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De 17 à 23 de Maio de 2018 | Jornalista Responsável: Caio Gomes - MTB/SP:65.601 | Ano IX | Edição nº 198

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

Vem aí mais uma Congada de São Benedito e a XVIII Semana da Cultura Caiçara Durante os três dias de festejos pelas ruas da Vila acontecem Bailes, Banquetes e Procissões ao som da marimba e dos atabaques. Um dos eventos mais esperados da cultura popular de Ilhabela começa nesta quinta-feira (17/5). A 18ª edição da Semana da Cultura Caiçara traz diversas atrações neste fim de semana, como a tradicional Congada de São Benedito, uma das mais antigas manifestações da cultura ilhabelense, além de apresentações musicais. O evento é realizado pela Prefeitura de Ilhabela em parceria com a Paróquia Nossa Senhora D’Ajuda e Bonsucesso e a Associação dos Congueiros de Ilhabela.

Como de costume, a programação da Congada começa na sexta-feira, com a procissão do Mastro de São Benedito, que acontece em frente a Igreja Matriz, na Vila a partir das 17h. No sábado, a partir das 8h30 é realizada a Procissão de São Benedito pelas ruas da Vila, seguida pela Meia Lua, o Baile de Congos e a Ucharia (almoço preparado e servido pelos devotos de São Benedito), prosseguindo durante a tarde. No domingo, a programação da Congada começa mais cedo com a Alvorada, às 6h, e também bailes durante todo o dia. A Congada de Ilhabela conta a história de dois grupos que se desentendem por quererem ambos festejar São Benedito. A dramatização faz-se com partes faladas, cantos e danças, ao som da marimba e de atabaques. Os congueiros são divididos pelos Congos de Cima, que representam os Fidalgos e os Congos de Baixo ou Congos do Embaixador que são os pagãos, mouros ou infiéis. Confira a programação completa em www.tribunadopovo.net

o restauro de um símbolo da

resistência caiçara

RESTAURO- Em 1998, a canoa deixou a Salga da Ponta Azeda, quando passou a integrar o cenário da Praça Coronel Julião de Moura Negrão, na Vila. Na época, a então prefeita Nilce Signorini, providenciou a construção de um rancho e a restauração da “Vencedora” ficou a cargo do mestre canoeiro Antônio Rafael.

A programação da XVIII Semana da Cultura Caiçara de Ilhabela está repleta de atividades culturais. Dentre elas a Congada de São Benedito, considerada uma das maiores manifesta-

ções culturais e folclóricas do Litoral Paulista. Registros históricos garantem que a Congada de Ilhabela é realizada há mais de dois Séculos, uma tradição e devoção, que está incrustada no cora-

Em noite de festa caiçara, vereadores homenageiam personalidades de Ilhabela No mês da cultura caiçara, os vereadores de Ilhabela homenagearam personalidades do município que prestam relevantes serviços em suas áreas de atuação, contribuindo para a conservação das tradições e desenvolvimento da cidade. Os certificados de reconhecimento público foram entregues na sessão Ordinária de terça-feira (8/5), conforme previsto pela Lei 999/2013. O vereador Gabriel Rocha (SD) destacou o trabalho do artista e embaixador cultural da cidade,

Gilmar Pinna. Conhecido internacionalmente, ele leva o nome de Ilhabela para diversos países. O reconhecimento foi entregue ao seu irmão Geraldo Pinna que justificou sua ausência “Ele não está aqui presente porque está fazendo o maior monumento da história desse país, Nossa Senhora Aparecida, de 50 metros. Mas, entre todas as homenagens que já recebeu, essa de nossa terra natal é a que mais enche de alegria”, enfatizou. Veja mais na página 06.

ção e na alma do povo caiçara. Uma novidade da Semana da Cultura Caiçara deste ano será a entrega oficial da canoa “Vencedora”, que foi restaurada pelo caiçara Marco Rafael.

A embarcação tem cerca de 11 metros de comprimento e foi escavada em um tronco de Jequitibá. Certamente um dos maiores símbolos da resistência caiçara. Veja mais na página 03.


