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A Princesinha Frances Hoodgson Burnett

FRANCES HODGSON BURNETT

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A Princesinha

Título original: A little princess © Frances Hodgson Burnett © Editora Fanor Devry Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19-02-98. É proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização prévia, por escrito, da editora.

Capa | Projeto Gráfico | Editoração: Camila M. Nobre Ilustrações | Montagens: Camila M. Nobre Orientação | Revisão: Aurileide Alves

Burnett, Frances Hodgson A Princesinha. - Fortaleza: Editora Fanor Devry, 2013 Título original: A little princess ISBN: 8573260165 Trabalho apresentado na disciplina de Projeto Experimental do curso de bacharel em Design da Fanor/Devry em Junho de 2013. 1. Infanto - Juvenis - Literatura juvenil 2. Burnett, Frances Hodgson, 1905- I. Título.

04-4167

CDD-659.1092

Editora Fanor Devry Av. Santos Dumont, 7800 (Dunas) Fortaleza - CE Tel. (85) 3052.4848 - CEP 60191-156

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Sara

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um desses tristes dias de inverno, em que o nevoeiro, amarelado e espesso, invade a tal ponto as ruas de Londres, que é preciso conservar acesos os focos elétricos e as lâmpadas dos estabelecimentos como durante a noite, uma carruagem avançava lentamente através das espaçosas ruas da grande cidade, transportando uma pequenina, muito aconchegada ao pai. Sentada à turca, com os pés sob o corpo, os seus olhos, profundos e sonhadores, iam contemplando quem passava. Causava impressão aquele olhar numa criança, como elaera ainda, visto que Sara Crewe tinha apenas sete anos. Mas, apesar de tão pouca idade, a vivacidade do seu pensamento era invulgar; sonhava, imaginava coisas extraordinárias, e a sua cabecinha estava cheia de interrogações que fazia a si própria, acerca das pessoas crescidas e do vasto mundo que era seu domínio. No momento em que começa a presente história, recordava ela a viagem que acabava de fazer, desde Bombaim até Londres, com o pai, o capitão Crewe. Revia o grande navio, os hindus que iam e vinham silenciosamente, as crianças que brincavam na ponte e algumas senhoras, ainda novas, mulheres de oficiais, que haviam procurado fazê-la falar e que se tinham divertido muito com as suas respostas inesperadas.

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Mas, o que lhe parecia ainda bem mais extraordinário, era pensar que, depois de ter vivido sob o sol escaldante das Índias e, em seguida, num grande navio, em pleno oceano, se encontrava, agora, naquela carruagem desconhecida, que a levava através de ruas onde o dia era tão escuro como a noite. Isto parecia-lhe um prodígio e, instintivamente, chegava-se ainda mais ao pai. - Papá - disse ela, com a sua vozita misteriosa. Papá! - Que é, filhinha? - respondeu o capitão Crewe, olhando carinhosamente para a pequenina, ao mesmo tempo que a aconchegava mais a si. - Em que pensa a minha Sarinha? - É aqui o “lugar”? Já chegamos - murmurou Sara, aproximando-se cada vez mais dele. - Já, minha filha. Chegamos finalmente. Pequenina como era, Sara sentiu perfeitamente toda a tristeza que palpitava na voz do pai. Parecia-lhe que havia já muitos, muitos anos, que ele começara a falar-lhe no “lugar” ,como ela dizia sempre. Não conhecera a mãe, que morrera quando ela tinha nascido, de forma que nunca sentira a sua falta. O pai, só por si, parecia-lhe ser toda a sua família - aquele papá tão novo, tão belo, que a animava quanto podia. Gostavam muito um do outro e brincavam constantemente os dois. Sara sabia que era rico, porque algumas pessoas, julgando que ela não compreendia, tinham-no dito na sua presença, acrescentando que, quando fosse crescida, seria, também, rica. Vivera sempre num magnífico bangalô, onde numerosos criados a saudavam respeitosamente, chamando-lhe “senhora” e deixando-lhe fazer tudo o


