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DROGAS NO CAMPO

OVOS

ENTREVISTA

Zona rural não resiste e também é invadida pelas drogas

Atividade é destaque na agropecuária em Santa Maria de Jetibá

Maria Izabel Vieira Botelho, economista e especialista em Sociologia Rural

Ano III - nº 10 Jun/Jul/Ago - 2011

p ro d u z i n d o i n fo r m a ç ã o

Turismo rural e cultural

Seu Amadeo e Dona Aladia moram em Demétrio Ribeiro e preservam força cultural e histórica dos imigrantes que habitaram o local junho 2011 - CAMPO VIVO  1


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Índice

O CAMPO NÃO RESISTIU Zona rural observa rápido crescimento no uso de drogas entre trabalhadores e moradores do campo

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ENTREVISTA ESPECIAL - Maria Izabel V. Botelho Economista e especialista em Sociologia Rural aborda o encolhimento da população rural do país

14 MUDANÇAS NO LEITE Pecuaristas terão que melhorar condições higiênicas para atender exigência

16 OVOS

Santa Maria de Jetibá é destaque nacional na avicultura de postura.

19

GOLPE NO CAMPO

Produtores capixabas são vítimas de falsos fiscais

26

CÓDIGO FLORESTAL APROVADO

MAPEANDO NOSSA AGRICULTURA

Relatório é aprovado na Câmara. Saiba o que diz o texto e como votaram os parlamentares capixabas

Até novembro, todas as propriedades rurais do país terão que realizar georreferenciamento

28 30

TURISMO

Demétrio Ribeiro ainda preserva força cultural e histórica dos imigrantes que habitaram suas terras

5 - Cartas 6 - Notas 9 - Online 33 - Opinião / Enio Bergoli 34 - Frases 35 - Artigo / Wolmar Loss 36 - Receita 38 - Crônica / Antonio Bezerra Neto junho 2011 - CAMPO VIVO  3


Editorial DROGAS Ex-usuário, hoje Marleisson ajuda na recuperação de dependentes

O campo em perigo O rural está perdendo um pouco do seu brilho. Sim, os índices de produtividade crescem a cada dia em diversas atividades agrícolas. Novas tecnologias e acesso a informações estão proporcionando melhorias na produção no campo. Mas com a mesma velocidade que o avanço tecnológico chega ao interior, as drogas também estão tomando conta de comunidades rurais e preocupando famílias. Nesta edição da Campo Vivo, abordamos esse tema. O relato de um jovem, ex-usuário de drogas, mostra como os traficantes estão agindo no interior, abastecendo locais com dias definidos. Na colheita do café, o movimento de dinheiro atrai os vendedores. As drogas que invadiram a cidade, agora chegam ao campo com o mesmo poder de destruição. Autoridades e projetos sociais tentam frear esse avanço. A matéria principal desta edição não foi ilustrada na capa porque preferimos mostrar a beleza do campo. O casal da capa representa a história e a cultura preservadas em Demétrio Ribeiro, João Neiva. O turismo rural começa a nascer na região. Uma entrevista especial com a especialista em sociologia rural, Maria Izabel Botelho, esclarece algumas questões sobre o encolhimento da população rural brasileira, demonstrada em

recente levantamento realizado pelo IBGE. As causas, as conseqüências e o que precisa ser feito para tentar mudar essa situação são temas abordados nessa entrevista. Em Santa Maria de Jetibá, região serrana capixaba, conhecemos o município que preserva suas tradições e tem na agricultura a força da economia. O segundo maior produtor nacional de ovos une a força cooperativa com o empreendedorismo de grandes produtores para manter a posição de destaque na avicultura de postura. Nesta edição você ainda pode conferir como funciona o georreferenciamento, sistema de levantamento topográfico de imóveis rurais que está sendo exigido para regularização cadastral das propriedades; os novos parâmetros de qualidade do leite que entram em vigor, vamos saber o que muda para os pecuaristas; e o que foi aprovado no Novo Código Florestal Brasileiro. Completando com brilhantismo em cada edição, os artigos de Wolmar Loss e Enio Bergoli, e a crônica de Antonio Bezerra Neto, sempre com temas e textos que fazem jus a qualidade dos escritores. A informação está produzida, colha o conhecimento. Boa leitura! Franco Fiorot francofiorot@campovivo.com.br

EXPEDIENTE Editor e diretor responsável: Franco Fiorot - 2603/ES Diretor comercial e administrativo: José Carlos Fiorot Colunistas e colaboradores: Wolmar Roque Loss, Antonio Bezerra Neto e Enio Bergoli da Costa Diagramação: Caio Francisco Fiorot Departamento Comercial Gilson Palauro (9964-5241) Gilmar Palauro (9919-3376) (27) 3371-2540 publicidade@campovivo.com.br

Revista Campo Vivo é uma publicação mensal da Campo Vivo Comunicações Ltda. Redação e administração: Avenida Augusto Calmon, 1144, Sala 202, Centro, Linhares - ES - CEP: 29.900-064 Fone: (27) 3371-2540 contato@campovivo.com.br Campo Vivo não se responsabiliza por conceitos emitidos nos artigos assinados

ASSINE A REVISTA CAMPO VIVO: www.campovivo.com.br/assineaqui RÁDIO GLOBO LINHARES Programa Campo Vivo: Segunda a sexta, das 17h45 às 18h Boletim Rural, às 07h20

870 AM www.globolinhares.com.br


Cartas retrato rural

galinheiro

Fiquei intrigada com a foto do retrato rural da edição 09 da revista Campo Vivo. Mas a foto ficou muito boa. Interessante. Os elementos retratam bem o cenário rural.

Ouço falar no galinheiro móvel freqüentemente em minha região. Parabéns aos idealizadores. A revista explicou bem sobre o projeto. A inovação é necessária para o campo.

Vanessa, por e-mail

Marina Souza, por e-mail

Que bom ver algumas pessoas tentando salvar lavouras de cacau porque é referência do nosso municipio, por mais que exista outros tipos de lavoura, mas o cacau é imponente. É muito triste entrar numa roça de cacau e ver a vassoura de bruxa destruindo tudo. Hoje moro em Vitória, trabalho com música, mas meu pai ainda trabalha em Linhares e, e muito bom ver uma lavoura de cacau carregada. Cacau significa vida em abundância...

Excelente matéria sobre a fazenda Modena. Serve de base para quem quer mudar a mentalidade e a forma de produzir café. Cada produtor pode mudar sua forma de trabalhar aos poucos. O resultado vai aparecendo.

cacau

modelo café

Francisco Chagas, por e-mail

ESCREVA PARA REDAÇÃO Envie seus comentários e opiniões sobre as reportagens publicadas para: Campo Vivo - Av. Augusto Calmon, 1144 - Sala 202 - CEP: 29.900-064, Linhares, ES revista@campovivo.com.br

retrato rural

Jeffinhoguita, pelo YouTube, comentando vídeo sobre cacauicultura

procedência das mudas Correta a análise do presidente da Asplames (Entrevista, ed. 09) sobre a importância da boa procedência das mudas para avanço do setor. Não só no setor de mudas, mas nos outros também da agricultura, a tendência é conhecer a procedência e garantir a qualidade do produto. O consumidor está ficando atento para isso e quem produz deve seguir esse caminho. Cristiano Reis

Irrigando o futuro

junho 2011 - CAMPO VIVO  5


Notas NEGÓCIOS

Coca-Cola vai investir no coco

A GranExpoES, a maior feira rural do Espírito Santo e uma das maiores do país, terá a participação neste ano de mais de 350 empresas expositoras. Entre os expositores, estarão produtores de várias partes do Brasil, agroindústrias e fornecedores de insumos e serviços incluindo as diversas cadeias produtivas, como pecuária, aquicultura, floricultura, cafeicultura e apicultura. A expectativa da organização do evento é que, de 10 a 15 de agosto, a feira movimente cerca de R$ 45 milhões em negócios e receba um público superior a 100 mil pessoas. Desse total, aproximadamente 20 mil são crianças e adolescentes em visitas dirigidas.

A água de coco é um dos objetos de desejo do Sabb/Coca Cola e deverá estar na lista de produtos da fábrica nos próximos dois anos. Um dos investimentos futuros da empresa será direcionado para o produto. Há a possibilidade, no futuro, de utilização da água de coco com mix de frutas. Mas o projeto inicial é o envasamento da água pura.

Seag/ES

GranExpoES 2011

CAFEICULTURA

Sala de degustação de café em Mantenopolis Destaque na produção de café arábica no Estado, o município de Mantenópolis inaugurou, no dia 13 de maio, uma sala de classificação e degustação de café. A iniciativa pretende aprimorar o trabalho voltado à qualidade do grão no município. O espaço possui um profissional de degustação para avaliar e emitir laudo a cerca da qualidade da bebida.

ALTERNATIVA

Caju pode ser a saída para crise agrícola em Pedro Canário Entre as alternativas em discussão para solucionar a crise no distrito de cristal do Norte, em Pedro Canário, está a implantação da cultura de caju, que seria uma forma de diversificar a produção e oferecer matéria prima para as indústrias de processamento de polpa e suco. A fruta encontraria boas condições para ser cultivada na região, além de haver mercado não só para a polpa como também para a castanha O fechamento de uma usina sucroalcoleira e a praga nematóide que atingiu boa parte das lavouras de goiaba da região levaram muitos agricultores da região a enfrentarem graves problemas econômicos e sociais.

6  CAMPO VIVO - junho 2011

FERTIRRIGAÇÃO

Da cafeicultura irrigada para a fertirrigada Um artigo publicado pelo Doutor em Fisiologia Pós-colheita, Ricardo Rodrigues Teixeira, destacou a importância da fertirrigação para a cafeicultura. De acordo com o documento, em conjunto com outras tecnologias, a irrigação proporcionou aumentos significativos de produtividade no café, superando 70 sacas beneficiadas por hectare, que equivale a 3,89 vezes a média nacional. Apesar de destacar a importância da utilização da irrigação para a cafeicultura, Teixeira destaca a necessidade de outros avanços, como o manejo do uso da água para que a atividade tenha sustentabilidade. O também consultor nas áreas de nutrição e fisiologia vegetal destaca que com o manejo correto da água na irrigação é possível utilizar a mesma como veículo para aplicação de uma série de produtos, sejam eles de origem química ou biológica. De acordo com o artigo, para que a

cafeicultura brasileira passe de irrigada para fertirrigada, e que isso gere mais rentabilidade e competitividade para o setor, é necessário pesquisa; formação de profissionais que estejam aptos a recomendar e aplicar as recomendações corretamente, já que a fertilização em áreas de irrigação localizada é diferente das de sequeiro; interação entre os profissionais das áreas de irrigação, nutrição e fisiologia vegetal; e utilização de informações e conhecimentos práticos de outros segmentos que utilizam fertirrigação no país, como fruticultura, floricultura e olericultura.


MAMÃO

HEVEICULTURA

Brapex abre campo de atuação para setor produtivo

O Espírito Santo realizará o seu VII Simpósio Capixaba de Seringueira e I Fórum Interestadual nos dias 11 e 12 de Agosto, no Centro de Eventos de Carapina, na Serra. O objetivo do evento é promover uma ampla discussão sobre a realidade e as perspectivas do setor heveicultor estadual e brasileiro, abordando temas relacionados a realidade do produtor de borracha capixaba. As inscrições são limitadas ao número de vagas. Para se inscrever, acesse o site: http://www.cedagro.org.br/borracha2011

Seag/ES

VII Simpósio Capixaba de Seringueira

Preocupada com o futuro do setor, a Associação Brasileira de Exportadores de Papaya (Brapex) está tentando melhorias para a classe produtiva e a intenção agora é fazer um diagnóstico detalhado do setor e agregar mais associados. A associação, que foi criada por empresas exportadoras de papaya, pretende abrir sua atuação para os produtores de mamão com o intuito de unir todos os elos interessados nesse trabalho de fortalecimento. A intenção é rediscutir o setor e criar estudos aprofundados sobre a cadeia produtiva para que se possa levar a produção aos antigos patamares.