02 | Cultura

Edição nº 198 | ANO IX | De 17 à 23 de Maio de 2018

Almir Sater e Grupo Paranga se apresentam na XVIII Semana da Cultura Caiçara

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CONFIRA A PROGRAMAÇÃO COMPLETA Dia 17 | Quinta-feira 19h – Abertura oficial e entrega da Canoa Vencedora 19h – Quermesse e shows – Praça Coronel Julião 20h – Orquestra Popular de Ilhabela 21h – Tin Mazzo e banda Dia 18 – Sexta-feira 15h – Casinha Caiçara com Velha Verônica e Vandinho Caiçara – café, bolo, biju e concertada para conversas e histórias caiçaras. 17h – Procissão e Levantamento do Mastro de São Benedito 19h – Quermesse e shows – Praça Coronel Julião 21h – Aline Outa Dia 19 – Sábado 8h30 – Meia Lua / Procissão de São Benedito – Ruas da Vila 10h – Baile dos Congos – Ruas da Vila 10h, 15h e 18h – Casinha Caiçara com Velha Verônica e Vandinho Caiçara – café, bolo, biju e concertada para conversas e histórias caiçaras. 12h30 – Ucharia de São Benedito – Igreja Matriz 14h – Baile dos Congos – Ruas da Vila 19h – Quermesse e shows – Praça Coronel Julião 21h – Felipe Bianchi e Trio 22h – Almir Sater

Os shows musicais da programação da Congada da Festa de São Benedito e da Semana da Cultura Caiçara já estão definidos, numa realização da Prefeitura de Ilhabela, por meio da Secretaria de Cultura. No sábado (19), a partir das 22h, o cantor Almir Sater

subirá ao palco para apresentar seus grandes sucessos. No domingo (20), também a partir das 22h, será a vez do Grupo Paranga, de São Luiz do Paraitinga animar a festa. Os dois eventos são considerados as maiores manifestações culturais e

do arquipélago. “A Congada tem mais de 200 anos de tradição e devoção caiçara; é um evento que está no coração e na alma de nossa gente, uma bela festa que merece e deve ser preservada. Nós priorizamos a valorizamos a cultura local”, declarou Márcio Tenório.

Dia 20 – Domingo 6h – Alvorada Festiva 8h30 – Meia Lua / Procissão de São Benedito e Missa – Igreja Matriz 10h – Baile dos Congos – Ruas da Vila 10h, 15h e 18h – Casinha Caiçara com Velha Verônica e Vandinho Caiçara – café, bolo, biju e concertada para conversas e histórias caiçaras. 12h30 – Ucharia de São Benedito – Igreja Matriz 14h – Baile dos Congos – Ruas da Vila 18h – Procissão e Missa de São Benedito – Igreja Matriz 19h – Quermesse e shows musicais – Praça Coronel Julião 21h – Larissa Cavalcanti 22h – Grupo Paranga


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Tradição | 03

Após 10 anos, canoa Vencedora é restaurada e retorna para exposição na Praça Cel. Julião

Foto | Daniele Santana

Com mais de 11 metros de comprimentos, a canoa “Vencedora” é um símbolo da resistência caiçara. Ela foi escavada em um tronco de Jequitibá por caiçaras da praia do Jabaquara no final do século XIX. A canoa era usada no engenho de aguardente de Ernesto Tagé, um dos últimos senhores de engenho da ilha. A partir do primeiro quarto do século XX, com a grande produção de aguardente, a “Vencedora” passou a fazer parte de uma flotilha de grandes canoas de voga, utilizadas para transportar cachaça e escoar o excedente da produção agrícola das roças de subsistência de Vila Bela até a cidade de Santos. A tradicional embarcação é cercada de mistérios, pois as técnicas da produção canoeira são passadas oralmente de pai para filho em todo o litoral paulista. Não existe nenhum documento ou manual que ensine a fazer uma canoa e, apesar da diminuição da produção artesanal, com a chegada de embarcações mais modernas e novas tecnologias, é ainda o principal meio de transporte para alguns moradores das comunidades tradicionais de Ilhabela. No final da década 1990, por intermédio do radialista e frequentador assíduo de Ilhabela, José Nogueira Neto, a canoa “Vencedora” foi doada ao patrimônio do município pelo caiçara de origem nipônica Renato Kengo Imakawa, que a herdou de

