gillian, ainda confundida pelo que havia passado, guardou a adaga, consciente de que ganhou uma inimiga.

Capítulo 14

Depois do episódio vivido em seu quarto, Gillian retocou o penteado e saiu, disposta a ir até o salão. Conforme ia descendo pela escada circular de pedra cinza, os sons das gaitas de fole soavam cada vez mais perto. Com a raiva instalada em seu rosto, decidiu parar, sentar-se e serenar-se em um dos gastos degraus, até que deixasse de tremer. Agachando a cabeça a posou sobre seus joelhos e lhe entraram umas vontades loucas de chorar. O que fez? Como podia ter destroçado sua vida e a do Niall? O que ia fazer? O dia de seu aniversario acabava e cada vez sentia mais próximo o podre fôlego do Ruarke. Só em pensar a adoecia, mas devia cumprir a palavra de seu pai, embora essa promessa a levasse diretamente à tumba. — Gillian, o que faz aqui? O que te passa? — perguntou de repente a voz do Kieran. Levantando a cabeça, Gillian se encontrou com aqueles olhos azuis e, encolhendo os ombros, sussurrou: — Acredito que estou lutando contra algo impossível. O dia se acaba e minhas bodas... Kieran sorriu. O parvo de seu amigo e aquela menina eram um para o outro, e pegando seu rosto entre suas mãos, perguntou para animá-la: — Decidiste te render, preciosa? Porque se for assim me defraudaria. A Gillian da qual sempre me falava Niall era uma moça divertida, romântica, loquaz, carinhosa e, sobre tudo, que não se rendia ante nada nem ninguém. — Essa Gillian da qual falas, de certo modo, já não existe — sussurrou, levantando-se. — Mudei e... — Isso quer dizer que quer te casar com o Ruarke Carmichael? Ouvindo aquele nome, Gillian tocou no estômago. — Não, não quero me casar com ele. Mas o dever me obriga a fazê-lo. Kieran levantou seu queixo com uma mão. — Ainda há tempo, Gillian. Pensa-o. — Foi um pacto de meu pai, e não o vou desonrar. Além disso, ninguém deseja casar-se comigo. Nestes últimos anos ganhei o apelido de Desafiadora. E sabe por quê? — ele negou com um gesto, e ela continuou: — Estive tão furiosa com Niall e comigo mesma que me comportei mal com todos os homens que se aproximaram de mim. E isso cedo ou tarde se paga, não acredita?


— O diz a sério? — riu ele, divertido. — Em efeito. Se quer saber o que opinam de mim, pergunta... pergunta. Maravilhado por aquela sinceridade, Kieran agarrou ar e disse: — Gillian, se você quiser, posso te ajudar te oferecendo minha casa, meu sobrenome, minhas terras... — Como?! — cortou-o, desconcertada. O highlander encolheu os ombros. — O que ouviste. Já sei que não me ama nem eu amo a ti, mas se você quiser... — Mas te tornaste louco! — sussurrou, olhando-o diretamente nos olhos. — Como te ocorre me pedir semelhante coisa? — É para te ajudar e... Sem o deixar terminar, Gillian começou a blasfemar de tal maneira que Kieran ficou sem palavras, até que de repente ela parou. — Kieran O'Hara, não volte a pedir isso a nenhuma mulher até que encontre à pessoa adequada — depois de lhe dar um tapa que o fez rir, prosseguiu: — Você é um homem atraente, além de um valoroso guerreiro e muitas outras coisas mais, e estou segura de que algum dia encontrará à mulher que te convém e a fará muito feliz. Agradado com o que escutava gargalhou. Em seus quase trinta anos, e apesar de que era um highlander bastante requerido pelas fêmeas, nenhuma deixou rastro nele. O romantismo não era o seu. — Acaso não acredita no amor, Kieran? — Não. — Alguma vez há sentido que a presença ou o olhar de uma mulher lhe tiravam o fôlego, e que tua existência se murchava ao deixar de vê-la? — Nunca. — Impossível. — Não, Gillian, não minto. A jovem não podia dar crédito ao que ouvia. — Por todos os Santos, Kieran! Como um homem tão galante como você não pode acreditar no amor? — Possivelmente porque ninguém me fez senti-lo. — Se te escutasse o avô te diria que tua mulher está em algum lado esperando a que lhe sorria. — Teu avô Magnus é muito sensível para meu gosto — ironizou Kieran. — Não, Kieran. Meu avô se apaixonou por sua Elizabeth. Contou-me que quando sentiu que não podia deixar de olhá-la nem afastar-se dela soube que era sua mulher. Você deve encontrar a essa mulher. Estou segura de que está em algum lugar esperando a que um highlander bonito e valente como você a encontre — ele sorriu. — Prometa-Me que a buscará, ou serei eu quem a busque por ti. Oh, Deus! Às vezes os homens são desesperadores. — De acordo, preciosa — gargalhou ao reconhecer a Gillian da qual tanto ouviu falar. — Mas bom, Kieran, como te ocorre essas coisas? — ao ver que ele seguia sorrindo, lhe assinalando com o dedo, assegurou-lhe: — Não desejo me casar contigo e nunca me sentirei a


mulher do idiota do Ruarke porque eu só me casarei por amor, e se não o faço assim, para mim nunca será verdadeiro — com desespero, sussurrou: — E eu adoro a esse cabeçudo. Sempre o amei e sempre o amarei. E só em pensar que outro beije meus lábios ou toque minha pele, ah! Adoece-me. Kieran soltou uma gargalhada que retumbou na escada e acrescentou: — Alegra-me saber que esse cabeçudo tinha razão. É uma mulher com caráter e romântica. — Segundo ele, sou uma malcriada — respondeu Gillian. Enquanto ambos riam, apareceu Megan, que subia em busca da Gillian. E ao vê-los parados na escada, perguntou: — Pode-se saber o que fazem aqui os dois? Gillian, com um sorriso nos lábios, levou as mãos aos quadris. — Pode acreditar que Kieran está disposto a casar-se comigo para que não me case com o néscio do Ruarke? Incrédula e surpreendida, Megan olhou ao homem, e ao ver o gesto deste disse, o fazendo rir com mais vontade: — Kieran, quando vais aprender o que você chama a arte de caçar? — e acrescentou, pensativa: — Possivelmente não seja má ideia fazer acreditar que isso pode passar entre vós. — Não, nem pensar — sentenciou Gillian. — Te cale, tola! — grunhiu Megan. — Não vê que uma notícia assim pode fazer que Niall reaja? — Megan! — soprou Kieran, — pretende que os McRae, esses selvagens, passem meia vida me amassando. — Não, eu não gostaria — reconheceu Megan. — Mas você viu como são os homens do Niall? — perguntou de novo o highlander. Levando-as mãos aos quadris, Megan se apoiou na parede da escada e disse: — Vamos ver, Kieran, não acaba de pedir matrimônio a ela? — Mulher... sabia que diria que não. Só precisa conhecê-la um pouco para saber que se não for com o Niall não se casará com ninguém. Aquela saída fez soltar uma gargalhada às mulheres, e Gillian, lhe dando um tapa, murmurou: — Pois, note... estou começando a pensá-lo. Não é tão má opção. — Obrigado, preciosa — riu o homem. Megan, assombrada pelo senso de humor de ambos, olhou-os e grunhiu: — Querem deixar esses jogos? O tempo se esgota. — Megan... nada se pode fazer, não o vê? — murmurou a jovem loira ao ver sua amiga com o cenho franzido. — Não vou permitir que destroce tua vida e a do Niall de novo, ouve-me? — e olhando ao Kieran, disse: — E você... é sua única salvação. O highlander, depois de suspirar com resignação, olhou às mulheres. — De acordo — aceitou. — Aqui me têm. Mas que conste que todo o mau que me passe, vocês o sofrerão. — Não o vou permitir — disse Gillian, olhando-os. Mas ao ver como aqueles dois se olhavam, sussurrou: — Me estão assustando.


— Acredito que seria uma preciosa senhora O'Hara. — Hei dito que não. Mas Megan estava convencida de que aquilo solucionaria o grave problema. — O que acredita que fará meu querido cunhado quando se inteirar de que ides casar? — Me matar, é claro — zombou Kieran. — Mas eu não vou me casar contigo — se defendeu Gillian. Ele, divertido, pegou-lhe a mão. — Luta pelo que quer e demonstre a esse tolo que classe de mulher é. Sorri, desfruta, dança e goza ante o Niall. Conheço-o e sei que ele não poderá afastar seus olhos de tua pessoa. É muito valiosa para deixar que outro que não ele seja se apodere de ti. — Mas... — Descemos a tua festa — continuou Kieran. — Divirtamo-nos e lhe façamos acreditar que te vais casar comigo antes que termine a noite. Se Niall não reagir ante isso, não reagirá ante nada. — Mas que fantástica ideia! — assentiu Megan. — Mas... mas... eu não posso... Kieran, convencido de que aquela noite dormiria com um olho arroxeado, no mínimo, desceu os degraus e não deixou que ela terminasse a frase. — Gillian, espero-te no salão, de acordo? A moça, pálida, assentiu, e Kieran, com um espetacular sorriso, desapareceu. — Vamos... preciso falar com a Shelma, Alana e Cris para que nos ajudem — a apressou Megan. — Ai, Deus! Acredito que o vamos atar. Com gesto decidido, Megan beliscou as faces de sua amiga, que estavam pálidas, e agarrando-a com força pela mão puxou-a. — Alegra essa cara e que são Fergus nos proteja. — Isso mesmo — acrescentou Gillian. Instantes depois, desciam as duas agarradas pela mão pela escada circular de pedra cinza, à espera que acontecesse um milagre.

Capítulo 15

Quando Megan e Gillian apareceram no salão, os convidados começaram a felicitar à homenageada por seu aniversário. Gillian, como em uma nuvem, sorria, até que viu Ruarke, que do outro lado do salão a observava. Rapidamente afastou o olhar. No fundo do salão, Niall falava com a odiosa da Diane. Nervosa, procurou a Kieran. O jovem highlander estava junto ao Axel, e pela expressão de seu irmão intuiu do que falavam. — Ai, Deus! Ai, Deus! — sussurrou para si mesma. Megan lhe deu uma caneca de cerveja e, depois de fazer que tomasse inteira, incitou a Meles, um dos guerreiros de seu marido a que dançasse com ela. Ewen, o homem de confiança do Niall, observava-os.


Gillian, incapaz de recusar o convite, começou a dançar com o Meles. Acabado essa dança, o bonito Kieran se aproximou dela e, ante vários guerreiros, disse: — Gillian, meu coração, dança comigo. Ewen, testemunha daquele trato tão carinhoso entre eles, não perdeu tempo e caminhou até a Niall para contar-lhe. — Sorria, preciosa. Seu amado McRae nos está olhando — cochichou Kieran. O sorriso iluminou o rosto da Gillian enquanto Niall começava a passear pelo salão observando-os. Desde que essa tarde a beijou nas cavalariças, não pôde tirá-la nem um instante da cabeça. E ali estava ela, diante dele, com aquele sorriso que sempre o havia tornado louco. Vê-la dançar era um deleite para a vista. Gillian era uma perita bailarina e a graça que punha em cada movimento o deslumbrava. — Niall, gostaria de dançar? — perguntou Diane, aproximando-se dele. — Não, Diane. Agora não — respondeu, cortante, ao ver que começava uma nova dança e que Gillian continuava dançando com o Kieran. "Maldito O'Hara! Você adora te colocar em problemas", pensou ao ver como ele colocava possessivamente sua mão na cintura da Gillian. — Quer que saiamos a dar um passeio? — voltou para a carga Diane. Mas Niall não a escutava. E a jovem caprichosa, consciente de que era a Gillian a quem observava, sentiu-se ignorada e levantou a voz: — Niall! Estou falando contigo. Olhando-a com o cenho franzido, o highlander amaldiçoou. — Diane, vá dançar com outro. Eu não quero dançar — disse sem lhe importar suas maneiras. Nesse momento chegou Megan até ele, e depois de olhar com expressão zombadora a Diane, agarrou o braço a seu cunhado. — Niall, dança comigo. Sem negar-se, Niall a seguiu, e Megan foi colocar-se justo ao lado daqueles aos quais ele observava. Quando ouviu a cristalina risada da Gillian, sentiu fazer-se em pedacinhos seu coração. Estava preciosa aquela noite com aquele vestido amarelo. Inclusive parecia feliz. Isso o alertou. Conhecia-a e sabia que, depois do ocorrido nas cavalariças e suas iminentes bodas, deveria estar incômoda naquela situação, mas não. A via contente. Com expressão dura cravou seus olhos nos do Kieran, mas este nem o olhou. Só tinha olhos para a Gillian. Sua Gillian. Megan, desfrutando daquele momento, cochichou: — Niall, quereria sua opinião sobre algo. — Sim. — Esta manhã estive olhando a ferida da égua da Gillian e acredito que deveria ainda descansar uns dias antes de empreender a viagem. Você o que pensa? Niall a olhou. A que vinha essa pergunta? — Sim. Essa ferida é bastante profunda e no momento em que a égua cavalgue lhe voltará a abrir. Necessita repouso. — Justo o que eu pensava — assentiu Megan com graça, vendo como Diane os observava. — Por certo, Diane McLeod é sua prometida?


— Não — respondeu Niall cravando o olhar em sua cunhada. — Seguro? — Sim. — Então, por que...? — Basta, Megan! — cortou ele. Não estava de humor. Dando-lhe um golpe de lado, Megan chamou sua atenção. — Por que me golpeaste? — protestou, olhando-a. — Porque o merece — chiou isso. — Desde que chegaste ao Dunstaffnage deixaste de ser você para te converter em um resmungão como o é, em ocasiões, meu amado Duncan. Niall teve que sorrir. Sua cunhada, aquela morena amalucada que entrou em suas vidas anos atrás, sempre o animava. — Vamos ver, Niall, onde está seu sorriso e seu maravilhoso sentido de humor? — Possivelmente não tenha pelo que sorrir nem brincar — respondeu, trocando de expressão ao ver a Gillian cochichar. — Por são Ninian! — sussurrou Megan. — Se as olhadas matassem, já teria me assassinado a McLeod. Niall se voltou para a Diane e se surpreendeu ao deparar com seu frio olhar. Mas assim que ela percebeu que ele a observava, a calidez voltou para seu rosto com rapidez. — Não se preocupe. Nunca o permitiria — murmurou, fixando-se de novo em Gillian. — Nem eu — sussurrou Megan com segurança. Nesse momento, chegou um galante Duncan até eles e se plantou ante seu irmão. — Permite-me dançar com minha mulher? — pediu-lhe com segurança. Niall sorriu e lhe cedeu a mão da Megan. — Toda tua, irmão. Duncan, com uma expressão cativante que fez que Megan tremesse, sussurrou enquanto a pegava e a aproximava dele: — Sempre minha. Regozijado pelo namoro contínuo de seu irmão e sua cunhada, Niall se afastou para falar com o Ewen. E instantes depois percebeu que Gillian deixou de dançar e falava em um lado do salão com o padre Gowan. Depois de dar ordens ao Ewen para que mantivesse afastada a Diane dele, e sem perder de vista a Gillian, caminhou até uma das grandes mesas de madeira para agarrar uma caneca de cerveja. Quando começou a beber percebeu que Alana, Cris e Shelma se sentavam não muito longe dele e pareciam cochichar. Com dissimulação, aproximou-se delas. — Está segura? — sussurrou Shelma. Alana, com expressão aborrecida no rosto, assentiu. — Axel acaba de me dizer. Kieran e Gillian decidiram desposar-se antes que acabe a noite, e como o padre Gowan está aqui, será ele quem oficie a cerimônia. Niall ficou boquiaberto e nem se moveu até que viu a Gillian e ao Axel abandonar o salão. Aonde ia aquela louca? — Que emocionante! — exclamou Cris ao ver o rosto de Niall. — OH! — sussurrou Shelma, lhe piscando um olho. — Não lhes parece muito romântico que


Kieran entregue sua vida a Gillian para que ela não precise casar-se com o rato do Ruarke? — Sim, Shelma — assentiu Alana, secando os olhos. — Acredito que é algo muito romântico. O amor já lhes chegará; estou convencida. Ambos são jovens e têm toda a vida por diante para se conhecer. Além disso, Gillian será muito mais feliz com ele que com o Ruarke, e como disse Diane, terão uns filhos preciosos. Soltando de repente a caneca na mesa, Niall deu por concluída a intromissão. O coração pulsava a uma velocidade desenfreada enquanto caminhava para a saída em busca de explicações. Nesse momento, Shelma, Cris e Alana se voltaram para a Megan, e esta, lhes piscando o olho, sorriu. Duncan, ao ver que sua mulher de repente começava a rir, olhou-a. — Do que está rindo, docinho? — perguntou estranhando. Feliz porque seu plano parecia funcionar, beijou-o sem lhe importar quem estivesse diante, e com olhos faiscantes lhe disse enquanto começava a puxá-lo: — Duncan, veem... vamos. O homem a seguiu, e se surpreendeu quando viu que o avô Marlob, coxeando, e o ancião Magnus foram atrás deles. Por sua vez, Shelma puxava o Lolach. Ao Ewen chamou a atenção todo aquele movimento e se separou da Diane com dissimulação para segui-los. Uma vez que saíram do salão, Duncan, de um puxão, parou a sua mulher e lhe perguntou: — Aonde vamos, Megan? — Corre, Duncan — cochichou, excitada. — Niall caiu na armadilha e vai se casar. Duncan levantou as mãos ao céu, e quando o resto do grupo chegou até eles, com expressão tosca, olhou a sua mulher e, elevando a voz, rugiu: — Megan, por todos os Santos! O que fez? Sem se intimidar ao ver que seu marido cravava seus impressionantes olhos verdes nela e em sua boca se desenhava um rictos de aborrecimento, respondeu: — Fiz o que devia fazer para que duas pessoas às que quero muito estejam juntas de uma Santa vez. Duncan não podia acreditar no que ouvia, e esbravejou ao recordar o que seu irmão pensou fazer aquela noite: — Maldita seja, mulher! Danificaste tudo. — Disso, nada — apostilou Shelma ante a cara de susto da Cris. — Mas o que fizeram? — grunhiu Lolach. — Como sempre, meter-se em problemas — augurou Duncan. Lolach, entendendo o que acontecia ali, levou as mãos à cabeça e blasfemou. E o plano que esboçaram se foi pelo ar. Megan, alheia ao que Lolach, Duncan e Niall planejaram fazer, olhou a seu marido e espetou: — O que esperavam? Que permitisse que Gillian se casasse com o patético de Ruarke quando sei que ama ao cabeçudo de seu irmão e que ele a ama a ela? — Megan tem razão — assentiu Marlob. — Avô, por favor — grunhiu Duncan, desesperado. — Não lhe dê a razão como sempre. — Pois eu penso como eles também — sorriu Magnus. — Minha neta e Niall foram feitos


um para o outro, e acredito que casar é uma boa opção. Ewen, meio escondido entre as sombras, correu para a capela. Devia avisar ao Niall daquela armadilha. — Mas ficaram todos loucos? — gritou Lolach. Shelma cravou seu olhar nele e disse sem nenhuma delicadeza: — Lolach McKenna, não volte a insinuar algo assim de nenhum dos que estão aqui, ou te auguro problemas. Duncan e Lolach se olharam, incrédulos. Ficaram todos loucos? — Venham... venham... moços, corramos ou afinal chegaremos tarde, e estas bodas não as quero perder — apressou Magnus. Duncan, assombrado vendo aos anciões tão felizes, olhou a sua intrépida mulher e disse: — Não quereria estar em sua pele, querida minha, se este enlace sair mal. Depois de um suspiro divertido, Megan agarrou com força a mão de seu marido. — Se este enlace sair tão mal como o nosso, dar-me-ei por satisfeita — lhe sussurrou depois de um carinho. Sem dizer nada mais, todos se dirigiram para a pequena capela do castelo de Dunstaffnage. Ia se celebrar umas bodas, ou não?

Capítulo 16

Com os nervos a flor da pele, Gillian não deixava de olhar em direção à porta da capela, enquanto o padre Gowan soprava e Kieran sorria como um bobo ante o altar. — Padre Gowan, acho-o um pouco nervoso — zombou o suposto noivo. Secando o suor da fronte com um lenço que tirou de seu hábito, o homem suspirou. — Filho... não sei ainda o que estou fazendo, mas confesso que quando minha querida Megan me pediu isso, não pude lhe dizer que não. Todos riram. Ainda não conheciam ninguém que Megan não tivesse conseguido convencer para seus propósitos. — Kieran! — advertiu-lhe Axel, olhando-o, — se Niall não aparecer, obrigar-te-ei a te casar com minha irmã. Não vou permitir que Ruarke a humilhe quando se inteirar disto, entendeste-o? — Tranquilo, Axel, esse teimoso aparecerá, e se não, casar-me-ei com ela. — Não, não te casará comigo. Não o vou consentir — esclareceu Gillian. — Você te cala — replicou Axel. — Não me casarei com o Kieran, ponha como te põe — lhe disse voltando-se para ele, furiosa. Ver seu gesto infantil e sua teimosia fez sorrir aos homens e Kieran aproveitou para lhe recordar: — Isso é justo o que deve dizer ao Niall para que se empenhe em fazê-lo. Não o esqueça. Nesse momento, ouviram-se passos rápidos aproximando-se, e Kieran, agarrando com rapidez as mãos da Gillian, sorriu. — Que seja muito feliz, preciosa — sussurrou lhe dando um beijo na face.


Como se um vendaval tivesse aberto as portas da capela, assim apareceu Niall. Seus olhos marrons jogavam faíscas e se cravaram naqueles que ante o padre Gowan se olhavam nos olhos agarrados às mãos. Niall, sem parar, foi até eles e, com um gesto brusco, acertou um murro em Kieran no rosto, fazendo que caísse para trás. Axel foi auxiliá-lo. Niall, enfurecido, voltou-se para uma tremente Gillian, que o olhava. Estava tão pálida como o padre Gowan. — Não te casará com ele! O proíbo! — gritou. A moça quis falar, mas pela primeira vez em sua vida não pôde. Niall foi impedir as bodas. Isso só podia significar que ainda a amava. Niall, ainda mais zangado ao ver que ela não dizia nada, pegou com brutalidade o braço e, olhando para o Axel e Kieran, vociferou: — Se alguém tiver que casar-se aqui com ela, serei eu. Como Axel assentiu sem pigarrear, Niall se afiançou. — Não me casarei contigo, McRae. É o último homem com o qual me desposaria — murmurou Gillian, tremente, depois de um aviso do Kieran. Niall voltou seus ferozes olhos para ela e soprou: — Gillian, não vou permitir que te case com outro homem que não seja eu. Ewen entrou na capela com grandes passos e se aproximou de um furioso Niall. — Devemos falar — lhe sussurrou. — Agora não, Ewen — respondeu Niall. — Depois falaremos. — Mas, meu senhor... — Hei dito que agora não, Ewen! — bramou, incomodado. Atônita pelo tom de voz do Niall, ia mover-se, mas ele agarrou com força sua mão, puxou-a e, uma vez que a teve sob seu semblante atemorizador, soltou-lhe: — Não voltarei a repetir o que hei dito, Gillian. Não me subestime. Então apareceram Megan, Duncan e todos os outros, e com rapidez tomaram assento. Ewen cruzou um significativo olhar com o Duncan, e logo encolheu os ombros e se posicionou a um lado da capela. Instantes depois, chegaram os barbudos homens do Niall, que ao vê-lo ante o altar com aquela jovem se surpreenderam. Duncan, incapaz de calar e seguir o jogo da sua mulher, levantou-se para horror desta. — Niall, preciso falar contigo. — Agora não, Duncan. — É importante. Muito importante — insistiu este, consternado ao ver como a capela se enchia de gente. Precisava falar com ele a sós. Mas Niall não queria escutar a ninguém. Só queria uma coisa: casar-se com a Gillian antes que qualquer outro o fizesse. Finalmente, Duncan, depois de insistir um par de vezes mais, sentou-se ante o olhar triunfal de sua mulher. — McRae — gritou Kieran, que tocava no golpe que tinha no rosto, — se segue pensando, ao final serei eu quem me case com ela. — Por cima de meu cadáver — bramou aquele diante de todos. — Eu me casarei com a


Gillian e ninguém me vai impedir isso. — Está seguro, Niall? — perguntou Marlob. — Sim, avô. Estou seguro. — Pensa no que faz, moço — disse Magnus. — É com minha preciosa neta com quem te vais desposar, e não quero que logo diga que foi obrigado ou que foi enganado ao matrimônio. Com um gesto depredador que a Gillian pôs arrepios, assentiu, e disse diante de todos os presente: — Sei muito bem o que faço. Megan quase aplaudiu enquanto seu marido Duncan amaldiçoava. Aqueles dois velhos raposas acabavam de jogar com Niall. Com aquelas perguntas conseguiram que seu irmão manifestasse suas vontades e desejos de casar-se livremente com a Gillian diante de todo mundo. — Que assim seja — assentiu Axel, encantado. Instantes depois, a tensão ainda se apalpava no ambiente. E quando a pequena capela já estava a transbordar de gente, Niall olhou para trás e percebeu como sua adorada cunhada Megan piscava um olho ao Kieran e este assentia, contente. Então, olhou ao Axel, e este desviou a vista; e por sua parte, os dois anciões cochichavam, agradados. Um estranho pressentimento o açoitou de repente, e ao olhar ao Ewen e depois ao Duncan e ver que estes assentiam com a cabeça, blasfemou em silêncio. Como se lhe tivessem dado uma chicotada, entendeu tudo. Manipularam-no, enganaram-no, e agora já não havia marcha atrás. Depois de sentir-se como um imbecil por não ter percebido aquela armadilha, cravou seu escuro olhar na Gillian, e pela tensão que percebeu em seu rosto, soube que lhe tinha lido a mente. Ao ver que esta, com olhos assustados, olhava pedindo auxílio à Kieran, endureceu a voz e lhe disse ao homem, que o olhava com um estúpido sorriso: — Deixa de sorrir, O'Hara, porque quando sair desta capela te matarei! Maldito bastardo! — Niall, não te vou permitir que blasfeme na casa de Deus — lhe arreganhou o padre Gowan. — Você sabia, verdade? — chiou olhando-o. — O que, filho? — perguntou angustiado o padre Gowan enquanto secava o suor da fronte com um pequeno pano. Duncan e Lolach se olharam e entenderam que Niall acabava de perceber o engano, mas já não se podia fazer nada. O futuro marido olhou ao Axel e, com voz profunda, disse-lhe: — Assim com isto todas minhas dívidas contigo ficam saldadas. — É óbvio — assentiu Axel. Com gesto desafiante, Niall voltou a olhar a Gillian de sua tremenda altura, e esta quase soltou um grito quando o ouviu dizer: — Padre Gowan, comece a cerimônia. — Não! — gritou Gillian, assustada. — Sim. — Não... — Sim. — e erguendo-a contra seu flanco murmurou ao seu ouvido: — O que ocorre, Gata?


Já me tem onde queria, o idiota do Kieran e seguro que algo mais. Agora te joga para trás? A Gillian lhe arrepiou o pelo do corpo. Ele sabia a verdade. Conhecia o engano. E com um gélido sorriso, ao ver que ela não respondia, Niall sussurrou: — Prometo-te que chorará dia e noite por não te ter casado com o Ruarke Carmichael. Farei que sua vida seja tão insuportável como você fez a minha. Gillian estava a borda da histeria. Supunha-se que aquele era seu príncipe, não seu executor. Aquelas bodas era o que sempre desejou e, de repente, tudo estava se convertendo em um autêntico pesadelo. Assustada, olhou a seu irmão em busca de auxílio, mas este não o deu. O que podia fazer? O padre Gowan começou a cerimônia e perguntou quem entregava a Gillian. — Eu, seu irmão, Axel McDougall. Horrorizada, Gillian tentou voltar-se para olhar a seu irmão, mas essa vez Niall não o permitiu. A Mantinha segura de tal maneira que não podia se mover, enquanto o sacerdote falava sobre o sacramento do matrimônio. Gillian, quase sem respiração, sussurrou como pôde: — Me solte agora mesmo, McRae, e acabemos com isto. A resposta do Niall foi o silêncio. — Niall McRae, aceita por esposa lady Gillian McDougall? — perguntou o padre Gowan. Gillian se sentiu desfalecer. Toda a vida esperando ouvir aquela frase, toda a vida amando-o, e agora compreendia que aquelas bodas era um terrível engano. Niall a olhou. E depois de sorrir ao vê-la tão desesperada, respondeu com profundidade: — Aceito. É óbvio que aceito. O padre Gowan agarrou a mão da Gillian e, depois de pegar a do Niall, fez que esta lhe pusesse no dedo um precioso anel que pertenceu a seu pai. Causava pena por ver aquele anel, que ela guardou com tanto amor, no dedo do homem equivocado, desejou chorar, mas se conteve. Não ia aceitar aquele matrimônio. Quando o padre Gowan lhe fizesse a pergunta, ela diria que não. Depois disso, com total segurança, seu irmão Axel, envergonhado por seu comportamento, interná-la-ia em uma abadia por toda a vida. Mas não lhe importava; preferia isso a estar casada com aquele bufão. Os murmúrios de alegria da parte de Megan, Shelma e Alana tiraram a Gillian de sua abstração, e então escutou o padre Gowan lhe fazer a mesma pergunta a ela: — Lady Gillian McDougall, aceita por esposo ao Niall McRae? Assustada pelo que ia fazer, fechou os olhos disposta a suportar os gritos de seu irmão. Aquilo seria uma desonra para sua família. Mas de repente ouviu seu avô sussurrar: "Diga que sim, minha menina... diga que sim". A partir desse momento, em seu interior começou a despertar uma batalha. O que devia fazer? Ofender de novo a sua família, ou aceitar seu destino? Finalmente, abriu os olhos, levantou o olhar e, cravando seus azuis olhos no homem que a olhava com expressão decomposta, dispôs-se a aguentar um terrível futuro. — Aceito — murmurou. — Ponha lhe o anel, filho — sussurrou o padre Gowan ao Niall. Este, depois de sorrir de lado, disse: — Padre, minha mulher terá o melhor, mas como foi tudo tão precipitado, não tenho


nenhum. Com isso de momento valerá, verdade, docinho? E tirando uma gasta tira de couro marrom que guardava em seu bolso o atou como um anel no dedo. Surpreendida, Gillian o olhou e chiou: — Uma tira de couro velho? — Nunca foste uma mulher materialista como a preciosa Diane, ou sim? — perguntou com maldade. Desejou lhe apertar o pescoço com essa tira de couro e lhe arrancar os olhos pelo comentário, mas não estava disposta a dar um desgosto mais a sua família. — Esta tira de couro valerá — murmurou. Niall, como zombando, encolheu os ombros, e ela desejou esbofeteá-lo. O padre Gowan, açulado pelos anciões Marlob e Magnus, acelerou a cerimônia até declará-los oficialmente, e diante de todos, marido e mulher. Quando o padre terminou de dizer aquelas palavras, o jovem marido ergueu a Gillian nos braços e a beijou. Foi um beijo duro e exigente, em nada o doce beijo de amor que ela sempre sonhou. Depois, soltou-a com brutalidade e levantou os braços justo no momento em que seus homens começavam a gritar e a aplaudir para horror do padre Gowan. Com rapidez todos se aproximaram para lhes dar os parabéns, mas Niall, com um gesto implacável, deteve-os. Não queria felicitações de ninguém. Queria explicações. De repente, ouviu-se um uivo de horror, e ao voltar-se, todos viram na porta da capela a um zangado Ruarke Carmichael segurando entre seus braços a jovem Diane, cujos olhos estavam em branco por causa do desmaio.

Capítulo 17

Acabada a desastrosa cerimônia, todo mundo gritava com cara de aborrecimento. Ruarke Carmichael e seu pai se aproximaram da Gillian. Esta estava perturbada por tudo o que ocorria a seu redor que nem mesmo quando os teve em cima se moveu. Mas no momento em que Ruarke levantou sua mão para golpeá-la, Niall se interpôs e lhe deu tal murro que o fez saltar por cima dos bancos da capela; logo lhe gritou que se voltasse a se aproximar de sua mulher o mataria. Depois daquilo, os Carmichael abandonaram o lugar e, um pouco mais tarde, o castelo do Dunstaffnage. Niall, ao ver que a jovem Diane voltava a si, ordenou ao Ewen que a levasse ao salão. Cris os acompanhou. Conhecia sua irmã e estava segura de que tiraria do sério ao pobre Ewen. Os homens do Niall continuavam vociferando dentro da capela, por isso este lhes deu a ordem que partissem para descansar na clareira do bosque, pois ali não havia nada que celebrar. Depois de assinar os papéis que o assustado padre Gowan estendeu aos noivos, Niall saiu da igreja como um cavalo disparado com Gillian. Uma vez fora, soltou-a e começou a golpear sem piedade ao Kieran, enquanto Lolach, Megan e Shelma tentavam separá-los. A poucos metros deles, Axel e Duncan discutiam enquanto Alana chorava desconsoladamente junto aos anciões Marlob e Magnus, que estavam felizes depois da cerimônia.


Gillian, perturbada e convencida de que suas bodas foi a pior coisa que fez em sua vida, fugiu às cozinhas. Precisava desaparecer. Depois de beber um pouco de água e serenar-se, olhou com incredulidade a tira de couro amarrada em seu dedo, e decidiu subir a seu quarto. Precisava estar sozinha e pensar no que aconteceu. Mas ao abrir a porta de seu refúgio particular ficou paralisada ao ver o Niall, apoiado placidamente no batente da janela. Sua expressão selvagem quando a olhou fez que se estremecesse dos pés a cabeça. Mas não de prazer, e sim de medo. Com expressão dura, Niall sustentou o olhar durante um momento, enquanto se perguntava pela enésima vez por que se casou com ela. Não soube responder e se esqueceu disso momentaneamente. Então pensou em Duntulm, seu lar. Gillian não era uma mulher débil, mas levá-la a viver às frias e duras terras da ilha do Skye possivelmente fosse muito para ela; ou possivelmente para ele? Ao ver que ela, com valentia, fechava a porta e se apoiava nela, tomou a decisão de deixá-la no castelo de Eilean Donan ao cargo do Duncan, Megan e seu avô Marlob. Era a melhor opção. Isso lhe evitaria muitíssimos problemas. — Nunca volte a desaparecer sem dizer-me aonde vai — disse ele com dureza. — Vem aqui, senhora McRae. Como consequência do tom de voz do Niall, Gillian quis desaparecer, mas antes que lhe desse tempo a fazer algum movimento, ele voltou a falar, essa vez de pior humor. — A primeira regra que necessito que aprenda é que não repito as coisas. Se não quer ter problemas, começa a obedecer. Sem escolha, ela continuou olhando-o como se estivesse em uma nuvem. — Pretende que te castigue, ou prefere que te açoite? — acrescentou. A pergunta conseguiu que ela reagisse, e lhe cravando seus gélidos olhos azuis, se aproximou. — Nem me castigará, nem me açoitará, ao... De repente, a tomou pelo braço e puxou-a até que ficou frente a ele. Posando suas grandes mãos na cintura da Gillian a atraiu para si e a beijou. Aquele beijo a pegou tão desprevenida que mal pôde mover-se enquanto sentia como as pernas tremiam ao sentir o voraz arremesso masculino contra sua boca. Assustada por aquela intensidade, Gillian tentou escapar, mas foi impossível. A boca de Niall era exigente e selvagem, e suas mãos ainda mais. Assustada por aquela invasão, prendeu entre seus dentes a língua de Niall e a mordeu. Ele a soltou. — Maldita seja, Gata! — bufou, incomodado. — Não volte a fazê-lo. Sugando ar com dificuldade, Gillian se separou dele e, pondo a distância da cama entre ambos, gritou com os olhos acesos pela raiva: — Não volte a me chamar assim, McRae. — ao vê-lo sorrir, gritou: — Mas quem te acreditas para fazer o que fez?! Coçando o queixo, Niall rodeou a cama. Ela saltou e se afastou por cima do cobertor. — Sou seu marido. Seu dono e seu senhor! Parece-te pouco? Ela não respondeu. — E por isso te chamarei como me venha à ideia e te tratarei de igual maneira, entendeste?


— Não. — Como?! — Hei dito que não! — voltou a gritar. E pegando a adaga que levava na bota, ameaçou-o: — Não me obrigue a fazer algo que não quero. Niall sorriu, embora com um sorriso tão frio como seus olhos. — Hum... Esse teu caráter, acredito que preciso aplacá-lo. — Nem o sonhe, McRae. Vê-la ante ele daquela maneira o excitou; aquele olhar desafiador o fascinava. E em circunstancias normais, ter-lhe-ia tirado a adaga de uma mão, a teria deitado sobre a cama e lhe teria feito amor com a mesma paixão com que a olhava. Mas não. Gillian necessitava aprender. E embora seus atributos o tornassem louco, não pensava lhe dar trégua, e menos ainda permitir algo como o que estava fazendo naquele momento. — Solta a adaga, Gillian, se não, terei que te dar uma lição. Ela sabia que aquele jogo era perigoso, mas uma vez começado era incapaz de parar. Por isso, segurou com mais firmeza a adaga. — Te atreva a me dar uma lição, Niall, e o pagará — disse. Depois de uma gargalhada que lhe pôs os cabelos em pé, ele soltou: — Já o estou pagando, mulher. Está casado contigo é um castigo. — Por que te casaste comigo?! — gritou ela. — Maldito seja, Niall! Eu não te obriguei. Niall assentiu e a olhou com uma profundidade que a fez estremecer. Nunca lhe diria a verdade; não lhe revelaria o plano que esboçara junto com Duncan e Lolach. Pretendera raptá-la depois do jantar para lhe confessar seu amor e casar-se com ela. — Por quê? Por que te casaste comigo? — voltou a gritar ela. — Quer a verdade? — vociferou ele, incapaz de lhe confessar a verdade. — Sim. Depois de olhá-la uns instantes, disse: — Devia vários favores a seu irmão, e esta foi uma maneira de pagar-lhe, parece-te bem? — Uma troca de favores, isso é o que foi para ti — sussurrou ela com um fio de voz. Niall soltou uma gargalhada, e ela desejou lhe arrancar os dentes. — Sim... Gillian — respondeu, — é isso , você goste ou não. Mas, sabe? Essa troca te permitirá que sinta a solidão como eu a hei sentido todos e cada um de meus dias por sua culpa. Quero que deseje morrer tantas vezes como eu o desejei enquanto lutava na Irlanda, me sentindo só e rechaçado, por ser um homem de palavra e servir a meu Rei. Destroçou-me a vida, Gillian; tirou-me isso. — Ver seu rosto de horror lhe doeu, mas prosseguiu: — Não quero nada de ti como mulher; antes prefiro desfrutar com qualquer uma das prostitutas com as que desfruto faz tempo. Mas não te vou mentir, Gata, agora que me hei casado quero um filho. Um herdeiro. Um varão que governe minhas terras. — Isso pode lhe dar qualquer uma de suas prostitutas. — Sei — assentiu Niall. — Quem te diz que não o tem já? — Não, Gata, um herdeiro o quero de minha esposa. E tu és minha esposa. Uma vez que consiga o que quero, não voltarei a me aproximar de ti. Não me interessa.


Gillian sentiu que a boca ficava seca. Como era possível que estivesse acontecendo aquilo? Como podia Niall estar lhe falando assim? O que acontecia com ele? O que lhe fez? — Olhe, Gillian, não tenho intenção de me aproximar de ti a não ser que esteja tão embriagado para te confundir com alguma das prostitutas que me aquecem de vez em quando o leito. Levando as mãos à cabeça, Gillian sussurrou: — Isto é humilhante... Eu... Niall não a deixou terminar. O que estava lhe dizendo era mentira, mas queria lhe fazer mal, que se sentisse mal. — Por isso, como seu marido, dono e senhor, quando eu te peça um beijo, dá-lo-á. Se te pedir que seja amável, o será. E se ousa desobedecer qualquer uma de minhas ordens, por São Ninian te juro, Gata, que sem me importar quem esteja diante, agarrar-te-ei e te açoitarei. — Não! — gritou ela. — Se te atrever a me tocar, juro-te que o mato. Com uma gargalhada que fez Gillian paralisar, Niall saltou por cima da cama. Justo quando descia para agarrá-la, ela, de um pontapé, pôs em seu caminho um pequeno baú. Niall perdeu o equilíbrio e caiu ao chão. Gillian sorriu, mas quando viu como ele a olhava do chão, gemeu. Antes que ela pudesse mover-se, agarrou-a pelas saias e, de um puxão, fê-la rodar em cima dele. A adaga saiu pelos ares e se cravou atrás do baú. Com maestria, ele a agarrou e rodou com ela pelo chão. E depois de ficar em cima, deu-lhe um novo e profundo beijo na boca que a deixou sem respiração. Niall, ao notar que sua virilha crescia imediatamente, decidiu levantar-se, e com Gillian ainda em seus braços, sentou-se na cama e a pôs sobre suas pernas de barriga para baixo. — Me solte! — gritou horrorizada ao sentir que iria humilhá-la. Mas Niall não a soltou, e com voz clara, disse-lhe entre dentes: — Hoje, querida Gata, receberá o que seu irmão e seu avô deveriam ter dado faz tempo. — Não te atreva a me pôr a mão em cima, McRae! Sem levantar-lhe as saias para não danificá-la, deu-lhe uma palmada no traseiro que a fez gritar. Tentou escapar dele, e inclusive lhe mordeu a perna, mas foi inútil. Niall a prendia de tal maneira que não podia fazer nada, exceto seguir recebendo açoites. — Esposa, se segue gritando, todos pensaram que seu primeiro contato íntimo com teu marido foi do mais prazenteiro. Envergonhada por aquela possibilidade, e humilhada por tudo o que lhe estava fazendo e dizendo, gritou: — Me solte, maldito bufão. Um novo açoite caiu sobre ela. — Não me insulte, esposa, ou não pararei. Assim estiveram um bom momento, até que finalmente Gillian parou de insultá-lo e se calou. Niall, com o coração mais dolorido que a mão, ao comprovar seu silêncio se deteve. Levantando-se da cama, pô-la em pé, e sem soltá-la, olhou-a. Em seus olhos viu o aborrecimento e a humilhação, e nesse momento, decidiu que não queria tê-la longe e que a levaria com ele ao Skye. Seu lar. Gillian era sua mulher e devia assumir sua nova vida. Depois de soltá-la, tirou a adaga do cinto e fez um corte no braço, para horror da Gillian.


Sem demonstrar dor, Niall retirou o cobertor da cama de um puxão, deixou cair umas gotas de sangue sobre os lençóis para que os criados, pela manhã, pudessem ver que o matrimônio foi consumado. — Vá preparando suas coisas — disse, olhando-a. — Depois de amanhã, à alvorada, retornaremos a meu lar. E só te direi uma coisa mais: se não quer ver os teus sofrer, tenta lhes fazer acreditar que é feliz. Depois de bater a porta com força que retumbou em todo o castelo, Niall partiu. Gillian, furiosa, massageou o traseiro. Agachou-se para recolher a adaga e, depois de amaldiçoar, jurou preferir estar morta antes que ser a mulher daquele animal.

Capítulo 18

Aquela noite, depois de sair do quarto da Gillian como um potro disparado, Niall procurou o Kieran e brigou de novo com ele. Todos no castelo se dedicaram a separá-los, e ao final, Niall, disposto a esclarecer certas coisas com Kieran, exigiu que falasse com ele a sós. Kieran aceitou, até sabendo que aquilo significava continuar brigando. Depois de pegarem seus cavalos ordenaram a seus homens de confiança que não os seguissem. Chegaram até um pequeno arroio e desmontaram de seus cavalos. Com um olho quase fechado e uma dor de cabeça incrível, Kieran se voltou para o Niall para falar, e este, sem mediar palavra, lançou-lhe um murro. Dessa vez Kieran não ficou quieto e com um bramido se lançou contra ele, e ambos rodaram pelo chão repartindo golpes a direita e esquerda. Quando as forças começaram a falhar, ficaram estendidos no chão. Os dois, esgotados, estavam feridos e lhes faltava o ar. — És um maldito bastardo, O'Hara. Nunca pensei que farias algo assim. Kieran, respirando com dificuldade, perguntou-lhe: — Realmente acreditas que eu queria me casar com sua adorada Gillian? Niall, limpando o sangue que lhe corria pelo lábio, bramou: — E você acredita que eu ia permitir que se casasse com esse Carmichael? Kieran soltou uma gargalhada, e Niall prosseguiu: — Maldito seja! Tinha um plano. Só devias ter ficado de lado para que eu fizesse as coisas a minha maneira. Mas nãooooooooo. Kieran blasfemou e levantou os braços. — Por São Fergus, Niall! — exclamou. — Se tinhas um plano, por que não me disse nada? Então foi Niall quem gargalhou. — Maldito cabeça dura! — continuou Kieran. — Se tivesse se dirigido a mim, eu nunca teria escutado a Megan nem teria tentado ajudar a Gillian. "Já sabia que minha cunhada teria algo que ver em tudo isto", pensou o highlander. — Sabe, Niall? Quase chegou a me convencer de que não te importava essa mulher. Vi-te tão atordoado com essa preciosidade chamada Diane que... — Diane não é nada para mim — cortou Niall. — Sei que ela criou ilusões com respeito a nós,


mas eu nunca a enganei. Faz tempo que deixei claro a seu pai e a ela que nossa união nunca seria um fato. Mas ao inteirar-se de que vinha a Dunstaffnage ao batismo do filho do Axel, e ser ela prima de Alana, empenhou-se em vir e não pude dizer que não. — Pois pensei que... — Ah! Mas você pensa? — zombou Niall, erguendo-se. — É óbvio que penso, não como os McRae. Durante um momento ficaram em silêncio. — Kieran, necessito um favor — disse Niall, ao fim. — Ah, não, McRae! — respondeu o outro, rindo. — Acaso pretendes que agora seja sua mulher quem me golpeie? Ambos soltaram uma gargalhada e a tensão se desvaneceu. — Venha, me diga, que favor necessita? — Como sabe, depois de amanhã empreenderei a viagem de volta. Parte do caminho o farei com o Duncan e Lolach, e sinceramente, amigo, viria me bem que você não estivesse perto da Gillian. — Não me digas que ainda pensas que quero cortejar a sua esposa? — Não digas besteiras, Kieran — respondeu de forma distendida. — Se te peço isto é porque preciso me concentrar o máximo possível para que minha aplicada esposa me acredite um ogro, e contigo perto e sua maneira de me olhar, será impossível. — De acordo. Partirei amanhã a primeira hora. Niall, ao ver como Kieran tocava o olho maltratado, suspirou, e levantando-se, aproximou-se até ele. Estendeu a mão e seu amigo, com um sorriso, agarrou-a e ficou de pé. — Obrigado. — Me agradece por te dar uma boa surra? — perguntou-lhe Niall divertido. — Eu tampouco fiquei quieto — indicou, assinalando o sangue da boca. Ambos riram e se aproximaram do arroio para lavarem as feridas. — Acredito que no final vou evitar a ti e a teu irmão — brincou Kieran. — Estou começando a estar farto de vossos carinhosos murros. — Você se deixa enganar pelas mulheres com muita facilidade. — Pelas mulheres não. Pela Megan. Niall gargalhou ouvindo o nome de sua cunhada. — Isso te acontece por... Kieran não o deixou terminar. — Isso me acontece por tentar ajudar a vossas mulheres. O que fiz pela Megan em seu momento o voltaria a fazer uma e mil vezes. Inclusive o que fiz por sua esposa hoje, apesar de conhecer o nefasto resultado. Conheço-te, Niall. Essa tua mulher, a quem queres martirizar como se fosse um ogro, tem-te tão encantado que poderá contigo como Megan pôde com o Duncan. — Já pus remédio a isso — riu Niall com amargura. — Deixei claro a essa malcriada que sua vida comigo não vai ser um campo de rosas. — Por São Drostran, Niall! Que fizeste? — Simplesmente, sentei-a sobre meus joelhos e lhe dei umas palmadas para que saiba


quem manda. Um forte golpe no rosto fez que Niall caísse para trás. — Você bateu em Gillian? — vociferou Kieran fora de si, se existia algo que odiava era a homens que impondo sua força usavam a violência em mulheres. — Maldito seja, O'Hara! — grunhiu Niall, levantando-se. — Não lhe peguei. Nunca faria algo tão vil. Só lhe dei umas doces palmadas para lhe fazer ver que não pode seguir comportando-se assim. Mas bom, acreditas que seja capaz de pegar a minha mulher, ou a qualquer outra? Kieran negou com a cabeça enquanto Niall tocava a mandíbula. — Que São Ferguste o proteja, porque estou seguro de que essas "doces palmadas" das quais você fala hão zangado muito a sua mulher. — Muitíssimo — assentiu Niall recordando a cena. Nesse momento se ouviu o ruído de uns cavalos aproximando-se a galope. Eram Lolach e Duncan, quando viram os dois juntos no arroio se sentiram mais relaxados. — Tudo bem por aqui? — perguntou Duncan, desmontando do cavalo. — Sim, Duncan, não se preocupe — respondeu Niall. Lolach se aproximou do Kieran e, depois de ver que o olho dele estava cada vez mais cerrado, zombou. — Kieran O'Hara, quando vais aprender a te afastar das mulheres dos McRae? Os quatro prorromperam em grandes gargalhadas enquanto montavam os cavalos e retornavam ao castelo. Naquela madrugada, Niall entrou no quarto onde Gillian, ainda vestida, dormia. Assombrou-se ao ver mais de uma dúzia de velas acesas. A que se devia aquilo? Mas disposto a não fazer ruído para não despertá-la, apoiou-se na parede e simplesmente a olhou.

Capítulo 19

Na manhã seguinte, ninguém sabia realmente como estavam os recém casados depois do ocorrido a noite anterior. O que poderia ter sido um motivo de felicidade para todos se converteu em causa de preocupação. Depois da partida dos Carmichael, Axel respirou aliviado, mas os insultos e os gritos de sua irmã de seu quarto o despertaram. Teria sido boa ideia aquele enlace? Quando o silêncio reinou de novo se tranquilizou. Pela tarde, Gillian se dignou a aparecer no salão do castelo. Seu avô e seu irmão se alegraram ao vê-la. E ela, ao perceber sua preocupação, se sentiu culpada, e expondo o melhor de seus sorrisos, tentou fazer que acreditassem que era feliz. Não queria que soubessem o tremendo erro que cometeu. O pagaria, mas eles nunca saberiam. Mais tarde, ela conseguiu enganar a Megan e ao resto das mulheres, que, sentadas no


exterior do castelo, a olhavam com um sorriso de picardia e um pouco de compaixão. Sabiam pela Helda, a criada, que nos lençóis daquela estava a prova da sua perda de virgindade. — Oh, não se preocupe por nada, Gillian! Dói a primeira vez, mas já verá que com o tempo, essa dor desaparece e cada vez que o fizerem um prazer imenso a envolverá — sussurrou Shelma, tocando-lhe o cabelo. — Por todos os santos, Shelma! — queixou-se Alana, — é necessário que comente esse tipo de coisas com tanta clareza? — É óbvio que sim — assentiu Megan. — Acredito que um pouco de informação por parte de mulheres experimentadas como nós sempre é algo bom para uma mulher a que seu marido acaba de ensinar no leito a arte do amor. — Ao ver que Gillian a olhava e assentia, continuou: — É necessário que saiba que, depois de a dolorosa e desconcertante primeira vez, logo chegarão outras muitas prazenteiras e maravilhosas. Inclusive com o tempo será ela quem o possua a ele. — Oh, Deus! Não quero escutar! — Alana tampou as orelhas e partiu. As outras riram. As três amigas se levantaram e decidiram dar um passeio até o lago enquanto falavam de suas coisas. Gillian parecia feliz, apesar das tênues olheiras que tinha, mas era normal em uma recém casada. Com segurança não teria dormido nada. — Bom, Gillian, conta-nos: que tal sua primeira noite com o Niall? — perguntou Megan com um sorriso pícaro, havia suficiente confiança entre elas para que pudessem falar da experiência sem escandalizar-se. Disposta a continuar com o engano, sorriu. — Maravilhosa. Se for sincera, nunca teria imaginado isso assim — disse com um fio de voz. Realmente, Gillian não mentia. Nunca teria imaginado que passaria sua noite de bodas só, enfadada e desesperada. — Pois, Kieran partiu ao amanhecer — indicou Megan, — mas me deixou uma nota em que diz que a próxima vez que vá ao Eilean Donan, irá, o melhor dizendo, iremos, a te visitar ao Duntulm. — Não pude lhe agradecer por tudo o que fez por mim — se lamentou Gillian, sorrindo. Megan meteu uma flor violeta no cabelo. — Ele sabe o agradecida que está. Não se preocupe. — A que acredito que não deixa de choramingar como uma tola é a insossa da Diane — disse Shelma, mudando de tema. — Sinto dizer, mas não me dá nenhuma pena. Não gosto dessa mulher, nem nunca gostarei — acrescentou Megan. — Ainda não tive problemas com ela, lhe farei saber quem é a Desafiadora — repôs Gillian com amargura nos lábios. Todas riram. — Assustou-te muito quando viu o Niall nu? — perguntou Shelma. — Eu ainda recordo a primeira vez que vi o Lolach e oh, Deusssss! "Que digo, que digo, pensou".


— Uf, um pouco — respondeu rapidamente. — Niall é tão grande que... Aquela intimidade as fez rir de novo, e Megan a abraçou. — Não se preocupe. Já verá como o que ao princípio te assustou, com o tempo lhe encantará, e odiará pensar que outra que não seja você possa pôr suas mãos nisso. — Megan, que descarada é! — recriminou-a Gillian rindo ao entendê-la. — Eu gosto de ser descarada. Shelma, risonha, se aproximou ainda mais a Gillian e murmurou: — Aconselhamos-lhe que o que fez ontem à noite na cama o pratique na água. É apaixonante! Ao ver que a recém casada as olhava com os olhos muito abertos, Megan a esclareceu: — Entendera-o quando estiver com o Niall na banheira ou em algum lago e pratiquem molhados a arte do amor... Oh, Deus, só pensando sinto a necessidade de procurar o Duncan urgentemente. Enquanto Gillian as escutava sem entender realmente do que falavam, desejou lhes dizer a verdade, mas não as queria decepcionar. As via tão felizes com aquela união que decidiu seguir com a farsa. Para quê as preocupar se nada ia mudar? Não muito longe delas, Duncan e Niall falavam com seus homens junto ao muro do castelo. Ouvindo as gargalhadas das mulheres, se voltaram e as viram desaparecer entre as árvores. — Que maldade estarão tramando? — murmurou Duncan, ao ver sua esposa rir e levantar os braços para o céu. — Seguro que nada bom — murmurou Niall. Como a Gillian, Niall não contou nada do que aconteceu na intimidade do quarto. Sentia-se confuso. Quando pensava que Gillian era sua sorria; mas quando se lembrava de que se casou com ela, se zangava. Não estava feliz pelas coisas tão terríveis que lhe disse na intimidade, mas tampouco se culpava. Ela, durante anos, o tratou pior que a um cão e merecia que lhe fizesse sentir seu desprezo. Súbito, um dos vigias das muralhas deu o grito de alarme. Avistou um movimento estranho na mesma direção que foram as mulheres. De imediato, Duncan, Niall e alguns de seus homens começaram a correr para o lugar por onde elas desapareceram. Quando chegaram às árvores, Duncan sofreu arrepios ao ouvir Megan gritar, mas deram com elas rápido. Encontraram a Shelma e a Megan atadas de pés e mãos, e jogadas no chão. Niall olhou a seu redor. Onde estava Gillian? — Uns homens nos assaltaram e levaram a Gillian — gritou Megan olhando a seu cunhado. — Tomaram o caminho do lago. Niall e seus homens continuaram correndo, enquanto Duncan e Lolach desatavam a suas mulheres. Com o coração lhe pulsando a uma velocidade que Niall não recordava, olhou a seu redor em busca de sua esposa, mas não viu nada. — Solta-me, maldito anão! — ouviu-a rugir de repente. O highlander sorriu. Sua mulher ainda estava bem, e sua voz lhes indicou para onde ir. Niall ordenou aos seus que se atirassem ao chão ao ver cinco homens com Gillian junto ao lago.


Surpreso pelo absurdo sequestro, Niall cravou seu olhar naqueles tipos. Por suas roupas sujas e esfarrapadas não deviam pertencer a nenhum clã; pareciam simples ladrões. Os via confundidos e sem organização. Niall se alegrou. Pão comido! Não obstante, quando viu que o que ia atrás da Gillian a olhava com desejo o traseiro, blasfemou. Ordenou a seus homens que os rodeassem e aguardando o melhor momento para atacar. A última coisa que queria era que ela ficasse ferida. Gillian, surpreendida pelo que estava ocorrendo, não entendia realmente o que queriam aqueles idiotas. Pareciam aturdidos e sem experiência, e quando viu os cavalos, sorriu. Verdadeiramente pretendiam fugir dali com aqueles pobres e velhos animais? O homem mais velho que a empurrava e tinha menos dentes que um ancião, perguntou a seus companheiros olhando: — O que fazemos com esta fera? O mais jovem, que levava uma aljava as costas, contemplou a Gillian com descaramento e disse, depois de estalar a língua: — Me ocorre várias coisas. "Se me tocas, te... mato," pensou Gillian, desafiando-o com o olhar; estava segura de que se tivesse sua espada aquele não lhe durava nem um assalto. Um ruivo, de meia idade, murmurou: — O trato é matá-la. Devemos afundá-la no lago com as mãos atadas, e quando se afogue, lhe tiraremos a corda para que pareça um acidente. Gillian, atônita mas sem demonstrar nem um ápice de medo, gritou depois de dar um pontapé na perna no desdentado: — Quando meu marido se inteire de que... — Seu marido?! — gritou também o jovem, aproximando-se dela. — Tranquila pequena, sentirá sua falta um par de dias na cama, mas estou seguro de que rapidamente terá quem o volte a esquentar. Uma estranha raiva se apoderou de Gillian, que, com todas suas forças, lançou ao homem um grande pontapé, o qual ele evitou. Agarrando-a pela cintura, aquele estranho tentou beijá-la, mas a soltou ao receber uma dentada. — Cadela! — gritou, dando-lhe um bofetão. — Filho de Satanás! Pagar-me-á por isso! — exclamou, cuspindo-lhe na cara. — Basta Eddie! — gritou o velho. — Não nos pagaram para isso. Façamos nosso trabalho e saiamos daqui quanto antes. Então, levaram a Gillian até a margem do lago e o velho se meteu nele. Por sua parte, o que a esbofeteou a empurrou, e ela caiu na água. — Por que fazem isto? — perguntou Gillian, intentando liberar-se das cordas que lhe prendiam as mãos nas costas. Era impossível. O velho não respondeu e a arrastou para o centro do lago. — Meu irmão e meu marido os buscarão e os matarão. Eles nunca acreditarão que me afoguei.


— E quem vai lhes dizer que fomos nós? — riu o homem. — Milady, cada um ganha a vida como pode e nosso trabalho é este. A nós dá igual quem morra depois de ter cobrado nosso dinheiro. Gillian ia responder, mas lhe encheu a boca de água. Embora ficasse nas pontas dos pés, segundos depois esta lhe cobriu o nariz. O homem, sem um ápice de piedade, a soltou, e Gillian gemeu ao sentir que estava sozinha em meio daquela grande massa de água. Assustada, começou a dar saltos para tirar a cabeça da água e tomar ar. Em um daqueles saltos, viu durante uma fração de segundo a um dos barbudos de seu marido brandir a espada contra um dos assaltantes. "Sim, sim, ... estão aqui," pensou aliviada. Mas ao notar que seus pulmões afrouxavam e que seus saltos cada vez eram menos vigorosos, se desconcentrou, perdeu o equilíbrio e caiu para trás. A saia se enredou entre as pernas, o mundo obscureceu e não teve forças para tomar impulso e sair. Histérica por causa da asfixia e a obscuridade, quando acreditava que ia a morrer, sentiu que umas mãos grandes a colhiam com força e a tiravam da água. Abrindo a boca como um peixe, Gillian mal podia pensar, nem ver. Só tossia e tentava encher seus pulmões de ar. Necessitava ar! — Tranquila, Gillian; respira. Aquela era a voz do Niall. A encontrou! E olhando-o através de seu emaranhado cabelo, tentou fazer o que ele dizia. Ele, ao sentir que tremia, a agarrou com delicadeza pela cintura, e agradeceu que os tremores dela não lhe deixassem notar os dele. Ao lançar-se à água e ver que Gillian não emergia, havia pensado o pior. O lago era escuro e sombrio e lhe gelou o sangue ao acreditar que não chegaria a tempo de resgatá-la. Entretanto, nesse momento, caminhava com ela em seus braços, respirou aliviado. Uma vez que chegou a margem e a sentou na terra seca, lhe levantou o queixo, retirou-lhe com cuidado o cabelo emaranhado do rosto e a olhou. Não havia tornado a falar com ela desde que saiu do quarto zangado a noite anterior, e ao tê-la ali ante ele como um pintinho encharcado, sorriu. — Não vejo a graça, McRae — balbuciou ela enquanto olhava aquela cara cheia de machucados. Sem necessidade de perguntar, imaginou que Kieran estaria pior. — Viu alguma vez a esses homens? Gillian, voltando-se para sua direita, encontrou com os olhares carrancudos dos barbudos guerreiros de seu marido, e desviando a vista observou aos homens que jaziam mortos no solo, negou com a cabeça. — Não, nunca os vi. Nesse momento, Megan e Shelma se aproximaram. — Gillian, está bem? — perguntou Megan. E cravando o olhar em seu marido grunhiu: — Maldito seja, Duncan! Não voltarei a sair sem levar minha espada em cima. — Ohhhh, por suposto que não! — exclamou Shelma, olhando por sua vez a seu marido. — Tranquilas — resmungou Niall. — Está bem. Duncan, enquanto as mulheres começavam a falar sobre o ocorrido, se aproximou de seu irmão.


— Quem eram esses homens? — perguntou. Niall com uma careta lhe indicou não saber nada e blasfemou ao ver que seus homens os tinham matado antes de lhes tirar informação. — Tome esta manta, milady — disse Ewen. — Vai aquecê-la. — Obrigada, Ewen — e em direção a suas amigas, murmurou: — Disseram que alguém lhes pagou para ver-me morta. Os highlanders trocaram olhares. — Sinceramente, esposa ,algo me faz supor que muitos pagariam por isso, e possivelmente inclusive eu não tarde muito — brincou Niall ao ver a expressão de raiva da Gillian. — Niall! — queixou-se Megan, mas um duro olhar de seu marido a fez calar. — Oh, Deus! — Bramou sua mulher, levantando-se para ir contra ele. — É um maldito tolo. Um bufão. Lhe asseguro, McRae, que eu sim que pagaria para que desaparecesse. Então todos a observaram com expressão grave. Como podia dizer aquilo estando recém casada? Ao perceber o que disse, fechou os olhos e amaldiçoou em silêncio. Niall a agarrou pelo braço e, depois de lhe dar um puxão para aproximá-la, lhe chiou ao ouvido: — Recorda, minha esposa, não me zangue e não terei que te açoitar. — Ha! Te atreva — exclamou, levantando o queixo. Incrédulo por sua reação, e zangado por como seus guerreiros o olhavam, Niall lhe exigiu sem quase mover os lábios: — Me beije e te desculpe. — O que?! — Me beije. Todos nos olham. Soprando, se pôs nas pontas dos pés ,lhe jogou os braços ao pescoço e , cravando-lhe adagas com os olhos, lhe disse: — Tesouro, desculpa o que disse. Estou nervosa e... Ele a agarrou pela cintura, a elevou e, apanhando aqueles lábios que tanto desejava beijar, os devorou. Segundos depois, ouviu a seus homens aplaudir. Abriu um olho e viu sua cunhada Megan sorrindo. Mas também percebeu que um dos ladrões se levantava e, antes de desabar morto, lançava uma adaga para eles. Sem pensar nele, girou a sua mulher para evitar que a alcançasse, mas com o movimento, a estampou contra uma árvore. — Maldito seja! — grunhiu ela. — Pretende me abrir a cabeça, sua besta! Ele não contestou, mas a soltou. Gillian, então, viu a adaga cravada no ombro de seu marido e gritou, assustada: — Ai, Niall! Ai, tesouro! Feriram-no! — Não me chame tesouro — respondeu ele, dolorido. Megan o atendeu com rapidez e lhe fez um primeiro curativo depois de lhe tirar a adaga com firmeza. Niall mal mudou de expressão enquanto a mulher o curava ,e Gillian horrorizada, escutava aos homens de seu marido relatar como ele a protegeu com seu corpo, de modo que se sentiu mal. Uma vez que comprovaram que todos os ladrões estavam mortos, os subiram a um par de cavalos e retornaram ao castelo, onde Axel se indignou ao saber o que aconteceu em suas terras.


