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eSTRUTURA ITINERANTE POLIVALENTE

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eSTRUTURA ITINERANTE POLIVALENTE camila saturnino Braga Ennes orientaÇÃO: Adriana Caúla SupervisÃO: Vinicius Netto UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE - ESCOLA DE ARQUITETURA - 2014/01


“Ainda vão me matar numa rua. Quando descobrirem, principalmente, que faço parte dessa gente que pensa que a rua é a parte principal da cidade.” Leminski; Toda Poesia - [quarenta clics em Curitiba; 1976]

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sumário

06 Prefácio 07 Agradecimentos 08 09 10 12 14 15 16 26 30 35 38 40 41 42 44 46 48 50

Introdução Afastamento da vivência do espaço público As práticas do espaço A retomada da rua

Projeto Projeto como tática Referências Concepção formal Forma final Desenhos técnicos Elementos construtivos

Construindo Situações Sobre a construção de Situações Situação 01: Esportes urbanos, grafite e música em Irajá Situação 02: Construção de espaço coletivo em Deodoro Situação 03: Cinema e manifestação política na Cinelândia Situação 04: Circo no Catumbi Situação 05: Biblioteca e exposição no Jacarezinho

53 Referências Bibliográficas

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prefácio Este trabalho é o resultado de um conjunto de interesses e aprendizados adquiridos ao longo dos anos de faculdade. Mais que um projeto, simboliza minhas aspirações enquanto arquiteta e urbanista e o que acredito ser fundamental em minha profissão: produzir espaços pensados e planejados para pessoas. Vejo a arquitetura e o urbanismo como um campo único.A maior parte da população, hoje, vive em regiões urbanas, o que me leva a acreditar que nosso principal objetivo, enquanto arquitetos urbanistas, deve ser a preocupação em produzir espaços para uma vida de mais qualidade nas cidades. A arquitetura, inserida no espaço urbano, não pode ser considerada uma boa arquitetura se não for boa para a cidade. Tanto quanto meus estudos, minhas vivências e experiências no espaço público, desde caminhadas cotidianas, até eventos culturais e festivos na rua, foram me levando a perceber e valorizar mais a sua importância como espaço coletivo, do qual todos devem usufruir. Ao mesmo tempo, fui observando como a produção arquitetônica e urbanística muitas vezes é feita como barreira, avessa as apropriações do espaço público, assim como muitos espaços da cidade possuem potencial para serem apropriados mas não recebem devido tratamento e não são vivenciados pelos cidadãos. Desta forma, estre trabalho se inspira nas práticas do espaço público e nas suas possíveis apropriações, pretendendo valorizar e incentivar a todas as maneiras de fruição da cidade.

“...percebi que, nas faculdades de arquitetura, os estudantes - ou seja, a futura classe dirigente – sabem de tudo de teoria urbana e filósofos franceses, acham-se especialistas em cidade e espaço público, mas, na verdade, nunca tiveram a experiência de jogar bola na rua, encontrar-se com amigos na praça, fazer amor em um parque, de entrar ilegalmente em uma ruína industrial, de atravessar uma favela, de parar para pedir informação a um transeunte. Que tipo de cidade poderão produzir essas pessoas que tem medo de caminhar?” (CARERI, 2013, p.170)

Imagem de caderno pessoal de trabalho: anotações de desenvolvimento

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agradecimentos Meu agradecimento vai a todos os encontros que tive para chegar até esta conclusão de curso. Agradeço e dedico este trabalho aos que primeiro me encontraram, meus pais, Edson Ennes e Elisabete Saturnino Braga, que terão minha gratidão em qualquer etapa da minha vida, pela dedicação, atenção e carinho que sempre tiveram. Agradeço à eles e também às minhas irmãs pela compreensão e paciência nos momentos em que estive envolvida com este trabalho e com tantos outros durante a faculdade. Ainda à minha família, por serem os melhores amigos e companheiros no dia a dia. Ao resto de minha família e aos amigos de fora da universidade, por estarem presentes em tantos momentos me apoiando. Aos amigos feitos em ambientes de trabalho, que se tornaram mais especiais que eu podia imaginar. À minha escola, a EAU-UFF e a todos que encontrei por lá. Aos jardins, ao chalé e ao casarão, dos quais sentirei saudades, por abrigarem os encontros que me mudaram, me ensinaram, me fizeram valorizar mais ainda os encontros. Às amizades que extrapolaram estes espaços, às idéias trocadas em pizzadas e mesas de bar. Aos que ingressaram comigo, porque eu não esperava me encontrar tanto ao encontrar vocês, não esperava fazer amigos tão queridos e todos, de alguma maneira, estão presentes em minha trajetória e neste trabalho. Aos amigos da Sala 7, que passaram pelo mesmo momento comigo, cada um com seu trabalho tão especial, demonstrando como serão excelentes arquitetos e urbanistas e ganhando minha admiração e carinho. Todos os encontros foram muito divertidos e enriquecedores e tornaram esta trajetória mais prazerosa. Em especial aos meus amigos Isadora Riker e Vitor Cunha, sem os quais este trabalho não seria nada do que é. Agradeço por tudo o que foram neste desenvolvimento, como um reflexo do que são na minha vida. À preocupação de um com o outro, ao envolvimento nas idéias, nas dificuldades e alegrias de cada etapa, com tanto companheirismo. Admiro muito a competência e o trabalho dos dois e me sinto muito abençoada por ter vivido isto com vocês, assim como por termos nos encontrado na vida. A lembrança desta etapa sempre estará totalmente atrelada à vocês. Sei que ainda teremos muitas fases juntos como esta. Às amigas que muito vivenciaram eventos na cidade comigo, Jéssica, Larissa e Isadora, contribuíram demais na escolha do tema, e aos muitos amigos que participaram do desenvolvimento e se ofereceram a ajudar, como Jéssica Ojana, Eduardo Serman, Lucas Salim, Luana Fonseca, e Aline Santiago. À todos os professores pelos quais passei, por deixarem um pouco de seu conhecimento para que eu formasse o meu.

À professora Adriana Caúla, com a qual o encontro mudou os rumos de minha formação, por nos apresentar um universo de arquitetura e urbanismo que ainda não conhecíamos. Agradeço por embarcar em minha deriva, me encontrar completamente desorientada e me orientar, de maneira brilhante e fundamental, a construir um caminho e encontrar um trabalho que sempre esteve nas minhas aspirações, nas coisas que eu gosto e no que acredito de minha profissão. Desde as primeiras aulas de Futuro do Habitat se tornou, a cada encontro, mais querida e muito admirada, como profissional e pessoa. Espero tê-la sempre por perto nos próximos passos e poder contar com sua sabedoria e amizade sempre. Agradeço ao seu filho Bernardo também, por tornar as reuniões de orientação ainda mais doces. À professora Cristina Nacif, por estar presente no início da faculdade, nos incentivando a estudar e vivenciar a cidade, e por agora, no final, também ter ajudado tanto a construir este trabalho. Que sorte poder ter seu conhecimento, compartilhado com maestria, e sua amizade. Ao professor Maurício Campbell, também muito admirado, por um dia ter me apresentado à Cenografia, com tanta paixão, e ter tido tanta influência na escolha deste tema. Obrigada por, ainda que com as dificuldades de encontro neste período, ter acompanhado e dado dicas tão essenciais ao desenvolvimento do trabalho. Agradeço também a professora Luciana Nemer, de quem fui monitora, com quem construí uma amizade que se estende à sua família, desde o vestibular. Esteve presente em todos os passos de minha formação, a adimiro e aprendi muito com todas as nossas parcerias . Espero mantê-las sempre, assim como a amizade. À professora Clarissa, por sua importante participação na pré-banca. Ao professor Vinícius Netto, pelas aulas animadoras, por sua dedicação e paixão pelo que ensina, pelo tempo em que estive envolvida em sua pesquisa e agora, pela supervisão do trabalho, também realizada com muita dedicação. Aos outros espaços de aprendizagem, como a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde tenho tido contato com idéias e pessoas que tem feito toda a diferença no que estou me formando. À professora e artista Paula Scamparini, por suas aulas tão envolventes e intrigantes, que acrescentaram tanto ao desenvolvimento do trabalho, assim como aos colegas de turma que compartilharam deste processo e contribuíram muito. Ao tempo que estive estudando na Universidad de Granada, a todas as trocas, amigos feitos e experiências que tive neste período. Por fim, ao primeiro encontro, antes mesmo que eu fosse, agradeço a Deus, que sempre me agraciou com mais do que tudo o que pedi ou pensei, a cada etapa, a cada manhã.