Na tarde desta quarta-feira, a Vencedora retornou a Praça Coronel Julião, na Vila. O prefeito Márcio Tenório e o secretário de Cultura, Nuno Gallo, acompanharam os trabalhos

seu avô, Bungoro Naka. Em 1998, a canoa deixou a Salga da Ponta Azeda, quando passou a integrar o cenário da Praça Coronel Julião de Moura Negrão, na Vila. Na época, a então prefeita Nilce Signorini, providenciou a construção de um rancho e a restauração da “Vencedora” ficou a cargo do mestre canoeiro Antônio Rafael. Dez anos depois, com o argumento de que a canoa estava sendo alvo de vandalismo, o então prefeito Antonio

Luiz Colucci removeu a “Vencedora” e o “Rancho Caiçara” da praça, colocando-a ao lado do prédio da antiga Cadeia e Fórum. Na época, a Prefeitura alegou que mesmo estando protegida por um rancho coberto, a canoa estava com vários pontos de podridão no casco, além da pintura danificada por pichações. A retirada do patrimônio também foi justificada por conta da “utilização inadequada por andarilhos, bêbados e drogados”. Após permanecer por

seis anos ao lado do prédio da antiga Cadeia e Fórum, em fevereiro de 2017, a canoa “Vencedora” foi levada à praia de Santa Tereza, para enfim ser restaurada. “Dentro de nossas metas na Cultura, e junto com o plano de governo do prefeito Márcio Tenório, está resgatar a cultura caiçara. Essa canoa não poderia ficar de fora desse contexto, já que ela é cheia de histórias e simbolismos”, afirmou o secretário de Cultura, Nuno Gallo.

Com mais de 100 anos de existência, a canoa Vencedora sofreu com o tempo. Seu casco foi recuperado e agora a Vencedora está de volta

Para nós, caiçaras, é uma grande emoção ver essa canoa recuperada e novamente na praça, representando nossa história...”

Márcio Tenório, prefeito de Ilhabela

O trabalho ficou a cargo do caiçara Marco Rafael. Após 20 anos do primeiro restauro da canoa “Vencedora”, feito por seu pai — o saudoso mestre canoeiro —, Antonio Rafael, Marco encarou o desafio e vem trabalhando diariamente para recuperar este símbolo da cultura e da resistência caiçara. Segundo o restaurador, há muitos pontos em que a madeira apodreceu. “Nós removemos todas as partes danificadas, entalhando novamente com madeira. Foi muito trabalhoso, mas fiz isso com muito carinho. Não dava pra deixar isso aqui na mão de qualquer um, essa canoa faz parte da nossa história”, afirmou o caiçara Marco Rafael. A “Vencedora” também foi lixada e recebeu uma nova pintura. A ideia de Marco Rafael era deixar a canoa o mais original possível. Nesta quarta-feira (16/5), logo após o termino dos trabalhos de restauro, a canoa

“Vencedora” voltou a Praça Coronel Julião, seu local de origem. O entorno do local onde a canoa está exposta será revitalizado e a Vencedora receberá uma cobertura, tipicamente caiçara, que será construída para proteger esse Patrimônio Caiçara das intempéries como sol e chuva. Segundo o prefeito de Ilhabela, Márcio Tenório, este foi um compromisso assumido com a população, e que será cumprido. “Sinto um orgulho grande, como caiçara. Lembrei dos dias em que seu Bidica e Dona Dita, meus avós, traziam mandioca e peixe da praia da Fome para a Vila, há 40 anos, em uma canoa como essa. Assim que a canoa estiver pronta vamos colocá-la em seu local de origem, que é na Praça. Para nós, caiçaras, vai ser uma grande emoção ver essa canoa novamente lá, representando nossa história”, afirmou o prefeito.