ARTE E HISTÓRIA

Festival Internacional de Conilon Estimulando a produção cultural e valorizando a história capixaba, será realizado nos próximos meses um ciclo de concursos e exposições que vai mostrar a importância do café para o Espírito Santo. Durante quatro meses, o Festival vai percorrer quatro municípios e, em cada um, mostrará, através

de textos, fotos, documentos e exposições artísticas, como o café ajudou no desenvolvimento econômico e cultural. Nesse período, acontecerá um concurso de fotografia. Em outubro, um grande evento de encerramento do festival reunirá várias atrações, como feira com empresas do

setor, desafio de baristas, workshop, final do concurso do melhor café conilon e palestras e debates sobre cafeicultura. As melhores fotografias do concurso realizado irão compor um livro sobre o café conilon capixaba. A realização é da Conilon Brasil e Espírito Cultura e Entretenimento.

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Notas Divulgação

CAFÉ & PROSA

PECUÁRIA RODRIGO MARTINS Em entrevista à Revista Campo Vivo, o sócio-diretor da UGPB, empresa exportadora de mamão, Rodrigo Martins, explica a escolha do uso de embalagens desenhadas pelo artista reconhecido internacionalmente, Romero Britto, que começaram a circular no final de 2010.

Qual o motivo da escolha do uso de embalagens com desenhos do artista? Como nosso objetivo principal era inovar especificamente no mercado Americano, resolvemos atrair o consumidor com um produto diferente e que chamasse a atenção, tendo como tema a aliança entre saúde e arte. Veio a idéia do artista plástico Romero Britto, pois sabemos que suas obras são muito valorizadas nos EUA. Quais os resultados alcançados até agora com a utilização destas embalagens? Não só nos USA, mas conseguimos também atrair outros mercados como a Alemanha. Todos estão gostando muito da

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idéia e estamos fazendo um trabalho forte de divulgação e venda para toda a Europa também. O próximo passo será investir no mercado nacional, mas escolhendo algumas redes específicas que possam trabalhar bem o produto. De que forma as embalagens repercutiram no mercado? Quando colocamos para o mercado este trabalho com frutas o retorno foi bem positivo, pois despertam o interesse do consumidor que muitas vezes compram até para ter uma pequena obra de arte em sua casa. A idéia foi excelente e os negócios têm aumentado a cada mês.

Veneza inaugura Fazenda Experimental em Nova Venécia A Cooperativa Veneza inaugurou, em Nova Venécia, no dia 30 de abril, a FAEVE (Fazenda Experimental Veneza). O evento ocorreu durante a festa de comemoração dos 58 anos da entidade. A área, que pertence à cooperativa Veneza, tem objetivo pedagógico, onde os cooperados poderão participar de cursos e de atividades práticas. Futuramente, serão construídos alojamentos, auditórios e salas de aula na Fazenda.


Online

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AS MAIS LIDAS MARÇO 1. Produtores têm que parar de ‘jogar’ água na lavoura, diz especialista - 22/3/2011 2. Fazendeiro morre eletrocutado no interior de Jaguaré - 14/3/2011 3. Setor cacaueiro quer reunião com governador - 17/3/2011

ABRIL 1. II Seminário de Qualidade do Café Conilon em Colatina - 18/4/2011 2. Dia de Campo destaca melhoramento genético na pecuária capixaba - 13/4/2011 3. Governo fecha acordo sobre Código Florestal - 16/4/2011

MAIO 1. II Seminário de Qualidade do Café Conilon em Colatina - 18/4/2011 2. Dia de Campo destaca melhoramento genético na pecuária capixaba - 13/4/2011 3. Governo fecha acordo sobre Código Florestal - 16/4/2011

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Cobertura Código Florestal Durantes os dias que o relatório do novo Código Florestal Brasileiro foi discutido na Câmara dos Deputados, o Portal Campo Vivo realizou cobertura, em tempo real, de toda movimentação no parlamento sobre o debate. Alguns leitores participaram, opinando sobre o tema: “Parabéns a equipe Campo Vivo Comunicações pela cobertura da votação. O Brasil ainda não se deu conta da importância de atualização desta legislação que não protelar mais do que o temido 11/06. A produção de alimentos, de água e de nossas florestas agradecem” Murilo Pedroni, Área Técnica da Federação da Agricultura e Pecuária do Espírito Santo (Faes) “É surpreendente notar que aqui no Estado do Espírito Santo, existe um Plano estratégico da agricultura que prevê um aumento da cobertura florestal dos atuais 11% para 16% até 2025, utilizando para isso sistemas agroflorestais, restauração de áreas com plantios e regeneração natural. Pergunta: Como vamos fazer isso com a isenção da reserva legal, com a redução de APPs em 50%? Só vejo uma forma: Apelar para a mágica!” Fábio Morandi de Morais, M.Sc. Engenheiro Agrônomo, Incaper - Pinheiros/ES “Hoje é um dia histórico para o país, pois com a aprovação do novo código florestal, nossos agricultores terão tranquilidade para trabalhar na legalidade, ganhando o setor produtivo e o meio ambiente. Parabéns ao Campo Vivo pela cobertura” José Roberto, Assessor Técnico da Comissão de Agricultura da Assembleia Legislativa do ES “É preciso manter nossa área de produção. Agricultores sabem que é preciso preservar”. Gustavo Borges, produtor rural, Linhares/ES

ENQUETES O que falta para o produtor rural utilizar a irrigação com mais eficiência, evitando desperdício de água?

Tecnologia

11,11%

40,74%

48,15%

Um pouco

15,38%

Não

Sim

38,46%

46,15%

25/04 a 16/05

Conscientização

21/03 a 03/04

Informação

Você conhece as vantagens de produtos com Indicação Geográfica?

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Entrevista

Maria Izabel Vieira Botelho

“Os espaços rurais só conseguirão assegurar população se tiver atrativos suficientes”

Maria Izabel Vieira Botelho, economista com pósdoutorado em Sociologia do Desenvolvimento Rural, aborda situação preocupante da zona rural brasileira com o encolhimento da população rural do país

R

ecente levantamento divulgado pelo IBGE mostra um problema visível nos últimos anos: a população rural segue em queda no Brasil. Na última década, o processo de encolhimento da população rural continuou como acontece desde os anos 70. O ritmo de crescimento da população urbana entre 2000 e 2010 foi de 1,55% ao ano, enquanto o número de habitantes da zona rural caiu em média 0,65% ao ano no mesmo período. As informações são da Sinopse do Censo Demográfico 2010, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O maior grau de urbanização continua sendo o do Sudeste, com 92,9%, segui-

Campo Vivo - Em sua opinião, o que está motivando esse esvaziamento na zona rural brasileira? Maria Izabel – O Brasil, na atualidade, apresenta uma imensa diversidade dos espaços rurais, decorrente, inicialmente, do processo de industrialização e das mudanças processadas nas formas de produção agrícola, a partir da “modernização da agricultura”, a partir dos anos de 1950. Para entender este esvaziamento 10  CAMPO VIVO - junho 2011

do pelos 88,8% da Região Centro-Oeste. A seguir vem o Sul, com 84,9%; o Norte, com 73,5%; e o Nordeste, com 73,1%. A Revista Campo Vivo abordou a situação preocupante da zona rural brasileira com a economista Maria Izabel Vieira Botelho. Com mestrado pela UNICAMP em Sociologia Rural, doutorado em Sociologia pela UNESP e pós -doutorado em Sociologia do Desenvolvimento Rural pela Universidade de Wageningen (Holanda), Maria Izabel Botelho, atualmente, é professora da Universidade Federal de Viçosa, lecionando Sociologia Rural e Teorias de Campesinato e Sociedade.

é necessário voltar rapidamente na nossa história. Como se sabe, a população rural no Brasil era, em 1950, de 63,8%. Em 1960 era de aproximadamente 54%. Já na década de 1970, a população rural era em torno de 40%. Desde então, pode-se visualizar um constante declínio, mas não tão intenso como naquelas décadas. No último censo realizado pelo IBGE, pôde-se saber que a população rural é atualmente em torno de 16%. Como já estudado por

diversos pesquisadores da área, este expressivo êxodo rural tem como uma de suas causas, a intensa modificação da agricultura, que passa a se utilizar de diversos insumos industrializados, com a introdução máquinas e de com a adoção de procedimentos com uma paulatina diminuição dos postos de trabalho no campo. Ao mesmo tempo, visualiza-se, em algumas regiões, também um processo de aumento da concentração fundiária,


denominado por José Graziano da Silva como “fagocitose”, quando as pequenas propriedades são engolidas pelas maiores, que foram, principalmente, as que introduziram alterações na produção agrícola. Vale ressaltar que na década de 1960 a região que apresenta o maior êxodo rural é a Sudeste, decorrente de modificações na base técnica produtiva da agricultura. Isto ocorre especialmente no estado de São Paulo, onde a erradicação dos cafezais e substituição por pastagens liberou enorme contingente de trabalhadores, que viviam dentro das fazendas de café, nas colônias. Os dois processos, máquinas substituindo trabalhadores e concentração fundiária, resultaram numa expulsão maciça da população rural. Naquelas regiões em que este processo de mudança do modelo agrícola não foi tão intenso, como a região Nordeste, também ocorre uma intensa emigração, direcionada principalmente aos grandes centros urbanos do Sudeste, mas também direcionada à região Norte, com a criação dos projetos de colonização, como parte de uma política de ocupação do governo militar do período. Também não se pode esquecer, que a construção da cidade de Brasília também atraiu um montante bastante expressivo de pessoas de várias regiões do Brasil, mas principalmente do Nordeste. Desta forma, percebe-se que tanto as regiões que passam por uma profunda modificação do sistema produtivo agrícola, como ocorreu em parte da região Sudeste, expulsam população, como aquelas em que a economia não apresenta um dinamismo acentuado, como o Nordeste, mas que tem também um sistema produtivo centrado em extensas propriedades, delineando uma estrutura fundiária de imensa concentração. Também a migração em direção aos centros urbanos pode ser resultado de desejos pessoais e familiares de experimentar um novo modo de vida, fornecido pelos espaços urbanos, onde, imagina-se, o acesso aos serviços de saúde, de educação, etc., propiciaria melhores condições de vida e de trabalho. Entretanto, é ilusório imaginar que a desruralizacão significa acesso às condições mínimas próprias da vida urbana. O que se vê por todo o país, em diferentes cidades, são cidades que tiveram aumento exorbitante de população sem ter as condições necessárias para a ab-

sorção de todos aqueles que chegam. Em geral, o destino destes novos moradores urbanos, provenientes de zonas rurais, é moradia precária, o trabalho temporário de baixa qualificação profissional, etc. Campo Vivo - O aumento no grau de urbanização nos últimos anos é devido ao próprio crescimento vegetativo dessas áreas, resultado de migrações passadas, ou continua o êxodo rural ainda hoje? Maria Izabel – As análises que estão sendo realizadas pelos pesquisadores, principalmente com os novos dados do último censo, apontam para os dois processos, tanto este grau de urbanização é resultado do crescimento vegetativo nos espaços urbanos, quanto de contínuas saídas em direção aos centros urbanos. Algumas regiões, como Sudeste e Sul, percebe-se uma visível diminuição do fluxo rural/urbano. Entretanto, a região Nordeste ainda continua sendo aquela de