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INTRODUÇÃO

Fotografia do fotógrafo inglês Marc Vallé que documentou a presença de elementos ‘anti-skatistas” no espaço urbano, onde são colocados obstáculos para a prática do esporte. Retirado de http://www.marcvallee.co.uk/space/

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afastamento da vivência do espaço público Muitos processos ao longo do tempo tem sido responsáveis e influenciadores na maneira em que as pessoas usufruem do espaço público nas cidades. Desde questões sociais, culturais e de segurança a questões relacionadas à produção arquitetônica e urbanística e à gestão política das cidades. Ainda na década de 1960, Guy Debord, filósofo, agitador social e diretor de cinema trazia o conceito de “espetáculo” em seu livro “A sociedade do espetáculo”. “O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem”. “O espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social”. (DEBORD, 2007. p.26;30)

Os conceitos apresentados por ele podem ser percebidos, de maneira muito intensa, até hoje quando se fala em “espetacularização das cidades”. Na sociedade contemporânea, muitos espaços urbanos têm sido produzidos e geridos sob a lógica do espetáculo. Percebe-se nos grandes projetos urbanos a intenção de se usar a imagem da cidade, com arquiteturas icônicas e espaços homogeneizados, como propaganda, atribuindo caráter de mercadoria ao espaço.

A espetacularização das cidades tem como um de seus resultados a segregação espacial, visto que, para produzir os seus “cenários”, na maioria das vezes, ocorrem processos de gentrificação e de modificação forçada das dinâmicas sociais da cidade. A segregação espacial pode ser observada também em relação a produção cultural. Os investimentos em cultura e lazer e a realização de eventos e equipamentos culturais ocorrem sobretudo nas regiões em que se deseja espetacularizar, grandes museus replicados e inseridos nos grandes projetos, colocando também a cultura como imagem e mercadoria. Fazendo parte deste processo, como forma de gerir e implantar os projetos urbanos, ocorrem as privatizações de espaços públicos e parcerias público-privadas, onde o controle e as restrições às maneiras de vivenciar a cidade se tornam mais fortes. Grades e limites de horários de funcionamento em praças, mobiliário contra moradores de rua, contra skatistas, entre outros elementos e medidas “anti-humanas” são cada vez mais comuns. Medidas que, muitas vezes tem como justificativa a segurança, acabam, por outro lado, colaborando para que os espaços se tornem mais vazios e inseguros. Estas questões, entre outras, afetam diretamente a maneira em que os cidadãos experienciam os espaços da cidade. As próprias políticas de gestão do espaço limitam possíveis maneiras de usufruir dele e de se promover o encontro, colaborando para a manutenção de uma visão do espaço urbano como mero local de passagem e não como local de permanência, práticas e encontro.

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Fotografias: acervo pessoal

“Em tais processos, o ambiente urbano tende a se caracterizar com uma cenografia e a experiência urbana cotidiana, por sua vez, então acaba resumida a utilização e circulação disciplinadas por princípios segregatórios, conservadores e despolitizadores que conferem um sentido mercadológico, turístico e consumista ao seu modo de operação.” (JACQUES, 2009)


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“Os writers se diferenciam dos demais usuários da cidade por desenvolverem um olhar clínico; percorrem a cidade em busca dos melhores lugares para colocar sua marca, atentos ao fluxo de pessoas, rotas de fuga, locais para se esconder, pontos de apoio para uma escalada e tipos de textura. Os writers conhecem a cidade em seu pormenor” (SARAIVA Jr, 2012, p.19) “writers” são uma categoria de grafiteiros. 02

Imagem 02: Grupo Sensibilizar: happening “31 de março de 1964, Boca Maldita, Curitiba, 1984. Arquivo: Sensibilizar Fonte: http://blog.reverberacoes.com.br/

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(MARQUES, 2010, p.29)

Imagem 03: Grupo Fluxus: reuniu vários artistas ao redor do mundo que se opunham a comercialização da arte, fazendo performances e organizando exposições, fazendo com que a linha que delimitava o conceito da arte produzida na época fosse apagada, confundindo e misturando todos os conceitos de movimentos artísticos(incluindo dadaísmo). Fonte: http://lounge.obviousmag.org/semiotizando/2012/05/ fluxus-o-grito-da-antiarte.html#ixzz38BCbOrgN Imagem 04: Grafite de dupla brasileira “Os Gêmeos“ Fonte: http://news.upperplayground.com/tag/os-gemeos]

“Se olharmos para o modo como se multiplicam as práticas esportivas de rua (skate, roller, le parkour, etc) podemos seguir um fio condutor de práticas que resistem à passividade dos corpos na cidade contemporânea, práticas que promovem um retorno à rua de atividades lúdicodesportivas antes confinadas em espaços especializados de lazer.”

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Imagem 01: The Naked City. Ilustração do pensamento urbano Situacionista. Mapa da cidade de Paris mas demonstram uma organização afetiva desses espaços ditada pela experiência da deriva. Fonte: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/ arquitextos/03.035/696

Imagem 05: Skatista. Fonte: http://cemporcentoskate.uol.com.br/fiksperto/i-lovexv-2013

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Imagem 06: Praticantes de Parkour Fonte: http://pt.feelforfit.com/fitness-e-esporte/parkour-ummodo-de-vida


as práticas do espaço Apesar das questões observadas em relação ao afastamento da vivência e experiência das cidades, o que motiva este trabalho e o que ele pretende incentivar é a visão do espaço urbano, sobretudo o espaço público, como um espaço a ser praticado e compartilhado; a ideia de pertencimento e apropriação dos espaços da cidade por parte dos moradores, indo além de seus aspectos funcionais. A apropriação da rua, como local de permanência, possibilita o encontro e a “experiência da alteridade” (JACQUES, 2012, P.11), tornando a cidade mais democrática, a partir do momento em que é o local onde todos os cidadãos podem pertencer, se encontrar e vivenciar de maneira igualitária. Ao longo da história, sempre puderam ser observados grupos que se configuram como resistência às consequências da espetacularização e afastamento da vivência dos espaços da cidade. Michel de Certeau chama de “praticantes ordinários da cidade” os cidadãos que vivenciam e experimentam o espaço urbano, tecendo suas próprias relações com ele através da prática cotidiana, independente do que é planejado nos grandes projetos.

“Vivendo ‘embaixo’ (down), a partir dos limiares onde cessa a visibilidade, vivem os praticantes ordinários da cidade. Forma elementar dessa experiência, eles são caminhantes, pedestres, Wandersmänner, cujo corpo obedece aos cheios e vazios de um ‘texto’ urbano que escrevem sem poder lê-lo. Esses praticantes jogam com espaços que não se veem; têm dele um conhecimento tão cego como no corpo-a-corpo amoroso.” (CERTEAU, 1998, p. 177, grifo nosso)

O que se destaca aqui na relação destes indivíduos com a cidade é a maneira com que praticam o espaço, através de suas relações diretas com ele no dia-a-dia, no cotidiano, se apropriando dos espaços para construí-las.

“Para os praticantes ordinários, a cidade deixa de ser somente uma cenografia no momento em que ela é vivida e esta experiência, pela constância de prática, inscreve-se no corpo como padrão de ação perceptiva. Dessa forma, a cidade sobrevive e resiste à espetacularização no próprio corpo de quem a pratica, nas corpografias resultantes de sua experimentação, uma vez que essas corporalidades, por sua simples presença e existência, denunciam a domesticação dos espaços e sua conversão puramente cenográfica.” (BRITTO E JACQUES, 2012, p.154) Como exemplo do que podem ser as práticas do espaço, podemos falar da considerada a primeira prática do espaço, o caminhar, onde a relação do corpo com a cidade é a mais próxima possível. “É um processo de apropriação do sistema topográfico pelo pedestre” ... “é uma realização espacial do lugar”. (CERTEAU, 1998, p. 177). Um cidadão que realiza seus afazeres cotidianos a pé, observando o ambiente na velocidade do pedestre, experimenta muito mais o espaço e as relações diretas com o outro urbano que outro indivíduo que sai de carro do condomínio onde mora até o trabalho, por exemplo. A maneira com que se caminha e se percebe o percurso torna esta relação mais intensa ou não e diferencia o caminhar como

