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Autora Camila da Cunha Guerra guerraccamila@gmail.com Camila Guerra 2013 Projeto Gráfico João Pedro Tavares Capa João Pedro Tavares Revisão Camila Guerra


Revista n贸 Um paralelo entre os princ铆pios faustianos e Ozymandias


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ssa revista simboliza o formato que escolhi para apresentar o trabalho que realizei como avaliação final na disciplina História do Teatro III, ministrada pelo Prof. Dr. Alex Beigui no curso de Teatro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A obra trabalhada nessa disciplina foi a tragédia Fausto de J. W. Goethe, e, como avaliação final, tínhamos de envolvê-la relacionalmente com outro tópico ou de trabalhar com tópicos existentes na própria obra. Escolhi, então, fazer um paralelo entre quatro princípios faustianos e o personagem Ozyman dias, mas sem deixar de envolver o personagem Dr. Fausto. Posso dizer que foi um trabalho extremamente prazeroso e acredito que ele possa se desenvolver se houver total dedicação. Ele já está em minha vida para ser continuado, esse é só o primeiro passo. Espero que a leitura seja prazerosa da mesma forma que foi, para mim, sua construção. Camila Guerra, 2013

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Camila Guerra

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“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer” (CALVINO, 1993).

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ealmente, todas as vezes que leio um clássico, pensamentos novos surgem na fluidez da leitura – e, muitas vezes, por detalhes que eu não havia percebido anteriormente. Ler um clássico requer grande responsabilidade para com o que é narrado, pois, se é considerado um clássico, há, certamente, uma essência diferenciada e mais importante em comparação a outros livros; se for lido apressada e distraidamente, o leitor, provavelmente, não chegará a essa essência, por isso a responsabilidade. Apresentarei duas obras – as quais considero clássicas – que se mostraram fundamentais para a realização deste humilde exemplar da revista NÓ: Fausto de Goethe e Watchmen de Alan Moore.

Fausto é considerada a obra mais fantástica de Goethe devido ao tempo utilizado para criá-la

- 60 anos de sua vida - e à narrativa, por abordar questões que intrigam e envolvem muitas pessoas há anos: a insatisfação do conhecimento que temos sobre o mundo e suas origens, e até onde o ser humano vai quando seus vícios gritam. A obra é considerada romântica, pois Fausto – o protagonista da obra - é apaixonado por Margarida – e isso é o bastante. O romantismo quebra a ideia do belo pautado na beleza natural e balança a linearidade, além disso, traz a percepção do homem como um ser doente – e é por isso que o Dr. Fausto não pode mudar o homem, apenas curar. Médico e alquimista, o que Fausto pode fazer é aliviar a dor física, mas a dor espiritual não – a qual seria a dor da alma. Entrando numa beleza distorcida e assimétrica, onde a alma do homem será a principal fonte de conhecimento, a prática de dissecação do corpo, com o objetivo de encontrá 7


Camila Guerra -la, é realizada. Fausto, quanto mais conhece o corpo do outro, menos conhece sua própria alma. A dissecação do corpo, as destruições da simetria e da forma fazem parte do Romantismo, portanto, para atingir a essência, tem de destruir a forma, principalmente quando a experimentação é um confronto direto com a ideia de belo. O homem é um ser estético, e sua visão será sempre um misto de consciência e inconsciência – Apolo e Dionísio. Mas a consciência nem sempre é equilibrada, ela pode vir do acaso, e o que parece natural, geralmente, é cultural; a constante transformação cultural é natural. Nessa questão, podemos dizer que a dádiva do homem seria não nascer, pois ele já nasce com a natureza distorcida. A experiência, a vivência, a consciência, a inconsciência convergem para a ampliação do conhecimento – evitando, assim, o preconceito. Fausto não consegue o conhecimento de tudo e a vida eterna, mas consegue saber muito a ponto de não estranhar. Acostuma-se com o normal, e a normalidade estranha vem com 8

capacidade de mudar os modelos estéticos do belo. O conhecimento é o maior poder, para Fausto, e, ao lado do desejo da vida eterna, têm-se os seus dois maiores desejos. Quanto maior o tempo de vida, maior o tempo de adquirir conhecimento, de fato. Diante disso, Mefistófeles vai perturbar a realidade de Fausto, utilizando do desejo como forma de manipulação e de poder. “Desejo é o controle do outro e a possibilidade de perda do controle de si” (BEIGUI, 2013), ele implica os vícios e desloca o sujeito. O poder erotizado é o poder que Mefistófeles aplica em Fausto, gerando uma relação de poder através das micropolíticas e levando-o a destruir ilusões e o que é naturalmente concebível, assim, ele percebe que sua concepção é mutável. Mutação e transformação requerem tempo – o qual é totalmente abstrato. Estamos no presente já projetando um futuro e passando pelo passado, ou seja, o presente, nessa percepção, é inconcebível. Fausto quer encontrar o sentido da vida, mas


