Revista Sabugo

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número

01 JULHO

música sem fronteiras

2012









Escola Superior de Propaganda e Marketing Curso de Graduação em Design Projeto Integrado do 3º semestre das disciplinas: Prof. Marise de Chirico Prof. Regina Ferreira da Silva Prof. Vivian Iara Strehlau Prof. Paula Csillag

Integrantes do Grupo:


mural. carta ao leitor.

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megafone.

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marcia castro.

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“O Deus que devasta mas também cura.”

lucas santtana. o experimental

apanhador só.

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max machado.

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Internet,

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grande aliada.

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teo ruiz.

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Pedro Tati

“Legal esse momento que estou vivendo. Mas legal mesmo seria nĂŁo precisar cantar o que canto.â€? criolo. 22 Sol na garganta

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do futuro

61 mercado de pulga. 65

vamo ai?

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se liga.

74

cidarte. a arte de

80 alexandre orion. 89

ponto de vista.

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cotidiano.

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poema visual. revista sabugo | junho 2012 | 11


carta ao leitor.

Música sem fronteiras.

S Caio Prat

Gustavo Barcelos

Lucas Bernoldi

Matheus Leite

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abugo: o resto à margem do milho superficial. Arte sem fronteira e sem a burocracia das grandes gravadoras contemporâneas. A música independente nacional que é o nosso foco principal vem evoluindo junto com as novas tecnologias. Nesta primeira edição, mostramos aos nossos leitores a promissora carreira de Lucas Santtana, um dos grandes músicos do universo independente brasileiro, que está fazendo cada vez mais sucesso no cenário nacional e internacional. Tanto ele como muitos outros artistas que são mencionados em nossas páginas estão disponibilizando seus trabalhos na internet. Quem também utiliza esta ferramenta é o já consagrado Criolo, com quem fizemos uma entrevista na qual o músico fala sobre sua trajetória. Além da música independente, a Sabugo também divulga a arte urbana marginal de artistas jovens experimentais sem grandes nomes no mercado da arte. Para isso, há uma seção própria, a “cidarte” na qual é divulgado o trabalho desses artistas que fazem parte de galerias como a galeria zíper e chiclete e que vivem por conta própria fazendo intervenções na cidade. Blogs e outros tipos de páginas virtuais sobre arte e música independente estarão diretamente relacionadas à Sabugo e são recomendadas na seção “se liga”. O que também nunca faltará serão indicações para os leitores de sites que tenham downloads grátis disponíveis, como o blog “meio desligado”. Inspirada nos excluídos, a revista sabugo convida você leitor a participar deste mundo underground com sons alternativos e imagens que apresentam outro ponto de vista. Seja bem vindo.


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Antonio Curti

megafone.

Comentários e sugestões de nossos leitores.

“ Sou músico e na minha concepção acho fundamental ter revistas desta gênero no mercado. Por ser e viver da música sei como é dificil o ínicio para qualquer banda idependente em divulgar seu trabalho alêm da internet. Vcs fazem um ótimo trabalho e ajudam muito musico. Um grande Abraço”

“ Sinceramente, gosto muito da Revista Sabugo. Tenho diversas sugestões de músicas idependentes que não possuem a ajuda das grandes gravadoras. O trabalho da Sabugo é muito importante para dar voz as novas bandas”

“Acredito que essa Revista é fudamental para as bandas de garagem ou independentes, vcs fazem um ótimo trabalho.”

“Revista muito boa!!! Gosto muito das matérias com os artistas. Entrei no Site da Sabugo e achei incrível também. Parabéns!”

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perfil.

Márcia Castro A artista Márcia Castro acaba de lançar o seu segundo CD, chamado “De pés no chão“

Q pop-rock” (ao lado de Fernanda Takai e Vanessa da Mata);

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pena conferir essa grande artista.


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Lucas Santtana “O Deus que devasta mas também cura”

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por Matheus Vinhal


Depois de álbuns com fortes características conceituais, dos quais se destacam “3 Sessions in a Greenhouse” (2006) e “Sem Nostalgia” (2009), Lucas Santtana enfim lança – ao que parece, é sempre bom se lembrar – um disco sem fio condutor tão preciso quanto os precedentes. Longe de ser defeito ou algo a menos, a ausência de um elemento de fácil identificação permeando “O Deus que Devasta mas Também Cura” explicita mais e melhor a evolução e a consolidação de um estilo característico ao cantor e compositor baiano.

A

bem da verdade, “O Deus…” tem, sim, uma motivação central: o fim do relacionamento de Lucas com Anna Dantes, a quem o disco é dedicado, juntamente com o filho do casal. Mas a separação é tema de apenas parte das canções, como a que abre e dá nome ao disco. Além disso, trata-se de uma motivação exterior ao som, que não dita um ritmo ou uma ambiência específica ao disco e, se comparada aos motes dos álbuns anteriores, como o dub em “3 Sessions…” ou o violão em “Sem Nostalgia”, pouco representa no resultado final. Como disse, o caminho tomado por Lucas Santtana em “O Deus…” pode ser encarado como o de consolidação. Depois das experimentações nas canções dos discos anteriores, o cantor se decide por pequenos toques que remetem a esses procedimentos – como o sintetizador pontuado em “Jogos Madrugais”, que relembra os mashups com violões de “Sem Nostalgia”, ou mesmo o “abraço do grave”, como diz em “Ela é Belém”,

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“ É bem clichê, mas, pela primeira vez, eu fiz um disco que é como um diário”relata , Lucas Santtana o músico no Metrópolis da TV Cultura presente nas experimentações com o dub e já parte recorrente da sua produção. Entretanto, os arranjos aqui são, em sua maioria, mais conservadores (nada de insetos, sons ambientes ao fundo, por exemplo), com bastante orquestração – ainda que arranjadas de uma maneira ligeiramente original – e sintetizadores preenchendo o som de fundo das canções. O resultado é provavelmente o melhor disco já feito por Lucas, mas o que menos se aventura por novas sonoridades e experimentalismos. Com sua produção praticamente impecável, talvez es nável como os discos independentes mais recentes soam mais acabados, em termos de produção. Além disso, com o recém lançado “Caravana Sereia Bloom” de Céu, o próximo disco de Curumin, “Arrocha” (com lançamento agendado para abril) e este último de Lucas Santanna, acredito estaros diante da formação de uma sonoridade que pode ser vista como característica da produção independente brasileira, ao menos deste ano. Em grande parte, essa sonoridade similar se deve, me parece claro, ao aspecto colaborativo de um grupo específico da atual geração da música brasileira. Em “O Deus que devasta mas também cura” temos participações dos já citados Céu e Curumin, além de Rica e Gui Amabis, do produtor e guitarrista da Tulipa Gustavo Ruiz, da banda Do Amor, Kassin e Lucas Vasconcelos, além da produção do renomeado Chico Neves. O disco de Lucas Santtana, nesse sentido, tem o mérito de ser um dos melhores – dos mais bens acabados, finalizados, produzidos, composto, divulgado, arranjado etc. – exemplares da atual produção musical independente brasileira desse início de década. Além disso, por ser curto (menos de 40 minutos de duração) e de rápida assimilação, de poucas experimentações, mas com certa originalidade nos arranjos e com poucos erros. 20 | revista sabugo | junho 2012

Álbum “3 sessions in a green house” 2006

Álbum “Sem nostalgia” 2009

“O Deus que devasta mas também cura” 2012


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sabugando.

Criolo

Autor do disco mais elogiado do ano, incensado pela crítica e por uma devota massa de fãs, indicado a cinco prêmios no VMB, shows abarrotados. Criolo está por cima, não se discute. Mas o seu o sucesso é tudo, menos repentino. Está apenas colhendo os frutos de mais de 20 anos de rap – e 35 de uma dedicada e improvável história de educação em família.

V

ocê pergunta. Mas não encontra uma resposta pronta. E sim uma incontida fala ornada de poesia, difusa e um tanto disléxica. Um flow caudaloso de imagens, gestos, pausas dramáticas, recorrências e repetições que não denota um MC experiente – o que, de fato, Criolo é. Parece mais o lapidado sintoma de um homem angustiado. E não serão shows apinhados, fãs de todos os orçamentos, elogios rasgados e impressos, discos esgotados, uma capa da Trip ou um dueto com Caetano Veloso que vão acalmar, um pouco que seja, sua alma trêmula. Porque toda essa atividade sísmica na psique de nosso entrevistado não diz respeito a fama, dinheiro ou prestígio. Tem a ver com... carma? Porque, cá pra nós, talvez essa angústia tenha começado há muito tempo, antes mesmo de Kleber nascer. Quando sua mãe, a dona Vilani, era só uma criança correndo com um pedaço de carne crua embrulhado no jornal do dia anterior. Ela tinha que chegar logo em casa, antes que o sangue manchasse todas as letras no papel e nada mais fosse legível. Era como ela matava sua fome por leitura e completava, autodidata, sua alfabetização. Já que não Álbum “Nó na orelha” 2011 havia escola, nem livros, nem dinheiro... e a embalagem 22 | revista sabugo | junho 2012

era a única coisa com palavras impressas disponível na região carente do Ceará. Escritos que ela decifrava a duras penas, comparando com seu nome (tudo o que sabia escrever quando seu pai morreu) e deduzindo as demais letras, depois sílabas e palavras. Hoje, ao escutar sua mãe descrevendo essa cena, Kleber tem os olhos empoçados. Mais do que música, é essa improvável urgência o que Criolo nos oferece. Quando compõe, canta, improvisa ou, simplesmente, fala em uma entrevista. “Muito legal o que está acontecendo comigo hoje. Mas legal mesmo seria eu não sentir essa dor no peito”, ele diz, ao refletir sobre a repercussão de seu novo álbum, Nó na orelha. O disco rapidamente transcendeu as invisíveis, e agora menos rigorosas, fronteiras entre o rap nacional e a canção. Entre seus fãs antigos de rinhas e eventos de hip hop e um público mais amplo, menos aguerrido. Provocou um tiroteio de adjetivos generosos da crítica, que, refém de rótulos e preconceitos, enumerou não sei quantos “estilos” entre as dez faixas do disco. Muita gente, como se houvesse distinção, decretou que Criolo fez “a ponte que faltava entre o rap e a música brasileira”. Bobagem.Se ele fez alguma ponte nesse disco, foi entre sua história e um público cada vez maior – e mais carente.