prática do espaço. A partir dele, diversas são as relações possíveis entre os cidadãos e as cidades. Apesar do uso da palavra “ordinários” na definição, os praticantes só devem ser considerados ordinários no sentido de que são as pessoas comuns e por suas práticas estarem inseridas no seu dia-a-dia, mas cada prática do espaço possui sua particularidade e características muito específicas e são justamente elas que os afastam de uma vivência apática da cidade, além de promover a vida e animação urbana que ela deve abrigar. A maior atenção se volta para as os grupos que possuem visões mais específicas, particulares e lúdicas sobre a cidade, extrapolando totalmente suas características funcionais. “Neste conjunto, eu gostaria de detectar práticas estranhas ao espaço ‘geométrico’ ou ‘geográfico’ das construções visuais, panópticas ou teóricas. Essas práticas do espaço remetem a uma forma específica de ‘operações’ (‘maneiras de fazer’), a ‘uma outra especialidade’ (uma experiência ‘antropológica’, poética e mítica do espaço) e a uma mobilidade opaca e cega da cidade habitada. Uma cidade transeunte, ou metafórica, insinua-se assim no texto claro da cidade planejada e visível.” (CERTEAU, 1998, p. 172, grifo nosso). Estas práticas remetem, então, a uma experiência lúdica da cidade. São visões diferenciadas que podem ser voltadas para diferentes áreas: artísticas, culturais, recreativas, políticas e etc. O próprio caminhar pode ter esta abordagem mais metafórica, a exemplo de como faziam os grupos errantes, desde os dadaístas, passando pelos surrealistas até os Situacionistas, nas décadas de 50-60 (cujo principal representante foi Guy Debord, autor de Sociedade do Espetáculo), que usavam o caminhar como prática estética e artística. (CARERI, 2013). A décadas de 60 e 70 foram momentos da história onde se percebeu, principalmente na Europa, uma tomada muito intensa das ruas, fortalecida pelas revoltas de maio de 1968. Este também foi o período em que o meio artístico estava passando por grandes modificações e a arte saía “cubo branco”, ideal modernista das galerias como o espaço da arte, e ia para as paisagens e as cidades. Surgiam também as performances e happenings no espaço público. Os praticantes de esportes urbanos, como os skatistas, os patinadores e praticantes de parkour são ótimos exemplos destes grupos. Se apropriam da rua para suas atividades, tanto como lazer como na mobilidade do dia-a-dia, e a conhecem de acordo com as especificidades de suas práticas. Assim como os praticantes de arte urbana e grafite, por exemplo. Além de grupos específicos, podem ser consideradas nestas práticas as formas coletivas de apropriação da cidade, como os eventos culturais (festas, carnaval) e as manifestações políticas que tem como suporte o espaço urbano. Além de gerarem visões diferentes da cidade, o fazem proporcionando o encontro, o que é de grande importância quando se aspira por cidades e espaços mais democráticos.

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Imagem 01: Fotografia de manifestação política na Av. Rio Branco, Centro, RJ em 22/06/2013, em um período em que houve diversas manifestações semelhantes por todo o Brasil Fonte: http://vaniareginahistoria.blogspot.com.br/2013/06/15-imagensmarcantes-dos-protestos-no.html Imagem 02: Carnaval de Rua em Santa Tereza, Rio de Janeiro Fonte: http://danicasagrande.wordpress.com/2013/02/page/2/ Imagem 03:

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Festival Carioca de Arte Pública. Fonte: facebook.com/tanarua

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09 Imagem 04: Bloco de carnaval “Cordão do Boi-tolo“, não autorizado pela prefeitura. Durante anos, apesar de ainda presente, o carnaval de rua havia deixado de se configurar como carnaval característico da cidade. A volta da tradição do Carnaval de rua, contando com blocos formais e inúmeros blocos espontâneos que não contam com autorização prévia da prefeitura, também exemplifica o processo de retomada da rua que vem sendo observado. Imagem 05: Interseção entre política e arte. Estudantes fazem performance em meio a manifestação política na Cinelândia como crítica a alienação em meio ao momento político.

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Imagem 06: Rua como palco. “EscÂndalo” Um espetáculo de Márcio Bueno Dias, Livremente inspirado na obra de Caio Fernando Abreu. Fonte: facebook.com/ ocupaouvidor63revitalizacao Imagem 07: Evento Ágoras Cariocas do Coletivo Cultural “Norte Comum“.

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“O evento é absolutamente gratuito e faz parte da nossa ideia maluca de dar aulas sobre a cidade em espaços públicos, sem cobrar rigorosamente nada e sem ganhar rigorosamente nada além do convívio fraterno com quem chegar. É para macumbeiros, ateus, evangélicos, comunas, liberais, apolíticos, militantes, alienados, machões, meninas, mulheres, gays, bacalhaus, flamengos, tricolores, alvinegros, cadetes, banguenses, mocinhos, bandidos e, é claro, tijucanos.” Fonte: facebook.com/nortecomum Imagem 08:

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Occupy Wall Street, Fonte: http://vtdigger.org/2011/10/13/vermont-laborbacks-the-occupy-movement/ Imagem 09: Imagem ilustrativa do movimento do Isoporzinho. Algumas simples apropriações espontâneas recentes podem ser observadas como clara resistência ao processo de espetacularização, intensificado devido à realização dos mega-eventos esportivos. Um exemplo é o movimento chamado “Isoporzinho”, muito praticado no início de 2014, onde, a fim de evitar as altas dos preços nos bares da cidade, grupos de amigos passaram a combinar seus encontros em ruas e praças, levando isopores com suas bebidas. Imagem 10: Página do facebook do grupo cultural NorteComum, Fonte: facebook.com/nortecomum

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Imagem 10: Página do facebook do grupo cultural Tá na Rua, Fonte: facebook.com/tanarua


Reportagem de O Globo online de 15/12/2013

“A rua, que eu acreditava fosse capaz de imprimir à minha vida giros surpreendentes, a rua, com suas inquietações e os seus olhares, era o meu verdadeiro elemento: nela eu recebia, como em nenhum outro lugar, o vento da eventualidade” Breton, André, Les pas perdus, Paris, 1924

Reportagem de VejaRio de 30/07/2014

O processo de espetacularização da cidade pode ser percebido claramente no Rio de Janeiro nos últimos anos, através da realização de grandes projetos urbanos e sua divulgação publicitária, em meio a preparação da cidade para sediar os megaeventos esportivos: a Copa do mundo, ocorrida recentemente, e os Jogos Olímpicos de 2016. Na mesma medida em que as imagens de uma cidade “revitalizada” são divulgadas, ocorre a segregação e gentrificação anteriormente comentada e os problemas decorrentes deste processo. Por outro lado, outro movimento também pode ser observado tanto em um contexto mundial quanto, mais especificamente, na cidade do Rio de Janeiro, na qual irei me basear por ter sido o principal foco destas observações. Percebe-se um retorno muito potente ao uso da rua através de muitas das práticas comentadas. Crescem os eventos culturais nas ruas e praças, as manifestações políticas (a exemplo do fenômeno ocorrido em todo o país no em junho de 2013), os esportes urbanos tornam-se cada vez mais presentes e expressivos, há uma valorização da arte urbana, aumento de coletivos de intervenções urbanas temporárias; entre outros indícios de iniciativas que valorizam e incentivam a vivência urbana. Com o uso extremamente difundido da internet e das redes sociais, a divulgação destas iniciativas é natural e rapidamente replicada, permitindo que a participação e adesão se tornem cada vez maiores. Percebe-se também o aumento de grupos que procuram promover eventos culturais, eventos de manifestação popular que, em si, já englobam muitas das práticas comentadas. Muitos têm como ideologia a realização de eventos democráticos e acessíveis e já vem realizando estes eventos no espaço urbano, nas praças e ruas, fortalecendo e incentivando as apropriações do espaço e o seu significado como local de encontro e de trocas. Apesar de não claramente ocasionadas por estas questões, estas iniciativas podem ser facilmente relacionadas e interpretadas como tentativas de resgate da vida urbana e, também, como resistências aos processos que foram levando a um endurecimento e afastamento da vida nos espaços públicos da cidade. Manifestações culturais festivas muitas vezes estão relacionadas com questões políticas pelo caráter de prática cultural libertária e reivindicação por direitos de fruição do espaço. O crescimento de manifestações políticas relacionadas a reivindicação do espaço público pode ser observado em um contexto mundial, a exemplo dos muitos movimentos de “Occupy” que vêm ocorrendo nos últimos anos em vários países.