Revista NÓ o sentido também é mutável; é o próprio indivíduo que o dá. Para perceber essas mudanças, seria interessante fazermos uma retrospectiva de nossas vidas, veríamos que a “história é cronológica e a arte é anacrônica” (BEIGUI, 2013), e as duas trazem e levam sentidos quando se encontram em variados períodos. Não há contemporaneidade sem o reconhecimento da tradição. A história e a arte são dois dos elementos que constroem o sujeito, mas, quando se coloca as relações sociais como um deles, essa construção se amplia devido às várias experiências e vivências que envolvem essas relações. Viver é, também, colocar nossas concepções em jogo, sendo através da prática ou do discurso. Nessa perspectiva, quanto mais acompanharmos as transformações históricas, sociais, culturais, artísticas, econômicas e políticas, melhor nos formamos como um ser transformador e, cada vez mais, percebemos que o mal é absoluto e o bem é absolutamente relativo. Quando Rousseau fala “homem é bom por natureza, é a sociedade que o corrompe”, na perspectiva faustiana, ele se equivoca pelo simples fato de a natureza distorcer o homem, no momen-

to em que nasce. Mas o que seria ser um homem bom por natureza? A natureza humana implica sobreviver, e o conceito de sobrevivência se desdobrou ao longo do tempo, tornando-o, também, relativo. Pelos vários fatores que formam Fausto – a busca do conhecimento e da vida eterna, vícios, desejos, micropolíticas, concepções inexploradas, definição da alma, relação de escolhas, poder, ignorância -, podemos dizer que há muitos homens em um só homem, pois ele é um exemplo da essência do ser humano, com todos seus defeitos e qualidades tão relativos quanto seus vícios. Fausto dirá que a mentira é mais forte que a verdade, uma vez que é ela quem define as relações sociais, e Foucault dirá que a verdade é construída historicamente, e que não há uma verdade universal. Diante disso, a mentira seria considerada de que forma? Um bem ou um mal? Um mal necessário, talvez? A bondade pode ser a morte da justiça, portanto, é sempre interessante contarmos com as possibilidades e movimentarmos o sentido que encontramos, para que ele possa se transformar, assim como nós. 9


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“Fausto, além de ser a obra simbólica da vida de Goethe, adquire também significado universal por materializar o mito do homem moderno, o homem que busca dar significado a sua vida, que precisa tocar o eterno e compreender o misterioso.” (HEISE, 2010). Por isso, destaquei quatro princípios faustianos - os quais, em minha opinião, encontram-se, também, na atualidade:

solutamente relativo; 4. Há muitos homens em um só homem.

Podemos perceber, através dessa breve leitura sobre Fausto, percepções e conceitos sobre a obra, mas minha pesquisa não acaba aqui, começa. É necessário compreender esses quatro princípios, pois os relacionarei com um personagem – o qual admiro muito – da obra (clássica) de 1. Para atingir a essência, tem de Alan Moore, Watchmen: Adrian Veidt, mais conhecido como destruir a forma; 2. O conhecimento é o maior po- Ozymandias. der; 3. O mal é absoluto e o bem abBoa Leitura! 10


Revista NĂ“

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tom acima de

oZYMANDIAS 11


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onsiderando o que a sociedade entende por poder – no caso, o dinheiro e a posição social -, um dos exvigilantes – Ozymandias, cujo maior poder é o conhecimento - aproveita para pôr em prática seu plano de salvação da humanidade perante a Guerra Nuclear que está por vir. Ozymandias é o alter ego de Adrian Veidt, um empresário multibilionário, considerado o homem mais inteligente do mundo. Inspirado na vida de Alexandre, O Grande, para se colocar como um dos vigilantes (Ozymandias), treina seu corpo até a perfeição atlética e exercita suas habilidades intelectuais a todo o momento, através de leituras, experimentos científicos e relações sociais – além disso, ele envelhece lentamente, o que é, no mínimo, peculiar. Apenas poucos anos antes de se aposentar, ele revelou sua identidade secreta para o mundo e, a partir desse momento, construiu um império financeiro, transformando seu passado heróico em uma marca. “Determinado a fazer o verdadeiro bem no mundo, ele é um dos poucos vigilantes aparentemente livres de cicatrizes psicológicas de seus anos