“Não se pode criar a ilusão que o êxodo rural irá melhorar as condições daqueles que o experimentam“ maior êxodo rural. Chama a atenção também a diminuição da média de idade daqueles que deixam as zonas rurais. Aqueles que migram são cada vez mais jovens e com forte predomínio das mulheres. Campo Vivo - Quais as principais conseqüências dessa queda na população rural brasileira? Maria Izabel - Pode-se pensar em muitas conseqüências. Uma delas seria um esvaziamento das zonas rurais, que por si não seria problemático. Porém, o lugar de destino destas populações é que parece delinear um quadro bastante precário. Sabe-se que as cidades não têm como incorporar minimamente todos aqueles que chegam. Em geral, o perfil profissional daqueles que deixam as zonas rurais em direção aos centros urbanos não se adéqua às novas demandas de trabalho urbano, que também vêm passando, nas últimas

décadas, por inúmeras transformações exigindo trabalhadores com diferentes qualificações nem sempre presentes entre os migrantes. Penso também que a manutenção da população nas zonas rurais além de desafogar os espaços urbanos poderia significar a melhoria da produção de alimentos para os que lá vivem, mas também para os vivem nas cidades. Entretanto, como o perfil dos que migram é cada vez mais jovem, os espaços rurais só conseguirão reter população se tiver atrativos suficientes para a permanência, como possibilidades de geração de renda, boas condições de educação, de saúde, de comunicação, etc. Campo Vivo - As facilidades oferecidas pela cidade estão atraindo os jovens do campo? Maria Izabel - Sim, mas obviamente nem todos os jovens migrantes encontram nas cidades aquilo que buscavam, ou que imaginavam acessar nos centros urbanos. Quando fiz a minha dissertação de mestrado, entrevistei uma senhora idosa, filha de sitiantes, que à época tinha 82 anos. Ela me disse que seus pais incentivaram muito a sua migração para a cidade de São Paulo, pois para eles a vida no campo era muito dura e não propícia a uma moça com tantas possibilidades. Eles não a queriam com as mãos calejadas. Durante a entrevista ela me mostrou as mãos e me disse: de fato, minhas mãos são de seda, mas meu coração se tornou pedra, porque a vida na cidade não era exatamente como nós imaginávamos. Perdi meus amigos, o contato diário com a minha família, tudo que o que me fazia bem e pertencendo a um lugar. Quais são hoje, efetivamente, as reais chances que têm os jovens que saem do campo em cidades? Este sentido de pertencimento poderia ser substituído por boas oportunidades oferecidas pelas cidades? É difícil responder, mas não se pode criar a ilusão que o êxodo rural irá melhorar as condições daqueles que o experimentam, principalmente para a grande maioria dos que migram, quase sempre aqueles de menor qualificação profissional, menor poder aquisitivo, que muitas vezes já partem assumindo dívidas para custear as saídas. Campo Vivo - Atualmente, podemos observar a perda de alguns valores, do junho 2011 - CAMPO VIVO  11


Maria Izabel – Vale ressaltar que alguns estudiosos sobre migração ou ruralidades são explícitos em afirmar que a idéia de fixação do homem no campo é bastante conservadora e que dificilmente a popu“Se no campo os direitos básicos de cidadania lação jovem que é a são limitados, estes grupos sociais também não os encontrarão nas cidades” que mais tem saído das zonas rurais, divínculo pela terra, dos jovens do cam- ficilmente encontrará aquilo que buscam po. O que está ocasionando isso? nas cidades. Pode-se incluir nesta atração Maria Izabel - Como existem no Brasil inclusive o acesso a outras formas de ladiferentes modalidades de agricultura zer, disponíveis apenas nos meios urbae, portanto, diferentes compreensões do nos. Meu entendimento sobre o êxodo ruque seja a terra e do uso que é feito dela, ral e de todos os problemas vivenciados não sei se de fato ocorre a perda deste principalmente pelos migrantes de menor valor, do vínculo com a terra. Para alguns poder aquisitivo é que se no campo os digrupos sociais que lidam diretamente reitos básicos de cidadania são limitados, com o cultivo, com a organização e com estes grupos sociais também não os eno controle da produção, a terra pode ter contrarão nas cidades. um significado bastante diferente daqueles agricultores que detêm o controle da Campo Vivo - E para atrair famílias produção, como proprietários, arrendatá- urbanas para o campo, existe essa posrios, mas a terra é apenas fator de produ- sibilidade? O que deve ser feito? ção. Para os primeiros, a terra é o local Maria Izabel - Não saberia dizer se é de moradia, de produção, de constituição possível este movimento contrário, ou de laços familiares, de vizinhança, mas seja, o êxodo urbano. O que eu tenho também o espaço de conflitos e de nego- percebido, nos últimos anos, em pesquiciações, enfim local de realização de toda sas que tenho realizado ou em estudos de a família, e dos seus valores. Assim, a outros pesquisadores é que alguns estiterra seria, nos dizeres de Beatriz Here- los de agricultura podem ajudar a fixar dia, morada da vida. Para os segundos, o e mesmo atrair a população que migrou investimento do seu capital naquela ativi- em décadas anteriores. Por exemplo, na dade poderia se dar em qualquer outro se- Zona da Mata mineira, que já foi uma retor produtivo. Por exemplo, na Argentina gião de expressivo êxodo rural, começa já se faz agricultura sem agricultores, a ocorrer um leve movimento contrário pois todo o processo produtivo é através em algumas áreas, principalmente nada contratação de empresas terceirizadas queles municípios que têm modificado que atuam em diferentes ramos produti- os sistemas de cultivo do café, fazendo a vos. Assim, a terra tem um significado transição para a agroecologia. Nesta rebastante diferenciado entre os diversos gião predominam pequenas propriedades tipos de produtores. e que no momento de divisão da herança alguns filhos eram obrigados a sair, pois Campo Vivo - O que precisa ser feito a terra não era suficiente para garantir para segurar as famílias que ainda per- a reprodução de todos os membros do manecem no campo? grupo doméstico. Pesquisas recentes em

algumas localidades, e que ainda precisam ser ampliadas para visualizarmos a dimensão deste processo, têm apontado para o retorno de famílias que migraram nas décadas passadas; algumas conseguiram comprar pequenas parcelas de terra e outras têm voltado para aquelas áreas que haviam sido consideradas insuficientes e agora nelas estão introduzindo manejos agroecológicos. Isto tem garantido a produção do café, diminuído seus custos, pois passam a utilizar minimamente insumos externos e aumentado a diversificação da produção, com a introdução de sistemas agroflorestais, os quais passam a produzir novos bens agrícolas, tanto para o consumo imediato, quanto para a comercialização. É interessante observar que nestas localidades de experiências agroecológicas a presença dos jovens é realmente surpreendente. Outro fator também perceptível em várias regiões do país é o retorno de população que migrou sazonalmente, ou mesmo por 20, 30 anos consecutivos, e com uma aposentadoria podem voltar a viver em áreas que haviam deixado para trás. Nestas áreas voltam também a produzir em pequenas quantidades, mas o suficiente para suprir parte do consumo doméstico. Esta me parece ser também uma perspectiva bastante interessante para parte da população. Campo Vivo – As políticas públicas federal, estadual e municipal estão sendo suficientes para tentar reverter essa situação? Maria Izabel - De maneira alguma. Penso que muitas medidas precisam ser tomadas para melhorar as condições de vida da zona rural. Entretanto, isto começou a mudar nos últimos anos, mas ainda de maneira muito tímida. Não se pode negar, ao mesmo tempo, o enorme montante de recursos públicos que já foram destinados principalmente para a agricultura voltada essencialmente para a exportação, o agronegócio. E o mais contraditório disto é que estes incentivos promoveram e vem promovendo novos

“De fato, minhas mãos são de seda, mas meu coração se tornou pedra, porque a vida na cidade não era exatamente como nós imaginávamos – relato de uma senhora que deixou o campo” 12  CAMPO VIVO - junho 2011


êxodos rurais. Um exemplo recente é a ocupação da produção de soja na região amazônica que tem sido atualmente uma das regiões que mais tem perdido população. Quando falo em políticas públicas e incentivos para o meio rural tenho em mente outros tipos de agricultores. Sem incentivos específicos direcionados a estes agricultores, provavelmente as áreas rurais irão desertificar, e os problemas urbanos crescerão de forma assustadora. Durante a minha pesquisa de campo para a realização do meu doutorado, permaneci

pouco que conseguiam durante a colheita da cana eles podiam plantar, alimentar alguns animais, manter as cercas, enfim, reproduzir-se socialmente em suas regiões de origem. Se fossem destinadas políticas públicas a este grupo social, parte significativa destes agricultores não migraria. Nesta região em especial, como em boa parte da região nordestina, os problemas com a seca são constantes. Desta forma, seria necessário elaborar mecanismos efetivos para atenuar a falta de água, melhorar os sistemas de comercialização, com a melhoria das estradas que ligam as pequenas comunidades aos pequenos centros urbanos, onde vendem nas feiras, criar um sistema rural de saúde, escolas que valorizem o lugar onde vivem, e não ao contrário, como vem acontecendo nas zonas rurais, onde os professores reforçam a idéia do êxodo rural, quando desenvolvem e fortalecem junto aos estudantes a idéia de atraso rural, pelo fato de praticarem outros estilos de agricultura.

“Muitos dos que já deixaram o meio rural e suas terras, o fizeram porque não encontraram condições para ficar” no Vale do Jequitinhonha/MG por alguns meses. Pude ver de muito perto as condições daqueles que migravam para SP, principalmente para o trabalho no corte da cana de açúcar, na condição de bóiasfrias. Em geral, todos os entrevistados e outros com os quais conversei durante a minha estadia afirmaram que eles só se submetiam à super exploração do corte de cana para manter a sua condição de agricultor minifundista, seja como proprietário ou mesmo parceiro, etc. Com o

Campo Vivo - Qual sua expectativa e como você observa o futuro rural brasileiro? Maria Izabel – Acredito que determinadas políticas públicas bem direcionadas poderiam modificar substancialmente as condições de permanência nas zonas rurais. As migrações ocorrem, principalmente, porque estar no meio rural é estar distante dos serviços básicos que

podem promover um maior conforto para as famílias. Os indicadores educacionais brasileiros nas zonas rurais são mais precários do que os urbanos e, ainda, um dos piores da América Latina. As dificuldades encontradas pelas famílias rurais de menor poder aquisitivo são generalizadas. Assim, qualquer possibilidade de romper com este quadro de precariedade gera o desejo de sair e tentar encontrar uma condição social mais digna. É preciso incentivar e permitir a diversidade de produção nas áreas rurais. O modelo agrícola preconizado pós década de 1950 tem seu espaço delimitado e, portanto, não pode moldar os diferentes estilos de agricultura. Nós sabemos que alguns estilos de agricultura demandam menos força de trabalho; outros, ao contrário, utilizam força de trabalho em maior quantidade. Os dados do último censo também reforçam esta idéia. O agronegócio emprega menos que outras modalidades de agricultura. É deste setor mais demandante de força de trabalho, portanto, que gera mais empregos, que advém parte significativa do que comemos no nosso dia a dia. E é exatamente neste perfil produtivo que podemos adquirir alimentos de melhor qualidade, mais seguros, garantindo assim a soberania alimentar. Acredito que o incentivo à agroecologia, por meio de financiamentos apropriados, poderia propiciar a garantia de alimentos de qualidade e com justos preços para a população brasileira. Assim tanto a população urbana quanto a rural estaria se beneficiando.