Imagens retiradas de eventos no facebook. Acessadas em 20/04/2014

a retomada da rua

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Projeto

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Projeto como tática De todas as reflexões acerca da apropriação da cidade e da observação das práticas e iniciativas apresentadas, procurouse sintetizar alguns potenciais relacionados com a intenção do trabalho, de valorização da apropriação e ativação de espaços públicos:

+ O potencial da cultura, da arte e dos esportes como ativadores de práticas, movimentadores sociais, e propiciadores de novas visões sobre os espaços + As intenções e iniciativas semelhantes entre diferentes grupos culturais e suas possíveis relações e conexões, podendo ampliar suas redes e fortalecer suas atividades. + O potencial de eventos e presenças físicas de estruturas estranhas ao local e ao dia a dia como rupturas do cotidiano, pelo uso diferenciado do espaço. Despertam interesse, ativam os espaços e modificam as visões sobre eles. + As particularidades locais, tanto físicas e morfológicas, como relacionadas a práticas de grupos existentes, como potenciais para a ativação dos espaços através do incentivo a práticas específicas dos espaços. + As potentes conexões entre práticas festivas e manifestações políticas e suas relações com a reivindicação de espaços Michel de Certeau, em seu livro “A invenção do cotidiano“, fala sobre as “táticas desviacionistas”(CERTEAU,1998; p.92) , que não fazem planejamento urbano estratégico, mas são ações vindas de baixo, que “só utilizam, manipulam e alteram o lugar“, como fazem os praticantes ordinários da cidade e conforme JACQUES comenta na citação ao lado. A intenção, então, seria tentar reunir os potenciais levantados em uma tática de ativação de espaços urbanos e tentativa de restituir o uso e a apropriação livre deles, por parte dos habitantes, passantes e usuários, reforçando os lugares como ambientes coletivos e potencializando novas relações. Com a análise das iniciativas de apropriação do espaço e os potenciais levantados, a ideia da criação de uma estrutura itinerante que pudesse dar suporte para os acontecimentos que o tomem o espaço público como lugar, foi vista como um projeto de grande potencial para funcionar como uma tática, pois se colocará fora da lógica do espetáculo, da cultura e espaço como imagem propaganda e mercadoria. Ela irá locais onde não se espera, buscando ativar e valorizar dimensões do urbano que estejam negligenciadas, reivindicar através da prática o uso e apropriação destes espaços ou levar questões inesperadas e que precisem de atenção, a locais que estejam chamando atenção na lógica do espetáculo. A tática se baseará no criativo, no lúdico, no inesperado como um incentivo e um convite à apropriação da cidade.

Com a análise das iniciativas de apropriação do espaço e os potenciais levantados, a ideia da criação de uma estrutura itinerante que pudesse dar suporte para os acontecimentos que o tomem o espaço público como lugar, foi vista como um projeto de grande potencial para funcionar como uma tática, pois se colocará fora da lógica do espetáculo, da cultura e espaço como imagem propaganda e mercadoria.

estrutura como esqueleto Ela será como um esqueleto, que pode ser “vestido”, apropriado e incorporado por diversas iniciativas, grupos e atividades no espaço urbano. Seu uso não se limitará a apenas um tipo de atividade, mas será pensado de acordo com o local, e o que for interessante para restituí-lo como espaço coletivo. Uma potência desta tática está na imprevisibilidade com a qual a presença da estrutura será espontaneamente apropriada. Algumas possíveis atividades que podem fazer parte da tática de ativação, como elementos impulsionadores e incentivadores: + Festas de rua + Apresentações e oficinas - teatrais, musicais, de dança, circenses, etc. + Eventos com debates,mesas, palestras e oficinas + Instrumento de manifestação política, como suporte a ocuppy’s, palanque político, dentre outros. + Exposições, museu itinerante (O museu indo à demanda) + Feiras de trocas + Projeção de cinema ou outro tipo de projeção midiática + Suporte para ações de coletivos. Dentre muitas outras... “As práticas cotidianas dos praticantes ordinários, como as dos errantes, são do tipo tática – estão diretamente relacionadas com a experiência urbana do ‘embaixo’, com o ‘corpo a corpo amoroso’ –, enquanto as estratégias “escondem sob cálculos objetivos a sua relação com o poder” que sustenta os espaços. São duas lógicas de apreensão da cidade, da experiência urbana, que coexistem: a estratégica, do urbanismo e planejamento hegemônico – hoje também chamado, não por acaso, de planejamento estratégico –, daqueles que produzem os espaços a partir da vista aérea, dos cálculos objetivos e do poder que os sustenta; e a tática, astúcia daqueles que cotidianamente praticam o espaço, usando-o, desviando-se, profanando-o, subvertendo-o: jogam com o espaço dado.” (JACQUES, 2012, p.268) Definição de tática e diferenciação entre tática e estratégia, de CERTEAU comentada por JACQUES.

Coativação A ativação do espaço não é provocada somente pelo evento e a presença da estrutura ocorre através da ativação recíproca da estrutura e dos indivíduos que participam da situação, gerando um processo de coativação. Quanto maior for a incorporação da situação, mais permanente e eficaz será a ativação do espaço pela restituição do uso comum e coletivo do lugar.

estrutura Esqueleto

indivíduos

atividades

ESPAÇO PÚBLICO

Cultura, arte, práticas urbanas, política...

A ativação da estrutura, que a princípio é um esqueleto, ocorrerá através das atividades e questões vindas com ela e, principalmente, pela participação das pessoas no local. A ativação do espaço se dá pela sua incorporação, ou seja, pela presença das pessoas, pelo seu uso. A presença da estrutura e das atividades vindas com ela atrai as pessoas, provocando esta ativação. A ativação dos indivíduos ocorre a partir do despertar do olhar para as possíveis práticas e apropriações do espaço. O projeto então surgiu da percepção de uma demanda e possível atuação, resultado de observações e reflexões sobre o tema de interesse. Começaram então a ser pesquisadas referências de projetos que tivessem alguma semelhança em relação ao programa, às atividades que dá suporte ou aos aspectos formais e estruturais desejados.

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REFERÊNCIAs conceituais teatro mambembe, circo e instant city

instant city

circo Com uma de suas principais características a itinerância, o circo é uma grande referência conceitual para o projeto. Um tipo de arte de origens muito populares, é comum que companhias de circo visitem cidades de interior e lugares onde há pouca oferta de atividades de lazer e eventos culturais, sendo sua presença um evento de grande importância. Assemelha-se ao teatro mambembe em sua itinerância e no nomadismo dos seus artistas. Interessa como referência também a simplicidade de suas estruturas, facilidade de transporte e a utilização de materiais, como a lona, muito adequados a arquitetura temporária. Além disso, o circo possui um caráter lúdico e de fantasia que interessa muito para a concepção deste trabalho.

PROJETO: Instant City AUTORES: Archigram Projeto utópico criado por um grupo de arquitetos ingleses, formados nos anos 60, chamado Archigram, com a proposta de levar uma “cidade instantânea“, com elementos culturais das grandes metrópoles, para as pequenas cidades do interior, onde estes elementos ainda não haviam chegado. O projeto consistia em arquitetura itinerante, como um grande circo coberto de lonas erguidas por balões, carregadas por zepelins, onde se instalavam atividades de entretenimento, como shows e apresentações midiáticas. Vinha do nada, interagia com a comunidade durante o período e ia embora. Serve como referência para o projeto pela ideia conceitual de, através de um acontecimento e uma presença física de arquitetura, levar um tipos de prática cultural urbana e despertar interesses sobre elas.

teatro na idade média Durante a idade média, havia forte domínio da Igreja Católica e o teatro era dividido entre o teatro religioso, organizado pela Igreja, com representações de peças bíblicas no próprio espaço religioso ou em frente a ele; e o teatro “mambembe”, cujos artistas podem ser chamados de saltimbancos. Este último, era realizado por artistas independentes que o faziam de maneira itinerante. Sem moradia fixa, andavam em carroças onde carregavam todos os seus pertences e que muitas vezes se adaptavam como palcos, onde faziam as apresentações. Estes artistas eram fortemente reprimidos pela igreja, por isso a dificuldade de suas práticas e a necessidade de itinerância. Este tipo de teatro permaneceu posteriormente com os grupos de Commedia dell’arte. Apesar de ser decorrente de suas dificuldades, a sua prática serve como referência por levar atividades culturais ao espaço urbano, de forma itinerante, ativando os espaços por onde passavam.

Imagem 01 e 02: Imagens ilustrativa de grupo de teatro mambembe. Fonte: Apostila de Oficina permanente de Teatro / História do teatro. UFSC. http://dc423.4shared.com/doc/iKjqVHXh/preview. html Imagem 03: “Actors from the Commedia dell’Arte on a Wagon in a Town Square”, 1640 (?), de Jan Miel. Fonte: http://lute.musickshandmade.com/paintings/ view/536#sthash.x0Cf8xtF.dpuf Imagem 04: Foto ilustrativa de circo. Fonte: http://lute.musickshandmade.com/paintings/ view/536#sthash.x0Cf8xtF.dpuf

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REFERÊNCIA GUGGENHEIM LAB

PROJETO: Guggeinhein LAB. AUTORES: Atelier Bow.Wow LOCAL e DATA: Itinerante. Já erguido em Nova Iorque (2011) Berlim (2012) e Mumbai (2013). Este último em uma versão em Bambú. O projeto foi idealizado para oferecer infraestrutura para os eventos do Guggenhein LAB, que promove debates e palestras sobre o espaço urbano nas cidades. Consiste em uma estrutura suspensa, como um urdimento de teatro móvel. Todas as atividades ocorrem no nível do térreo, no espaço em que se insere, e a caixa suspensa acima, revestida com uma malha semi-transparente, guarda a infraesturura necessária para a realozação das atividades, com um sistema flexível capaz de sustentar móveis, equipamentos de áudio, iluminação e projeção. Possui varandas técnicas circundando o interior da caixa para manuseio e manutenção dos equipamentos. É temporário, entretanto sua montagem não é tão simples e não é autoportante, dependendo de fundações no terreno.

