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Especial | CULTURA CAIÇARA | Maio de 2018

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Especial | CULTURA CAIÇARA | Maio de 2018


AGENCIAeutueles.COM.BR Foto: Rodrigo Abu-jamra

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Especial | CULTURA CAIÇARA | Maio de 2018


Especial | CULTURA CAIÇARA | Maio de 2018

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Foto | Caio Gomes

diretor executivo Caio Gomes (MTB/SP 65.601)

#6 Reprodução | Maristela Colucci

capa foto Marcio Pannunzio design Caio Gomes projeto gráfico e diagramação Comunica Propaganda & Marketing copydesk Camila Gargêz (MTB/SP 61.263) colaboração Ricardo Ymakawa | Silas Azocar | Nuno Gallo Ronald Kraag | Adriano Perna | Clarissa Marioti impressão Meltingcolor Gráfica e Editora 5.000 exemplares - distribuição gratuita circulação Ilhabela, São Sebastião e Caraguatatuba bibliografia de apoio Caio Camargo, “Memórias de uma Ilha” Iracema França Lopes Corrêa, “A Congada de Ilhabela na Festa de São Benedito "Tribuna do Povo Magazine" é uma publicação de Comunica Propaganda e Marketing CNPJ: 05.572.108/0001-72 Av. Pedro de Paula Moraes, 1027 - Ilhabela.

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GUERRA

9 CONGADA DE SÃO BENEDITO A história da Guerra de um

povo, que luta por sua cultura 10 LEVANTAMENTO DO MASTRO O levantamento do Mastro marca o início dos festejos 11 O REI DO CONGO

Aos 84 anos, Benedito Hipolito de Carvalho, o Dito de Pilaca,

deixou o reinado, passando a

coroa para o embaixador, Dino

MOUROS X CRISTÃOS 12 CAIÇARA DE VERDADE

Em 2005, após uma vida inteira dedicada a tradição caiçara e

a Congada de São Benedito, o eterno secretário Zé de Alício dançou seu último baile 13 GINGADA MARCANTE

Maximino Manoel dos Santos mostrou sua devoção e cumpriu sua promessa

19 UCHARIA

O aroma da lenha queimando da o tom à despensa real

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Foto | Ronald Kraag Foto | Caio Gomes

#16 Foto | Caio Gomes

CAIÇARA

24 CASTILLA-LA MANCHA

descendente de náufragos do início do Século XX que luta pelos Castelhanos

26 FILHO DA TERRA

O menino franzino que deixou a praia da Fome para trabalhar e se preparar para se tornar o prefeito de Ilhabela

31 PRESERVANDO AS RAÍZES Programas e projetos

desenvolvidos buscam o

resgate e a perpetuação da Cultura Caiçara em Ilhabela

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A ARTE CAIÇARA VALORIZAÇÃO 33 TRIBUZANA

Fortalecimento e organização das comunidades tradicionais

35 AUTOSUSTENTO

Por meio da inclusão produtiva, a cidade trabalha pelo

autossustento dos moradores das comunidades tradicionais 43 ESCULPINDO BARCOS

Quando se fala em canoas,

logo vem à memória Antônio Rafael, um mestre canoeiro

49 NEGA MALU

Sua preocupação com as pessoas e a vocação para trazer beleza ao que é feio aos olhos de muitos, conduziram-na à uma missão ainda maior.

53 VENCEDORA

Com mais de 11 metros de

comprimentos, é um símbolo da resistência caiçara

56 IDENTIDADE DE UM POVO

Com quase cinco anos à frente da secretaria de Cultura, Nuno Gallo luta para desenvolver e valorizar a cultura caiçara.

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RICARDO IMAKAWA

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IIlustração - Reprodução | Crau

uando os primeiros navios negreiros desembarcaram no Brasil, trouxeram da África, não apenas escravos para nas fazendas de café, cana-de-açúcar e casas de colonos, mas também elementos culturais, rezas, crenças e o gosto pela música e a dança. Neste cenário surgiu a Congada de São Benedito, que faz parte dessas tradições trazidas com os escravos. Em Ilhabela, o ritual é mantido há mais de duzentos anos. Neste tempo muito se perdeu, mas não as músicas, falas e fardas, que ao toque de marimba e do atabaque, marcam o compasso da luta de um povo para preservar sua cultura. Desde sempre, o cenário desta tradição, acontece nas ruas da Vila. Alguns a tratam como uma apresentação teatral, mas a Congada de Ilhabela apresenta em seu enredo uma guerra, uma desavença entre dois grupos que desejam festejar em honra de São Benedito. Os congos dividem-se em dois grupos: os congos de cima que são os fidalgos do rei vestidos de azul e considerados cristãos e os congos de baixo também denominados de congueiros do embaixador, vestidos com tons que vão do vermelho ao rosa, considerados pagãos.

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Fotos | Caio Gomes

Mastro

de São Benedito O levantamento do Mastro marca o início dos festejos. A incumbência é da família Leite da Silva e a responsabilidade é do Capitão do Mastro, Luciano dos Santos Souza. Para a preparação, o Capitão do Mastro conta com o auxílio dos devotos, normalmente seus familiares.

Antigamente, o levantamento do Mastro era realizado nove dias antes da festa, pois também marcava o início da novena do Santo. Hoje ele é levantado no 1º dia da festa. O Mastro de madeira lavrada na mata é pintado de branco, azul e vermelho, sendo que o desenho obedece a padrões antigos, pois como dizia o finado capitão Hilarião: “desde o começo do mundo é assim”. No dia do levantamento, o Mastro é enfeitado 10

com flores naturais, “ofertas feitas ao glorioso santo” e sob um foguetório intenso, às 17h. Ao som da marimba, dos atabaques e do repicar dos sinos, congueiros e devotos saem em procissão festiva pelas ruas da Vila com o Mastro nos ombros. Uma criança da família do Capitão do Mastro leva a Bandeira de São Benedito. Ao chegar ao Cruzeiro, em frente a Igreja Matriz, o Mastro é levantado, a bandeira do Benedito Santo é hasteada e todos gritam “Viva São Benedito!” Especial | CULTURA CAIÇARA | Maio de 2018


Soberano Rei do Congo Por trás do canto, danças e falas dramáticas, a Congada remete às lutas dos negros contra os brancos que invadiram a África em busca de escravos. A Congada de Ilhabela é considerada uma das mais antigas do Brasil, mantendo uma fidelidade que resistiu a séculos de opressão.

Aos 84 anos, Benedito Hipolito de Carvalho, o Dito de Pilaca, deixou o reinado. Ele entrou para a Congada ainda pequeno, cumprindo a promessa de sua avó, que recorreu a São Benedito pela cura do neto, garantindo que ele seria congueiro.

Durante os três dias principais dos festejos acontecem "bailes", "banquetes" e "procissões" ao som da marimba de madeira e dos atabaques. Uma das primeiras homenagens para São Benedito promovida durante a celebração é o levantamento do Mastro, que marca o início da festa. Na sexta-feira, pontualmente as 17h, acontece a procissão do Mastro de São Benedito. Sob responsabilidade da família do Capitão do Mastro, o símbolo que marca o início dos festejos é preparado dias antes da realização da Congada. Anualmente o mastro passa por manutenção, pintura e é enfeitado com flores para o seu grande dia. Antes de o Mastro ser fixado, onde permanece durante todos os dias de comemoração, o Mastro é carregado pelos fiéis pelas ruas da Vila

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(onde toda Congada é realizada). A procissão desce a escadaria da Igreja Matriz ao repicar dos sinos de Nossa Senhora D’Ájuda e Bonsucesso, da marimba, atabaques e a cantoria dos congueiros, além de muitos fogos. Com o levantamento do Mastro, finalmente é hasteada a bandeira de São Benedito. Assim que o Mastro é fixado e a bandeira hasteada, começa um momento único na Congada de Ilhabela. É neste momento que, com as mãos no Mastro, os devotos agradecem as bençãos recebidas ao longo do ano, fazem suas preces e promessas a São Benedito. Logo após acontece a apresentação da Congada Mirim, seguida pela distribuição do Bolo de São Benedito.