Duncan, preocupado por seu irmão, o obrigou, frente a continuas negativas ,a subir ao quarto para que sua mulher pudesse terminar o tratamento. Ali, Megan e Shelma, sob o atento olhar da Gillian, o trataram e lhe costuraram a ferida. Quando acabaram, saíram, deixando-os sós no quarto. Niall se encontrava nu da cintura para cima, a exceção da vendagem que lhe cobria parte do ombro. Estava sentado na borda da cama, com as costas muito retas, Gillian encostada na janela, se deleitava admirando as esplendorosas costas de seu marido. Seus ombros largos, fortes e morenos brilhavam à luz das velas, e suas musculosas costas, flageladas de cicatrizes, a comoveu. Com deleite, baixou a vista até onde as calças começavam e suspirou ao notar a sensualidade que aquele corpo transmitia. — Quer um pouco de água? — perguntou, cautelosa. — Não. Tentando iniciar uma conversa com ele, voltou a perguntar: — Encontra-te bem? — Sim. Ao ver quão difícil Niall se punha, voltou a atacar: — Dói-te o ombro? — Isto para mim não é dor. Escutar o doce tom da voz da Gillian o destroçava. Desejava sair daquele quarto, mas se o fizesse, seu próprio irmão ou o dela cairiam em cima, e não estava de humor para discutir com ninguém. Com a respiração entrecortada pelo que sentia ao tê-lo meio nu ante ela, depois de um breve silêncio disse com voz aveludada: — Obrigada por não ter permitido que a adaga se cravasse em mim. Sei que... — Você não sabe nada, Gillian. Cala-te. Mas poucos segundos depois ela percebeu um encolhimento do corpo de seu marido. — Niall, se lhe dói, a mim pode dizer — murmurou. Primeiro, a olhou com curiosidade, e logo quis dizer algo, mas não pôde. Ela era tão bonita, tão preciosa, que o que menos queria fazer com ela era falar. Ao sentir seu olhar, Gillian se moveu, se pôs diante dele e se agachou sem tocá-lo. — Niall, deixa-me te agradecer por não ter permitido que me afogasse no lago e por impedir que a adaga me alcançasse — ao comprovar que ele não respondia e desejosa de vê-lo sorrir, cochichou: — É consciente de que hoje poderia te ter se livrado de mim? Olhando-a nos olhos foi consciente, sem duvida, de outra coisa: o que mais desejava naquele momento era lhe fazer amor. Mas aquilo era querer o impossível e sorrindo pelo o que ela dissera, murmurou: — Deveria tê-lo recordado. Acredito que a próxima vez o terei em conta. Esquecendo seus atritos, ela lhe devolveu o sorriso e ele, prostrado por sua preciosa mulher, disse para acabar com aquela tortura: — Descansa, Gillian. Amanhã ao amanhecer partimos para o Skye, e a viagem é longa — ao ver que o olhava assustada, adicionou fechando os olhos: — Não te preocupes, dorme tranquila. Não vou ultrapassar me.


Uma mescla de alívio e decepção alagou o interior da jovem, erguendo-se, dirigiu-se a lareira e acendeu mais um par de velas. — Pelo amor de Deus, Gillian, deixa de iluminar o quarto ou não poderemos dormir. Ela se deteve e, olhando com resignação as velas ainda apagadas, murmurou: — É que eu não posso dormir às escuras. — Como?! — Não, não... eu não gosto da escuridão. — Assusta-te? Sem lhe importar o que ele pudesse pensar, respondeu com sinceridade: — Sim, Niall. Nunca gostei da escuridão. Surpreso por aquela revelação, deu uns golpes na cama com a mão e em um tom mais afável lhe indicou: — Te deite. Eu estou aqui, e nada tem que temer. Com a pulsações a mil, desejou sair correndo dali, e incapaz de lhe atender procurou uma desculpa. — Niall, movo-me muito na cama e não quero te machucar no ombro. O melhor será que eu durma na cadeira — e sentando-se nela, disse: — É muito cômoda. — Nem o penses, mulher — se levantou, puxou-a e a obrigou a deitar-se a seu lado. — Dormirá na cama comigo, e não se fala mais. Ao ver que ela o olhava com a cabeça apoiada em cima da almofada, não pôde evitá-lo e lhe roçando com sua calosa mão o oval do rosto sussurrou, dando-lhe arrepios: — Dorme, Gillian. Confia em mim. Uma vez que disse aquilo, Niall com toda a dor de seu coração se voltou para a porta, e Gillian tentou dormir, nenhum o conseguiu.

Capítulo 20

Gillian cavalgava sobre o Thor mais calada do que o normal, enquanto observava na distancia como um daqueles highlanders barbudo tratava com mimo a Hada. Ainda quando fechava os olhos ouvia o som regular da respiração de Niall em sua cama. Isso a fez suspirar. Aquela noite foi a primeira que compartilhou a cama com um homem. Com seu marido. Com o Niall. Durante anos imaginou esse momento cheio de ternura e paixão, e não como o que foi: uma noite cheia de sentimentos contraditórios e solidão. Megan e Shelma, que cavalgavam junto a ela, tentaram cercar conversa, mas rapidamente comprovaram que não estava muito faladora. O que acontecia com Gillian? Depois de cochichar entre elas chegaram à conclusão de que a tristeza por afastar-se de seu lar e sua família era o que a mantinha tão abstraída. Para a Gillian, ter se despedido de seu irmão Axel, de seu avô Magnus e de todas as pessoas que no castelo conviveram com ela desde que nasceu foi o mais duro que teve que fazer em sua vida.


E como não quis deixá-los tristes, considerou o conselho do Niall, e com um fantástico sorriso de felicidade, despediu-se deles, prometendo voltar logo para visitá-los. Durante as longas horas de cavalgada se fixou com curiosidade nos homens de seu marido. Todos iam sujos e eram horripilantes, grosseiros e sem nenhuma classe. Nada que ver com os guerreiros do Duncan ou Lolach. Tempo atrás ouviu que a maioria deles eram assassinos, mas quando Cris lhe disse que aquilo não era verdade, quis acreditá-la. Entretanto, ao sentir seus olhares e como lhe sorriam com suas toscas maneiras, começou a duvidar. Chegada a tarde, os lairds ordenaram parar. Todos estavam famintos. Com rapidez, vários homens, depois de acender uma fogueira, começaram a cozinhar. Em todo aquele tempo, Niall não a olhou nenhuma só vez, nem falou com ela, e quando Gillian viu que desmontava de seu imponente cavalo e ia para a carreta de Diane, blasfemou. Então, ambos se dirigiram juntos para o bosque e quis degolá-los. "Malditos... malditos sejam!", pensou, furiosa. Indignada por aquela humilhação ante todos, cravou seus calcanhares em Thor, mas ao tirar a espada o bom do Ewen apanhou as rédeas do cavalo e a deteve. — Não é boa ideia, milady. Tão ofuscada estava que não respondeu e, finalmente, deixou que o homem a guiasse até onde estavam os cavalos de seu novo clã. O clã do Niall. Mal-humorada por aquele desplante, desmontou de um salto do cavalo e, de repente, encontrou-se no meio de todos aqueles barbudos fedorentos. Sem querer assustar-se pelas aparências que tinham, levantou o queixo e começou a caminhar; mas um ramo traiçoeiro lhe fez dar um tropeção; e se não tivesse sido por Ewen que a segurou, teria acabado no chão. Como era lógico, os homens prorromperam em gargalhadas. — Quase te estampa, mulher! — gritou um. — Um pouco mais e beija o chão, loura — gargalhou outro. Ewen, ao ver como ela soprava, olhou-a e lhe indicou: — Não são más pessoas, senhora, mas não sabem como trata-la. Lhes dê tempo e asseguro que terminará se sentindo orgulhosa deles. Gillian se alisou a saia, disposta a lhes dar o voto de confiança que Ewen lhe pedia. — Como sabem, casei-me com seu laird e me devem respeito. Meu nome é Gillian. Não loura, nem mulher, nem nada pelo estilo. Portanto, vos rogo, cavalheiros, que me chamem milady. — OH, quanta delicadeza! — riu um deles, e os outros o imitaram. Gillian, olhando-os, convenceu-se de que aqueles brutos só entenderiam as coisas se os tratasse com brutalidade, assim decidiu trocar o tom: — Ao próximo a que ouça me chamar de loura, moça ou qualquer um dos qualificativos que estão acostumados a usar quando veem uma mulher, juro-lhes por meus pais que terão que se ver comigo. Surpreendidos pela ousadia daquela pequena mulher de cabelo claro, olharam-se e prorromperam em gargalhadas. Gillian, voltando sobre seus passos, chegou até o cavalo, agarrou a espada e a elevou ante todos. — Quem quer ser o primeiro em medir sua galhardia comigo? — perguntou.


Ewen, aproximando-se dela, disse: — Milady, acredito que não deveria... Gillian o olhou e, depois de lhe pedir silencio, voltou-se de novo para aqueles barbudos. — Acaso acreditam que me dão medo porque eu sou uma mulher, ou pretendem que me sinta inferior porque sou menor e delicada que vós? — Não, bonita; só pretendemos que não te faça mal — vozeou um homem de incipiente barba loira. Gillian lhe cravou seus frios e azuis olhos e se aproximou dele. — Me diga seu nome. Incomodado por como todos o olhavam, respondeu: — Donald Howard. Gillian, ao observar a corpulência do homem, baixou a espada, e lhe estendeu a mão. — Prazer em conhecê-lo, Donald — e agarrando a saia, fez uma pequena reverência. O highlander, desconcertado, olhou a seus companheiros, que encolheram os ombros. Ao ver que ela seguia com a mão estendida para ele, olhou ao Ewen, e este, com um gesto rápido, indicou-lhe que lhe beijasse a mão. — O mesmo digo, bom... digo, milady — respondeu, beijando-a enquanto fazia o mesmo movimento com a perna que ela. Divertida, Gillian compreendeu que aquele selvagem não sabia o que devia fazer. — Não deve te agachar como eu. Quando um homem saúda uma dama com educação, depois de lhe beijar a mão, só precisa inclinar a cabeça. Donald seguia perplexo. — Ewen, poderia mostrar a estes cavalheiros como se saúda uma mulher? — pediu Gillian. O aludido se aproximou dela até ficar em frente, e ao ver seu gesto pícaro, sorriu. Apesar de que passaram-se seis anos desde a última vez que a viu, aquela jovem seguia sendo uma criatura encantadora. — Como lhes chamam? — perguntou ela amavelmente. — Mas mulher! Se acaba de chamá-lo por seu nome — gritou um ao escutá-la. — Possivelmente levou um mau golpe na cabeça e perdeu a memória — zombou outro. — Ou bebeu muita água do lago — gritou um ruivo, que conseguiu que todos soltassem uma nova gargalhada. Gillian amaldiçoou o obtusos que eram. — Já sei, maldito bando de selvagens, que Ewen se chama Ewen — gritou.- Só queria lhes demonstrar como se faz, malditos estúpidos. Riram de novo, mas Gillian não se rendeu. — Como se chama, cavalheiro? — voltou a perguntar ao Ewen. — Cavalheiro!? Mas se Ewen é um maldito highlander; o que diz esta mulher de cavalheiro! — gritou uma voz ao lado da Gillian. Com uma rapidez espetacular, Gillian se revolveu e, deixando-os a todos boquiabertos, passou seu aço a escassos centímetros da cara do que havia falado, que lhe arrancou uma boa parte de barba. — Se algum mais voltar a me interromper — trovejou, — juro-lhes que a próxima coisa que farão será cavar sua tumba, entendido?


Todos ficaram mudos, inclusive parecia que não respiravam, e Gillian, depois de passar seu olhar por cima deles, voltou-se para um jovial Ewen e perguntou de novo: — Como se chama, cavalheiro? — Ewen McDermont. — Encantada de conhecê-lo. Gillian flexionou os joelhos, inclinou com graça a cabeça e levantou sua mão, e Ewen, agarrando-lhe com suavidade, inclinou também a cabeça e lhe deu um delicado beijo nos nódulos. — A honra é minha, milady — disse. Uma vez que acabaram a representação, Gillian se voltou para os homens e lhes gritou: — A partir deste momento não pretendo que me beijem a mão cada vez que me vejam, mas sim quero que aprendam pelo menos a me tratar, porque não vou consentir que nenhum me volte a chamar por outro nome que não seja o que me corresponde, entenderam? Todos a olharam, mas nenhum respondeu. De repente, Gillian percebeu que um daqueles selvagens dava a volta para partir sem mais. Rapidamente tirou a adaga da bota e a lançou com destreza; a arma passou roçando a orelha do homem e se cravou em uma árvore. Surpreso, parou e, depois de tocar a orelha e ver sangue, voltou-se para encontrar-se com as caras de confusão dos outros e a expressão de aborrecimento da Gillian. — Hei dito, malditos néscios, se me entenderam — gritou aborrecida. Absolutamente todos assentiram com a cabeça. Instantes depois, os homens desapareceram de seu redor, exceto Ewen. — Milady, acredito que os assustastes — lhe disse divertido. Ela caminhou até a árvore, tirou de um puxão a adaga e, voltando-se para o highlander que com um sorriso a olhava, sussurrou-lhe: — Segura-me, Ewen, que me tremem até os dentes. Agradado, pegou-a pelo braço e a acompanhou até o cavalo a fim de agarrar uma manta para que a aquecesse. Depois de dialogar um momento com ela, partiu, e Gillian se sentou sob uma enorme árvore, afastada dos outros. Cansada por todo o acontecido, e da noite não dormida que havia passado, se enrolou junto ao tronco, e quando parecia que seu corpo começava a relaxar, uma voz a sobressaltou: — O que fez a meus homens? Abriu os olhos de repente e encontrou o Niall com cara de poucos amigos, de pé, em frente a ela. — Como?! — Não ponha essa cara de inocência, Gillian, que nos conhecemos. Gillian olhou-o com a boca aberta enquanto se levantava do chão. — Arnald, um de meus homens, veio ver-me muito zangado — vozeou. — Lhe cortaste parte de sua barba, e se sente mal por isso, e ao Jacob quase arranca uma orelha. — Mas serão asnos, chorões e adoentados... — soltou, incrédula. — Eu não lhes fiz nada; o fizeram eles sozinhos como consequência de seu comportamento. Durante grande parte do caminho, Niall pensou em como favorecer o entendimento entre ela e seus homens. Sabia que Gillian tinha caráter, mas nunca podia ter imaginado que ela sozinha seria capaz de enfrentar a todos eles. — Esses cavernícolas que tem como guerreiros, além de sujos, fedorentos e mal educados,


OH, Deus! Cospem em qualquer lugar, que repugnante! E, além disso, não pararam de me olhar com expressões lascivas desde que saímos do Dunstaffnage. E te digo uma coisa, McRae: que se alegrem se só cortei a um a barba e a outro arranhei a orelha, porque se seguem assim, suas vidas comigo serão muito pior. Pasmado ante o que ouvia, Niall não podia nem pensar. Tinha-o completamente enfeitiçado. — Não penso permitir que esses... esses... ordinários, toscos e agrestes homens me chamem loura ou bonita como se fosse uma qualquer. Mas bom, que classe de educação têm? De onde tiraste esse grupo de estúpidos? Acaso não lhes há dito que agora sou sua senhora e me devem respeito? — ao ver que ele sorria, mais zangada, gritou: — Se algo tenho claro é que não vou permitir que esses vacantes barbudos me envergonhem ante ninguém. Ouviste-me, McRae! — ele assentiu. — O dia de nossas bodas, além de me humilhar e me pôr esta..., esta absurda tira de couro marrom no dedo — disse, — deixou-me muito claro que eu só seria a proprietária de seu lar, e eu goste ou não terei que viver com eles, e penso lhes ensinar maneiras. Enquanto Gillian continuava destrambelhando, movendo-se de um lado para outro, Niall só podia admirar, contemplar e desfrutar de sua esposa. Aquela pequena e miúda mulher enfrentou a mais de uma centena de homens com caras de assassinos sem duvidá-lo e sem um ápice de medo. Isso gostava. Preferia que ela fosse assim a uma branda como Diane. Satisfeito, olhou o dedo da Gillian e comprovou que a tira de couro marrom seguia atada. Isso o fez sorrir. Sabia que as maneiras de seus guerreiros eram péssimas, embora nunca lhe importou até esse momento. Falaria com eles e lhes deixaria um par de coisas claras. Gillian era sua esposa e, efetivamente, a senhora de todos. Devia obedecer o que lhe exigia, ou os tornaria tão loucos que ao final era de temer que tomassem a lei por sua conta. Uma vez decidido, centrou de novo a atenção na Gillian. — Esses mentecaptos, simples e insossos guerreiros teus apren... — Se voltar a insultar uma só vez mais a algum de meus homens — a cortou Niall com voz cortante, — serei eu quem te ensine maneiras a ti e te açoitarei diante deles, entendeste? Embora abrisse a boca para responder, pestanejou, incrédula, pelo que ele estava disposto a fazer. Soprou, e de uma maneira que fez que o coração do Niall disparasse, partiu a grandes pernadas. Seguindo-a com o olhar, ouviu-a amaldiçoar e, com um sorriso na boca, murmurou: — Menos mal que te afastaste, Gata; se não, teria acabado rendido a seus pés.

Capítulo 21

Dois dias depois, entre chuva e lama, a comitiva continuava seu caminho. Durante esse tempo, Niall e Gillian tentaram manter sua falsa felicidade ante os outros, apesar dos contínuos jogos da Diane. Em várias ocasiões, Gillian desejou agarrar sua bonita cabeleira e lhe arrancar os cabelos um a um. Mas sabia que isso lhe causaria mais mal que bem, e por isso se conteve.


Todos percebiam a situação tão incômoda que a tola da Diane ocasionava entre os recém casados, mas calavam-se. Megan e Shelma, na intimidade, comentaram entre cochichos que se isso lhes ocorria alguma vez diretamente rachariam à intrusa. Cris observava como todos e não dizia nada. Pensava igual às outras, e comprovou que Gillian mal podia se conter. Só precisava ver com que cara olhava a sua irmã e soprava afastando-se quando esta aparecia. Durante o dia, os recém casados tentavam cruzar seus caminhos o menos possível, embora quando o faziam sorriam como tolos, e inclusive, em ocasiões, beijavam-se ante todos. Eram beijos que Niall exigia e que Gillian, apesar de resmungar, desfrutava. Quando jantavam todos juntos, brincavam e riam, mas por debaixo da mesa se davam contínuos pontapés. Pelas noites, quando chegava o momento de descansar e se metiam na tenda, Niall e Gillian se faziam a vida impossível, até que ele saía a dormir a céu aberto junto a seus homens, ou ela agarrava sua manta e se enrolava com ela em uma lateral da tenda, longe do colchão, a comodidade e a proximidade de seu marido. Durante aqueles dias, os homens de Niall, depois da conversa que este teve com eles, tentaram chocar o menos possível à mulher de seu laird. E ocorreu algo que a surpreendeu: em um par de ocasiões aqueles toscos guerreiros, ao dirigir-se a ela, tinham-na chamado milady. Isso a fez sorrir. Uma das noites, depois de acampar e jantar todos juntos, Duncan e Megan decidiram dar um passeio pelos arredores, necessitavam um pouco de intimidade. Gillian, ajudada pelo jovem Zac, levou às pequenas Johanna e Amanda à tenda para deitá-las, enquanto Niall observava a sua mulher rir e beijocar às meninas. "O que daria eu para que me beijocasse assim", pensou, olhando-a com receio. Mas levantando-se de onde estava, decidiu ir com seus homens. O trato com eles lhe refrescaria a cabeça e acalmaria a virilha, que estava cada dia mais acalorada. Depois de beijar às pequenas, Zac partiu. Tinha visto sair à bonita Diane de sua tenda e correu para lhe fazer companhia. Sua juventude fazia que a seguisse como um cordeiro a todos os lados. — Tia Gillian, é certo que a tia Shelma uma vez deu um murro ao tio Lolach no nariz? Ao recordar aquele momento, Gillian sorriu. — Totalmente certo. Mas não recorde ao Lolach; estou segura de que ainda lhe dói. As meninas gargalharam. Então, a pequena Amanda perguntou: — E também é certo que mamãe, a tia Shelma e você escaparam do tio Niall uma noite e, no final, encontrou-as? Surpreendida pelas perguntas que as meninas lhe faziam, olhou-as e disse: — Mas quem vos conta essas coisas? — Mamãe — confessou Johanna. — Pelas noites, quando nos leva a cama, conta-nos histórias divertidas para que riamos. — Certamente sua mãe... — murmurou Gillian. Mas ao ver a cara das meninas assentiu, e disse: — Sim... é certo. Uma vez escapamos de seu tio Niall, mas não devemos fazê-lo porque quase nos custa a vida.


E a propósito, se não quiserem que se zangue, não o recordem, sim? As pequenas assentiram, e Johanna cochichou: — Nos conte algo. Hoje não está mamãe e queremos nossa história. — E o que vos conto? — Eu gostaria que nos contasse como se sentiu a primeira vez que viu o tio Niall. É tão bonito...! — Ufff, docinho! Disso faz muito, e eu era muito pequena — suspirou sem querer recordar aqueles tempos. Amanda, fazendo grandes esforços para não dormir, perguntou: — Tinha já uma espada como a minha? Divertida, Gillian sorriu, e depois de beijá-la e lhe passar a mão pelos olhos para que os fechasse, sussurrou-lhe: — Não, docinho, eu não tive uma espada tão maravilhosa como a tua até que não fui crescida, e me deu de presente isso Mauled, um dos avós de sua mamãe. Agora dorme. A menina, enrolando-se junto a sua amada espada, adormeceu com rapidez. Johanna resistiu um pouco mais, mas Gillian, lhe cantando uma canção que falava de belas princesas e arrumados príncipes, conseguiu que fechasse os olhos e que por fim dormisse. Uma vez que comprovou que as pequenas adormeceram, saiu da tenda e, sumida em seus pensamentos, encaminhou-se para a sua, embora antes passou a visitar seus cavalos. A ferida da pata da Hada parecia ter melhorado e isso a fez muito feliz. — Boa noite, milady. Levantou a cabeça e se surpreendeu ao ver que quem a saudou era o barbudo que dias atrás lhe serviu de cobaia ante o resto dos homens. — Olá, Donald, boa noite. Está de guarda? Boquiaberto porque recordava seu nome, parou e a olhou. — Sim, senhora, esta noite me toca . Pode dormir tranquila. Surpreendida por aquelas formas tão corretas sorriu, mas ao vê-lo cuspir enrugou a cara. — OH, Deus! Donald, como pode fazer algo tão desagradável? — disse-lhe. — O que, milady? — Mas a vós o que lhes passa. Onde o criaram? O highlander não sabia o que responder. — Isso que acaba de fazer, o cuspir, é algo feio, irritante e sujo, e às mulheres dá muito asco. — Eu não tenho mulher; não preciso me preocupar. "OH, Deus! É para lhe dar com um pau na cabeça", pensou Gillian. — Mas seguro que tem alguma apaixonada, verdade? — Não, milady. As mulheres não me olham, e se acaso me olham, é para fugir. Sem que pudesse evitá-lo, ela assentiu. — Vê-o, Donald? Como vais pretender que uma mulher te olhe com agrado se faz essas sujeiras? E se fogem de ti é pelo jeito de urso pestilento que leva. — Não tento gostar às mulheres. Sou um guerreiro. Gillian pôs os olhos em branco e suspirou. — Vamos ver, Donald, uma coisa não tira a outra. Pode-se ser um feroz guerreiro e gostar às mulheres.


Encolhendo os ombros, ele respondeu: — Milady, eu só quero ser bom guerreiro. O resto, não me importa. — Você não gostaria de formar sua própria família? O homem baixou o olhar e não respondeu. — De onde é? — continuou ela. — Antes vivia no Wick. — E não tem família ali? Pais, irmãos... ? — Tinha... tinha mulher e filho, mas morreram — aquela revelação tocou o coração da Gillian. — Por isso parti para lutar com seu marido à Irlanda, e agora meu lar é Duntulm. Não quero retornar ao Wick; acredito que as lembranças me matariam. Comovida, Gillian se aproximou mais ao homem. — Sinto pela sua família — sussurrou. — O sinto muitíssimo, Donald. Eu não sabia... — Não se preocupe, milady; isso ocorreu faz tempo. Ficaram um momento em silêncio. — Quantos anos tem? — perguntou Gillian, ao fim. — Vinte e oito. Olhou-o, incrédula e levou as mãos à cabeça. — Por São Ninian! Só é dois anos mais velho que eu e parece meu avô. Ao ver a expressão do homem se apressou a dizer: — OH, me desculpe, Donald! Sou uma boca grande em algumas ocasiões, e esta foi uma delas. — Não, não é uma boca grande, milady. — Sim, Donald, sim o sou. Mas apesar de ser uma boca grande, preciso te dizer que essa barba, esses cabelos emaranhados e suas toscas maneiras o fazem parecer mais velho. — É o que sempre tentei — disse o homem com orgulho. — Mas vamos ver, Donald, por que todos se empenham em deixar essas barbas e esses cabelos? Parecem um exército de selvagens. Isso fez rir ao homem, que olhando-a disse: — Milady, depois de anos de luta, todos nós fomos feridos em batalha. Eu, particularmente, tenho uma cicatriz que me cruza o pescoço, e a barba a oculta, e como eu, há muitos. — Então, está me dizendo que deixando essas barbas e esses cabelos ocultam o que seus anos de luta fizeram em seus rostos e corpos? — Sim, milady. Não é agradável que quando a gente vai a um povoado, as pessoas, em especial as mulheres, olhem as cicatrizes com asco. "Por Deus, onde há um pau que lhe acerte?", lhe ocorreu. — Por todos os Santos, Donald! Não pensastes que possivelmente os olham assim pelo jeito que mostram? Mas se parece que não se meteram em um lago desde o dia em que suas mães os pariu... Isso o fez sorrir. Tinha razão. Não eram muito amigos da água e o sabão. Consciente de que era como falar com um pedaço de sepo, Gillian decidiu lhe dar as boa noite e não insistir mais. Por isso, depois de beijar a Hada e Thor, voltou-se para o guerreiro e se despediu. — Boa noite, Donald, que tenha boa guarda.


Só dera dois passos quando o homem a chamou... — Milady, poderia perguntar algo? Assombrada, voltou-se e o olhou. — Sim. O homem, depois de engolir com dificuldade, olhou ao chão e murmurou: — O caso, milady, é que há uma jovem que serve no castelo dos McLeod chamada Rosemary a que eu gostaria de cortejar, mas ela nem sequer sabe que existo. "OH! O pedaço de sepo se desfez", pensou com emoção Gillian, e boquiaberta por aquela confidência se aproximou dele. — Normal, Donald. Acabo de lhe dizer isso. Nós as mulheres nos fixamos muito nessas coisas, e essas barbas, mais o jeito de selvagem que leva, não gostamos nada. Às mulheres atraem os homens limpos, educados e asseados. — Sério? — perguntou, surpreso. — Totalmente a sério, Donald. Vendo que ele ficava pensativo, ela sorriu e lhe disse: — Faz uma prova, Donald. Te raspe a barba para que ela veja sua cara; te asseie e te arrume um pouco esse cabelo — disse, assinalando-o. — Se fizer isso, possivelmente, e só digo possivelmente, ela se fixe em ti. Talvez te surpreenda ao comprovar que, se gostar, no que menos reparará será na cicatriz de seu pescoço. Donald soprou. Aquilo se supunha ser muito trabalho. — Rosemary é bonita? — insistiu Gillian. Foi mencionar aquele nome de mulher e Donald se transformou, lhe mostrando que possuía um bonito sorriso. — OH, sim! Milady. É preciosa, e tem uma encantadora risada. Satisfeita ao ver que Donald sabia sorrir, deu-lhe um par de palmadas no ombro. Então, Gillian se afastou, mas antes o advertiu: — Eu já te indiquei o caminho. Agora é você que tem que decidir se quiser que a preciosa risada da Rosemary seja só para ti. Boa noite, Donald. — Boa noite, milady. A conversa com o Donald a tinha posto de bom humor e se dirigiu contente para sua tenda. Ao entrar, encontrou-a escura e vazia. Onde estava Niall? Com rapidez, acendeu várias velas para iluminar o espaço e vestiu a regata de dormir. Sem esperar a que seu marido retornasse, enrolou-se em um par de mantas, e o sono logo a venceu.

Capítulo 22

Bem entrada a noite, Niall apareceu na tenda e ficou olhando. Os fanfarrões de seus homens zombavam cada vez que chegava a noite e ele se metia nela junto a sua recém estreada esposa. O que não sabiam, nem ele pensava revelar, era que ainda não a havia possuído. Mas aquela noite,


depois de ter bebido mais da conta seus homens o acompanharam e, do exterior, juraram por São Ninian, São Fergus e todos os Santos escoceses que não se moveriam dali até que notassem que a tenda se movia impelida pela paixão. Um pouco ébrio, mas não tão bêbado como os outros, Niall olhava a Gillian à luz das velas quando esta, sobressaltada, despertou. — O que acontece? — perguntou, esfregando os olhos. Niall, com o cabelo despenteado, a camisa aberta e um sorriso manhoso, disse mais alto que o normal: — Esposa, te dispa! Gillian ficou paralisada. Mas quando ouviu os gritos dos homens a escassos metros dela, entendeu tudo, e olhando os ébrios olhos de seu marido, sussurrou agarrando sua adaga: — Se te ocorre te aproximar de mim, te juro que não respondo. Megan e Duncan, que retornavam de seu passeio, ao ver tal congregação de homens ao redor da tenda da Gillian e Niall se aproximaram com curiosidade. Instantes depois Shelma e Lolach se uniram a eles. No entanto, no interior da tenda, Niall, divertido ,murmurava: — É minha esposa e como tal a tomarei, você queira ou não. Assustada, a jovem se levantou com urgência e o olhou com o cenho franzido. — Niall, não me faça fazer algo que não quero e do que sei que amanhã me arrependerei — lhe advertiu. — Se me põe um dedo em cima, te prometo que eu te cravo a adaga inteira. Ele riu, e instantes depois, se ouviram os risos vindos do exterior. E antes que ela pudesse esquiva-lo, a agarrou pela cintura e tentou lhe dar um beijo. Nesse jogo, Gillian, involuntariamente, lhe cravou a adaga no braço. Mas ao sentir como esta entrava na carne, gritou. Aquele grito dilacerador fez que os guerreiros vociferassem e brindaram, entretanto Niall, incrédulo, olhava a ferida. — Niall! Oh, Niall! Tire a camisa... Oh, Deus...! Oh ,Deus! — Gritou Gillian buscando com o que lhe tratar. Megan e Shelma riram, enquanto Lolach dava um golpe nas costas de Duncan, que, surpreendido, sorriu. Niall, sem tirar o olho de cima da sua histérica mulher, que não parava de gritar, se despojou da camisa, sem lhe importar o sangue que corria por seu braço. — Oh, Deus! Que grande que é... grandeeeeeeeeeee! — gritou, transtornada, ao ver o ferimento que causou. — Não me toque — berrou, furioso. Aquela bruxa o feriu e isso o zangou. — Não me diga isso. Me deixe te tocar! Me deixe que lave, que... — Hei dito que não me toques, Gillian. Compungida, sussurrou: — Oh, Deussssssssss, sim...! Tudo o que faço é mau. Depois de revolver em um dos baús, Gillian rasgou com fúria um pedaço de pano, mas quando foi metê-lo no braço, ele, com gesto tosco ,a rechaçou, lhe tirou o tecido das mãos e ele mesmo se enfaixou. Perturbada pelo que fez, foi atrás dele e arrependida como nunca em sua vida, lhe sussurrou:


— Niall, o sinto... — e tentando ajuda-lo, disse: — Por favor, por... favor, por... favor, não te mova; deixa que eu continue. Eu o faço melhor... Deixa que eu... — Não, me deixa, mulher — bramou ele. — Você fica quieta. Shelma e Megan se olharam, incrédulas. Ah, que... fogosa era Gillian! — Ah, Deus, Niall! Eu, eu... só queria... — Sei muito bem o que você queria — vociferou ele. — Não, não pode sabê-lo. — Sim, sei. — Nãooooooooooo. Incomodada pela teimosia de Niall, e sentindo-se culpada por tê-lo ferido, gritou: — Oh, Niall! Maldito seja! Quer parar e deixar que seja eu quem o faça? Sei fazê-lo muito bem. Prometo-lhe isso. Afastando-se dela e cada vez mais incomodado por sua insistência, sibilou: — Não, fique quieta, que você já fez o bastante. Mas Gillian não cedeu. — Por favor, Niall — pediu, adoçando o tom, — prometo fazê-lo com delicadeza. Asseguro-te que tomarei cuidado. Por favor, por... favor, deixa-me... Nesse momento, se ouviu uma voz do exterior que gritou por cima de todas: — Meu senhor, deixai-a... que ela faça e disfrute, que sua mulher parece fogosa. Ouvindo aquilo, ambos se olharam ao mesmo tempo. Niall sorriu e, para deleite de seus homens, gritou ante a cara de pasmo dela: — Oh, sim, Gillian! Faça... continue. É cativante! — Não grites, Niall, pelo amor de Deus — murmurou, envergonhada. — Segue, Gillian... segue — insistiu ele, disfrutando da situação. Os homens, enlouquecidos, voltaram a gritar, enquanto se felicitavam uns aos outros ante as caras de incredulidade da Megan e Shelma. — Ah, Deus!... — suspirou Gillian, vermelha como um tomate, ao ouvir os gritos dos homens. Mas sem que pudesse evita-lo, e surpreendendo a seu marido, levou a mão a boca, se deixou cair ao chão e começou a rir. Os homens que rodeavam a tenda, contentes com o que haviam ouvido começaram a dispersar-se, e Megan e Shelma se foram com seus maridos a suas respectivas tendas, prontas a passar tão bem como o estava passando sua amiga Gillian. Niall não dava crédito ao que havia ocorrido, e ao ver a Gillian derrubar-se pelo chão morta de rir, se deixou cair junto a ela e ambos riram como levavam tempo sem fazer. — Ah, Niall! — disse Gillian, caída no chão. — Isto é a coisa mais divertida que me ocorreu na vida. O highlander, com o estômago dolorido de tanto rir, se esqueceu de seu ferimento e assentiu. Durante um bom momento compartilharam risadas e olhares cúmplices, até que ela recordou o que lhe fez e se sentou no chão. — Me dê seu braço ferido. — Para que? — Deem-me isso.


Niall, sem vontade de se zangar, mas ainda deitado no chão, estendeu o braço, e Gillian com rapidez revisou a ferida. — Maldita seja, por que te fiz isto? Posicionando o outro braço debaixo da cabeça, Niall suspirou. — Possivelmente porque é uma selvagem. Cravando seus claros olhos nele, a mulher levantou uma sobrancelha, mas rapidamente Niall disse com um encantador sorriso: — É brincadeira, é... brincadeira. Fez isso sem querer. Sei; não se preocupe. Com delicadeza, ela lavou a ferida, e depois de ver que era mais superficial que o que ao princípio havia pensado, suspirou, aliviada. — Congratula-me te dizer que desta não morrerá. — Bem. Alegra-me saber que não te vou deixar. Gillian, enfeitiçada pelo momento, A luz das velas e a quietude da noite, se inclinou para ele e o beijou. Levava dias desejando aquilo, mas não se atreveu. Só desfrutava de seus beijos quando estavam ante as pessoas e lhe exigia que o beijasse. Mas aquela noite não. Aquela noite foi ela quem tomou a iniciativa, e lhe mordiscando primeiro o lábio inferior, lhe fez abrir a boca e o devorou. Com o coração avivado pela impulsividade dela, Niall se deixou beijar. Aquilo era o melhor que lhe acontecia nos últimos dias e estava disposto a desfrutá-lo. Gillian surpreendida por seu atrevimento, cada vez mais quente e com o coração a galope, tombou em cima dele. — Gillian, creio que... — Chist, cala-te...! — interrompeu-o com um tom de voz rouco e sensual. Não queria pensar. Só queria estar assim, presa de uma agitação ardorosa. Sentia como o centro de sua feminilidade se umedecia desejando algo que lhe pertencia. Enlouquecido pelo momento, Niall respirava agitado, com o olhar cada vez mais aceso pela luxúria. Aquela que em cima dele rebolava e apertava seu sexo contra ele era sua Gillian, sua Gata, o sangue lhe ardia desejando seu contato. Sem nada a perder, ela agarrou suas mãos e as pôs ao redor da cintura. Então, ele percebeu que só usava a fina regata de dormir e umas ligeiras meias a modo de roupa interior. Abduzido pela luxuria, meteu suas mãos por debaixo do objeto. Era deliciosa e tentadora. Subiu a mão com delicadeza pelas suaves costas, e ela gemeu perto de seu ouvido. Com as pupilas obscurecidas pelo desejo, Niall rodou com ela pela tenda até deixá-la debaixo dele, e apoiando-se nos cotovelos para não esmagá-la, lhe sussurrou entre ofegos: — Arrancar-te-ia a roupa e te faria minha aqui e agora. — Fá-lo — o convidou com veemência. — Sou tua. Aquele convite esticou ainda mais a virilha do Niall. Desejava como nunca lhe fazer amor. Desejava desnuda-la, desejava lamber cada rincão de sua Gata até que caísse rendida ante ele, ante seu marido. Desejava ouvi-la gemer, enquanto a penetrava com paixão uma e outra vez, olhando-a nos olhos; mas aquele não era o lugar. Ela se rendeu e se entregou sem que lhe tivesse exigido nada, e desejou aproveitá-lo; mas algo dentro dele lhe gritava que não o fizesse.


Estimulada, Gillian levantou uma de suas mãos, lhe tocou a fronte e lhe retirou o cabelo do rosto enquanto o olhava com a respiração acelerada como se fosse a primeira vez em sua vida que o via. "Oh, Deus, é tão atraente..." Pensar que outra pudesse beijar aqueles lábios ou tocá-lo lhe fez sentir uma pontada no coração. — Vou beijar-te — murmurou Niall com a voz entrecortada. Ela assentiu; não desejava outra coisa. Fechou os olhos, e ele a devorou. Mordeu-lhe os lábios, brincou com sua língua, enquanto suas mãos vagavam por aquele corpo que debaixo dele vibrava lhe pedindo mais. Sem lhe deixar pensar, ela começou a passar suas mãos por aquela fabulosa e musculosas costas, instintivamente abria as pernas debaixo dele até ficar colocada de tal maneira que Niall sentiu o calor que seu sexo desprendia por ele. Ser consciente de que podia rasgar as finas meias que usava para entrar nela o fez tremer. E quando Gillian sentiu a dura ereção, sem mais, gemeu: — Oh, Deus! A cada momento mais enlouquecido, a apertou contra seu sexo e, ouvindo-a ofegar, sorriu. Durante uns segundos se olharam fixamente, com as respirações compassadas, e ele voltou a fazer. Moveu seus quadris com um movimento rotativo sobre ela que a fez ofegar de novo. — Segue... — implorou ela. — Está segura, Gillian? — Sim... Ele voltou a mover suas pernas, e ela repetiu: — Sim. Niall a olhou com uma ternura que a deixou fraca, sentia que sua pele abrasava como se a estivessem colocando diretamente em uma forja. Não sentia medo do que lhe pudesse fazer. Desejava-o. Desejava enfrentar o Niall corpo a corpo como no dia em que lutou contra ele no campo. Faíscas de fogo saltaram entre eles quando Niall voltou a apertar e ela ofegou de novo. E quando notou que ele colocava suas mãos sob as meias para lhe tocar os loiros cachos, se ele não tivesse coberto sua boca, teria gritado de excitação. Duro como uma pedra, continuou sua exploração até levar seus dedos ao centro do desejo dela. Ardia. Olhando-a nos olhos, lhe abriu com delicadeza as dobras de seu sexo e vibrou ao sentir nela exaltação, delírio, fogosidade e desejo. — Oh, sim, Niall! — Está me deixando louco, docinho. Com um sorriso venenoso por aquele apelativo tão afetuoso, murmurou: — Sempre gostei de te deixar louco, esqueceste-o? — Ah, sim? — riu ele. — Sim — disse ofegando e arqueando-se. — Hoje eu é que vou te deixar louca — disse, enlouquecido por sua entrega e como ela se movia debaixo dele. Gillian, desejosa de que assim fosse, abriu mais as pernas para lhe facilitar as coisas.


Sentir as mãos abrasadoras do Niall naquele lugar tão íntimo, enquanto voltava a lhe devorar a boca com paixão, fez que a luxúria dela explodisse ao sentir como primeiro ele introduzia um dedo e logo dois, e começava a movê-los em seu interior. Niall desfrutava vendo-a gemer e arquear-se para ele, procurando uma e outra vez suas íntimas caricias, até que notou como o corpo dela começava a tremer até chegar ao clímax. — É preciosa, docinho — sussurrou beijando-a com paixão enquanto ela tremia. Com toda a ternura a enroscou junto a ele. Precisava senti-la perto para aliviar a dureza que em sua virilha protestava por não ter sido convidada a aquele luxurioso baile de ofegos e gemidos. Quando Gillian quis falar, ele não a deixou. Pôs um dedo nos seus lábios e, depois de beijá-la na fronte, a obrigou a calar, até que, rendida, dormiu. Ao amanhecer, Niall a observava, consciente de que aquele ataque passional de sua mulher derrubou parte de sua fortaleza. Agora a desejava mais que antes e isso lhe nublava a razão. O ocorrido não foi um triunfo para ele, ao contrário. Sua preciosa e guerreira mulher conseguiu chegar de novo a seu doído coração e se não parasse a tempo aquele ataque, sabia que cedo ou tarde o lamentaria.

Capítulo 23

Aquela manhã, quando saíram da tenda para continuar a viagem, nem se olharam, nem se dirigiram a palavra, enquanto todos os felicitavam com um sorriso malicioso, sem ser conscientes do que aconteceu entre os dois. Quando Gillian viu a Megan e Shelma, pensou em lhes contar a verdade, mas elas começaram a lhe relatar sua noite de paixão com seus maridos, e decidiu calar-se. Já a caminho, cada vez que Gillian fechava os olhos e pensava no que aconteceu essa noite, excitava-se. Havia-a chamado docinho, ou só o imaginou? Recordar que Niall a havia tocado naquele lugar tão íntimo a voltava a esquentar. E só a preocupou. Não podia estar todo o dia pensando no que lhe fez, nem desejando que voltasse a acontecer outra vez. Alegrou-se ao ver que seu marido, aquela manhã, olhava-a mais frequentemente. Pensaria o mesmo que ela? Ao entardecer decidiram passar a noite em um povoado chamado Pitlochre. Uma vez na estalagem, os lairds, e suas mulheres e as irmãs McLeod, se refrescaram em seus quartos. O necessitavam. Depois de assear-se, Niall abandonou o quarto com rapidez. Está a sós com a Gillian lhe secava a boca e o fazia sentir, além disso, um constante formigamento na virilha. A jovem, ao ver que partia, suspirou. Utilizou a bacia e a água que havia no quarto para lavar-se, e sem demora, vestiu um vestido de cor verde musgo escuro e penteou o longo cabelo, e continuou pensando em Niall. Desde o ocorrido da noite anterior, só em olhar qualquer parte do corpo dele, sentia desejos de atirar-se diretamente a seu pescoço. Mas não, não podia fazê-lo. Como foi ela quem tomou a iniciativa, sentia a necessidade de que fosse ele quem o fizesse


dessa vez. — OH, Deus! Me envergonho de mim mesma. Pareço com uma vulgar rameira — sussurrou frustrada, olhando-se no espelho. Levantou-se, e apesar de que havia começado a chover, abriu as persianas da janela para que o ar frio das Highlands a esclarecesse. Ao sentir como as gotas caíam sobre seu rosto sorriu, embora deixou de fazê-lo quando ouviu a umas mulheres que falavam em baixo de sua janela: — Vos digo que a esses highlanders que acampam nos subúrbios do povoado os podemos enrolar e roubar como desejemos. — Hão visto que barbas usam? São repugnantes — murmurou uma morena. — Já viram a água e o sabão? Gillian supôs de imediato que falavam dos homens do Niall. Não havia duvida. Presa pela curiosidade, meteu meio corpo fora da janela para poder ver melhor às mulheres que se reuniram debaixo do telhado e comprovou que se tratava de quatro. Por seus aspectos deviam ser as prostitutas do Pitlochre. Mas não disse nada e continuou as escutando. — Hei ouvido que esta noite virão ao botequim a refrescar suas toscas gargantas — disse uma mulher ruiva, de grandes peitos. — Só há que se assegurar de atordoá-los com nossos encantos, e esses estúpidos não se inteirarão de que lhes tiramos algumas moedas. "Serão descarados?", pensou. — Mas ouvi que são muitos highlanders — murmurou uma morena. — Sim, mas eu falo dos de longas barbas e jeito de sujos. Parecem meio tolos — esclareceu a ruiva. — Não sei, Brígida — disse outra das mulheres. — Não sei se é boa ideia o que propõe. — Você pode fazer o que queira — chiou com descaramento a ruiva, — mas estou certa que esses selvagens são presa fácil. Os viu bem? Só é preciso esfregar-se um pouco com eles para tirar benefícios. — A verdade é que tem razão — acrescentou a morena. — Conta comigo; umas moedas extras me virão muito bem. Se puder roubar alguma coisa, e em seguida vendê-lo, e ter algum proveito para mim está bem. As mulheres se afastaram com uma gargalhada enquanto Gillian fervia em seu interior. Como podiam ser tão desavergonhadas? Incomodada pelo que ouviu e encharcada pela chuva, foi fechar as persianas da janela quando se fixou em uma jovem de cabelo castanho, com dois meninos. A viu parar em frente à estalagem. Depois de dar um beijo a uma menina de uns dez anos, lhe deixou um bebê nos braços, tirou sua velha e furada capa, e os cobriu aos dois. Em seguida, cruzou a rua e entrou no estabelecimento. Congelada de frio, Gillian fechou finalmente a janela, secou o rosto com um pano e voltou a pentear o cabelo. A umidade o havia encaracolado. Passado um momento, olhou-se no espelho, levantou o queixo e pensou: "Gillian, adiante". Com segurança saiu ao corredor de madeira, e depois de descer uma


escada, chegou a uma grande sala cheia de gente. Procurou com o olhar a Megan e ao Niall, e quando os viu se encaminhou para eles. Ele a viu chegar; estava tão bonita e reluzente que sorriu. Sua mulher era uma preciosidade, e não gostou das olhadas que os estranhos cravaram nela. Com gesto possessivo, agarrou-a pelo braço e a sentou junto a ele. Não queria problemas. Com um maravilhoso sorriso, Gillian brincou com a Megan, Shelma e Cris. E quando perguntou por Diane, e Cris lhe indicou que estava cansada e preferia ficar em seu quarto, alegrou-se. Durante o jantar todos estiveram relaxados e alegres, inclusive Gillian se fixou em que Niall parecia estar mais atento com ela que nenhuma outra noite. Em um par de ocasiões, seus olhos se encontraram e lhe sorriu de uma maneira muito diferente. Seu sorriso denotava felicidade, e isso gostou. Degustaram um prato maravilhoso de cervo em molho com gosto de céu, e todos pareciam felizes, até que Gillian se fixou na moça que os servia: era a mesma que havia visto beijar aos meninos e entrar na estalagem. Olhou-lhe o rosto e se surpreendeu ao ver os olhos avermelhados. Teria chorado? Uma vez que deixou o garfo em cima da mesa, Gillian percebeu que a jovem, antes de retornar à cozinha, aproximou-se da porta da estalagem e olhou ao exterior com expressão preocupada. O hospedeiro, agarrando-a pelo cabelo, a fez regressar ao trabalho. "Mas o que faz esse homem?", pensou, indignada. Sem entender o que acontecia, viu como a moça tentava dizer algo, mas o homem não a escutava; e mais, gritava-lhe que a estalagem estava cheia e que devia trabalhar. Finalmente, a jovem agarrou outro caldeirão de estufado e começou a servir mais porções. Gillian, ao desviar a vista para o outro lado do salão, fixou-se em que no fundo estavam as prostitutas que ouviu falar em baixo de sua janela, e recordando suas intenções, decidiu não tira-lhes os olhos de cima, e mais ainda quando viu a Aslam, Liam e Greg rir com elas. — O que te ocorre? — perguntou-lhe Niall ao ouvido. Estava tão concentrada no que acontecia a seu redor que se esqueceu dele e quase saltou da cadeira. — OH, nada! Eu gosto de observar as pessoas. Só isso. Com um movimento de cabeça, Niall assentiu. Ia dizer-lhe algo quando seu irmão Duncan iniciou conversa com ele. Nesse momento, a jovem criada chegou até eles e deixou várias canecas de cerveja na mesa. Quando ia embora, ela lhe tocou a mão com delicadeza e lhe perguntou: — Ocorre-te algo? Surpreendida, a garota negou rapidamente com a cabeça, mas seus olhos avermelhados e cheios de lágrimas a delatavam. — Não, milady; não se preocupe. Afastou-se com urgência, embora antes de retornar a seu trabalho voltou a olhar pela porta da estalagem. A curiosidade devorou Gillian, que, depois de levantar-se e indicar que ia um momento ao reservado, foi até a porta da estalagem e olhou. Imediatamente entendeu tudo quando viu de baixo do aguaceiro a mesma menina que viu antes de descer para jantar com o bebê nos braços. Havia se refugiado debaixo de uma carroça.


Com celeridade saiu pela porta, e colocando o capuz da capa que usava, foi até a carroça e se agachou. — Olá, chamo-me Gillian. Como te chama? — disse. A pequena se assustou e apertou mais contra seu pequeno corpo o bebê enquanto respondia tiritando: — Demelza. — OH, que nome mais bonito! Eu adoro. E o bebê, como se chama? — perguntou-lhe Gillian sorrindo de baixo do aguaceiro. — Colin. Meu irmão se chama Colin. — Precioso nome também — comentou observando ao bebê dormindo. Então, estendeu-lhe a mão e assinalou: — Demelza, creio que você e Colin sentem frio, verdade? — a menina assentiu. — Veem, não tenhas medo, vamos a um sitio mais quente. Com o susto em seus olhos, a menina negou com a cabeça. — Não posso. Minha mamãe me disse que a esperasse aqui até que ela retornasse. Está trabalhando na estalagem — e abrindo os olhos, sussurrou-lhe: — Esta noite seguro que trará um pouco de comida. Comovida, Gillian não pensou e se meteu debaixo da carroça justo no momento em que Niall saía pela porta em sua busca. Ficou com a boca aberta quando viu o que ela fazia. — Demelza, por que não está em sua casa? Em uma noite como a de hoje não é boa ideia estar na rua. Seu irmão e você poderiam adoecer de frio. — Não temos casa, senhora. Vivemos onde podemos. Gillian se arrepiou. — Tampouco têm um familiar que lhes atenda em sua casa até que sua mamãe retorne? — voltou a perguntar. Com uma tristeza que encolheu o coração da Gillian, a pequena negou com a cabeça e ia dizer algo quando ouviu um vozeirão que dizia: — Por todos os Santos, Gillian! O que faz aí debaixo? A pequena reagiu encolhendo-se e fechando os olhos. Gillian olhou a seu marido, que a observava atônito, e adoçando a voz, disse: — Niall, lhe apresento a Demelza e ao Colin — e lhe cravando o olhar, murmurou: — Estava convencendo a Demelza para que me acompanhe ao interior da estalagem. Faz muito frio para que esteja aqui, não crê? Ele, ao ver seus olhos angustiados pela situação daqueles meninos, mudou o tom de voz e, dirigindo-se à pequena, indicou-lhe: — Demelza, creio que minha mulher tem razão. Se entrarem na estalagem, estarão melhor que aqui. A menina, a ponto de chorar assustada como estava, negou com a cabeça. — Não podemos entrar ali. Se o fazemos, o hospedeiro se zanga com minha mamãe, e então esta noite não poderemos jantar quente. Ao Niall lhe retorceram as vísceras. Como podia aquele homem ser tão cruel? Mas Gillian, disposta a não deixa-la ali, insistiu enquanto tirava a capa velha e ensopada, e punha a sua na menina para abrigá-la. A menina e o pequeno a necessitavam mais que ela.


— Me escute, tenho uma ideia. O que te parece se meu marido fala com o hospedeiro para que não grite a sua mamãe? — A pequena a olhou, e Gillian, com um sorriso acrescentou: — Vos asseguro que meu marido, Niall McRae, sabe convencer muito bem às pessoas, e o hospedeiro o escutará. Vamos? A criança olhou ao Niall, que, agachado, observava-as, enquanto uma raiva se apoderava dele vendo o sofrimento daquela pequena. — Não te preocupe, Demelza, eu falarei com o hospedeiro, de acordo? Depois de olhar aos dois, a pequena encolheu os ombros. — Enquanto eu saio daqui com eles, por favor, Niall, vá entrando você e diga a Megan que necessitarei de alguma roupa da Johanna e algo seco para Colin. Niall assentiu, tirou a capa e a estendeu a sua mulher, que, com um sorriso, a agarrou. Imediatamente, saiu disparado para a estalagem, enquanto Gillian abandonava o amparo da carroça e ajudava à pequena para que a seguisse. Sem vestir a capa de seu marido, jogou-a por cima da menina, que nesses momentos, uma vez fora da carroça, parecia tremer mais. — Não tenhas medo, docinho. Agora veem... vamos para dentro da estalagem. Gillian tentou tirar o barro que manchava seu vestido. Estava sujo, o cabelo lhe colava no rosto e sentia frio. Assim, sem perder mais tempo, cruzou a rua com as crianças e entrou na estalagem. — Aqui está mais quente? — perguntou com um sorriso à menina. Entretanto, antes que Demelza pudesse responder, o hospedeiro se atirou em cima e começou a empurrá-la. — Sai daqui, mulher! E leve a essas crianças. Este não é lugar para vós. Niall, que falava com o Duncan nesse momento, ao ver que se tratava de sua mulher, quis ir até eles, mas seu irmão impediu; Gillian, colérica, dera um pontapé na canela do hospedeiro, e este gemia de dor. A mulher posou os pequenos atrás dela e vozeou ante o olhar de todo o mundo: — Se voltar a me tocar, maldito gusano, o farei pagar. Nesse momento, a mãe viu a seus filhos e soltou a panela para chegar até eles e abraçá-los. Pareciam congelados. Mas o hospedeiro, enfurecido, agarrou-a pelo cabelo e a lançou ao chão, e seu corpo rodou até dar contra umas cadeiras. A pequena, assustada ao ver sua mãe naquele estado, chorou enquanto o homem gritava: — Hei-te dito umas centenas de vezes, Helena, que não quero ver a seus filhos em minha estalagem! Como devo dizer? Remove agora mesmo essas quinquilharias daqui se não queres que eu mesmo os tire a pontapés. Gillian, incrédula pelo que aquela besta dizia e fazia, tirou com rapidez a adaga da bota, e metendo-a neste no pescoço, gritou enquanto observava como Megan e Cris ajudavam à mulher a se levantar: — Maldito filho de Satanás! Só um covarde é capaz de tratar a uma mulher e a seus filhos assim. O hospedeiro, que mal podia acreditar que aquela pequena ladra o encarasse de tal maneira, tirou com rapidez uma adaga do cinto e pôs no estômago de Gillian. — Tire agora mesmo a adaga — gritou, lhe cravando a ponta, — ou te juro, maldita


prostituta, que a rasgo de cima a baixo e... Mas não pôde dizer mais. Uns poderosos braços o seguraram por trás, longe da mulher e, depois de lhe golpear a cabeça contra a parede, gritou-lhe no ouvido: — Se tocar um só cabelo a minha mulher, a esses meninos o a sua mãe, quem te racha de cima a baixo sou eu, ouviste-me? O hospedeiro, ao voltar seus olhos e ver o laird Niall McRae segurando-o, empalideceu. Nunca pensou que aquela pequena mulher, encharcada e com o vestido enlameado, pudesse ser sua esposa. — Me desculpe. Eu não sabia... Mas as crianças... Gillian se aproximou dele com as mãos nos quadris e encarou-o. — As crianças não se moverão daqui. Está chovendo, faz frio, e eles não incomodam a ninguém. Se for necessário dormiram em meu quarto, entendido? Com gesto de desgosto, o hospedeiro olhou ao Niall, logo a Gillian e, finalmente, à mãe dos pequenos. — De acordo — chiou. Uma vez dito isso, afastou-se, e Gillian, voltando-se para a criada, saltou ao ver que sangrava pela boca: — Maldito bruto! Helena, o sinto, e... Mas a mulher o que menos lhe importava era seu ferimento; só lhe importava o bem-estar de seus filhos, e aquela noite já não passariam frio. — Obrigada, milady! Lhe agradecerei eternamente. — Não foi nada, de verdade — sussurrou, olhando-a. Nesse momento, Megan pegou pela mão a mulher. — Veem comigo. Em meu quarto tenho roupa seca para seus filhos e para ti — lhe disse. As mulheres se encaminharam para a escada, mas, quando Gillian se voltou para segui-las, uma mão segurou-a. Ao voltar-se encontrou com o Niall escrutinando a. — Está bem? Fez-te mal com a adaga? — perguntou-lhe com voz aveludada. Depois de soltar um bufido que fez sorrir ao Niall respondeu. — Não te preocupe, estou bem. O importante é que Demelza e Colin estejam aqui. Não podia consentir que seguissem debaixo da carroça passando frio. Agarrando a de maneira possessiva pela cintura, Niall a acompanhou até a escada que subia aos quartos e, lhe dando um beijo molhado nos lábios, murmurou: — Anda, vá trocar de roupa, ou quem adoecerá será você, e date pressa em descer porque pedirei um caldo para que te aqueça. Subindo os dois primeiros degraus, seu rosto ficou em frente ao dele e, com um pícaro sorriso, disse-lhe: — Está seguro de que o hospedeiro não me quererá envenenar? — Se tem gosto a sua vida, mais lhe vale que não o intente — respondeu, bufando. — Vá... alegra-me ver que em algo aprecias minha vida, McRae — murmurou ela como uma tola. Ao se dar conta da preocupação que demonstrou por ela, o highlander deu um passo atrás para esconder-se e, enquanto se afastava, disse para incomodá-la: — Não, Gillian, aprecio minha tranquilidade. E hoje quero ter uma noite tranquila, embora,


como o hospedeiro, em ocasiões sinta desejos de te envenenar. Gillian amaldiçoou-o em silencio, mas sorriu. E sem lhe dar o gosto de lhe responder partiu. Uma vez que trocou de roupa e visitou a Helena e a seus filhos, que estavam no mesmo quarto da Johanna e Amanda, retornou ao salão. O hospedeiro a olhou com expressão azeda, e ela, com zomba, pestanejou. — Gillian, nem o olhes — a repreendeu divertida Megan. Com um sorriso na boca, voltou a sentar-se à mesa onde todos estavam. Vendo um prato fumegante de caldo ante ela, perguntou a seu marido: — Está seguro de que posso toma-lo sem nenhum perigo? Niall, risonho, ficou olhando. — Pergunto por que por suas últimas palavras, creio que não é o único que queira tentar me envenenar. Ele, sem responder, agarrou o prato, aproximando-o aos lábios, deu um sorvo, e voltou a deixa-lo onde estava. — Fica agora mais tranquila? — Sim, mas esperarei uns instantes antes de toma-lo para ver se não cai fulminado. Niall soltou uma gargalhada. Sua mulher era tremenda. Passado um momento, enquanto os homens estavam enfrascados em uma conversa e as mulheres em outra, Gillian percebeu que as prostitutas já não estavam, nem tampouco Aslam, Liam e alguns dos outros. "Maldita seja! Se foram e não percebi. Seguro que cairão na armadilha dessas más mulheres", pensou ao olhar a seu redor e não vê-los. — Faz muito que se foram os homens do Niall? — perguntou voltando-se para suas amigas. Megan e Shelma encolheram os ombros; não se fixaram. Mas Cris respondeu: — Sim, os vi sair enquanto estava mudando de roupa. — Foram com as prostitutas com quem estavam? — quis saber, mal-humorada. Cris assentiu, e Gillian, depois de amaldiçoar, deu um murro na mesa que atraiu a atenção de todos, incluída a de seu marido. — O que te ocorre agora? — perguntou Niall. — OH, nada! Acabo de recordar que deixei o vestido encharcado sobre a cama — e levantando-se, acrescentou: — Irei tirá-lo, ou esta noite o leito estará molhado. Niall assentiu e voltou para sua conversa com o Duncan e Lolach, enquanto Shelma e Cris continuaram com suas confidências. Mas Megan, que a conhecia muito bem, levantou-se. — Me espere, Gillian; subirei contigo. Depois de dar um beijo em seu esposo e as boa noite ao resto, desapareceram pela escada, mas antes de chegar a seu quarto, Megan, lhe puxando o braço, perguntou-lhe: — Gillian, onde se supõe que vai? Surpreendida por aquela pergunta pensou em lhe contar uma mentira, mas ao ver diversão nos olhos de sua amiga, decidiu lhe dizer a verdade. Minutos depois, ambas saltavam da janela de Gillian até o chão, espada em mão. Quando chegaram até o lugar onde os homens acamparam, saudaram vários dos highlanders que faziam guarda. Estes se surpreenderam ao vê-las caminhando por ali em uma noite tão fria e chuvosa, em


vez de estar na estalagem com seus maridos e aquecidas. Sem tempo a perder, chegaram até onde dormiam a noite os homens do Niall, e com paciência, mas ocultas detrás de umas árvores, esperaram que acabassem de fazer o que os bufos deles e os gritinhos das mulheres indicavam que estavam fazendo. Pouco depois, viram como as prostitutas saíam de debaixo das mantas, e quando se reuniram as quatro, dispuseram-se a retornar ao povoado. — Ah... ah... que surpresa encontra-las por aqui! — disse Gillian, saindo ao caminho . As mulheres, ao ver ante elas às esposas dos irmãos McRae, olharam-se, surpreendidas, embora a ruiva perguntou com descaramento: — Há algum motivo que o impeça? Megan olhou a Gillian. — Não... creio que não. Você conhece algum? — disse com ironia. Gillian, depois de dar um par de estocadas ao ar com a espada, cravou seus olhos na ruiva de grandes peitos. — Hum... tem razão, Megan. Não, não creio que haja motivo algum. A fulana morena, retirando o cabelo da cara, resmungou: — Então, se afaste de nosso caminho. Temos pressa. — OH! Têm pressa — zombou Megan. — E por que estão com tanta pressa? — perguntou Gillian, aproximando-se da ruiva. — Não é de sua incumbência. Gillian e Megan se olharam, e então a primeira disse alto: — Dispam-se! As mulheres se olharam umas às outras sem entender nada, até que a ruiva, dando um passo à frente, sorriu. — Ah, milady! Não sabia que você gostava destes joguinhos, mas se lhe agrada, por umas moedas, agradar-lhes-eis. — Argh! Nem o sonhes — respondeu Gillian. E Megan ria, até que uma daquelas falou: — Desculpe, milady, sempre pensei que os ferozes irmãos McRae eram uns homens complacentes na cama, e... Megan entendeu à primeira o que a mulher queria dizer, assim levantou a espada com rapidez e lhe deu um golpe no traseiro da prostituta. — Nossos maridos nos agradam na cama como nenhum outro homem poderia fazê-lo. Não penseis no que não é. — Mas, então, o que é que querem? — gritou a morena cada vez mais nervosa. Nesse momento, vários dos homens que tiveram relações com elas se aproximaram. — Ocorre algo, senhoras? — perguntou Aslam. Gillian voltou seu rosto para ele e, sem poder aguentar um instante mais, perguntou: — Com qual delas deitou esta noite, Aslam? Incrédulos pelo o que ouviam, os homens se moveram nervosos. Quem era ela para perguntar semelhante coisa? — Aslam, responde — exigiu Megan. O highlander, cada vez mais ofendido pela indiscrição, olhou-as com expressão grave e


respondeu: — Não creio que seja de sua incumbência com quem deito. — Milady — assinalou Atam, — vosso esposo nunca nos exigiu que contássemos nossas intimidades e... — Têm razão — disse Gillian, — mas se vos pergunto isso é por um motivo. Certamente, o que façam ou deixem de fazer na intimidade é algo que não me incumbe, mas se estou aqui é por algum motivo. Me acreditem. As prostitutas, cansadas daquilo, fizeram gesto de ir-se, mas Gillian, voltando-se com rapidez, cortou lhes a passagem. — Só partiram daqui quando se despirem. — Milady! — vozeou Donald, surpreso. Nesse momento, a ruiva deu um passo para Gillian e, com as mãos apoiadas nos quadris, grunhiu: — Olhe, senhora, nós somos prostitutas, mas não tontas. — Não... de tontas não têm nada — chiou Megan. Disposta a acabar com aquela situação, e visto que ninguém queria cooperar, Gillian olhou aos homens e, com voz de desgosto gritou: — De verdade devo acreditar que, além de sujos e fedorentos, são tão tolos para não perceberem o que estas prostitutas lhes fizeram? — Milady — riu Atam, — a mim o que me fez essa mulher gostei imenso e... — Serão néscios... Fecha o bico, Liam, não quero saber nada mais! — resmungou Gillian enquanto Megan ria. Surpreendendo-os a todos, Gillian agarrou à morena, que tremia, e depois de lhe arrancar de um puxão a capa, tirou-lhe uma bolsa. Ao abri-la tirou uma adaga e um anel e perguntou: — De quem é isto que tenho nas mãos? Atam, ao reconhecer a adaga de seu pai e o anel de sua mãe, torceu sua boca abismado. — É meu, milady. Gillian, olhando-os a todos, vozeou com os pertences ainda na mão. — Se estou aqui é porque ouvi estas ladras comentar os propósitos que tinham. Pensam que por sua aparência suja, são uns selvagens atordoados aos quais se pode roubar com facilidade. Atônitos, os homens se olharam. De repente, Aslam se aproximou da ruiva e a agarrou pelo braço. — Me devolva o que me roubou se não queres que te corte o pescoço. Sem pensar, a mulher tirou de debaixo da capa uma adaga e tentou crava-la em Aslam no abdômen. Este foi rápido, mas ainda assim o alcançou. Depressa, Megan e Donald o auxiliaram. Gillian, espada em mão, horrorizada pelo que aquela prostituta fez, desarmou-a para deleite dos homens e lhe gritou várias obscenidades pelo que acabava de fazer a um dos seus. Uma a uma devolveram todos os pertences que haviam roubado ante os olhos incrédulos do resto dos highlanders. Nesse momento, Duncan e Niall, avisados por alguns de seus homens, caminhavam para elas com os rostos decompostos. O que faziam ali suas mulheres? — OH, OH! Seu marido e o meu se dirigem para nós — sussurrou Megan ao vê-los andar


para elas com expressão enfadada. Gillian se voltou e se encontrou com o furioso olhar do Niall. Soprou. — Maldito seja! Mas será que precisa se inteirar de tudo o que faço? Os irmãos McRae chegaram até elas e, uma vez que se inteiraram do ocorrido, como Aslam se encontrava bem apesar do ferimento, deixaram partir às prostitutas. Então, o grupo de highlanders começou a dissipar-se, exceto os barbudos. — Podem se retirar — ordenou Niall, incomodado com sua mulher. — Nos desculpem, senhor — disse Aslam, — antes quereríamos agradecer a nossa senhora e à mulher de vosso irmão pelo que fizeram por nós. E pessoalmente quero agradecer a lady Megan a delicadeza que teve ao me tratar. — O que deve fazer agora é te cuidar para que não se abra o ferimento e ir em uma carroça, o farás? — perguntou Megan, e o homem assentiu. — Só serão um par de dias, até que o ferimento cicatrize. De todas as formas, amanhã de noite voltarei a te tratar. — Obrigado, milady. — Aslam assentiu voltando-se para a Gillian, acrescentou: — Quero que saibam que estou muito orgulhoso de que seja minha senhora, e de saber que é capaz de desembainhar a espada para defender a um selvagem e sujo highlander como eu. — Aslam... não digas isso, por favor — sorriu Gillian, comovida. Ouvir que aqueles homens acolhiam a Gillian como sua senhora fez que ao Niall lhe acelerasse o pulso. Saber que se algo lhe acontecesse, esses homens dariam sua vida por ela. Encheu-lhe o coração, embora não mudasse de expressão. Precisava estar enfadado com ela. — Senhoras — disse Liam,- muito obrigado por evitar que essas mulheres levassem nossos tesouros mais queridos. — Ah! Não se preocupem. O importante é que não o conseguiram — sorriu Megan ante a expressão de seu marido, que a puxou para leva-la. — Muito obrigado, senhora — responderam o resto dos highlanders vendo como aquela morena se afastava enquanto discutia com seu marido. Voltando-se para a Gillian, que ainda parada ante eles sorria, Aslam disse: — Não sei como agradecer que evitasse que essa mulher levasse meu anel de minha desaparecida irmã. Muito obrigado, milady. Cada vez estava mais comovida por suas palavras e sua gratidão. — Não tens nada que me agradecer — replicou com um sorriso. — Eu só fiz por vós o que sempre hei pensado que fariam por mim. Quando ouvi a essas mulheres o que pensavam fazer a meus homens, não gostei e simplesmente decidi impedi-lo. Mas também vos digo uma coisa. Elas e outras mulheres, por vosso aspecto sujo, acreditam que não têm mais de dois dedos de inteligência. Deveriam se preocupar um pouco mais de vossa aparência. Não digo que devam cheirar a flores, mas um aspecto como o que apresentam os homens do Duncan e Lolach lhes beneficiaria a todos; asseguro-lhes. Os highlanders assentiram, e quando se voltaram para partir, Niall, sem saber se devia se zangar ou não com sua mulher, agarrou-a pelo braço e, aproximando-se de seu ouvido, sussurrou-lhe: — Está consciente de que cada vez desejo com mais ardor te envenenar?