“Todo mundo tem fome. Se não é de feijão e farinha, é de amor”, filosofa. E com isso explica um pouco do que está por trás da unanimidade que a canção “Não existe amor em SP” alcançou. A música nem deveria estar no álbum. Foi feita de repente, melodia e letra, enquanto esperava os atrasados produtores do disco, na porta do estúdio El Rocha. A letra que fala sobre o abismo entre a cidade e as pessoas, sobre a solidão de viver entre milhões de desconhecidos, evocou um amor mais difuso, espiritual – e tocou muita gente. Foram mais de 200 mil downloads em três meses, versões na voz de outros artistas. Canção, disco e clipe de “Subirudoistiozin” lhe renderam cinco indicações para o VMB, entre elas disco e artista do ano. Além do convite para dividir o palco da cerimônia em um dueto com Caetano Veloso e um coro emocionado em todo show.

“Legal esse momento que estou vivendo. Mas legal mesmo seria não precisar cantar o que canto. Sentir essa dor no peito” Rajneesh do Grajaú. Até pouco tempo, ele era Criolo Doido. MC de boa quilometragem em São Paulo, um dos fundadores da Rinha de MCs, tradicional duelo de rappers bons de improviso, e voz frequente no Pagode da 27, samba comunitário de seu bairro, o Grajaú, na zona sul da cidade. Mas, Doido ou não, Criolo estava em crise. “Me questionava se eu deveria continuar no palco”, ele confessa, “se eu não tinha outras formas de colaborar. Foi quando Marcelo Cabral veio com a ideia de gravar algumas músicas do amigo. Até para não passar batido.” Sem pretensão, do começo ao fim, o projeto tomou corpo. Curiosamente, o disco é fruto de tudo, menos dessa tal falta de amor em SP. Sem gravadora, orçamento

super-reduzido, Criolo virou apenas o talento ao redor do qual gravitou muita gente que... amou o projeto. E estava a fim de ajudar sem esperar muito em troca. Cabral convidou Ganjaman para coproduzir a bolacha. Músico experiente, rodado no mainstream e no underground, Ganja entendeu logo o que tinha na mão. “Eu faria na boa um disco tradicional de rap. Mas quando ele cantou umas músicas vi que era um material rico pra cacete. Que tinha espaço ali para arranjos de banda mesmo.” Ganja hospedou o cantor em sua casa, e trabalharam duro. Alistaram alguns dos melhores músicos de São Paulo. O único selo que acompanha o disco independente é o da Matilha Cultural, um coletivo de São Paulo do qual Cabral faz parte e que reúne artistas e ativistas em torno de diferentes causas. Entre elas, apoiar a gravação do que muita gente está chamando de melhor disco do ano. Sem verba de divulgação, com uma assessoria de imprensa voluntária, foi na rede que as primeiras faixas de Nó na orelha correram como rastilho de pólvora. E seus shows ganharam não apenas uma finíssima banda, mas um público mais heterogêneo e devotado. É ao vivo, arrisca o repórter, que se entende melhor os tantos holofotes sobre o rapaz. Ele tem real domínio do público e de sua voz. Sabe se colocar ao mesmo tempo como líder e como um mero membro de uma súbita congregação. Mesmo entre boleros, raps, afrobeats, covers de Nelson Ned, é difícil não pensar que paira sobre as mãos erguidas e as vozes em uníssono um ar de culto, de igreja. Criolo não assume, nem é besta de admitir, a presença e o pique de profeta. Mas, por conta de frequentes, e sinceros, arroubos metafísicos e hiperbólicos, o rajneesh do Grajaú ganhou entre os mais chegados o apelido de Criosho. MC, intérprete, compositor, artista 24 horas de plantão... Papéis cada vez mais públicos que ele assume. Exceto um, que ocupou 12 anos de seu currículo: professor. Dando aulas de arte em escolas ou no delicado papel de arte-educador, em que tentava a difícil primeira abordagem a menores de rua. “Não gosto de falar sobre isso”, desvia, “não quero parecer que estou me promovendo em cima disso.” Mas foi essa vocação, sonhada desde criança e revista sabugo | junho 2012 | 23


herdada de sua mãe, que parece ter um papel inevitável em sua poesia e sua visão do mundo. E o contraste radical entre o amparo, a educação e os valores que aprendeu em casa e a carência, o egoísmo e o descaso que testemunhou nas ruas é o que parece ter criado essa urgência que construiu o homem angustiado, o MC de verbo farto, o artista de que todos falam. E o entrevistado a seguir.

Saindo da primeira série

Jogando bola no quintal da casa do Grajaú

O MC em ação, show no SESC Vila Mariana em São Paulo- SP

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Você canta desde os 13 anos. São mais de 20 anos de carreira, um nome consolidado no rap nacional. Mas com o lançamento do Nó na orelha seu som chegou para muito mais gente. É estranho esse sucesso “súbito”? Quando eu comecei com 12, 13 anos de idade, não pensei que alguém fosse me escutar. Eu sempre fiz tudo por amor ao rap e por uma vontade muito grande de contribuir. Eu cantava porque tinha necessidade de expressar uma dor que eu sentia, e ela perdura até hoje. Mas é totalmente diferente de uma pessoa que entrou nessa pra fazer sucesso. Tanto que, até pouco tempo antes do disco, eu me questionei se deveria continuar subindo no palco. Se minha construção de texto, de ideias, ainda iria evoluir. Se não tinha outras formas de contribuir. Porque o MC no palco é só a ponta de um iceberg. Foi nessa época de questionamento que nasceu o Nó na orelha. De um registro de um cara que iria deixar os palcos. Sem dor nenhuma, com o maior orgulho. Veio da vontade de amigos que ajudaram a criar uma situação para eu ir ao estúdio não deixar esse material passar batido. E a coisa foi virando, ganhando corpo. E agora estamos vivendo este momento tão legal, o reconhecimento, esses músicos maravilhosos que estão perto de mim. Mas legal mesmo seria eu não precisar cantar o que eu canto. Como assim? Legal seria eu não sentir essa dor no peito. Eu faço música porque eu tô desesperado! Porque eu não me ponho à parte. Eu sou povo, sou do Grajaú. Tenho orgulho das pessoas que lutam por lá. Vou fazer 36 anos e vejo o quanto o mundo ainda está sofrido. Então só paro se alguém me matar. Porque eu sinto essa urgência de conversar com as pessoas. E eu acho que a música abre um diálogo. De certa forma, você não se sente só. Tem gente me escutando


Ensaio fotográfico para o álbum “Nó na orelha” 2011

porque eu tô há 20 anos nessa. As pessoas vão esbarrando em mim. Um foi há dez anos, outro há 15 anos. Quando alguém fala que eu sou maravilhoso, ou me xinga, é porque estabeleceu um diálogo. É mágico isso! Não precisa glamorizar, inventar que estou fazendo sucesso agora. Não é uma questão de glamour, mas quando esse diálogo ganha escala Deixa de ser tão pessoal? Por um lado sim. Mas a mensagem passa e a gente cria uma ponte. Porque está todo mundo passando fome. Essa é a verdade. Estamos todos morrendo de fome. Seja de feijão com farinha, seja de amor. Por isso essa atenção toda, essas coisas que vêm acontecendo. Mais do que nunca hoje a arte é uma coisa buscada, valorizada. Porque o lúdico, a magia da comunicação, isso supre uma fome das pessoas. Mas a exposição, foto no jornal, jornalistas te chamando de gênio... Você não acha esse hype meio perigoso? Quando te elogiam demais você acaba arrumando inimigo sem saber. Peço desculpa a todos. Mas eu não estou em busca de elogios. Só faço música com o coração. Se um dia fizer outro disco vai ser com a mesma intensidade, com o mesmo amor que eu fiz esse. O que as pessoas falarem eu vou respeitar, é a opinião delas. Mas também não posso reclamar de uma pessoa que tá me mandando uma energia positiva. O irmão fez um elogio pra mim, ele tá emocionado, se identificou, muito obrigado! Receber um elogio, com tanta gente maravilhosa que tem feito música no Brasil, já é muita coisa. Mas você sente seu ego sendo testado por conta disso? O ego é o que mata o homem... Se cair nessa eu danço, porque a expectativa é do outro, então você vai sempre decepcionar. Se eu sou uma pessoa especial? Pro seu Cleon e pra dona Vilani, eu sou especial, porque sou filho deles. Mas quando subo no palco, as pessoas cantando junto, eu sei que cada um tem uma história e que poderia gastar seu tempo com qualquer outra coisa. Mas eles estão ali. Com essa vontade de estar junto. Então seria muita burrice achar que isso é por minha causa apenas. É uma

multidão que faz tudo isso acontecer. Mas é claro que aí tem outro lado... Da superexposição, da supervalorização da arte. Porque lógico que já criaram um comércio disso. Óbvio. Os caras meteram cream cheese no temaki! Cream cheese? No temaki? Vamos fazer essa analogia bobinha. Meteram cream cheese no temaki, sabe o que isso significa? Que toda arte milenar que envolve esse prato, toda a cultura, a história dessas pessoas... não importa. Porque o que interessa é vender. Não tá ligado na tradição, na origem das coisas, não gostou do sabor? Mete cream cheese no bagulho. E assim vai indo tudo. E a gente consome. Esse é o risco quando massificam qualquer coisa. Quando essa informação da origem, da verdade das coisas não chega, em vez de bater em quem não recebeu a informação e consome, tem que questionar quem não deixou essa informação chegar.

