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Novos horários de bares na Cidade Baixa afetam atividades adjacentes via Editorial J de igor em 08/08/12

Cidade Baixa não apresenta o mesmo movimento de outros tempos “O movimento? Diminuiu bastante, algo em torno de 50%.” Afirmações como essa são comuns atualmente na Cidade Baixa, onde há quase dois meses vigoram novos horários de funcionamento para os bares. As novas normas, instituídas pela prefeitura de Porto Alegre, determinam que, de quinta a domingo, os bares devem funcionar até a 1 hora da manhã e, nas sextas-feiras, sábados e vésperas de feriado, até as 2 da madrugada, sempre com 30 minutos de tolerância. No entanto, a regra não atinge apenas os bares e restaurantes, mas também flanelinhas, estacionamentos, moradores de rua, garis, prostíbulos e outros serviços adjacentes. Funcionário de um estacionamento de seis pavimentos na rua Lima e Silva, Leonardo Carneiro lamenta a nova realidade do bairro. “Caiu bastante o movimento, mais ou menos 50%”, relata. Questionado sobre as estratégias adotadas para reverter a situação, responde com pessimismo: “Os bares fecham, daí não tem como vir gente estacionar. Não baixamos os preços ou nada do tipo, o problema é que as pessoas não estão mais vindo pra cá.” Sorte daqueles que possuem um bom ponto, como o flanelinha Gelson Vieira, que trabalha na frente de uma boate e de uma movimentada lanchonete na avenida Venâncio Aires. Para ele, pouca coisa mudou. “Aqui o movimento é toda a noite. Trabalho até meia-noite e sempre tem gente. A lanchonete está sempre cheia, daí continua bom pra mim”, pondera. Edemilson Ferreira, funcionário de um estacionamento na rua José do Patrocínio, é outro que está satisfeito com o fechamento dos bares ocorrendo mais cedo. “Aqui nós só trabalhamos com mensalistas, todos moradores. Para a gente, então, não mudou nada, até melhorou”, afirma. “Antes, tinha muita gritaria, gente quebrando garrafas e brigando. O pessoal aqui da garagem até reclamava, porque estacionavam ali na frente. Agora está bem mais tranquilo”, diz aliviado.


Realmente, tudo está bem mais tranqüilo. Às 22:15, quando há alguns meses atrás enxergaríamos dezenas de jovens nas imediações da esquina das ruas José do Patrocínio e Joaquim Nabuco em bares como o Cachorro do Elio, o que havia era um cenário praticamente vazio. Os táxis poderiam dar a falsa impressão de movimento, mas estavam ali apenas para recolher o público do show da banda Teatro Mágico, realizado na casa de shows Opinião. O soldado do 9º Batalhão da Polícia Militar (9ºBPM) Diego Mendonça garante que o menor número de pessoas nas ruas representa mais segurança. Ele também alegou que a presença da polícia militar é suficiente na região e não há motivo para que os moradores tenham medo de andar pelas vias do bairro.

Morador de rua Roberto Garda recebe menos esmolas atualmente. “Sou bêbado. Quero um dinheiro pra comprar cachaça. É isso mesmo, não gosto de mentir.” Assim se apresenta Roberto Garda, morador de rua da região que engrossa o coro dos que lamentam o novo horário dos bares. “É, fica ruim para mim e para quem está na rua, curtindo”, afirma. Garda diz também que, agora, está mais difícil conseguir o dinheiro para sua cachaça: “Estou das 18h até agora (23h) e só consegui 15 centavos.” “O movimento diminuiu, mas sempre tem alguém que passa e me ajuda. Não gosto de pedir, só peço até ter o dinheiro da minha cana, depois eu compro, bebo e fico na minha”, relata. Quem está comemorando realmente o esvaziamento da Cidade Baixa são os garis. Segundo Marcos Antônio da Silva, que trabalha na limpeza da região há mais de três anos, para quem toma conta de toda a sujeira da boemia, o momento é maravilhoso. “Para nós, melhorou bastante. É menos lixo, antes era muita latinha de cerveja e garrafa quebrada por todo o lado”, lembra.


Gari não tem mais tantas latas de cerveja e garrafas quebradas para recolher. Ricardo Correia Martins, flanelinha que trabalha nos finais-de-semana num trecho da rua da República, sentiu no bolso as novas regras dos bares. “Diminuiu bastante o movimento, mais ou menos 50%”, lamenta. Mesmo com a redução do público, ele diz que não vai abandonar seu ponto. “Acho que vai ficar desse jeito mesmo, mas vou ficar. Ainda dá para tirar um troco legal”, acredita. Às 23h30, a esquina das ruas Lima e Silva e República parece ser o ponto mais movimentado do festivo bairro portoalegrense. O número de pessoas, porém, não é o mesmo dos tempos anteriores às normas da prefeitura. A Lima e Silva, onde antes os engarrafamentos eram constantes nas noites de sábado, agora apresentava um trânsito relativamente tranqüilo. A realidade, definitivamente, é outra. Até mesmo em prostíbulos o público decaiu. Num estabelecimento da avenida Venâncio Aires, a reportagem do Editorial J foi conduzida, após alguns pedidos, ao interior da boate. Chegando ao salão, os postes de pole dancing, as mesas e as cadeiras vermelhas estavam vazias. O remix de “We Are Young”, sucesso recente do pop internacional, não era ouvido por um só cliente. Ou melhor, havia um único senhor, sentado no canto do salão. No balcão, o responsável pelo caixa argumenta que não pode falar sobre o movimento da casa, pois “o proprietário não está, daí complica”. Depois de alguns pedidos, ele cede e diz que vai chamar “uma moça que trabalha aqui há mais tempo”. A moça se vestia de forma atípica, com calça e um casaco esportivo, mas sem dispensar o salto alto. Ela confirma o que era evidente: “Diminuiu muito o movimento, acho que 50%, ou algo por aí”, estima. Ela diz ainda que estratégias foram adotadas para “chamar o pessoal”, mas não funcionaram. “A gente já baixou os preços, mas não deu jeito. Já tentamos um horário diferente, mas não adianta, Cidade Baixa é à noite”, finalizou.

Texto: Caio Venâncio (1º semestre) Fotos: Caroline Corso (7º semestre) Colaborou Eduardo Bertuol (6º semestre)

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