Em maio de 2014, após 33 anos como Rei da Congada, Dito de Pilaca passou a coroa para Alcedino José da Cruz, o Dino, que assumiu o reinado aos 53 anos. No dia 1º de setembro do ano seguinte, após uma vida de fé e devoção, o eterno “Soberano Rei do Congo” partiu para o descanso eterno.

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caiçara de verdade José Ribeiro dos Santos, o eterno Zé de Alicio, era genuinamente caiçara e durante décadas foi o grande Secretário do Rei do Congo, tornando-se uma lenda da história de Ilhabela

os meninos da congada Em maio de 2001, a fotógrafa Maristela Colucci registrou toda a emoção da Congada, eternizada no olhar fixo e nos gestos firmes de Zé de Alício 12

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Foto | Caio Gomes

Deus que me perdoe… Mas ‘nóis’ fazia miséria naquele atabaque e na marimba…

Enquanto eu puder andar eu não largo dessa festa” Maximino Manoel dos Santos in memoriam

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Posteriormente, passou a acontecer em maio, época de lua cheia, quando os pescadores não saiam para pescar, podendo então participar da festa. Atualmente a festa acontece no terceiro final de semana de maio, reunindo centenas de pessoas nas ruas da Vila. Os festejos contam ainda com a Procissão de São Benedito, Missa dos Congos, exposições, palestras, quermesses e shows musicais. Foto | Reprodução

Eu não quero ser mais que os outros, não quero ser orgulhoso, mas quando a gente sentava ali…

No sábado e no domingo, acontecem os “bailes de congos” e, por volta do meio-dia, é realizada a Ucharia, lugar onde é servido o almoço aos congueiros e seus convidados. Os bailes são divididos em três etapas. O primeiro é o “Roldão” ou “Macamba” e trata-se de uma cantiga dos congos de baixo no momento em que vão guerrear. O segundo é “Alvoroço”, “Jardim das flores” ou “Baile Grande”, onde ocorre uma guerra violenta. O terceiro baile é o “São Matheus”, onde o embaixador é preso duas vezes. A guerra acontece porque os congueiros do embaixador lutam para que ele, filho bastardo do rei, conquiste o trono. Depois de o Embaixador entrar no Reino de Congo, o Rei o aceita como seu filho, lhe dá a bênção em língua africana banto e todos os congos celebram São Benedito em paz. Antigamente, a representação tinha data certa para acontecer: 3 de abril.

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Década de 40 Apresentação da Congada de São Benedito, na Vila. Na época, o Rei do Congo era Manoel Ciriaco (Neco) ao lado do embaixador Pedro.

1972 Prefeito Roberto Fazzini acompanhando o reinado de Neco, um dos reis mais queridos da Congada de Ilhabela.

Foto: Acervo / Secretaria de Cultura

Foto: Acervo / Secretaria de Cultura

Foto: Waldemar Belisário

o início de tudo

São poucos os registros que falam sobre o início do festejo, mas, segundo a arqueóloga e historiadora, Cinthia Bendazzoli, “documentos antigos ainda preservados no Arquivo do Estado de São Paulo relatam a realização de Baile dos Congos em festividades locais oficiais em 1794”. Apesar desses registros oficiais, nove anos antes a Congada de São Benedito já acontecia em Ilhabela.

PEREQUÊ Acima, os preparativos para a Congada de Ilhabela na década de 30 em frente a Igreja de São João Batista, no Perequê. O pai de Dona Izanil, Paulino Manoel da Silva, foi um dos moradores que ajudou a erguer a igreja.

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A origem dessa importante manifestação folclórica está totalmente ligada à chegada dos escravos a bordo dos navios negreiros. Em Ilhabela, o responsável pela disseminação da tradição foi o escravo Roldão Antônio de Jesus que, em 1785, desembarcou na praia dos Castelhanos e foi vendido para a Fazenda de São Mathias. Muito devoto de São Benedito, Roldão difundiu suas crenças entre os demais. Nascia uma das mais importantes manifestações culturais, que sobreviveu há séculos. Até hoje todos os participantes da Congada consideram-se escravos, devotos fiéis do Santo, fazendo promessas e mantendo a tradição. A devoção é tanta que a Congada nunca se apresenta em outra ocasião ou local, a não ser na festa de homenagem ao santo negro. As primeiras manifestações da Congada de Ilhabela eram de responsabilidade total da família de Benedita Esperança, também escrava da Fazenda São Mathias, localizada no bairro da Cocaia. Posteriormente essa família organizou a Confraria de São Benedito, mais tarde extinta pelas autoridades religiosas em meados da década de 1940 que proibiram a entrada dos congueiros na Igreja Matriz.

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semana da cultura caiçara Reprodução | Ricardo Imakawa

É comum no litoral brasileiro, devido à influência do turismo e da migração, as tradições culturais perderem sua força com o passar dos anos. Com o intuito de realizar um trabalho de resgate, a então prefeita Nilce Signorini instituiu,

no ano 2000, a Semana da Cultura Caiçara. A iniciativa foi uma das principais ferramentas que ajudou a preservar a tradição da Congada de São Benedito, o que também possibilitou à comunidade voltar às suas origens.

o bolo do santo O Bolo de São Benedito é uma tradição recente, mas já incrustada na Congada de Ilhabela. Segundo conta Rosangela Lacativa Pinna, em meados de 1998 haviam poucas crianças na Congada.

E foi assim que as comadres se uniram para fazer o primeiro Bolo de São Benedito. Motivadas pela atitude e pelo sucesso da iniciativa de Rosangela e Gilmara Pinna, nos anos seguintes, as mães dos congueiros começaram a colaborar e foi criada a tradição do bolo, que é distribuído logo após a apresentação da Congada Mirim na sexta-feira.

“A parte mais bonita disso é que todo ano, gente que a gente nem conhece, aparece pra ajudar com um bolo. Era pra ter o bolo… Virou uma tradição”.

Foto | Ronald Kraag Especial | CULTURA CAIÇARA | Maio de 2018

Reprodução | Crau

“Eu e a Gilmara [sua cunhada] estávamos na Meia Lua e a gente viu que tinha pouca criança. Não tinha muita gente naquele ano. E então eu perguntei o que a gente poderia fazer para agradar e atrair mais gente. A Gilmara começou a rir, e eu disse assim: eu só sei fazer bolo!”

congada mirim Com o intuito de garantir a existência da tradicional festa através das próximas gerações, todo ano, após o levantamento do Mastro de São Benedito, atividade que marca o início das comemorações da Congada, a Associação dos Congueiros de Ilhabela promove o evento em versão mirim, encenado por pequenos devotos,

filhos ou netos de congueiros que assumem a responsabilidade de manter viva a importância da cultura e história de seus ancestrais. Os congueirinhos também participam da procissão do Mastro e dos bailes ao longo do final de semana dos festejos de São Benedito.