Com um sorriso que o fez estremecer, respondeu: — Está consciente de que se o fizer, seus homens irão pegá-lo? Niall não respondeu. Sem falar levou a sua mulher à estalagem e, depois de deitar-se junto a ela no leito, se voltou e tentou dormir. Mas Gillian sentia frio e os pés congelados e, sem poder evitá-lo, aproximou-se dele. Sentir seu calor, embora só fosse o de suas costas, reconfortava-a. Niall, ao notar seu corpo frio, voltou-se e, lhe passando o braço por debaixo do pescoço, aproximou-a dele. — Obrigada — sussurrou, emocionada. — Durma, Gillian. É tarde — respondeu ele sem querer mover-se, ou a seguinte coisa que faria seria lhe fazer amor.

Capítulo 24

Pela manhã, quando Gillian despertou, estava sozinha no quarto. Aproximou seu nariz aos lençóis onde Niall dormiu, cheirou e sorriu. Depois de vadiar durante uns segundos no leito, finalmente se levantou, se arrumou e, com um sorriso no rosto, desceu os degraus até chegar ao salão, onde viu seu marido dialogando com a Deusa Diane. Sem torcer sua expressão pelo desconforto que aquela mulher lhe causava, sentou-se junto ao Niall à espera de um "bom dia". Mas ele nem a olhou e continuou conversando com a outra. Enquanto tomava o café da manhã, Megan e Shelma desceram com seus filhos, e sem pensar, se sentou com elas. Niall, ao notar que ela se movia de seu lado, seguiu-a com o olhar, mas não disse nada. Uma vez que todos tomaram o café da manhã, os lairds pagaram ao hospedeiro as moedas correspondentes e decidiram partir. Mal deram dez passos, alguém gritou: — Lady Gillian... lady Gillian! A jovem se voltou e viu correr para ela a Helena, a mulher que salvou das garras do hospedeiro a noite anterior. Vinha com seus filhos, Demelza e Colin. — Helena, podia ter dormido até bem mais tarde. Meu marido te deixou o quarto pago para uma temporada. — Obrigada, milady — respondeu, — mas eu, se me permitirem, queria-lhes pedir um favor muito importante para mim. — Me diga. O que ocorre? A mulher, com os olhos chorosos, pediu a sua filha que se afastasse uns passos com o bebê nos braços e, depois de engolir com dificuldade, disse com um fio de voz: — Milady, minha vida é penosa e acredito que dificilmente melhorará. Meus filhos passam fome e frio, e eu não posso fazer nada para evitá-lo. Por isso, com toda a dor de meu coração, queria-lhes pedir que os levassem. Sei que com seu clã poderão ter um teto que os cubra e uma melhor vida que a que eu lhes posso dar. A mulher, vendo Gillian espantada, retorceu as mãos nervosa, e continuou: — Entendo que três bocas que alimentar é algo excessivo, por isso só vos peço que levem a


minhas crianças. Meus filhos ainda não comem muito, são pequenos, mas... mas estou segura que em uns anos trabalharão com força e... e... poderão ser úteis, e... Gillian não a deixou continuar. Agarrou-lhe as mãos e disse: — Helena, como pode me pedir que leve só a seus filhos? — Estou desesperada, milady, e temo que morram na rua de frio. Por favor... por favor... Destroçada pela súplica e a dor daquela mulher, Gillian lhe secou as lágrimas com os dedos e, lhe levantando o queixo, murmurou: — Os três formam uma família, e se estiverem dispostos a viajar conosco ao Skye, falarei com meu marido e tentarei convencê-lo para que... — Não há nada de que falar, Gillian — a interrompeu Niall, aproximando-se delas. Disposta a batalhar, olhou-o. — Helena, estarei encantado de que forme parte de nosso clã no Skye — disse ele. — Sob nenhum conceito permitirei que te separe de seus filhos. Como diz minha mulher, os três formam uma família, e assim deve continuar sendo. Recolhe o que queira levar, ponha em uma das carroças e veem conosco a seu lar. Helena, emocionada, agarrou com força a mão de sua filha, e agarrou ao bebê nos braços. — Aqui está tudo o que tenho, meu senhor. — Muito bem — assentiu ele. Com um assobio, Niall chamou o Ewen, que depois de escutar o que este lhe dizia, assentiu e se voltou para uma tremente Helena. — Vêm comigo. Levar-te-ei até uma das carroças para que possa viajar com seus filhos. A mulher olhou a Gillian e ao Niall e lhes beijou as mãos. — Obrigada... obrigada... muito obrigada. Instantes depois, quando Helena partiu com o Ewen, uma orgulhosa Gillian olhou a seu marido e, com um radiante sorriso que quase lhe paralisou o coração, aproximou-se dele para lhe dar um rápido beijo nos lábios. — Muito obrigada, Niall. O que acaba de fazer te honra como homem. Confundido pelo beijo, assentiu, e dando a volta, começou a dar ordens a seus homens. Aquela manhã, Gillian viajou com um amplo sorriso no rosto. O que fez Niall a emocionou. Saber que Helena e seus filhos viajavam com eles para Skye a fazia muito feliz. A meio da manhã, aproximou-se até o carro onde viajavam a mulher e seus filhos, e se surpreendeu ao ver que Aslam, que ia na mesma carroça, tinha em seus braços ao pequeno Colin. Desconcertada por como aquele sorria, cruzou um olhar agradado com o do Ewen, que expressava igualmente sua satisfação. Por outra parte, em várias ocasiões, Gillian observou que seu duro marido olhava em sua direção. Está-la-ia procurando? "OH, Deus! Sou uma estúpida. Tão logo me olha me ponho a sorrir como uma boba." Depois de um bom trecho, os lairds levantaram a mão para indicar que parariam a comer e, como sempre, os encarregados de preparar o sustento de todos eles acenderam o fogo rapidamente. — Gostaria de vir caçar conosco? Gillian se surpreendeu ao descobrir a seu bonito marido a seu lado. — Sim... claro que sim. Eu adoraria.


— Posso ir também? — perguntou Cris. — É óbvio — assentiu Niall. Instantes depois, uns dez homens com as duas mulheres se afastaram do grupo. Eles levariam a comida. Niall comprovou que sua mulher, aquela loira pequena, era uma estupenda guerreira. Sem necessidade de desmontar do cavalo, apontava com tiros certeiros e decididos conseguia dar caça aos coelhos. Entre ela e Cris, facilitaram-lhes de tal maneira o trabalho que em menos tempo do que estavam acostumados já tinham em seu poder uma dúzia de coelhos. Para refrescar os cavalos, Niall propôs parar perto do lago para que os animais acalmassem sua sede. Uma vez que desmontaram, alguns se deitaram para aproveitar os escassos raios de sol que se filtravam entre o arvoredo, enquanto as mulheres lançavam as adagas medindo suas pontarias. — Prendemos várias folhas com uns gravetos na árvore? — perguntou Gillian a Cris. Ambas o fizeram, e quando Gillian acabou, começou a mover com agilidade sua adaga entre os dedos. Niall sorriu e recordou que viu sua cunhada, Megan, fazer o mesmo, e que esta lhe informou que foi Gillian quem a ensinou. — Muito bem — disse Cris quando terminou de colocar as folhas. Com mestria, as duas mulheres lançaram uma vez atrás de outra as adagas. — Ganhei. — A próxima vez ganharei eu. — Ah! Não te deixarei — zombou Gillian. — Sou invencível com a adaga. Em Dunstaffnage, meu irmão Axel se zangava porque nunca conseguia ganhar. — Sério? — riu Cris. — OH, sim! Axel é muito mal perdedor. E se quem ganha sou eu, pior. Ambas riram, e isso fez sorrir a seu marido e os guerreiros. Niall se levantou e foi até elas. — Desafio-te com a adaga. Atreve-te? — disse surpreendendo a Gillian. A jovem se voltou para ele e sorriu. Seu marido queria medir sua pontaria, e gostou. — Está seguro? — perguntou ante a expressão zombadora que mostrava ele. Aquele comentário fez que os guerreiros gargalhassem pelo descaramento da jovenzinha em desafiar a seu senhor, a seu marido; mas Niall estava cada vez mais convencido, e assentiu. Cris colocou diferentes folhas na árvore, enquanto Niall e Gillian se observavam. — Vejamos, parecem-lhes bem vinte arremessos? O vencedor será o que acerte mais vezes a ponta da adaga no centro do pau que segura a folha. — Perfeito! — acessou Gillian. Ao lançar o primeiro arremesso, Niall cravou a adaga no pau. Gillian só o roçou. Os homens aplaudiram. Seu laird tinha uma pontaria incrível. “Ah, ah, McRae! É bom”, pensou olhando-o. E se voltou para ele e lhe disse em tom meloso: — Por certo, marido, não estipulamos o prêmio do vencedor. O que poderia ser? Niall sorriu enquanto sua virilha começava a lhe fazer cócegas. Imaginar que seu prêmio era ela resultava a coisa mais excitante do mundo. — Você que prêmio propõe? Gillian, com um sensual sorriso, fingiu deliberar a resposta, enquanto seus olhos percorriam de cima abaixo o corpo do Niall. E aproximando-se um pouco mais a ele, disse lhe arrepiando:


— Acredito que o mais justo para os dois seria que cada um pedisse o que mais deseje nesse momento, não acredita? "Céus, Gillian! Me vais voltar louco", pensou ele, e engolindo saliva, assentiu: — De acordo, Gata. Com um sorriso, a jovem retirou o cabelo do rosto e, depois de lhe piscar um olho, voltou a arremessar. Essa vez seu arremesso não errou e partiu o graveto em dois. Lançamento após lançamento se esforçavam ao máximo por acertar. Ambos eram excelentes arremessadores e desejavam vencer. Em um momento, Niall percebeu que ela se tocava no braço e enrugava o sobrecenho, mas não se queixou. Entre os arremessos que disputava com ele, os feitos com a Cris e a caça, o cansaço começava a se fazer sentir. Comovido, o highlander lhe perguntou: — Quer que o deixemos? Surpreendida, suspirou; mas lançou e acertou em cheio. — OH, não! Uma aposta é uma aposta — sussurrou, umedecendo os lábios com provocação. Estavam empatados; só restavam cinco arremessos. Mas Niall já só podia pensar nos lábios úmidos e provocadores da Gillian, e por isso, errou o arremesso. — Empate! — gritou Cris, enquanto os homens aplaudiam. Gillian, agitada, recolheu o cabelo com as mãos de forma premeditada. Deixou a descoberto seu frágil e suave pescoço, e com uma sensualidade que transtornou de novo a Niall, aproximou-se de sua amiga Cris com expressão divertida. — Uf, que calor! Niall, sem que pudesse afastar seus olhos daquela sedosa e fina pele, sentiu-se como um tolo. Só podia admirá-la enquanto sentia como sua virilha pulsava desejosa daquela mulher. Já escolhera seu prêmio. Ela seria seu prêmio. Tão abstraído estava que não despertou até que ouviu a Cris dizer: — Niall... é a tua vez de arremessar. Tentando evitar olhar o que gostava, concentrou-se e olhou para a árvore; flexionou as pernas e arremessou. Mas a ponta de sua adaga ficou a escassos milímetros do graveto. — Ponto para a Gillian — aplaudiu Cris. A jovem lançou com rapidez e acertou no alvo. — Ponto para a Gillian, e restam três tiros a cada um — advertiu Cris. Gillian contente com o desconcerto que via nos olhos do Niall, olhou a sua amiga e lhe piscou o olho. — Enquanto ele lança, irei me refrescar um pouco. Mal-humorado por sua estupidez, Niall a seguiu com o olhar, e de novo ficou petrificado quando viu que ela se aproximava do lago, molhava as mãos e depois as posava sobre seu pescoço, e muito... muito lentamente as descia para seus seios. "OH, Deus! Isto é pior que uma tortura", pensou Niall, afligido. Divertida e ainda molhada, a jovem retornou até ele e, atraindo de novo sua atenção, perguntou em tom meloso: — Ainda não arremessaste? Ele a olhou disposto a responder, mas ao ver como as gotas desciam pelo decote, sussurrou: — Me dê um instante, mulher.


Centrando-se, Niall arremessou e acertou em cheio. — Ponto para o Niall — disse Cris. E de novo sem lhe dar tempo de respirar, Gillian arremessou e acertou também. — Ponto para a Gillian, e restam dois arremessos. — Bem! — gritou a jovem. Os homens, cuja curiosidade pelo que ocorria ia aumentando, formavam redemoinhos a seu redor, e de novo Gillian entrou em ação. Agarrou uma folha de uma árvore e, depois de limpá-la com a mão, a aproximou dos lábios e, com uma sensualidade que os fez suspirar a todos, sorriu. "OH, Deus! Não devo olhá-la... não devo olhá-la", pensou Niall. Mas sua concentração ao ver como todos observavam a sua mulher se esfumou e errou o arremesso. — Ponto para a Gillian — gritou Cris, emocionada, enquanto ria pela debilidade dos homens ante os encantos e flertes das mulheres. — Maldição! — queixou-se Niall. Só restavam dois arremessos e aquela bruxa o estava enfeitiçando com seus encantos. De novo, ela arremessou e acertou. — Ponto para a Gillian, e só resta um arremesso para cada um — disse Cris alterada. Encrespado e mal-humorado porque aquela pequena bruxa com suas artimanhas estava ganhando, lançou o último arremesso e errou, enquanto ela com um sorriso malicioso arremessou e ganhou. — Vencedora, Gillian — sentenciou Cris ante o desconcerto do resto dos barbudos. As mulheres, abraçadas, começaram a saltar, enquanto Niall, incomodado por ter sido derrotado ante seus homens, gritou ao Ewen, que o olhava com expressão divertida: — Troca essa expressão, ou te juro que hoje você e essa bruxa dormem sob algum lago. — O que ordenar, meu senhor — respondeu rindo. E quando Niall ia soltar lhe um murro, ouviu às suas costas: — Marido, já posso cobrar meu prêmio? Voltou-se para ela e a observou. Estava preciosa. — De acordo. O que quer? — perguntou com a boca seca. Gillian começou a caminhar com lentidão ao redor do Niall, até ficar de novo em frente a ele. Elevou-se nas pontas dos pés. Subiu as mãos até enredar seus dedos no fino cabelo dele para atraí-lo para ela. "Deus santo!" pensou, excitado. E quando seu fôlego e sua proximidade conseguiram que ele inspirasse fundo e se estremecesse ante ela, soltou-o e, aproximando-se de sua amiga, que a olhou tão desconcertada como Niall, disse: — Um abraço da Cris é o que mais quero neste momento. Niall, nesse instante, desejou pô-la sobre seus joelhos e açoitá-la. Aquela bruxa com olhos da cor do céu e pele como a seda, fez o mesmo que ele no dia em que lutaram com a espada. Mas ao ver seus homens e ela sorrir e olhá-lo com essa expressão desafiadora no olhar que tanto gostava, não pôde por menos que assentir e aceitar sua derrota. Enquanto retornavam com a caça, os homens ainda riam pelo ocorrido. Ewen e Cris cavalgavam juntos, e Gillian se aproximou de seu marido. — Niall, devo parar um segundo com urgência. — O que ocorre?


Incomodada por ter que confessar aquilo, sussurrou: — Tenho uma necessidade urgente. — Tão urgente que não pode chegar ao acampamento? — zombou ele. Incrédula pela ousadia do Niall, assentiu. — Só será um segundo. Suplico-lhe isso. Com um sorriso nos lábios, depois de indicar ao Ewen que continuassem o caminho, desviaram-se. Ao chegar a um arvoredo, Gillian desmontou com urgência do cavalo. — Não te afaste, tesouro — gritou seu marido com ironia. Gillian não quis responder a aquela provocação, e entrou no bosque. Depois de aliviar sua urgência, empreendeu a volta enquanto ouvia roncar seu estômago. Estava faminta. De repente notou que umas mãos a agarravam e cobriam sua boca. Começando a espernear, Gillian viu que se tratava de dois homens. Por sua aparência suja e desalinhada, podia tê-los confundido com dois dos selvagens de seu marido, mas não. Aqueles sujeitos em mais nada pareciam com os homens do Niall. — OH, que tenra e saborosa pipoca caçamos hoje! — Nem o diga. Nesse momento, o estômago de Gillian voltou a roncar. Os homens, surpreendidos, olharam-se e sorriram enquanto lhe atavam as mãos às costas. — Aha! Pressinto que tem tanta fome como eu — e aproximando-se mais a ela, o mais alto chiou: — Embora eu tenho mais fome do que guarda entre suas bonitas pernas. Gillian abriu a boca e, com toda a força do mundo, mordeu-lhe na mão fazendo-o gritar. Aquele grito foi o que alertou ao Niall, que depois de correr para onde ela desapareceu e, ao não vê-la, amaldiçoou e entrou no bosque. — Maldita seja! Mordeu-me! — E mais farei do que te morder se te ocorrer me pôr a mão em cima. Porco! O homem, com a mão dolorida, deu-lhe um bofetão que a fez cair para trás. — Te cale, ou conseguirá que a mate antes de desfrutar de seu corpo. — Que me cale! Ah!... Isso não o acreditam, nem bêbados. Sofrendo por causa da forte dentada que Gillian lhe deu na mão, o homem se voltou para seu companheiro e exigiu: — Lhe tampe a boca antes que a eu tampe de uma pedrada. — Não poderá — gritou ela. — Solte-me as mãos e veremos quem dá a pedrada antes. Rapidamente o outro tirou um trapo sujo e colocando-o na boca dela a fez calar. Niall chegou até eles e, depois de comprovar sem ser visto que só se tratava de dois bandidos, pensou o que fazer. Deixou a espada no cavalo e não queria retroceder e perdê-la de vista; por isso, sem mais demora, saiu a sua passagem. — Acredito, senhores, que têm algo que me pertence. Gillian suspirou, aliviada. Os homens, ao ver aparecer a aquele indivíduo de entre as árvores, olharam-se com cuidado. — O que temos que seja teu? — perguntou um deles. Depois de um bocejo que a Gillian lhe pareceu interminável, Niall respondeu com inapetência.


— A fera a que fechastes a boca é minha insofrível esposa. Isso fez rir aos vilões, mas a Gillian não. — E embora as vezes — continuou Niall, — sinta vontades de matá-la ou lhe cortar o pescoço pelo insuportável e problemática que é, não posso, é minha querida esposa. Gillian, ainda com o trapo na boca, grunhiu, mas eles não lhe fizeram nenhum caso. Com expressão azeda, o que foi mordido pela mulher, perguntou: — Se é tão insofrível, por que vem resgatá-la? Niall coçou a cabeça e respondeu com pesar. — Porque eu goste ou não de reconhecê-lo, tudo o que tem de brava o tem de feroz no leito. Não podendo acreditar que tivesse dito aquelas terríveis palavras, Gillian protestou e gesticulou, e Niall sorriu. — A verdade é que é muito bonita — assegurou um dos bandidos, lhe passando a mão pelos seios. — E sua pele parece ser muito suave. Ver como aquela imundice roçava o seio da Gillian fez que Niall se esticasse. Ninguém à exceção dele cometia semelhante ousadia. Matá-lo-ia. Mas mantendo-se imperturbável, assentiu: — OH, sim! Ela é muito suave. Toquem... toquem. Não me importa — os animou para desconcerto da Gillian. Nesse momento, à jovem voltaram a roncar as vísceras, e os homens riram, para seu horror. "Maldita seja minha fome!" — Não te recorda esta a Judith, a prostituta de Portree? — disse o bandido mais alto a seu companheiro. "Ha... que sorte a minha!", pensou ela. — É verdade. É pequena, mas com corpo tentador — concordou o outro, olhando-a com desejo. — E por sua bravura, parece ser tão ardente como Judith. OH, irmão! Como passamos bem com ela sob as mantas, né? — Nem diga! — assentiu o outro, lambendo-se. Gillian tentou gritar. Mataria ao Niall. Não queria que a comparassem com uma prostituta, e menos conhecer os detalhes daquela pecaminosa relação. Niall, compreendendo que aqueles dois tinham menos cabeça que um bebê de teta, e sabedor de que com duas estocadas os tiraria de cima, disse para seu regozijo e horror de sua mulher: — Se gostaram tanto de minha ardente esposa, vos a troco por alguma coisa que tenham de valor. Estou seguro de que ela os fará esquecer a essa tal Judith quando a tiverem sob as mantas. — Ao ver sua mulher pôr os olhos em branco, sorriu e prosseguiu: — Será uma maneira de não ter que suportá-la, e assim todos ficamos satisfeitos. O que lhes parece? "Mato você... Mato você, McRae... Desta o mato", pensou Gillian, que não podia acreditar no que Niall lhes propôs. Como ia deixar que a levassem? Os homens trocaram um olhar e assentiram: — De acordo. A criada o merece. Pelo que desejas trocá-la? — perguntou o mais jovem. Gillian, amaldiçoando através do trapo, gritou. Se esse bufão descerebrado a trocasse, que se preparasse para quando o encontrasse. Esfolá-lo-ia.


Mas Niall, sem olhá-la para aparentar abandono, passeou a vista pelos escassos pertences daqueles homens e propôs, assinalando uma das duas espadas que estavam no chão: — O que lhes parece minha loira mulher por essa espada e uns bolos de aveia? "Bolos de aveia? bolo é o que te vou dar eu quando te pegar, McRae", disse para si mesma, cada vez mais humilhada. Os dois, cada qual mais tolo, depois de olharem-se assentiram, e com rapidez o mais jovem se aproximou até a espada, agarrou-a junto a uma bolsa de bolos de aveia, e aproximando-se até o Niall, entregou tudo. Como se tivesse em suas mãos uma espada de aço de Damasco, Niall a olhou com interesse. — É uma boa espada — disse o homem. — A roubei de um inglês faz tempo. É uma boa troca. Niall deu um par de estocadas no ar e assentiu. Então, com um movimento rápido, agarrou a aquele homem pelo pescoço e lhe dando um golpe com o punho da espada o fez cair sem sentidos ao chão. Sem dar tempo ao outro de reagir, pôs lhe a ponta da espada no pescoço. — Se em algo aprecia sua vida e a de seu irmão — ameaçou, — já pode sair correndo, e não retorne até que minha mulher e eu tenhamos partido, entendeste-me? O tipo, sem qualquer reparo, começou a correr apavorado sem olhar para trás. Já retornaria por seu irmão. Uma vez que ficaram sozinhos com o homem sem sentidos atirado ao chão, Niall se aproximou de Gillian com expressão zombadora e lhe tirou a mordaça. — Bolos de aveia! — gritou, zangada. — Ia me trocar por uns bolos de aveia? O highlander voltou a pôr a mordaça, e ela gritou, desejando lhe cortar o pescoço. — Se for seguir uivando não lhe tiro a focinheira — riu, divertido. Segundos depois, e um pouco mais calma, ela assentiu, e ele tirou a mordaça. — Bolos de aveia! — exclamou. — Pensava me trocar por uns malditos bolos de aveia. Niall sorriu. Era impossível não rir vendo a ela e sua expressão de indignação. — Dizem que são muito nutritivos e que dão força — resmungou enquanto lhe desatava as mãos. Uma vez liberada, Gillian olhou-o com intenção de protestar e bofetear-lhe o rosto pelo que lhe fez acreditar, mas ao vê-lo sorrir, também sorriu. Aquele entendimento entre ambos foi tão forte que Niall a agarrou pela cintura, aproximou-a até ele e a beijou. Embora teve que deixar de beijá-la ao ouvir de novo as vísceras dela roncar como um urso. "Que vergonha, Por Deus!", pensou ao separar-se dele e ver como a olhava. — Acredito... acredito que levarei uns bolos para o caminho — sussurrou, confusa. Ele, com expressão alegre, agachou-se, agarrou um pacote e o pegou enquanto pensava: "Retornemos ao acampamento antes que a fome entre em mim, e eu não me contente só com os bolos de aveia".

Capítulo 25


No dia seguinte, depois de passar uma noite em que Niall mal pôde dormir, observando na semiobscuridade de sua tenda a sua mulher, se levantou sem forças. Dia a dia, a presença e o caráter da Gillian o consumiam. Quando não desejava matá-la ou açoitá-la pelas contínuas confusões nas quais se metia, desejava toma-la, arrancar-lhe a roupa e fazê-la sua. Mas se abstinha; intuía que se o fizesse, sua perdição por ela seria total. Cavalgou afastado da Gillian grande parte da manhã, até que finalmente pararam para comer. A jovem se alegrou porque aquilo supunha a proximidade do Niall. Mas quando viu que ele levava a tola da Diane a caçar com ele e seus homens, desejou agarrá-lo pelos cabelos e arrastá-lo por todo o acampamento. Por que fazia isso? Por que a beijava com tanta paixão e logo nem a olhava? Por que se empenhava em ir com aquela atordoada em lugar de ficar como Lolach e Duncan com suas mulheres? Todas essas perguntas martelavam uma e outra vez a cabeça da Gillian, até que o mau humor a envolveu. Mas não ficaria olhando como uma tola. Se queria ir com aquela boba que fosse. Ela já encontraria o que fazer. Com rapidez desmontou de Thor, e propondo-se não pensar no desejo que a despertava, sacou uma escova e começou a escovar ao cavalo com tal brio que, seguindo assim deixaria sem um pelo ao pobre Thor. Tão abstraída estava em seus pensamentos e o furioso escovar que não notou que alguém se aproximava por trás. — Milady, acabamos de chegar do arroio e...e... queríamos que visse o resultado. Quando Gillian levantou o olhar para contestar, quase caiu para trás. Aqueles que estavam em frente a ela eram Donald e Aslam, que rasparam as horríveis barbas e cortaram o cabelo. Ante ela havia dois novos homens, altos, lindos de feições cinzeladas e donos de uns penetrantes e expressivos olhos castanhos e verdes, respectivamente. — Donald?! — perguntou. — Sim, milady. — Aslam?! — voltou a perguntar. — O mesmo, senhora — contestou, rindo. Ficou embevecida com a mudança ocorrida neles, e se emocionou. — Donald, não conheço sua adorada Rosemary, mas se quando te vir não cai rendida a seus pés, é que está totalmente cega — e olhando ao outro highlander prosseguiu: — Aslam, creio que alguém que não está muito longe, quando o vir, vai ficar tão surpreendida como eu. O highlander sorriu e, comovido, passou a mão pelo queixo. — Isso acredita, milady? — assombrou-se o homem. — Oh, sim! Posso-o assegurar. — De verdade pensa que assim a linda Rosemary saberá que existo? — insistiu Donald. Gillian assentiu com alegria. — O asseguro, Donald. E mais, se ela não se fixa em ti, te garanto que muitas outras mulheres o farão.


Nesse momento, Gillian viu passar a Cris e a chamou. Quando esta se aproximou até eles, lhe perguntou: — Cris, conheces todos os homens de meu marido, verdade? Sem prestar atenção aos highlanders que estavam junto a Gillian a jovem respondeu: — Sim, por sorte ou por desgraça, preciso lutar muito frequentemente com essa turma de selvagens. Por quê? O que fizeram agora? Pasmados pelo que a jovem disse, os homens a olharam. — Conhece estes homens? — perguntou Gillian. Cris olhou a aqueles bonitos jovens de cabelos claros e pensou que se os tivesse visto com antecedência os recordaria. Por isso, depois de observa-los, negou com a cabeça. — E se te digo que são Donald e Aslam, o que diria? Assombrada, a moça voltou a cravar seus olhos neles. — São vós? — perguntou. Com um sorriso incrédulo pela espera causada, assentiram: — Sim, senhorita Cris, sou Donald. — E eu Aslam; o asseguro. Dando uma palmada ao ar, a moça, atônita, deu um passo atrás. — Por todos os santos, estais magníficos! — exclamou. — Mas... como não fizeram isto antes? São uns guerreiros muito agraciados. Gillian, contente, lhes disse: — Veem-no? Veem como as mulheres agora sim os admirarão? Incomodados, encolheram os ombros. Nunca entenderiam às mulheres. Nesse momento, se aproximaram vários homens do Niall, e um deles vociferou, olhando a seu redor: — Onde demônios está Donald? Levo buscando-o um bom momento e não o encontro. Donald se voltou, estranhando porque não o tivesse reconhecido. — Estou aqui, Kevin, está cego? Os highlanders de longas barbas o olharam e, incrédulos, se aproximaram dele. — Pelas barbas de meu bisavô Holden! — clamou um. — Se não o visse, não... acreditava — comentou outro ao reconhecer a gargalhada do Aslam. Mortas de rir, Gillian e Cris eram testemunhas de como aqueles selvagens se aproximavam até os highlanders e os observavam estarrecidos. Durante um bom momento, se divertiram com as ocorrências que diziam primeiro e, por vez, Gillian se sentiu uma a mais do grupo. Pouco depois, ouviu que Johanna a chamava. Despediu-se dos homens e se encaminhou para as crianças. Todos brincavam juntos, exceto Demelza, que ainda não queria se separar de sua mamãe. — Tia Gillian — disse Johanna, — Trevor não acredita que você e mamãe são capazes de cavalgar sobre dois cavalos, e sabes, com um pé posto em cada um deles. Ela sorriu. Levavam anos sem praticar aquele louco jogo e, olhando as crianças respondeu: — Trevor, isso era algo que sua tia Megan e eu fazíamos faz tempo. Já não o fazemos. — O vês, campeã ? — recriminou o menino olhando a sua prima. — Sua mãe e Gillian são muito velhas para fazer esse tipo de coisas. Ficou petrificada pelo que aquele mucoso havia dito. — Chamaste-me velha, Trevor? — perguntou-lhe.


O menino, ao ver a mulher com os braços nos quadris, se desculpou. — Não. Eu não... — Sim, sim, te chamou — afirmou Johanna. Trevor, abrumado pelo olhar de tantas mulheres, finalmente soprou: — Está bem, de acordo. O disse, mas foi sem querer. Aquela desculpa fez Gillian rir, tocando sua cabeça para revolver seu cabelo, deu-lhe a entender que não ocorria nada. — Não passa nada, céu; não se preocupe. Mas como conselho te direi que não chame nunca velha a nenhuma mulher, ou sua vida será um inferno, está bem? Com um sorriso idêntico a de seu pai, Trevor assentiu e partiu. — Mami diz que você é a mulher mais valente que conhece — disse, Amanda chupando um dedo. — Oh, não, docinho! Megan é mais valente que eu! Lhe posso assegurar isso. — Tia Gillian, vou te contar um segredo. Minha mamãe ainda faz o dos cavalos. Eu a vi — cochichou Johanna, aproximando-se a ela. — Sério? — perguntou, incrédula. A pequena assentiu com um gesto de cabeça. — Seu pai a viu fazê-lo? A menina, com expressão pícara, negou com rapidez, e se aproximou dela antes de sussurrar: — Papai se zangaria muito se visse as coisas que mamãe faz com o cavalo. É um segredo entre nós; ela me ensina a fazê-lo, e eu não conto a ele. — Ah, excelente segredo! — afirmou divertida Gillian, e Johanna se afastou correndo atrás de seu primo Trevor. — Eu quero aprender a montar a cavalo para ser uma grande guerreira como papai e o tio Niall — gritou a pequena Amanda com sua pequena espada de madeira na mão. Gillian, agachando-se, a beijou. — Quando crescer um pouco mais, tua mamãe te ensinará tudo o que queira. Verá! — assegurou-lhe. A criança se sentiu feliz, e rodeou com seus pequenos braços o pescoço da Gillian e a beijou. Esta, encantada por aquela amostra de carinho, lhe fez cócegas, e Amanda começou a rir a gargalhadas. Sentia tantas cócegas como Megan. As gargalhadas da pequena atraíram o olhar do Niall, que chegava nesse momento de caçar. O momento que esteve separado dela e em companhia da Diane lhe fez valorizar de novo a lutadora e divertida que era sua esposa. Justamente o contrário da Diane, que cada dia era mais maçante, flácida e pateta, atitudes que ele detestava em uma mulher. Desmontou do cavalo, caminhou até uma árvore e se apoiou nela. Dali esteve observando cativado a Gillian enquanto esta brincava com a pequena Amanda, até que apareceu seu irmão Duncan. — Que tal a caça hoje? — perguntou. — Bem. Quase uma dúzia de coelhos — respondeu Niall, abstraído.


Duncan, ao ver o modo como seu irmão olhava a sua filha e a Gillian, lhe sussurrou: — Quando vais deixar de evitar o inevitável? Consciente do que ele quis dizer, Niall o olhou franzindo o cenho, e Duncan cabeceando, acrescentou: — Essa mulher a quem olhas como um tolo babando, é sua esposa. Mas se não quer perdê-la, deixa de flertar com a McLeod. — Não flerto com a Diane. — Está seguro que não flertas com a McLeod? Porque sinto dizer-te, irmão que é o que pensa todo mundo e... — Seguro que Megan já te foi com esse conto, verdade? Incomodado, Duncan respondeu: — Megan também percebeu, mas não estou falando disso. Falo-te de que todo mundo começa a murmurar. Acaba de desposar a Gillian e não é normal que vá de caça ou passes tempo com a McLeod. — Ao ver que seu irmão não contestava, inquiriu: — Você gostaria que Gillian partisse com outro homem de passeio pelo bosque? Porque te recordo que você o faz ante ela e ante todos, e estou seguro de que é para lhe fazer ciúmes. O corpo de Niall reagiu as palavras de seu irmão e respirando fundo, assegurou: — Nunca o fará. — Escuta, ela... Niall não lhe deu tempo a terminar. — Quanto ao de lhe dar ciúmes, não sei do que falas. Diane só é uma jovem muito agradável. Uma grande gargalhada do Duncan fez que Niall o olhasse e grunhisse. — Deixa já de rir como um idiota se não quer que me zangue contigo. Mas seu irmão, dando-lhe um golpe nas costas, continuou rindo. — De verdade devo acreditar que terias desejado um matrimônio com uma mulher como a McLeod antes que com a Gillian? — Não. — Sabia — respondeu o highlander ainda rindo enquanto contemplava como Megan e Shelma desfrutavam juntas. — Mas às vezes eu gostaria que fosse menos impetuosa, menos guerreira, menos... — Não diga tolices — cortou Duncan. — Se existe algo que sempre gostou nela é sua maneira de ser. A ti e a mim não gostamos das mulheres que só costuram e visitam as abadias. Aos McRae atraem as mulheres com caráter, capazes de brandir uma espada em defesa dos seus, e doces e apaixonadas na intimidade. Niall sorriu, e Duncan prosseguiu: — Faz algum tempo um amigo... — disse pensando no Kieran O'Hara, — me comentou que nunca tentasse domesticar nem mudar a Megan porque deixaria de ser ela. E te posso assegurar que ainda o agradeço por essas palavras. Eu gosto de como é, mesmo que, em ocasiões essa cabeça dura me faça sentir vontades de matá-la. Adoro sua forma de ser. Enlouquece-me em nossas brigas, e mais ainda em nossas reconciliações.


Apaixona-me vê-la desfrutar da vida de nossas filhas, de sua loucura e do amor. E isso, irmão, não tem preço. Niall se sentiu comovido ante a franqueza do Duncan e sorriu. Sempre soube que Megan e seu irmão eram um para o outro, e também sabia que Gillian e sua cunhada estavam cortadas pelo mesmo patrão. Eram duas guerreiras. — Vale, Duncan, entendo o que me quer dizer, mas... — Não há mas que valha, Niall. Se realmente a queres amar, deixa de flertar com a Diane. Porque conhecendo a Gillian, tarde ou cedo, esse jogo te trará problemas. Uma vez dito isso, Duncan lhe deu um golpe no ombro e se dirigiu para sua mulher. Quando chegou até ela a beijou e, depois de piscar um olho a seu irmão, que sorriu, partiu a dar um passeio com ela.

Capítulo 26

Niall pensou no que Duncan lhe dissera. Gostava de sua mulher mais que nenhuma, mas se negava a cair sob o mesmo influxo de amor em que seu irmão ou Lolach caíram. Sem saber por que, começou a andar para a Gillian. Esta, sem perceber ainda a presença de seu marido, deu um último beijo à pequena Amanda e a deixou no chão. A menina correu disposta a pegar a sua irmã e a seu primo. Com um carinhoso sorriso na boca, Gillian os estava vendo correr ao redor dos guerreiros quando a voz do Niall a sobressaltou: — Comeste algo, esposa? Voltando-se para ele, mudou sua expressão. Ainda estava zangada porque partiu à caça com a Diane e não disse nada a ela. Só em pensar que aquela o pudesse beijar a punha doente. Mesmo assim, com fingida dissimulação, respondeu: — Não. Ainda não comi. O farei agora. Sem querer olhá-lo nos olhos, rodeou-o para passar por seu lado, mas ele a agarrou pela cintura. — O que te ocorre, Gillian? — perguntou-lhe. — Nada. Por quê? Tem-me que passar algo? Cravando seus preciosos olhos nela, sussurrou-lhe: — Estava desejando retornar para verte. Você não o desejava? "Descarado, e por isso foste com a Diane." Incapaz de permanecer impassível lhe deu um pisam, e o homem enrugou a cara. — OH, sim! Já o vejo, e por isso, em vez de me dizer a mim que fosse contigo a caça, o disse a essa idiota da Diane. O que acontece, McRae, ela te dá de presente seus favores cada vez que estão sozinhos? "Maldição! Por que não me calei?" pensou. Ouvir aquilo era a última coisa que esperava e mais depois da advertência do Duncan. — Minha relação com a Diane é... Mas Gillian não o queria escutar.


— Não quero falar dessa pateta, nem de sua relação, e tampouco me apetece falar contigo — e colocando as mãos na cintura, murmurou: — Já o dizia Helda, quando um homem consegue seu propósito, não te volta a olhar. E claro, você já conseguiu colocar suas mãos sob minha saia, e como comprovaste que o que há não te agrada, procura seu prazer em outras, verdade? Estupefato, boquiaberto e surpreso pelo que Gillian dizia, respondeu: — De que demônios está falando, mulher? — Mulher? Já volto a ser sua mulher!? Maldito seja, pedaço de cortiça! Respeite-me. "Por todos os Santos! Não se cansa de brigar", pensou, incrédulo. — Volta-me louco! — gritou, entretanto. — É insuportável, tesouro. "Já estamos com o de tesouro", disse-se, mais zangada. — E você, um tolo. Sobressaltado por sua reação, soprou. Sua intenção ao aproximar-se dela era desfrutar de sua companhia, pois era o que mais gostava; mas, como sempre, seus encontros acabavam em discussão. Por isso, mal-humorado, sentenciou: — Se continua me insultando ante meus homens, terei que tomar medidas, ouviste-me? Cruzando os braços ante ele, chutou o chão e zombou. — OH, claro que te ouvi, marido! Cada vez mais zangado, agarrou-a pelo braço e começou a andar a grandes passos ante o olhar atônito de todos. — Mas, bom, me solte! Aonde me leva? — Não grite, esposa, e me respeite — vozeou Niall. Suspirando por aquele tom, dispôs-se a apresentar batalha. — OH, desculpe meu atrevimento, meu esposo! Da sua altura, Niall a olhou e inexplicavelmente, inclusive para si mesmo, sorriu. Tê-la agarrada daquela forma, enquanto cheirava o maravilhoso perfume que emanava frescura e sensualidade, deixava-o louco. Teria gostado de lhe gritar que se aproximava de Diane para não sucumbir a seus encantos, mas isso o teria deixado desprotegido. Por isso, sem baixar a guarda, não respondeu, e continuou caminhando. Niall foi até onde um dos guerreiros cozinhava. O guisado que revolvia em um grande caldeirão escuro cheirava muito bem. O homem encheu com rapidez duas cuias de guisado e os entregou. Com um deslumbrante sorriso, Gillian o agradeceu, e o cozinheiro, um moço jovem do clã do Lolach, assentiu, agradado. Niall sentiu ciúmes e, sem soltá-la, levou-a até uma árvore, onde, sentando-se no chão, obrigou-a a fazer o mesmo junto a ele. Sem se olharem nem falar, começaram a comer. Em silêncio, observaram como os meninos brincavam. Johanna e Trevor molestavam à pequena Amanda, que espada de madeira na mão corria atrás deles. Inconscientemente, Niall, vendo suas sobrinhas, curvou os lábios e sorriu. — Sempre gostei muito de crianças, mas Johanna e Amanda, essas duas preciosas damas, roubaram-me o coração. O suave tom de voz que empregou ao falar de suas sobrinhas enterneceu a Gillian, que o


olhou e aguentou as vontades de lhe tocar o cabelo quando uma rajada de ar o deslocou. — Sim, acredito que Duncan e Megan tiveram muita sorte com suas filhas. — São duas meninas preciosas, e tão valentes como seus pais — assegurou ele, soltando uma gargalhada ao ver a pequena Amanda atirar-se como um moço contra seu primo. — Amanda, Johanna, Trevor, ides vos fazer mal! — Gritou, divertido. O menino, levantando-se, deu um pontapé na sua prima Johanna no traseiro, e pôs-se a correr. Esta, com o cenho franzido, levantou-se do chão, recolheu as saias e correu atrás dele como alma que foge do diabo. A pequena Amanda, olhando a seu tio, dedicou-lhe um sorriso que teria derretido o próprio inferno. Depois, gritou enquanto corria atrás das outras crianças: — Tio Niall... eu sou uma guerreira e os guerreiros não se machucam. — Vá com a pequena! — disse Gillian sorrindo. — São autênticas McRae — apontou com orgulho Niall. — Desculpa, mas também são filhas da Megan — concluiu ela. Curvando os lábios, olhou para onde estavam seu irmão e Megan, que riam naquele momento. — Tem razão. São filhas de ambos. Mas me deixe te dizer que essa pequena mescla de sangue inglês que corre pelas veias de minha louca cunhada é o que tem enfeitiçado a meu irmão e a todo aquele que se cruza com ela. E o mesmo digo da Shelma. Gillian sorriu. Ela também tinha sangue inglês, algo que Niall sabia, mas que omitiu comentar. — Que Deus ampare ao homem que se apaixone por qualquer de minhas sobrinhas. Sua vida será uma autêntica batalha. Aquela pequena brincadeira relaxou o ambiente e fez que se olhassem com doçura, mas foi tal o desconcerto que sentiram que com rapidez mudaram de expressão e desviaram os olhos para outro lugar. Diane, que passava junto dos pequenos acompanhada de sua sofrida criada, protestou ao ver o pó que as crianças levantavam com seu estranho jogo de guerra. Rapidamente, afastou-se, horrorizada. Não gostava das crianças. Isso fez rir a Gillian. Nesse momento, Megan se aproximou até suas filhas e seu sobrinho Trevor e, repreendendo-os por como estavam se sujando, obrigou-os a ir à carroça para lavarem as mãos antes de comer. Uma vez que desapareceram, Niall e Gillian ficaram em silêncio, até que um grito da Diane voltou a atrair sua atenção. A jovem se cravou o dedo com o ramo de uma árvore e gritava angustiada. — Se essa mulher for capaz de viver onde você vive, eu o sou também — cochichou Gillian enquanto sofria ao ver como aquela tratava a sua pobre criada, que tentava lhe olhar o dedo. Mas a caprichosa da Diane só olhava ao Niall, lhe pedindo ajuda. Niall, entretanto, ignorava; só tinha olhos para sua mulher. Tê-la tão perto lhe oferecia um espetáculo incrível. Gillian era um deleite para a vista. Seu precioso e ondulado cabelo loiro, seu aroma e seus suaves e claros seios, que se moviam ao compasso de sua respiração, estavam conseguindo que ele se excitasse como um idiota. Por isso, clareando a garganta, disse-lhe:


— Devo falar contigo sobre o que aconteceu há umas noites, e também, sobre seu novo lar. — Sobre o que aconteceu? — suspirou ela. — Quero que saiba que... Mas os gritinhos da Diane a fizeram calar e, olhando a seu marido, grunhiu: — OH, Deus! Essa parva é insuportável com seus gritinhos de javali no cio. Niall reteve uma gargalhada, consciente de que dizia a verdade. Diane era insofrível, mas não querendo lhe dar a razão, olhou-a e com expressão carrancuda, sentenciou: — Seja educada, mulher. Diane é uma dama e merece ser tratada com respeito. Que você não tenha sua delicadeza e saiba se comportar não te dá direito a falar assim dela. Respeito, Gillian; respeito. Desejosa de dizer tudo o que lhe passava pela mente, soprou, e com a fúria instalada em suas palavras, respondeu: — Meu senhor, acredito que sua amiga Diane demanda a sua presença — e zombando, acrescentou: — Pobrezinha, cravou-se uma farpa e necessitará de sua compreensão. Aquele comentário, e em especial o tom, teve graça, mas não mudou sua expressão. — A que vem isso de meu senhor? — perguntou. — Pediste-me respeito e... — Gillian... quem é agora a insuportável? Disposta a não dar seu braço a torcer, respondeu: — Meu senhor, acaba de me deixar claro que eu devia... — O que te deixei muito claro é que não penso permitir que siga comportando-se como o fazia no Dunstaffnage. Não pretendo que me ame com loucura, mas sim que seja educada e saiba se comportar como minha mulher, ou... — Ou?! — soltou-lhe, cada vez mais incomodada. "Devo ser masoquista, mas eu adoro quando me olha assim", pensou ele, e prosseguiu: — Ou... terei que voltar a te açoitar e te ensinar a educação. Gillian tentou levantar-se, mas ele, sujeitando-a pelo braço, não o permitiu. — Quando estiver falando contigo me escutará. E até que eu não termine o que estou dizendo não te moverá, entendido? Beliscou-o no braço, e apesar de que Niall sentiu uma dor incrível, não a soltou. — Gillian, se não te comporta — murmurou entre dentes, — terei que tomar medidas contra esse tosco e impertinente caráter de menina caprichosa que tem. Ela suspendeu o beliscão e olhou a seu redor. Ninguém os olhava. E levantando o queixo, perguntou: — Medidas? E que medidas tomaria? Ao ver que ele não respondia, prosseguiu sem nenhum medo: — Pretende me lançar por algum escarpado, me fustigar ou me queimar em uma fogueira pela caprichosa ante os bonitos e incríveis olhos de sua doce dama Diane? Porque se for assim, te juro que lutarei por me defender, mesmo que termine morta e despedaçada em pedaços. E ser uma dama é ser e representar o que é ela, alegra-me escutar de sua boca que sou justamente o contrário. Louco por beijá-la, agarrou-a pelo cabelo com força para atraí-la mais para ele e lhe chiou perto da boca: — Gillian, não me dê ideias, por seu bem, e procura não me zangar. Já não sou o jovem


parvo que conduzia a seu desejo faz anos. Mudei, e hoje, quando me zangam, sou capaz de qualquer coisa. Aguentando a dor, ela bufou. — Já sei que fez algo. Casaste-te comigo. Finalmente, Niall levou sua boca até a dela e a beijou. Com deleite, mordiscou lhe o lábio inferior, até que a fez abrir a boca e tomou. Surpreendida, tentou escapar dele, mas foi notar seu doce sabor e claudicar. Vibrou ao sentir-se entre seus braços. Desejava-o. Mas então ele começou a rir, ela se esticou e a magia desapareceu. Pensou em lhe dar um tapa ou o beliscar no ferimento que lhe fez no braço, mas o desejo irresistível que a embargava lhe impediu de raciocinar. Niall percebeu sua tensão, mas não a soltou, e lhe colocou ainda mais a língua na boca, exigindo que não parasse. Para sua satisfação, ao final ela soltou um gemido que a delatou. Nesse momento, começaram a ouvir aplausos e gritos dos guerreiros. Niall a liberou e se separou dela para aceitar sorrindo as fanfarronadas que seus homens lhes dedicavam. Humilhada ao se sentir no centro da atenção em um momento tão íntimo, Gillian fechou o punho para lhe dar um golpe, mas Niall, olhando-a, sussurrou: — Se fizer isso, o pagará, tesouro. Ela se refreou. — Eu não gosto que me trate ante todos como acaba de fazer, e menos que me chame assim. Depois de uma gargalhada que fez que todos os olhassem, ele murmurou: — Chamar-te-ei e te tratarei como eu queira, entendido? É minha esposa, minha! Não o esqueça. — Claro que não o esqueço. Quis me trocar por bolos de aveia. — Ao menos são nutritivos, e não nocivos como tu. — E sem lhe dar tempo de contestar, acrescentou: — Nunca esqueça que sou seu dono e te trocarei pelo que queira. Não é tão valiosa como Diane ou qualquer outra dama. O que você acha? — Oxalá não estivesse aqui e minha vida fosse outra! Oxalá pudesse voltar atrás os dias! De me ter casado com o Carmichael, ao menos teria sabido o que podia esperar: morte por assassinato. Mas de ti? O que posso esperar de ti, além de abusos e humilhação? Não lhe vou consentir isso... não. E se tiver que acabar eu mesma com minha vida, fá-lo-ei antes que você o faça. Detesto-te, Niall. Detesto-te tanto que nem pode imaginar o quanto. Dolorido e confundido por aquelas duras e terríveis palavras a olhou e, com expressão grave, sentenciou: — Não me deteste, Gillian; melhor que me tenha medo. Furiosa, a jovem levantou a mão, mas ao ver o olhar gelado dele e os guerreiros, a baixou. Com um sorriso maléfico, Niall coçou o queixo. — A partir de hoje, cada vez que cometas um engano no referente a minha pessoa, te cortarei uma mecha de seu adorado cabelo — ela blasfemou. — E se continuar com sua desrespeitosa maneira de ser, encerrar-te-ei em qualquer torreão escuro até que consiga dobrar


sua vontade e esteja tão assustada que não recorde nem como te chama, entendeste-me? Não respondeu. Limitou-se a lhe dirigir um olhar glacial, e ele continuou: — Esquece o que te disse sobre ter um herdeiro contigo. Tinha razão. Posso tê-lo com qualquer das fulanas com as quais me deito, e estou seguro de que me resultará mais agradável e prazenteiro. Isso sim, você o cuidará e o criará como se se tratasse de seu próprio filho — ofendida, não conseguiu nem abrir a boca. — E tranquila, o que aconteceu aquela noite em que se lançou sobre mim não voltará a ocorrer. Só te pedirei um ou outro beijo e exigirei algum sorriso para que as pessoas não murmurem. Foi e é um problema. Seu irmão e seu avô estavam convencidos de que terminaria na forca depois de matar ao Carmichael, e não andavam desacertados — disse, recordando o que ela comentou. — E unicamente te direi uma última coisa para esclarecer nossa situação. Se não permiti que Kieran se casasse contigo, não foi porque sentisse algo por ti. Não, não te equivoque, tesouro, se me casei contigo foi por que devia muitos favores a seu irmão e, me casando, saldei todas minhas contas com ele por toda a vida. — É desprezível — sussurrou ela, respirando com dificuldade. — Sim, Gillian, sou desprezível. E para ti pretendo ser o ser mais desprezível de toda Escócia, porque te ter a meu lado é e será uma carga muito difícil de levar. — Odeio-te — gemeu ao sentir que o coração paralisava. Niall sorriu com maldade, mas tudo era fachada. O coração lhe palpitava disparado ao ver o horror e a dor nos olhos dela. — Alegra-me saber que me odeia meu tesouro, porque você só será a senhora de meu lar, não de minha vida nem de meu leito. Meus gostos pelas mulheres são outros — disse, olhando a Diane de forma insinuante. — Em uma mulher me atraem duas coisas: a primeira, sua sensualidade, e a segunda, que saiba o que eu gosto na cama. E você não cumpre nada do que procuro. — É um filho de Satanás. Como pode me ofender assim? — tentou esbofeteá-lo. Com um rápido movimento, ele a deteve e, tirando-a adaga do cinto, cortou lhe uma mecha do cabelo. Ela gritou, e Niall, lhe mostrando o troféu, chiou: — Cuidado, Gillian. Se não te controlar, ficará calva muito em breve. Aquilo era insuportável, e levantando-se, furiosa, tentou andar, mas Niall lhe puxou pela saia e a fez cair sobre ele. Agarrando-a com rudeza entre seus braços, aprisionou-a e, sem lhe dar tempo a respirar, beijou-a. Mas essa vez ela não gemeu nem respondeu. Instantes depois, quando Niall separou seus lábios com um sorriso triunfal, sussurrou: — Estou em meu direito de te tratar e fazer contigo o que queira — disse, lhe mostrando a adaga que lhe tirou da bota. — Não o esqueça, tesouro. — Me dê minha adaga. — Não, agora não. Possivelmente mais tarde — respondeu ele, guardando-a junto à sua em seu cinto. Soltando-a como quem solta um fardo de feno, deixou-a partir justo no momento em que começava a chover. Com um frio sorriso, viu-a afastar-se furiosa e enfadada. Intuía que o amaldiçoava embora não a ouvisse. Nesse instante, Ewen chegou até ele.


— Meu senhor, acredito que deveria vir um momento. — Agora? — perguntou, incomodado. — Sim, agora — necessitava que visse o que acontecia entre seus homens. Niall, voltando-se para olhar a sua esposa, que desaparecia por trás de umas árvores, gritou: — Gillian, seja boa, e não te meta em problemas. A mulher parou e, de repente colocando as mãos nos quadris, disse zangada: — Não, tesouro, não se preocupe. Ao ver como se afastava a grandes passos, Niall suspirou. Levou a mecha de cabelo aos lábios e a beijou. Depois, guardou-o e partiu com o Ewen a ver seus homens.

Capítulo 27

Amaldiçoando como o pior dos guerreiros, Gillian se afastou. Precisava sentir o ar frio e a chuva em seu rosto para descobrir que estava acordada e o que escutou não era um pesadelo. Como podia esse asno tratá-la assim e, uma vez, em outros momentos, ser tão doce e arrebatador? Sentando-se no chão, sob uma enorme árvore, suspirou, e agarrando seu precioso cabelo, amaldiçoou ao ver o cabelo mal cortado e desigual. Soltando-o com raiva, pensou: "Estúpido!". Ele pretendia ter um filho com outra, humilhá-la e ainda por cima lhe obrigar a que o criasse. Nunca! E muito menos permitiria que a tratasse como ele pensava. Preferia a morte. Nesse momento, viu sair correndo de detrás de uns arbustos o Trevor e a Johanna, mas não viu a pequena Amanda. Isso estranhou, e durante uns instantes esperou que a pequena aparecesse. Entretanto, ao ver que não era assim, foi para os arbustos. — Amanda! — chamou Gillian, mas a menina não respondeu. De repente, ouviu um gemido não muito distante. Correu até a margem do rio, onde encontrou à pequena agarrada a um ramo dentro da água. Com rapidez, Gillian se meteu no rio e surpreendida viu como este a engolia. Era uma margem enganosa e à pequena devia ter acontecido o mesmo. Depois de tirar a cabeça da água, nadou até ela e, agarrando-a com força, sussurrou-lhe enquanto a beijava: — Docinho, não chore. Já estou aqui, e não vai te acontecer nada. — Minha espada — gemeu a pequena. Gillian olhou a seu redor e, ao ver que o brinquedo de madeira flutuava não muito longe delas, disse: — Olha, docinho. Está ali, a vê? Mas a menina fez beicinho. — A levou um dragão. Gillian sorriu. — Docinho, os dragões não existem. E antes que uma das duas pudesse se mover, sobressaltada, viu como um bicho se enrolava lentamente na espada e a afastava.


Assustada, Amanda soltou um uivo de pânico e, com rapidez, Gillian nadou para a margem. Uma vez ali, a puxou e, depois, saiu ela e a abraçou. — Já está, meu amor. Já está. — O dragão leva minha espada! — gritou Amanda. Te tranquilize, docinho. Esse bicho não nos fez nada — sussurrou, beijando-a com o pulso acelerado. — E pela espada não se preocupe. Estou segura de que mamãe ou papai lhe darão de presente outra e... — Mas essa era a espada do tio Zac. Eu quero minha espada! — soluçou a menina, que tentou lançar-se à água de novo. Gillian observou de novo a espada, que parecia flutuar. Odiava as serpentes. Sentia pânico. — Mamãe sempre diz que você é muito valente, mas eu não acreditarei se deixas que esse dragão leve minha espada. Por favor... não deixe que leve minha espadaaaaaaaaaaa. Gillian voltou a olhar para o rio, onde parecia que só flutuava a maldita espada. Nem louca! — Amanda, docinho, não tenho a aljava nem a adaga para matar ao dragão — explicou ouvindo os berros da menina. — Tampouco levo a espada para poder agarrar a tua do lago — mas ao ver o beicinho e os soluços da menina, assentiu: — De acordo, tentarei agarrar a maldita espadinha. Com cuidado, voltou a meter-se no rio. Mas a segurança a abandonou. Sem adaga nem espada, se a serpente a atacasse, não poderia defender-se. Sabia que sob a superfície aquela serpente aguardava a espreita e isso a fez estremecer. E se houvesse mais? — Amanda, não tenhas medo, docinho — gritou para infundir-se coragem. — Não, tia, não tenho — a pequena tiritou. — E você, tens medo do dragão? "OH, Deus! Sim. Se aparece uma serpente me acontece alguma coisa", pensou. — Não, docinho; nada me dá medo — disse muito a seu pesar. Cheia de terror, aproximou-se nadando até o brinquedo da menina. Nesse momento, notou que algo roçava suas pernas e, depois de fazer barulho com os braços e as mãos, sentiu um pequeno beliscão na coxa direita, mas continuou. Então percebeu que perdera sua tira do dedo. Seu anel de casada. E parando, procurou a seu redor. — Maldita seja, maldita seja! — vociferou, angustiada, porque, gostasse ou não de reconhecê-lo, aquela tira significava muito para ela. — O que te passa, tia? — perguntou a menina. — Ai, Amanda! Acabo de perder minha aliança de casamento. A pequena encolheu os ombros. — Não importa. Certamente que o tio Niall te compra outra. Gillian soprou. — OH, sim! Não duvido de que esse bufão me compre — sussurrou isso para que a menina não o ouvisse. Não vendo a tira por nenhum lado e com pressa por sair da água, com determinação agarrou a espada e nadou até onde a menina a esperava. Uma vez fora, respirou. Já não precisava temer a esse odioso réptil. A pequena Amanda, emocionada, equilibrou-se sobre ela para beijá-la e agarrar sua amada espada.


— Obrigada, tia Gillian. É a melhor. A mais valente. Mamãe tem razão. Com o coração a ponto de sair do peito pelo medo que passou, conseguiu sorrir, entretanto com pesar olhava seu dedo. Finalmente, pegou a pequena nos braços e, tiritando, retornou ao acampamento, onde Johanna gritou ao vê-las aparecer encharcadas. — Mamãe! Amanda tornou a cair ao rio. Megan se levantou de um pequeno tronco e, ao ver o aspecto de sua filha e sua amiga, correu para elas. Duncan, Niall e Lolach, que nesse momento conversavam, ao ouvir o grito da Johanna se voltaram, e com rapidez, Duncan foi em sua direção. Niall, ao ver sua mulher encharcada e com um jeito péssimo, seguiu a seu irmão, embora antes colheu um par de plaids para cobrir a aquelas duas descerebradas. — OH! Meu papai vai berrar. E mami tem cara de aborrecimento — cochichou Amanda em seu ouvido. — Me disse que não me aproximasse da água. — Não se preocupe, docinho — sussurrou Gillian, congelada. — Lhes direi que fui eu que caí e que você se lançou a me ajudar. — Que boa ideia! — sorriu a pequena, encantada. Megan parou ante elas com expressão séria e olhos risonhos. — Pode-se saber o que aconteceu para que tenham esse jeito as duas? — perguntou. Amanda se estreitou contra Gillian, e esta depois de suspirar, disse: — Megan, sou uma torpe! Caí ao rio e Amanda se lançou para me salvar. Sua amiga, comovida por aquela mentira, disse agarrando a sua pequena: — OH, minha menina! Mas que valente é. Amanda, feliz porque sua mãe acreditou naquilo, sorriu. — Sou uma guerreira, mami. — Ainda bem que estava ela ali — assentiu Gillian. — Se não estivesse, não sei o que teria feito. Obrigada, Amanda, és uma excelente resgatadora. Duncan e Niall chegaram até elas e ao ouvir o final, sorriram. A pequena disse: — Tio Niall, Gillian perdeu o anel de suas bodas, mas não a xingue, certo? Gillian amaldiçoou em silêncio, e Niall, ao recordar a tira de couro, sorriu para si, mas vozeou: — Como?! A menina, ao perceber o tom dele e a cara de desgosto da Gillian, disse lhe tocando a face com sua mão fria: — Tio, me olhe — ele a olhou. — Não se zangue com ela. Procurou-o na água fria muito tempo, mas não o encontrou. E, para que ela não chorasse, hei-lhe dito que você compraria outro mais bonito. — Precisa ser mais bonito? — brincou Niall. — OH, sim, tio! Gillian merece um anel de princesa. Os olhos de Niall se cruzaram com os de sua mulher, mas ela, ainda incomodada, os retirou. — Venham... venham... vão mudar de roupa as duas ou ainda pegam uma febre dos pulmões — disse Duncan. Em Gillian os dentes tocavam castanholas. Niall deu um plaid a Megan para que cobrisse à menina e outro a sua mulher. Gillian tomou a manta que Niall lhe oferecia, mas esteve a ponto de gritar quando escutou: — Mulher, que torpe é! — olhou-o furiosa. — Perder o anel que te dei de presente em


nossas bodas. Anda, toma sua adaga e vá pôr roupa seca. Tens pior aspecto que os selvagens de meus homens. Seu primeiro instinto foi lhe cravar a adaga que seu marido lhe acabava de devolver, mas se limitou a dizer: — Tentarei ser menos torpe, tesouro. Levantando o queixo, partiu. — Não acreditaste que Amanda salvou a Gillian, verdade? — sussurrou Duncan, divertido. Com uma careta nos lábios, Niall zombou, e fazendo sorrir a seu irmão, respondeu: — É óbvio que acreditei. Minha pequena sobrinha Amanda é uma grande guerreira.

