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COMPORTAMENTO

No am r e nos negócios Casais que comandam franquias contam como fazem para equilibrar questões profissionais e pessoais Por Camila Mendonça e Paulo Gratão

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uando Ademir Teixeira Gonçalves, de 44 anos, decidiu deixar de lado o ramo de funilaria e pintura, para o qual trabalhou por 25 anos, e comprar um bar que estava à beira da falência, o casamento de 24 anos com Regiane Faria da Silva Gonçalves, de 42, quase terminou. “Ela não queria que eu comprasse, porque era muito arriscado, mas comprei”, conta. Com um investimento de R$ 13 mil, Gonçalves adquiriu um estabelecimento que precisava de reformas e mercadoria. Demorou, mas ele conseguiu convencer Regiane de que o negócio poderia dar certo e que o casamento não precisava terminar. Ressabiada, ela não deixou o emprego de manicure, mas o ajudava com trabalho e recursos. Eles contam que tudo o que o bar faturava era reinvestido no negócio. Ainda assim, passaram meses no vermelho. Foi um amigo que apresentou ao casal a marca Nosso Bar, franquia da Ambev. A vontade de crescer fez Gonçalves converter o negócio independente em uma unidade da marca. E mais uma vez a decisão abalou o casamento. “Eu não queria muito, mas vi que seria um projeto grande e aceitei”, conta Regiane, que mesmo após a reinauguração da unidade na Vila Matilde, em São Paulo, manteve seu emprego. Hoje, após dois anos com a marca, o casal consegue um faturamento médio mensal de R$ 40 mil. Mas no primeiro ano da operação, o salário dela ajudava a manter o negócio. Quando a clientela aumentou, Regiane decidiu deixar o salão para ajudar o marido na operação. “Tudo mudou quando ela entrou, porque ela controla melhor as contas”, afirma Gonçalves. As mudanças não ocorreram apenas nos negócios. A franquia permitiu ao casal conhecer-se melhor. “A relação mudou, estamos mais próximos e sempre juntos. Dividimos tudo e quando há diferenças, conseguimos resolver”, conta o empresário.

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por tanto tempo, e apoiado pela esposa, que até então era responsável pela educação dos filhos e cuidados do lar, Bassi procurou uma marca de franquias em que poderia investir. A franquia da Riolax, que ficava a 400 quilômetros de distância, foi a que mais o atraiu. Viu, então, que era hora de fazer as malas de toda a família, trancar a casa no condomínio fechado em que morava, pedir transferência de escola para as crianças, deixar o promissor interior paulista para trás e apostar em outro mercado. “Pesquisei cidades em Minas Gerais e Paraná, e após avaliar as condições, resolvi investir em Londrina, por ser uma praça grande e que atende também Maringá. Temos dois milhões de clientes”. Um ano se passou desde a mudança que alterou toda a rotina da família. Cláudia passou a trabalhar com o marido e agora coloca em prática no negócio a sua formação administrativa.

Com o aumento da renda da população, cresce o número de pessoas interessadas em empreender. Segundo a GEM 2013 (Global Entrepreneurship Monitor), mensurado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a proporção dos brasileiros que deseja ter o próprio negócio (43,5%) é superior a dos que desejam fazer carreira em empresas (24,7%). Nesse cenário, é cada vez mais comum encontrar negócios administrados a dois, principalmente no setor de franquias, avalia a diretora da Avance Franchising, Isa Silveira. “Antes, o marido comprava a franquia para a mulher, porque ela queria. Mas as redes começaram a ser mais exigentes com o perfil do franqueado”, afirma. Essa exigência mudou as perspectivas: agora, o investimento e a gestão são divididos entre o casal. À primeira vista, essa convivência parece conflituosa. Contudo, casais que passam a administrar seus negócios juntos conseguem, em geral, reforçar a parceria dentro de casa. Assim como ocorreu com Gonçalves e Regiane foi o franchising que aproximou ainda mais Claudia e Elcio Bassi, ambos de 43 anos. O convívio do casal à frente de uma operação da Riolax, marca especializada em comércio de banheiras, spa e acessórios, foi benéfico para a relação, na visão de Bassi. Após dezenove anos de casamento, os dois conseguiram se redescobrir por meio do franchising. “Tínhamos amigos que falaram que não era boa experiência, mas nosso relacionamento até melhorou. Conversamos mais, trocamos ideias na “Tínhamos empresa. Ela viu pontos meus que amigos que não conhecia e eu também”. O segredo, segundo o emprefalaram que endedor, é saber chegar em casa não era boa à noite e deixar os assuntos proexperiência, fissionais na empresa. “Mudamos mas nosso o foco diretamente para os filhos. relacionamento Nunca tivemos uma discussão profissional, e nem em casa por até melhorou. causa da empresa”, afirma. Conversamos mais, Bassi trabalhou no mercado trocamos ideias na publicitário por vinte anos, em empresa. Ela viu São José do Rio Preto (SP), antes pontos meus que de tomar a decisão que mudaria não conhecia e a vida de toda a sua família. Cansado de atuar no mesmo ramo eu também” Elcio Bassi, franqueado da Riolax