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Mudanças na pecuária leiteira Novos parâmetros de qualidade do leite entram em vigor em julho. Pecuaristas terão que melhorar condições higiênicas para atender exigência

P

rodutores de leite de todo país estão se movimentando para atender uma determinação do Ministério da Agricultura que objetiva a melhoria da qualidade do leite brasileiro. A partir do dia 1º de julho, passa a valer novos parâmetros de contagem de células somáticas (CCS) e contagem bacteriana total (CBT) para as diferentes regiões do país, medida prevista na Instrução Normativa 51, que entrou em vigor em 2002 com prazos escalonados para essas mudanças na produção leiteira. A norma faz parte do Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite, que visa a melhoria da qualidade do leite produzido no Brasil e, com isso, a oferta de um produto mais seguro e de alto valor nutricional ao consumidor, oportunizando aos produtores alcançar novos mercados de consumo e melhorar a renda no campo. Com as mudanças previstas, o pecuarista terá que atender critérios para co14  CAMPO VIVO - junho 2011

mercialização do leite. De acordo com o Ministério da Agricultura, a única mudança prevista a partir de primeiro de julho próximo é na contagem de células somáticas (CCS) e na contagem bacteriana total (CBT) que serão reduzidas de 750.000/ml para 400.000/ml e 100.000/ ml respectivamente. A CCS trata-se de um indicador da saúde da glândula mamária e da qualidade do leite, sendo utilizada como parâmetro para pagamento do leite. Os critérios físico-químicos do leite entregue pelo produtor à indústria (teor de proteína, gordura, acidez, densidade, índice crioscópico e outros já estabelecidos) permanecem os mesmos. Esses critérios são alcançados com alguns procedimentos na propriedade rural. É o caso da Fazenda Adriana, em Linhares. Em 2008, o pecuarista Cirilo Pandini Júnior mudou o sistema de criação do gado. Antes, ele havia trabalhado com pecuária extensiva. “Não sabia de ganha-

va ou se perdia”, diz o produtor, lembrando da falta de planejamento e adoção de técnicas mais eficientes na propriedade. “O que aconteceu aqui foi mudança de mentalidade”, destaca Pandini. Após iniciar o projeto com acompanhamento técnico, a fazenda passou a utilizar menor quantidade de terra e aumentou a produção. Com resultados satisfatórios, a meta é, em breve, chegar a produção de 3.000 litros de leite por dia com 170 vacas em lactação. “É um projeto de médio e longo prazo. A disciplina é fundamental”, aconselha o pecuarista. Para conseguir produzir o leite de acordo com as novas mudanças, o pecuarista tem que atentar para procedimentos essenciais na propriedade, como higiene, alimentação e bem estar animal. “O conforto do animal é importante. O sombreamento vai ajudar no bem estar das vacas”, ressalta Lúcio Antônio Oliveira Cunha, engenheiro agrônomo, especialis-


ta em pecuária de leite. Nas horas quentes do dia, os animais da fazenda Adriana recebem mais conforto. O piquete para as vacas ‘pastejar’ é aberto no fim da tarde, em horário com temperatura mais amena. A arborização da área destinada a criação dos animais favorece o clima resultando em melhorias na produtividade. O êxito na pecuária de leite vai depender muito dos trabalhadores que lidam diretamente com os animais. O carinho e a higiene podem ser o toque especial da atividade. A diminuição da lama, por exemplo, melhora a higiene e ajuda a prevenir a mamite (ou mastite), doença, muito comum em rebanhos bovinos leiteiros, que apresenta-se como um processo de inflamação da glândula mamária, acompanhado pela redução de secreção do leite e pelo comprometimento da qualidade do leite produzido. A prevenção da mamite é fundamental para atingir a nova meta da Instrução Normativa 51. As células somáticas (CS) do leite são oriundas da descamação normal do tecido secretor da glândula mamária. Com isso, com a ocorrência da infecção, o número de células aumenta indiscutivelmente, prejudicando a qualidade e produtividade do leite. Quando ocorre período de muita chuva é necessário aumentar ainda mais o cuidado com a higiene, pois a maior quantidade de lama deixa o animal vulnerável a possíveis problemas. “O gado tem chegar limpo no curral”, diz o agrônomo. A atenção na ordenha deve ser redobrada para evitar resíduos no leite. No caso da ordenha mecânica, que é mais indicada devido a maior higiene, é necessário limpar bem os equipamentos. “A manutenção deve ser realizada para o bom funcionamento do processo”, diz Lúcio Cunha. Quando a ordenha for realizada

PECUARISTA e agrônomo buscam melhorias no processo produtivo

de forma manual, o ordenhador deve lavar as mãos com sabão e água antes de começar a ordenhar ou sempre que necessário. A lavagem dos tetos com água clorada seguida da secagem com papel-toalha. É fundamental manter o local de ordenha sempre limpo e seco. A contaminação do leite durante a ordenha e as condições de armazenamento (tempo e temperatura) até chegar na indústria de laticínios são os principais fatores da perda de qualidade do leite. Aliada a boa higiene, a alimentação complementa a receita para o sucesso na produção leiteira. O rebanho da fazenda Adriana recebe alimentação indicada: pastagem com volumoso básico e suplemento com concentrado a base de milho e soja. Na época fria, a cana é inserida no cardápio dos animais. A alimentação adequada, aliada a genética bovina, proporciona teores de gordura e proteína compatíveis com o mercado. “Quando o leite é produzido atendendo a critérios do laticínio, recebemos bônus pela qualidade superior do produto”, diz Pandini. Seguindo as orientações técnicas, a propriedade de Pandini está muito próxima dos novos parâmetros de contagem de CCS e CBT que entrarão em vigor em julho. Os procedimentos terão que ser adotados por pecuaristas leiteiros de todo país. De acordo com o agrônomo Lúcio Cunha, o maior rigor na contagem de células somáticas vai melhorar o rendimento do leite na industrialização e também a qualidade do produto. “O rendimento maior vai beneficiar a cadeia do leite”, afirma. O Ministério da Agricultura continuará realizando a fiscalização nos moldes atual, fiscalizando os estabelecimentos registrados no Serviço de Inspeção Federal (SIF), em regime de inspeção periódica. Dos que recebem leite diretamente do produtor a fiscalização do leite entregue baseia-se na análise laboratorial do mesmo no estabelecimento e na verificação dos resultados

HIGIENE na ordenha mecânica favorece qualidade do leite

de análise laboratorial mensal. A fiscalização dos produtores é feita, de forma geral, através da análise do leite do mesmo no laticínio e em laboratório da Rede Brasileira de Monitoramento da Qualidade do Leite (RBQL). Em casos excepcionais (suspeita de fraude, detecção de resíduos, por exemplo) a fiscalização pode ser realizada “in loco” na propriedade rural. O Ministério ainda não definiu as ações a serem com os produtores que não atenderem aos novos parâmetros de qualidade do leite a partir de junho. De acordo com o órgão federal, qualquer ação a ser tomada deve estar contemplada na legislação sanitária atual que está em fase de atualização e este assunto está em fase de discussões internas e com os diversos setores da cadeia produtiva do leite. Porém, o mercado deverá ser um fiscalizador também das práticas adotadas nas propriedades. Com a nova exigência, as empresas irão cobrar mais qualidade e os pecuaristas que não se enquadrar nos novos padrões pode perder mercado. “Quem não atingir metas pode ser penalizado no preço. Essa instrução normativa e o prazo para se adequar não são de hoje. Quem não começou a mudar tem que correr atrás do prejuízo”, diz o agrônomo Lúcio. Para ele, independente da estrutura da propriedade, os pecuaristas têm condições de atingir as metas estabelecidas seguindo os procedimentos necessários. “A obrigação é de produzir leite com qualidade é nossa, de toda cadeia do leite. E ela começa na propriedade”, finaliza. junho 2011 - CAMPO VIVO  15


Ovos

de

OURO Santa Maria de Jetibá é destaque nacional na avicultura de postura. Força cooperativista favorece famílias que vivem da atividade 16  CAMPO VIVO - junho 2011


A

Manfredo Kruger está na atividade há 21 anos. Em Santa Maria de Jetibá, empreendedorismo de produtores e força cooperativa fazem do município destaque no país.

cidade se denomina a mais pomerana do Brasil. E é só chegar nela, pelas curvas da ES-368, que é possível constatar a força desses descendentes. Ao chegarmos à cidade, o ambiente festivo dos imigrantes contagia. Bandeiras da Pomerânia, país de origem dos desbravadores de Santa Maria de Jetibá, estão expostas nas casas, comércio, e nas ruas da cidade. Os habitantes vestidos com trajes típicos do extinto país europeu recebem com cordialidade os visitantes. Mas não é só pela expressão cultural e histórica que o município se destaca. Mesmo preservando as raízes culturais, o progresso também é observado. No primeiro semáforo que paramos, um caminhão carregado com caixas de uma granja local mostra a potencialidade na produção de ovos do município. Santa Maria é o segundo município que mais produz ovos no Brasil com uma produção estimada em 7,5 milhões de ovos, de acordo com dados do IGBE. A atividade é encontrada em grandes propriedades que trabalham com granjas mais tecnificadas. Oura parte da produção local é dividida em pequenos e médios produtores rurais, como é o caso de Manfredo Kruger. A propriedade da família fica na localidade de Rio Bonito. Kruger nasceu na região serrana capixaba e sempre trabalhou no campo. Resolveu ingressas na avicultura de postura em 1990. No começo, ele criava as galinhas para aproveitar o esterco na horta da propriedade. “Naquela época, o grande lucro era o esterco. Hoje, pensamos em produzir ovos”, diz. A propriedade trabalha com café arábica, principal produto econômico da região, mas acredita no potencial da produção de ovos. “O desafio é em todas as atividades. Você tem que viabilizar, potencializar o que gosta. Por isso, considero a avicultura um bom negócio”, diz Kruger. A limpeza das granjas é uma das receitas principais. O esterco é retirado e aproveitado na lavoura de café e também comercializado. O criador é associado da Coopeavi, a Cooperativa Agropecuária Centro Serrana. Lá, ele compra as pintainhas, a ração e comercializa os ovos. “O segredo é no início. Com a pintainha bem tratada, vacinada, a gente trabalha despreocupado. Depois é a preocupação regular de tratamento das aves”, diz o avicultor. O sistema de criação de Manfred é o convencional. De acordo com ele, a estrutura para uma granja com capacidade para 10 mil aves fica em torno de R$80 mil, enquanto com equipamentos automatizados o valor sobe até oito vezes. Na granja do seu Kruger, as 26 mil aves produzem cerca de 21 mil ovos por dia. A alimentação dos animais é a base de milho e soja, acrescida de composto mineral. “Uma galinha come 100 gramas por dia e evacua 50. O esterco produzido vai para lavoura ou pode ser vendido”, diz. A produção de centenas de produtores do município é comercializada para a Coopeavi. A entidade, fundada em 1946 com o objetivo de fortalecer a avicultura local, atende atualmente um plantel de 800 mil aves, entre assistência técnica, venda de rações e compra da produção. “O ovo chega no entreposto da cooperativa e o produtor recebe por peso, com preço baseado no JOX, índice de valores nacional”, explica Luis Carlos Brandt, gerente de comercialização de ovos da cooperativa. Após passar pela ovoscopia, sistema que analisa rachaduras nos ovos, o produto passa por uma máquina classificadora que divide os ovos por tamanho e, por fim, por uma última análise manual. Antigamente, o procedimento era feito manualmente pelos produtores na roça. De acordo com Brandt, a comercialização na Coopeavi varia de 800 a 1.000 caixas por dia. “O preço pago ao produtor oscila de acordo com a demanda, principal fator dessa variação”, diz Luiz Carlos. A produção de ovos de Santa Maria é vendida para diversas regiões. Alguns produtores comercializam direto com redes atacadistas. Outros preferem vender na Ceasa ou no comércio da Grande junho 2011 - CAMPO VIVO  17


CULTURA local é destacada em festa de imigrantes

Vitória. No caso da Coopeavi, o principal destino é a região nordeste do país, onde os ovos são comercializados no varejo. “Isso aumenta o valor agregado e evita dificuldade de pagamento, além de diminuir a competição no mercado interno capixaba com os próprios produtores de Santa Maria”, explica Daniel Piazzini Neves, gerente de marketing da Cooperativa. A intenção da entidade é começar a exportar a produção, mas Luiz Carlos Brandt diz que o ovo é um produto diferenciado e depende de habilitações específicas. Já pensando na conquista de novos mercados, a Coopeavi trabalha, junto aos seus associados, na implantação de uma gestão de qualidade, pautada nas boas práticas de produção. As oportunidades do mercado externo despertaram o interesse pela mudança de algumas práticas no campo. “Toda cadeia produtiva deve estar engajada neste

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DANIEL cuida do marketing dos ovos da cooperativa

processo, observando detalhes como os cuidados na armazenagem da ração, a higiene do trabalhador, dos animais, entre outros requisitos”, diz Fábio Júnior Braga, gerente executivo de produção. A busca pela qualidade dos ovos produzidos em Santa Maria de Jetibá ocorre paralelamente ao trabalho de desenvolvimento de uma marca para os ovos da cooperativa Coopeavi. O setor de marketing realizará uma ação para que os colaboradores da instituição sugiram nomes para a nova marca. Além disso, a entidade busca o diferencial do ovo local para ser

FÁBIO aposta nas boas práticas de produção para conquista de mercados

destacado no mercado, baseado na qualidade e responsabilidade social com a agricultura familiar. “O papel da cooperativa é trabalhar com o produtor familiar. Nossa importância é muito mais social. Temos que melhorar a condição para o cooperado”, afirma Piazinni. Através de capacitações entre os produtores, Fábio Braga acredita que seja possível conquistar novos mercados. “A gente incentiva o avicultor a aumentar a qualidade e, com isso, conseguir agregar valor ao produto”, destaca. Adepto da causa cooperativista há vários anos, Manfredo Kruger recebe assistência técnica da cooperativa em sua granja, uma das vantagens dos 120 associados da Coopeavi que trabalham com avicultura. A força do cooperativismo local, aliada a capacidade empreendedora de produtores mais tecnificados, proporciona a posição de destaque do município na avicultura nacional, que é motivo de orgulho para a população santa mariense. “Se tirar ovo de Santa Maria, quebra”, diz Manfredo, referindo-se a importância econômica e social da atividade.