04 | Congada

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Soberano Rei do Congo

Congada de

São Benedito

Por trás do canto, danças e falas dramáticas, a Congada remete às lutas dos negros contra os brancos que invadiram a África em busca de escravos. A Congada de Ilhabela é considerada uma das mais antigas do Brasil, mantendo uma fidelidade que resistiu a séculos de opressão.

Durante os três dias de festejos pelas ruas da Vila acontecem Bailes, Banquetes e Procissões ao som da marimba e dos atabaques.

Aos 84 anos, Benedito Hipolito de Carvalho, o Dito de Pilaca, deixou o reinado. Ele entrou para a Congada ainda pequeno, cumprindo a promessa de sua avó, que recorreu a São Benedito pela cura do neto, garantindo que ele seria congueiro.

Quando os primeiros navios negreiros desembarcaram no Brasil, trouxeram da África, não apenas escravos para nas fazendas de café, cana-de-açúcar e casas de colonos, mas também elementos culturais, rezas, crenças e o gosto pela música e a dança. Neste cenário surgiu a Congada de São Benedito, que faz parte dessas tradições trazidas com os escravos. Em Ilhabela, o ritual é mantido há mais de duzentos anos. Neste tempo muito se perdeu, mas não as músicas, falas e fardas, que ao toque de marimba e do atabaque, marcam o compasso da luta de um povo para preservar sua cultura. Desde sempre, o cenário desta tradição, acontece nas ruas da Vila. Alguns a tratam como uma apresentação teatral, mas a Congada de Ilhabela apresenta em seu enredo uma guerra, uma desavença entre dois grupos que desejam festejar em honra de São Benedito. Os congos dividem-se em dois

grupos: os congos de cima que são os fidalgos do rei vestidos de azul e considerados cristãos e os congos de baixo também denominados de congueiros do embaixador, vestidos com tons que vão do vermelho ao rosa, considerados pagãos. Durante os três dias principais dos festejos acontecem "bailes", "banquetes" e "procissões" ao som da marimba de madeira e dos atabaques. Uma das primeiras homenagens para São Benedito promovida durante a celebração é o levantamento do Mastro, que marca o início da festa. Na sexta-feira, pontualmente as 17h, acontece a procissão do Mastro de São Benedito. Sob responsabilidade da família do Capitão do Mastro, o símbolo que marca o início dos festejos é preparado dias antes da realização da Congada. Anualmente o mastro passa por manutenção, pintura e é enfeitado com flores para o seu grande dia. Antes de o Mastro ser fixado, onde permanece duran-

Em maio de 2014, após 33 anos como Rei da Congada, Dito de Pilaca passou a coroa para Alcedino José da Cruz, o Dino, que assumiu o reinado aos 53 anos. No dia 1º de setembro do ano seguinte, após uma vida de fé e devoção, o eterno “Soberano Rei do Congo” partiu para o descanso eterno.

Outro Rei que marcou história na Congada de Ilhabela foi Neco, os mais antigos contam que era um Rei muito querido. Na foto acima, o então prefeito Roberto Fazzini acompanha o reinado em 1972.


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te todos os dias de comemoração, o Mastro é carregado pelos fiéis pelas ruas da Vila (onde toda Congada é realizada). A procissão desce a escadaria da Igreja Matriz ao repicar dos sinos de Nossa Senhora D’Ájuda e Bonsucesso, da marimba, atabaques e a cantoria dos congueiros, além de muitos fogos. Com o levantamento do Mastro, finalmente é hasteada a bandeira de São Benedito. Assim que o Mastro é fixado e a bandeira hasteada, começa um momento único na Congada de Ilhabela. É neste momento que, com as mãos no Mastro, os devotos agradecem as bençãos recebidas ao longo do ano, fazem suas preces e promessas a São Benedito. Logo após acontece a apresentação da Congada Mirim, seguida pela distribuição do Bolo de São Benedito. No sábado e no domingo, acontecem os “bailes de congos” e, por volta do meio-dia, é realizada a