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Convívio benéfico

O casal Claudia e Elcio Bassi, sócios da Riolax

“Ela é a responsável pela parte financeira da loja, cuida de todos os pagamentos, controles, administração, e eu fico com a parte comercial e prospecção de novos clientes”.

Sem pé atrás A confiança é um dos principais fatores para que uma sociedade empresarial dê certo. Nesse sentido, os casais já estão em vantagem. ABR/MAI 2013

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“Quando se monta um negócio com o marido ou a esposa, o elemento confiança, em tese, já está sanado. Isso tende a não ser problema no futuro”, afirma o diretor do Instituto de Administração (Instiad), Luiz Cláudio Binato. Sem confiança, Dafne Carey Moreira Duarte, de 26 anos, e Paulo Roberto Gomes Duarte, de 28, não teriam aberto um negócio juntos. “Sem ela, não seria possível”, diz ele. Até 2009, Duarte trabalhava com o pai em uma escola de informática, mas decidiu sair para abrir o próprio negócio. “Saí da empresa com conhecimento, mas sem dinheiro”, conta. Em Guararema, em São Paulo, o empreendedor encontrou uma escola que não estava indo bem e fez negócio. Parte dos R$ 18 mil in“Em uma fase de namoro é fácil que vestidos saiu do bolso de Dafne, que trabalhaa pessoa ceda o nome ou dinheiro, va como secretária bilíngue. “No começo, todo mas fazer essa pessoa ficar ao seu o dinheiro, tudo o que precisava, era ela que dava. Absolutamente tudo”, ressalta ele. Por lado em momentos difíceis é raro” três meses, Duarte era professor e atendente. Paulo Roberto Gomes Duarte, franqueado da Easycomp, A reforma foi feita aos poucos. Como moravam ao lado de sua esposa e sócia Dafne Carey Moreira Duarte na cidade vizinha, Santa Isabel, o casal dormiu por diversas vezes na escola, para economizar combustível. de acionista, gestor e cônjuge no tempo Quando o faturamento passou de R$ 3 mil para R$ 15 mil certo, segundo Binato, do Instiad “Nesse e o número de alunos subiu de 50 para 200, Duarte pediu arranjo o homem é marido, acionista e para que Dafne saísse do trabalho dela. E mais uma vez, ela gestor da empresa, assim como a mulher. o apoiou. Hoje, com bandeira da Easycomp, a escola fatura O acionista não pode falar como marido, em média R$ 30 mil, tem sete funcionários e 450 alunos. Com ou a esposa falar como gestora. Na emo sucesso da primeira empreitada, o casal abriu a segunda presa o papel é um, em casa é outro. Conunidade da marca, em Santa Isabel, que fatura R$ 55 mil e fundir isso pode transformar em ameaça atende 650 alunos. o que seria uma boa oportunidade”. Para Duarte, a confiança que Dafne depositou Para ajudar os casais, principalmennele foi essencial para que seu sonho de emte iniciantes no mundo dos negócios, o preender se tornasse realidade. “Em uma fase especialista aconselha que seja feito um de namoro é fácil que a pessoa ceda o nome planejamento prévio com atribuições de ou dinheiro, mas fazer essa pessoa ficar ao tarefas e papéis, mas que envolva tamseu lado em momentos difíceis é raro”, acrebém as características pessoais de cada dita. Hoje, ele cuida da parte de vendas e um. “É preciso entender que pessoa físicontratações e ela das contas a pagar e receca é uma coisa e jurídica é outra, conviber, além das decisões de marketing. vem, mas não se misturam. Deixar bem claro quais são os papéis, os resultados que se espera e como prestar conta um O maior desafio para o caao outro”. sal que assume o comproEssa divisão, completa Isa Silveira, é misso de gerir uma emprefundamental para que também não haja sa é incorporar os papéis sobreposição de funções. “É muito comum que ocorram situações em que um acabe se dedicando mais ao negócio que o outro. A forma de evitar isso e de resolver essas questões é o diálogo e descrição Luiz Cláudio Binato, diretor do Instiad clara das funções”, avalia.