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combatendo o crime.” (BORGO, 2008). Mesmo livre de cicatrizes psicológicas, Ozymandias possui uma profunda melancolia. Apesar de ter executado seu plano com sucesso e atingido o objetivo – a paz entre as duas superpotências -, ele não deixou de se sentir mal pelas diversas mortes que causou, mas o que o consola minimamente é a morte de milhões para salvar bilhões. Há, nesse fato, uma indagação muito pertinente: foi um mal necessário? E, consequentemente, perguntamos: Ozymandias é herói ou vilão? Falarei disso mais à frente. Mas o que intensifica a melancolia de Ozymandias é “uma espécie de desespero narcísico do criador quando ele se depara com o fato de que, por mais perfeita que seja sua obra, ela e ele, consequentemente, desaparecerão.” (DUNKER, 2013). Há um fato que é extremamente considerável nessa alegação: o ego de Ozymandias. O fato de ele ser o homem mais inteligente do mundo o fez se achar no direito de intervir radicalmente nele e, consequentemente, na natureza do homem – essa que se mostra


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sempre necessitada de conflitos. Sabendo que não pode ser reconhecido pelo seu ato, pois levaria a culpa pelas mortes e a paz entre EUA e União Soviética acabaria, Ozymandias termina sozinho, levando o peso das mortes nas costas e aceitando em sua forma particular. Talvez, a melancolia de Ozymandias tenha se eternizado nesse momento. Eu tenho um enorme carinho por Ozymandias e seu deslocamento social. É um personagem que possui princípios convidativos e uma moral questionável. Vejo muito do Dr. Fausto em Ozymandias, principalmente na busca eterna pelo conhecimento. E esse é só mais um personagem que enfatiza minha concordância: conhecimento é, realmente, o maior poder.

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Pensando na personagem

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omo Beth Brait colocou muito bem, em seu livro A Personagem, “as personagens representam pessoas, segundo modalidades próprias da ficção”. Nós nos identificamos com personagens quando eles agregam concepções e princípios semelhantes aos nossos, além disso, quando nos deparamos com realidades semelhantes, a identificação se intensifica. Quando falo de realidades semelhantes, refiro-me ao período em que a personagem vive – o qual contém fatos, ocasiões, acontecimentos e sistemas que podem conver-

gir com os do período real do leitor. Mas esse fato não é o único que origina essa identificação, há, também, a intenção do autor por trás do discurso e da personalidade da personagem. Os valores que uma personagem apresenta podem ser influentes ou não, mas desencadeiam o senso crítico do leitor para analisá-los e senti-los em sua forma individual. E é por isso, e por vários outros motivos – os quais Brait introduz melhor em seu livro mencionado -, que personagens podem ser riquíssimas em suas essências. 15


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Para atingir a essência, tem de destruir A forma (e desconstruir o conceito)

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e cogitássemos que “desconstruir” significa colocar em outra percepção, muitas desconstruções teriam o sentido alterado. É difícil nos desprendermos de uma convenção, ainda mais quando ela nos interessa, mas, como seres maleáveis, possuímos uma grande capacidade de adaptação – talvez, isso seja até um consolo, considerando que ainda há muito que destruir para atingir a essência. Esse princípio faustiano é tão metafórico quanto literal, pois o

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Revista NÓ Dr. Fausto realmente destruiu, através da dissecação, a forma de um corpo em busca de sua essência – a qual ele acreditava ser a alma -, mas não a encontrou da forma que esperava (inclusive, há aí mais uma forma destruída). Ao dissecar o corpo, ele adquiriu novas informações, porém se perdeu em informações prévias que possuía, colocando-as em outra perspectiva, e tudo isso o motivou a procurar, cada vez mais, por verdades sobre si e o mundo. Mas, para isso, ele teve de sair de sua zona de conforto e esperar por uma essência, e essa espera veio como esperança. Quando aplicamos esse princípio no contexto e na situação de Ozymandias, podemos ver semelhanças metafóricas e literais. Vejo que um sentimento em comum incentivou os dois, porém de formas diferentes: a angústia, motivando Fausto por ele não ter conhecimento dos desdobramentos da alma, e Ozymandias pelo seu conhecimento dos desdobramentos