Foto | Ronald Kraag 17


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despensa real

Foto | Ronald Kraag

Foto | Ronald Kraag

Reprodução | Maristela Colucci

de são benedito

FAMÍLIA Dona Guiomar, irmã de Izanil, que comandou a Ucharia durante muitos anos. Quem prepara a comida faz por devoção a São Benedito

O TACURUBA Isaura, Junior, Diógenes e Lecy Nair Oliveira dos Santos, carinhosamente conhecida como Dona Licinha, na Ucharia

UCHARIA Dona Ana Firmino, Cida Cruz, dona Doquinha e dona Maria

UCHARIA Eurípedes, Garcia, Fernando e Junior pilotando o fogão à lenha Especial | CULTURA CAIÇARA | Maio de 2018

aroma da lenha queimando da o tom à despensa da casa real. É nesse contexto que acontece a Ucharia de São Benedito, uma manifestação da Congada, que transcende a cultura caiçara atingindo todos os níveis sociais da cidade. Originalmente, o termo Ucharia é proveniente da cultura europeia e diz respeito ao local onde são armazenados os mantimentos da casa real. Na Congada de São Benedito em Ilhabela, a Ucharia se traduz como o espaço organizado para o preparo, serviço e degustação dos alimentos pelos congueiros, suas famílias, ou qualquer outro que queira vivenciar a festa em todos os seus sentidos, mantendo a postura do santo homenageado de sempre compartilhar o alimento com quem tem necessidade. Na atualidade os mantimentos para realização da Ucharia ficam a cargo dos festeiros, com apoio do poder público e de comerciantes locais, mas no passado era comum os devotos doarem aves, porcos e grãos. Com as alterações da vida social, aparece um aspecto de mudança em relação à fartura, à solidariedade e ao costume alimentar. A tradição de cortesia na Ucharia e a obrigação do festeiro de servir uma boa e vasta alimentação a todos que faziam

parte dessa manifestação popular, mudou. Os mais antigos acreditam que pedir a ajuda da prefeitura e dos comerciantes é como perder o prestígio, o papel social de antes. As mudanças já eram relatadas pela pesquisadora Iracema França Lopes Correa (“Dona Dedé”) no início da década de 1980, quando todos os que trabalham na Ucharia o faziam por promessa ou devoção e que essa era responsabilidade do rei de Congo e sua família. Atualmente o comando da Ucharia é de responsabilidade da família de Dona Izanil. Antigamente, o preparo da comida era uma exclusividade das mulheres, e os homens ficavam com outras funções, tais como cortar lenha, carregar mesas e congêneres. Embora ainda seja maciçamente considerado um papel feminino, a presença dos homens na preparação dos alimentos cresce a cada ano. A comida é preparada nos “tacuruba”, que são fogões à lenha montados no chão com pedras num formato mais ou menos parecido com um triangulo. Ali são assentadas grandes panelas, colocando-se lenha e fogo na área central das pedras. Com a religiosidade da festa, há todo um ritual a ser seguido na preparação da comida, acompanhado por 19


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fé&devoção A força feminina que comanda a Ucharia na Festa de São Benedito

Foto | Marcio Pannunzio/Divulgação

rezas, pois a refeição preparada para a Ucharia simboliza o alimento sagrado, carregado de boas energias, podendo até curar. As refeições são servidas no jantar de sexta-feira, após o levantamento do mastro; e no almoço do sábado e do domingo, após os bailes da manhã.

Primeiro comem as crianças, o rei Congo, os congueiros e os mais velhos; depois, os parentes e os convidados dos devotos. A Ucharia de São Benedito representa, dentro de certo limite, a comunidade que existia em tempos anteriores.

TRADIÇÃO Mesmo nos dias de hoje, com toda tecnologia à disposição, o preparo da comida na Ucharia segue a tradição centenária e é preparada no Tacuruba, uma espécie de fogão à lenha

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APRENDENDO E ENSINANDO Para os envolvidos na Ucharia servir não representa servilidade, mas uma honraria que se faz com alegria, pois não é qualquer um que serve o Rei do Congo. Ao servi-los mantém sua tradição e identidade, relembrando o passado de seus ancestrais. Orgulho e autoestima também são recuperados ou reforçados, assim como a devoção a São Benedito. O salão é decorado com muitas flores e tecidos de chita e há sempre alguém louvando o negro Santo Benedito, falando sobre suas qualidades, rememorando outras Congadas e pessoas já falecidas. Todos são bem-vindos a colaborar, mas a possibilidade de pertencimento a Ucharia se dá através das relações pessoais estabelecidas e a partir daí o reconhecimento de sua identidade e individualidade. Com a distribuição da comida se aprende sobre solidariedade, compartilhamento e união na busca de um objetivo comum, a homenagem ao São Benedito, ao mesmo tempo que reconhecem de onde vem este saber, e quem é que deve ensinar.

Não tinha esse negócio de pedir para prefeitura ajudar; sabe? Os congueiros mesmo traziam galinha, porco, bezerro (...) não se pedia nada. Todo mundo trazia (...)”

Pedro Aidano da Silva

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baía dos castillanos

Uma família caiçara

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ilho de Dirce Barbosa dos Santos e Antônio Valério, Wanderley Valério é descendente de náufragos do início do Século XX e de escravos.

Sua bisavó, Maria Paula, foi encontrada aos cinco anos de idade na Baía dos Castelhanos, sem falar português, foi adotada por uma família caiçara que deu a ela o nome de Maria Paula. Acredita-se que ela foi mais uma sobrevivente de um dos muitos navios que naufragaram nos arredores de Ilhabela na época. Pelo período em que ela foi encontrada, sua descendência era provavelmente alemã ou italiana, fato que explica a cor clara da pele dos antigos caiçaras de Ilhabela.

Na comunidade, dona Dirce viveu até a adolescência, aprendendo com os avós e com os pais a essência da cultura caiçara: cultivavam na terra a guarnição do dia a dia, plantando e colhendo batata, mandioca e feijão. Do mar, por meio da pesca, extraíam o sustento da família e essa foi sua rotina até os 15 anos, quando mudou-se para o bairro do Perequê.

Foto | Marco Yamim

Maria Paula cresceu e fincou suas raízes na Baía dos Castelhanos, lá ela também conheceu e acabou se casando com Benedito Barbosa, um dos homens de maior influência comercial local da época. Com suas enormes roças de banana, laranja e mandioca, o homem negociava os produtos no comércio de Santos. Do casamento de Maria Paula e Benedito Barbosa nasceu dona Agilda Barbosa, mãe de Dirce Barbosa, caiçara legítima, nascida em 1954 na Baía dos Castelhanos.

Dirce se casou com Antônio Valério, com quem teve nove filhos. São eles: Benedito, Antônio, Roberto, Otaviano, Sabrina, Eduardo, Wanderley, Nain e Carolina Valério.

O tímido Quiosque do Alemão, no final dos anos 90 24

Antônio Valério auxiliando no início das obras da casa do filho Especial | CULTURA CAIÇARA | Maio de 2018


Origem Conta a história que a origem do nome da baía leste de Ilhabela se deu por conta dos primeiros desbravadores europeus que ali se estabeleceram. Com a expansão europeia em busca de terras promissoras no Novo Mundo, chegaram a esta bela praia espanhóis oriundos da região de Castilla-La Mancha e daí o nome “Baía dos Castillanos”.