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Os pontos destacados como referência para o projeto são: + A pouca interferência visual no espaço em que se insere no nível do térreo, apenas pelos pilares de sustentação, sem a colocação de um piso ou mudança de nível, não criando uma outra espacialidade, mas fortalecendo o espaço em que se insere como local do evento. + A possibilidade de fechamento através de cortinas, possibilitando a criação de uma nova espacialidade caso seja desejado. + O suporte técnico de iluminação, som e imagem, tornando possíveis diversas atividades em uma mesma base de estrutura. + Através da presença da estrutura, ativa istantaneamente o espaço. + Ter sido feita uma adaptação em bambú para Mumbai.


REFERÊNCIA

ARBOL DEL AIRE - shangai

PROJETO: Árbol del aire AUTORES: Ecosistema Urbano LOCAL e DATA: Parte do pavilhão de Madrid na Expo Shangai, 2010 Foi pensado como um protótipo experimental de intervenção no espaço público urbano, para de reativar locais e criar as condições de uso do espaço coletivo. É uma adaptação do projeto de Eco-boulevards, do mesmo escritório, que tem fins social, com o objetivo de gerar atividade, fins ambientais, pois possui um sistema que cria um microclima dentro da estrutura com refrigeração natural, baseado nas condições climáticas externas. Consiste em uma estrutura metálica com diversas possibilidades de fechamento, podendo servir como suporte para atividades no esáço público. O projeto foi declarado como bem comum da humanindade, de livre reprodução e apropriação. Os pontos destacados como referência para o projeto são: + O formato circular, por não ter frente, lateral e fundos e representar uma forma simbolicamente adequada para as intenções de projeto. + Permite várias configurações finais. Opacidade, fechamento translúcido, abertura total, projeções, etc. + Assim como observado no Guggenheim Lab, porém um pouco menos neste, há pouca interferência visual no nível do térreo, possui permeabilidade e não há um piso diferenciado, não criando uma nova espacialidade. + O caráter lúdico que a forma e os sensores climáticos na parte superior transmitem

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REFERÊNCIA vagón del saber

PROJETO: Vagão do Saber AUTORES: Al Borde LOCAL e DATA: Equador, 2012 CLIENTE: Ministério da Cultura e Patrimônio do Equador

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Um vagão abandonado do sistema ferroviário do Equador foi transformado em um centro itinerante de cultura e lazer, em que são realizadas apresentações musicais, festas, peças de teatro, oficinas de capacitação e outras atrações totalmente gratuitas por onde passa. Chama a atenção como referência por: + Poder abrigar diferentes atividades e conformar diferentes ambientes com versatilidade e facilidade. + Ser uma iniciativa de resgate cultural financiada pelo governo + Possuir um mobiliário flexível de apoio


ra

REFERÊNCIA

chuck-a-luck arnhem K CHUC -AK a piece of art LUC for presikhaaf ra

chuck-a-luck

laborberlin um

THE NING

BEGIN

1953, a new city district of Arnhem arises. Presikhaaf.

At the same time, 50 kilometers away from Presikhaaf, M.C. Escher draws one of his most popular works «Relativity».

© 2012

laborberlin um

© 2012

ein projekt von

M.C. R ESCHE

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orb ab

2013 CHUCK–A–LUCK arrives in Presikhaaf.

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OP EL EV NT D E RE M

One of the new buildings is the MFC Presikhaven. The stairs and arena in the center of the house are one of the new public meeting points in the city.

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50 years later the redevelopment of Presikhaaf is in full swing.

laborberlin um

M.C. ESCHER Maurits Cornelis Escher (17 June 1898 – 27 March 1972) was a Dutch graphic artist. He was born in Leeuwarden, The Netherlands, in a house that forms part of the Princessehof Ceramics Museum today. He was the youngest son of civil engineer George Arnold Escher and his second wife, Sara Gleichman. In 1903, the family moved to Arnhem, where he attended primary school and secondary school until 1918.

© 2012

laborberlin um

New century and M.C. Escher goes 3d ???

MFC EN HAV PRESIK © 2012

SCHOOL KIDS CLUB

URBAN ION ERAT REGEN

ADMINISTRATION

let’s see what will happen

MEETING POINT

POLICE

GYM

SCHOOL

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© 2012

laborberlin um

20. August 2013 22pm. Fitzcarraldo with Popcorn. And everyone is happy.

N! ACTIO

INTER

14. June 2014

ra

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LIBRARY

laborberlin um

laborberlin um

IG THE B ING ! N HAPPE

© 2012

© 2012

ACTION! ra

laborberlin um

ULIOTNAI-L! M FUNCT

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In every position new possibilities...

laborberlin um

! RSITY

DIVE

© 2012

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© 2012

laborberlin um

ESS!

PROC »

K -LUC

DETERIORATE

DEVELOPMENT PLAN

Vacancy

Aging - Lack of renewal NOW

BEFORE

1. July 2014. Theater time!

RENOVATION MIX

DIVERSITY Attractivity

Communication AFTER

© 2012 Suitable

DYNAMISM

13. May 2015

laborberlin um

SHOW

!

© 2012

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AUTORES: Raumlabor Berlim LOCAL e DATA: Holanda, 2012 (não construído)

INADEQUATE

Appropriation

PROJETO: Chuck-a-luck

Com caráter de intervenção, é uma estrutura móvel e para ser colocada em espaços públicos. Possui forma cúbica e, como um dado, pode ser girado de tempos em tempos, oferecendo conformações diferentes. Os pontos destacados como referência para o projeto são: + A possibilidade e intenção de interação entre o público local e a estrutura, através das escadas e da possibilidade de interagir físicamente com ela, como tática de ativação, por provocar curiosidade de subir, percorrer e se apropriar da estrutura. + A imagem lúdica do elemento estranho ao local, despertando curiosidade + As diferentes apropriações permitidas pela interação corporal com a estrutura como incentivo a resistência à passividade dos corpos na cidade e a provocação de diferentes pontos de vista do espaço ao subir. + A possibilidade de mudar de conformação, renovando a estrutura a cada vez que ocorre.

ACTION! UNITY / CONTRAST

CK-A

«CHU DECLINE

laborberlin um

ADSHIOOP! R WORK © 2012

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REFERÊNCIA

caminhão trapézio

PROJETO: Caminhão trapézio AUTORES: Desconhecido. Utilizado pelo grupo Picadeiro Aéreo, parte da companhia Picadeiro Circo Escola. LOCAL e DATA: Itinerante. Data de criação desconhecida.

O picadeiro aéreo faz parte do espetáculo Brasil Lux da companhia Picadeiro Circo Escola. O chamado Caminhão Trapézio, com com 30 metros de cumprimento e 16 metros de altura, permite aos sete trapezistas do grupo saírem da tradicional lona de circo para apresentações ao ar livre. Destaca-se neste projeto: + O suporte a prática circense, já comentada no trabalho como referência conceitual. + A itinerância, podendo levar o espetáculo a áreas onde haja carência de atividades culturais. + A leveza e permeabilidade visual. + As possibilidades de pendurar equipamentos e dos artistas se pendurarem para a realização das acrobacias aéreas.

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REFERÊNCIA aeroflorale ii

PROJETO: Aeroflorale II AUTORES: Coletivo artístico La Machine, Nantes, França. LOCAL e DATA: Itinerante. Montada pela primeira vez no Bauhaus Color Festival, na Alemanha, 2010. Já foi para diversos outros países.

A estrutura faz parte de expedição botânica que reúne culturas e plantas de todo o mundo com o objetivo de desenvolver fontes alternativas de energia. Funciona como uma estufa itinerante, carregando diversas espécies. Apesar de aparentar se mover sozinha, é montada e desmontada em cada local onde é inserida. Os pontos destacados como referência para o projeto são: + A estrutura estranha ao espaço, que através da presença física e altura, por si só, já atrai a curiosidade e atrai o público, ativando o espaço. + As características e elementos lúdicos da forma, que geram uma visão direrenciada sobre o espaço, o momento e a vivência que se está tendo e provocando uma memória diferenciada do local.