“Todo mundo está passando fome. Seja de feijão com farinha, seja de amor. Por isso a arte é tão valorizada” Mas você corre esse risco cream cheese? Todo mundo que tá se aproximando por enquanto vem porque se identifica. Eu não tenho poder de lobby, não tenho grana. Eu tenho uma carreira de 23 anos, sempre fui na contramão de holofote, na contramão de um caminho só para aparecer. Eu sei a minha origem. Lá no Grajaú ninguém vai perguntar de onde você veio, como você chegou lá. Se tá na hora do almoço, você vai almoçar. Se tiver frio, alguém vai dar um agasalho. Quando eu falo que “Não existe amor em SP”, é mais ou menos isso. O amor tá naquilo que as pessoas têm vergonha de ver, na delicadeza. Não na cidade, nas prioridades do sistema. Todo mundo está passando fome. O ser humano é a última revista sabugo | junho 2012 | 25


coisa com que as pessoas se preocupam. Carros, celular, roupas sofisticadas. Isso tudo não é para os seres humanos, é pra alguém consumir e gerar grana, pra quem tem grana continuar com grana. Os seres humanos são meros detalhes nessa esteira. Eles devem amar aquela parte bíblica do crescei e multiplicai-vos. Porque, quanto mais gente, mais vão consumir.

loucura, a insanidade de nunca “tá bom”, nunca ser o suficiente. Gente gananciosa que vive em outro planeta. Eles não enxergam um ser humano, enxergam um consumidor e um trabalhador. Porque, se vissem seres humanos, Belo Monte jamais aconteceria.

Mas, falando em corporação, seu clipe foi uma parceria com a Nike, mostra os tênis etc. Muita gente acredita que esses levantes no mundo Eu não estou à parte de tudo. Senão eu teria que andar todo acontecem porque as pessoas estão começando a vestido com uma saca de café e calçando garrafas PET. Eu perceber que esse sistema não está mais funcionando. fiz uma ação de marketing, mas não tenho contrato. Mas eu Acho que nunca funcionou. Aos poucos as pessoas vão sei quem eu sou. Uma coisa é se deslumbrar, outra é criar acordando. A tecnologia ajuda nisso. As pessoas estão se mecanismos pra você trabalhar e sobreviver minimamente. comunicando. Os pensamentos comuns meio que acabam Foram pessoas, seres humanos que se identificaram. E isso se encontrando no universo virtual, e isso tá fazendo coisas ajudou minimamente a pagar aluguel de equipamento. E é acontecerem. Um cara que sente uma coisa, aí ele lê um maravilhoso te falar isso porque quase ninguém iria saber. texto de uma pessoa que se identifica, faz uma conexão, e Todos os profissionais envolvidos cobraram um quarto do de repente tem uma rede de pessoas que se articulam e a que esse clipe custaria. Foi pela vontade de participar, de coisa acontece. Mas, ao mesmo tempo, eu também acredito colaborar para a mensagem passar para a frente. Mas a que tudo que está acontecendo é porque eles deixam. São economia não vai mudar porque minha música está sendo válvulas de escape, tipo: “Vamos deixar eles acharem que mais escutada. Não tem jeito. podem protestar, só pra não ficar incomodando tanto, depois a gente retoma tudo como antes”. Escutando você, dá a impressão de que você não vê muita saída para o mundo. Mas a diferença hoje em dia é que as coisas parecem A gente vive em um mundo em que pessoas morrem de estar saindo um pouco do controle, não? frio, de fome na rua. Que desmatam o que resta de floAcho que não. Quem tem o poder tem o controle. E eles resta. O planeta morrendo e de alguma maneira a gente sabem que tem que existir uma ideia de esperança. Senão não entra em pânico. O absurdo virou a regra e a sanivocê é uma planta sem sol. O jovem sem esperança não tem dade, a exceção. Tanto que quando você vê um grupo ou força para trabalhar. Se você não trabalha, não mexe com uma pessoa fazendo algo em prol dos outros, sem esperar a economia. Eles precisam de um cidadão minimamente muito em troca, isso toca a gente de um jeito emocionante. pseudofeliz que continue consumindo. E muitas vezes basta para você acreditar que alguma coisa tá mudando... Isso é uma desgraça emocional! E não é que Mas você não está simplificando, resumindo demais eu não veja saída. Mas é que eu sinto que as pessoas são um inimigo? Quem são “eles”? educadas para não pensar. Vou dar um exemplo. Quando Eu sei que existem, mas eu nunca cheguei perto. O rosto falo que tem as oficinas abertas de xadrez no Grajaú, as não vai aparecer nunca. Vamos então pegar o nome de dez pessoas ficam abismadas. “O quê?! Xadrez?!” Quando falo empresas que dominam o planeta financeiramente. Pode que tem um café filosófico no Grajaú, eles se assustam. ser a própria ideia de corporação. Porque o ser humano Isso é uma agressão pra mim. É que no mundo deles eu nesse processo não existe. Só importa a corporação, o não penso. Porque todo mundo, rico, pobre, não interessa... lucro. “Eles” é essa ideia. Essa fome, esse desespero, a todo mundo foi educado para ser engrenagem.



E você sente que escapou disso? Eu não leio muito. Li 3% do que minha mãe leu. Tenho dificuldade. Não sei tocar um instrumento musical, sou péssimo em matemática. Eu só tirava nota C. Não ia muito bem na escola, mas ia muito bem em me relacionar com as pessoas, meus amigos. Mas é que não conta relação humana no currículo. Eu aprendi em casa a importância disso. Tendo exemplos de sensibilidade, de muita solidariedade, de carinho com os outros. E aprendi assim a ver que a gente é mais do que o que está posto pela sociedade. E isso não é levado em consideração na escola? Dentro das escolas públicas, por exemplo, nós temos professores maravilhosos. Pessoas comprometidas, sensíveis, que lutam pra caramba por amor ao ensino. Mas aí vem o governo de São Paulo e tira filosofia do currículo, por exemplo. Depois como você quer cobrar sensibilidade das pessoas se você não a oferece? É triste... Mas, se você pensar, a escola só deixou de ser coisa de elite e se tornou pública com a revolução industrial, pra formar operário. Mas vai além disso. É importante a gente falar de escola? É claro que sim! Mas é muita inocência a gente falar de escola num país onde até a saúde é comércio. Se a sociedade não tem sensibilidade nem para lidar com a saúde, vai ter para tratar de educação? Você também tem uma história como educador. Como foi essa experiência? Dura, muito dura. Eu trabalhei com criança e adolescente por 12 anos. Uma coisa é você saber das coisas que acontecem, outra coisa é você estar lá. Ver tudo aquilo diante dos seus olhos, muito próximo. Porque minha função muitas vezes não era dar uma aula, ensinar. Era na rua mesmo, fazer a primeira abordagem, criar um vínculo. Abrir um diálogo. Mas eu nem gosto de falar sobre isso, não acho legal.

minha história para não parecer que estou usando isso de alguma forma, que uso esse personagem para divulgar meu trampo. Eu não acho que as pessoas precisam saber disso pra julgar minha música, minha própria mensagem. Mas a gente não está falando da sua música apenas. Você mesmo diz que o palco, o disco, são a ponta de um iceberg. Não é importante falar da sua história, das coisas que você aprendeu? Certo... isso veio dessa vontade que aprendi com minha mãe, dessa sede de aprender e ajudar os outros. Desde criança eu passava na frente de escola e ficava imaginando que um dia eu queria dar aula ali... Um dia eu tornei esse sonho realidade e virei arte-educador. Trabalhei com ONGs, em projetos da prefeitura. O trabalho era abordar as crianças, os adolescentes, criar uma relação para poder perguntar se o moleque precisa tomar um banho... comer... se quer uma muda de roupa. Sem ofender, descobrir se ele sabe onde está sua família. E acompanhar. Descobrir o porquê de aquela criança estar na rua. Se a família tem estrutura para receber essa criança de volta. Muitas vezes não tem... Não é um trabalho fácil. Por isso não gosto de falar, entende?

Algo bem mais básico do que simplesmente ensinar. Por isso digo que educação é, antes de mais nada, um ato de amor. Abrir um vínculo, minimamente, de um modo que não incomode, porque a rua é a casa dele. Você que é o de fora. Precisa de muita coragem para se dar conta de que você está na frente de um indivíduo, que ele está vivo. Para viver essa ilusão de achar que está colaborando de alguma forma, aceitar o desfecho de um caso, a realidade das coisas básicas da vida... E, com sorte, encaminhar essa pessoa para... eita, meu Deus... esse mundo que está posto. Por que, deixa você triste? Esse mundo que pensa que prendendo ou batendo na Não é isso. Mas eu respeito tanto esses professo- cara de um menino de rua vai resolver o problema de res compromissados, os arte-educadores, esses armas e drogas no Brasil. A situação é diferente, o heróis que fazem a abordagem na rua, que eu omito problema tem que ser resolvido dentro de casa.

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O MC observando as ruas de S達o Paulo

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Sol na Garganta Do Futuro “No meio de tudo: por Ana Luiza espaço” Calmon

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N

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Pedrinho Noé

trocando ideia.

Max Machado

Pedrinho Noé

“Estudei audiovisual, jornalismo e engenharia de áudio. Toco em bandas há onze anos, canto no teatro há cinco, sou instrutor de snowboard pela associação canadense e sou membro do coletivo literário semruído.” onversamos com Max Machado, vocalista da banda de metyal Envydust. O que é uma banda independente? Por definição, bandas independentes são bandas sem vínculo com grandes gravadoras, bandas que não estão atreladas a nenhum tipo de empresa mainstream. Como funciona a divulgação de uma banda independente? A internet é, sem sombra de dúvidas, a principal arma das bandas independentes. A maioria das ferramentas de divulgação da internet são gratuítas - mesmo quando são pagas, os valores nem se comparam com os jabás de rádio e tudo mais -, e você consegue atingir gente do mundo inteiro. Palavras como fotolog, myspace, orkut e tramavirtual são essenciais para qualquer banda que queira ter algum destaque hoje em dia. É só saber usar todo esse arsenal de informações.