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que ela queria. Tivera todos os brinquedos possíveis, animais de toda a espécie, uma aia que a adorava, e compreendera, pouco a pouco, que ser rica era possuir tudo aquilo. A palavra riqueza não evocava nada mais para ela. Durante a sua curta existência apenas uma ligeira nuvem toldara o seu belo céu; era a idéia do “lugar” para onde o pai a levaria um dia. O clima da Índia é mau para as crianças e, em geral, mandamnas, o mais cedo possível, para a Inglaterra, quase sempre para um colégio. Sara tinha visto partir outras crianças e ouvira falar nas cartas que elas escreviam aos pais, lá de muito longe. Sabia que também havia de partir um dia e, embora algumas vezes se sentisse entusiasmada com as descrções que o pai costumava fazer-lhe da longa viagem no vapor e do país para onde a levaria, o seu coração sofria com a idéia de que tinha de separar-se dele. - E o papá não pode vir para o colégio comigo? perguntara, quando tinha cinco anos. - Eu ajudava-o a estudar as suas lições. - Mas tu não vais ficar muito tempo separada de mim, Sarinha - respondia ele sempre. - Irás para uma casa muito bonita, onde encontrarás outras meninas e brincarás com elas. Mandar-te-ei livros bonitos e tu crescerás tão depressa, que te parecerá que passou apenas um ano quando te vires tão crescida e tão sábia, que já possas voltar, para tomar conta do teu papá: Casa do campo. Ama. Esta idéia agradava-lhe imenso. Governar a casa do pai, montar a cavalo com ele, presidir à mesa quando desses grandes jantares, conversarem os dois, ler os seus livros, era, para ela, a vida que sonhava. E

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se, para o merecer, fosse preciso ir-se embora, para esse “lugar”, lá longe, na Inglaterra, muito bem: partiria. A promessa de encontrar outras meninas deixava-a indiferente. Os livros consolá-la-iam bem mais que as tais meninas. Preferia os livros a tudo o mais e passava o tempo a inventar belas histórias que contava a si própria. Às vezes, contava-as também ao pai, que as achava muito bonitas. - Então papá, disse com doçura, se já chegamos, temos de nos resignar. Esta frase, tão estranha na boca de uma criança, fez rir o capitão Crewe, que beijou a filha. No fundo, embora procurasse cuidadosamente dissimular o seu desgosto, o capitão não se conformava com a separação. A sua Sarinha, tão original, tinha sido para ele uma verdadeira companheira e sentia, de antemão, a sensação de isolamento que experimentaria quando, de regresso à Índia, entrasse em casa e não encontrasse a sua figurinha gentil, vestida de branco, para o receber, como dantes. Ao pensar isto, apertou-a mais e mais contra si, enquanto a carruagem chegava à praça silenciosa, onde se erguia o edifício que marcava o fim da viagem. Era uma grande casa cinzenta, exatamente semelhante a todas as outras casas construídas do mesmo lado, tendo apenas, como nota particular, sobre a porta de entrada, uma reluzente placa de cobre, onde, em letras pretas, estava gravada a seguinte inscrição:


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- Eis-nos chegados, Sara - disse o capitão, o mais alegremente que pôde. Ajudou-a a descer do carro; em seguida, subiram os degraus de pedra e ele tocou a campainha. Muitas vezes, durante os tempos que se seguiram, Sara devia ter dito, de si para si, que a casa era parecida com a sua proprietária. Tinha um ar respeitável e estava convenientemente arranjada, mas a habitação era feia e o mobiliário de um aspecto agressivo; as próprias poltronas pareciam estofadas com pedras. No vestíbulo tudo era austero, tudo parecia frio à força de reluzir, mesmo as faces rubicundas da lua- cheia , que servia de mostrador ao grande relógio. O salão, onde introduziram o capitão e a filha, tinha um tapete com desenho geométrico e severo; as cadeiras eram todas em ângulos, e um maciço relógio de mármore esmagava com o seu peso o tampo do fogão, que era de mármore também. Sentada numa cadeira de acaju, de costas rígidas, Sara observava, com olhar penetrante, tudo que a cercava. - Nada disto me agrada muito, papá - suspirou ela. - Mas estou convencida de que os soldados, mesmo os mais valentes, não gostam de ir para a guerra... O capitão Crewe pôs-se a rir. Era novo, alegre, e nunca se cansava das reflexões espontâneas da filha. - Minha querida Sara - disse ele. - Que vai ser de mim, quando não tiver mais ninguém para me falar com tanto juízo? Porque ninguém é tão ajuizado como tu. - Mas porque é que as coisas ajuizadas que eu digo o fazem rir? - perguntou Sara.