Capítulo 28

A noite chegou. Como a chuva era muita, ao final tinham decidido não levantar o acampamento. As crianças revoavam ao redor da mesa e teve que ser Megan quem, zangando-se, conseguiu sentar aos três pequenos, que não paravam. Cris falava com Shelma quando viu aparecer a sua irmã Diane que, sem saudar ninguém, sentou-se à improvisada mesa. — É incrível a mudança que estão tendo seus guerreiros, Niall — lhe disse rindo Shelma, que observava a alguns deles. — Que arrumados são! — cochichou Megan, sentando-se enquanto via o Aslam passear com a Helena e seus filhos. Niall ainda não se repôs da impressão que teve quando foi com o Ewen até eles e os encontrou sem suas barbas nem seu rude aspecto feroz. Logo, seu exército de barbudos estava se convertendo em um punhado de highlanders preocupados com seu aspecto pessoal. Quando Niall perguntou o motivo daquela mudança e Donald lhe explicou que se devia aos sábios conselhos de sua mulher, blasfemou. Finalmente, acabou sorrindo. — Acredito com sinceridade, querido cunhado, que Duntulm se encherá de mulheres — lhe assegurou Megan. — Quando muitas das criadas casadoiras que conheço os virem, à bodas que vão se celebrar! — E de crianças que nascerão — zombou Duncan, lhe fazendo sorrir. — Por todos os Santos! — exclamou Cris ao fixar-se de novo no guerreiro. — Donald é muito agraciado. Quem poderia dizer que sob toda essa montanha de pelo apareceria um jovem tão varonil. — Em efeito...- assentiu Lolach. — Antes os conheciam como o exército dos selvagens e agora os conhecerão como o exército dos queridinhos. — Enquanto não percam sua dignidade pouco importa seu aspecto — apostilou Niall, incomodado ao ver que não aparecia Gillian. Onde estava? — Será um clã muito formoso, comandado por um laird muito bonito. Estou segura de que esquentarão muitos corações onde forem — acrescentou Diane, conseguindo que todos a olhassem.


Megan, surpreendida pela desfaçatez da jovem, soltou sem que pudesse evitá-lo: — OH, sim! Certamente Gillian tem razões para estar contentíssima. Ter um marido tão bonito e apaixonado por ela, e um exército de homens tão arrumados, que dariam sua vida, é para que lhe aqueça o coração, não acredita, Diane? Apesar de sentir-se irritada por como aquela deixou claro ante todos que Niall era da Gillian, Diane não respondeu. Duncan e Niall se olharam e sorriram. Megan defendia como ninguém a sua gente, e Gillian era sua gente. — Por certo, onde está Gillian? — perguntou Cris, estranhando de não vê-la ali. — Não a vi em toda a tarde — respondeu Shelma, sentando-se à mesa. — É verdade, depois de retornar encharcada com Amanda não tornei a ver — assegurou Megan. Niall, que estava a algum tempo pensando o mesmo, olhou ao Ewen. — Vá a minha tenda e diga a minha querida esposa que a estamos esperando — ordenou. O highlander partiu rapidamente. Niall, para dissimular sua impaciência por vê-la, bebeu de seu copo. Poucos instantes depois Ewen retornou. — Senhor, sua esposa me há dito que não se encontra bem, que a desculpem. Megan cruzou um olhar com sua irmã e, levantando-se, pôs em um prato um pouco de pão e queijo. — Levar-lhe-ei algo de comer. Duncan a deteve e, olhando a seu irmão, disse: — Niall, deveria levar algo de comer a sua esposa, não acredita? Incomodado por como todos o olhavam, e em especial pelo sorriso tolo de seu bom amigo Lolach, agarrou o prato que sua cunhada lhe estendia e partiu. Mal-humorado, dirigiu-se para onde estava sua mulher. Aquela caprichosa gostava de chamar a atenção, mas ele a trataria como merecia. Entretanto, ao aproximar-se da tenda e vê-la tão escura, se surpreendeu. Gillian odiava a escuridão. Abrindo o tecido, entrou, e quando seus olhos se acostumaram à escuridão, a viu. Se aproximou dela e deu com o pé no que ele pressupunha o traseiro. — Gillian, tesouro, o que se passa? — Sinto muito frio — respondeu com um fio de voz. — Mulher, é tão torpe que não resistirá muito em minhas terras — ela murmurou algo que ele não entendeu. — Diz que Diane é fraca por cravar um espinho em um dedo e choramingar. Mas o que devem pensar meus homens ao ver que você, a Desafiadora, está meio morta por ter frio? — Me deixe em paz, Niall — grunhiu ela sem forças. Mas ele não queria deixá-la em paz. Queria ouvi-la, e continuou: — Por certo, esposa, quando desejar propor mudanças entre meus homens, eu gostaria que antes falasse comigo. Ela não respondeu. — Maldita seja, Gillian! Como te ocorre lhes ordenar que se convertam em belos Adônis quando o que eu preciso são guerreiros ferozes que provoquem medo? Acaso não sabe que necessito highlanders aterradores para defender minhas terras?


Ao ver que ela ficava calada, estranhou, assim voltou a atacar: — Nunca imaginei que fosse tão fraca por um pouquinho de frio. — Não o sou. — OH, sim, sim que o é! Não tente negá-lo, garotinha malcriada. Sinceramente, acredito que está montando um novo numero dos teus porque ainda está doída pelas palavras que hoje te dediquei. Assume-o, Gillian. Em vão, esperou durante uns segundos alguma resposta. — Está me escutando? — Sim... sim... Dado o tom baixo de suas respostas, finalmente disse: — Deve comer. Te trouxe um pouco de pão e queijo. Te virá bem. Passados uns instantes, ela respondeu sem mover-se: — Não... não...posso.... Mas Niall não estava disposto a deixar que aquela caprichosa se saísse com a sua. Tudo era puro teatro. Estava zangada pelas coisas que lhe dissera e não pensava consentir nem um momento mais tão absurdo jogo. — Vamos ver, tesouro. Se antes que eu conte até três não te levanta, juro-te que o pagarás. Todos estão jantando, e a esperam. Acaso não percebe? — Não posso, Niall...Tenho... tenho muito fri... frio — sussurrou, desejosa de que a deixasse em paz. Não queria nem podia falar. Não tinha forças. Farto de tanta contemplação, aproximou-se às escuras até ela, descobriu-a, agarrou-a pelas axilas e a sentou. Esperou que lhe gritasse e esperneasse, mas ao ver que não fazia nada, aproximou a boca a seu ouvido e percebeu que tinha o cabelo encharcado, como se acabasse de sair do rio. Estranhando, tocou sua fronte e, ao notar a grande temperatura, a deitou. Ela não se moveu. Rapidamente agarrou uma vela, saiu até a fogueira mais próxima e a acendeu. Com passos decididos, entrou de novo na tenda e, ao vê-la feito um novelo, aproximou-lhe a luz. Ficou sem fala ao vê-la encharcada em suor, tremente e com uma estranha cor azulada no rosto. — Por todos os Santos, Gillian, o que te ocorre? Ela, como pôde, abriu os olhos. Estavam vazios e sem vida, e uns círculos negros os rodeavam. De pressa Niall saiu da tenda e, sem mover-se da entrada, chamou a gritos a sua cunhada. Megan se levantou como uma mola e, seguida por todos, correu para onde ele estava. — O que acontece? — Algo ocorre a Gillian — disse, desconcertado e sem saber o que fazer. Voltaram a entrar na tenda e, já com mais luz, todos ficaram sem fala ao ver a jovem tremer de uma maneira descontrolada. — Meu deus! O que lhe passa? — perguntou assustada Cris, enquanto sua irmã Diane, ao ver o rosto azulado da Gillian, abandonou a tenda com um dissimulado sorriso. — Vou pegar sua bolsa de ervas — se ofereceu Shelma com rapidez. Niall se agachou junto a sua tremente esposa e, levantando-a do chão, agarrou-a entre seus braços enquanto Megan se agachava junto a ele.


— Gillian, docinho, o que te passa? — interrogou-a Megan, lhe passando a mão pelo cabelo, incrédula de ver como suava e tremia. Ao ouvir sua voz, a jovem abriu os olhos, mas não disse nada. Só a olhou, e pouco depois se deprimiu. — O que te passa? — vociferou Niall, movendo a sua mulher. — Gillian, maldita seja, não me faça isto! Acorda. Mas Gillian não despertou. Estava sumida em um profundo sono, enquanto no acampamento, com o ocorrido, organizava-se uma boa agitação. Shelma entrou com rapidez na tenda com a bolsa das ervas, e Megan, olhando a seu marido e ao Lolach, pediu-lhes ajuda para que convencessem ao Niall de que soltasse a sua mulher. — Se não a soltas, pouco poderei fazer por ela — lhe assegurou Megan. — Por que está assim? O que lhe ocorre? — perguntou Niall, desesperado depois de deixar a sua jovem esposa sobre umas mantas com delicadeza. — Sabe se comeu algo que lhe tenha podido cair mal? — Não, não sei — sussurrou Niall. Não queria nem imaginar se ela tivesse provocado aquilo. Mas depois de pensar nas terríveis coisas que lhe disse, o imponente highlander tremeu ao recordar as palavras dela "Prefiro acabar com minha vida antes que você o faça". Se algo ocorria a ela por sua culpa, não se perdoaria enquanto vivesse.

Capítulo 29

Estavam angustiados atendendo a Gillian quando entraram as crianças. Rapidamente, Cris e Zac os levaram. — Não sei o que lhe pode acontecer — sussurrou Megan, desesperada. Louco de agitação por ela ter feito uma tolice, Niall ia dizer algo quando se abriu a cortina da tenda e apareceu Zac com a pequena Amanda nos braços. — Tira-a daqui agora mesmo — lhe ordenou Duncan ao ver sua filha olhar com cara de horror a Gillian. — Um momento — pediu o moço. E olhando a sua irmã disse: — Amanda acaba de me dizer que esta tarde, quando se meteu no rio para salvar a Gillian, na água havia um dragão. — OH, Deus! Tirem a menina daqui agora mesmo — gritou, desesperado, Niall. Adorava a sua sobrinha, mas não era momento de ouvir tolices. Os dragões não existiam. Entretanto, Shelma e Megan se olharam e com rapidez lhe perguntaram: — Docinho, recorda como era o dragão? A menina, assustada nos braços de Zac, assentiu. — Tinha a cabeça gorda e com raias laranja. — OH, Deus! — sussurrou Shelma, levando a mão ao rosto. Niall, sem entender a que se referiam as mulheres, olhou-as, e Megan, imediatamente, descobriu a jovem tremente e gritou: — Saiam todos daqui!


Duncan, ao detectar a urgência na voz de sua mulher, não perguntou e saiu junto a Lolach e outros. Na tenda só ficaram Shelma, Megan e Niall. Sem falar, as mulheres, ante os olhos incrédulos de Niall, começaram a despir a Gillian. — Mas o que estão fazendo? Vai pegar frio. Megan, enquanto desabotoava os laços do vestido de Gillian, disse-lhe: — Acredito que lhe mordeu uma serpente e devemos encontrar onde. Sem esperar um segundo mais, Niall as ajudou, explorando com atenção os braços, os cotovelos, as mãos... até que de repente Shelma gritou: — Aqui! Niall observou a torneada e esbelta coxa da Gillian e viu uma pequena marca vermelha que supurava um liquido dourado. — Irei pegar água quente — anunciou Shelma, e desapareceu. Megan, sem deixar de examinar a ferida, murmurou: — Me passe minha mochila. Preciso ver que tenho tudo o que preciso. Comovido pela quietude que apresentava sua mulher naquele instante, Niall entendeu as insônias de seu irmão quando sua cunhada Megan adoecia. Vê-la ali tombada e imóvel, quando Gillian era uma jovem ativa, divertida e guerreira, matava-o. De repente ela se moveu, e abrindo os olhos de repente, disse olhando a Megan: — Não deixe que se vão. — Tranquila, Gillian — sussurrou Megan, lhe secando a fronte. Mas ela voltou a gemer. — Não... que não se vão. Diga a mamãe que me dê um beijo. Niall, desconcertado, olhou a sua cunhada, e antes que ele dissesse algo lhe murmurou: — O veneno a está fazendo delirar. Não considere nada do que diga. — Papai, mamãe, não me deixem! — gritou Gillian, lhes pondo arrepios. Instantes depois, deu um grito horrorizado e também a gritos disse que seus pais tinham morrido. Quando Shelma entrou com um caldeirão cheio de água quente, Megan jogou umas diminutas sementes, umas ervas vermelhas e um pouco de casca de carvalho. Aquilo devia ferver durante um momento. — Ai, Megan! Estou assustada. Sua cor é muito fúnebre — sussurrou Shelma. Megan não respondeu. Seu cunhado a olhou em busca de respostas, mas ela não podia falar; estava terrivelmente assustada. O veneno percorreu pelo corpo de Gillian durante muito tempo e possivelmente fosse tarde. Nesse momento, Gillian se voltou para o Niall e lhe cravou seus olhos sem vida. — Niall... está aqui — murmurou ao reconhecê-lo. Sem lhe importar nada, exceto sua mulher, sorriu e se aproximou dela. — Claro, onde quer que esteja se não aqui? Ela pestanejava, e Niall pensou que ia perder a consciência, mas com seus impactantes olhos azuis fixos nele, inquiriu: — Segue gostando de meus beijos com barro? Então, as mulheres o olharam com vontades de chorar. Aquilo era uma anedota de quando eram crianças. Muito crianças. — É óbvio, docinho. Seus beijos com barro, ou sem ele, são os melhores que jamais recebi


— respondeu, lhe secando a fronte. Gillian sorriu, e com um fio de voz, perguntou: — Dar-me-ia um beijo agora? Sem pensar, aproximou seus lábios aos dela e a beijou, mas a quentura que sentiu nos abrasadores lábios da Gillian o matou. Estava ardendo, e embora sua cunhada não dissesse nada, via a preocupação em seus olhos. — Niall, me perdoe. Eu... eu às vezes... Não me troque por bolos de aveia... — Tranquila, docinho; não voltarei a te trocar — murmurou ele, lhe beijando a fronte. Levantando com debilidade a mão, a olhou, e com um gemido, soluçou: — Perdi meu horroroso anellllllllllllllllll. Sou uma torpe. Niall, engolindo suas emoções, acariciou-lhe o cabelo ensopado e, com uma ternura que fez que sua cunhada se emocionasse, sussurrou-lhe ao ouvido: — Me escute, Gata. Comprar-te-ei o anel mais bonito que jamais alguém teve, mas não quero verte chorar. É uma mulher forte, uma guerreira e não uma torpe mulher como afirmei esta tarde. Nada do que te hei dito o sentia, entendeste-me? Com um doce sorriso, ela voltou a fechar os olhos, e caiu de novo em um profundo e tormentoso sono. Shelma começou a chorar, e Duncan, que entrara segundos antes, depois de um olhar de sua mulher, agarrou a sua cunhada e, sem que esta pusesse resistência, tirou-a da tenda e a levou junto ao Lolach, que ao vê-la chorar daquela maneira pensou no pior, assim suspirou ao saber pelo Duncan que Gillian seguia viva. O tempo passava, e esta piorava. Nada podiam fazer, exceto rezar e esperar um milagre. Megan, consciente pelo que Niall estava passando, pensou por um momento como podia aliviá-lo, mas estava tão preocupada com a Gillian que mal podia pensar com clareza. — Niall, sai a estirar as pernas. — Não. Quero estar com ela — murmurou, lhe secando com um pano úmido o suor. Não pensava afastar-se de sua mulher. De sua Gillian. Sentia-se culpado pelo ocorrido, e embora sabia que a mordida era o que a mantinha naquele estado, culpava-se uma e outra vez. Queria estar com ela, a seu lado. Precisava agarrar a mão e tocar com delicadeza aquele perfeito e gracioso rosto, e pensar que tudo sairia bem. Gillian não podia morrer. Não podia desaparecer de sua vida. Mas Megan insistiu: — Escuta, Niall. Não pode ajudar em nada mais. Só precisa lhe fazer beber a beberagem. É necessário que a beberagem entre nela para que o veneno que se estendeu por seu corpo seja expulso, e precisa rezar para que o emplasto que pusemos absorva ao máximo o veneno concentrado que sem dúvida ainda há na ferida. Se o emplasto fica negro é que está funcionando. Mas pouco mais podemos fazer. E embora me doa na alma te dizer isto, devemos estar preparados se acontecer o pior. Niall negou com a cabeça e afirmou com a segurança de um guerreiro: — Melhorará. Gillian é forte e não se renderá. Com carinho, Megan tocou a face de seu cunhado e, com um triste sorriso, sussurrou-lhe, esgotada: — Niall... — Não, Megan — replicou este. — Gillian não morrerá. Não o vou permitir.


Depois de assentir, desfigurada e triste, Megan deu um beijo a Gillian na fronte e, olhando a seu cunhado, sussurrou-lhe enquanto se sentava a esperar no fundo da tenda: — Deus te ouça, Niall. Deus te ouça. Quando Megan se recostou, Niall se deitou junto a sua mulher. Nada podia fazer por ela exceto estar a seu lado e esperar. Por isso, conhecendo a alma guerreira dela, se aproximou e lhe murmurou ao ouvido: — Me escute, mulher malcriada e consentida, não te ocorra morrer para escapar de mim, porque te juro por minha vida que se o fizer te buscarei onde estiver, chegarei até ti, trar-te-ei de volta comigo, e Por Deus que me pagará isso. Ela se moveu, intranquila, e Niall suspirou, seguro de que o ouvira.

Capítulo 30

Durante aquela longa e tormentosa noite, obrigaram em várias ocasiões a Gillian a que bebesse aquela amarga e fedorenta poção. Não foi tarefa fácil. Ela, em seu delírio, empenhava-se mais em cuspir que em engolir, mas Niall não se rendeu. E com gesto feroz, embora estivesse exausto, ordenou-lhe que engolisse uma e outra vez, até que Megan lhe indicava que já podia parar. O emplasto que lhe puseram na picada parecia funcionar e, com o passar das horas, começou a obscurecer-se. Isso lhes alegrou. Ao amanhecer, Gillian continuava igual, mas viva. Duncan tentou tirar da tenda a sua mulher para que descansasse, mas esta se negou. Não se moveria dali até que Gillian estivesse a salvo. O mesmo se passou com o Niall. As longas horas do dia seguinte, Niall as passou olhando a sua inerte esposa, enquanto a consciência o atormentava por tudo o que lhe dissera. Como foi capaz de lhe dizer aquelas barbaridades? Com paciência, ajudou a uma extenuada Megan com a beberagem e, ao anoitecer do segundo dia, ambos relaxaram ao notar que a mulher cada vez delirava menos, a febre parecia remeter e deixava de tremer. Isso os animou. — Tinha razão, Niall — sorriu Megan, tirando o emplasto da coxa para colocar outro fresco e limpo. — Gillian é muito forte. — Lhe disse — sorriu o highlander pela primeira vez. Nesse momento se abriu o tecido da tenda e apareceu Duncan. — Trago-lhes algo de comer? — perguntou, consciente de que aqueles dois não se moveriam dali se a Gillian não estivesse à frente. — Não, docinho — suspirou Megan, levantando-se. — Leve-me a descansar um pouco, que estou esgotada. Niall pode ficar a sós com sua mulher. Acredito que o perigo já passou. — Desejo concedido, docinho — sussurrou Duncan, agarrando-a pela cintura. Com um sorriso na boca, o highlander piscou um olho a seu irmão, e este, com gesto fatigado, assentiu. Pegando a mão da Megan, a beijou e, antes que partisse, disse:


— Sabe que te adoro, verdade? Com carinho, ela se agachou e, lhe dando um beijo na face, respondeu: — Tanto como eu a ti, tolo. Duncan, emocionado pelo carinho verdadeiro que aqueles dois se professavam, sorriu e lhe sussurrou ao ouvido a sua mulher: — E me adora quanto, minha senhora? Sabendo que seu cunhado ainda os olhava e conhecendo o muito que gostava de ver seu marido sorrir, deu-lhe um suave beijo nos lábios e lhe indicou: — Te quero, adoro-te, amo-te e, em ocasiões, odeio-te. Que mais pode pedir, Falcão? Com uma gargalhada que encheu o coração da Megan, Duncan a tomou nos braços e a levou a sua tenda. Sua mulher precisava descansar, e ele, tê-la perto. Esgotado pelas horas transcorridas, mas feliz pela melhoria da Gillian, Niall se deitou a seu lado, e vigiando sua respiração, aproximou sua fronte à dela. — É uma autêntica McRae. Uma lutadora. E embora não voltarei a repetir estas palavras diante de ti, preciso te dizer que te quero mais que a minha vida porque sempre foste e serás meu único e verdadeiro amor. Instantes depois, esgotado, dormiu junto a ela. O terceiro dia amanheceu e com ele a atividade do acampamento. Todos estavam felizes por saber que a mulher do jovem laird McRae melhorava e se recuperaria: todos, exceto Diane, que amaldiçoou com raiva dentro de sua carroça. Niall despertou sobressaltado. Adormeceu. Com urgência observou a sua mulher, que parecia dormir placidamente. Comprovou que os escuros cercos negros que antes rodeavam seus olhos já não estavam. Seu bonito rosto voltava a ter uma cor normal e a febre desaparecera por completo. Feliz e motivado por aquela melhoria, descobriu a coxa dela, e ao ver o emplasto escurecido, fez o que Megan fizera antes. O tirou e com delicadeza pôs um novo. Sem que pudesse evitá-lo observou seu corpo suave e curvilíneo. Nunca a viu completamente nua e, com picardia, levantou um pouco mais a manta e soprou ao ver quão preciosa era. Ao notar como sua virilha endurecia ante aquele espetáculo, baixou a manta, beijou-a na fronte e se levantou. Decidiu sair da tenda. Precisava refrescar-se, ou era capaz de possuir a sua mulher apesar de estar naquele estado. Quando Niall abandonou a tenda, Gillian abriu com estupidez um olho e sorriu.

Capítulo 31

Dois dias depois, Gillian estava já quase recuperada e viajava recostada em uma das carroças, junto à Helena, que resultou ser uma encantadora e agradável companhia. Com curiosidade, Gillian observou a seus guerreiros. Aqueles toscos e barbudos homens começavam a deixar de sê-lo, e disso gostou. — Helena, o que pensa do Aslam? — perguntou ao ver como aquele feroz guerreiro


convertido em um Adônis se pavoneava sempre que podia ante a mulher para fazê-la rir. — É agradável, milady. Gillian, com comicidade, aproximou-se mais a ela e lhe cochichou ao ouvido: — Só agradável? Aquilo fez Helena rir. Ainda recordava o primeiro impacto que sofreu ao subir a aquela carroça e ver aquele gigante barbudo e peludo olhando-a. Temeu-o. — Milady, o que está querendo dizer? — inquiriu, ruborizada. — Helena... Helena... você me entende. A gargalhada desta fez que Aslam, que levava sobre seu cavalo a Demelza, a olhasse com cara de bobo e os outros highlanders zombassem dele. — Milady, entendo o que quer me dizer e só posso responder que ele é encantador com meus filhos e comigo, algo ao que não estamos acostumados. — Isso é magnífico, Helena — suspirou Gillian olhando as largas costas de seu marido. Nesses dias, depois do ocorrido, o trato entre o Niall e Gillian se relaxou. Ele tentava suavizar seus comentários mordazes, e ela o agradecia. Um pouco de paz, depois de vários dias de luta, era de agradecer, embora lhe custasse horrores conter seus impulsos assassinos cada vez que via a Diane cavalgar como uma louca para estar com ele. Circunspeto, Niall percebeu como seus homens mudavam dia a dia. Um após o outro tinham raspado as barbas e arrumaram o cabelo, inclusive tentavam não cuspir a cada momento, algo que as mulheres agradeceram até não poder mais e lhe agradou. Ver o rude do Aslam passeando ao anoitecer com um bebê nos braços e uma menina agarrada a sua outra mão era algo que Niall nunca esperava. Mas desde a chegada da Helena aquele tosco homem preferia uma boa conversa com ela sentado sob uma árvore a uma bebedeira com seus companheiros. Durante aqueles dias, e em seus momentos de ócio, com seu carinho e paciência, Gillian, ajudada por suas amigas e, em ocasiões, pela Helena, ensinou aos highlanders maneiras para cortejar às damas. Uma daquelas noites, Aslam deixou muito claro que Helena era coisa dele, e todos seus companheiros o respeitaram. E dia após dia, Niall percebeu que não só a sua vida mudava com a presença da Gillian, mas também a de todos. Quando a melhoria desta se fez notável, e sem entender por que, a rivalidade entre ambos retornou. Ele parecia incômodo em muitas ocasiões apesar de que ela tentava lhe agradar. O que não sabia Gillian era que Niall lutava única e exclusivamente contra si mesmo. Diante das pessoas mantinham as formas e o sorriso, mas assim que ficavam sozinhos na tenda pelas noites pouco lhes faltava para matarem-se a golpes de espada. Cada noite, Niall demorava tudo o que podia em ir dormir. E se entrava e notava que ela estava acordada, agarrava sua manta e se jogava o mais longe que podia dela. A tentação de sucumbir aos encantos de sua mulher cada vez era maior e só a podia refrear mostrando-se zangado e incomodado com ela. Gillian, em silêncio, sentia tal rechaço por parte dele que desejava que outra víbora a picasse, para que Niall se aproximasse e fosse amável. Mas calava-se e não dizia nada. Por sua parte, Niall mal descansava. Pensar que tinha a poucos metros à mulher que lhe


roubou a vida o estava matando. Adorava-a como nunca adoraria a nenhuma outra, mas não estava disposto a mostrá-lo. Ela não o merecia. Megan percebeu que algo acontecia. Mas depois de falar com o Duncan e ele lhe aconselhar que se mantivesse à margem, tentou não mediar naquela relação, embora não pôde evitar relatar a Gillian mil vezes com paixão como Niall a beijou desesperado quando ela estava delirando. Isso fazia sua cunhada sorrir, e ao princípio pensava que o que acreditava ter ouvido foi um sonho, cada dia estava mais segura de que certamente não era assim. A manhã em que Gillian teve que se despedir da Shelma, Trevor e Lolach se entristeceu. Tinham chegado ao ponto da viagem onde estes se desviavam para o Urquarq. Depois de muitos beijos e desejos de voltar a ver-se logo, prosseguiram seu caminho, e Gillian foi consciente de que logo ficaria a sós com o Niall. Aquela noite chegaram ao castelo do Eilean Doam, o precioso lar do Duncan, Megan e suas filhas. Ali, as aldeãs casadoiras, ao ver os bonitos homens do Niall, saudaram-nos com uns sorrisos e pestanejos que os deixaram deslocados. Foi tal o desconcerto dos homens ao comprovar como as mulheres decentes lhes sorriam que mal sabiam o que dizer, enquanto Gillian os olhava, assombrada. Como festejo por sua chegada ao Eilean Doam, as pessoas do castelo organizou um jantar de bem-vinda. Como era de esperar, Diane não acudiu. Preferiu ficar na habitação, desejosa de que amanhecesse para partir dali. Depois do jantar, os aldeãos começaram a tocar as bandurras 1 e as gaitas de fole, e com rapidez os aldeãos do Eilean Doam começaram a dançar. De sua posição, Gillian observou como aqueles toscos guerreiros de seu marido olhavam às criadas do lugar, mas não se atreviam a lhes dizer nada. Estavam tão acostumados a tratar com prostitutas que quando uma doce jovem os olhava ficavam vermelhos como tomates. "Vamos, moços, se lancem", pensou Gillian. Sentada junto a seu marido, seguia a conversa que este mantinha com o Duncan, mas seus olhos estavam sobre os rudes homens que com seus torpes movimentos lhe pediam ajuda. Megan, que também percebeu a situação, sorriu sem que pudesse evitar ao ver como algumas das mulheres que conhecia cochichavam sobre eles. Mas Gillian já não podia mais, e voltando-se para seu marido, que parecia tê-la esquecido, chamou-o: — Niall... Niall... — Me diga, Gillian — respondeu ele, olhando-a. — Importa-te se me levanto e danço com alguns de seus homens? Surpreso pela prudência que ela mostrava ao perguntar, observou-a com desconfiança enquanto ela seguia falando. — Todas essas jovens estão desejando dançar com eles, mas não sei o que acontece com esses estúpidos que nenhum se atreve a dançar. Niall desviou o olhar para seus homens e quase gargalhou ao ver as caras de palermas que punham. Uns pareciam cordeiros degolados por suas quedas de olhos e outros, highlanders 1

Espécie de bandolim de braço curto e de muitas cordas


zangados e a ponto de desembainhar a espada. Finalmente, sentiu-se incapaz de negar aquilo a sua mulher, assim que a olhou e, perto de seu ouvido, sussurrou-lhe: — Não estão acostumados a tratar com mulheres decentes, à exceção de vocês, e acredito que isso é o que os está assustando. Aquela confidência fez Gillian sorrir, que, divertida, comentou: — Contempla a cara do Kennet... Por todos os Santos, Niall, está ficando vesgo! Niall sorriu e, seguindo o jogo, acrescentou: — Ao pobre do Johan parece que o cravaram à parede. — OH, Deus! Pobrezinho! — gargalhou Gillian, tampando a boca com a mão se escondendo por trás de seu marido. Niall gostou daquele grau de cumplicidade e confiança, que, sempre que se deixava levar, desfrutava de cada momento de sua proximidade. Vê-la rir daquela forma contra seu ombro era um bálsamo muito delicioso para deixá-lo escapar; por isso, preferiu seguir divertindo-se durante um momento, até que finalmente entendeu que seus homens necessitavam ajuda. — Tem razão. Acredito que se danças com algum deles, o resto se animará a dançar. — Sim, acredito que será a melhor opção — assentiu Gillian, que ao tentar se levantar notou como Niall a obrigava a se sentar de novo. — Em troca, exijo-te um beijo. Ao ver que ela o olhava surpreendida, o highlander esclareceu: — Quero que todos vejam que se vais dançar com meus homens é com meu bom prazer. Com olhar zombador, esta se aproximou, e depois de lhe dar um doce mas curto beijo nos lábios, perguntou-lhe ao separar-se: — Contente? — Não — sussurrou ele. E com uma intensidade que fez que o sangue de Gillian se esquentasse, Niall afundou a mão em seu frondoso cabelo, imobilizou-a e lhe deu um implacável beijo, de modo que ambos vibraram de autêntica paixão. Uma vez que se separaram, olhou a sua mulher, afligido pela intensidade daquele curto beijo. — Agora já pode dançar com meus homens. "Ai, Deus!, não sei se poderei", pensou ela, mas ao final se levantou. — De acordo. Como se flutuasse sumida em seus pensamentos, antes de chegar até os homens de seu marido, aproximou-se de uma das mesas laterais, onde as criadas tinham posto bebidas frescas. Com a boca seca e o coração disparado, agarrou uma caneca e a encheu de cerveja. Céu santo! Cada vez que a tocava a fazia arder. Aquele beijo abrasador a deixou seca e com as pernas tão frouxas que pareciam de farinha. Voltando-se para seu marido, olhou-o com dissimulação e se alegrou de que ele estivesse falando com seu irmão. Megan contemplou, divertida, o aquecimento da Gillian depois de dar um beijo em seu marido, e animou a Cris para que ambas se unissem ao baile. — Vá, vá! É paixão o que vejo em seus olhos? — perguntou Megan. — Hum... eu acredito que é desejo, exaltação, fogosidade... -apostilou Cris.


Engasgou-se com seus comentários e tossiu parte da cerveja em cima. "Deus! Tanto se nota?", pensou, mas depois de sorrir e ver suas caras alegres, deixou a caneca sobre a mesa e disse, olhando aos guerreiros: — Anda, deixa de tolices e convidemos a esses brutos a dançar. Necessitam-nos. Gillian sugeriu a Helena que tirasse a dançar ao Aslam, enquanto elas se dirigiram a Donald, Kennet e Caleb. Essa foi a primeira dança de muitas naquela noite. De madrugada, quando as mulheres decidiram partir a descansar a seus quartos, Gillian observou que seu marido a olhava com uma intensidade transbordante. Isso a pôs nervosa. Uma vez que chegou ao quarto, trocou de roupa e, ansiosa, esperou sua companhia. Mas, para seu desconcerto, o tempo passou e ele não apareceu. Finalmente, com tristeza, dormiu.

Capítulo 32

À manhã seguinte, a viagem continuou para o Skye a bordo de uma enorme barcaça. Gillian, com lágrimas nos olhos, mas consolada pela Cris, se despediu da Megan e as meninas, que com um sorriso na boca moviam suas mãos e lhe gritavam que logo a iriam visitar. Niall, ao ver os olhos chorosos de sua mulher, sentiu desejos de abraça-la, mas não se aproximou. A noite anterior, apesar de ter ido em várias ocasiões até a porta de seu quarto, ao final não entrou. Depois de desembarcar no porto de Portree, entravam na ilha do Skye, e pouco a pouco o caminho se tornou estreito e lamacento. Tudo era selvagem e estranhamente virgem, nem sequer foi explorado pelos escoceses. Gillian olhou tudo com curiosidade. Aquela paisagem brusca era muito abrupta para o que ela estava acostumada. Como era de esperar, Diane não parou de protestar da carroça. Sem afastar-se da Gillian, Cris foi comentando curiosidades do lugar. Isso amenizou a viagem já que Niall, de novo, nem a olhava. Como podia tê-la beijado na festa da noite anterior com aquela paixão, e em seguida não lhe fazer caso? Estava enredada em seus pensamentos quando divisaram uma grande pedra bruta. Ao ver que ela o olhava com surpresa, Cris lhe explicou que a aquela enorme pedra os aldeãos chamavam Storn. Depois de baixar uma escarpada colina, apareceram ante eles vários homens a cavalo. Nesse momento, Gillian ouviu a Cris blasfemar. — Que se passa, Cris? Com expressão sombria e entre dentes, esta respondeu: — Problemas. Assombrada, Gillian olhou aos guerreiros que se erguiam diante deles. Isso a esticou. Niall, que ia na cabeça com o Ewen, levantou sua mão e ordenou a seus homens que se detivessem. — Maldito seja! — grunhiu Cris sem mover-se de seu lado, reconhecendo aos dois homens que se aproximavam. — Quem são esses? — perguntou Gillian ao notá-la nervosa. — O laird Connors McDougall e o insuportável de seu filho, Brendan.


"McDougall, como eu," pensou Gillian. Com curiosidade, mas com os olhos alerta, observou como Niall desmontava do cavalo e saudava aqueles que, como ele, haviam desmontado dos cavalos. Pareciam conhecer-se e levar-se bem. Então, Niall disse algo ao Ewen, e este se encaminhou para ela. — Milady, vosso marido a requer. Deseja lhe apresentar aos McDougall. — Oh, que excitante! — zombou Cris. Ewen sorriu, mas com um movimento de cabeça lhe ordenou calma. Ela, assentindo obedeceu. — Pois se me quer apresentar, não direi que não — disse Gillian, que olhando a Cris, perguntou: — Vem comigo? — Não, Gillian. Eu não me aproximo desses McDougall nem que esteja me afogando. Apesar de que a resposta da Cris a pegou de surpresa, Gillian esporeou o cavalo e, depois de uma pequena galopada, chegou até onde eles estavam. Sem esperar a que seu marido a ajudasse a desmontar, apeou e se aproximou dos homens, que cravaram seus olhos nos claros olhos dela. Niall, agarrando-a com posse pela cintura, a aproximou dele. — Gillian, te apresento ao Connors e Brendan McDougall — ela sorriu, e Niall prosseguiu: — Connors é o laird dos McDougall do Skye e Brendan é seu filho. — Encantada de conhecê-los — assentiu, mas aqueles ferozes guerreiros a olharam de cima abaixo de uma maneira que fez que ela se alertasse. O primeiro que se aproximou foi Connors, o mais velho, um homem alto, de barba loura, olhos frios e grandes sobrancelhas, que olhando-a de sua enorme altura disse: — É um prazer conhecer-vos, milady. Quando Niall nos disse que havia desposado não o acreditei. Mas ao ver sua beleza o invejo. — Obrigado pela adulação — respondeu Niall ainda segurando-a com força. Então, chegou o turno ao mais jovem. Era tão alto como Niall, e a diferença de seu pai, seus olhos denotavam calidez; sem engano, sua voz ao saudá-la soou fria e carregada de ironia. — Alegra-me saber que meu amigo Niall contraiu matrimônio com uma bonita mulher, embora não compartilho seu péssimo gosto para escolher companheira. — Brendan! — bramou Niall, que tirou sua espada. Gillian ouviu o som do aço. Viu desembainhar as espadas a todos os homens de seu marido e depois a outros. — Não vou permitir que seja descortês com minha mulher, Brendan. Exijo suas desculpas imediatamente. — Como te atreve a trazer uma McDougall do Dunstaffnage ao Skye? — vociferou o jovem. — Acaso não sabia o que isto ia provocar? Gillian, ao ver a tensão no corpo do Niall enquanto a escondia detrás dele, ia dizer algo quando o ouviu chiar: — Quando cheguei aqui faz anos lhes deixei muito claro a vós e aos McLeod que eu, Niall McRae, sou homem de escolher minhas próprias amizades, e muito mais a minha mulher. Ninguém nunca me dirá com quem devo lutar nem confraternizar. Há entendido Brendan? O mais velho, vendo a ferocidade nos olhos do Niall, exigiu a seu filho: — Peça desculpas à mulher do Niall agora mesmo.


Mas o jovem, rebelando-se, gritou olhando a Gillian: — Pai, como pode consentir que a neta de uma suja inglesa pise em nossas terras? Ouvindo aquilo, Gillian entendeu tudo, e desfazendo-se do braço protetor de seu marido, se plantou ante aquele homem e se ergueu tudo o que pôde. — Se voltar a falar de minha avó nesses termos, maldita besta — gritou, — te verá comigo. Ninguém insulta a minha família estando eu diante, há-me entendido McDougall do Skye? Brendan sorriu. — Do que ri, animal? — vociferou. Atônito, Niall agarrou pelo braço a sua mulher para que ficasse quieta e não atasse mais as coisas, e embora ela resistisse, voltou a colocá-la atrás dele. — Gillian, fecha a boca; ordeno-lhe isso. Connors McDougall, surpreendido por como aquela pequena mulher os havia encarado, olhou ao Niall e disse: — Hei, McRae, tua esposa tem caráter. Niall ia responder, mas Gillian, ainda detrás dele, se adiantou: — Oh, sim! Não o duvidem. Me tentem e me conhecerão. Voltando-se de novo para ela, Niall lhe cravou seu olhar mais sanguinário, e Gillian soprou. — Certo, o sinto, fecharei a boca. Brendan, ao sentir o olhar de seu pai ,quando Niall se virou de novo para eles disse: — Desculpa meu atrevimento. — e movendo-se para um lado para ver o olhar carrancudo da mulher, repetiu: — Milady, desculpe minhas palavras. Niall guardou sua espada, e seus homens fizeram o mesmo. Se voltou para sua ofuscada mulher e, depois de lhe indicar que não abrisse a boca, a agarrou pela cintura e a levantou até a sela. — Gillian, despede-te e retorna imediatamente com meus homens — lhe ordenou. Ela obrigou ao animal a dar a volta e, com a fúria nos olhos, se colocou em seu lugar de novo. Quando chegou até a Cris, que foi testemunha da cena, amaldiçoo: — Maldito estúpido esse Brendan McDougall! Com um sorriso, Cris assentiu: — Totalmente de acordo contigo. É um estúpido em toda regra! — Juro-te que o teria pegado pelo pescoço e... — Relaxa-te, Gillian — sussurrou Cris enquanto observava como os McDougall de Skye partiam e Niall montava em seu cavalo. — Não merece a pena; me acredite. Furiosa, Gillian continuou o caminho, até que pouco a pouco e graças às divertidas ocorrências da Cris relaxou. Ao anoitecer, avistaram uma fortaleza. Era a fortaleza do Dunvengan, propriedade dos McLeod. Cris, Diane e sua sofrida criada ficariam ali. Aproximando-se, Gillian olhou o castelo e um arrepio lhe percorreu o corpo ao sentir sua tristeza. Aquele lugar, visto sem a luz do dia, tinha um aspecto lúgubre, fantasmagórico. Nada que ver com seu precioso castelo do Dunstaffnage. Niall aproximando-se lhe perguntou: — A que se deve esse gesto? Surpreendida por sua proximidade, e em especial pelo o que disse, contestou: — Que lugar mais triste! Sua visão me deu arrepios.


Niall sorriu. Ela teve a mesma percepção do lugar que ele teve quando o viu pela primeira vez. Mas sem dar explicações, lhe indicou: — Te prepare. Jesse McLeod, o pai da Cris e Diane, organiza umas festas fantásticas. Conhecendo-o e sabendo de nossa chegada, seguro que algo terá planejado. Depois de descer por uma pequena lomba, tomaram um caminho que os levou diretamente até os portões do castelo do Dunnotar. Gillian olhou para os homens de seu marido e, com um sorriso, comprovou como as aldeãs sorriam, então eles com galanteria inclinavam a cabeça ao passarem. "Bem meninos, bem..." pensou orgulhosa deles. Quando chegaram a um pátio quadrado e iluminado com centenas de tochas, um homem grande e com uma barba ruiva abundante saiu a recebê-los. — McRae! Bem-vindo. "Outro barbudo," se disse Gillian. O homem olhou a Diane, que se empenhou em fazer o último trecho do caminho sobre um bonito cavalo escuro. — Diane, docinho meu, por fim retornaste. — Sim, pai, retornei a meu lar — suspirou ela com doçura. Ao sentir-se ignorada, Cris, depois de piscar um olho com cumplicidade a Gillian, disse: — Olá, pai, eu também retornei. O homem a olhou, e assentiu com um sorriso, voltou a olhar com olhos de apaixonado a sua doce Diane. Incrédula por aquela indiferença, Gillian olhou a sua jovem amiga, e Cris, aproximando seu cavalo ao dela, murmurou: — Como te terá dado conta, em meu próprio lar, ante a beleza de minha perfeita irmã, sou invisível. Instantes depois, uma mulher de cabelo loiro e vestido reluzente saiu pela porta e gritou enquanto Niall, com um encantador sorriso, desmontava de seu cavalo. — Onde está minha preciosa filha? — Aqui, mãe — gritou Diane como se fosse uma menina. Gillian, estupefata pela indiferença que mostravam para a boa da Cris, ia dizer algo, mas ficou sem palavras ao ver que seu bonito marido ajudava primeiro a Diane a desmontar de seu cavalo. Indignada, viu como ela se jogava em cima e o olhava nos olhos. "Deus, dá-me forças, ou sou capaz de lhe lançar a adaga a cabeça," pensou Gillian cada vez mais ofendida. — Argh! Minha irmã se supera dia a dia, e seu marido é mais parvo do que eu pensava — zombou Cris, desmontando sozinha de seu cavalo. Incomodada por aquela representação, Gillian desmontou de seu cavalo, e antes que seu marido a olhasse, estava a seu lado com um sedutor, mas frio sorriso. O barbudo, depois de beijar primeiro a Diane e logo a Cris, a olhou e perguntou: — E esta encantadora jovem, quem é? "A que quer arrancar os olhos a sua preciosa Diane," se disse Gillian. Niall a agarrou pela cintura para atraí-la para ele e anunciou com tranquilidade na voz:


— Jesse McLeod, te apresento a lady Gillian McRae, minha mulher. Era a primeira vez que escutava ao Niall apresentá-la por aquele nome e sentiu arrepios. Inclusive parecia que ele se enchia de orgulho. — Casou-se, Niall? — perguntou a mulher, surpreendida. Diane, com uma careta caprichosa, olhou a sua mãe e assentiu. — Oh! Por Deus! — murmurou a mulher, perturbada. Gillian, ao pressentir a recriminação na voz da mulher que abraçava a Diane, quis falar, mas Cris se adiantou: — Sim, madrasta — esclareceu Cris, olhando-a com dureza. — Niall casou com a Gillian, uma maravilhosa mulher que para minha sorte caça e usa a espada como eu. Por tanto, a partir de agora terá que procurar outro candidato para sua preciosa e encantada Diane. — Christine! — bramou Jesse. Mas Cris, depois de pestanejar com graça a seu pai, o fez sorrir para desagrado das outras duas. Cada vez mais pasmada, Gillian olhou a seu marido, que permanecia impassível sem mover um só músculo do rosto. Depois daquele maravilhoso recebimento, Cris entrou no interior do castelo enquanto Diane e sua mãe a seguiam com tristeza no olhar. Jesse McLeod, depois de suspirar, os convidou a entrar em seu lar. A partir desse instante, Niall não a soltou.

Capítulo 33

Como bem havia dito Niall, os McLeod organizaram um grande banquete, seguido de uma estupenda festa. Durante a mesma, os homens do Niall dançaram e riram com as mulheres da aldeia. Donald, em um momento da celebração, atraiu a atenção de Gillian, e com dissimulação, assinalou a uma jovem loira, um pouco roliça, mas com uma preciosa cara angélica. "Ah, Donald! Essa deve ser sua Rosemary", pensou Gillian, sorrindo. Por gestos, animou-o a que se aproximasse. Vermelho como um tomate, o highlander concordou. Ao chegar até ela, pegou sua mão e, depois de beijá-la com delicadeza, começou a falar. Feliz por aquele ganho, Gillian quis aplaudir, mas se conteve. Aquela noite, entre cerveja e cerveja, Niall voltou a perceber como seus homens procuravam continuamente a aprovação de sua mulher cada vez que se aproximavam de alguma criada. E isso o encheu de orgulho. Aqueles brutos começavam a querê-la. Durante a velada, Niall não consentiu separar-se da Gillian nem um só instante, e quando outros homens lhe pediram permissão para dançar com ela, nem sempre aceitou. Só a deixou dançar com os homens de seu clã. — Por que não posso dançar esta dança? — perguntou ela, aproximando-se dele enquanto enchia sua taça de prata de cerveja. — Deve descansar — lhe disse com seriedade enquanto observava a outros dançar.


Mas adorava aquela dança, e ao ver a Cris dançando, invejou-a. — OH, venha! Encontro-me perfeitamente bem. Não estou cansada. — Não, não dançará. — Mas... Sem deixar de olhá-la, o highlander torceu a boca e lhe sussurrou ao ouvido: — Hei dito que não, e não quero voltar a repeti-lo... tesouro. Incomodada, Gillian deu uma furiosa pancada no chão, que com má sorte tocou sem querer a perna do Niall. Então, ele, como resposta, moveu a propósito o braço e a golpeou nas costas. Em Gillian se ascenderam os olhos em busca de vingança, assim moveu a mão sobre a mesa e a taça cheia de cerveja caiu sobre seu marido. Este, ao notar que se molhava, tornou-se para trás, e ela ficou livre de sua mão e conseguiu escapar. Zangado pela atitude de sua mulher, mas sabendo que não podia sair ante todos e arrancá-la da mão do guerreiro que dançava com ela, com o rosto sério a vigiou, e resmungou quando lhe piscou um olho e lhe sorriu de um modo indecoroso. Gillian conhecia seu potencial quando dançava. Sempre a elogiaram por sua graça ao mover-se, e com o olhar cravado em seu marido, começou a fazê-lo. Seu desejo por ele crescia a cada instante, e ver como o olhavam as mulheres daquele castelo lhe fez entender que compartilhou o leito com muitas delas, algo que não estava disposta a permitir, e menos ainda estando ela presente. Com graça girou sobre si mesma, e quando voltou a olhar a seu marido viu que este falava com a Diane, que aproveitando que ela se levantou, sentou-se em seu lugar. "OH, Diane! Minha paciência contigo está chegando a seu limite", pensou lhe cravando o olhar. Niall voltou a olhar a sua mulher. Não lhe fazia graça que ela dançasse com outro, e se surpreendeu ao ver o olhar assassino que ela cravava na Diane. E recordou a advertência do Duncan: "Tome cuidado porque, conhecendo a Gillian, ao final terá problemas". Divertido pelo muito que lhe revelava aquele gesto, dedicou um incitante sorriso à filha do McLeod, o que fez que Gillian perdesse um passo e quase caísse. Consciente do sorriso de seu marido, amaldiçoou em silêncio e, aproximando-se de seu acompanhante lhe falou ao ouvido, e este sorriu. Aquilo fez que Niall deixasse de sorrir como um parvo e voltasse a fixar-se nela. Contente, e quando acreditava que conseguiu captar toda a atenção de seu bonito marido, uma nova mulher, voluptuosa e de grandes seios, levou-lhe uma caneca fresca de cerveja. Niall, encantado, dedicou-lhe um de seus maravilhosos sorrisos, e a prostituta partiu, embora da esquina se voltou para olhá-lo e lhe atirar um beijo. "Não pode ser. Mais competição?" perguntou-se Gillian a ponto de saltar sobre ela. Quando olhou de novo a seu marido, este, com expressão nada inocente, encolheu os ombros. Incomodada, Gillian tirou a caneca de seu acompanhante e depois de dar um bom gole, que alguns guerreiros aclamaram com escândalo, a devolveu ao guerreiro e com um olhar nada inocente contemplou a seu carrancudo marido e, encolhendo os ombros, sorriu. Niall, com semblante sério e depois de um movimento de queixo indicou-lhe que voltasse junto a ele, mas ela continuou dançando. "Não, McRae... não irei."


Nesse momento Diane posou sua mão no ombro dele e Niall, aproveitando a proximidade, disse-lhe algo ao ouvido, e aquela boba com uma sensualidade que deixou atordoada a Gillian, ruborizou-se. Com a boca aberta estava quando seu marido voltou de novo seus inquietantes olhos para ela e gargalhou. "Se quer guerra, McRae, a terá." Disposta a que fosse ele quem a observasse, Gillian dançou uma dança atrás da outra ante o desconforto de seu marido que se movia nervoso em sua cadeira, enquanto era testemunha de como os guerreiros do clã McLeod a olhavam com luxúria. A meia-noite, esgotada e com uma dor nos pés infernal de tanto dançar, ao ver que Niall falava com o Ewen, deslizou e se aproximou até uma das longas mesas para beber algo fresco. "Ue, ue! Acredito que pela primeira vez em minha vida estou um pouco bêbada", pensou ao sentir que o chão se movia. Tinha sede. Sentia a boca seca como uma parte de casca de carvalho, e depois de ver que não havia nenhuma jarra de água, optou por encher uma nova caneca de cerveja. — Eu adoro ver como dança — disse uma divertida Cris, — não como o pato da Diane, que parece ter três pés em vez de dois. Isso a fez rir e olhando a jovem, que cochichava junto a sua mãe, perguntou: — Ouça, Cris, a relação com sua madrasta não é muito boa, verdade? — É péssima — assentiu. — Meu pai era viúvo quando conheceu a Mery. Eu tinha sete anos, e até esse momento era sua vida, sua luz e seus olhos. Ele me ensinou a montar e a caçar, mas quando uniu sua vida a essa bruxa, tudo mudou. Se meu pai saía a sós comigo a caçar, lhe reprovava que não a queria, e assim com tudo. Logo, nasceu Diane. — E com zomba acrescentou: — A luz e beleza de suas vidas! E Mery soube fazer meu pai ver que a delicadeza de minha irmã era mil vezes mais recomendável para uma dama que minha brutalidade. Os anos passaram, Diane cada vez se tornou mais bela, mais caprichosa e delicada, e eu, o que vê. — Eu vejo em ti uma preciosa e valorosa moça que saberia levar adiante a seu clã — esclareceu Gillian, — enquanto que sua irmã não saberia nada mais que dar problemas. Isso é o que vejo. Comovida por essas palavras, a jovem sorriu. — Obrigada, Gillian. Nunca imaginará o que me alegra te haver conhecido — e encolhendo os ombros, disse: — Para meu pai sou o mais parecido ao filho que nunca teve. Para minha madrasta, sou a filha que nunca deve existir, e para a Diane, sou a horrível irmã que uma moça fina como ela não deveria ter. — Ora, não importa! — Estalou a língua. — Ai, Cris! Acredito que bebi muito; sinto-me um pouco enjoada. Depois de soltar uma gargalhada, Cris a agarrou pelo braço e a levou perto de uma grande janela. O ar frio lhes viria bem a ambas. — OH, Deus! Tudo começa a dar voltas — sussurrou Gillian, fechando os olhos. Ao abri-los viu que Diane e sua mãe conversavam nesse momento com o Niall. Cris, ao comprovar para onde olhava sua amiga, sussurrou-lhe, divertida: — Nem se preocupe. Seu bonito marido nunca quis saber nada dela.


Gillian sorriu, e depois de beber outro bom gole de cerveja, disse: — Entre você e eu, Cris, espero não ter que arrancar os cabelos da cabeça da sua preciosa irmã, um a um; embora vontades não me faltam. — OH, Gillian! Eu estaria encantada de te ajudar. As jovens soltaram uma gargalhada tão forte que todo mundo as olhou. — Cris, pensa que meu marido é um homem arrumado? — perguntou, dando um novo sorvo a sua bebida. — OH, sim! Sem dúvida, Gillian — e lhe tirando a taça para beber ela, respondeu: — Tem um marido muito arrumado, embora particularmente não é meu tipo de homem. Então, Gillian recordou algo. — Por certo, querida amiga, recordo que no Dunstaffnage me disse que em sua terra existia alguém especial e que, chegado o momento, contar-me-ia isso. Ruborizando-se como nunca a tinha visto, Cris assentiu. — Apresentar-lhe-ei, chegado o momento. — Trapaceira! — Só te adiantarei que quando me beija... passeio com as estrelas. Levando as mãos à cabeça, Gillian disse em tom de zomba: — Christine McLeod, como pode ter provado os beijos de um homem sem estar desposada. É a vergonha de sua família. Descarada! Soltando uma escandalosa gargalhada, conseguiram outra vez que todos as olhassem. — Por todos os Santos! Se Niall se der conta de que estou ébria me matará — balbuciou Gillian, tampando-a boca. Mas este, depois de avaliar seus descontrolados movimentos, intuiu o que acontecia, e levantando-se para desgosto da Diane, caminhou para sua mulher. — OH, OH! Dissimula, que vem o que te matará — zombou Cris. O highlander, uma vez que chegou até elas, observou-as. E ao ver as cores nas faces, disse, puxando-a para a escada: — É tarde, Gillian. Acabou-se a festa por hoje. Cris, vá a seu quarto antes que sua madrasta te veja nestas condições. Sem que pudesse soltar-se de seu braço, Gillian tentou andar ao ritmo que seu marido lhe impunha. Quando começou a subir os degraus, tropeçou, e se não tivesse sido porque Niall a segurava, teria rolado pela escada. — Quer fazer o favor de olhar por onde vai? — grunhiu Niall, mas ao observá-la e ouvir sua resposta teve que sorrir. — Augh! Niall, não corra tanto. Os degraus não deixam de aumentar. Ele se recreou em seu sorriso ébrio, e ela, flutuando como em uma nuvem, encolheu os ombros e lhe cochichou: — Sabe que as mulheres pensam que meu marido é muito bonito? — O que pensem as mulheres é algo que não me importa. Mas Gillian, o empurrando contra a parede, subiu dois degraus para estar a sua altura, e aproximando sua boca a dele, sussurrou: — Eu gosto muito que meu marido seja bonito. — Ah! Alegra-me sabê-lo — esclareceu, retirando o cabelo do rosto.


— Mas devo te dizer, querido marido, que como me agrada que seja bonito, odeio que as mulheres o olhem. E acredito que se continuássemos mais dias com a simples e bonita da Diane, teria um grave problema. Sem afastar-se dela, Niall perguntou: — Ah, sim? Que problema? Ela soprou para tirar uma mecha que lhe caía por cima dos olhos. — Terminaria matando-a por querer apropriar-se do que é meu — respondeu. E lhe beijando com estupidez nos lábios, sussurrou: — E você não o esqueça, é meu. Escutar aquilo o agradou. Era a primeira vez que ela falava corretamente e admitia que ele era seu marido. — Uf! Por são Ninian, que calor! Ela abanou-se com uma mão, enquanto que com a outra levantava o cabelo para deixar passar o ar. Agradado pela quantidade de coisas que sua esposa estava lhe revelando, lhe desenhou um sorriso na cara, e a voltou a beijar: — Ai! Volta -me louca quando sorri... Mas que bonito... éssssssss! Cada vez mais surpreso pela conversa da Gillian, perguntou-lhe: — O que bebeste? Ante aquela pergunta, ela se tornou para trás e gritou: — Tenho mau sabor na boca?! — Não, Gillian, sabe muito bem. Mas ela não o ouviu e, com gestos cômicos, levou as mãos à boca e começou a cheirar o próprio fôlego. Com expressão horrorizada, olhou-o e sussurrou: — Argh! Que asco! Cheiro como as cavalariças do Dunstaffnage. Consciente de que sua mulher precisava dormir, agarrou-a entre seus fortes braços e subiu até um dos quartos, enquanto sorria pelos tolos comentários dela em referência a tudo o que cruzava. Uma vez que chegou até ao quarto que Mery, a mãe da Diane, lhe indicou que usasse, abriu a porta e entrou com Gillian. — Vaaaaaaaaa... que lugar mais fastuoso! Seu lar é tão primoroso como este? — Não, Gillian, acredito que não — respondeu rindo. Sem deixar de sorrir, soltou-a com cuidado sobre a cama para que dormisse, mas Gillian, agarrando-se a seu pescoço, fê-lo tropeçar e cair em cima dela. — Niall, me esmaga! — Não estranhe, você está me puxando — se queixou ele enquanto punha as mãos sobre o leito para tentar levantar-se. Mas Gillian não o deixou. E fixando os amendoados olhos castanhos sobre ela, Niall lhe sussurrou a escassa distância de sua boca: — Acredito que é melhor que me solte, Gillian. Não está em condições de... Não pôde terminar a frase, porque ela se ergueu e o beijou. Tomou seus lábios e, com deleite, mordeu-lhe o inferior com tal agitação que ao final ele respondeu. Sentiu tal chama de emoções que deixou cair de novo seu corpo sobre o dela, mas fazendo-a rodar na cama a colocou em cima dele. Não a queria esmagar.


Gillian, com expressão brincalhona, agachou-se e começou primeiro a lhe passar a língua pelo pescoço, para logo lhe repartir doces beijos no rosto e nos lábios, enquanto ele tentava manter o controle. "Não, agora não", pensou o highlander enquanto ela o beijava. Não queria que fosse desse modo. Ela merecia algo melhor. Se fizesse amor estando ébria, além de que não se perdoaria a si mesmo, o martirizaria toda a vida. Por isso, sentando-se na cama com a Gillian em cima, sussurrou-lhe com voz rouca, carregada de paixão: — Não, Gillian, docinho, não é o momento. Incomodada por que lhe negava o que tanto desejava, moveu os quadris de diante para trás, e ele se endureceu instantaneamente. — Gillian... para. Não sabe o que faz. Ela sorriu, e baixando a boca até seu ouvido, cochichou-lhe: — Niall... eu adoro como beija. Acredito que seus beijos e seus lábios são do melhor que provei. Agora o incomodado era ele. Aquela libertina se permitia o luxo de lhe revelar detalhes que não desejava conhecer e, mortificado por isso, perguntou: — Pode-se saber quantos lábios provaste antes dos meus? A mulher, tornando-se para trás em atitude altamente lasciva, pôs seu decote ante a cara do Niall e, soltando o broche do cabelo, respondeu: — OH, Por Deus! — riu como uma tola. — Durante anos, vários homens tentaram me fazer deles, e todos começavam por minha boca. O cabelo a incomodava no rosto, e soprando com graça, prosseguiu: — A ver, que eu recorde me beijaram... James, Ruarke, Deimon, Harald, Gre... Lhe cobrindo a boca com a mão, espetou com semblante severo: — Já basta. Não quero ouvir nem um só nome mais, ou quando voltar por Dunstaffnage, mato a mais de um. — Ciumento, Niall? — perguntou-lhe, assombrada. Este levantou as sobrancelhas e negou. — Não, Gillian, mas sim surpreso por sua experiência. Isso a fez rir a gargalhadas, e movendo-se com descaramento para colocar-se justo em cima de seu duro sexo, sussurrou-lhe ao ouvido, enquanto ele tentava recuar sem êxito. — Devo te confessar algo, McRae. Nenhum dos lábios que me beijaram são tão fantásticos como os teus, que são quentes, apaixonados e fazem que me tremam os joelhos. Então, quem tremeu foi ele. Sentia-se tão enfurecido como o mar do Duntulm nos frios dias de inverno. Mas fechando os olhos, tentou controlar-se. Não podia se deixar levar no momento; sabia que se o fizesse, arrepender-se-ia. — Niall? — O que? — respondeu, mortificado pela ereção. — Eu faço que lhe tremam os joelhos? "Você faz que me sinta no céu", pensou, olhando-a. Mas não estava disposto a agradá-la, assim respondeu: — Não sei, Gillian; não te provei o suficiente para saber sequer se eu gosto.


Ela se sobressaltou. Ao olhá-la viu que baixava os olhos. Estava se zangando. Bem! Assim acabaria com aquela prazenteira mas tortuosa agonia. Gillian, ao imaginar o Niall beijando apaixonadamente a outras, deu um ágil salto para trás e se levantou. — Maldito, maldito... maldito seja, McRae! Desprezo-te pelo que acaba de dizer — e tirando a adaga da bota com rapidez, deixou o Niall sem palavras quando cortou uma mecha de cabelo e, atirando-a gritou: — Toma, já fiz o trabalho por ti. Maldito filho de Satanás! Ao vê-la tão furiosa, Niall de um puxão a obrigou a sentar-se de novo sobre ele, e movendo-se com rapidez fê-la rodar sobre a cama até ficar em cima dela. Sem perder seu autocontrole, beijou-a. Devorou lhe a boca de tal maneira que ela acreditou morrer asfixiada. — O que faz agora, McRae? — suspirou sem forças. Com uma fingida indiferença, respondeu: — Provando para ver se eu gosto tanto de ti como você de mim. — Nem te ocorra! — gritou, horrorizada. — Por que, Gillian? Tremendo como uma folha ao sentir-se cativada, murmurou: — Cheiro tanto a transpiração como a um guerreiro — e enrugando o nariz, sussurrou: — Que asco me dou! Ele sorriu. Gillian podia parecer tudo menos um guerreiro, e lhe produzia de tudo, menos asco. Seu cabelo loiro e irregular e esses sonhadores olhos azuis o tinham atordoado. Desejava-a tanto que só podia pensar em lhe separar as pernas e tomar sua virtude como um canalha. Mas não o faria. — Quero te beijar. Posso agora? Embriagada por sua proximidade, ela assentiu, e Niall se lançou a devorar aqueles lábios tentadores, vermelhos e abrasadores, enquanto ela abria sua boca para recebê-lo. Com delicadeza, degustou-a, saboreou-a, e quando ela acreditava que não podia mais, ele começou a baixar a boca perigosamente por seu delicado pescoço. — Agrada-te isto, Gillian? — Sim — sussurrou ela, desesperando-se enquanto sentia como os lábios dele a lambiam com posse, e suas mãos lhe acariciavam os suaves e sedosos seios. Com deleite, voltou a tomar sua boca, aquela boca carnuda e provocadora que o tornava louco, enquanto pressionava seu duro e forte sexo contra ela. Não lhe faria amor, mas precisava fazê-la sentir o que ele tinha para ela. Acalorada pelo sem-fim de sensações que seu corpo experimentava, respirava com dificuldade. Tudo aquilo era novo para ela, mas ansiava mais. Desejava mais. Não queria parar. Ele era ardente, suave, rude e desejável, e quando algo explodiu em seu interior e soltou um gemido de paixão, Niall soube que a tinha a sua mercê, e que, nesse momento, poderia manchar seu corpo e mesmo assim lhe exigiria mais. Incapaz de resistir à suavidade de sua mulher e a seus doces e excitantes gemidos, os beijos do Niall se tornaram mais exigentes, mais passionais, mais profundos e vorazes. Desfrutou ao vê-la rendida a ele, ao colocar sua calosa mão sob suas saias e ao sentir como,


sem nenhum decoro, ela abria as pernas. — OH, sim!... sim... eu gosto. Embriagada no momento, afundou seus dedos no cabelo dele e o atraiu para sua boca para beijá-lo com mais profundidade. Totalmente entregue a suas carícias, desfrutou com avidez do que Niall lhe oferecia. Adorava aqueles beijos doces e maravilhosos, e se tornava louca ao sentir sua paixão. Com as pulsações aceleradas apesar do controle que ele mantinha sobre seu próprio corpo, depois de lhe morder o lóbulo da orelha e posteriormente beijá-la, sussurrou: — Quer que continue, Gata? Ouvindo aquele nome, gemeu, e enjoada por seu sabor e pelas emoções que experimentava, assentiu. Niall soltou um grunhido de satisfação, levantou-lhe as saias e, lhe tocando com gesto possessivo primeiro os quadris e logo as pernas, as separou. Ela o olhou, e ele se situou de tal maneira sobre ela que se sobressaltou, excitada, ao sentir aquela dureza. Com a respiração entrecortada, ouviu-a ofegar, e nesse momento, jurou-se que acabaria com aquele jogo, um jogo que nada tinha que ver com os que praticava com as prostitutas com as que estava acostumado a deitar. Aquelas mulheres queriam ser submetidas por ele, queriam que as penetrasse, não desejavam doces beijos nem doces palavras de amor como desejava Gillian. Por isso, e sabedor de que se não parava então, já não poderia parar. Deu-lhe um doce e lânguido beijo nos lábios e se separou dela a contra gosto. Gillian, ao deixar de notar a pressão que exercia sobre ela, abriu os olhos com desejo e, o olhando, sussurrou-lhe: — Não pares, Niall, por favor. Mas ele, sem escutá-la, respondeu: — Está bêbeda, e isto não tem por que acontecer assim. Se continuo, amanhã me odiará. Depois de colocar-lhe as roupas e lhe jogar um último olhar, abriu a porta do quarto e partiu. Niall subiu às muralhas do castelo do Dunvengan disposto a matar a quem encontrasse em seu caminho. Estava desesperado por amar a sua mulher, mas não devia. Ele sabia que não devia. Enquanto isso, na intimidade do quarto, Gillian, com os olhos cheios de lágrimas, chorou. Não entendia por que não quis lhe fazer amor. Pouco depois, se encolheu entre as peles do leito e, sem dar-se conta, dormiu.

Capítulo 34

Ao amanhecer, uma criada do castelo do Dunvengan a despertou. Devia levantar-se com urgência, seu marido e seus guerreiros queriam partir para seu lar. Rapidamente, apesar de que a cabeça ia explodir, vestiu-se, e quando descia pela escada, encontrou-se com a Cris que subia em sua busca. — OH, que horror, Gillian! Estou afligida. Acreditava que ficariam por uns dias aqui. Ainda meio adormecida, a jovem suspirou. — Eu também, Cris... mas pelo visto meu marido tem pressa para chegar a seu lar.