Max Machado em um show em Minas Gerais

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Qual é o critério de importância das bandas dentro do cenário independente? Como em qualquer profissão, diferentes pessoas utilizam as mesmas ferramentas e recursos, mas acabam chegando em resultados bem distintos. No meio musical independente é a mesma coisa. Algumas bandas sabem usar essas ferramentas de divulgação melhor que outras, criando verdadeiros mundos virtuais para que os fãs possam estar sempre imersos no que a banda quer propor. Isso tudo é muito legal, mas o triste é que muitas vezes a música, a qualidade das composições, acaba ficando lá atrás na cadeia de importância. Vivemos numa era muito visual, com forte apelo de fotos e vídeos, então muitas


Pedrinho Noé

vezes as bandas ganham público por terem determinado visual, mesmo quando não têm o menor cuidado com suas músicas - que deveria ser o ponto principal de uma banda. Chegamos ao cúmulo de freqüentemente encontrarmos bandas que têm site, fotolog e tudo mais, sem nem ao menos terem músicas gravadas.

“Como em qualquer profissão, diferentes pessoas utilizam as mesmas ferramentas e recursos, mas acabam chegando em resultados bem distintos.” Por que permanecer no cenário independente? E por que sair? Tudo tem suas vantagens e desvantagens. Bandas independentes são, de modo geral, livres pra agir como bem entenderem. Desde a composição, até a imagem da banda, passando por toda a parte de imprensa. Algumas bandas, para chegarem ao mainstream - conseqüentemente saindo do independente - acabam abrindo mão dessas liberdades, e entregando seu trabalho nas mãos de algum empresário, que passa a mandar em tudo. “Então ficar no independente é obviamente melhor” você pode pensar. Mas há de se considerar que os músicos precisam de dinheiro - principalmente com a idade chegando (risos) - e muitas vezes a saída do independente para um meio mainstream possibilita aquele velho sonho de viver apenas de música. Cabe então às bandas e aos selos mainstream encontrarem um meio termo à tudo isso, uma maneira de viver de música sem deturpar a carreira que

Max Machado em um show

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Pedrinho Noé

o músico sério veio construindo ao longo dos duros anos de independente.

O que as bandas independentes fazem para se manter? Infelizmente quase não se vende mais discos hoje em dia, e o sistema de downloads de mp3 pagos ainda não está funcionando a pleno vapor no Brasil. Sendo assim, o disco ou as músicas não são mesmo a principal fonte de renda de uma banda. Os shows acabam sendo o ganha pão. Toda a divulgação de internet mencionada anteriormente é fundamental para que as pessoas conheçam o som e tenham vontade de ir aos shows. Voltando ao assunto dos discos, nós lançamos nosso segundo álbum em março agora, e adotamos uma tática pra ter o disco espalhado por aí. Fizemos um encarte de 28 páginas, totalmente colorido, uma embalagem digipack e mandamos prensar tudo do bom e do melhor, pra depois vender pelo preço aproximado de custo: R$5. O processo deu mais certo do que esperávamos: enquanto o disco estava na fábrica, vendemos 300 discos pela pré-venda de internet, e no dia do lançamento os 700 restantes foram vendidos, esgotando a primeira prensagem no dia em que ela chegou da fábrica. Foi um marco sensacional pra gente.

Max Machado com integrantes de sua banda em um show

Site da banda de Max: www.envydust.com.br 38 | revista sabugo | junho 2012


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Internet

A grande aliada das bandas independentes

por Carlos AndrĂŠ Enchenique

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ser pagos.

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Cleide Miamar

trocando ideia.

Téo Ruiz Téo é biólogo pela Faculdade Federal do Paraná. Apaixonado por música, se pós gradua em Música Popular Brasileira e hoje se dedica a arte. ntrevista com Téo Ruiz sobre o cenário da música Independente

Téo, geralmente começo as entrevistas pelo início da carreira dos artistas, com você farei o inverso, vou inicia-lá com o momento atual. Hoje você e a Estrela estão na Espanha. O objetivo dessa viagem foi a música? Se sim, conte um pouco dessa experiência que vocês estão vivendo. O motivo dessa viagem só poderia ter sido a música, mas na parte acadêmica. Nós fomos aceitos num mestrado, na cidade de Valladolid. E por incrível que pareça, nossas pesquisas serão sobre o Brasil. Vai ser uma boa oportunidade da gente aprofundar nossa pesquisa musical, mais especificamente sobre a música brasileira. Em 2006, vocês lançaram o cd Música de Ruiz e o livro “Contra Indústria”, projetos que originalmente eram para a conclusão do curso de Pós-graduação em Música Popular Brasileira pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP). Qual era a intenção de vocês colocando esse projeto disponível? Mostrar uma nova realidade dentro da música? Uma crítica a indústria fonográfica? A intenção era unir nossas composições com uma pesquisa que refletia a realidade que vivemos dentro desse cenário dito independente. Não achamos esse termo mais apropriado, mas enfim. E além disso, na época nos demos conta de que havia pouco material sobre a música produzida fora do grande circuito, e sobretudo um único material que reunisse de uma maneira ampla os aspectos e tendências da cena contra-industrial.

Encaramos esse desafio de pesquisar e escrever esse livro, que está sendo o ponto de partida desses nossos novos estudos e também serviu de base para vários Cleide Miamar

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Téo Ruiz e Estrela Ruiz

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outros estudos em diversos cantos do país. Isso é muito legal. Portanto, mais do que simplesmente mostrar a distorcida realidade do cenário fonográfico no Brasil, no qual se tem a falsa impressão de que o que há de bom na música brasileira está na grande mídia e nas grandes gravadoras, nossa intenção foi colocar em foco diversas discussões importantes, novas alternativas e que, realmente, vivemos uma transição, uma mudança de paradigma, de que a produção de música no Brasil passará por profundas mudanças nos próximos anos.

CD - Música de Ruiz

O CD Música de Ruiz teve várias participações (Carlos Careqa, Glauco Soter, Ângelo Esmanhoto, Du Gomide…) e parcerias (Alice Ruiz, Makely Ka…). Eles deram alguma opinião no Música de Ruiz? Gostamos de trabalhar com a diversidade. Cada participação especial deu sua contribuição, assim como nesse novo disco que vamos lançar no segundo semestre (São Sons). Foi um processo muito bacana, de troca, aprendizado e parceria mesmo. A Estrela é filha dos poetas Paulo Leminski e de Alice Ruiz. A poesia deles influenciou o trabalho de vocês? A poesia deles influencia nosso trabalho até hoje, assim como toda a nossa geração, as gerações anteriores e tenho certeza que as próximas também. São poetas importantes da poesia brasileira, nada mais natural.

CD - Sertanília

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Tudo Tem Recheio é o primeiro cd da banda Casca de Nós, grupo que vocês fundaram em 2002. Esse cd é diferente do Música de Ruiz. O trabalho de vocês é uma experimentação constante do que a música pode proporcionar? O Casca de Nós era uma banda, com várias opiniões diferentes. O estilo da banda acabou levando para uma direção que não cabia todo um outro lado das nossas composições. A produção do Música de Ruiz foi nossa, e do disco do Casca foi de uma pessoa de fora, o Renato Villaça. Quer dizer, concepções de trabalhos completamente diferentes. Isso é legal também, nós não temos a intenção de ficar presos a uma forma, gênero ou estilo.


Cleide Miamar

Em Contra-Indústria vocês falam sobre as leis de incentivo à cultura, que o Ministério da Cultura pretende modificar. Qual seria uma mudança significativa para o artista independente? Participei de diversas discussões sobre essas mudanças, fóruns e reuniões, não só em Curitiba. Na teoria, essas mudanças pretendem democratizar o acesso das verbas do Ministério, beneficiando principalmente os artistas independentes. É importante frisar: na teoria. Agora, depois de aprovadas, temos que fazer valer a teoria. Na música houve uma mobilização muito grande a nível nacional, como nunca houve antes, em torno desse e de vários outros temas importantes. O trabalho que realizamos tanto no fórum estadual quanto nacional, é reivindicar que as mudanças realmente saiam da teoria, e que as demandas da música sejam efetivamente atendidas pelas políticas públicas. Houve alguns avanços, mas esse é um processo constante.

Vocês dão oficinas e workshops sobre Música Independente? Quais são as principais indagações dos participantes a respeito do assunto? Temos públicos distintos para as oficinas que damos. Tanto bate-papos com artistas e público em geral, quanto oficina de vários dias para alunos de escolas públicas. Dependendo, temos discussões bem diferentes. Mas de maneira geral, percebemos que todos têm uma vontade muito grande de conhecer coisas novas, grupos e artistas diferentes, já que a grande mídia, há vários anos, apresenta muito poucas novidades. Realmente, as novidades estão cada vez mais fora do grande cenário fonográfico.