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-Porque tu és muito engraçada quando as dizes respondeu ele, continuando a rir. E, de repente, pegou-lhe ao colo e beijou-a muito, ao mesmo tempo que deixava de rir e os seus olhos brilhavam como se estivessem cheios de lágrimas. Nesse mesmo instante, Miss Minchin entrou. E logo Sara achou que ela era parecida com a casa: grande, fria, respeitável e feia. Tinha uns grandes olhos, tão expressivos como os de uma carpa e, nos lábios um sorriso de comando. Este sorriso acentuou-se mais quando Miss Minchin viu o capitão e Sara. A senhora que a tinha posto em comunicação com o capitão Crewe contara-lhe várias coisas interessantes acerca dele e, entre elas, que era muito rico e estava disposto a gastar imenso dinheiro com a filha. - É uma honra para mim ser encarregada da educação de uma tão linda criança, que logo se vê ser muito inteligente - disse ela, pegando na mão de Sara e acariciando-a entre as suas. - Lady Meredith falou-me da sua notável precocidade. Uma criança inteligente é um verdadeiro tesouro numa casa como a minha. Sara ficou imóvel, com os olhos fixos em Miss Minchin. Como sempre, atravessavam-lhe o cérebro mil pensamentos diferentes. “Porque diz ela que eu sou bonita? - pensava a pequenina. - Eu não sou bonita. A neta do coronel Grange, a Isabel, é que é bonita: tem as faces cor-derosa, com duas covinhas, e cabelos loiros, compridos. Eu tenho cabelos pretos, curtos, olhos verdes, e, para mais, sou magra e a minha pele não é branca. Sou uma das crianças mais feias que tenho visto. Miss Minchin começa por mentir.”


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Sara enganava-se, quando imaginava ser feia. Não se parecia, certamente, com Isabel Grange, mas tinha um encanto estranho muito pessoal. Delgadinha e leve, alta para a sua idade, possuía uma fisionomia profundamente expressiva e cheia de vivacidade. Os seus cabelos eram negros, espessos e encaracolados nas pontas; os olhos, de um cinzento-esverdeado, eram admiráveis, com longas pestanas negras, cuja cor desagradava talvez a Sara, mas que muita gente apreciava. Apesar de tudo isto, estava convencidíssima da sua fealdade, e os elogios de Miss Minchin não produziram o efeito desejado... Se eu dissesse que ela é bonita, mentiria, e eu teria a certeza disso - pensava a pequenina. - Creio mesmo que sou tão feia no meu gênero como ela o é no seu. Porque mentiu?” Sara devia ter, mais tarde, a resposta a esta interrogação, ao descobrir que Miss Minchin repetia exatamente a mesma frase a todos os pais que lhe confiavam as filhas. De pé, ao lado do pai, Sara ouvia-o conversar com Miss Minchin. As duas filhas de Lady Meredith haviam sido educadas naquele colégio, e o capitão Crewe decidira-se em virtude das boas informações recebidas. Internaria ali a filha, mas em condições especiais: queria que tivesse um quarto, e uma sala só para ela, uma carruagem, um poney e uma criada para substituir a aia que cuidava dela na Índia. - Quanto à sua instrução, estou tranqüilo - disse o capitão Crewe, sorrindo. -A grande dificuldade estará em impedir que aprenda demasiado depressa e tudo ao mesmo tempo. Passa a vida curvada sobre os livros. Não os lê, devora-os: é uma lobazinha! A sua fome