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Divisão de papéis

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Consultores podem ser úteis para ajudar na elaboração desse planejamento e até a mediar possíveis conflitos a fim de evitar que desgaste o relacionamento. “Hoje existem ferramentas que analisam papéis na empresa e o comportamento das pessoas, características, o que ela poderia usar melhor quando for acionista ou quando for marido e mulher”, afirma Binato. O consultor pode ser útil, também, para abrir a mente do casal para situações delicadas que passam longe do pensamento quando o contrato de franquia é assinado, como, por exemplo, uma eventual separação conjugal. “É preciso antever isso. Por essa razão, o plano de papéis é importante, pois o consultor desenha o papel na junção do negócio e já deixa desenhado caso haja a disjunção, também”, diz.

UNIDOS PELO FRANCHISING Foi em Santo André, no ABCD paulista, que Daniela D’Andrea abriu sua primeira franquia da rede Embelleze, em sociedade com sua cunhada, em 2003. Dois anos depois, as duas abriram mais uma unidade em Barueri, também na Grande São Paulo e foi com essa que Daniela ficou depois de desfeita a sociedade. O que ela não sabia, no entanto, é que em 2006 a Embelleze lhe daria mais do que uma empresa: o amor. Danilo Rodrigues Verrillo começou O casal Danilo e Daniela no dia do casamento a trabalhar como consultor da com o filho Lucca, de quatro anos máster franqueada da marca, mas não atendia a loja de Daniela. Em um evento realizado para franqueados e consultores foi que o olhar da franqueada e do consultor se cruzou pela primeira vez. “Eu não o conhecia. Ele era consultor da franquia de Pinheiros, começamos a conversar, e ele me chamou para sair”, lembra a empreendedora. Atualmente, Daniela e Danilo são casados e têm um filho de quatro anos. “Hoje ele é gerente de expansão da SPR e eu cuido da gestão da franquia. Por trabalharmos em áreas correlatas, temos alguns choques de opinião, mas a gente leva isso na boa”.

Operacional dividido

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Há três anos, Heleny Saccaro, de 51 anos, e Gilberto Saccaro, de 55, abriram uma unidade da Magic Feet, de calçados infantis, e inauguraram a segunda em 2012, ambas em São José dos Campos, em São Paulo. Apesar de decidirem questões estratégicas juntos, as operacionais são bem divididas: ele é responsável pela parte financeira e compras e ela faz a parte de Recursos Humanos e marketing.

Gilberto e Heleny Saccaro, sócios da franquia de calçados infantis Magic Feet

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A divisão, conta Saccaro, foi definida de acordo com as características de ambos. “Ela é mais calma e sabe ouvir bem, já eu sou mais agitado e gosto de sair resolvendo as questões mais objetivas do negócio”, afirma. Apesar das definições, ambos dão seus palpites quando necessário. “Eu faço as compras, mas como o produto é infantil, gosto de ouvir a opinião dela”, afirma o empresário. Os cuidados para manter os papéis claros e a relação tranquila, conta Saccaro, é tentar sair da rotina de vez em quando. “Em casa, evitamos discussões geradas por questões de negócio e para respirar fazemos viagens rápidas.” Para Isa Silveira, da Avance Franchising, a definição de funções parte do conhecimento mútuo. “O sucesso vem daí, de perceber as competências complementares de cada um. Com isso, não apenas o negócio prospera, mas o casamento também.”

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Casais juntos no amor e nos negócios