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Herdeiros de grandes empresas investem no próprio negócio e saem da sombra de seus antecessores

Empreendedorismo na

veia

Por Camila Mendonça

Q

uando eles nasceram, os pais já comandavam impérios. Filhos de grandes empresários, poderiam seguir à frente dos negócios da família, mas não quiseram. Cada vez mais, a geração de herdeiros de empresas familiares quer construir o próprio legado, seja seguindo uma profissão ou abrindo o próprio negócio, à exemplo da família. Diferente do que ocorria no passado, os sucessores não se sentem obrigados a continuar o que os pais ou mesmo os avós começaram. E nem as famílias im-

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põem isso. Uma explicação é que a competição entre as empresas é cada vez maior e exige profissionalização das companhias familiares, que passam a apostar em executivos de mercado. “Não é vantajoso para nenhuma empresa manter alguém que não goste do negócio em cargos estratégicos”, considera a sócia de Auditoria da consultoria Crowe Horwath Brasil, Geysa Bendoraytes e Silva. O modo como o negócio interfere na estrutura familiar influencia a decisão dos herdeiros de seguir no comando, explica o professor da HSM Educa-

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ção, Juliano Lissoni. “A dinâmica familiar pode não favorecer o interesse do sucessor pelo negócio. Muito desse processo depende dos valores da família”, afirma. Parte desse movimento de descontinuidade vem também da inquietação de provar à família e a si mesmo que pode conquistar o mesmo sucesso empresarial dos ascendentes. Contudo, os especialistas acreditam que o que move mesmo essa geração é o anseio de fazer algo autoral, ligado aos gostos pessoais e, muitas vezes, bem diferente do negócio construído pelos antecessores.


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Ana Maria Diniz, filha do empresário Abílio Diniz, por exemplo, já foi diretora de operações do Pão de Açúcar e até 2012 fazia parte do Conselho de Administração da Wilkes Participações, holding que controla o Grupo. Porém, foi em 2009 que resgatou a antiga paixão pela dança, que praticou dos 4 anos aos 18 anos, ao abrir o estúdio Anacã Corpo e Movimento, em São Paulo. A paixão por sabores e a vontade de tornar a gastronomia brasileira mais conhecida motivou a empresária Ana Luiza Trajano a seguir o próprio caminho. Filha de Luiza Helena Trajano, executiva à frente do Magazine Luiza, Ana é a única de três irmãos que escolheu empreender e abriu há sete anos o restaurante Brasil a Gosto, em São Paulo. “Queria trabalhar com alguma coisa que eu acreditava e ligar minha paixão pela cozinha ao empreendedorismo”, conta. Desde cedo, ela frequentou as lojas do Magazine e chegou a trabalhar na rede. Do curso de administração de empresas, foi estudar gastronomia na Itália e voltou com o propósito de criar um novo modelo de negócios. “Não troquei de ramo, troquei de vida”, afirma. Diferente de outros restaurantes de comida brasileira,

Ana Luiza Trajano, filha de Luiza Helena Trajano, executiva da Magazine Luiza, comanda o restaurante Brasil a Gosto

todo cardápio do Brasil a Gosto é calcado em pesquisas. O planejamento para a abertura durou dois anos, entre viagens pelo País em busca de novos sabores, contato com fornecedores locais e estruturação geral do negócio. Em sete anos de estabelecimento, o restaurante já apresentou 27 cardápios e a cada ano três novos são colocados à mesa. Para tanto, a empresária realiza ao menos três viagens para preparar os menus e reforça cuidados na gestão do negócio, uma vez que tem de lidar com uma logística complexa para trazer com antecedência ingredientes de todos os cantos do País. “Em um restaurante a grande gestão é de recursos de pessoas e de insumos. É um negócio delicado, porque você trabalha com comida, que é um organismo vivo”, explica.

Para a empresária, a organização é base para administrar seu negócio. “Gestão é algo menos complexo que se pensa. Desde que se estruture uma operação com planejamento. Organização pra mim é simples, porque tenho a visão do todo muito bem estruturada”, avalia. Com tudo no lugar, a empresária consegue um crescimento anual de cerca de 15% ao ano e um faturamento médio mensal de R$ 400 mil. Da mãe, Ana diz que aprendeu o respeito ao trabalho, a ter postura ética, dedicação e seriedade – atributos, conta, que leva para a vida. “Minha família me ensinou a não pensar pequeno. Não foco na concorrência, foco no meu negócio”, diz. Desde o começo, Ana teve o cuidado de evitar que o sobrenome interferisse no seu negócio. “Sempre me descolei, até pelo próprio ramo”, diz.