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de leitura reclama, sem cessar, novos livros e são livros para pessoas adultas que ela prefere, livros franceses ou alemães, tanto como ingleses, história, biografias, poesias, que sei eu! Tire-lhe esses livros, Miss Minchin, quando ela ler de mais! É preciso que passeie no parque, montada no poney ou, então, que vá comprar uma boneca nova. Gostava de a ver brincar mais vezes com bonecas. - Papá - observou Sara - se eu for comprar uma boneca de dois em dois ou de três em três dias, acabo por ter tantas, que não posso gostar de todas quanto devo. As bonecas devem ser como verdadeiras amiguinhas. Emily será a minha amiga. O capitão olhou para miss Minchin e miss Minchin olhou para o capitão. - Quem é Emily - perguntou ela. - Explica tu quem é, Sara - disse o pai. Os seus olhos cinzento-esverdeados tinham uma expressão doce e grave, quando respondeu: - É uma boneca que eu ainda não tenho, uma boneca que o papá me vai comprar. Iremos escolhê-la os dois. Chamar-se-á Emily. Será a minha amiga, quando o papá se for embora; e é para lhe falar dele que eu a quero. O sorriso parado de Miss Minchin teve, novamente, uma expressão admirativa. - Que espírito tão original - disse ela. - Oh que deliciosa criança. - Sim -- disse o capitão, apertando a filha contra o peito. - É o meu tesouro. Terá muito cuidado com ela, não é verdade Miss Minchin? Sara não se separou do pai enquanto ele esteve em Londres. Saíram juntos, correram as lojas, compra-


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ram inúmeras coisas, muitas mais, certamente, do que precisavam; mas o capitão, novo e inexperiente, queria que a filha tivesse tudo quanto achava bonito e, também, tudo o que lhe agradava a ele, de maneira que, entre os dois, compraram um enxoval muitíssimo mais luxuoso do que era próprio para uma menina de sete anos. Tinha vestidos de veludo, guarnecidos a pele, vestidos de rendas e outros todos bordados; chapéus com soberbas penas de avestruz, casacos e golas de arminho, caixas cheias de luvas, de lenços, de meias de seda, e tudo isto em tal quantidade que, nos estabelecimentos, as empregadas diziam umas às outras, em voz baixa, indicando a pequenita de grandes olhos profundos: -Deve ser uma princesa estrangeira, talvez a filha de algum rajá da Índia. E, finalmente, compraram Emily; mas foi preciso ir a muitas lojas de brinquedos e verem muitas bonecas, antes de a descobrirem. -Eu queria que ela não se parecesse com uma boneca - explicou Sara. - Que ela tivesse o ar de me escutar, quando eu lhe falasse. O que é mais aborrecido, com as bonecas, é que elas nunca dão a idéia de ouvirem o que lhes dizemos. Mostraram-lhe bonecas grandes e pequenas; bonecas com os olhos pretos e olhos azuis, caracóis escuros e longos cabelos doirados; bonecas vestidas e outras por vestir. - O papá compreende - dizia Sara - se a compro sem vestidos, levá-la-emos à casa de uma costureira que lhe fará tudo por medida. Os vestidos ficam sempre melhor quando são provados. Depois de muito procurar, decidiram os dois ir a pé para verem melhor as montras(vitrines}, enquanto a carruagem os seguia lentamente. Haviam já passado

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dois ou três estabelecimentos, sem entrar, quando, ao aproximar- se de uma loja de aparência modesta, Sara estremeceu e apertou o braço do pai. - Ó papá - exclamou ela - aqui está Emily! A sua carinha tornára-se muito rosada e seus olhos acinzentados tiveram a mesma expressão de felicidade que teriam se houvesse reconhecido uma amiga muito querida. - Ela está à nossa espera - continuou a pequenina. - Entremos depressa. - Ó meu Deus - disse o capitão, alegremente - Quem nos apresentará a Sua Alteza? - O papá apresenta-me a mim, e eu apresento o papá - disse Sara. - Mas eu reconheci-a logo à primeira vista, e talvez ela me tivesse reconhecido também. A boneca tinha, realmente, um lindo olhar. Era de bom tamanho, transportava-se com facilidade. Possuía uma soberba cabeleira castanha-dourada, toda encaracolada, grandes olhos azuis e pestanas espessas, mas pestanas verdadeiras e não apenas um simples traço de pincel sobre as pálpebras de porcelana. - Não há dúvida, papá - disse Sara, que olhava para a boneca, face a face. - Não há dúvida de que é a Emily! Emily foi, pois, comprada e, em seguida, levada a uma casa de modas para crianças, onde encomendaram para ela um guarda-roupa tão suntuoso como o de Sara: vestidos de veludo e de musselina bordada, roupa guarnecida de rendas, luvas, peles e meias de seda. - Quero que ela seja amimada - dizia Sara porque eu sou sua mãe, ao mesmo tempo em que ela é a minha amiguinha.