Wanderlei Valério com a esposa, Natália Marques Nogueira, e a filha, Alice Castelhanos Especial | CULTURA CAIÇARA | Maio de 2018

Seja bem-vindo, respeite nossos costumes e preserve este paraíso! As características da descendência europeia renderam o apelido de Alemão a um dos filhos de dona Dirce. Por conta da história de sua família, no final da década de 90, Wanderley Valério decidiu voltar a suas origens. Com a abertura da Estrada dos Castelhanos nos anos 70, a comunidade viu o turismo crescer. Como a família tinha terras herdadas na comunidade, Alemão decidiu abrir um pequeno comércio. O caiçara se casou com Natalia Marques Nogueira, filha do saudoso empresário Toninho Marques, fundador do Supermercado Ilha da Princesa. Juntos tiveram uma filha, batizada com o nome da praia - Alice Castelhanos Marques Nogueira Valério. Passados mais de 15 anos do início das atividades, o Quiosque do Alemão se tornou uma referência. As especialidades são os peixes e frutos do mar, pescados por moradores locais. Em parceria com a rica mão de obra local, a família vive em função de atender os visitantes, e não abre mão de lutar pela manutenção da cultura caiçara e os direitos dos moradores das comunidades tradicionais de Ilhabela. 25


H

Desafios

e mestre de obra. Posteriormente trabalhou como auxiliar de limpeza, balconista e caixa de supermercado. Em 1989, ingressou na Prefeitura como auxiliar de serviços gerais, após aprovação em concurso público. Sempre de olho no futuro e com muita garra e determinação, ao concluir o primeiro grau, o jovem Márcio Tenório prestou novo concurso, desta vez, para escriturário. Aprovado, passou a exercer uma função na Secretaria de Saúde, mais precisamente, como encarregado de triagem. Em setembro de 1996, casou-se com Júlia Carmina de Almeida Tenório, com quem viveu por 21 anos e teve duas filhas, Ana Júlia e Manuella.

Foto | Caio Gomes

omem de vida simples e voltada ao próximo, Márcio Tenório é um jovem e com muitos sonhos a serem realizados a favor do arquipélago onde nasceu, cresceu e vive, exercendo, atualmente, a posição de chefe do Poder Executivo. Filho do pescador Manoel Tenório e da caseira Elza Gomes Batista Tenório, Márcio Tenório nasceu na comunidade tradicional da Praia da Fome. Ainda criança, aos cinco anos de idade, começou a trabalhar na pesca de camarão, ajudando seu pai no ofício que garantia a sobrevivência da família. Aos 13 anos trocou o mar pela terra, passando a atuar no ramo da construção civil como servente de pedreiro

da vida

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A inspiração diária, que nos mantém fortes e nos dá forças para lutar é o exemplo da minha guerreira esposa"

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Foto | Maurício Costato

Muito dedicado, galgou degraus passando a exercer outras funções, como diretor de Saúde e subsecretário da mesma pasta; por conta da vasta experiência adquirida, passou a ser popularmente conhecido como “Marcinho da Saúde”. Ao lado da esposa Júlia, Márcio disputou as eleições como candidato a prefeito pela primeira vez em 2012, alcançando o segundo lugar. Já em 2016, novamente, saiu como candidato. Desta vez, com 44,16% dos votos, Márcio Tenório foi eleito prefeito de Ilhabela. Mas apesar da vitória expressiva nas urnas, a vida lhe reservará dois duros golpes. No final de agosto de seu primeiro ano de governo, Márcio perdeu o amigo e fiel escudeiro, Paulo Cezar Mathias. Paulão ocupava o posto de secretário de Serviços Urbanos e era, disparado, o melhor secretário do atual Governo. A partida breve do amigo deixou um vácuo na administração, preenchido posteriormente pelo vereador Thiago Souza. Mas o compromisso continuava e, nos meses seguintes, o prefeito precisou se esforçar muito para conciliar a responsabilidade assumida perante a população com as adversidades enfrentadas em casa. Com a esposa diagnosticada com uma grave doença, Márcio dividia seu tempo cuidando ora da

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cidade, ora da esposa e das filhas. Os dias foram passando e a situação se agravou, até que em fevereiro passado, a primeira dama de Ilhabela foi hospitalizada. Júlia passou por diversos tratamentos em busca da cura e da qualidade de vida, mas aos 42 anos deixou o marido, as filhas e uma cidade inteira com o coração apertado. Mais uma vez, o prefeito — agora viúvo — encarava a dor da perda de uma pessoa ainda mais próxima. “Minha querida e amada esposa era uma pessoa extraordinária. Ela foi uma mulher especial, que espalhou amor e carinho, esteve sempre disposta em ajudar o próximo, uma esposa dedicada à família, que soube edificar nosso lar com sabedoria”, garante Tenório. Há pouco mais de 15 meses à frente da prefeitura da cidade, Márcio tem se dedicado para dar sequência aos planos da família Tenório, trabalhando muito para cumprir os compromisso assumidos com a população.

O dinheiro dos royalties do petróleo está subindo os morros. Estamos trabalhando para levar a riqueza da cidade àqueles que mais precisam, e era isso que a minha esposa Júlia também queria.”

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Preservando as raízes do povo caiçara Programas e projetos desenvolvidos pela prefeitura buscam o resgate e a perpetuação da Cultura Caiçara em Ilhabela

I

lhabela vem desenvolvendo vários projetos, programas e atividades voltados ao resgate da cultura caiçara. Dentro desse contexto estão a Semana da Cultura Caiçara e Congada de São Benedito, Tribuzana, Caminho da Nossa História, Museu em Rede, Visitação Externa da Fazenda Engenho D’Água e produção inclusiva nas comuni-

dades tradicionais. Mas, ainda vem muito mais por aí, como a criação da Caravana da Cultura. Todas as iniciativas têm o mesmo propósito, ou seja, perpetuar a cultura caiçara junto aos moradores, principalmente os mais jovens, e apresentá-la de uma forma inédita, aos turistas e veranistas que constantemente aportam em terras ilhabelenses.

Identidade Caiçara Carro chefe da Secretaria de Cultura, a “Identidade Caiçara” é a forma pela qual as raízes do povo caiçara será perpetuada às próximas gerações. Dentro do Plano de Governo apresentado pelo prefeito Márcio Tenório, trabalhar com a identidade caiçara só foi possível graças à criação do cargo técnico de diretor de Patrimônio Cultural. Com a realização de pesquisas e levantamentos históricos foi possível resgatar itens, locais e informações até então “esquecidas”. Dessa forma, com os trabalhos arqueológicos, a Prefeitura passou a se empenhar num projeto com o intuito de criar o maior museu a céu aberto do país partindo da criação do “Caminho da Nossa História”, que começa com os canhões históricos expostos na Vila, tendo ainda no roteiro o prédio da Cultura, o Centro Cultural da Vila, a Casa dos Reales, a Igreja Matriz, o Pelourinho, o Mercado de Escravos etc. A proposta, que ainda visa a extensão do percurso cultural – com visitas ao Monumento do Anchieta, à Casa da Princesa, à Fazenda Engenho d’Água –, prevê a conclusão do “museu sem paredes” – uma vez que a Ilha respira história por todos os seus cantos.

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tribuzana Projeto

C Fotos | Divulgação

riado em maio de 2017, o projeto Tribuzana proporciona aos representantes das comunidades caiçaras, Prefeitura e MPF (Ministério Público Federal), uma ferramenta para discutirem sobre a vivência em grupo, orgulho e cultura caiçara. Objetivando fortalecer a organização das comunidades tradicionais caiçaras, por meio da união de seus moradores, o grupo, dentro dessa proposta, pode e deve defender os seus direitos como, por exemplo, na participação nas discussões e políticas públicas que afetam a população da cidade como um todo, mediante consulta prévia antes de qualquer tomada de decisão. Assim, detentores de conhecimentos que são (conhecimentos estes que constituem uma riqueza cultural de grande relevância para a sociedade), os caiçaras têm no Tribuzana, sua garantia ao cumprimento de seus direitos a um tratamento especial na legislação nacional e internacional.

