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A era digital na estante

Redes investem em bibliotecas virtuais para encarar o mercado de e-books, mas não esperam que o formato gere impactos significativos nos negócios, mesmo com a chegada da Amazon ao Brasil Por CAMILA MENDONÇA


Q

Cláudio Wakahara

Sérgio Herz, CEO da Livraria Cultura

Danilo Máximo

ueridinhos dos norte-americanos, os livros digitais ainda são pouco comuns no Brasil. A participação dos e-books no mercado editorial brasileiro representou apenas 9% dos mais de 58 mil títulos lançados em 2011 no País. No período, o Brasil consumiu quase 470 milhões de livros, número 7,2% maior que o registrado em 2010. Ao todo, esse setor faturou mais de R$ 4,8 bilhões. Nesse montante, apenas R$ 870 mil vieram de livros digitais, segundo os dados de mercado mais recentes, calculados pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). Apesar da baixa penetração, as principais redes de livrarias têm investido em bibliotecas virtuais preocupadas em não perder um mercado que pode girar US$ 48 bilhões até 2016, segundo projeção da consultoria PricewaterhouseCoopers. Principalmente agora que a Amazon já desembarcou em território nacional. “É um mercado com possibilidades de crescimento. Temos uma população que está começando a ter algum acesso à renda, que possibilita a compra de plataformas para leitura. Estamos começando a aparecer agora”, afirma a presi- Mansur Bassit, dente do SNEL, Sônia diretor executivo da CBL Machado Jardim. “Está todo mundo correndo para ter ofertas para uma demanda que vem crescendo e crescerá ainda mais. É um caminho que não tem volta”, completa o diretor executivo da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Mansur Bassit. Nesse cenário, há quem queira ser o maior vendedor de livros digitais do País. Este é um dos objetivos da Livraria Saraiva, segundo o presidente da companhia, Marcílio Pousada. A empresa foi uma das primeiras livrarias a vender e-books no País, em 2010. Desde então, a receita proveniente da venda de livros digitais já ultrapassou a venda de livros físicos em 65 lojas da rede em setembro de 2012 – o dado mais recente da companhia. Isso significa que, no ranking de vendas das 97 unidades da rede, a loja digital pulou da 76ª posição em janeiro de 2012 para a 32ª colocação em setembro do mesmo ano. Em novembro, a rede alcançou a marca de 1 milhão de usuários do Saraiva Digital Reader, o aplicativo para leitura de e-books. Na Livraria Cultura, as vendas de e-books cresceram 250% entre 2011 e 2012, segundo o CEO da rede, Sérgio Herz.

“É um novo mercado, que vale a pena investir e esperamos que ele cresça”

“É um novo mercado, que vale a pena investir e esperamos que ele cresça”, avalia o executivo. A livraria vem investindo forte na área. No final do ano passado, lançou seu e-reader, em parceria com a Kobo, concorrente do Kindle. Para o leitor, estão disponíveis cerca de 30 mil títulos. Apesar das boas expectativas, as vendas de e-books representam apenas 1% das vendas totais de livros da rede, que faturou, em 2011, cerca de R$ 340 milhões. Diante das projeções positivas, a Livraria da Vila se prepara para entrar no mercado de livros digitais nos próximos meses, segundo o dono da rede, Samuel Seibel. “É uma plataforma que veio para ficar, com potencial de crescimento inegável”, afirma. Segundo ele, uma das dificuldades para disponibilizar conteúdo digital é o sistema que suportará a implantação da biblioteca virtual.

Fator Amazon Embora sinalizem a importância do mercado de e-books, as livrarias ainda não acreditam em impactos significativos nas operações. “As livrarias, cada vez mais, não são apenas espaços para comprar livros, mas espaços que fornecem experiência”, ressalta Bassit, da CBL. De acordo com Herz, os investimentos nas lojas físicas da Livraria Cultura e na biblioteca virtual são complementares e uma operação não interfere na outra. “As vendas de livros não estão diminuindo com o aumento das vendas de e-books”, ressalta. Para Seibel, há diferenças claras de objetivos e operação entre as bibliotecas virtuais e as lojas físicas. “Os preços e as margens são diferentes”, reforça. Para as redes, a presença do e-book nos negócios as ajuda a capturar os leitores mais antenados. Sônia, do SNEL, acredita que essa preocupação deve mudar com o aumento da concorrência. “Quando grandes players internacionais chegarem, a briga será em outro patamar, porque eles são muito mais estruturados e o varejo brasileiro terá de fazer o mesmo para competir”, avalia.