políticos do governo do seu país, compreendendo a falha humana na decisão final perante a Guerra Nuclear. A angústia dos dois chegou, inicialmente, acompanhada de um sentimento de insatisfação. Em suma, um ansiava por conhecimento de si e do mundo, o outro por usar seus conhecimentos em prol de algo maior. Diante disso, já possuímos as duas primeiras essências diferenciadas: o entendimento da alma por Fausto e a resolução pacífica de um conflito mundial por Ozymandias. Mas o fator mais importante nessas transformações é a forma com a qual são originadas; muitas pessoas possuem a opinião de que o que mais importa na realização de um objetivo é o processo, porém, no caso de Ozymandias, acredito que foi o produto final. Numa perspectiva mais insensível, a forma pela qual Ozymandias escolheu para implicar paz foi extraordinária – o que se espera do homem mais inteligente do mundo -, mas ousou demais se formos considerar a questão da natureza humana – a qual se mos17


Camila Guerra trou sempre muito conflituosa e competitiva -, além disso, sua ação é a prova de que há um poder acima do poder econômico, no sistema capitalista: o intelecto, o conhecimento. Tudo isso converge para um desconforto – mostrado, inclusive, no final da história, pelo corpo midiático que reclama da falta de conflito no período de paz – que provavelmente se desenvolverá, pois a sociedade se mostra sempre interessada na disputa de poder – seja

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ele qual for – e, consequentemente, na forma com a qual se disputa. Portanto, a destruição causada por Ozymandias trouxe diversas vantagens intelectuais e sensíveis para o mundo, caso contrário, não se teria estabelecido a paz, pois as superpotências perceberam a sensatez de se juntar. Para os mais sensíveis – como eu, na primeira vez que em que li Watchmen -, o plano de Ozymandias é condenável e inconcebível, mas se refletirmos intensamente sobre cada ponto dele, veremos que há muito em jogo. Matar milhões para salvar (e, acredito eu, provocar) bilhões. As essências podem variar, e as formas de destruir também, mas a destruição tem sua própria essência ao ser realizada, é, por isso, tão importante construir para destruir e depois reconstruir.


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O Conhecimento é o maior poder

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onhecimento (do latim cognoscere): 1 Ato ou efeito de conhecer. 2 Faculdade de conhecer. 3 Ideia, noção; informação, notícia. 4 Consciência da própria existência. (MICHAELIS, 2011). A definição de número 4 é, certamente, mais interessante para ser abordada nesse princípio faustiano, pois, além de oferecer um sentido amplo do termo, vem acompanhada da palavra “consciência” – nem sempre equilibrada. Quando falamos de poder e conhecimento, é sempre bom considerar o contexto histórico e social devido às mudanças conceituais desses dois termos. Apesar de certos conceitos perdurarem, podem, e geralmente são, aplicados de variadas maneiras. Esse desdobramento é notável, inclusive

quando analisado em diferentes situações. Mas, um fato inegável, é que, quanto mais conhecemos a história do mundo, mais nos apoderamos. E, então, dizer que conhecimento é poder pode, realmente, complexar qualquer questão. Para evitar nós (e provocá-los aos poucos), voltarei esse princípio para a questão do homem como um ser transformador. Relacionar conhecimentos antigos com novos pode evitar surpresas desagradáveis. Nenhum conhecimento é obsoleto, pois, se existe, é porque, de alguma forma, possui uma função – seja no âmbito social, político, econômico, psicológico, etc. O discurso de uma pessoa é um bom exemplo, pois é formado por argumentos específicos para convencer o ouvinte. Quando há embasa19


Camila Guerra mento histórico, o discurso se torna mais rico; na verdade, o discurso não é o único que enriquece, mas o próprio ser que o dita. O conhecimento da história do mundo pode render diversas opiniões e visões que formam um ser transformador. Ozymandias se espelhou na figura de Alexandre, O grande por seus grandes feitos e sua tão pouca idade, valorizando a percepção de que conhecimento não se adquire só em livros, mas em vivências. Fausto partiu do mesmo princípio e em trajetória ao lado de Mefistófeles para ver o mundo de outra forma e tentar decifrá-lo, mas, principalmente, para se descobrir nele. Os dois estarão na eterna busca pelo conhecimento, mas de que adianta tê -lo se não se sabe onde aplicá -lo? O típico “saber falho” como reclama Fausto. Ozymandias soube ampliar seus conhecimentos na hora de salvar o mundo, mas também soube em quais conhecimentos deveria se aprofundar. De qualquer forma, Ozymandias e Fausto têm fome, e, o mais importante, 20

por conhecimento geral. Esse princípio pode ser interpretado de várias formas nos diferentes contextos dos dois personagens citados. Mas é perceptível que o ponto que mais converge entre os dois é o que envolve o entendimento de si. Os dois procuram seus lugares no mundo através do conhecimento e da história; os dois têm suas naturezas, mas buscam outras; os dois deixam claro que o ser humano é constantemente transformado e eternamente aprendiz.