Foto | Divulgação/Tribuzana

INVESTIMENTOS e valorização das comunidades tradicionais Levadas à sério pela atual Administração, as comunidades tradicionais têm tido um espaço maior no cenário ilhéu, tanto que investimentos inéditos têm sido aplicados a favor dos caiçaras. Exemplo disso ocorreu recentemente na comunidade do Bonete, onde o sistema de abastecimento de água está em reforma, assim como o sistema de energia hidroelétrica, datada de 1999, que também está no pacote de reforma e ampliação. O local receberá ainda um estudo para implantação do sistema de saneamento básico e a manutenção do acesso no trecho da Laje até a comunidade. Já Castelhanos, receberá um posto de saúde e uma unidade escolar com espaço de lazer, ambos em fase de desapropriação e licenciamento. Além disso, foi instalado na comunidade o sistema de energia solar por placas (a Prefeitura tem reformado, substituído e implantado esse tipo de sistema em todas as comunidades), e o sistema de saneamento de água e esgoto encontra-se em fase de processo.

De acordo com a procuradora do Ministério Público Federal, Maria Rezende Capucci, o Tribuzana trouxe o empoderamento para as comunidades tradicionais caiçaras. “É uma alegria muito grande poder contribuir com o projeto e representar o Ministério neste ato. Desde a primeira conversa com o prefeito Márcio Tenório percebi que teríamos total apoio da Prefeitura para o empoderamento das comunidades que se sentirão cada dia mais fortes. A sensação que eu tenho é que estamos trabalhando juntos na mesma direção, e quando isso acontece, as chances de dar errado são poucas”, afirmou. Durante o lançamento do Projeto Tribuzana, o prefeito Márcio Tenório, caiçara da comunidade da Praia da Fome, fez questão de ressaltar que agora as comunidades caiçaras tem voz. “Junto com o Tribuzana, nasceu também uma instância de democracia participativa, com o objetivo de promover o desenvolvimento sustentável das comunidades caiçaras, além de conhecer, fortalecer e garantir esses direitos que foram tirados desses moradores há muito tempo”.

Encontros

A Ilha da Vitória contará com saneamento e com a reforma e construção de casas e banheiros; a Ilha de Búzios, por sua vez, ganhará um píer, abastecimento de água e reforma de casas. A previsão é que até 2020, todas as comunidades receberão tratamento de água e esgoto. A Praia Mansa receberá um frigorífico para uso da pesca pela comunidade e bairros adjacentes. Especial | CULTURA CAIÇARA | Maio de 2018

Os encontros promovidos pela Prefeitura, por meio da Secretaria de Desenvolvimento e Inclusão Social, em parceria com o Ministério Público Federal, e moradores das comunidades tradicionais do arquipélago, são algumas das atividades desenvolvidas pelo projeto Tribuzana. Nessas reuniões, os caiçaras tratam diversos assuntos a exemplo das novas questões de territorialidade, organização interna do próprio projeto e andamentos dos módulos apresentados. Enfim, assuntos de interesse do grupo para que cresça e se desenvolva de forma sadia e proveitosa, a fim de que o autossustento faça parte de sua realidade. Ao final dos módulos, será criado o Conselho Municipal das Comunidades Tradicionais. 33


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Fotos | Divulgação

Fotos | Marcus Schmidt

Reprodução | Ricardo Ymakawa

Autossustento

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lém dessas melhorias e novas estruturas físicas, a atual gestão também tem trabalhado em outra série de projetos com objetivo de promover o autossustento dos moradores por meio da inclusão produtiva, a exemplo do que já ocorre na Ilha da Vitória, onde foi criada uma oficina artesanal de bambu e, em Búzios, onde é desenvolvido um projeto que usa o juçara, uma palmeira nativa da Mata Atlântica, para suas atividades artesanais. Nesse sentido, a Secretaria promoveu curso de treinamento prático sobre identificação e aprimoramento das técnicas de manejo e preparo da futura colheita do broto de bambu com os moradores da Ilha da Vitória. Além de técnicas, métodos para controle de qualidade e inspeção para as peças de artesanato, também foram estudados visando o aprimoramento da produção de novas peças e designs com esse tipo de matéria prima. A ação possibilita um novo horizonte para os jovens e, consequentemente, às famílias, as quais passam a ter uma nova fonte de renda. Também por meio da pasta, a atual Administração tem trabalhado esses investimentos em outras iniciativas como na implantação do

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mercado caiçara na Praia do Perequê, um espaço específico para a comercialização dos produtos inseridos no projeto de agricultura familiar, de forma nunca antes vista. “É um grande orgulho levar infraestrutura, obras e melhorias para as comunidades que sonharam por tantos anos com a atenção de seus gestores. Nossa intenção é cuidar de todos os moradores do município, não só daqueles que se concentram nos bairros mais centrais”, disse o prefeito Márcio Tenório. Por conta desses trabalhos desenvolvidos junto às comunidades tradicionais, onde se inclui o projeto Tribuzana, Ilhabela foi classificada na primeira fase do Prêmio Progredir, promovido pelo Ministério do Desenvolvimento Social, como um dos 50 melhores da região Sudeste. O foco do prêmio é reconhecer e valorizar ações locais de desenvolvimento de capacidades de inserção no mundo do trabalho dos integrantes de famílias em situação de baixa renda e vulnerabilidade social, a fim de suscitar, reforçar ou sustentar a autonomia socioeconômica dos atendidos. Além do Tribuzana, o arquipélago concorre com outros projetos inscritos, entre eles, Juçara,

Bambu e Pescado, este último, com o intuito de contribuir para a estruturação de uma cooperativa de pesca a fim de viabilizar o fornecimento do pescado para a merenda escolar. “É um grande orgulho gerenciar uma Administração que busca constantemente por melhorias nas Comunidades Tradicionais e, por meio desses trabalhos, podemos proporcionar alternativas de renda para esses moradores que pouco usufruíam de seus direitos”, declarou o prefeito Márcio Tenório.

É um grande orgulho poder levar melhorias para as comunidades que sonharam por tantos anos com a atenção de seus gestores. Vamos proporcionar outras alternativas de renda, como o frigorífico a ser construído na Praia Mansa” Prefeito Márcio Tenório

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Fotos | Caio Gomes

Caminho da Nossa História C

om o claro objetivo de interligar os atrativos propostos pelos prédios históricos do município e, futuramente ampliar os programas “Caminho da Nossa História” e “Museu em Rede”, a prefeitura lançou essas duas iniciativas da Secretaria de Cultura em 28 de dezembro de 2017. Dentro do “Caminho da Nossa História”, com sua primeira fase centrada na Vila, o programa evidenciará os pontos históricos e culturais do bairro tendo como alvo moradores e visitantes que passarem pela área, a fim de que possam conhecer um pouco mais sobre o arquipélago circulando pelos imóveis centenários de forma não monitorada, levando em consideração que o programa, por si só, é autoexplicativo, com descrições em três idiomas. Neste circuito, o público segue pelos seguintes pontos: Antigo Mercado de Escravos (atual imobiliária), e Antigo Pelourinho, ambos em frente à Praça Coronel Julião de Moura Negrão; prédio onde funcionava a antiga Cadeia e Fórum (atual sede administrativa do Parque Estadual

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de Ilhabela); Paróquia Nossa Senhora D’Ajuda e Bonsucesso; atual sede da Fundação Arte e Cultura de Ilhabela (Fundaci), na rua Dr. Carvalho e a antiga bateria de canhões, próximo à Praça das Bandeiras. Já o Museu em Rede, consiste em uma sede própria bem no estilo convencional atrelado, de forma inédita, a vários polos culturais e históricos tendo por objetivo promover à rede municipal de ensino, aos moradores, veranistas e turistas uma viagem pela vasta história do arquipélago de uma maneira diferenciada. No Centro Cultural da Vila, já estão abertos ao público três grandes exposições: “Náufragos e Navegantes”, “História da Congada” e “A História da E.E Dr Gabriel Ribeiro dos Santos”. A primeira mostra conta a história dos naufrágios registrados nas proximidades do arquipélago com sua importância fixada na preservação e divulgação de bens subaquáticos mediante exposição de textos, objetos e maquetes sobre o tema. A segunda exibição apresenta a Congada da