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Ucharia, lugar onde é servido o almoço aos congueiros e seus convidados. Os bailes são divididos em três etapas. O primeiro é o “Roldão” ou “Macamba” e trata-se de uma cantiga dos congos de baixo no momento em que vão guerrear. O segundo é “Alvoroço”, “Jardim das flores” ou “Baile Grande”, onde ocorre uma guerra violenta. O terceiro baile é o “São Matheus”, onde o embaixador é preso duas vezes. A guerra acontece porque os congueiros do embaixador lutam para que ele, filho bastardo do rei, conquiste o trono. Depois de o Embaixador entrar no Reino de Congo, o Rei o aceita como seu filho, lhe dá a bênção em língua africana banto e todos os congos celebram São Benedito em paz. Antigamente, a representação tinha data certa para acontecer: 3 de abril. Posteriormente, passou a

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acontecer em maio, época de lua cheia, quando os pescadores não saiam para pescar, podendo então participar da festa. Atualmente a festa acontece no terceiro final de semana de maio, reunindo centenas de pessoas nas ruas da Vila. Os festejos contam ainda com a Procissão de São Benedito, Missa dos Congos, exposições, palestras, quermesses e shows musicais. História São poucos os registros que falam sobre o início do festejo, mas, segundo a arqueóloga e historiadora, Cinthia Bendazzoli, “documentos antigos ainda preservados no Arquivo do Estado de São Paulo relatam a realização de Baile dos Congos em festividades locais oficiais em 1794”. Apesar desses registros oficiais, nove anos antes a Congada de São Benedito já acontecia em Ilhabela. A origem dessa importante ma-

Mastro

de São Benedito

nifestação folclórica está totalmente ligada à chegada dos escravos a bordo dos navios negreiros. Em Ilhabela, o responsável pela disseminação da tradição foi o escravo Roldão Antônio de Jesus que, em 1785, desembarcou na praia dos Castelhanos e foi vendido para a Fazenda de São Mathias. Muito devoto de São Benedito, Roldão difundiu suas crenças entre os demais. Nascia uma das mais importantes manifestações culturais, que sobreviveu há séculos. Até hoje todos os participantes da Congada consideram-se escravos, devotos fiéis do Santo, fazendo promessas e mantendo a tradição. A devoção é tanta que a Congada nunca se apresenta em outra ocasião ou local, a não ser na festa de homenagem ao santo negro. As primeiras manifestações da Congada de Ilhabela eram de responsabilidade total da família de Be-

Bolo

de São Benedito

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nedita Esperança, também escrava da Fazenda São Mathias, localizada no bairro da Cocaia. Posteriormente essa família organizou a Confraria de São Benedito, mais tarde extinta pelas autoridades religiosas em meados da década de 1940 que proibiram a entrada dos congueiros na Igreja Matriz. Semana da Cultura É comum no litoral brasileiro, devido à influência do turismo e da migração, as tradições culturais perderem sua força com o passar dos anos. Com o intuito de realizar um trabalho de resgate, a então prefeita Nilce Signorini instituiu, no ano 2000, a Semana da Cultura Caiçara. A iniciativa foi uma das principais ferramentas que ajudou a preservar a tradição da Congada de São Benedito, o que também possibilitou à comunidade voltar às suas origens e manter viva essa tradição.

Ucharia

de São Benedito

O Bolo de São Benedito é uma tradição recente, mas já incrustada na Congada. Segundo conta Rosangela Lacativa Pinna, em meados de 1998 haviam poucas crianças na Congada.

O levantamento do Mastro marca o início dos festejos. A incumbência é da família Leite da Silva e a responsabilidade é do Capitão do Mastro, Luciano dos Santos Souza. Para a preparação, o Capitão do Mastro conta com o auxílio dos devotos, normalmente seus amigos próximos e familiares. Antigamente, o levantamento do Mastro era realizado nove dias antes da festa, pois também marcava o início da novena do Santo. Hoje ele é levantado no 1º dia da festa. O Mastro de madeira lavrada na mata é pintado de branco, azul e vermelho, sendo que o desenho obedece a padrões antigos, pois como dizia o fi-

nado capitão Hilarião: “desde o começo do mundo é assim”. No dia do levantamento, o Mastro é enfeitado com flores naturais, “ofertas feitas ao glorioso santo” e sob um foguetório intenso, às 17h. Ao som da marimba, dos atabaques e do repicar dos sinos, congueiros e devotos saem em procissão festiva pelas ruas da Vila com o Mastro nos ombros. Uma criança da família do Capitão do Mastro leva a Bandeira de São Benedito. Ao chegar ao Cruzeiro, em frente a Igreja Matriz, o Mastro é levantado, a bandeira do Benedito Santo é hasteada e todos gritam “Viva São Benedito!”