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SEM PRESSA Como parte desse cenário está a Apesar das projeções positivas, há entrada da Amazon no mercado braquem não veja significado em investir, sileiro, que ocorreu em dezembro do agora, em livros digitais. É o caso da Liano passado. Em países como Estados vraria Nobel. “Sentimos que o impacto no Unidos e Reino Unido, o número de mercado em geral é zero”, afirma o diretor e-books vendidos pela gigante do eda rede, Sérgio Milano Benclowicz. -commerce já superou o número de li“As pessoas tendem a achar que só porvros físicos. O aumento das vendas do que somos livraria temos de ter livro digileitor da empresa, o Kindle, é um dos tal, mas é outro negócio. Vamos esperar pra fatores que impulsionam as vendas da ver se esse mercado pega e depois vemos o companhia, que alcançaram os US$ que fazemos”, afirma. 13,8 bilhões, no terceiro trimestre de De acordo com Milano, os livros 2012, um aumento de 27% frente ao Samuel Seibel, dono da rede Livraria da Vila digitais não vão ao encontro dos negómesmo período de 2011. cios da rede. A empresa oferece em seu canal “Qualquer site com fluxo pode vender um e-book. Nosso brasileiro mais de 1,4 milhão de livros, incluindo mais de mercado é loja física em shopping”, afirma. Para o execu13 mil títulos em português. No início do ano, a empretivo, os e-books são úteis em poucos casos, como para sa inaugurou quatro quiosques para vender seu e-reader, vender livros “em pedaços”, como livros técnicos, que no Morumbi Shopping e Iguatemi, em São Paulo, e no são atualizados com frequência. Barra Shopping e Leblon, no Rio de Janeiro. Questio“Nesse caso, é importante porque você vai dando upgrade nada sobre a possibilidade de fazer aquisições de grandes nas partes que interessam”, explica. livrarias no País, a empresa respondeu apenas que “não divulga essas informações pela política de comunicação”. Apesar disso, a presença da Amazon no Brasil não O QUE PRECISA MUDAR altera, pelo menos no curto prazo, os planos das redes. Falta de investimentos em educação, fator econômico “É uma concorrência forte, mas as redes estão fortalecidas e desconhecimento das plataformas de leitura. Estes são, para enfrentar essas questões”, afirma Bassit. segundo especialistas, os principais fatores que impedem “Ela é mais um competidor, como outro. É um concorrente um crescimento mais consistente do mercado de livros e qualquer concorrente interfere no mercado. Temos de aprendigitais. Para Sônia Jardim, do SNEL, investir em eduder a jogar com ele”, afirma Herz, da Livraria Cultura. cação ajuda o País a construir uma base de leitores sólida. “A Amazon é o maior player mundial e influenciará o “Para este mercado, investimentos em educação é uma mercado, talvez não em curto prazo, mas certamente ao lonnecessidade, porque o hábito da leitura tem uma correlação go dos anos”, afirma Seibel, da Livraria da Vila. direta com o nível de renda das pessoas”, afirma. Para Bassit, da CBL, a renda é importante para o mercado de livros digitais, uma vez que plataformas específicas de leitura ainda são instrumentos considerados caros para a maior parte da população. E também são desconhecidos. Pesquisa feita pelo Instituto Pró-Livro mostra que 70% da população brasileira nunca ouviu falar em e-books. Daqueles que conhecem, 82% nunca leram um livro digital. A falta de conteúdo em português nas bibliotecas virtuais ainda é motivo que afasta os leitores brasileiros, segundo Bassit. A Saraiva, por exemplo, tem no seu acervo digital cerca de 12 mil títulos em língua portuguesa, número que equivale a apenas 5% dos 250 mil títulos em língua estrangeira. Para as redes, problemas que se referem à tecnologia são os principais empecilhos. “Ainda falta um sistema completo para que esse mercado se desenvolva e as soluções que o Brasil apresenta ainda não Aumenta a concorrência: Amazon monta quiosques em shoppings no Brasil para vender o Kindle são tão boas”, avalia Herz. 42

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