Festa de São Benedito de Ilhabela, intencionando a valorização do rico patrimônio cultural advindo dessa tradição; textos e imagens audiovisuais estão à disposição do público. Considerada a maior e mais antiga tradição cultural artística da cidade, a Congada tem resistido ao longo dos anos, mostrando que o conhecimento das tradições e dos costumes caiçaras fazem parte da vida e da história dos moradores ilhéus. A terceira e última exposição tem por finalidade valorizar e recontar a história do prédio que abrigou a unidade escolar desde o tempo em que o município era Villa Bela. Textos, livros e objetos contribuem com a divulgação histórica do imóvel. A inauguração deste roteiro histórico cultural é o cumprimento do compromisso de gestão do prefeito Márcio Tenório com a Secretaria de Cultura. Por meio dessas iniciativas a Administração tem conseguido dar continuidade ao resgate, preservação e divulgação de nossa cultura. Para o prefeito Márcio Tenório, “uma das propostas da atual Administração é a valorização da identidade cultural”.

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Foto | Divulgação

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atrimônio do povo de Ilhabela, a Fazenda Engenho D’Água foi a mais moderna de todas as fazendas da ilha. Com características da arquitetura do século XVIII, apresenta semelhanças com as construções mineiras de meia encosta, sugerindo a mesma origem. A fazenda foi restaurada na década de 1940 por Carlos Drummont de Andrade, tombada em 1951 pelo Iphan e depois pelo Condephaat. Na época açucareira do litoral norte, a fazenda começou seus ganhos, seguindo até o século XIX, época em que as culturas do açúcar e do algodão entraram em declínio. Uma joia rara do patrimônio histórico de Ilhabela, o conjunto arquitetônico abriga inúmeros fatores das épocas coloniais, como o uso do óleo de baleia para aumentar a resistência da argamassa de cal na construção colonial. A Fazenda chegou a ter 200 escravos trabalhando na produção da cachaça, também responsáveis pela plantação do café e da banana.

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No local, além do engenho de cana de açúcar, os alambiques de cachaça e os tonéis de descanso da bebida permanecem conservados, assim como os porões que serviam de berço aos escravos que ali dormiam, tal como as seteiras, abertura na muralha que em sua primitiva concepção permitia aos defensores lançar flechas contra invasores e saqueadores da época. No local também encontra-se um “Ford”, funcionando em perfeito estado, um dos primeiros carros a chegar a Ilhabela, com placa de 1932. Em novembro de 2014, a Fazenda Engenho D’Água foi incorporada ao patrimônio da cidade, quando a Prefeitura adquiriu 43,5 mil m² da propriedade. Em abril deste ano, finalmente, a fazenda foi aberta ao público para visitação. O percurso se dá pela área externa, onde os visitantes têm a oportunidade de contemplar a edificação e suas características preservadas em sua face externa, bem como a bela paisagem, também tombada

como patrimônio nacional. “A Fazenda Engenho D’Água faz parte da história do povo caiçara, seu engenho foi fonte de renda para muitas famílias, e nunca perdeu o seu encanto. Com as portas abertas, moradores e turistas podem enfim conhecer um pouco mais deste importante local histórico da nossa cidade”, declarou o prefeito Márcio Tenório.

visitação A visitação tem entrada franca, mas obedece aos seguintes horários: Público em geral – Sextas-feiras, sábados, domingos e feriados das 9h30 às 11h30 e das 14h às 17h com saídas a cada 30 minutos. Escolas – Quartas e quintas-feiras mediante agendamento prévio. *Não haverá visitação em dias de chuva.

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FOTOS | ADRIANO PERNA

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uando se fala em canoas de voga, logo vem à memória o saudoso caiçara Antônio Rafael que foi um dos maiores mestres canoeiros de Ilhabela. Ele foi o responsável pela primeira restauração na centenária canoa “Vencedora”, um símbolo da resistência caiçara. Nascido em 28 de Setembro de 1918 na Praia Mansa, Antônio Rafael era casado com Benedita Emília de Souza, também da comunidade tradicional da baía dos Castelhanos. Juntos tiveram 10 filhos, sendo um deles o saudoso pescador “Américo Rafael de Souza”. Participou ativamente nas comunidades desenvolvendo trabalhos solidários. Era o líder da comunidade de Praia Mansa, onde era responsável pela aplicação de soro antifisiológico contra picadas de cobras, também era o responsável pelos primeiros socorros, além de construir os caixões para os sepultamento no cemitério dos Castelhanos. Já na praia de Santa Tereza, Antônio Rafael também marcou a história da comunidade ao fazer a doação de parte de suas terras para dar acesso aos demais moradores do bairro, rua que hoje leva o nome de Antônio de Carvalho. Seu filho, Marco Antonio Rafael de Souza, veio da comunidade tradicional com seus pais, juntamente com seus irmãos. Do lado de cá, cresceu e

estudou. Ainda criança, inspirado pelo ofício do pai, Marco Rafael fazia seus próprios brinquedos. Das miniaturas de barcos e canoas, passou a ajudar o pai no trabalho de carpintaria náutica com os barcos grandes, de verdade. De ajudante, passou a comandar sozinho as reformas até enfrentar o desafio de construir o primeiro barco do zero, e vê-lo navegar. Com a vocação e a responsabilidade aprendida com o pai, Marco Rafael tenta passar adiante a tradição familiar da carpintaria náutica. Em abril deste ano, o caiçara se deparou com

Reprodução | Museu da Pessoa

o grande desafio de, assim como seu pai, restaurar a canoa “Vencedora”, que deve voltar à Praça Coronel Julião de Moura Negrão. Ao longo das gerações, a família de Antônio Rafael demonstrou com pequenas atitudes representar uma relevante memória para cultura do povo caiçara, que luta para resistir ao desenvolvimento.

Foto | Acervo Pessoal

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A arte de esculpir barcos

Foto | Acervo Pessoal

O mais difícil foi o primeiro barco que eu peguei pra reformar.”

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Vida no Mar Antonio Rafael [pai de Marco] a bordo de seu barco, o ICARAI III, durante a procissão da festa de São Pedro Pescador, no início da década de 1980 43


Foto | Marco Yamim

www.ecoprimeambiental.com

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Reprodução | Museu da Pessoa

Rodeado de lendas, histórias e tradições caiçaras

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Adriano Leite, o professor da cultura caiçara

Foi um pouco difícil pra mim, eu sentia muitas saudades daqui, muitas saudades, mas eu saí, estudei, voltei”. Naquela época, os senhores de engenho de toda Ilha se deslocavam até Castelhanos, onde os escravos eram comercializados. Aqueles que chegavam mais desgastados e doentes, da longa viagem entre a África e o continente americano, eram "deportados" de canoa a remo para Praia da Fome, onde havia uma fazenda de subsistência. Ali, os escravos se recuperavam para depois serem vendidos. Daí a origem do nome, Praia da Fome. De origem portuguesa, seu pai era pescador e vivia no Saco do Sombrio, onde tinha dois barEspecial | CULTURA CAIÇARA | Maio de 2018