“Eu e a Gilmara [cunhada] estávamos na Meia Lua e a gente viu que tinha pouca criança. Não tinha muita gente naquele ano. E então eu perguntei o que a gente poderia fazer para agradar e atrair mais gente. A Gilmara começou a rir, e eu disse assim: eu só sei fazer bolo!” E foi assim que as comadres se uniram para fazer o primeiro Bolo de São Benedito. Motivadas pela atitude e pelo sucesso da iniciativa de Rosangela e Gilmara Pinna, nos anos seguintes, as mães dos congueiros começaram a colaborar e foi criada a tradição do bolo, que é distribuído logo após a apresentação da Congada Mirim na sexta-feira.

O aroma da lenha queimando da o tom à despensa da casa real. É nesse contexto que acontece a Ucharia de São Benedito, uma manifestação da Congada, que transcende a cultura caiçara atingindo todos os níveis sociais da cidade. Originalmente, o termo Ucharia é proveniente da cultura europeia e diz respeito ao local onde são armazenados os mantimentos da casa real. Na Congada de São Benedito em Ilhabela, a Ucharia se traduz como o espaço organizado para o preparo, serviço e

degustação dos alimentos pelos congueiros, suas famílias, ou qualquer outro que queira vivenciar a festa em todos os seus sentidos, mantendo a postura do santo homenageado de sempre compartilhar o alimento com quem tem necessidade. As refeições são servidas no jantar de sexta-feira, após o levantamento do mastro; e no almoço do sábado e do domingo, após os bailes da manhã. Primeiro comem as crianças, o rei Congo, os congueiros e os mais velhos; depois, os parentes e os convidados dos devotos.


06 | Especial

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Em noite de festa caiçara, vereadores homenageiam personalidades de Ilhabela

Jeferson dos Santos Viana, professor de Jiu-Jitsu e Muay Thai, foi reconhecido pelo trabalho desenvolvido através do esporte com os jovens do município.

No mês da cultura caiçara, os vereadores de Ilhabela homenagearam personalidades do município que prestam relevantes serviços em suas áreas de atuação, contribuindo para a conservação das tradições e desenvolvimento da cidade. Os certificados de reconhecimento público foram entregues na sessão Ordinária de terça-feira (8/5), conforme previsto pela Lei 999/2013. O vereador Gabriel Rocha (SD) destacou o trabalho do artista e embaixador cultural da cidade, Gilmar Pinna. Conhecido internacionalmente, ele leva o nome de Ilhabela para diversos países. O reconhecimento foi entregue ao seu irmão Geraldo Pinna que justificou sua ausência “Ele não está aqui presente porque está fazendo o maior monumento da história desse país, Nossa Senhora Aparecida, de 50 metros. Mas, entre todas as homenagens que já recebeu, essa de nos-

sa terra natal é a que mais enche de alegria”, enfatizou. Também indicação do vereador Gabriel Rocha (SD), o ex-prefeito de Ilhabela Roberto Fazzini, esteve entre os homenageados da noite. Em seu nome, receberam o certificado as suas sobrinhas Maria Inez e Maria Emília Fazzini. O ex-chefe do Executivo exerceu mandatos em 1972 e mais tarde em 1992. Nessas oportunidades ajudou a viabilizar a abertura da Estrada dos Castelhanos; a instalação do cabo submarino, trazendo energia elétrica ao arquipélago e a conquista dos royalties do petróleo para o arquipélago. “Seu Roberto Fazzini foi escola para muito político. Sei muito da história desse honroso cidadão ilhabelense, merecedor deste título”, destacou o parlamentar. Jeferson dos Santos Viana, professor de Jiu-Jitsu e Muay Thai, também foi reconheci-