LUIZ coordena a comercialização dos ovos para o mercado nacional


Golpe no campo Falsos fiscais exigem dinheiro de produtores para cadastro na Previdência e aplicam golpe no interior capixaba

U

m golpe está sendo aplicado em propriedades rurais do Espírito Santo. No início do mês de maio, o programa Campo Vivo, na Rádio Globo Linhares, relatou, em primeira mão, a farsa de bandidos que estavam atuando na zona rural capixaba. Os golpistas estavam se passando por fiscais do Ministério do Trabalho, solicitando dinheiro de produtores rurais para um eventual cadastro na Previdência e ficando com a quantia. Um agricultor de Linhares foi vítima do golpe. Outros produtores de Jaguaré e São Mateus também foram abordados pelos falsos fiscais. No caso da vítima linharense, ele relatou que as pessoas que o abordaram estavam com crachá do Ministério do Trabalho e fizeram algumas perguntas sobre a colheita do café. Em

seguida, solicitaram R$ 120,00 alegando que a quantia era para um cadastro na Previdência. Após receberem o cheque do produtor ainda na propriedade, os golpistas, posteriormente, alteraram o valor para R$5.120,00 e sacaram o dinheiro, finalizando o golpe. Para o presidente do Sindicato Rural de Linhares, Antonio Roberte Bourguignon, os agricultores ficam com tantas preocupações devido a quantidade de exigências e leis que devem cumprir que acabam caindo em golpes desse tipo. “Eles se aproveitam às vezes da falta de informação do produtor rural ou do medo de ficarem irregular e exigem o dinheiro aplicando o golpe”, diz Bourguignon. O auditor e superintendente substituto do Ministério do Trabalho no Espírito

Santo, Alcimar Candeias, afirma que as pessoas devem ligar para polícia quando algum cidadão exigir dinheiro para eventuais taxas de órgãos públicos. “Pagamento direto para servidor não existe. Qualquer cidadão que fizer esse tipo de abordagem não se trata de servidor, é bandido”, destaca Candeias.

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O campo não resistiu

Zona rural observa rápido crescimento no uso de drogas entre trabalhadores e moradores do campo. Projetos para a juventude rural podem diminuir esse problema

Os traficantes estão agindo dentro das comunidades rurais distribuindo drogas. Na colheita do café, se infiltram como trabalhadores só para repassar drogas”. A afirmação é de quem vivenciou esse mundo por muitos anos e viu a zona rural ser invadida pelas drogas. Marleisson de Souza Angelo começou a usar droga aos 14 anos. Após perder empregos na cidade, onde morava, foi para o interior trabalhar em propriedades rurais. “Na época que co22  CAMPO VIVO - junho 2011

mecei a trabalhar na roça, a droga já estava lá. Agora aumentou muito. Hoje, é uma triste realidade”, diz. Na zona rural, os contatos com outros usuários permitiram, logo, encontrar os pontos de venda de drogas. Trabalhando na colheita, viu traficantes se infiltrarem como trabalhadores para repassar seus produtos. “Muitos saem da cidade e se instalam na zona rural. Se infiltram como trabalhador rural para passar a droga. Conheci vários

que estavam lá só para isso”, afirma Marleisson. Quando não se infiltram na lavoura, os vendedores têm dias definidos para abastecer as comunidades. “Eles sabem os dias que os trabalhadores recebem e vão lá para vender”, diz o ex-usuário. O município de Sooretama é um dos que enfrentam grandes problemas com a criminalidade na zona rural. Diversas ocorrências policiais são registradas no interior do município. Durante a colheita do café,


muitos trabalhadores vêm de outros Estados em busca de um emprego e acabam permanecendo na região sem muitas perspectivas. “Hoje em dia é muito fácil ver pessoas usando drogas. No barzinho, na esquina, no futebol de domingo nas comunidades, a gente fica sabendo desses casos. Os próprios jovens falam sobre isso. Apesar de proibido, não está escondido mais”, diz a jovem Ranieli Badiani Bianchi, que mora no Córrego Rodrigues, em Sooretama, e atua em trabalhos sociais no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Linhares e Sooretama. Para a jovem, apesar de o setor agropecuário ser predominante no município, a proximidade de centros urbanos favorece o acesso as drogas. “A população jovem se influencia ainda maia”, afirma Ranieli. O poder dos entopercentes no ser humano é devastador, de acordo com Marleisson. Ele afirma que o crack foi a pior droga que usou. “Ela devastou minha vida. O poder dominador na mente é muito grande. Você sabe que vai destruir, mas você não consegue forças para parar sozinho. É uma droga barata e o prazer eufórico é muito curto. Passou ali, a sua mente entra em ansiedade compulsiva. Se for possível, você passa dias trancado usando crack. Perde noção, o amor as pessoas”, relata, lembrando de quando tentou o suicídio se jogando na frente do caminhão. A buzina do veículo foi ‘um despertar de Deus’. “Nesse momento procurei ajuda. Minha vida estava se destruindo”. A ajuda ele encontrou na Casa de Resgate São Francisco de Assis, localizada no interior de Linhares. Os aconselhamentos, trabalho religioso e terapia ajudaram Marleisson a se recuperar da dependência. Atualmente, 63 usuários são atendidos e recebem auxilio de assistentes sociais, médicos, enfermeiros e psicólogos. O jovem Marleisson é funcionário da Casa, ajudando agora a recuperação de outros dependentes. O voluntário e ex-presidente da entidade, Altamir Ribeiro de Moura, diz que a Casa de Resgate tem recebido muitas pessoas oriundas do campo. “Já se tornou até uma rotina receber pessoas do campo envolvidas VOLUNTÁRIO, com drogas”. Para Altamir observa ele, o uso de drogas crescimento das drogas no interior aumentou tanto no

interior que não se diferencia mais com a situação da cidade. “A diferença é que na cidade existem muitos adolescentes que praticam furtos que incomodam mais a população. Na roça, esse número é mais reduzido, porque são pessoas que trabalham, ganham seu dinheiro e compram a droga”, explica. A opinião é compartilhada pelo produtor rural e presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Linhares e Sooretama. Morador da zona rural linharense, Giuriato acredita que proporcionalmente o consumo de drogas se equivale entre zona rural e urbana. “Avançou muito rápido isso no interior. Imaginávamos que estava longe, mas está cada vez mais freqüente”, diz. Segundo o produtor, a melhoria na qualidade de vida dos moradores do campo, nos últimos anos, favoreceu o contato com ‘coisas da cidade’. “O meio rural, historicamente, era conhecido como local de atraso. Mas, ultimamente, as melhorias em infra-estrutura, como o asfalto que chegou às comunidades, e outros programas de incentivo ao produtor, fizeram com que a população passasse a fazer parte do mercado. Possibilitou que pessoas vivessem bem. E, em conseqüência disso, possibilitou o acesso às coisas negativas também. É preocupante. Sabemos do malefício das drogas para as famílias e moradores dessas comunidades”, diz Jonas Giuriatto. Altamir Ribeiro, da Casa de Resgate, concorda que o progresso levou benefícios para o interior, porém também facilitou a chegada das drogas. “Com essa modernidade atual, com as estradas, com os meios de locomoção, a zona rural não tem muita dificuldade de acesso como era em tempos atrás. Hoje tem muita facilidade para as drogas chegarem. As fazendas hoje se tornaram pequenas empresas, se organizaram,

tem muitos funcionários, principalmente na colheita do café. Há uma procura muito grande do tráfico em ofertar a droga para os trabalhadores do campo”, afirma Ribeiro. “ Com a firmeza de que sabe o quer para seu futuro, o jovem Marleisson acredita que a família é essencial para evitar que os filhos sigam o caminho errado. Há dois anos funcionário da entidade que o recebeu no seu pior momento, Marleisson completou os estudos, está na faculdade e de casamento marcado para novembro. “Reconstruí a minha vida. Parei dos 14 até os 28 anos. Comecei a viver de novo”, diz entusiasmado. O apoio da Casa de Resgate na recuperação do jovem mostra a importância de projetos sociais para a juventude rural. “Se não estivesse aqui estaria morto. O usuário que não pedir ajuda, vai morrer ou vai pra cadeia. Não há benefícios com a droga. Você pode até se iludir, achar que vai se enturmar melhor, vai ficar mais descontraído, mas é pura ilusão. Com o uso contínuo, essa falsa euforia vai se tornar em sofrimento profundo. Dói na alma. Eu sei o que é isso”, diz emocionado. No Sindicato coordenado por Jonas existe um programa que tem como objetivo ocupar os jovens com atividades que possam criar novas oportunidades de geração de trabalho e renda nos elos das cadeias produtivas agrícolas e em atividades rurais não agrícolas. O PAJE (Programa Atitude da Juventude Empreendedora) trabalha na organização coletiva, capacitação e formação dos jovens rurais e com atividades de cultura, lazer, esporte, entre outras ações. “Não trabalhamos no sentido de fazer algo para enfrentar algum problema, e sim capacitar a juventude para que ela possa entender que só vai ser um cidadão de reconhecimento quando conhecer oportunidades e ameaças. As oportunidades no

MARLEISSON: das drogas para ‘outra vida’

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ESTUDANTES: Raniele, do Sindicato, com jovens em evento em Minas Gerais

campo existem, de renda, de qualidade de vida. Temos que levar essas oportunidades e orientar sobre os cuidados necessários. As ofertas desses produtos que podem oferecer bem estar, prazer imediato, precisa ser orientada”, destaca Giuriatto. A jovem Ranieli é uma das coordenadoras do PAJE e já observa os resultados desse trabalho. “Estamos bem próximos. A gente percebe que os jovens que estão nesses programas vêem como uma oportunidade. Ele gasta energia nessas oportunidades e, com isso, deixa de gastar em coisas erradas. Talvez é no tempo vago que o jovem entra no mundo negativo”, diz. José Braz Venturim, coordenador de agricultura familiar e crédito rural do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), vinculado à Secretaria de Estado de Agricultura, afirma que a atenção em fomentar atrativos à permanência dosjovens no interior têm aumentado. “Políticas públicas com esforço de valorizar a autoestima do jovem rural e mantê-lo no campo estão mais presentes. É uma medida que, inclusive, influencia na economia nacional, uma vez que o custo para gerar um emprego no campo é bem menor que no meio urbano. Sem falar que é uma maneira eficaz de evitarmos proble-

mas sociais provenientes do êxodo rural. Na maioria das vezes, essas pessoas saem do interior e se deparam com as dificuldades de emprego nas cidades”, ressalta. A importância da família é praticamente uma unanimidade na prevenção do uso de drogas. Muitos casos de dependentes têm relação direta com problemas na estrutura familiar. Esse é um ponto que preocupa a zona rural. Famílias tradicionais, que conseguiam preservar princípios e valores, estão enfrentando o tormento das drogas. “A carência familiar é a principal causa das drogas”, diz taxativo Altamir Ribeiro, baseado na experiência do trabalho com dependentes. Para o voluntário da Casa de Resgate, muitas vezes a falta de informação acaba atrapalhando a tentativa de solucionar problemas de familiares usuários. A informação sobre os efeitos e as conseqüências da droga é importante para saber orientar os filhos de forma correta. “Às vezes a opinião da pessoa não está correta. Você chegar pro filho e falar: ‘Filho, não mexe com droga porque é uma coisa ruim’. Ele vai usar droga e vai achar bom, porque a droga produz uma sensação de prazer. Aí o filho vai entender que o pai é careta, que o pai não conhece. Mas com conhecimento, ele vai dizer que aquele primeiro momento da droga tem essa falsa felicidade e depois vêm as conseqüências. Esse é maior problema da sociedade, a falta de informação para orientar a nossa juventude”, afirma. As transformações da sociedade estão evidentes em qualquer região. O campo não está mais isolado dos centros urbanos. O crescimento tecnológico e econômico proporcionou avanços em diversos setores, mas resultou também em problemas sociais. “Hoje, mesmo na zona rural, não vejo

um local que podemos dizer que não tem droga”, diz Marleisson. O combate as drogas é complexo e parece estar longe de uma solução. A receita para amenizar os problemas talvez seja o fortalecimento da família e de valores esquecidos. “Quando você perde esses valores você perde seu referencial. Esses valores que estão se perdendo são fundamentais para que possa ter uma vida equilibrada. Na hora de tomar decisão poder falar ‘eu aprendi assim’. Quando você perde o respeito pelo bem público, pela família, pelo próximo, acha que tudo pode ser feito. Pra quem não tem rumo, qualquer vento é bom”, ressalta Jonas Giuriatto. “Droga é sinônimo de sofrimento, de morte. Vamos fazer coisas boas, como eu faço hoje graças a Deus. Aprendi a fazer. Ficar com a família, se divertir com os amigos na comunidade, na igreja, sem bebedeira, sem droga. Hoje eu sei o que é viver feliz”, finaliza Marleisson, com sorriso no rosto.