Foto | Acervo Pessoal

driano Leite da Silva nasceu em Ilhabela no dia 30 de janeiro de 1968. Mais novo de 12 irmãos, Adriano cresceu na ilha e só deixou o arquipélago para completar sua formação universitária. Sua família materna, originalmente de Ubatuba, veio para Ilhabela por volta de 1730 para assumir a fazenda da Praia da Fome. No local era realizado o processo de engorda dos negros que chegavam ao arquipélago para, posteriormente, serem vendidos como escravos. Segundo ele, todos eram encaminhados diretamente a baía dos Castelhanos, local onde estavam situadas importantes fazendas como a Vicenzo, a Fazenda do Ribeiro e a Fazenda do Engenho Velho. cos. Um deles se chamava Nossa Senhora do Rosário, que era bem conhecido na ilha. Junto com seu avô e seus irmãos, pescavam com um cerco, técnica que chegou em Ilhabela por volta de 1920 com a migração japonesa. Filho da terra, Adriano se dedicou aos estudos e assim que retornou a Ilhabela, já como pedagogo e psicólogo, o professor Adriano Leite foi lecionar nas escolas das Comunidade Tradicionais, onde atuou por 20 anos. Ao longo da vida e com o "convívio com pessoas mais antigas”, o professor adquiriu muito conhecimento sobre a história da Ilha. Logo, ele iniciou seu trabalho com crianças e continuou a trabalhar com a história e com as lendas do arquipélago, que o encantavam desde sua tenra infância quando parava para ouvir seus pais e avós. Adriano começou como professor, foi diretor escolar, chegando ao posto de diretor pedagógico da Secretaria Municipal de Educação e continua – com todo o vigor – trabalhando pelo resgate da história e a preservação do folclore de Ilhabela.

Filho de uma roceira com um homem que trabalhou a vida toda no mar, o caiçara conhece a importância e os valores da vida simples. Devoto de São Benedito, o caiçara luta para manter viva a tradição, resgatando a história de seu povo e a cultura caiçara. Foto | Acervo Pessoal

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saudades

Nega Malu A beleza em cuidar do próximo

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Malu trouxe dignidade e abriu as portas da cidadania, em todos os sentidos para esta gente tão sofrida e com tão poucas oportunidades O amor pelo próximo, a preocupação com as pessoas e a vocação para trazer beleza ao que é feio aos olhos de muitos, conduziram à uma missão ainda maior. Preocupada e aflita com a situação das pessoas que moravam e viviam do Lixão, Malu organizou-as e iniciou assim um centro de triagem. Tornou o astral pesado do trabalho no lixo em uma ação construtiva, elevando a estima e moral destes trabalhadores, com a valorização da importância de suas tarefas, para a sociedade, para o meio ambiente e para a arte. Mostrou que no lixo há muita beleza, tudo é uma questão de boa vontade e um prisma artístico. Ela estimulou o talento destas pessoas que antes estavam sendo vitimadas pelo preconceito e pela miopia do estado. Autoridades municipais apoiaram suas ações e o centro de triagem se institucionalizou. Com isso, os recicladores passaram a contar com direitos fundamentais. Malu trouxe dignidade e

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Foto | Ronald Kraag

ma modelo linda, ícone da mulher negra, que transferia sua beleza, não só física, mas a beleza da bondade feminina a tudo e a todos. Uma versão afro-brasileira, uma releitura, do mito do Rei Midas, que tudo que tocava tornava áureo, mas sem a ganância do protagonista do mito, pelo contrário, é o outro extremo. Maria Lúcia, conhecida por todos por Nega Malu foi modelo em São Paulo, quando decidiu junto com seu marido, Zé Mauro, que era publicitário, largar a capital paulista para se juntar a questão caiçara da comunidade de Trindade. Tiveram que voltar para São Paulo, onde a amiga Nair Tanaka, lhes apresentou ao arquipélago. No final da década de 70, montaram na Barra Velha, o “Garimpo da Nega”, que vendia material de demolição para os arquitetos da cidade. Neste momento, seu interesse pela reciclagem ficou mais evidente.

abriu as portas da cidadania, em todos os sentidos para esta gente tão sofrida e com tão poucas oportunidades, deixando esta semente para as próximas gerações. Embora o Centro de Triagem seja um ponto de maior exposição de sua trajetória, ela ficou conhecida por todos por sua incansável disposição em ajudar ao próximo, de se doar de corpo e alma às pessoas, dando de si sem pensar em si. Assimilando a cultura da terra, a Nega dedicou a vida a ajudar a tradição da Congada. Malu representou como mulher vários fatores: a feminilidade, o altruísmo, a bondade, e uma maternidade difusa que

acolhia a todos. Seus olhos só viam beleza e bondade e seus atos os revelavam. No dia sete de maio de 2016, dias antes de mais uma edição da Congada de São Benedito, Nega Malu partiu, deixando muitas saudades. Por Clarissa Mariotti

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restauro Após 20 anos do primeiro restauro feito por seu pai, o saudoso Antonio Rafael, Marco encarou o desafio de recuperar este símbolo da cultura e da resistência caiçara.

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o retorno da canoa

Vencedora símbolo da resistência caiçara

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om mais de 11 metros de comprimentos, a canoa “Vencedora” é um símbolo da resistência caiçara. Ela foi escavada em um tronco de Jequitibá por caiçaras da praia do Jabaquara no final do século XIX. A canoa era usada no engenho de aguardente de Ernesto Tagé, um dos últimos senhores de engenho da ilha. A partir do primeiro quarto do século XX, com a grande produção de aguardente, a “Vencedora” passou a fazer parte de uma flotilha de grandes canoas de voga, utilizadas para transportar cachaça e escoar o excedente da produção agrícola das roças de subsistência de Vila Bela até a cidade de Santos. A tradicional embarcação é cercada de mistérios, pois as técnicas da produção canoeira são passadas oralmente de pai para filho em todo o litoral paulista. Não existe nenhum documento ou manual que ensine a fazer uma canoa e, apesar da diminuição da produção artesanal, com a chegada de embarcações mais modernas e novas tecnologias, é ainda o principal meio de transporte para alguns moradores das comunidades tradicionais de Ilhabela. No final da década 1990, por intermédio do radialista e frequentador assíduo de Ilhabela, José Nogueira Neto, a canoa “Vencedora” foi doada ao patrimônio do município pelo caiçara de origem nipônica Renato Kengo Imakawa, que a herdou de seu avô, Bungoro Naka. Em 1998, a canoa deixou a Salga da Ponta Azeda, quando passou a integrar o cenário da Praça Coronel Julião de Moura Negrão, na Vila. Na época, a então prefeita Nilce Signorini, providenciou a construção de um rancho e a restauração da “Vencedora” ficou a cargo do mestre canoeiro Antônio Rafael.

Foto | Caio Gomes

Para nós, caiçaras, vai ser uma grande emoção ver essa canoa novamente na praça, representando nossa história...”

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Márcio Tenório, prefeito de Ilhabela

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Foto | Daniele Santana Foto | Acervo

Dez anos depois, com o argumento de que a canoa estava sendo alvo de vandalismo, o então prefeito Antonio Luiz Colucci removeu a “Vencedora” e o “Rancho Caiçara” da praça, colocando-a ao lado do prédio da antiga Cadeia e Fórum. Na época, a Prefeitura alegou que mesmo estando protegida por um rancho coberto, a canoa estava com vários pontos de podridão no casco, além da pintura danificada por pichações. A retirada do patrimônio também foi justificada por conta da “utilização inadequada por andarilhos, bêbados e drogados”.