O vereador Gabriel Rocha destacou o trabalho do artista e embaixador cultural da cidade, Gilmar Pinna. A homenagem foi recebida por Geraldo Pinna, irmão do artista.

do pelo vereador Gabriel (SD) pelo trabalho desenvolvido através do esporte com os jovens do município. Com uma equipe formada há mais de nove anos revelou atletas campeões a nível mundial, brasileiro, estadual e regional. Atualmente faz parte de uma das maiores equipes de Jiu-Jitsu do Brasil e do mundo, a GF Team (Grappling Fight Team). O vereador Evandro Alves Rodrigues, o Vando da Vila (PP), fez a entrega do certificado ao artista plástico Sebastião Vicente de Andrade. Tião, como é conhecido, foi carnavalesco fundador do Grêmio Recreativo Carnavalesco Escola de Samba Unidos do Garrafão, esteve por 13 anos na escola Unidos de Padre Anchieta, por três na Mocidade Sul da Ilha e por 10 anos na escola Água na Boca. “Ele é um grande profissional reconhecido na cidade pelo trabalho que fez em todas as escolas de samba que passou. Eu

sendo caiçara me sinto muito feliz podendo estar aqui hoje entregando essa singela homenagem”, salientou o parlamentar. Vando da Vila (PP) ainda indicou o reconhecimento ao diretor das comunidades tradicionais de Ilhabela, Benedito de Oliveira Dória. Segundo o parlamentar, a preocupação de Dito Dória, como é conhecido na cidade, com o futuro da cultura caiçara faz com que exerça um papel fundamental de preservação e resistência deste modo de vida ameaçado pelas constantes transformações cotidianas e culturais. “Essa comemoração quero dividir com todo o povo caiçara”, destacou Dito Dória. Juntamente com seus irmãos Leandro e Gislene Rodrigues, o vereador Vando da Vila recebeu das mãos do vereador Cleison Ataulo Gomes, o Cleison Guarubela (DEM) a homenagem ao seu pai Nelson Rodrigues,

O vereador Anisio Oliveira homenageou Benedito Augusto dos Santos. Contador e servidor público há seis anos, Ditinho já esteve como secretário da Cultura.


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O vereador Luiz Paladino, idealizador do projeto de lei que deu origem às homenagens no mês da cultura caiçara, fez a entrega do certificado à caiçara Elza Gomes Batista Tenório, mãe do prefeito Márcio Tenório.

Angélica de Souza, nascida na Praia Mansa, recebeu o certificado do vereador Marquinhos Guti

O vereador Vando da Vila homenageou o artista plástico Sebastião Vicente de Andrade, carinhosamente conhecido como Tiãozinho.

caiçara que se destaca em campeonatos nas modalidades esportivas Malha e Bocha, trazendo medalhas de ouro para o município. A presidente da Câmara, vereadora Nanci Zanato (PPS), destacou a dedicação da ex-conselheira tutelar, Amélia Rafael de Souza, às crianças e adolescentes de Ilhabela. “Quando nem se pensava em abrigo e Casa da Criança na cidade, ela transformou a casa dela em um local para recebê-los. Sempre que havia algum problema com crianças, os professores, o juiz, sempre direcionavam para ela”. Ainda foram homenageados pela presidente Davi Borges de Souza, Veríssimo de Assunção e Verena Corrêa dos Santos, que receberão em outra ocasião. O vereador Luiz Paladino de Araújo, o Luizinho da Ilha (PSB), idealizador do projeto de lei que deu origem às homenagens no mês da cultura caiçara, fez a entrega do certificado à caiçara Elza Gomes Batista Tenório, mãe do prefeito Márcio Tenório que esteve presente na sessão prestigiando o momento. Natural da Praia da Fome, Dona Elzinha ganhou a simpatia dos presentes compartilhando suas histórias. Luizinho da Ilha (PSB) prestou sua homenagem à

Outro homenageado foi o ex-prefeito de Ilhabela Roberto Fazzini, representado pelas sobrinhas Maria Inez e Maria Emília Fazzini.