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Todas estas compras teriam divertido muito o capitão se não fosse o triste pensamento que o preocupava cada dia mais: não tardaria a ter de separar-se da sua querida companheirazinha, a quem tão carinhosamente amava. Uma vez, levantou-se a meio da noite e foi, docemente, contemplar Sara, que dormia com a boneca nos braços. Os seus cabelos negros e os cabelos doirados de Emily misturavam-se sobre a almofada; ambas possuíam lindas camisas de dormir, enfeitadas com renda, e admiráveis pestanas que lhes ensombravam as faces mimosas. Emily tinha de tal forma o ar de uma verdadeira criança, que o capitão se sentia feliz de a ver ali, e suspirou profundamente. “Ó, minha Sarinha - pensava ele - nem tu imaginas, com certeza, a que ponto o teu papá vai sentir a tua falta!” No dia seguinte, Sara foi, definitivamente, confiada a Miss Minchin. O paquete para a Índia partia no outro dia de manhã. O capitão Crewe explicou a miss Minchin que os Srs. Barrow e Skipworth, que o representavam em Inglaterra, estavam à sua disposição no caso de ela precisar de qualquer esclarecimento ou conselho, e pagariam todas as despesas de Sara. Ele próprio escreveria duas vezes por semana à filha, a quem desejava que fossem proporcionados todos os prazeres que lhe apetecesse. -Sara é muito razoável e nunca pedirá nada que possa ser-lhe prejudicial - explicou ele. Depois, conduziu a filha aos seus aposentos e despediram-se. Sentada sobre os joelhos do pai, Sara segurava-lhe, com as duas mãos, a gola do casaco e olhava intensamente.

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- Parece que queres aprender de cor como eu sou - disse ele, acariciando-lhe os cabelos. Ela lançou-se-lhe nos braços e, ao vê-los assim abraçados, dir-se-ia que não podiam separar-se um do outro. Quando a carruagem, que levava o capitão, se pôs em andamento, Sara, sentada no chão, junto da varanda da sua sala particular, com o queixo apoiado nas mãos, seguiu-a com o olhar até que ela dobrou a esquina da praça. Emily estava também sentada ao lado da pequenina, que, de vez em quando, olhava para ela. E, quando Miss Amélia, irmã de Miss Minchin, recebeu ordem de ir ver o que fazia a nova educanda, encontrou a porta fechada. - Fechei a porta - explicou lá de dentro uma oz delicada, mas um pouco nervosa. -Peço o favor de me deixarem ficar completamente só. Miss Amélia era uma criatura gorducha e baixa, que admirava imenso a irmã mais velha, de quem sentia certo medo. Tinha melhor coração do que Miss Minchin, mas por coisa alguma do mundo seria capaz de lhe desobedecer. Retirou-se agitadíssima e foi dizer à irmã: - Nunca vi uma criança tão singular! Imagina que se fechou à chave, por dentro, e que nem se ouve mexer. - É preferível isso a gritar e a bater o pé no chão, como fazem tantas outras - replicou Miss Minchin. -Amimada, como é, esperava eu que ela pusesse a casa em alvoroço. Porque, se há alguma criança que tenha sido escandalosamente estragada com mimo, é esta! - Já lhe abri as malas e arrumei todas as suas coisas - disse Miss Amélia. - Nunca vi nada semelhante:


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casacos com arminho e zibelina, toda a roupa guarnecida a rendas... Já viste os vestidos dela? Que te parece? - Parece-me perfeitamente ridículo - respondeu secamente Miss Minchin. - Mas tudo isso fará vista, quando Sara marchar à frente das outras alunas, ao domingo, para ir à missa. Na realidade, fizeram-lhe um enxoval de princesa! Lá em cima, fechada no quarto, Sara, sentada no chão, com Emily ao lado, não desfitava o olhar da esquina da praça onde o capitão havia desaparecido, sempre a enviar- lhe beijos, como se não tivesse coragem de terminar.