— Seu lar, Gillian... seu lar. Recolhendo o cabelo com a tira de couro, disse, sentando-se na escada circular. — Cris... estou assustada. Pela primeira vez em minha vida tenho medo. Ficarei sozinha com o Niall e seus homens, e eu... — Tranquila. Niall e seus brutos te cuidarão, asseguro-lhe isso — e ajudando-a a se levantar das escadas, indicou-lhe: — Agora sai e demonstre à parva de minha irmã e a sua mãe que é digna mulher do bonito Niall McRae. Gillian sorriu e a abraçou. — Vou sentir sua falta, Cris. — Sabe? Não vou permitir isso. Vivemos tão perto que penso ir te visitar assim que retorne de uma viagem que devo fazer com meu pai em uns dias. — Promete-o? Prometes que me visitará? — Não o duvide, Gillian. Prometo isso. Instantes depois, agarrada a mão da Cris, chegou até onde Niall falava com os McLeod, e depois de despedir-se deles, ele a ajudou a subir a seu cavalo e, para seu desconcerto e o das outras, antes de soltá-la, beijou-a. A caminho do castelo do Duntulm, Gillian mal cruzou um olhar com o Niall. Morria de vergonha. A bebida da noite anterior não lhe nublou a mente; contrariamente, a avivou. Com o coração a ponto de sair, rememorava uma e outra vez os momentos que seu julgamento se empenhava em recordar. Pensar em como a beijou, a tocou, a fez vibrar e suspirar, em mais de uma ocasião esteve a ponto de fazê-la cair do cavalo. Enquanto isso, Niall parecia tranquilo. O que não sabia Gillian era que ele estava mais desconcertado que ela. No curto trajeto para o Duntulm, Niall não parou de rememorar o que aconteceu a noite anterior. Pensava em seus doces beijos, na suavidade de sua pele e naqueles seios cheios e redondos que ela se empenhou em esfregar. Só em recordar a entrega dela fazia que sua virilha voltasse a pulsar. Quando pararam perto de um pequeno lago para que os cavalos bebessem água, nenhum se aproximou do outro. Limitaram-se a olhar-se e, com isso, seu desejo e seus pensamentos se avivaram mais. Niall só desejava chegar ao Duntulm, colocá-la em seus aposentos, lhe arrancar a roupa e lhe fazer o que a noite anterior não fez. Quando retomaram o caminho, Gillian comprovou como em varias ocasiões ele se voltava para olhá-la. De repente, levantou sua mão, e todos os guerreiros pararam. Dirigindo-se a ela, indicou-lhe que se aproximasse. A jovem esporeou ao Thor até chegar a sua altura. E surpreendendo-a, tomou-lhe a mão e, assinalando para o horizonte, indicou-lhe: — Gillian, quero que vejas comigo pela primeira vez Duntulm. Como uma parva, ficou olhando os lábios dele enquanto sentia como se uma chicotada lhe atravessava a mão que segurou. Engolindo a saliva que na garganta se acumulara, olhou para a frente. E seu rosto se suavizou. — O que te parece? — perguntou Niall. Mas não podia responder. Estava maravilhada. Em frente a ela, uma grande planície acabava aos pés de um castelo ainda em construção e por trás estava o mar. Junto a ele, havia varias casas


de tom cinzento como a pedra da fortaleza, e um pouco mais distantes, umas pequenas cabanas de pedra e tetos de palha. Sem que pudesse entender aquela expressão e sem lhe soltar a mão, Niall insistiu: — Agrada-te o que vê? Ela não respondeu. Só podia admirar a paisagem e seu entardecer alaranjado. Niall, desconcertado por seu silêncio, começou a falar: — Já sei que o castelo não é grande como Dunstaffnage nem tão impressionante como Eilean Doam, mas há um tempo que é o meu lar. Quando Robert me deu de presente pelos serviços que prestei junto a seu irmão na Irlanda, era uma ruína, mas ao longo dos anos meus homens e eu conseguimos levantá-lo e quase acabá-lo. Vê aquelas terras ao horizonte? — ela assentiu. — São as Híbridas Exteriores. De nosso quarto as vemos e são espetaculares e te garanto que verás uns maravilhosos pôr de sol, com a ilha do Tulm e o arquipélago ao fundo — ela continuava sem falar, e isso estava começando a desesperá-lo. — Nesta zona, as pessoas se dedicam ao cultivo, à cria do gado e à pesca. Nosso clã se ocupa do gado. Já te mostrarei onde temos nossos animais. As cabanas que vês ali são as que usam as pessoas de passagem quando vêm em época de tosquia. Atordoada e maravilhada, Gillian assentiu. E dando um puxão em sua mão para que se aproximasse, ergueu-se em seu cavalo para parecer mais alta e, desprendendo-se, beijou-o nos lábios. Precisava fazer aquilo, embora quando se afastasse ele nem a olhasse. Os guerreiros, ao vê-lo, aplaudiram e vociferaram. Gostavam de ver seu laird tão bem atendido por sua esposa. Niall, sobressaltado por aquela reação, sorriu, e agarrando-a pelas pernas, levantou-a do cavalo, e como se de uma pluma se tratasse, sentou-a ante ele. — Eu adoro seu lar — murmurou, emocionada. — Nosso lar, Gillian — a corrigiu Niall rapidamente. Nesse momento, os poucos aldeões e guerreiros que trabalhavam no castelo os avistaram e os saudaram, e suas vozes se juntaram as dos guerreiros que por trás deles gritavam. Niall e Gillian sorriram. — É o lugar mais bonito que jamais vi — sussurrou, maravilhada. Niall, com um sorriso parecido com o de antigamente e com o cabelo despenteado pela brisa, assentiu. Agarrando-a com força, beijou-a, e esporeando ao cavalo o fez galopar até chegar ao pátio de armas de Duntulm. Uma vez ali, as pessoas se apinharam a seu redor. Estavam felizes. Seu laird retornou e com esposa. Niall desmontou, e agarrando-a pela cintura, baixou-a. Teve que conter o desejo de levá-la diretamente a seus aposentos para terminar o que não acabou a noite anterior. Agarrando-a com força pela mão, começou a lhe apresentar a sua gente, homens barbudos e mal vestidos a receberam com um grato sorriso nos lábios. Com a felicidade instalada no rosto, Gillian tentou atender e recordar os nomes das pessoas que lhe apresentavam, e nesse momento, comprovou que o que os homens de seu marido lhe disseram no caminho era verdade. Ali não havia mulheres, à exceção de idosas e de um par de jovens que, agarradas a seus


maridos, observavam-na. Quando entraram no castelo e olhou a seu redor, a alma caiu-lhe aos pés. Aquele lugar estava sujo, mal cuidado e necessitava uma boa limpeza. Quando entraram no enorme salão, comprovou que ali só havia uma mesa desvencilhada de madeira escura e dos bancos, cada qual pior, e junto a enorme lareira, uma velha cadeira desmantelada que parecia ter os dias contados. "A falta de mulheres é a causa de que isto esteja assim", disse-se Gillian. Niall, que a conhecia muito bem, sabia o que pensava, apesar de seu sorriso. E quase soltou uma gargalhada quando contemplou a cara de sua esposa ao ver que um dos cavalos de seus homens entrava no salão e circulava tranquilamente pelo salão. Olhou-o, pasmada, e ele, encolhendo os ombros, confessou: — Nunca me importou. Ela suspirou e, disposta a solucionar aquilo, assegurou-lhe: — Uma mão feminina lhe virá muito bem. Verá. E aproximando-se dela, cochichou-lhe ao ouvido: — Não o duvido, tesouro, para isso estás tu aqui. Olhando-o com uma careta, decidiu não responder, e se deixou levar pelas duas únicas mulheres jovens que havia, que se empenharam em lhe mostrar a cozinha. Helena a acompanhou. E quase caíram para trás quando ambas viram o que aquelas mulheres chamavam cozinha: um escuro, úmido e velho buraco. "Aqui vão mudar muitas coisas" refletiu, tentando sorrir. Niall, ansioso, esperava a que Gillian aparecesse pela porta e o olhasse. Gostasse ou não, temia que a uma mulher de caráter como ela, acostumada ao luxo e a elegância do Dunstaffnage, se horrorizasse com aquele lugar. Mas quando apareceu à porta com a Helena e sorriu, soube que ambas haviam encontrado seu lar. O resto da noite a passaram olhando-se com uma paixão que não deixou indiferente a ninguém. Jantaram os ricos pratos que as mulheres haviam preparado para celebrar sua chegada e brindaram com canecas de prata a saúde de seus homens. Depois de jantar, os guerreiros, aqueles brutos, começaram a dar palmadas a dançar, até que dois anciões começaram a tocar suas gaitas. Helena dançou com um encantador e sorridente Aslam, que pedira a seu senhor que lhe permitisse ocupar uma das cabanas próxima a fortaleza com ela e seus filhos. Aquela noite, Gillian dançou com seus guerreiros, inclusive conseguiu tirar para dançar a seu marido. E quando a urgência e o desejo de seus olhares se tornaram escandalosos, sem se importar com mais nada, Niall a agarrou em seus braços e, sorrindo saudando todos, levou-a até o único lugar que ninguém lhe mostrara, seu quarto.

Capítulo 35

Sem falar e com a paixão em seus olhares, Niall a levou até o piso superior. Quando ele abriu


a porta do quarto, o coração da Gillian pulsava com tanta força que pensou que ia explodir. Pousando-a no chão, ela entrou, e ele fechou a porta apoiando-se nela. Com luxúria, passeou seus olhos pelos doces curvas de sua pequena mulher. Era deliciosa. Durante o tempo que durou o jantar e a festa posterior, Niall só pensou em lhe arrancar o vestido e fazê-la sua sem piedade, uma e outra vez. Desejava tocar seus seios, colocar sua língua entre suas coxas... "Por são Ninian! O que estou pensando?", arreganhou-se ao ser consciente da pressão de sua virilha. Enquanto ela, alheia a aqueles pensamentos pecaminosos, olhava o desmantelado quarto, tão parecido com o resto do castelo. Acostumada a seu belo quarto do Dunstaffnage, aquele era frio e impessoal. À exceção da enorme lareira onde crepitava o fogo e a grande janela, só havia uma cama imensa e um velho baú. Mas emocionada por como a tinha tratado Niall desde que tinham chegado ao Duntulm, voltando-se com graça lhe sorriu. Aquele sorriso fez que ele desse dois passos até ela para pegar sua mão. Estava gelada. — Tens frio? Com rapidez, ela negou. Não sentia frio, mas os nervos por estar naquele lugar a sós com ele a atingia. Disposto a acalmá-la, Niall a agarrou pelas mãos com delicadeza e, olhando-a nos olhos, murmurou: — Tenho algo para ti. — Para mim? — perguntou, surpreendida. Ele assentiu, e ela se ruborizou. — Fecha os olhos. Incapaz de fazê-lo, Gillian ia protestar, mas lhe pôs um dedo na boca, o que conseguiu excitá-la mais. — Confia em mim. Não te farei mal nem te trocarei por bolos de aveia. — Seguro? — brincou. — Asseguro-lhe isso. Fecha os olhos. Uma vez que se convenceu disso, primeiro Gillian fechou um e logo outro. Mas Niall, ao ver que quando fechava o direito abria o esquerdo, e vice versa, disse: — Não se faça de difícil, Gillian, que estou te olhando. — Argh! Me pegas-te. No final, conseguiu que ela relaxasse e fechasse os olhos. Tirou um cordão de couro do pescoço e um anel que dele pendurava, o pôs no dedo e, para finalizar o momento, deu-lhe um beijo na mão. — Já está. Já podes olhar. Nervosa porque havia sentido o beijo e o roce do anel ao passar por seu dedo, abriu os olhos, e ao vê-lo, ficou fascinada. Aquele era o anel que viu no dia de seu aniversário na feira próximo ao Dunstaffnage. Deslumbrada, ia dizer algo quando ele a adiantou: — Ouvi que dizias a Megan que o marrom da pedra te recordava a cor de meus olhos. E sem saber sequer se lhe daria isso ou não, decidi comprá-lo. — É precioso. Eu adorei — confessou, embevecida.


E ele se sentiu satisfeito por vê-la tão maravilhada pelo presente. — Agrada-me ver que acertei e você gostou. Por um momento pensei que poderias lança-lo a minha cabeça. Emocionada como uma menina, sussurrou: — OH, Niall! Obrigada. O highlander, consciente das escassas defesas que restavam sem ruir ante os encantos dela, sorriu encantado. — Este anel é mais próprio para minha esposa, e não o que te pus no dia. — E que eu perdi — suspirou ao recordar a tira de couro. Saber que ele comprou algo para ela e que durante todo aquele tempo o guardou a enfeitiçou, e quando Niall se agachou para abraçá-la com delicadeza e sentiu como afundava seu rosto em seu pescoço, o calor a devorou e, levantando as mãos, agarrou-lhe o rosto e o beijou. Aquele beijo foi especial. Era o prelúdio do que ia acontecer. Ao notar que ela tremia, com uma ternura que Gillian desconhecia, lhe perguntou: — O que te ocorre? — Quero aproveitar este instante — sussurrou Gillian sem deixar de abraçá-lo. — Porque estou convencida de que amanhã ou dentro de um momento não me olhará, e esta maravilhosa trégua entre nós terá acabado. Cravando seu apaixonado olhar perto de sua boca, ele murmurou: — Não, docinho, eu desejo tanto como você a paz. Mas para me assegurar de que assim será, deves prometer-me três coisas. — Diga. — A primeira: me respeitara e nunca levantará sua espada contra mim. Assombrada, abriu os olhos e murmurou: — Niall, por Deus, eu nunca faria isso. — Prometa-me isso — insistiu. — Prometo-lhe isso — sorriu. — A segunda? — Duntulm é sagrado, um lugar de paz, e nunca permitirás que o desastre ou a guerra chegue a nosso lar. Este lugar é nossa vida, não um campo de batalha, porque aqui quero ser feliz contigo e minha gente. Promete-o? — Claro... claro... que sim. — E a terceira... nunca me mentirá. Aquela petição fez Gillian sorrir, e perguntou: — Acredita que é algo fácil de prometer? — Sim. — Mas Niall... eu não sou mentirosa, mas as vezes uma mentira piedosa é... — Uma mentira piedosa... é aceitável e perdoável. Uma mentira daninha não o é. Com um gracioso sorriso que desbocou novamente o coração do Niall, a jovem murmurou: — Sabendo que as mentiras piedosas são aceitáveis... prometo-lhe isso, sempre e quando tampouco você me minta. — Prometo-lhe isso, docinho... prometo-lhe isso. Nesse instante, Gillian quis gritar de felicidade, e ele murmurou em um tom rouco que lhe pôs o pelo de todo o corpo em pé:


— Não tenha medo de mim, Gillian. Nunca te faria mal. — Sei — assentiu ela, subjugada. — Sei... Com delicadeza, pegou-a pelo queixo para voltar a beijá-la, e com uma paixão transbordante, atacou sua boca, derrubando um a um os medos que ela pudesse ainda ter. Abandonada a suas caricias, Gillian o deixou fazer. Ela era uma mulher inexperiente naquela arte, mas comprovou como ele, sem pressa mas sem pausa, com delicadeza, começou a lhe desatar os cordões de seu vestido, até que o objeto caiu ao chão, e ficou unicamente vestida com a regata branca e os calções. Tentando conter seu tremor, Gillian posou suas mãos sobre os ombros de Niall, e este, agarrando-a pela cintura, levantou-a até pô-la a sua altura e, olhando-a nos olhos disse-lhe: — Nunca poderás imaginar quanto desejei que chegasse este momento, Gata. Apaixonada por aquelas palavras e pela subjugação que via em seus olhos, beijou-o enquanto ele se encaminhava para a cama, onde a deixou com cuidado sobre as frias cobertas. Gillian se arrepiou enquanto olhava como ele, sem afastar seus moderados olhos marrons dela, despia-se. Ao ver a recente cicatriz de seu braço, ela sorriu, mas ao fixar-se na quantidade de cortes e cicatrizes que tinha no abdômen, horrorizou-se. Quanta dor devia ter sentido seu marido! Com a respiração agitada, observou seus fortes braços, seu amplo peito curtido pela guerra, suas fortes pernas, e quando se desfez das calças de couro marrom e aquele tenso e escuro membro que tinha entre as pernas apareceu, escandalizou-se. Foi tal sua confusão ao ver pela primeira vez o sexo de seu marido que, envergonhada, fechou os olhos. — Gillian, abre os olhos, e me olhe. Com uma comicidade que mexia com toda a vontade do Niall, ela abriu com cuidado um olho e logo outro, para encontrar-se com o sorridente rosto dele. Tomando-lhe as mãos a ergueu, de modo que sua cabeça ficou justo em frente a aquele órgão. Niall, ao ver sua cara de horror, não pôde fazer menos que soltar uma gargalhada. — Me toque. Com a pulsação acelerada, Gillian levantou sua mão e a posou sobre a perna forte e robusta dele. Notou seu poder, e sua mão seguiu subindo pelo interior desta. Depois de cruzar um olhar desafiante com ele, passou sua mão por aquele membro ereto e se surpreendeu ao sentir sua estranha e prazenteira suavidade. Assombrada, voltou a tocá-lo, mas se assustou quando ouviu um som gutural proveniente da garganta de seu marido. — Ai, Deus! Te fiz mal? — perguntou, horrorizada. Comovido pela inexperiência da Gillian, Niall sorriu enquanto caía na cama junto a ela. — Não, docinho, justamente o contrário; é muito prazenteiro sentir tuas caricias. Gillian se estendeu e, voltando-se para ele, olhou-o. Ele, encantado por sua beleza, deu-lhe um saboroso beijo, abriu-lhe a regata e logo a tirou. Gillian não podia deixar de ruborizar-se ao ficar nua da cintura para cima. Aquilo era tudo novo para ela e, sentir o apaixonado olhar dele, até sem sentir suas caricias, a fazia arder. Aproximando-se um pouco mais dela, tirou-lhe os calções e o lançou ao chão, e dessa vez ela se encolheu. A impaciência que sentia por tomar o corpo de sua mulher martelava a virilha do Niall, mas se obrigou a refrear seus próprios desejos e centrar-se de momento em sua esposa. Ela o merecia. Mas vê-la naquele estado, acariciar sua sedosa pele e sentir sua total rendição, o esquentou


de uma maneira a que não estava acostumado. Sentir a doçura da Gillian e pensar que legitimamente era dele... tornava-o louco de excitação. Consciente do que supunha aquilo para ela, rodou sobre a cama até ficar sobre ela, com cuidado de não esmagá-la. Com delicadeza, afundou os dedos na base do crânio e começou a movê-los com tal deleite e parcimônia que Gillian suspirou: — OH! — Agrada-te? — OH, sim! Eu adoro. Faz-me sentir muito bem. Recreando-se, aproximou sua cálida e ardente boca a dela, e tirando a úmida língua, brincou sobre seus lábios, até que Gillian abriu-os, e ele pôde acessar com frouxidão a seu interior, ela se movia cada vez mais ansiosa e emitia pequenos suspiros de satisfação que o enlouqueciam. Sem nenhuma pressa, deixando sua boca, baixou lentamente a língua pelo pescoço até chegar a seus rosados seios. Com suavidade, Niall levou seus dedos até seus mamilos rosados, e quando começou a acaricia-los com movimentos circulares e muito prazenteiros, ela suspirou ao sentir como seu baixo ventre vibrava. Incapaz de deixar de olhar aqueles seios deliciosos, Niall aproximou sua cálida boca até um deles, enquanto beliscava o outro com delicadeza. Sentindo aquelas íntimas caricias, ela se arqueou e ofegou. Maravilhado por sua sensualidade e disposto a não danificá-la, continuou sua exploração. Depois de um momento de jogos íntimos entre os dois, Niall se levantou e se ajoelhou no chão. Estirando-se lhe beijou o umbigo, e ela voltou a ofegar, mas ao intuir as intenções dele, assustada, ergueu-se. — Não... aí não — gritou. Com um sorriso mórbido que fez que ela estremecesse, ele assentiu: — Claro que sim. — Não. Levantando do chão, tombou na cama, e depois de beijá-la, sussurrou-lhe com intensidade enquanto lhe acariciava as coxas: — Separa as pernas para mim, Gata. — Niall... — Faça-o, docinho; prometo-te que desfrutaremos os dois. Escravizada pelo desejo, finalmente fechou os olhos e se deixou vencer. — Assim... pequena Gata, relaxe e te abra para mim. O timbre rouco e profundo de sua voz a excitou mais do que ele poderia ter imaginado. Sentir que ele era seu marido e que ela acessava a seus desejos a esquentou de tal maneira que, quando Niall se agachou de novo e tocou aqueles cachos que nunca foram tocados por nenhum outro homem, gemeu. Maravilhado pelo que tinha ante seus olhos, passou sua boca por aquele precioso caminho e, separando os lábios inferiores começou a tocá-la, primeiro com suavidade, e quando notou que se umedecia o suficiente, com gesto possessivo mas delicado. Introduziu um dedo. Gillian gritou, e erguendo-se, agarrou o rosto do Niall e o beijou. Enquanto ela lhe devorava a boca e ele sentia que sua autodisciplina se apagava por momentos, moveu com cuidado o dedo dentro do corpo da Gillian, que gemia uma e outra vez sobre sua boca, até que se esticou entre ofegos, e ele entendeu que estava preparada para recebê-lo: Com a respiração entrecortada, Gillian sentiu que ele tirava seu dedo dali, tombava-a,


separava-lhe as pernas e se colocava sobre ela, embora antes pegasse uma almofada e a pôs debaixo de seus quadris para lhe facilitar a entrada. Sem afastar os olhos dele, Gillian viu como Niall pegava seu viril membro e o levava até o lugar onde ela queria que o introduzisse. Ela moveu seus quadris, nervosa. — Né! Cuidado, docinho. É tua primeira vez e não quero te fazer dano. — Eu gosto quando me chamas docinho — sussurrou ela com doçura. — Chamá-la-ei sempre que queira. Excitada e alterada pelo que lhe dizia e pelo que ia ocorrer aquela noite, ofegou. Ouviu falar muitas mulheres sobre aquele momento e sabia que lhe doeria; só a primeira vez, ao menos isso asseguraram todas. Niall, ao ver o medo em seus olhos, estremeceu, e capturando sua boca enquanto o desejo o consumia, começou a mover-se sobre ela uma e outra vez, conseguindo que desfrutasse e que seus suspiros fossem aumentando, até que chegou a um muro infranqueável que ele estava disposto a transpassar. Parando, olhou-a nos olhos e, com voz rouca, murmurou: — Isto vai causar um pouco de dor, docinho. Não posso evitá-lo... — Sei... — assentiu, assustada. Com a vista fixa nela, apertou-a contra ele como se seu abraço pudesse absorver sua dor. Vendo que ela fechava os olhos, arremeteu, e no momento em que seu corpo cedia, Gillian gritou. Com o coração em um punho, Niall não se moveu. Devia dar um instante a que o interior de sua mulher se acoplasse a ele antes de continuar. Atordoado, não podia afastar seus olhos dela, nunca esteve mais bela, e após um sem-fim de beijos por seu rosto, viu que o olhava e soube que a dor começava a remeter. Quando notou que a respiração da Gillian se normalizava, começou a mover-se com certo medo de machucá-la, mas quando lhe exigiu mais profundidade com seus quadris enquanto lhe cravava as unhas nas costas, ele não pôde resistir e deu. Começou a entrar e sair dela, controlando seus próprios desejos de apertá-la contra ele até transpassá-la, até que Gillian lhe reclamou mais subindo seus quadris. Um formigamento sensual e dilacerador percorria o corpo da Gillian, desfrutava uma e outra vez daquelas agradáveis sensações. Notou como seu corpo se abria como uma flor e se abandonou para recebê-lo. O sentimento de prazer era imenso, até que notou como se algo nela explodisse e um jorro quente de vida lhe percorresse o corpo, acompanhado por onda indescritível de prazer. Entre espasmos e gemidos luxuriosos, aferrou-se a ele. Aqueles suspiros foram os que determinaram o fim da vontade do Niall, que, ao vê-la naquele ardoroso estado, não pôde mais, e agarrando-a com força, afundou-se nela uma e outra vez, até que, por fim, após um grito gutural e masculino, derramou nela sua semente, e esgotado, parou para depois rodar e ficar junto a ela. Com os olhos fixos no teto, Gillian respirava ainda com dificuldade. Aquele prazer tão pagão de que sempre ouviu falar foi... espetacular. Sem atrever-se a olhá-lo ouviu a respiração agitada do Niall, que a observava aguardando que ela falasse. Temia lhe ter feito muito dano e só podia esperar que lhe confirmasse que estava bem. Queria com loucura que ela desejasse voltar a fazer amor com ele. Desejava tanto desfrutar de seu corpo como ele necessitava que ela quisesse tomar o seu.


Então, ela o olhou, e com uma reveladora careta lhe fez saber que estava bem. — Foi incrível — sussurrou, surpreendendo-o. — Tentei não te machucar, mas... — Já sei... — cortou-o. — Teria sido igual se outro me tivesse tomado em sua cama. Haviam-me dito que a primeira vez sempre dói, embora, bom, também dizem que depende da delicadeza do homem — e lhe dedicando um sorriso, murmurou: — Estou segura de que você já sabe isso, és um homem perito. Aquilo de "que outro me tivesse tomado em sua cama" o incomodou e, franzindo o cenho, a tomou possessivamente pelo quadril, girou-a para ele e lhe assegurou: — Ninguém a não ser eu jamais a tomará, nem na cama nem em nenhum outro lugar. Aquelas palavras e em especial a sensualidade do olhar do Niall fizeram que voltasse a vibrar. Ela não desejava que outro homem a tocasse nem fizesse o que a seu marido por direito lhe correspondia, mas com um torcido sorriso respondeu: — Então, tesouro, me querias só como proprietária de seu lar. Escutar suas palavras, ver seu olhar e tê-la nua ante ele o fizeram sorrir. — Acredito, minha senhora — disse, sentando-se sobre ela, — que preciso provar um pouco mais de ti para saber realmente se te quero como algo mais. Gillian, então, deixou de sorrir e se esticou. Niall, ao dar-se conta dessa mudança, agarrou-lhe os pulsos, após imobilizá-la com sua forte mão sobre sua cabeça, sussurrou-lhe, fazendo-a sorrir outra vez: — De momento, docinho, não abandonara meu leito, nem agora, nem nunca. O resto já se verá. Sem lhe dar tempo a dizer nada, o apaixonado highlander voltou-lhe a devorar os lábios, e instantes depois, lhe fazia de novo amor.

Capítulo 36

Durante cinco dias com suas cinco noites, nenhum dos dois abandonou o quarto. Não queriam separar-se, só queriam beijar-se e fazer amor uma e outra vez. Passado dez dias, os guerreiros olhavam divertidos a seu laird. Ao amanhecer se reunia com eles na arena, onde punham em prática todas suas habilidades com a espada e demais. Mas era ver aparecer a Gillian e já não existia nada. Niall só tinha olhos para sua mulher. Não lhe importavam o castelo, nem as terras, nem o gado, unicamente lhe interessava ela, sua comodidade e sua felicidade. Havia dias que se dedicavam a passear pelos arredores de Duntulm de mãos dadas enquanto ele observava o adiamento das obras. Sorria como um parvo ante qualquer comentário que ela fazia. Era graciosa, viva, divertida, e disso gostava. Adorava! Outro dia cavalgaram até uma das preciosas praias de areia branca, onde Gillian, após recordar o conselho da Megan e Shelma sobre "fazer amor rodeada de água", fez que seu marido a seguisse correndo atrás dela pela praia, até que, submergidos e rodeados pelo mar, fizeram


apaixonadamente amor. Durante aqueles passeios, Gillian conheceu outros aldeões, gentes de seu marido. Aqueles eram os que cuidavam do gado e a trataram com adoração, uma adoração que Niall compreendia. Quem não adorava a Gillian? Passado o primeiro mês, Aslam e Helena contraíram matrimônio. Tudo era perfeito. Gillian estava feliz com um marido que a adorava, sua gente a queria e o interior do castelo cada dia era mais cálido e acolhedor. Que mais podia pedir? As pessoas do Duntulm se acostumaram tanto aos beijos de seus senhores como a seus contínuos xingamentos. Os idosos os observavam com curiosidade e sorriam; tão logo os viam beijando-se com paixão como discutindo como verdadeiros rivais. Escutar o grito da "Gillian!" a seu senhor, ou "Niall!" a sua senhora, converteu-se em algo mais dentro de suas vidas. O dia em que Cris apareceu pelo Duntulm a alegria de Gillian a transbordou. Ver que sua amiga cumpriu sua promessa de visitá-la depois de voltar de sua viagem lhe encheu o coração de felicidade. Orgulhosa lhe mostrou o anel que Niall lhe ofereceu e se mostrou incrivelmente feliz. A partir daquele momento, as visitas de Cris começaram a ser continuas, e isso fez que Gillian se integrasse mais em seu lar. Uma manhã em que Niall teve que sair junto a alguns de seus homens para ocupar-se de uns assuntos, Gillian olhava da janela de seu quarto e suspirou. Precisava fazer algo para desentorpecer seus músculos. Iria procurar a Cris; certamente que adoraria combater com ela. Depois de vestir-se, vestiu suas calças de couro sob a saia, agarrou a espada e, decidida, foi até a pequena cavalariça para agarrar a Thor. — Sai, milady? — perguntou Kennet, olhando-a. Gillian decidiu não dizer a verdade. Niall a tinha muito controlada e, se explicava a aquele guerreiro onde se dirigia, empenhar-se-ia em acompanhá-la. Por isso, mostrando o melhor de seus sorrisos, respondeu: — Só irei até o lago. Não se preocupe, Kennet. — Irei com você- ofereceu. Ela deixou escapar um delicado suspiro. — Kennet, eu gostaria de ter um pouco de intimidade. — Mas meu senhor me deu ordens de... — Vou banhar-me, Kennet — cortou ela. — Acaso para isso também necessito acompanhante? Avermelhado como um tomate, o homem assentiu. — De acordo, milady, mas tome cuidado. Com um radiante sorriso, Gillian montou no Thor, e cravando seus calcanhares no animal, galopou na direção que mencionou. Ao chegar ao lago, entretanto, continuou pela trilha que, segundo Cris lhe indicou, cortava o caminho e levava até a fortaleza de os McLeod. Olhando a seu redor, desfrutou da paisagem. Seus extensos e verdes vales, em ocasiões abruptos, suas cachoeiras inclusive suas falésias eram incrivelmente formosos, algo que Gillian começou com rapidez a amar.


Quando chegou até uma preciosa cachoeira, recordou que esteve com a Cris ali e que esta lhe confessou que aquele lugar era seu preferido. Com curiosidade, guiou ao Thor e encontrou o caminho sinuoso. Sem pensar duas vezes, começou a descer por ele e se surpreendeu ao ver dois cavalos. Cravou a vista em um deles. Era o cavalo da Cris. Com um sorriso pícaro, Gillian desmontou e, com sigilo, começou a andar para o lugar onde se ouviam risadas. Ao chegar a uns grandes arbustos, identificou a voz de sua amiga e sorriu ao aparecer e vê-la em atitude muito carinhosa com um homem. Gillian gostou disso e, nesse momento decidiu sair de seu esconderijo. — Ha... ha... Cris... por fim vou conhecer seu apaixonado — disse, plantando-se ante eles com um sorriso divertido e as mãos nos quadris. Então viu quem era ele e sua cara mudou. Que fazia sua amiga com esse homem? Ele, ao vê-la, separou-se de sua apaixonada e blasfemou, então Cris, alarmada, caminhou para a Gillian, que os observava, incrédula. — Posso lhe explicar — sussurrou Cris, agarrando-a pelo braço. Mas Gillian não podia acreditar. — Brendan!? — gritou. — Sim. Gillian... — Seu apaixonado é o cretino do Brendan McDougall. — Chist! Não grite- lhe pediu Cris. — Alegra-me saber que me notou no dia em que nos conhecemos — zombou ele. Gillian, olhando-o com desagrado, espetou: — OH, sim, claro que me fixei em ti, idiota! E teve sorte de que Niall me segurasse, porque, se não, ter-te-ia cortado a língua por falar de minha avó naquele tom. — Tudo tem uma explicação — assegurou ele. — Sim, Gillian, deixa que se explique — insistiu sua amiga. — Isso... deixa que me explique. Mas a jovem, zangada com aquele homem, gritou-lhe em tom de zomba: — Tuas explicações me chegam, McDougall do Skye. Aquele último comentário fez Brendan rir, que depois de receber um tapa de Cris no braço, se calou. — Não te ria, Brendan! — Cris, por que me deste um golpe? — perguntou, incomodado. — Porque é normal que esteja zangada contigo. O dia do que fala Gillian te comportou como um verdadeiro asno — respondeu ela. — Eu diria algo pior — chiou Gillian. O highlander sorriu e, olhando a sua zangada apaixonada, disse: — Recorda, céu, esse comportamento é o que meu pai espera de mim. Não o esqueça. "Céu?" repetiu para si Gillian. E Cris, derretida por como aquele a olhava, respondeu: — Sei, amor. "Amor?" voltou a repetir-se Gillian. Não podendo acreditar no que acabava de descobrir, olhou a sua amiga e, levando as mãos a


cabeça, gritou: — Por todos os santos escoceses, Cris! Que estás fazendo com este homem? — Gillian... — Nem Gillian nem nada, est... — Queres fazer o favor de te tranquilizar? — cortou-a ao notá-la tão alterada. — Que me tranquilize!? — gritou. — Sim. — Como queres que me tranquilize quando estás com... este... este... — McDougall do Skye — disse com ironia ele, que se sentara sobre uma pedra. Gillian assentiu e continuou: — Por todos os Deuses, Cris! Niall me contou que seus clãs são inimigos. Não se suportam! Levam enfrentando-se meia vida. — Sabemos, McDougall do Dunstaffnage, não é necessário que grite. — Brendan suspirou ao recordá-lo. Mas Gillian, voltando-se para ele, gritou: — E você, maldito bufão, teve a ousadia de falar de minha avó e me desprezar diante de meu marido por meu sangue inglês. Que não volte a acontecer! Ou te juro por esse sangue inglês que levo que te corto o pescoço. Surpreso pela ferocidade da Gillian, o jovem a olhou. — Embora não o acredite, pensava te pedir perdão, mas esperava que fosse em outro momento melhor que este. Cris, sem saber o que dizer, olhava-a desconcertada, entretanto Gillian não parava de andar de um lado para outro, em busca de uma rápida solução. — Mas, Cris, em que estás pensando? — Em que o amo, Gillian. Só nisso. Aquela sinceridade fez que esta parasse e a olhasse. O homem, ao escutar a sua amada, levantou-se com rapidez e, aproximando-se dela, tomou-a pela cintura e enfrentou a Gillian. — E eu amo a ela. Não concebo minha vida sem a Cris e não me importa o resto. Atônita, Gillian os olhou e sussurrou: — Mas vossas famílias, vossos clãs, nunca permitirão que estejam juntos, não vos dais conta? — O farão. Casar-me-ei com ela e terão que aceitá-lo — assentiu ele, e Cris sorriu. Aquilo era uma loucura, uma loucura que com segurança acabaria mal. Gillian soprou. — Vamos a ver, Brendan, pensa. És o sucessor de seu pai em seu clã. Acredita que gostará de saber que seu único filho vai se casar com a filha de seu maior inimigo? — Não, não gostará. Sei, Gillian. Também sei que o pai da Cris não gostará, mas nós nos amamos e... — ... os matarão — sentenciou Gillian. — Argh! Que mal soa isso! — exclamou Cris, sorrindo. — Mas não vês que estão pondo em perigo vossas vidas por algo que com segurança vossos pais não consentirão? — Partiremos de Skye e nos casaremos — afirmou Brendan. — OH, que romântico! — zombou Gillian.


Cansada da negatividade de sua amiga, Cris interveio: — Sim... tão romântico como tudo o que organizamos para que Niall se casasse contigo apesar de todos os problemas, e te olhe agora, és feliz! Ao ver que Gillian sorria com picardia, Brendan acrescentou: — Olhe, Gillian. Compreendo sua preocupação pela Cris, mas o que eu necessito que entendas é que ninguém mais que eu deseja que ela seja feliz. Só terá que esperar o momento oportuno para tentar que os outros aceitem. — Não o entenderão — sussurrou a mulher sem olhá-los. Então, Cris, agarrando suas mãos, perguntou-lhe: — Você o entende, Gillian? Podes entender que em minha vida só exista Brendan, e que se não estiver com ele não queira estar com ninguém? Gillian refletiu. Como podia não entendê-la se ela só amou a um homem? Ao ver como eles se olhavam e sentiu que entre eles havia verdadeira adoração, admitiu sorrindo: — Claro que o entendo. Você precisamente melhor que ninguém sabes que o entendo — e, olhando-a nos olhos, sentenciou: — Podeis contar comigo para o que necessitem. E tranquilos, meus lábios estão selados. Comovido pelo que aquilo significava, Brendan lhe estendeu a mão, satisfeito. — Obrigado por ser nossa aliada, McDougall do Dunstaffnage. — De nada, McDougall do Skye — replicou Gillian com um sorriso enquanto ele lhe estreitava a mão. Aquele dia Gillian descobriu duas coisas: a primeira, que eles estavam loucos por terem se apaixonado; a segunda, que ela estava completamente louca por ajudá-los.

Capítulo 37

Passou outro mês e o segredo da Cris e Brendan continuou a boa cobrança no coração da Gillian. Inclusive com o passar dos dias comprovou que aquele highlander era um excelente jovem, nada a ver com o bobo que conheceu no dia de sua chegada a Skye. Uma das tantas tardes que se unia a eles sob a cascata, em um arranque de sinceridade, Brendan lhe contou que aquela aparência de ódio e mal-estar era o que seu pai esperava dele. Seu pai queria um filho que odiasse tudo o que não fosse do clã McDougall do Skye, e se limitava, de momento, a contentá-lo. Gillian, nesse tempo, não contou nada ao Niall. Sabia que fazia mal lhe ocultando aquele segredo, mas havia prometido. Quando Niall partia com seus homens ou trabalhava nas reparações do Duntulm, ela, com a ajuda das poucas mulheres que havia, limpava o interior do castelo. Tudo estava velho e sujo, mas se negou a comprar móveis bonitos, até que as paredes de pedra resplandecessem, e os chãos de madeira e pedra ficassem tão limpos que se pudesse comer neles. Tentar ter um castelo tão bem cuidado como Dunstaffnage era impossível, mas sabia que com esforço, ajuda e, sobre tudo, limpeza, seu lar melhoraria muito. Niall, nesse tempo, suavizou seu caráter, tanto que em ocasiões ela temia que algum dia tanta doçura acabasse. Adorava como ele a buscava, olhava-a, beijava-a ou a agarrava pela cintura e a levava a qualquer lugar para lhe fazer amor com verdadeira paixão. Suspirava com candura


quando a chamava docinho, e embora durante o dia sua vida fosse pacifica e com centenas de coisas a fazer, suas noites se tornaram sexualmente batalhadoras. Uma tarde, do alto da fortaleza, Gillian observava a enorme planície que por um lado do castelo se estendia ante ela. E sorriu como uma parva ao recordar o que um dia Niall lhe sussurrou ao ouvido: "Viveremos em um lugar de onde se domine a planície". Seu lar era uma maravilha. Ter aquela planície e, ao outro lado do castelo o mar, era um luxo que nem todos podiam possuir. Apertando o plaid que a cobria no corpo, olhou a seu redor. Tudo era majestoso, a pesar do frio e a neblina, que começava a desaparecer. Gillian, divertida, posou seus olhos no Aslam, e sorriu ao observar como ele, ao ver a Helena aparecer com a pequena Demelza e Colin, ia até ela para beijá-la. Dias atrás, ambos lhe comunicaram que estavam esperando um filho, e isso os encheu de alegria. — O que faz aqui, fria como está a tarde? Voltando-se, Gillian sorriu ao ver o Niall caminhar para ela. — Estava admirando a paisagem. É tão bonito que às vezes me parece incrível acreditar que eu vivo aqui. Com uma careta cativante, seu marido a abraçou e, beijando-a no pescoço, sussurrou: — Acredite docinho, é seu lar. — Nosso lar — esclareceu ela com picardia. Com um plácido sorriso, Niall olhou a sua mulher e se perguntou se algum dia seu coração deixaria de disparar cada vez que a olhasse. Desde que ele baixou suas defesas à relação, seu mundo se converteu em um lugar feliz e cheio de alegrias. Vê-la rir com seus homens ou brincar com os poucos meninos que havia no Duntulm o enlouquecia. E embora em ocasiões o caráter dela o ofuscasse, estava tão apaixonado que deixava passar. Não queria zangar-se com ela nem que nada danificasse sua felicidade. Nunca ninguém conseguiu que perdesse o julgamento dessa maneira. Não podia pensar em outra coisa que não fosse ela, e precisava saber continuamente que estava bem e feliz. — Hum... eu adoro estar assim. Eu gosto tanto que poderia permanecer dias e meses abraçada a ti. — Não lhe tiro a razão, docinho — sorriu ele. — Mas se me der a escolher, o momento que mais eu gosto é quando te tenho na intimidade de nosso leito nua, ardente e ofegando de prazer, só e exclusivamente para mim. — Mas bom, que descarado é! Consciente de que lhe acontecia o mesmo, levantou-a nos braços e lhe perguntou: — Acaso vais me dizer que não gosta? — Enlouquece-me — sussurrou ela, beijando-o. — E mais, o que te parece se neste instante faço ofegar eu a ti? — Quem é a descarada agora? — disse ele, rindo. Mas Gillian, disposta a continuar com o jogo, pôs lhe as mãos no pescoço, saltou e se pendurou nele. Como era de esperar, Niall, sem perder um segundo, segurou-a, e lhe abriu a boca, colocou-lhe a língua e começou a beijá-la com autêntica paixão. — Gillian... não é momento. Alguém pode nos ver — murmurou ele, enlouquecido por


aquela fogosidade. — Vamos a esse canto — disse ela com um travesso olhar nos olhos. — Me sente sobre aquela pedra, e te asseguro que ninguém nos verá. Pasmado, Niall olhou para onde ela indicava e, incapaz de negar-lhe foi até ali e fez o que lhe pediu. Com rapidez, ela abriu as pernas e, com uma desfaçatez que fez que seu marido endurecesse, sussurrou-lhe ao sentir que o núcleo de sua feminidade pulsava com força: — Me possua aqui. — Como!? — explodiu Niall, surpreso. — Veem aqui, McRae — resmungou, aproximando-o dela. Lhe agarrando uma mão, a levou até seu sexo. — Notas como palpito por ti? É verte e desejar que me possua onde estiver. Ele sentiu como seu corpo começava a reagir. Sentir o calor e a umidade que havia entre as pernas dela o enlouquecia, e soltando um gemido, sorriu. Disposta a conseguir seu propósito, e com o sangue fervendo por ele, Gillian jogou mão à fivela do cinturão e o desabotoou. Aproximando-o ainda mais, disse-lhe depois de lhe passar a língua pelo pescoço: — Não precisa baixar as calças; só tira o que tanto prazer me dá e introduza-o em mim. Desejo-o. Com uma perversa luxúria no olhar, fez o que lhe pedia, e liberou seu membro e a atraiu para ele para fazê-la sentir seu próprio ardor. — Tanto o deseja? — perguntou-lhe. — Sim... desejo-o. Mas Gillian, inquieta, já não podia esperar mais. Ardia por ele. Necessitava que a penetrasse, e agarrando-o, adiantou-se um pouco na pedra. Separando suas dobras com sua própria mão, empalou-se nele e o fez ofegar. — Torna-me louco, Gata — sussurrou com o olhar obscurecido. Gillian sorriu e, agarrando-se a seus ombros, suplicou-lhe: — Me agarre nos quadris e me faça gemer. Totalmente hipnotizado pela sensualidade dela, agarrando-a possessivamente pelos quadris, começou a mover-se a um ritmo infernal. Sentir seu pênis dentro dela naquela posição o tornou louco. Com cada impulso, ambos ofegavam, dispostos e desejando uma nova investida. Gillian sentia como o sangue lhe fervia com cada investida, cada vez mais rápido, mais certeiro, mais profundo. O prazer era imenso. Quis gritar, mas não devia. Só podia deixar-se possuir por seu marido. Quando o clímax chegou, agarrou-se a ele com força e gemeu. Niall, ao senti-la enfraquecida entre seus braços, contraiu o rosto em uma careta e, depois de um grunhido varonil e uma forte investida que a empalou, deixou-se cair sobre seu ombro. Depois daquele arranque de paixão só se ouvia o som do vento e os suspiros deles, até que Gillian começou a mover seu corpo e ele, exausto, murmurou: — A este passo, acabará comigo antes da primavera. Ela riu enquanto se aconchegava contra seu peito e com doçura o beijava. — Adoro-te, Gillian — lhe sussurrou com os lábios colados a seu cabelo.


Escutar isso fez que estremecesse. Niall era um homem que lhe demonstrava continuamente seu amor com feitos, poucas vezes com palavras, e que dissesse aquilo gostou. — Ha... McRae — zombou ela, — devo entender que seu sacrifício ao te casar comigo mereceu a pena. — Totalmente, embora às vezes, quando me responde ou te torna teimosa, reconheço que amaldiçoou por não ter deixado casar com o Kieran O'Hara — sorriu enquanto grampeava o cinturão da calça, e ao ver sua expressão divertida, beijou-a e murmurou: — Nunca teria permitido que te casasse com outro que não fosse eu, porque seus beijos de barro são meus, e se alguém tem que te trocar por algum bolo de aveia, esse sou eu. Ela gargalhou, e Niall, ao sentir que despira muito seu coração, disse, pondo-a no chão: — Anda... descemos da muralha antes que invente de novo alguma coisa. Divertida pelo maravilhoso sorriso que via, coçou o queixo. — Hum... agora que o diz, acredito que se nos metermos nessa muralha... Niall riu com vontade e, tornando-lhe ao ombro, deu-lhe um doce açoite no traseiro. — O digo, esposa... você quer me matar.

Capítulo 38

Durante o seguinte mês, a felicidade entre a Gillian e Niall foi completa. Era como se não pudessem deixar de se beijarem e fazerem carinhos. Sua necessidade de se tocarem era tal que Niall começou a se preocupar. Era normal desejar tanto a sua mulher? Uma manhã em que Gillian vadiava olhando pela janela, viu a Cris chegar a cavalo. Com rapidez, saiu de seu quarto e correu escada abaixo para recebê-la. — Que alegria verte! — gritou com as faces avermelhadas por causa da corrida. Cris, desmontando do cavalo ao vê-la, a abraçou, e Gillian percebeu que em seu rosto havia rastros de lágrimas. — O que aconteceu, Cris? Mas esta, em vez de contestar, se pôs a soluçar e a soltar palavras que Gillian não conseguia entender. Sem perder um instante, a levou até um banco de madeira que havia em uma lateral do castelo e, depois de conseguir que se sentasse e se acalmasse voltou a perguntar: — Cris, o que aconteceu? O que te ocorreu? De novo, prorrompeu em soluços, e Gillian, desesperada e sem saber que fazer, a abraçou. Pouco mais lhe ocorria. Não muito longe delas, nas cavalariças, Niall mantinha uma interessante conversa com seu bom amigo e vizinho Brendan McDougall. Ambos falavam de um armamento que Niall queria fazer no Duntulm. — Vamos ao interior do castelo. Tomaremos algo fresco — convidou Niall. Com passos seguros, ambos se dirigiram para a porta principal conversando, quando ao dobrar a esquina Niall se fixou em que Gillian abraçava a Cris, e esta parecia chorar. Brendan se deteve em seco. O que ocorria a sua amada Cris? Niall, ao ver como as observava,


pensou que ia começar a repreendê-lo por pertencer ao clã inimigo. — Brendan, Christine McLeod é tão bem recebida em minha casa como o é você. Reserva sua língua. E, por favor, não te mova daqui até que eu retorne. Não quero problemas. Brendan, consumido pela preocupação ao ver a Cris esfregar os olhos, desejou correr para ela. Precisava saber o que lhe acontecia, o que conseguiu desmoronar sua tremenda fortaleza. Mas, pensando com frieza, disse: — Não se preocupe, Niall. Não me moverei daqui. Então, este se aproximou rapidamente até as mulheres e, agachando-se, começou a falar com elas. Desesperado, Brendan os observava, e percebeu que Gillian o havia visto, inclusive Cris, mas nem uma nem a outra lhe fizeram algum sinal. — Vamos a ver, Cris — bufou Niall, — se não deixa de chorar e responde ao que lhe pergunto, vou me zangar. Lhe dando um tapa no braço, Gillian arreganhou. — Olha, Niall, se vieste aqui para pô-la mais nervosa, melhor será que vá com esse bruto que nos olha. Não acredito que a Cris goste de saber que ele está vendo que ela está chorando. — Gillian — bufou, olhando-a, — contém sua língua e seus atos ao... — Não discutam por mim — cortou Cris ao ver como os dois se desafiavam. De imediato, ambos cravaram seus olhos nela, e Gillian perguntou: — Agora que pudeste parar de chorar, pode nos contar o que aconteceu? Cris, após assuar o nariz com um pedaço de tecido que tirou da manga de seu vestido olhou ao Brendan que, com expressão ofuscada, a olhava por sua vez. — Acabo de me inteirar de que o homem a quem amo se desposará logo. — Como!? — gritou Gillian. — O que ouviste — gemeu a jovem, voltando a soluçar. Não podia ser. Brendan adorava a Cris. Desconcertada, Gillian olhou a aquele highlander que, cada vez mais perto, os olhava com uma terrível expressão. Niall, surpreendido ao saber que a intrépida Cris amava em segredo a alguém, sussurrou: — Cris, não sabia que você... — Não tinha por que sabê-lo — interrompeu Gillian. — Bom, mulher, não se ponha assim — a repreendeu ele. — Não discutam! — gritou Cris, e levantando-se, olhou ao Brendan com fúria. — Tu estúpido, que olhas! Niall bufou, e interpondo-se no campo visual da Cris, disse com profundidade: — Cris, acabo de dizer ao Brendan que você é bem recebida em minha casa, e quero que fique claro a ti que ele é bem recebido também. Mas Cris não o queria escutar; só queria ir para o Brendan e lhe arrancar a pele a tiras. Então, movendo-se rapidamente, encarou ao jovem, que a olhava desconcertado, e voltou a gritar: — É um maldito filho do Satanás, Brendan McDougall! Tu, e todo seu maldito clã. "Oh, meu Deus, para ser um mentiroso!" pensou Gillian ao ver como Niall olhava a aqueles dois. Sem entender o que acontecia, Brendan se aproximou até eles e, sem perder sua compostura, perguntou no tom mais azedo que pôde: — Por que me insultas, McLeod?


Gillian, temendo o pior, se aproximou de sua amiga e sussurrou: — Cris, por favor, deixa-o. Vamos falar em outro lugar. Estou segura de que o que nos contaste não é verdade. Tudo terá sua explicação. Mas Cris, rancorosa, se lançou contra Brendan e, com ferocidade, começou a lhe dar pontapés e murros. — Por todos os Santos, tornaste-te louca, mulher?! — grunhiu Niall. Brendan, que segurava a Cris, com um murmúrio quase inaudível perguntou ao ouvido: — Que se passa, amor? Cris não respondeu, e Niall a agarrou pelo braço e disse. — Maldita seja, Cris! Se está furiosa pelo que nos contaste, por que o paga com o Brendan? — Você não sabe nada — gritou a jovem, fora de si. Niall observou o semblante de seu amigo e, sem explicar o que ocorria ali, voltou a olhá-la. — Tão grande é o ódio que lhe tem que algo alheio a ele o faz pagar também? — Vamos, Cris — lhe ordenou Gillian, pegando sua mão enquanto olhava a Brendan com o rosto impassível. Desejava lhe gritar que era um mentiroso, mas não queria atar mais as coisas. Então, Cris, humilhada e destroçada, se voltou, e soltando-se do braço de Gillian, correu para seu cavalo. — Niall, por favor, tenta falar com ela. Temo que faça uma tolice — rogou Gillian. Ante aquela súplica, este correu para a Cris, e ficaram sozinhos Gillian e Brendan. — É um maldito bastardo, sabia? — bufou, voltando-se para ele. Mas Brendan só podia ver como Cris chegava até ao cavalo, montava e se afastava a galope. — Maldita seja, Gillian! O que aconteceu? O que ocorre para que esteja assim? Com precaução, a mulher olhou para trás e, ao ver seu marido o suficientemente longe para que não pudesse ouvi-la, perguntou: — Quando pensava lhe dizer que se comprometeu com outra mulher? — Como diz?! — sussurrou, incrédulo. — Oh, oh, dissimula, maldito... estúpido. Cris está destroçada porque se inteirou de que logo te vais desposar com outra que não é ela. Como pudeste lhe fazer isso? — Isso é mentira — bufou. — Eu não vou me desposar com ninguém e... "Oh, graças a Deus!" disse a si mesma, suspirando. Nesse momento, Niall chegou até eles. — Desculpa-a, Brendan. Inteirou-se de algo que a alterou, e aí, sua reação. Cris é uma boa moça e... Mas Brendan não o deixou terminar: — Não te preocupes, Niall — gritou, correndo para seu cavalo. — O entendo. Logo voltarei para que possamos terminar de falar. Acabo de recordar que tenho algo muito importante que fazer. Instantes depois viram partir o Brendan a galope, algo que Gillian entendeu mas que Niall não. Quando se voltou para sua esposa para comentar o ocorrido, se surpreendeu ao ver nela um significativo sorriso que rapidamente retirou. Escrutinando a, perguntou em tom adocicado: — Gillian ,há algo que eu não saiba e que você deva me contar? "Ah! Se você soubesse..." se disse, mas com o mais doce dos sorrisos, lhe agarrou o braço e murmurou:


— Não, tesouro. — Seguro? — Muito seguro — assentiu ela, tocando-se no pescoço. Mas algo o fez duvidar. Conhecia-a e sabia que quando se tocava no pescoço e, em especial, se lambia o lábio inferior algo se passava. Nesse momento, uns highlanders a cavalo passaram junto a eles, e Gillian ficou olhando. — Quem são? Niall, sem lhe tirar os olhos de cima, respondeu: — Os homens do Brendan. Ao verem que partiu vão em sua busca. "Oh, meu Deus! Oh, Deus, devo avisá-los, ou os pegaram!" pensou horrorizada. Com rapidez se desfez do abraço de seu marido, e inventando uma desculpa, disse: — Niall, preciso, preciso... fazer algo urgentemente. Convencido de que ela sabia mais do que dizia a agarrou de novo. — Aonde vais, Gillian? — perguntou-lhe. — Preciso ir ver a Hada no estábulo. — Agora?! — Sim. De um puxão se soltou, mas antes que pudesse dar dois passos, seu marido a segurou outra vez com o rosto grave. — Sei que acontece algo. Vejo-o em seu olhar e a urgência. Me diga o que ocorre, ou daqui não te move. Com o coração disparado, Gillian gemeu. — Não possoooooooooo. — Como não pode? Por todos os santos, mulher, acaso me oculta algo? — Sim, mas eu... — Gillian, estás acabando com minha paciência — protestou Niall. Incapaz de continuar ali sem fazer nada, ela soprou. — Devo confessar-te algo, mas, mas... quero que tome como uma mentira piedosa. — Uma mentira piedosa?! Ao ver sua expressão ofuscada, a mulher pegou-lhe a mão. — Essa classe de mentiras eram aceitáveis — murmurou. — Você o disse, e eu, eu... o prometi, e, e... logo, eu... — Pelo amor de Deus! O que acontece? — Bramou ele. E depois de pensar que era preferível que Niall se inteirasse em vez que se inteirassem os pais da Cris e Brendan, com rapidez lhe contou o que sabia, e deixou a seu marido com a boca aberta. — Que Brendan e Cris... — Sim — gritou, ansiosa. — Agora, por favor, avisamo-los, ou todo mundo se inteirará. Niall compreendeu a gravidade da situação, assim que ambos montaram em seus cavalos. — É claro, Gillian, não sei como o fazes, mas está metida em todas as confusões. Sem que ela respondesse, se lançaram a galope com a esperança de chegar a tempo.


Capítulo 39

Por sorte para todos, os guerreiros do Brendan McDougall se encaminharam para suas terras e passaram ao longo da cascata, sem saber que seu chefe e a filha do chefe do clã inimigo estavam ali. Quando Gillian e Niall chegaram, aqueles dois discutiam aos gritos, algo que a este não lhe surpreendeu. A jovem tinha o mesmo caráter diabólico que sua mulher e idêntica maneira de discutir. — Ha, ha, Brendan! — disse Niall, surpreendendo-os. — Nunca teria imaginado isso de ti. Ao vê-los aparecer, Cris e Brendan olharam com repreensão a Gillian, mas esta desmontou do cavalo e lhes explicou o ocorrido. Enquanto, seu marido, entre divertido e ainda tremendamente surpreso pela situação, escutava-a montado em seu cavalo. — De verdade, sinto muito. Sabem que seu segredo teria ido comigo à tumba, mas ao ver seus homens sair atrás de ti acreditei que era melhor que Niall soubesse, se deste modo evitava que os guerreiros os pegassem. — Sim, a verdade é que sim — assentiu Cris, mais tranquila, enquanto Brendan a segurava pela cintura. Gillian comprovou que os jovens pareciam mais relaxados, assim perguntou: — Por favor, alguém quer me dizer o que aconteceu? McDougall, depois de cruzar um olhar com o Niall, que seguia sorrindo com cara de bobo, respondeu: — O que contaram a Cris é mentira. Eu não me comprometi com ninguém nem penso me comprometer nem me casar com outra que não seja ela. — OH, me alegro! — suspirou Gillian, encantada, — porque te juro que quando vi a Cris nessa situação, senti uns desejos terríveis de te lançar a adaga e crava-la no meio da fronte. — Vá, que sanguinária! — disse rindo Brendan. — Você nem sabe — respondeu Niall, desmontando de seu cavalo. Cris, ainda com o rosto avermelhado mas feliz, respondeu: — Não entendo por que minha irmã disse isso esta manhã durante o café da manhã. — Quem? A divina Diane? — perguntou com ironia Gillian, fazendo sorrir a seu marido. — Sim. Esta manhã, enquanto meu pai e eu tomávamos o café da manhã, apareceu de repente e disse que lhe chegou o rumor de que Brendan McDougall contrairia matrimônio dentro de pouco com uma jovem de seu clã. Juro-te, Gillian, que acreditei morrer. — O que não entendo — sussurrou o jovem, — é quem pode lhe ter dito semelhante tolice. — Não há dúvida de que um parvo — apostilou Niall, e todos riram. Mas nesse momento Brendan se sobressaltou e disse, atraindo a atenção de todos: — Um momento. Faz umas noites estive tomando umas cervejas com o John, o ferreiro de meu clã, e entre fanfarronadas recordo que lhe mencionei que algum dia lhe surpreenderia a notícia de meu próximo enlace. Por certo, agora que o penso, ontem à noite ficou de me trazer umas adagas e não apareceu. — Você disse isso? — sorriu Cris.


— Sim, amor... Recordo tê-lo dito. Aquele apelativo tão carinhoso do Brendan a Cris surpreendeu de novo o Niall, que sorriu. Nunca teria imaginado que o tosco McDougall fosse capaz de dizer palavras tão doces, e menos a Christine McLeod, a jovem guerreira do clã inimigo. Mas apesar de que aquilo entre ambos lhe parecesse perfeito, sabia que a história não poderia terminar bem. Ia dizê-lo quando Gillian perguntou: — Mas o que tem que ver seu ferreiro com a boba da Diane? Sendo a parva e fina que é nunca se aproximaria de um simples highlander. — Quem vai saber — respondeu Brendan, rindo. — Tampouco ninguém imagina que Cris e eu... — Não posso acreditar nisso! — soltou, de repente, Cris. — O que acontece? — perguntou Niall, perdido. Cris levou uma mão à boca. — Diz que ontem à noite marcou com o ferreiro e não apareceu. — Assim é — assentiu Brendan. — Justamente ontem à noite — continuou Cris, — Diane chegou tarde e muito acalorada de dar um passeio pelo bosque, e como cobria o pescoço, estou segura de que devia ter alguma marca. Conheço-a e é como sua mãe. Tudo o que tem de estúpida o tem de enganadora — todos riram. — Papai lhe perguntou de onde vinha tão acalorada, e ela, com um sorriso abobalhado, respondeu que de qualquer lado que não houvesse um porco McDougall. Dando uma palmada, Brendan o entendeu. — E ontem à noite John não me trouxe as adagas que eu lhe pedi. — Sua irmã e o ferreiro! — exclamou divertido Niall. — Parece que sim — disse Cris, e começou a rir. — Pois não estranhe — zombou Gillian. — Anda com a mosca morta! Se é que são as piores... Cada vez mais convencida do que pensava, Cris perguntou a seu amado: — Docinho, como é seu ferreiro? Sei perfeitamente como essa néscia gosta dos homens, me descreva e saberei se tiver algo com ele. Com a diversão instalada no rosto, Brendan disse: — John é tão alto como eu. Forte. Solteiro. Olhos e cabelos claros, e conforme dizem as mulheres, é bonito e sedutor. Por certo — acrescentou rindo, — sempre se vangloria de que cada vez que se deita com uma mulher lhe chupa o pescoço para lhe deixar sua marca. — Confirmado — apontou Cris. — A simples da Diane e seu ferreiro se viram ontem à noite. Gillian e Niall se olharam, surpreendidos, e a primeira exclamou: — Anda... para que confie nas raparigas delicadas. Isso fez o Niall rir as gargalhadas. Sua mulher, às vezes, dizia umas coisas tão engraçadas que era impossível não rir com ela. A partir desse momento, Cris e Gillian começaram a tagarelar entre elas enquanto os homens as olhavam. Com a diversão no olhar, Niall se aproximou do Brendan e, lhe dando um golpe nas costas, perguntou-lhe:


— Desde quando estão juntos? Assumindo que seu segredo já não era mais isso, encolheu os ombros. — Há bastante tempo. Niall, maravilhado por como enganaram a todo mundo, assentiu. — Sabe onde te está colocando, verdade? — Sim. — Nem seu pai nem o dela lhes farão isso fácil. Seus clãs são rivais desde antes que vós chegassem ao mundo. Como ides solucionar isso? Brendan, depois de olhar com doçura a Cris e sentir que a vida sem ela não fazia sentido, murmurou quase envergonhado: — Sinceramente, amigo, tanto faz se meu pai ou o pai da Cris tentem me matar; não me afastarei dela, porque a quero com toda minha alma. — Ha... surpreende-me seu romantismo. — Acaso você não morreria pela Gillian? Então, olhou a sua problemática mulher e, depois de jogar o braço pelos ombros a seu amigo, sussurrou: — Não tenha a menor duvida. Adoro a essa pequena.

Capítulo 40

Passados uns dias, Niall ordenou uma manhã a seus homens que subissem uma tina ao quarto. Queria um momento de intimidade com sua mulher. Mas aquilo incomodou a Gillian. Essa manhã só queria dormir e estava de um péssimo humor. — Bom dia, preciosa. — Tenho sono. Deixe-me dormir — respondeu, dando-a volta. Brincalhão e desejoso de intimidade, Niall se aproximou dela e a beijou na nuca. Ao ver que não reagia, agarrou-a pelos ombros e a sacudiu. — O que pensa minha preciosa esposa? — Em que se não pares vou te abrir a cabeça — respondeu, mal-humorada. Mas Niall continuou insistindo e dando uma palmada no ar, disse: — Já é tarde, preguiçosa. É hora de se levantar. — Não — protestou ela, fechando com força os olhos. — Sim. — Eu disse que não. Sem perder seu humor nem sua paciência, Niall a puxou, que ficou em pé. — Por todos os Santos! — bramou, zangada; tinha o cabelo revolto e os olhos inchados de tanto dormir. — Não pode respeitar meu sono? — Não, docinho. Preciosa como está neste instante, de ti não posso respeitar nada. Ia contestar, mas não pôde. Niall, com sua ansiosa boca, já a beijava, e ela, sem duvidas, respondeu-lhe, até que de repente o empurrou. Niall não gostou disso, e franziu o cenho. — O que acontece? Por que rechaças meu beijo?