na comunidade local e em comunidades vizinhas. O sucesso se estendeu e, em 2005, precisaram ampliar a área de cultivo da graviola.“Aproveitamos e criamos um pomar de goiaba e um de caju-anão-precoce. Também construímos uma casa onde funciona a nossa agroindústria, a Lara Frut. Com o auxílio conquistado pelo financiamento de crédito do Pronaf e assistência técnica do Incaper, investimos nas lavouras, em equipamentos, em câmaras frigoríficas e na aquisição de um veículo específico para distribuição das polpas”, conta o casal. Para o extensionista do Incaper em Ibi-

tirama, Aristodemos Hassen, o exemplo de Leomar e Luciana ilustra bem a capacidade do jovem em visualizar oportunidades e aplicar as novas tecnologias em benefício do desenvolvimento econômico da família. “O jovem tem essa percepção e lida bem com as novidades. Outra vantagem, é que pode aliar a experiência dos pais ao conhecimento técnico”, diz. Para auxiliar nesse desenvolvimento, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) oferece linhas de crédito para agricultores, como o Pronaf Jovem, uma linha exclusiva a jovens maiores de 16 anos e com até 29 anos.

Segurança no campo A dificuldade da fiscalização nas zonas rurais do Espírito Santo é um dos problemas dessas comunidades. Se na cidade já é difícil, o vasto território rural não consegue ser atendido pela polícia de forma suficiente. Mas, de acordo com a Polícia Militar do Estado, a fiscalização do tráfico de drogas na zona rural capixaba é feita com operações rotineiras com base em informações coletadas pelo setor de inteligência para evitar que este tipo de crime se espalhe. Durante o período de colheita do café, a fiscalização é intensificada visando combater os crimes contra o patrimônio. A sociedade pode denunciar esse tipo de crime pelo telefone 181, do Disque-Denúncia.

Oportunidade no campo Em Cabeça Quebrada, distrito da região interiorana de Guarapari, o casal Leomar Poton e Luciana Ricieri Ponton, filhos de agricultores familiares, demonstraram espírito empreendedor e enxergaram uma rentável oportunidade na comunidade rural onde residem. Ao concluírem capacitação técnica no Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (Mepes), em 2002, os jovens apresentaram como trabalho de conclusão do curso um projeto de plantio de 30 pés de graviola e 160 pés de maracujá, aplicado na propriedade das famílias. Os jovens produtores fizeram polpas das frutas colhidas e as comercializaram


INFORMAÇÃO

Projeto difunde dicas para boa colheita do café conilon

C

om o objetivo de auxiliar os produtores de café do Norte do Espírito Santo para garantir uma boa colheita na safra 2011, a empresa 7D Produção realizou a quarta edição de um projeto voltado para o setor produtivo, com a divulgação de informações sobre os procedimentos adequados para manter a qualidade dos grãos e a boa produtividade. Através da difusão na mídia regional de dicas para o momento da colheita e pós-colheita, as informações ressaltam a necessidade de práticas corretas no campo para obter sucesso na atividade. “Esse período é importante para o agricultor, já que é o resultado do trabalho realizado durante um ano”, destaca Rafael Lucas,

sócio da produtora 7D. As dicas para os produtores foram veiculadas nos meses de maio e junho em emissoras de rádio e TV, outdoor, encarte em jornal, site e revista especializada no segmento rural. Sempre apoiado por grandes empresas da região, o projeto teve a participação nessa edição da Pianna Rural, Defesa Agrícola e Adriano Veículos. Para o gerente de vendas da Pianna Rural, Altamir Biancardi, essa integração é benéfica para o homem do campo. Segundo ele, as particularidades de cada cultura devem ser conhecidas. “Até mesmo na fabricação das máquinas estão sendo observadas as necessidades de cada atividade, como é o caso do café coni-

lon”, diz. O engenheiro agrônomo José Guilherme Rizzo, da Defesa Agrícola, reafirme a necessidade da informação para os cafeicultores. “Durante todo ano os produtores precisam de informações para conduzir a lavoura adequadamente. A colheita é um momento importantíssimo. Além disso, é preciso preparar bem a lavoura para a próxima safra”, destaca Rizzo. Opinião compartilhada por Eberson Fantin, da Adriano Veículos. “Observamos em nossa região o potencial do café e a relevância na questão social e econômica. Temos que apoiar projetos desse tipo para contribuir com nossa agricultura”, afirma.

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Código Florestal aprovado

A Deputados aprovam alterações no Código Florestal. Saiba o que diz o texto e como votaram os parlamentares capixabas

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pós muitos debates nos últimos meses, o Novo Código Florestal Brasileiro foi aprovado na Câmara dos Deputados no dia 24 de maio. O texto-base do relator, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), foi aprovado por 410 votos a 63 e 1 abstenção. Mas a polêmica que dividiu a base aliada foi a emenda 164, dos deputados Paulo Piau (PMDB-MG), Homero Pereira (PR-MT), Valdir Colatto (PMDBSC) e Darcísio Perondi (PMDB-RS), que permite o uso das áreas de preservação permanente (APPs) já ocupadas com atividades agrossilvipastoris, ecoturismo e turismo rural e também dá aos estados, por meio do Programa de Regularização Ambiental (PRA), o poder de estabelecer outras atividades que possam justificar a regularização de áreas desmatadas. A emenda foi aprovada por 273 votos a 182.


PRINCIPAIS PONTOS DO TEXTO APROVADO NA CÂMARA Áreas de Preservação Permanente (APPs) - Mantém as mesmas medidas previstas a lei vigente (1965) para APPs - Admite culturas lenhosas perenes, atividades florestais e de pastoreio nas APPs de topo de morro, encostas e de altitude elevadas (acima de 1,8 mil metros) - Para cursos d’água de até dez metros de largura, permite a recomposição de 15 metros *Para as APPs de margens de rios, prevê a medição a partir do nível regular da água Itens incluídos pela emenda 164 - Permite a manutenção de atividades agrossilvipastoris, de ecoturismo e de turismo rural nas APPs se estiverem em áreas consolidadas até 22 de julho de 2008 - Outras atividades em APPs poderão ser permitidas pelos estados por meio do Porgrama de Regularização Ambiental (PRA) se não estiverem em áreas de risco - Atividades em APPs consideradas de utilidade pública, interesse social ou baixo impacto ambiental serão definidas por lei;

Reserva Legal - No Espírito Santo: 20% - Admite a soma de APPs no calculo da reserva legal desde que a área esteja conservada e isso não implique mais desmatamento - Imóveis de até quatro módulos fiscais poderão considerar como reserva legal a área remanescente de vegetação nativa existente em 22 de julho de 2008 - Admite exploração econômica da reserva legal, mediante aprovação do órgão competente do Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama)

Competência para emitir licença para supressão de vegetação nativa - Fica o órgão estadual integrante do Sisnama - O órgão federal dará licenças no caso de florestas públicas e unidades de conservação criadas pela união ou de empreendimento que causem impacto nacional ou regional ao meio ambiente - O órgão municipal dará licenças no caso de florestas públicas ou unidades de conservação criadas pelo município e por delegação

Registro da Reserva Legal - Acaba com a exigência da averbação em cartório - A reserva deverá ser registrada no Cadastro Ambiental Rural criado pelo projeto para todos os imóveis rurais

Áreas consolidadas - Dispensa propriedades de até quatro módulos fiscais da necessidade de recompor as áreas de reserva legal utilizadas - Que desmatou antes do aumento dos percentuais de reserva legal (a partir de 2000) deverá manter a área exigida pela legislação da época

Punição - Isenta os proprietários rurais das multas e demais sanções previstas na lei em vigor por utilização irregular, até 22 de julho de 2008, de áreas protegidas - Para ter o perdão das dividas, o produtor deverá assinar termo de conduta para regularização das áreas de proteção - Para os agricultores que se inscreverem no cadastro ambiental, serão suspensas as sanções administrativas, inclusive as relativas ao decreto 7020/09, que prevê penalidades para quem não tiver reserva legal averbada até 11 de junho deste ano

Votações dos deputados capixabas Relatório Aldo Rebelo Contrário - Audifax – PSB Favorável - Lauriete PSC / Lelo Coimbra PMDB / Manato PDT / Paulo Foletto PSB / Camilo Cola PMDB / Cesar Colnago PSDB / Dr. Jorge Silva PDT / Sueli Vidigal PDT

Emenda 164

Contrário - Camilo Cola PMDB / Cesar Colnago PSDB / Audifax – PSB / Dr. Jorge Silva PDT- / Sueli Vidigal PDT Favorável - Lauriete PSC / Lelo Coimbra PMDB / Manato PDT / Paulo Foletto PSB

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GEORREFERENCIAMENTO Até novembro, todas as propriedades rurais do país terão que realizar georreferenciamento

A Tony Baldi utiliza equipamento para realizar levantamento topográfico de fazenda em Linhares 28  CAMPO VIVO - junho 2011

s propriedades rurais brasileiras estão estabelecendo seus ‘endereços’. Através do sistema de georreferenciamento, os imóveis rurais do país estão definindo sua forma, dimensão e localização, utilizando métodos de levantamento topográfico. A descrição dos limites, características e confrontações das propriedades irá permitir ao governo conhecer melhor a realidade da agricultura nacional. Para isso, um decreto governamental define prazos para os produtores rurais realizarem o levantamento de suas áreas através do sistema. Para áreas inferiores a 500 hectares, o prazo vence no dia 21 de novembro desse


Quais são os prazos para a realização do Georreferenciamento? O decreto 5.570/05 de 31 de outubro de 2005 fixou os prazos legais para o georreferenciamento de imóveis rurais: • Áreas iguais ou superiores a 5.000 ha o prazo venceu em 21-02-2004; • Áreas entre 1.000 e 5.000 ha o prazo venceu em 21-11-2004; • Áreas entre 500 e 1.000 ha o prazo venceu em 21-11-2008; • Áreas inferiores a 500 ha o prazo vencerá em 21-11-2011;

Mapeando nossa agricultura ano. Áreas superiores já estão com os prazos vencidos. Na fazenda Radiante, em Linhares, o pecuarista Zaudino Ceolin Neto já está realizando o procedimento. Os 395 hectares da propriedade estão sendo referenciadas. “Já tenho a planta da terra, mas hoje o sistema (GPS) é muito mais moderno, mais eficiente”, diz o produtor. O engenheiro agrônomo Tony Baldi é quem coordena os trabalhos do georreferenciamento na propriedade de Zaudino. Para realizar o processo, é instalada uma base com um aparelho GPS especial, que capta o sinal do satélite, que deve ser em um local aberto e sem possíveis interferências para pegar bem o sinal. Os profissionais percorrem o terreno com outro aparelho móvel, em vértices variáveis, para ir ‘marcando’ os pontos da propriedade. “Os vértices são definidos de acordo com levantamento da área realizado. Quando há curvas, por exemplo, é necessário fazer os pontos em cada uma”, explica Baldi. Os dados são confrontados com o sistema de