Como vocês veem o cenário musical hoje? O que mudou desde o lançamento do cd e do livro? O cenário musical de hoje no Brasil apresenta uma série de distorções e todo seu sistema de funcionamento não se sustenta mais, por diversas razões. Um exemplo dessa distorção é o espaço oferecido na mídia nacional, que é praticamente exclusivo para artistas das grandes gravadoras, deixando de lado a imensa maioria de músicos e compositores que trabalham profissionalmente fora desse cenário. As grandes mídias também estão se adaptando à nova realidade, os artistas estão conseguindo trabalhar por conta própria, políticas públicas estão, pelo menos na teoria, buscando corrigir essas distorções. Ou seja, estamos vivendo cada vez mais uma autonomização da produção de música no país, e o compositor está sendo cada vez mais importante em todas as etapas da produção, e não somente na criação como historicamente Vocês idealizaram o Projeto Independência ou Sorte. foi no século XX. E desde que escrevemos o livro, muita Em que consiste esse projeto? coisa já mudou, como o surgimento de ferramentas como Esse foi um projeto muito bacana, que pretendia forta- o Myspace que hoje é praticamente indispensável para lecer o intercâmbio entre os artistas “independentes” e, qualquer artista profissional. Essas mudanças contínuas também, mostrar ao público que a música brasileira é nos obrigam a ficar atentos e sempre discutindo novos “muito mais do que se ouve por aí”, como dizia o slogan caminhos, e justamente por isso estamos aprofundando do projeto. Foram shows que aconteceram em Curitiba e nossos estudos e já pensando em fazer uma segunda em Belo Horizonte, reunindo artistas fora da grande de edição do livro. mídia e, sempre que possível, debates e mesas redondas. Pretendemos retomar esse projeto mais pra frente.

“O cenário musical de hoje no Brasil apresenta uma série de distorções e todo seu sistema defuncionamento não se sustenta mais…”

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Enrique Miranda

Apanhador só O quarteto gaúcho estréia clip em show no Rio

por Sarah Quines

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Enrique Miranda

O grupo reunido para ensaio fotográfico para a Revista Sabugo

Quem disse que já não se fazem mais canções como antigamente deveria ouvir Apanhador Só. O quarteto gaúcho, que lançou no último dia 10 o belo clipe da música “Nescafé”, se apresentou no Studio RJ na quinta, dia 15. O show, que estava marcado para as 21h30, começou quase uma hora depois, mas o atraso veio a calhar. Seria um desperdício começar uma apresentação para a plateia minguada. No entanto, aos poucos, a casa foi enchendo até atingir um número considerável. O clipe foi apresentado no telão para a plateia que se dividia entre observar o vídeo fazendo comentários ou acompanhando a letra. Se o rock gaúcho é um terno mofado, a fórmula banalizada não é seguida pelo Apanhador Só. Ao não trazer mais do mesmo (o velho estilo a la Beatles-Rolling Stones-The Who), a banda mostra maturidade na forma de mesclar gêneros e faz uma espécie de música popular brasileira contemporânea que extrapola a estética associada à cena de rock do sul . 58 | revista sabugo | junho 2012

Como em “Balão de vira mundo”, com arranjos que lembram um tango argentino, ou em “Maria Augusta”, com pitadas de forró, ou ainda em “Bem-me-leve”, com a cadência acompanhada pelo som de uma bicicleta. E essa é outra característica peculiar do grupo: fazer som com instrumentos inusitados, como apitos, uma grade de forno, chave de fenda e a bicicleta – que, além de figurar no palco, também estampa a capa do disco, adesivos, camisetas e botons. As versões da gravação em fita k-7, lançada em 2011 à base de facas de cozinha, violão de plástico, entre outras quinquilharias, ficam limitadas nas apresentações, pois tirar som de toda essa parafernália dentro de uma casa de shows não causaria o mesmo efeito, nem parece ser essa a proposta. Enquanto o quarteto fez suas intervenções acústico-sucateiras no Parque da Redenção (RS), é nas guitarras que eles se apoiam no show no Rio. Tiveram também a participação de Rafael, assistente de


Enrique Miranda

fotografia do clipe novo, para tirar som da bicicleta e dos apitos. Com os versos de “Peixeiro”, a banda deu início ao show (“O nosso amor, uma garrafa de vinho/ virando vinagre devagarinho”). E o contagiante “lara-lara-laia-laia” de “Na ponta dos Pés” foi acompanhado na ponta da língua por um público entusiasmado. No palco, Alexandre (voz/guitarra), Felipe (guitarra), Martin (bateria) e Fernão (baixo) tocaram como se estivessem em uma festa de amigos – sem afetação rock’n’roll. A maior parte do repertório do show no RJ foi composta pelas músicas do primeiro disco, mas também incluiu a inédita “Paraquedas”, que vai fazer parte do compacto em vinil produzido por Curumin. Comparando este show do Rio com um feito em 2010 no sul, na época do lançamento do primeiro disco, a banda parece estar mais à vontade no palco, e a plateia mais familiarizada com a música. De modo geral, o público sabia arranhar uma ou outra parte de quase todas as letras – o que é louvável para uma banda independente de poucos anos na estrada. Depois de tocar “E se não der”, anunciada como a última do show, aos pedidos de “mais um”, a banda voltou com a alegre “Vila do meio-dia”. O “laia-laia” foi estendido até culminar em uma bateria quase carnavalesca, tocada a quatro mãos por Felipe e por Martin. O som ao vivo é bastante parecido com a música gravada no disco de estreia, e a estrutura do espaço favoreceu uma boa acústica da performance. A sonoridade incorporada a influências de MPB, rock, tango, e aliada a uma métrica elaborada nas letras mostra que o rock pode (e deve) ser reinventado numa música que ainda desliza dos rótulos existentes, ao mesmo tempo em que recicla com propriedade a velha e boa canção.

O guitarrista Felipe Zancanaro guitarrista da banda em show no Rio

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Caio Quirilo

vamo aí?

Conexão Vivo Saiba sobre programação, ingressos e outras informações sobre o Conexão Vivo BH 2012

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urante o mês de Maio acontece em Belo Horizonte na cidade); a BaianaSystem (que agora terá oportunidade mais uma série de shows do Conexão Vivo, desta vez de tocar para um público mais identificado com seu som, com 51 artistas que se apresentam no Grande Teatro do depois de um show deslocado no pré-carnaval de BH, na Palácio das Artes, no Parque Municipal e na Praça do Papa. Banda Mole); e as bandas indie/alternativas (já conhecidas Ao contrário do que muitos acham, o Conexão Vivo não é do leitores do blog) 4instrumental, A Banda de Joseph um festival, mas sim um grande programa de patrocínios Tourton, Garotas Suecas, Apanhador Só e Aeromoças e culturais que fomenta a produção cultural em diversos Tenistas Russas. Estados do Brasil, com destaque para as produções de Minas Gerais, Bahia e Pará. Os ingressos para todos os shows custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), exceto no dia 20 de Maio, no Parque Os shows promovidos em BH no formato festival são parte Municipal, quando a entrada é gratuita até as 18h, e na das ações do programa e dão visibilidade aos artistas que Praça do Papa, onde a entrada é livre. Para os shows no a Vivo patrocina ao mesmo tempo em que apresenta ao Parque Municipal os ingressos já podem ser comprados público de BH alguns dos artistas mais interessantes da através do site Sympla e na bilheteria do Parque Municipal atual cena musical brasileira. a partir do dia 14 (entre 10h e 19h). Os shows no Palácio das Artes, que abrem a programação do Conexão Vivo BH, A programação segue a linha eclética de edições passadas têm ingressos à venda na bilheteria do Palácio das Artes e do Conexão Vivo e vai do experimentalismo eletrônico no site ingresso.com. da parceria entre a dupla de multiinstrumentistas Lise e Barulhista (que abrem o Conexão com a trilha criada Quem não estiver em BH ou simplesmente não for aos shows ao vivo para o filme O Gabinete do Dr Caligari) ao axé pode assistir tudo pela internet, através da transmissão ao renovado do fenômeno baiano Magary Lord. Alguns nomes vivo de todas as apresentações no endereço: que podem ser destacados na grade de shows são o conexaovivo.com.br/aovivo. Bixiga70 (pela primeira vez em BH); Criolo (terceira vez na cidade, poucos meses após um show lotado no Music Hall); BNegão & Os Seletores de Frequência (fazendo o lançamento do novo CD da banda, Sintoniza Lá); a hypada Gaby Amarantos (agora já com status de estrela, após a música “Ex mai love” ser usada como abertura da novela Cheias de Charme, da Rede Globo); a dobradinha Thiago Pethit e Tulipa Ruiz (shows individuais, na sequência, no Integrantes da banda “projeto charmoso” dia 13 de Maio no Palácio das Artes); o paraense Felipe Cordeiro (em seu primeiro show acompanhado de banda revista sabugo | junho 2012 | 65


Virada Cultural 2012 Virada Cultural 2012 teve grande presença de público e contou com participação de artistas nacionais e internacionais. Confira como foi essaa grande festa!

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o quesito musical, a Virada Cultural deste ano foi das atrações internacionais – apesar de os brasileiros não terem ficado muito atrás. As maiores atenções se dividiram entre três gêneros: rock, jazz e afrobeat. O rock tomava conta do palco São João e de seu vizinho na Barão de Limeira – além de ter artistas mais novos representados na Rua Cásper Líbero, onde havia um espaço comandado pela MTV. O jazz ficou com a República e, apesar de o espaço ser grande, o público em boa parte do tempo mostrou extremo respeito ao ficar em silêncio diante de artistas do gabarito do pianista McCoy Tyner, que já tocou com o renomado saxofonista John Coltrane.

Pedro Paulo M.