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Curiosidade Numa concepção faustiana, o preconceito é o tamanho da limitação da experiência. Portanto, para se livrar dele, é necessário ampliar o conhecimento. Mas não basta a pesquisa literária, mas a vivência com aquilo que se considera estranho e repudiável. Vemos, então, mais um poder que o conhecimento fornece.

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O mal é absoluto e o bem é absolutamente relativo

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uando falamos de relatividade, ampliamos as possibilidades das relações. E quando colocamos o mal e o bem nessa questão, entramos num assunto que envolve vários conceitos. Ou seja, é complexo. Para Kant, o ser humano tende a fazer o mal, apesar de ter uma disposição para fazer o bem. É interessante considerar que, hoje em dia, falando de um modo geral, enxergamos o mal em atitudes que vão de contra aos nossos princípios, mas também fazemos o mal – na visão dos outros e até na nossa. O mal também pode ser relativo, mas ele é inevitável, principalmente quando possuímos o instinto de sobrevivência desdobrado, quando nos sentimos amea22

çados e quando o mal é compreendido como o vício do ser humano. Vê-se poucas pessoas praticando o bem espontaneamente, o que mais se vê é o mal – e o que mais se espera também. Como assim? Bom, ao ligarmos a tevê à espera de notícias, o que vemos é mal; ao consolarmos alguém, contamos um fato ruim que aconteceu conosco; ao lidarmos com algo que foge das nossas convenções, tendemos a julgá-lo mal. Muitas vezes, o mal impede o questionamento, principalmente quando ele se volta para um crime. Ozymandias, ao matar milhões de pessoas em prol da paz, é tido como vilão, julgado e


Revista NÓ condenado por muitos leitores. Há algo que incentiva a competitividade e a maldade e que já foi usado para justificar o ato de Ozymandias: o ego. O ego é algo que todo mundo possui e usa na hora de tomar decisões. Ozymandias não salvou o mundo por pura bondade, mas há nele uma fome por conquistar e fazer o que a esmagadora maioria não consegue. E ele fez, e isso o alimentou mais ainda. Mas ainda assim, o mal que ele executou provocou um bem – a paz . Então, poderíamos considerar essa ação como um mal necessário? A troca de milhões por bilhões é justa? Ela valeu a pena diante do conflito que dominava o pensamento do mundo naquele momento? Seria justo deixar o ser humano sofrer as consequências de seus atos? Ozymandias foi herói ou vilão? Bom, dependendo da perspectiva, ele pode ser visto de variadas formas, mas há um fato inegável: ele encarou o

problema utilizando do seu intelecto, mas sem se despir da essência que o torna humano. O mal, assim como o bem, faz parte de nós, mas de uma forma mais íntima, eu diria. Íntima porque não há ninguém que compreenda melhor nossas intenções do que nós mesmos, portanto podemos usufruir disso das melhores (ou piores) maneiras, e é isso que nos torna humanos. Nós necessitamos do mal como forma de provocação para o bem - seja o nosso ou o dos outros -, caso contrário, a esperança não faria sentido.

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Existem muitos homeNS em um só homem

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sse princípio faustiano rende uma boa reflexão. Acredito que já o apliquei nos outros princípios, pois ele é extremamente abrangente. Mas vou discorrer rapidamente sobre dois sentidos metafóricos que esse princípio pode ter em relação aos dois personagens que venho tratando. Quando falo que existem muitos homens em um homem só, na obra de Goethe, refirome unicamente ao Dr. Fausto, pois ele é um personagem que agrega todos os valores do homem e os põe em questão. Ele possui dentro de si devido às suas decisões, vontades, quedas, sensações, seduções, coragens, covardias, buscas, aos seus desejos e experimentos. A obra de Fausto é

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uma bela metáfora que corresponde a muitos acontecimentos que formam o homem. Quanto a Ozymandias, vejo num sentido mais cru. Não vejo todos os homens, apesar de Ozymandias ter valores e essências que todos nós possuímos, mas vejo muitos homens que, com seu sentimento de impotência perante um problema, arriscam-se intensamente para resolvê-lo. Vejo muitos homens em Ozymandias devido ao sentimento de solidão ao realizar ações que não podem ser creditadas e expostas, um sentimento íntimo que todos nós possuímos em certas ocasiões; e, também, de outra forma: vejo todos os homens que morreram devido ao plano em Ozymandias, ele carrega