órgãos federais. Através do georreferenciamento, o proprietário poderá atualizar a situação cartorial ou cadastral da terra. Em qualquer procedimento documental da propriedade, como compra e venda, será exigido o levantamento topográfico. “Se amanhã eu precisar fazer um financiamento tem que ter georreferenciamento. Precisa disso para pegar”, diz Zaudino Neto, que trabalha com pecuária. O custo para realizar o método varia de acordo com a topografia, vegetação e dificuldades da propriedade. “Oscila entre R$10 e R$40”, diz o agrônomo Tony Baldi. Segundo ele, alguns produtores só querem fazer quando precisar. Mas ele alerta que o processo não é rápido. “Leva cerca de 60 dias até protocolar o levantamento no Incra, que depois libera a certificação”, afirma. A exigência do governo, atrelando o georreferenciamento aos processos cadastrais da terra, vai beneficiar a União fazer um mapeamento do setor agropecuário. O Incra, órgão federal, poderá conhecer me-

O PRODUTOR Zaudino quer ficar com a situação cadastral em dia

lhor a produção rural do país por meio dos laudos agronômicos que são enviados pelas empresas que realizam o levantamento. Ao produtor, será possível regularizar a documentação; conhecer a área real da terra, através de um sistema mais preciso; e ficar em dia com a legislação. “Na verdade, atualmente quem possui áreas acima de 500 hectares e não fez ainda o georreferenciamento está ilegal”, afirma o agrônomo. junho 2011 - CAMPO VIVO  29


Beleza

Cultura Tradição

DEMÉTRIO RIBEIRO AINDA PRESERVA FORÇA CULTURAL E

D

oze quilômetros cercado por lavouras de cacau, café e remanescentes da Mata Atlântica. A estrada que liga a cidade de João Neiva até a localidade de Demétrio Ribeiro é o início de um passeio recheado de belezas naturais e culturais. A entrada da localidade que hoje possui cerca de 120 famílias demonstra quem começou a desbravar essas terras. “Começou aqui a história dos imigrantes italianos deste município”, diz, em italiano, a placa que recebe os visitantes. A força e a história das famílias que habitaram a localidade ainda podem ser encontradas por aqui. Ao chegar, o local nos passa a sensação de um pedaço de terra ainda preservado pelo tempo. Uma vila singela entre as montanhas do município de João Neiva. Os moradores vivem na simplicidade de um povo que tem a hos30  CAMPO VIVO - junho 2011

pitalidade e a fé como valiosas virtudes. Somos recebidos por Celso Luiz Guzzo e pelo jovem Guilherme Campagnaro Carrareto. Duas gerações que têm em comum o amor por Demétrio Ribeiro. Ao caminhar pelas bucólicas e aconchegantes ruas, encontramos registros de dezenas de décadas atrás. A igreja, com a beleza em sintonia com a f�� dos moradores, foi construída pelos primeiros moradores, e depois reformada. Ao lado dela, a Casa Paroquial data de 1900. As escadarias recebem grãos de café para secagem, feito por vizinhos da igreja que aproveitam o cimento para melhorar o processo de beneficiamento do produto que foi a principal fonte de renda dos imigrantes que ali se instalaram por volta de 1891. Um deles foi a avó materna da Dona Aladia Malovini Correia, de 66 anos. A casa que ela mora ao lado do esposo, seu Amadeo An-

tonio Correia, de 74 anos, é uma das atrações da localidade. Feita de pedra, a casa tem uma arquitetura própria. O moinho de pedra dentro da casa prepara o fubá com o milho produzido por eles mesmos. “Estudei aqui em Demétrio. As aulas eram em latim e português para que todos pudessem aprender na época”, relembra Aladia. A Casa de Pedra do casal é um dos pontos turísticos de Demétrio Ribeiro. A ideia do circuito começou há quatro anos, mas em 2010 que começaram a colocar em prática com apoio da Secretaria de Cultura de João Neiva e do Sebrae. Bem perto dali, o Museu do Imigrante reúne alguns objetos históricos do local. Fotos antigas das famílias pioneiras, ferramentas usadas no trabalho do campo e um confessionário dão a dimensão da força cultural. Um livro de canto em latim exposto no centro do museu é uma das


principais recordações da comunidade. Quem lembra bem do tempo passado é Davina Pelissari Recla. A simpatia e a conversa cativante nos prendem nas histórias de vida. Aos 66 anos, ela recorda de quando tinha seus 13, 14 anos e já participava da Reunião do Apostulado de Demétrio. O encontro de mulheres da localidade perdura até hoje e ela não deixa de ir. “Todo mês nos reunimos. Hoje, temos cerca de 20 mulheres que ainda freqüentam a reunião”, afirma. Com alegria, Davina prepara o capeletti que aprendeu com a mãe para vender na região. “Antigamente, era só em época de festa, na Páscoa, Natal e no primeiro dia do ano. O capeletti tinha cheiro de festa”, diz, com os olhos brilhando pelas recordações. Saudosa, ela diz que as coisas mudaram nos tempos atuais. “Antes, a maneira de receber as pessoas em casa era diferente. Havia felicidade e prazer”, diz. Mas ela não esquece a boa hospitalidade. Morando na localidade há 43 anos, dona Davina recebe todos com simpatia e define-se como uma apaixonada por capeletti

CASA Paroquial foi construída em 1900

e macarrão. “Acho que é a descendência”, brinca. As receitas preparadas com as lembranças de épocas passadas são servidas na Festa dos Imigrantes realizada anualmente em agosto. A comunidade se envolve para proporcionar aos turistas um fim de semana recheado de comi-

das típicas, histórias, cultura, tradição e alegria. No Casarão dos Violinos uma atração a mais. Antiga, a casa abriga uma mostra de instrumentos de várias partes do mundo. O banjo (EUA), a lira de Creta (Grécia), o Violino de Boca (Vietnã), o Ruan (China) e o Quatro Portoriquenho (Porto Rico) são alguns dos que podem ser apreciados. “Há 14 anos comecei a coletar e colecionar”, diz o músico Renato Casara. Ele realiza cursos programados durante o ano de fabricação de instrumentos reu-

CELSO E GUILHERME na igreja de Demétrio, um dos pontos turísticos do local

HISTÓRICA DOS IMIGRANTES QUE HABITARAM SUAS TERRAS

Dona Aladia e Seu Amadeo moram na Casa de Pedra, ponto turístico de Demétrio Ribeiro

Renato Casara e seu amor pelos instrumentos; história e arte no mesmo local junho 2011 - CAMPO VIVO  31


Artesanato da Família Campagnaro gera renda

nindo pessoas de várias partes do Brasil. No Casarão também é possível apreciar a culinária italiana. Um restaurante aconchegante prepara pizzas para os visitantes. Esse ano será a quinta edição da festa.

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O jovem Guilherme Campagnaro ajuda na divulgação. A paixão pela comunidade vem da família. O avô, seu Narcizo Campagnaro, tem 86 anos e ainda prepara o fubá no moinho de pedra na propriedade da família, atendendo aos pedidos de moradores da região. Enquanto regula o moinho, Narcizo observa as irmãs Maria José, Monica, Maria Alice e Leonilda Campagnaro, planejando a inauguração de uma loja para comercializar o artesanato feito manualmente, fomentando o turismo local. A ideia de alavancar o agroturismo em João Neiva ganha apoio da Prefeitura local. De acordo com o prefeito do município, Luiz Carlos Peruchi, Demétrio Ribeiro se torna uma opção de lazer em uma região que se desenvolve a cada dia. “Estamos no meio do desenvolvimento. Linhares, Aracruz, Colatina,Serra,são municípios que estão crescendo muito industrialmente. A lo-

calidade de Demétrio Ribeiro, uma região mais alta e com clima mais frio, se torna uma ótima opção para os turistas. Temos uma logística incomparável. João Neiva tem tudo para crescer no agroturismo”, afirma o prefeito. Reunindo suas belezas naturais, hospitalidade do seu povo e a força cultural e histórica, Demétrio Ribeiro pode ser considerado, realmente, um pedaço de terra ainda preservado pelo tempo. Aos 66 anos, Davina lembra a reunião do Apostolado que freqüenta desde jovem


Opinião

Enio Bergoli Engenheiro Agrônomo, pós-graduado em Administração Rural e Secretário de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca

Consumo de café nos países produtores e emergentes na nova década beber mais café os 300 milhões de consumidores potenEm 2010, o mundo produziu e consumiu um volume ciais da Índia (que hoje consomem apenas 90 gramas/harecorde de cafés: 134 milhões de sacas! Agora que estabitante/ano) e os 500 milhões de chineses. É claro que não mos iniciando a nova década 2011-2020, muitos estudos podemos nos descuidar dos mercados nos países ricos que inferem sobre novos hábitos, tendências e perfil do conainda consomem 70% dos cafés produzidos no mundo. sumo de café. Mas, no momento, devemos também ter foco na ocupação A pesquisa “Tendências de Consumo 2010” da Assodos mercados onde o consumo de cafés terá crescimento ciação Brasileira da Indústria do Café – ABIC e os estudos maior. da P&A International Marketing e da Orlam International De acordo com a P&A International Marketing, nesta Limited são fontes recentes e confiáveis sobre o mercado nova década serão atores importantes os chamados “novos de café, e alguns desses dados são citados a seguir. consumidores”, ou seja, os jovens, as novas classes méAtualmente, os países produtores de café já represendias (a D que sobe para a C) e as diferentes preferências e tam uma fatia de 30% do consumo. Contudo, enquanto novos padrões de consumo da bebida. E ainda, o consumo o consumo mundial de café cresceu 2,4% de 2009 para “fora de casa”, cada vez com maior participação, tende a 2010, nesses países cresce muito mais, na casa dos 3,3% puxar o consumo “dentro de casa”. Assim, precisaremos ao ano. E em muitos deles acima de 5%. mais volume e melhor qualidade dos cafés. O Brasil, maior produtor e exportador mundial de caPara o Espírito Santo, que fés, será também o maior conproduz mais de 70% do café Cosumidor, ultrapassando os Es“No momento, devemos também nilon do país, chama a atenção tados Unidos nesta década que o estudo da Olam International se inicia. A evolução do consuter foco na ocupação dos Limited sobre cenários para o mo de cafés no Brasil é, definiconsumo de café robusta. Para tivamente, um caso de sucesso. mercados onde o consumo de a Olam, em 2020 o mundo deNos últimos 20 anos, saímos verá consumir no mínimo mais de um consumo doméstico de cafés terá crescimento maior” 10,3 milhões de sacas de café apenas 8 milhões de sacas para do grupo dos robustas, poden19,3 milhões no ano passado. O do chegar a 23,1 milhões de sacas, desde sejam estabeleciconsumo de 6 kg/habitante/ano ainda coloca os brasileiros das campanhas de incentivo ao consumo. entre os maiores consumidores do produto no mundo. As oportunidades estão postas para a década! O auTambém é expressivo o crescimento do consumo nos mento do consumo nesses países em que a classe média demais países produtores de café, embora a quantidade é crescente se traduz em oportunidades para a base da caconsumida por habitante ainda seja muito baixa. No Viedeia produtiva, que são os cafeicultores. Mas isso não sigtnã, segundo maior produtor mundial, o consumo cresceu nifica que não teremos percalços ao longo dos próximos 15% de 2009 para 2010. Mas, cada vietnamita consome dez anos. É fundamental a união de todos os elos da cadeia apenas 880 gramas de café por ano. No mesmo período, produtiva dos cafés para que aproveitemos esses espaços. o consumo da Indonésia cresceu 9%. Destaque ainda para Jamais poderemos abdicar da busca e do uso constante México com 7% e Índia com 5% de ampliação no consude tecnologias que reduzam custos, aumentem a produtimo. vidade e garantam a qualidade da produção. Essas são as Considerando o dever de casa que fizemos por aqui, e a “armas”, não só para a superação de crises, que em algum liderança que tem nosso país no mercado internacional de momento virão, mas para a conquista da sustentabilidade cafés, é muito importante que apoie e colabore com estrada nossa cafeicultura, de forma a melhorar a qualidade de tégias de marketing que promovam e acelerem o aumento vida, principalmente das famílias rurais. de consumo nos países produtores e emergentes. Precisam junho 2011 - CAMPO VIVO  33


