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hEdERA Literária - Setembro de 2011 Número Zero- edição especial




Sumário

Leminski - trechos do livro “O Catatau”, de 1975...........................4

Beatles & Drummond: Traduções feita pelo cronista da banda mais famosa do mundo publicadas na revista Realidade, edição de março de 1969...............................................................................10

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“Que flecha é aquela no calcanhar daquilo?

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Picatacapau! Pela pena é persa, pela precisão do tiro — um mestre. Ora os mestres persas são sempre velhos. E mestre, persa e velho só pode ser Artaxerxes ou um irmão, ou um amigo, ou discípulo ou então simplesmente alguém que passava e atirou por despautério num momento gaudério de distração. Flecha se atira em movimento, ninguém está parado. Nem o cavalo, nem o cavaleiro; nem a mente, nem a mão; nem o arco, nem a flecha, e o alvo o vento leva: tiro certo. Dentiscalpium in oculo. Todo teu lado direito puxa a linha, todo o esquerdo segura a flecha. Spes! Tiro feito, volta-se à unidade perdida. Mas arcos atrás isso não é coisa que se diga, que se faça, arqueiro pouco diz. Cala-se, de hábito, porque ignora tudo na arte em que é exímio. Depois, velhos não são dados a festas. Lísbia sabatária — bazanz! Sabazii sabaia! Copaplena! Muito sabe, pouco ri. Enquanto muitos riem, os mestres a portas fechadas meditam sobre a guerra. O primeiro gole de vinho melhora o tiro, o segundo gole — só Zenão! Assim como o primeiro tiro aprimemora o segundo tiro, a segunda flecha corrige a receita. Eclipse entra no sol em frente duma flecha persa, o sol pára e Xerxes o preenche a flechas. Como viver à luz de flechas? Da arte — não se vive; ver flor, calar. E calando a boca, de assunto mudo, vamos falar de


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flechas persas. O assunto me muda. O silêncio, próprio de alunos, instrui. Mas só os mestres sabem calar dizendo tudo. Tudo é ainda pouco. Na gata! Acertou na gata, paragate, parassangate! Tudo não tem detalhes. Na arte, detalhe é tudo, todo cuidado é pouco em se tratando dos mínimos detalhes que lhe derem na telha. Veja um mestre, por exemplo; como se move, como se levanta, como sabe fazer bem as coisas que todo mundo sabe. Mas há mestres e mestres. Nem todo mestre é próspero. Alguns cultivam artes sutilíssimas. Esses, às vezes, não têm apóstolos. São os últimos pioneiros. Livro não adianta. O dedo do mestre é sempre mais que o centro aonde aponta, ou não então? A cara dos mestres é o modelo das máscaras. Que cara alguém terá para erguer a máscara que jaz sobre a cara dos mestres? Tem uma palavra muito boa para dizer isso mas os mestres não ensinam a falar, só a fazer. O que se pode dizer da arte nada tem que ver com ela. O mestre é onde a arte já morreu: por isso, mestres não lutam. Sempre há coisas que aprender: um pequeno truque, um meneio mais rápido, um trejeito j o gaiato, um grito junto. O que os mestres sabem abem é o que há para ra aprender.”  a aprender.”

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A sombra traz um vento soprando o lume só para ver a que mundo este se resume. Mina e tresmina, por ventura, se for, pendura: já pensou o que é o bandido na história do gênero humano? O desqualificado atrás dos matos, esperando passar o produtor, e preda-o! Salpicado de súplicas, venham e envelheçam vindo: me castisalfo com pouco, — trinca e destrincha, pierre catrinta! Quem depois de assaltado, roubado e rapto, tendo perdido o senso da propriedade junto com seus pertences, segue seus captores e acaba tetrarca da quadrilha! Quando eu mais contava em ficar louco, fiquei apenas tonto, o que está para o pretendido assim como o pretendente está para a pretensão! Constrangido, quem me constrange? Constrangem-me alfângelos e quimelanges! Acenda essa cozinha, bota a ferver, ferviture-te, salutão! Não foi nada, todos compreenderão: nada sem certa luz que me miliúnica no apagar da vela — aos olhos deslumbra, ofusca, embacia, envesga, cega e vaza. Houve quem dissesse, aqui jaza como se estivesse em sua própria casa, tentando a ferro e fogo passar despercebido por meu ímã e águas, ora, onde é que nós estamos que já não reconhecemos os desconhecidos?