Revista NÓ todas as mortes com ele – e esse sentido, há um pequeno toque de poesia. Todos nós nos assemelhamos em vários aspectos – os quais, no momento, não são cabíveis -, muitos deles nós descobrimos ao longo das experiências e vivências. A vida é cheia de riquezas, e valores são construídos através da vida, até quanto atribuímos à morte uma importância. Seríamos todos importantes para o amadurecimento do mundo?

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ozymandias

Percy Bysshe Shelley

I met a traveller from an antique land Who said:—Two vast and trunkless legs of stone Stand in the desert. Near them on the sand, Half sunk, a shatter’d visage lies, whose frown And wrinkled lip and sneer of cold command Tell that its sculptor well those passions read Which yet survive, stamp’d on these lifeless things, The hand that mock’d them and the heart that fed. And on the pedestal these words appear: “My name is Ozymandias, king of kings: Look on my works, ye mighty, and despair!” Nothing beside remains: round the decay Of that colossal wreck, boundless and bare, The lone and level sands stretch far away.

Eu encontrei um viajante de uma antiga terra Que disse:—Duas imensas e destroncadas pernas de pedra Erguem-se no deserto. Perto delas na areia Meio enterrada, jaz uma viseira despedaçada, cuja fronte E lábio enrugado e sorriso de frio comando Dizem que seu escultor bem suas paixões leu Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes, A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou. E no pedestal aparecem estas palavras: “Meu nome é Ozymandias, rei dos reis: Contemplem as minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!” Nada mais resta: em redor a decadência Daquele destroço colossal, sem limite e vazio As areias solitárias e planas espalham-se para longe.

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Referências BEIGUI, Alex. Anotações da disciplina “História do Teatro III”. Natal: UFRN, 2013. BORGO, Érico. Watchmen: Notícias sobre a duração e biografia de Ozymandias. 2008. BRAIT, Beth. A Personagem. São Paulo: Ática, 1985. CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos? São Paulo: Cultrix, 1993. DUNKER, Christian. Melancolia de Ozymandias. 2013. GOETHE, Johann Wolfgang Von. Fausto I. 4ª Ed. São Paulo: Editora 34, 2010. GOETHE, Johann Wolfgang Von. Fausto II. 3ª Ed. São Paulo, Editora 34, 2011. HEISE, Eloá. Fausto: A busca pelo absoluto. São Paulo: Revista Cult, 2010. MARTINS, Daniel. Resumo WATCHMEN: Os Guardiões. 2009. MICHAELIS, Michaelis. Dicionário Prático - Língua Portuguesa - Nova Ortografia. 2ª Ed. São Paulo: Melhoramentos, 2011. MOORE, Alan; GIBBONS, Dave. Watchmen. 2ª ed. São Paulo: Panini, 2011. – (Edição definitiva). WEIN, Len; LEE, Jae. Antes de Watchmen: Ozymandias. 1ª Ed. São Paulo: Panini, 2013.

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Que espera ainda a cabeça que se crava só na metéria estéril rasa e fria, Quem por tesouros com mão cobiçosa cava e ao encontrar minhocas se extasia?

Pode soar de tal voz humana o desconcerto Onde reinastes vós, gênios incorporais? Mas, devo hoje ainda agradecer-to, Mais reles, tu, de todos os mortais! Vieste arrancar-me a tão negra aflição, Que em breve destruiria o juízo meu. Ah! foi tão gigantesca a aparição, Que mais devo sentir-me anão, mero pigmeu. Retrato, eu, da Deidade, eu, que me julguei ver Perto do espelho já, da perene verdade, Gozando o Eu próprio em luz celeste e claridade, Já despejado o térreo ser; Eu, mais que Querubim, cuja força arrogante Da natureza ousou, já, penetrar a fio As veias, e auferir, criando, com alto brio, Vida de deuses, como agora o expio! Aniquilou-me o teu ditado troante.”

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1º Edição Dezembro de 2013 | Diagramação João Pedro Tavares | Fonte Helvetica


Revista nó  

Tendo como foco o personagem Ozymandias de Watchmen e quatro princípios de Fausto de Goethe, apresento, na revista, um paralelo entre eles....

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