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01 Retirada das sapatas do caminhão

02 Locação e ajuste das sapatas

03 Retirada e montagem das plataformas e guarda-corpo

06 Encaixe e fixação dos pilares e da escada nas sapatas

07 Montagem, içamento e fixação de pilares da plataforma superior

08 Encaixe e fixação dos pilares da plataforma superior nos pilares da plataforma inferior, formando um pilar contínuo

04 Içamento da primeira plataforma

09 Finalização da montagem.

Imagens retiradas de vídeo no Youtube, referente a montagem do Urban Camping na cidade de Antwerp, Bélgica, em 2010. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=aStuP3hLjiQ#t=25 e acessado em 20/06/2014.

05 Encaixe e fixação dos pilares na plataforma içada

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processo de montagem - urban camping ii


REFERÊNCIA estrutural URBAN CAMPING PROJETO: Urban Camping II AUTORES: Import.Export Architecture LOCAL e DATA: Itinerante. Já erguido em Antuérpia (Bélgica), Copenhague (Dinamarca) e Amesterdã (Holanda). Trata-se de um projeto de arquitetura itinerante para acampamento urbano, como busca de solução para alojamento em viagens de baixo custo. Trata-se da verticalização de espaços para montagem de barracas em diversos níveis. Deste projeto, interessam muito a leveza estrutural e a simplicidade de montagem, nos seguintes aspectos: + Os pilares esbeltos e os demais elementos da estrutura causam pouca interferência visual na paisagem e permeabilidade. + Sistema estrutural não convencional, diferenciando-se de outros sistemas que já remetem a práticas específicas + Assim como outros projetos apresentados, não interfere de maneira muito imponente no espaço, criando outra espacialidade, mas conta apenas com a estrutura suspensa e permeável. + Cria uma ambiência no térreo propícia a diferentes apropriações e convívio através das sapatas temporárias. + Facilmente transortado e facilmente executado, sendo necessária pouca mão de obra e equipamentos, apesar de seu porte. + Utilização de elementos leves e de fácil transporte, como o guarda-corpo fechado em tela. + Seus elementos são transportados individualmente e montados no local, facilitando a itinerância. + A concepção estrutural do projeto permite que os níveis sejam montados de maneira independente, podendo assumir diferentes conformações

Imagens retiradas de reportagem online no periódico Dezeen http://www.dezeen.com/2009/06/18/urban-camping-by-importexport/

As imagens na página ao lado mostram o processo de montagem da estrutura.

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Início da definição da forma. Croquis de partido.

Croquis mais iniciais, anteriores ao conhecimento de boa parte das referências e estudo mais aprofundado do programa

Desenvolvimento do partido

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concepção formal

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concepção formal

CROQUIS INICIAIS DE PARTIDO

A estrutura, como já dito anteriormente, consiste em um esqueleto que serve como suporte para diferentes tipos de atividades. Alguns conceitos, formados a partir da observação das referências e de pretensões anteriores, dirigiram a concepção formal, como: + Térreo o mais livre possível, para que o espaço em que a estrutura se insere se afirme como espaço em questão. + Altura: Intenção de marcar presença física e chamar atenção para o acontecimento de maneira lúdica. + Incorporação: que as pessoas possam subir e percorrer a altura como forma de se apropriar e incorporar a estrutura, além de terem uma visão diferenciada do espaço em que se insere. + Permeabilidade e leveza, para ter o mínimo de interferência no espaço, além da cobertura lúdica. + Portabilidade e praticidade de execução + Formato circular: Ideal. Sem frente, pontos concêntricos, simbologia do círculo: harmonia, pureza, totalidade + Possibilidade de diversos tipos de conformações, de acordo com as diferentes apropriações e atividades possíveis. + Possibilidade de montagem de palco para apresentações Os croquis a seguir não correspondem a forma final, mas há uma importante etapa da concepção do projeto, onde muitas diretrizes já estavam definidas e se mantiveram. Início da concepção da forma: Croquis de partido. Não correspondem a forma final.

Pensar na forma a partir da escala do encontro e do debate foi de fundamental importância para o início da concepção, para pensar nas medidas básicas, distâncias máximas e formas adequadas.

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concepção formal

CROQUIS INICIAIS DE PARTIDO

O primeiro nível foi pensado, desde os primeiros estudos, com a possibilidade de dar suporte de luz, iluminação, som e para possibilitar fechamentos das laterais através de cortinas. O piso, como visto, é o piso local, porém há sempre houve a intenção de se montar um palco, ou qualquer outra utilização que necessite de uma elevação de piso, caso haja a intenção.

Como um esqueleto a ser apropriado, foi dada muita importância para a possibilidade de se pendurar elementos na estrutura, tanto como cenografia, quanto informativos e até mesmo, para a apropriação das pessoas, como com a utilização de lenços e balanços pendurados.

A forma circular foi vista como mais adequada principalmente a partir do momento em que foram estudadas as possibilidades de atividades de debate. As medidas foram sendo pensadas de acordo com as possíveis atividades. Chegou-se a largura de 8m, aproximadamente, como ideal máximo para a extensão da estrutura no térreo, por ainda permitir o debate, por ser uma medida suficiente para a montagem de um palco para apresentações, por exemplo, e por ser uma medida comum de caixa de rolamento de rua, permitindo que a estrutura seja montada em uma rua.

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formal FINAL

DESENVOLVIMENTO DO PARTIDO E FORMA FINAL

A partir das diretrizes e do lançamento do partido, foram sendo estudadas formas e sistemas construtivos, de acordo com as possíveis atividades a serem realizadas, até se chegar a uma forma final.

Elemento lúdico

Cobertura leve e de fácil transporte

Pilares esbeltos, leveza, permeabilidade visual Suporte a equipamentos de luz, som e imagem

3 apoios - mínimo estável Térreo o mais livre possível

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forma final

PERSPECTIVA ilustrativa - forma final

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forma final

Pela dificuldade de execução e montagem da forma circular, optou-se por adaptá-la buscando polígonos similares ao círculo, pensando, inicialmente, no hexágono.

FORMA BÁSICA

COBERTURA TÊXTIL Cobertura em Lona Tensionada, com balões infláveis presos nas extremidades de sua estrutura.

Percebeu-se que a ligação entre vários hexágonos da origem a um polígono de maior, com mais lados, e que para que sua forma se aproximasse mais ainda de um círculo, era necessário apenas adicionar uma nova forma, triangular, entre os hexágonos da extremidade.

Com a intenção de simplificar mais ainda o a forma, os hexágonos foram desmembrados em dois trapézios cara, para que os elementos formais fossem ainda menores e mais elementares.

SEGUNDO NÍVEL Patamar técnico. Pode ser acessado através de escada de marinheiro, serve para manutenção da cobertura. Sob suas plataformas são possíveis as mesmas coisas do primeiro nível, além de fixação de roldanas para içar elementos pesados até o primeiro ou segundo nível

E, espelhando para fora as formas trapezoidais, poderia se alcançar um polígono próximo ao círculo de raio ainda maior.

PRIMEIRO NÍVEL Possível acesso do público. Sob suas plataformas é possível fixar iluminação , cortinas ou qualquer outro elemento desejado através de trilhos. Desta forma, o desmembramento do formato circular em 3 formas básicas (triângulo, trapézio e retângulo) conforme mostra-se ao lado, permitindo diversas montagens e quase círculos de diferentes raios.

ESCADA PRÉ-FABRICADA Escada helicoidal pré-fabricada desmontável. Dependendo do uso, podem ser colocadas duas escadas.

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PERSPECTIVA EXPLODIDA ESQUEMÁTICA


FORMA FINAL

OUTRAS CONFORMAÇÕES A estrutura foi pensada em uma forma básica, mas para que pudesse ser flexível e adaptável a diversas situações. Alguns exemplos de mudanças de conformação podem ser observados abaixo e, mais a frente também, nas construções de situações.

Projeções externas nos balões Apenas um nível

Cobertura Têxtil Intercambiável Cobertura retirada

Núcleo interno

Primeiro e segundo nível com a mesma largura

Iluminação fixada sob plataformas

Cortina fixada sob plataformas Montagem de palco com as plataformas

Fechamento total da área de um nível

Dentre muitas outras...

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DESENHOS TÉCNICOS FORMA BÁSICA

VISTA - Escala 1:75

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planta baixa - nível térreo - Escala 1:75

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planta baixa - nível 1 - Escala 1:75


planta baixa - nível térreo - Escala 1:75

planta de cobertua - nível 1 - Escala 1:75

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elementos construtivos

ESTUDO DE COMPOSIÇÃO DOS ELEMENTOS

Escape de ar para o túnel de vento provocado na lona.