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Comparações Ao contrário do que ocorre com a chef de cozinha, parte dos sucessores vê suas trajetórias como empreendedores serem comparadas ao dos seus pais. Essas comparações, segundo Geysa, ocorrem principalmente quando os herdeiros passam a atuar no mesmo ramo dos negócios da família. Carina Duek, filha de Tufi Duek, estilista e criador das marcas Triton e Forum, teve de provar que tinha o próprio traço, quando lançou marca que leva seu nome e abriu, em 2009, sua primeira loja, em São Paulo. “Esta pressão no começo existiu como filha e como estilista, pois era necessário provar pra mim e para o mercado minha capacidade”, conta. Carina considera natural que haja comparações, assim como foi natural sua entrada no mundo da moda. Ela conta que desde pequena se interessava pelo assunto, mas nunca foi pressionada pelos pais a seguir o mesmo caminho. Carina trabalhou em vários departamentos da empresa do pai, para entender todos os processos da companhia e decidiu que queria ter a própria marca. “A mulher que idealizo em minhas criações não é a mulher que meu pai tem como estilista. Então seguir meu próprio caminho foi a melhor escolha”, conta. A fase de comparações, afirma, ficou no passado. “Com o tempo, as pessoas perceberam meu estilo”, conta. Do pai, Carina diz que herdou o cuidado na elaboração das peças e na concepção dos estilos. “A cliente quer estar atual e

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“Esta pressão no começo existiu como filha e como estilista, pois era necessário provar para mim e para o mercado a minha capacidade” Carina Duek, estilista e filha de Tufi Duek

usar as tendências com personalidade. Ter um produto com design, qualidade e exclusividade foi uma das heranças do meu pai”, afirma. Com estilo e nome firmados, os negócios cresceram. Em 2010, a marca Carina Duek ganhou outras duas lojas, também em São Paulo. Para 2013, a expectativa é aumentar o faturamento em 20% e, no ano seguinte, abrir estabelecimentos em mais três capitais do País.

Novos caminhos

A inquietação de caminhar com os próprios pés faz com que os herdeiros invistam em negócios bem díspares dos criados pela família. Marcos Amaro, filho de Rolim Amaro, fundador da TAM, abriu a Óticas Carol, recentemente adquirida por R$ 108 milhões por um consórcio de fundos de inveswww.varejoeoportunidades.com.br

timentos estrangeiros capitaneados pelo Grupo britânico 3i. Nathalie Klein, filha de Michel Klein, da Casas Bahia, preferiu investir em moda e criou a marca NK Store em 1997, que hoje conta com lojas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Juliana Santos, herdeira do Grupo João Santos, companhia de cimento, celulose e comunicações de Pernambuco, com forte atuação no Nordeste, também não quis saber da indústria, criada pelo seu avô, e hoje lidera o Dona Santa, loja multimarcas considerada a Daslu do Nordeste, que oferece 40 marcas em um espaço de 1,6 mil metros quadrados, recebe, em média, 3 mil clientes por mês, e registrou um crescimento de 25% de faturamento em 2012. “Claro, que se tivesse optado por trabalhar ao lado do meu pai, seria bem-vinda e ele ficaria muito feliz. Mas a lição em casa foi exatamente a de muito trabalho, perseverança, dedicação e empreendedorismo e queria trabalhar com moda e comércio. Acho extremamente desafiador e sedutor a conquista do varejo e suas nuances dentro da minha área”, diz. A empresária nunca trabalhou nas indústrias do pai, mas com


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ele aprendeu muito sobre gestão. “Sempre fui muito boa no comercial e com ele aprendi a comandar o lado financeiro do negócio”, conta. Ao longo de sua trajetória à frente da loja, Juliana afirma que cometeu alguns erros, como concentrar estoques altos ou fazer compras erradas. Contudo, aprendeu a resolver sozinha os problemas, mas sempre com o apoio dos pais.  Entre os planos para 2014 está a inauguração de uma loja conceito da marca de 5 mil metros quadrados, que oferecerá cabelereiro e restaurante. Juliana ainda tem planos de criar a grife própria da marca, para entrar em mercados de outras regiões.

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Com as próprias mãos

“Se tivesse optado por trabalhar ao lado do meu pai, seria bemvinda e ele ficaria muito feliz. Mas a lição em casa foi exatamente a de muito trabalho, perseverança, dedicação e empreendedorismo e queria trabalhar com moda e comércio” Juliana Santos, herdeira do Grupo João Santos

Negócios bem-sucedidos estimulam o empreendedorismo em toda a família, mesmo naqueles que não são sucessores diretos. Foi o caso de André Diniz, um dos sobrinhos de Abílio. “Sempre senti vontade de ter meu próprio negócio e construí-lo com minhas próprias mãos. E não trabalhar para uma empresa de família, que já está consolidada”, afirma. Em 2007,  ele criou a Urban Arts, marca de arte digital, que começou como um site e hoje tem lojas em São Paulo. O negócio virtual reúne os trabalhos de cerca de 700 artistas cadastrados que são vendidos por preços que variam de R$ 30 a cerca de R$ 400. Nesse conceito de negócio, de fast-art, os artistas se cadastram e oferecem seus trabalhos. Uma seleção interna é feita antes de o produto ser exposto. O site funciona como um catálogo para as lojas. “A gente assessora o lojista, mas a escolha final do produto para o estabelecimento é dele”, explica André. No ano passado, o empresário passou a apostar no modelo de franquias. Das três lojas físicas, uma é já é do modelo. E outras cinco lojas devem ser inauguradas ainda neste ano em Porto Alegre, Campinas, Teresina, Rio de Janeiro, Natal e Belém. “A franquia foi uma opção de crescimento, porque o negócio tem tudo para ser uma rede grande”, diz. Assim como os empresários que saíram da família Diniz, André já pensa a longo prazo e tem como meta ter 100 lojas em dez anos e já estuda ter uma unidade nos Estados Unidos.

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