Evandro Costa Oliveira. Nascido na Ilha de Búzios, Vandinho Caiçara conheceu a dança de rua ainda na infância e se tornou dançarino profissional. De uma brincadeira com a linguagem do povo caiçara descobriu seu dom para fazer paródias e poesias. Em um canal nas redes sociais dá voz a personagens e divulga a cultura local. “O caiçara é a poesia viva da nossa história. As comemorações esse mês valorizam as nossas raízes e é importante trabalharmos para que essa cultura nunca acabe”, enfatizou o vereador. Vandinho Caiçara declamou um poema de sua autoria e deixou a mensagem do povo tradicional do arquipélago. “Falo a todos os caiçaras do Brasil, do Sul ao Norte, que nós caiçaras somos mais fortes. Hoje estamos mais informados, com muita gente boa do lado que ainda quer nos ajudar a recuperar o que nos foi tirado. Eu ainda estou com o espelho, que reflete dentro do meu peito, não quero devolvê-lo, quero trocar por respeito”, dizia trecho de sua obra. Angélica de Souza, nascida na Praia Mansa, recebeu o certificado do vereador Marquinhos Guti (DEM). Conhecida por sua luta em favor das comunidades tradicionais, lotou

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o plenário com moradores da Baia dos Castelhanos e representantes da sociedade civil. “Ela é uma guerreira caiçara que lutou contra a especulação imobiliária, foi uma das fundadoras da Associação Amor Castelhanos. Por sua representatividade tem cadeira no Conselho do Plano Diretor, no Conselho Municipal do Turismo, além de ser reconhecida pelo Ministério Público Federal”, declarou o parlamentar. “Fico emocionada só de falar do meu povo. Deus que me dá forças para lutar. Aprendi que para vencer os obstáculos da vida você não precisa ter vários diplomas, a gente também aprende na prática. Amo meu povo e viva as comunidades tradicionais”, agradeceu Angélica. O vereador Anisio Oliveira (DEM) homenageou Benedito Augusto dos Santos. Contador e servidor público na Fundação Arte e Cultura de Ilhabela há seis anos, Ditinho já esteve como secretário da Cultura. Fundador da escola de samba Acadêmicos Leões do Ita, tetracampeã do carnaval da cidade, figura entre as personalidades do samba ilhéu. Sucesso há mais de 20 anos, também é o fundador da banda Pronúncia no Olhar, composta por quatro de seus filhos.

A presidente da Câmara, vereadora Nanci Zanato (PPS), destacou a dedicação da ex-conselheira tutelar, Amélia Rafael de Souza

O vereador Luizinho Paladino também prestou sua homenagem à Evandro Costa Oliveira. Nascido na Ilha de Búzios, Vandinho Caiçara

O vereador Cleison Guarubela prestou homenagem ao senhor Nelson Rodrigues, o Nelsinho. A homenagem foi entregue a seus filhos

Vando da Vila também reconheceu o diretor das comunidades tradicionais de Ilhabela, Benedito de Oliveira Dória, o Dito Dória.

Homenagem Caiçara A presidente da Câmara, vereadora Nanci Zanato (PPS), fez a entrega do certificado de reconhecimento público ao senhor Veríssimo de Assunção pelos relevantes serviços prestados à cultura regional, em comemoração ao mês da Cultura Caiçara, estabelecido em maio. Casado com Maria Aparecida Jacinto de Assunção, recebeu a homenagem ao lado de sua esposa com quem teve dois filhos: o vereador Prof. Valdir Veríssimo de Assunção (PPS) e Valmir Marcos de Assunção. Com apenas sete anos passou a trabalhar com o pai na roça. Aos dezenove iniciou o trabalho na pesca, atividade que exerceu por pouco tempo até ser aposentado por invalidez por problemas de coração.


Tribuna do Povo - Edição 198  

Especial Semana da Cultura Caiçara

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