— Maldito seja, Niall! Não o rechacei, mas ou me separava de ti ou morria asfixiada. — Noto-te um pouco alterada. "OH, que observador!" pensou, e lhe cravando um olhar assassino, espetou-lhe: — Não estou alterada, mas você me altera. Desejo dormir e não sei como devo lhe dizer isso para que o entenda. Isso o fez sorrir. Desde que ela chegou ao Duntulm, seus dias se converteram nos melhores de sua vida. Aquela que pelas noites se abraçava a ele para dormir era sua Gillian, sua Gata, e era tal sua felicidade que às vezes acreditava que ia explodir o coração, ou que ia despertar e todo teria sido um sonho. — Niall, por favor... por favor, me deixe descansar — murmurou ela, tentando tombar na cama. — Não quero me banhar agora. Comovido por seu gesto infantil, sentou-se na cama com ela em cima e disse enquanto lhe repartia doces beijos pelo pescoço: — Banhara-te agora comigo. — Não... não o farei. — Sim... sim o fará — ronronou, lhe mordiscando a orelha. Mas Gillian não pôde mais, e ao notar que lhe puxava o cabelo, protestou: — Ai! Faz-me mal. A paciência do Niall começou a rachar. Relutantemente, zangado, perguntou-lhe: — Pode-se saber que te passa que não para de grunhir? — Não me passa nada — gritou. — Mas se primeiro sinto que me asfixia e logo me puxa o cabelo, o que devo fazer, me calar e aguentar? Porque se tiver que me calar quando me faz mal ou algo que não me agrada, não penso fazê-lo, ouviste-me? Incomodado por seu tom de voz, levantou-se da cama, mas o fez tão depressa que, sem que o pretendesse, Gillian caiu de traseiro ao chão. — Ai! Mas será bruto...! — gritou, mal-humorada. Tentou ajudá-la a se levantar, mas lhe retirou sua mão de um tapa e se levantou sozinha. Uma vez de pé, e a pesar de ter que jogar a cabeça para trás para falar a seu enorme marido, gritou com muito mau gênio: — McRae, não volte a me atirar ou ... — Ou o que? — vociferou ele, olhando-a com expressão brusca. Finalmente, aquela descarada conseguiu zangá-lo. — Se lhe disser isso, não te surpreenderia — espetou, dando um passo atrás. Estranhando a aquela resposta, olhou-a e lhe esclareceu: — Gillian, eu não gosto nada do tom que me fala quando diz McRae, e menos ainda, seu caprichoso comportamento. — E eu não gosto que porque eu me queixe por algo que me desagrada você proteste. Sua mulher não podia se calar? Porque se empenhava sempre a ficar por cima? — Para tudo tem que ter uma réplica? — perguntou Niall. — Claro — assentiu com descaramento. Consciente de que devia moderar o impulso de castigá-la, o highlander pegou um dos lençóis da cama e, depois de atirar-lhe à cabeça, perguntou:


— Para isto também tem réplica? Sem mudar sua expressão, Gillian agarrou os dois travesseiros e os lançou com força. — Vale-te isto, ou quer mais? Não queria zangar-se com sua mulher. Alterado, aproximou-se da banheira e, depois de colocar a mão na água, salpicou-a. Ela nem se moveu. Ao ver que não respondia, ele voltou a salpicá-la. — OH, venha! Tira essa cara de mau humor e sorri! — disse tentando fazer a paz. — Não me apetece. Nesse mesmo momento, Niall atirou um pedaço de sabão à banheira e as gotas molharam de novo a Gillian, mas ela dessa vez sim respondeu. Colheu com fúria um vaso que havia sobre uma mesa, tirou as flores e lhe atirou a água no rosto. — O seguinte que te atirarei será o próprio vaso. O rosto do Niall se tornou tosco, e Gillian voltou a fazer um passo atrás, enquanto a água jorrava pela cara do homem, que bufava. — Pode-se saber o que te ocorre, mulher? — bramou, incomodado, e limpando o rosto de maus modos, rodeou a banheira para aproximar-se dela, que recuou. Assustada por como ele se movia e por seu rosto sério, gritou: — O que vais fazer, Niall? — O que merece, malcriada! Com força a agarrou e a arrastou à cama, e quando Gillian notou que a punha de barriga para baixo sobre suas pernas, subia-lhe a regata e lhe deixava o traseiro ao nu, uma raiva incontrolável fez que lhe mordesse a perna com brutalidade. Tal foi a dor que lhe causou que Niall blasfemou e a soltou. — Maldita seja, Gillian, me fez mal! Então, sem esperá-lo, viu como ela agarrava sua espada e, com um rápido movimento, punha lhe a ponta do aço na garganta. — Você pretendia me machucar . Eu só me adiantei. Olhou-a, incrédulo, e sem mover-se, murmurou entre dentes: — Baixa agora mesmo a espada, Gillian. — Não deixarei que me açoite. — Baixa-a! — apressou ele. — Se me prometer que não me açoitará — exigiu ela. A ponto de agarrá-la pelo o pescoço e não açoitá-la, e sim matá-la, bramou como um possesso. — Eu disse que baixe a espada de uma maldita vez ou te juro que o lamentará. Consciente, de repente, de que seu marido estava muito zangado e do absurdo da situação, resignando-se baixou a espada. Realmente, não sabia por que fez aquilo. Tudo resultou tão rápido que levantá-la foi um movimento espontâneo. Com a raiva instalada em sua tensa mandíbula e em seus olhos, Niall se aproximou dela, que não se moveu, e lhe agarrando com uma mão o queixo e com a outra tirando uma adaga da cintura, chiou lhe no rosto: — Se voltar a fazer o que fez, não respondo por meus atos. E sem mais demora lhe cortou com a adaga uma grande mecha dourada. Gillian, horrorizada,


gritou e o empurrou. — Por todos os Santos escoceses! — vozeou ao ver a enorme mecha que lhe cortou. — Como pudeste me fazer isto? — Simplesmente porque merecia isso e porque acredito que seu comportamento pôs fim a nossa lua de mel. Falhou a sua promessa de não levantar uma arma contra mim, recorda-o? Perdoei-te sua mentira piedosa, apesar de saber que no dia que se conheça a relação entre o Brendan e Cris teremos problemas, mas não te vou perdoar o que acaba de fazer. Gillian não respondeu. Ele tinha razão, mas já nada se podia fazer, salvo não responder. Isso seria pior. Durante uns instantes se olharam como verdadeiros rivais, até que Niall se voltou e com passos enérgicos agarrou sua própria espada, abriu a porta do quarto e partiu. Gillian, destroçada pelo que fez, atirou-se na cama, para amaldiçoar uma e outra vez.

Capítulo 41

Depois do episódio do quarto, aquela noite Niall não apareceu, para desespero de sua mulher. Nem tampouco ao dia seguinte. Simplesmente desapareceu do Duntulm. Só Helena e sua paciência lhe serviam de pano de lágrimas. — Milady, não se preocupe, já verá como logo retornará. Seu marido a quer... — O que quer é me deixar calva — grunhiu, olhando-se ao espelho enquanto a mulher lhe arrumava a ofensa que Niall provocou. Aquele comentário fez sorrir a Helena. Quando Gillian lhe contou que cada vez que discutiam lhe cortava uma parte do cabelo, não pôde por menos que sorrir. — Os homens às vezes, milady, são piores que os meninos. Atuam sem pensar. — Dá-me igual. Niall não é um menino, ou pelo menos isso acreditava — chiou enquanto comia um bolo de aveia. — Não se mova, ou serei eu quem lhes faça um horrível corte — sorriu com carinho a criada. — Tranquila, Helena — zombou ao ver como seu cabelo minguava. — Já estou acostumada a levar o cabelo cheio de maus cortes. Quando saí de meu lar, de Dunstaffnage, o cabelo me chegava pela cintura, e agora, não me chega nem no meio das costas. Com ternura, a mulher terminou de lhe arrumar o cabelo e sorriu ao ver que Gillian abria descontroladamente a boca. — Têm sono, milady? Pegando um novo bolo de aveia, Gillian o mordiscou e assentiu. — Não sei o que me acontece ultimamente, Helena; embora durma e durma, quando acordo desejo seguir dormindo. Com uma risada nervosa, a mulher ficou ante ela. — Milady, poderia estar grávida? Quando fico grávida, esse é um dos sintomas que me alerta. "Por todos os Santos!" pensou Gillian. Entretanto, sem mudar de expressão, indicou-lhe: — Impossível. Recentemente tive os dias que toda mulher tem ao mês.


— Então, devemos estar alerta com sua saúde. Começa a fazer frio e, sendo este seu primeiro inverno no Skye, deve se cuidar — lhe aconselhou Helena, a quem não lhe escapou que Gillian se tocava instintivamente no ventre. — Não se preocupe Helena, cuidar-me-ei. Uma vez que acabou o que estava fazendo, esta recolheu seu equipamento e partiu. Gillian ficou a sós na habitação. Fazendo as contas, levou as mãos à boca, assustada, ao reparar em que levava mais de um mês, quase dois, sem que tivesse o período da mulher. Estava tão ocupada em satisfazer seu corpo e o do Niall que não percebeu. Emocionada pelo que acabava de saber, voltou a tocar seu liso ventre e sorriu. O mal-estar, o sono e o voraz apetite só podiam dever-se a uma coisa: estava grávida! Debatia-se entre a alegria da notícia e a tristeza de que seu marido não estivesse ali para contar a ele que seria um pai magnífico. Adorava as crianças, e quando soubesse que ia ser pai, tornar-se-ia louco! Mas quando Gillian pensou no gorda e disforme que ficaria, horrorizou. Se Niall já acreditava que Diane era mais bonita que ela, não queria nem pensar o que diria quando rolasse, mais que andasse, no final da gravidez. Conhecendo seu marido, seguro que a trataria como Duncan a Megan. Sobre protegeria e não a deixaria mal sair do castelo, mantendo-a todo o momento na cama, descansando. Suspirou e decidiu ocultar seu estado todo o tempo que pudesse. Mas ao pensar no Niall, sorriu e desejou lhe contar a boa nova assim que retornasse. No dia seguinte, depois de uma terrível noite de pesadelos, uma das idosas, Susan, foi a seu quarto para lhe avisar de que tinha visita. Tão emocionada estava, que não perguntou de quem se tratava, e após descer os degraus de dois em dois, ficou petrificada ao se encontrar no meio de seu desmantelado salão a Diane, junto a sua mãe. Em um princípio, pensou em jogá-las de seu lar. Que fazia essa idiota em seu castelo? Mas tentou comportar-se como o que se esperava dela, e com um falso sorriso disse, face às vontades de as apunhalá-las: — OH, que surpresa! Diane, Mery, o que fazem por aqui? Cris não veio com vocês? As mulheres a olharam com curiosidade, e então Gillian percebeu que Mery dava um pequeno empurrão a sua filha, que respondeu: — Christine preferiu ficar treinando no campo de treinamento com nossos homens. "Isso é o que eu necessito... um pouco de luta", disse-se, mas ao pensar em seu bebê sorriu. — Íamos a caminho do mercado do Uig — continuou Diane, — e pensamos que possivelmente te agradaria nos acompanhar. Mas antes que pudesse responder, interveio a mãe da Diane: — Gillian, que tal vai tudo? Que tal sua vida de casada? — perguntou-lhe com o melhor de seus sorrisos. — Bem — mentiu. — A verdade é que não posso me queixar. As pessoas são encantadoras comigo. — Trocaste de penteado? — perguntou Diane. Com um fingido sorriso, Gillian tocou o cabelo. — Sim, cortei um pouco. Estava muito longo. — OH! Como pudeste fazê-lo? Para um homem, o cabelo de uma mulher nunca é muito


comprido. Não volte a cortá-lo, ou seu marido se fixará em outra — lhe aconselhou Mery. — Mãe, Gillian é muito bonita e não acredito que Niall deixe de amá-la por um pouco mais ou um pouco menos de cabelo. "Quanto louvor!" pensou Gillian. Surpreendida por tanta amabilidade, Gillian olhou a Diane sem pestanejar. Não confiava naquela tola nem um cabelo. Mas então a mãe acrescentou: — Vamos ver, Diane — arreganhou Mery, — diga a Gillian o que vieste a fazer e deixa de rodeios. Cada vez mais aturdida pela visita, quase cai de traseiro quando Diane disse: — O motivo real da visita era porque queria te pedir desculpas pelo trato que te dispensei no Dunstaffnage e após suas bodas. Só espero que esqueça minha obcecação por Niall e troque sua opinião sobre mim. Estupefata, Gillian não sabia o que dizer ante aquela revelação. — Ai, docinho! — interveio Mery, lhe agarrando as mãos, — quando Diane me confessou que subiu a seu quarto para te envenenar sobre o Niall... OH, Deus, acreditei morrer! — Não... não se preocupem — respondeu Gillian, — isso está esquecido. Diane, então, equilibrou-se para a Gillian e, ajoelhando-se ante ela, soluçou: — Por favor, Gillian, sinto-me envergonhada de meu comportamento e só espero que me perdoe e algum dia possamos ser amigas. Comovida, ajudou-a a se levantar do chão, e caminhando para os bancos, fez que se sentasse enquanto sua mãe com gesto desanimado as seguia. — OH, Gillian, sinto-me mal! — soluçou Diane. — Me comportei contigo como uma verdadeira harpia, e você... A choramingação da garota e os olhos horrorizados de sua mãe a impulsionaram a dizer: — Basta já, Diane! Tudo está esquecido, e eu... eu estarei encantada de que sejamos amigas. Diane prorrompeu então em novos soluços, e Gillian pediu a uma desconcertada Helena, que as olhava da porta, que preparasse uma infusão que lhe acalmasse os nervos. Finalmente, a bebida o conseguiu. Um momento depois, Diane e sua mãe, ambas mais sorridentes, passeavam pelas terras do Niall de braços com Gillian, que, necessitada de afeto, agarrou-se a elas com firmeza. Possivelmente não fossem suas melhores amigas, mas se sentia tão só naquele momento que um pouco de amabilidade iria bem. — Por certo — perguntou Mery, — onde está Niall? Não o vimos. Com rapidez, Gillian ideou uma mentira. Apesar de que seu coração se abrandou com a Diane e sua mãe, não queria que elas soubessem que tinham discutido e que ignorava onde estava. — Está de viagem. Recebeu uma missiva de seu irmão Duncan e teve que partir a Eilean Doam. Diane, surpreendida, olhou-a e lhe perguntou: — Por que não partiu com ele? Consta-me que Megan e você são boas amigas. Depois de soltar um suspiro de resignação, Gillian cochichou: — Tenho muito trabalho aqui, no Duntulm. Preferi ficar para tentar pôr em ordem o desmantelado lar de meu marido — as outras assentiram. — Acredito que um pouco de mão


feminina lhe virá muito bem. E pretendo surpreendê-lo a sua chegada. — Tenho uma ideia! — gritou Diane. — Venha ao mercado. Estou segura de que ali encontrará todo o necessário para converter Duntulm em um precioso lar e surpreender ao Niall a sua chegada. — OH, que excelente ideia! — assentiu Mery. — Eu conheço vários marceneiros que trabalham maravilhosamente a madeira, e estou segura de que se falar com eles lhe farão vários móveis a um preço estupendo. Gillian pensou. Podia ser uma boa ideia! Possivelmente se Niall a sua volta visse mudanças em seu lar, se alegraria. E as olhando com um sorriso, assentiu. — Perfeito. Vamos ao mercado! De forma decidida, Gillian pediu ao Donald e vários homens mais que as acompanhassem ao Uig. Precisavam fazer umas compras. Mas ficaram impressionados quando lhes pediu que levassem um par de carretas. Depois de passar grande parte da manhã comprando pelo Uig com aquelas duas mulheres, pela tarde regressaram a Duntulm com as duas carretas a transbordar e, depois destas, duas carretas mais. Tinham comprado cadeiras, mesas, tecidos para decorar janelas, fazer almofadas, vestidos e tudo o que era necessário. Gillian inclusive se permitiu comprar um par de enormes tapeçarias e dois quadros a um artista. À alvorada do sétimo dia, incapaz de seguir dormindo naquela cama sem o Niall, Gillian se levantou muito cedo e começou a trabalhar. Mas pouco depois ficou com um sono imenso e, recostando-se em um dos assentos que havia no salão junto ao Donald e Liam, sem perceber escorregou entre eles e com o calor que lhe proporcionavam dormiu. — Por todos os Santos, Gillian! O que faz dormindo entre esses homens? — gritou Mery ao entrar no salão e vê-la. Com rapidez Gillian e seus guerreiros despertaram. — Milady — sussurrou Liam, sobressaltado, — poderíamos tê-la esmagado. Divertida, Gillian se levantou e, disse: — Tranquilos. Estava esgotada e sem perceber adormeci entre vós. Mas estou bem; não se preocupem. — OH, Deus, Gillian! — reprovou-a Diane. — Dá graças ao céu de que fomos nós. Se tivesse aparecido Niall ou qualquer outro, poderia ter pensado o que não é. Donald se ofendeu. O que estava querendo dar a entender aquela mulher? Mas Gillian, ao ver o gesto do homem, pôs lhe uma mão no ombro e disse: — Se Niall me tivesse visto, querida Diane, não teria pensado nada estranho. Não é a primeira vez que adormeço entre seus homens. Liam e Donald se olharam, boquiabertos. Em que outra ocasião ocorreu? Mas ao ver a cara daquelas duas bruxas, sorriram ao perceber o engenho de sua senhora para desconcertar ao inimigo. Diane e sua mãe ficaram atônitas, mas não disseram nada mais. Pouco depois começaram a cortar tecidos com a ajuda das idosas e a costurar cortinados para as janelas, enquanto Gillian


confeccionava almofadas e os homens colocavam mesas e cadeiras. — Que mais querem que façamos, milady? — perguntou Donald, olhando-a. — Deveria tirar essa horrível mesa, Gillian — disse Diane, assinalando o enorme móvel que presidia o salão. — Sei pelo Niall que a odeia e só esperava a comprar nova mesa para queimá-la e destruí-la. — E essa feia cadeira, OH, Deus, que horror! — apostilou Mery, assinalando a cadeira desmantelada que descansava junto a lareira. Deixando a costura a um lado, Gillian se levantou e, depois de pensar no que suas convidadas sugeriam, disse aos homens: — Desmanchem essa mesa. Seguro que sua madeira nos virá muito bem para nos esquentar. — A mesa grande!? — perguntou Liam, surpreso. — Sim, e de passagem aquela cadeira que há junto a lareira. Os homens se olharam. Aquelas duas coisas eram os únicos móveis que seu senhor levou consigo quando se mudou ali. — Milady — assinalou Donald, — nós o faríamos encantados, mas está segura de que a seu marido não vai incomodar que destruamos a mesa e a cadeira? — OH, Por Deus! Mas se são as coisas mais horrorosas que vi em minha vida... — queixou-se Diane. — Como vai incomodar a seu senhor que isso desapareça de sua vista quando a encantada Gillian comprou elegantes e bonitos móveis? Mas, claro — acrescentou pestanejando, — o que disser Gillian é o que será. — É óbvio. Ela é quem deve decidir, mas com o gosto tão delicioso que tem duvido de que goste de ver esse destroço por aqui — insistiu Mery. Tratada com atenção por tantas lindezas, Gillian se convenceu. — Donald, estou totalmente segura. Entretanto, os guerreiros pareciam não querer escutar, e insistiram: — Mas, milady, acredito que é melhor que não o façamos, porque essa m... Gillian, ao ouvir como sopravam Diane e sua mãe, voltou-se para os homens e gritou em tom duro: — Eu disse que as desmanchem e que logo deixem a madeira junto a lareira. Preciso repeti-lo mais vezes para que o entendam? Eles se olharam e puseram mãos à obra. Tiraram a mesa e a cadeira ao pátio do castelo. Pouco depois entraram e deixaram a madeira junto a lareira. Diane e sua mãe se olharam e sorriram.

Capítulo 42

Ao amanhecer do décimo segundo dia, Gillian, desesperada, olhou pela janela. Onde se meteu Niall? Quando retornaria para que pudesse lhe comunicar que estava grávida? Durante aquela manhã, Gillian esperava Diane e a sua mãe, mas não apareceram. Com a ajuda dos homens, penduraram as tapeçarias no salão e as cortinas de tecido azul


claro sobre as janelas, uma vez que as tiveram limpado as idosas. Quando acabaram, Gillian fez pôr ao redor do salão e o corredor de ascensão às habitações e muralhas vários ganchos de ferro para colocar tochas e com isso dar luz ao interior do castelo. Helena e a pequena Demelza se entretiveram em recolher flores do exterior do Duntulm, e Gillian se encarregou de compor diferentes ramos com coloridas flores e situá-los pelo salão. Por último, dispôs um dos quadros que comprou em cima da lareira dessa estadia e o outro sobre a lareira de seu quarto. Aquela noite, quando os guerreiros entraram no iluminado e reluzente salão, ficaram maravilhados. O que até fazia poucos dias era um lugar escuro, sujo e sombrio, converteu-se em uma elegante estadia como a de outros castelos. O décimo quinto dia, enquanto se desenredava o cabelo olhando das muralhas, de repente o viu. Niall! E como uma louca correu em sua busca. Precisava lhe contar seu segredo, beijá-lo e lhe pedir desculpas. Nunca deveria ter-lhe posto o aço no pescoço. Mas ele, antes que se aproximasse, deteve-a com um duro olhar que fez que parasse o coração de Gillian. Engolindo o nó de emoções que sentiu por aquele rechaço acima de todo o mundo, limitou-se a sorrir e ver como ele, sem beijá-la, partia com dois de seus homens a revisar as obras do novo poço. Exacerbada e alterada, decidiu dar um passeio pelos arredores. Precisava relaxar, ou era capaz de lançar-se sobre seu marido e lhe exigir explicações por sua ausência. Passado um momento no que passeou pela colina agarrando flores, ouviu vociferar seu nome: — Gillian! Levantando o olhar, viu que era Niall quem a chamava, e o coração começou a pulsar descontrolado. — Gillian! — voltou a ouvir. Com um sorriso, agarrou as saias e correu para ele, mas de repente se deteve. Seu marido, seguido por vários de seus homens, parecia zangado. Seu semblante era terrível e andava para ela com grandes passos. "OH, Deus! o que aconteceu?" pensou, horrorizada. Niall parecia colérico. Fora de si. Mas enquanto caminhava para ele, tentou pôr o mais doce de seus sorrisos. A cara do Niall, entretanto, denotava tudo menos vontade de confraternizar, e quando chegou até ela, agarrou-a pelos ombros e começou a sacudi-la enquanto gritava fora de si: — O que fez com a mesa e a cadeira de meus pais?! Gillian não o entendeu. — A que te refere? Cravando seus preciosos e incitantes olhos marrons nela, bramou: — Quando parti de Duntulm havia uma mesa de carvalho de meu pai e uma cadeira junto a lareira de minha mãe. Onde estão? Gillian quis morrer. Ordenou desmanchar os móveis dos pais do Niall! Deixou cair as flores que levava nas mãos. O que podia dizer? — Me responda, Gillian! — gritou.


"Ai, Deus... Ai, Deus!" lamentou-se com a boca seca. Quando lhe dissesse o ocorrido, ia matá-la! Depois de tocar o ventre para que lhe desse forças e tomar impulso, olhou-o e sussurrou, disposta a carregar com sua culpa. — Niall, eu ordenei que... Donald, Aslam e Liam se aproximaram até eles rapidamente e não a deixaram terminar. — Desculpe, meu senhor — interrompeu Donald, e Niall o olhou. — Sua mulher ao comprar as novas mesas, pediu-nos que retirássemos do salão a mesa e a cadeira e as levássemos a um dos quartos superiores, até que a sua chegada você decidisse onde as pôr. Gillian ficou com a boca aberta, enquanto sentia umas terríveis vontades de vomitar. Mas ao notar o olhar de seu marido, colocou as mãos nos quadris e, levantando o queixo, perguntou: — Algo mais? Niall, depois de conhecer o que queria saber e sem voltar a olhá-la, deu a volta e partiu. Nesse momento, Gillian olhou ao Donald Aslam e Liam e, com um sorriso, sussurrou-lhes: — Obrigada, muito obrigada. Acabam de me salvar a vida. Aqueles, com um sorriso malicioso, lhe piscaram o olho, giraram e partiram atrás de seu laird, que a passos longos retornava ao castelo. "Uf! Do que nos livramos, pequeno", pensou, tocando o ventre, enquanto observava a seu marido afastar-se. E ao se agachar para recolher as flores que lhe caíram das mãos, pensou nas odiosas da Diane e sua mãe, e disse: — Ides vos inteirar de quem é Gillian, a McDougall do Dunstaffnage. Vou lhes fazer pagar sua malvada maldade com tal ferocidade que ides estar lamentando-o o resto de suas vidas. Bruxas!

Capítulo 43

Durante o resto do dia, Niall não a procurou em nenhum momento, inclusive parecia fugir dela. Em um par de ocasiões, sentiu náuseas e as pernas fraquejavam, mas respirando com dissimulação, aguentou. A cada minuto que passava, desejava mais que a olhasse e sorrisse. Estava louca para lhe dar a notícia de sua próxima paternidade, mas ele parecia não querer saber nada dela. Durante a refeição se sentaram juntos, mas Niall continuou ignorando-a; nem sequer pareceu perceber as mudanças que fez no salão, e isso a incomodou. "Voltamos para tempos passados" pensou com amargura. Ele se dedicou a comer e a falar com seus homens, ignorando-a, como se ela não estivesse, embora por dentro se desfazia cada vez que a ouvia respirar. Durante o tempo que esteve fora, só teve uma coisa na cabeça: retornar a seu lar para ver sua mulher. Gillian, a cada instante mais ferida e humilhada por seu desprezo, não pôde conter um segundo mais sua ira e lhe deu um golpe no braço.


— Onde estiveste estes dias? Estava preocupada contigo — perguntou em um tom muito amargo. Olhando-a sem um ápice de doçura, o highlander bebeu de sua taça e respondeu: — Não é de sua incumbência. — Ah, não? Sem lhe tirar os olhos de cima, sibilou: — Não. — Pois não me parece bem. — O que pareça bem a ti ou não, sinceramente, esposa, não me interessa. — É grosseiro! — grunhiu ela. Niall fechou os olhos e, depois de bufar, murmurou: — Gillian, acabo de chegar. Tenhamos a refeição em paz. Engolindo a enxurrada de maldições que estava a ponto de soltar, decidiu respirar, e quando esteve mais relaxada, suavizou o tom de voz e, aproximando-se dele, lhe sussurrou ao ouvido: — Senti sua falta. Escutar aquilo e sentir sua proximidade fizeram que lhe cambaleassem as fortes defesas que naqueles dias conseguiu construir contra ela. Foi uma tortura separar-se do que mais queria, mas não podia permitir que ela, sua própria mulher brandisse a espada contra ele. Então, inexplicavelmente para ele, sem olhá-la respondeu: — Certamente que não tanto como eu a ti... "Sabia," pensou a ponto de tocar o pescoço. Mas Niall acrescentou: — Embora sendo sincero, quando a preciosa Diane e sua mãe me disseram que a viram pulando com meus homens no banco do salão como uma vagabunda, me surpreendi. Não esperava esse comportamento de ti. Boquiaberta, olhou-o, e com fogo nos olhos, disse: — Não as terá acreditado, verdade? — Me diga, por que não deveria acreditar nessas duas inocentes damas? "Malvadas bruxas!" — Estou esperando, esposa. Acaso rememorava seus anos no Dunstaffnage com seus moços de estábulo? Incomodada, humilhada, zangada e um sem-fim de mais coisas, Gillian, sem olhá-lo, blasfemou: — Ao demônio, McRae. Pensa o que tenha em vontade porque não vou me defender ante ti. E se tu queres acreditar que elas são umas inocentes damas, acredita! Mas me permita te dizer algo: espero não me parecer nunca a esse tipo de mulher, porque então me decepcionaria a mim mesma. Sem querer olhá-la, ele continuou comendo, enquanto com a extremidade do olho pôde comprovar como ela ruminava seu mau humor. Estava tão incomodado e zangado pelo que aquelas duas mulheres insinuaram quando passou pelo Dunvengan que teria querido matar alguém antes de chegar ao Duntulm. Indignada, pensou em lhe cortar o pescoço. — Cortaste o cabelo, verdade, esposa? Voltando-se para ele, contestou com raiva:


— Sim, McRae; tive que cortar, isso graças a ti. Sem pestanejar, a olhou, e lhe agarrando um dos cachos que lhe caíam pelas costas disse: — Eu gostava mais com o cabelo até a cintura. Era mais feminina. "Deus, ajuda-me, ou te prometo que lhe parto a taça de prata na cabeça!" pensou Gillian sem querer lhe responder. Não desejava piorar as coisas. Devia pensar em seu bebê, mas ele voltou a carga com o pior dos comentários: — Acredito que o cabelo diz muito de uma mulher. Mostra sua delicadeza, sua feminidade, sua doçura — murmurou com voz rouca. — Sempre pensei que quanto mais comprido é o cabelo de uma donzela, mais desejável é. "Não devo contestar," refletiu enquanto comia o guisado que Susan pôs ante ela. Mas Niall chegou com vontades de luta e continuou: — Acredito que deveria seguir o exemplo da doce e arrebatadora Diane McLeod. Aquele nome fez que se engasgasse. — Em alguma ocasião essa preciosidade soltou o cabelo ante mim para me mostrar e é verdadeiramente sedutor. Bom, em realidade ela, em si, é fascinante, mesmo você não se compara a ela. "Doce? Arrebatadora? Preciosa? Fascinante? Oh, não, isso sei que não!" pensou soltando o garfo como se lhe queimasse. Ao olhá-lo para contestar, viu em seus olhos a vontade de brigar; assim, e até a risco de morrer de raiva, Gillian sorriu e disse, levantando-se: — Tem razão, esposo. A preciosa Diane é um autêntico primor de mulher. E agora, se me desculpas, devo atender certos assuntos pessoais. Partiu sem ver como Niall a seguia com o olhar e sorria. Furiosa e terrivelmente irritada, subiu a seu quarto. Colérica abriu um de seus baús e depois de rebuscar encontrou o que procurava. Tirando o vestido, o jogou com ferocidade sobre a cama e vestiu as calças de couro e as botas de cano alto. Precisava desafogar e sabia muito bem onde devia ir. Agarrando uma tira de couro marrom prendeu o cabelo e, olhando-se no espelho murmurou com um perverso sorriso: — Diane McLeod, me... vais pagar. Depois de agarrar sua espada, desceu com cuidado pela escada, mas não queria passar pelo salão; se o fizesse, certamente seu marido a interceptaria ao vê-la com a espada e vestida daquela maneira. Por isso, olhou por uma das janelas da escada, e depois de ver que se o fizesse com cuidado não aconteceria nada a seu bebê e, como não havia ninguém a olhando, se lançou sem perceber que uns olhos incrédulos a olhavam de não muito longe. Uma vez que se levantou, se encaminhou para as cavalariças, donde Thor ao vê-la soprou. Montou nele e o esporeou para sair dali quanto antes. No salão, Niall seguia escutando a seus homens, mas realmente não ouvia do que falavam. Estava tão preso em seus pensamentos a respeito de sua mulher que não percebeu que seu fiel Ewen se sentou a seu lado até que este falou: — Bonito salão, meu senhor.


Niall, voltando a si, olhou a seu redor, e com um sorriso, assentiu: — Sim, Gillian fez um bom trabalho. Ewen se voltou então para os homens e, com um movimento de cabeça, indicou que os deixassem, e estes rapidamente o fizeram. — Meu senhor... — Ewen, pelo amor do Deus, nos conhecemos de toda a vida, quer me chamar por meu nome? — protestou Niall. O homem sorriu e, após um gole de cerveja, disse: — Posso te perguntar algo? — Sim, Ewen — respondeu McRae, reclinando-se na cômoda cadeira e sorrindo. — Onde está lady Gillian? Ao pensar em sua combativa esposa, Niall sorriu. — Subiu a descansar — e com zomba, confessou: — Acredito que está tão zangada comigo que preferiu desaparecer de minha vista que seguir discutindo. Aquilo fez Ewen rir, que, pegando uma taça, a encheu de cerveja. Depois de um longo trago para refrescar sua garganta, murmurou: — Está seguro? Surpreso pela pergunta, Niall se incorporou da cadeira. — Devo duvidá-lo? — perguntou. Ewen, com um sorriso que o deixou paralisado, assentiu. — Acredito que sua esposa decidiu trocar seu descanso por algo um pouco mais emocionante — ao ver que Niall deixava de sorrir, adiantou: — Acabo de vê-la atirar-se pela janela da escada com a espada em mãos. — Como?! — exclamou, confundido. — Que se jogou pela janela e me diz isso tão tranquilo! — Não se preocupe. A altura não era muita. Como era de se esperar, se levantou , pegou seu cavalo e partiu como alma que foge do diabo. Niall ficou pasmado e lhe tremiam as pernas. Como era possível que Gillian se tivesse lançado por uma janela? Por todos os santos, poderia ter se matado. — Para onde se dirigiu? — Vi-a ir pelo o caminho interior — respondeu Ewen com um sorriso na boca. Dando um tapa na mesa que moveu os pratos e as taças, soltou: — Sim, mas... aonde foi? — Eu acredito que sei — disse Ewen, sorrindo de novo. Niall, cada vez mais incômodo por aquela conversa, cravou o olhar no Ewen. — Conhecemo-nos de toda a vida, e essa tua risada de "lhe disse isso" me faz entender que você sabe algo que eu não sei, equivoco-me? — Não, Niall, não te equivoca — e aproximando-se cochichou: — E sim, o disse. Ewen soltou então uma gargalhada que fez que vários de seus homens os olhassem. Mas Niall não sentia vontade de rir e, agarrando-o pelo pescoço como quando eram crianças lhe disse à cara: — Ou me conta agora mesmo o que sabe e onde está minha impetuosa mulher, o te juro que farei que sua vida seja um inferno. Ewen, com um olhar divertido, lhe explicou o que seus homens lhe contaram aquela manhã


em relação ao ocorrido aqueles dias no castelo. Niall surpreendido, disse enquanto ambos se encaminhavam para os cavalos: — Acredito que, como não chegaremos a tempo, hoje na Escócia mais de uma fica mais calva.

Capítulo 44

Quando Gillian chegou ao Dunvengan, seu aborrecimento tinha crescido tanto que a raiva lhe saía por todos os poros da pele. Ao descer do cavalo passou primeiro pelo campo de treinamento e ali viu Cris lutando com alguns homens. Esta, ao vê-la vestida com a calça de couro e com a espada, acreditou que vinha treinar. Mas ao ver seu rosto intuiu que algo se passava, por isso decidiu sair e dirigir-se a ela. — Olá, Gillian — a saudou. — Que alegria verte! — O mesmo digo, Cris. — Justamente amanhã pensava ir visitar te. — Alegra-me sabê-lo — disse Gillian sem parar. — Ocorre algo? Passa-te algo, verdade? Sem responder continuou caminhando para a porta principal do castelo, e Cris, ao ver aquela ofuscação, plantou-se ante ela e a deteve. — Me diga agora mesmo o que te ocorre, Gillian. Comovida pelo olhar da Cris, respondeu: — Venho disposta a matar a essas duas. Onde estão essas más bruxas? Surpreendida, Cris a agarrou pelo braço e a levou a um canto para falar com ela. Nada lhe daria mais prazer que perder de vista a idiota de sua meia-irmã e a mãe desta, mas não queria que sua amiga cometesse uma imprudência. — O que aconteceu? Como uma correnteza descontrolada Gillian começou a lhe contar todo o ocorrido, exceto seu embaraço. Começou com a discussão com seu marido, seguiu com a visita daquelas a Duntulm com falsas desculpas e más ideias, continuou pelo que as duas néscias insinuaram sobre que ela pulava com seus homens, e terminou soluçando ao recordar as palavras de louvor de seu marido para a Diane e de desprezo para ela. — Venha... venha, você e eu sabemos que o parvo de seu marido o disse para te incomodar. — Cris... pôs em dúvida minha fidelidade! — gritou, incomodada. A jovem não soube o que responder, mas algo lhe dizia que Niall não era tolo, ou sim? — Olhe, Gillian. Esquece essa tolice. Ninguém em seu são julgamento acreditaria semelhante barbaridade e, por favor, me acredite, você é muito mais bonita que Diane! Nada tem que invejar, nem sequer seu cabelo. "Oh! Salvo que vou ficar gorda como um barril, e ele certamente que me reprovará isso", pensou com amargura. Mas limpando o rosto que ficou cheio de pó do caminho, disse: — Eu lhe sou fiel. Por que se empenha em acreditar que não? Além disso, ela é uma jovem muito bonita, é preciosa! O que não entendo é por que o bufão do Niall não se desposou com ela


em vez de comigo. Vê-se à légua que a atrai. — Que não... que não — insistiu Cris, — que não o atrai. Niall sempre tentou afastar-se o máximo que pôde dela. É ela a que nunca deu o braço a torcer desde que o conheceu. — OH, sim, claro! E por isso diz que é fascinante, preciosa, cativante... Nesse momento, as portas de entrada do castelo do Dunvengan se abriram e ante elas apareceu uma espetacular Diane seguida por sua mãe. Levava um magnífico vestido cor creme. Gillian, depois de cravar seu olhar nela, bramou sem que Cris pudesse remediar: — Dianeeeeeeeeeeeee! A moça, ao escutar aquele grito e ver a Gillian andar para ela espada em mão, assustou-se e, sem pensar em sua mãe, correu para o interior do castelo. — Gillian — gritou Cris, andando a seu lado, — não irás mata-la? Furiosa, e com a vista cravada nas mulheres, chiou entre dentes: — Cris, não me dê ideias. Mais tranquila por aquela resposta, a jovem sorriu e, encolhendo os ombros, disse, encantada: — Ah! Pois então te ajudarei. Vamos nos divertir. Como se de um torvelinho se tratasse, entrou Gillian no Dunvengan seguida por uma sorridente Cris. Sem que ninguém se pusesse em seu caminho, perseguiram as mulheres, que fugiam espavoridas diante delas. — Para já, Diane... para já — vozeou Gillian sem lhe importar como a olhavam os criados que encontrava ao passar. Nesse momento, Cris avistou a seu pai. Precisava tirá-lo do caminho, e ela sabia como. Com rapidez e determinação, dirigiu-se para ele e lhe indicou que os homens no campo de treinamento exigiam sua presença para que lhes ensinasse um par de movimentos magistrais. Orgulhoso e inchado como um peru, e sem prestar atenção aos gritos que proferiam sua mulher e sua filha Diane, o homem agarrou a espada que tinha pendurada na parede do salão e saiu ao campo de treinamento acompanhado por sua filha. Cris falou com um dos homens e lhe pediu que o entretivesse tudo o que pudesse, e correu de novo junto a Gillian. No interior do castelo, Diane e sua mãe chegaram até um pequeno salão e, assustadas, olharam-se. Só podiam fugir jogando-se pela janela, algo que duas damas como elas nunca fariam, ou saindo por uma das duas portas que existia no salão. O problema era que Cris estava em uma e Gillian em outra, e as fecharam atrás de si. Com um sorriso na boca, Cris se apoiou na porta, disposta a desfrutar de algo que levava anos querendo presenciar. Gillian, com a espada na mão, plantou-se ante elas disposta a fazê-las saldar suas dívidas. — Mãe, faz algo! — gritou Diane, escondendo-se atrás dela. Gillian sentiu vergonha alheia. — Vá, Diane... vejo que é muito valente — e tomando ar acrescentou: — Deveria ter vergonha de te esconder atrás de sua mãe. — Gillian! — gritou Mery, — o que aconteceu para vir assim a nosso lar? Cravando seu frio olhar azul nela, fê-la tremer. — O que vocês queriam quando foram ao meu? Ao ver que nenhuma respondia, Gillian continuou:


— Ambas são da pior índole de mulher que possa existir. Sabiam que meu marido não estava em casa e fostes mentir e me enganar como a uma vil parva desejosa de afeto. E o conseguiram! Mas não contavam com que meus homens fossem fiéis e mais inteligentes que vocês, malditas bruxas! As mulheres se olharam, e Gillian, com a cara contraída, prosseguiu: — São umas malditas víboras. Estão furiosas porque Niall se casou comigo e queriam que meu marido me odiasse por ter acabado com a única coisa que em Duntulm importava para ele. Sabiam que essa mesa e essa cadeira eram a única coisa que ele tinha de seus pais, verdade? Diane a olhou, e Mery sorriu. Gillian quis matá-la por sua maldade, mas contendo seus instintos mais selvagens, gritou: — São umas zorras, umas más mulheres. Não era o bastante e inventaram que me viram deitada com meus homens no salão. Mentirosas! Ambas sabem que isso é mentira. — Eu não sei se é mentira. Vimos o que vimos e ponto. Se foi tão pouco prudente para fazê-lo à vista de todo o mundo, não temos a culpa — chiou Diane. — Além disso, merece-o. Você me tirou ao homem que eu queria, e o vou recuperá-lo seja como for. — Equivoca-te, Diane. Niall nunca será teu — gritou Cris, incomodada ao ver tanta maldade naquelas duas. — Você te cale — gritou Mery a sua enteada. — Minha menina merece ser a senhora de Duntulm e não estamos dispostas a permitir que uma McDougall ocupe o lugar que corresponde a Diane. — Niall é meu homem — vozeou esta como uma possessa, — e conseguirei que te repudie e só deseje a mim. "A mato... a mato", pensou Gillian, que se equilibrou sobre ela. — Voou te arrancar a pele a tiras, maldita mulher, e quando acabar contigo, ninguém te olhará porque será tão feia que nem os sapos escuros do bosque a quererão. Mas Cris se interpôs. Viu-a tão ofuscada que temeu o pior e a parou. — Me solte! — gritou Gillian. — Vou dar a lição que essa malcriada merece. — Não gostaria de mais nada neste mundo — cochichou Cris, — mas me prometeste que não a irias matar. — Está segura de que te prometi isso? Cris, com uma divertida careta, assentiu, e Gillian, soprando, baixou a espada. — Só preciso ver a raiva em seu olhar para saber que Niall te desprezou — repreendeu Diane. — Te tratou como o que é: ninguém para ele. Gillian levantou a mão para esbofeteá-la, mas Cris segurou-a, e deu um tapa no rosto de sua meia-irmã com tal força que a própria Gillian se assombrou. — Me desculpe, mas precisava fazê-lo eu. Levava anos ansiando este momento — suspirou olhando-a, enquanto Diane choramingava e Mery amaldiçoava. Então, Diane ganhou forças e empurrou a Cris, que em sua queda levou a Gillian junto. Ambas caíram ao chão, mas com rapidez e mestria se levantaram. — Me ides pagar isso, asquerosas! — bufou Diane. — São iguais, da mesma índole. A vergonha de suas famílias. — Não, bonita, você vai me pagar isso- disse entre dentes Gillian. E pegando impulso lhe soltou um direito que fez que a jovem caísse para trás ante o grito de horror de sua mãe.


Cris, surpreendida por como a derrubou, perguntou-lhe: — Quem te ensinou a fazer isso? Gillian, movendo a mão e com um sorriso em seu rosto, suspirou: — Foi Megan. Me recorde que te ensine a técnica desse golpe infalível. Ambas riram. — Christine! — gritou Mery, assustada ao ver sua filha sangrar pelo lábio. — Te ordeno que acabe com isto e vá avisar a seu pai agora mesmo! — Nem o sonhe, querida madrasta — sussurrou, desconcertando-a. — Levo toda a vida esperando ver algo assim e agora, aconteça o que acontecer, estou-o desfrutando. — Christine! — mugiu Diane. — Seu dever é nos ajudar. — Ajudar a ti? — zombou Cris. — É dos nossos! — gritou Diane. Mas Cris soltou uma gargalhada que fez que Gillian sorrisse. — Querida Diane — respondeu, — levo toda minha vida carregando que você é imensamente melhor que eu; por isso, e como você é mais preparada, mais bonita, mais sensata e o orgulho de sua mãe... arruma isso como pode porque eu não penso te ajudar. Recordo-te, sou a estúpida, que você nunca quiseste que fosse dos seus. Ah! E por certo — adicionou, olhando a sua madrasta, — que saiba que sua preciosa e virginal Diane, o que tem de preciosa o tem de pouco virginal; se não, fala com o ferreiro dos McDougall do Skye. Acredito que ele, ou possivelmente antes outro, levou sua virgindade. Surpreendida, Mery olhou a sua filha. — Diane... Com as unhas para fora como uma gata, Diane se lançou para sua irmã. — Harpia! Está louca como ela — disse, assinalando a Gillian. — Você desonra a nosso clã, você e só você. Acabarei contigo. Farei que nosso pai te repudie e te encerre em uma abadia, e se não o faz, eu mesma te matarei porque te odeio. A espada da Gillian ficou a escassos centímetros da garganta da Diane e, com gesto decidido, murmurou: — Se tocas a Cris, é como se tocasse a mim. E se fazes qualquer dessas coisas, eu mesma acabarei contigo, porque, como você disse, estou louca e as consequências não me importarão se com isso termino com sua vida, entendido? Diane, assustada, deu um passo atrás, e com a má sorte pisou no vestido e caiu de traseiro. Em sua queda levou uma toalha e vários vasos que fizeram um ruído atroz ao chegar ao chão. — Ai, minha menina...! Sua solícita mãe foi em sua ajuda, enquanto ela, como uma tonta, choramingava. Zangada por tanto teatro, Gillian agarrou a Mery pelo vestido, tirou-a do meio sem olhares e gritou a Diane: — Deixa de choramingar, estúpida, e te levante, maldita mentirosa. — Não! — gritou Diane. Cris, ao ver que sua madrasta agarrava um vaso para acertar na cabeça da Gillian, foi rápida e, empurrando-a, fê-la cair ao chão. Entre risadas, indicou-lhe com a espada. — Não... não... não. Se tocas a Gillian, é como se me tocasse , e não o vou permitir. Ao ver a cara de ódio da Cris e, em especial, a ponta da espada ante seu nariz, Mery, sem


que pudesse evitá-lo, pôs os olhos em branco e se deprimiu. — OH, que bem! Uma menos — disse rindo Cris. Diane pensou o pior. O que fizeram essas duas à sua mãe? E começou a gritar como uma histérica. Mas Gillian, sem vontades de aguentar mais tolices, agarrou-a com fúria pelo cabelo. Pensou em corta-lo fazendo-a gesticular de dor, aproximou o rosto ao da outra e lhe chiou na cara: — Nunca mais volte a te aproximar do Duntulm, de meu marido, de minha gente, e é óbvio, não volte a levantar falsos testemunhos sobre mim, ou te juro que a próxima vez que te tenha assim, te corto o pescoço sem nenhuma piedade. Nesse momento, as portas do salão se abriram de um pontapé, e ao olhar, Cris e Gillian se encontraram com a expressão decomposta do Niall, a cara de surpresa do Jesse McLeod e a expressão divertida dos criados e Ewen. Diane sangrava nas mãos de Gillian, Mery estava inconsciente no chão e Cris observava tranquilamente a situação. — Por todos os Santos! O que está ocorrendo aqui, Christine? — perguntou Jesse McLeod. — Conversas de mulheres, papai — respondeu Cris, tirando importância. Seu pai a olhou consternado, e ao ver sua mulher no chão ia falar, mas Cris se adiantou. — Pela parva da Mery nem se preocupe; só se deprimiu. É tão delicada que ao nos ver armadas... Mas Diane não a deixou terminar e gritou como uma louca: — Papai, me ajude. A mulher do Niall quer me matar. As mulheres se olharam sem que lhes importasse quem as observava. Gillian sussurrou ao seu ouvido: — Recorda o que te disse, Diane: não me busque, porque me encontrará. — Solta-a, Gillian! — bramou Niall com os olhos fora de suas órbitas. Mas que fazia sua mulher? Gillian a deixou ir ao mesmo tempo em que lhe dava um golpe com a parte plana da espada no traseiro. — Anda, preciosa e delicada rapariga, vá chorar e a mentir como sempre, embora desta vez conte a seu pai o que tem com o ferreiro dos McDougall do Skye. Ao sentir-se liberada, Diane passou por cima de sua mãe e correu aos braços de seu pai, que ante o que Gillian dissera ficou gelado. Niall, ouvindo os soluços da garota, olhou a Jesse McLeod e disse: — Ofereço-te minhas desculpas pelo que se passou aqui. O homem, depois de ver que nem sua filha nem a mulher do Niall se moviam, assentiu e murmurou: — Acredito que será melhor que leve daqui a sua mulher. Eu falarei com a Christine, e tentarei esclarecer o que ocorreu. Niall se voltou para a Gillian e lhe fez um movimento com a cabeça para que saísse. Depois de cochichar algo a Cris, esta caminhou para ele. Ao chegar a sua altura, Niall a agarrou pelo braço, e ela, com voz carregada de ressentimento, murmurou: — Não se preocupe tanto por mim, marido; eu estou bem.


Capítulo 45

Quando chegaram ao Duntulm, depois de uma viagem na qual Gillian não abriu a boca, Niall a agarrou pelo braço uma vez que desmontaram dos cavalos e a subiu diretamente ao quarto. Ao entrar na estadia, Gillian se aproximou até um recipiente, onde lavou as mãos, enquanto ele a olhava sem saber realmente o que dizer. Estava preciosa com aquela vestimenta e a cara cheia de manchas. Só desejava lhe fazer amor uma e outra vez, até que ela se rendesse e prometesse não voltar a comportar-se assim. Mas devia castigá-la e, no caminho, pensou nisso. Não podia consentir que aparecesse nos lares dos vizinhos, espada em mão, para solucionar seus problemas. — Gillian, devemos falar — disse, pegando-a pela mão. "Falar?... Dirá nos matar." Com a frustração na cara, a mulher se sentou na cama, e ele o fez junto a ela. Mas como sempre que estava a seu lado, sua virilha começou a pulsar, e soprou disposto a não se deixar vencer naquela batalha. Finalmente, olhou-o e, depois de derreter-se em seus amendoados olhos, falou: — Sim. Furioso por como se sentia ante ela e pelo ocorrido, gritou: — Como pôde fazer o que fez hoje? — O que fiz? Incrédulo pela pouca vergonha dela, voltou a gritar: — Parece-te pouco ir ao castelo dos McLeod e fazer o que fez? — Ninguém levanta falso testemunho sobre mim e fica ileso. — Mas você está louca? Gillian não respondeu, mas sorriu. Isso o descontrolou ainda mais. — E ainda tem o descaramento de sorrir, mulher. — É óbvio. — É óbvio?! — bramou ele. — Olhe, Niall, essa tonta da Diane, por não dizer algo pior, estava me procurando até que me encontrou e... — Por todos os Santos, mulher! Como terei que te dizer que te comporte como deve? É uma dama, minha mulher. Te comporte como tal. — E como terei que te dizer a ti que odeio que fale da Diane como se ela fosse a mulher que amas? Estou cansada! Me ides voltar louca. Se realmente tanto a adora, diga-me e irei, mas deixa de me transtornar. Endurecendo o tom de voz para demonstrar segurança, disse: — Nos últimos meses nossa relação foi bem, mas sabe perfeitamente que você e eu nos casamos em umas circunstâncias pouco normais, verdade? — OH, sim! Como esquecê-lo! — zombou ela. Tentando parecer imperturbável, ele continuou: — Sabe o que pretendo e procuro de ti, verdade?


"Já estamos com as tolices de sempre", pensou, desejando lhe chutar o pescoço. — A que te refere? — perguntou, apesar de saber o que ele ia dizer. Levantando-se da cama, deu dois passos para afastar-se dela. Com a Gillian tão perto não podia raciocinar. Seu perfume e o som de sua voz lhe nublavam a razão. — Vamos ver, Gillian — apontou em tom duro, — o que ocorreu hoje no castelo dos McLeod não pode voltar a acontecer. E ocorreu é porque consenti seus caprichos de malcriada e não soube dobrar sua vontade. — Mas o que está dizendo? — Sabe perfeitamente a que me refiro, Gillian — bramou ele. — Diga-me quantas mulheres conhece que façam o que você faz. Pensa que é fácil aceitar que quebrou sua promessa e me ameaçou com sua espada? Pelo amor de Deus, Gillian! Se eu não tomo medidas sobre o assunto, cedo ou tarde terei que te matar. Perturbada pelo que dizia, ia responder, mas ele prosseguiu: — No tempo em que estivemos separados pude pensar e tomei a decisão de que devemos esquecer o que ocorreu entre você e eu nos últimos meses e... — Como?! — sussurrou, incrédula. Queria esquecer os bons dias vividos, as noites de amor, os beijos doces? Queria esquecer tudo aquilo? Pensou no bebê que vinha a caminho, e isso a irritou. A indiferença que lhe prodigalizava a rachou como nunca e decidiu não lhe contar seu segredo, não o merecia! Sem olhá-la aos olhos e sem saber o que ela pensava, continuou: — Quando hoje te vi no Dunvengan com a espada na mão e a Diane sangrando quis te matar. Envergonhaste-me. Levo seis anos tentando manter a paz entre os McLeod, os McDougall e os meus, e não vou permitir que você chegue, com suas vontades de guerra e de luta contínua, e danifique tudo. Conhecer que Cris e Brendan têm uma relação oculta não me agrada, porque sei que quando se souber ambos os clãs se lançaram contra mim e minha gente por não ter parado essa loucura. Acaso acredita que para mim é fácil intuir o que vai ocorrer? — Isso nunca vai acontecer, Niall. — Acontecerá, Gillian, e eu terei problemas por sua culpa — assentiu com profundidade. — E quanto ao de hoje acredito que... — Diane e sua mãe foram quem me provocaram a... — Te cale, Gillian! Estou falando — bramou, enlouquecido. Apertando os lábios para não soltar as tolices que uma mulher não devia dizer, respirou e escutou-o: — Acredito que chegou o momento de esclarecer certos pontos antes que ocorra o inevitável. "O inevitável já ocorreu, maldito bufão, seu filho cresce em meu ventre!" pensou. Mas engolindo a raiva o olhou e, sem mudar de expressão, perguntou: — Quando falas do inevitável, a que te refere? A que aceite de uma vez que ama a essa idiota da Diane ou a que se apaixone por mim e após nossa luxúria marital engendre teu filho? "Maldita seja! Como pode ser tão descarada?" pensou Niall enquanto suava ao imaginá-la nua debaixo dele. Ter a Gillian a sua mercê e fazê-la sua era algo que uma e outra vez lhe


martelava a cabeça ao mesmo tempo em que a virilha. — Nada disso ocorrerá — bramou, colérico. — E tome cuidado com o que diz. Está tomando muitas liberdades comigo, Gillian, e a partir de agora não vou consentir isso. Se tiver que mudar e voltar a ser duro contigo, como no princípio de nosso enlace, fá-lo-ei. Uma dor inesperada rasgou o peito da mulher. — Duro comigo? Quando não foste duro comigo? Passas-te meia vida te zangando e me reprovando tudo o que ocorre. É o ser mais desprezível e ingrato que jamais conheci. Consegue fazer que acredite que me ama para logo partir e retornar após alguns dias para me dizer isto. — Gillian, contenha sua língua de víbora! Dando um tapa na cama, ela se levantou para enfrentá-lo. — Realmente, do que quer falar, tesouro? Acaso quer me dizer que prefere as fulanas ou a sua linda Diane antes que a mim em seu leito? Ele a olhou, mas não respondeu. Ela prosseguiu: — Devo pressupor que te dá medo que a luxúria que sente por mim quando me olhas te faça esquecer quem é e destrua por minha culpa o lar que levantaste com seu esforço no Duntulm? Tão má influência exerço sobre ti e seu clã, maldito néscio? — Gillian, volta a me faltar ao respeito e o pagará. — Já o estou pagando — soprou. — Não, esposa, equivoca-te. Eu o estou pagando. Então, algo nela explodiu e, afastando-se dele, chiou: — OH, tranquilo! Não te faltarei mais ao respeito. E apesar do que ocorreu entre nós durante os últimos meses, nada me daria mais repugnância que voltar a me entregar a um homem como você que continuamente está me comparando com uma torpe e obtusa mulher. São iguais — e acrescentou: — Nunca deveríamos ter nos casado. Nunca deveria ter-me entregue a ti. Deveria ter casado com essa... com... com a Diane e me ter deixado em paz, para que eu tivesse feito com minha vida o que me tivesse vindo em vontade. Embora essas palavras faziam migalhas a ambos, era como se a caixa dos trovões tivesse sido aberta e não se pudessem calar. — Se me casei contigo, já sabe pelo que foi. Me enganaste! E eu decidi continuar com esse engano para saldar as dividas que tenha com Axel. Devia ter deixado que casasse com o bufão do Ruarke Carmichael. Ele deveria ter sido seu marido, não eu. — Não o diz a sério? — gritou Gillian. Ao ver como ela jogava fogo pelos olhos, desejou beijá-la, mas sem dar o braço a torcer, assentiu com gesto seguro: — Totalmente a sério, Gillian. Sou sincero. — Pois então, sendo sinceros, teria escolhido ao Kieran O'Hara. Como homem me atrai mil vezes mais que Ruarke ou você. Aquilo fez ferver o sangue do highlander. O que era isso de que Kieran a atraía? — Não sopre, marido, simplesmente sou sincera contigo — mas ao ver que ele não respondia, usando um tom nada gentil, continuou: — Assim, devo voltar a pensar que a algum tempo que desejas uma esposa para seu lar, mas que quer desfrutar de prostitutas em seu leito,


verdade? Niall não respondeu. Só lhe cravou o olhar como alerta mas Gillian sem nenhum medo, prosseguiu: — Por mim, marido, pode te deitar e desfrutar com luxúria de todas as mulheres que teve e que terá em toda Escócia, incluída a McLeod. Não me meterei em seus problemas de saias, mas espero que você tampouco te meta nos meus — soltou com um frio sorriso enquanto tocava o ventre. Atônito pelo que ela deixava cair, quis dizer algo, mas Gillian, levantando um dedo acusador, voltou a calá-lo. — Ah! Ia esquecendo: cuidarei de seus filhos mesmo que sejam das prostitutas com o mesmo cuidado — e perdendo as estribeiras, gritou: — Do mesmo modo espero que você cuide dos meus, mesmo que sejam dos moços dos estábulos, parece-te bem, tesouro? Como o mais feroz dos guerreiros, aquela miúda mulher loira lhe gritou com descaramento e o desafiou, enquanto se mantinha alerta ante qualquer movimento. Estava disposta a atacá-lo com a adaga que levava em sua bota sem lhe importar as consequências, mas não pensava deixar-se enganar de novo por aqueles lábios nem por aquele sorriso zombador que tanto gostava. Já não. E sem permitir que visse o medo que lhe produzia seu maléfico e tormentoso olhar, curvou sua boca e sorriu. Nesse momento, Niall explodiu. — Por todos os pregos de Cristo! — vociferou, — como pude me casar com uma harpia como você? Sem dar o braço a torcer, e olhando as unhas que desejava lhe cravar na cara a aquele bufão, respondeu: — Se bem recordo, tentei evitá-lo, mas não houve maneira. Com passos largos, Niall se afastou dela. Temia lhe fazer dano. Aquela descarada lhe disse na cara que pensava deitar com outros homens e lhes dar de presente aquilo que ele ansiava com verdadeira luxúria. Com uma cólera desmedida, abriu a janela, que quase arrancou. Necessitava ar, ou aquela má bruxa não sairia viva do quarto. Gillian conseguia tirá-lo do sério assim que desejava. Passava de ser uma doce e apaixonada esposa a pior das harpias. Fechando os olhos, tentou se tranquilizar para não cair na tentação de atirá-la sobre a cama, despi-la e aproveitar-se de seu corpo sem pensar em nada mais. Devia ser forte se pretendia que o respeitasse. Mas sua mulher era muito pronta, além de uma excelente competidora, e com suas palavras carregadas de maldade e recriminações o fazia saber. — Por certo, marido, onde estão meus baús? Se me recordo bem, esta manhã estavam aqui. Voltando-se furioso para ela para lhe responder, quase se engasga ao vê-la sentada com sensualidade sobre a cama. Lhe cravando o olhar nos seios que subiam e baixavam a uma velocidade vertiginosa, detentos da excitação do momento, finalmente se engasgou e tossiu. Uma vez que se repôs, Niall respondeu: — Este é meu quarto, Gillian. Sai dele agora mesmo e leva todas suas malditas velas.


Aturdida, irritada e muito zangada porque aquele idiota a estava jogando fora, levantou-se como uma fera e lhe gritou perdendo todo o controle: — Mas, bom... é grosseiro, mal educado e insolente...! Onde pretende que durma, maldito McRae? No bosque? Ou possivelmente me reserva a pestilenta cavalariça de seus cavalos como lugar de privilégio? Depois de dizer aquilo amaldiçoou ao perceber que perdeu os nervos, e caminhando até a porta, tirou a adaga da bota, cortou duas mechas do cabelo sem olhar o que cortava e os atirou. — Toma... isto te pertence. Não me importa ficar calva, mas me importa que me humilhe e me trate pior que se fosse um cão abandonado. Niall ficou atônito e, antes que pudesse dizer algo, ela se voltou para a porta e lhe soltou tal pontapé que começou a saltar com gesto de dor. — Mas como te ocorre fazer isso? — Niall se preocupou e, com rapidez, aproximou-se de sua furiosa e descontrolada mulher para auxiliá-la. Mas ela, mais humilhada que dolorida, levantou a mão e lhe gritou: — Nem te ocorra me tocar, McRae. Repugna-me.

Capítulo 46

Durante dois dias e duas noites, Gillian mal saiu do quarto contíguo ao de seu marido. Não queria vê-lo. Odiava-o por tudo o que dissera. No terceiro dia, quando se levantou e desceu ao salão, blasfemou como o pior dos guerreiros ao saber que ele e vários de seus homens partiram de viagem. Por isso, e sem dizer nada a ninguém, comeu e se foi a seu quarto disposta a ruminar suas penas em silêncio. Não queria a compaixão de ninguém. Mas seu aborrecimento se acrescentou quando se inteirou por uma das idosas de que Niall, a pedido do Jesse McLeod, formava parte da comitiva que levava a Diane a Stirling. Depois do ocorrido em casa dos McLeod e confirmar que aquela não era a doce jovem que seu pai acreditava, este, como castigo, decidiu repudiá-la e mandá-la viver com uns tios de sua mulher. Mery, entristecida, quis partir com ela, mas Jesse McLeod não o permitiu. Seu lugar estava junto a ele. Saber que a pérfida da Diane se afastava dela a alegrou. Não voltar a vê-la nem sentir seus olhares de desprezo era algo maravilhoso. Mas saber também que naquele momento ele estava junto a ela a martirizava. Finalmente, decidiu não lhe dar mais importância. Aquilo não era bom nem para ela nem para o bebê. Dois dias depois, uma manhã Helena despertou e a animou a ir com ela ao mercado. Precisavam comprar várias coisas para a nova cozinha, e Gillian, sem pensar, aceitou. Se não saía do Duntulm, ficaria louca. Escoltada por vários dos guerreiros de seu clã, chegaram até o bonito mercado e durante horas Gillian se esqueceu de seus problemas e sorriu com a Helena. Depois de refrescar suas gargantas em um pequeno posto, Gillian falava com o Liam quando observou à criada olhar com curiosidade para uma lateral.


— Que olhas? A jovem, com expressão triste, respondeu: — Olhava a essas pobres moças. Vê-las nessa situação tão penosa me faz recordar a época em que eu vivia na rua e não tinha nada para dar de comer a meus filhos. Sem que pudesse evitá-lo, Gillian olhou para onde Helena assinalava e se entristeceu ao ver três jovens mal vestidas e mal asseadas repartindo entre elas o pedaço de pão e toucinho que Helena lhes deu. Ver seus pés descalços e arroxeados pelo frio fez que se estremecesse e, decidida a ajuda-las, aproximou-se. — Vejo que têm fome — disse. As jovens a olharam, e a que parecia a mais velha respondeu: — Sim, milady. Minhas irmãs e eu levamos vários dias sem comer e... Não foi necessário dizer mais. Gillian se voltou para o taberneiro e, depois de pedir três pratos de guisado quente, convidou às garotas a sentar-se com elas. Sobressaltadas, Helena e Gillian viram como a moça de cabelo claro dava parte de seu prato às outras duas, que comiam desesperadas. Então, Gillian pediu outro prato, e aquela o agradeceu com um bonito sorriso. — Onde vivem? — quis saber Gillian. — Onde podemos, senhora. Os tempos atuais não são bons e, depois de nosso pai morrer , ficamos na rua, e vamos daqui para lá. — Como se chamam? — perguntou Helena, compungida. — Elas são Silke e Livia, e eu sou a mais velha e me chamo Gaela. — Quantos anos têm? — As gêmeas dezessete, e eu, dezenove, milady. Durante um momento, Gillian se interessou pela vida daquelas três irmãs e suspirou horrorizada ao saber que seu pai morreu as mãos de uns vizinhos ao tentar defender a Gaela e sua honra. Helena, com os olhos chorosos, escutava o que contavam enquanto Gillian pensava em como ajuda-las. As via educadas, apesar de viverem na rua, pelo modo como respondiam a todas suas perguntas. Quando começou a anoitecer, Orson, um de seus guerreiros, aproximou-se até elas e murmurou: — Milady, deveríamos retornar ao Duntulm. As três moças assentiram e se levantaram. Iam despedir-se quando Gillian as surpreendeu. — Se eu lhes oferecesse um lar em troca de seus serviços no Duntulm, aceitariam? Elas, sem duvidar, assentiram, e Helena, emocionada pelo que sua senhora acabava de fazer, sorriu. — Acredito que meu marido não porá nenhuma objeção, desde que vocês sejam respeitosas e acatem as normas de nosso clã, o clã McRae. Ali lhes posso oferecer um teto onde terão comida quente todos os dias e uma segurança que vivendo nas ruas sem dúvida não têm — as garotas assentiram de novo. — Em troca, necessitarei de sua ajuda para fazer de meu lar um bonito lugar para viver. O que lhes parece? — Milady, obrigada... obrigada — soluçou Gaela, lhe beijando as mãos. Durante o caminho de volta ao Duntulm, Gillian sorriu ao ver como seus homens olhavam a


aquelas moças, e gostou. Duntulm necessitava gente que fizesse prosperar o lugar. Se algo era necessário em seu lar eram mulheres e crianças, e pelo interesse que mostravam os guerreiros pelas irmãs estava segura de que algum dia essa carência se solucionaria. Uma vez que chegaram ao Duntulm, a primeira coisa que fez Gillian, com a ajuda de Helena, foi acomodar as três em uma cabana. Necessitariam roupa seca e limpa, e água para lavarem-se. Quando, depois do jantar, elas apareceram no salão, Gillian e os homens se surpreenderam de quanto bonitas eram. No dia seguinte, as garotas, junto à Helena, Susan e Gillian, decidiram organizar a nova cozinha. Naquele tempo, Niall, a pedido de sua mulher, ordenou construir uma espaçosa habitação junto ao castelo que ia ser a nova cozinha. Entre todas, transladaram o que havia na velha e, depois de uma jornada de ordenar e limpar, olharam orgulhosas a seu redor, encantadas com a nova cozinha. As idosas estavam entusiasmadas. Cozinhar ali, naquele luminoso espaço, seria mais prazenteiro que fazê-lo no buraco em que o faziam, onde não havia ventilação. Aquela noite, Gaela, animada pelas mais velhas, surpreendeu a todos com uma de suas receitas. Era uma boa cozinheira e Gillian gostou, que rapidamente e para alegria das idosas a nomeou oficialmente cozinheira do Duntulm. Gillian saboreava o guisado da Gaela quando Helena se sentou a seu lado. — Minha senhora, cada dia estou mais feliz de estar aqui. — Alegra-me sabê-lo, Helena. Aslam, que chegava nesse momento com a pequena Demelza em seus ombros, ao ver sua mulher sorrir, baixou à menina ao chão e disse: — Milady, fostes uma bênção para este lugar. Ver como tudo muda para melhor é grandioso para meu laird e para todos nós. Ao pensar em seu marido, Gillian suspirou. — Obrigada, Aslam. A pena é que acredito que nem todos aqui acreditam no mesmo. A pequena Demelza, que perdera o medo acumulado pelo tempo vivido na rua com sua mãe, sentou-se a seu lado e cochichou: — Eu gosto de viver aqui. A ti também? — Sim, preciosa. Também gosto. — E já não teremos que ir daqui, verdade? Sobressaltada por aquela pergunta, Gillian abraçou à menina e murmurou: — Prometo-lhe isso. Já não teremos que ir daqui porque este é nosso lar, e este ano vamos passar um maravilhoso Natal.