Os pilares se encaixam nas plataformas, que funcionam travamentos, por isso são reforçadas por onde eles passam.

perspectiva da forma básica

esquema estrutural Os pilares articulados são fixados em sapatas temporárias.

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elementos construtivos

ESTUDO DE COMPOSIÇÃO DOS ELEMENTOS

Furo para rosqueamento de guarda-corpo

do

o perfura

metálic a de piso

Plac

a em Plataform

tálicos

perfis me

Plataforma e piso - sem escala Permeabilidade para o vento Permeabilidade visual Leveza

Peça 01 - planta baixa - Escala 1:25

Perfis tubulares enroscados Fixação enroscada

01

corte aa - guarda-corpo - Escala 1:25

SAPATA e pilares - Escala 1:25

Peça 02 - planta baixa - Escala 1:25

02 Tela metálica

e AA

Cort

03 Peça 03 - planta baixa - Escala 1:25

ESQUEMA DE de guarda-corpo - sem escala

Ligação pilar - platafomra

Ligação pilar - pialr

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CONSTRUINDO SITUAÇÕES

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“A Internacional Situacionista (IS) – grupo de artistas, pensadores e ativistas – lutava contra o espetáculo, a cultura espetacular e a ‘espetacularização’ em geral, ou seja, contra a nãoparticipação, a alienação e a passividade da sociedade. O principal antídoto contra o espetáculo seria o seu oposto, a participação ativa dos indivíduos em todos os campos da vida social e principalmente naquele da cultura. O interesse dos situacionistas pelas questões urbanas é uma conseqüência dada por estes ao meio urbano como terreno de ação, de produção de novas formas de intervenção e de luta contra a monotonia, ou ausência de paixão, da vida cotidiana.” (JACQUES, 2003, P.13)


sobre a construção das situações

RELAÇÕES ENTRE AS IDÉIAS SITUACIONISTAS E AS DIRETRIZES DO PROJETO “A situação é feita de modo a ser vivida por seus construtores. O papel do “público”, senão passivo pelo menos de mero figurante, deve ir diminuindo, enquanto aumenta o número dos que já não serão chamados atores mas, num sentido novo do termo, “vivenciadores”.“ (JACQUES(org), 2003, p.62)

Os Situacionistas, grupo de grupo de artistas, pensadores e ativistas, cujo maior representante foi Guy Debord, acreditavam que só seria possível chegar a uma transformação revolucionária da vida cotidiana aconteceria somente através da construção de situações. Em uma das edições da revista produzida pelo grupo, lançam um relatório de “Questões preliminares a construção de Situações”, onde pode-se perceber semelhanças e possíveis analogias entre a teoria Situacionista e as intenções do projeto, relacionadas a tática de ativação de espaços públicos.

Baseando-se nesta ideia, a proposta é que a presença da estrutura faça parte da construção de situações onde o objetivo principal é a ativação de um espaço público da cidade por parte de moradores, principalmente em áreas urbanas que estejam necessitando de uma maior apropriação. A presença da estrutura e das atividades deve ser uma tática mobilizadora, não uma ação unilateral. A participação e mobilização das pessoas é o que dará sentido a sua presença e ativará o espaço. Desta forma, antes da chegada da estrutura, seria feita uma aproximação inicial ao local, onde seriam percebidas suas demandas e potencialidades para que, de acordo com este reconhecimento, fossem promovidas atividades que envolvam a participação direta dos moradores durante o tempo de instalação. A situação não se dará somente pela presença da estrutura e das atividades, mas pelo desenrolar dos acontecimentos e da participação das pessoas. Assim como é proposto no escrito à direita, no início, haverá um grupo de agentes que organizará a situação.

“A situação construída, por sua preparação e seu desenrolar, é forçosamente coletiva. Pode porém ocorrer que, pelo menos no período das experiências iniciais, um indivíduo exerça, em dada situação, uma certa predominância, faça o papel de roteirista. A partir de um projeto de situação, elaborado por uma equipe de pesquisadores, que marque, por exemplo, uma reunião emocionante de algumas pessoas, será necessário fazer uma distinção entre o diretor ou roteirista - encarregado de coordenar os elementos prévios de construção do cenário, bem como de prever algumas intervenções nos acontecimentos (este último procedimento pode ser repartido por vários responsáveis mais ou menos cientes dos planos de intervenção dos outros)”

SITUAÇÃO TÁTICA COATIVAÇÃO estrutura Esqueleto

indivíduos

(JACQUES(org), 2003, p.62, grifo nosso)

Os grupos culturais citados quando se trata da Retomada da rua, podem ser agentes de situações, ou qualquer outro ator que tenha relação com os potenciais e demandas percebidos para a área. Entretanto, o desenrolar da situação é inesperado e imprevisível, pois conta com a incorporação dos “vivenciadores“, que a torna mais potente.

atividades Cultura, arte, práticas urbanas, política...

ESPAÇO PÚBLICO

A localização das situações deve ir além dos espaços físicos. Devem estar localizadas também nos diferentes debates culturais, questões sociais, causas políticas e problemas urbanos presentes e espacializados nos locais onde elas ocorrerão. Onde a estrutura será instalada, com que conformação e o que deve levar deve depender das demandas e vocações locais, a partir das quais serão feitas montagens táticas que terão a intenção de impulsionar, induzir e provocar. Foram feitas algumas montagens de situações a fim de exemplificar os possíveis usos e conformações da estrutura, assim como possíveis locais de situações. Logicamente, para uma realização de fato das situações, a realização ideal exigiria uma aproximação mais aprofundada dos espaços e maior levantamento de possibilidades.

mapa de localização - exemplos de situações Região metropolitana do Rio de janeito - Cidade do Rio de janeito

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Situação 01

Evento cEsportes urbanos, grafite e música em Irajá Local : Praça Nsa. Senhora da Apresentação, Irajá, Rio de Janeirjo Av. Brasil Favela Acarí

Praça Nsa. Sra. da Apresentação Ceasa

Favela Para-Pedro

Favela Nsa. Sra da Apresentação

Linha 2 Metrô

Contexto: A praça Nossa Senhora da Apresentação fica localizada em uma área central do bairro de Irajá, com muitas comunidades de baixa renda em seu entorno. Possui uma área muito extensa que, com exceção do uso do campo de futebol, é pouco apropriada pelos moradores da região e por outros públicos. Potenciais: Alguns espaços da praça e características da sua morfologia e localização se configuram como potenciais para diferentes tipos de apropriação. Pista de Skate: Já existe uma pista de skate cujo uso pode ser estimulado Desníveis: A praça possui diversos desníveis e obstáculos que podem ser utilizados para a prática de parkour. Áreas livres: Possui muita área livre com potencial para festas e eventos Culturais e oficinas diversas.

Atividades: Oficinas de esportes urbanos (Skate, Parkour, Patins), com para crianças e adultos. Oficinas de Graffiti, com produção de painéis a serem fixados na grade da quadra posteriormente, e aulas, para posterior pintura dos muros da Linha 2 do Metrô. Festas à noite, com batalhas de Mc’s e apresentações de grupos locais. Possíveis agentes: Festa Breakz: grupo que realiza festas gratuitas no espaço público (Aterro do Flamengo, Praça XV, Pedra do Leme), Costuma atrair público de praticantes de esportes urbanos. Realização de festas durante as noites. Associação Cultural do Skate Carioca: Grupo responsável pela manifestação I Love XV, que reivindicou a legalização legalizar a prática do skate na Praça XV de Novembro em horários pré-determinados. Agentes de oficinas e atividades com skate. Grupo Parkour Rio: Praticantes de Parkour na cidade do Rio de Janeiro. Oficinas e atividades de Parkour.

Projeções no núcleo central

Dj e caixas de som ao longo do primeiro nível

Equipamentos de luz presos na parte inferior das plataformas

Campo de Futebol

Pista de Skate

Igreja Nossa Sra. da Apresentação

“Falta de espaço, definitivamente, não é problema na Praça Nossa Senhora da Apresentação, em Irajá. Com 16.900 metros quadrados, o local poderia servir como ponto de encontro para os adultos, além de ampla área de lazer para a criançada. Entretanto, não é bem assim na prática, segundo os moradores da região.” Retirado de reportagem de 01/03/201 http://oglobo.globo.com/rio/bairros/no-meioda-praca-em-iraja-um-vazio-11726433

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Banheiro suporte

químico

para


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Situação 02

Construção de espaço coletivo em Deodoro

Local : Deodoro, Rio de Janeiro A área escolhida corresponde a um canteiro vazio, junto a um cul-de-sac, localizado entre os edifícios do Conjunto Habitacional Getúlio Vargas, à beira da Avenida Brasil.