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Após permanecer por seis anos ao lado do prédio da antiga Cadeia e Fórum, em fevereiro de 2017, a canoa “Vencedora” foi levada à praia de Santa Tereza, para enfim ser restaurada. “Dentro de nossas metas na Cultura, e junto com o plano de governo do prefeito Márcio Tenório, está resgatar a cultura caiçara. Essa canoa não poderia ficar de fora desse contexto, já que ela é cheia de histórias e simbolismos”, afirmou o secretário de Cultura, Nuno Gallo. O trabalho ficou a cargo do caiçara Marco Rafael. Após 20 anos do primeiro restauro da

canoa “Vencedora”, feito por seu pai — o saudoso mestre canoeiro —, Antonio Rafael, Marco encarou o desafio e vem trabalhando diariamente para recuperar este símbolo da cultura e da resistência caiçara. Segundo o restaurador, há muitos pontos em que a madeira apodreceu. “Nós estamos removendo todas as partes danificadas e entalhando novamente com madeira. É bem trabalhoso, mas faço isso com muito carinho. Não dava pra deixar isso aqui na mão de qualquer um, essa canoa faz parte da nossa história”, afirmou o caiçara. A “Vencedora” também será lixada e receberá uma nova pintura. A ideia de Marco Rafael e deixar a canoa em seu formato original. Assim que o trabalho de restauro for concluído, a canoa “Vencedora” deverá voltar a Praça Coronel Julião, seu local de origem. Segundo o prefeito de Ilhabela, Márcio Tenório, este foi um compromisso assumido com a população, e que será cumprido. “Sinto um orgulho grande, como caiçara. Lembrei dos dias em que seu Bidica e Dona Dita, meus avós, traziam mandioca e peixe da praia da Fome para a Vila, há 40 anos, em uma canoa como essa. Assim que a canoa estiver pronta vamos colocá-la em seu local de origem, que é na Praça. Para nós, caiçaras, vai ser uma grande emoção ver essa canoa novamente lá, representando nossa história”, afirmou o prefeito.

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identidade caiçara

Resgate da identidade do povo caiçara

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om quase cinco anos à frente da secretaria de Cultura de Ilhabela, somando sua primeira passagem durante o governo passado e a atual gestão, Nuno Gallo tem lutado para desenvolver e valorizar a cultura caiçara. Durante esta segunda passagem pela secretaria, na atual administração, Nuno destaca o projeto “Identidade Caiçara” como o carro chefe da Cultura, dentro do plano de governo do prefeito Márcio Tenório. “Um povo sem cultura é um povo sem identidade. Resgatar, preservar e divulgar o patrimônio histórico e cultural de Ilhabela é o que me motiva nessa caminhada”, afirma o secretário. Segundo ele, a criação do cargo técnico de Diretor de Patrimônio Cultural, possibilitou o levantamento histórico de diversos itens e lugares. Atualmente, a função é ocupada pela doutora em arqueologia, Cíntia Bendazoli, responsável pelo estudo, por exemplo, de uma ossada encontrada em Furnas, com mais de 2000 anos.

Em Ilhabela, cada canto que se olha tem algo histórico e segundo o secretário, “o museu não precisa ser uma sala fechada, nós podemos ter um museu aberto e interativo”. Nuno conta que na Vila, por exemplo, já foi inaugurada a primeira etapa desse projeto, que se inicia nos canhões expostos na Praça das Bandeiras, passa pelo prédio da Cultura, Centro Cultural da Vila, Casa dos Reales, Igreja Matriz, Pelourinho, Mercado de Escravos e por ai afora. Nuno destaca que todos esses pontos já fazem parte do roteiro histórico montado pela secretaria.

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Foto | Caio Gomes

Com o levantamento arqueológico do município, a secretaria de Cultura passou a se engajar num grande trabalho histórico, que se divide em dois principais grandes planos. O primeiro dele é o “Caminho da nossa história”, que visa criar o maior museu a céu aberto do Brasil, projeto que deve ser concluído até 2020.

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Foto | Acervo

Partindo desses pontos, vamos estender esse roteiro, com o Monumento do Anchieta, Casa da Princesa, Fazenda Engenho D’Água, que inclusive já está aberta para visitação”. O secretário afirma ainda que dentro da Fazenda Engenho D’Água será criado um Parque Histórico e Arqueológico, com escavações arqueológicas também abertas para visitação, tudo isso ligado a rede municipal de ensino, trazendo de volta a cultura local para as escolas do arquipélago. “A ideia é continuar esse percurso por vários outros pontos da cidade. Esse, junto com o museu em rede são nossos grande projetos, para fazer a juventude entender a história dos seus antepassados”. Museu em Rede. Com a complexidade técnica de se criar um museu no município e a grande variedade histórica que a cidade tem para mostrar, a secretaria de Cultura vem trabalhando no projeto “Museu em Rede”, que consiste em uma sede, que é um museu histórico e em sequência a rede, que serão polos voltados a temas específicos, como o polo Waldemar Belisário, Sala da Congada, Polo Arqueológico, Polo de Naufrágios e assim por diante.  Outro ponto importante do trabalho que vem sendo desenvolvido pela secretaria de Cultura, em parceria com a Fundaci, é a recuperação da canoa “Vencedora”. Assim que o restauro da canoa for concluído, este símbolo da resistência caiçara voltará a ser exposto na Praça Cel Julião, na Vila, com a sua história escrita. “A recuperação está sendo feita por Marco Rafael, filho de um caiçara, com total competência para essa grande missão.” Outro grande ponto histórico cultural que está sendo preparado é a antiga Salga da Ponta Azeda. O projeto de recuperação deixado pelo até então secretário de Obras, Luiz Paladino, foi aprovado pelo prefeito, e mantém toda sua característica original. “Recentemente, durante uma visita ao local, o prefeito Márcio Tenório se emocionou ao relembrar sua infância, já que vários artigos

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presentes na Salga são os mesmos desde aquela época, como os tabuleiros e o forno”, destacou Gallo. Congada. Com relação a Congada e a Festa de São Benedito, o secretário destacou que, conforme prometido pelo prefeito, foi inaugurada uma sala de exposição permanente na Vila, com a orientação dos Congueiros, uma vez que a secretaria de Cultura não interfere em absolutamente nada quanto a congada. “Nós trabalhamos em uma grande parceria, que tem como objetivo fortalecer essa tradição tão importante. Os Congueiros são consultados em todas as ações que os evolvam, inclusive tudo que foi feito referente a essa sala foi com o aval deles”.  Ainda de acordo com Nuno Gallo, a estruturação e valorização da cultura é um trabalho que leva tempo. “Quando se trabalha e acredita num projeto como esse, não se pode pensar somente em eventos, que são pontuais”. O secretário ressalta ainda que o resgate da cultura e a origem histórica requer tempo, estudo e pesquisa para que possa ser alcançado um resultado definitivo. “Cada projeto desses é um passo. A cada etapa que desenvolvemos, alinhamos junto à secretaria de Turismo, para que eles desenvolvam um produto a ser consumindo, fomentando o turismo histórico e cultural na cidade, com roteiros que possam ser feitos inclusive em dias de chuva”. Nuno fez questão de deixar claro que o prefeito, até mesmo pela sua origem, deu total autonomia e apoio para que a secretaria evolua na valorização da cultura caiçara. “Na minha concepção, o trabalho da secretaria deve ser esse, seguir esse caminho, encarar cultura somente como eventos pontuais desvaloriza uma das maiores riquezas que a nossa cidade tem”. Mostrando sua preocupação com o tema, recentemente, o prefeito Márcio Tenório se comprometeu a enviar para à Câmara um projeto de tombamento municipal, tornando Ilhabela um patrimônio histórico e facilitando o trabalho em prol da cultura.

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Tribuna do Povo - Especial Semana da Cultura Caiçara  

A tradição e devoção da Congada de Ilhabela na Festa de São Benedito.

Tribuna do Povo - Especial Semana da Cultura Caiçara  

A tradição e devoção da Congada de Ilhabela na Festa de São Benedito.

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