O palco São João, que nas edições anteriores concentrava as principais atrações, perdeu seu título para o da Júlio Prestes, onde foi possível ver a homenagem a gêneros africanos, especialmente o afrobeat. Grande, porém afastado dos demais, ele recebeu nomes como o dos nigeriados Tony Allen e Seun Kuti, este último sendo filho de Fela Kuti, um dos inventores do afrobeat. Mas, mesmo dividido e

Centro de São Paulo tomado pela multidão

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em espaços menores, o rock conquistou seu espaço com apresentações do nível da do grupo americano Man or Astro-man?. Sem seu equipamento, que foi extraviado pela companhia aérea, eles tiveram alguns problemas com o som, mas nada impediu que a performance fosse memorável para os presentes, com direito a mergulhos na plateia dos quais o vocalista e guitarrista Star Crunch quase não voltou. Apesar de um tumulto inicial, quando o público derrubou a barreira que o separava do palco e tentou invadi-lo, o Suicidal Tendencies também deu um show vigoroso que levou os fãs ao delírio. Entre os nacionais, uma das que fez bonito foi a cantora Gretchen que apesar de recorrer ao playback, deu um show de simpatia e rebolado com direito até a performance no pole dance. Ela fez o pequeno palco Cabaré parecer ainda menor tamanha foi a procura do público. Os Mutantes também encheram o palco São João com um público maior até do que o dos artistas internacionais, de acordo com o organizador José Mauro Gnaspini. Comemorando 30 anos de carreira, os Titãs apresentaram na íntegra o álbum “Cabeça Dinossauro”, de 1986, em um show que já haviam tocado em temporada no Sesc Belenzinho. A apresentação também encheu o palco São João e, apesar de ter uma pegada mais punk, atraiu muitas famílias, que acompanharam com animação as faixas do disco, entre elas “Polícia” e “Bichos Escrotos”. Como não podia deixar de ser, Gilberto Gil também estava entre os destaques. O cantor foi a cereja no bolo da Virada, fechando a programação no palco Júlio Prestes, onde tocou sucessos que fizeram o público cantar e dançar. E, assim como Gretchen, ele mostrou que, aos 69 anos, também é bom de rebolado.


Clube Caiubi Através da união em uma rede social criativa que dá certo, compositores conciliam música de qualidade desatados do oligopólio fonográfico.

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esde o final da década de 60, não se via um local com tantos compositores, intérpretes e arranjadores independentes reunidos em um mesmo espaço formando notáveis parcerias e disputando o tão acirrado mercado musical, com os supostamente melhores do ramo porque têm canções no topo das paradas radiofônicas ou são promovidos à visibilidade televisiva. Na contra marcha desse ditame, o Clube Caiubi surgiu há nove anos de um pequeno grupo de compositores: Lis Rodrigues, Max Gonzaga, Tito Pinheiro, Daniel Altman, e Vlado Lima, que se reuniam no bar de mesmo nome, à Rua Caiubi, em Perdizes, na capital paulistana e que despontam como fenômeno cultural na internet e fora dela.

de outras cidades mobilizadas simultaneamente em shows caiubistas de músicas inéditas ao vivo. No dia 27 de março, o show paulistano de aniversário lotou os bares Lua Nova e Bagaça, este último na Lapa. Em São Paulo, Osmar Lazarini, conhecido por Sonekka, engenheiro especialista em tecnologia de mídias n’A Tribuna, jornal de Santos-SP, criador e gerenciador do site Clube Caiubi, é importante compositor independente na noite paulistana. Iniciou participação no Clube com 30 composições, hoje tem quase mil canções, e concorreu ao Prêmio Cultural Musique 2011 idealizado pela Rádio Eldorado e pelo site do Estadão. Empolgado, ressalta a importância e a grande influência do saudoso parceiro musical e patrono Zé Rodrix deixadas na identidade do Durante o dia são engenheiros, médicos, dentistas, grupo e expansão da rede social caiubista. Relembra a obra advogados, economistas, jornalistas, professores. À noite, de Caito Spina in memoriam que, juntos têm 100 músicas. compositores valorizando a música autoral e que se Destaca entre outros parceiros musicais Alexandre Lemos encontram para trocar letras, melodias e histórias. de Minas Gerais, Pedro Moreno residente em Madrid, Tato Fischer de São Paulo, Iso Fischer de Curitiba, Ricardo Espalhados no Brasil (São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Moreira, de Santo André. À vontade, revela que seu grande Florianópolis, Vitória, Fortaleza, Belo Horizonte, Brasília, Rio sonho – ter música sua gravada por estrela da MPB – é de Janeiro, Salvador) e em países como Argentina, Espanha, um sonho coletivo, ver caiubistas “decolando alto na voz Uruguai, Japão, Itália e Hungria, são aproximadamente 6,8 de intérpretes famosos que já ganharam reconhecimento mil perfis cadastrados no site do Clube, sendo mais de 80% e mídia”. Emocionado ao expor o projeto futuro, diz gostar de compositores ou aspirantes a compositor, gente que se muito das parcerias que faz: “tenho parcerias com Luhli que interessa por fazer música, celebrando o nono aniversário e compôs o Vira. E Ney Matogrosso, de Secos & Molhados, o sucesso através de 20 mil composições próprias postadas, transformou-o em sucesso”. Sonekka com voz embargada, 8 mil blogagens e mais de 300 mil acessos ao mês. Assim confidencia: “perto eu já cheguei desses compositores, é o Clube Caiubi em Noite Autoral, no Bar Lua Nova, na Rua mas vou enfartar se Ney Matogrosso gravar música minha 13 de Maio, bairro Bexiga da capital paulista, que se reúne e cantá-la na televisão”. uma vez por semana para compor, tocar e cantar. E com a adesão de cada vez mais pessoas, a frequência aumentou e as apresentações passaram a acontecer em outros palcos, revista sabugo | junho 2012 | 67


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Joseph Gringlahn

se liga.

TheSixtyOne TheSixtyOne: um modo diferente de conhecer e divulgar novas bandas.

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ovos artistas fazem a música e os ouvintes decidem o que é bom”. Assim o site Thesixtyone se define logo na página de entrada. Criado em 2008, o site usa a “recomendação social” para destacar as músicas consideradas melhores por seus usuários: quanto mais votos positivos uma determinada música recebe, mais ela se destaca e ganha espaço no site. Bandas podem se cadastrar e enviar suas músicas, com a opção de liberá-las através de uma licença Creative Commons. Já os usuários podem navegar no acervo do site a partir de uma série de filtros como popularidade, data de inclusão ou o estado de espírito associado às músicas.

A interface minimalista, focada em imagens das bandas, é um dos diferenciais do Thesixtyone. Pode-se usar o site como uma webrádio cuja curadoria é feita coletivamente ou observar as imagens de fundo de página enviadas por cada artista, enquanto informações sobre as bandas e suas trajetórias são exibidas. Mesmo com diversas funcionalidades que estimulam a participação público (como tarefas diárias que, se cumpridas, premiam o usuário com pontos de reputação e ícones que registram a realização dessas tarefas) e se assemelham a características comuns das redes sociais, o Thesixtyone ainda tem um público pequeno que, segundo dados do Compete, registraram nos últimos meses picos de audiência de 40.000 visitantes únicos mensais. Apesar do limitado número de acessos, serve como uma forma diferenciada (e complementar) para divulgação de artistas independentes na internet e para se conhecer novas bandas.

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Produzindo sua música Conheça sites e aplicativos usados por artistas de todo o mundo que possibilitam a produção e a divulgação de suas músicas. São simples e faceis de usar, para iniciantes e experientes.

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desenvolvimento tecnológico, tanto em termos de software (programas) como de hardware (equipamentos), tem ampliado as possibilidades de criação e experimentação artística, assim como contribuído na democratização ao acesso a ferramentas de produção. Softwares como Live (Ableton),Reason (Propellerhead) e FL Studio (antigo Fruity Loops, popular entre iniciantes) são usados por artistas de todo o mundo, dos mais variados gêneros e níveis de popularidade. Recentemente, uma série de aplicativos para smartphones e tablets tem levado a produção musical para dispositivos

Programa Audiottol

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móveis e estimulado até mesmo bandas famosas, como o Gorillaz, a explorar diferentes meios de criação em mídias móveis. Junto a esse processo, destaca-se o uso da computação/navegação nas nuvens (cloud computing) para a produção musical, tornando desnecessária a instalação de softwares para se produzir música - as ferramentas estão disponíveis online, acessíveis a qualquer momento e a partir de diferentes dispositivos. Nesse panorama, a Audiotool é uma das ferramentas mais incríveis disponíveis atualmente. Acessível gratuitamente no endereço audiotool.com e também como um aplicativo para o navegador Google Chrome, ela possui sintetizadores, sequenciadores, equalizadores e simula diversos pedais de efeitos, além de uma interface de edição. Os pedais criam efeitos como delay, phaser, reverb, flanger, entre outros, enquanto as drum machines simulam equipamentos vintage clássicos como a bateria eletrônica Roland TR-808 e o sequenciador Roland TR-909. A interface da Audiotool lembra uma mesa onde os “equipamentos” estão dispostos e o usuário deve conectar os cabos de cada elemento utilizado para que funcionem. É uma prática necessária também no Reason e que além de simular a utilização “física” do equipamentos, permite maior personalização na conexão entre os módulos usados. Outro grande ponto positivo é poder usar controladores MIDI, da mesma forma realizada em softwares tradicionais. As músicas criadas podem ser compartilhadas dentro da própria rede social da Audiotool e registradas emCreative Commons, o que estimula a criação de um enorme banco de áudio que pode ser sampleado e recriado. Para os iniciantes, existem diversos tutoriais que auxiliam na utilização da Audiotool e preparam você para muitas e muitas horas em frente ao computador.


Symplia Sympla: uma plataforma online para venda de ingressos. Tudo muito rápido e fácil.

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arece promissor e o funcionamento é extremamente simples: em poucos minutos qualquer pessoa pode começar a vender, na internet, ingressos para seu show/evento através da Sympla.

A empresa mineira foi lançada em Dezembro de 2011 e intermedia a relação entre produtores de eventos e o público. A grande sacada é oferecer o serviço a pequenos produtores que normalmente não teriam verba ou demanda suficiente para usar grandes serviços de venda de ingressos online. É a lógica da cauda longa com o “faça você mesmo” no mercado musical: em vez de vender milhares de ingressos para um número limitado de eventos, vender dezenas ou centenas de ingressos para os eventos que qualquer produtor quiser cadastrar, sem custo para esse usuário.

de falsos perfis de venda de ingressos, ou seja, pessoas não autorizadas criarem páginas de eventos com os quais não estão relacionadas para tentar enganar o público. Dificilmente o dinheiro das falsas vendas chegará ao falso produtor, já que o repasse do valor da venda é transferido no terceiro dia útil após a realização do evento, tempo suficiente para identificar alguma fraude. Mesmo assim, há o risco de alguma dor de cabeça para o consumidor como para os reais produtores do evento em questão.