Área Militar (Futuro Autódromo do Rio de Janeiro) Av. Brasil

Linha de Trem

Conjunto Habitacional Getúlio Vargas

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Contexto: Construído em 1953/54, e composto por 19 blocos de apartamentos, o conjunto é um exemplo signifcativo das tendências da época de construção de conjuntos habitacionais de grande porte, compostos por numerosos blocos de apartamentos, abrigando grande número de moradores e, com isso, gerando uma grande demanda por espaços público de lazer. Ao longo da Avenida Brasil podem ser observadas várias situações semelhantes. O tipo de ocupação destes conjuntos, em blocos difusos, dá origem muitos espaços residuais que se configuram como áreas públicas livres, áridas e pouco apropriadas, em uma região onde ja há carência de espaços públicos de lazer e eventos culturais A exemplo desta demanda na região ao longo da Avenida Brasil, em abril de 2014, moradores da Maré se aproproveitaram da interdição da Avenida para obras e se apropriaram espontaneamente do espaço como um parque linear, através de churrascos na calçada, passeios de bicicleta e à cavalo, corridas , entre outras práticas. Potenciais locais: A área, apesar de ser um vazio, possui alguns elementos que podem ser vistos como potenciais. A presença de um bar ao lado ajuda no processo de ativação por ser um local que promove o encontro. Uma estrutura já existente pode servir como suporte para a construção de uma churrasqueira ou forno de pizza, se for do interesse dos moradores. As áreas de gramado podem servir para a criação de uma horta urbana que, além de promover trocas e encontro no processo de sua manutenção, pode oferecer subsisência de alguns mantimentos alimentícios. Nos espaços vazios, sonretudo na área de sombra embaixo de uma árvore, podem ser levados ou construídos mobiliários, parquinhos infantis, dentre outras inumeras possibilidades, de acordo com o que os moradores apontassem como vocação do espaço. Neste caso, a estrutura sera montada apenas até o primeiro nível como suporte aos materiais e atividades levados e como marco, presença física e lúdica no reconhecimento da situação.

Atividades: A ida da estrutura tem a intenção de promover uma construção participativa de um espaço de lazer para os moradores. Durante o tempo da intervenção, os próprios moradores apresentam suas demandas e desejos para o local, ao mesmo tempo em que são levadas possíveis práticas de apropriação, para testá-las espacialmente e perceber as vocações do espaço através da indicação dos próprios usuários. Podem ser levados paletes para construção de mobiliário, brinquedos infantis, horta urbana, churrasqueira, oficinas de rolimã, entre dentre várias outras práticas de possível ativação do espaço. O que permanecerá e onde permanecerá será decidido no próprio desenvolvimento da situação. Os potenciais levantados podem ser usados, inclusive, como levantamento de demandas para a realização de um projeto de praça para o local.

Castelo d’água

Bar


Estrutura em conformação menor, de apenas um nível. Funciona como marco visual, pólo gerador de atividades, para chamar atenção e atrair os moradores para a situação.

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Situação 03

Museu Nacional de Belas Artes

Cinema e manifestação política na Cinelândia Projetor no núcleo central, com acesso por escada portátil.

Biblioteca Nacional

Câmara Municipal Antigo Cineac Trianon Antigo Cine Capitólio

Centro Cult. da Justiça Federal

Local: Praça Floriano Peixoto (Cinelândia)

Antigo Cine Pathé Teatro Rival

Sede Clube Militar

Equipamentos de som nas plataformas do primeiro e segundo nível

Potenciais: A Cinelândia possui grande valor cultural por já ter abrigado muitos cinemas da cidade ao longo do tempo. Aos poucos, todos foram fechando e, Recentemente o último deles foi fechado, o Cine Odeon. A praça também possui grande importância como palco de manifestações políticas. Apesar de ser um espaço ativado em muitos aspectos, a sua grande visibilidade e potencial de envolvimento da população para questionamentos e manifestações faz com que seja interessante a construção de uma situação inusitada ali, como um questionamento da falta de cinemas na Cinelândia.

Antigo Cine Odeon

Possibilidade 01

Atividades: Uma situação poderia levar cinema ao ar livre para a praça e, além disso, visto que a questão do fechamento dos cinemas está relacionada com questões políticas e legislativas, ser realizados debates políticos e manifestações a respeito do fechamento dos cinemas. Tela de projeção em toda a extensão do primeiro nível, presa nos trilhos sob plataformas do segundo nível.

Equipamentos de som nas plataformas do segundo nível

Exemplo de mobiliário de apoio

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Possibilidade 02

Possíveis agentes: Grupo Cinemão, Coletivo Projetação, além de diversos outros grupos que promovem cinema na rua. Grupos estudantis relacionados as áreas de cinema e produção cultural, etc.


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Situação 04

EventCirco no Catumbi Local: Rua Van Erven, Morro da Mineira, Catumbi Contexto: Uma área complicada em relação a violência e apropriação do espaço. Potenciais locais: A área corresponde a um largo na entrada do Morro da Mineira, no Catumbi. Este tipo de local é interessante para uma intervenção por ser quase um limite entre a cidade formal e a favela, podendo atrair a diferentes públicos. A área tem um grande vazio por estar próxima de zona de torrer de energia, com ocupação proibida. O largo já possui alguma ocupação com barraquinhas e possui muito potencial para uma apropriação efetiva dos moradores. Desta forma, quase qualquer evento cultural proposto ali poderá ser um ememento impulsinador de ativação do espaço, além de movimentar o comércio local já existente. Atividades: Poderia ocorrer um evento circense no local, com oficinas, aulas e apresentações. Este tipo de atividade é interessante porque além de servir para ativar o espaço urbano, pode atrair os moradores a uma prática.

Avenida Presidente Vargas

Escola Nacional de Circo

Cidade Nova

Morro da Mineira

CATUMBI

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Campo de Sant’anna


Possíveis agentes: Além da própria Escola Nacional de Circo, por exemplo, poderiam participar outros grupos circenses como o Grupo Circo no Ato (foto abaixo), por exemplo, que já possui um programa social de atuação em favelas. A idéia é que as situações criadas também possam servir como articuladoras de agentes culturais.

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A salvo em risco de chuva, a estrutura pode ser montada sem a cobertura tênsil. tornando-se mais permeável

Torres de alta tensão

Barraquinhas

Topografia acidentada

Primeiro nível configurado em semi-círculo para melhor visualização das apresentações.

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Situação 05

Biblioteca e exposição no Jacarezinho

Rua Leopoldo Bulhões

Biblioteca Parque de Manguinhos

Av. Dom Hélder Câmara

Fechamento completo do primeiro nível para a montagem de exposição

Local: Travessa Jerusalém, Jacarezinho, Rio de Janeiro. Contexto: Semelhante ao observado no Catumbi, também é uma entrada de comunidade. É localizada próxima ao bairro Maria da Graça, onde ainda vivem muitos descendentes de portugueses. Potenciais locais: Além de ativar o espaço e os moradores ao seu uso, seria uma maneira da Biblioteca ir até a comunidade e não o contrário, servindo como um incentivo à sua visitação. Atividades: A Biblioteca Parque poderia levar parte do seu acervo e realizar outras atividades como impulso para a situação, como exposições, exibição de filmes e oficinas de teatro, por exemplo.

Maria da Graça

Jacarezinho

Rua Galileu

Travessa Jerusalém

Prateleiras de livros penduradas sob plataformas do primeiro nível.

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Referências bibliograficas: CARERI, Francesco. Walkscapes: o caminhar como prática estética. São Paulo: G.Gili, 2013 CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo: Comentários sobre a sociedade do espetáculo, Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. FONTES, Adriana Sansão. Intervenções temporárias, Marcas permanentes: apropriações, arte e festa na cidade contemporânea. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. JACQUES, Paola B. Elogio aos errantes. Salvador, BA: EDUFBA, 2012 JACQUES, Paola B. (organizadora). Apologia da Deriva. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003. KWON, Miwon. Um lugar após o outro: anotações sobre o site-specificity. Revista October 80 Spring 1997 MARQUES, Rafael Adriano. Cidade Lúdica: um estudo antropológico sobre as práticas de parkour em São Paulo [dissertação]. São Paulo, 2010 ROSA, Marcos L. Microplanejamento: práticas urbanas criativas. São Paulo: Cultura, 2011 SARAIVA Jr, Sérgio de Lima, O Grafite como prática espacial, a produção do Grafite para além da imagem [dissertação], Belo Horizonte, MG, Escola de Arquitetura da UFMG, 2012

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TFG - Estrutura Itinerante Polivalente - Camila Ennes  

Trabalho Final de Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal Fluminense, 2014.1

TFG - Estrutura Itinerante Polivalente - Camila Ennes  

Trabalho Final de Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal Fluminense, 2014.1

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