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Aula de Francês

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uando, na manhã seguinte, Sara entrou na aula, firmaram-se nela muitos olhos curiosos. Todas as outras alunas, desde Lavínia Herbert, que com quase treze anos se considerava já uma senhora, até Lottie Legh, a benjamina, que contava apenas quatro, tinham conhecimento da sua chegada. Também sabiam que, a partir daquele dia, Sara era o ornamento e a glória do Colégio Minchin. Uma ou duas pequenas haviam, mesmo, tido a sorte de avistar a criada particular de Sara, chegada na véspera à noite. Era francesa e chamava-se Mariette. Lavínia, que tivera artes de passar em frente do quarto de Sara, quando a porta estava entreaberta, vira a criada abrir uma caixa que certa loja de modas enviara. - Que linda roupa - dizia ela, em voz baixa, à sua amiga Jessie, fingindo que estava a estudar geografia. -Nunca vi tanta renda! Ouvi a miss Minchin dizer à irmã que tudo aquilo era disparatado para uma criança. A minha mãe também me costuma dizer que as crianças devem vestir-se com simplicidade. Olha para Sara: as rendas aparecem-lhe por baixo do vestido! - E tem meias de seda - segredou Jessie, que parecia não levantar o nariz do atlas. - Que pés tão pequenos! Nunca vi pés assim! - Oh - respondeu desdenhosamente Lavínia - é por causa do feitio especial das pantufas que ela usa.

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A minha mãe diz que um sapateiro habilidoso pode fazer parecer pequenos mesmo os pés que sejam grandes. Eu cá não a acho nada bonita. Tem os olhos de uma cor esquisita. - Sim, não é bonita como se costuma ser respondeu Jessie, percorrendo ràpidamente toda a classe com o olhar. Mas, quando se olha uma vez para ela, apetece olhar mais... Tem umas pestanas tão compridas E os olhos são quase verdes! Sara conservava-se, muito ajuizadamente, no seu lugar, e esperava que lhe indicassem o que devia fazer. Tinham-na colocado mesmo ao lado de Miss Minchin. Os olhares que se fitavam nela não a embaraçavam absolutamente nada. Pelo contrário, divertiam-na e, por sua vez, olhava também para todas aquelas meninas com interesse. “Em que pensarão elas - perguntava Sara a si própria. Gostava de saber se elas gostam de miss Minchin, se as lições lhe agradam e se alguma tem um papá parecido com o meu... “ Tinha falado muito do pai a Emily, naquela manhã. - Agora vai ele no mar - dissera ela. - Temos de ser muito boas amigas e dizer tudo uma à outra. Olha para mim, Emily; nunca vi olhos tão bonitos como os teus. Mas gostava muito que pudesses falar! Sara tinha na cabecinha sonhos e idéias, de que seria já uma consolação convencer-se de que Emily era viva, ouvindo e compreendendo tudo quanto ela lhe pudesse dizer. Quando Mariette lhe vestiu o vestido azul-escuro, reservado para as horas de aula, e lhe pôs nos cabelos uma fita da mesma cor, a pequenina aproximou-se de Emily, sentou-a numa cadeira de palha e colocou-lhe, diante, um livro aberto, dizendo:


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- Podes ler durante a minha ausência. E vendo a criada olhar para ela, surpreendida, Sara explicoulhe, como se estivesse perfeitamente convencida do que dizia: - Eu creio que as bonecas são capazes de fazer muitas coisas, mas não querem que nós saibamos... É muito possível que Emily leia, fale e ande, mas só o fará quando estiver sozinha. Tu compreendes, se nós soubéssemos que as bonecas podem fazer o mesmo que nós, obrigávamo-las a trabalhar. Foi por isso que elas tomaram, umas com as outras, o compromisso de guardar segredo... Se tu ficares no meu quarto, Emily não se mexerá donde está; se te fores embora, ela começará a ler ou irá à janela ver quem passa. Mas, logo que ouça passos na escada, voltará para a cadeira, para que a encontremos como a deixamos. “Que extraordinária criança!” - pensou Mariette. E, quando foi almoçar, contou às outras criadas tudo o que se passara com Sara. Sentia que se dedicaria a valer àquela pequenina tão original e inteligente, que a tratava com tão bonitas maneiras. Mariette já se encontrara ao serviço de outras crianças que estavam longe de ser assim delicadas. Sara tinha um modo encantador e meigo de dizer: “Fazes favor, Mariette. Obrigada, Mariette”. - Agradece-me , explicava a criada às colegas ,como se eu fosse uma senhora. E acrescentava: - Tem o ar de uma princesinha. Em resumo: Mariette estava encantada com a sua patroa pequena e contentíssima com o seu novo lugar. Entretanto, na aula, depois de Sara e as outras