Capítulo 47

Passados cinco dias nos quais esteve bastante atarefada com a organização do castelo, e em especial a nova cozinha, sentiu-se agradada de ter encontrado às moças. Elas e sua juventude, além de alegrar as caras de seus homens, eram uma grande ajuda para as idosas. Uma tarde, enquanto comia bolo de maçã na solidão do enorme salão, a porta principal


se abriu e entrou Donald preocupado. — Milady — disse, aproximando-se dela enquanto outros guerreiros entravam, — encontramos ao Brendan McDougall gravemente ferido perto do lago. — Como?! — gritou, surpreendida, e levantando-se com rapidez fixou seu olhar em Brendan, que, sangrando, entrava levado por alguns de seus homens. Sem perder tempo o subiram ao quarto que ela ocupava e chamaram a Susan e Helena, que imediatamente começaram a lhe tratar um feio ferimento que tinha no abdômen, além de diversos cortes pelo corpo. Bem entrada a noite, o homem recuperou os sentidos e a olhou. — Não fale, Brendan. Está muito fraco — lhe aconselhou Gillian, secando sua fronte com panos frescos. Ele, ignorando-a, apesar da secura na boca, perguntou: — Onde está Cris? Assombrada, Gillian não respondeu, e o highlander prosseguiu: — Estávamos em nosso refúgio quando nos surpreenderam vários guerreiros McLeod. Ela gritou. Onde está? Gillian levou as mãos à cabeça. Foram pegos. — Brendan, não sei onde está. Meus homens só encontraram a ti, mas Cris não estava contigo. Dando um bramido de dor, tentou erguer-se, mas Gillian rapidamente o impediu. — Me deixe, Gillian. Devo ir procura-la. Temo por sua vida. — Impossível. Em teu estado, não chegaria nem à porta do quarto. Mas Brendan insistiu. — Maldita seja, Gillian! Ela está em perigo. Não quero nem pensar no que lhe terá ocorrido. Nos descobriram. Entende-o? "Por favor... por favor... que Cris esteja bem", pensou, horrorizada, Gillian ao pressentir que aquilo podia ser uma tragédia tal e como Niall prognosticou. — Milady — sussurrou Susan, — se Brendan continuar assim, arrebentará todos os pontos do abdômen. Deveríamos adormecê-lo com algo. Com rapidez, Gillian agarrou a saca e, agarrando uns pós que, conforme lhe explicou Megan, adormeciam, os jogou na água. Depois de fazê-lo beber da taça sem permitir que se levantasse, Gillian assegurou ao highlander: — Não se preocupe, Brendan. Estou convencida de que Cris está bem. Ela é forte e... — Se alguém lhe fizer mal, juro Por Deus que o matarei — rugiu Brendan, embora após dizer aquilo se desvaneceu com uma careta de dor. Enlouquecida pelo que aquilo podia supor, Gillian começou a dar voltas pelo quarto. O que podia fazer? Precisava chegar até a Cris e não pensava ficar de braços cruzados. Abriu a porta da estadia e mandou chamar o Donald. Quando este se apresentou lhe perguntou: — Donald, segue visitando a Rosemary no Dunvengan? Estranhando aquela pergunta, o highlander assentiu. — Sim, milady.


— Perfeito! — deu-lhe uma palmada e, surpreendendo-o, acrescentou: — Necessito que me faça um favor, Donald. Mas é pessoal e o preferível seria que se inteirasse menos gente possível. — Não se preocupe, milady. Diga-me o que necessita e eu o farei. Minutos depois, cavalgava como alma perseguida pelo diabo até o Dunvengan. Devia visitar a Rosemary e inteirar-se de como estava Cris, e em especial, onde. A noite caiu sobre eles, enquanto Brendan, inquieto e com febre, delirava chamando sua amada. As criadas, ao ouvir o nome da Christine, olharam-se surpreendidas, mas Gillian não falou. Quanto menos soubessem melhor. A espera era interminável, até que ouviu que Donald retornava. E abandonando o quarto correu ao encontro do homem. — O que pudeste saber? O highlander, com ar cansado pela rapidez daquela viagem, desmontou do cavalo e disse: — Milady, a senhorita Cris está bem. A própria Rosemary lhe curou um ferimento na maçã do rosto, mas pelo resto se encontra bem. Não se preocupe. — Graças a Deus — soprou Gillian. — Sabe onde está? — Sim, milady. Seu pai a mantém encerrada nas masmorras do Dunvengan, e Rosemary me disse que ouviu que a madrasta gritava à Cris que a levariam ao amanhecer à abadia do Melrose, para que pagasse por sua desonra. Gillian amaldiçoou. Mal havia tempo para reagir. Movendo-se com rapidez, entrou de novo no castelo, não sem antes dizer: — Obrigada, Donald. Muito obrigada. Em uma fulgurante corrida, chegou ao quarto que ocupava Brendan, e depois de agarrar as calças, a camisa, a capa e a espada, entrou no quarto de seu marido. Enquanto se vestia olhou aquele leito que tão bons, tenros, sensuais e bonitos momentos lhe proporcionou. Aproximando-se da cama, cheirou os lençóis, e depois de aspirar com os olhos fechados, percebeu o aroma varonil do Niall. Disso gostou, embora lhe encheu os olhos de lágrimas. Intuía que quando ele retornasse de sua viajem, voltaria a zanga-se pelo que ia fazer, mas sob nenhum conceito pensava permanecer impassível. Depois de passar pelo quarto onde estava Brendan, agarrar sua sacola e pedir a Susan que não o deixasse sozinho nem um segundo, tocou o ventre com carinho e correu escada abaixo. Saiu pela porta principal da fortaleza e se encaminhou às desmanteladas cavalariças. Quando montou em Hada, sua égua, umas sombras se aproximaram dela. Eram Donald, Aslam, Liam e outros homens. — O que fazem aqui? — perguntou, desconcertada. — Vamos acompanhá-la — respondeu Donald. — Quando vi sua expressão, milady, soube que nada a reteria para ir até o Dunvengan. — Iremos com você queira ou não — apostilou Aslam, e quando Gillian ia falar, Liam se adiantou e disse: — É nosso dever, milady. Além disso nosso senhor assim o quereria. Isso a fez rir.


— O que desejará o seu senhor será me matar quando souber. Os highlanders se olharam divertidos e, com um malicioso sorriso, Donald lhe assegurou: — Não, milady. Nós não o permitiremos. Ocultos pelas sombras da noite, encaminharam-se em uma louca corrida até o castelo do Dunvengan. Quando chegaram aos arredores, Donald, conhecedor dos melhores caminhos, tomou as rédeas da situação e ordenou a alguns de seus companheiros que vigiassem o lugar. — Deixaremos aqui os cavalos, milady. É melhor irmos andando, para que ninguém nos ouça. — De acordo — assentiu. Uma vez que se afastaram dos cavalos, andaram com cuidado através de um frondoso bosque cheio de velhos e retorcidos carvalhos. Então, Donald lhes ordenou que se detivessem e, metendo dois dedos na boca, fez um som suave mas intenso. Segundos depois, ouviram o mesmo som, e Donald disse: — Vamos, temos caminho livre. Rosemary nos espera. Surpreendida, Gillian perguntou: — Sabia que viríamos? Donald, com um sorriso, assentiu. — Sim, milady, já a conheço. Chegaram até uma pequena porta que dava acesso às cozinhas do castelo. Ali uma bonita e inquieta Rosemary os apressou com a mão para que entrassem e fechou com cuidado a portinhola. — Obrigada, Rosemary — agradeceu Gillian, pegando suas mãos. A moça, com gesto carinhoso, sorriu. — Não deve me agradecer, milady. Eu também aprecio muito à senhorita Christine e ajudarei em tudo o que necessitem. A única coisa que lhes peço em troca é partir ao Duntulm com vós. Quando souberem do ocorrido, rapidamente saberão que eu os ajudei e... — Nunca permitirei que te ocorra nada, Rosemary — esclareceu Donald. — Nem eu tampouco — acrescentou Gillian. — Por isso virá conosco ao Duntulm. — OH, obrigada, milady! — sorriu a moça olhando ao Donald, que assentiu, aliviado. Gillian, ao ver como aqueles dois pombinhos pegavam nas mãos esboçou um sorriso, mas não havia tempo há perder e perguntou: — Rosemary, sabe como podemos chegar até ela para tirá-la daqui? — Sim, milady. O que não sei é como tirar os guardiães de cima para tirá-la das masmorras. Nesse momento, Gillian, com um triunfal sorriso, mostrou-lhes seu saco, e olhando-os com uma careta que os fez sorrir, disse: — Tranquila, eu sim. Aquela noite, depois de jogar na cerveja dos carcereiros os pós que Gillian deu a Rosemary, estes desabaram como troncos. Sem esperarem nem mais um segundo, aquele pequeno grupo chegou até a Cris, que, ao vê-los, chorou de agradecimento. Uma vez que abriram a fechadura, a jovem, angustiada, murmurou:


— Gillian, descobriram... Já sabem sobre Brendan! — Sei, Cris... sei. Desconcertada e muito nervosa, sussurrou: — Preciso encontrar o Brendan. Meu pai e alguns guerreiros o feriram e, oh, Deus, estou tão preocupada! Jogando uma capa por cima da Cris para esquentar seu corpo frio, Gillian respondeu: — Tranquila. Brendan está no Duntulm. Controlando um soluço, Cris cobriu a boca com as mãos. — Como vai? Está bem? — perguntou. Olhando a sua amiga e amaldiçoando pelo que aconteceu, respondeu: — Tranquila, embora Brendan esteja ferido gravemente, sobreviverá. Mas te digo uma coisa, te prepare porque o que está para vir vai ser muito difícil e não sei como vai terminar. E como chegaram, partiram como sombras a galope para Duntulm. À manhã seguinte, Gillian estava esgotada e, antes de sair de seu quarto, vomitou em várias ocasiões. O esforço da noite anterior e sua gravidez não eram compatíveis. Sentia-se mal. Não tinha forças nem para manter-se em pé. E quando Donald foi avisá-la de que chegava Connor McDougall, o pai do Brendan com seu exército, sentiu-se morrer. Mas aferrando sua espada saiu ao exterior do castelo a esperá-los. Era sua obrigação. — Milady, não se preocupe. Não está sozinha — a tranquilizou Donald, posicionando-se a seu lado, junto aos escassos guerreiros que ficaram no castelo. De repente, Aslam correu para ela e, contrariado, sussurrou-lhe: — Milady, não se assuste pelo que vou dizer, mas acabo de ver o pai da senhorita Christine, Jesse McLeod, pegar o caminho que vem para o Duntulm. Quando Gillian ouviu aquilo, uma náusea lhe veio à boca, e sem que pudesse evitá-lo separou-se dos homens e vomitou. A coisa não podia ir pior. — O que lhe ocorre, milady? — perguntou Donald, preocupado. — Ai, Donald! — lamentou-se aterrada, tentando manter suas forças, — acredito que Niall vai se zangar muito quando retornar e não ides poder evitar que me mate. — Não diga isso, minha senhora — respondeu o highlander. Mas ela prosseguiu ao recordar o que seu marido lhe dissera. — Por todos os Santos! Consegui com meus atos o que ele nunca desejou: trazer a guerra ao Duntulm e aos dois inimigos do Skye a suas terras para lutar. Matara-me. Então, os highlanders se olharam e não puderam dizer nada. Sua senhora estava certa. E estavam seguros de que quando o laird retornasse e encontrasse aquela bagunça, trovejaria na ilha do Skye. Mas mais nada se podia fazer.

Capítulo 48

Gillian, com os nervos a flor da pele e acompanhada por seus escassos guerreiros, esperava,


espada na mão e com uma atitude desafiante, a que aqueles dois poderosos clãs, os McLeod e os McDougall, chegassem até as portas do castelo do Duntulm. Mal respirando, observou as expressões carrancudas dos líderes daqueles homens e como se olhavam entre eles. "Isto vai ser um massacre", pensou enquanto segurava com força sua espada ao lado do corpo. Quando os homens pararam ante ela, o primeiro a gritar foi o pai de Brendan, Connors McDougall, que pulando de seu cavalo, bramou, colérico: — Onde está meu filho? Sei que está aqui. Quero vê-lo. Depois de conseguir separar a língua do palato, Gillian elevou o queixo e respondeu com um bramido, enquanto jogava a cabeça para trás: — McDougall, onde está sua educação? O homem a olhou com desprezo e não respondeu. Mas ela não se intimidou e falou de novo: — Estão em minhas terras e O mínimo que podem fazer quando chegam a um lar que não é o seu é saudar. O fornido highlander, depois de soprar, olhou-a e perguntou: — Onde está seu marido? Quero falar com ele, não com uma mulher. — Sinto lhes dizer que não está, portanto — chiou, — têm duas opções: falar comigo, apesar de ser uma mulher, ou agarrar seus guerreiros e sair de minhas terras antes que ocorra algo que a você não lhes agrade. Os guerreiros McDougall, ouvindo o seu chefe rir, gargalharam, até que aquele disse: — A insolência em uma mulher é algo que me desagrada, e muito. — A insolência em um homem é algo que me desagrada ainda mais — replicou Gillian, surpreendendo a ele e a todos. Mas Connors McDougall, aborrecido e sem se deixar intimidar por aquela miúda mulher, deu um passo à frente e gritou: — Sai da minha frente, se não quer ter problemas comigo. Gillian, ao notar o desprezo em sua voz, levantou a espada com mão firme e, apoiando-a no pescoço dele, espetou em um tom muito ameaçador: — Se dá mais um passo, mato-o. E se volta a me menosprezar como acaba de fazer... Seu filho está aqui. Está descansando, e não gostaria que entrem para perturbarem seu descanso. — Laird McDougall — chiou Donald, — não se aproxime mais da minha senhora, ou teremos que tomar medidas. Nesse momento, Gillian se arrepiou pois ouviu o assobio de centenas de folhas de aço dos McDougall. Aquilo ia ser mau. Aproveitando a confusão, o pai da Cris, Jesse McLeod, desmontou e tão ofuscado como o outro laird andou para ela, gritando: — Devo supor que Christine, essa má filha, também está aqui descansando com o McDougall. Porque se for assim, juro-lhes, mulher, que tanto ela como vocês ides ter um grave problema comigo. "Se só fosse contigo...", pensou Gillian. E com uma rapidez que deixou a todos perplexos passou sua espada do pescoço de McDougall ao do McLeod, e com a mesma fúria do momento anterior, espetou:


— Se lhes ocorre tocar a mim, a sua filha, a meus homens ou a qualquer pessoa que esteja em minhas terras, seja McDougall, irlandês ou normando, juro-lhes Por Deus que se arrependerão de me terem conhecido. Jesse McLeod ficou tão petrificado por aquela ferocidade como minutos antes o outro laird. — Senhor, por favor — pediu Aslam com fingido respeito, — se afaste de minha senhora, ou terei que carregar contra você. De novo, soou o assobio de centenas de espadas que os McLeod desembainharam. Aquilo era ainda pior. "Hoje morremos todos, mas mesmo assim quando Niall me agarrar, me matará", disse-se Gillian, cujo duro olhar não delatava o nervosismo que sentia. Quando o pai do Brendan ia se mover, as espadas do Donald e Liam o impediram. Ninguém se aproximaria de sua senhora sem ter provado antes seu aço. De repente, a porta principal do castelo se abriu e apareceram ante todos um maltratado Brendan e uma chorosa mas orgulhosa Cris. Ambos agarrados pela mão e empunhando suas espadas. Connors McDougall, ao ver seu filho naquela situação, blasfemou e vociferou: — Quem te fez isso, Brendan? Mas antes que o jovem respondesse, o pai da Cris se gabou disso. — Devia tê-lo matado quando o vi beijando a minha filha. Aquela revelação fez que Connors blasfemasse e, com o rosto decomposto, olhou a seu filho e gritou: — O que é que diz o maldito McLeod? O que fazia com sua filha? Brendan, apesar da dor, ergueu-se tudo o que pôde, e ante todos disse alto e claro: — Pai, amo a Christine McLeod e vou me desposar com ela, você queira ou não. — Nunca! — gritaram em uníssono ambos os pais. — Vá... por fim estão de acordo em algo — zombou Gillian, mas ao ver seus ferozes rostos se calou. A tensão subia a cada momento, os guerreiros McLeod, McDougall e McRae se olhavam com desconfiança, enquanto todos empunhavam suas espadas, dispostos a que aquilo se convertesse em uma terrível carnificina às portas do castelo do Duntulm. — Pai — gritou Cris. — O que disse Brendan é certo. Amamo-nos e... — Cala-te, Christine! Envergonha-me! — repudiou seu pai. — Faz o favor de vir aqui e te separar disso... esse... McDougall, se não quer que eu mesmo vá e te arraste com minhas próprias mãos. Como reação, Brendan agarrou com força a Cris pela cintura. Aquele gesto deixou claro a todos que ela não se moveria dali. Todos começaram a gritar cada qual mais alto, e Gillian, incapaz de continuar, subiu em um banco e gritou o mais forte que pôde: — O que é realmente vergonhoso é o que estão fazendo. Seus filhos se apaixonaram. Onde está o crime? — Por todos os Santos! — vociferou Connors, incapaz de pensar com clareza. — Acaso ignoram a rivalidade que existe entre nossos clãs? Gillian ia responder, mas Cris se adiantou: — Pai, estou grávida e Brendan McDougall é o pai. Ouviram-se murmúrios aqui e lá, e Gillian, voltando-se surpreendida para sua amiga, cochichou-lhe: — Anda, como eu!


— Está grávida, Gillian? — perguntou-lhe Cris, atônita. "Maldita seja minha boca!", pensou ao perceber como Cris e seus próprios guerreiros a olhavam. Apesar de tudo, disse com rapidez e um sorriso tolo: — Sim, e não me olhe assim. Pensava lhes dizer isso assim que tivesse oportunidade — e voltando-se para os pais dos dois gritou: — A rivalidade que existe entre seus clãs é algo que deve acabar. Estou segura de que por essa luta absurda muita gente perdeu a vida, e acredito que chegou o momento de que isto acabe. — Mas o que diz esta mulher — se queixou Jesse McLeod. — Pensem — continuou ela. — A paz poderia chegar graças ao Brendan e Cris. Amam-se e estão esperando um bebê. Não acreditam que essa criança mereça algo melhor que nascer em meio de uma luta que certamente não o agrade? Ambos serão sua família, e o que querem, que os odeie a todos? Os lairds ficaram calados. A rivalidade entre esses dois clãs existia desde antes que nascessem seus avós. — Pai, Gillian tem razão. Desde que nasci só ouvi falar de lutas, rivalidades e desencontros com os McLeod. Mas isso é algo que deve acabar. Os tempos mudaram, e juntos, ambos os clãs, lutamos contra os ingleses e nos respeitamos e ajudamos. Por que uma vez acabada a guerra devemos retomar esta absurda luta que muitos não queremos? — Esse é o melhor discurso que ouvi em anos — disse de repente a voz profunda do Niall, surpreendendo-os. — Agora bem, vos rogo que deem a ordem a seus guerreiros para que embainhem suas espadas. Aqui, em minhas terras e ante a porta de meu lar, ninguém vai lutar. Estavam tão envolvidos naquela luta que ninguém percebeu que um furioso Niall e seus homens se aproximavam. Gillian, ao ver seu marido, quis morrer. Seu olhar exasperado dizia tudo. Mas descendo do banco e sem dar um só passo atrás, esperou que ele desmontasse e se posicionasse a seu lado. Com mão esquerda e uma incrível paciência, Niall escutou tudo o que os McLeod e os McDougall lhe tinham a reprovar. E depois de convencê-los que passassem ao salão de seu lar para conversar, olhou a sua mulher e chiou com dureza: — Gillian, se algo terrível ocorrer, só você será a culpada.

Capítulo 49

Durante toda aquela noite, os três clãs de guerreiros discutiram sobre o ocorrido. Nenhum queria dar o braço a torcer e, em ocasiões, parecia que iriam se pôr a lutar no salão. Durante esse comprido tempo, Gillian, sentada junto ao Brendan e Cris, morria a cada instante de angústia, de sono e de medo ante o que Niall dissera. Mas quando ao amanhecer, por fim aqueles brutos deram o braço a torcer e decidiram acabar com a rivalidade entre clãs, Gillian suspirou, aliviada. Aquele mesmo dia pela tarde, na desmantelada capela do Duntulm, celebrou-se o enlace


entre a Cris e Brendan, que apesar de ter seu corpo dolorido e machucado, não deixou de sugeri-lo insistentemente. Durante todo aquele espaço de tempo, Niall obrigou a Gillian a estar presente. Não falou com ela, só lhe dirigiu em poucas ocasiões um olhar que lhe fez pressupor o pior. Sua mandíbula tensa e o tom de sua voz lhe indicavam que não a esperava nada bom. E embora desfrutasse e se emocionasse como uma parva quando o velho padre Howard disse ante todos "que o que Deus uniu, não o separe o homem", encolheu-se ao sentir o duro olhar de seu marido. Bem entrada a noite, e quando por fim os clãs partiram a seus lares, Brendan e Cris se empenharam em ir a seu pequeno lar secreto. Sua primeira noite de casados, e apesar da chuva que ameaçava chegar, queriam passá-la ali. Quando todos se foram, Niall se voltou para uma atemorizada e esgotada Gillian, e agarrando-a pelas mãos, puxou-a até chegar a seu quarto. Uma vez dentro, Gillian se afastou dele. Niall, dando uma portada, olhou-a como quem olha ao pior de seus inimigos. — É consciente de que podia ter originado uma das piores e mais sangrentas batalhas na ilha do Skye? Engolindo com dificuldade, ela assentiu, e ele continuou: — Sempre soube que me daria problemas, mas nunca imaginei que tivesse a desfaçatez de permitir que o sangue pudesse derramar-se em minhas terras e ante a porta de meu lar. — Isso não é certo. Eu... — Cala-te, maldita seja, Gillian, cala-te! — bramou, enlouquecido. Sobressaltada pelo grito, calou-se. — Ausento-me uns dias e quando chego encontro com Jesse McLeod te acusando de sequestrar a sua filha e envenenando a seus homens para leva-la e, Connors McDougall te culpa de reter a seu filho ferido contra sua vontade. E se por acaso fosse pouco, estiveste a ponto de conseguir que matassem as pessoas que em Duntulm velam por sua segurança e provocar um autêntico massacre entre clãs. Por todos os Santos, mulher, o que lhe ensinaram no Dunstaffnage? Com que classe de mulher me casei? Sem saber o que responder, Gillian tossiu e, ao sentir que estava a ponto de se deprimir, tentou se sentar na cama, mas ele, com um puxão, levantou-a. — Estou falando contigo, maldita seja, e quando te falar quero que não te mova e que me responda, não que se sente e sopre. — Niall, eu... Mas não a deixou falar. Voltando-se, deu um murro na parede de pedra, o que fez que ela se acovardasse e que ele esfolasse o punho. Niall estava terrivelmente frustrado e zangado. Quando chegou ao Duntulm e encontrou ante sua fortaleza os guerreiros com as espadas desembainhadas, um estranho e doloroso amargor alagou seu corpo ao pensar que a podiam ter ferido. Depois de um silêncio incômodo entre os dois, Niall se voltou para sua assustada mulher e disse. — Ouvi que pode estar grávida. Gillian ficou boquiaberta e não soube reagir, e ele, ao ver o medo e o desconcerto em seus


olhos, bramou com fúria: — De quem é, Gillian? Porque meu não é. "Essa é a última coisa que me faltava ouvir", pensou, humilhada. Ela continuou calada, e Niall voltou a dar outro murro na parede; aplicou tanta fúria que até mesmo em Gillian doeu. — Quanto ao bebê... — Não quero ouvir falar de seu bastardo — gritou com os olhos fora das órbitas. — Não é nenhum bastardo! — repôs Gillian. — É meu filho. — Pelo amor de Deus, mulher! O que você pretende a seguir? — Por que não reconhece que consegui com meu comportamento que os McDougall e os McLeod façam as pazes? Por que só recorda o mau e nunca me elogia com algo bom? — respondeu, incomodada, sem que pudesse evitá-lo. Com o desgosto no corpo e sem querer responder, Niall se aproximou da janela e, para acabar a conversa, sentenciou: — A partir de amanhã, dormirá fora do castelo. — Como?! — O que ouviste. Meus homens transladarão suas coisas. Como se fosse um pesadelo, Gillian se aproximou até a janela, e após olhar com desconcerto para onde ele indicava, gritou, incrédula: — Pretende que durma em uma dessas cabanas? Eram as cabanas que, segundo lhe explicou, foram construídas para albergar aos trabalhadores que chegavam na época da tosquia de ovelhas. Mas isso era quase no verão e agora estava iniciando o frio inverno. "O Mato!", pensou, indisposta. Agarrando-se à madeira da janela, seus nódulos ficaram brancos de indignação. Pensou em gritar, entrar em cólera, mas não queria lhe dar tal satisfação. Decidiu assumir a humilhação a que ele a submetia pensando em seu filho, aquele bebê que ele já desprezava. Assim em um tom servil, murmurou: — De acordo, Niall. Transladar-me-ei, mas à cabana que está ao lado da enorme árvore — e separando-se dele, indicou levantando o queixo: — Por favor, me envie minhas coisas o quanto antes. Necessitá-las-ei. Niall ficou pasmado por sua submissão. Como podia passar de ser uma sensual e radiante esposa a uma autêntica harpia desbocada, e daí a uma mulher totalmente submissa? Incomodado porque ela se afastava dele sem apresentar batalha, com voz abatida perguntou: — Gillian, aonde vai? Ouvindo o aveludado tom de sua voz, fechou os olhos. Desejou atirar-se em seu pescoço e lhe dizer mil vezes que o bebê era dele. Queria que a abraçasse, que a embalasse, não que a tornasse louca! Era isso... Niall pretendia torná-la louca! — Estou cansada e preciso descansar. Como ela seguiu caminhando, ele insistiu:


— Aonde vai? Mulher, não vê que está trovejando e caindo um tremendo aguaceiro? Eu disse a partir de amanhã. O que foi que não ficou claro? Dando dois passos, ficou atrás dela. Gillian, ao notar que lhe tocava o cabelo, voltou-se e, desconcertando-o como nunca o fez até o momento, implorou-lhe, exausta: — Por favor, Niall, me deixe descansar. Quero me transladar hoje; não quero esperar até amanhã — e soluçando pela primeira vez ante ele, murmurou: — Ficou claro por que te casou comigo. Ficou claro que não sou o que esperava. Ficou claro que Diane McLeod é a beleza que você sempre quis amar. Ficou claro que te repele minha maneira de ser. Ficou claro que te envergonho continuamente. Ficou claro que não sente por mim o mesmo que eu sinto por ti. E é óbvio, ficou claro que nosso filho será um bastardo para ti. Algo mais tem que ficar claro? Ou é suficiente o que me disse para que hoje durma feliz sabendo que me sinto totalmente humilhada por ti? Essas palavras, unidas às lágrimas de uma Gillian a quem nunca viu chorar, conseguiram sem pretendê-lo que ele reagisse. De repente o fizeram sentir-se cruel, selvagem e desprezível por como se comportava com ela. Talvez deveria serenar-se e tentar entender todo o ocorrido. Possivelmente o bebê... "Deus santo! O que estou fazendo? Mas se eu amo a esta mulher", pensou Niall. Gillian, vencida como nunca em sua vida, voltou-se e começou a andar para a porta; mas antes de chegar ali, notou que ele a agarrava pelo braço e a fazia girar até tê-la de frente. Como pôde, conteve a vontade de esbofeteá-lo, e ele, empurrando-a contra a porta e agachando-se, apoiou sua fronte contra a dela, e com os olhos fechados pelo horror que sentia ao olhá-la e ver que chorava por sua culpa, implorou-lhe: — Sinto muito... Gillian, docinho, sinto muito. Não vá. Me perdoe tudo o que te disse, e quanto ao bebê... falemos. Aquelas palavras trovejaram de forma esperançosa em seu coração, que começou a pulsar disparado. Mas não, não ia tolerar que pusesse em dúvida a paternidade de seu filho. Dessa vez não seria fácil. Cansou-se de seus rechaços, de seus contínuos aborrecimentos e não estava disposta a consentir nada mais, e menos havendo um bebê pelo meio. Destroçado por vê-la assim, beijou-a, mas os lábios dela estavam frios e sem vida, não quentes e receptivos como gostava. Ao perceber, com o coração destroçado pelo que ele sozinho originou, separou-se dela, e então Gillian murmurou: — Não, Niall; não vou te perdoar. Agora sou eu quem vai te deixar claro que não quero estar contigo. — É minha mulher! — exigiu ele. Com mais coragem que um guerreiro, apesar de seus olhos doídos e sua voz quebrada, a jovem o olhou. — Sim, Niall, sou sua mulher e como tal poderá usar meu corpo quando te agradar, mas o que precisa ficar muito claro é que nunca me terá! Então, abriu a pesada porta e, com os olhos alagados de lágrimas, foi para a escada. As desceu, e deixando a todos seus guerreiros surpreendidos, saiu pela arcada principal do castelo e sob uma chuva torrencial correu com a dignidade que ainda restava até a última cabana. Aquela


seria a partir desse momento seu lar.

Capítulo 50

Depois de receber um baú dos oito que possuía, Gillian o abriu dentro da cabana, encharcada pela chuva e tiritando de frio. Só encontrou uma vela naquele lugar, e a escuridão, como sempre, a amedrontava. De repente, algo molhado lhe caiu na cabeça, e depois de soltar um grito, assustada, e dar tapas no cabelo, comprovou que era água que se filtrava por uma goteira. Desgostada, procurou com sua única vela algo com o que recolher a água, e com tremendo desgosto, verificou que havia mais goteiras. O teto da cabana parecia uma peneira. Depois de pôr as três chaleiras e as duas canecas velhas que encontrou naquele sujo lugar, voltou a blasfemar ao ver que as goteiras se multiplicavam por que cada vez chovia mais. A cabana onde estava era de pedra cinzenta escura, com forma oval e teto de pedra e palha. Era humilde, parecida com a que Megan e Shelma tinham vivido no Dunstaffnage, com a diferença de que a delas estava limpa e arrumada, e essa uma autêntica sujeira. Em uma das laterais, havia um fogão apagado com um caldeirão vazio pendurado de uns ferros. Tentou acender o fogo, mas a pouca lenha que ali havia estava úmida e, depois de pensar, decidiu abandonar a ideia. Com a sorte que estava, com toda segurança terminaria ardendo junto com a cabana. Com uma careta e morta de frio, sentou-se na cama de armar, disposta a dormir. Mas de um salto se levantou. Estava encharcada! Uma enorme goteira caía justo em cima dela, e após olhar ao chão, suspirou ao pensar que no final teria que dormir aí. Maldito McRae! Ao pensar nele, tocou a boca, e passando a língua pelos lábios, tentou saborear seu último beijo, até que sentiu um ar úmido e frio a suas costas. Ao se voltar, descobriu que faltava uma das folhas da janela. Ao olhar a seu redor, descobriu-a no chão e, com um gesto triunfal, agarrou-a e tentou colocá-la. Uma vez que o conseguiu, sorriu. Esse McRae ia inteirar-se de quem era ela! Feliz pelo resultado, voltou a olhar em seu baú e pensou em trocar de roupa. Mas alguém bateu na porta, e agarrando a espada, perguntou sem se mover: — Quem é? — Sou o Donald, milady. Surpreendida pelo surgimento do guerreiro ali, abriu, e ficou paralisada quando encontrou seis pares de olhos olhando-a sob a chuva. — O que ocorre? — perguntou enquanto observava que os homens olhavam para o interior da cabana. — Viemos ver se necessitava de algo, milady. Comovida, sorriu-lhes. — Agradeço-lhes a todos, mas estou bem. Não se preocupem. Os highlanders se olharam, atônitos. Que fazia a mulher do laird naquela fria e escura cabana?


— Milady, lhes trouxemos velas. Sabemos que você não gosta da escuridão — disse Donald. Gillian saltou de alegria. Velas! Por fim deixaria de estar nessa terrível e angustiosa escuridão. Com um radiante sorriso, colheu-as com cuidado. — Obrigada... obrigada... muito obrigada. — Milady, também trouxemos um pouco de caldo quente — lhe ofereceu Liam. — A noite não se apresenta bem e acredito que o ides necessitar se decide dormir aqui. Com um grato sorriso, Gillian agarrou a vasilha de barro repleta de caldo ansiando aquele calor. — Hum! Que bom! Obrigada. São maravilhosos. Assombrados por sua naturalidade, vários se olharam, e Liam respondeu: — De nada, milady. Ao vê-los tão sérios, tentou brincar para tirar importância à situação. — Isto me virá muito bem para esquentar o corpo. Mas como nenhum sorria, finalmente acrescentou: — Vão... vão, vão para suas cabanas. Está diluviando e estão se encharcando. Boa noite. — Boa noite, milady — disseram em uníssono enquanto ela fechava a porta. Com um ditoso sorriso nos lábios por aquele detalhe, deixou a vasilha de caldo quente sobre uma pequena mesa desmantelada. Trocaria de roupa, e logo o beberia. Nesse momento, outro golpe na porta atraiu sua atenção e ao abrir comprovou que havia mais homens. — O que ocorre agora? — Milady, não têm frio? — perguntou Aslam. Olhando-o com olhos cansados, retirou o cabelo molhado do rosto e, depois de encolher os ombros, murmurou: — Uf! Pois é verdade. Começo a notá-lo — sorriu enquanto seus dentes tocavam castanholas. — Se me permitir, ascender-lhe-ei o fogão — se ofereceu Donald. Afastou-se para um lado, e o highlander, com passo decidido, entrou junto a outro homem que levava palha e madeira seca sob uma manta, e entre os dois acenderam um fogo que depois dos primeiros brilhos começou a esquentar. Uma vez que acabaram, depois de uma inclinação de cabeça, saíram da cabana, e Gillian, despedindo-se deles, fechou a porta. Com rapidez, aproximou-se do fogo. Estava congelada, e estendendo as mãos, suspirou ao notar seu abrasador calor, enquanto ouvia chover cada vez com mais força. De novo, uns golpes na porta atraíram sua atenção. Incrédula, Gillian abriu e se encontrou com muitos mais guerreiros. — Vamos ver, pensam passar toda a noite batendo a minha porta? — perguntou com um sorriso. — Sim, até que nossa senhora esteja cômoda — esclareceu Donald, fazendo-se ouvir. Gillian não soube o que dizer. — Desculpe, milady, não queremos incomodá-la, mas pensamos que dormiria melhor em um colchão limpo e seco — ela sorriu. — Se nos permite, levaremos o velho e molhado, e deixaremos este — insistiu Donald. Com um olhar de agradecimento infinito, Gillian cobriu a boca. Estava a ponto de chorar. "OH, Deus! O embaraço está fazendo me comportar como uma chorona", pensou,


emocionada. — Milady, vimos que têm goteiras — disse Liam da porta. — Se não lhe causar muito incômodo os golpes, nós tentaremos acabar com elas rapidamente. Sobressaltada como aqueles guerreiros se preocupavam com ela, assentiu. E quando seus olhos se cruzaram com o Ewen, o homem de confiança de seu marido, e este lhe piscou um olho e sorriu, ela comovida correspondeu. Sem perder tempo e sob uma chuva torrencial, aquele exército de homens começou a cobrir com novas pedras e palha seca o teto da cabana, e as goteiras, uma a uma foram desaparecendo, enquanto Donald e os outros dois tiravam o encaroçado colchão molhado. Depois de colocar palha seca no chão e ainda por cima um par de mantas, puseram o colchão. Depois daquilo o movimento de um lugar a outro de highlanders não cessou, e Gillian decidiu não fechar a porta. Lhe trouxeram uma cadeira nova, taças e pratos limpos, e uma grande provisão de mantas, cerveja, água e bolos secos de aveia. Sentada ao lado do fogão, Gillian sorriu ao ficar sozinha. Aquela cabana iluminada, quente e acolhedora que tinha ante ela não parecia a mesma que ocupou essa mesma noite. Quando se assegurou de que os highlanders partiram a dormir, por fim fechou a porta e se deitou. Estava esgotada. O dia foi muito longo e com muitas emoções nada agradáveis. Ouvindo o som do vento e a chuva, que cada vez golpeava com mais força nas pedras da cabana, dormiu.

Capítulo 51

O som seco e forte de um trovão a sobressaltou. Ao se erguer, aterrada, algo grande e com peso caiu em seu rosto, causando uma dor intensa. Assustada, gritou e tentou se levantar com a pouca luz que davam as brasas do fogão, pois as velas já haviam apagado. Entretanto, tropeçou com uma das mantas e voltou a gritar ao cair contra seu baú. De repente, a porta da cabana se abriu, e entrou uma figura escura, enorme e encharcada que voltou a assustá-la. Gritou de novo. — Gillian, pelo amor de Deus, o que te ocorre? Era Niall, que, sem ela saber, levava toda a noite apostado em sua porta, martirizado porque sua mulher dormia ali. Ao ouvir sua voz, reconheceu-o, e tentando tirar a água que lhe corria pelo rosto gritou histérica: — Acenda uma vela! Acenda uma vela! Quero... quero luz. Com rapidez, ele agarrou de cima da mesa uma vela e, depois de aproximar a mesma ao quase apagado fogão, esta acendeu. Niall se voltou para olhá-la e ficou gelado. Vociferou: — Deus santo, Gillian! O que te aconteceu? Sem entender ao que se referia, a jovem passou a mão de novo pelo rosto. Devia existir uma goteira justo em cima. — Não... não sei o que me aconteceu. Um trovão me despertou, e logo um golpe no rosto e... — Ao ver que ele se ajoelhava ante ela, voltando-se para trás, gritou: — Não me toque, McRae, ou te arranco um olho! Colérico pelo estado em que se encontrava sua mulher, bramou com cara de poucos amigos,


enquanto via como gotejava sangue por aquele doce rosto. — Maldita seja, Gillian, deixa de dizer asneiras e não te mova! Pálido como a própria vela, agarrou-a, e ela gritou quando ao revolver-se viu sua regata branca ensopada de sangue. Nesse momento, ela ficou paralisada e gritou: — Ai, Deus, Niall! Acredito... acredito que estou sangrando! — Não me diga — rugiu, olhando-a com atenção. Levando as mãos à cabeça, Gillian recordou o golpe e a dor que sentiu no rosto minutos antes, e ao olhar o colchão, viu a portinhola de madeira da janela e entendeu tudo. Nesse momento, Ewen e Donald chegaram até eles; tinham ouvido Gillian gritar, e ficaram petrificados na porta olhando-os. Com decisão, Ewen entrou na cabana e perguntou: — Milady, o que lhe aconteceu? Gillian ia responder, mas Niall, mal-humorado, ensopado e arrasado vendo-a naquela situação, ordenou em tom irritado enquanto agarrava umas mantas: — Vai e avisa a Susan. Diga-lhe que necessito que suba a meu quarto. — Ewen assentiu. — Também necessitaremos água quente e panos limpos. Ewen e Donald partiram com rapidez, enquanto Niall, sem falar com ela, começava a enrolá-la em um par de mantas. — Pode-se saber o que está fazendo, McRae? Mas Niall não respondeu, e agarrando-a nos braços, saiu ao exterior da cabana. Agasalhando-a com seu corpo, levou-a até o castelo. Uma vez ali subiu até seu quarto, e quando chegou à cama, soltou-a. Gillian estava tão enjoada que se sentou e não protestou enquanto ele se movia pela estadia a toda velocidade. Com ar inquisidor, levantou seu queixo para olhar os danos, e respirou aliviado ao ver que a hemorragia parecia diminuir. Agarrando uma cadeira se sentou em frente a ela e, depois de molhar um pedaço de tecido em uma bacia com água, agarrou sua mandíbula com uma mão, enquanto com a outra começava a limpar o sangue seco do rosto. Sem que pudesse evitá-lo, Gillian o olhou. Parecia concentrado no que fazia. — Aaaie! — protestou ao sentir dor. Nesse instante, ele parou. O olho dela se fechava a cada instante, e com decisão, continuou limpando com cuidado o resto do rosto. Estava tão zangado consigo mesmo pelo o que aconteceu que não podia nem pensar. — Aaaie! — voltou a se queixar ela, e lhe cravou de novo seu olhar. Então, uns golpes soaram na porta, e Ewen apareceu acompanhado por Susan, que ao olha-la levou as mãos à boca, assustada. "Por Deus, que exagero por um pouco de sangue!", pensou a ferida. Com rapidez, Niall se levantou da cadeira e, olhando à mulher, pediu-lhe: — Susan, minha esposa necessita que feche com uns pontos o ferimento que tem em cima da sobrancelha. Acredito que se não pontear não cicatrizará bem. "Pontos? Pontear? Mas o que quer me fazer esta besta?", disse-se, alarmada. E levantando-se com rapidez, disse: — Nada disso. Eu não necessito que ninguém me ponteie nada! Ferimentos como este sofri muitos em minha vida, e nunca necessitei que ninguém me desse pontos. Entretanto, Susan,


obrigada por acudir. É uma magnífica mulher, te quero muito, mas não necessito que crave suas agulhas em mim. Niall, sem pestanejar, murmurou: — Susan, vá preparando o que necessite. A mulher assentiu, e sem olhar uma mal-humorada Gillian, foi até a mesinha que esta comprou e começou a pegar coisas de sua mochila. Ewen, ao ver como se olhavam o laird e sua esposa, tentou falar: — Milady, eu acredito que... — Não! — cortou ela com rapidez. Susan, ao ver o laird se impacientar, tentou mediar. — Milady, prometo-lhe que não doerá. — Como não, Susan, como não! — voltou a dizer cada vez mais histérica. Niall, incrédulo como ela olhava de esguelha as agulhas que Susan passava pelo fogo, entendeu. Gillian tinha pânico às agulhas, mas não o queria dizer. Aquilo lhe fez graça. Sua valente e guerreira mulher não temia ao aço com o qual brigava, mas sim a que uma pequena agulha espetasse sua pele. Só conhecia um método para que ela acessasse a se tratar. Desafiando-a. Depois de cochichar com Ewen e este sair, olhou a sua mulher e disse: — Está tremendo. Toma, ponha esta bata, te aquecerá. — Não. — Gillian... — protestou, cansado. — Não! — Pretende dizer a tudo não? — replicou. — Não — respondeu. Mas ao ver que curvava as comissuras de sua boca, murmurou: — Antes quero... eu gostaria de tirar a regata suja. Ver Susan com aquilo na mão começava a enjoá-la. Niall, consciente de que Gillian perdia a cor a cada instante, interpôs-se entre a Susan e ela, e a levantou sem esforço; ajudou-a a tirar a regata manchada de sangue e, sem fixar seu olhar naquele bonito corpo, pôs lhe a bata. Antes de fechá-la durante uns instantes ficou olhando a cintura. Um bebê crescia em seu interior, a amargura lhe subiu pelo corpo. Uma vez que lhe fechou a bata, voltou-a para sentá-la e ela murmurou, tiritando: — Obrigada. Aquele gesto o fez sorrir, mas não pôde mover nem um só músculo da cara para demonstrá-lo. E sentando-se na cadeira que havia em frente a ela, disse: — Gillian, seu ferimento é muito profundo e feio, e necessita ser ponteado — ela ia protestar, mas ele, lhe pondo um dedo na boca, silenciou-a. — Não é agradável para ninguém tratar este tipo de ferimento, mas você me demonstrou que é valente como um guerreiro escocês, que não se intimida ante nada, ou acaso vai me dizer que não? Ia replicar quando se ouviu um golpe na porta. Quando se abriu apareceram vários de seus homens, entre eles Ewen, que com rapidez entregou ao Niall uma taça. Este, voltando-se para sua pálida mulher, a estendeu. — Bebe. Lhe fará bem.


— Não. — Bebe, Gillian. Temperará seus nervos — insistiu. Mas Gillian só podia vigiar os movimentos da Susan, que já a algum tempo esperava a que seu laird lhe indicasse que podia começar. — Milady, não lhe doerá se é ponteado ainda em quente — murmurou Donald. — Melhor agora que quando o ferimento esfrie. Nos acredite — aconselhou Aslam. Gillian, horrorizada e cada vez mais assustada, olhou a Susan e a seu marido, Owen, e depois de dar um sorvo à taça, sussurrou enrugando o nariz. — Como sabem que não me doerá? Niall deu uma ordem com o olhar, e os homens tiraram as camisas e mostraram a Gillian terríveis marcas de espadas em seus torsos e costas. — Milady, não existe nem um só guerreiro sem cicatrizes — murmurou Ewen ao ver a cara de espanto dela. — Asseguro-lhe que minha mulher — acrescentou Owen — tem doces mãos e nos ponteia sem dor. Impressionada pelas lesões dos guerreiros, sentiu-se ridícula e tola por estar assustada por um pequeno corte na sobrancelha. E como Niall imaginou, tomando o resto da taça, disse, olhando a Susan: — De acordo, façamo-lo. Niall se levantou rapidamente da cadeira para deixar que a mulher se sentasse ante Gillian. Os highlanders, ao ver seu propósito completo, voltaram-se e, depois de cruzar um olhar com seu laird, saíram pela porta. Susan, vendo como sua senhora olhava a seu marido caminhando para a porta, sussurrou-lhe perto do ouvido: — Milady, seria bem que alguém ficasse conosco. Posso necessitar ajuda. Aquela desculpa foi perfeita para que Gillian o chamasse: — Niall! Estando já na porta, este parou. — Poderia ficar conosco? Surpreso, assentiu, e Gillian, para tirar importância ao assunto, disse em tom de brincadeira: — É só para o caso de cair como uma tenra dama e a pobre Susan necessite de ajuda para me recolher do chão. Com um sorriso em seu rosto, Niall assentiu. Por aquela cabeçuda iria ao fim do mundo. — Então. Ficarei caso me necessitem. Sobressaltado, fechou a porta, e voltou sobre seus passos até ficar junto a ela. Susan lhe pediu que segurasse a vela perto do rosto de sua mulher. Necessitava ver com clareza onde dar os pontos. Niall se sentou na cama, a seu lado, e sem pausa, mas com delicadeza Susan afundou a agulha na carne da Gillian, que se esticou. Dolorido pelo sofrimento que aquilo estava infligindo a sua mulher, não tirou o olho de cima e, ao notar que tremia, comovido, pegou com delicadeza sua mão, e Gillian, sem duvidar, aceitou o gesto.

Capítulo 52


Dois dias depois, Gillian, por fim, conseguiu sair do quarto do Niall, embora levasse a cabeça e parte do rosto coberto por ataduras de linho. Só via por um olho; o outro permanecia oculto sob a vendagem. Durante aqueles dois dias, Niall se empenhou em não perdê-la de vista nem um só instante. Não lhe permitiu voltar para a cabana e a obrigou a descansar; até lhe pôs um guarda na porta. E embora no princípio tentou protestar pelo isolamento, e por estar naquele quarto, estava tão esgotada pelos dias que não dormiu esperando sua volta que ao final o sono a venceu. Por isso, quando no terceiro dia abriu a porta e viu que não havia nenhum guerreiro fora para impedir que se movesse, sorriu, e decidida, vestiu um vestido de cor granada e desceu a escada. Precisava continuar com o acerto de seu novo lar. — Bom dia, milady, encontra-se melhor? — perguntou Gaela, que entrava pela porta principal do castelo acompanhada. — Olá, Gaela. Sim... acredito que sim — disse Gillian sorrindo ao ver o grandalhão do Frank carregado com lenha em seus braços. — Senhora, alegra-me comprovar que está melhor — sorriu o homem. — Obrigada, Frank. Com um sorriso pícaro, Gillian olhou a jovem, e esta, risonha, indicou: — Frank, por favor, poderia passar esses lenhos à cozinha? — É óbvio. Agora mesmo. Divertida, Gaela piscou um olho a Gillian, e desapareceu com aquele enorme highlander por uma porta. — Bom dia, milady. Como se encontra hoje? — perguntou-lhe Susan. — Hoje me encontro muito bem, obrigada — respondeu enquanto olhava a seu redor. — Susan, poderia me ajudar e me tirar a vendagem da cabeça? Acredito que como sigo vendo por um só olho, vai me acontecer algo. A mulher a olhou e, depois de soltar os pratos em uma das novas e bonitas mesas do salão, assentiu. — É óbvio, milady. Será bom para seu ferimento um pouco de ar. Mas deve me prometer que ao se deitar voltará a tampar o olho. Durante o sono, pode se machucar sem querer. — Prometo-lhe isso, Susan, mas, por favor, me libere de uma vez. Subiram juntas a escada até ao quarto do Niall. Gillian, com sua expressividade, falava e falava, e Susan sorria pelos divertidos comentários de sua senhora. Uma vez que chegaram ao quarto , Gillian se sentou em uma cadeira e, com cuidado, Susan começou a lhe tirar aquela elaborada vendagem. Quando ficou livre dela, Gillian levou a mão ao ferimento e, ao tocar com seus dedos seu inchado rosto, e em especial, sua sobrancelha, sussurrou: — OH, Deus, que pancada! De repente, gritou horrorizada ao comprovar que ao olhar à frente seguia vendo por um só olho. Levantando-se, tocou o rosto e notou umas protuberâncias que dias antes não existia. — Ai, Deus, Susan! Perdi um olho? — sem lhe dar tempo a responder, Gillian prosseguiu: —


Maldita seja... maldita seja. Por que tudo tem que me acontecer? Susan a olhou, e embora tenha suspirado pelo feio golpe que Gillian tinha no rosto, disse para tranquilizá-la: — Se acalme, milady, não perdestes nenhum olho. O que acontece é que têm inflamada toda a zona do golpe, mas em uns dias já verá como o inchaço baixará. — Me dê um espelho — exigiu com voz rouca. — Possivelmente não seja uma boa ideia que veja, milady. — Me dê o espelho! — gritou como uma possessa, e a mulher o deu. Incrédula, viu o reflexo do seu rosto e ficou sem palavras. Além de ter ainda sangue seco pela fronte e a face, seu olho tinha desaparecido e só se via uma inflamação em um tom verde escuro puxando a granada que a fez gritar. — OH, Deus! OH, Deussssssssss! Mas pareço um urso. — Se tranquilize, milady. Ficar tão nervosa não é bom para o bebê — sussurrou a mulher. Então, Gillian a olhou e perguntou: — Susan, todo mundo sabe do bebê? Esta assentiu, e Gillian soprou com exasperação. Odiava os cochichos. — E me deixe lhe dizer, minha senhora, que ninguém dúvida de que seja de nosso senhor. Escutar aquilo era o que mais necessitava e, lhe agarrando as mãos com carinho, Gillian as beijou. — Obrigada, obrigada... obrigada. — Milady, Por Deus — sussurrou Susan, sobressaltada. — Ninguém porá em duvida ante nós que esse bebê é um autêntico McRae. — O problema é que é o pai quem não acredita. — OH! Os homens às vezes são... — Sim, piores que meninos... Já sei, Susan. Já sei. Alterada por sua própria visão, fixou-se no ferimento que o golpe causou. Era alongado e estava justamente em cima da sobrancelha, e seu aspecto com os pontos era horrível. — Por todos os Santos, Susan, sou um monstro! — exclamou, incrédula. A mulher, acostumada a curar ferimentos muito piores que aquele, tentou acalmá-la. — Milady, a portinha da janela lhe deu um bom golpe. Teve sorte que não lhe saltasse o olho ou quebrasse os dentes. De repente, abriu a boca, e ao comprovar que todos seus dentes continuavam ali, suspirou, aliviada, mas perguntou: — Susan, está segura que meu olho continua em seu lugar? A mulher sorriu. Não queria fazê-lo, mas sua senhora era tão engraçada que não pôde evitá-lo. — Me acredite, não se preocupe. Seu precioso olho ainda está em seu lugar. Verá como em uns dias o inchaço desaparece e volta a nos mostrar sua bonita cara — e lhe tirando o espelho das mãos, disse: — Agora vou lavar seus cabelos; ainda estão pegajosos. Também limparei restos de sangue do rosto. Prometo-lhe, milady, que logo se verá mais bonita. "Bonita? Mas se pareço um urso", pensou desesperada. Enquanto Susan trabalhava com um excessivo cuidado em lhe lavar o cabelo e ser agradável


com ela, Gillian não podia deixar de pensar em seu aspecto. Como aparecer assim ante o Niall? Impossível. Não permitiria que a visse naquele estado. Certamente zombaria e voltaria a deixar claro que Diane McLeod era mais bonita que ela. — Milady, posso lhe fazer uma pergunta? — Sim, Susan. A mulher, mexendo nos cabelos, perguntou: — Por que têm esta mecha mal cortada aqui? Quer que iguale o cabelo? Olhando-se no espelho, Gillian soprou e recordou sua última discussão com o Niall. Mas não pensava em contar que ele a castigava cortando mechas, e com um tolo sorriso, respondeu: — Não o iguales, o farei eu. E quanto a sua pergunta, me fiz isso praticando no campo de treinamento com a Cris McLeod. Susan assentiu e continuou lhe desenredando o cabelo.

Capítulo 53

Da janela, Gillian observava aos homens e a seu marido. Estavam construindo novas cavalariças e trabalhavam desde a alvorada com dureza. Sem que pudesse evitar se fixou no Niall. Aquela manhã o via muito bonito. Mas quando não o via bonito? Sorria junto a Ewen e parecia divertir-se por algo. Adorava vê-lo sorrir. Aquela expressão alegre era a que ele tinha no passado. Uma expressão que com ela não a mostrava. Aproximando-se de seu novo espelho que comprou, murmurou: — De verdade... de verdade, Gillian, o que não acontece a ti, não acontece a ninguém. Precisava sair do quarto, mas seu marido e os guerreiros estavam trabalhando quase em frente do portão principal do castelo, e estava segura de que quando saísse pela porta a veriam e perceberiam seu terrível aspecto. "A janela da escada." Mas pensando em seu bebê se negou a atirar-se de novo. Embora pouco depois, voltou a considerar. Era sua única escapatória. Se saltasse por aquela janela, poderia chegar até sua cabana para pegar roupa limpa. Se o fez uma vez e não lhe aconteceu nada voltaria a fazê-lo. Abriu a porta da habitação e, com sigilo, chegou até a janela. Uma vez que a abriu se sentou no batente, e sem pensar, lançou-se, embora essa vez a queda não foi tão limpa como dias atrás. O olho inflamado a desequilibrou e rolou pelo chão. — Aieee! Que desajeitada sou! — queixou-se ao levantar-se. Depois de tirar o pó do vestido e comprovar que ninguém a viu, correu para as cabanas, feliz de que o ar lhe batesse por fim no rosto. Uma vez que entrou na pequena cabana se surpreendeu ao ver a portinha da janela concertada e nem rastro do sangue que perdeu. Com rapidez, abriu o baú e tirou uma saia, uma regata e uma casaca. Quando as vestiu se sentiu limpa. Como detalhe, colocou ao redor da cintura um cinturão de cintura baixa feito com várias placas metálicas, e comprovou, incrédula, que estava mais apertado do que ela recordava. "Uf! Estou virando uma barrica."


— Gillian, está aqui? Era Niall. Ia fechar a porta da cabana precipitadamente, mas esta estava apoiada na parede com as dobradiças quebradas. Então, recordou que a noite da tormenta seu marido a quebrou com um pontapé para entrar. Não poderia escapar. Niall ia ver seu aspecto, e ela teria que suportar sua brincadeira. Moveu-se para o interior da cabana e olhou para a parede, até que a sombra do Niall tampou a luz que entrava pela porta. — Olá, Gillian. — Olá — respondeu sem se voltar. Um de seus homens o avisou de que viu sua esposa subir para a cabana, e inquieto por saber como estava foi em sua busca. — Não me diga que voltou a saltar pela janela? — Não te interessa — respondeu ela. — Uma mulher em seu estado não deve fazer essas coisas. — Você o disse: é meu estado. É meu filho; portanto, deixe que tome minhas próprias decisões sobre o que devo ou não fazer. Durante aqueles dois dias com ela no quarto, tentou dialogar, mas ela se negou. Só a viu chorar uma vez para saber que se comportou como um energúmeno, e ele não queria ser assim. Amava-a e a adorava. Necessitava-a mais que a ninguém no mundo, e por isso queria reconquista-la, embora ela lhe pôs isso difícil. — Encontra-te bem? — Sim. — Dói-te a cabeça, ou algo? — Não. — Necessito falar contigo, Gillian. — Pois e eu contigo. — Docinho — sussurrou. — Não me chame docinho! — gritou ela. Consciente de que devia ter a paciência que ultimamente não teve com ela, suspirou; mas após um incômodo silencio estranhou que Gillian não se movesse nem o olhasse. Por isso, aproximou-se dela, até ficar justo atrás. Precisava abraçá-la, beijá-la, lhe dizer todas as coisas bonitas que ela merecia, mas temia sua reação. — Não... te ocorra me tocar nem me olhar. Estranhando, pôs-lhe a mão no ombro. — Maldito seja, Niall! Não... me toque. Sem entender o que acontecia, agarrou-a pela cintura e, voltando-a, a pôs de frente a ele. Nesse momento, Gillian tampou o rosto com as mãos, e então ele entendeu. Com carinho, sussurrou: — Gillian, o inchaço desaparecerá. Não te preocupe. Em poucos dias seu rosto voltará a ser tão belo como sempre. Surpreendida por aquele elogio, ela entreabriu o olho, mas não o olhou. — Não quero que me veja assim. Estou segura de que te causaria mais repugnância do que já te causo, e te conhecendo, zombará de minha horrível aparência e começará a elogiar a


preciosa aparência das outras. Confuso e envergonhado pelo que ela dizia, sussurrou: — Posso te assegurar que me causa muitas coisas menos repugnância, Gillian. "Vá, hoje está em plano irônico", pensou. Mas disposta a não se deixar vencer por suas adulações, disse: — Niall, posso te pedir uma coisa? — Claro- assentiu ele, divertido. — Poderia sair de minha casa para que eu possa me ocupar de que esteja limpa e decente para mim? E por favor, diga a alguns dos homens que venha e me arrume a porta. Eu gostaria de ter privacidade, e sem porta, não creio que a tenha. Olhou-a, boquiaberto. De verdade pretendia seguir dormindo ali? — Gillian, não quero que durma aqui, e muito menos que considere este barraco seu lar. — Puf! — protestou, dando a volta. Não queria olhá-lo. — Puf! O que? — grunhiu ele. — Olhe, Niall. Não quero discutir contigo. Só quero que peça a algum dos homens que venha me arrumar a porta. Só isso. — Gillian... — sussurrou, aproximando-se dela por trás. — Não... não te aproxime de mim. Disposto a conseguir fosse como fosse afundou seu rosto em seu pescoço e aspirando o perfume de sua pele sussurrou: — Quero-te, Gata. Aguentando a vontade que tinha de lhe estampar o balde que estava ante ela, depois de mover seu ombro para que ele se separasse, espetou: — Alegra-me sabê-lo, Niall, mas eu não quero a ti. — Sei que é uma mentira piedosa; você me quer. — Não, não minto. Queria-te, mas já não. Agora só quero a meu filho. Cabisbaixo ao ouvir aquilo, decidiu despir seu coração, e murmurou: — Sou um bobo, um idiota, um néscio, sou tudo o que você queira que seja. Mereço que esteja zangada comigo, que me ignore, que não me fale, mas deixa-me te dizer que sou um homem apaixonado por ti e que farei tudo o que esteja em minha mão para que volte a acreditar em mim e me queira. Resistindo ao impulso de se atirar em seus braços pelo o que acabava de dizer, respirou fundo e, negando com a cabeça, murmurou: — Entre você e eu nunca haverá nada. O que houve pertence ao passado e, como tal, deve ficar esquecido. Sem se dar por vencido e sem se separar dela, sussurrou em seu ouvido: — Não vou permitir que não me ame. Não vou permitir que esqueça o que uma vez existiu entre nós. E não vou permitir porque sei que me quer, e eu não posso nem quero viver sem ti. Pronta a derramar lágrimas e esquecendo-se de seu aspecto, Gillian se voltou para ele e gritou: — É desprezível. Odeio-te! Tudo isto o fazes para que eu volte a cair como uma boba em seu leito. Mas estou segura de que quando tenha disfrutado de mim e a vida se normalize, voltará a me humilhar e a me dizer "por que te casou comigo?" Além disso, em minhas vísceras cresce um


bebê do qual você, maldito seja, você, disse que é um bastardo. Portanto, não te aproxime de mim porque nem meu filho nem eu não queremos nada de ti. Ao ver como a olhava, tocando o rosto, bramou: — Deixa de me olhar o rosto assim! Ao sentar-se na cadeira, sua saia lhe jogou uma má partida e, de repente, ouviu-se como o tecido se rasgava. Incrédula pelas mudanças que seu corpo estava atravessando, soluçou olhando-o. — Agora, além de deformada e de ser um monstro, estou ficando gorda e... — Gillian, não acontece nada. Não és um monstro — murmurou, enternecido. — Tem outros vestidos. Não fique triste por isso. Mas ela chorou ainda mais forte, desconcertando-o por momentos. — Odeio que me veja com esta cara de urso. Comovido pela ternura que ela fazia crescer dentro dele, se pôs de cócoras no chão para estar a sua altura e, sem tocá-la, disse: — Eu não acho que pareça um urso, docinho. — OH, sim! Não me minta. Tenho o rosto deformado que pareço com os ursos quando despertam. Não me diga que não. Divertido com suas palavras, ia tocá-la, mas Gillian não deixou. Incapaz de seguir vendo-a chorar como uma indefesa menina, Niall perguntou: — Gillian, docinho, por que chora agora? — Não me chame docinho. — Sim. — Não, não te o permito. Tentando se convencer de que aquelas lágrimas eram sintoma da gravidez, Niall continuou: — Se é pelo vestido, não passa nada; compramos mais. E quanto a seu rosto, não te preocupe. Dentro de nada voltará a estar tão bonita e preciosa como sempre. Parando uns instantes de chorar, olhou-o com seu único olho são e, em um sussurro, perguntou: — De verdade pensa que sou bonita? — Não, porque e... — Sabia... É uma mentira piedosa — gemeu, tampando o rosto. — Porque é preciosa, Gillian. A mulher mais bonita, preciosa e valente que conheci em minha vida. A mulher com a qual tenho a honra de estar casado e que desejo com toda minha alma que me perdoe e retorne a nosso lar. Atordoada pelas palavras tão bonitas e doces começou a chorar com mais força. E só desconcertou ainda mais ao highlander, e sem saber o que fazer, lhe ocorreu dizer: — Docinho, é uma guerreira, e os guerreiros não choram. Ouvindo aquilo, de um salto a jovem se levantou da cadeira e disse: — Fora de minha casa! — Já estamos outra vez com isso. Gillian, docinho... Mas ela não queria escutá-lo. Estava grávida, com o rosto machucado e só no mundo. — Fora de minha casa, já disse! — Voltou a gritar. Convencido de que era inútil falar com a Gillian nesse momento, finalmente se levantou e


partiu. Já falaria com ela quando estivesse mais tranquila. Mas não. Falar com a Gillian foi impossível. Fugia dele, e isso o estava irritando. Quando chegou a noite, ela se encerrou na cabana, e Niall blasfemou ao ver a porta concertada. Não havia maneira de entrar a não ser jogando-a abaixo, e não queria nem assustá-la nem machucá-la. Já foi bastante bruto com ela. Aquela foi a primeira de muitas noites que Niall, depois de ver como ela partia à cabana, sentava-se abatido e mal humorado no batente de sua janela enquanto se perguntava o que podia fazer para reconquistar a sua mulher. Ela era demasiado importante e valiosa para ele para que as coisas ficassem assim.