Frases

JOE VALLE, deputado distrital (PSB/ DF), em 17 de maio, na abertura da AgroBrasília

“Agricultores brasileiros foram considerados heróis no passado, e hoje são tratados como bandidos” HOMERO PEREIRA, deputado federal, da bancada ruralista, em 04 de maio, discursou favorável ao projeto do Código Florestal apresentado pelo relator Aldo Rebelo

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“Esse não é o relatório dos pequenos, é dos grandes fazendeiros” IVAN VALENTE, deputado federal (Psol), da bancada ambientalista, em 03 de maio, discursando contrário ao Código Florestal

Divulgação

“O nosso pré-sal é a agricultura”

“Colatina já tem produtores de milho e vamos apoiá-los para que a produção cresça a cada dia” JOSÉ IZIDORO RODRIGUES, secretário de Desenvolvimento Rural, em 04 de maio de 2011, falando sobre investimento do município na cultura do milho

“Será que desaprendemos a plantar mamão?” JOSÉ ROBERTO MACEDO FONTES, engenheiro agrônomo, no dia 13 de maio, durante reunião em Sooretama sobre o futuro da produção de mamão papaya no Espírito Santo, ao mostrar a diminuição da produção da fruta nos últimos anos no Estado

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Divulgação


Artigo

Wolmar Loss Engenheiro agrônomo, mestre em Economia Rural e Desenvolvimento Econômico

Investimentos e Desigualdades Regionais: O interior sob ameaça O Instituto Jones dos Santos Neves-IJSN acaba de divulgar o documento sobre os investimentos anunciados para o Espírito Santo no período 2010-2015. São R$ 98,80 bilhões, inversões auspiciosas e inigualáveis para as dimensões capixabas, destacando-se, inclusive, que não foram considerados os projetos com investimentos inferiores a R$1,00 milhão. O que mais chama a atenção no documento elaborado pelo IJSN é o baixo investimento anunciado para o interior, transmitindo a impressão de que o problema da desigualdade regional tenderá a se aguçar. De fato, considerando as regiões litorâneas, de norte a sul, 84,50% do total dos investimentos programados estão direcionados para essa faixa litorânea. Se a ela agregarmos a Região do Polo Cachoeiro, chegaremos a 97,20% dos investimentos previstos/anunciados. Na distribuição setorial, nem aparece a agricultura, admitindo-se que algum investimento programado nesse setor esteja associado, principalmente, à Cnae 15 - Fabricação de produtos alimentícios e bebidas. Não resta dúvida de que há uma forte concentração de investimentos anunciados nessas regiões referenciadas pelo documento do IJSN. E não é de agora, todos os levantamentos realizados desde 2002 apontam essa concentração, estendendo-se a partir da Grande Vitória para as faixas litorâneas Norte e Sul. A questão que se coloca, com essa disparidade sustentada de investimentos entre as regiões litorâneas e o interior, é a ampliação das desigualdades regionais, contrapondo-se à intenção do Governo de corrigir tais desigualdades. Não resta dúvida de que é um desafio enorme, eis que o crescimento e o desenvolvimento desiguais no Espírito Santo seguem um padrão histórico, cuja origem vem das políticas de transferência de renda entre o rural o urbano, desde os primórdios da colonização. Tributações e confiscos nas transações comerciais dos produtos agropecuários (açúcar, algodão madeira e, principalmente, café) confirmam essa evidência histórica. Quanto, de fato, é investido no interior e quanto da renda gerada no interior circula na própria região? Esta é uma questão crucial a responder para avaliar o dinamismo econômico interiorano e construir alternativas de

investimentos, empregos e ocupações produtivas. A título de ensaio especulativo, considerou-se um PIB da ordem de 72 bilhões para o todo o estado do Espírito Santo e que 80% desse PIB tem origem na Grande Vitória e demais regiões litorâneas. Ademais, do total do PIB agropecuário do interior, 60% tem origem na agropecuária. Considerando a taxa de Formação Bruta do Capital Fixo – FBCF de 20% ( média estadual dos últimos anos, excluído 2009), e que na agricultura essa taxa é de 15%, então teríamos um valor de investimentos da ordem de 2,60 bilhões/ano, para todo o interior. Somamse a isso os investimentos novos anunciados, da ordem de 2,70 bilhões, em 5 anos, representados pela soma de todas as regiões afora as litorâneas, Grande Vitória e a do Polo Cachoeiro, conforme documento do IJSN. Teríamos, tudo somado, condições de investimentos no interior, endógenos e anunciados, da ordem de 15,70 bilhões, em 5(cinco) anos – 2010/2015. Isto poderá ser um pouco mais alavancado com o crédito rural de investimentos, mas não fugiria muito desses grandes números. Mesmo porque, o crédito antecipa investimento, segundo a capacidade de pagamento, cujo custo é o juro do empréstimo. Seguindo o mesmo critério de cálculo, pode-se comparar com os investimentos anunciados e autônomos da ordem de 153 bilhões nos mesmos cinco anos para as regiões mais dinâmicas, ou seja, uma relação de 1:10, entre interior e essa regiões com maior atratividade de capital. Esta é uma razão desigual, cujo esforço público deve ser imenso para amenizar essas disparidades. No volume de dinheiro, perderemos sempre, e as desigualdades se ampliam. Temos que formular estratégias de disputar na qualidade do investimento, distribuído para milhares de produtores rurais e pequenos empresários do interior. Temos mais: fazer com que a renda gerada circule no interior, em cada município, vila e povoado. Para isto, não vejo outra saída senão recorrer às estratégias de desenvolvimento local, focar a qualificação das organizações, do capital humano e na agregação de valor aos produtos regionais/municipais. Por fim, assegurar mobilidade e serviços públicos de qualidade em educação, saúde, assistência técnica e extensão rural.

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Receita

O

ciclo das festas juninas começa em todo país em meados do mês de junho, quando se festejam quatro santos muito conhecidos no Brasil: Santo Antônio, no dia 13; São João, dia 24; e São Pedro e São Paulo, no dia 29 de junho. Segundo historiadores, nos países europeus católicos, a festa era inicialmente chamada de “joanina” (em homenagem a São João). Trazida pelos portugueses para o Brasil, virou festa “junina” e passou a

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Canjica e pé de moleque fazer parte dos costumes locais, com a introdução de alimentos, como o aipim e o milho, e também os cantos e danças. Mas não foi somente a influência portuguesa que caracterizou as comemorações. A quadrilha, por exemplo, foi uma adaptação de uma dança da nobreza européia (quadrille), muito presente nos salões franceses do século 18. As Festas Juninas são um dos eventos mais consagrados no território brasileiro. As ruas, praças e escolas de muitas cidades

Período de festas juninas movimenta comunidades que mantém tradição com comidas típicas

são decoradas com bandeirinhas coloridas. No Espírito Santo, a tradição é celebrada em localidades de várias regiões do Estado. Nas festividades, as barracas montadas ao ar livre servem comidas e bebidas típicas que dão o toque especial nas festas. A canjica e a pamonha são receitas tradicionais da festa na região, devido à época ser propícia para colheita do milho. E é no ritmo das festas juninas que ensinamos as receitas típicas: canjica e pé de moleque com leite condensado.


Pé de moleque INGREDIENTES: - 500g amendoim torrado e sem casca - 1 xícara (chá) de açúcar - 1 lata leite condensado

INGREDIENTES: - 2 xícaras (chá) de milho para canjica - 1 litro de água - Casca de limão - 1 litro de leite - 1 lata de leite condensado - 1 pauzinho de canela - Opcional: Amendoim, Coco ralado

Canjica

MODO DE PREPARO: Deixe a canjica de molho na água de um dia para o outro. A seguir, coloque na panela de pressão e acrescente a canela e a casca de limão. Cozinhe até amolecer o milho. Retire da pressão e coloque em uma panela. Adicione o leite quente e cozinhe em fogo baixo por 25 a 30 minutos. Junte o leite condensado, mexa e desligue.

Dica: Sirva com amendoim triturado e coco ralado.

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MODO DE PREPARO: Em uma panela acrescente todos os ingredientes, mexa até começar a desgrudar do fundo da panela, despeje em uma assadeira untada com margarina sem sal, quando começar a esfriar corte em quadradinhos, depois de frio pode desenformar.


Crônica

Antonio Bezerra Neto Secretário de Cultura de Linhares bezerrapoesia@gmail.com

As muitas messes do café O café tem seu fetiche, talvez seja a bebida mais Capixaba de Pesquisa e Extensão Rural (Incaper) foi presente no cotidiano da modernidade. Uma confis- a grande divisa, embora sem formação agronômica; são já nestas primeiras linhas: tomo café desde mo- a propósito, digo-vos que o Estado do Espírito Santo leque, não obstante ter nascido no semiárido onde é caprichou em sua política de melhoramento dos cafés. impraticável produzir a estimulante bebida. Ouvia do Hoje, bebem-se excepcionais cafés pelas muitas geodono da torrefação de minha cidade, em pleno Seri- grafias capixabas. dó: “Esse café veio da cidade de Guaçuí, no Estado A cultura cafeeira já tem longa duração em nosso do Espírito Santo”. Passava horas ouvindo relatos do meio. A historiografia é serena em afirmar que a culmotorista vindo das terras cafeeiras dos guaçuienses. tura dos cafezais capixabas iniciou-se sob a expansão Idealizava os pés de café; imaginava-os intensamente da província do Rio de Janeiro, na primeira metade do verdes cercados de camponeses em lúdicas colheitas, século 19. Na realidade, o café chegou a solos espíritocobertos pelas névoas outonais. Inesantenses pelo sul e com o transcorrer gavelmente a imaginação é a única dos anos a cultura foi se firmando condição que o homem tem para como alento econômico para o Esespairecer. tado, e logo, para o País. O café influenciou enormemenNaquela ocasião, o café, aponte os intelectuais, de maneira espetava benefícios comparativos, cial aqueles que viveram a chamaconquistando, progressivamente, da Belle Èpoque, em Paris e outras campos antes tomados por canacapitais europeias. É interessante de-açúcar. E fica um dado de ordem ressaltar que a Paris de agora foi estrutural: toda a estrutura produtigestada a partir da criação de eleva canavieira terminou sendo regantes cafés. Honoré de Balzac produzida nos cafezais: monocul(1799—1850), prolífico escritor tura e regime escravocrata. É justo francês, deixou escrito numa das dizer que a atividade cafeicultora tabernas parisienses que o café é a não se traduziu nesse início em um bebida que desliza para o estômanovo padrão de desenvolvimento go e põe tudo em movimento. econômico, mas em uma substiJá ouvi de um irrequieto tomatuição interna no modelo primário O lavrador de café - Portinari dor de café que é mais fácil trocar exportador canavieiro. de religião do que de café. O café já teve seu estigO alargamento da cafeicultura foi rápido: já em ma ideológico quando de um pronunciamento de Che 1850 era evidente o valor da cultura no universo capiGuevara, em Havana. Disse o carismático líder re- xaba. Com o curso dos anos, foram surgindo estradas, volucionário: “Se não há café para todos, não have- navegação, ferrovias, aumento da movimentação do rá para ninguém”. Che proferiu essa sentença quando Porto de Vitória, que terminaram por ensejar o pronos primeiros racionamentos da bebida, em Cuba. Na gresso do Espírito Santo. verdade, o século 20 foi gradativamente se impregInteressante é que o café continua nutrindo o denando de cafés. senvolvimento das terras atualmente governadas por Pois bem, com o tempo fui nutrindo curiosidades Renato Casagrande. A colheita que corre por quase as mais claras sobre o universo do café desde o plantio todo o Estado é um prova inconteste da força da culaté a colheita. E fica um reconhecimento: O Instituto tura cafeeira. 38  CAMPO VIVO - junho 2011


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Revista Campo Vivo - Edição 10