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alunas se terem observado à vontade, Miss Minchin bateu na secretária, com ar solene, e disse: - Meninas: vou apresentar- lhes a sua nova companheira. Todas as pequenas se levantaram e Sara fez o mesmo. - Espero - continuou Miss Minchin - que serão amáveis para Sara Crewe; esta menina vem de muito longe, da Índia. Logo que terminem as aulas, travarão conhecimento com ela. As alunas cumprimentaram Sara, cerimoniosamente. Ela fez uma pequena reverência e em seguida todas retomaram os seus lugares, recomeçando a observação com o olhar. - Sara - disse Miss Minchin, em tom doutoral, aproxime-se. A directora tinha pegado num livro, que ia folheando. A pequenina, delicadamente, foi até junto dela. - Como o seu pai escolheu uma criada francesa para o seu serviço particular - começou Miss Minchin, concluo que ele deseja que a menina estude o francês, a fundo. Sara parecia um pouco embaraçada. -Eu penso que o papá escolheu esta criada porque... julgou que me dava prazer com isso... - Receio - interrompeu Miss Minchin, com um sorriso irônico, que a menina seja mimada de mais e que, por isso, esteja convencida de que tudo e todos pretendem apenas agradar-lhe. Mas neste caso, a minha convicção é que seu pai quer que a menina aprenda bem francês.


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Se Sara fosse mais velha, e se não estivesse tão habituada a ser, sempre, escrupulosamente bem educada, teria podido, em poucas palavras, desiludir Miss Minchin. Mas a pequenina sentia-se corar: Miss Minchin parecia tão severa e autoritária, tão convencidda de que Sara não sabia uma palavra de francês, que ela não ousou contrariá-la: isso parecialhe uma grande indelicadeza... E a verdade, afinal, era que o capitão Crewe, tendo casado com uma francesa, começara a falar francês com a filha desde muito pequenina, de forma que esta falava aquela língua com a maior facilidade. Timidamente, Sara tentou ainda explicar: - Eu... eu não aprendi, pròpriamente, mas... Um dos maiores desgostos de Miss Minchin era, exatamente, não saber falar francês e esforçava-se por dissimular cuidadosamente esta humilhante lacuna. Por essa razão, não desejava discutir sobre tal assunto, que podia expô-la a perguntas embaraçosas, feitas pela nova aluna. - Basta - disse ela, secamente , se não aprendeu, é preciso aprender imediatamente. O professor, Sr. Dufarge, não tarda aí. Vá folheando este livro enquanto ele não chega. Sara sentia as faces escaldarem. Voltou para o seu lugar, abriu o livro, fitou gravemente a primeira página, muito decidida a não rir, como teria feito qualquer menina mal educada, mas, em todo o caso, era engraçado ver-se condenada a soletrar, como qualquer principiante “le père”... “la mère”... “le fils”... palavras que ela conhecia perfeitamente, havia já tanto tempo.

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Miss Minchin não deixava de a observar. - Parece descontente, Sara - disse ela -, e eu estou aborrecida por ver que a menina não tem vontade de estudar francês. Pelo contrário, minha senhora, tenho vontade, mas... - respondeu Sara, tentando novamente explicar-se. - Não diga sempre “mas” quando falam consigo ,exclamou Miss Minchin, não a deixando concluir. E ordenou: - Pegue no livro. Sara, com a maior obediência, recomeçou a ler, com aplicação “la fille”, “le frère”, “la soeur”... Ao mesmo tempo ia pensando: “Talvez eu possa explicar- me, quando o Sr. Dufarge vier...”. Efetivamente, o professor de francês chegou pouco depois. Já não era novo; tinha um ar distinto e, mal fixou Sara, compreendeu logo que se tratava de uma criança invulgar e sentiu, por ela, um vivo interesse. - Tenho, então, uma nova aluna, não é verdade? - perguntou ele. - O pai desta menina, o capitão Crewe, tem um grande empenho em que ela comece a aprender francês - explicou Miss Minchin. Mas eu receio, que, por um capricho de criança, não esteja disposta a isso. - É pena - disse o professor, dirigindo-se, gentilmente, à pequenita. E continuou: - Talvez que eu consiga convencê-la quando principiarmos as lições, porque o francês é uma bela língua. Sara foi até junto do Sr. Dufarge. Começava a faltar-lhe a coragem, e ergueu para ele os seus grandes olhos suplicantes. Tinha a certeza de que o professor ia