Capítulo 54

Durante esses dias, Niall mal descansou. Só podia dormir perto dela, e o mais perto era no chão, ao pé da parede da cabana, embora obrigou seus homens que se calassem. Não queria que ela soubesse que estava tão desesperado. Mas uma noite ela despertou, e ao abrir a porta da cabana, ficou sem fala ao ver que Niall dormia enrolado em várias mantas junto à parede. O primeiro instinto foi lhe dar um chute para que se afastasse dali, mas quando viu que as lágrimas iam a ela, meteu-se na cabana e chorou... chorou... e chorou. Cris e Brendan retornaram de sua viagem de bodas e, ao encontrar aquela situação, tentaram mediar. Mas foi impossível. Gillian se fechara e lhe dava igual tudo o que dissessem. Não pensava voltar a confiar no Niall. Nunca mais. Todas as manhãs quando Gillian saía de sua cabana, ele já estava esperando-a com um sorriso radiante. Levava-lhe bolos de aveia, de morangos, de frutas, tudo o que fosse para lhe fazer passar o mau momento de náuseas matinais. No meio da amanhã, quando Gillian passeava ou fazia alguma tarefa do lar, este aparecia com algum suco recém espremido para que tomasse. Ao princípio, gostou daquele detalhe, mas conforme passavam os dias começou a mudar. Niall a obrigava a tomá-lo, mesmo que não gostasse. "Quer me engordar como a um porco", pensou, e inclusive lhe gritou fazendo-o rir. Durante as refeições, momento no qual ele se sentava junto a ela e tentava conversar, Gillian comprovou como Niall procurava lhe agradar em tudo o que podia. Inclusive a elogiava e lhe dizia dia a dia o muito que melhorava seu rosto e diminuía o inchaço. Simplesmente o escutava, mas não sorria. Só assentia e comia. Levava tanto tempo sem vê-la sorrir que ele começou a se preocupar. Quando perdeu Gillian aquele sorriso tão maravilhoso? Depois da refeição, todos os dias chegava o mesmo ritual: Niall ficava pedindo para que descansasse, e por isso, Gillian, para perdê-lo de vista, metia-se em sua cabana e ao final dormia. Ele aproveitava esse momento para falar com seus homens de coisas importantes para o castelo e subir às muralhas, onde, apoiado na pedra que a sua mulher tanto gostava, rememorava uma e outra vez seus bonitos e excitantes momentos de paixão. Uma vez acabada a sesta, quando ela abria a porta de sua cabana, ali estava de novo ele para persegui-la fosse onde fosse, até que depois do jantar, ela retornava à cabana, esgotada de escutar quanto a queria e a necessidade de que lhe perdoasse e lhe desse uma nova


oportunidade. Sete dias depois, uma manhã, depois de passar uma noite em que Gillian não parou de vomitar, quando saiu de sua cabana para tomar um pouco o ar, ficou boquiaberta ao ver aproximar-se três cavaleiros com um exército atrás. Colocando a mão nos olhos para que o sol não a ofuscasse, de repente, uma alegria se instalou em seu peito ao reconhecer entre aqueles cavaleiros a Megan. Excitada, entrou na cabana disposta a assear-se para ir ver sua amiga. No interior do castelo, Niall falava com o Ewen sobre as obras das cavalariças quando um de seus homens entrou para avisar da visita. Quando Niall saiu ao exterior pela porta principal sorriu ao ver chegar a seu irmão Duncan, a sua cunhada Megan e ao Kieran O'Hara. — Ha! Que agradável visita! — aplaudiu, feliz. Com rapidez se aproximou até sua cunhada e agarrando-a pela cintura a ajudou a descer do Stoirm, seu cavalo, e beijando-a sussurrou ao ouvido: — Obrigado por acudir tão rápido. Esta, sorrindo, beijou-o e respondeu: — Se não vim antes foi porque me proibiu, maldito cunhado. Niall sorriu. Megan era maravilhosa e com segurança o ajudaria a recuperar o carinho da Gillian, que nos últimos dias havia piorado. Duncan se aproximou de seu irmão e o abraçou. — Não sei o que se passou aqui, mas sua cara de cansaço me faz pressupor o pior. Embora deva te dizer que não se preocupe; se eu pude com a Megan, você poderá com a Gillian. Divertido pelo comentário, deu em seu irmão um par de palmadas nas costas e olhou ao Kieran, que, desmontando do cavalo, olhava a seu redor. — Isto cada dia parece mais um castelo e não um montão de pedras — zombou olhando ao Niall, que sorriu. — E você, o que faz aqui, Kieran? — perguntou Niall, divertido. — Estava no Eilean Doam, visitando minhas pequenas Amanda e Johanna, quando Megan recebeu sua missiva. Ela me pediu que os acompanhasse. Mas se quiser que desapareça só precisa me dizer isso e irei por onde vim. — Anda... não diga tolices. — Niall abraçou-o, embora sentisse uma pontada no coração ao recordar que Gillian lhe disse que Kieran a atraía como homem. Seria verdade? — É bem-vindo a meu lar, que desde este mesmo instante é o teu. — Obrigado, McRae — sorriu Kieran. E olhando a seu redor, perguntou: — Bom, e onde está tua preciosa mulher? — Isso, onde está Gillian? — insistiu Megan, olhando para o castelo. Nesse instante, Niall olhou para as cabanas e sorriu ao vê-la correr para eles. — Ali vem. Todos se voltaram para onde Niall indicava. Megan, feliz, saltou como uma louca sobre si mesma, movendo os braços, enquanto Gillian, de sua parte, corria e fazia o mesmo. — Vá, Niall! Por sua cara de bobo pressinto que as coisas entre vós dois melhoraram bastante — cochichou Kieran. Ele encolheu os ombros, e Kieran prosseguiu: — Então, confirma que estão melhor que o último dia em que os vi?


— Julga-o por ti mesmo — soprou Niall. Kieran estranhou aquela resposta. — A tratas bem? — perguntou. Incomodado pela pergunta, Niall olhou a seu amigo. — É óbvio. Como ela merece — respondeu. — Por todos os Santos, Gillian! O que te aconteceu? — gritou Megan nesse momento. Passaram-se vários dias desde o desafortunado acidente, e apesar de que o olho e a face já tinham voltado para a normalidade, um escuro cerco em tons verdes e amarelado ainda lhe ocupava meio rosto. Kieran, incrédulo, fixou a vista na Gillian, e ao ver o olho, a fronte e a face de cor granada se voltou para o Niall e lhe deu um murro que o tombou para trás. — Maldito covarde! Como pode ter batido nela? — gritou sem lhe dar tempo a explicações. Enfurecido, Kieran se atirou em cima dele, dando outro murro que o fez sangrar no lábio, gritando antes que Duncan os separasse: — A isso você chama tratá-la como merece? — Me solte, maldita besta! — gritou Niall, ofendido, enquanto ordenava com a mão a seus homens que não interviessem. Gillian chegou até eles rapidamente, e junto ao Duncan e Megan, ajudou a separá-los. — Mas bom, pode se saber o que acontece? — perguntou quase sem voz pela corrida. Niall, tocando o lábio para tirar o sangue, vociferou, incomodado: — Explique a essa besta que eu não fiz as marcas em seu rosto. Duncan, incrédulo, olhou-a. O rosto da moça era de todas as cores menos da qual devia ser. — Ai, Gillian! — gemeu Megan, olhando-a. — O que te aconteceu, docinho? Consciente de que todos os olhares estavam dirigidos a ela, sem aproximar-se de seu marido para ver seu ferimento no lábio, esclareceu: — Acreditem ou não, caiu-me uma portinha da janela no rosto, e por isso tenho o rosto assim — e voltando-se para o Kieran, repreendeu-o: — Como pudeste pensar que Niall seria capaz de me fazer isto? — Não sei — murmurou, tocando o punho. Divertida, viu o sangue na boca de seu marido, mas ignorando o seu estado, voltou-se para seu amigo e, com um sorriso que levava tempo sem mostrar, murmurou, fazendo que a Niall encolhesse o coração: — Pensa que eu deixaria fazer isto sem tê-lo marcado a ele? — Não sei, preciosa. Por um momento pensei que... — Não pense tanto, O'Hara, e se pensar, fá-lo com conhecimento — bufou Niall, partindo para o interior do castelo. Duncan, ao ver que Gillian não corria atrás dele, olhou ao Kieran, e agarrando-o pelo pescoço, convidou-o: — Anda... vamos refrescar nossas gargantas e contém seus punhos. Megan, olhando a Gillian com atenção, disse a seu marido: — Vão vós. Eu irei dar um passeio com a Gillian pelos arredores. Assim, os homens entraram no castelo, e elas começaram a caminhar pela planície. Durante um bom momento, Gillian apresentou a Megan todos e cada um dos homens com


que se cruzavam. Helena, ao ver a Megan, com rapidez saiu a saudá-la. Apreciava-a pelo bem que fez com ela e seus filhos a noite em que se conheceram na estalagem. Depois de andar para uma zona de cabanas, Gillian abriu a porta da última delas e a fez entrar. — Bem-vinda a meu lar — disse olhando a seu redor. Sua cunhada, sem entender nada, olhou a cabana, e Gillian lhe assinalou a janela já concertada de madeira. — Essa é a responsável por que meu olho e meu rosto estejam assim. Houve uma tormenta incrível, a janela estava solta e eu, que dormia debaixo... OH, Deus, Megan! Não pode nem imaginar a quantidade de sangue que perdi. Megan cada vez mais confusa, olhou-a e acrescentou: — Não entendo nada do que está me contando. O que é isso de que este é seu lar, e de que você dormia quando se...? Mas não pôde seguir falando. Gillian se descontrolou e começou a chorar, e pouco depois uma náusea a fez vomitar. Megan, assustada, levou-a rapidamente até o limpo e ordenado colchão e conseguiu sentá-la ali. — Vamos ver, docinho, comecemos pelo princípio, porque te garanto por minhas meninas que cada vez entendo menos. Então, Gillian, necessitada de falar, começou a lhe contar tudo o que lhe ocorreu nos últimos meses. — Que está grávida?! — Sim. — Niall não sabe? — Sim, e esse bufão acredita que não é dele. Incrédula pelo que ouvia, Megan sussurrou: — Como é possível que pense isso? Entre gemidos, respondeu: — Disse que o que levo em minhas vísceras é um bastardo, e eu não quero ouvi-looooooooooo. Ficarei feia, gorda, disforme, e... e... — Mas por todos os Santos, Gillian! Vais me dizer que Niall acredita...? — Sim... — OH, não! Sinto te dizer, por muito que o rechace, que Niall não é assim. — Você não o conhece! — gritou, e soltando o cabelo, gemeu. — Olhe por onde tenho o cabelo. Vai me deixar calva! Atônita, Megan observou como a longa juba de sua amiga diminuíra até ficar pouco abaixo dos ombros. — Esse... esse bobo, além de me fazer um corte no cabelo cada vez que lhe desobedeci ou insultei, tem-me quebrado o coração. — Vá, Gillian... Vejo que estiveram muito entretidos — mas Gillian não sentia vontade de rir. — E mais, só elogia à tola da Diane McLeod. Que é bonita, graciosa, formosa, com um cabelo encantador, feminina... OH, Deus... a odeio! Cada vez mais consciente de por que seu cunhado a chamou, Megan se sentou de novo no colchão e, tocando com carinho seu cabelo, sussurrou-lhe ao ouvido: — Olhe, Gillian, entendo tudo o que me diz. Entendo que não foi tudo tão bem como


deveria ser e... Mas se calou ao notar que alguém entrava na cabana. Era Kieran, que fechou a porta e disse a suas costas: — Vamos ver, Gillian, o que ocorre aqui? Acabo de me inteirar pelo Ewen de que vive nesta humilde cabana e que está esperando um bebê — e assinalando-a com o dedo, chiou: — Se esse McRae é quem te fez isso no rosto, diga-me isso mas me diga isso já, porque te juro que o faço pagar agora mesmo. Gillian levou as mãos ao rosto e começou a chorar de novo, e Megan, olhando ao highlander, sussurrou-lhe: — O teu problema é ser inoportuno, Kieran.

Capítulo 55

Aquela noite, as coisas pareciam ter se acalmado, mas como a cada dia, Gillian teimou em que não queria dormir no castelo, e Niall, uma vez mais, deixou-a partir. Megan, Duncan e Kieran tentaram por todos os meios que ela ficasse a descansar ao calor da fortaleza, mas não houve maneira. Por isso, Niall, cansado de escutá-la, a puxou pelo braço, e depois de fazer um gesto a um de seus homens, levou-a até a porta principal do castelo e, com um sorriso, disse-lhe: — Está segura de que não quer ficar, docinho? — Não me chame docinho! — protestou. Niall, contendo a ansiedade de beijá-la, aproximou-se dela e lhe sussurrou ao ouvido: — Se não te importar, esta noite, como temos convidados, não te acompanharei até a cabana. — Parece-me justo — assentiu ela. — Que passe uma boa noite. Depois de indicar ao Liam que a acompanhasse até a cabana, Niall a viu afastar-se e, entre sussurros, disse sem que o ouvisse: — O mesmo digo, docinho. Ao ver aquilo, Megan, Duncan e Kieran se olharam. O que estavam fazendo aquele par de tolos? Quando Niall se sentou junto a eles, uma avalanche de emoções lhe percorreu o corpo. Sentia-se frustrado, raivoso, zangado, mas estava apaixonado por aquela fera de uma maneira tão irracional que lhe estava começando a nublar a razão. Parte dele desejava lhe dar uma boa palmada para que deixasse de comportar-se daquela absurda maneira, mas outra parte dele o único que queria era beijá-la, que o beijasse, lhe fazer amor, e por todos os Santos, que lhe sorrisse. Precisava ouvir o som de sua risada, senti-la, mas ela parecia não dar-se conta. — Vamos ver, Niall, desde quando ocorre isto? — perguntou Duncan, incomodado. — Há duas ou três semanas. Tivemos uma forte discussão, comportei-me como um imbecil, e isso originou que Gillian esteja assim comigo. — Mas como pode permitir que essa pequena mulher, que está grávida, ande por aí no frio que faz? — recriminou-o Kieran.


Incapaz de calar-se, Megan olhou a seu cunhado e, em um tom nada conciliador, espetou: — Isso eu sei, ele foi quem lhe ordenou a dormir na cabana. Ela só cumpre ordens. Niall cravou o olhar em sua cunhada e respondeu: — Tem razão. Ofuscado, a noite de nossa discussão disse essa tolice, mas essa mesma noite, antes que saísse de nossa habitação, tentei retificar, mas já sabe como é sua amiguinha Gillian. — Posso te assegurar que se Duncan tivesse duvidado de que minha gravidez não era dele, tampouco o teria deixado retificar — acrescentou Megan. — Como te ocorreu ofendê-la de tal modo? — Por todos os Santos, Niall! — exclamou Kieran. — Estava cego pela raiva — respondeu, desesperado. — Não tento me desculpar por isso; a fúria me cegou, e agora estou pagando as consequências, e com acréscimo. — Não posso acreditar nisso, Niall — disse Duncan. — Está querendo dizer que há duas, três semanas, permite que essa mulher se saia com a sua a cada noite, até acreditando que o filho dela é teu filho!? Com ironia seu irmão o olhou e, assinalando-o com o dedo, indicou-lhe: — Precisamente você te cale. — Eu não o permitiria — insistiu o outro sem se intimidar. — Olhe, Duncan — recriminou Niall, — leva seis anos permitindo que sua graciosa mulher, essa que agora me olha com vontades de me tirar os olhos, saia-se com a sua em tudo. O que tem você para me recriminar? — Acredito que os McRae são uns brandos. OH, sim! Acredito firmemente — zombou Kieran. Megan, depois de lhe dar uma palmada que o fez rir a gargalhadas, perguntou: — Como pôde lhe dizer que levava um bastardo em seu interior? — Acabo de explicar... Fiquei cego. — Muito mal, Niall; muito mal — murmurou Duncan. — Querem deixar de me julgar e me ajudar a procurar uma solução? Pensam que eu gosto de ver como ela não me olha, não me fala, não se dirige a mim para nada, não me conta se está bem ou mal? Por todos os Santos, vou ficar louco! — Merece-o por ser cabeçudo — recriminou Megan. Kieran, divertido, perguntou-lhe: — O que ocorre aos McRae? São uns ferozes guerreiros na luta, mas no corpo a corpo com suas esposas, elas vencem? Megan, disposta a defender a aqueles homens que tanto amava, agarrou um guardanapo e açoitando-o arreganhou. — Você, pedaço de bobo, te cale. Meu marido e Niall são ferozes em todos os campos. A vida em casal não é fácil, e ante mulheres como Gillian e eu, medem suas forças de outra maneira. Sorrindo, Kieran deu uma dentada a um pedaço de pão e respondeu: — Por isso, querida minha, eu decidi desfrutar dos prazeres de uma mulher diferente a cada noite. Dessa maneira, nenhuma me fará medir minhas forças sem que eu queira. — Sinto te dizer, Kieran — esclareceu Niall em tom alegre, — que o dia em que a mulher que te tire o sentido chegue até ti... medirá suas forças. OH, sim! Estou seguro. E ali estarei eu para zombar.


— Eu também — assegurou Duncan. — No dia em que apareça essa mulher... cairá rendido a seus pés como caímos todos. Nesse momento, entrou Liam, o guerreiro que acompanhou a Gillian até sua cabana, e após cruzar um olhar com o Niall, este assentiu e soube que ela chegou bem. — Olhe, Niall — disse Megan, — Gillian não pode continuar dormindo na cabana. O tempo piora e... — Já sei... — respondeu, incomodado. — O que não sei é o que fazer para que ela volte a confiar em mim. Levo semanas lhe dizendo que a quero, implorando seu perdão, me deixando pisotear como nunca antes o fiz e, mesmo assim, nada. Mas me angustia ouvi-la chorar pelas noites em sua cabana. — Espiando às escondidas? — zombou Kieran. Niall o olhou com expressão feroz, mas Kieran sorriu. — Se não tivesse sido tão idiota todo este tempo e não te tivesse comportado como um energúmeno, nada disto estaria acontecendo. Quis dar uma lição a Gillian por coisas do passado e no final, você tornou isso assim — recriminou Megan. — Sinto dizer isso, mas mereceu, por ser cabeçudo. Sem que importasse mostrar seus sentimentos nem o que pensassem sobre ele, Niall se voltou para sua cunhada e sussurrou: — Megan, amo a Gillian. Ela é o melhor e mais bonito que jamais tive, e estou disposto a lutar para que ela volte a me olhar como me olhava até que eu estraguei nossa relação. — OH, que romântico! — zombou Kieran. — Você, te cale — disse Duncan, lhe dando um murro. — Não faz nem ideia do que meu irmão está falando. E te asseguro que o dia que uma mulher te toque o coração e ela te ignore, o último a rir será você. — Niall, por que não desafia a Gillian? — perguntou Megan, surpreendendo-os. — Como?! — disseram os três highlanders, olhando-a. — Megan, tesouro — sussurrou Duncan, — pretende que Niall bata nela sabendo que está grávida? — Não... docinho — sorriu ao comprovar o que eles entenderam. — Me referia a que troque de tática. Se a que está usando agora não funciona, que tente outra. Possivelmente tanta opressão ela não goste, e ela precisa sentir-se desafiada para que Niall volte a lhe interessar. — E o que pretende que faça? Se não for eu quem tente estar com ela e vê-la, asseguro-te que ela não tentará nada. — Está seguro? — Totalmente seguro — assentiu ele. Megan, depois de soprar, olhou a seu marido, que lhe piscou um olho. — Falemos do que vamos começar a fazer a partir de amanhã. A Gillian, como sempre, ou a põe entre a espada e a parede, ou nunca reagirá. E Kieran, necessitaremos sua ajuda de novo. — Ao ver que aquele sorria, Megan esclareceu: — E tranquilo, esta vez não permitirei que nenhum McRae te ponha a mão em cima. Duncan, ao ver que seu irmão e Kieran se sentavam junto a Megan, riu e disse: — Que Deus nos apanhe confessados, moços. Nos vamos meter nos jogos de duas


guerreiras.

Capítulo 56

À alvorada, Niall se levantou de sua cama. Megan não lhe permitiu dormir próximo da cabana e só desejava ir ver a Gillian. Depois de vestir-se e tomar o café da manhã sem muita vontade, foi com Duncan a revisar o gado. Gostasse ou não, um dos primeiros passos para desafiar a sua guerreira mulher era afastar-se dela, e isso o desconcertava. Aquela manhã, quando Gillian se levantou, suspirou ao pensar que ao abrir a porta ali estaria Niall com o melhor de seus sorrisos para lhe desejar bom dia. Por isso, se olhou no espelho, alisou o vestido e, levantando o queixo, abriu a porta da cabana... Ficou petrificada ao não vê-lo sentado sob a árvore. Onde estava? Surpreendida, meteu a cabeça pela porta, e depois de olhar a ambos os lados e ver que ele não aparecia, bufou incomodada enquanto caminhava para o castelo. — Vá... hoje que gostaria de um pedaço de fruta fresca, não está. Quando entrou na fortaleza, esperou encontra-lo sentado à mesa junto ao Duncan, mas tampouco estava ali; embora sim viu a Megan falando com o Kieran. — Bom dia, preciosa — saudou-a o homem, levantando-se para ir até ela. — A que se deve esse cenho tão franzido? — OH, a nada! — Vem, sente-se conosco — sugeriu Megan. — Estávamos falando da festa que organizarei para a Amanda em seu aniversário. Virá, verdade? — É óbvio. Olhando a seu redor, Gillian quis perguntar pelo Niall, mas não queria dar a entender que sentia sua falta; por isso, se juntou a conversa e se surpreendeu quando Megan disse: — Duncan e Niall foram ao Dunvengan para se reunir com o Jesse McLeod. "Maldita seja! O que faz Niall ali?" disse-se incomodada ao pensar na Diane. Mas com rapidez recordou que esta já não vivia no castelo. — A que foram ao Dunvengan? — Jesse McLeod, pelo visto, tem bonitos cavalos, e Niall quer escolher um potro branco para dar de presente a Amanda por seu aniversário. Já sabe que Niall tem certa debilidade pelas meninas — respondeu Megan. — Sim, é certo — assentiu Gillian, sorrindo. Durante um bom momento, escutou Kieran e Megan falar sobre a Shelma, Johanna e um sem-fim de pessoas, enquanto ela estava sumida em seus pensamentos. — Bom... agora que estamos só os três e o bruto do Niall não está — disse Kieran, — Gillian, o que vais fazer? Ontem à noite ficou claro a todos que a convivência com seu tormentoso marido é totalmente nefasta. Voltará para o Dunstaffnage, ou ficará aqui? Aquela pergunta a pegou totalmente despreparada. Nunca pensou se afastar de Duntulm, e olhando a Megan, que assentia com a cabeça, assinalou:


— Não sei. Não pensei nada. — OH, docinho! Ontem à noite falei muito seriamente com o Duncan e Niall — explicou Megan. — E a ambos os pareceu correto que se você quiser, venha viver conosco ao Eilean Doam. — Como?! — sussurrou Gillian com um fio de voz. Mas Megan, sem lhe prestar atenção, continuou: — Olhe, Gillian, assim não pode continuar. Não me parece bem que esteja vivendo nessa cabana sozinha, ao frio que faz e exposta a perigos como o da janela. Por isso, Duncan falou muito seriamente com seu irmão, e ele acessou a que você diga se quer continuar vivendo aqui ou em Eilean Doam conosco. Partir do Duntulm? Afastar-se do Niall? Ela não queria nada disso. Queria seguir vendo-o a cada manhã, a cada tarde e a cada noite, e saber que estava bem. Embora certamente a convivência não era a melhor... — E o seguinte passo é tentar uma separação amistosa — continuou Megan, fazendo que Gillian se engasgasse. — Se Niall acessar, poderão definitivamente separar seus destinos, e assim ambos terão a ocasião de começar uma nova vida. Você, com seu filho, e ele, com seu clã. Sem lhe dar tempo a pensar, Kieran, aproximando-se dela disse, deixando-a sem palavras: — Acredito que é uma excelente ideia. E se te parece bem, eu te posso visitar; eu adoro os meninos e possivelmente você e eu... Levantando-se como uma mola, Gillian gritou: — Não... não leve a mal, Kieran, mas não quero retomar minha vida com ninguém, e quanto a ir ao Eilean Doam, acredito que esse é um tema que Niall e eu teremos que falar. E pelo que sei, ele... ele... — OH, docinho, não se preocupe por isso! Ele aceitará o que você queira. Levando as mãos à boca, Gillian sentiu uma tremenda náusea. Só pensar em ir-se daquele precioso lugar a adoecia. Por isso, e sem lhes dar tempo a dizer nada mais, se desculpou e saiu ao exterior em busca de ar fresco. Necessitava-o. No interior do castelo, Megan e Kieran sorriram, e com um descaramento incrível, a primeira sussurrou: — Confirmado. Gillian não quer partir daqui nem morta! Durante todo o dia, Gillian fugiu de seus amigos. Empenhavam-se uma e outra vez em falar de sua partida do Duntulm. Eles faziam planos de festas, danças e tudo aquilo que em sua juventude a encantou. Mas nesse momento não queria nada disso: necessitava tranquilidade, paz, quietude e que a deixassem viver. Só necessitava que lhe permitissem descansar para repor-se e começar a viver. De noite, quando acreditava que lhe ia explodir a cabeça, apareceram Duncan e Niall. Gillian ao ver seu marido saltando do cavalo como levava tempo sem fazer. Aquele pequeno gesto fez que este se emocionasse, mas como se não a tivesse visto continuou falando com seu irmão. — Olá, docinho — disse Megan, correndo a beijar a seu marido. Duncan, com um afetuoso abraço, a levantou e a beijou. Aquilo fez que Gillian olhasse para o outro lado. Ver tão de perto como o amor triunfou não era o que mais gostava. Inconscientemente, olhou Niall, e ao ver que este brincava como uma criança com o Kieran,


desejou estrangula-lo. Por que não a olhava? Com rapidez, as irmãs gêmeas da Gaela puseram mais dois pratos para os recém chegados, e Niall, sentando-se ao lado de Gillian, começou a comer. Com a extremidade do olho, esta percebeu que ele tinha bastante apetite, e estranhou. Levava tempo sem vê-lo comer assim, e em especial, sem incomodá-la para que comesse. — Niall, hoje falamos com a Gillian sobre o que ontem à noite comentamos. "Não... não... nãooooooooooooooo", pensou ela. Por que se empenhavam em seguir com aquilo? — Ah, sim? — assentiu Niall, e olhando-a, perguntou: — Bom, Gillian, e você o que pensa? Entenderei perfeitamente que deseje partir com a Megan e Duncan. E mais, te conhecendo acredito que isso realmente te faria feliz. Deixando o garfo sobre a mesa, Gillian os olhou a todos e, com um falso sorriso, murmurou: — Bom, eu não pensei em partir daqui, mas se você pensa que... Ao ver sua cara de desconcerto, Niall se alegrou, mas fingindo como nunca, afirmou com um maravilhoso sorriso: — Gillian, eu só quero o melhor para ti. E está visto que estar aqui comigo não é o que mais te agrada. Por isso, se você quiser, eu acessarei a que parta. "Ai, Deus! Ai, Deus!" disse-se. Estava a ponto de vomitar sobre a mesa. — Acredito que em sua situação é o mais sensato, Gillian — admitiu Duncan. — E estou seguro de que seu irmão Axel o aprovará e o entenderá. Não se preocupe por nada. Entre todos, solucioná-lo-emos. "Mas é que eu não quero que solucionem nada", pensou ela, que não sabia o que dizer nem o que responder. Só queria sair correndo dali, meter-se em sua pequena cabana e trancar a porta. Mas conhecia-os e sabia que a derrubariam até que ela decidisse ir-se com eles. Com olhos assustados, olhou Niall em busca de ajuda, mas ele continuava comendo como se nada fosse. Megan, percebendo seu estado, quis colocar mais pressão e, levantando-se, disse: — Olhe, docinho, não te martirize. Vem comigo e não se preocupe por nada. Depois de amanhã retornamos ao Eilean Doam, e te asseguro que eu ali te farei a vida muito mais fácil do que a tem aqui. — Mas Niall... Então, o highlander a olhou com expressão despreocupada e disse: — Não pense em mim, mulher. Pensa em ti e no bebê. O nosso casamento não foi mais que um engano desde o começo, e você sabe tão bem como eu. "Um engano? Que o nosso casamento foi um engano?" replicou, horrorizada. — Sinceramente, Gillian — rematou Niall, — acredito que merecemos a oportunidade de poder retomar nossas vidas. Você merece um marido que te faça feliz, e eu uma mulher que resista a meu mau humor. Branca como a cera, Gillian começou a ver pontos negros a seu redor e, levantando-se, murmurou: — Acredito... acredito que estou enjoando. Rapidamente, Duncan puxou o irmão para fora do caminho e empurrou o Kieran para que fosse em seu auxílio. Ele a pegou em seus braços e a levou até uma poltrona. Megan, sem perder tempo, indicou a


Niall que se acalmasse enquanto abria uma janela para que entrasse o ar fresco. Pouco depois, e ao comprovar que Gillian voltava a ter cor no rosto, com um sorriso encantador olhou a seu cunhado para tranquilizá-lo enquanto ele lhes observava carrancudo da mesa. — OH, pobrezinha! Emocionou-se tanto por saber que tudo te parece bem, Niall, que a pobre até enjoa. "Ai, Megan, que não... me estou pondo mal ao pensar que devo me separar do Niall", pensou Gillian. Mas este seguia sentado à mesa comendo enquanto Kieran lhe socorria. — E quando dizem que vamos? — perguntou com um fio de voz. — Amanhã não, que é muito precipitado. Mas à alvorada de depois de amanhã sairemos para o Eilean Doam — emocionada como nunca, Megan a abraçou, e lhe dando um sonoro beijo, disse: — Ai, Gillian! Que alegria me faz que de novo vivamos juntas! Shelma morrerá de inveja. "E eu de pena." O calor se fez insuportável enquanto aqueles continuavam falando sobre sua vida. Incrédula, Gillian os escutou, enquanto observava a seu marido tão tranquilo resolver a questão com seu irmão. Logo, olhou a seus guerreiros, que comiam na mesa do lado, e quase começou a chorar ao ver a expressão carrancuda e preocupada desses homens. "Importo mais aos guerreiros de meu marido que a ele mesmo", refletiu. Mas levantando-se muito pálida olhou a Niall e sussurrou: — Quero... preciso ir descansar. Ele, com todos os músculos de seu corpo duros, conteve a vontade de agarrá-la nos braços, subi-la a sua habitação e lhe contar que tudo era uma mentira. Odiava ver a Gillian naquela situação. Mas depois de cruzar um olhar com sua cunhada, e esta arreganhá-lo em silêncio, ordenou olhando a um de seus homens: — Donald, acompanha a sua senhora à cabana. Precisa descansar. O highlander, levantando-se da mesa após assentir com a cabeça, abriu a porta principal do castelo, e Gillian, balbuciando um boa noite, saiu por ela. Assim que a mulher saiu, Niall ia falar, mas Megan, com um movimento de mão, lhe pediu silencio. Logo, foi até à porta, se assomou e com um sorriso viu como Gillian, parada a poucos passos dela, respirava com dificuldade. — Encontra-se bem, senhora? — perguntou preocupado Donald. Escutou o que seu laird e os outros queriam fazer, e não lhe fazia nenhuma graça. Por que sua senhora devia partir? Mas disposto a não meter-se em algo que não era de sua incumbência, calou-se. Gillian, olhando-o com os olhos secos de tanto chorar, assentiu, e após pestanejar um par de vezes para tirar o véu das emoções que continha, sussurrou: — Donald, estou bem; não se preocupe. Megan viu como aquele enorme highlander acompanhava a sua amiga e, voltando-se para um Niall furioso e a ponto de explodir, disse uma vez que viu sair ao resto dos guerreiros: — Agora pode dizer o que quiser. Como se tivessem soltado um bufo contra eles, Niall começou a grunhir e a queixar-se do que aconteceu ali:


— Por todos os Santos, Megan! Como pode estar fazendo isto a Gillian? Acreditava que a queria — bramou tão pálido e desencaixado como sua mulher. — E a quero. Asseguro-lhe isso. E precisamente por isso lhe estou fazendo isto. Conheço a Gillian e sei que só reage em casos extremos. Mas Niall estava horrorizado. Em só recordar como ela cambaleou enjoada, a cor cinzenta de seu rosto e como seu irmão Duncan o segurou para que não a agarrasse entre seus braços, ficava doente. Kieran decidiu calar-se. Ver a expressão séria do Niall lhe fez pressupor que era melhor não intervir na conversa. Entretanto Megan, disposta a chegar até as últimas consequências, se aproximou dele e sussurrou com carinho enquanto lhe acariciava sua espessa cabeleira: — Não se preocupe. A conheço e reagirá. — E se não o faz? — perguntou, desesperado. — O fará — sentenciou Megan, disposta a que essa história não terminasse assim. Aquela noite nem Niall nem Gillian pregaram olho. Ele, das muralhas, observava a cabana onde estava sua mulher, enquanto ela, no interior, olhava o fogo sumida em confusões.

Capítulo 57

À alvorada, Gillian saiu da cabana e se encontrou de novo sem Niall. Destroçada pela falta de estima daquele, caminhou para o castelo disposta a encher seu estômago, que rugia. Ao entrar no salão, encontrou-o vazio. Não havia ninguém. Todos dormiam ainda. Com delicadeza, sentou-se em um dos bancos e olhou a seu redor. Aquele salão estava precioso, algo que meses atrás, quando chegou, era impensável. Com a vista cansada, percorreu pedra a pedra aquele majestoso lugar, e sorriu ao recordar como foi a sua chegada. — OH, milady! Não sabia que já havia se levantado — a saudou Susan ao vê-la. — Quer que lhe traga algo para comer? — Sim, Susan, tenho uma fome atroz. — Em seguida volto. A mulher partiu com rapidez para as cozinhas e pouco depois apareceu com uma terrina de leite e um prato com bolos de frutas. O aroma do leite avivou seu voraz apetite. Gillian comeu com vontade, não um, nem dois, a não ser até seis fatias de bolo de morango, enquanto observava a Susan recolher o salão. Instantes depois, apareceram Helena, Gaela e Rosemary. — Bom dia, milady — saudaram as mulheres, caminhando para ela. — Bom dia. Helena parou em frente a ela, enquanto retorcia as mãos em um gesto nervoso. — Milady, Aslam me disse ontem que amanhã à alvorada partirá do Duntulm, é certo? Gillian, sem poder articular palavra, apenas assentiu. — Sei que não é normal que eu lhe pergunte isso, milady, mas por quê? Aqui todos lhe queremos muito. Ninguém deseja que parta. Além disso, o que vamos fazer aqui sem sua


companhia e seus conselhos? Com o corpo tremendo, Gillian tentou sorrir. — Helena, Rosemary, Gaela, eu também as quero muito. Mas às vezes as coisas não são como a gente quer e, simplesmente, precisamos aceitar o destino. Os motivos não importa que lhes conte isso. Sabem que meu marido e eu não nos entendemos, e embora seja doloroso partir, é o melhor para todos e em especial para o bebê que... Nesse momento, apareceram Duncan e Megan no salão, e as criadas, ao ver como aquela mulher morena as olhava, inclinaram a cabeça e desapareceram. — Vá... parece que as assustei — sorriu Megan, aproximando-se. — Não estranhe, docinho, as olhaste de uma forma que é para assustar — zombou Duncan. E olhando a Gillian, perguntou-lhe: — Sabe onde está meu irmão? Ela, com um sorriso nos lábios apesar de que seus olhos permaneciam sérios, negou com a cabeça, e agarrando um novo pedaço de bolo de morango, começou a mordiscá-lo. De repente, ouviu-se um ruído de cavalos e, depois de olhar como a porta de entrada se abria, apareceu ante eles uma ofuscada Cris, seguida muito de perto por seu marido Brendan. Megan e Duncan, surpreendidos por aquela entrada, olharam-nos, mas não disseram nada. A moça parecia muito zangada e foi diretamente para a Gillian. — O que é isso que ouvi que parte do Duntulm? — gritou Cris, dando um tapa na mesa. — Docinho... docinho... — sussurrou Brendan, incomodado. — Controle-te. Todos nos estão olhando. A jovem se voltou e disse com rapidez: — Duncan, Megan, encantada de voltar a vê-los. Ele é meu marido, Brendan McDougall — e dito isso, voltando-se de novo para uma pálida Gillian, espetou: — Não posso acreditar nisso. Por que vai daqui? — Pois por que... Nesse momento, apareceu Niall com rosto cansado, e ao entrar e ver a Cris e Brendan, sorriu. — Que agradável surpresa! — Olá, Niall — saudou Brendan, lhe estreitando a mão. Mas Cris nem se moveu nem o saudou. Por isso, Niall se aproximou dela e lhe disse em tom de zomba: — O que te ocorre? A que se deve esse olhar assassino? A moça, com a mais feroz de suas expressões, estirou-se para falar com o Niall e chiou: — Como pode permitir que Gillian parta? Niall, depois de olhar a Gillian, que voltava a estar branca como a cera, disse aproximando-se da Cris enquanto observava a sua cunhada Megan sussurrar algo ao Brendan: — É decisão dela; eu não disse em nenhum momento que parta. Portanto, se quer te zangar com alguém, que seja com ela. Cris se voltou então para sua amiga, que seguia sentada com um pedaço de bolo de fruta entre as mãos. — De verdade parte? — perguntou depois de se aproximar dela. Gillian, vendo a tristeza nos olhos da Cris, e sendo testemunha direta de como Niall sorria a


um Kieran que entrava pela porta, assentiu. — Sim... Sinto muito, mas eu... — Muito bem. Perfeito, Gillian! Que tenha uma boa viagem — vociferou Cris, e dando a volta, saiu do salão com o mesmo brio com o qual entrou. Brendan, ao ver sua mulher partir daquela forma, despediu-se dos presentes e correu atrás dela. Precisava contar o que Megan lhe cochichou. Gillian se levantou e correu para a cabana. Precisava se serenar, ou aquele maldito dia que acabava de começar acabaria com ela. No meio da tarde, todo mundo parecia atarefado no castelo, e Niall desapareceu. Gillian, disposta a não seguir ruminando como uma parva, começou a recolher seus pertences e a coloca-los nos baús. Para isso, andou por toda a casa. Em todas as estadias havia algo dela e não estava disposta a deixá-lo ali. De noite, depois de um jantar que foi o mais tortuoso que Gillian presenciou em sua vida, quando não pôde mais, partiu à cabana. Odiava ver as mulheres de Duntulm olhá-la com tristeza e a seus guerreiros com desespero. Todos pareciam alterados menos Niall, que sorria como um bufão conversando com o Kieran e Duncan. Inclusive Megan estava feliz. Isso a martirizou. Sentada na cabana, pensou mentalmente em seus pertences e recordou que no quarto de seu marido havia coisas dela. Levantando-se, dirigiu-se de novo ao castelo, mas entrou pelas cozinhas com cuidado para não ver ninguém e subiu ao piso superior. Quando chegou ao quarto do Niall, chamou com os nódulos, e ninguém respondeu. Por isso, pensando que estaria vazio, entrou e ficou sem fala quando viu o Niall tomando um banho em frente a quente lareira. — OH, desculpa! Voltarei mais tarde. Surpreso por aquela inesperada visita, Niall se esticou. Que fazia ela ali? Quereria falar com ele? — Entra, Gillian, não se preocupe — disse tentando ser cordial. Com o olhar fixo no chão, murmurou: — Só vim recolher minhas coisas, mas... é melhor voltar depois. Não queria olhá-lo. Sabia que se o olhasse, não poderia afastar seus olhos dele. — Por todos os Santos, Gillian! — protestou ele. — Entra e recolhe o que precise recolher, que não me incomoda. E mais, pensa que não estou aqui. Prometo não incomodar. Incapaz de sair pela porta, Gillian a fechou e, sem olhá-lo, andou para o pequeno armário com os nervos a flor da pele. Com a boca ressecada pela visão dele com o cabelo molhado para trás, tirou um par de vestidos, e os deixou em cima da cama. Logo, agachou-se, abriu um de seus baús e começou a guardá-los. Niall, de sua posição, observava-a em silêncio. Cada movimento dela fazia bater as asas ao coração. Desejava a aquela pequena bruxa como nunca desejou a uma mulher, mas sabia que se tentasse falar com ela ou aproximar-se sairia rapidamente do quarto. Por isso, limitou-se a olhá-la com atenção enquanto uma agonia interior se apoderava a cada instante dele. Incapaz de seguir submerso na banheira, levantou-se e, agarrando um pano ligeiro, secou-se com brio, primeiro os braços, depois as costas, continuou pelo torso e, morto de calor pelo tamanho de seu quente membro, finalmente enrolou o pano nos quadris.


Gillian, sem respiração, ouviu como Niall saía da banheira e, fechando os olhos, engoliu com dificuldade e imaginou como as gotas escorriam por aquele corpo musculoso que tanto gostava. Como pôde, fechou o baú e ficou em pé. Mas ao se voltar encontrou-se com o Niall nu de cintura para cima. — Toma, isto é teu — disse, lhe dando um calhau que havia em cima da lareira. — Sei que lhe tem carinho, pois era de sua mãe. Alargando a mão, Gillian o agarrou enquanto olhava a cicatriz que lhe causou tempo atrás com a adaga no braço. — Obrigada — murmurou. Niall, consciente do lugar onde ela olhava, retirou com um sorriso o cabelo da cara, e comentou: — Sempre que veja esta cicatriz, recordarei que foi você que me fez isso. Incapaz de não sorrir, ela assentiu. — Sim... e de verdade não sabe quanto o sinto. — OH, não se preocupe! É um sinal de batalha como tantas outras que tenho. Embora deva reconhecer que sempre que a veja pensarei em ti. Gillian não podia responder, só podia olhar e admirar aquele homem que ante ela se abatia com todo seu poder varonil, e recordar os momentos vividos com ele. — Niall, sinto muito tudo o que aconteceu. Eu... Ao sentir que as forças fraquejavam, o highlander deu a volta com rapidez para afastar-se dela, e passando uma regata cor bege pela cabeça, começou a vestir-se. — Não é necessário que te desculpe, Gillian. Se alguém tiver aqui que se desculpar sou eu, embora já não faz sentido — ao ver que ela o olhava, prosseguiu: — Preciso te agradecer as mudanças que meu lar teve graças a ti. Este quarto, por exemplo — assinalou para uma lateral. — Essa tapeçaria, os cortinados, as mesinhas, tudo o que há aqui é graças a seu trabalho. E mesmo que só seja por isso e por ter convertido Duntulm em um lar preciso te agradecer, antes que amanhã parta para começar uma nova vida que te faça feliz. "Feliz, eu? Serei uma desgraçada o resto de meus dias", pensou. — Você também começará uma nova vida. — Sim, Gillian, o tentarei — assentiu, desejoso de gritar que, sem ela, sua vida e o castelo não teriam sentido. Olhando as mãos, Gillian, com dor, tirou o anel que lhe deu e, estendendo-o disse: — Devolvo-te seu anel. Possivelmente o necessite em breve. Ver como lhe devolvia aquele presente que comprou com desespero o incomodou, e olhando-a com temeridade, murmurou: — Não, Gillian. Esse anel o comprei para ti. É teu. Ninguém que não seja você o usará. Por favor, considera-o um presente, ou uma lembrança pelo tempo que durou nossa união. Depois de coloca-lo e sem que pudesse aguardar um segundo mais, Gillian tentou passar junto a ele para sair dali, mas ele a segurou pelo braço para freá-la. — Promete que será feliz, Gata — lhe sussurrou ao ouvido. Com um soluço na garganta, ela elevou os olhos e assentiu. — Prometo-lhe isso. Durante uns instantes, ambos se olharam e se falaram sem palavras, até que Niall a soltou, e


ela com rapidez saiu do quarto. Como se o ar lhe faltasse nos pulmões, a jovem correu pela escada e subiu às muralhas. Precisava respirar. Necessitava que o ar batesse no rosto. Em definitivo, necessitava do Niall. Sem que pudesse evitá-lo, as lágrimas correram por suas faces como rios descontrolados e, ocultando-se em uma lateral das muralhas, chorou em silêncio, até que sentiu que uns braços fortes a abraçavam. Arrepiou-se ao escutar a voz do Niall, que afundando a boca em seu pescoço, confessou-lhe: — Vou ter muitas saudades, docinho. E então a beijou. Devorou lhe os lábios como unicamente ele e sua paixão sabiam, e Gillian se sentiu desfalecer. Instantes depois, depois de um esmigalhado e último beijo, Niall partiu deixando-a só nas muralhas, enquanto as lágrimas lhe corriam descontroladamente pelas faces e em sua boca ainda sentia seu sabor.

Capítulo 58

Ao amanhecer, os guerreiros do Duncan, junto a várias carretas com os baús da Gillian, esperavam a ordem de seu senhor para empreender a viagem de volta a casa. Em uma lateral, um carrancudo e sério Niall falava com o Duncan e Kieran, enquanto Megan se despedia com um sorriso encantador da Helena. Com tristeza, mas com um fingido sorriso, Gillian se despediu um por um de todos os habitantes do Duntulm. Susan lhe beijou as mãos e, com lágrimas nos olhos, recordou-lhe que sem ela o castelo nunca seria um lar. Gaela e suas irmãs, com os rostos avermelhados, despediram-se também dela, lhe desejando boa viagem, já que não puderam dizer nada mais. Rosemary, angustiada e com um estranho sabor na boca, beijou-a e pôs-se a chorar. — Vamos... vamos, Rosemary, o importante é que nos conhecemos. Fica com isso, e por favor — murmurou Gillian, comovida e olhando ao Donald, — espero que alguma vez me visitem, viva onde viva. — É óbvio, milady. Dê-o por feito — respondeu o highlander, mais rígido que um alho. — Milady, vou ter saudades e muito. — E eu a vós — murmurou quase sufocada. — Todos são fantásticos. Depois, agachou-se para beijar ao Colin e à pequena Demelza, que choramingava nas saias de uma nostálgica Helena. A menina não quis despedir-se dela. — Me prometeu que passaríamos um bonito Natal — murmurou reprovando-a. Ao recordar aquilo, Gillian sorriu. — E passará, Demelza. Que eu não esteja aqui não significa que não o passes, preciosa. Mas a menina, zangada por isso, deu a volta e partiu correndo. — Milady, não o tenha em conta — se desculpou sua mãe. — Ela lhe quer muito e... — Não se preocupe. Faço-me cargo de sua decepção. — Minha senhora, queríamos lhe agradecer por tantas coisas... — acrescentou um emocionado Aslam, que não pôde continuar, pois sua voz se quebrou.


Helena, com carinho, ao ver que seu marido se sufocava, continuou falando: — Meu marido e eu queremos agradecer pelo bem que nos fez. Primeiro por nos recolher a meus filhos e a mim, e nos dar um lar, e logo por quão boa fostes sempre com todos nós. — Helena, Aslam — disse Gillian, que os agarrou pelas mãos, — eu é que devo agradecer a vós por me ter ajudado tanto durante todo o tempo que estive aqui. A ti, Helena, porque foste uma boa e excepcional amiga e conselheira, e a ti Aslam, porque sempre pude contar contigo para tudo. — E poderá seguir contando. Sempre sera minha senhora. — E a minha — interveio Liam. — E a minha — assentiu Donald. Um após o outro, todos os highlanders do Niall, esses barbudos que ao princípio riam dela, chamando-a "bonita ou loura" lhe prometeram fidelidade eterna, e isso a sufocou. Aquele momento deixou sem palavras ao Niall, que junto a seu irmão e Megan observavam a cena. Todos rodeavam a Gillian, e a faziam sua senhora para sempre e incondicionalmente. Esta, emocionada, sorriu-lhes com os olhos alagados em lágrimas, mas conseguiu retê-las. Não queria que a última imagem que recordassem dela fosse chorando como uma tola rapariga. Ewen, depois de uma ordem do Niall, chegou até ela, e tirando-a do cerco que seus homens fizeram ao redor de sua senhora, murmurou: — Milady, me uno ao que os guerreiros dizem. Sempre será minha senhora e espero que quando a for visitar goste de seguir praticando comigo o arco e flecha. — É óbvio, Ewen — e lhe dando um abraço, cochichou: — Obrigada por seus sábios conselhos e por ser meu amigo sempre. Ao sentir que o corpo dela se contraía, o homem sorriu. — Recorde, milady, os guerreiros nunca choram — lhe disse. Depois de inspirar, ela sorriu, embora quase desmoronou ao ver o Donald e muitos outros highlanders de quase dois metros contendo as lágrimas por sua partida. Sem parar para pensar, olhou para a Cris e Brendan, que foram se despedir dela. E embora sua amiga parecia de melhor humor que no dia anterior, a angústia de seus olhos deixava ver a tristeza por aquela partida. — Te cuide, promete-me isso? — sorriu Gillian. — Pois claro — respondeu Cris. — Cuide-se você também. Gillian a abraçou, e quando as lágrimas começaram a rolar pelas faces, as limpou com rapidez. — Estarei um tempo no Eilean Doam, mas acredito que logo retornarei ao Dunstaffnage com minha família. — Se cada vez for mais longe, vai ser muito difícil te visitar — suspirou Cris, que lhe pegou as mãos. — É a única amiga que tive. A única a quem não lhe horrorizou que eu usasse a espada e a única que me defendeu e ajudou. O que vou fazer agora sem ti? — Viver, Cris — respondeu, emocionada. — E nunca esqueça que sempre serei tua amiga. Encolhendo os ombros, Cris soprou. — Já sei, mas dizem que a distância às vezes é o esquecimento. — Não para mim. Prometo-lhe isso, Cris — murmurou, olhando ao Niall. — Não para mim. Depois de um cândido abraço, Gillian olhou ao Brendan.


— Bom, McDougall do Skye, foi todo um prazer te conhecer. Só espero que cuide de minha grande amiga e seu filho, e que alguma vez me visitem. Ele gargalhou e isso atraiu o olhar do Niall, que os observou à distância. — O prazer foi meu, McDougall do Dunstaffnage, e tenha certeza que a visitaremos, espero que você também, com teu precioso bebê, visite-nos . Decomposta, Gillian assentiu, e então Brendan e Cris a abraçaram ao mesmo tempo. E sem poder conter por mais tempo o pranto, explodiu. — Oh... não chore, Gillian — murmurou Brendan. — Por favor... por favor, não me soltem até que deixe de chorar como uma tola rapariga em apuros. Não quero que ninguém me veja assim. Que horror! — É óbvio, Gillian. Ninguém te verá chorar — assegurou Cris. Comovido por aquilo, Brendan levantou os braços para cobrir o rosto a Gillian, e esta, com rapidez, tirou um lenço da manga para secar as lágrimas. Quando esteve reposta, deu uns toques no peito do Brendan, e este a soltou. — Obrigada, Brendan — sorriu Gillian com o nariz vermelho como um tomate. — Graças a ti por tudo, Gillian. Sem ti nada do que ocorreu teria sido possível. Você conseguiu que chegasse a paz entre nossos clãs e que nós pudéssemos cumprir nosso sonho. — Inclusive conseguiu que meu pai percebesse como eram Diane e sua querida mãe, e desde que essa parva não está e Mery já não é a bruxa que foi, Dunvengan tornou a ser meu lar. Gillian, olhando ao céu, suspirou e sorriu. — Hoje todos querem me fazer chorar, ou o que? Megan se aproximou e pegou a Gillian pelas mãos. — Devemos ir já. Os homens se impacientam — lhe indicou. Com um comovedor sorriso, Gillian se afastou e se dirigiu para Hada. Ao chegar à égua, esperava-a Niall. "Ai, Deus! Me dê forças, por favor. Necessito-as", pensou ela. — Bom — sussurrou, tremente, — chegou o momento de retornar a casa. — Assim é, Gillian — assentiu ele. Depois de se olharem durante uns instantes nos olhos, como a noite anterior nas muralhas, Niall lhe pôs as mãos na cintura e içando-a sem nenhum esforço, pô-la sobre o cavalo. Aquele gesto a decepcionou. Esperava um abraço, um beijo, uma despedida mais cândida, mas não aquilo. Por isso, tentou não voltar a choramingar como uma idiota e tratou de sorrir. — Não sei o que te dizer nestes momentos, Niall. — Não é necessário que diga algo — e pegando sua mão, a beijou. — Adeus, Gillian. Te cuide. Então, o laird se voltou e partiu, deixando-a totalmente desamparada. Quis desmontar do cavalo e correr atrás dele, mas não, não o faria. Com aquela despedida Niall deixou muito claro que ela sobrava em sua vida. Duncan viu o gesto de seu irmão e, angustiado pela tristeza que sabia que sofria, olhou ao Kieran, e ambos deram a ordem de partir. As carroças iniciaram a marcha, e Megan, pegando a mão de sua amiga, para lhe dar ânimos insistiu: — Vamos, Gillian. Com uma tristeza infinita, Gillian observou como Niall desaparecia por trás da porta do


castelo, e levantando o queixo, olhou a todos os que a aclamavam e, com o melhor de seus sorrisos, disse-lhes adeus. Uma vez que iniciou a marcha não quis olhar para trás. Sabia que, se o fizesse, o coração lhe partiria. Mas quando chegou ao ponto exato em que sabia que perderia de vista Duntulm para sempre, deu a volta ao cavalo e, com o coração destroçado, sussurrou: — Adeus, amor.

Capítulo 59

Durante a primeira parte do trajeto, Kieran tentou fazer sorrir a uma turvada Gillian. Mas nada do que aquele simpático highlander dizia lhe recompunha o desgosto que seu corpo sentia. Quando pararam a comer, Gillian mal comeu. Não tinha fome. E quando reataram a marcha, preferiu ir descansando na carroça que lhe prepararam. Quando Duncan viu que ela fechava as cortinas da carroça, olhou a sua mulher e perguntou: — Megan, está segura de que Gillian reagirá? — O fará, Duncan, não se preocupe — observou Megan. Mas quando chegou o entardecer sua segurança começou a rachar. Cada vez estavam mais longe do Duntulm, e não parecia que Gillian reagiria. Tombada no interior da carroça, Gillian olhou sua mão. Em seu dedo ainda continuava o anel que Niall lhe ofereceu e, olhando aquela pedra marrom, soluçou ao recordar seus olhos. "OH, Deus! Me ajude. Estou fazendo o correto?" Depois de chorar durante um bom momento, finalmente murmurou: — Basta já... não quero chorar. Arreganhando-se por tanta suscetibilidade, suspirou e assuou o nariz. Mas o lenço que levava estava tão ensopado que decidiu agarrar outro seco. Ao abrir a pequena mochila viu uma pequena bolsa de veludo negro. Surpreendida, abriu-a, e dela saiu o anel de seu pai e uma pequena nota: O anel de nossas bodas sempre foi teu porque o comprei pensando em ti. Mas o anel de seu pai só merece levá-lo seu marido. Por isso, o devolvo, para que possa entrega-lo à pessoa que acredite que merece teu amor. Niall McRae Com mãos trementes, leu uma e outra vez a nota enquanto sustentava a preciosa aliança de casamento de seu pai. Aquele anel era do Niall. Sempre o guardou para ele e, de repente, como se o Deus e toda a Escócia lhe tivessem clareado as ideias, gritou: — Maldito seja, McRae! Sem tempo a perder, Gillian abriu o tecido da carroça e assobiou. A égua apareceu rapidamente. Com segurança se agarrou às crinas do animal e montou, mas antes que pudesse cravar os calcanhares e sair a galope, Megan a segurou. — Pode se saber o que está fazendo? — perguntou. Gillian, esboçando um sorriso como levava tempo sem fazer, olhou-a.


— Megan, não te zangue comigo. Eu te quero muito e viveria contigo encantada no Eilean Doam ou onde fosse, mas amo ao Niall e quero viver com ele. Adoro a esse highlander cabeçudo que adora me fazer zangar e me desafiar. Mas não posso viver sem ele, e por isso quero retornar a meu lar. Disposta a brigar com a Megan se fosse preciso, Gillian a olhou e ficou estupefata quando ela sorriu. — Já era hora, Gillian. Levo esperando este momento desde que partimos. — Como!? Mas Megan não lhe respondeu e, depois de lhe dar um abraço, deu um assobio e Duncan e Kieran cavalgaram para elas. — Mudança de planos. Retornamos ao Duntulm — anunciou Megan. Kieran e Duncan olharam a uma radiante Gillian, que se desculpou: — Sinto muito, mas não posso viver sem ele. Duncan sorriu e Kieran, olhando-a com zomba, acrescentou: — Preciosa, sabe que tornaste a me romper o coração? Erguendo-se no cavalo, Gillian lhe deu um beijo na face e, com um espetacular sorriso, confessou-lhe: — Sinto muito, Kieran, mas o coração que me interessa arrumar está no Duntulm e por todos os deuses que vou recuperar. Depois que Duncan deu a ordem, os homens pararam e, dando a volta às carroças, começaram a viagem de volta. Mas Gillian estava ansiosa e, depois de cravar os calcanhares em Hada, começou a cavalgar como alma perseguida pelo diabo. Duncan tentou freá-la, pois não era bom para uma grávida galopar assim, mas nada no mundo podia frear a ansiedade da Gillian por chegar a seu destino. Quase havia anoitecido quando ao descer uma colina, Gillian se fixou que ao longe um grupo de guerreiros cavalgava para eles, o coração disparou ao reconhecer o primeiro deles: Niall! Com as faces avermelhadas, o cabelo revolto pelo vento, Gillian chegou até eles e, antes que pudesse falar, seu marido, com um olhar penetrante, pôs seu cavalo a seu lado pegando-a pela nuca a enredou com um maravilhoso beijo. Todos os highlanders gritaram. Quando por fim se separou dela, murmurou: — Não, o nosso casamento nunca foi um engano. Nunca! Com o coração pulsando a mil, a jovem negou: — Não... não foi. — Gillian, me escute... — Não, McRae. Me escute você — chiou, reagindo para desmontar do cavalo. — Hum... eu adoro quando me chama McRae — zombou Niall ante o olhar divertido de seu irmão Duncan. — Como te ocorre dizer que entregue o anel de meu pai a outro que não seja você? Por acaso ontem lhe pedi isso? — Não. Tirando o anel de sua pequena mochila o estendeu. — Ponha-o agora mesmo. — Não.


— Não!? Por que não? — Porque primeiro quero esclarecer certas coisas contigo. — Por todos os Santos, McRae! Ainda não te deste conta de que você é o único a quem eu quis, quero e quererei entregar meu amor e minha vida? — ao ver que ele não respondia, Gillian, sem que importasse todas as testemunhas que a ouviam, continuou: — E quanto a meu filho... — Nosso filho, docinho... nosso filho — corrigiu ele. Aquelas simples palavras a emocionaram e não pôde continuar. Niall se aproximou dela e lhe retirou uma mecha de cabelo colocando-o atrás da orelha. — É minha vida, meu amor, minha luz... o maior tesouro que tenho e jamais terei. Fui um idiota, um egocêntrico e a ponto de te perder a ti e a nosso filho por meu comportamento. Eu me comportei mal com você quando trouxeste a meu clã alegria, união, força e prosperidade. E embora esta manhã deixei que partisse, e te enganei com uma mentira piedosa, já ia te buscar, docinho — ela sorriu, e ele prosseguiu: — Porque sem ti, sem seus enfrentamentos, seus sorrisos, suas provocações, seu amor não quero viver, Gata. E só espero te fazer feliz o resto de sua vida para te recompensar o dano que te fiz, quando você só merecia ser amada, querida e respeitada. — Eu gosto de saber que me quer, Niall. — E muito, docinho — acrescentou ele. — OH, Deus! Eu adoro quando me chama docinho — sorriu ela. Divertido pela careta que ela fez, sussurrou com amor: — Pois a chamarei tanto assim que cansará de ouvi-lo, porque te quero, docinho! Os highlanders que os rodeavam os olhavam com um meio sorriso na boca. Kieran deu uma cotovelada em Megan. — Por todos os Santos, Megan! — cochichou o homem. — É necessário que se digam tantas palavras doces e enjoativas? Mas em vez de responder ela, Duncan adiantou: — Kieran! O dia em que toque a ti será ainda pior, amigo. — Duvido-o — zombou ele. — Eu não sou homem de palavras açucaradas. Megan riu e olhando-o, acrescentou: — Ai, Kieran! O dia em que você se apaixone, acabará com o mel de toda Escócia. Enquanto todos riam, Duncan viu chegar as carroças. E, sem parar, ordenou a seus homens para continuarem para o Duntulm com os baús de sua cunhada. Com um sorriso incrível, Gillian, alheia a tudo o que ocorria a seu redor, só tinha olhos para seu bonito marido e, depois de lhe dar um beijo que teve sabor de amor puro e verdadeiro, sussurrou-lhe: — Porá agora o anel para que todo mundo saiba que é meu? — É óbvio, Gata, mas até sem anel já o sou — repôs, metendo-o. — Inclusive quando estiver gorda pelo bebê? — É óbvio. Imaginá-la com barriga e poder tocá-la pelas noites e abraça-la era algo que o voltava louco. — Mesmo que meu cabelo não seja tão comprido e bonito como quando me conheceu? — Seu cabelo é tão precioso como você, docinho, use-o como o usar.


Depois daquelas palavras, Gillian se atirou aos braços de um Niall que a agarrou com amor, enquanto seus guerreiros aplaudiam com satisfação porque a senhora retornara a seu lar.

Epílogo

Dois anos depois... — Não, Gillian, já disse que não. — Mas, Niall... Voltando-se para ela no meio da escada do castelo, murmurou: — Como devo te dizer que não quero que lute com duas espadas ao mesmo tempo? Não te vale praticar só com uma? — Mas é que com uma já o domino, e com duas ainda há estocadas que eu gostaria de aprender. — Por todos os Santos, mulher! Não percebe que me preocupo com sua segurança? Adiantando-o na escada, ela começou a subir. — Se se preocupasse por minha segurança, deixar-me-ia aprender a me defender. "Aprender a te defender? Mas se é mais feroz na luta que muitos de meus highlanders", pensou Niall, incrédulo. — Já disse que não, e não se fala mais. — OH, McRae, cada vez é mais resmungão! — E você cada vez é mais caprichosa — replicou ele. — Consinto-te muitas coisas. Isso a fez rir, embora a ele não. Verdadeiramente Niall tinha razão. Desde sua volta ao Duntulm, não parou de fazê-la feliz todos e cada um dos dias, embora suas discussões eram habituais. Divertida como ele tocava o cabelo, murmurou para irritá-lo: — Prefiro ser caprichosa a resmungona. Justo quando ia responder, apareceu Rosemary com a pequena Elizabeth nos braços. Levava para dormir, mas a menina, ao vê-los gritou emocionada, reclamando sua atenção. — OH, aqui está minha pequenina! — sussurrou Gillian, agarrando-a. Elizabeth, encantada de ter conseguido seu propósito, sorriu. A menina era uma mescla do Niall e Gillian, com um forte caráter para ser um bebê. Era loira como Gillian, mas com os lábios sensuais e os olhos marrons e doces de amêndoa de seu orgulhoso pai. — Diga olá a papai. Olá, papaiiiiiiiiiiiiii! — saudou Gillian, movendo a mão da menina, que ao ver seu pai se desfez em gritos e gorgolejo. Se algo deixava louca a Elizabeth era seu papai. — Vêm aqui, minha guerreira — disse Niall, agarrando-a com amor, e depois de lhe dar quatro saltos e esta gargalhar até lhes encher o coração de felicidade, indicou a Rosemary que a levasse a dormir. Uma vez que ficaram sozinhos no patamar da escada, Gillian pestanejou, e Niall, ao recordar sua discussão, começou a andar acalorado. — Não... já disse que não. Falarei com o Brendan, e lhe direi que proíba também a Cris.


Qualquer dia ainda lhes acontece algo em seus treinos, e depois não servirá lamentar-se. Quando chegou a seu quarto, Niall abriu a porta e entrou, e ao voltar-se para dizer algo a sua mulher, ficou boquiaberto ao ver que ela desaparecera. Com rapidez saiu ao corredor e blasfemou ao ver que não estava. — Maldita seja, Gillian! Onde está? — bramou. Seu sorriso cristalino lhe fez saber imediatamente onde estava, e Niall, subindo os degraus de dois em dois, chegou até as muralhas e ali a encontrou. — Vêm, McRae. Com um perverso sorriso nos lábios, Niall disse enquanto olhava com descaramento o suave decote de sua esposa: — Não vais convencer-me mesmo que utilize todas suas armas de mulher. Ela, sinuosa, apoiou-se em uma parede, e após puxá-lo para que a esmagasse, sussurrou-lhe ao ouvido: — Não quero te convencer, docinho; só quero desfrutar de ti. Depois de beijá-lo com paixão desatou os cordões do sutiã e, com um descaramento imenso, sussurrou-lhe: — Ai, Niall! Necessito que me coce aqui. Seguindo o jogo, colocou a mão dentro do sutiã. "Deixa-me louca, McRae", pensou excitada enquanto sentia como lhe tocava os mamilos como gostava. — OH, Deus, eu adoro que me toque! — murmurou, mordendo o lábio. — Nem lhe conto do que eu gosto, docinho. Apertando-se contra ele, estremeceu e passou a língua pelo seu pescoço. — Não pares, por favor. Isso a fez sorrir. Conhecia-a muito bem, e sabia como podia chegar a ser passional no ato do amor a sua preciosa mulher, mas também sabia que ela não pararia até conseguir seu propósito. — De acordo, domadora, desfrutemos. Como era de se esperar, Gillian, com rapidez, tomou a boca de seu marido e lhe devorando os lábios se entregou a ele com paixão, essa paixão desmedida que tornava louco o Niall e que conseguia lhe fazer esquecer o resto do mundo. Uma vez que acabou seu momento passional, Gillian, com um pícaro sorriso, que ao Niall derreteu o coração, olhou-o, e ele, feliz enquanto a agarrava entre seus fortes braços para levá-la a seu quarto, murmurou: — De acordo... Gillian. Mas só se me prometer que tanto você como Cris utilizarão espadas cegas. — Mas, Niall... Não disposto a dar o braço a torcer ante algo tão perigoso, beijou-a e, seguro do que dizia, esclareceu: — Sinto muito, docinho, mas não vou transigir. Gillian nos braços de seu marido pestanejou e, ditosa, acrescentou: — De acordo, McRae, falemos. Fim


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