A empresa obtém lucro cobrando uma taxa de serviço de 10% do valor do ingresso, que pode ser adicionada ao valor de venda ou absorvida pelo produtor (ou seja, ele pode optar por não acrescentar os 10% da taxa no valor final para o público e deixar de receber essa porcentagem, que vai para a Sympla). Entre os fundadores da empresa estão ex-funcionários do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), que se basearam em experiências semelhantes desenvolvidas no exterior. A navegação na plataforma é intuitiva e o preenchimento do formulário com informações do evento é fácil, com opções de personalização sem necessidade alguma de conhecimentos em programação. Os ingressos são comprados com cartões de crédito (a inclusão do PayPal e/ou Pagseguro seria bem-vinda) e enviados em PDF para o email do comprador, sendo que os produtores podem optar por receber notificações a cada compra realizada. Um dos problemas que a Sympla pode enfrentar é a criação

Home do site Symplia

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We Are Hunted Descubra quais são as músicas mais ouvidads e comentadas nas redes sociais com o “We Are Hunted“

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que você vê ao lado é a tabela das músicas “emergentes” neste momento na internet.

São as novas músicas que estão sendo mais comentadas e ouvidas em blogs, redes sociais e serviços de trocas de arquivos em todo o planeta, reunidas pelo We Are Hunted. Apesar de usar o site desde 2009, seu recente re-design tornou obrigatório comentá-lo. A interface é relativamente limpa, com navegação intuitiva (horizontal), informações fáceis de serem encontradas e integração com Facebook e Twitter que facilita o compartilhamento de músicas. Existem vários tipos de ranking, separando as músicas em ascensão de acordo com estilo ou tipo, como “remix” e “mainstream”. Usuários registrados podem salvar suas músicas favoritas e criar playlists que podem ser compartilhadas com os demais usuários e incorporadas em páginas pela web. Print screen do site do “we are hunted“

O We Are Hunted é praticamente uma rádio destinada a dar visibilidade às músicas que se destacam no meio digital, uma webrádio cuja programação é definida de acordo com o comportamento de quem ouve música na internet. Ótimo meio para se descobrir novas bandas, o site também possui uma seção interessante chamada “discovery”, na qual pode “interpretar” seu gosto musical a partir do conteúdo publicado em seu perfil no Twitter e/ou Facebook ou lhe apresentar uma série de músicas para que você informe se gostou ou não. Na sequência, o We Are Hunted cria uma playlist personalizada de acordo com seu gosto musical.

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Last.fm Escute todas as músicas do Last.fm na íntegra e de graça. Basta se inscrever e fazer o download do Scrobbler

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ast fm vêm sendo bastante utilizado desde 2006. Tratase de uma ferramenta/serviço que registra as músicas que você escuta no computador (ou em dispositivos móveis como Ipod e iPhone) e cria bibliotecas online com as mesmas, além de também ser uma rede social baseada na interação entre usuários através da proximidade (principalmente) de gostos musicais.

Uma das funções mais legais do Last.fm é que ele pode funcionar como uma rádio online inteligente que se baseia em seu histórico de artistas ouvidos, no histórico de seus “vizinhos” (pessoas que ouviram as mesmas bandas que você), amigos, artistas ou gêneros específicos e outros parâmetros escolhidos pelo usuário. Isso é possível porque o site possui em seu banco de dados quase todas as músicas ouvidas por seus usuários.

as executa, criando playlists de acordo com a página em que você estiver no Last.fm: se estiver na página do Marcelo Camelo e der play em alguma das músicas, a playlist terá as músicas do artista mais ouvidas pelo público; se estiver na página de um álbum específico, como o Tarot Sport do Fuck Buttons, o álbum poderá ser ouvido na íntegra. No caso de artistas independentes brasileiros várias músicas ainda não estão disponíveis em suas páginas no Last.fm, mas funciona muito bem com artistas estrangeiros ou cujas músicas estão à venda na internet (nesse caso, a probabilidade de o Last.fm ter os arquivos em mp3 é maior).

Há alguns anos, porém, esse serviço de “rádio” passou a ser pago. Para ouvir as “estações virtuais” o usuário deve pagar $3 mensais. Aos que permanecem na versão gratuita são disponibilizados 30 segundos de cada faixa e, em alguns casos, a música completa para audição e download (caso o próprio artista ou seu selo/gravadora libere a faixa nesta modalidade). Para acabar com as limitações da versão gratuita do Last. fm basta instalar a extensão Last.fm free music player no navegador Google Chrome. Gratuita, a extensão permite que você escute todas as músicas disponíveis no Last. fm diretamente no seu navegador, sem fazer o download dos arquivos. Basta clicar no botão de play (ao lado dos nomes das músicas no site) que o mini-player da extensão

Home do site last.fm

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cidarte.

6emeia Gabriel Toledo

Intervenção Urbana: Artistas pintam bueiros de São Paulo

Gabriel Toledo

Fofão em bueiro

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m casal de namorados, um peixe, uma carta de baralhos, um lápis e outros elementos decoram bueiros, postes e caixas de energia elétrica na cidade de São Paulo. A maioria dos objetos grafitados se concentra na Barra Funda, na Zona Oeste da cidade, mas há também exemplares em Santa Cecília, na região central, na Vila Mariana e no Capão Redondo, na Zona Sul e até em cidades do interior do estado.

No próximo sábado (7), a dupla de grafiteiros Anderson Augusto, conhecido como São, de 26 anos, e Leonardo Delafuente, de 27, vai recomeçar, neste ano, os trabalhos pelas ruas da cidade. Eles ainda não sabem qual local será grafitado, pois, em geral, andam pelas ruas do bairro onde moram - a Barra Funda – e decidem o alvo na hora. A cada final de semana eles fazem entre duas e quatro pinturas. Os trabalhos começaram em 2006. Segundo Anderson, a dupla já fez vários rascunhos em casa do que pretende grafitar nas ruas. Mas, às vezes, a configuração do objeto faz com que outra idéia surja na hora.

Palaço em bueiro

Foi o caso de um bueiro ao lado de uma pequena estaca na Rua do Bosque, esquina com a a Rua Borácea, na Barra Funda. A estaca estava com o topo quebrado deixando à mostra o cimento cinza, o que sugeriu um cigarro para dupla. Eles pintaram o rosto de um fumante no bueiro e o cigarro ao lado. “Esse local pediu o desenho”, diz São. “Nós vamos para a rua com a mente aberta e não fechada pensando numa coisa só”, explica ele. Os bueiros e postes da Rua do Bosque, inicialmente, ganhariam desenhos apenas de animais. “A idéia era fazer

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dela um bosque mesmo”, conta Anderson. Mas foi só a dupla se deparar com dois bueiros juntos para desistir da idéia dos animais e pintar um casal de namorados. Atualmente, a Rua do Bosque, a que possui mais grafites da dupla, tem um lápis num poste, e desenhos nos bueiros que representam um ladrão e um policial, em lados opostos da calçada, além do guerrilheiro Che Guevara e do líder cubano Fidel Castro, o chargista Ziraldo e seu personagem Menino Maluquinho, uma câmera fotográfica, entre outros.

Gabriel Toledo

Assaltante em bueiro

Gabriel Toledo

Em alguns casos os desenhos têm relação com algo na rua, como o lápis num poste da Rua do Bosque, onde há uma faculdade. Em outros com o estado do bueiro como o desenho de uma luva de boxe feita no asfalto em direção a um bueiro com a tampa de cimento quebrada, na esquina das ruas James Holland com a Cruzeiro. Em Higienópolis, área nobre da região central, eles já pintaram porcos com pérolas. “A mensagem do desenho era: dê pérolas aos porcos”, explica Anderson.

Gabriel Toledo

Magoo em bueiro

Polvo na rua

Escovando os dendes em bueiro

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Rato em bueiro

Desenho do jogo “Genius�

Esqueiro em bueiro

Mario e Luigi em bueiro

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Alexandre Orion Durante vĂĄrias madrugadas, utilizando apenas retalhos de tecido, Alexandre Orion limpou seletivamente a grossa camada de fuligem que recobria as laterais de diversos tĂşneis da cidade de SĂŁo Paulo.

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Jorge Guerra

Alexandre Orion é brasileiro, nasceu em uma avenida movimentada da cidade de São Paulo. Acostumou-se desde pequeno a ver o movimento constante das pessoas durante o dia, a dormir com o barulho dos carros à noite. Orion aceitou muito cedo o convite das ruas. Seu primeiro graffiti foi feito quando ele tinha apenas 14 anos. O instinto adolescente o impulsionava, enquanto a dura realidade da rua exigia dele novos ideais. Hoje, capta inspirações em meio a multidão de gente; de silêncios e pensamentos; de experiências e memórias; de alegrias e sofrimentos. É um artista que habita a multidão e a carrega consigo. A humanidade habita Orion: seu tempo é único, seu universo é o espaço coletivo. Em 2000, descobriu a fotografia, mesma época em que se interessou pela teoria da imagem escrita por Barthes, Dubois e Aumont. Um ano depois, concebeu Metabiótica, projeto em que escolhia um lugar da cidade, aplicava uma pintura na parede e, com a câmera em punho, aguardava pelo momento decisivo em que as pessoas interagiam espontaneamente com suas pinturas. Enquadrando a situação exata, promoveu a união entre as tintas e a vida real, simulando o encontro (ou o confronto) entre realidade e ficção dentro do campo fotográfico.