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compreender imediatamente, e começou, com a maior simplicidade, a explicar tudo num francês correto e límpido: Miss Minchin não tinha compreendido; o que ela queria dizer era que não tinha aprendido o francês nos livros, mas sim com o pai e os amigos do pai, que lhe falavam sempre nessa língua. Por isso, aprendera a ler e a escrever francês ao mesmo tempo que aprendera inglês. O pai gostava muito daquela língua porque a sua querida mamã, que ela não chegara a conhecer, era francesa. Tinha o maior prazer em aprender tudo o que o Sr. Dufarge entendesse por bem ensinar-lhe, e o que ela pretendera explicar a Miss Minchin era apenas, que já conhecia todas as palavras que vinham naquele livro. Ao dizer isto, Sara mostrou ao professor o livrinho que a diretora lhe havia dado. Ao ouvir falar tão corretamente, Miss Minchin estremeceu e pôs-se a olhar para ela por cima das lunetas, com ar de pessoa quase escandalizada. Quanto ao Sr. Dufarge, sorria com um sorriso de verdadeira satisfação: ao escutar aquela voz fresquinha de criança falar nitidamente a sua língua natal, pareceu-lhe ter sido transportado, de repente, para a sua terra que, por vezes, nos dias sombrios e brumosos do inverno inglês, lhe parecia tão distante... Mal a pequenina acabou, tomou-lhe o livro das mãos e envolveu-a num olhar de bondade e simpatia. Depois, dirigindo-se a Miss Minchin, disse: - Pouco terei a ensinar-lhe. Fala francês como uma francesa. Tem uma pronúncia perfeita! - Porque foi que a menina não me disse isso? exclamou Miss Minchin, envergonhada.

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- Eu quis dizer... - respondeu Sara, mas não fui capaz... Miss Minchin sabia, perfeitamente, que a pequenina tentara explicar tudo e que, se o não fizera, a culpa fora apenas sua. Mas vendo que as outras alunas tinham compreendido o que se passara, sem perder nada daquela cena, e que Lavínia e Jessie sorriam por detrás dos livros, a diretora sentiu-se irritada ao máximo. - Silêncio! - gritou, dando uma pancada na secretária. Não quero ouvir ninguém a rir! Desde esse dia, nasceu na sua alma um rancor surdo contra a aluna de quem se mostrara, a principio, tão orgulhosa.


Edição: Camila M. Nobre Fonte utilizada em títulos e subtitulos: Argor Flahm Scaqh - Estilo: Gothic - Medieval Fonte utilizada para corpo de texto: Berlin Sans FB - A fonte Berlin Sans é baseada num alfabeto do fim dos anos 20, a primeira letra não serifada que Lucian Bernhard desenhou, em conjunto com Matthew Butterick e David Berlow. Capa e contracapa impressos em papel couché. Miolo em papel offset. Formato A5 Encadernação canoa.


FRANCES HODGSON BURNETT (1849, Manchester - 1924, EUA) escritora inglesa. Mudou-se para os Estados Unidos em 1865 após a morte de seu pai. Após a publicação de O Pequeno Lorde retornou a Inglaterra. Lá divorciou-se e veio a falecer seu filho mais velho. Passou então a morar parte do ano em Nova York e outra parte nas Bermudas. Autora de O Jardim Secreto (1911), seu trabalho mais conhecido.

A princesinha conta a história de Sara Crewe, uma menina rica que perde tudo quando lhe acontece uma terrível tragédia. Obrigada a trabalhar como empregada, a passar frio e fome, ela continua a preservar sua nobreza, e assim consegue manter seu orgulho e sua generosidade.


A princesinha