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Quer ter a bondade de martirizar essa santa ignorância? Levantar o dedo, é só não estarem olhando.


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Um odor, um abano asmático, um aceno espasmódico, um sínodo sistemático, ou então um som, ou senão for um reflexo, fiquei sem ter o que dizer, na surdina da oitiva, na pior das hipóteses! Quando não dá pé, pergunto: tão raso o quanto antes passei? Escantilhado em conheceiras, convosco quisera cruzadas serenimonhas em outras desencurtilheiras! Um acorde discrepante, um prenhilunho: combates são biscates, destaque os banquetes! O homem idôneo, no momento quandâneo, no lugar ubíquo: lautas mãos pilantras, incólumes na calamidade. Uma cabeçada no pé, uma mancada na palma da mão, uma cotovelada virando o coxo do cachorro magro, uma olhada atravessada, uma pedagógica no meio do pontapeito, amanhã, ao cantar o galo, sem saber de que lado, venham! Me arrependiam os cabelos, perde o pêlo no medo onde se pela, interpelanca: lã costeando, lá se dói tosqueado! Não fale mal de boca cheia, do prato cheio — não vire o ninho da galinha choca, dobre a língua e brade a vagina a seu bom bradar: meteu o braço na cumbuca, a cabeça a quem lhe caiba a arapuca; a perna me coxeia, percebo cancelas naquelas canceiras canelas. Num ouvido, escrito: ENTRADA, noutro ouvido, escrito: SAÍDA — em cada rasto, a estampa de seu rosto para espanto de todo um outro resto!

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HAPPINESS IS A WARM GUN John Lennon - Paul McCartney She’s not a girl who misses much Do do do do do do do do She’s well acquainted with the touch of the velvet hand Like a lizard on a window pane. The man in the crowd with the multicoloured mirrors On his hobnail boots Lying with his eyes while his hands are busy Working overtime A soap impression of his wife which he ate And donated to the National Trust. I need a fix ‘cause I’m going down Down to the bits that I left uptown I need a fix cause I’m going down Mother Superior jump the gun Mother Superior jump the gun Mother Superior jump the gun Mother Superior jump the gun. Happiness is a warm gun Happiness is a warm gun When I hold you in my arms And I feel my finger on your trigger I know no one can do me no harm Because happiness is a warm gun — Yes it is.

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A FELICIDADE É UM REVÓLVER QUENTE Tradução: Carlos Drummond de Andrade Até que essa garota não erra muito oi oi oi oi oi oi oi oi Acostumou-se ao roçar da mão-de-veludo como lagartixa na vidraça. O cara da multidão, com espelhos multicores sobre seus sapatões ferrados descansa os olhos enquanto as mãos se ocupam no trabalho de horas extraordinárias com a saponácea impressão de sua mulher que ele papou e doou ao Depósito Público. Preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo para baixo, para os pedaços que deixei na cidade-alta, preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo Madre Superiora dispara o revólver Madre Superiora dispara o revólver Madre Superiora dispara o revólver A felicidade é um revólver quente A felicidade é um revólver quente Quando te pego nos braços e meus dedos sinto em teu gatilho, ninguém mais pode com a gente, pois a felicidade é um revólver quente — lá isso é.

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BLACKBIRD John Lennon - Paul McCartney Blackbird singing in the dead of night Take these broken wings and learn to fly All your life You were only waiting for this moment to arise. Blackbird singing in the dead of night Take these sunken eyes and learn to see All your life You were only waiting for this moment to be free. Blackbird fly, Blackbird fly Into the light of the dark black night. Blackbird fly, Blackbird fly Into the light of the dark black night. Blackbird singing in the dead of night Take these broken wings and learn to fly All your life You were only waiting for this moment to arise You were only waiting for this moment to arise You were only waiting for this moment to arise.

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MELRO Tradução: Carlos Drummond de Andrade Melro que cantas no morrer da noite, com estas asas rotas aprende teu vôo A vida toda esperaste a hora e a vez de teu vôo. Melro que cantas no morrer da noite, com estes olhos fundos aprende a ver A vida toda esperaste a hora e a vez de ser livre. Voa, melro, voa, melro, para o clarão da escura noite. Voa, melro, voa, melro, para o clarão da escura noite. Melro que cantas no morrer da noite, com estas asas rotas aprende teu vôo A vida toda esperaste a hora e a vez de teu vôo esperaste a hora e a vez de teu vôo esperaste a hora e a vez de teu vôo.

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Drummond & Beatles 15


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