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É nesse momento decisivo de interação entre o pedestre e a imagem pintada que a fotografia de Metabiótica é gerada, contrapondo-se aos tradicionais quadros fotográficos que nos transmitem a falsa idéia de que tudo o que é fotográfico é real. Em Metabiótica a veracidade é posta em dúvida: as pinturas estão de fato nas paredes, as pessoas realmente passaram por ali e agiram espontaneamente, no entanto o que se vê nos sugere um tipo de montagem que não existiu. É tudo verdade, é tudo mentira. Em 2006, criou Ossário, intervenção realizada em um túnel de São Paulo. Durante 13 madrugadas, utilizando apenas retalhos de pano, removeu parte da grossa camada de poluição que impregnava as laterais do túnel. Limpando seletivamente a fuligem despejada pelos carros, Orion fazia com que caveiras aparecessem nas paredes. O túnel foi transformado em catacumba. Mais de 3500 crânios desenhados a mão se amontoavam para nos lembrar que a mesma fuligem negra impregnada no túnel escurece também nossos pulmões e nossas vidas. Orion trouxe à tona o sítio arqueológico de nós mesmos.


Depois da intervenção, todos os túneis da cidade foram limpos. Com assustadora rapidez, cada parede lavada tornou a ficar negra. A mensagem de Ossário já havia sido dada. Mas Orion não parou. De volta aos túneis, ele desenha os crânios e com os retalhos de pano que usa, recolhe a fuligem. Então, ele lava os panos, espera a fuligem decantar e a água evaporar até que reste apenas o pó negro expelido pelos escapamentos. Essa substância tóxica que parecia não ter utilidade é transformada em pigmento e usada nas obras da série Arte Menos

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Jorge Guerra

Durante cada madrugada de trabalho, ele experimentou o barulho ensurdecedor, a sensação sufocante do ar imóvel e as inúmeras abordagens policiais. Mas limpar não é crime. Poluir, sim. A medida em que Orion avançava, ficava explícito que ninguém poderia impedi-lo. O único modo de interromper a “limpeza” feita por ele, era limpar também. Semanas depois, equipes da prefeitura apareceram para remover apenas a fuligem da área ocupada pela intervenção. O restante do túnel permaneceu sujo. Como se nada tivesse acontecido, Orion continuou o trabalho até a prefeitura voltar. Desta vez, a lavagem foi completa. O crime era outro: censura.


Poluição. São pinturas de grandes dimensões, com um realismo impressionante que, com certa ironia, nos remete a antigas imagens publicitárias. Orion está usando a poluição para retratar o cotidiano aparentemente inofensivo que a produz. Alexandre Orion trabalha intensamente com intervenção urbana desde 1993 utilizando o espaço urbano como palco para a produção de obras que associam técnicas plásticas, fotográficas e audiovisuais. Publicou em 2006 o livro Metabiótica. Suas obras fazem parte dos acervos da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Banco Itaú, Deutsche Bank New York, Fundação Padre Anchieta, Spencer Museum of Art entre outros. Seus projetos já mereceram exposições individuais em São Paulo, Salvador, Curitiba, Rio de Janeiro, Brasília, Paris, Rotterdam, Miami, San Francisco, Londres e Nova York e já foram publicados em mais de 10 línguas, nos principais veículos de imprensa do mundo.

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ponto de vista.

Araguari Como eu me defendo desse sentimento de inadequação que me destrói por dentro, pro qual eu não vejo explicação?

A

lgumas obras demandam tempo para serem exploradas e absorvidas. Araguari, estreia solo de Jair Naves, tem apenas quatro músicas, 20 minutos, mas se enquadra nessa categoria. Com o passar do tempo, é como se as canções de Jair criassem raízes que crescem e se tornam visíveis em um processo de beleza e dor. Diferentemente da época de seu lançamento, quando o fantasma do Ludovic tornava turva a visão do trabalho solo de Jair, o tempo contribuiu para diminuir imagens pré-concebidas e saudosistas. Bandeira a meio mastro, um afago áspero, a voz do cantor Eu criei um certo faro para esse tipo de enganador Nos primeiros instantes de “Araguari I (meus amores inconfessos” a lógica do EP é exposta: o dedilhado na guitarra é uma breve e suave introdução imersiva, na sequência tomada pelo baixo vívido e a batida do bumbo como um soco. Cada trecho calmo, cada belo acorde, são carregados de uma fragilidade exposta com vigor em uma mistura de sofrimento e libertação.

Ninguém imagina o que eu enfrentei o quanto doeu, o quanto eu rezei minha reza de ateu num desespero que eu nunca me atrevo a demonstrar O amor é tema da melancólica e lamentosa “Silenciosa” e da (mais animada do EP) “De branquidão hospitalar”. A dualidade do sentimento é expressa nas letras e nas músicas: a primeira, minimalista e devagar, é uma crônica do amor acabado, da falta de esperança; a segunda, pós-punk enérgico sobre um amor difícil de se explicar e a expectativa criada pela paixão.

Não importa o quão autobiográficas ou não são as letras, Jair cria/conta histórias/estórias sobre arrependimentos, descobertas, busca pelo autoconhecimento, amor... temas presentes em momentos de tristeza e felicidade reforçados em períodos específicos da vida, como a adolescência e o início da vida adulta. Não por acaso, as duas partes de “Araguari” (“meus amores inconfessos” e “meus dias de vândalo”), que abrem e fecham o EP, abordam tal momento.

Carlos Mairo

Ladeira abaixo, assim foi dito uma obra-prima de eufemismo para as dores da inaptidão, para o sufocante calor da afobação

Igreja de Araguari

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Agora, convenhamos: eu nunca me expus tanto, você nem pra impedir Com todo esse alvoroço, eu só engoli meu almoço, não senti gosto algum A torneira que eu esqueci aberta não tardou a inundar todo o prédio mas eu sobrevivi, eu sobrevivi

Nem queira saber o que eu ambiciono, o que me mantém vivo, porque eu não cedo ao sono Eu te aconselho: nem queira saber

Carlos Mairo

Assim que os meus dias de vândalo terminarem, eu sei que me levarão pro céu E farão com que eu narre os meus escândalos sem que eu me gabe, Em “Araguari II (meus dias de vândalo)”, última faixa, a com o constrangimento abatido de um réu carga emocional aflora carregada pelas (muitas) nuances da Talvez fosse preferível música. É o tipo de letra que emocionaria por si só, mas que, que eu nunca tivesse saído musicada, penetra na alma. Sua tensão é instável e a única de onde eu nasci, de Araguari certeza é a de que algo muito profundo a acompanha, uma confissão de uma tragédia íntima sobre a qual se tem noção, por Tomás Tassinari mas não o controle. Como a vida.

Prefeitura de Araguari

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cotidiano.

Um sopro de música no ar Que saudades daquele saxofonista...

V

eio-me pela janela, repetidas e insistentes frases musicais, tiradas de um saxofone de certo desconhecido aspirante de músico, residente no quarteirão. Todo dia lá está aquele jovem com seu instrumento inundando a rua com sua arte. No começo, fazia seu sax gemer meio desafinado, o que não era nenhum pecado, afinal, disse certa vez Tom Jobim em uma de suas canções, que no peito de um desafinado também bate um coração. Ultimamente ele teve grandes progressos, pois já consegue articular com certa segurança algumas linhas melódicas. Seu instrumento sopra solitário, levando aos ouvidos da vizinhança a linguagem universal da música, que é sutil, acalentadora, encantadora não só para os homens, mas também para os animais, e creio eu, que até para as plantas. Lembro-me ainda menino, na porta do salão sede da Banda de Música Municipal, bisbilhotando o ensaio geral. De todos os instrumentos, o que mais me tocava no coração era exatamente o saxofone. Somando-se a toda orquestração, aquela base rítmica e segura da tuba e as entradas realçantes dos saxes no dobrado, provocavam-me verdadeiros êxtases no espírito. E eu, ficava ali vendo as broncas que o mestre regente dava nos músicos, na intenção de tirar deles a melhor execução possível. Igualmente, via sua cara de entusiasmo quando eles respondiam no sopro e em harmonia aquilo que estava grafado nas partituras.

emergente que aspira dias mais pacíficos e mais alegres. O quê seria do mundo sem as cores e sem os sons? O quê seria do homem se não tivesse descoberto a música? Como bem definiu Victor Hugo, a música é o barulho que pensa. Isso me faz lembrar do saudoso cônego Helio Lessa, quando em um de seus sermões no altar do Livramento, disse: “a música é a única das artes que acompanha a alma do homem para o céu”. Foi bem original essa concepção divina, por parte daquele grande orador sacro de nossa terra, em um de seus grandes momentos de elogios às peças clássicas. Comenta-se no meio cultural que no Estado de alagoas existe apenas um músico empregado. Que pena... Que esquecimento... logo com um povo tão musical, como todo brasileiro, que tem a música no sangue. Lembremo-nos sempre do que fizeram pela música no Brasil esses dois nordestinos pernambucanos, os maestros: Guerra Peixe e Moacir Santos. Encarnemos-nos no espírito dos maestros Fonfom e Heckel Tavares, os quais com sua batuta alagoana conseguiram reconhecimento nacional. E tantos outros que com ideal e resignação labutam nesta seara por levar as pessoas o conhecimento da boa música. Firmemos bons augúrios para que daqui pra um futuro próximo, tenhamos uma política pública mais voltada ao apoio dos conservatórios; das fanfarras; dos orfeões; e de mais professores especializados nas escolas públicas. Sonhemos com toda essa criançada, dedicando um pouco de sua explosão de hormônios e energia, para essa arte, que é fundamental na formação de um homem civilizado.

Nos últimos tempos, tenho sentido que o ensino da música erudita anda meio capenga. Tenho esperança e me animo toda vez que ouço esse garoto saxofonista do bairro, com sua força de vontade de auto-superar-se e dominar o instrumento nas suas primárias execuções.Musica nas escolas é elemento transformador para uma sociedade por Jasson Ferreira. Ilustração de Virgil C. Stephens 92 | revista sabugo | junho 2012


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poema visual.

Ritmo

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